A RELAÇÃO FUTEBOL X QUESTÕES DE ORDEM SOCIAIS?

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A Relação Futebol x Questões de Ordem Sociais?

Introdução

O futebol como um fenômeno contemporâneo, é passível de inúmeras formas de abordagem. Decorrente disto verifica-se a existência de fóruns específicos com o intuito de discutir sobre a sua interveniência econômica, administrativa, burocrática, enfim todas as variantes que envolvem e/ou permeiam a realização de um espetáculo esportivo. Existem, portanto, questões suscitadas por ele e que só a ele interessa, permanecendo restritas ao contexto do qual são tributárias. Entretanto, grande parte das questões que envolvem o esporte/futebol, não ficam restritas há um público específico, pois o futebol só pode ser abordado na sua complexidade se o compreendermos como um fenômeno social e historicamente produzido.

Ao observar historicamente o futebol, é possível perceber que ele não cria fatos novos, apenas permite a veiculação de questões mais gerais, inicialmente forjadas em outras esferas da vida social. Assim, ao invés de repetir velhos chavões como: “Charles Muller é o pai do futebol no Brasil”, ou, o “Futebol é o ópio do povo”. Os estudos sobre esta temática, evoluíram de tal maneira que se torna fundamental realizar uma reflexão epistemológica sobre estes “Discursos Fundadores”, ou seja, é necessário perceber como estes discursos são criados e porque eles se cristalizam na memória coletiva, adentrando nos estudos acadêmicos que acabam reproduzindo estes pensamentos, na maioria das vezes expressos dentro de uma visão positivista e funcionalista, tornando-se verdades quase inquestionáveis que subsidiam a explicação simplista de acontecimentos que apresentam um alto grau de complexidade.

Partindo destes apontamentos, este trabalho procura levantar e discutir algumas questões teóricas e metodológicas que surgem das relações entre História, Futebol e Sociedade. Algo que só se tornou possível diante dos novos questionamentos presentes na História – quanto a utilização do quantitativo como referência fundamental; o abandono dos recortes geográficos e temáticos “clássicos”; a nova abordagem sobre conceitos como cultura popular; mentalidades, classes sociais e principalmente a desconfiança nos modelos interpretativos como o estruturalismo e o marxismo – obrigando o historiador a buscar novos caminhos.

Um desses novos caminhos que se abre, é a Nova História Cultural. A qual segundo Burke, propiciou uma transformação significativa na forma de se trabalhar com os objetos históricos, possibilitando que se incorporasse a vida cotidiana como objeto de análise. Diante deste cenário que se abre, entende-se que o historiador que busca estudar o futebol como um elemento sócio-cultural terá esforçar-se para superar duas das dificuldades mais comuns, encontradas nos estudos culturais: 1) sair das prisões interpretativas dos contextos econômicos ou sociais que tudo explicam/simplificam; 2) afinar a sua sensibilidade para uma lógica específica de algumas manifestações populares, que são marcadas pela contradição e pela ambiguidade, e desta maneira tornando-se impermeáveis à lógica racional.

Nossa opção metodológica foi a de localizarmos estudos significativos, que podem contribuir substancialmente para as novas possibilidades de abordagem do futebol, como um fenômeno sócio-cultural. Para isto, optamos neste artigo em realizar a análise de duas áreas de abordagens (história e antropologia ), as quais somadas com a teorização sociológica, formam o arcabouço teórico da maior parte dos estudos realizados na pós-graduação brasileira e além disso são áreas fundamentais para auxiliar na ruptura da visão tradicional com que se estuda este esporte.

O descaso acadêmico para o estudo do esporte

O futebol teve uma trajetória marcada pela marginalidade científica e literária, sendo visto como um elemento alienante presente na cultura de massa. Autores como Adorno e Horkheimer, representantes da escola de Frankfurt ao analisarem a questão da sociedade de massa, nos fornecem indicativos para percebermos que ela foi fundamental para a consolidação da Indústria Cultural. Esta terminologia passa a ser adotada por estes autores e seus adeptos com o objetivo de diferencia-la da Cultura de Massa, pois para eles a cultura não é produzida pelas massas, no limite poderá ser consumida por elas. O conceito de Indústria Cultural diferencia o produtor do consumidor, pois o primeiro normalmente acaba conseguindo transformar o imaginário do segundo, desta maneira:

As idéias de ordem que ela inculca são sempre as do status quo. Elas são aceitas sem objeção, sem análise, renunciando à dialética, mesmo quando elas não pertencem substancialmente a nenhum daqueles que estão sob sua influência (…). Através da ideologia da indústria cultural, o conformismo substitui a consciência.

