ADJETIVOS

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INTRODUÇÃO

Como veremos, há várias definições para a classe do adjetivo. Neste trabalho, três definições serão expostas. No entanto, é importante salientar que há muitas outras, uma vez que a classe do adjetivo é muito rica e são muitos os que a estudam.

No trabalho em questão, a nossa preocupação será apenas a de expor diferentes definições desta classe de palavra: mostrar a visão de autores diversos, sem a preocupação de eleger uma teoria ou questionar as que serão apresentadas.

Nosso intuito é o de situar o leitor sobre o que vem a ser o adjetivo, uma vez que o objetivo primário deste trabalho é uma das flexões que esta classe de palavra apresenta. Ao falarmos sobre a flexão de grau do adjetivo, deteremo-nos ao grau superlativo absoluto sintético, mostrando que o poeta Augusto dos Anjos o utiliza com freqüência e discutindo o papel que o superlativo absoluto sintético desempenha na obra do autor.

1 ADJETIVO

1.1 DEFINIÇÃO

“Palavra que caracteriza os seres ou objetos nomeados pelo substantivo, indicando-lhes uma qualidade, caráter, modo de ser ou estado”(…).

Eis a definição que o dicionário Aurélio atribui ao adjetivo. Conceituá-lo é, no entanto, uma tarefa que preocupa não apenas o lexicógrafo em questão, mas também outros estudiosos.

Analogamente temos a definição de Roberto Melo Mesquita: “Palavra variável que modifica a compreensão do substantivo, atribuindo-lhe uma qualidade, estado, modo de ser ou aparência exterior”. (1990: 181)

O lingüista Joaquim Mattoso Câmara Jr, assim define a classe do adjetivo: “Pertence à classe dos adjetivos toda palavra que admita o sufixo adverbial -mente, do que resultam oposições formais entre adjetivo e advérbio”. Ele coloca como exceção a essa regra os numerais ordinais pertencentes à classe recentemente criada: primeiro/primeiramente. Há ainda o caso do advérbio propriamente, que deriva do adjetivo “próprio” e não do pronome.

Para Mattoso Câmara, os adjetivos recebem os seguintes sufixos: -issimo, -érrimo e -limo, com o sentido do advérbio muito.

Sob o aspecto mórfico, José Rebouças Macambira apresenta a mesma teoria de Mattoso Câmara, acrescentando a ela duas outras exceções: os pronomes indefinidos pouco e muito, que também recebem o sufixo -íssimo.

Ainda no âmbito das exceções, Mattoso Câmara apresenta o caso do pronome demonstrativo “mesmíssimo”, que , na forma coloquial, não significa “muito mesmo”.

De acordo com o mesmo estudioso supracitado, os adjetivos podem ser precedidos dos advérbios tão ou quão, de acordo com o contexto. Mattoso ainda coloca que alguns substantivos se deixam também proceder, comportando-se, então, como adjetivos. Exemplifica através das expressões “tão bom” e “quão bom”.

No que tange ao aspecto sintático, Mattoso destaca, dentre outros exemplos, a expressão “tão homem”, que corresponde a macheza, valentia. Nesse caso, homem é um adjetivo, que adquire outra carga semântica, diversa da que apresentaria se fosse um substantivo.

Por fim, José Rebouças Macambira defende que a definição do adjetivo deve abranger os critérios morfológico, sintático e semântico: “adjetivo é a palavra variável que serve para modificar o substantivo”.

1.2 FLEXÃO

A classe do adjetivo flexiona-se em gênero, número e grau.

Quanto ao gênero, entende-se a flexão do adjetivo no gênero masculino ou feminino. Por exemplo: jovem belo (masculino), jovem bela (feminino).

A flexão de número corresponde ao singular ou plural: jovem belo (singular), jovens belos (plural).

