Evolução da Língua Falada

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SUMÁRIO

I CAPÍTULO: AUTORES E SUAS CONCEPÇÕES 
II CAPÍTULO: 
2.1. A influência de fatores históricos e culturais 
2.2. O fator histórico 
2.3 Fatores culturais 
2.3.1 Reações ortográficas 
2.3.2 Vocalização 
2.3.3 Rotacismo – troca do l por r 
2.3.4 Lambdacismo – troca do r por l 
2.3.5. Ausência da pronúncia do r no final 
2.3.6 Brasileirismo 
2.3.7 Metaplasmo de subtração 
3. Gramática Culta X Gramática Oral 
III CAPÍTULO: ANÁLISE DOS DADOS DA PESQUISA DE CAMPO 
CONCLUSÃO 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
ANEXOS

INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como objetivo considerar a grande variedade lingüística que existe em nosso país e a riqueza de expressão que resulta desse fenômeno. Nossa intenção é mostrar que as variações dialetais existentes na língua falada não é aceita pelos teóricos conservadores, não é aceita na escola e em muitos lugares da sociedade. Fica claro que há uma barreira e uma discriminação quanto a este assunto, e no decorrer dessa discussão, iremos mostrar a posição dos autores conservadores e liberais já citados no resumo do trabalho.

O foco principal do primeiro capítulo é mostrar a concepção teórica de cada um deles, destacando o que defendem os conservadores e os liberais, seguido de reflexão pessoal depois de um longo tempo de leituras e pesquisas.

Procuraremos avaliar a posição desses autores de acordo com a linha que defendem, isto é, se aceitam as diferentes manifestações da língua falada como uma ocorrência natural e legítima ou se eles defendem a norma padrão e a gramática normativa como a forma ideal de expressão da Língua Materna, considerando outras normas como marcadas socialmente e sem prestígio. Abordaremos ainda os fatores de cunho histórico, social e cultural que ajudaram na transformação da língua falada.

O segundo capítulo aborda uma questão que tem sido motivo de constantes debates no meio acadêmico, “Gramática Culta x Gramática Oral”. Encontramos conceitos e posições dos autores para dizer se a gramática normativa deve ou não estar presente na escola e na sociedade. É possível dizer que durante os estágios que realizamos no 3º e 4º ano do curso de Letras o que em sala de aula muito nos ajudou a perceber como anda o ensino da matéria Língua Portuguesa. As observações num todo das aulas e as conversas com os alunos a respeito da matéria deixaram claro que há alguma coisa errada e algo precisa ser feito. Essas mudanças ou partes delas, são consideradas neste capítulo do nosso trabalho.

No capítulo três, apresentamos uma pequena pesquisa de campo onde através dos dados colhidos dos alunos e professores, analisamos a concepção de cada um tem sobre a evolução da língua falada.

A principal meta deste trabalho é conduzir o leitor, principalmente professores de Língua Materna e alunos de Letras, a uma reflexão sobre a diversidade lingüística e a importância das variações que existem na (língua falada), tema que oferece amplo espaço para discussão.

I CAPÍTULO: AUTORES E SUAS CONCEPÇÕES

Segundo Havelock, encontramos fatores que contribuem para o desenvolvimento da oralidade.

A oralidade pode ser caracterizada como origem e berço da cultura popular que, por sua vez, tem sustento, conservação e retorno basicamente na comunicação oral. Continua o autor: A oralidade dependerá do lugar, da sociedade, da família, da região, dos conhecimentos (estudo) que a pessoa possui. A oralidade só será da mesma forma que a escrita quando todos tiverem uma cultura, quer dizer uma educação quanto ao modo correto que a língua deve ser usada. A oralidade tem sido utilizada para distinguir sociedade.(2000: 23-34)

Como vimos, a oralidade não se transforma por acaso, porque para cada situação de conversa, para cada região, sociedade ou grupos, a oralidade acontecerá e de diversas maneiras pela força dos próprios falantes e pela necessidade, mas o problema é que estas variedades existentes na língua falada passaram a ser vistas pelos conservadores da língua como erro, sendo motivo até de distinção de sociedade, entre os que sabem falar bem e os que não sabem.

