DISCURSO PRELIMINAR SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 4/4

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    DICAS PARA ANALISAR, COMPREENDER, E INTERPRETAR TEXTOS

    62. Uma primeira consideração que importa aprofundar, embora sua natureza seja sobretudo negativa, resulta, a este respeito, de uma judiciosa apreciação do que, à primeira vista, parece apresentar grave dificuldade, isto é, a ausência atual de toda cultura especulativa. Sem dúvida é lamentável, por exemplo, que este ensino popular de filosofia astronômica ainda não encontre entre todos aos quais especialmente se destina, alguns conhecimentos matemáticos preliminares, que haviam de torná-lo ao mesmo tempo mais eficaz e mais fácil e cuja existência sou mesmo forçado a supor. Mas a mesma lacuna se encontraria também na maior parte das outras classes atuais, nesta época em que a instrução positiva se acha limitada, em França, a certas profissões especiais que se ligam essencialmente à Escola Politécnica ou às escolas de medicina. Não é, portanto, isso uma falha verdadeiramente peculiar aos nossos proletários. Quanto a lhes faltar habitualmente esta espécie de cultura regular que as classes letradas hoje recebem, não temo cair em exagero filosófico, afirmando resultar daí, para os espíritos populares, notável vantagem, em vez de real inconveniente. Sem voltar aqui a uma crítica infelizmente demasiado fácil, assaz elaborada desde muito tempo e que experiência diária confirma, cada vez mais, aos olhos da maior parte dos homens sensatos, seria difícil conceber agora uma preparação mais irracional e, no fundo, mais perigosa à conduta ordinária da vida real, quer ativa, quer mesmo especulativa, do que a resultante desta vã, instrução, composta primeiro de palavras, depois de entidades, onde se perdem ainda tantos anos preciosos de nossa juventude. À maior parte daqueles que a recebem, ela não inspira, de ora avante, senão um desgosto quase insuperável relativamente a qualquer trabalho intelectual, durante toda a duração de sua carreira. Seus perigos tornam-se, porém, muito mais graves para aqueles que a ela se entregam mais especialmente. A inaptidão para a vida real, o desdém pelas profissões vulgares, a incapacidade de convenientemente apreciar qualquer concepção positiva, e a antipatia que daí logo resulta, freqüentemente os dispõe hoje a secundar estéril agitação metafísica que inquietas pretensões pessoais, desenvolvidas por essa desastrosa educação, não tardam a tornar politicamente perturbadora, sob a influência direta de viciosa erudição histórica, que, fazendo prevalecer uma falsa noção do tipo social peculiar à antigüidade, comumente impede compreender a sociabilidade moderna. Considerando que quase todos os que, a diversos respeitos, dirigem os negócios humanos, foram para tal fim assim preparados, não nos pode causar surpresa a vergonhosa ignorância que amiúde manifestam sobre os assuntos mais insignificantes, mesmo materiais, nem sua freqüente disposição a desprezar o fundo pela forma, colocando acima de tudo a arte de bem dizer, por mais contraditória ou perniciosa que se torne a sua aplicação, nem também nos pode surpreender a tendência especial das nossas classes letradas a acolher avidamente todas as aberrações que diariamente surjam de nossa anarquia mental. Semelhante apreciação dispõe-nos, ao revés, a admirar que esses diversos desastres não sejam ordinariamente mais extensos; conduz-nos também a admirar profundamente a retidão e a sabedoria naturais do homem, que sob o feliz impulso peculiar ao conjunto de nossa civilização, neutraliza espontaneamente, em grande parte, essas perigosas conseqüências de um absurdo sistema de educação geral. Tendo sido este sistema, desde o fim da Idade Média, como o é ainda, o principal ponto de apoio social do espírito metafísico, quer primeiro contra a Teologia, quer, em seguida, também contra a ciência, concebe-se facilmente que as classes que não pôde envolver, devem achar-se por isto mesmo muito menos afetadas por essa filosofia transitória e desde então mais bem dispostas ao estado positivo. Ora, tal é a importante vantagem que a ausência de educação escolástica proporciona hoje aos nossos proletários e os torna, no fundo, menos acessíveis do que a maior parte dos letrados aos diversos sofismas perturbadores, de conformidade com a experiência diária, apesar de contínua excitação, sistematicamente dirigida às paixões relativas à sua condição social. Eles deveriam ser outrora dominados a fundo pela teologia especialmente católica; mas, durante sua emancipação mental (havendo a Metafísica apenas deslizado sobre eles, por não ter neles encontrado a cultura especial sobre a qual ela repousa) só a filosofia positiva poderá, de novo, deles apoderar-se radicalmente. As condições preliminares, tão recomendadas pelos primeiros pais desta filosofia final, devem achar-se aí mais bem preenchidas do que em qualquer outra parte: se a célebre tábua rasa de Bacon e de Descartes fosse jamais plenamente realizável, seria por certo entre os proletários atuais que, principalmente em França, estão muito mais próximos do que qualquer outra classe do tipo ideal dessa disposição preparatória para a positividade racional.