De acordo com Mattoso Câmara, os adjetivos se submetem aos graus comparativo e superlativo, sempre mediante processos derivacionais ou expedientes de

natureza sintática. Segundo ele, o comparativo pode ser de igualdade, superioridade, ou inferioridade, sem haver flexão. Por exemplo: Pedro é tão alto quanto João. Neste caso, há apenas a colocação de um advérbio de intensidade antes do adjetivo. Não existe a flexão, e sim, o uso de um recurso sintático.

Para Mattoso, na frase “Pedro é altíssimo”, há o uso do superlativo, que faz-se pelo emprego do sufixo -íssimo, com o objetivo de intensificar a altura de Pedro.

Roberto Melo Mesquita também defende que o comparativo pode ser de igualdade, superioridade ou inferioridade, assim exemplificando: comparativo de superioridade: seu livro é mais interessante do que meu. Comparativo de igualdade: seu livro é tão interessante quanto o meu. Comparativo de inferioridade: seu livro é menos interessante do que o meu.

Quanto ao superlativo Roberto Melo Mesquita assim o define: “(…) o grau mais intenso da caracterização dada ao substantivo” (1990: 191)

Assim sendo, classifica-se em absoluto e relativo. O grau absoluto considera a característica sem compará-la. Subdivide-se em analítico e sintético. No grau absoluto analítico, o adjetivo é modificado por um advérbio, como por exemplo: sou muito feliz. No grau absoluto sintético, o adjetivo é acrescido de um sufixo, como por exemplo: Este carro é belíssimo!

O grau relativo considera a qualidade em relação à de outro ser, apresentando-se sempre na forma analítica. Analogamente ao que acontece com o comparativo, o grau relativo pode ser de superioridade ou inferioridade. O grau relativo de superioridade exprime o grau superior mais intenso, assim como o de inferioridade exprime o grau inferior mais intenso. Seguem-se os respectivos exemplos: Ela era a mais estudiosa da turma; Ela era a menos estudiosa da turma.

1.3 ALGUMAS PALAVRAS SOBRE O SUPERLATIVO ABSOLUTO SINTÉTICO

Como pudemos perceber, o superlativo absoluto sintético é formado por meio de processo derivacional, pelo emprego do sufixo -íssimo.

Este é um recurso que é utilizado para exprimir o grau máximo do adjetivo.

Se você, hipoteticamente, está tomando um sorvete e diz: “Este sorvete está gostoso!”, passa ao ouvinte uma determinada impressão. Se diz: “Este sorvete está muito gostoso!”, a impressão transmitida é outra. Se, no entanto, disser: “Este sorvete está gostosíssimo!” seu interlocutor compreenderá facilmente a sua intenção: elevar ao grau máximo possível a característica presente no sorvete: o fato de ele estar extremamente gostoso.

Todos nós, falantes e conhecedores da língua usamos esses recursos no cotidiano. É óbvio que no dia-a-dia, durante as tantas interações verbais que realizamos, não paramos para pensar em toda essa estrutura gramatical que até agora estamos discutindo. Qualquer falante conhece e usa esses recursos, traz intrínseca essa noção de superlativo absoluto sintético , embora nem sempre (ou melhor na maioria das vezes), saiba nomeá-los.

É atentando-nos a essa força do superlativo absoluto sintético, que analisaremos poesia e sonetos de Augusto dos Anjos, logo após breve explanação acerca das características da obra do autor.

2. A OBRA DE AUGUSTO DOS ANJOS

Augusto dos Anjos, paraibano inovador, possuía um jeito todo peculiar de escrever. Abordava temas que não eram, para a época, temas de poesia. Como é um autor de transição entre o Parnasianismo e o Simbolismo, foi criticado por autores e críticos de ambas as fases. Aliás, foi criticado por muito mais tempo.

Demorou a ser reconhecido. Somente depois de 14 anos de sua morte, com a publicação de seu livro em São Paulo e Rio de Janeiro é que iniciou-se a popularidade de Augusto dos Anjos. Já o reconhecimento crítico deu-se ainda mais lentamente. Tudo começou em 1946, quando Manuel Bandeira (que até então o tinha ignorado) passou a atribuir-lhe méritos. Sua consagração completou-se através de um grande crítico de destaque na época: Álvaro Lins.

