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terça-feira, setembro 14, 2021

DISCURSO PRELIMINAR SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 3/4

41. Este deplorável oscilar entre duas filosofias opostas, que se tornaram igualmente vãs e não podem extinguir-se senão ao mesmo tempo, devia suscitar uma espécie de escola intermediária, essencialmente estacionária, destinada sobretudo a lembrar de modo direto o conjunto da questão social, proclamando enfim como igualmente necessárias as condições fundamentais que insulavam as duas opiniões ativas. Mas por falta de uma filosofia própria para realizar esta grande combinação do espírito de ordem com o de progresso, este terceiro impulso permanece logicamente ainda mais impotente do que os dois outros, porque sistematiza a inconseqüência, consagrando simultaneamente os princípios retrógrados e as máximas negativas, a fim de poder mutuamente neutralizá-los. Longe de tender a terminar a crise, tal disposição só poderia conseguir eternizá-la, opondo-se diretamente a toda verdadeira preponderância de um sistema qualquer, se não fosse limitada a simples destino passageiro, para empiricamente satisfazer às mais graves exigências de nossa situação revolucionária, até o advento decisivo das únicas doutrinas que possam de ora avante convir ao conjunto de nossas necessidades. Mas assim concebido, este expediente provisório se torna hoje tão indispensável como inevitável. Seu rápido ascendente prático, implicitamente reconhecido pelos dois partidos ativos, torna patente cada vez mais, nas populações atuais, o amortecimento simultâneo das convicções e das paixões anteriores, tanto retrógradas como críticas, gradualmente substituídas por um sentimento universal, verdadeiro, embora confuso, da necessidade e mesmo da possibilidade da conciliação contínua entre o espírito de conservação e o de melhoramento igualmente peculiares ao estado normal da Humanidade. A tendência correspondente dos homens de Estado a impedir hoje, tanto quanto possível, todo grande movimento político, acha-se além disso conforme às exigências fundamentais de uma situação que, na realidade, só comportará instituições provisórias, enquanto uma verdadeira filosofia geral não tiver suficientemente congregado as inteligências. Sem que os poderes atuais o percebam, esta resistência instintiva concorre para facilitar a verdadeira solução, incitando a transformar estéril agitação política em ativa progressão filosófica, de modo a seguir enfim a marcha prescrita pela natureza própria da reorganização final, que se deve operar primeiro nas idéias, para passar em seguida aos costumes e, por fim, às instituições. Tal transformação, que já tende a prevalecer em França, deve naturalmente desenvolver-se cada vez mais por toda a parte, visto a necessidade crescente em que se acham agora colocados nossos governos ocidentais de manter, a grande custo, a ordem material no meio da desordem intelectual e moral, necessidade que deve a pouco e pouco essencialmente absorver-lhes esforços diários, e conduzi-los a renunciar implicitamente a toda séria presidência da reorganização espiritual, entregue assim, de ora avante, à livre atividade dos filósofos que se mostrarem dignos de dirigi-la. Esta disposição natural dos poderes atuais está em harmonia com a tendência espontânea das populações a uma aparente indiferença política, motivada pela impotência radical das diversas doutrinas em voga, disposição que deve sempre persistir, enquanto os debates políticos, por falta de impulso conveniente, continuarem a degenerar em vãs lutas pessoais, cada vez mais miseráveis. Tal é a feliz eficácia prática que o conjunto da nossa situação revolucionária proporciona de modo momentâneo a uma escola essencialmente empírica, que, sob o aspecto teórico, não pode jamais produzir senão um sistema radicalmente contraditório, não menos absurdo e não menos perigoso, em política, do que o é, em Filosofia, o ecletismo correspondente, inspirado também pela vã intenção de conciliar, sem princípios próprios, opiniões incompatíveis.

II. Conciliação positiva da ordem e do progresso

42. De acordo com este sentimento, cada vez mais desenvolvido, da igual insuficiência social, que de ora em diante oferecem o espírito teológico e o metafísico, únicos que até aqui ativamente disputaram o império, deve a razão pública achar-se implicitamente disposta a acolher hoje o espírito positivo como a única base possível de verdadeira resolução da profunda anarquia intelectual e moral que sobretudo caracteriza a grande crise moderna. A escola positiva, que ficara ainda estranha a tais questões, preparou-se gradualmente para resolvê-las, constituindo, tanto quanto possível, durante a luta revolucionária dos três últimos séculos, o verdadeiro estado normal de todas as categorias mais simples de nossas especulações reais. Fortalecida por tais antecedentes científicos e lógicos, isenta, além disso, das diversas aberrações contemporâneas, apresenta-se hoje como tendo enfim adquirido a inteira generalidade filosófica que até aqui lhe faltava; desde então ousa empreender, por sua vez, a solução, ainda intacta, do grande problema, transportando convenientemente para os estudos finais a mesma regeneração que sucessivamente já operou nos diversos estudos preliminares.

43. Não se pode, à. primeira vista, desconhecer a aptidão espontânea de semelhante filosofia para estabelecer, de modo direto, a conciliação fundamental, ainda tão vãmente procurada, entre as exigências simultâneas da ordem e do progresso, pois lhe basta, para tal, estender até os fenômenos sociais uma tendência plenamente conforme à sua natureza, e que ela tornou hoje muito familiar em todos os outros casos essenciais. Em qualquer assunto o espírito positivo conduz sempre a estabelecer uma exata harmonia elementar entre as idéias de existência e as de movimento, donde resulta mais especialmente, para com os corpos vivos, a correlação permanente das idéias de organização e de vida, e, em seguida, por uma última especialização peculiar ao organismo social, a solidariedade contínua das idéias de ordem com as de progresso. Para a nova filosofia, a ordem constitui sempre a condição fundamental do progresso; e, reciprocamente, o progresso é o objetivo necessário da ordem: como na mecânica animal, são mutuamente indispensáveis o equilíbrio e a progressão, um como fundamento e a outra como destino.