Estes pressupostos são balizados na teoria marxista, na qual os seus pensadores são reticentes a idéia, ou, possibilidade de que existam grupos que não atuem como a teoria previu. Desta maneira, a forma de análise destes grupos foi através da exclusão, pois estes indivíduos não expressam a consciência de classe desejável (por essa teoria/teóricos) e, por isso acabaram sendo academicamente desprezados.

Tal fato provocou um engessamento intelectual, criando um certo estigma em se analisar determinados temas. Nesta situação, ao invés de perceber-se a significância do objeto em uma determinada conjuntura, assumiu-se uma postura de distanciamento e negação, que tem levado ao entendimento que o futebol neste momento era uma prática voltada para a massa e desta maneira não sendo digno de estudos acadêmicos.

Nesta mesma linha de raciocínio, Hannah Arendt tenta justificar a adesão de milhares de cidadãos aos regimes totalitários europeus, indicando que as massas eram um desvio social, resultante da falência da sociedade de classes. Para a Arendt, enquanto a classe operária organizava o seu movimento e a burguesa os seus partidos, as massas constituíram-se sem vínculo social e, conseqüentemente, sem qualquer projeto político que lhe conferisse coesão social. Tanto que esta autora, desqualifica estes indivíduos, chamando-lhes de ralé:

A ralé é fundamentalmente um grupo no qual estão representados resíduos de todas as classes. É isto que torna tão fácil confundir ralé com o povo, a qual compreende todas as camadas sociais. Enquanto o povo (…) luta por um sistema realmente representativo, a ralé brada sempre pelo homem forte, pelo grande chefe. Porque a ralé odeia a sociedade da qual é excluída…

Amparada na teoria marxista que elege o proletariado e a burguesia como as classes fundamentais e as únicas capazes de possuir uma verdadeira consciência de classe, esses intelectuais não conseguiram criar ferramentas que possibilitassem compreender como os cidadãos puderam ter aderido regimes totalitários ou então reunir-se em torno de uma prática esportiva, desta maneira agindo fora daquilo que a teoria previu. Ao defrontar-se com este problema a saída foi o desprezo.Como indica Castoriadis, é a Teoria, e não a experiência dos indivíduos e dos seus grupos, que define o que é classe social, ou o que deve ser a sua consciência de classe.

Tal fato fez com que durante muito tempo a produção historiográfica do futebol brasileiro fosse escrita por memorialistas, fundamentalmente jornalistas esportivos que não apresentavam nenhum rigor científico. Entretanto, esta situação passa por um momento de transição, no qual já se pode verificar alguns estudos que tem contribuído substancialmente para um novo olhar acadêmico, sobre o futebol. Por uma questão de limitação temporal, este artigo irá destacar apenas a produção de dois autores, que servem para exemplificar a forma que o futebol vem sendo abordado atualmente em diferentes áreas do conhecimento.

Futebol e história: O negro no futebol brasileiro

Este livro foi publicado pela primeira vez em 1947, sendo de autoria do jornalista Mário Rodrigues Filho. O prefácio desta obra realizado por Gilberto Freyre, apresenta uma visão significativa que certamente auxiliou para convalidá-lo a intelectualidade daquele momento. Freyre indica que este estudo é uma valiosa contribuição para o entendimento da sociedade e da cultura brasileira, na sua transição da fase predominantemente rural para a predominantemente urbana. Levantando questões entre a racionalidade e a irracionalidade do comportamento humano.

Através da ascensão deste esporte tornou-se possível a sublimação do homem brasileiro, algo que anteriormente só se conseguia através de feitos heroicos, ou ações admiráveis que o exército, a Marinha e as Revoluções mais ou menos patrióticas abriam aos brasileiros brancos e, principalmente, mestiços ou de cor.

O futebol tem na sociedade brasileira, em grande parte formada por elementos primitivos da cultura, uma importância toda especial que demorou muito tempo para ser estudada. Este esporte assumiu uma expressão contrária à moralidade dominante em nosso meio. O desenvolvimento do futebol, não num esporte como os outros, mas numa verdadeira instituição brasileira, tornou possível a sublimação de vários daqueles elementos irracionais de nossa formação social e irracional (por exemplo o samba e a capoeira, elementos presentes no estilo de jogo do brasileiro), o que possibilitou que o futebol brasileiro saísse do estilo original britânico e se tornasse uma dança cheia de surpresas irracionais e variações como é.