Segundo Magalhães para a maioria das comunidades letradas (estudadas) a língua escrita tem prioridade social sobre a falada:

É a língua escrita que tem prestígio social. Tal prestígio se mostra de forma contundente em nosso sistema educacional e na organização jurídica da sociedade. É a língua escrita, freqüentemente a língua literária, que se ensina nas escolas. Não existe entre nós uma tradição de estudo da língua oral. Todo o ensino de português no Brasil restringe-se ao português escrito.(2000: 33)

Podemos notar a grande barreira que a língua falada enfrenta, pois realmente, não é estudada e não é aceita por todos. Por outro lado, a língua escrita é estudada e essa sim é considerada como certa.

Queremos de salientar a proposta dos PCNs ao posicionar-se frente a este assunto como favorável no dever de respeitar as muitas variedades existentes na Língua Portuguesa. Enfatizam:

A diversidade sociocultural brasileira, do ponto de vista educacional, a partir dos elementos que não são comuns aos grupos culturais influenciam na formação da oralidade. Os problemas influenciam por ser uma população diversificada, onde muitas pessoas não conheceram ou conhecem as estruturas próprias de sua língua” (1997: 65-66).

Essa diversificação acontece pelo fato de que nem todos têm o privilégio de estudar. Esse é um dos motivos pelo qual a oralidade da pessoa não é convencionada, e muitas vezes rejeitada como errada. Ainda segundo os PCNs.

A variação é constitutiva das línguas humanas, ocorrendo em todos os níveis. Ela sempre existiu e sempre existirá, independentemente de qualquer ação normativa. Assim, quando se fala em Língua Portuguesa, está se falando de uma unidade que se constitui de muitas variedades. […] a imagem de uma língua única, mais próxima da modalidade escrita da linguagem, subjacente às prescrições normativas da gramática escolar, dos manuais e mesmo dos programas de difusão da mídia sobre “o que se deve e o que não se deve falar e escrever”, não se sustenta na análise dos usos da língua.(1997: 29)

Apesar de a proposta dos PCNs respeitarem a variedade lingüística e concederem à oralidade um lugar no ensino de LM, algumas discussões têm sido feitas ao meio acadêmico por se considerar que a proposta teórica não condiz com a prática. Queremos dizer os instrumentos de avaliação utilizados pelo MEC ainda se valem dos métodos que enfatizam a norma padrão, como por exemplo, o polêmico Provão aplicado no ultimo ano dos cursos universitários.

É inevitável a variação, pois as variedades que acompanham as línguas humanas. Neste sentido é interessante buscar explicações em vez de criticar ou discordar, pois a língua falada existe e existirá independente de ação normativa, ou de regras. Marcuschi afirma que as pessoas fazem uso de palavras alongadas ou reduzidas pelo fato de não dominarem os recursos gramaticais. Conforme lemos, “os usuários da língua tendem a usar a ampliação e redução nas palavras pelo fato de não dominarem os recursos da gramática”. (2000: 12)

Depois de muita reflexão, posso dizer que não concordo com Marcuschi pelo fato de as pessoas não usarem determinadas palavras por desconhecer os recursos gramaticais, e sim porque a oralidade é viva e está em constante modificação; tais modificações acontecem porque os falantes escolhem uma fala mais simples, objetiva, enfim, mais clara possível onde o importante é que haja comunicação.

A pretensão de Monteiro Lobato é mostrar a língua corrente e viva que existe ao nosso redor, portanto vejamos: (…) uma língua não para nunca. Evolui sempre, isto é, muda sempre. Há certos gramáticos que querem fazer a língua parar num certo ponto, e acham que é erro dizermos de modo diferente do que dizem os clássicos.(1934: 100) Vindo deste grande escritor, o que podemos esperar? Fica claro ou ainda é confuso? Não há sombra de dúvidas de que, não podemos nos prender e ficarmos estanques num determinado ponto, pois se existem variedades é porque são usadas e aceitas pelos que usam e fazem dela seu meio de interação na sociedade.

