A Industria do Cinema no Brasil

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Autoria: Aparecida Martins

O Cinema no Brasil

1 – Tentativa de Implantação de Industria Cinematográfica no Brasil

O cinema brasileiro é marcado pelo declínio, pelo sucesso, pelo deslumbre capitalístico e pela falta de recursos. Contrastes que fazem do mesmo cinema um grande processo de estudo já que as histórias existentes entre as produtoras são inúmeras e de grande valor para a construção social do indivíduo brasileiro.

Entre as inúmeras produtoras, destaca-se a Atlântida no Rio de Janeiro, fundada em 18/09/1941 com o objetivo de promover o desenvolvimento do cinema brasileiro a partir da união entre o cinema popular e o nível artístico. Porém sua trajetória iníciou-se com as produções de cinejornais e o seu declínio pelas produções das chanchadas brasileiras. Outros focam a Companhia Cinematográfica Vera Cruz em São Paulo, fundada em 03/11/1949 resultante de uma grande empreitada do cinema brasileiro reunindo afortunados da elite paulistana que desejavam implantar uma produtora para a elite contendo um padrão totalmente hollywoodiano, mas que fracassou devido ao altíssimo investimento na própria produção e que pecou no investimento de distribuição. A Maristela que foi uma pequena produtora fundada em 1950, também em São Paulo, provavelmente uma seqüência do boom praticado pela Vera Cruz. E por último temos a PAM – Produções Amacio Mazzaropi- uma pequeníssima produtora em relação às outras três primeiras, que deteve de poucos recursos nas produções. Nascida dos traços regionais de Amacio Mazzaropi, a PAM devido a evidencias só não teve continuidade devido à morte de seu maior acionista, o Mazzaropi.

Cada uma destas produtoras teve suas distintas características de atuação sobre as produções. Uma valorizava os filmes de receita extensa; outros documentários e filmes populares e, ainda, outra se dedicou a filmes baratos, regionais e originais.

Dentro do contexto social as produções foram abusadas e inteligentes, já que iniciaram suas atividades junto com a II Guerra Mundial, sendo que a mesma não contribuiu negativamente, mas sim criativamente, pois deu idéias de produções que satirizavam ou contavam histórias da visão brasileira sobre o acontecimento.

1.1 – Rio de Janeiro e a Atlântida

Até os primeiros anos da década de 1940 o cinema brasileiro era constituído por produções cinematográficas pequenas. A infra-estrutura até então era regional e pequena para a produção de grandes filmes.

A partir de 1943 este quadro mudaria pois dois anos antes, em 18/09/1941 era inaugurada a Atlântida Cinematográfica. Sua trajetória, liderada de início, pelos fundadores Moacir Fenelon e José Carlos Burle seria marcada pelo objetivo de promover o desenvolvimento industrial do cinema brasileiro, o que proporcionaria a mudança do quadro cinematográfico no Brasil.

Os contribuidores adicionados por cinema e que trabalhavam na Atlântida como Alinor Azevedo, Edgar Brasil e Arnaldo Farias fizeram da produtora a mais importância da época em relação à produção cinematográfica.

Com o início de suas atividades o que predominava eram os cinejornais. Após essa experiência a Atlântida dedicara-se a documentários-reportagens que retratavam o cotidiano da sociedade carioca.

Seus primeiros filmes ficcionais iniciaram em 1943 tendo temas brasileiros com nível artístico e com um relativo cuidado em relação às faturas dos trabalhos produzidos. Tendo artistas de nome como, Grande Otelo, Oscarito, Mesquitinha, Ankito, Zezé Trindade, Dercy Gonçalves entre outros, a Atlântida consolidou-se a maior produtora de filmes no Brasil no período de 1943 a 1947 tendo produzido 12 filmes, entre eles Gente Honesta e Tristezas não pagam dívidas.

Com a direção assumida em 1945, por Watson Macedo, em pleno início da II Guerra Mundial, a produtora dedicou-se a produção de novos filmes com uma temática de paródias, comédias que dariam início ao que seria a produção de maior importância para a própria produtora, as chanchadas. Estas últimas não teriam uma aceitação positiva junto aos críticos de cinema e à elite capitalista, alegando a falta de conteúdo destas produções. Seu caráter crítico só seria descoberto 25 anos mais tarde, na década de 70.