Antes disso, os partidários do Parnasianismo e Simbolismo percebiam que os versos de Augusto dos Anjos eram diferentes, possuíam características que não tinham relação com aquelas correntes e criticavam-no. Dentre tantas outras críticas, Rosenfeld chamou a poesia de Augusto dos Anjos de “poesia de necrotério”, dizendo que esse tipo de poesia desintegrava a sensibilidade, os valores do poeta como ser humano, bem como a palavra e a expressão literária.

Mas Augusto dos Anjos continuava firme ao seu estilo. Antônio Armoni Prado diz que as poesias desse autor (que conheceu tanto a decadência do mundo rural, quando criança, quanto a agitação da cidade moderna, quando adulto) são, por esse motivo, mistos de modernidade e tradicionalismo: “O neologismo cientificista combina-se com uma discreta ressonância da linguagem bíblica”. Para o crítico, o poeta expõe as situações da vida ao mesmo tempo que as floreia, colore, sob um aspecto “incomum”.

Augusto dos Anjos introduziu em suas poesias um vocabulário novo: palavras que não eram consideradas poéticas, vocabulário científico. Observemos versos dos sonetos “A idéia; Versos íntimos; e Sililóquio de um visionário”, respectivamente:

(…) “Vem de encéfalo absconso que a constringe

Chega em seguida às cordas da laringe ” (…)

(…) “O beijo, amigo, é a véspera do escarro” (…)

(…) “Vestido de hidrogênio incandescente” (…)

O autor mostrava-se diversas vezes pessimista em sua poesia que fora, inclusive, taxada de “poesia de mau gosto”. Observemos:

(…) “O amor, poeta é como a cana azeda”(…)

(Versos de amor)

“Toma as espadas rútilas, guerreiro,

E a rutilância das espadas, toma

A adaga de aço, o gládio de aço, e doma

Meu coração – estranho carniceiro!”(…)

(Vencedor)

(…) “Eis-me passeando como um grande verme

Que, ao sol, em plena podridão, passeia!

(…) Mas veio o vento que a desgraça espalha

E cobriu-me com o pano da mortalha,

Que estou cosendo para os meus amores!”(…)

(A Ilha de Cipango)

(…) “Há uma força vencida nesse mundo!” (…)

(A floresta)

Como pudemos perceber, o poeta apresenta características que lhe são peculiares e o pessimismo é um traço pertinente em sua obra. Será atentando-nos a esses fatos que faremos, a seguir, a análise de alguns sonetos e uma poesia do autor, preocupando-nos principalmente, em relacionar a análise com o que foi proposto no início do trabalho.

3. O SUPERLATIVO ABSOLUTO SINTÉTICO NA OBRA DE AUGUSTO DOS ANJOS

3.1 ANÁLISE

(…) “A temática de Augusto dos Anjos está voltada para o sofrimento, a morte, a decomposição física dos seres, a podridão, a falsidade…

Mas toda ela é apresentada com um vocabulário científico. As dores de que trata o poeta são dores que extrapolam o nível individual”(…) (Paschoalin & Spadoto, 1986: 158)

É nesse clima de exagero, extrapolação de sofrimento, da falsidade que analisaremos os sonetos e o poema a seguir.

3.2 ANÁLISE PRIMEIRA

Versos de Amor

A um poeta erótico

Parece muito doce aquela cana.

Descasco-a, provo-a, chupo-a… ilusão treda!

O amor, poeta, é como a cana azeda,

A toda a boca que o não prova engana.

Quis saber que era o amor, por experiência,

E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,

Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,

Todas as ciências menos esta ciência!

Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo

Mas certo, o egoísta amor este é que acinte

Amas, oposto a mim. Por conseguinte

Chamas amor aquilo que eu não chamo.

Oposto ideal ao meu ideal conservas.

Diverso é, pois, o ponto outro de vista

Consoante o qual, observo o amor, do egoísta

Modo de ver, consoante o qual, o observas.