Segundo o pensamento de Cagliari a ênfase é apresentar que a gramática tinha como objetivo descrever a língua, mas com o tempo a própria sociedade fez dela um corpo de regras que regeria a linguagem. Assim temos:

A gramática normativa foi num primeiro momento uma gramática descritiva de um dialeto de uma língua. Depois a sociedade fez dela um corpo de leis para reger o uso da linguagem. Por sua própria natureza, uma gramática normativa está condenada ao fracasso, já que a linguagem é um fenômeno dinâmico e as línguas mudam com o tempo; e para continuar sendo a expressão do poder social demonstrado por um dialeto, a gramática normativa deveria mudar.(1977: 46).

Queremos fortalecer o que já temos citado, de que a gramática normativa não consegue esclarecer essas evoluções e que os conservadores e seus discípulos deveriam analisar, pesquisar antes de querer dizer o que é certo e o que é errado na língua falada. O foco marcante que veremos nas citações seguintes é mostrar a linguagem como tal, julgada e analisa no seu contexto, é claro respeitando algumas regras, mas não ficando presas a elas, pois, se não contribuem, não as deixe atrapalharem na sua comunicação. Para Luft “[…] a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal”.(1995: 15-22) Luft crítica a escola tradicional pelo fato de transformar o estudo da língua em estudo de gramática. A linguagem das pessoas, sua composição, deveriam ser julgadas, exclusivamente, como atos de comunicação, e não como campo de purismo gramatical.

Ele ainda enfatiza que: “algumas regras da gramática devem ser respeitadas para evitar vexame”. As verdadeiras regras a serem usadas pelos falantes, são as regras naturais, da gramática natural, no interior dos falantes. O autor é liberal a ponto de dizer que: “todas as regras que não contribuem para uma eficiência comunicativa, as que embaraçam e atravancam a comunicação, que dão aos alunos e pessoas que o português é uma chateação, não serve para nada”. “A gramática completa de uma língua deveria registrar sua variabilidade e as tendências evolutivas”.

Naturalmente, podemos chegar a uma conclusão de que a língua é rica por apresentar essas variedades lingüísticas, por dar aos falantes o poder de criação, a liberdade. Essa é a beleza de uma língua, não é preciso ficar estanque, preso às regras, é necessário que quando for comunicar algo, o faça de maneira mais clara possível. O importante é comunicar, surpreender, iluminar, divertir.

O autor Sírio Possenti no seu livro Por que (não) ensinar gramática na escola diz que o objetivo da escola é ensinar o português padrão ou talvez mais exatamente, o de criar condições para que ele seja aprendido. O autor ainda enfatiza que: “Os grupos que falam uma língua ou um dialeto em geral julgam a fala dos outros a partir da sua e acabam considerando que a diferença é um defeito ou um erro. Essas variedades têm a sua razão: são fatores históricos, culturais e sociais” (1998: 29).

Entramos nos parágrafos seguintes no grupo dos chamados conservadores, e veremos o que eles dizem e como se posicionam a respeito desse assunto. Bechara enfoca alguns dos fatores que fizeram com que a oralidade língua falada esteja como está, vejamos os motivos:

Um dos fatores acontece na sociedade, que seguiu a tendência do após-guerra, que privilegiava o coloquial, o espontâneo, renovando com isso a língua popular. A desinformação das pessoas e a crescente substituição da leitura pelos meios de comunicação de massa não permitiram ver o quanto havia de erro na suposição de que os modernistas, aceitando a decisiva influência popular, admitiram todas as alterações de linguagem, ainda aquelas que destruíam as leis da sintaxe e a essencial pureza do idioma.(1995: 67)

Sem dúvida alguma, o movimento Modernista trouxe mudanças, que fizeram com que as pessoas fossem mais livres para se expressar, criar, inovar. Não posso concordar com Bechara quando diz que os meios de comunicação não permitiram que as pessoas vissem o quanto de erro havia na suposição dos modernistas. Será que deveríamos ficar presos, ao arcaico, seguindo o que os europeus ditavam? Não. Não existem erros, o que existe são inovações, transformações naturais, e essas inovações não destruíram a pureza do idioma, mas sim fizeram com que ele ficasse mais rico. Como dizia Machado de Assis(1908). “Tudo é válido na língua, desde que logre comunicar-se”.

