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quinta-feira, fevereiro 29, 2024

COMO E PORQUE SOU ROMANCISTA – José de Alencar

COMO E PORQUE SOU ROMANCISTA – José de Alencar

APRESENTAÇÃO
“Como e Porque Sou Romancista” é a autobiografia intelectual de José de Alencar, importante para o conhecimento de sua personalidade e dos alicerces de sua formação literária.

O texto sob a forma de carta, foi escrito em 1873 e publicado em 1893, pela Tipografia Leuzinger. Entre suas reedições, merece menção a da Academia Brasileira de Letras, de 1987, conservando a ortografia original, apresentada pelo Prof. Afrânio Coutinho, com a erudição e clareza marcantes de sua crítica.

A presente edição, com o objetivo de tornar mais acessível a leitura, atualizou a ortografia do texto alencariano. Manteve-se, entretanto, a pontuação original que, no dizer de M. Cavalcanti Proença, é “elemento característico da prosa alencariana, subordinando-se muito menos às regras vigentes na época do que ao ritmo fraseológico, tal qual o concebera e criara”.

Afrânio Coutinho definiu esta carta como “autêntico roteiro de teoria literária, o qual, reunido a outros ensaios de sua lavra, pode bem constituir um corpo de doutrina estética literária, que o norteou em sua obra de criação propriamente dita, sobretudo no romance”.

O autor enfatizou, em sua formação escolar, a importância dada à leitura, com a correção, nobreza, eloqüência e alma que o mestre Januário Mateus Ferreira sabia transmitir a seus alunos. Ainda menino, como ledor dos serões da família, teve oportunidade de contínuo e repetido contacto com um escasso repertório de romances, cujos esquemas iam ficando gravados em seu espírito.

Já cursando a Faculdade de direito, em São Paulo, com grande esforço, dominou o idioma francês para ler obras de Balzac, Dumas, Vigny, Chateaubriand e Victor Hugo.

“A escola francesa, que eu então estudava nesses mestres da moderna literatura, achava-me preparado para ela. O molde do romance, qual mo havia revelado pôr mera casualidade aquele arrojo de criança a tecer uma novela com os fios de uma ventura real, fui encontra-lo fundido com, a elegância e beleza que jamais lhe poderia dar.”

À influência das leituras na sua formação de escritor, sobrepôs Alencar o valor da imaginação:
“Mas não tivera eu herdado de minha santa mãe a imaginação de que o mundo apenas vê flores, desbotadas embora, e de que eu sinto a chama incessante, que essa leitura de novelas mal teria feito de mim um mecânico literário, desses que escrevem presepes em vez de romances.”

Discordou da crítica literária que atribuía à influência de Cooper o paisagismo de O Guarani.
“Disse alguém, e repete-se pôr aí, de outiva, que O Guarani é um romance ao gosto de Cooper. Se assim fosse, haveria coincidência, e nunca imitação; mas não é. Meus escritos se parecem tanto com os do ilustre romancista americano, como as várzeas do ceará com as margens do Delaware.”

Segundo Heron de Alencar, “já houve quem colocasse em dúvida algumas das afirmativas que Alencar inseriu em sua autobiografia literária. Ao escrevê-la, já era um escritor de renome e no auge de sua carreira, quatro anos antes de falecer. É possível, desse modo, que tenha, alguma vez querido vestir de fantasia a realidade de sua formação literária, para que a posteridade – sua grande e permanente preocupação – não lhe regateasse admiração e fidelidade. Isso em nada altera o julgamento que deve resultar da leitura de sua obra, e esse é o único julgamento que prevalece.”

Para Antônio Cândido, “O escrito mais importante para conhecimento da personalidade é a autobiografia literária “Como e Porque Sou Romancista”…., um dos mais belos documentos pessoais da nossa literatura. Não há ainda biografia à altura do assunto, podendo-se dizer o mesmo da interpretação crítica. Mas há um conjunto de estudos que, somados, permitem bom conhecimento.”

04. FRAGMENTOS DA OBRA
I
Meu amigo,
Na conversa que tivemos, há cinco dias, exprimiu V. o desejo de colher acerca de minha peregrinação literária, alguns pormenores dessa parte íntima de nossa existência, que geralmente fica à sombra, no regaço da família ou na reserva da amizade.

