AVANÇO NA INFERTILIDADE MASCULINA

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ANÁLISE DA FRAGMENTAÇÃO DO DNA

Há alguns anos tem se pesquisado sobre a fragmentação do DNA espermático, mas apenas recentemente estes estudos conseguiram ter aplicabilidade clínica na avaliação da infertilidade masculina.
Os resultados com o teste evidenciam que espermatozóides morfologicamente normais e móveis podem apresentar níveis altos de fragmentação do DNA. Indivíduos que apresentam o espermograma normal podem ser portadores dessa desordem.
A fragmentação do DNA pode resultar de múltiplos fatores como: dieta, uso de drogas, febre alta, temperatura testicular elevada, poluição, fumo e idade avançada. Com exceção da idade, a exposição a estes fatores pode ser transitória, podendo have uma melhora da fragmentação do DNA com o decorrer do tempo.
A qualidade do DNA prediz o sucesso da inseminação intra-uterina.
Um valor de Índice de Fragmentação de DNA (IFD) superior a 30% coloca o homem em um grupo que estatisticamente tem um tempo mais longo para estabelecer uma gestação normal, maior número de ciclos de Fertilização in vitro (FIV) e aumento do risco de abortamento. A fragmentação do DNA espermático diminui a taxa de gravidez em Técnicas de Reprodução Assistida.
É importante salientar que um valor de IFD acima de 30% não exclui a possibilidade de fertilização normal, desenvolvimento embrionário e ocorrência de gestação a termo normal.

O indivíduo que possui o teste positivo pode se beneficiar através do tratamento com agentes anti-oxidantes como a vitamina C e E.
Artigos recentes relatam um menor IFD em espermatozóide testicular, uma vez que esta fragmentação se dá ao nível pós-testicular, principalmente no epidídimo. Houve um aumento na taxa de implantação embrionária e gestação clínica ao se usar espermatozóides oriundos de biópsia testicular.
Temos que refletir que, com uma taxa de fragmentação de DNA de 30% no ejaculado, ainda tem mais da metade dos espermatozóides com o DNA aparentemente intacto. É possível que a fragmentação de DNA detectável seja apenas a “ponta do iceberg” e que o dano sub-limiar ao DNA está presente na maior parte daqueles espermatozóides em que o resultado foi normal.
Figura 1: A Citometria de fluxo que avalia a fragmentação do DNA, consiste na passagem das células coradas são forçadas a passarem por um canal de vidro numa suspensão líquida. Quando as células passam pelo ponto focal do feixe de laser, este causará a emissão de uma luz de uma determinada cor. O espermatozóide que fluoresce a cor verde tem baixos níveis de fragmentação de DNA (não-detectável) enquanto o vermelho traduz níveis moderados a altos de fragmentação de DNA. Níveis moderados a altos de fragmentação encontrados nesta fluorescência vermelha, está provavelmente além da capacidade oocitária de reparação do DNA.

Fonte: Alessandro Schuffner (e-mail: [email protected])
Research Fellowship no Jones Institute for Reproductive Medicine, Norfolk, EUA. Integrante da Comissão de Endocrinologia Reprodutiva da Soc. Brasileira de Reprodução Humana – SBRH Integrante do Comitê de Reproduçao Humana da Soc. Ginecologia e Obstetrícia do Paraná – SOGIPA

Reprodução Assistida em Casais Soro-discordantes HIV

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O vírus da imunodeficiência humana (HIV) infecta pessoas de todas as idades. O fato da maioria das pessoas infectadas (86%) estar em idade reprodutiva (15-44 anos), e ainda que o vírus é mais prevalente atualmente em casais heterosexuais, alguns destes casais necessitarão de assistência para terem seus filhos, com diminuição importante de infectar o parceiro e seus filhos. Uma meta-análise demonstrou que o uso da terapia anti-retroviral altamente eficaz, a não amamentação, associados ou não ao parto cesáreo eletivo, diminuem significativamente a transmissão vertical do vírus para o feto.

Diante disto a Sociedade Norte-Americana (ASRM) e Européia (ESHRE) de Medicina Reprodutiva fizeram colocações éticas que devem ser seguidas.

Mulher HIV +

Se a mulher é HIV +, a inseminação intra-uterina eliminaria o potencial de transmissão do vírus ao parceiro. Uma gestante sem tratamento anti-retroviral tem uma taxa de transmissão do vírus para seu feto de 20-25%. Se zidovudina (AZT) for utilizada pela gestante, a partir da 14a semana de gestação, bem como pelo recém-nascido até 6 meses, o risco de transmissão materno-fetal cai para 5-8%. Atualmente, recomenda-se o uso de 3 drogas anti-retrovirais pela gestante, o que permite que quase a totalidade delas atinjam carga viral indetectável, o que significa supressão viral máxima, reduzindo o risco de transmissão vertical para menos de 1%.

Homen HIV +

Tecnologias hoje disponíveis permitem a separação de espermatozóides do vírus HIV em homens HIV positivo, para que reduza a carga viral na amostra seminal, e posterior uso destas para inseminação dos óvulos de suas parceiras HIV negativo com o objetivo de obter gravidez.

Estas tecnologias estão indicadas em casais HIV soro-discordantes, onde o homem está contaminado, e que através de uma tecnologia no processamento do sêmen é possível a separação de espermatozóides, sem a presença do vírus HIV na amostra. Este processamento seminal para retirada do HIV consiste em sucessivas “lavagens” dos espermatozóides.

Existem alguns critérios para que estes homens possam fazer parte deste programa: não ser azoospérmico, baixa carga viral, contagem CD4+ adequada, dentre outros.

Para certificarmos a ausência do vírus na referida amostra, após o processamento, parte da suspensão contendo os espermatozóides é analisada através da técnica de PCR (Reação em Cadeia pela Polimerase) e outra parte é criopreservada. Após o resultado negativo, no que concerne à presença do vírus, a mulher é submetida à indução da ovulação para obtenção de óvulos que serão combinados com aqueles espermatozóides outrora criopreservados que serão agora descongelados, através de técnicas de reprodução assistida (IIU – Inseminação Intra-Uterina, Inseminação Artificial; FIV – fertilização in vitro, bebê de proveta; ICSI – injeção intra-citoplasmática de espermatozóide).

Acompanhamento

O acompanhamento da mulher é feito através de testes para detecção de anticorpos para o HIV e antígeno p24 do HIV, que aparece no organismo 1 a 2 semanas após a exposição ao vírus. Estes testes devem ser realizados com freqüência após a transferência embrionária para o útero ou após a inseminação intra-uterina e também no recém-nascido.

Tratamento da infertilidade quando ambos parceiros são HIV +

Estes casais têm de ser informados do risco de transmissão para a prole. Se a carga viral puder ser suprimida a níveis indetectáveis na gestante, o casal poderá ter um filho sem HIV. A terapia anti-retroviral atual que consiste em administrar ao paciente, pelo menos, 3 drogas, está permitindo transformar a infecção pelo HIV numa doença crônica, com expectativa de sobrevida com boa qualidade de vida por muitas décadas. Por outro lado, como tal terapia se tornou disponível há cerca de 10 anos, não é possível precisar quão duradoura ela será. Os dados atuais demonstram que, pelo menos 80% dos pacientes que são aderentes à terapia, apresentam boa resposta clínica, imunológica e virológica.

Considerações éticas

O risco da transmissão do HIV para a descendência pode ser diminuído enormemente, mas não eliminado. O risco levanta questões éticas no âmbito da liberdade de reproduzir, o que pode ser considerado danoso o suficiente para restringir esta liberdade, gerando assim, conflito entre dois princípios éticos: respeito pela autonomia do paciente em decidir sobre sua reprodução e o principio da beneficência que é expresso na preocupação com o bem-estar da criança. Em situações onde uma criança poderá nascer com uma doença grave, poderá ser argumentado que profissionais não estariam agindo sem ética, caso procedam com técnicas em reprodução assistida envolvidas em cuidados necessários para prevenir a transmissão desta doença para criança e para o outro parceiro. No entanto, não será eticamente aceitável, se fizer o tratamento com falta de recursos clínicos e laboratoriais necessários para cuidados efetivos para estes casais que desejam ter seus filhos.

As considerações éticas aqui abordadas são similares em alguns aspectos àquelas em casais que sabem que são portadores de doença autossômica recessiva, como anemia falciforme, fibrose cística ou doença de Tay-Sachs. Estes casais podem optar por correr o risco de terem seus filhos acometidos por estas doenças. Nestes casos, o risco de transmissão da doença é de 25% e não pode ser reduzido. Já o risco de transmissão do HIV pode ser reduzido para até mesmo menos de 1%. E ainda, este risco é menor, quando comparado com anormalidades cromossômicas em pacientes mais velhas e gestação múltipla, por exemplo.

Considerações finais

A infecção pelo HIV é atualmente classificada como uma doença crônica e tratável, mas ainda não é curável. O potencial para pessoas HIV+ terem filhos não infectados e não transmitir o vírus para seus parceiros foi aumentado substancialmente, mas o sucesso não pode ser totalmente garantido. É recomendado uma equipe multidisciplinar para a abordagem destes casais: especialistas em medicina reprodutiva, infectologistas, obstetras, embriologistas, psicólogas e enfermeiras.

As opções para os casais que não queiram se submeter a estas técnicas seriam: adotar uma criança, usar o banco de sêmen de doador ou então não terem filhos. Esta abordagem deve sempre ser colocada aos casais, previamente ao tratamento.

Referência:

Implicações éticas quanto às técnicas de reprodução assistida em casais sorodiscordantes para HIV, onde a mulher é soronegativa e o homem é soropositivo. Arq Cons Reg Méd do PR, 21 (82): 74-76, 2004.

Autores:
Alessandro Schuffner (e-mail: [email protected])
Research Fellowship no Jones Institute for Reproductive Medicine, Norfolk, EUA. Integrante da Comissão de Endocrinologia Reprodutiva da Soc. Brasileira de Reprodução Humana – SBRH Integrante do Comitê de Reproduçao Humana da Soc. Ginecologia e Obstetrícia do Paraná – SOGIPA

Clóvis Arns da Cunha – Infectologista (e-mail: [email protected])

BIOÉTICA E DOAÇÃO DE EMBRIÕES

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O avanço científico que possibilitou a reprodução humana assistida, mais especificamente a fertilização in vitro, consolidou alguns de seus aspectos nestes últimos 25 anos, mas também causou polêmica e provocou dilemas éticos novos e ainda não resolvidos. É necessário destacar que 25 anos pode ser bastante na vida de uma pessoa, mas é pouco tempo para que novas e desafiantes realidades sejam adequadamente avaliadas, e que posições éticas a seu respeito sejam desenvolvidas e amplamente aceitas.

A bioética, como disciplina que surge exatamente para avaliar o impacto do avanço tecno-científico, particularmente no âmbito das biociências, sobre a vida humana, tem desenvolvido reflexões interessantes a respeito da reprodução assistida. A bioética não endossa uma única posição sobre temas polêmicos, por causa do necessário respeito à diversidade cultural e religiosa, mas promove o debate e a análise crítica das posturas assumidas.

Não há dúvida que o profissional de saúde, corretamente orientado pelo princípio da beneficência, busca o bem estar do casal ao lhe assistir, amparar e instrumentar no sentido de viabilizar o desejo e a decisão de ter filho. O serviço de reprodução assistida é mais um serviço de saúde, que pode promover vida, realização humana e superação de limites biológicos.

Certamente o casal tem autonomia para tomar as decisões que envolvem os diferentes aspectos de todo o processo de busca ou não do serviço de reprodução assistida. No entanto, não podemos promover uma ditadura da tecnologia que pressiona os casais inférteis a buscarem necessariamente a reprodução assistida, nem podemos pressionar os casais a optarem por soluções que eles não desejem nem se sintam em condições de assumir. Os casais precisam ser informados do ponto de vista científico, técnico e ético, para que a decisão a ser tomada seja a mais consciente possível.

Esta visão positiva e otimista da reprodução assistida não pode esconder ou acobertar os problemas e dificuldades existentes. Não cabe à bioética barrar o avanço da reprodução assistida, mas é necessário indicar caminhos para que tal serviço de saúde seja realizado dentro dos padrões éticos aceitáveis pelas pessoas envolvidas e por toda a sociedade.

Um dos problemas éticos mais sérios relevantes, levantados pelos atuais métodos da reprodução assistida, é a produção de embriões excedentes. A maioria dos centros de Fertilização In Vitro (FIV) congelam embriões excedentes para que, no caso de não ocorrer a gravidez no ciclo à fresco, estas mulheres possam realizar a transferência dos embriões criopreservados, sem se submeter à nova estimulação ovariana e aspiração folicular. Sendo assim, acaba-se fertilizando um número maior de oócitos e criopreservando os embriões que não são transferidos. Mesmo quando se consegue a gravidez no ciclo à fresco, estes embriões podem ser utilizados para uma gravidez subseqüente.

Uma vez que o casal definiu que a família está completa, existem algumas opções no que diz respeito ao que fazer com os embriões criopreservados. Estas opções incluem mantê-los criopreservados indefinidamente, doarem para pesquisa ou doarem para outro casal para que possa ter um bêbe. Na Austrália e Estados Unidos (EUA) existe ainda a possibilidade de descartar o embrião, mas na regulamentação do Conselho Federal de Medicina (CFM, 1992) não permite esta prática. A opção de mantê-los criopreservados indefinidamente, quando não se almeja uma nova gravidez, acarretará futuramente outras questões, geralmente não avaliadas no momento da decisão, tais como ocorrências de separação do casal ou falecimento de um dos cônjuges. Nestes casos não há ainda regulamentação específica quanto ao destino dos embriões.

Gostaríamos de promover o debate ético a respeito da doação de embriões criopreservados. Por mais estranho que possa parecer para o contexto cultural brasileiro, gostaríamos de insistir na importância da doação e adoção de embriões. Isto porque esta atitude vem de encontro a sanar o grande problema ético, continuamente colocado pela nossa sociedade, em relação à Reprodução Assistida, que é a indefinição sobre o destino dos embriões excedentes. Afirmar que isto não é problema, defendendo que um embrião não tem vida nem é ainda um ser humano, não resolve em nada a questão. Se o embrião não tivesse vida, não passaria a tê-la depois de implantado no útero, se não fosse humano, não passaria a ser pelo processo de nidação.