A sublimação do futebol auxiliou para o engrandecimento do negro na cultura brasileira. “E entre os meios mais recentes – isto é, dos últimos vinte ou trinta anos – de ascensão social do negro ou do mulato ou do cafuzo no Brasil, nenhum excede, em importância, ao futebol”.

A obra de Mário Filho tornou-se “referência obrigatória” para qualquer pesquisador que fosse realizar uma abordagem historiográfica do tema. Pois, este autor conseguirá mostrar como o futebol teve uma participação decisiva na democratização racial do Brasil e, portanto, na construção de uma nação integral. Para isto, organizou o seu livro a partir de três posicionamentos argumentativos: 1 – a segregação e o racismo; 2 – a resistência; 3 – a integração social.

O ineditismo da obra de Mário Filho trouxe como conseqüência, um certo conformismo e limitação do trabalho com as fontes históricas para compreensão do futebol brasileiro daquele momento, ou seja, a sua visão ficou “cristalizada” como algo oficial. Entretanto, a tese de doutorado desenvolvida por Soares, introduz uma nova visão para os acontecimentos. De acordo com este autor, a obra de Mário Filho não apresenta característica científica e sim literária, principalmente pela falta de trabalho com fontes e pelo fato do autor recorrer a memória (sua e de alguns jogadores da época) e a partir daí ter a possibilidade de criar um cenário através do qual ele acaba escolhendo quem serão os heróis (jogadores negros) e os vilões (elite branca e urbana).

A crítica incisiva de Soares está no fato de que Mário Filho busca em última instância utilizar o futebol como um exemplo que demonstra o fim do racismo brasileiro. As críticas e os apontamentos feitos por Soares, são extremamente pertinentes e significativas para o estudo do futebol brasileiro. Não obstante, ao tentar justificar os seus posicionamentos, o autor acaba “caindo em uma armadilha” ao não perceber a importância da obra de Mário Filho, não enquanto uma fonte oficial isenta de críticas, fato presente em trabalhos contemporâneos que Soares qualifica como “os novos narradores”, os quais acabaram reproduzindo a visão do autor. Mas este livro deve ser visto como um documento original, que nos fornece indícios sobre os sentimentos e o clima de uma época.

Futebol e a antropologia social de Roberto Da Matta

DaMatta é um antropólogo que aborda temas relativos a cultura brasileira (carnaval, malandragem, jeitinho brasileiro…) Este autor aborda a questão do futebol à partir da ideia de DRAMATIZAÇÃO, como parte fundamental do ritual. Segundo DaMatta, sem o drama não há rito e o traço distintivo do dramatizar é chamar a atenção para as relações, valores ou ideologias que de outro modo não poderiam estar devidamente isoladas das rotinas que formam o conjunto da vida diária, ou seja, o ritual e o drama seriam um determinado ângulo através do qual uma dada população conta a sua história. Neste sentido, não se trata de discutir a verossimilidade dos fatos, mas de perceber como o brasileiro expressa-se, apresenta-se e revela-se em um dos seus momentos de liberdade social.

A proposta do autor está em relativizar a análise, fugindo desta maneira do modelo tradicional no qual “qualquer” objeto estudado, que tenha a sociedade como parâmetro, acaba sendo reduzido e normalmente mantém uma relação de confronto com esta sociedade. Para ele, é decorrente desta ideologia a tese do “Futebol como Ópio do Povo”, da mesma forma que a economia é considerada a base da sociedade. Neste sentido, o futebol brasileiro seria um instrumento ideológico utilizado pelas elites (pensantes) como um meio de desviar a atenção das massas (irracionais) dos seus problemas sociais.

DaMatta, indica que é fundamental que se visualize o futebol além do seu caráter funcional, pois só desta maneira torna-se possível compreender a função política e social deste esporte, que acaba trazendo a tona várias tensões sociais, como ele salienta: “Só que eles são os problemas da nossa própria sociedade, daí a dificuldade em percebe-los e discuti-los”.

Ao analisarmos a relação existente entre o esporte/futebol e a sociedade, temos a possibilidade de utilizarmos um filtro que permitirá visualizar a totalidade e as particularidades de um determinado contexto, pois os objetivos saem da questão da função e utilidade do esporte, e passam a ser fundamentados na sua implicação e conseqüência social. Pois, enquanto uma atividade da sociedade, o futebol é a própria sociedade, sendo expressa através de seus atores, regras, objetos, ideologias, etc.