Até então, a penetração dos filmes junto ao grande público era deficitária. Mas com a chegada de Luiz Severiano Jr., dono de uma rede de distribuição e com o cargo de acionista majoritário em 1947, monta-se um esquema muito moderno para a época tendo em suas mãos a produção, a distribuição e a exibição dos filmes que tendenciavam para o mercado interno. Desta forma, os filmes comédias iniciados por Watson estariam consolidados com Severiano através da chanchada brasileira, caracterizando a própria Atlântida como a produtora de chanchadas e que conseqüentemente ao seu clímax de produções, atravessa a década de 50 produzindo chanchadas sendo que a crítica detestava estes filmes e estudiosos repugnavam-as. Durante este período a vida nacional fora sacudida por episódio políticos dramático como golpe comunista, golpe integralista, golpe de Getúlio Vargas para se tonar presidente do Brasil e golpe contra Getúlio que o derruba. Desta primeira fase da companhia existem somente alguns filmes para concretizar a sua história, pois um grande incêndio queimou a maior parte dos longas metragens.

Apesar da dedicação intensa sobre estes temas, de 1950 a 1952 a Atlântida acaba tachada pela produção das comédias musicais como Luz dos Meus Olhos, A Sombra da Outra, Aviso aos Navegantes, Aí vem o Barão e até mesmo, rompendo com as chanchadas foi canalizado o filme dramático, Amei um Bicheiro, tendo Grande Otelo no Elenco. Este último marca o principio de uma nova fase da produtora. Em 1953, Carlos Manga é promovido a diretor e conhecendo muito bem o esquema da produtora, assume a direção de filmes identificados com o cinema norte-americano.

Até 1954 são produzidos vários filmes durante um único ano. Mas entre 1955 e 1959, as produções caem devido à falta de recursos. Neste tempo, Oscarito já não trabalha com Grande Otelo e Carlos Manga ainda é o principal diretor da produtora. Em 1962 é produzido seu último filme, Os Apavorados. A produtora encerra suas atividades com a produção de 66 filmes, sendo marcada pela II Guerra Mundial e pelo Golpe Militar de 64. De 1941 a 1962, a Atlântida deteve os principais atores da época e durante seus primeiros 8 anos de vida, foi a principal produtora de filmes, dada a inexistência de outras no mercado nacional.

Doze anos depois, Carlos Manga realiza Assim era a Atlântida, sendo uma coletânea de trechos dos principais filmes produzidos, fechando de vez o ciclo de suas produções.

1.2 – São Paulo e a Vera Cruz

A mais ambiciosa investida industrial do cinema brasileiro nesta época foi à criação liderada pelos industriais da colônia italiana Franco Zampari e Francisco Matarazzo Sobrinho. Os grandes empresários, cansados da realidade carioca em predominar as chanchadas em suas produções, ambicionaram a criação de uma Hollywood brasileira na tentativa de trazer para o Brasil filmes que possuíssem conteúdo.

Em 03/11/1949 é fundada então a Companhia Vera Cruz, renegando a chanchada e valorizando as enormes e muito bem faturadas produções que necessitavam de bastante dinheiro para serem realizadas. Seus idealistas acreditavam que a necessidade de uma grande produtora brasileira era associada com gastos enormes, desde a contratação de estrangeiros para a técnica – foram chamados italianos e ingleses para esta função -, e sua direção – Alberto Cavalcanti, um patrício que se ilustrara no cinema francês e inglês.

Estimulados pelo reerguimento do cinema internacional, após a II Guerra Mundial e com o crescimento industrial em São Paulo e sua revitalização cultural, os fundadores da Vera Cruz almejavam um sistema de produção semelhante ao de Hollywood, com equipamentos importados e grande esquema publicitário. O seu bom acabamento e a fatura clássica dos filmes desta produtora, trouxeram para o Brasil os primeiros grandes prêmios internacionais. O cangaceiro, em 1953, de Lima Barreto, trouxe o prêmio de cinema internacional de aventura no Festival de Cannes, e Sinhá Moça, em 1953, de Tom Payne, trouxe o Leão de Bronze de Veneza.