Sabendo de seus constantes esforços para enriquecer o ilustrado autor do Dicionário Bibliográfico, de copiosas notícias que ele dificilmente obteria a respeito de escritores brasileiros, sem a valiosa coadjuvação de tão erudito glossólogo, pensei que me não devia eximir de satisfazer seu desejo e trazer a minha pequena quota para a amortização desta dívida de nossa ainda infante literatura.

Como bem reflexionou V., há na existência dos escritores fatos comuns, do viver quotidiano, que todavia exercem uma influência notável em seu futuro e imprimem em suas obras o cunho individual.
Estes fatos jornaleiros, que à própria pessoa muitas vezes passam despercebidos sob a monotonia do presente, formam na biografia do escritor a urdidura da tela, que o mundo somente vê pela face do matiz e dos recamos.

Já me lembrei de escrever para meus filhos essa autobiografia literária, onde se acharia a história das criaturinhas enfezadas, de que, pôr mal de meus pecados, tenho povoado as estantes do Sr. Garnier.
Seria esse o livro de meus livros.

Se alguma hora de pachorra, me dispusesse a refazer a cansada jornada dos quarenta e quatro anos, já completos os curiosos de anedotas literárias saberiam, além de muitas outras coisas mínimas, como a inspiração d’O Guarani, pôr mim escrito aos 27 anos, caiu na imaginação da criança de nove, ao atravessar as matas e sertões do norte, em jornada do Ceará à Bahia.
Enquanto não vem ao lume do papel, que para o da imprensa ainda é cedo, essa obra futura, quero em sua intenção fazer o rascunho de um capítulo.

Será daquele, onde se referem as circunstâncias, a que atribuo a predileção de meu espírito pela forma literária do romance.
(…)
Toda a minha vida colegial se desenha no espírito com tão vivas cores, que parecem frescas de ontem, e todavia mais de trinta anos já lhes pairaram sobre. Vejo o enxame dos meninos, alvoriçando na loja, que servia de saguão; assisto aos manejos da cabala para a próxima eleição do monitor geral; ouço o tropel do bando que sobe as escadas, e se dispersa no vasto salão, onde cada um busca o seu banco numerado.

Mas o que sobretudo assoma nessa tela é o vulto grave de Januário Mateus Ferreira, como eu o via passeando diante da classe, com um livro na mão e a cabeça reclinada pelo hábito da reflexão.
Usava ele de sapatos rinchadores; nenhum dos alunos do seu colégio ouvia de longe aquele som particular, na volta de um corredor, que não sentisse um involuntário sobressalto.

Januário era talvez ríspido e severo em demasia; orem nenhum professor o excedeu no zelo e entusiasmo com que desempenhava o seu árduo ministério. Identificava-se com o discípulo; transmitia-lhe suas emoções e tinha o dom de criar no coração infantil os mais nobres estímulos, educando o espírito com a emulação escolástica para os grandes certames da inteligência.

Dividia-se o diretor pôr todas as classes, embora tivesse cada uma seu professor especial; desse modo andava sempre ao corrente do aproveitamento de seus alunos, e trazia os mestres como os discípulos em constante inspeção. Quando, nesse revezamento de lições, que ele de propósito salteava, acontecia achar atrasada alguma classe, demorava-se com ela dias e semanas, até que obtinha adiantá-la e só então a restituía ao respectivo professor.
(…)
Era eu quem lia para minha boa mãe não somente as cartas e os jornais, como os volumes de uma diminuta livraria romântica formada ao gosto do tempo.
(…)
Morávamos, então, na Rua do Conde, nº 55. Aí nessa casa preparou-se a grande revolução parlamentar que entregou ao Sr. D. Pedro II o exercício antecipado de suas prerrogativas constitucionais.
A propósito desse acontecimento histórico, deixe passar aqui nesta confidência inteiramente literária, uma observação que me acode e, se escapa agora, talvez não volte nunca mais.