    63. Examinando sob um aspecto mais íntimo e mais duradouro esta inclinação natural das inteligências populares para a sã filosofia, reconhece-se facilmente que ela deve resultar da solidariedade fundamental que, segundo as nossas explicações anteriores, liga diretamente o verdadeiro espírito filosófico ao bom senso universal, sua primeira fonte necessária. Este bom senso, com efeito, tão justamente preconizado por Descartes e por Bacon, deve achar-se hoje mais puro e mais enérgico entre as classes inferiores, em virtude mesmo desta feliz falta de cultura escolástica que as torna menos acessíveis aos hábitos vagos ou sofísticos; mas a esta diferença passageira, que será gradualmente dissipada por melhor educação das classes letradas, é preciso juntar uma outra, necessariamente permanente, relativa à influência mental das diversas funções sociais peculiares às duas ordens de inteligências, conforme o caráter respectivo de seus trabalhos habituais. Desde que a ação real da Humanidade sobre o mundo exterior começou a organizar-se espontaneamente entre os modernos, exigiu a combinação contínua de duas classes distintas, muito desiguais em número, mas igualmente indispensáveis: de um lado os empresários propriamente ditos, sempre pouco numerosos que, possuindo os diversos materiais convenientes, entre os quais o dinheiro e o crédito, dirigem o conjunto de cada operação, assumindo desde então a principal responsabilidade de quaisquer resultados; de outro lado os operadores diretos, vivendo de um salário periódico e formando a imensa maioria dos trabalhadores que executam, com uma espécie de intenção abstrata, os diversos atos elementares, sem se preocuparem especialmente com o seu concurso final. Estes últimos são os únicos a entrar em ação imediata sobre a natureza, ao passo que os primeiros lidam principalmente com a sociedade. Como conseqüência necessária destas diversidades fundamentais, a eficácia especulativa que reconhecemos inerente à vida industrial para desenvolver, de modo involuntário o espírito positivo deve em geral fazer-se sentir melhor entre os operadores do que entre os empresários; porque seus trabalhos próprios oferecem um caráter mais simples, um fim, mais nitidamente determinado, resultados mais próximos e condições mais imperiosas. A escola positiva deverá, pois, achar neles naturalmente um acesso mais fácil para o seu ensino universal e uma simpatia mais viva pela sua renovação filosófica, quando puder convenientemente penetrar nesse vasto meio social. Há de encontrar aí, ao mesmo tempo, afinidades morais não menos preciosas do que estas harmonias mentais, em conseqüência do comum desinteresse material que espontaneamente aproxima nossos proletários da verdadeira classe contemplativa, pelo menos quando esta houver adquirido enfim os costumes correspondentes ao seu destino social. Esta feliz disposição, tão favorável à ordem universal como à verdadeira felicidade pessoal, há de granjear um dia grande importância normal, em virtude da sistematização das relações gerais que devem existir entre estes dois elementos extremos da sociedade positiva. Mas desde já ela pode facilitar essencialmente sua união nascente, aproveitando a pouca folga que as ocupações diárias deixam aos nossos proletários para sua instrução especulativa. Se, em alguns casos excepcionais de extrema sobrecarga, esse contínuo obstáculo parece, com efeito, dever impedir todo desenvolvimento mental, ele é ordinariamente compensado por este caráter de judiciosa imprevidência que, em cada interrupção natural dos trabalhos obrigatórios, concede ao espírito uma plena disponibilidade. O verdadeiro lazer não deve faltar habitualmente senão à classe que acredita possuí-lo especialmente; porque, em razão mesmo de sua riqueza e de sua posição, ela se acha comumente preocupada por ativas inquietações, que jamais comportam verdadeira calma intelectual e moral. Este estado deve ser fácil, ao revés, quer aos pensadores, quer aos operários, em virtude de sua comum isenção espontânea dos cuidados relativos ao emprego dos capitais, sem falar na regularidade natural da sua vida diária.

    64. É, pois, entre os proletários, logo que estas tendências mentais e morais tiverem convenientemente atuado, que se há de realizar, com mais eficácia, a universal propagação do ensino positivo, condição indispensável ao termo gradual da renovação filosófica. É também entre eles que o caráter contínuo de semelhante estudo poderá tornar-se mais puramente especulativo, porque se achará aí mais isento das vistas interessadas que lhe aplicam, mais ou menos diretamente, as classes superiores, quase sempre preocupadas com cálculos ávidos ou ambiciosos. Depois de haver procurado neste estudo o fundamento universal de toda a sabedoria humana, eles virão haurir ,nele, como nas belas-artes, agradável diversão habitual ao conjunto de suas fadigas diárias. Devendo sua inevitável condição social tornar-lhes muito mais preciosa semelhante diversão, quer científica, quer estética, seria estranho que as classes dirigentes quisessem ver nisso, ao revés, um motivo fundamental para os conservar privados dela, recusando-lhes sistematicamente a única satisfação que possa ser concedida de modo indefinido àqueles mesmos que devem renunciar criteriosamente aos gozos menos suscetíveis de uma participação comum. Para justificar semelhante recusa, amiúde ditada pelo egoísmo e pela irreflexão, objeta-se algumas vezes, é verdade, que esta vulgarização especulativa tenderia a agravar profundamente a desordem contemporânea por desenvolver a funesta disposição, já muito pronunciada, à universal mudança de classes. Mas este temor natural, única objeção séria que, a semelhante respeito, mereça uma verdadeira discussão, resulta hoje, na maioria dos casos em que há boa-fé, de irracional confusão da instrução positiva, a um tempo estética e científica, com a instrução metafísica e literária, única atualmente organizada. Esta, que já reconhecemos exercer, de fato, uma ação social muito perturbadora sobre as classes letradas, tornar-se-ia muito mais perigosa se a estendêssemos aos proletários, nos quais desenvolveria, além do desgosto pelas ocupações materiais, exorbitantes ambições. Mas, felizmente, eles em geral estão ainda menos dispostos a pedi-la do que as classes dirigentes a concedê-la. Os estudos positivos, porém, sabiamente concebidos e convenientemente dirigidos, de maneira alguma comportam semelhante influência: aliando-se e aplicando-se, por sua natureza, a todos os trabalhos práticos, tendem, pelo contrário, a confirmar ou mesmo a inspirar o gosto por eles, seja enobrecendo-lhes o caráter habitual, seja amenizando-lhes as penosas conseqüências. Conduzindo, além disto, a sã apreciação das diversas posições sociais e das necessidades correspondentes, os estudos positivos dispõem a sentir que a felicidade real é compatível com quaisquer condições, contanto que sejam honrosamente preenchidas e razoavelmente aceitas. A filosofia geral que resulta desses estudos representa o homem, ou antes a Humanidade, como o primeiro entre os seres conhecidos, destinado, pelo conjunto das leis reais, a aperfeiçoar sempre, tanto quanto possível, e a todos os respeitos, a ordem natural, ao abrigo de toda inquietação quimérica, o que tende a exaltar, em alto grau, o ativo sentimento universal da dignidade humana. Ao mesmo tempo ela modera espontaneamente o orgulho demasiadamente exaltado que esse sentimento poderia suscitar, mostrando, sob todos os aspectos, e com familiar evidência, quanto devemos ficar continuamente abaixo do fim e do tipo assim caracterizados, quer na vida ativa, quer mesmo na vida especulativa, onde se sente quase a cada passo que nossos mais sublimes esforços não podem nunca vencer senão fraca porção das dificuldades fundamentais.