Porque o amor, tal como eu o estou amando,

É Espirito, é éter, é substância fluida,

É assim com o ar que a gente pega e cuida,

Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instintos rudes,

Imponderabilíssima e impalpável,

Que anda acima da carne miserável

Como anda a garça acima dos açudes!

Para reproduzir tal sentimento

Daqui por diante, atenta a orelha cauta,

Como Mársias – o inventor da flauta –

Vou inventar também outro instrumento!

Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo

Ambiciono, que o idioma em que te eu falo

Possam todas as línguas decliná-lo

Possam todos os homens compreendê-lo!

Para que, enfim, chegando à última clama

Meu podre coração roto não role,

Integralmente desfibrado e mole,

Como um saco vazio dentro d’alma!

Nesse poema, entitulado” versos de amor”, podemos perceber o modo como o poeta trata esse sentimento.

Já na 1ª estrofe ele compara o amor à cana azeda, dando a entender que para ele o amor é desprazer. Prossegue, na 2ª estrofe, comprovando que decepcionou-se com esse sentimento, ao dizer que depois de tê-lo conhecido, preferiria não ter esta “ciência”. Na 3ª estrofe declara que o seu amor é vivido em ânsias, ou seja, é algo intenso, inebriante. O amor do poeta erótico (a quem Augusto dos Anjos dedica o poema) é, em contraposição, um amor egoísta.

Quando Augusto dos Anjos diz, na 5ª estrofe, que o amor é éter, é substância fluida, mostra mais uma vez como ele considera o amor: “éter”, inebriante, faz com que a pessoa sinta-se diferente. A expressão substância fluída, também comprova isso. Uma substância fluida adquire as características, adapta-se ao recipiente em que é colocada. Ou seja, o, amor toma as características do corpo em que está. É algo impalpável, assim como o ar, mas passível de ser sentido.

Na 6ª estrofe ele tenta tratar o amor como algo mais científico, como parte da natureza humana:: “É a transubstanciação de instintos rudes”! Amar, para ele nada mais é do que fazer com que os instintos animais (fato cientificamente inegável) se transforme em algo aceito pela sociedade, uma vez que o poeta diz, nos dois últimos versos, que os instintos estão acima da carne. Aliás, tanto o amor é para ele “transubstanciação de instintos rudes”, que ele usa o superlativo absoluto sintético: é uma transubstanciação impalpável e imponderabilíssima; não pondera, é extremamente imponderável, é algo fatal.

Tanto o amor é para ele desejo, carne, instinto, que a dedicatória é “a um poeta erótico”. Diz que o amor é algo complexo, que é preciso inventar um instrumento para reproduzi-lo.

Na penúltima estrofe o poeta, pretenciosamente, deseja que todos compreendam o amor assim como ele. Finaliza, colocando que se todos compreenderem o amor da forma como foi definido por ele (amor instinto, inevitável) e não o amor egoísta do poeta erótico, seu coração tornar-se-á consistente: seu ego será satisfeito.

Saliente-se, mais uma vez, a importância do superlativo absoluto sintético. É em torno dele que o poeta desenvolve toda a temática do poema: a inevitável transubstanciação do amor.

3.3 ANÁLISE SEGUNDA

O LUPANAR

Ah! Por que monstruosíssimo motivo

Prenderam para sempre, nesta rede,

Dentro do ângulo diedro da parede,

A alma do homem polígamo e lascivo?!

Este lugar, moços do mundo, vede:

É o grande bebedouro coletivo,

Onde os bandalhos, como um gado vivo,

Todas as noites, vêm matar a sede!

É o afrodisíaco leito do hetairismo,

A antecâmara lúbrica do abismo,

Em que é mister que o gênero humano entre,

Quando a promiscuidade aterradora

Matar a última força geradora

E comer o último óvulo do ventre!

Este é um soneto que trata da prostituição, da lascívia, da fraqueza humana.