Uma noite pôr semana, entravam misteriosamente em nossa casa os altos personagens filiados ao Clube Maiorista de que era presidente o Conselheiro Antônio Carlos e Secretário o Senador Alencar.
Celebravam-se os serões em um aposento do fundo, fechando-se nessas ocasiões a casa às visitas habituais, a fim de que nem elas nem os curiosos da rua suspeitassem do plano político, vendo iluminada a sala de frente.

Enquanto deliberavam os membros do Clube, minha boa mãe assistia ao preparo de chocolate com bolinhos, que era costume oferecer aos convidados pôr volta de nove horas, e eu, ao lado com impertinências de filho querido, insistia pôr saber o que ali ia fazer aquela gente.
Conforme o humor em que estava, minha boa mãe às vezes divertia-se logrando com histórias a minha curiosidade infantil; outras deixava-me falar às paredes e não se distraía de suas ocupações de dona de casa.

Até que chegava a hora do chocolate. Vendo partir carregada de tantas gulosinas a bandeja que voltava completamente destroçada, eu que tinha os convidados na conta de cidadãos respeitáveis, preocupados dos mais graves assuntos, indignava-me ante aquela devastação e dizia com a mais profunda convicção:
-O que estes homens vêm fazer aqui é regalarem-se de chocolate.

Essa, a primeira observação do menino em coisas de política, ainda a não desmentiu a experiência do homem. No fundo de todas as evoluções lá está o chocolate embora sob vários aspectos.
Há caracteres íntegros, como o do Senador Alencar, apóstolos sinceros de uma idéia e mártires dela. Mas estes são esquecidos na hora do triunfo, quando não servem de vítimas para aplacar as iras celestes.
Suprima este mau trecho que insinuou-se malgrado e contra todas as usanças em uma palestra, senão au coin du feu, em todo o caso aqui neste cantinho da imprensa.
Afora os dias de sessão, a sala do fundo era a estação habitual da família.

Não havendo visitas de cerimônia sentava-se minha boa mãe e sua irmã D. Florinda com os amigos que pareciam, ao redor de uma mesa redonda de jacarandá, no centro da qual havia um candeeiro.
Minha mãe e minha tia se ocupavam com trabalhos de costuras, e as amigas para não ficarem ociosas as ajudavam. Dados os primeiros momentos à conversação, passava-se à leitura e era eu chamado ao lugar de honra.

Muitas vezes, confesso, essa honra me arrancava bem a contragosto de um sono começado ou de um folguedo querido; já naquela idade a reputação é um fardo e bem pesado.

Lia-se até a hora do chá, e tópicos havia tão interessantes que eu era obrigado à repetição. Compensavam esse excesso, as pausas para dar lugar às expansões do auditório, o qual desfazia-se em recriminações contra algum mau personagem, ou acompanhava de seus votos e simpatias o herói perseguido.
Uma noite, daquelas em que eu estava mais possuído do livro, lia com expressão uma das páginas mais comoventes da nossa biblioteca. As senhoras, de cabeça baixa, levavam o lenço ao rosto, e poucos momentos depois não puderam conter os soluços que rompiam-lhes o seio.

Com a voz afogada pela comoção e a vista empanada pelas lágrimas, eu também cerrando ao peito o livro aberto, disparei em pranto e respondia com palavras de consolo às lamentações de minha mãe e suas amigas.

Nesse instante assomava à porta um parente nosso, o Revd.º Padre Carlos Peixoto de Alencar, já assustado com o choro que ouvira ao entrar – Vendo-nos a todos naquele estado de aflição, ainda mais perturbou-se:
-Que aconteceu? Alguma desgraça? Perguntou arrebatadamente.
As senhoras, escondendo o rosto no lenço para ocultar do Padre Carlos o pranto e evitar seus remoques, não proferiram palavra. Tomei eu a mim responder:

-Foi o pai de Amanda que morreu! Disse, mostrando-lhe o livro aberto.
Compreendeu o Padre Carlos e soltou uma gargalhada, como ele as sabia dar, verdadeira gargalhada homérica, que mais parecia uma salva de sinos a repicarem do que riso humano. E após esta, outra e outra, que era ele inesgotável, quando ria de abundância de coração, com o gênio prazenteiro de que a natureza o dotara.
(…)
Foi essa leitura contínua e repetida de novelas e romances que primeiro imprimiu em meu espírito a tendência para essa forma literária que é entre todas a de minha predileção?
Não me animo a resolver esta questão psicológica, mas creio que ninguém contestará a influência das primeiras impressões.