    65. Apesar da alta importância dos diversos motivos precedentes, considerações ainda mais poderosas, oriundas das necessidades coletivas peculiares à condição social dos proletários, hão de determinar as inteligências populares, movidas pelo seu ardor contínuo relativo à universal propagação dos estudos reais, a secundar hoje a ação filosófica da escola positiva. Semelhantes considerações podem ser assim resumidas: não pôde até aqui existir uma política especialmente popular e só a nova filosofia pode constituí-la.

    CAPÍTULO. II
    INSTITUIÇÃO DE UMA POLÍTICA ESPECIALMENTE POPULAR
    1o. – A política popular, sempre social, deve tornar-se sobretudo moral

    66. Desde o começo da grande crise moderna o povo não interveio ainda nas principais lutas políticas senão como simples auxiliar, com a esperança, sem dúvida, de obter, assim, alguns melhoramentos de sua situação geral, mas não segundo vistas e objetivos que lhe fossem realmente próprios. Todos os debates habituais ficaram essencialmente concentrados nas diversas classes superiores ou médias, porque se referiam sobretudo à posse do poder. Ora, o povo não podia, durante muito tempo, interessar-se diretamente por tais conflitos, pois a natureza de nossa civilização impede que os operários esperem e mesmo desejem qualquer participação importante no poder político propriamente dito. Também, depois de haverem essencialmente obtido todos os resultados sociais que podiam esperar da substituição provisória dos metafísicos e dos legistas à antiga preponderância política das classes sacerdotais e feudais, tornam-se eles hoje mais e mais indiferentes ao estéril prolongamento dessas lutas cada vez mais miseráveis, de ora avante reduzidas a vãs rivalidades pessoais. Quaisquer que sejam os esforços diários da agitação metafísica para fazê-los intervir nesses frívolos debates, pelo engodo dos chamados direitos políticos, o instinto popular já compreendeu, especialmente em França, quanto seria ilusória ou pueril a posse de semelhante privilégio, que, mesmo no seu grau atual de disseminação, não inspira habitualmente nenhum interesse verdadeiro à maior parte daqueles que o gozam com exclusividade. O povo não pode interessar-se essencialmente senão pelo emprego efetivo do poder, quaisquer que sejam as mãos em que resida, e não pela sua conquista especial. Logo que as questões políticas, ou, antes, daqui por diante, sociais, se referirem ordinariamente à maneira pela qual o poder deve ser exercido para atingir melhor seu destino geral, sobretudo relativo, entre os modernos, à massa proletária, não se tardará a reconhecer que o desdém atual não é de modo algum o resultado de uma perigosa indiferença: até lá a opinião popular ficará estranha a esses debates, que aumentando, aos olhos dos bons espíritos, a instabilidade de todos os poderes, tendem especialmente a retardar essa indispensável transformação. Em uma palavra, o povo está, naturalmente disposto a desejar que a vã e tempestuosa discussão dos direitos seja, enfim, substituída por fecunda e salutar apreciação dos diversos deveres essenciais, quer gerais, quer especiais. Tal é o princípio espontâneo da íntima conexidade, que, sentida cedo ou tarde, há de necessariamente ligar o instinto popular à ação social da filosofia positiva; porque esta grande transformação, acima motivada pelas mais altas considerações especulativas, eqüivale evidentemente à do movimento político em simples movimento filosófico, cujo primeiro e principal resultado social consistirá, com efeito, em estabelecer solidamente uma ativa moral universal, que prescreva a cada agente, individual ou coletivo, regras de proceder mais conformes à, harmonia fundamental. Quanto mais se meditar sobre esta relação natural, mais se reconhecerá que essa mudança decisiva, que só podia emanar do espírito positivo, não pode encontrar hoje sólido apoio senão no povo propriamente dito, único disposto a bem compreendê-lo e por ele profundamente interessar-se. Os preconceitos e as paixões peculiares às classes superiores ou médias impedem que elas sintam logo suficientemente tal transformação, porque devem habitualmente preocupar-se mais com as vantagens peculiares à posse do poder do que com os perigos resultantes do seu vicioso exercício. Se o povo é hoje e deve, de ora avante, permanecer indiferente à posse direta do poder político, não pode nunca renunciar à sua indispensável participação contínua no poder moral, que, único verdadeiramente acessível a todos, sem nenhum perigo para a ordem universal, antes de grande vantagem quotidiana para ela, autoriza cada um a lembrar convenientemente aos mais altos poderes o cumprimento de seus diversos deveres essenciais, em nome de uma doutrina fundamental comum. Na verdade, os preconceitos inerentes ao estado transitório ou revolucionário acharam também alguma acolhida entre os nossos proletários; entretêm neles, de fato, ilusões prejudiciais sobre o alcance indefinido das medidas políticas propriamente ditas e impedem que apreciem quanto a justa satisfação dos grandes interesses populares depende hoje mais das opiniões e dos costumes do que das próprias instituições, cuja verdadeira regeneração, atualmente impossível, exige antes de tudo a reorganização espiritual. Mas podemos assegurar que a escola positiva terá muito mais facilidade em fazer penetrar este salutar ensino nos espíritos populares do que em quaisquer outros,. seja porque .a metafísica negativa não pôde enraizar-se tanto neles, seja sobretudo pelo impulso constante das necessidades sociais peculiares à sua situação necessária. Estas necessidades se referem essencialmente a duas condições fundamentais, uma espiritual, outra temporal, de natureza profundamente conexa: trata-se, com efeito, de assegurar de modo conveniente, a todos, primeiro a educação normal, em seguida o trabalho regular; tal é, no fundo, o verdadeiro programa social dos proletários. Não pode mais haver verdadeira popularidade senão para a política que necessariamente tender para esse duplo destino. Ora, tal é evidentemente o caráter espontâneo da doutrina social própria à nova escola filosófica; nossas explicações anteriores devem dispensar aqui, a este respeito, qualquer outro esclarecimento, aliás reservado ao trabalho tão freqüentemente indicado neste Discurso. Importa somente acrescentar, sobre este assunto, que a concentração de nossos pensamentos e de nossa atividade sobre a vida real da Humanidade, afastando toda vã ilusão, há de tender especialmente a tornar muito mais forte a adesão moral e política do povo propriamente dito à verdadeira filosofia moderna. Com efeito o seu judicioso instinto logo perceberá nesta um novo e poderoso motivo de dirigir sobretudo a prática social para o criterioso e contínuo melhoramento da sua própria condição geral. Ao contrário, as quiméricas esperanças inerentes à antiga filosofia teológica conduziram demasiadas vezes a desdenhar tais progressos ou afastá-los por uma espécie de adiamento contínuo, em virtude da mínima importância relativa que naturalmente devia deixar-lhes essa eterna perspectiva, imensa compensação espontânea de quaisquer misérias.

