PSICOLOGIA SOCIAL NA AMERICA LATINA

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A América Latina foi um continente muito explorado devido à colonização por parte da Europa, colonização essa que se constituiu na retirada de riquezas da terra, como os metais preciosos, e na completa desconsideração pela cultura das sociedades indígenas.

Deu-se a mistura dos povos: Europeus de diversas áreas, indígenas e africanos da escravatura, formando um povo miscigenado tanto geneticamente quanto culturalmente. Encontrar aí a pureza cultural é de grande valor, mas quase impossível.

Independente disso, foi esse povo que, demasiadamente explorado, passou a buscar a independência, mas sempre tangenciando a utopia política. Assim formou-se um ambiente anárquico que abriu espaço para o controle militar através de ditaduras impostas, que controlavam a população através da força e da manipulação intelectual; essa última com graves conseqüências sobre a consciência social dos indivíduos, pois limitou sua visão.

Depois disso veio a industrialização globalizada, que mudou a face da economia e tirou o sustento agrícola de grande parte da população. Foi vivendo nesse contexto que os Psicólogos Sociais passaram a questionar seu conhecimento e a efetiva aplicação dele. Assim, a Psicologia Social passou a se dirigir, na América Latina, à idéia de transformação da população, no sentindo de instruí-la para que se tornasse uma nação integrada e capaz de agir por si mesma.

Surgiram vários estudiosos, como Paulo Freire e Orlando Borda com metodologias de atividades de conscientização com pequenos grupos. Esses dois estudiosos impulsionaram a busca de novo conhecimento, dando grande atenção à area da educação popular.

Há o nascimento da Psicologia Comunitária, que visa a formação de uma comunidade. Com ela passa a haver maior interação entre os profissionais e estudantes da área com a população, revelando a importância da valorização da sabedoria popular nessa comunicação. Há também a identificação de traços individuais em meio ao coletivo, reforçando a idéia do ser humano como parte inerente de uma estrutura maior. A Psicologia passa a ser política e consciente, e jamais neutra.

Originalmente a Psicologia se tratava do estudo da alma do homem, passando a analisar suas ações e reações como forma de alcançar essa alma. Ela passa ao método científico com Wundt, que vê o homem ao mesmo tempo como um organismo fisiológico em uma escala evolutiva e como um ser social.

Com Marx há a denúncia do distanciamento do estudo da realidade, causando grande impacto sobre as Ciências Humanas, colocando o homem como ao mesmo tempo alienado e autor da história social. Essa dicotomia foi o desafio da Psicologia na América Latina, que lutando para englobá-la pretendia lidar com os problemas sociais como as injustiças e a opressão.

Nos anos 70 essa característica se tornou ainda mais presente, pois nessa época houve na América Latina grande demanda de uma psicologia crítica e de um efetivo trabalho com a população. Agora o desafio é conhecer o verdadeiro ser humano: O cotidiano, a história, a sociedade e a cultura.

Esse ser passa então a ser encarado como biológico e social, individual e coletivo. Seus atos são explicados tanto por seus motivos internos como pela influência do outro, da sociedade. Seus desejos, sua religião, o “estado humano”: um ser com energia psíquica, capaz de criar e destruir, que vive na realidade da natureza, de deus e de si mesmo, os vivendo através do sentir.

No homem se manifestam assim a emoção, que leva à comunicação, e o pensamento, que leva à criação. Se constrói o conhecimento, transmitido pelas gerações e indispensável para a sobrevivência; enquanto da emoção vem a arte, sempre manifesta através da história e singular canal da comunicação.

Do raciocínio e consciência surge a moral, e com ela o que seria a espécie do homem-mulher, formando o agrupamento central do ser humano: a família. A psicologia muito se dedica ao estudo dessa racionalidade e sua interação com a emoção, como sugere Freud quando fala da repressão de sentimentos contraditórios ou inaceitáveis. Surge a idéia de impulso, pulsão, supostos instintos, e a imagem do homem como, apesar de humano, animal.

Seria a linguagem o grande limite dessa humanidade: o homem tem assim a sua liberdade, se desvencilha dos gestos, das predeterminações do comportamento; ele inventa, e inventa sobre si mesmo, sobre a sociedade, criando toda uma realidade que logo se torna fundamental, indispensável para a vida. Surgem também as leis, as instituições, o que seriam novas predeterminações, mas de origem racional. No século XXI o ser humano vive no cotidiano sua grande contradição: viver por si ou seguir a sociedade? Ouvir à moral imposta ou à sua própria ética?