Augusto dos Anjos fala sobre os motivos que levam o homem a freqüentar prostíbulos. O autor poderia dizer apenas “Por que motivo”?, mas não fez assim, quis usar um adjetivo. Escolheu, então, um adjetivo que já possui uma carga semântica “forte”. Poderia ter usado ruim, triste, feio… mas usou monstruoso, que denota algo ainda pior que tudo isso. Como se não bastasse, escolheu elevar esse adjetivo ao seu grau máximo, usando o superlativo absoluto sintético. Para ele, há um motivo extremamente terrível, monstruoso, para que o homem aja dessa forma, e são sobre esses motivos suas indagações; ponto de partida para o desenrolar do soneto.

A expressão “prender para sempre”, ainda na 1ª estrofe, mostra que uma vez preso ao mundo da lascívia, sempre preso, pois o autor também poderia ter dito “prenderam”, mas preferiu usar “prenderam para sempre”, fazendo-se notar o pessimismo, pertinente em sua obra.

Ele trata o prostíbulo como sendo um “parque de diversões” dos sem dignidade. Compara-o a um bebedouro de gados e seus freqüentadores aos gados, que vão até lá quando têm necessidade de “matar a sede”. No decorrer do soneto, Augusto dos Anjos mostra novamente a presença do pessimismo, ao dizer “onde é mister que o gênero humano entre”. Com essa frase, ele demonstra que o homem é um ser fraco que quando tiver morta a “última força geradora” entrará na “antecâmara lúbrica do abismo”, sinônimo, no contexto do poema, de perdição.

3.4 Análise Terceira

Último credo

Como ama o homem adúltero o adultério

E o ébrio a garrafa tóxica de rum,

Amo o coveiro – este ladrão comum

Que arrasta a gente para o cemitério!

É o transcendentalíssimo mistério!

É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,

É a morte, é esse danado número Um

Que matou Cristo e que matou Tibério!

Creio, como o filósofo mais crente,

Na generalidade decrescente

Com que a substância cósmica evolui…

Creio, perante a evolução imensa,

Que o homem universal de amanhã vença

O homem particular que eu ontem fui!

Numa atitude de pessimismo que lhe é característica, o poeta diz crer que a evolução dá-se de forma decrescente. Nomeia-se de “homem particular”, egoísta, e, ainda em tom pessimista, diz que espera que o homem de outra geração seja diferente dele.

Augusto dos Anjos diz que é a morte que renova a humanidade, para melhor ou para pior. É como se fosse o protagonista de um espetáculo trágico, “esse danado número Um”. Note-se que o vocábulo está grafado, inclusive, com inicial maiúscula, que dá, de uma certa forma, grandeza a esse mistério que segundo Chicó, personagem de Ariano Suassuna em “O auto da Compadecida” é “o único mal irremediável”.

É o mistério. O grande mistério que poderia ser transcendental, mas que, devido à sua amplitude, é mais que isso: é transcendentalíssimo. Mais uma vez o superlativo absoluto sintético entra em sua obra para atuar como reforçador de seus adjetivos já “fortes”, explicitando o pessimismo presente em seus poemas.

Conforme já, fora dito anteriormente, Augusto dos Anjos chegou a ser considerado elaborador de uma “poesia de mau gosto”. É nesse espírito de poeta incompreendido (ou mal compreendido), que ele exemplifica seu fascínio pelo coveiro (mais uma figura ligada à morte): assim como é lógico que o adúltero ame o adultério, que o bêbado ame o álcool,”é lógico que ele ame o coveiro. A morte é um grande e inevitável enigma, ao qual nem Tibério, nem Cristo, conseguiram escapar. É um mistério que o perturba, que além de ser “mistério”, é mais que transcendental: é transcendentalíssimo.

3.5 ANÁLISE QUARTA

A UM CARNEIRO MORTO

Misericordiosíssimo carneiro

Esquartejado, a maldição de Pio

Décimo cais em teu algoz sombrio

E em todo aquele que for seu herdeiro!