44. Considerado, em seguida, especialmente quanto à ordem, o espírito positivo apresenta-lhe hoje, em sua extensão social, fortes garantias diretas, não só científicas mas também lógicas, que poderão logo ser julgadas muito superiores às vãs pretensões de uma teologia retrógrada, que, desde vários séculos, degenerou cada vez mais em elemento ativo de discórdias, individuais ou nacionais, e tornou-se incapaz de conter daqui por diante as divagações subversivas dos seus próprios adeptos. Atacando a desordem atual na sua verdadeira fonte, necessariamente mental, o espírito positivo constitui, tão profundamente quanto possível, a harmonia lógica, regenerando primeiro os métodos, depois as doutrinas, por uma tríplice conversão simultânea da natureza das questões dominantes, da maneira de tratá-las e das condições preliminares da sua elaboração. De um lado, com efeito, ele demonstra que as principais dificuldades sociais não são hoje essencialmente políticas, mas sobretudo morais, de sorte que sua solução possível depende realmente muito mais das opiniões e dos costumes do que das instituições; o que tende a extinguir uma atividade perturbadora, transformando a agitação política em movimento filosófico. Sob o segundo aspecto ele encara sempre o estado presente como um resultado necessário do conjunto da evolução anterior, de modo a fazer constantemente prevalecer a apreciação racional do passado no exame atual dos negócios humanos; o que afasta logo as tendências puramente críticas, incompatíveis com toda sã concepção histórica. Enfim, em lugar de deixar a ciência social no vago e estéril insulamento em que ainda a colocam a Teologia e a Metafísica, ele a liga irrevogavelmente a todas as outras ciências fundamentais, que constituem gradualmente, em relação a este estudo final, outros tantos preâmbulos indispensáveis, onde a nossa inteligência adquire ao mesmo tempo os hábitos e as noções sem as quais não podem ser utilmente tratadas as mais eminentes especulações positivas. Esta circunstância já institui uma verdadeira disciplina mental, própria a melhorar de modo radical tais discussões, desde então racionalmente interditas a grande número de entendimentos mal organizados ou mal preparados. Estas grandes garantias lógicas são, aliás, em seguida plenamente confirmadas e desenvolvidas pela apreciação científica propriamente dita, que, em relação aos fenômenos sociais assim como a todos os outros, representa sempre nossa ordem artificial como devendo consistir sobretudo no simples prolongamento judicioso, primeiro espontâneo, depois sistemático, da ordem natural que resulta, em cada caso, do conjunto das leis reais, cuja ação efetiva é ordinariamente modificável por nossa criteriosa intervenção, entre limites determinados, tanto mais distantes entre si quanto de ordem mais elevada são os fenômenos. O sentimento elementar da ordem é, em uma palavra, naturalmente inseparável de todas as especulações positivas, constantemente dirigidas para o descobrimento dos meios de ligação entre observações cujo principal valor resulta da sua sistematização.

45. O mesmo se dá, e ainda mais evidentemente, quanto ao progresso, que, apesar das vás pretensões ontológicas, acha hoje, no conjunto dos estudos científicos, sua mais incontestável manifestação. Em virtude de sua natureza absoluta e por conseguinte essencialmente imóvel, a Metafísica e a Teologia não poderiam comportar, com pouca diferença uma da outra, um verdadeiro progresso, isto é, uma verdadeira progressão contínua para determinado fim. Suas transformações históricas consistem sobretudo, ao revés, num desuso crescente, assim mental como social, sem que as questões agitadas hajam podido jamais dar qualquer passo real, em virtude mesmo de sua radical insolubilidade. É fácil reconhecer que as discussões ontológicas das escolas gregas se reproduziram essencialmente, sob outras formas, entre os escolásticos da Idade Média, e encontramos hoje o equivalente delas entre os nossos psicólogos ou ideólogos, pois nenhuma das doutrinas controvertidas pôde, durante estes vinte séculos de estéreis debates, chegar a demonstrações decisivas, nem mesmo no que concerne à existência dos corpos exteriores, ainda tão problemática para os argumentadores modernos como para os seus mais antigos predecessores. Foi evidentemente o avanço contínuo dos conhecimentos positivos que inspirou, há dois séculos, na célebre fórmula filosófica de Pascal, a primeira noção racional de progresso humano, necessariamente estranha a toda a filosofia antiga. Estendida em seguida à evolução industrial e mesmo estética, mas tendo ficado muito confusa em relação ao movimento social, ela tende hoje de modo vago para uma sistematização decisiva, que só pode emanar do espírito positivo, enfim convenientemente generalizado. Em suas especulações diárias ele reproduz espontaneamente seu ativo sentimento elementar, representando sempre a extensão e o aperfeiçoamento de nossos conhecimentos reais como o objetivo essencial de nossos diversos esforços teóricos. Sob um aspecto mais sistemático, a nova filosofia aponta, diretamente, como destino necessário a toda nossa existência, a um tempo pessoal e social, o melhoramento contínuo, não somente de nossa condição, mas também e sobretudo de nossa natureza, tanto quanto o comporta, a todos os respeitos, o conjunto das leis reais exteriores e interiores. Erigindo, assim, a noção de progresso em dogma verdadeiramente fundamental da sabedoria humana, quer prática, quer teórica, ela lhe imprime o mais nobre e também o mais completo caráter, representando sempre o segundo gênero de aperfeiçoamento como superior ao primeiro. Dependendo, com efeito, de um lado, a ação da Humanidade sobre o mundo exterior especialmente das disposições do agente, a sua melhoria deve constituir nosso principal recurso: sendo, por outro lado, os fenômenos humanos, individuais ou coletivos, os mais modificáveis de todos, é em relação a eles que nossa intervenção racional comporta naturalmente a mais alta eficácia. O dogma do progresso não pode, pois, tornar-se suficientemente filosófico senão mediante uma exata apreciação geral do que constitui sobretudo esse melhoramento contínuo de nossa própria natureza, principal objeto da progressão humana. Ora, a este respeito, o conjunto da filosofia positiva demonstra plenamente, como se pode ver na obra indicada no começo deste Discurso que tal aperfeiçoamento consiste essencialmente, assim para o indivíduo como para a espécie, em fazer prevalecer cada vez mais os eminentes atributos que mais distinguem nossa humanidade da simples animalidade, isto é, de uma parte a inteligência, de outra parte a sociabilidade, faculdades naturalmente solidárias, que se servem mutuamente de meio e de fim. Embora o curso espontâneo da evolução humana, pessoal ou social, desenvolva sempre sua comum influência, seu ascendente combinado não poderia, entretanto, chegar ao ponto de impedir proceda habitualmente nossa principal atividade dos instintos inferiores, que nossa constituição real torna, por força, muito mais enérgicos. Assim esta ideal preponderância de nossa humanidade sobre nossa animalidade preenche naturalmente as condições essenciais de um verdadeiro tipo filosófico, caracterizando determinado limite, do qual todos os nossos esforços devem aproximar-nos constantemente sem, todavia, conseguirem jamais atingi-lo.

