REPRESENTAÇÃO POLITICA

0

Diferenciação dos três modelos existentes na sociedade.

As democracias extraem sua legitimidade a partir da realização de eleições periódicas, em que os eleitores escolhem os seus representantes que ocuparão os cargos políticos nas instituições que compõem as várias esferas de poder. O governo representativo está inserido num contexto histórico bastante peculiar e se diferencia de outras formas de exercício do poder político.

Por um lado, o governo representativo se diferencia do modelo de democracia direta que foi o sistema de governo que existia nas cidades-estados gregas da antiguidade e no qual teoricamente não havia distinção entre governantes e governados. Por outro lado, também se diferencia dos sistemas autocráticos de governo nos quais os súditos não têm acesso e nem controle sobre as decisões políticas como no caso dos regimes absolutistas.

Com base nessas considerações, concluí-se que o princípio da representação política está associado a uma modalidade de controle regular do poder governamental por parte daqueles que não podem exercê-lo pessoalmente, transferindo para outros essa tarefa.

Existem basicamente três modelos interpretativos sobre a representação política que problematizam os aspectos já mencionados.

1) Delegação ou mandato imperativo
Confere ao representante eleito a função de executor das determinações daqueles que o elegeu. Podemos comparar o mandato político imperativo com as funções de um embaixador, que recebe instruções permanentes e obrigatoriamente tem que cumpri-las, caso contrário seu mandato pode ser revogado.

Essa concepção de representação tem raízes nas instituições políticas do período medieval e por um determinado período chegou a influenciar as instituições do governo representativo moderno. Atualmente, o mandato imperativo permanece como sendo o modelo característico das relações e instituições internacionais.

2) Representação como relação de confiança
Confere ao eleito um mandato que se caracteriza como sendo autônomo, cujo campo de atuação política é abrangente, mas sempre voltada para defesa dos interesses dos eleitores em sua totalidade. Ou seja, o eleito representa o povo e tem a prerrogativa de agir livremente para os interesses do povo.

Essa concepção é utópica e pode ser considerada um desdobramento da ideologia da soberania nacional (ou vontade popular). Inúmeros ideólogos e filósofos políticos eram defensores dessa concepção e consideravam a função do representante político como um “trabalho de razão e de juízo” a serviço do “bem comum”.

3) Representação como espelho (ou sociológica)
É historicamente mais recente e sem dúvida mais realista em comparação com o modelo anterior. De certo modo, este modelo deriva da crise do sistema de representação como relação de confiança que se assentava no princípio de soberania nacional (ou vontade popular).

A representação concebida como espelho enxerga a sociedade como dividida entre variados grupos de interesses ou classes sociais. A idéia de bem comum gradualmente cedeu lugar ao princípio de pluralismo e conflito de interesses. Desse modo, as instituições representativas acabariam por “espelhar” politicamente a heterogeneidade de interesses presentes numa sociedade.

A escolha de representantes por meio da adoção do voto proporcional representou o primeiro passo na direção de um sistema representativo com base na concepção de representação política do tipo sociológica. As idéias em torno do voto proporcional começaram a ser discutidas na Inglaterra, no final do século 19, embora nunca tenha chegado a ser aplicado naquele país.

Fonte: Uol
Autor: Renato Cancian

RELIGIAO

0

O papel que as crenças religiosas desempenham na vida social.

O estudo da religião é tema constitutivo e fundador da sociologia. Tanto Karl Marx, como Emile Durkheim e Max Weber se interessaram pela elaboração de teorias visando compreender aspectos da vida religiosa e sua influência na sociedade.

Os estudos produzidos por Weber, porém, sem dúvida alguma tiveram maior amplitude teórica e empírica. Weber analisou e comparou diversas religiões que existiram e que ainda existem no mundo, avaliando o papel que as crenças religiosas exercem na conduta dos indivíduos em sociedade. Num plano mais geral, o autor desvelou o potencial que a religião tem de provocar transformações na ordem social, sejam elas na esfera da economia, da política ou ainda da cultura.

A sociologia compreensiva
Weber jamais aceitou os pressupostos do materialismo histórico (teoria elaborada por Karl Marx e Frederich Engels) como único modelo teórico-metodológico válido para compreensão da realidade social.

De acordo com a teoria marxista, a forma como o homem produz e reproduz sua sobrevivência (ou seja, a maneira como busca satisfazer suas necessidades materiais, indispensáveis à manutenção da própria vida) exerce uma influência determinante sobre as outras esferas da vida social, tais como a religião, a cultura, os costumes, as instituições políticas e jurídicas, a ideologia e etc.