Manifestam-se na interação do homem com essa realidade três fatores universais: o valor, a potência e a atividade. Nessa estrutura o homem passa a decidir, a julgar, a escolher, e realiza-se sua questão fundamental: Ser ou não ser?

É a essa primária questão que se propõem a Psicologia, realizando o estudo dos valores morais e éticos e sua formação no psiquismo, em diálogo com a afetividade, a identidade, a consciência, a ação. E assim a Psicologia Social na América Latina vê seu caminho: o estudo dessas questões com a vista de uma transformação social do sujeito em um ser consciente de seu lugar de autor da história.
CONSTRUCCIÓN, DESCONSTRUCCIÓN Y CRÍTICA: TEORIA Y SENTIDO DE LA PSICOLOGÍA SOCIAL COMUNITÁRIA EN AMÉRICA LATINA

A crise é aqui encarada como incentivadora da crítica, da mudança, e foi a partir da crise das ciências sociais, que surgiu a psicologia social comunitária e sua redefinição política. Na América Latina, a psicologia social comunitária nasce da insatisfação com uma psicologia social voltada para o individualismo, com ênfase no subjetivo e no macro social, o que na visão da autora provocava o vazio, uma vez que essa abordagem não possibilitava responder aos problemas sociais.

As experiências e as práticas psicológicas até então utilizadas, que pela distância e manipulação das circunstâncias, acabavam se inserindo em um paradigma falsamente neutro e objetivo, eram criticadas também pela sua visão do mundo, em que as formas tradicionais de interferência se limitavam ao simples diagnóstico e a produção de intervenções fora de foco.

A partir da década de 70, começou a se construir uma nova forma de fazer psicologia, que precisava ser batizada e delimitada, ao mesmo tempo em que o surgimento de novos métodos e técnicas, partindo de formas menos tradicionais de ação e investigação, necessitavam de outros conceitos. Esse novo modelo de psicologia social se baseava em cinco campos:

• O caráter do conhecimento produzido

• Natureza do sujeito cognoscente

• A metodologia para produção de conhecimento

• Natureza da relação entre agentes externos e internos

• A autoria e propriedade do conhecimento produzido

Sendo que os três primeiros campos, epistemologia, ontologia e metodologia, constituem a estrutura de um paradigma científico. Os outros dois campos (natureza da relação entre agentes externos e internos e a propriedade do conhecimento produzido) poderiam ser considerados como parte da epistemologia ou ontologia, já que as duas dimensões abordam ambos aspectos ao tratar da relação. Relação (social) essa que é necessária para conhecer, dando significado, construindo e desconstruíndo objetos. Por isso é também chamada de psicologia das relações, pois acredita que a relação faz o ser.

Para a psicologia social comunitária entre sujeito e objeto não há distância, são considerados em uma mesma dimensão, na qual se influenciam mutuamente. Ambos, em um processo dinâmico, estão sendo construídos e desconstruídos constantemente, pois se o sujeito constrói uma realidade, essa, por outro lado, também o transforma. Porém, essa construção é social, uma vez que os símbolos e ações que compõem uma realidade, são produtos de uma coletividade, que não exclui a ação individual, mas, considera esta sujeita a parâmetros históricos, culturais e grupais.

Assim, considera-se o conhecimento produzido, conjuntamente com a comunidade, como relativo, já que esse diz respeito a um momento e a um espaço definidos, sendo historicamente produzido e marcado por seu caráter social. Não há também a negação da realidade, essa é vista como inerente ao sujeito, que é sempre um sujeito social, que além de parte dessa realidade, também a constrói ativa e simbolicamente.

A ênfase dada à interação com os grupos faz com que o sujeito seja considerado como ator social: ser ativo, que possui conhecimentos e continuamente os produz. Ao procurar ouvir novas vozes, as vozes daqueles que vivem os problemas e a quem se destinam os programas sociais, incorpora a ação e a reflexão a esses novos atores. E ao dar valor ao conhecimento produzido por quem era antes considerado apenas como objeto de estudo, essa nova psicologia procurava unir o saber científico ao popular, reconhecendo sua fundamental importância na construção do conhecimento.