A idéia de se construir uma Cia Cinematográfica com os moldes da Vera Cruz partiu sobre tudo da burguesia e da intelectualidade dos paulistas. Os clubes de cinema e as revistas que tratavam do assunto despertaram o interesse de Ciccilo Matarazzo, Franco Zampari e todo um grupo de pessoas que haviam participado da criação do Museu de Arte Moderna e do Teatro Brasileiro de Comédia, os quais discutiam animadamente sobre a organização de uma companhia produtora de filmes.

A primeira fase da Vera Cruz que conta com a direção de Alberto Cavalcanti teve como principais produções, Caiçara e Painel que com seu grande sucesso inspiraram os projetos que estariam por vir. Esta fase também levou a Companhia a fazer seu primeiro balanço e constatar que com os custos elevadíssimos das produções Tico-Tico no Fubá, Sai da Frente e Ângela, seria necessário um empréstimo, solicitado ao Banco do Estado e demonstrando a falta de administração e planejamento do capital aplicado em seu início de atividade.

Embora suas produções fizessem um grande sucesso junto ao público e a crítica especializada, a Companhia Vera Cruz sempre trabalhou com recursos financeiros escassos. Outra dificuldade era a lentidão da comercialização dos filmes e o desinteresse das distribuidoras norte-americanas, ou melhor a Columbia Tristar em patrocinar a produção nacional.

Esta companhia vislumbrava a possibilidade de um cinema verdadeiro distanciado da indigência em que se havia transformado o cinema brasileiro visto do Rio de Janeiro, mais precisamente, produzido pela Atlântida. A Vera Cruz ambicionava realizar filmes de classe e em muito maior número, tornando-se uma verdadeira produtora da expressão cultural. Porém, mesmo com passagem de grandes técnicos e diretores por sua história, assim como grandes artistas como o Mazzaropi, a Vera Cruz não conseguiu completar seu objetivo. Até que alguns de seus filmes, sendo sucesso nacional e internacional cumpriram em parte aquilo que a mesma almejava, mas de qualquer forma, não fora uma passagem marcada pelas produções em alto escala e com grande conteúdo, mas sim, pela ambição de seus maiores acionistas acreditando que a união de grandes “entendidos” do cinema transformariam São Bernardo do Campo-SP, onde se instalava a produtora, em um pólo da indústria do cinema.

Os noticiários dos jornais da época, 1953, começavam a denunciar os problemas de produção e comercialização que a própria companhia enfrentava. Ou seja, empréstimos bancários, altos custos, desorganização da produção, dificuldade de colocação dos filmes no mercado exterior foram alguns ápices que levaram a companhia a se desestabilizar e culminar em sua paralisação de atividades.

Mesmo ignorando o que o mercado afirmava com sua “assessoria” informando que a empresa caminhava de “vento em popa”, com um brilhante futuro, cumprindo um período certo de 4 anos, a Companhia Vera Cruz, surpreendeu a todos encerrando suas atividades em novembro de 1953, acabando com o sonho de um empreendimento de padrão internacional dar certo em um terreno nacional. De certa forma e sutil expressão, a presença de técnicos internacionais proporcionou a melhoria técnica na fotografia cinematográfica, na montagem, na cenografia, no som e em outros processos de concretização das produções.

A quem diga que seu desabamento foi provocado pela falta de administração, outros afirmam que a ambição de seguir padrões internacionais (Hollywood), levou a Cia a ter caráter artificial ao tratar da realidade brasileira, conduzindo um cinema que não era para os brasileiros.

Com certeza a Vera Cruz foi um grande marco na história das produtoras de cinema brasileiro. Seja pela idealização, pelo objetivo, pelas produções, a produtora trouxe uma nova característica ao mercado de cinema nacional e que proporcionou o surgimento de outras produtoras. A Vera Cruz teve 18 filmes produzidos, entre melodramas (Caiçara-1950, Floradas na Serra-1954), comédias (Nadando em dinheiro-1952 com Mazzaropi, Uma pulga na balança- 1953) e a super produção (Tico-Tico no Fubá-1952 que fora a biografia do compositor Zequinha de Abreu) trouxeram ao Brasil, não só os padrões internacionais de produção,mas prêmios de reconhecimento sobre a produção cinematográfica brasileira.

