sexta-feira, março 5, 2021
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Estação Carandiru

Ao contrário do que se possa imaginar, Estação Carandiru é bem mais do que um livro sobre a prisão. Ele também não fala apenas sobre a violência predominante dentro da cadeia ou sobre as injustiças da lei. Nem mesmo é uma peça de acusação contra os detentos. O livro conta histórias, fala de seres humanos e destrói alguns mitos tão popularizados na mente das pessoas, como a violência, por exemplo. Obviamente ela existia, fazia-se presente no dia-a-dia da cadeia. Mas, na maior parte do tempo, ela era controlada pelos próprios prisioneiros. Isso era necessário para ter um mínimo de segurança física e pessoal de cada um. Por isso, a “legislação” interna, a palavra de honra e um certo conceito de respeitabilidade eram indispensáveis. E rigorosamente respeitados.

Estas “leis” no Carandiru eram amplas, irrestritas e universais, atingiam a todos os pavilhões e a todos criminosos. Um novato que ainda não conhecesse as regras rapidamente aprendia a respeitá-las e da forma mais dura: na pele. Por exemplo, palitar os dentes enquanto ainda havia gente comendo, era considerada uma séria falta de educação, passível de surra. Prestar atenção na mulher dos outros nos dias de visita, muito pior.

Mas Varella também não faz uma defesa dos presos. Para ele, é óbvio que criminosos devem ser punidos conforme a lei. No entanto, há diferentes tipos de crimes e, portanto, diferentes tipos de pessoas dentro de um presídio. A sociedade, em geral, coloca todos no mesmo “saco”. Essa distinção que Varella não enxerga fora do cárcere, existe entre os presos. O tratamento dado aos traficantes é diferente daquele dado a um assaltante de banco, por exemplo. O crime mais detestável é, de longe, o estupro. Para o estuprador não há respeito nem perdão apenas a pena de morte. Varella conta que, certo dia, um destes criminosos viveu exatos cinqüenta minutos desde o momento em que pôs o pé na prisão.

Ao mesmo tempo, havia os casos de solidariedade a prisioneiros com problemas de saúde e um imenso respeito aos homossexuais (considerados “mulheres de cadeia”), com direito até mesmo a casamentos. Varella conta também sobre suas palestras, sobre as sessões de cinema, os shows de Rita Cadillac, o desprezo aos prisioneiros que choram, o tráfico de drogas e a corrupção dos guardas.

O que Varella faz, e talvez essa seja a sua grande qualidade, é mostrar todo esse universo sem falsos moralismos. Não fosse desta forma, ele próprio não teria agüentado todo o tempo que ficou trabalhando lá, principalmente na função de tentar combater a praga do século, a AIDS. As cenas e as histórias sobre a doença, provavelmente são as mais fortes e impactantes do livro. A doença era propagada principalmente por causa das drogas em sessões coletivas em que a mesma seringa passava por várias pessoas ou era lavada no mesmo copo, com um nível de infecção altíssimo.

O impressionante é que Varella consegue compor um texto muito bem escrito, límpido, transparecendo uma lucidez de pensamento e a honra de um médico preocupado com as misérias da vida. Tudo isso, com um enorme senso de humor, como o episódio de fuga em que um presidiário obeso entalou na boca do túnel impedindo que dezenas de companheiros escapassem. Talvez seja esse, então, o grande motivo do sucesso deste livro. Se o escritor é quem nos leva para um universo especial, Dr. Drauzio Varella conseguiu fazê-lo. Entrar nesse livro é sentir a porta pesada do Carandiru fechar-se atrás de nós.

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