Além do mais a doação resolveriam também outros problemas. A decisão de doação destes embriões anularia dilemas futuros que envolvem diretamente a família em questão, muitas vezes alheia às técnicas praticadas. A doação de embriões poderá ser a resposta para vários casais com infertilidade que de outra forma teriam de adotar ou ficar sem filhos. Assim, o advento da FIV e criopreservação de embriões excedentes colocam estes como uma fonte disponível para receptoras potenciais, e o grande impasse ético passa a ser sinal de esperança para quem deseja um filho.

A abordagem destes aspectos deve ser ampla junto aos casais, antes mesmo da confirmação de embriões excedentes, facilitando assim decisões futuras quanto ao destino dos mesmos. É necessário ampliar as informações pré-consentimento informado, de modo a favorecer a aceitação desta possibilidade pelos casais que buscam as técnicas de reprodução assistida e ficam com embriões excedentes que não desejam utilizar.

Referência:

Normas éticas para a utilização das Técnicas de Reprodução Assistida. Conselho Federal de Medicina. Resolução 1358, 11 de Novembro de 1992.

Alessandro Schuffner (e-mail: [email protected])
Research Fellowship no Jones Institute for Reproductive Medicine, Norfolk, EUA. Integrante da Comissão de Endocrinologia Reprodutiva da Soc. Brasileira de Reprodução Humana – SBRH Integrante do Comitê de Reproduçao Humana da Soc. Ginecologia e Obstetrícia do Paraná – SOGIPA

Mário Antonio Sanches – Núcleo de Bioética da PUCPR [email protected]

IMUNOLOGIA

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O que Imunologia tem a ver com Infertilidade?

O sistema imune é o principal mecanismo de defesa do nosso corpo contra agentes externos. Sendo assim, existem células especializadas do sistema imune que atacam agentes agressores, o que pode ocorrer tanto de forma direta, ou pela produção de substâncias, como os anticorpos e as citocinas, que são mediadores químicos fundamentais na organização e no equilíbrio de todo o processo de defesa.
Além de defender o corpo contra agentes externos infecciosos, tais como vírus e bactérias, o sistema imune tem uma importante função de vigilância em relação à presença de células estranhas. Estas células “estranhas”, reconhecidas como “não próprias” do nosso organismo podem ser tanto células de órgãos transplantados (daí o risco de rejeição e a necessidade de medicamentos imunossupressores em pessoas que recebem algum tipo de transplante) como células do nosso próprio corpo que sofrem modificações e podem originar um câncer.

O sistema imune e a gestação

Já sabemos que o sistema imune está sempre “de prontidão” para atacar e destruir tudo o que não faz parte do nosso organismo, ou seja, que tem características estranhas a ele. Assim, é natural a pergunta: o que acontece quando um novo ser, que tem metade de sua carga genética compatível com o organismo do pai, começa a se desenvolver dentro do útero materno?
Por muito tempo, acreditou-se que o ambiente uterino servia como uma barreira de proteção para que o sistema imune não reconhecesse o feto como “estranho” e, assim, não o destruísse. Hoje, já se sabe que não só este reconhecimento ocorre como é necessário para um desenvolvimento saudável da gestação.

ALOimunidade

Acredita-se que o sistema imune materno possua mecanismos para reconhecimento de um feto com carga genética diferente e, com isso, consiga protegê-lo contra a destruição. Haveria, assim, a produção dos chamados anticorpos bloqueadores que protegeriam o embrião recém-implantado no útero. Este tipo de resposta recebe o nome de aloimunidade. Quando não existe grande variabilidade genética entre o homem e a mulher, mesmo que eles não sejam parentes, tais anticorpos não são produzidos, deixando o embrião susceptível ao ataque do sistema imune. Quando existe um certo grau de semelhança entre o HLA materno e paterno, tais anticorpos bloqueadores não serão produzidos. Tendo assim, o embrião maior chance de ser destruído pelo sistema imune da mãe e o quadro clínico em tais casos poderá ser o de abortamento de repetição. É para tais casos que costumamos indicar um tratamento imunológico baseado na utilização de vacinas produzidas com linfócitos presentes no sangue do pai, que são injetados no organismo da mãe com o intuito de estimular, por uma via diferente, a produção de anticorpos contra o HLA paterno, que poderão, assim, ter o efeito protetor numa gravidez subseqüente. Esta é a teoria que justifica o tratamento de imunização com linfócitos paternos (ILP) para casos de abortamentos de repetição de causa aloimune.
A avaliação da presença de tais anticorpos é feita com um exame denominado Cross-Match (realizado por Citometria de Fluxo Quantitativa), que pesquisa a existência de anticorpos contra linfócitos paternos no sangue da mãe. Os resultados dos exames de Cross-Match são usados para indicar o tratamento e para monitorizar a resposta materna à aplicação das vacinas (ILP).

Produção de citocinas

As citocinas são fundamentais para um funcionamento adequado do sistema imune. Acredita-se que para que uma gravidez seja bem sucedida, a resposta imune predominante deve ser a de produção das chamadas citocinas Th2 (que levam a uma resposta imune principalmente humoral, ou seja, baseada na produção de anticorpos). O prognóstico da gestação pode não ser favorável se o tipo predominante de resposta for a Th1, que estimula mais a ação direta das células (resposta celular) em relação à resposta Th2. Assim, casos de infertilidade podem se dever a um desbalanço do equilíbrio Th1/Th2. Neste aspecto, acredita-se que as vacinas com linfócitos paternos, além do mecanismo de aloimunidade já explicado, também possam funcionar através do direcionamento do sistema imune materno para uma resposta predominantemente Th2. Tal efeito também pode ser obtido pela administração de imunoglobulina endovenosa.
AUTOimunidade
Embora o sistema imune de uma pessoa seja “adestrado” a reconhecer substâncias estranhas a ele, este mecanismo pode não ser perfeito. Algumas vezes, componentes próprios do organismo podem ser reconhecidos, levando à produção de auto-anticorpos. Estes auto-anticorpos podem levar a quadros de inflamação e de aumento da formação de coágulos no sangue, o que também pode levar a quadros clínicos de abortamentos de repetição e, possivelmente, de falhas da implantação do embrião. O fato de conseguirmos detectar os chamados auto-anticorpos em exames como dosagem de fator anti-núcleo (FAN) e anticorpos anti-fosfolípides não significa que a mulher é portadora de alguma doença auto-imune, como lupus e esclerodermia, entre outras. Pode haver apenas um leve desequilíbrio do sistema imune, cuja única manifestação clínica seja a dificuldade para engravidar e/ou manter a gestação até o final. Tais casos costumam responder bem ao tratamento indicado.

• O fator anti-núcleo (FAN)

Os anticorpos anti-nucleares costumam indicar distúrbios auto-imunes. Podendo indicar apenas alguma atividade auto-imune que não causa nenhum problema fora do período gestacional, mas que levaria a fenômenos inflamatórios deletérios em uma placenta em formação. A pesquisa de tais anticorpos, portanto, se faz necessária em alguns casos de infertilidade. Quando presentes, a terapia com a utilização de medicações com ação anti-inflamatória (corticoesteróides) costuma dar bons resultados.

• Células NK

A sigla NK vem do inglês “natural killer”. As células NK são células de defesa do sistema imune que tem a função de reconhecer células estranhas ao organismo, células infectadas por vírus ou com algum tipo de alteração que possa levar ao surgimento de um câncer. Existe uma grande quantidade de células NK no endométrio e um equilíbrio adequado de sua função é fundamental no processo de aceitação ou não de um embrião. Vários estudos já mostraram que quando a quantidade de células NK ativadas é aumentada, aumenta o risco de que elas venham a atacar o embrião, levando a quadros de abortamento. Nestas situações, o tratamento imunológico baseia-se na utilização de imunoglobulina endovenosa e tem o objetivo de regular a ativação e o número de células NK, evitando a destruição do embrião.
Estudos recentes mostraram que o próprio embrião, ainda, participa do processo de regulação da atividade NK, por meio da expressão, na membrana de suas células, de uma molécula denominada HLA-G, que tem ação inativadora sobre as células NK.

• Anticorpos anti-tiróide

Os anticorpos anti-tiróide, até onde se sabe, não têm uma participação direta na evolução da gravidez. Servem apenas como marcadores de algum distúrbio imunológico, já que fazem parte do grupo de auto-anticorpos. Alguns estudos já mostraram pior prognóstico da gestação quando eles estavam presentes, mas o mecanismo por trás desta observação permanece desconhecido. A detecção de anticorpos anti-tiróide, torna obrigatória a investigação da função da glândula tiróide, já que se sabe que um mau funcionamento da mesma afeta todo o metabolismo corpóreo, podendo ter repercussões indesejadas sobre a gravidez.

• Anticorpos anti-fosfolípides

Fosfolípides são componentes normais das membranas de nossas células. Existem vários tipos de fosfolípides: cardiolipina, fosfatidil-serina, fosfatidil-inositol, ácido fosfatídico, fosfatidil-etanolamina, etc. Os anticorpos anti-fosfolípides fazem parte do grupo de auto-anticorpos. Quando presentes em títulos altos, podem levar a lesões do endotélio e, como conseqüência, levar a formação de coágulos. É fácil entender que a presença de micro-trombos no leito trofoblástico em formação é altamente prejudicial, levando a áreas de infartos e dificultando as trocas materno-fetais, podendo acarretar abortamento. Alguns tipos de anticorpos anti-fosfolípides, como o anti-fosfatidil-serina, podem levar ainda ao ataque direto do tecido embrionário no início da gestação, também resultando em perda da gravidez. Para tais casos, o tratamento adequado com medicações anti-coagulantes, como a heparina de baixo peso molecular, costuma ter ótimos resultados em termo de sucesso da gravidez.

Trombofilias hereditárias

Algumas mutações genéticas podem levar a alterações de componentes do sistema de coagulação que resultam em maior chance de coagulação do sangue: são as trombofilias hereditárias, que devem ser pesquisadas em casos de abortamentos de repetição. Como exemplos deste tipo de situação, temos as mutações do gene da protrombina, do fator V de Leiden, de gene da metileno-tetrahidrofolato redutase, etc. O tratamento também é baseado na utilização de drogas anti-coagulantes.
Como podemos perceber, existem vários distúrbios imunológicos que podem prejudicar o desenvolvimento adequado de uma gestação ou dificultar sua obtenção. Sabemos hoje que muitos casos de infertilidade anteriormente classificados como sem causa aparente se deve, na verdade, a distúrbios imunológicos para os quais existe tratamento, e que portanto, merecem investigação detalhada. Distúrbios imunológicos podem responder não apenas por quadros de abortamentos de repetição, mas também de falhas repetidas de implantação dos embriões.

Alessandro Schuffner ([email protected])
Research Fellowship no Jones Institute for Reproductive Medicine, Norfolk, EUA.
Integrante da Comissão de Endocrinologia Reprodutiva da Soc. Brasileira de Reprodução Humana – SBRH
Integrante do Comitê de Reproduçao Humana da Soc. Ginecologia e Obstetrícia do Paraná – SOGIPA
Ricardo M. de Oliveira – SP

VISÃO ATUAL DO ABUSO SEXUAL NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

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Introdução

Das estruturas familiares, segundo Lévi-Strauss, em Las estructuras elementales del parentesco (1), definem-se como relações de parentesco elementares a sangüínea, que acontece entre irmãos; a de filiação, entre pais e filhos; e a de aliança, como a dos genros, noras, padrastos e madrastas.

Segundo Freud, em Totem y Tabú (2), para as duas primeiras relações parentais, as normas legais de cuidados existem desde as mais remotas eras, antes mesmo das leis, onde dois princípios fundamentais sempre regeram a convivência entre as pessoas – a proibição do canibalismo e a proibição do incesto.

Esses princípios são transmitidos de diversas formas, como pela educação, pela religião ou cultura, e nenhum ser humano que viva em sociedade pode afirmar desconhecer essa lei, que é passada de geração a geração. É essa regra maior que deveria ser respeitada também nas relações de aliança, onde o que determina o comportamento de um frente ao outro seria uma questão de formação.

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A prática sexual, cada vez mais propagada e difundida, pode se apresentar em formas distorcidas de relacionamentos, com a busca desenfreada de novas situações e modalidades, não importando se isso significa ir além do respeito ao outro.

Em todos os tempos, o domínio do mais forte sob o mais fraco foi exercido sob as diversas formas de poder, nas diferentes esferas da sociedade, desde as políticas e estatais, às sociais e familiares. A essa relação de poder, de busca dos excessos, do diferente e até mesmo do anormal, soma-se a pouca importância dada às crianças e aos adolescentes e às conseqüências dos maus-tratos dos adultos sobre eles.

Dessa forma, mesmo com a evolução dos princípios morais e legais em defesa das crianças e adolescentes, os casos de abuso sexual não deixaram de acontecer, nem passaram a ser vistos de maneira uniforme pela sociedade como um crime que deixa seqüelas, muitas vezes irreparáveis.

Define-se abuso ou violência sexual na infância e adolescência como a situação em que a criança, ou o adolescente, é usada para satisfação sexual de um adulto ou adolescente mais velho, (responsável por ela ou que possua algum vínculo familiar ou de relacionamento, atual ou anterior), incluindo desde a prática de carícias, manipulação de genitália, mama ou ânus, exploração sexual, voyeurismo, pornografia, exibicionismo, até o ato sexual, com ou sem penetração, sendo a violência sempre presumida em menores de 14 anos (adaptado de ABRAPIA, 1997) (3).

De difícil suspeita e complicada confirmação, os casos de abuso sexual na infância e adolescência são praticados, na sua maioria, por pessoas ligadas diretamente às vítimas e sobre as quais exercem alguma forma de poder ou de dependência.

Nem sempre acompanhado de violência física aparente, pode se apresentar de várias formas e níveis de gravidade, o que dificulta enormemente a possibilidade de denúncia pela vítima e a confirmação diagnóstica pelos meios hoje oferecidos pelas medidas legais de averiguação do crime.

Efeitos psicológicos do abuso sexual podem ser devastadores, e os problemas decorrentes do abuso persistem na vida adulta dessas crianças (4).