1.2.1 – Maristela e sua Nova Visão

Os ares cinematográficos no Brasil estavam indo de vento em popa no início da década de 1950. Existiam produtoras nas duas principais cidades brasileiras; a Atlântida no Rio de Janeiro em seu cume de atividades e a Vera Cruz em São Paulo, o enorme projeto burguês que iniciava suas produções. Mas apesar da existência destas produtoras, outros caminhos paralelos foram almejados por novos empresários e de forma processual, nova produtoras foram surgindo, aumentando o conglomerado de produções cinematográficas.

A mais importante em São Paulo logicamente atrás da Vera Cruz fora a Maristela, uma produtora que procurou seguir um caminho paralelo ao da “grandiosa empreitada” em relação à sua temática direcionada para o neo-realismo, mas que teve o diretor Alberto Cavalcanti como atuante e um elenco estrangeiro na técnica, copiando os traços da grandiosa.

Sem cerimônias a Maristela iniciou suas atividades em 1950. Sua idéia inicial veio de Mário Audrá Jr., pertencente a uma rica família da sociedade paulista com o intuito de produzir no Brasil, um cinema de boa qualidade, porém com simplicidade a exemplo do cinema neo-realista, dando-se prioridade às filmagens em ambientes naturais, com a mínima utilização de estúdios e evitando-se a criação de grandes parques industriais. O mesmo unido a Ruggero Jacobbi iniciou a Maristela no mercado produzindo espetáculos teatrais, enquanto que sua 1ª produção estaria sendo projetada para mais tarde. Seria Presença de Anita, uma adaptação do livro de Mário Donato.

A Maristela possui três fases. A 1ª marcada pela reunião de idéias neo-realistas de seu fundador e pela reunião de capital para a produção dos filmes, tendo como acionistas, além de Mário e Ruggero, Carlos Alberto Porto e Mário Civelli. O rumo tomado pela companhia, nesta fase fora se desvirtuando de seu ideal. Civelli queria seguir os passos da santuosidade da Vera Cruz, o que levaria a Maristela para o insucesso. Seu objetivo era que a produtora obtivesse uma projeção social rápida. Assim, foram construídos modernos estúdios no bairro paulista do Jaçanã, com 40 mil metros quadrados e a contratação de um quadro fixo de 150 funcionários. A modesta companhia fora transformada na Cinematográfica Maristela, que virou ponto de encontro da sociedade, passando entre artistas Antonieta Morineau, Hélio Souto, Orlando Villar, Vera Nunes e Procópio Ferreira, além da internacional Silvana Mangano.

Mario Audrá havia perdido as rédeas de seu próprio empreendimento, recuperando as mesmas somente depois do fracasso destas idealizações, pois os 5 filmes que foram produzidos, não obtiveram um retorno compensador levando a demissão de centenas de funcionários. Recolocando os pés na administração, e deixando de lado as influências como a de Civelli. Iniciava então a 2ª fase que fora mais simples mas que carregava o déficit da primeira. Fora produzido somente um filme, Simão, o Caolho de Alberto Cavalcanti que largara a Vera Cruz e viera para a Maristela. Mas a família Audrá resolvera vender a Maristela já que vinha alugando seus estúdios na tentativa de pagar as dívidas. Vendera para a Kino filmes, companhia de Alberto Cavalcanti que estava nascendo, mas a mesma não consegui pagar as dívidas e teve que devolver os equipamentos e estúdios para Mário Audrá.

Esse retorno marcou o início da 3ª fase da companhia. Em 1954, Mário Audrá conseguiu finalmente administrar a Companhia sem interferência familiar ou de terceiros. Entre 1954 e 1956, a Maristela produziu 7 filmes, entre eles Mão Sangrenta, Quem Matou Anabela, Getúlio Glória e Drama de um povo. Construindo uma aliança junto à distribuidora Columbia, a distribuição dos filmes foi positiva e o entendimento da produtora com a distribuidora resultou nas co-produções Casei-me com Xavante e Vou te Contá.

Mas as dívidas ainda eram existentes e na tentativa de continuar produzindo e pagando as contas, os equipamentos foram sendo alugados. Mário Audrá teve seu último trabalho participando da produção do filme O grande Momento.

A Maristela fora uma produtora que percorreu um caminho turbulento mas extenso junto aos acontecimentos do cinema no Brasil. O seu início teve ideal neo-realista italiano e seu final também. O prejuízo desta companhia fora bem menos que o da Vera Cruz, já que Audrá vendeu os valorizados terrenos no Jaçanã e aproveitou os equipamentos de som para montar uma empresa de dublagem.