A sociologia compreensiva formulada por Weber se contrapõe ao determinismo econômico ao enfatizar que nem sempre as diversas esferas da vida social derivam, ou estão subordinadas, à estrutura econômica de uma sociedade. Há casos em que ocorre o inverso, isto é, as idéias, valores éticos e concepções de mundo (ou seja, as representações sociais) podem desempenhar um papel crucial na produção da vida material.

Religiosidade e racionalidade econômica
Weber atribuiu às crenças e valores religiosos um papel importante na conduta dos indivíduos em sociedade. Num dos seus livros mais proeminentes, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, ele defendeu a tese de que a religião protestante exerceu uma poderosa influência no surgimento do modo de produção capitalista.

Com base em dados estatísticos extraídos da sociedade americana, ele demonstra que naquele país, os líderes do mundo dos negócios e os proprietários de capitais eram, na maioria dos casos, adeptos do protestantismo. Weber descreveu e analisou os valores e princípios éticos constitutivos da crença religiosa protestante e apontou sua adequação à racionalidade inerente ao empreendimento capitalista.

Etos calvinista e espírito do capitalismo
A Reforma Protestante (século 16) foi um movimento religioso que se contrapôs aos preceitos e dogmas do catolicismo. A partir dela, surgiram uma multiplicidade de seitas protestantes, entre elas as de vertente calvinista, cujo líder foi o francês João Calvino.

Weber observou que a expansão das seitas calvinistas na Inglaterra coincidiu com o aparecimento do modo de produção capitalista. Os preceitos religiosos constitutivos da doutrina calvinista levaram seus adeptos a adotarem um estilo de vida metódico em todos os aspectos da vida, denominado por Weber de ascetismo.

O etos de vida, característico do ascetismo calvinista, levava os crentes a valorizarem o trabalho secular (mundano), o lucro e a acumulação de riquezas materiais. Enquanto o católico buscava assegurar a salvação pela virtude, pelo arrependimento e pela penitência, os adeptos do calvinismo, e do protestantismo de modo geral, viviam sem saber se seriam salvos ou condenados.

Essa incerteza levava-os a buscarem, no decorrer de suas vidas, possíveis sinais da concessão da graça divina. O enriquecimento econômico, por exemplo, era um sinal que Deus daria aos predestinados à salvação, aos “escolhidos”. Por conta disso, os calvinistas desenvolveram um rígido e disciplinado modo vida, que os levavam a concentrarem todos seus esforços na busca pela acumulação material.

As atividades econômicas peculiares ao empreendimento capitalista – ou seja, a extração pacífica da mais-valia (do lucro), através da compra e remuneração da mão de obra do trabalhador livre -, foram muito beneficiadas porque se adequaram aos padrões do estilo de vida dos crentes protestantes.

O etos calvinista concebe o trabalho como uma vocação. A disciplina moral calvinista levava os crentes a pouparem seus ganhos econômicos, ao mesmo tempo em que eram inibidos de usarem os lucros para o consumo de bens luxuosos. Por isso, os lucros geralmente eram reinvestidos no próprio empreendimento capitalista, gerando um movimento cíclico de acumulação/reinvestimento/acumulação.

Afinidade eletiva
Weber emprega o conceito de afinidade eletiva a fim de explicar a influência que os valores religiosos calvinistas exerceram no sentido de “desencadear” o capitalismo. Uma vez tendo sido desencadeado, os valores e práticas religiosas calvinistas deixam de ser “determinantes” para a permanência e continuidade do capitalismo.

O conceito de afinidade eletiva é mais complexo do que a concepção de “causas determinantes”. Há uma correspondência entre o etos calvinista (espírito do capitalismo) e o empreendimento capitalista, mas é impossível apresentar uma explicação com base nos pressupostos de “causa” e “efeito”.

Religiões orientais
É interessante compararmos “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” com outros estudos de Weber, em especial aqueles que se referem às religiões asiáticas como, por exemplo, o hinduísmo e outras tantas religiões que são à base das sociedades de castas.

Nestes casos, a religião serviria para manter toda uma ordem social e econômica acentuadamente hierarquizada e estática, ou seja, sem qualquer possibilidade de haver mobilidade e mudança social. O caso da Índia é interessante.

Há décadas o Partido Comunista da Índia, considerado uma das grandes forças políticas daquele país, tentou em vão aplicar programas políticos de melhoria das condições de vida das populações mais pobres. Sempre houve uma enorme resistência social que levou ao fracassou inúmeros programas políticos de caráter socialista (que preconizavam a igualdade e justiça social) porque a sociedade de castas está fortemente assentada sobre preceitos religiosos muito arraigados, que concebem as desigualdades e diferenças sociais como manifestação da vontade divina.