46. Esta dupla indicação da aptidão fundamental do espírito positivo para sistematizar espontaneamente as sãs noções simultâneas de ordem e de progresso basta aqui para assinalar sumariamente a alta eficácia social peculiar à nova filosofia. Seu valor, a este respeito, depende sobretudo de sua plena realidade científica, isto é, da exata harmonia que estabelece sempre, tanto quanto possível, entre os princípios e os fatos, não só em relação aos fenômenos sociais, como também a todos os outros. A reorganização completa, única que pode terminar a grande crise moderna, consiste, com efeito, sob o aspecto mental, que deve prevalecer em primeiro lugar, em constituir uma teoria sociológica própria para convenientemente explicar o conjunto do passado humano: tal é o modo mais racional de pôr a questão essencial, a fim de afastar dela mais facilmente qualquer paixão perturbadora. Ora, é assim que a superioridade necessária da escola positiva sobre as diversas escolas atuais pode também ser mais nitidamente apreciada. Sendo o espírito teológico e o metafísico levados, por sua natureza absoluta, a não considerar senão o período do passado em que cada um deles dominou especialmente: o que precede e o que se segue não oferece mais do que tenebrosa confusão e inexplicável desordem, cuja ligação com essa estreita porção do grande espetáculo histórico não pode, aos seus olhos, resultar senão de milagrosa interferência. Por exemplo, o catolicismo sempre mostrou, a respeito do politeísmo antigo, uma tendência cegamente crítica, como a que ele hoje justamente increpa, em relação a si mesmo, ao espírito revolucionário propriamente dito. Uma verdadeira explicação do conjunto do passado, de conformidade com as leis constantes de nossa natureza, individual ou coletiva, é, pois, necessariamente impossível às diversas escolas absolutas que ainda dominam, e, na realidade, nenhuma delas tentou dá-la de modo satisfatório. Só o espírito positivo, em virtude de sua natureza eminentemente relativa, pode representar de modo conveniente todas as grandes épocas históricas como outras tantas fases determinadas de uma única evolução fundamental, onde cada uma resulta da precedente e prepara a seguinte segundo leis invariáveis, que fixam sua participação especial na progressão comum, de modo a permitir sempre, sem inconseqüência nem parcialidade, render exata justiça filosófica a quaisquer cooperações. Embora este incontestável privilégio da positividade racional deva, a princípio, parecer puramente especulativo, os verdadeiros pensadores nele reconhecerão logo a primeira fonte necessária do ativo ascendente social reservado enfim à, nova filosofia. Podemos, na verdade, assegurar hoje que a doutrina que houver suficientemente explicado o conjunto do passado obterá de modo inevitável, em virtude desta única prova, a presidência mental do futuro.

CAPÍTULO II
SISTEMATIZAÇÃO DA MORAL HUMANA

47. Semelhante indicação das altas propriedades sociais que caracterizam o espírito positivo não seria ainda assaz decisiva se lhe não ajuntássemos uma apreciação sumária de sua aptidão espontânea para sistematizar enfim a moral humana, o que constituirá sempre a principal aplicação de toda verdadeira teoria da Humanidade.

I. Evolução da moral positiva

48. No organismo político da antigüidade, a Moral, radicalmente subordinada à Política, não podia jamais adquirir a dignidade nem a universalidade conveniente à sua natureza. Sua independência fundamental e mesmo o seu ascendente normal resultaram enfim, tanto quanto era então possível, do regime monotéico peculiar à Idade Média: este imenso serviço, devido sobretudo ao catolicismo, constituirá sempre o seu principal título ao eterno reconhecimento do gênero humano. Foi somente depois dessa indispensável separação, sancionada e completada pela divisão necessária dos dois poderes, que a moral humana pôde realmente começar a tomar um caráter sistemático, estabelecendo, ao abrigo dos impulsos passageiros, regras verdadeiramente gerais para o conjunto de nossa existência pessoal, doméstica e social. Mas as profundas imperfeições da filosofia monoteica, que presidia então a essa grande operação, alteraram muito a sua eficácia e comprometeram mesmo gravemente a sua estabilidade, suscitando logo fatal conflito entre a expansão intelectual e o desenvolvimento moral. Assim ligada a uma doutrina que não podia manter-se progressiva por muito tempo, a Moral devia em seguida ser cada vez mais afetada pelo descrédito crescente que ia necessariamente sofrer uma teologia que, sendo daí por diante retrógrada, se tornaria enfim radicalmente antipática à razão moderna. Exposta desde então à ação dissolvente da Metafísica, a moral teórica recebeu, com efeito, durante os últimos cinco séculos, em cada uma das suas três partes essenciais, ataques crescentemente perigosos, que a retidão e a moralidade naturais do homem não puderam, pela prática, reparar sempre suficientemente, apesar do feliz desenvolvimento contínuo que lhes devia proporcionar então a marcha espontânea da nossa civilização. Se o ascendente necessário do espírito positivo não viesse enfim pôr termo a essas anárquicas divagações, elas certamente imprimiriam uma flutuação mortal a todas as noções um pouco delicadas da moral comum não somente social, mas também doméstica e até mesmo pessoal, não deixando subsistir por toda parte senão as regras relativas aos casos mais grosseiros que a apreciação vulgar pudesse diretamente garantir.

49. Em semelhante situação, deve parecer estranho que a única filosofia capaz efetivamente de consolidar hoje a Moral se veja, ao revés, tachada, a este respeito, de incompetência radical, pelas diversas escolas atuais desde os genuínos católicos até os simples deístas, que, no meio de seus vãos debates, se põem de acordo especialmente para lhe interdizer essencialmente o acesso destas questões fundamentais, pelo único motivo de que o seu gênio, demasiado parcial, se limitara até aqui aos assuntos mais simples. O espírito metafísico que tendeu tantas vezes a dissolver a Moral, e o espírito teológico, que, há muito, perdeu a força de preservá-la, persistem contudo em fazer dela uma espécie de apanágio eterno e exclusivo, sem que a razão pública tenha ainda julgado convenientemente essas pretensões empíricas. Cumpre, é verdade, reconhecer que, em geral, a introdução de qualquer regra moral devia operar-se por toda a parte primeiramente sob as inspirações teológicas, então incorporadas profundamente ao sistema inteiro de nossas idéias, inspirações que eram também as únicas suscetíveis de constituir opiniões suficientemente comuns. Mas o conjunto do passado demonstra igualmente que esta solidariedade primitiva decresceu sempre com o ascendente da Teologia; os preceitos morais, assim como todos os outros, foram cada vez mais reduzidos a uma consagração puramente racional, à medida que o vulgo se tornou mais capaz de apreciar a influência real de cada conduta sobre a existência humana, individual ou social. Separando de modo irrevogável a Moral da Política o catolicismo devia desenvolver em alto grau essa tendência continua, pois a intervenção sobrenatural se achou assim diretamente reduzida a formar regras gerais, cuja aplicação particular ficava desde então confiada à sabedoria humana. Dirigindo-se a populações mais adiantadas, ele entregou à razão pública uma série de preceitos especiais que os sábios antigos acreditavam não poder dispensar nunca as injunções religiosas, como o pensam ainda os doutores politeístas da Índia, por exemplo, quanto à maior parte das práticas higiênicas. Podem-se também observar, decorridos mais de três séculos depois de São Paulo, as sinistras predições de vários filósofos ou magistrados pagãos sobre a iminente imoralidade que a próxima revolução teológica ia necessariamente acarretar. Tampouco as declamações atuais das diversas escolas monoteicas impedirão o espírito positivo de completar hoje, sob condições convenientes, a conquista prática e teórica do domínio moral, já entregue espontaneamente, e, cada vez mais, à razão humana, cujas inspirações particulares só nos resta enfim sistematizar especialmente. A Humanidade não poderia, sem dúvida, ficar indefinidamente condenada a não poder fundar suas regras de proceder senão sobre motivos quiméricos, de maneira a eternizar uma desastrosa oposição, até aqui passageira, entre as necessidades intelectuais e as morais.