Bechara declara com uma atitude totalmente conservadora que, não está havendo um empenho como deveria quanto ao ensino da língua. Ele afirma que o fator dessa alteração é caracterizado na escola, onde existe uma crise, pois não está havendo distinções necessárias entre gramática geral, gramática descritiva e gramática normativa. “Os professores estão se preocupando demais com a gramática geral e descritiva e estão deixando de lado a gramática normativa” (1995: 7).

Notamos que a preocupação dos conservadores, é que a gramática normativa e todas as suas regras e leis devam permear e estar presente na vida dos falantes. Para Bechara a gramática normativa deve estar presente na escola, caso contrário os alunos nunca irão desenvolver seu potencial lingüístico. Como sempre, acreditam que para alcançar um potencial é preciso regras. A língua falada se desenvolve dentro de suas línguas naturais.

Os conservadores defendem a gramática normativa, e chegam a dizer que para ter um padrão culto da língua, é necessário dominar a gramática normativa. Realmente, a visão desses conservadores está totalmente limitada, pois não conseguem aceitar a riqueza e as variedades lingüísticas da nossa língua.

Os escritores Cipro e Infante(1997), dizem que a gramática é instrumento fundamental para o domínio do padrão culto da língua. Até quando ficarão nesse barco, afundando aos poucos? A língua, nunca irá se prender como está a gramática. É preciso uma renovação gramatical ou deixar que a língua siga seu caminho livremente. Reforço minhas palavras juntamente com as palavras de Luft diz que: “um ensino gramaticalista abafa justamente os talentos naturais, incute insegurança na linguagem, gera aversão ao estudo do idioma, medo à expressão livre e autêntica de si mesmo”.(1995: 7)

Temos a necessidade e o dever de mostrar a riqueza lingüística que existe, não apenas em nossa língua, mas em todas as línguas faladas pelos homens. Essas variedades devem ser respeitadas, analisadas, levando o aluno a conhecer todos os potências, orientando os pais e professores quanto a essa evolução lingüística existente no mundo.

Na opinião de Sacconi (1903) variedades de erros não são inaceitáveis, o autor crítica qualquer tipo de erro dentro da língua, ele não vê as causas, os motivos pelo qual as pessoas fazem uso da linguagem do jeito que fazem, para ele as pessoas devem conhecer a língua, e quem faz uso da mesma de forma não convencionada é considerado um débil mental e outras coisas, encontramos essas classificações às pessoas em suas obras. Podemos perceber o teor de conservadorismo e purismo do autor, mas falta com respeito ao usuário da língua, pois cada pessoa faz uso da língua conforme a sua necessidade e do conhecimento que tem. Dentro deste imenso mundo da língua falada, fica difícil aceitar apenas uma como certa, todas as outras formas são certas e precisam ser respeitadas e levadas em conta.

Tanto Figueiredo (1903), quanto Bagno(2002) concordam que evoluir agora é sinônimo de deturpações.

A beleza da língua se faz com as inovações, invenções e Cândido vem nos dizer que a evolução da sociedade e as relações com outros povos fazem com que a língua portuguesa, nossa língua, sofra enxertos e invenções. Aliás, o que é vivo transforma e o que é morto deforma, a língua falada nunca se prenderá aos caprichos da gramática normativa.

Vimos que é grande e muito vasto o campo da oralidade e como conseqüência disto, grandes escritores escrevendo a respeito. Felizes aqueles que são mais acessíveis, que têm visão de mundo e de evolução, e que procura entender o porque das transformações da língua falada. Fico mais tranqüilo, pois posso encontrar escritores que nos embasam com suas pesquisas e nos dão força para entender que a língua deve ser aceita como tal e não ficar massacrando como fazem os conservadores, que não aceitam a evolução e as variedades lingüísticas.