Fonte: Uol
Autor: Renato Cancian

SUICIDIO – TIPOLOGIA

0

Por meio da análise de dados estatísticos, Durkheim verificou que há uma regularidade na taxa de suicídio no transcurso de um determinado período de tempo. Tais dados foram cruzados com variáveis que incluem a idade, o sexo, o lugar de residência, a religião, o estado civil.

A partir da análise do cruzamento dessas informações, foi possível ao autor desvelar as características sociais dos suicidados e apresentar explicações sobre as determinações sociais que influenciam ou causam o ato do suicídio.

Durkheim diferencia basicamente três tipos de suicídio:

1) Suicídio egoísta – é um ato que se reveste de individualismo extremado. É o tipo de suicídio que predomina nas sociedades modernas e é geralmente praticado por aqueles indivíduos que não estão devidamente integrados à sociedade e geralmente se encontram isolados dos grupos sociais (família, amigos, comunidade, por exemplo).

2) Suicídio altruísta – é um ato em que o indivíduo está tomado pela obediência e força coercitiva do coletivo, seja ele um grupo social restrito ao qual pertence ou mesmo a sociedade como um todo. Um exemplo típico de suicídio altruísta é o caso dos soldados japoneses que lutaram na Segunda Guerra Mundial e que ficaram conhecidos como camicases.

Ao lançarem as aeronaves em que pilotavam sobre os inimigos provocando sua própria morte, os camicases japoneses morriam em honra ao imperador, considerado por eles uma divindade. A variante contemporânea do suicídio altruísta são os atos terroristas praticados por fanáticos religiosos e extremistas políticos.

3) Suicídio anômico – representa mais propriamente uma mudança abrupta na taxa normal de suicídio, geralmente marcado por uma vertiginosa ascensão do número de suicídios que ocorrem em períodos de crises sociais (o desemprego, por exemplo) ou processos de transformações sociais (como a modernização).

Fonte: Uol
Autor: Renato Cancian

SUICIDIO – AMEAÇA DA ESTABILIDADE SOCIAL

0

De acordo com Émile Durkheim, a divisão do trabalho social decorre de um fenômeno social que agrupa os seguintes fatores: volume, densidade material e densidade moral.

O volume pode ser considerado o número de indivíduos que integram uma sociedade. A densidade material se refere ao número de indivíduos em relação ao espaço, ou território, onde vivem. A densidade moral representa o grau de intensidade das comunicações e trocas entre os indivíduos (interação social).

Segundo Durkheim, o volume, por si só não é o fator determinante da diferenciação social. É imprescindível que haja densidade material e moral para provocar o processo de divisão do trabalho social.

Suicídio e anomia
As sociedades podem atravessar, porém, períodos de anomia, situação que ameaça a estabilidade e coesão social. Como diferenciar os fatos sociais considerados “normais” daqueles considerados patológicos (doença) que são causadores da situação de anomia?

Para Durkheim, um fato social se torna patológico quando atinge grandes dimensões e ameaçam a sociedade. O crime (que pode ser definido como a transgressão da lei), por exemplo, é considerado um fato social normal já que é um fenômeno social observado em praticamente todas as sociedades. O crime só se torna um fato social patológico quando assume proporções exageradas. Do mesmo modo, o suicídio pode ser considerado um fato social normal ou patológico.

Ato intencional
Segundo a definição durkheimiana, suicídio é “todo caso de morte provocado direta ou indiretamente por um ato positivo ou negativo realizado pela própria vítima e que ela sabia que devia provocar esse resultado”. O suicídio, portanto, é um ato intencional na qual a vítima age com objetivo de provocar sua própria morte.

Aparentemente, o suicídio tem todos os atributos de um ato individual, entretanto, Durkheim demonstra que se trata de um fenômeno social. O autor constrói um esquema de análise com base em dados estatísticos sobre a sociedade francesa (que ele denomina de “taxa social de suicídio”) e que mede “a relação entre o número global de mortes voluntárias e a população de qualquer idade e de ambos os sexos”.

Fonte: Uol
Autor: Renato Cancian

SUICIDIO – PIONEIRISMO DE ÉMILE DURKHEIM

0

O primeiro estudo sociológico sobre o suicídio foi elaborado pelo cientista social francês Émile Durkheim, em 1897. O interesse de Durkheim no suicídio como um tema e objeto de pesquisa social foram determinados pelos pressupostos teóricos que norteiam toda a obra do autor.