II. Necessidade de tornar a Moral independente da Teologia e da Metafísica

50. A experiência demonstra que a assistência teológica, bem longe de ser eternamente indispensável aos preceitos morais, lhes tem sido, ao revés, entre os modernos, cada vez mais prejudicial, fazendo-os participar inevitavelmente, em virtude dessa funesta aderência, da decomposição crescente do regime monotéico, sobretudo durante os três últimos séculos. Antes de mais nada, essa fatal solidariedade, à medida que se extinguia a fé, devia diretamente enfraquecer a única base sobre a qual repousavam regras que, amiúde expostas a graves conflitos com os nossos mais enérgicos impulsos, precisam ser cuidadosamente preservadas de toda hesitação. A antipatia crescente que o espírito teológico justamente inspirava à razão moderna, afetou de modo grave importantíssimas noções morais, não só relativas às grandes relações sociais, mas ainda atinentes à simples vida doméstica e mesmo à existência pessoal. Além disto um cego ardor de emancipação mental arrastou, de modo excessivo, a erigir algumas vezes o desdém passageiro por essas máximas salutares em uma espécie de louco protesto contra a filosofia retrógrada, de onde pareciam exclusivamente emanar. Até entre aqueles que conservavam a fé dogmática, essa funesta influência se fazia sentir indiretamente, porque a autoridade sacerdotal, depois de haver perdido sua independência política, via também decrescer cada vez mais o ascendente social indispensável à sua eficácia moral. Além desta impotência crescente para proteger as regras morais, o espírito teológico muitas vezes as prejudicou, de modo ativo, pelas divagações que suscitou, desde que não foi mais suscetível de suficiente disciplina, sob o inevitável surto do livre exame individual. Exercido assim, ele, na realidade, inspirou ou secundou muitas aberrações anti-sociais, que o bom senso, entregue a si mesmo, teria espontaneamente evitado ou rejeitado. As utopias subversivas que vemos ganhar crédito hoje, quer contra a propriedade, quer mesmo acerca da família, etc., não emanaram quase nunca das inteligências plenamente emancipadas, nem foram por elas acolhidas, apesar das suas lacunas fundamentais, mas antes, por certo, o foram pelas que buscam ativamente uma espécie de restauração teológica, fundada sobre vago e estéril deísmo ou sobre um protestantismo equivalente. Enfim, essa antiga aderência à Teologia tornou-se também necessariamente funesta à Moral, sob um terceiro aspecto geral, opondo-se à sua sólida reconstrução sobre bases puramente humanas. Se este obstáculo consistisse só nas cegas declamações mui freqüentemente emanadas das diversas escolas atuais, teológicas ou metafísicas, contra o pretenso perigo de semelhante operação, os filósofos positivos poderiam limitar-se a repelir odiosas insinuações pelo irrecusável exemplo da sua própria vida diária, pessoal, doméstica e social. Mas esta oposição é infelizmente muito mais radical, porque resulta da irredutível incompatibilidade necessária que evidentemente existe entre estas duas maneiras de sistematizar a Moral. Devendo os motivos teológicos oferecer naturalmente, aos olhos do crente, uma intensidade muito superior à de quaisquer outros, jamais poderiam transformar-se em simples auxiliares dos motivos puramente humanos e não podem conservar nenhuma eficácia real logo que deixam de dominar. Não existe, pois, nenhuma alternativa duradoura entre fundar enfim a moral no conhecimento positivo da Humanidade e deixá-la repousar na determinação sobrenatural: as convicções racionais puderam secundar as crenças teológicas, ou antes tomar gradualmente o seu lugar à medida que a fé se extinguiu; mas a combinação inversa não constitui certamente senão uma utopia contraditória, na qual o principal seria subordinado ao acessório.

51. Judiciosa observação do verdadeiro estado da sociedade moderna representa, pois, como cada vez mais desmentida pelo conjunto dos fatos diários, a pretensa impossibilidade de ser dispensável de ora em diante qualquer teologia para consolidar a Moral; porque essa perigosa ligação devia tornar-se desde o fim da Idade Média triplicentemente funesta à Moral, quer enervando ou desacreditando suas bases intelectuais, quer lhe suscitando perturbações diretas, quer impedindo sua melhor sistematização. Se, apesar de ativos princípios de desordem, a moralidade prática realmente melhorou, este feliz resultado não poderia ser atribuído ao espírito teológico, então degenerado, pelo contrário, em perigoso dissolvente: ele é devido, no mais alto grau, à ação do espírito positivo, já eficaz sob sua forma espontânea, que consiste no bom senso universal, cujas sábias inspirações secundaram o impulso natural de nossa civilização progressiva para combater utilmente as diversas aberrações, sobretudo as que emanavam das divagações religiosas. Quando, por exemplo, a teologia protestante tendia a alterar gravemente a instituição do casamento, pela consagração formal do divórcio, a razão pública neutralizava consideravelmente os seus funestos efeitos, impondo quase sempre o respeito prático dos costumes anteriores, únicos conformes ao verdadeiro caráter da sociabilidade moderna. Irrecusáveis experiências provaram, a1ém disso, ao mesmo tempo, em vasta escala, no seio das massas populares, que o pretenso privilégio exclusivo das crenças religiosas de determinar grandes sacrifícios ou ativos devotamentos podia, de igual modo, pertencer a opiniões diretamente opostas, e aplicava-se, em geral, a toda convicção profunda, qualquer que seja a sua natureza. Os numerosos adversários do regime teológico que, há meio século, garantiram com tanto heroísmo nossa independência nacional contra a coligação retrógrada, não mostraram, sem dúvida, uma abnegação menos completa e menos constante do que os bandos supersticiosos que, no seio da França, auxiliaram a agressão exterior.