É um fenômeno universal que atinge todas as idades, classes sociais, etnias, religiões e culturas e pode ser considerado como qualquer ato ou conduta baseado no gênero, que cause dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à vítima e, em extremos, a morte.

Sobreviventes do abuso sexual freqüentemente repetem o ciclo de vitimização, perpetrando o abuso sexual intergeracional com seus próprios filhos (5).

A possibilidade de transitar da passividade da experiência para a atividade e aplicar ao mundo externo a agressão que lhe foi conferida permite que a criança “se desforre por procuração”.

Assim, estabelece-se um processo defensivo, o qual tende a se perpetuar: a identificação com o agressor como uma maneira psíquica de sobreviver ao abuso. A vítima, ao se igualar com o seu agressor e se converter em molestadora, torna o abuso sexual um legado passado à próxima geração de vítimas (6).

De outra forma, poderá apresentar a possibilidade de estabelecer uma relação abusiva consigo mesmo, como acontece nos casos de revitimização (7,8).

Os números da violência

O abuso sexual infantil é considerado, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como um dos maiores problemas de saúde pública. Estudos realizados em diferentes partes do mundo sugerem que 7-36% das meninas e 3-29% dos meninos sofreram abuso sexual (9).

A sua real prevalência é desconhecida, visto que muitas crianças não revelam o abuso, somente conseguindo falar sobre ele na idade adulta (10).

As estatísticas, portanto, não são dados absolutos. Trabalha-se com um fenômeno que é encoberto por segredo, “um muro de silêncio”, do qual fazem parte os familiares, vizinhos e, algumas vezes, os próprios profissionais que atendem as crianças vítimas de violência (11).

Acrescente-se a isso que países com limitados recursos socioeconômicos podem não ser capazes de manejar todos os relatos de suspeita de abuso sexual ou coletar dados referentes a eles (12).

Pesquisas em países europeus indicam que 6-36% de meninas e 1-15% de meninos sofreram experiências sexuais abusivas antes dos 16 anos. De forma similar, em estudos realizados nos EUA, com uma amostra de 935 pessoas, 32,3% das mulheres e 14,2% dos homens revelaram abuso sexual na infância, e 19,5% das mulheres e 22,2% dos homens sofreram violência física (13).

Dados da Polícia Civil – Secretaria da Justiça e da Segurança do Estado do Rio Grande do Sul – apontam que, em 2002, 1.400 crianças foram vítimas de violência; destas, 872 ou 62% foram vítimas de violência sexual. Em 2003, 1.763 foram vítimas de violência; destas, 1.166 ou 66,14% de violência sexual. De janeiro a julho de 2004, de 525 crianças vítimas de violência, 333 ou 63,43% estavam relacionadas à violência sexual (14).

Esses números, extremamente cruéis, são indicativos que a violência sexual é a que tem sido mais denunciada e acompanhada por essa Secretaria, não se podendo considerá-los, no entanto, como um índice de prevalência dentro da proporção de todos os tipos de maus-tratos a que podem ser submetidos crianças e adolescentes.

Dados do programa Rede de Proteção às Crianças e Adolescentes em Situação de Risco para Violência, da cidade de Curitiba (PR), evidenciam 1.356 notificações de maus-tratos no ano de 2003. Destas, 17,6 % foram casos de abuso sexual, sendo 75,6% do sexo feminino e 24,4% do sexo masculino (Tabela 1) (15).

Tabela 1 –
Número e percentual de notificações segundo tipo de violência do programa Rede de Proteção, Curitiba, 2003

A violência sexual apresentou a maior prevalência como forma de violência doméstica, com 75,2% dos casos. Em 24,8% das notificações, o abuso aconteceu fora da residência da vítima. Porém, mesmo assim, a quase totalidade desses casos foi cometida por pessoas que mantinham relacionamento de confiança com a vítima. Isso demonstra a distorção que a sociedade mantém nesse tipo de violência, quando remete habitualmente a imagem do agressor ao estranho, marginal ou psicopata de rua.

É preciso que se leve em conta, também, que o abuso sexual ocorre para os dois sexos, sendo maior a incidência no sexo feminino, até por ser culturalmente o mais aceito, tanto para o ato em si, como para a denúncia. As estatísticas internacionais apontam para 10% dos casos referentes ao sexo masculino. Nos dados do Programa Rede de Proteção de Curitiba, das 238 notificações de violência sexual acompanhadas no ano de 2003, 24,4% eram de meninos (15).

Por que as crianças e adolescentes se calam

Na assistência à criança e adolescente vítimas de maus-tratos, há que se considerar que, em aproximadamente 20% de todos os casos, existe o abuso sexual, sempre acompanhado das agressões psicológicas, como em todas as formas de violência nessa faixa etária.

Os casos mais freqüentes de violência sexual até a adolescência são decorrentes de incesto, ou seja, quando o agressor tem ou mantém algum grau de parentesco com a vítima, determinando muito mais grave lesão psicológica do que na agressão sofrida por estranhos.

Trata-se de uma forma de violência doméstica que usualmente acontece de forma repetitiva, insidiosa, em um ambiente relacional favorável, sem que a criança tome, inicialmente, consciência do ato abusivo do adulto, que a coloca como provocadora e participante, levando-a a crer que é culpada por seu procedimento (o abuso).

O agressor usa da relação de confiança que tem com a criança ou adolescente e de poder como responsável para se aproximar cada vez mais, praticando atos que a vítima considera inicialmente como de demonstrações afetivas e de interesse. Essa aproximação é recebida, a princípio, com satisfação pela criança, que se sente privilegiada pela atenção do responsável. Este lhe passa a idéia de proteção e que seus atos seriam normais em um relacionamento de pais e filhas, ou filhos, ou mesmo entre a posição de parentesco ou de relacionamento que tem com a vítima.

As abordagens, que se tornam cada vez mais freqüentes e abusivas, levam a um sentimento de insegurança e dúvida, que pode permanecer por muito tempo, na dependência da maturidade da vítima, de sua estrutura de valores e conhecimentos, além da possibilidade ou não que teria de diálogo e apoio com o outro responsável, habitualmente favorecedor, consciente ou não, da violência.

Quando o agressor percebe que a criança começa a entender como abuso ou, ao menos, como anormal seus atos, tenta inverter os papéis, impondo a ela a culpa de ter aceitado seus carinhos. Usa da imaturidade e insegurança de sua vítima, colocando em dúvida a importância que tem para sua família, diminuindo ainda mais seu amor próprio, ao demonstrar que qualquer queixa da parte dela não teria valor ou crédito. Passa, então, à exigência do silêncio, através de todos os tipos de ameaças à vítima e às pessoas de quem ela mais gosta ou depende. O abuso é progressivo; quanto mais medo, aversão ou resistência pela vítima, maior o prazer do agressor, maior a violência (16).

Sentindo-se desprotegida pelo outro responsável, habitualmente a mãe, que permitiu a aproximação do abusador, insegura por imaginar que realmente não seria ouvida ou acreditada, envergonhada tanto pelo que passa, como pela sua impossibilidade de denunciar, por seu amor próprio reduzido e, ainda, ameaçada por aquele de quem habitualmente depende física e emocionalmente, ela se cala, muitas vezes para toda sua vida.

As situações de abuso homossexual são relatadas em 10% dos casos de violência sexual dentro da literatura internacional. No programa Rede de Proteção às Crianças e Adolescentes em Situação de Risco para Maus-Tratos, Curitiba, 2002 e 2003 (15), esses casos foram encontrados em 21% das notificações de abuso sexual. Esse tipo de violência ocorre mais freqüentemente entre o responsável do sexo masculino e o menino ou o adolescente, sem que isso necessariamente constitua um comportamento definitivo homossexual do agressor ou da vítima. Habitualmente, faz parte de um quadro de abuso geral, em caráter pedofílico, onde também as meninas da casa sofrem o mesmo tipo de agressão.

Um pacto familiar de silêncio

Como parte de uma doença familiar, para que haja a denúncia do abuso sexual, é preciso que haja uma ruptura do equilíbrio doméstico que as pessoas se impõem, em uma distorção relacional denominada família incestuosa. Nos casos mais comuns e dentro de uma estrutura patriarcal de poder trazida das gerações anteriores, a mãe passa a ocupar o papel de silent partner – no qual tem uma participação muda em um quadro geral de violência.

Felizardo et al., no artigo “Modelos Teóricos de Interpretação para Violação do Incesto” (17) – fazem referência a Kaufmann et al., que em 1954 já descreviam um perfil comum dessas mães: quase todas tiveram uma mãe dominante, fria e emocionalmente distante, que rejeitou as filhas, favorecendo seus filhos. Hirch (18) acrescenta que, como conseqüência à socialização desigual de gêneros, essa mãe desenvolve o complexo feminino de inferioridade. Ela tenta manter a “estabilidade e segurança” da família, que representa seu porto seguro. Com a filha adolescente, em muitos casos, a mãe, consciente ou inconscientemente, passa a delegar à filha o seu pesado papel de mãe e esposa, em todos os seus aspectos (17).

Em algumas situações, quando o incesto é revelado, a mãe reage com ciúmes, como rival e passa a colocar na filha a responsabilidade pelo ocorrido. Para corroborar com essa prática, estaria a dificuldade de a mãe reconhecer o incesto, pois seria o reconhecimento de seu fracasso como mãe e esposa, enquanto que o abusador usa de todos os meios para manter seus atos em silêncio e encobertos (18).

Outra constatação da complexidade do impacto dessa violência na estrutura familiar é que o incesto é mais freqüentemente relatado em famílias de nível socioeconômico inferior e mais facilmente encoberto pelas de padrão mais alto (19) (adaptado de Kaplan et al.).

É possível, então, concluir que o abuso sexual faz parte de um conjunto de rupturas de relacionamentos, em uma estrutura doente familiar, que vem do histórico de vida de cada membro dessa família, incluindo o agressor. Esse histórico pode determinar uma permissividade ao ato, pela própria desvalorização da infância e adolescência, como também do papel da mulher, mantendo, na maioria dos casos, uma cegueira e surdez coletiva aos apelos, muitas vezes mudos, da vítima.

O diagnóstico

O diagnóstico do abuso sexual e a conseqüente proteção necessária da criança e do adolescente dependem, também, de o pediatra considerá-lo como uma possibilidade (20).

Sinais gerais

O maior problema defrontado pelo médico e pelos meios de proteção legal é a comprovação do abuso sexual quando falta a evidência física. De fato, diferentemente dessa forma de violência, cujo diagnóstico é baseado em conseqüências observadas, o abuso sexual é geralmente definido por meio de sinais indiretos da agressão psicológica somados aos fatos relatados pela vítima ou por um adulto próximo (21).

Em geral, contatos – oral, digital e genital – ocorrem na genitália externa e na área anal. A não ser que ocorra penetração vaginal, a injúria é limitada à região da vulva e ânus. Quando o perpetrador roça seu pênis na vulva da criança, podem ser evidenciados eritema, edema, lesões e escoriações nos grandes lábios. Achados similares podem ser observados quando o perpetrador manipula digitalmente a vulva ou o intróito vaginal sem que ocorra a penetração.

Porém, as crianças dificilmente revelam de imediato o abuso sexual, o que oportuniza que o processo de cicatrização se complete dentro de poucos dias e, quando ela é examinada posteriormente, a apresentação anatômica da área ano-genital pode já não apresentar lesões evidentes (22).

Alguns autores tendem a atribuir toda lesão anogenital como sendo causada por abuso. No entanto, estudos atuais demonstram que alguns achados ao exame podem ser variantes da normalidade, enquanto que outros são meramente anormalidades não específicas (23,24).

O pediatra é freqüentemente o primeiro profissional a ser procurado quando um ou os dois responsáveis, ou ainda outro membro da família, estão preocupados com a possibilidade do abuso sexual. A revisão de experiências sexuais da criança deveria fazer parte da rotina da história médica, e seria obrigatória a investigação mais aprofundada se a criança relatasse sintomas dirigidos à genitália ou ânus e/ou estivesse apresentando comportamento sexualizado adiantado para a idade (25).

O exame físico de toda a criança e adolescente deve ser completo, e a inspeção dos genitais e ânus, uma rotina. Dessa forma, o profissional familiariza-se com os dados normais e fica mais habilitado e seguro para reconhecer qualquer alteração dessa área (26).

É causa de preocupação a falta de conhecimento de alguns médicos em reconhecer as diferenças entre o normal e o anormal, principalmente da genitália feminina (27,28).

Muitas vezes, a possibilidade oferecida a uma criança de revelação da violência sofrida pode desencadear a denúncia por parte das outras crianças e adolescentes do mesmo ambiente familiar que estejam ou tenham sido submetidos à mesma forma de abuso. Em alguns casos, a descoberta de abuso sexual de uma criança ou adolescente por parte dos responsáveis mais velhos de segunda geração, como avós ou tios-avós, pode levar à quebra da amnésia pós-traumática de um abuso sofrido pela própria mãe ou pai da vítima.

Em outras situações, a criança e/ou adolescente podem ser induzidos a acusar um estranho ou qualquer outro mais distante, que não possam se defender da acusação, encobrindo, assim, o verdadeiro agressor. Habitualmente, são histórias não consistentes e que não se sustentam frente a uma argumentação mais detalhista. Somente quando passam a confiar no profissional é que essas vítimas conseguem revelar o abuso, geralmente repetitivo e de longa duração, perpetrado pelos pais, familiares e outros de seus relacionamentos (9).

A anamnese deve ser realizada com bastante cautela, devendo-se poupar ao máximo a vítima de estar repetindo sua história, mesmo para profissionais diferentes, pois a fará reviver sua dor e até mesmo potencializá-la, de acordo com a reação e abordagem de cada profissional.

A avaliação da história colhida em momentos diferentes com outras pessoas envolvidas (além do próprio paciente, seus acompanhantes e responsáveis), procurando observar se há incoerências e contradições, pode conduzir ao diagnóstico definitivo. Nem sempre a queixa é clara e, nos casos mais habituais, que são crônicos e sem sinais físicos específicos, a participação de profissional especializado na área emocional, como psicólogos, psiquiatras ou psicanalistas, é fundamental.