Durkheim concebe o suicídio um fenômeno social e o considera um aspecto patológico (isto é, uma disfunção, ou uma doença) característico das sociedades modernas.

Individuo e sociedade
Até que ponto é possível a coexistência do indivíduo e a coletividade? Esse questionamento perpassa praticamente todo o pensamento sociológico durkheimiano.

Nas sociedades modernas, a consciência individual é mais acentuada, o que acaba resultando num maior grau de autonomia e liberdade de ação. De acordo com Durkheim, porém, o individualismo, que a primeira vista foi considerado por muitos cientistas sociais como um fator desagregador da ordem social, tem resultados benéficos para a integração social à medida que contribui para a progressiva diferenciação social que se manifesta através da divisão do trabalho social.

Função sócil
A divisão do trabalho social (que deve ser entendida como a proliferação das diferentes profissões e da variedade de atividades industriais) acaba provocando uma crescente interdependência entre os indivíduos. A diferenciação social é um fator positivo para a integração social uma vez que ela gera maior “funcionalidade”.

Cada indivíduo, ou grupo de indivíduos, desempenha uma função sócil (que lhe é própria dentro do quadro de oportunidades e aptidões profissionais) e isso contribui para o conjunto da sociedade. A interdependência ou funcionalidade crescente, subjacentes às sociedades modernas é denominada por Durkheim de solidariedade orgânica.

Fonte: Uol
Autor: Renato Cancian

SOCIOLOGIA E PSICOLOGIA SOCIAL

0

Para Simone Weil, racionalização do trabalho não é método científico.

Para a filósofa francesa Simone Weil (1909-1943), a racionalização designa certos sistemas de organização industrial, mais ou menos racionais, que reinam atualmente nas fábricas, sob diversas formas. São apresentados como métodos de organização científica do trabalho.

A ciência passou a ser aplicada tanto nas forças da natureza como no emprego da força humana de trabalho, desde o fim do século 19. Podemos considerar que o emprego desses métodos na organização do trabalho desencadeou a segunda Revolução Industrial.

Do ponto de vista do operário
A racionalização deve ser vista do ponto de vista da produção e também do operário, porque impõe a ele um determinado regime de trabalho. Mas Weil destaca: não é apenas o salário que demonstra a sujeição do operário ao patrão. A servidão também está na imposição feita pelo patrão de um padrão de existência e de condições de trabalho.

A satisfação dos homens que trabalham na fábrica não coincide com as exigências da produção. Os capitalistas resolvem esse problema suprimindo os trabalhadores da questão. Os anarquistas suprimem as necessidades da fabricação.

A solução seria produzir mais produtos bem feitos e fazer trabalhadores felizes. O desafio da classe operária consiste em encontrar um método que seja bom para a produção, para o trabalho e para o consumo. E isso nem foi formulado.

Mudanças na organização do trabalho
Na organização do trabalho, a racionalização é entendida como algo que satisfaz a todas as exigências da razão e corresponde ao interesse do operário, do patrão e do consumidor. Essa idéia tem prestígio junto ao público, assim como a expressão “organização científica do trabalho”, em virtude da palavra “científica”.

Foi Frederick Taylor (1856-1915), engenheiro mecânico norte-americano, quem introduziu mudanças na organização do trabalho e fez aumentar a cadência da produção. Sua grande preocupação era evitar perda de tempo.

Concebeu e organizou progressivamente métodos com a ficha de fabricação, as durações para estabelecer o tempo necessário a cada operação, a divisão do trabalho entre chefes técnicos e um sistema particular de trabalho por peças de prêmio.

Capacidade máxima
Esse sistema, depois chamado taylorismo, consistiu em basear o ritmo de toda a produção no ritmo de produção do melhor operário e em eliminar aqueles que não atingissem o máximo de resultados.

Taylor buscava encontrar os meios mais eficazes de forçar os operários a dar à fábrica o máximo de sua capacidade de trabalho. Seu objetivo também era tirar o controle do ritmo de trabalho dos trabalhadores e, assim, romper com a influência dos sindicatos.
Um dos métodos de ação sindical da época era limitar a produção para impedir o desemprego e a redução das tarifas

A especialização da linha de montagem substitui operários especializados, retira do operário a escolha de seu método e a inteligência do seu trabalho e transfere isso para a seção de planejamentos e de estudos.

Ciência como instrumento de pressão
Para Simone Weil, a racionalização verdadeira visaria o progresso técnico aliado a menos esforço da força de trabalho. Na realidade, houve interferência na intensidade do trabalho, coisa que não pode ser mensurada pela duração. Pode-se trabalhar de forma muito ou pouco intensa numa mesma hora. O que não se leva em consideração quando se aumenta o ritmo de trabalho é que o limite do operário já tenha sido atingido.