52. Para acabar de apreciar as atuais pretensões da filosofia teológico-metafísica de conservar a sistematização exclusiva da moral comum, basta encarar diretamente a doutrina perigosa e contraditória que o progresso inevitável da emancipação a forçou logo a estabelecer a esse respeito, consagrando por toda a parte, sob formas mais ou menos explícitas, uma espécie de hipocrisia coletiva, análoga à que se supõe, muito sem razão, ter sido habitual entre os antigos, embora ela só tenha comportado na antigüidade um êxito precário e passageiro. Não podendo impedir o livre desenvolvimento da razão moderna nos espíritos cultos, procurou-se, assim, obter deles, em vista do interesse público, o respeito aparente das antigas crenças, para que estas mantivessem, sobre o vulgo, a autoridade julgada indispensável. Esta transação sistemática não é por forma alguma peculiar aos jesuítas, ainda que constitua o fundo essencial de sua tática. O espírito protestante imprimiu-lhe também, a seu modo, uma consagração ainda mais intima, mais extensa e sobretudo mais dogmática; os metafísicos propriamente ditos adotam-na tanto quanto os próprios teólogos; o maior dentre eles , embora sua alta moralidade fosse na verdade digna de sua eminente inteligência, foi arrastado a sancioná-la essencialmente, estabelecendo, de uma parte, que as opiniões teológicas não comportam nenhuma verdadeira demonstração, e, de outra parte, que a necessidade social obriga a indefinidamente manter-lhes o império. Apesar de poder semelhante doutrina tornar-se respeitável entre aqueles que lhe não acrescentam nenhuma ambição pessoal, não tende menos a viciar todas as fontes da moralidade humana, fazendo-a necessariamente repousar sobre um estado contínuo de falsidade, e mesmo de desprezo, dos superiores para com os inferiores. Enquanto os que deviam participar dessa dissimulação sistemática foram pouco numerosos, a sua prática foi possível, ainda que precária; mas tornou-se ainda mais ridícula do que odiosa quando a emancipação se estendeu bastante para que essa espécie de conspiração piedosa pudesse hoje abranger, como seria necessário, a maior parte dos espíritos ativos. Enfim, mesmo que se suponha realizada essa quimérica extensão, esse pretenso sistema deixa subsistir completamente a dificu1dade a respeito das inteligências emancipadas cuja moralidade própria fica assim abandonada à sua pura espontaneidade,. já exatamente reconhecida insuficiente na classe submissa. Se é preciso admitir também a necessidade de verdadeira sistematização moral para esses espíritos emancipados, ela só poderá repousar desde então sobre bases positivas, que finalmente serão assim julgadas indispensáveis. Quando a limitar-lhe o destino à classe ilustrada, além de semelhante restrição não poder mudar a natureza dessa grande construção filosófica seria evidentemente ilusória numa época em que a cultura mental, que essa fácil libertação supõe, já se tornou muito comum, ou antes quase universal, pelo menos em França. Assim, o expediente empírico sugerido pelo vão desejo de manter, a todo custo, o antigo regime intelectual, só terá como resultado deixar a maior parte dos espíritos ativos desprovida de toda doutrina moral, como mui freqüentemente acontece hoje.

III. Necessidade de um poder espiritual positivo

53. É, portanto, sobretudo em nome da Moral que cumpre de ora avante trabalhar ardentemente para constituir enfim o ascendente universal do espírito positivo, a fim de substituir um sistema decaído que, ora impotente, ora perturbador, exigiria cada vez mais a compressão mental como condição permanente da ordem moral. Só a nova filosofia pode estabelecer hoje, quanto aos nossos deveres, convicções profundas e ativas, verdadeiramente suscetíveis de sustentar com energia o choque das paixões. De acordo com a teoria positiva da Humanidade, irrecusáveis demonstrações, apoiadas sobre a imensa experiência que agora a nossa espécie possui, determinarão exatamente a influência real, direta ou indireta, privada e pública, peculiar a todo ato, a todo hábito e a todo pendor ou sentimento; donde naturalmente resultarão, como outros tantos corolários inevitáveis, as regras de proceder, quer gerais, quer especiais, mais conformes à ordem universal e que, por conseguinte, deverão ser ordinariamente mais favoráveis à felicidade individual. Apesar da dificuldade deste grande assunto, ouso assegurar que, convenientemente tratado, comporta conclusões tão certas quanto as da própria Geometria. Não se pode, sem dúvida, esperar jamais tornar algum dia suficientemente acessíveis a todas as inteligências estas provas positivas de várias regras morais destinadas, entretanto, à vida comum; mas isso já acontece com as diversas prescrições matemáticas que, todavia, são aplicadas sem hesitação nas mais graves ocasiões, quando, por exemplo, nossos marinheiros arriscam diariamente sua existência, fiados em teorias astronômicas que absolutamente não conhecem. Por que igual confiança não seria concedida também a noções ainda mais importantes? É incontestável que a eficácia normal de semelhante regime exige, em cada caso, além de poderoso impulso resultante naturalmente dos preconceitos públicos, a intervenção sistemática, ora passiva, ora ativa, de uma autoridade espiritual, destinada a lembrar, com energia, as máximas fundamentais e a dirigir-lhes criteriosamente a aplicação, como expliquei de modo especial na obra já mencionada. Desempenhando, assim, a grande função social que o catolicismo não preenche mais, este novo poder moral cuidadosamente utilizará a feliz aptidão da filosofia correspondente para incorporar em si espontaneamente a sabedoria real dos diversos regimes anteriores, segundo a tendência ordinária do espírito positivo em relação a qualquer assunto. Quando a astronomia moderna afastou de modo irrevogável os princípios astrológicos, não deixou, contudo, de conservar preciosamente todas as noções verdadeiras obtidas sob o domínio desses princípios; o mesmo se deu com a Química em reação à alquimia.

CAPÍTULO III
SURTO DO SENTIMENTO SOCIAL

54. Sem poder empreender aqui a apreciação moral da filosofia positiva, cumpre, entretanto, assinalar a tendência contínua que, de modo direto, resulta de sua própria constituição, tanto científica como lógica, para estimular e consolidar o sentimento do dever, desenvolvendo sempre o espírito de conjunto que a ele se acha naturalmente ligado. Este novo regime mental dissipa espontaneamente a fatal oposição que, desde o fim da Idade Média, existe cada vez mais entre as necessidades intelectuais e as necessidades morais. De ora em diante, ao contrário, todas as especulações reais, convenientemente sistematizadas, concorrerão de modo contínuo para constituir, tanto quanto possível, a universal preponderância da Moral, pois o ponto de vista social há de tornar-se nelas necessariamente o laço científico e o regulador lógico de todos os outros aspectos positivos. É impossível que desenvolvendo familiarmente semelhante coordenação as idéias de ordem e harmonia, sempre ligadas à Humanidade, não tenda a moralizar profundamente, não só os espíritos de escol, como também a massa das inteligências, que deverão todas participar mais ou menos desta grande iniciação, por via de um sistema conveniente de educação universal.