Desde seu início a psicologia social comunitária assumiu um caráter ativo e construtor do social. Ao falar de agentes internos e externos no trabalho comunitário, aborda uma relação horizontal, que além de unir os conhecimentos científicos e populares, devolve sistematicamente o conhecimento científico produzido à comunidade e recebe o saber popular construído; caracterizando, deste modo, as intervenções sociais como catalizadoras das transformações sociais. A produção conjunta do conhecimento acaba por permitir o diálogo, a reflexão e a crítica em ambas direções, dos agentes externos para os internos e vice-versa.

Rompendo com uma concepção elitista e autocrática da investigação, o método utilizado nessa prática psicológica incorpora a pesquisa-ação em sua expressão participativa e busca a capacidade de se transformar segundo as mudanças do problema estudado.

Através da problematização, desnaturalização, desideologização e conscientização procuram-se construir uma metodologia que gere construções em uma ação crítica e reflexiva de caráter coletivo, com efeitos sobre a comunidade e seus membros individualmente. Temos então um modelo que surge de uma práxis em que o que se deseja é que as transformações dos e pelos sujeitos não tenha sua eficácia limitada pelo tempo de atuação dos agentes externos.

O modelo de psicologia social comunitária construído nos últimos vinte anos na América Latina, ao mesmo tempo em (re)definiu seus papéis, elaborou sua construção teórica e mais recentemente, sua reflexão epistemológica, simultaneamente, continuou seu avanço teórico.

Assim, essa psicologia, que se configura como um modelo de ação e uma práxis de reflexão crítica se desenvolveram rompendo com o paradigma positivista, no qual o sujeito é alienado de sua construção e transformação social.

IDENTIDADE DA PSICOLOGIA SOCIAL LATINO-AMERICANA

Com o objetivo de pensar novos paradigmas para a Psicologia Social, surgiram à necessidade de questionar a autenticidade da identidade cultural latino-americana onde Octavio Paz (1996), afirma que não herdamos, além do conhecimento nas artes, literatura e estética, a modernidade européia e sim mudanças impostas pelas elites dominantes. Como conseqüência desse processo de modernização notamos contrastes em nosso cotidiano como o aumento progressivo da esperança de vida e a queda da taxa de analfabetismo.

A semelhança entre o período da colonização ibérica e os dias de hoje, lembrando que povos foram forçados a integrar nova cultura e dizimados pela fé, está na aceitação do chamado “modelo ou ótica do norte”, onde, apesar de não haver mais esse dízimo da população, nos é imposta a mesma aceitação das teorias e técnicas ditas superiores dos “desenvolvidos”. Semelhança essa que deixa pouco espaço às diferenças.

A identidade latino-americana pode ser marcada pela reivindicação de direitos e pela tentativa de se “pensar em novas formas de pensar”. Essa busca pelo aprendizado levou a mostrar que a América Latina está na produção cientifica mundial usando os critérios internacionais de publicação (resumo em inglês e corpo editorial).

Dados existentes mostram que num universo de mais de cem mil publicações, a maior parte dos trabalhos da área de humanas, não está indexado pelo Institute of Scientific Information (ISI). Observa-se então que não houve desenvolvimento na área de humanas desde 1980, levando então a um questionamento das produções indexadas. Como os norte-americanos detêm a grande rede de publicações internacionais, os mecanismos de controle, avaliação e seleção tornam-se favoráveis à sua própria cultura (onde artigos de biociência são os mais aceitos.

É preciso pensar que na pesquisa aplicada, há uma forma diferente e individualizada de avaliação. Os trabalhos não mais são feitos isoladamente, mas sim em um grupo, que exige diferentes critérios de avaliação, que como são dominados pelos norte-americanos, favorece a permanência da própria cultura). O Social Sciences Citation Index (SSCI) também não trás soluções, já que se ocupa somente com revistas, publicam artigos prolixos e terminam por tornar os autores por invisíveis. Contudo deve-se construir bases de dados nacionais dando significado às produções de determinadas áreas.

Podem-se tirar conclusões para servirem de orientação para novas estratégias onde se insira a questão da mulher, dos sem teto, dos sem terra, das relações com o meio ambiente e dimensões culturais e sociais. Deve-se incentivar a participação das comunidades a fim de propiciar maior condição para a inserção social. É necessária primeiramente uma mudança de idéias, uma mudança de valores, colocando o aspecto ético em primeiro plano, (revendo e criticando os currículos das universidades, instigarem a prática de pesquisas em áreas interdisciplinares, questionando as metodologias usadas) uma mudança “sexista” e finalmente uma mudança metodológica.

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