O uso de estratégias como brincar com bonecos ou colocar a vítima nos papéis de filha, filho ou responsáveis pode evidenciar alguns sinais ou sintomas. Também nos desenhos, muitas vezes, a criança descreve, até mesmo em detalhes, às vezes simbólicos, todo seu sofrimento.

O conjunto de dados relevantes, se possível com a documentação através de fotos das lesões físicas existentes, devem ser registrados no prontuário do paciente, lembrados os princípios éticos e legais de sigilo e confidencialidade (Manual de Segurança, SBP, 2004) (16).

Há que se levar em conta, também, a possibilidade de falsa denúncia, na qual a criança ou adolescente é induzido ou convencido a acusar um dos responsáveis em crises conjugais, ou como meio de impedir a guarda daquele filho ou filha, ou mesmo como instrumento de vingança.

As conseqüências da violência sexual na infância ou adolescência podem se apresentar através de sinais e sintomas decorrentes da lesão psicológica a que essas vítimas são submetidas, como tristeza constante, prostração aparentemente desmotivada, sonolência diurna, medo exagerado de adultos, habitualmente aquele do sexo do abusador, história de fugas, comportamento sexual adiantado para idade, masturbação freqüente e descontrolada, tiques ou manias, enurese ou encoprese e baixo amor-próprio.

Sinais específicos

Embora nem sempre presentes, os sintomas e sinais de lesão física são bastante conclusivos no diagnóstico de abuso sexual na infância e adolescência e devem sempre ser pesquisados.

Há que se levantar o diagnóstico de violência sexual sempre que se encontra:

Lesões em região genital.

Edema, hematomas ou lacerações em região próxima ou em área genital, como partes internas de coxas, grandes lábios, vulva, vagina, região escrotal ou anal, tanto em meninas como em meninos.

Dilatação anal ou uretral, ou rompimento de hímen dão o diagnóstico de abuso sexual, mas esses nem sempre são sinais evidentes dentro das variações da normalidade, necessitando muitas vezes de uma avaliação minuciosa por profissionais especializados da área de perícia médica.

Lesões como equimoses, hematomas, mordidas ou lacerações em mamas, pescoço, parte interna e/ou superior de coxas, baixo abdome e/ou região de períneo.

Sangramento vaginal ou anal em crianças pré-púberes, acompanhado de dor, afastados os problemas orgânicos que possam determiná-los.

Encontro de doenças sexualmente transmissíveis – como gonorréia, sífilis, HPV, clamídia, entre outras.

Aborto – a perda de embrião ou feto, de forma natural ou provocada.

Gravidez.
Manual de Segurança da Criança e do Adolescente, DCSCA, SBP 2004 (16).

Tratamento

Atendimento inicial

O acolhimento da criança ou adolescente e de sua dor é o primeiro passo para um bom resultado do tratamento físico e emocional que serão necessários. A escuta de sua história, livre de preconceitos, sem interrupções ou solicitações de detalhamentos desnecessários para a condução médica do caso, vai demonstrar respeito a quem foi desrespeitado no que tem de mais precioso, que é seu corpo, sua imagem e seu amor-próprio.

O pediatra deve lembrar sempre que está diante de uma criança extremamente fragilizada, confusa em seus sentimentos de humilhação, vergonha, culpa, medo e desamparo. É preciso que se crie um bom vínculo, explicando sempre o que será feito e o porquê, nunca prometendo o que não se pode cumprir, como, por exemplo, que essa violência não mais acontecerá, ou que a criança estará sempre protegida.

Deve-se diferenciar a condução do atendimento inicial para as situações agudas do estupro ou outra forma de abuso sexual que são emergenciais e demandam uma seqüência de condutas de assistência imediata, tanto à saúde física como emocional, daquelas crônicas e repetitivas, ambas extremamente desastrosas para a criança ou adolescente.

Nos casos agudos, com menos de 72 horas do ocorrido, as medidas legais já devem acompanhar toda assistência inicial de diagnóstico e tratamento. Para fins de processo judicial e a necessária comprovação da agressão sexual, bem como a confecção de exames que levem à identificação do agressor, é preciso que os responsáveis façam um boletim de ocorrência em delegacia de polícia, que requisitará o laudo pericial do Instituto Médico Legal.

Na recusa dos responsáveis em fazer a denúncia, a hipótese de autoria, conivência ou impotência deve ser levantada, sendo então obrigatória a presença do Conselho Tutelar, assumindo o poder de tutela provisória pela vítima e o apoio às atitudes de proteção que se fizerem necessárias. Na falta do Conselho Tutelar, a Vara da Infância e Juventude deve ser acionada.

Especial importância deve ser dada às crianças e aos adolescentes portadores de deficiências, que muitas vezes têm seus sinais e sintomas do abuso ignorados por serem considerados parte do quadro da doença principal. Os portadores de deficiências físicas e ou sensoriais são de alto risco para todas as formas de violência, incluindo a sexual, pelo extremo grau de dependência a que estão submetidos em seu dia-a-dia. No caso dos deficientes mentais, a sedução pelo adulto é muito mais fácil, pois a sua idade mental, que não acompanha o desenvolvimento de seu corpo, nem sua situação hormonal, faz com que acreditem cegamente no que esse suposto responsável lhe propuser.

Todo pediatra deve estar preparado para a realização de exame físico detalhado, incluindo o ginecológico, na busca de eventuais sinais físicos, genitais ou extragenitais de violência. Nos casos mais traumáticos e em situações de descompensação emocional da vítima, o exame deverá ser feito sob sedação e/ou anestesia, com consentimento informado dos responsáveis ou do representante legal da criança. Nos casos de abuso pelos responsáveis, este consentimento deve ser dado pelo Conselho Tutelar (16).

Nos casos crônicos, infelizmente a maioria, estar-se-á diante de uma criança ou adolescente extremamente fragilizado e que poderá apresentar todos os sinais de destrutividade e autodestrutividade, frutos das seqüelas emocionais do abuso. Os sinais gerais são menos drásticos, mas nem por isso menos graves. A situação familiar deve ser muito bem investigada, procurando se evidenciar, ou não, a participação de outros na manutenção do abuso, seja por impotência, conivência ou negligência.

Há que se avaliar os riscos envolvidos em cada caso e a necessidade de profilaxia para a hepatite B, proteção medicamentosa contra as DST não-virais, quimioprofilaxia para a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) e, para vítimas do sexo feminino em idade procriativa, contracepção de emergência. Essa etapa do atendimento é fundamental para proteger a vítima dos danos e agravos da violência, devendo ser instituída até 72 horas após a violência sexual (16).

Todo histórico da situação do abuso e suas circunstâncias, bem como os achados do exame físico, os exames diagnósticos realizados e as terapêuticas instituídas devem ser cuidadosamente descritos e registrados em prontuário do paciente. Isso garante a proteção eventualmente necessária nos casos de interesse da Justiça e fornece dados para feitura, com base nas informações do prontuário, do “Laudo Indireto de Exame de Corpo de Delito e Conjunção Carnal” (16).

Considera-se que 15% das vítimas de violência sexual contraem algum tipo de DST, e 1 em cada 1.000 mulheres é infectada pelo HIV (29).

É importante lembrar das doenças sexualmente transmissíveis: Neisseria gonorrhoeae, Chlamydia trachomatis, Trichomonas vaginalis, Treponema pallidum, papilomavírus humano (HPV), vírus do herpes simples (HSV), HIV.

Uma descrição detalhada sobre o exame físico e sinais de abuso sexual serão encontrados no Manual de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), bem como os tratamentos necessários, padronizados pelo Ministério da Saúde, que os disponibiliza nos centros constituídos como de referência para esse atendimento. Não farão parte do atual artigo por fugirem da extensão deste e já estarem bem documentos na publicação da SBP (16) .

Instrumentos para proteção legal das vítimas de abuso sexual e onde eles falham…

A Constituição Federal Brasileira de 1988 coloca, no seu artigo 227, dentre suas leis maiores: “É dever da família, da sociedade e do Estado, assegurar, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão” (30).

Em 1990, a 13 de julho, foi sancionada a Lei Federal 8.069, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (31), estabelecendo seus direitos e deveres, além de fixar as responsabilidades do Estado, da sociedade e da família com o futuro das novas gerações, trazendo uma nova visão e postura frente à infância e adolescência. Traz para todos, a criança e o adolescente, como sujeitos de direito, levando em conta a condição peculiar de seres em desenvolvimento e merecedores de prioridade absoluta.

A expressão “abuso sexual” está presente nos livros de Medicina Legal e no Estatuto da Criança e do Adolescente no artigo 130 (31), mas não faz parte das definições de crimes de natureza sexual do Código Penal Brasileiro (32). Neste, os crimes de natureza sexual são qualificados como: estupro, atentado violento ao pudor, sedução, posse sexual mediante fraude, atentado ao pudor, assédio sexual, corrupção de menores, rapto violento ou mediante fraude, tendo sido retirado do Código Penal Brasileiro, neste ano, o artigo sobre o rapto consensual (32).

O estupro é definido, pelo Código Penal Brasileiro, pela penetração vaginal com uso de violência ou grave ameaça, sendo que, em menores de 14 anos, essa violência é presumida (32).

Habitualmente, as formas iniciais do abuso sexual como apresentação de violência doméstica são praticados de forma insidiosa e progressiva, usando o agressor de várias formas de aproximações, intimidações e até ameaças, como já ressaltado, nem sempre acompanhadas de violência física.

O atentado violento ao pudor caracteriza-se pela obrigação de alguém a praticar atos libidinosos, sem penetração vaginal, utilizando violência ou grave ameaça, sendo também presumido quando em menores de 14 anos (32).

Em todos os casos de abuso sexual, é imprescindível que o médico, em especial o pediatra, esteja capacitado para o manejo clínico e psicológico das vítimas, incluindo o conhecimento da legislação específica. Isso exige que tenha sensibilidade, disponibilidade e experiência. A negligência nesses aspectos pode ser interpretada pelo paciente como novo processo de “vitimização”, também pelo serviço de saúde.

No abuso sexual da criança e adolescente, o ato libidinoso é o mais freqüente. Inicialmente, através de manobras de sedução e intimidação, seguidas de ameaças à própria criança ou a algum membro de sua família, comumente à mãe, o agressor obriga essa criança a praticar atos sexuais que não incluam a penetração vaginal para não caracterizar o estupro, mas sim uma série das mais variadas formas de contato sexual, constantemente incluindo sexo oral e penetração anal.

Assim diagnosticados, os poucos casos que chegam à denúncia e aos meios legais, que deveriam ser de proteção, acabam por ter laudo pericial inconclusivo ou de atos libidinosos, que não deixam marcas físicas, nem a comprovação pelos critérios atuais implícitos no Código Penal. Este define como grave as lesões essencialmente corporais, como as que resultam em incapacidade para as ocupações habituais por mais de 30 dias, em perigo de vida, perda ou debilidade de membro, sentido ou função, aceleração de parto, incapacidade para o trabalho, enfermidade incurável, deformidade permanente, aborto ou se resulta em morte (32).

Tais artigos, escritos em 1940 e, portanto, definidos com o pouco saber da época sobre as características especiais de um ser em desenvolvimento, têm sido usados como modelos nos laudos periciais do Instituto Médico Legal. Esses laudos, baseados unicamente nos achados de lesões físicas, ignoram a possibilidade de lesões emocionais, que deixarão marcas definitivas se não tratadas. Porém, eles têm sido o principal instrumento judicial de graduação das ações violentas, submetendo aos mesmos critérios tanto o adulto como as crianças e adolescentes, em todos os processos penais.

Essa seqüência de avaliações incompletas das marcas físicas e emocionais, determinadas pela violência sexual a uma criança ou adolescente, demonstram as falhas nos meios legais que deveriam ser de prioridade para proteção absoluta da infância e adolescência. Não há como se avaliar, com as mesmas medidas, os danos e riscos conseqüentes a uma agressão contra um adulto àquelas contra uma criança ou adolescente, seja ela física, psicológica, sexual ou negligência.

Maior gravidade ainda por serem formas de maus-tratos, nas quais o agressor é o responsável ou está ligado à criança pelos laços familiares ou de dependência.
A falta ou inconclusão do ato pericial legal faz com que, em muitos casos, não se consiga a culpa do abusador e, com isso, a proteção da vítima, a qual permanece muitas vezes sob o mesmo teto e com a mesma dependência, com a violência então potencializada pela falta de punibilidade após o ato criminoso ser delatado.

Prognóstico

É preciso que se tenha sempre presente que todas as formas de abuso sexual podem levar à desestruturação evolutiva da criança ou adolescente e que o diagnóstico de que não houve penetração vaginal (caracterizando o estupro) não deve ser minimizado, ou dado a ele uma conotação mais branda do que a realidade. Tanto o abuso sexual com penetração vaginal ou anal, com ou sem penetração, ou através de outros meios de agressões ligadas à esfera sexual, são formas doentias e perversas de violência à criança e ao adolescente, que deixam marcas definitivas no seu desenvolvimento físico e emocional.

Com a evolução do incesto e com a adolescência, o agressor, com maior incidência o companheiro da mãe, padrasto ou pai, torna-se cada vez mais violento e possessivo, com medo que a sua vítima o denuncie, ou que possa perdê-la para outros, passando a interferir nos relacionamentos de sua ou seu dependente com seus pares e sociedade. Dificulta ou impede que vá à escola, freqüente ambientes sociais e de lazer, que tenha amizades ou qualquer outra forma de relacionamento, escravizando-a em seus domínios.

Essa seqüência vai provocar uma cascata de reações de autodefesa ou de autodestruição, na dependência da assistência e proteção oferecidas a essas vítimas.

A vulnerabilidade às seqüelas do abuso sexual depende do tipo de abuso, de sua cronicidade, da idade da vítima e do relacionamento geral que tem com o agressor. Seus efeitos podem ser devastadores e perpétuos (19), não estando descrito, no entanto, nenhum sintoma psiquiátrico específico resultante do abuso sexual.

Segundo Kaplan et al., em seu capítulo “Problemas Relacionados ao Abuso ou Negligência”, as crianças com menos de 3 anos de idade tendem a não produzir uma recordação verbal de traumas ou abusos passados, contudo suas experiências podem ser reproduzidas em seus jogos ou fantasias (19).