II CAPÍTULO

2.1. A influência de fatores históricos e culturais

Depois de consideradas as concepções dos autores, pudemos, com isso, fazer um levantamento do que os estudiosos da área têm a dizer referente a esse assunto tão polêmico e importante que ocorre não só em nossa língua, mas, em todas as línguas do mundo. Ficou claro que a evolução da oralidade é um campo vasto e muito rico, onde a lingüística tem um papel importantíssimo: o de estudar e esclarecer as dúvidas que surgem entre “certo e errado” dentro da língua falada.

Dos autores citados, nem todos têm a mesma posição. Há vários conservadores, como há também os mais liberais. Os conservadores defendem sua posição, apoiando e defendendo a gramática normativa, porque para eles só é possível falar bem se conhecer as regras e normas gramaticais, não aceitando, portanto, as variedades lingüísticas existentes na língua portuguesa falada. Contudo os mais liberais estão ao lado da lingüística em uma visão mais ampla, desmistificando essas idéias de que para se falar bem é preciso conhecer as regras gramaticais.

Um exemplo claro de liberalismo, vemos no escritor Luft(1995), que ao lado da lingüística diz: “a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal”. Estamos diante de duas classes, nas quais as duas têm visões e concepções diferentes, mas o fenômeno da oralidade ocorre naturalmente independente das posições desses estudiosos. No entanto para entendermos um pouco mais essa evolução lingüística, é preciso levar em consideração alguns fatores, que contribuem para que ocorram essas transformações na língua falada como, por exemplo: históricos e sociais.

2.2 O Fator Histórico

O latim falado pelos romanos era classificado em: o latim clássico, falado pela nobreza, pelos mais ricos, e o latim vulgar falado pelos soldados e pelo povo. O latim clássico, com o tempo, foi perdendo sua força, ao contrário do latim vulgar que com o passar dos anos espalhou-se mais. Através da influência de outros povos, o latim vulgar foi se reestruturando, conforme a necessidade do povo. Para facilitar o uso, foram caindo vogais, consoantes, contraindo assim a palavra. Esse fenômeno acontece em todas as línguas de origem latina: português, italiano, francês, espanhol e em qualquer outra. E não é diferente no português, que é filha do latim. Assim como ocorriam as transformações no latim, o mesmo acontece em nossa língua portuguesa. A língua é viva e dinâmica e não há, portanto, como não aceitar essas transformações e mais ainda tentar detê-las.

2.3. Fatores Culturais

Outra razão pela qual a língua apresenta essas variedades na fala foi e continuará sendo a influência cultural. Sabemos que o Brasil é um país constituído por muitas raças. Um exemplo muito forte e importante foi o da influência negra que trouxe uma série de variantes para o português do Brasil. Essas variantes lingüísticas estão documentadas nas mais diversas regiões desse imenso país, inclusive onde a presença negra foi ou é mínima.

Muitas pessoas falam conforme a sociedade onde vivem, e o autor Marcos Bagno diz: “alguns preferem usar taio, no lugar de talho, transformando o lh em i, fato comum em certas regiões do país, normalmente naquelas que receberam influência do elemento africano como a Bahia. Na Bahia também, é claro, em certas regiões o d dos gerúndios não soa. Dizem então: correno, andano, caíno, em vez de correndo, andando, caindo, trata-se de um caso típico de influência africana”.

Esses e outros são fenômenos naturais da língua que ocorreram por influência de uma raça. Gostaria de mencionar o fato das pessoas trocarem o l pelo r arto, iguar, tarco, etc, por influencia da língua dos indígenas, que não conheciam o fonema l, mas apenas o som r, de caro, barato. A intenção dos bandeirantes era aproximar-se dos índios e de suas riquezas, e faziam o possível para ter uma aproximação mais amigável, até mesmo aprender a pronunciar como eles.