A proposta metodológica expressa pelo autor para esta escala de análise, foi através da comparação do futebol em diferentes sociedades. Ele escolhe a inglesa (devido a “paternidade” do futebol), a americana (devido a sua significância econômica e política mundial) e a brasileira (seu foco de análise).

Realizando uma análise semântica entre o futebol como jogo para os brasileiros e o futebol como esporte para os americanos e ingleses. DaMatta indica que no Brasil, o futebol é associado a jogar futebol, o que denota uma certa ligação aos “jogos de azar”, diferente do que ocorre nas outras duas nações.

Com base nesta indicação o autor mostra que no Brasil, o futebol está associado a técnica, a tática, a força física e psicológica, mas diferente da sociedade anglo-saxão, no Brasil se atribui muita importância a fatores como sorte e/ou destino. Um exemplo disto seria a presença da loteria esportiva na sociedade brasileira.

Além disso, o futebol brasileiro se difere do europeu, pela sua improvisação e individualidade. Deste modo, o futebol é na sociedade brasileira, uma fonte de individualização e possibilidade de expressão individual, muito mais do que expressão de coletividade. É através desta dialética entre individualização e coletividade, que o futebol brasileiro permite exprimir o conflito presente entre destino impessoal X vontade individual. Em certa medida este é um dilema da própria sociedade brasileira, que o jogo de futebol focaliza e dramatiza, pois mesmo apresentando vontades individuais este esporte é regido por leis impessoais, apresentando fatores imprevisíveis que podem dar a vitória para uma equipe considerada menos apta para ser a vencedora, ou seja, não há um modo de prever com segurança uma relação direta (racional) entre os meios e os fins.

Um ponto significativo e em certa medida controverso no pensamento deste autor, é que o jogo de futebol é um momento claramente demarcado da vida em sociedade, o que permite que tudo o que o ritual situe, seja circunscrito temporal e espacialmente. Neste sentido, a vantagem do futebol é de poder veicular muitos problemas fundamentais e não obstante ser apenas um jogo, sendo este um ponto central da importância das atividades esportivas para as sociedades modernas.

O que se pode perceber é que na tentativa de justificar a popularidade do futebol no Brasil, DaMatta utiliza-se dos conceitos de ritual e drama social, para tratar o futebol como um meio privilegiado de observar uma série de problemas significativos da sociedade brasileira, o que em certa medida justifica em parte a popularidade deste esporte no nosso país.

Possibilidades metodológicas

Por uma questão de limite temporal e principalmente pelos objetivos propostos neste estudo, nos limitamos a apresentar somente dois autores que tem abordado de maneira distinta, porém ambos de extrema significância no estudo do futebol como fenômeno sócio-cultural. Além destes autores, podemos destacar Norbert Elias e seus seguidores de Leicester, que estão entre os pioneiros a denunciar o descaso intelectual para com o esporte, bem como tratam da questão histórica do esporte, como uma das categorias de análise do processo civilizador. O sociólogo escocês Richard Giullinaotti, que chegou ao Brasil em 2002, através da tradução do seu livro “Dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidões”. Obra esta que abre a perspectiva para uma série de lacunas que merecem ser estudadas na temática futebol.

Entretanto, nenhum dos autores citados fornece elementos metodológicos que possibilitem realizar uma análise mais rigorosa sobre a importância do futebol dentro de uma determinada sociedade (neste caso, na sociedade brasileira). Estas teorias são excelentes pontos de partida, porém não possibilitam compreender a essência dos acontecimentos.

Esta tem sido uma preocupação constante de alguns grupos de pesquisa, voltados para a análise histórica e social do futebol. Entre os quais destaca-se o da Universidade Federal do Rio de Janeiro e de forma mais efetiva o da Universidade Federal do Paraná. E é em decorrência das discussões realizadas por este grupo, que visualizamos novas possibilidades metodológicas que permitem abordar o futebol. É o que indica Ribeiro:

Afirmar o caráter social e histórico do futebol, contudo, não significa ignorar a sua autonomia enquanto campo específico. O seu estudo, ao mesmo tempo em que não pode perder de vista a dimensão social, não pode soterra-lo de estrutura, a tal ponto que não nos permita perceber a sua dinâmica específica, que sem dúvida não é a das classes sociais, do Estado, das religiões, dos sindicatos ou dos partidos políticos. O método para compreender a dimensão social do futebol, deve partir de uma descrição etnográfica densa, enunciando com o máximo de detalhes a sua dinâmica.