Na idade pré-escolar, a imaturidade do desenvolvimento cognitivo e a pouca percepção que as crianças têm do mundo, aliadas à dificuldade de linguagem, também dificultam a compreensão dos fatos e, em conseqüência, a denúncia, acompanhamento e avaliação dos casos. Na fase escolar e da adolescência, a vergonha, culpa e a sensação de desproteção ou conivência pelos outros responsáveis, somadas à incompletude da formação dos valores morais (maior ou menor, dependendo do meio familiar e dos vínculos afetivos), além da dificuldade ou impossibilidade de diálogo com pais ou responsáveis não envolvidos diretamente no abuso, tornam a denúncia um fato raro.

O abuso sexual deve ser considerado um fator predisponente a sintomas posteriores, como fobias, ansiedades e depressão, bem como envolvimento de um transtorno dissociativo de identidade, também conhecido como transtorno de personalidade múltipla com possibilidade de comportamento autodestrutivo e suicida.

Os melhores resultados no acompanhamento das vítimas de abuso sexual são esperados quando as crianças estão cognitivamente intactas, o abuso é reconhecido e interrompido em fase precoce e toda família participa do tratamento.

Conclusões

É esperado que todo pediatra, dentro de seu papel e dever profissional, seja capaz de atuar para a prevenção do abuso sexual, de diagnosticar o risco e levantar a suspeita precocemente, quando a situação de violência já está instalada, chegando ao diagnóstico e à denúncia em tempo hábil, para que possa garantir a integridade física e emocional da criança ou adolescente sob seus cuidados. Dessa forma, a partir do atendimento de rotina, emergencial ou de acompanhamento, ele poderá desencadear todos os meios de proteção legal e social existentes, que devem garantir, ao mínimo, o tratamento daquela criança ou adolescente, sua proteção, apoio e assistência familiar, bem como o afastamento do agressor.

A atenção continuada e especializada da saúde física e emocional da criança e/ou adolescente vítimas de abuso sexual, bem como de sua família, por equipe interdisciplinar será sempre necessária. De sua qualidade dependerá o restabelecimento da auto-estima e da integridade física e psíquica das vítimas, reestruturando sua confiança nas pessoas e sua capacidade de lutar dignamente pela vida.

Além do dever ético, legal e moral, todo pediatra deve saber da importância de sua intervenção na prevenção ou interrupção do abuso sexual na infância e adolescência.

Desse olhar diferenciado, que pode enxergar detalhes e ouvir as queixas de dores não faladas, seguido do desencadeamento de todas as medidas de proteção necessárias, novos e bons caminhos poderão ser criados para essas crianças e adolescentes.

É preciso que o pediatra se conscientize, ao receber uma criança ou adolescente com alguns dos sinais apresentados, ou ao levantar a suspeita do abuso, mesmo através de poucas ou aparentemente infundadas queixas trazidas por uma criança em sofrimento, que essas vítimas de uma das formas de maus-tratos mais desestruturantes de personalidade, estão buscando nele uma esperança de que rompa o pacto do silêncio que envolve a família incestuosa e seu meio. Procuram alguém que as defendam!

Muitas dessas vítimas, se abandonadas à sua sorte, vão levar essa criança ferida dentro de si e todas as suas dores e seqüelas para toda a vida.

CANDIDÍASE VAGINAL

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Sobre diagnóstico da candidíase vaginal

The diagnosis of vaginal candidiasis

Professor Doutor de Ginecologia do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP
José Antonio Simões
Cidade Universitária Zeferino Vaz – Barão Geraldo – Caixa Postal 6181 – 13083-970 – Campinas-SP – (19) 3289-2856/3788-9306/3289-2440 – 3788-9306 (CAISM) – [email protected]
Rev Bras Ginecol Obstet. 2004;26(1):65-70.

A candidíase vaginal (CV) continua sendo extremamente comum, uma vez que quase todas as mulheres experimentam esse desagradável quadro genital pelo menos uma vez em algum momento de suas vidas. A grande maioria das cepas isoladas da vagina correspondem a espécies da C. albicans, estimando-se que a proporção de infecções por cepas não-albicans venha aumentando progressivamente nos últimos anos. Clinicamente ambas são indistinguíveis, causando sintomatologia muito semelhante. Todavia, tem sido relatado que a C. albicans está mais associada com os sintomas do que as cepas não-albicans, as quais geralmente são mais resistentes às terapias habituais.
Com o objetivo de avaliar a distribuição de espécies de leveduras isoladas da vagina e o perfil de susceptibilidade in vitro das mesmas aos antifúngicos habituais, Ferrazza et al.1 publicaram em número recente desta revista os resultados de estudo com 227 mulheres em duas localidades no sul do Brasil. A freqüência de cultura positiva foi de aproximadamente 24%, confirmando ser a C. albicans a mais prevalente. Entretanto, encontraram uma considerável diferença na proporção de cepas não-albicans, sendo muito mais freqüentes em uma das cidades e sugerindo diferenças regionais quanto à espécie isolada. Além disso, encontraram uma maior tendência de resistência à nistatina, sendo que praticamente metade das cepas apresentaram susceptibilidade dose-dependente (intermediária) a este anti-fúngico. A sugestão desses autores é de que seja realizada a determinação da espécie através de cultura e anti-fungigrama no manejo clínico da CV.

Acreditamos, no entanto, que isso seria inviável para nossa realidade e até mesmo desnecessário na grande maioria das vezes, devendo ser reservado apenas para aqueles casos da atualmente denominada CV complicada. Cremos, sim, que o diagnóstico correto de uma CV seja de extrema importância, e para o qual alguns pontos devem ser ressaltados para a prática diária, particularmente no sentido de se evitar o tratamento excessivo e equivocado dessa vulvovaginite.
A C. albicans é freqüentemente o diagnóstico presuntivo para qualquer irritação vulvovaginal. A maioria das mulheres e dos próprios ginecologistas assume erroneamente que todo e qualquer prurido genital, especialmente quando acompanhado por um corrimento vaginal, seja causado invariavelmente por uma candidíase. É preciso cuidado, pois esta idéia/crença não é verdadeira. Nossa experiência tem mostrado que pelo menos metade das mulheres que nos são encaminhadas com o rótulo de portadoras de CV recorrente (CVR), na verdade, têm seus sintomas devidos a outras causas que não a candidíase. Por isso, um diagnóstico correto é a maior garantia para o sucesso terapêutico.
Podemos, na prática diária, distinguir três tipos de mulheres com candidíase no nosso consultório: 1) aquela em que a cândida foi um achado ocasional no exame rotineiro de Papanicolaou; 2) aquela que nos procura por estar sintomática, porém sem história de recorrências (CV não-complicada); e 3) aquela que se apresenta com história de episódios recorrentes de candidíase (CV complicada). No primeiro caso, não devemos nos esquecer que a cândida pode ser isolada em até 30% das mulheres saudáveis e completamente assintomáticas (as chamadas “portadoras sãs”). Assim, o simples achado da cândida num exame de rotina (por exemplo no Papanicolaou) não significa necessariamente que a mulher tenha a doença candidíase vaginal clínica. Se não houver nenhum sintoma e o exame ginecológico for normal (sem corrimento ou inflamação, pH normal e teste de whiff negativo), a paciente não deve receber nenhum tratamento, a não ser uma boa orientação a respeito dos fatores predisponentes.
A cândida é um microorganismo dimórfico, e pode ser tido como comensal ou patogênico, na dependência dos seus fatores próprios de virulência e dos fatores de defesa do hospedeiro. Para que ocorra a candidíase vaginal clínica, o fungo precisa vencer a batalha com o meio vaginal e invadir a mucosa, causando sintomatologia. Geralmente isso é favorecido por alguns fatores classicamente reconhecidos como predisponentes para a CV: gravidez, uso de anticoncepcionais orais de alta dosagem, diabete melito descompensado, uso de corticóides, imunossupressores e antibióticos. Rosa e Rumel2, também em recente publicação nesta revista, associaram a CV com ciclos menstruais normais. Além disso, com alterações na resposta imunológica, hábitos de higiene e vestuário inadequados, e contatos com alergenos e/ou irritantes da genitália.
No segundo caso, a CV não-complicada é causada pela C. albicans e ocorre em mulheres não comprometidas imunologicamente e com infecção leve ou moderada, e sem história de recorrências. O diagnóstico é sugerido clinicamente pela presença de prurido, corrimento vaginal e eritema, os quais, todavia, não são específicos da CV. Por isso, nunca se deve tratar sem ao menos examinar a mulher. Nunca se deve tratar sem exame físico prévio ou baseado apenas na queixa. Outras causas (infecciosas ou não) também podem levar a esses mesmos sintomas. Embora o corrimento seja descrito tipicamente como tipo “leite coalhado”, ele pode ser extremamente variável, ou até muito discreto. O exame freqüentemente revela vulva e vagina bastante hiperemiadas, às vezes edemaciadas e com fissuras. Deve-se sempre tentar a confirmação diagnóstica através da microscopia (a fresco, com KOH a 10% ou corada pelo Gram), que mostra a presença do fungo (leveduras e/ou 4,5). A cultura epseudo-hifas). O pH vaginal apresenta-se normal ( anti-fungigrama não são necessários nesses casos não complicados, uma vez que praticamente todos eles são causados pela C. albicans.
Finalmente, a CV complicada (recorrente) refere-se àquelas infecções mais severas incluindo as causadas por espécies não-albicans, geralmente em mulheres com história de CVR e/ou com algum tipo de imunodeficiência. Ocorre em aproximadamente 10-20% das mulheres, as quais merecem considerações especiais, e continua sendo uma das principais “pedras nos sapatos” dos ginecologistas. A primeira questão que deve ser feita nos casos que se apresentam como CVR é: será que realmente trata-se de uma CVR? Uma grande parte das mulheres que nos chegam rotuladas como portadoras de CVR têm, na verdade, seus sintomas devidos a outras etiologias, geralmente não-infecciosas (alergia, hipersensibilidade local, vaginose citolítica, etc.). Portanto, acreditamos que nesses casos de CVR, sim, o diagnóstico da candidíase deve sempre ser confirmado por meio de cultura vaginal específica (em meio de Sabouraud). Além de confirmar o diagnóstico clínico, a cultura específica determina a espécie de cândida envolvida e permite a realização dos testes de susceptibilidade, que pode ser importante nesses casos recorrentes.

Referências

1. Ferrazza MHSH, Maluf MLF, Consolaro MEL, Shinobu CS, Svidzinski TIE, Batista MR. Caracterização de leveduras isoladas da vagina e sua associação com candidíase vulvovaginal em duas cidades do sul do Brasil. Rev Bras Ginecol Obstet. 2005;27(2):58-63.
2. Rosa MI, Rumel D. Fatores associados a candidíase vulvovaginal: estudo exploratório. Rev Bras Ginecol Obstet. 2004;26(1):65-70.

CORRETIVOS MEDICAMENTOSOS PARA A DISFUNÇÃO ERÉTIL

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(fisiologicamente, a questão é influxo e efluxo de sangue)
No popular, como funciona o Viagra

José Domingos Fontana

Normalmente quando o homem se excita ou é excitado sexualmente, o estímulo cerebral é endereçado às terminações nervosas e vasos da região genital promovendo um balanço antagônico entre as artérias que relaxam e se alargam permitindo então um afluxo maior de sangue ao pênis enquanto as veias se comprimem e reduzem o fluxo de escoamento de sangue do mesmo órgão. O resultado líquido é a ereção. Contrariamente, a impotência masculina ou disfunção erétil (DE) é a incapacidade do homem em conseguir ou manter uma ereção adequada para o ato sexual seja pelo desempenho menos satisfatório das artérias, das veias ou de ambas ou até mesmo pela refratariedade ao estímulo sexual. Por vezes a adoção de um artefato simples como o “anel tipo O-ring” propicia solução.

Há um elenco variado de fatores que podem causar ou mesmo agravar a DE e entre eles se enfatiza o tabagismo (nicotina) e o diabetes. Mas indubitavelmente a maior causa é de ordem vascular, seguida de distúrbios hormonais (e.g., prolactina elevada; hipotireoidismo), uso / abuso de drogas e desordens neurológicas. Usualmente, a DE afeta homens na faixa etária maior do que 40 anos mas excepcionalmente mais jovens também podem padecer do mal. A DE pode ser acidentalmente isolada (e.g., excesso de bebidas alcoólicas), recorrente ou crônica. As cifras norte-americanas são de assustar (“The Merck Manual of Diagnosis and Therapy – Section 17 – Genitourinary Disorders, Chapter 220: ED) : estima-se entre 10 e 20 milhões o número de yankees que padecem em maior ou menor grau de DE, sendo que entre os 40 e 70 anos, a incidência da disfunção é da ordem de 52% (permanente).

Além de uma bateria de exames laboratoriais desde a glicemia até níveis de testoterona, há um teste mecânico de valor que é o da tumescência peniana noturna cujos episódios frequentemente estão associados aos movimentos rápidos dos olhos.

Uma das terapias anti-DE é a injeção de prostaglandina (PGE1) no pênis ou no meato uretral. Embora haja risco de machucadura ou sangramento, a ereção pode se estender até por 60 minutos. Neste particular, hiperdosagens levam ao quadro conhecido como priapismo ou ereção permanente.

Outra terapia é com o alfa-bloqueador yoimbina (retirado do córtex da planta Corynanthe johimbe) que atua efetivamente nos casos de DE de natureza psicogênica [1] mas não no caso das DE derivadas, p.ex., de hipertensão arterial.

Algumas outras drogas de síntese química ou seja produzidas por laboratórios médico-farmacêuticos tem se mostrado eficientes na terapia medicamentosa da DE. A pioneira delas foi o (citrato de) sildenafil ou Viagra que promove a ereção potencializando o efeito do óxido nítrico na musculatura vascular lisa ou seja incrementando o fluxo de sangue ao pênis. Em termos bioquímicos o Viagra e seus análogos como o Cialis – tadalafil e Levitra – vardenafil são inibidores de uma enzima (fosfodiesterase tipo V), alongando então a vida média de um 2º. mensageiro o GMPc (Guanosina MonoFosfato cíclico) e complementando a ação do óxido nítrico nos corpos cavernosos do pênis tendo se em conta que o óxido é um ativador da enzima guanilato ciclase, a qual sintetiza justamente o GMPc. Segundo a bula, cerca de 15% dos usuários recebendo estes estimuladores são acometidos, paralelamente, de cefaléias. A contraindicação é para pacientes que estejam sendo tratados com nitratos (e.g., caso de angina de peito).