Entretanto é preciso que lhe diga. Se a novela foi a minha primeira lição de literatura, não foi ela que me estreou na carreira de escritor. Este título cabe a outra composição, modesta e ligeira, e pôr isso mesmo mais própria para exercitar um espírito infantil.
(…)
A cena era em Pajeú de Flores, nome que só pôr si enchia-me o espírito da fragrância dos campos nativos, sem falar dos encantos com que os descrevia o meu amigo.
Esse primeiro rascunho foi-se com os folguedos da infância que o viram nascer. Das minhas primícias literárias nada conservo; lancei-as ao vento, como palhiço que eram da primeira copa.
(…)
Ao cabo de quatro anos de tirocínio na advocacia, a imprensa diária, na qual apenas me arriscara como folhetinista, arrebatou-me. Em fins de 1856 achei-me redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro.
(…)
Escrevi Cinco Minutos em meia dúzia de folhetins que iam saindo na folha dia pôr dia, e que foram depois tirados em avulso sem nome do autor. A prontidão com que em geral antigos e novos assinantes reclamavam seu exemplar, e a procura de algumas pessoas que insistiam pôr comprar a brochura, somente destinada à distribuição gratuita entre os subscritores do jornal; foi a única, muda mas real, animação que recebeu essa primeira prova
(…)
Logo depois do primeiro ensaio, veio A Viuvinha. Havia eu em época anterior começado este romancete, invertendo a ordem cronológica dos acontecimentos. Deliberei porém mudar o plano, e abri a cena com o princípio da ação.
(…)
Há de ter ouvido algures, que eu sou um mimoso do público, cortejado pela imprensa, cercado de uma voga de favor, vivendo da falsa e ridícula idolatria a um romance oficial. Aí tem as provas cabais; e pôr elas avalie dessa nova conspiração do despeito que veio substituir a antiga conspiração do silêncio e da indiferença.

Apesar do desdém da crítica de barrete, Lucíola conquistou seu público, e não somente fez caminho como ganhou popularidade. Em um ano esgotou-se a primeira edição de mil exemplares, e o Sr. Garnier comprou-me a segunda, propondo-me tomar em iguais condições ouro perfil de mulher, que eu então gizava.
Pôr esse tempo fundou a sua Biblioteca Brasileira, o meu amigo Sr. Quintino Bocaiúva, que teve sempre um fraco pelas minhas sensaborias literárias.

Reservou-me um de seus volumes, e pediu-me com que enche-lo. Além de esboços e fragmentos, não guardava na pasta senão uns dez capítulos de romance começado.
Aceitou-os, e em boa hora os deu a lume; pois esse primeiro tomo desgarrado excitou alguma curiosidade que induziu o Sr. Garnier a editar a conclusão. Sem aquela insistência de Quintino Bocaiúva, As Minas de Prata, obra de maior traço, nunca sairia da crisálida e os capítulos já escritos estariam fazendo companhia a Os Contrabandistas.

De volta de São Paulo, onde fiz uma excursão de saúde, e já em férias de política, com a dissolução de 13 de maio de 1863, escrevi Diva que saiu a lume no ano seguinte, editada pelo Sr. Garnier.

Foi dos meus romances – e já andava no quinto, não contando o volume d’As Minas de Prata – o primeiro que recebeu hospedagem da imprensa diária, e foi acolhido com os cumprimentos banais da cortesia jornalística. Teve mais: o Sr. H Muzzio consagrou-lhe no Diário do Rio um elegante folhetim, mas de amigo que não de crítico.

Pouco depois (20 de junho de 1864) deixei a existência descuidosa e solteira para entrar na vida da família onde o homem se completa. Como a literatura nunca fora para mim uma Boêmia, e somente um modesto Tibur para o espírito arredio, este sempre grande acontecimento da história individual não marca época na minha crônica literária.