De qualquer forma, a companhia marcou sua existência e produziu filmes com uma nova corrente de pensamento, sem deslumbre, dinheiro. Apenas com o intuito de produzir filmes simples para a sociedade brasileira.

1.3 – PAM – Produções Amácio Mazzaropi

Cansado de trabalhar como contratado, Mazzaropi idealizava uma produtora só sua em que seria empregado um gênero cinematográfico que agradaria não uma parcela da sociedade, mas a massa em si. Depois de atuar durante 5 anos entre produtoras como a Vera Cruz, a Cineditri e a Cine Filmes, em 1958, após a venda de bens, e de muita energia para reunir um capital empreendedor, Amácio Mazzaropi a sua produtora, PAM-Produções Amácio Mazzaropi. Era a realização de um sonho tanto de ter a possibilidade de impor nssuas próprias idéias nos filmes, como de deixar de ser empregado. Em seus filmes, atuando, direcionando e produzindo, o “jeca” não se importava em distribuí-los também. O que era mais caro, ou seja, a reprodução das películas Mazzaropi fazia com a maior animação e tudo isso pelo Cinema.

A PAM foi um empreendimento marcado pela simplicidade, pela honestidade e pelo paradigma de seu fundador que era fazer cinema para os brasileiros. Sua trajetória marcada pela falta de recursos para grandes produções e por conter um elenco sempre igual com locações sempre na mesma região fizeram com que a produtora tivesse um conteúdo original. Mazzaropi anos depois da criação da PAM deixou de ter os estúdios da Vera Cruz como locação de seus filmes, pois teria como empréstimo uma Fazenda em Taubaté que mais tarde passaria a ser sua propriedade sendo o lugar a desenvolver todos os filmes posteriores. Fazendo um filme por ano, a produtora os lançava todo 25 de janeiro no cine Art- Palácio, onde o dono era amigo de Mazzaropi e o apoiara no início das atividades da PAM.

Não existe possibilidade de falar sobre a PAM sem falar em seu produtor, pois uma só existiu enquanto o outro fora vivo. Com o intuito de produzir, dirigir e distribuir seus filmes dentro dos seus parâmetros, Mazzaropi tem o primeiro filme formado em 1958, Chofer de Praça, no qual empregou todas as suas economias. Sem dinheiro para a distribuição, o mesmo teve que sair pelo interior de São Paulo para arrecadar dinheiro e poder fazer cópias do filme que obteve muito sucesso.

Quase todos os seus filmes tinha como “pano de fundo” uma fazenda em Taubaté, primeiro sendo emprestada e posteriormente pertencendo à produtora, onde monta seus estúdios. É é neste lugar que a PAM irá atravessar seu período mais fértil, com a produção de seus melhores filmes, como Tristeza do Jeca – 1961 e Meu Japão Brasileiro – 1964. Mazzaropi passará a ser ícone para o Cinema Brasileiro bem como a sua produtora. O primeiro pela força de vontade, carisma e coragem de passar por cima de críticos que o “detonavam” toda vez que era lançado mais um filme. A segunda por provar que cinema não precisa de muitos recursos para ser feito, não é a quantidade que prova a qualidade, pois a PAM superou grandes empreendimentos em termos capitais como Vera Cruz, Atlântida pois produziu muito mais filmes e com muito mais telespectadores e que até hoje perduram pelas Tv´s no Brasil.

No início dos anos 70, novos estúdios são adquiridos que seriam palco das 23 produções que a PAM produz por completo, pois sua 24ª , Jeca e Maria Tromba Homem iniciou suas montagens, mas Amácio Mazzaropi morreu em seu início, em 13 de junho de 1981, vítima de câncer de medula. Com o tipo “Jeca”, a produtora leva até os brasileiros o jeito simples de fazer cinema. A maior parte de seus filmes teve um caipira de fala arrastada, tímido mas cheio de malícia.

A PAM fora respeitada e é respeitada até hoje devido ao seu produtor. Homem respeitado, desconfiado sendo um grande empresário e comediante, Mazzaropi conduziu a produtora a ser destaque no cinema brasileiro e a ter penetrado sua história até os dias de hoje. Com originalidade e sem grandes recursos financeiros é a produtora que venceu em termos de produções todas as companhias cinematográficas antes dela, existentes.