    2o. – Natureza da participação do governo na propagação das noções positivas

    67. Esta, sumária apreciação basta agora para assinalar, sob os diversos aspectos essenciais, a afinidade necessária das classes inferiores relativamente à filosofia positiva, a qual, logo que o contato puder plenamente estabelecer-se, nelas achará seu principal apoio natural, a um tempo mental e social, enquanto a filosofia teológica não convém mais senão às classes superiores, cuja preponderância política ela tende a eternizar, assim como a filosofia metafísica se dirige sobretudo às classes médias, cuja ativa ambição secunda. Todo espírito meditativo deve assim acabar por compreender a importância verdadeiramente fundamental que apresenta hoje uma criteriosa divulgação sistemática dos estudos positivos, destinada essencialmente aos proletários, a fim de preparar entre eles uma sã doutrina social. Os diversos observadores que se podem libertar, mesmo momentaneamente, do turbilhão diário, concordam agora em deplorar, e certamente com muita razão, a anárquica influência que os sofistas e retóricos exercem em nossos dias. Mas essas justas queixas serão inevitavelmente vãs até que se sinta melhor a necessidade de sair enfim de uma situação mental onde a educação oficial não pode terminar ordinariamente senão por formar sofistas e retóricos, que tendem, em seguida, através do tríplice ensino emanado dos jornais, dos romances e dos dramas, a propagar o mesmo espírito entre as classes inferiores, que a nenhuma instrução regular garante do contágio metafísico, repelido somente pela sua razão natural. Embora se deva esperar, a este título, que os governos atuais perceberão logo quanto a universal propagação dos conhecimentos reais pode secundar cada vez mais seus esforços contínuos para a manutenção da ordem indispensável, não devemos contudo esperar deles, nem mesmo desejar, uma cooperação verdadeiramente ativa nesta grande preparação racional, que deve por muito tempo resultar especialmente do zelo privado e livre, inspirado e sustentado por genuínas convicções filosóficas. A imperfeita observação de uma grosseira harmonia política, sempre comprometida no meio de nossa desordem mental e moral, mui justamente absorve sua solicitude diária e mantém os governos atuais num ponto de vista demasiado inferior para que dignamente possam compreender a natureza e as condições de semelhante trabalho, cuja importância devemos pedir apenas que entrevejam. Se, por um zelo intempestivo, tentassem dirigi-lo hoje, sem o ligarem a uma filosofia bastante decisiva, só conseguiriam alterá-los profundamente, comprometendo-lhe a eficácia e fazendo-o degenerar logo em incoerente acúmulo de especialidades superficiais. Assim a escola positiva, que resultou de ativo e voluntário concurso dos espíritos verdadeiramente filosóficos, não terá durante muito tempo que pedir aos nossos governos ocidentais, para convenientemente desempenhar a sua grande missão social, senão a plena liberdade de exposição e de discussão, equivalente a de que já gozam a escola teológica e a metafísica. Uma pode todos os dias, nas suas mil tribunas sagradas, preconizar, à sua vontade, a excelência absoluta de sua eterna doutrina e votar todos os seus adversários a uma irrevogável danação; a outra, em suas numerosas cátedras, que a munificência nacional lhe sustenta, pode diariamente desenvolver, diante de imensos auditórios, a eficácia universal de suas concepções ontológicas e a preeminência indefinida de seus estudos literários. Sem pretender tais vantagens, que só o tempo deve proporcionar, a escola positiva pede apenas o simples direito de asilo regular nos edifícios municipais, para aí fazer diretamente apreciar sua aptidão final a satisfazer simultaneamente todas as nossas grandes necessidades sociais, propagando, com sabedoria, a única instrução sistemática que possa de ora em diante preparar uma verdadeira reorganização, primeiro mental, depois moral, e enfim política. Contanto que este livre acesso lhe seja sempre garantido, o zelo voluntário e gratuito de seus raros promotores será secundado pelo bom senso universal, e, sob o impulso crescente da situação fundamental, jamais temerá sustentar, mesmo a partir deste momento, uma ativa concorrência filosófica relativamente aos muitos e poderosos órgãos, mesmo reunidos, das duas escolas antigas. Ora, não se deve temer mais que, de agora em diante, os homens de Estado se afastem gravemente, neste sentido, da imparcial moderação inerente à sua própria indiferença especulativa: a escola positiva tem mesmo razão para contar, sob este aspecto, com a benevolência habitual dos mais inteligentes dentre eles, não somente em França, mas em todo o nosso Ocidente. A sua contínua vigilância sobre este ensino livre e popular, se limitará logo a prescrever-lhe apenas a permanente condição de uma genuína positividade, afastando dele, com inflexível severidade, a introdução, demasiado iminente ainda, das especulações vagas ou sofísticas. Mas, a este respeito, as necessidades eventuais da escola positiva estão diretamente de acordo com os deveres naturais dos governos; porque, se estes devem repelir tal abuso em virtude de sua tendência anárquica, aquela, além deste justo motivo, o julga plenamente contrário ao destino fundamental de semelhante ensino, por alentar esse mesmo espírito metafísico, onde ela hoje enxerga o principal obstáculo ao advento da nova filosofia. Sob este aspecto, como a qualquer outro titulo, os filósofos positivos se sentirão sempre quase tão interessados quanto os poderes atuais, na dupla manutenção contínua da ordem interior e da paz exterior, porque nela vêem a condição mais favorável à verdadeira renovação mental e moral: somente, do ponto de vista que lhes é próprio, eles devem perceber de mais longe o que poderia comprometer ou consolidar esse grande resultado político do conjunto de nossa situação transitória.