1o. – O antigo regime moral é individual

55. Uma apreciação mais íntima e mais extensa, ao mesmo tempo prática e teórica, representa o espírito positivo como sendo, por sua natureza, o único suscetível de desenvolver diretamente o sentimento social, primeira base necessária de toda sã moral. O antigo regime mental não podia estimulá-la senão com o auxílio de penosos sacrifícios indiretos, cujo êxito real devia ser muito imperfeito, em vista da tendência essencialmente pessoal de semelhante filosofia, quando a sabedoria do sacerdócio não lhe neutralizava a influência espontânea. Esta necessidade é agora reconhecida, pelo menos empiricamente, quanto ao espírito metafísico propriamente dito, que não pôde nunca conduzir, em Moral, a nenhuma outra teoria efetiva a não ser o desastroso sistema de egoísmo, tão usado hoje, apesar de muitas declamações contrárias; mesmo as seitas ontológicas que protestaram seriamente contra semelhante aberração não a substituíram senão por vagas ou incoerentes noções, incapazes de eficácia prática. Uma tendência tão deplorável, e, contudo, tão constante, deve ter raízes mais profundas do que comumente se supõe. Ela resulta, com efeito, sobretudo da natureza necessariamente pessoal de semelhante filosofia que, limitada sempre à consideração do indivíduo, na realidade nunca pôde abranger o estudo da espécie, por uma conseqüência inevitável de seu vão princípio lógico, reduzido, em essência, à intuição propriamente dita, que não comporta evidentemente nenhuma aplicação coletiva. Suas fórmulas ordinárias apenas ingenuamente lhe traduzem o espírito fundamental; para cada um dos seus adeptos o pensamento dominante é sempre o do eu: quaisquer outras existências, mesmo humanas, são confusamente envolvidas em uma única concepção negativa e seu vago conjunto constitui o não-eu; a noção de nós não poderia achar aí nenhum lugar direto e distinto. Mas, examinando este assunto ainda mais profundamente, cumpre reconhecer que, a este respeito, como sob qualquer outro aspecto, a Metafísica deriva, tanto dogmática, como historicamente, da própria Teologia, da qual não podia jamais constituir senão uma modificação dissolvente. Com efeito, este caráter de personalidade constante pertence sobretudo, com uma energia mais direta, ao pensamento teológico, sempre preocupado, em cada crente, com interesses essencialmente individuais, cuja imensa preponderância absorve por força qualquer outra consideração, sem que o mais sublime devotamento lhe possa inspirar a verdadeira abnegação justamente considerada então como perigosa aberração. Somente a oposição freqüente desses interesses quiméricos aos reais forneceu à sabedoria do sacerdócio poderoso meio de disciplina moral, que pôde, amiúde, impor, em proveito da sociedade, admiráveis sacrifícios, que, entretanto, só o eram em aparência, pois sempre se reduziam a prudente ponderação de interesses. Os sentimentos benévolos e desinteressados, peculiares à natureza humana, deveram, sem dúvida, manifestar-se através de tal regime, e mesmo, a certos respeitos, sob o seu impulso indireto; mas, embora a expansão desses sentimentos não tenha podido ser assim comprimida, deve seu caráter ter dele recebido grave alteração, que provavelmente ainda não nos permite conhecer-lhe plenamente a natureza e a intensidade, por falta de exercício próprio e direto. Há toda razão de presumir-se, aliás, que esse hábito contínuo de cálculos pessoais em relação aos mais caros interesses do crente desenvolveu no homem, mesmo a outros respeitos, por via de afinidade gradual, um excesso de circunspecção, de previdência, e, finalmente, de egoísmo, que sua organização fundamental não exigia, e por isto poderá um dia diminuir sob melhor regime moral. Seja ou não verdadeira esta conjetura, é incontestável ser o pensamento teológico, por sua natureza, essencialmente individual, e jamais diretamente coletivo. Aos olhos da fé teológica, sobretudo monoteica, a vida social não existe por falta de um destino que lhe seja próprio. A sociedade humana não pode então imediatamente oferecer senão uma simples aglomeração de indivíduos, cuja reunião é quase tão fortuita quanto passageira, cada um dos quais, ocupado com a sua própria salvação, não concebe participar na de outrem, a não ser como poderoso meio de merecer mais a sua, obedecendo às prescrições supremas que lhe impuseram tal dever. Merecerá sempre nossa respeitosa admiração a prudência sacerdotal que, sob o feliz impulso do instinto público, soube tirar, durante muito tempo, grande utilidade prática de uma filosofia tão imperfeita. Mas este justo reconhecimento não pode ir até o ponto de prolongar artificialmente o regime inicial além do seu destino provisório, quando chegou enfim a época de uma economia mais conforme com o conjunto de nossa natureza intelectual e afetiva.

2o. – O Espírito positivo é diretamente social

56. O espírito positivo, ao contrário, é diretamente social, tanto quanto possível e sem nenhum esforço, em virtude mesmo da sua realidade característica. Para ele o homem propriamente dito não existe, só pode existir a Humanidade, pois todo nosso desenvolvimento é devido à sociedade, sob qualquer aspecto que o encaremos. Se a idéia de sociedade parece ainda uma abstração de nossa inteligência, é sobretudo em virtude do antigo regime filosófico; porque, a dizer verdade, é à idéia de indivíduo que pertence semelhante caráter, pelo menos em nossa espécie. O conjunto da nova filosofia tenderá sempre a fazer sobressair, tanto na vida ativa como na especulativa, a ligação de cada um a todos, sob uma série de aspectos diversos, de modo a tornar involuntariamente familiar o sentimento íntimo da solidariedade social, convenientemente estendida a todos os tempos e a todos os lugares. Não somente a ativa preocupação do bem público será sempre representada como a maneira mais conveniente de assegurar a felicidade privada; mas, por uma influência, ao mesmo tempo mais direta e mais pura, enfim mais eficaz, o exercício tão completo quanto possível dos pendores generosos se tornará a principal fonte da felicidade pessoal, mesmo quando não deva excepcionalmente proporcionar outra recompensa além de inevitável satisfação interior. Se, realmente, como não se poderia duvidar, a felicidade resulta sempre de criteriosa atividade, deve ela depender principalmente dos instintos simpáticos, embora nossa organização lhes não conceda ordinariamente preponderante energia. É claro que os sentimentos benévolos são os únicos que podem desenvolver-se com inteira liberdade no estado social que, abrindo-lhes um campo indefinido, os estimula cada vez mais, ao passo que exige necessariamente certa compressão permanente dos impulsos pessoais, cujo surto espontâneo suscitaria conflitos contínuos. Nesta vasta expansão social, todos encontrarão a satisfação normal do desejo de se eternizar, que não podia antes ser satisfeito senão com o auxílio de ilusões de ora avante incompatíveis com a nossa evolução mental. Não podendo mais prolongar-se senão pela espécie, o indivíduo será, assim, arrastado a incorporar-se nela o mais completamente possível, ligando-se profundamente a toda a sua existência coletiva, não só atual, mas também passada, e sobretudo futura, de modo a obter toda a intensidade de vida que comporta, em cada caso, o conjunto das leis reais. Esta grande identificação poderá tornar-se tanto mais íntima e mais bem sentida quanto a nova filosofia designa necessariamente para as duas sortes de vida um mesmo destino fundamental e uma única lei de evolução, que consiste sempre, seja para o indivíduo, seja para a espécie, na progressão contínua, cujo fim principal foi acima caracterizado, isto é, a tendência a fazer prevalecer, de um e de outro lado, tanto quanto possível, o atributo humano, ou a combinação da inteligência com a sociabilidade, sobre a animalidade propriamente dita. Não sendo desenvolvíveis quaisquer de nossos sentimentos a não ser por um exercício direto e prolongado, tanto mais indispensável quanto são menos enérgicos no princípio, seria supérfluo insistir mais aqui junto de quem quer que possua, mesmo empiricamente, verdadeiro conhecimento do homem, para demonstrar a superioridade necessária do espírito positivo sobre o antigo espírito teológico-metafísico, quanto ao desenvolvimento próprio e ativo do instinto social. Esta preeminência é de uma natureza por tal forma sensível que, sem dúvida, a razão pública as reconhecerá suficientemente, muito tempo antes de terem as instituições correspondentes podido tornar efetivas, como convém, suas felizes propriedades.