Nesse sentido, entende-se que o futebol é um objeto que pode contribuir significativamente para a renovação metodológica dos estudos desenvolvidos pelas Ciências Humanas e Sociais, pois assim como outros temas ele necessita ser compreendido na sua relação entre o que tem de específico (sentimento, irracionalidade, paixão) e o contexto social no qual os fatos aconteceram. Estudar os sentimentos seja no futebol ou na política, remete para a necessidade de objetivar/racionalizar algo que é subjetivo, e aí parece estar o ponto nevrálgico deste tipo de abordagem, pois torna-se imperativo que o estudioso perceba a impossibilidade humana de dar conta de um fenômeno tão complexo como este, por isso será necessário delimitar seu objeto, sem contudo tentar estabelecer uma relação dicotomizada entre verdade e mentira, pois para fazer isto seria necessário buscar apreender a razão presente nos sentimentos, ou seja, seria necessário retirar-lhe a “irracionalidade” e ao fazer isto, caímos nas velhas abordagens tradicionais que não nos possibilitam compreender o clima vivenciado por determinados grupos sociais.

Esta apreensão nos remete há outros tipos de fonte, onde merece destaque a literatura, seja através dos livros dos intelectuais brasileiros e/ou das crônicas jornalísticas. O que se apresenta é uma documentação primária eivada de subjetividades seja pelo envolvimento emocional, pela autonomia do autor, que se expressa pela possibilidade de apresentar “outra realidade”, contudo é neste paradoxo que encontra-se a riqueza deste tipo de análise.

Conclusão

Neste artigo, optou-se em esboçar sumariamente o problema que o estudos históricos do futebol tem enfrentado e a partir deste quadro estabelecer um desafio para as novas abordagens que estão sendo produzidas atualmente. Desta forma, apenas problematizou-se a maneira como as ciências sociais/humanas analisam os fenômenos culturais de massa e apontamos a nossa hipótese a partir de alguns autores inovadores, pois acredita-se que se a “irracionalidade” for explorada pode-se perceber um grande equívoco teórico, ao tentar atribuir falta de consciência social aos fenômenos de massa.

A irracionalidade atribuída às massas, como as que se reúnem em torno do futebol, é resultado do excessivo apego dos intelectuais aos seus paradigmas, produzindo, com isso o preconceito científico e político para com as manifestações populares e de massa. Os limites desse artigo e da nossa própria capacidade em dar respostas definitivas aos nossos próprios desafios, nos permitem apenas arrolar e tecer alguns indicativos sobre essas possibilidades, pois entendemos a necessidade de estudos multidisciplinares que possam auxiliar para a superação destes preconceitos tradicionais, mas se não tomarmos cuidado e tentarmos analisar a totalidade do fenômeno corremos o risco de cairmos na armadilha anunciada durante toda a exposição, ou seja, a de realizarmos uma análise clássica, que apenas desvenda a aparência, mas deixa intacta a essência. Por isso, espera-se que pelo menos tenhamos conseguido denunciar e mostrar a necessidade da utilização de novos modelos teóricos.

Notas

A esse respeito cf. ADORNO, Theodor. A indústria cultural. In: COHN, Gabriel. Comunicação e indústria cultural. São Paulo: Editora Nacional, 1977.

Ibid. p. 293.

Para um maior aprofundamento sobre a crítica estabelecida ao pensamento marxista cf. CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. THOMPSON, Eduard Paul. A formação da classe operária. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

HORKHEIMER, Max & ADORNO, Theodor W. Temas Básicos da Sociologia. São Paulo: Cultrix, s/d. p. 78-88. Para estes autores a Massa Popular é definida como o nexo mais imediato e/ou primário entre o indivíduo e a sociedade, sendo incapaz de apresentar consciência de classe.

ARENDT, Hannah. O sistema totalitário. Lisboa: Dom Quixote, 1978. p. 164-165.

CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1982.

SOARES, Antonio Jorge. Futebol raça e nacionalidade no Brasil: releitura da história oficial. Rio de Janeiro, 1998. Tese (Doutorado em Educação Física) – Programa de Pós-graduação em Educação Física, Universidade Gama Filho, 1998.

DA MATTA, Roberto (org.). Universo do Futebol. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982.p. 22.

RIBEIRO, Luiz Carlos. O futebol no campo afetivo da história. Revista Movimento. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 1994. p.33

Referências bibliográficas

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