[1] Riley, A . Yoimbine in the treatment of erectile disfunction. Br. J. Clin. Pract. 48 (1994) pg. 133.


Obs.: Não se automedique. Consulte seu médico.

José Domingos Fontana ([email protected]) é professor emérito da UFPR junto ao Depto. de Farmácia, Pesquisador 1ª do CNPq e 11º. Prêmio Paranaense em C&T.

SAÚDE SEXUAL E REPRODUTIVA

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SAÚDE SEXUAL E REPRODUTIVA
“Uso do Misoprostol em Ginecologia e Obstetrícia”
Dr. Jefferson Drezett, Dr. Anibal Faundes, Dra Gisele O’Dwyer e Dra Leila Adesse (2005)*
Fonte: Revista de Saúde Sexual e Reprodutiva – Edição Set/Out 2005
* Relatório Final do Consenso do Rio de Janeiro de junho de 2005

USO DO MISOPROSTOL EM GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA
A obstetrícia e a ginecologia vivenciam a crescente utilização do misoprostol para
indução do parto a termo, para o abortamento retido e feto morto, e para outras
indicações, como o abortamento previsto em Lei e hemorragia pós-parto. A literatura
médica aponta questões referentes à dose, vias de utilização, indicações e contra
indicações. Embora grande conhecimento científico tenha sido acumulado nos últimos
anos, a saúde pública ainda assiste às graves complicações advindas do uso
inapropriado do misoprostol.

Para uma reflexão consciente e consistente que envolva um grupo de atores com
excelência no uso do misoprostol, o Ipas Brasil, e a Secretaria Estadual de Saúde do
Rio de Janeiro promoveram um evento no dia 3 de junho de 2005 no Rio de Janeiro.
Participaram do evento: Dr. Aníbal Faundes (Comissão de Direitos Sexuais e
Reprodutivos da FIGO); Dra. Anna Christina Willemsens (Coordenadora do Serviço de
Aborto Legal da Maternidade Fernando Magalhães); Dr. Alexandre Baptista Trajano
(Professor Titular de Obstetrícia da UERJ); Dra Gisele O’Dwyer (ENSP/FIOCRUZ); Dr.
Luiz Guilherme Pessoa da Silva (Chefe da Maternidade Pro-Matre); Dr. Marcus Dias
(Coordenador de Saúde da Mulher do Município do Rio de Janeiro); Dr. Jefferson
Drezett (Hospital Pérola Byington – SP), Dra. Leila Adesse (Diretora de Ipas Brasil).
O evento contou com 3 mesas-redondas, na parte da manhã, que apresentaram os
seguintes temas: 1) Misoprostol no abortamento previsto por lei, aborto retido e
abortamento incompleto; 2) Misoprostol na indução do parto a termo; 3) Misoprostol na
profilaxia e tratamento do sangramento pós-parto. Na parte da tarde, os convidados
foram divididos em 3 grupos que discutiram e elaboraram um relatório final, denominado
Consenso do Rio de Janeiro.
Consenso do Rio de Janeiro – Relatório Final
Introdução
O misoprostol se destaca como um importante elemento dentro da atual ginecologia e
obstetrícia. Nas situações de abortamento previsto por Lei, o misoprostol representa
uma alternativa para garantir o abortamento em condições seguras e acessíveis para a
mulher em situação de violência sexual, ou para a gestante com risco de morte ou que
vivencia a gestação com anomalia fetal grave e incompatível com a vida. No aborto
retido ou no óbito fetal intra-uterino as aplicações são igualmente importantes. Mais
recentemente, deve-se reconhecer a aplicabilidade e a segurança do misoprostol na
indução do parto a termo e seu papel potencial na redução das taxas de cesáreas.
Contudo, a grande diversidade de esquemas de administração do misoprostol, bem
como a falta de um protocolo de utilização de consenso, tem levado a situações cada
vez mais freqüentes de uso inapropriado. A situação se agrava na medida que se
verifica que parte dos profissionais de saúde ainda tem escasso conhecimento ou
pouca capacitação para utilizar o medicamento. Além disso, algumas aplicações do
misoprostol em ginecologia e obstetrícia ainda demandam maiores investigações para
serem incorporadas (ou não) nas rotinas dos serviços de saúde.
Este consenso teve como objetivo reunir os principais atores envolvidos com a prática
clínica de utilização do misoprostol em ginecologia e obstetrícia. A discussão proposta
pretendeu abordar dois aspectos da utilização do misoprostol: um aspecto técnico e
científico referente às indicações, doses, vias e tempo de utilização; e um aspecto
contextual referente aos limites e possibilidades de uso do medicamento. Para cumprir
esse objetivo foram incluídos no grupo de participantes, além de especialistas e chefes
de serviços, gestores municipais e estaduais (da saúde da mulher e da vigilância
sanitária) e pesquisadores do misoprostol.
Como produto do trabalho obteve-se uma recomendação clínica de utilização do
misoprostol nas situações e problemas a serem enfrentados. Em relação a esse cenário
a ser modificado, duas recomendações se destacaram durante o consenso. Primeiro,
que os hospitais que atendem o maior volume de violência sexual contra a mulher e
oferecem o abortamento previsto por Lei, a maioria estabelecidos nas cidades do Rio de
Janeiro e São Paulo, não podem sofrer desabastecimento do misoprostol nem restrição
de apresentações. Segundo, o diagnóstico de que a ausência de farmacêutico como
responsável técnico em hospitais e maternidades, principalmente nas cidades do
interior, têm restringido o acesso ao misoprostol e estimulado a compra irregular tanto
por pacientes como por gestores e profissionais de saúde. Este relatório final representa
a síntese dos principais temas discutidos.

1. Uso do misoprostol no abortamento previsto por Lei, abortamento retido e
abortamento incompleto.
1.1. Indicações nas situações de abortamento
As seguintes situações de abortamento têm indicação do uso do misoprostol: a)
abortamento previsto em Lei; b) abortamento retido; c) abortamento inevitável. Os casos
de abortamento previsto em Lei devem atender ao previsto pelo Decreto-Lei 2848,
incisos I e II do Artigo 128 do Código Penal Brasileiro, que incluem a interrupção da
gravidez decorrente de violência sexual e nos casos de risco de morte para a gestante.
Não existe suficiente evidência científica para recomendar, até o momento, o uso do
misoprostol para tratamento de casos de abortamento incompleto.
1.2. Vias, doses, intervalos e tempo de utilização.
Embora se reconheça a efetividade do misoprostol quando administrado por via oral,
sublingual ou retal, as evidências científicas apontam a via vaginal como forma
preferencial, aplicando-se os comprimidos nos fundos de saco laterais. As doses a
serem utilizadas dependem da idade gestacional. Até 12 semanas de idade gestacional
recomenda-se a dose total de 800 microgramas (mcg) em 24 horas, durante até dois
dias, em um dos seguintes esquemas: 800 mcg dose única; ou 400 mcg cada 12 horas;
ou 200 mcg cada 6 horas. Entre 13 e 16 semanas recomenda-se a dose total de 400
mcg em 24 horas, durante até dois dias, 200 mcg cada 12 horas. Entre 17 e 22
semanas a dose deve ser reduzida para 200 mcg em 24 horas, durante até dois dias,
100 mcg cada 12 horas. Após os dois dias de uso do misoprostol deve-se aguardar 72
horas pelo abortamento. Caso ele não ocorra, pode-se repetir o mesmo esquema de
misoprostol, considerando-se as condições clínicas e a concordância da mulher para
manter o tratamento.
1.3. Critérios de acompanhamento e de interrupção do misoprostol.
As doses de misoprostol devem ser progressivamente reduzidas quanto maior a idade
gestacional procurando-se adequar a menor dose efetiva possível. Recomenda-se que
o misoprostol seja utilizado em regime de internação hospitalar. A interrupção do
misoprostol pode ser feita em qualquer momento, caso seja esse o desejo da mulher.
Nesses casos, assim como nas falhas de tratamento, deve-se oferecer e garantir o
acesso a outros métodos de interrupção da gravidez, como a aspiração manual intrauterina
(AMIU) ou a dilatação e curetagem para os abortamentos de até 12 semanas de
idade gestacional.
1.4. Indicação para a maturação do colo de útero.
O misoprostol pode ser utilizado para a preparação do colo de útero antes do
procedimento de AMIU ou de dilatação e curetagem. Nesses casos, deve ser
administrado entre 4 e 6 horas antes do procedimento, na dose única de 400 mcg via
vaginal.
1.4. Recomendação e cuidados.
A decisão do misoprostol como método de abortamento deve ser compartilhada entre
profissionais de saúde e a mulher, sempre respeitando sua autonomia de decidir de
forma livre, consciente e informada. A mulher também deve ser esclarecida sobre os
eventuais efeitos desconfortáveis com o uso do misoprostol, particularmente no que se
refere a dor, e sobre as alternativas disponíveis de controle e redução desses efeitos.
Essas medidas são fundamentais para aceitação do método e para o preparo
psicológico da mulher antes de se iniciar o procedimento. Nas usuárias de DIU o
mesmo deve ser retirado antes de iniciar a administração da primeira dose de
misoprostol. São contra-indicações para o uso do misoprostol: cesárea anterior,
cicatriz uterina prévia; abortamento infectado; e gravidez ectópica (suspeita ou
confirmada).

2. Uso do misoprostol na indução do parto.

2.1. Indicações para a indução do parto e para o amadurecimento do colo de útero.
O uso do misoprostol pode ser feito nas situações de indicação obstétrica de
interrupção da gravidez com feto vivo e sem comprometimento imediato da vitalidade.
Também pode ser utilizado para a indução de parto com feto morto de termo ou prétermo.
2.2. Critérios de elegibilidade maternos.
Ausência de cicatriz uterina prévia ou de cesárea anterior. Contra-indica-se o
misoprostol em casos de grande multiparidade.
2.3. Vias de administração, doses, intervalos e tempo de utilização.
Recomenda-se utilizar 25 mcg de misoprostol cada 6 horas, via vaginal. A
administração deve ser iniciada pela manhã e mantida até 20 horas (8-14-20 horas).
Não se recomenda iniciar ou manter a indução do parto com misoprostol após as 20
horas, pela maior dificuldade de manter rigoroso controle da atividade uterina e da
vitalidade fetal no período noturno. Caso não se obtenha sucesso, pode-se repetir o
mesmo esquema de tratamento no segundo dia. Se ainda assim não houver resposta
deve-se avaliar a possibilidade de manter esquema ou interromper a gravidez por outro
método, sempre considerando as condições materno-fetais e a concordância da mulher
em manter o procedimento. A dose de 25 mcg pode ser insuficiente para a interrupção
de gestações com menos de 30 semanas de idade gestacional. Nesses casos, a dose
pode ser elevada para 50 mcg se não houver resposta satisfatória, mantendo os
mesmos horários de administração. Em se tratando de feto morto, a dose inicial de
misoprostol deve ser de 50 mcg via vaginal, cada 6 horas.
2.4. Critérios de acompanhamento, recomendações.
Ocorrendo o início das contrações uterinas efetivas não se deve administrar novas
doses de misoprostol. A associação concomitante do misoprostol com ocitócitos não
deve ser realizada. O uso de ocitócitos, quando necessário, deve ser iniciado após 6
horas da última dose de misoprostol. A monitorização fetal, se possível eletrônica
(cardiotocografia) é fundamental. Deve-se avaliar cuidadosamente os parâmetros de
contratilidade uterina e atuar rapidamente nos casos de hiperatividade (decúbito lateral,
tocólise, oxigenioterapia), de acordo com a rotina de cada serviço. As mulheres em
indução de parto com misoprostol devem receber as mesmas rotinas estabelecidas pelo
serviço para a assistência ao parto das demais mulheres.

3. Uso do misoprostol na profilaxia e tratamento do sangramento pós-parto.

Não existe suficiente evidência científica para recomendar, até o momento, o uso do
misoprostol para o tratamento ou profilaxia do sangramento pós-parto. As medidas
preconizadas de diagnóstico etiológico e as ações de intervenção imediata
permanecem como elementos fundamentais na abordagem e tratamento do
sangramento pós-parto.

4. Outras recomendações.

Além das recomendações sobre o uso do misoprostol em ginecologia e obstetrícia
algumas considerações foram apontadas:
4.1. Considera-se necessário o estabelecimento de protocolos comuns para o uso do
misoprostol frente a diferentes formas de utilização;
4.2. Identifica-se a necessidade de capacitação dos profissionais dos serviços de saúde
que utilizam misoprostol em suas rotinas.
4.3. Gestores de saúde devem assegurar a disponibilidade do misoprostol nas
dosagens apropriadas para cada situação, 25mcg para uso em obstetrícia e 200 mcg
para uso em ginecologia.
4.4. Os procedimentos administrativos estabelecidos pela Lei para a aquisição
regular do misoprostol devem ser amplamente conhecidos pelos gestores de saúde.
4.5. O Estado deve procurar rever os mecanismos para a aquisição do misoprostol.
Cumpridas as exigências pelos serviços de saúde, a autorização deve ser concedida no
menor prazo possível.
4.6. Para os hospitais e maternidades e que não disponham de profissional
farmacêutico responsável pelo misoprostol, sugere-se que compra e a distribuição do
medicamento seja realizada pelo Estado.

TERMINOLOGIA COLPOSCÓPICA

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Nossos agradecimentos a Dra. Maria de Fátima Silveira da Cunha Araújo

Presidente da SBPTGIC- PB pela valiosa colaboração.
Recomendações da Federação Internacional de Patologia Cervical e Colposcopia.

Uma terminologia deve descrever de um modo reprodutível todos os aspectos que um observador pode detectar. Ela deve padronizar e definir conceitos e ser um modo eficaz de comunicação entre os que a praticam de maneira a permitir empreender pesquisas, guiar o aprendizado e auxiliar na decisão diagnóstica e terapêutica.
O Comitê de Nomenclatura e a Federação Internacional de Patologia Cervical e Cosposcopia aprovou no 11° Congresso Mundial em Barcelona em 2002 uma terminologia colposcópica revisada recomendando que este formato atualizado seja usado imediatamente para diagnóstico clínico, tratamento e pesquisa em câncer cervical.
Federação Internacional de Patologia Cervical e Colposcopia
Classificação Colposcópica.