Nesse passo começou então depois de muito uso o hábito de trocar o l por r, fenômeno conhecido pelo nome de rotacismo, muito comum em certas cidades paulistas como: Tatuí, Piracicaba, Tietê, Laranjal, Porto Feliz, Itu, Salto, Capivari. Nota-se que essas cidades fazem parte da região onde o lendário rio Tietê passa. O Tietê era o meio de transporte dos bandeirantes que deixaram marcas nessa região através do linguajar” (BAGNO, 2002: 89).

Vejamos alguns dos fatores que acontecem na língua viva:

2.3.1. Reações Ortográficas

Ex.: descer – decer e até mesmo dece.
facto – fato
directo – direto

2.3.2. Vocalização

Ex.: arto – alto
farta – falta
farsa – falsa
barde – balde

2.3.3. Rotacismo – troca do l por r

igual – iguar
falso – farso
bolso – borso
balde – barde

2.3.4. Lambdacismo – troca do r por l

carvão – calvão
cerveja – celveja
garfo – galfo

2.3.5. Ausência da pronúncia do “r” no final

Ex.: pegar – pegá
fazer – faze
lavar – lava
falar – fala

2.3.6. Brasileirismo

Ex.: Não sei não – sei não
Não sei lá – sei lá

2.3.7. Metaplasmos de subtração

a) aférese – a perda do fonema inicial.

Ex.: insônia – isonia
alambique – lambique
você – ocê e hoje em uso cê.

Temos ainda síncope – perda do fonema no meio da palavra, apócope – perda de um fonema no final da palavra. Esses são algumas das mudanças que ocorreram na língua e ainda ocorrem pelo fato da língua ser viva e estar em uso constantemente. Existem ainda outros fatores, esses são alguns, que são necessários para vermos que são normais na língua essas transformações. Notamos que o escritor Willians(1994), nos deixa claro com os exemplos de (rotacismo, vocalização, reações ortográficas, etc) já citados acima, que são naturais as transformações ocorridas e ocorrentes na língua falada.

Continuando com o assunto das influências históricas e sociais temos uma declaração de Luft que nos diz: “Uma língua viva está em constante evolução: dialetos, gírias, neologismos, estrangeirismos, tudo faz parte dessa evolução que a mantém animada”. (1994: 15-110)

A riqueza lingüística é estupenda, pois a grande riqueza da língua está nas muitas maneiras e formas de como a língua é usada. Há os dialetos em certas regiões, a gíria usada em grupos. Entre outros dando força ao crescimento da oralidade. Enfim, língua falada envolve tudo o que se pode falar, inovando ou criando, isto é o que chamamos de língua viva.

Para entendermos melhor existem dois tipos de fatores que produzem diferenças na fala de pessoas, e não há como deixar de citá-las. Possenti enfatiza:

Um deles é o fator externo, e os principais são: o fator geográfico, de classe, de idade, de sexo, de etnia e de profissão etc. Ou seja: as pessoas que moram em lugares diferentes acabam-se caracterizando por falar de algum modo, com sotaque peculiar. Pessoas que pertencem a classes sociais diferentes, do mesmo modo. Já o fator interno acontece na língua condicionando a variações.

A variação é de alguma forma regrada por uma gramática interior da língua. Por isso não é preciso estudar uma língua para não errar em certos casos. Existem erros que ninguém comete, porque a língua não permite. Por exemplo, ouvem-se pronúncias alternativas de palavras como caixa, peixe, outro: a pronúncia padrão incluiria a semivogal, a pronúncia não padrão a eliminaria (caxa, pexe, otro). Estes são fatores internos que acontecem naturalmente.(POSSENTI, 1998:34-38)

“Um exemplo histórico dessa mudança ocorreu com o latim, não foi por castigo ou por azar. Ocorreu com outras línguas, como o alemão, o inglês, o grego, e o português. Na verdade, com todas as línguas. E continua acontecendo. Não há língua que permaneça uniforme. Todas as línguas mudam. Não há como discutir é um fenômeno natural” POSSENTI – 1998.