    CAPÍTULO III
    ORDEM NECESSÁRIA DOS ESTUDOS POSITIVOS

    68. Caracterizamos agora suficientemente, a todos os respeitos, a importância capital que hoje apresenta a universal propagação dos estudos positivos, sobretudo entre os proletários, para constituírem de ora avante indispensável ponto de apoio, mental e social, à elaboração filosófica que gradualmente deve determinar a reorganização espiritual das sociedades modernas. Semelhante apreciação ficaria, porém, incompleta e mesmo insuficiente, se a parte final deste Discurso não fosse diretamente consagrada a estabelecer a ordem fundamental que convém a essa série de estudos, de maneira a fixar a verdadeira posição, que deve ocupar, em seu conjunto, aquele que será em seguida o objeto exclusivo deste Tratado. Longe de ser este arranjo didático quase indiferente, como o nosso vicioso regime científico muitas vezes o faz supor, podemos assegurar, pelo contrário, que é dele sobretudo que depende a principal eficácia, intelectual ou social, desta grande preparação. Existe, além disto, íntima solidariedade entre a concepção enciclopédica donde resulta esse estudo e a lei fundamental da evolução que serve de base à nova filosofia geral.

    1o. – Lei da classificação

    69. Semelhante ordem deve, por sua natureza, preencher duas condições essenciais, uma dogmática, outra histórica, cuja convergência necessária cumpre desde logo reconhecer: a primeira consiste em ordenar as ciências segundo sua dependência sucessiva, de sorte que cada uma repousa sobre a precedente e prepara a seguinte; a segunda manda dispô-las de acordo com a marcha de sua formação efetiva, passando sempre das mais antigas às mais recentes. Ora, a equivalência espontânea destas duas vias enciclopédicas resulta, em geral, da identidade fundamental que existe inevitavelmente entre a evolução individual e a evolução coletiva, as quais, tendo igual origem, destino semelhante e um mesmo agente, devem sempre oferecer fases correspondentes, salvo as únicas diversidades de duração, de intensidade e de velocidade, inerentes à desigualdade dos dois organismos. Tal concurso necessário permite, pois, conceber estes dois modos como dois aspectos correlatos de um mesmo princípio enciclopédico, de modo que se possa empregar habitualmente aquele que, em cada caso, melhor manifestar as relações consideradas, e com a preciosa faculdade de poder constantemente verificar por um o que tiver resultado do outro,

    70. A lei fundamental dessa ordem comum, de dependência dogmática e de sucessão histórica, foi completamente estabelecida na grande obra já citada e cujo plano geral ela determina. Consiste em classificar as ciências de acordo com a natureza dos fenômenos estudados, segundo sua generalidade e sua independência decrescentes, ou sua complicação crescente, donde resultam . especulações cada vez mais abstratas e mais difíceis, mas também cada vez mais eminentes e completas, em virtude de sua relação mais intima com o homem, ou antes com a Humanidade, objeto final de todo o sistema teórico. Esta classificação tira o seu principal valor filosófico, tanto científico como lógico, da identidade constante e necessária que existe entre todos estes diversos modos de comparação especulativa dos fenômenos naturais, e donde resultam outros tantos teoremas enciclopédicos, cuja explicação e uso pertencem à obra citada, que, além disto, sob o ponto de vista ativo, lhe acrescenta esta importante relação geral: que os fenômenos, segundo a ordem de classificação, se tornam cada vez mais modificáveis, e assim oferecem um campo gradativamente mais vasto à intervenção humana. Basta indicar aqui de modo sumário a aplicação deste grande princípio à determinação racional da verdadeira hierarquia dos estudos fundamentais, diretamente concebidos de ora avante como os diferentes elementos essenciais de uma ciência única, a da Humanidade

    2o. – Lei enciclopédica ou hierarquia das ciências

    71. Este objeto final de todas as nossas especulações reais exige evidentemente, por sua natureza, ao mesmo tempo científica e lógica, duplo preâmbulo indispensável, relativo, de um lado, ao homem propriamente dito, de outro, ao mundo exterior. E, de fato, não poderiam os fenômenos, estáticos ou dinâmicos, da sociabiidade ser estudados racionalmente se não fossem primeiro conhecidos o agente especial que os opera e o meio geral onde se realizam. Daí resulta, pois, a divisão necessária da filosofia natural, destinada a preparar a filosofia social, em dois grandes ramos, um orgânico, outro inorgânico. Quanto à disposição relativa destes dois estudos igualmente fundamentais, todos os motivos essenciais, quer científicos, quer lógicos, concorrem para prescrever, na educação individual e na evolução coletiva, que se comece pelo segundo, cujos fenômenos mais simples e mais independentes, em razão de sua generalidade superior, são os únicos a comportar desde logo uma apreciação verdadeiramente positiva, enquanto suas leis, diretamente relativas à existência universal, exercem em seguida uma influência necessária sobre a existência especial dos corpos vivos. A Astronomia constitui necessariamente, a todos os respeitos, o elemento mais decisivo desta teoria preliminar do mundo exterior, quer por ser mais suscetível de plena positividade, quer na medida em que caracteriza o meio geral de quaisquer de nossos fenômenos, e ainda por manifestar, sem nenhuma outra complicação, a simples existência matemática, isto é, geométrica ou mecânica, comum a todos os seres reais. Mesmo, porém, quando condensássemos o mais possível as verdadeiras concepções enciclopédicas, não poderíamos reduzir a filosofia inorgânica a este elemento principal, porque ela ficaria então completamente isolada da filosofia orgânica. O seu laço fundamental, científico e lógico, consiste sobretudo no ramo mais complexo da primeira: o estudo dos fenômenos de composição e de decomposição, os mais eminentes daqueles que a existência universal comporta e os mais próximos da ordem vital propriamente dita. É assim que a filosofia natural, encarada como preâmbulo necessário da filosofia social, decompondo-se a princípio em dois estudos extremos e um intermediário, compreende sucessivamente estas três grandes ciências, a Astronomia, a Química e a Biologia, das quais a primeira se liga imediatamente à origem espontânea do verdadeiro espírito científico e a última ao seu destino essencial. Seu surto inicial respectivo refere-se historicamente à antigüidade grega, à Idade Média e à época moderna.