Acelerar o ritmo pode ser mais grave para o organismo humano do que aumentar a duração do trabalho. Esse processo desqualificou os operários, reduziu-os a moléculas dentro das fábricas e destruiu a solidariedade por meio da concorrência e das gratificações.

Esse sistema não pode ser chamado de científico, segundo Weil, porque atribui à ciência um papel de instrumento de pressão. Ele não atua para melhorar a qualidade das vidas humanas. Busca, apenas, as vantagens dos patrões por meio do aumento e do controle da produção.

Fonte: Uol
Autor: Celina Fernandes Gonçalves Bruniera

SOCIOLOGIA E FORMAÇÃO PESSOAL

0

Para observar com mais objetividade as relações sociais.

Em que medida a sociologia pode contribuir para a sua formação? Muitos diriam que essa ciência social, num currículo de ensino médio, tem a função de formar o “cidadão crítico”. Mas essa justificativa – até porque a idéia de formar o cidadão crítico anda meio banalizada -, não é suficiente.

Pensar sobre esse tema significa uma oportunidade ímpar para se aproximar da sociologia como campo de saber e compreender algo de suas preocupações.

Vale a pena inserir nesse contexto o papel mais fundamental que o pensamento sociológico realiza na formação do jovem: a desnaturalização das concepções ou explicações dos fenômenos sociais.

Razões objetivas e humanas
Desnaturalizar os fenômenos sociais significa não perder de vista a sua historicidade. É considerar que eles nem sempre foram assim. É perceber que certas mudanças ou descontinuidades históricas são fruto de decisões. Estas revelam interesses e, portanto, são fruto de razões objetivas e humanas.

A desnaturalização dos fenômenos sociais também depende de nos distanciarmos daquilo que nos rodeia e de que participamos, para focalizar as relações sociais sem estarmos envolvidos. Significa considerar que os fenômenos sociais não são imediatamente conhecidos.

Reconhecendo as causas
Para explicar um fenômeno social é preciso procurar as causas que estão além do sujeito, isto é, buscar as causas externas a ele, mas que têm implicações decisivas sobre ele.

Essas causas devem apresentar certa regularidade, periodicidade e um papel específico em relação ao todo social.

Aprender a observar
Uma aproximação em relação à sociologia, mesmo no ensino médio, exige que o aluno aprenda procedimentos mais rigorosos de observação das relações sociais. E, ainda, que saiba, pelo menos em alguma medida, como o conhecimento é elaborado nas ciências sociais.

Para compreender e formular explicações para os fenômenos sociais é preciso ter conhecimento da linguagem por meio da qual esse conhecimento é criado e comunicado.

Para trabalhar um tema
Os fenômenos sociais são conhecidos por meio de modelos compreensivos, ou explicativos, e mediante a contextualização desses modelos, com destaque para a época em que eles foram elaborados e para os autores com os quais um determinado autor dialoga.

Assim, trabalhar um tema (como violência, mundo do trabalho etc.) só é possível por meio de conceitos e teorias. É importante, também, que você conheça a articulação entre os conceitos e as teorias e saiba observar sua relevância para compreender ou explicar casos concretos (temas).

Vale lembrar também que os conceitos têm uma história e que não são palavras mágicas que explicam tudo, mas elementos do discurso científico que sintetiza as ações sociais para tentar explicá-las. E, ainda, é bom ter em mente que um conceito admite vários sentidos, dependendo do autor e da época em que ele é elaborado.

Teorias servem de base
Da mesma forma, é preciso compreender as teorias no contexto de seu aparecimento e posterior desenvolvimento. Isso é necessário tanto do ponto de vista de como essas teorias foram sendo assimiladas e desenvolvidas por outros autores, como em relação ao caráter das críticas feitas a elas.

Conhecer conceitos e teorias com o rigor necessário a um aluno do ensino médio consiste na única maneira possível de se distanciar e se aproximar dos fenômenos sociais e, assim, construir os fundamentos para a formação crítica.

Fonte: Uol
Autor: Celina Fernandes Gonçalves Bruniera

SOCIOLOGIA E CULTURA

0

Há lugar para o amor romântico na sociedade moderna?

Na sociedade moderna não há lugar para indeterminações e para o amor romântico. O fim trágico de Frédéric em “A Educação Sentimental”, do escritor francês Gustave Flaubert, já apontava para uma incompatibilidade entre o romanesco e a razão instrumental.

