NOITES TROPICAIS

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A música brasileira sempre impressionou o mundo com a sua diversidade. Atualmente, convivemos harmonicamente com o sertanejo e o pagode, o rock estrangeiro e o pop nacional. Em 1967, tanto o Tropicalismo quanto a Jovem Guarda, dois movimentos de características musicais bem distintas, fazia a alegria dos jovens da época.

Na década de 60, à época dos famosos festivais de MPB da Record, surgiram alguns jovens com uma linguagem, verbal e musical, completamente diferete daquela que predominava. Depois da Bossa Nova e da MPB com seus shows no estilo “banquinho e violão” e suas suaves melodias e doces palavras, apareceram jovens tocando guitarras elétricas, fazendo uma música barulhenta, mas de extrema qualidade musical e expressão política. Esses jovens eram Caetano Veloso, Gilberto Gil, o grupo Os Mutantes e Tom Zé, apoiados em textos de Torquato Neto e Capinan e nos arranjos dos maestros Rogério Duprat e Júlio Medaglia. Surgia um novo movimento: o tropicalismo.

O ponto de partida do movimento foi o III Festival de MPB da TV Record, realizado em 1967, do qual sairam vencedores Gilberto Gil e Caetano Veloso, com suas composições “Domingo no Parque” e “Alegria, alegria”, respectivamente.

Montar algo diferente, partindo de elementos regionais, baianos, para o festival da TV Record: esse era o projeto de Gil ao começar a pensar na canção que faria (“Domingo no Parque”). “Daí a idéia”, conta ele, “de usar um toque de berimbau, de roda de capoeira, como numa cantiga folclórica. O início da melodia e da letra da música já é tirado desses modos. Com a caracterização do capoeirista e do feirante como personagens, eu já tinha os elementos nítidos para começar a criação da história.”.

Combatendo o nacionalismo ingênuo que novamente pairava nos meios culturais brasileiros, como na década de 20, os tropicalistas defendiam uma arte de renovação que se caracterizava por um nacionalismo crítico e antropófago, que deglutia ao mesmo tempo os Beatles e suas guitarras elétricas, João Gilberto e Luiz Gonzaga.

Os tropicalistas recuperaram certas propostas lançadas pelos modernistas em 1922, tais como a técnica cinematográfica (claramente presente em “Domingo no Parque”), a fragmentação e a enunciação caótica. Com uma perspectiva dinâmica e crítica da cultura e da realidade brasileira, denunciaram e ironizaram as contradições do país, que, sob a égide da ditadura militar, acreditava em milagres da industrialização e do capital estrangeiro, sonhava com o Volkswagen zero e via o Chacrinha na televisão. Era um país de bananeiras, de índios, de baião e de frevo, mas também de Brasília, da poluição paulista, de movimentos estudantil e operário, de dívida externa, de rock, de chiclete e de Pelé. Além da música, os reflexos das propostas tropicalistas também se fizeram sentir na literatura e no teatro.

Com o AI-5, os expoentes da cultura brasileira desse período exilam-se “voluntariamente”: Caetano, Gil, Chico Buarque, Augusto Boal (Teatro de Arena) e José Martinez (Teatro Oficina), entre outros. Tem fim prematuro um movimento cujas marcas ainda podem ser observadas na produção cultural de hoje, em especial na música e na poesia. A partir de então, com as restrições da censura política, a linguagem artística tem dois caminhos: ou o silêncio, ou a metáfora.

Alguns anos antes do Tropicalismo estourar em 67, Roberto e Erasmo já tinham sucesso e reconhecimento. “Parei na Contramão”, a primeira música que fizeram juntos, tocava nas rádios o dia inteiro. Roberto Carlos era um sucesso. Mas em copacabana e no Beco das Garrafas, ninguém sabia. “Sucesso no rádio, nos programas de rock de Imperial e Jair de Taumaturgo, nos bailes de sábado nos subúrbios e nos clubes da Zona Norte, sucesso nos circos que percorriam a Baixada Fluminense.”.

Em 64, a dupla estourou outro sucesso, o rock “É Proibido Fumar”. “Até o Beco das Garrafas agora sabia que ele era um sucesso, e apesar (ou por causa) disso o desprezava.

A música de Roberto era um tanto diferente das ouvidas e apreciadas no Beco das Garrafas, onde se ouvia muita MPB e Bossa Nova. Inspirado no Elvis, Roberto Carlos era cabeludo e tocava rock, vivia a época da “febre do rock”.

Era inegável o sucesso que Roberto Carlos fazia com os jovens, principalmente com as meninas, a TV Record achou que ele poderia comandar mais um de seus programas musicais. Ao lado de Erasmo e Wanderléia, Roberto Carlos comandava o “Jovem Guarda”, nome da coluna “jovem” de Ricardo Amaral no jornal Última Hora, que ia ao ar, ao vivo, todas as tardes de domingo.

Assim como a Bossa Nova e a MPB, a Jovem Guarda tinha o seu próprio programa. Isso só aumentou a rivalidade entre Jovem Guarda e MPB, que existia desde os tempos de anonimato, entre a Zona Sul e a Zona Norte. Começava a briga entre a “música jovem” de Roberto e a “música brasileira” dos astros da MPB. Com o Tropicalismo, isso só aconteceu na mídia. Chico e Caetano faziam o possível para manter a amizade depois de inúmeras brigas inventadas pela mídia, que estimulava a rivalidade entre os gêneros musicais.

O Tropicalismo e a Jovem Guarda surgiram em uma mesma época, mas uma época de mudanças e conflitos sociais e políticos. Tanto a Jovem Guarda quanto o Tropicalismo foram movimentos criados por jovens que tinham a consciência disso. Sabiam que precisavam mudar algumas coisas no país e, dentro da música, encontraram seus caminhos. Caminhos diferentes, eram jovens diferentes que pensavam diferentemente. Protestavam, cada um a sua maneira, contra o que acreditavam estar errado, mas, acima de tudo, queriam cantar.

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