    72. Semelhante apreciação enciclopédica não preenche ainda as condições indispensáveis de continuidade e de espontaneidade peculiares a tal assunto: por um lado deixa uma lacuna capital entre a Astronomia e a Química, cuja ligação não poderia ser direta; por outro não indica suficientemente a verdadeira origem deste sistema especulativo, como simples prolongamento abstrato da razão comum, cujo ponto de partida científico não podia ser diretamente astronômico. Para completar, porém, a fórmula fundamental, basta nela inserir, em primeiro lugar, entre a Astronomia e a Química, a Física propriamente dita, que só adquiriu existência distinta sob Galileu; em segundo lugar, colocar, no começo deste vasto conjunto, a Ciência Matemática, único berço necessário da positividade racional, tanto para o indivíduo como para a espécie. Se, por uma aplicação mais especial do nosso princípio enciclopédico, se decompuser, por sua vez, esta ciência inicial em seus três grandes ramos, o Cálculo, a Geometria e a Mecânica, determinar-se-á enfim, com a última precisão filosófica, a verdadeira origem de todo o sistema científico, saído a princípio, com efeito, das especulações puramente numéricas, que, sendo as mais gerais, as mais abstratas e as mais independentes de todas, quase se confundem com a irrupção espontânea do espírito positivo nas inteligências mais vulgares, como o confirma ainda, sob os nossos olhos, a observação, diária do desenvolvimento individual.

    73. Chega-se, assim, de modo gradual, a descobrir a invariável hierarquia, a um tempo histórica e dogmática, igualmente científica e lógica, das seis ciências fundamentais, a Matemática, a Astronomia, a Física, a Química, a Biologia e a Sociologia, das quais a primeira constitui necessariamente o ponto de partida exclusivo e a última o fim único e essencial de toda a filosofia positiva, encarada daqui por diante como formando, por sua natureza, um sistema verdadeiramente indivisível, onde toda decomposição é radicalmente artificial, sem ser, aliás, de nenhum modo, arbitrária, pois tudo nele se refere enfim à Humanidade, única concepção plenamente universal. O conjunto desta fórmula enciclopédica, exatamente conforme às verdadeiras afinidades dos estudos correspondentes, compreendendo, além disso, sem nenhuma dúvida, todos os elementos de nossas especulações reais, permite enfim a cada inteligência renovar à sua vontade a história geral do espírito positivo, ao passar, de modo quase insensível, das mais insignificantes idéias matemáticas aos mais altos pensamentos sociais. É claro, com efeito, que cada uma das quatro ciências intermediárias se confunde, por assim dizer, com a precedente quanto aos seus fenômenos mais simples e com a seguinte quanto aos mais eminentes. Esta perfeita continuidade espontânea se tornará sobretudo irrecusável a todos que reconhecerem, na obra acima indicada, que o mesmo princípio enciclopédico fornece também a classificação racional das diversas partes constituintes de cada estudo fundamental, de sorte que os degraus dogmáticos e as fases históricas se podem exprimir tanto quanto o exige a precisão das comparações ou a facilidade das transições.

    74. No estado presente das inteligências, a aplicação lógica desta grande fórmula é ainda mais importante do que o seu uso científico, por ser o método, em nossos dias, mais essencial do que a própria doutrina, e além disso o único imediatamente suscetível de plena regeneração. Sua principal utilidade consiste, pois, hoje, em determinar, com rigor, a marcha invariável de toda educação realmente positiva, no meio dos preconceitos irracionais e dos viciosos hábitos peculiares ao desenvolvimento preliminar do sistema científico, formado, assim, gradualmente de teorias parciais e incoerentes, cujas relações deviam até hoje permanecer despercebidas de seus fundadores sucessivos. Todas as classes atuais de sábios violam agora, com igual gravidade, ainda que a títulos diversos, esta obrigação fundamental. Limitando-nos aqui a indicar os dois casos extremos: os geômetras, justamente orgulhosos de se acharem colocados na verdadeira origem da positividade racional, se obstinam às cegas em reter o espírito humano neste grau puramente inicial do verdadeiro desenvolvimento especulativo, sem jamais considerarem o seu único destino necessário; ao revés, os biologistas, enaltecendo, com bom direito, a dignidade superior do seu assunto, imediatamente vizinho deste grande destino, persistem em manter seus estudos em irracional insulamento, libertando-se arbitrariamente da difícil preparação que a sua natureza exige. Estas disposições opostas, mas por igual empíricas, conduzem freqüentemente hoje, uns, a vão desperdício de esforços intelectuais, consumidos daqui por diante em pesquisas mais e mais pueris; outros, a uma instabilidade contínua das diversas noções essenciais, por falta de marcha verdadeiramente positiva. Sob este último aspecto, sobretudo, deve-se notar, com efeito, que os estudos sociais não são agora os únicos a permanecerem ainda exteriores ao sistema plenamente positivo, sob o estéril domínio do espírito teológico-metafísico; na realidade, os próprios estudos biológicos, sobretudo dinâmicos, embora estejam academicamente constituídos, não alcançaram também até aqui, uma verdadeira positividade, pois nenhuma doutrina capital se acha hoje neles esboçada no grau requerido, de sorte que o campo das ilusões e das charlatanices ainda aí permanece quase indefinido. Ora, o deplorável prolongamento de semelhante situação resulta essencialmente, em ambos os casos, do insuficiente preenchimento das grandes condições lógicas determinadas por nossa lei enciclopédica; porque ninguém contesta mais, há muito tempo, a necessidade de se adotar naqueles estudos a marcha positiva: mas todos lhe desconhecem a natureza e as obrigações que só a genuína hierarquia positiva pode caracterizar. Que esperar, com efeito, quer em relação aos fenômenos sociais, quer mesmo em relação ao estudo mais simples da vida individual, de uma cultura que empreende diretamente especulações tão complexas, sem para tal se ter dignamente preparado através de sã apreciação dos métodos e das doutrinas relativas aos diversos fenômenos menos complicados e mais gerais, sem poder, portanto, suficientemente conhecer nem a lógica indutiva, caracterizada principalmente, no estado rudimentar, pela Química, pela Física, e antes pela Astronomia, nem mesmo a pura lógica dedutiva, ou a arte elementar do raciocínio decisivo, que só a Matemática pode convenientemente desenvolver?