A composição dos cinco últimos volumes d’As Minas de Prata ocupou-me três meses entre 1864 e 1865, porém a demorada impressão estorvou-me um ano, que tanto durou. Ninguém sabe da má influência que tem exercido na minha carreira de escritor, o atraso de nossa arte tipográfica, que um constante caiporismo torna em péssima para mim.

Se eu tivesse a fortuna de achar oficinas bem montadas com hábeis revisores, meus livros sairiam mais corretos; a atenção e o tempo pôr mim despendidos em rever, e mal, provas truncadas, seriam melhor aproveitados em compor outra obra.

Para publicar Iracema em 1869, fui obrigado a edita-lo pôr minha conta; e não andei mal inspirado, pois antes de dois anos a edição extinguiu-se.

De todos os meus trabalhos deste gênero nenhum havia merecido as honras que a simpatia e a confraternidade literária se esmeram em prestar-lhes. Além de agasalhado pôr todos os jornais, inspirou a Machado de Assis uma de suas mais elegantes revistas bibliográficas.

Até com surpresa minha atravessou o oceano, e granjeou a atenção de um crítico ilustrado e primoroso escritor português, o Sr. Pinheiros Chagas, que dedicou-lhe um de seus ensaios críticos.

Em 1868 a alta política arrebatou-me às letras para só restituir-me em 1870. Tão vivas eram as saudades dos meus borrões, que apenas despedi a pasta auri-verde dos negócios de estado, fui tirar da gaveta onde a havia escondido, a outra pasta de velho papelão, todo rabiscado, que era então a arca de meu tesouro.
Aí começa outra idade de autor, a qual eu chamei de minha velhice literária, adotando o pseudônimo de Sênio, e outros querem seja a da decrepitude. Não me afligi com isto, eu que, digo-lhe com todas as veras, desejaria fazer-me escritor póstumo, trocando de boa vontade os favores do presente pelas severidades do futuro.

Desta segunda idade, que V. tem acompanhado, nada lhe poderia referir de novo, senão um ou outro pormenor de psicologia literária, que omito pôr não alongar-me ainda mais. Afora isso, o resto é monótono, e não passaria de datas, entremeadas da inesgotável serrazina dos autores contra os tipógrafos que lhes estripam o pensamento.

Ao cabo de vinte e dois anos de gleba na imprensa, achei afinal um editor, o Senhor B. Garnier, que espontaneamente ofereceu-me um contrato vantajoso em meados de 1870.

O que lhe deve a minha coleção, ainda antes do contrato, terá visto nesta carta; depois, trouxe-me esta vantagem, que na concepção de um romance e na sua feitura, não me turva a mente a lembrança do tropeço material, que pode matar o livro, ou fazer dele uma larva.

Deixe arrotarem os poetas mendicantes. O Magnus Apollo da poesia moderna, o deus da inspiração e pai das musas deste século, é essa entidade que se chama editor e o seu Parnaso uma livraria. Se outrora houvesse Homeros, Sófocles, Virgílios, Horácios e Dantes, sem tipografia nem impressor, é porque então escrevia-se nessa página imortal que se chama a tradição. O poeta cantava; e seus carmes se iam gravando no coração do povo.

Todavia ainda para o que teve a fortuna de obter um editor, o bom livro é no Brasil e pôr muito tempo será para seu autor, um desastre financeiro. O cabedal de inteligência e trabalho que nele se emprega, daria em qualquer outra aplicação, lucro cêntuplo.

Mas muita gente acredita que eu me estou cevando em ouro, produto de minhas obras. E, ninguém ousaria acredita-lo, imputaram-me isso a crime, alguma cousa como sórdida cobiça.

Que país é este onde forja-se uma falsidade, e para que? Para tornar odiosa e desprezível a riqueza honestamente ganha pelo mais nobre trabalho, o da inteligência!

Dir-me-á que em toda a parte há dessa praga; sem dúvida, mas é praga; e não tem foros e respeitos de jornal,admitindo ao grêmio da imprensa.
Excedi-me além do que devia; o prazer da conversa…
Maio de 1873.

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