III PARTE
CONDIÇÕES DO ADVENTO DA ESCOLA POSITIVA.
(Aliança dos proletários e dos filósofos)
CAPÍTULO I
INSTITUIÇÃO DE UM ENSINO POPULAR SUPERIOR
1o. – Correlações entre a propagação das noções positivas e as disposições do meio atual

57. De acordo com o conjunto das indicações precedentes, a superioridade espontânea da nova filosofia sobre cada uma das que hoje disputam entre si o predomínio se acha agora tão plenamente caracterizada sob o aspecto social, como o era já sob o ponto de vista social, tanto pelo menos quanto o comporta este Discurso, e salvo a faculdade indispensável de recorrer à obra citada. Terminando esta sumária apreciação, importa notar aqui a feliz correlação que se estabelece naturalmente entre semelhante espírito filosófico e as disposições, sábias mas empíricas, que a experiência contemporânea faz de ora avante prevalecer, mais é mais, tanto entre os governados como entre os governantes. Substituindo diretamente uma estéril agitação política por um imenso movimento mental, a escola positiva explica e sanciona, em virtude de um exame sistemático, a indiferença ou a repugnância que, em plena concordância, a razão pública e a prudência dos governos manifestam hoje por toda séria elaboração direta das instituições propriamente ditas. Na época atual, por falta de uma base racional suficiente e enquanto durar a anarquia intelectual, elas não podem ter uma existência eficaz senão com um caráter puramente provisório ou transitório. Destinada a dissipar enfim esta desordem fundamental, pelas únicas vias que a possam dominar, esta nova escola carece, antes de tudo, da manutenção contínua da ordem material, tanto interna como externa, sem a qual nenhuma grave meditação social poderia ser convenientemente acolhida ou mesmo suficientemente elaborada. Ela tende, pois, a justificar e secundar a preocupação mui legítima que hoje inspira por toda a parte o único grande resultado político imediatamente compatível com a situação atual, a qual, além disso, lhe proporciona um valor especial pelas graves dificuldades que lhe suscita, pondo sempre o problema, insolúvel com o decorrer do tempo, de manter uma certa ordem política no meio de profunda desordem moral. Além dos seus trabalhos para o futuro, a escola positiva associa-se imediatamente a esta importante operação por sua tendência direta a desacreditar radicalmente as diversas escolas atuais, preenchendo, desde já, melhor do que cada uma delas, os ofícios opostos que ainda lhes restam, e que só ela combina espontaneamente de modo a mostrar-se dentro em breve mais orgânica do que a escola teológica e mais progressiva do que a escola metafísica, sem jamais poder comportar os perigos de retrogradação ou de anarquia que lhes são respectivamente peculiares. Desde que os governos renunciaram, embora de modo implícito, a toda restauração séria do passado e as populações a toda grave destruição das instituições, a nova filosofia não tem mais a pedir a ambos senão as disposições habituais que todos estão, no fundo, preparados para lhe conceder (pelo menos em França, onde se deve realizar, em primeiro lugar, a elaboração sistemática), isto é, liberdade e atenção. Sob estas condições naturais, tende a escola positiva, por um lado, a consolidar todos os poderes atuais nas mãos de seus possuidores, quaisquer que sejam, e, por outro, a impor-lhes obrigações morais cada vez mais conformes às verdadeiras necessidades dos povos.

58. Estas disposições incontestáveis parecem a princípio não dever deixar hoje à nova filosofia outros obstáculos essenciais a não ser os provenientes da incapacidade ou da incúria dos seus diversos promotores. Mas uma apreciação mais amadurecida mostra, ao contrário, que deve encontrar enérgicas resistências da parte de quase todos os espíritos agora ativos, em virtude mesmo da difícil renovação que ela deles exigiria para associá-los diretamente à sua principal elaboração. Se esta inevitável oposição devesse limitar-se aos espíritos essencialmente teológicos ou metafísicos, ofereceria pequena gravidade real, porque lhe restaria o poderoso apoio daqueles que se acham especialmente entregues aos estudos positivos e cujo número e influência crescem diariamente. Mas, por uma fatalidade facilmente explicável, é destes mesmos que a nova escola deve talvez esperar menos assistência e mais embaraços: uma filosofia diretamente emanada das ciências há de achar provavelmente seus mais perigosos inimigos entre aqueles que as cultivam hoje. A principal origem deste deplorável conflito consiste na especialização cega e dispersiva que caracteriza profundamente o espírito científico atual, em virtude de sua formação necessariamente parcial, conforme a complicação crescente dos fenômenos estudados, como adiante o indicarei de modo expresso. Esta marcha provisória, que uma perigosa rotina acadêmica se esforça hoje por eternizar, sobretudo entre os geômetras, desenvolve a verdadeira positividade, em cada inteligência, somente em relação a uma pequena parte do sistema mental, e deixa todo o resto sob um vago regime teológico-metafísico, ou o abandona a um empirismo ainda mais opressivo, de sorte que o genuíno espírito positivo, que corresponde ao conjunto dos diversos trabalhos científicos, não pode, no fundo, ser plenamente compreendido por nenhum daqueles que assim naturalmente o prepararam. Mais e mais entregues a esta inevitável tendência, os cientistas propriamente ditos são ordinariamente conduzidos em nosso século a uma invencível aversão a toda idéia geral e a uma completa impossibilidade de realmente apreciar qualquer concepção filosófica. Sentir-se-á, aliás, melhor a gravidade de semelhante oposição, observando que, oriunda dos hábitos mentais, estendeu-se em seguida até os diversos interesses correspondentes, que nosso regime científico liga profundamente, especialmente em França, a esta desastrosa especialidade, como o demonstrei com o maior cuidado na obra citada. Assim, a nova filosofia, que exige diretamente o espírito de conjunto, e que faz prevalecer para sempre a ciência nascente do desenvolvimento social sobre todos os estudos hoje constituídos, há de encontrar profunda antipatia, a um tempo ativa e passiva, nos preconceitos e nas paixões da única classe que lhe poderia oferecer diretamente um ponto de apoio especulativo e do qual não deve esperar durante muito tempo senão simples adesões individuais, além de mais raras ai do que em qualquer outra parte. (5)