I. Achados Colposcópicos Normais
Epitélio Escamoso Original
Epitélio Colunar
Zona de Transformação.

II. Achado Colposcópicos Anormais

Epitélio Acetobranco plano
Epitélio Acetobranco denso
Mosaico fino
Pontilhado fino
Pontilhado grosseiro
Epitélio Iodo Positivo Parcial
Epitélio Iodo Negativo
Vasos Atípicos

III. Alterações Colposcópicas Sugestivas de Câncer Invasivo

IV. Colposcopia Insatisfatória

Junção Escamocolunar não visível
Inflamação severa atrofia severo trauma.
Cervix não visível.

V. Miscelânia

Condiloma
Queratose
Erosão
Inflamação
Atrofia
Deciduose
Pólipo.

ACHADOS COLPOSCÓPICOS NORMAIS

Epitélio Escamoso Original.
Epitélio escamoso original é um epitélio liso , onde não existe remanecentes de epitélio glandulares ou cistos de Naboth.
O epitélio não se torna esbranquiçado após a aplicação de uma solução de acido acético, e cora em marrom após a aplicação do Lugol

Epitélio Colunar.

Epitélio colunar é um epitelio de camada única do tipo muco-secretor que se localiza entre o epitélio escamoso original ou o epitélio escamoso metaplásico caudal.Após a aplicação de acido acético tem aparência de cacho de uva.
O epitélio colunar normalmente esta presente na ectocervix (ectopia) ou em raras ocasiões na vagina.

Zona de Transformação.

A zona de transformação é a área entre o epitélio escamoso original e o epitélio colunar onde podem ser identificados diversos estágios de maturidade.
O epitelio metaplasico pode adquirir coloração esbranquiçada após a aplicação de acido acético e parcialmente marrom após a aplicação de lugol.
Dentre os componentes de uma zona de transformação Normal podem-se encontrar ilhas de epitélio colunar cercadas por epitélio escamoso metaplásico, orifícios glandulares e cistos de Naboth.

Existem três tipos de zonas de transformação.

Tipo 1 a zona de transformação é completamente Ectocervical e completamente visível e pode ser grande ou pequena
Tipo 2 a zona de transformação tem um componente Endocervical, totalmente visível podendo o componente endocervical ser grande ou pequeno.
Tipo 3 a zona de transformação tem um componente endocervical que não é totalmente visível e podendo ter um componente ectocervical que pode ser pequeno ou grande.
Em um percentagem pequena de mulheres a zona de transformação pode estender-se caudalmente para a parte superior da vagina usualmente como um triangulo anterior e posteriormente como uma lingüeta. Pode conter vascularização que apresenta um padrão mosaciforme fino e regular podendo corar irregularmente, parcialmente ou ficar completamente negativa depois da aplicação do iodo.

II. ACHADOS COLPOSCÓPICOS ANORMAIS

Epitelio Acetobranco.

É o epitelio que se torna esbranquiçado após a aplicação da solução de acido acético, pela alta densidade nuclear que apresenta.
Embora isto possa ocorrer em casos de metaplasia imatura, geralmente quanto mais denso é o acetobranqueamento, tanto mais rápida a alteração acontece e quanto maior o tempo de duração mais severa é a lesão pode ser.
Acetobranqueamento denso no epitelio colunar pode indicar doença glandular

Pontilhado.

Aspecto colposcopico focal, no qual os capilares aparecem em um padrão pontilhado.
Quanto mais fino e regular é a aparência do pontilhado e com distancia intercapilar pequena é mais provável que a lesão seja de baixo grau ou metaplasia.
Quanto mais grosseiro for o pontilhado é mais provável que a lesão seja de alto grau.

Mosaico.

Alteração Colposcópicas aparentemente focal no qual a neoformação vascular tem um padrão retangular como um mosaico.
Quanto mais fino e regular é o mosaico é mais provável que a lesão seja de baixo grau ou metaplasia.
Quanto mais grosseiro for o mosaico e quanto maior a distancia intercapilar é mais provável que a lesão seja de alto grau.

Epitelio Iodo parcialmente positivo/Epitelio Iodo negativo.

Depois da aplicação da solução de iodo o epitelio maduro que contem glicogênio ficara uma cor marron escuro. Áreas iodo negativas podem representar metaplasia imatura neoplasia intraepitelial cervical ou baixa taxa de estrogênio(ie. Atrofia).
Uma aparência de salpicado marrom-iodo malhado em uma área com alteração acetobranca leve pode representar metaplasia imatura ou neoplasia intraepitelial de baixo grau.
Completa negatividade ao iodo uma coloração amarelo mostarda em uma área acetobranca é altamente sugestiva de neoplasia intraepitelial de alto grau.

Vasos atípicos.

Aspecto colposcopico focal anormal no qual o padrão vascular se apresenta com vasos irregulares com um curdo interrompido abruptamente e com aparência de virgulas, vaso capilares espiralados, grampos ou com formas variadas.

ALTERAÇÕES COLPOSCOPICAS SUGESTIVAS DE CANCER INVASIVO

A presença de uma superfície irregular como cadeia de montanhas em áreas de acetobranqueamento denso e alterações vasculares extremamente bizarras falam a favor de invasão tecidual. Estas lesões geralmente são sobrelevadas sendo o sangramento de contato freqüente.

IV. COLPOSCOPIA INSATISFATORIA.

O Exame colposcopico é considerado insatisfatório quando a Junção Escamocolunar não pode ser visualizada. Isto também pode ocorrer se houver trauma associado, inflamação, ou atrofia que impeçam uma avaliação colposcopica completa ou quando a cervix não é visível.

V. MISCELANEA.

Condiloma.

Pode ocorrer dentro ou fora da zona de transformação é indica infecção pelo Papilomavirus Humano.
A colposcopia mostra um grupamento de pequenas papilas de base única, nas quais o epitelio superficial recobre alças vasculares.
A aplicação de acido acético produz acetobranqueamento e ao iodo se cora parcialmente ou irregularmente.

Queratose.

Alteração colposcopica focal no qual a hiperqueratose esta presente e se parece com uma placa branca elevada.
A alteração branca esta presente antes da aplicação de acido acético e pode impedir a visualização adequada da zona de transformação subjacente, antes era chamada de Leucoplasia.

Erosão.

Uma verdadeira erosão representa uma área de epitelio desnudo. Pode ser causado por traumas e pode indicar que o epitelio de superfície. É possivelmente anormal

Inflamação.

Alteração geralmente difusa caracterizada por congestão vascular e edema de mucosa. Podem ser pontilha do diferenciando-se por apresentar
capilares finos e muito próximos entre si num colo avermelhado. Geralmente cora-se parcialmente ao iodo.

Atrofia.

Alteração epitelial devido a um baixo estado de estrogênio, representada por uma mucosa pouco espessa que deixa transparecer uma fina rede vascular.
As petequias são freqüentes e cora-se muito pouco ao lugol.

Deciduose.

Fenômeno conjuntivovascular e edema estromal induzudio pela gestação.

Pólipos.

Podem apresentar características de epitelio colunar e /ou zona de transformação dependendo da metaplasia que possa ocorrer em sua superfície.

CARACTERISTICAS COLPOSCOPICAS SUGESTIVAS DE ALTERAÇÕES METAPLASICAS.

superficie lisas com vasos de calibre uniforme
Alterações acetobrancas moderadas
Iodo negativo ou parcialmente positivo.
CARACTERISTICAS COLPOSCOPICAS SUGESTIVAS DE ALTERAÇÕES DE BAIXO GRAU(ALTERAÇOES MENORES).

(A)superficie lisa com um borda externa irregular
(B) alterações acetobrancas leve, que aparece tardiamente e desaparece rapidamente.
(C) Iodo negativamente moderada frequentemente iodo malhado com positividade parcial
(D) pontilhado fino e mosaico regular.

CARACTERISTICAS COLPOSCOPICAS SUGESTIVAS DE ALTERAÇÕES DE ALTO GRAU (ALTERAÇÕES MAIORES).

Superficie geralmente lisa com borda externa aguda e bem marcada
Alteração acetobranca que aparece precocemente e desaparece lentamente podendo apresentar um branco nacarado que lembra o de ostra.
Negatividade ao iodo coloração amarelo-mostarda em epitelio densamente branco previamente existente
Pontilhado grosseiro e mosaico de campos irregulares e de tamanhos discrepantes.
Acetobranqueamento denso no epitelio colunar pode indicar doença glandular.
CARACTERISTICAS COLPOSCOPICAS SUGESTIVAS DE CANCER INVASIVO.

Superficie irregular erosão ou ulceração
Acetobranqueamento denso
Pontilhado irregular extenso e mosaico grosseiro
Vasos atipicos.
Comitê de Nomenclatura da Federação Internacional de Patologia Cervical e Colposcopia.

P. Walker, MD, S Dexeus, MD
G. de Palo MD, R Barrasso MD
M CAMPION MD< F GIRARDI MD
C JAKOB, MD AND M ROY MD

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Manual de Procedimentos Operacional Padrão
Nomenclatura de Citologia.

COLORAÇAO PAPANICOLAU SISTEMA BETHESDA (TBS) 2001

LOCAL DE COLETA

Endocervice
F S V posterior
Exocervice

AVALIAÇÃO DA AMOSTRA

Satisfatória para avaliação JEC Representada JEC Não Representada
Insatisfatória para avaliação
Espécime rejeitado

INTERPRETAÇAO DO RESULTADO
NEGATIVO PARA LESÃO INTRAEPITELIAL OU MALIGNIDADE

1- Organismos.

Tricomonas Vaginalis
Organismos fungicos morfologicamente compatíveis com Cândida ssp.
Mudança de flora sugestivo de vaginose bacteriana
Bactérias morfologicamente compatíveis Actnomyces ssp.
Alterações celulares associadas com o vírus do Herpes Simples.
Outros Organismos

2- OUTROS ACHADOS NÃO NEOPLASICOS:

ALTERAÇÕES CELULARES REATIVAS ASSOCIADAS COM:

Inflamação em:
Cel Escamosas Cel Metaplasicas Cel Glandular Reparo
Radiação
Uso de DIU
Outras Alterações Reativas

STATUS GLANDULAR POS HISTERECTOMIA

ATROFIA
OUTROS -Presença de Células Endometriais pos menopausa.
ANORMALIDADES EM CELULAS EPITELIAIS

Escamosas.

Células Escamosas atípicas De significado indeterminado(ASCUS) Não exclui alto grau(ASCH)
Lesão intraepitelial de baixo grau(HPV NIC I displasia leve).
Lesão epitelial de alto grau (NIC II e NIC III displasia moderada e acentuada, Ca in situ)
Com suspeita de invasão
Carcinoma de Células escamosas Ceratinizado
Não ceratinizado

Células Glandulares
Atipias glandulares
Endometrial Endocervical Favorecendo Neoplasia.
Adenocarcinoma endocervical in situ (AIS)
Endocervical
Endometrial
Extrauterino.
Inespecifico.

OUTRAS NEOPLASIAS MALIGNAS
CONCLUSÃO

DEPRESSÃO PÓS-PARTO, PSICOSE PÓS-PARTO E TRISTEZA MATERNA

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Vera Iaconelli
CRP 35751-1, Mestre em Psicologia pela USP, Psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae, Professora do Instituto Brasileiro de Psicologia Biodinâmica, Coordenadora da Gerar_Escola de Pais

A Depressão Pós-Parto (DPP) é um quadro clínico severo e agudo que requer acompanhamento psicológico e psiquiátrico, pois devido à gravidade dos sintomas, há que se considerar o uso de medicação. Todo ciclo gravídico-puerperal é considerado período de risco para o psiquismo devido à intensidade da experiência vivida pela mulher. Esta experiência pode incidir sobre psiquismos mais ou menos estruturados. Mesmo mulheres com boa organização psíquica podem se ver frente a situações em que a rede social falha. A DPP acomete entre 10% e 20% das mulheres, podendo começar na primeira semana após o parto e perdurar até dois anos.
Há fatores de risco que vêm sendo estudados e demonstram uma alta correlação com a DPP. Entre eles temos: mulheres com sintomas depressivos durante ou antes da gestação, com histórico de transtornos afetivos, mulheres que sofrem de TPM, que passaram por problemas de infertilidade, que sofreram dificuldades na gestação, submetidas à cesariana, primigestas, vítimas de carência social, mães solteiras, mulheres que perderam pessoas importantes, que perderam um filho anterior, cujo bebê apresenta anomalias, que vivem em desarmonia conjugal, que se casaram em decorrência da gravidez.
A puérpera se beneficia de grupos terapêuticos onde possa compartilhar o seu sofrimento junto a outras mulheres em igual situação e sob orientação de um profissional. Também pode ser recomendado atendimento psicológico individual em casos cuja gravidade perturbaria o grupo ou que manifestem preferência por esta modalidade de atendimento. O acompanhamento psiquiátrico é indispensável.

Aparecem sintomas como irritabilidade, mudanças bruscas de humor, indisposição, doenças psicossomáticas, tristeza profunda, desinteresse pelas atividades do dia-a-dia, sensação de incapacidade de cuidar do bebê e desinteresse por ele, chegando ao extremo de pensamento suicidas e homicidas em relação ao bebê. O diagnóstico precoce é fundamental e para isso é necessário um acompanhamento em todo ciclo gravídico-puerperal, sendo a melhor forma de evitar, atenuar ou reduzir a duração da DPP. Grupos de gestante têm caráter psicoprofilático e, portanto, ajudam no diagnóstico e tratamento precoces. I., 32 anos, segunda gestação, procura-nos, pois está deprimida desde há última gravidez, ocorrida há 3 anos. Desde que viu confirmada a gravidez, encontra-se mais prostrada e ansiosa. Não tratou o quadro depressivo há 3 anos, pois se sentia envergonhada. A sogra assumiu as tarefas perante o primeiro neto. O marido se afastou por achá-la “preguiçosa” e “egoísta”. I. foi encaminhou pelo atual ginecologista. Desde então, I. vem sendo medicada e acompanhada em psicanálise. Participou de atividades junto a outras gestantes e sentiu-se muito compreendida ao ouvir depoimentos parecidos com os seus, mesmo que menos graves. O trabalho junto à família mostrou-se proveitoso. Atualmente, I. busca reaver seu lugar junto à prole, consciente de que precisará de ajuda para poder cuidar dos filhos, mas que isso não é motivo de vergonha.