Maldito seja o mercador vadio

Que te vender as carnes por dinheiro,

Pois, tua lã aquece o mundo inteiro

E guarda as carnes dos que estão com frio!

Quando a faca rangeu no teu pescoço,

Ao monstro que espremeu teu sangue grosso

Teus olhos – Fontes de perdão – perdoaram!

Oh! Tu que no Perdão eu simbolizo,

Se fosse Deus, no Dia de Juízo,

Talvez perdoasses os que te mataram!

Mais uma vez, deparamo-nos com uma dedicatória incomum.

Nesse soneto, Augusto dos Anjos faz poesia sobre a figura de um carneiro esquartejado, sem poupar o leitor dos detalhes: “Quando a faca rangeu no teu pescoço!” “Teu sangue grosso”. Ele considera o carneiro um ser misericordioso, símbolo do perdão. Pode-se explicar esse fato com a lenda de que o carneiro, ao morrer, chora. E Augusto dos Anjos contempla de uma tal forma essa figura, que amaldiçõa, na 1ª estrofe, a pessoa que matar um carneiro (fato comum, uma vez que a carne desse animal é usada para consumo humano). Para ele, o carneiro é um animal tão especial, que ele diz, na 2ª estrofe: “Maldito seja o mercador vadio, que te vender as carnes por dinheiro”. Prossegue dizendo que os olhos do carneiro são fontes de perdão, simbolizando-o, na última estrofe, como o próprio Perdão, que aparece grafado com inicial maiúscula, enobrecendo-o ainda mais.

O poeta discorre o tempo todo sobre a misericórdia do carneiro. Logo no 1º verso , explicita a grandeza dessa misericórdia através do superlativo absoluto sintético, já que os olhos do carneiro são considerados fonte de perdão para seus próprios algozes e o animal comparado ao próprio “Deus no dia do juízo”.

Este é mais um dentre tantos outros casos do superlativo absoluto sintético nas obras de Augusto dos Anjos, que vem em diferentes situações, mas sempre com a mesma função: fazer o adjetivo adquirir uma outra carga semântica, representando sempre o máximo possível sobre algo.

CONCLUSÃO

Estudar gramática por si só é muitas vezes desprazeroso, pois, não raro, surge a dificuldade em assimilar as inúmeras regras com que nos deparamos. Relacioná-las com algo prazeroso, então, é praticamente utópico.

Foi refletindo sobre isso que pensamos num meio de tornar o aprendizado e aplicação dessas regras possível através de uma leitura que nos agradasse. É óbvio que tudo isso foi muito trabalhoso: tivemos que percorrer um longo caminho para chegarmos até onde queríamos. Seria muito mais simples dizer; “o superlativo absoluto sintético é isso, forma-se assim e está presente na obra de Augusto dos Anjos. Mas agir dessa forma não está de acordo com os nossos objetivos. A nosso ver, a gramática deve ser usada para o nosso auxílio; deve nos ajudar em vez de “perturbar”.

Para nós, é muito mais interessante para o aluno (e isso nós dizemos como futuras professoras de língua portuguesa e, sobretudo como alunas) conhecer as regras gramaticais sabendo que elas podem desempenhar relevante papel na literatura, pois cremos que ver a gramática por esse ângulo, tornará seu estudo mais significativo e, (por que não?) prazeroso.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. São Paulo: Infe, 1998.

MACAMBIRA, José Rebouças. A estrutura morfo-sintática do português. 6ª ed.São Paulo: Pioneira, 1990.

MATTOSO, Joaquim Câmara Jr. Estrutura da língua portuguesa. 8ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1977.

MESQUITA, Roberto Melo. Gramática da língua portuguesa. 6ª ed. São Paulo: Saraiva, 1997.

MÜLLER, Mary Stela; CORNELSEN, Julce Mary. Normas e padrões para Teses, Dissertações e Monografias. 2ª ed. rev. amp. Londrina: UEL, 1999.

NUNES, José Joaquim. Compêndio de gramática histórica portuguesa. 8ª ed. Lisboa: Clássica, 1975.

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