Ao analisar o domínio das paixões no mundo contemporâneo, o professor e filósofo Audato Novaes afirma que a racionalidade do mercado traz em si a lógica da dominação dos sentidos. O resultado mais imediato é que, no plano individual, a paixão amorosa, por exemplo, torna-se uma raridade.

O enredo do romance de Flaubert
Flaubert retrata a trajetória da geração que vive as ambivalências de um tempo imediatamente após o triunfo e o declínio do romantismo. Romance escrito entre 1864 e 1869, “A Educação Sentimental” narra a história de Frédéric Moreau desde a adolescência até a idade madura. Quando o rapaz sai de sua pequena cidade no interior da França e vai estudar em Paris, nos anos 1840, apaixona-se por uma mulher casada, a sra. Arnoux.

Frédéric sonha com as oportunidades que a moderna capital pode lhe oferecer: atividades culturais, contatos com pessoas influentes, um futuro profissional promissor.

O destino da juventude burguesa
Flaubert foi criticado por abordar a revolução francesa de 1848 como simples pano de fundo de seu romance. Mas é justamente o pano de fundo que se apresenta vivo no comportamento das personagens e nos seus conflitos.

O escritor capta as relações sociais e mostra, através das ações das personagens, que diferentes grupos sociais tinham diferentes representações do que ocorria à sua volta e com sua própria vida.

Mais precisamente, narra o destino da juventude burguesa, “esse tipo de espíritos desiludidos, destituídos de vontade, cujas grandes ambições ou inquietos desejos esbarram com as duras necessidades de uma evolução social que os ultrapassa” como vê Edouard Maynial, crítico francês e estudioso de literatura.

Sem tempo para indecisões
Flaubert mostra que o homem moderno não tem tempo para indecisões. É imperativa a entrada dos ainda jovens num dos jogos sérios de que é feito o mundo social.

A ambição de Flaubert é, ao mesmo tempo, apontar o descompasso de uma educação sentimental, as seduções de um mundo burguês com suas mil possibilidades e o malogro de uma revolução.

Em busca do inacessível
Para o norte-americano Victor Brombert, especialista em literatura comparada dos séculos 19 e 20, se a vida dos personagens não toma rumo é que, na verdade, “a revolução parece condenada de princípio à falência, à traição e a vergonha, ao fracasso de todos os seus objetivos e ideais”.

Essa perspectiva nos permite ver que um romance social (poderíamos dizer o mesmo de uma análise sociológica) pode dizer mais sobre as relações sociais de uma época que teorias. Estas assimilam o todo com base numa estratificação social enrijecida.

É ainda Maynial que sugere que “A Educação Sentimental” narra os conflitos de uma geração e é também o drama de um temperamento romântico, sempre frustrado, porque procura o inacessível. “A vida de Frédéric Moreau malogrou porque as circunstâncias exteriores são adversas ao sonho, e porque Frédéric se evade sempre, em vez de viver”.

O fim do heroísmo romântico?
O romance é uma reflexão de Flaubert acerca de um encaminhamento da vida pessoal que a Paris do século 19 já dava sinais de não mais acolher. A literatura parece revelar aquilo que só depois de muitos anos conseguiríamos ver.

O que foi feito dos românticos? A psicanalista e ensaísta Maria Rita Kehl destaca que o herói pós-moderno é a antítese do herói romântico, do herói solitário que se ergue acima das normas e conveniências sociais em nome do amor apaixonado, da experiência poética.

O herói romântico é anti-social e inviável: seu fim geralmente é trágico, em troca de uma vida incendiada. Esse é o conflito que vive Frédéric: entregar-se a uma paixão louca ou reprimir esse sentimento e lançar-se a um futuro mais promissor ou a um amor burguês.

Fonte: Uol
Autor: Celina Fernandes Gonçalves Bruniera

SEGURIDADE SOCIAL

0

Estado do Bem-estar garante direitos sociais aos cidadãos.

O Estado do Bem-estar também é conhecido por sua denominação em inglês Welfare State. Os termos servem basicamente para designar o Estado assistencial que garante padrões mínimos de educação, saúde, habitação, renda e seguridade social a todos os cidadãos.

É preciso esclarecer, no entanto, que todos estes tipos de serviços assistenciais são de caráter público e reconhecidos como direitos sociais. A partir dessa premissa, pode-se afirmar que o que distingue o Estado do Bem-estar de outros tipos de Estado assistencial não é tanto a intervenção estatal na economia e nas condições sociais com o objetivo de melhorar os padrões de qualidade de vida da população, mas o fato dos serviços prestados serem considerados direitos dos cidadãos.