A PAM foi uma produtora de grande sucesso de crítica e de distribuição, alcançado todos os “brasileiros de plantão” ligados no cinema feitos para brasileiros. Seu término só aconteceu devido à morte de seu idealizador. Os herdeiros de Mazzaropi não deram continuidade ao seu trabalho, vendendo a “fazenda-estúdio” para empresários e trantando somente da revenda dos direitos cinematográficos dos filmes. Deve-se ressaltar que com certeza a PAM estaria ainda em atividade se o mesmo estivesse vivo, pois suas obras foram e são copiadas, mas nunca foram superadas por nenhuma companhia cinematográfica.

3 – Conclusão

Qual foi o problema de nossas produtoras que não conseguiram perdurar por mais de 20 anos? Uns possuíam grandes técnicos e aficionados por cinema; outra detinha os temas do Brasil de carnaval; outra tinha dinheiro mas não soube administrá-lo; uma outra surgiu com um pensamento novo e com um intuito de fazer um cinema atual; mas somente a que não tinha dinheiro, nem técnico especializados e muito menos uma temática nova, frente ao mercado externo pode contabilizar quase 24 produções em seu currículo, colocando no mercado um número várias vezes acima do que produtoras endinheiradas e fortes para a sua época alcançaram.

Realmente, a história das produtoras do cinema brasileiro é marcada pelo contraste, pois enquanto umas possuíam muito, outras não possuíam nada. Isso pode ser decorrente de seus acionistas. A produção de cinema é muito onerosa e remete a uma união de pessoas com um grande capital a investir. O problema acontece é que quando este capital é reunido, a falta de administração e a ansiedade por grandes produções e o sucesso da companhia cinematográfica impede que um grande cinema surja e que uma película seja vista e entendida por vários receptores.

Tendo em vista um mercado grandioso na década de 40, já que não existiam centros de produções e os cinemas eram dispersos, o investimento poderia ter sido contabilizado de uma maneira racional e menos social. O que se queria era produzir além de uma indústria cinematográfica, uma sociedade cinematográfica. O que importava não era a cultura aplicada nas produções, mas a repercussão que estas dariam às suas produtoras em termos de capital.

O problema principal de produtoras como Atlântida, Vera Cruz e Maristela não conseguirem atravessar décadas deve ter sido a falta de adaptabilidade ao que a Cultura Brasileira necessitava e ao que cativava os indivíduos brasileiros. Fora uma indústria concentrada na ambição do mercado exterior esquecendo do mercado interno, introduzindo entre os receptores de película um cinema mastigado, crítico e principalmente entediante para a massa. Somente alguns conseguiam entender as mensagens passadas e estes eram os críticos de cinema. Quem teve a coragem de se lembrar do mercado interno foi a PAM que pode capitalizar um grande emaranhado de receptores, já que produzia filmes para eles mesmos sem qualquer tipo de linguagem e signos dificeis do entendimento. Pode-se descrever a PAM como a comoanhia cinematográfica do povo que fazia filmes para estes e alcançava o entendimento de todos. Essa ideologia levou a única produtora brasileira a produzir na época quase 24 filmes. Esta última produziu filmes para o Brasil, sem se importar com os rendimentos, mas principalmente com o entendimento das histórias contidas neles. Logicamente que a necessidade de capital para as produções e investimentos em equipamentos e atores era real, porém era levada como uma conseqüência. Pode ser esta a razão que levou a PAM a vencer o mercado e só deixar de produzir devido à morte de seu maior acionista. As outras produtoras esqueceram de pensar no que os brasileiros queriam ver, e foram superada por uma simples idéia de levar para o Brasil, o Brasil através das telas.

A crítica cinematográfica da época não aceitava os filmes da PAM e durante sua existência, nos jornais, os artigos impressos eram de negação a este tipo de cinema. Mazzaropi como produtor e diretor não se importava, tinha em mente que posteriormente os filmes seriam aceitos pelos críticos e que a qualidade deles seria reconhecida. E foi isso realmente que aconteceu. Grandes críticos como Paulo Emílio puderam afirmar que Mazzaropi soube ser diretor, ator, produtor e distribuidor como ninguém e que foi um marco no cinema por ter feito tudo isso sem qualquer tipo de apoio do Instituto de Apoio ao Cinema.