2o. – Universalidade necessária deste ensino

59. Para vencer convenientemente este concurso espontâneo de resistências diversas que lhe apresenta hoje a massa especulativa propriamente dita, a escola positiva não poderia achar outro recurso geral senão organizar um apelo direto e contínuo ao bom-senso universal, esforçando-se daqui por diante em propagar sistematicamente, na massa ativa, os principais estudos científicos próprios para aí constituírem a base indispensável de sua grande elaboração filosófica. Estes estudos preliminares, naturalmente dominados até aqui pelo espírito de especialidade empírica que preside às ciências correspondentes, são sempre concebidos e dirigidos como se cada um deles devesse especialmente preparar para certa profissão exclusiva, o que interdiz evidentemente a possibilidade, mesmo entre aqueles que tenham mais lazer, de jamais abraçar vários deles, ou pelo menos tantos quantos o exija a formação ulterior de sãs concepções gerais. Mas não pode mais ser assim, quando semelhante instrução é destinada de modo direto à educação universal, que lhe muda necessariamente o caráter e a direção apesar de qualquer tendência contrária. O público, com efeito, que não quer tornar-se nem geômetra, nem astrônomo, nem químico, etc., experimenta continuamente a necessidade simultânea de todas as ciências fundamentais, reduzidas, cada uma, às suas noções essenciais: ele precisa, segundo a expressão muito notável do nosso grande Moliere, luzes acerca de tudo. Esta simultaneidade necessária não existe para o público apenas quando considera esses estudos, em seu destino abstrato e geral, como única base racional do conjunto das concepções humanas: ele a encontra ainda, embora menos diretamente, até nas diversas aplicações concretas, cada uma das quais, no fundo, em vez de referir-se exclusivamente a determinado ramo da filosofia natural, depende também, mais ou menos, de todos os outros. Assim, a universal propagação dos principais estudos positivos não é somente destinada hoje a satisfazer uma necessidade já muito pronunciada no público, que sente, mais e mais, não serem as ciências reservadas exclusivamente aos sábios, existindo sobretudo para ele mesmo. Por uma feliz reação espontânea, semelhante destino, quando for convenientemente desenvolvido, deverá melhorar por completo o espírito científico atual, despojando-o de sua especialidade cega e dispersiva, para fazê-lo adquirir, pouco a pouco, o verdadeiro caráter filosófico indispensável à sua principal missão. Este caminho é mesmo o único que possa, em nossos dias, constituir gradualmente, fora da classe especulativa propriamente dita, um vasto tribunal espontâneo, tão imparcial como irrecusável, formado pela massa dos homens sensatos, tribunal diante do qual virão extinguir-se, de modo irrevogável, muitas opiniões científicas falsas, que as vistas peculiares à elaboração preliminar dos dois últimos séculos misturaram profundamente às doutrinas verdadeiramente positivas, que serão por elas submetidas ao bom senso universal. Numa época em que não se deve esperar eficácia imediata senão de medidas sempre provisórias, bem adaptadas à nossa situação transitória, a organização necessária de semelhante ponto de apoio geral para o conjunto dos trabalhos filosóficos, constitui, aos meus olhos, o principal resultado social que possa produzir agora a inteira vulgarização dos conhecimentos reais: o público prestará, assim, à nova escola serviços plenamente equivalentes aos que esta organização há de proporcionar-lhe.

60. Este grande resultado não poderia ser satisfatoriamente obtido se semelhante ensino ininterrupto fosse destinado a uma única classe, embora muito extensa: é preciso ter-se nele sempre em vista, sob pena de aborto, a completa universalidade das inteligências. No estado normal, que este movimento deve preparar, todas experimentarão sempre, sem nenhuma exceção, nem distinção, a mesma necessidade fundamental desta filosofia primeira, que resultou do conjunto das noções reais, e deve tornar-se então a base sistemática da sabedoria humana, tanto ativa como especulativa, a fim de preencher mais convenientemente a indispensável missão social que dependia outrora da instrução cristã universal. É, pois, muito importante que, desde a sua origem, a nova escola filosófica desenvolva, tanto quanto possível, este grande caráter elementar de universalidade social, que, finalmente relativo ao seu principal destino, constituirá hoje sua maior força contra as diversas resistências que deve encontrar.

3o. – Destino essencialmente popular deste ensino

61. A fim de assinalar melhor esta tendência necessária, uma íntima convicção, a princípio intuitiva, depois sistemática, me determinou, há muito, a representar sempre o ensino exposto neste Tratado como sendo dirigido principalmente à classe mais numerosa, que nossa situação deixa desprovida de toda instrução regular, em conseqüência do desuso crescente da instrução puramente teológica que, substituída provisoriamente, só para os letrados, por uma certa instrução metafísica e literária, não pôde receber, sobretudo em França, nenhum equivalente análogo para a massa popular. A importância e a novidade de semelhante disposição constante, meu vivo desejo de que seja convenientemente apreciada, e mesmo, se ouso dizê-lo, imitada, obriga-me a indicar aqui os principais motivos deste contato especial que a nova escola filosófica deve, assim, instituir hoje com os proletários, sem que todavia o seu ensino exclua jamais qualquer outra classe. É fácil reconhecer, em geral, que quaisquer que sejam os obstáculos que a falta de zelo ou de elevação possa realmente acarretar, de um e de outro lado, a tal aproximação, a parte da sociedade atual que corresponde ao povo propriamente dito deve ser, no fundo, entre todas as outras, a mais bem disposta, pelas tendências e necessidades que resultam de sua ação característica, a acolher favoravelmente a nova filosofia, que deve enfim nela achar seu principal apoio, tanto mental como social.

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