Antecedentes históricos
Em diferentes épocas e períodos históricos, é possível identificar vários tipos de políticas assistenciais promovidas por inúmeros Estados. No transcurso do século 18, por exemplo, países como Áustria, Rússia, Prússia e Espanha colocaram em prática uma série de importantes políticas assistenciais. Porém, esses países desenvolveram ações desse tipo nos marcos da estrutura de poder não-democrático.

Os países citados acima ainda apresentavam uma estrutura social tradicional baseada na reconhecida divisão entre súditos e governantes. As políticas assistenciais desenvolvidas por esses países se situavam no campo da justiça material, ou seja, eram consideradas pelos súditos como dádivas ou prebendas ofertadas pelo governante. É possível traçarmos um paralelo da situação descrita acima com as políticas assistenciais criadas no âmbito do governo ditatorial de Getúlio Vargas (1930-1945), que ficou conhecido por extensos segmentos das populações pobres como o “pai dos pobres”.

Origens
O Estado do Bem-estar, tal como foi definido, surgiu após a Segunda Guerra Mundial. Seu desenvolvimento está intimamente relacionado ao processo de industrialização e os problemas sociais gerados a partir dele. A Grã-Bretanha foi o país que se destacou na construção do Estado de Bem-estar com a aprovação, em 1942, de uma série de providências nas áreas da saúde e escolarização. Nas décadas seguintes, outros países seguiriam essa direção.

Ocorreu também uma vertiginosa ampliação dos serviços assistenciais públicos, abarcando as áreas de renda, habitação e previdência social, entre outras. Paralelamente à prestação de serviços sociais, o Estado do Bem-estar passou a intervir fortemente na área econômica, de modo a regulamentar praticamente todas as atividades produtivas a fim de assegurar a geração de riquezas materiais junto com a diminuição das desigualdades sociais.

Capitalismo e democracia
Com base nessas considerações, é possível afirmarmos, portanto, que numa perspectiva mais ampla as origens do Estado do Bem-estar estão vinculadas à crescente tensão e conflitos sociais gerados pela economia capitalista de caráter “liberal”, que propugnava a não-intervenção do Estado nas atividades produtivas.

As crises econômicas mundiais presenciadas nas primeiras décadas do século 20 (da qual a crise de 1929 é o caso mais conhecido) provaram que a economia capitalista livre de qualquer controle ou regulamentação estatal gerava profundas desigualdades sociais. Essas desigualdades provocavam tensões e conflitos, capazes de ameaçar a estabilidade política.

Direitos sociais
Os direitos sociais surgem, por sua vez, para assegurar que as desigualdades de classe social não comprometam o exercício pleno dos direitos civis e políticos. Assim, o reformismo do Estado do Bem-estar tornou possível compatibilizar capitalismo e democracia. No âmbito do Estado do Bem-estar, o conflito de classes não desapareceu, mas se institucionalizou. A extensão dos direitos políticos e o sufrágio universal possibilitaram canalizar os conflitos de classe para as instituições políticas, transformando demandas sociais em direitos.

O grau e a extensão do intervencionismo estatal na economia e a oferta de serviços sociais variou enormemente de país para país. Os países industrializados do Primeiro Mundo construíram Estados de Bem-estar mais extensos do que os países de economia socialista e os países subdesenvolvidos. Porém, entre os países de Primeiro Mundo também há variações. Certamente, o Estado de Bem-estar francês é mais extenso do que o inglês; e este último é mais extenso do que o americano.

Auge
O modelo de Estado do Bem-estar que emergiu na segunda metade do século 20 na Europa Ocidental e se estendeu para outras regiões e países chegou ao auge na década de 1960. No transcurso dos anos 70, porém, esse modelo de Estado entrou em crise.

Uma tese amplamente comprovada é a correlação que existe entre o crescimento econômico e a extensão das ofertas de serviços sociais à população. Com base nessa tese, torna-se irrelevante o fato de a economia ser socialista ou capitalista e se o regime é democrático ou ditatorial, pois as estruturas do Estado de Bem-estar estão relacionadas ao grau de desenvolvimento econômico de um determinado país.

Crise
A crise do Estado de Bem-estar é um tema complexo para o qual não há consenso entre os estudiosos. Nos países industrializados ocidentais, os primeiros sinais da crise do Welfare State estão relacionados à crise fiscal provocada pela dificuldade cada vez maior de harmonizar os gastos públicos com o crescimento da economia capitalista. Nessas condições, ocorre a desunião entre “capital e trabalho”. As grandes organizações e empresas capitalistas e as massas trabalhadoras já não se entendem e entram em conflito na tentativa de assegurar seus próprios interesses.