Hoje, o cinema brasileiro possui outra linguagem. Ele é critico, possui mensagens que necessitam de conhecimento para serem entendidas. Mas hoje a população está um pouco modificada e os críticos também. Pode ser que se hoje, os filmes que eram produzidos pela Vera Cruz, pela Maristela não seriam repugnados como foram. Pode ser que estas produtoras teriam um pouco mais de sucesso do que tiveram durante suas existencias entre as décadas de 50 e 60. Mas podemos afirmar que a PAM não precisou perdurar até hoje para continuar a existir. Com certeza, quando se fala em história do cinema brasileiro, depois dos clássicos, dos empreendimentos desastrosos, vem em mente a fantástica história da PAM.

A conclusão que se chega aqui não é devido ao roteiro documental desenvolvido sobre a vida de Mazzaropi. Com certeza, a vida dele inflênciou na definição do tema de pesquisa, mas não foi predominante para se entender que os filmes da PAM atravessaram obstáculos que os filmes das outras produtoras não conseguiram, a aprovação do público. A pesquisa foi totalmente inerente ao que se queria provar. Como o documentário, a pesquisa foi imparcial, mas os dados por si mesmos provaram a positividade da produtora de Mazzaropi.

A pesquisa não teve sérias dificuldades em encontrar dados sobre as companhias como Atlântida, Vera Cruz e Maristela, mas em relação a PAM, o trabalho foi triplicado. Não existem informações sobre a produtora e quando existem elas sempre estão ligadas a Mazzaropi. Por isso fora afirmado na própria pesquisa sobre a ineficácia de se falar em Produções Amácio Mazzaropi sem falar do cidadão Amácio Mazzaropi. Foi negativamente aceito a falta de informações sobre a PAM. Em busca de tantos críticos e autores renomados no mercado sobre cinema nacional, o que pode ser encontrado é o que temos declarado na pesquisa e essa limitação é contraditória ao que a própria produtora representou para a história do cinema nacional.

De acordo com as definições de tantos entendidos do cinema aqui pesquisados como Jean-Claude Bernadet, Paulo Emílio e Fernão Ramos, o que se entende por indústria cinematográfica são as produtoras existentes a introduzir no mercado filmes a serem exibidos. E o Brasil vive a tentar implantar uma indústria cinematográfica. Desde de 1995, as produções sofreram reformulações positivas quanto à qualidade das películas. Hoje, 2002, temos filmes brasileiros nas redes nacionais de cinemas. Mas são totalmente diferentes da ideologia passadas pelas companhias cinematográficas aqui pesquisadas.

Pode-se afirmar que naquela época, o Brasil, ou melhor a elite brasileira concentrada nos pólos industriais, São Paulo e Rio de Janeiro, desejavam um cinema nacional equiparado com a indústria hollywodiana e mesmo tentando implantar este sistema, sofreu a repugnância do público apesar de ser elogiado pelos críticos. E estes mesmos críticos hoje, elogiam a única produtora que não quis ser modelo ou ser fruto de um paradigma internacional.

Assim como todos os campos de atuação profissional, intelectual, científico sofrem transformações, as opiniões sobre estes campos também se transformam. Hoje fora concluído uma pesquisa sobre as principais produtoras cinematográficas durante as décadas de 40, 50, 60 e 70. E nesta mesma pesquisa chegou-se a conclusão de que qualidade de cinema está indiretamente proporcional à quantidade de dinheiro aplicado. O que prevalece é a idéia. De qualquer forma, esta conclusão pode sofrer mutações daqui dois meses, dois anos, duas décadas e pode ser até conflitante com as conclusões a surgirem.

Mas por hoje, podemos concluir que em termos de luta pelo cinema nacional, pela sua implantação e divulgação, assim como pelo seu entendimento o destaque fica para as Produções Amacio Mazzaropi. Pela época, Mazzaropi não só tentou, mas conseguiu implantar uma indústria cinematográfica. Ele por si só colocou em atuação 23 filmes por completo em quase 24 anos de existência. É exemplo a ser seguido por quem hoje exerce o trabalho produzir filmes.

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