No caso da Psicose Puerperal encontramos perda do senso de realidade, delírios, alucinações (por volta 0,2 % de casos). Não é recomendável aleitamento. Nos transtornos psíquicos mais graves há que se acionar a rede social da gestante antes do nascimento, para que alguém se incumba de responder às necessidades emocionais do bebê. Para a mulher em surto o bebê não existe enquanto tal. Ele passa a ser espaço vazio preenchido por elementos do psiquismo da mãe, cindidos do real. Por vezes, as fantasias são ocultadas pela paciente, pois ela se encontra em delírio paranóide que inclui todo staff que dela se ocupa. Os parentes precisam ser alertados, pois há risco de vida para mãe e filho. Muitas gestantes normais trazem fantasias persecutórias em relação ao roubo do bebê ou medos infundados. Isto é esperado e não corresponde ao quadro psicótico, mas apenas a uma projeção de suas próprias fantasias ambivalentes nos outros. No caso da psicose a angústia é da ordem do insuportável, podendo aparecer rituais obsessivos e pensamento desconexo. Um histórico psiquiátrico com surtos anteriores traz fortes indícios de risco nestes casos. S. nos procurou encaminhada pelo ginecologista para entrar no grupo de gestantes. Primigesta, 30 anos, 6 meses de gestação. S., cuja gravidez transcorre sem dificuldades físicas, apresenta um delírio de contaminação, tem medos relativos à saída do bebê. Tudo que lê em revistas serve para alimentar seu delírio obsessivo e paranóico. Não recomendamos atendimento grupal neste caso, nem qualquer tipo de orientação de parto, pois todo o uso que S. faz da informação recebida é pernicioso. Por exemplo, se S. lê sobre a contaminação da carne bovina em outro país, imediatamente para de comer carne. S. recebe atendimento psicanalítico e psiquiátrico. Recomendou-se um acompanhamento de orientação aos familiares e uma acompanhante treinada na hora do parto.

O que distingue a DPP da Tristeza Materna (baby blues, post-partum blues) é a gravidade do quadro e o que ele tem de incapacitante, afetando a funcionalidade da mãe e pondo em perigo seu bem-estar e o do bebê. Além da evidente necessidade de cuidados da mulher, acima citados, a DPP é fator de risco para a saúde mental do bebê e, portanto, requer toda a nossa atenção. Culturalmente, a maternidade é vista de forma idealizada e qualquer afeto negativo da mãe para com bebê é julgado como algo da ordem do impensável. Na psicanálise o tema do ódio materno foi suplantado pela interpretação de que somente os filhos seriam capazes de odiar os pais por rivalidade do pai do mesmo sexo (o famoso complexo de Édipo). Mesmo para Freud, lidar com este assunto mostrou-se tarefa espinhosa e só em seus escritos finais ele pode confrontar-se com este mito : da mãe capaz de odiar o próprio filho. Existe um tabu cultural em relação ao tema gestação e depressão, como se a mulher devesse estar radiante pelo nascimento de seu filho e ela fosse culpada de uma espécie de “ingratidão”, pois “ela tem tudo e mesmo assim sofre”. Nesta visão, o sofrimento de uma mãe de bebê recém nascido seria decorrente de uma incapacidade de dar valor ao “milagre da maternidade”. O senso comum tende a esconder a real natureza da tarefa de vir a ser mãe.
O processo de transformação psíquica que uma mulher precisa passar no ciclo gravídico-puerperal envolve três grandes momentos que englobam pequenas etapas vividas de forma diferentes para cada sujeito. A transformação da filha em mãe, a transformação da auto-imagem corporal e a relação entre a sexualidade e a maternidade. Cada um destes temas requer uma reordenação psíquica que incide sobre as vicissitudes de cada mulher. A mentalidade, de que a chegada de um filho é isenta de ambigüidade, tende a dificultar o auxílio que estas mães precisam receber. Algumas mulheres não conseguem admitir para si mesmas que merecem ajuda, escondendo dos cônjuges e da família seu estado.

A Tristeza Materna (baby blues), por sua vez, acomete até 80% das mulheres, mas devido ao tabu mencionado pode se imaginar um índice até maior. É um estado de humor depressivo que costuma acontecer a partir da primeira semana depois do parto. Este humor é coerente com a enorme tarefa de elaboração psíquica citada anteriormente (transformação da filha em mãe, a transformação da auto-imagem corporal, a administração da relação entre a sexualidade e a maternidade). De forma geral, a mulher sente que perdeu o lugar de filha sem que tenha ainda segurança no papel de mãe; que o corpo está irreconhecível, pois se já não é mais de uma grávida tampouco retomou sua forma original; que entre ela e o marido encontra-se um terceiro elemento. O bebê emerge como um outro ser humano aos olhos desta mãe e precisa encontrar um espaço dentro desta configuração anterior (casal) de forma a deixar preservada a sexualidade dos pais. Forma-se o triângulo que remete o casal a suas próprias questões com seus pais. O quadro é benigno, há medida em estas questões possam ser elaboradas, e regride por si só por volta do primeiro mês.
Aparecem sintomas como irritabilidade, mudanças bruscas de humor, indisposição, tristeza, insegurança, baixa auto-estima, sensação de incapacidade de cuidar do bebê e outros. Apesar de ser comum e normal envolve uma quantidade razoável de sofrimento que pode ser atenuado no compartilhar com outras pessoas que entendam esta condição como natural e até benéfica. Benéfica como? Existe um estado denominado de Preocupação Materna Primária que se refere a um período que vai do fim da gestação até por volta do primeiro mês do bebê, em que a mulher teria uma hipersensibilidade às necessidades do bebê. Este estado tão necessário, caso fosse vivido fora da maternidade, seria considerado esquizóide e, no entanto, é fundamental para a vinculação com a criança. Faz parte deste estado uma certa dose de humor depressivo. A tarefa de uma mãe de bebê é monótona, desgastante e sem recompensas ou reconhecimento do bebê, a curto prazo. O bebê é impiedoso em suas necessidades e é difícil que a mãe possa atender-lhe se estiver num estado de agitação maníaca, por exemplo. Recebemos na clínica, mães cujo estado de agitação interfere sobre o manuseio do bebê, que tendem a acordá-lo desnecessariamente, pois interpretam o ritmo da criança como lento demais (entenda-se mórbido), mas na realidade, sua aceleração as impede de interpretarem a demanda do filho como normal. Uma mãe em mania tende a manter seu bebê em constante sobressalto. Para ser capaz de se adaptar à rotina de um bebê, de se adaptar à linguagem do recém-nascido, a mãe tem que baixar muito suas expectativas com relação à sua própria privacidade e à agitação do mundo externo. Essa tarefa não encontra similar ao longo da vida de uma mulher e se inicia subitamente.

A perda do status de gestante é muito rápida e dolorosa. Reconhecer o bebê como uma pessoa e não como a imagem idealizada (que precisa ser construída na gestação como formas de desejar o bebê) é como lidar com um casamento arranjado. Mesmo que tenhamos as melhores indicações do noivo ainda assim não o conhecemos e, no entanto, ficaremos a seu inteiro dispor. Precisamos estar atentos às mães que vêem no parto uma coisa em si, com o “pequeno inconveniente” de ter que criar o filho depois. Atualmente temos visto um “culto ao parto”, uma verdadeira idealização deste momento, que afinal é apenas uma das etapas de uma tarefa infinitamente maior: criar um ser humano. Tarefa esta sem paralelos, pois nos obriga a planejar uma existência para além da nossa própria. O parto tem revelado uma faceta de bem de consumo, sujeito a modismos. Encontramos na clínica de acompanhamento do ciclo gravídico-puerperal uma ênfase muito grande nos tipos de parto sem, por exemplo, qualquer consideração sobre o alojamento conjunto. Ficando a filmagem do parto, a decoração da maternidade, como prioridades, em alguns momentos, no lugar do bebê. Às vezes, é só a partir da primeira semana que essas mães começam a ser dar conta de que um “outro” chegou em suas vidas. M. 17 anos, internada no Amparo Maternal, primigesta de 7 meses, sente a gravidez como uma forma de adquirir um status de mulher perante uma mãe muito dominadora. Encontra-se surpreendentemente despreocupada com a tarefa de cuidar de um bebê, ainda que em condições sócio-econômicas muito precárias. O prognóstico de formação de vínculo é pouco favorável, pois no imaginário de M. ainda não há um bebê. A partir do trabalho de acompanhamento, M. vai saindo se sua alienação e entrando num humor depressivo. Dentro deste estado passa a poder refletir sobre a real tarefa que a espera e as necessidades deste bebê. O trabalho ajudou-a a criar um espaço psíquico para chegada de um filho, aonde antes só havia uma tentativa de rebeldia em relação à própria mãe.
Na clínica psicológica, encontramos muitas adolescentes que apesar de terem acesso aos métodos de contracepção, acabam engravidando numa tentativa inconsciente de adquirir o status de adultas para escaparem do dilema criança-adulto, próprio desta fase da vida. Também observamos, ainda de forma surpreendente nos dias de hoje, o binômio casamento-gravidez, como símbolo de realização social o que nem sempre vem acompanhado de um desejo real de lidar com a abnegação necessária para se cuidar de um outro ser humano. O que as pessoas próximas podem fazer diante do humor depressivo que comumente se apresenta no pós-parto? Primeiro, a família pode ajudar sendo compreensiva e apoiando a mãe neste momento único, sem cobrar atitudes idealizadas pela mídia. A mídia tende a glorificar o papel da mãe e tratar o humor depressivo da mulher como da ordem da patologia. Basta vermos as propagandas e matérias veiculadas nos meios de comunicação que encontraremos a mãe que amamenta sem dificuldades ou desconforto, a mãe sentindo-se realizada e completa, sentindo-se linda. No entanto, o que a mãe de um recém-nascido menos sente é completude. Uma gestante pode sentir-se assim e é o que se espera em algumas fases da gestação. Já a mãe de bebê vive exatamente o oposto, ela vive a incompletude, o vazio da barriga, a separação. Ela precisará de um tempo até que possa preencher este espaço. São necessários todo apoio e compreensão para que a mãe recém nascida saiba que não há nada de errado com ela. Ser aceita em sua natureza de mãe ajuda muito a diminuir o mal estar, encurtando o baby blues drasticamente. O nascimento de um bebê tende a ser recebido pela comunidade que o cerca com grande alegria e isso é o melhor que se pode esperar. No entanto, nem sempre esta alegria repercuti de forma positiva para a mãe. Que triste paradoxo! Muitas vezes, um único telefonema do profissional de saúde que se ocupa desta mulher pode ajudá-la a compartilhar sua decepção ou seus medos sem sentir-se culpada. Vemos como isto tem um efeito benéfico sobre as mães. Por vezes, damos-lhe uma carta “para ser aberta no pós-parto” com o relato de uma mãe com a qual possam se identificar. Em casos benignos estes simples procedimentos podem ter um grande efeito psicoprofilático. Para isso é importante que as pessoas que lidam com a mãe recebam esclarecimento sobre a natureza deste estado.
Afinal, onde se perdeu a sabedoria há que se buscar informação. Como profissionais, devemos estar cientes das diferenças entre DPP e Tristeza Materna e conhecer os fatores de risco que aumentam a probabilidade de uma DPP (facilitando a observação da evolução de humor da gestante) para podermos intervir precocemente, o que melhora muito o prognóstico. Algumas mães que não deprimem podem não ter percebido o “outro” e continuar estabelecendo uma relação totalmente narcísica com seus bebês. Esses bebês tendem a se fazerem ouvir por meio de sintomas psicossomáticos iniciando um ciclo de adoecimentos. As somatizações do recém nascido não devem ser subestimadas no que dizem respeito à relação mãe-bebê. Se por um lado, a somatização é o meio fundamental pela qual o bebê sinaliza o desconforto psíquico, por outro lado, não podemos esquecer que este desconforto se estabelece na relação com as pessoas que cuidam dele e reflete o desconforto psíquico da mãe, na grande maioria das vezes. L., 23 anos, primigesta, cujo bebê estava com 30 dias quando nos procurou, relata a reação de desespero de seu bebê ao ser colocado para deitar no carrinho ou “longe do corpo”, mesmo para um passeio diurno, o que a obrigava a mantê-lo permanentemente sustentado por um adulto. L. encontrava-se visivelmente extenuada, pois dormia com o bebê sobre o ventre desde seu nascimento. Ela encarava esta situação de forma ambivalente, pois se sentia culpada em deixá-lo deitar no carrinho, mas, ao mesmo tempo, não conseguiria permanecer nesta tarefa. Lembrava-se que durante o parto sentiu-se triste na hora de fazer força no período expulsivo. A partir desta reflexão, L. pode ir percebendo sua dificuldade para fazer a separação entre seu corpo e de seu bebê e a culpa por ter “expulso” o filho de si mesma. O bebê respondeu à elaboração psíquica da mãe, que claramente mudou de postura, “aprendendo” a dormir no carrinho sem sofrimento e posteriormente no berço.

Algumas mulheres podem encontrar uma medida excelente entre todas as transformações exigidas pela maternidade e acabam por ter um quadro muito suave no pós-parto, quase imperceptível. Ser multípara ou ter ao seu lado outras mulheres que já passaram pelo baby blues pode ter um efeito atenuador. Com tempo o psiquismo se encarrega de fazer seleção das memórias mais gratificantes deixando os momentos difíceis caírem no esquecimento.

*Artigo publicado na Revista Pediatria Moderna, Julho-Agosto, v. 41, nº 4, 2005. Referências bibliográficas:

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D. Winnicott, (1956), “A Preocupação Materna Primária”, in Da Pediatria à Psicanálise, Rio de Janeiro, Imago, 2000. __________, Os bebês e suas mães, São Paulo, Martins Fontes, 1994.