Na Grã-Bretanha, a eleição da primeira-ministra Margareth Thatcher (do Partido Conservador; que governou de 1979 a 1990) representou o marco histórico do desmonte gradual do Estado de Bem-estar inglês a partir da política de privatização das empresas públicas. Outros países adotaram a mesma política.

E o Brasil?
O Brasil nunca chegou a estruturar um Estado de Bem-estar semelhante aos dos países de Primeiro Mundo. Não obstante, o grau de intervenção estatal na economia nacional teve início na Era Vargas (1930-1945) e chegou ao auge durante o período da ditadura militar (1964-1985). Paradoxalmente, os mais beneficiados com os gastos públicos em infra-estrutura (nas áreas de telecomunicações, energia elétrica, auto-estradas etc) e construção de grandes empresas públicas foram, justamente, os empresários brasileiros e estrangeiros.

Na década de 1970, porém, setores mais influentes da classe empresarial começaram a dirigir críticas ao intervencionismo estatal. Na época, a palavra mais usada pelos empresários paulistas em sua campanha contra o intervencionismo estatal na economia era “desestatização”. Quando ocorreu a transição para a democracia, os partidos políticos de esquerda e os movimentos populares acreditavam que tinha chegado o momento do Estado brasileiro saldar a imensa dívida social diante das profundas desigualdades sociais e pobreza extrema reinantes no país. Não obstante, todos estes anseios foram frustrados.

Os governos democráticos que se sucederam a partir de 1985 adotaram inúmeras políticas, chamadas de neoliberais, cujos desdobramentos mais evidentes foram as privatizações de inúmeras empresas estatais. Atualmente, o debate em torno da reforma da previdência social é o centro da política de desmonte (ou reestruturação, como preferem os políticos de direita) do Estado do Bem-estar brasileiro.

Fonte: Uol
Autor: Renato Cancian

TERRORISMO DE ESTADO

0

Violência de governos totalitários.

Historicamente, porém, a prática da violência inerente aos atos terroristas pode assumir variadas formas. O atentado político, por exemplo, é uma modalidade de terrorismo praticada contra o poder constituído visando desencadear a incerteza e o medo permanente, que engendrarão a luta política generalizada para a concretização de um golpe de Estado ou a conquista do poder.

Atentados políticos são muito comuns nas guerras de libertação nacional, quando um povo subjugado por uma nação estrangeira tenta se libertar por meio de ações que têm por objetivo atingir unicamente o inimigo interno.

O terrorismo também foi um dos principais recursos empregados por grupos guerrilheiros revolucionários. Na América Latina, por exemplo, as guerrilhas se proliferaram a partir da segunda metade do século 20.

Por não disporem de apoio na sociedade, quer por falta de condições propícias ou até mesmo por desconfiarem das massas, grupos guerrilheiros recorreram ao terrorismo como tática para derrubar governantes e também suscitar no povo (ou parcelas da população) a consciência para a causa revolucionária.

Terrorismo de Estado
O terrorismo de Estado foi um recurso muito utilizado por países que atravessaram processos revolucionários de conquista do poder político. Uma vez na direção do governo, os grupos revolucionários empregaram o terror como uma arma de dissuasão e eliminação de focos de oposição e de grupos contra-revolucionários. Esse foi o caso histórico da Rússia pré e pós-revolucionária.

A dinastia Romanov tentou a todo custo se manter no poder a partir da prática do terrorismo de Estado contra os grupos revolucionários. Depois que os bolcheviques tomaram o poder, porém, a Rússia ingressou numa fase de terror sem precedentes, que durou décadas, até o fim da guerra civil e posterior consolidação do socialismo soviético.

Também podemos mencionar a conjuntura política mundial que abrange o período do fim da Primeira Guerra Mundial ao fim da Segunda Guerra. Foi uma fase de surgimento de regimes políticos ditatoriais e totalitários, que praticaram o terror contra inimigos internos e a população de modo geral.

No Brasil do período da ditadura militar (1964-1985), por exemplo, a sociedade presenciou as modalidades de terrorismo de Estado e dos grupos guerrilheiros de esquerda.

Contudo, os terrorismos revolucionários e de Estado não se limitam à prática do atentado político, que, como vimos, atinge apenas o inimigo, mas tendem a provocar outras conseqüências. Pensemos, por exemplo, em casos de sabotagem e uso de artefatos explosivos, que quase sempre vitimam muitos inocentes. É justamente o uso indiscriminado e arbitrário da violência que demarca a fronteira entre o terrorismo revolucionário e o terrorismo internacional.

Fonte: Uol
Autor: Renato Cancian