    75. Para facilitar o uso habitual de nossa fórmula hierárquica, é muito conveniente, quando não se tem necessidade de grande precisão enciclopédica, sejam os seus termos grupados dois a dois, reduzindo-a a três pares, um inicial, matemático-astronômico, outro final, biológico-sociológico, separados e reunidos pelo par intermediário, físico-químico. Esta feliz condensação resulta de irrecusável apreciação, pois existe, de fato, maior afinidade natural, tanto científica como lógica, entre os dois elementos de cada par do que entre os próprios pares consecutivos, como o confirma muitas vezes a dificuldade que se experimenta em separar nitidamente a Matemática da Astronomia, e a Física da Química, em virtude dos hábitos vagos que ainda dominam todos os pensamentos de conjunto; a Biologia e a Sociologia, sobretudo, continuam quase a ser confundidas pela maior parte dos pensadores atuais. Sem chegar nunca até essas viciosas confusões, que alterariam radicalmente as transições enciclopédicas, será, as mais das vezes, útil reduzir assim a hierarquia elementar das especulações reais aos três pares mencionados, cada um dos quais poderá, aliás, ser designado brevemente pelo seu elemento mais especial, que é sempre, na realidade, o mais característico e o mais próprio para definir as grandes fases da evolução positiva, individual e coletiva.

    3o. – Importância da lei enciclopédica

    76. Esta apreciação sumária basta aqui para indicar o destino e assinalar a importância de semelhante lei enciclopédica, onde reside, afinal, uma das duas idéias-mães, cuja íntima combinação espontânea constitui necessariamente a base sistemática da nova filosofia geral. A terminação deste longo Discurso, no qual o genuíno espírito positivo foi caracterizado sob todos os aspectos essenciais, aproxima-se, assim, do seu começo, pois esta teoria da classificação deve ser encarada, em último lugar, como naturalmente inseparável da teoria da evolução, ali exposta; de sorte que o Discurso atual forma, por si mesmo, verdadeiro conjunto, imagem fiel, embora muito reduzida, de um vasto sistema. É fácil compreender, com efeito, que a consideração habitual de semelhante hierarquia deve tornar-se indispensável, quer para aplicar, de modo conveniente, nossa lei inicial dos três estados, quer para dissipar suficientemente as únicas objeções sérias que possa comportar; porque a freqüente simultaneidade histórica das três grandes fases mentais para com especulações diferentes, constituiria, de qualquer outro modo, inexplicável anomalia que, ao contrário, nossa lei hierárquica, a qual se refere tanto à sucessão quanto à dependência dos diversos estudos positivos, resolve espontaneamente. Concebe-se igualmente em sentido inverso que a regra de classificação supõe a da evolução, pois todos os motivos essenciais da ordem assim estabelecida resultam, no fundo, da desigual rapidez de semelhante desenvolvimento entre as diferentes ciências fundamentais.

    77. A combinação racional entre estas duas idéias-mães constitui a unidade necessária do sistema científico, onde todas as partes concorrem cada vez mais para um mesmo fim, e assegura também, por outro lado, a justa independência das diversas ciências principais, ainda amiúde muito alterada por viciosas aproximações. O espírito positivo, no seu desenvolvimento preliminar, único até aqui realizado, teve de estender-se gradualmente dos estudos inferiores aos superiores, de modo que estes ficaram inevitavelmente expostos à opressiva invasão dos primeiros, contra o ascendente dos quais sua indispensável originalidade não achava a princípio garantia senão no prolongamento exagerado da tutela teológico-metafísica. Esta deplorável flutuação, muito sensível ainda na ciência dos corpos vivos, caracteriza hoje o que contém de real, no fundo, as longas controvérsias, aliás tão vãs, sob qualquer outro aspecto, entre o materialismo e o espiritualismo, representando, de modo provisório, sob formas igualmente viciosas, as necessidades igualmente graves, embora infelizmente opostas até aqui da realidade e da dignidade de quaisquer de nossas especulações. Havendo, doravante, atingido sua madureza sistemática, o espírito positivo dissipa ao mesmo tempo essas duas ordens de aberrações, terminando esses estéreis conflitos pela satisfação simultânea destas duas condições viciosamente contrárias, como o indica logo nossa hierarquia científica combinada com a nossa lei da evolução, pois cada ciência não pode atingir o verdadeiro estado positivo senão quando a originalidade do seu caráter próprio se acha plenamente consolidada.

    CONCLUSÃO
    APLICAÇÃO AO ENSINO DA ASTRONOMIA

    78. Uma aplicação direta desta teoria enciclopédica, ao mesmo tempo científica e lógica, nos conduz enfim a definir exatamente a natureza e o destino do ensino especial ao qual este Tratado é consagrado. Resulta, com efeito, das explicações precedentes, que a principal eficácia, primeiro mental, depois social, que devemos procurar hoje na criteriosa propagação universal dos estudos positivos depende necessariamente da estrita observância didática da lei hierárquica. Para cada rápida iniciação individual, como para a lenta iniciação coletiva, será sempre indispensável que, desenvolvendo seu regime, o espírito positivo, à medida que expande seu domínio, se eleve aos poucos, do estado matemático inicial ao estado sociológico final, percorrendo sucessivamente os quatro degraus intermediários, astronômico, físico, químico e biológico. Nenhuma superioridade individual pode verdadeiramente dispensar desta gradação fundamental, a respeito da qual temos sobejas ocasiões de verificar hoje, em altas inteligências, uma irreparável lacuna, que por vezes tem neutralizado eminentes esforços filosóficos. Semelhante marcha deve, pois, tornar-se ainda mais indispensável na educação universal, onde as especialidades têm pouca importância, e cuja principal utilidade, mais lógica do que científica, exige essencialmente plena racionalidade, sobretudo quando se trata de constituir enfim o verdadeiro regime mental. Assim, este ensino popular deve referir-se principalmente ao primeiro par científico, até que se ache convenientemente vulgarizado. É aí que todos devem, em primeiro lugar, haurir as verdadeiras noções elementares da sua positividade geral, adquirindo os conhecimentos que servem de base a todas as outras especulações reais. Embora esta estrita obrigação conduza forçosamente a colocar no começo os estudos puramente matemáticos, cumpre, entretanto, considerar que não se trata ainda de estabelecer uma sistematização direta e completa da instrução popular, mas apenas de imprimir convenientemente o impulso filosófico que a ela deve conduzir. Desde então se reconhece com facilidade que semelhante movimento deve depender sobretudo dos estudos astronômicos, que, por sua natureza, oferecem necessariamente a plena manifestação do genuíno espírito matemático, do qual constituem, no fundo, o principal destino. Há tanto menos inconvenientes atuais em caracterizar, assim, o par inicial pela Astronomia só, quanto os conhecimentos matemáticos realmente indispensáveis à sua judiciosa divulgação já estão bastante difundidos ou são bastante fáceis de adquirir, para que nos possamos limitar hoje a supô-los provindos de uma preparação espontânea.

    79. Esta preponderância necessária da ciência astronômica na primeira propagação sistemática da iniciação positiva é plenamente conforme à influência histórica de tal estudo, principal motor até aqui das grandes revoluções intelectuais. O sentimento fundamental da invariabilidade das leis naturais devia desenvolver-se, com efeito, primeiramente em relação aos fenômenos mais simples e mais gerais, cuja regularidade e grandeza superiores nos manifestam a única ordem real que seja por completo independente de qualquer intervenção humana. Antes mesmo de comportar um caráter genuinamente científico, esta classe de concepções determinou sobretudo a passagem decisiva do fetichismo ao politeísmo, que resultou em toda parte do culto dos astros. Seu principal esboço matemático, nas escolas de Tales e Pitágoras, constituiu em seguida a principal origem mental da decadência do politeísmo e do ascendente do monoteísmo. Enfim o desenvolvimento sistemático da positividade moderna, que tende abertamente para um novo regime filosófico, resultou essencialmente da grande renovação astronômica começada por Copérnico, Kepler e Galileu. Não é, pois, muito de admirar que a universal iniciação positiva, sobre a qual deve apoiar-se o advento direto da filosofia definitiva, dependa também primeiramente de semelhante estudo, em virtude da conformidade necessária da educação do indivíduo com a evolução coletiva. Este é, sem dúvida, o último ofício fundamental que lhe deva ser próprio no desenvolvimento geral da razão humana, a qual, tendo uma vez atingido, entre todos, uma verdadeira positividade, deverá marchar em seguida sob um novo impulso filosófico diretamente emanado da ciência final, desde então para sempre investida na sua presidência normal. Tal é a eminente utilidade, não menos social do que mental, que se trata aqui de retirar enfim de judiciosa exposição popular do sistema atual dos sãos estudos astronômicos.

    NOTAS

    (1) Quase todas as explicações habituais relativas aos fenômenos sociais, a maior parte das que concernem ao homem intelectual e moral, uma grande parte de nossas teorias fisiológicas ou médicas, e mesmo várias teorias químicas, etc., lembram ainda diretamente a estranha maneira de filosofar tão jocosamente caracterizada por Moliere, sem nenhum grave exagero, a propósito, por exemplo, da virtude dormitiva do ópio, de conformidade com o abalo decisivo que Descartes acabava de fazer experimentar a todo o regime das entidades.

    (2) Sobre esta apreciação geral do espírito e da marcha peculiares ao método positivo, pode-se estudar, com muito fruto, a preciosa obra intitulada: A system of logic, rationative and inductive, recentemente publicada em Londres (John Parker, West Strand, 1843), pelo meu eminente amigo John Stuart Mill, que se associou assim plenamente, de ora avante, à fundação direta da nova filosofia. Os sete últimos capítulos do tomo primeiro contêm uma admirável exposição dogmática, tão profunda quão luminosa, da lógica indutiva, que não poderá nunca, ouso assegurá-lo, ser mais bem concebida, nem mais bem caracterizada, desde que nos coloquemos no mesmo ponto de vista em que o autor se colocou.

    (3) As constituições francesas de 1791 e 1795 (Beesly).

    (4) A reação política e clerical efetuada por Bonaparte e continuada sob Luís XVIII e Carlos X (Beesly).

    (5) Esta preponderância empírica do espírito de minúcia na maior parte dos cientistas atuais e sua cega antipatia por toda e qualquer generalização acham-se muito agravadas, especialmente em França, por sua reunião habitual em academias, onde os diversos preconceitos analíticos se fortificam mutuamente, e onde, além disto, mui freqüentemente se desenvolvem interesses abusivos, aí se organizando uma espécie de insurreição permanente contra o regime sintético que deve prevalecer de agora em diante. O instinto de progresso que caracterizava, há cerca de meio século, o gênio revolucionário, havia confusamente sentido estes perigos essenciais, de modo a determinar a supressão direta dessas companhias atrasadas, que, convindo somente à elaboração preliminar do espírito positivo, se tornavam cada vez mais hostis à sua sistematização final. Embora esta audaciosa medida, em geral tão mal julgada, fosse então prematura, porque esses graves inconvenientes não podiam ainda ser assaz reconhecidos, é, contudo, certo que essas corporações científicas já haviam realizado o principal ofício que sua natureza comportava: depois de restaurada, sua influência real foi, no fundo, muito mais nociva do que útil à marcha atual da grande evolução mental.

    Tradução: Renato Barboza Rodrigues Pereira
    Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores

    Nélson Jahr Garcia (in memorian!)

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