Podemos perceber e analisar que essas variações ocorrem por vários fatores, como já foi dito, social, cultural, econômico, pois há aqueles que nunca tiveram contato com a gramática ou escola, mas falam.

Já que todas as transformações ocorreram e foram registradas e estudadas, o que é considerado como erro então? POSSENTI diz:

“A noção mais corrente de erro é a que decorre da gramática normativa: é erro tudo aquilo que foge à variedade que foi eleita como exemplo de boa linguagem. É importante frisar aqui que: esses ideais de boa linguagem foram buscados num passado mais ou menos distante, em boa parte arcaizantes. Em matéria de língua nada seja uniforme. Já os exemplos utilizados pelas gramáticas são mais arcaizantes que os jornais e textos de muitos escritores vivos de qualidade reconhecida”.(POSSENTI: 1998:38)

Por essa definição, como é que a gramática normativa pretende corrigir a oralidade se ela é, em outras palavras, ultrapassada. Não podemos expor que isso é certo e aquilo é errado, devemos parar, analisar e pesquisar levando em consideração todas as formas e variedades lingüísticas. O grande dilema é, em quem se apoiar enquanto estudiosos estão por toda parte desse mundo da língua escrita e falada, tentando esclarecer o certo e o errado, a língua é viva, como nunca, continua e continuará em constante modificação não se importando com o que “os estudiosos” que tentam, de muitas formas, impor isso como certo e aquilo como errado.

3. Gramática Culta X Gramática Oral

Durante o curso de Letras, vimos muitas coisas interessantes que o governo, através dos PCNS, propôs como guia para uma melhor educação, auxílio ao professor quanto ao que ensinar não ficando preso a idéias já formadas, levando o aluno a criar, pensar, expressar-se, sendo o professor o guia. As propostas e os objetivos são nobres e elevados, os através de sua política nos diz que:

A diversidade sociocultural brasileira, do ponto de vista educacional, a partir dos elementos que não são comuns aos grupos culturais influenciam na formação da oralidade. Os problemas influenciam por ser uma população diversificada, onde muitas pessoas não conheceram ou conhecem as estruturas próprias de sua língua. A variação é constitutiva das línguas humanas, ocorrendo em todos os níveis. Ela sempre existiu e sempre existirá, independentemente de qualquer ação normativa. Assim, quando se fala em “Língua Portuguesa”, está-se falando de uma unidade que se constitui de muitas variedades.(PCNs, 1998:29)

Tal declaração prevê maior abertura e aceitação das variedades lingüísticas, o documento também diz: quando se fala em “Língua Portuguesa”, está se falando de uma unidade que se constitui de muitas variedades. São planos e projetos positivos, mas ainda há um grande trabalho a ser feito. No decorrer do curso, os alunos fizeram estágios de Língua Portuguesa, em várias escolas, e não percebemos mudanças significativas, pois os professores não estão orientados quanto ao que dizem os PCNS. Continuam seguindo a gramática normativa, porque para eles falar e escrever bem não é possível sem conhecer a gramática. Para que as mudanças se efetivem é preciso uma orientação e acompanhamento junto aos professores, pois, muitos não estão atualizados, nem se reciclam quanto aos estudos da Lingüística.

É necessário uma mudança de atitude, “cada um de nós, professor ou não, precisa recusar com veemência os velhos argumentos que visem a menosprezar o saber lingüístico individual de cada um de nós. Temos que nos impor como falantes competentes de nossa língua materna. É preciso lançar dúvidas e pesquisar o que está sendo falado, questionar e buscar explicações e não simplesmente dizer é errado porque a gramática diz. Para a gramática a língua é uma caixa fechada, pronta e acabada, mas sabemos que não é assim. Não há como prender a língua numa caixa ou querer fixá-la em regras que não dão conta de explicar todas as suas transformações. “Toda língua viva é uma língua em decomposição e em recomposição, em permanente transformação, tudo muda no universo, e a língua também” (BAGNO,2002:117).

É difícil, pois muitos professores têm a concepção e acreditam que a gramática é a manda chuva, rotulando assim a língua falada, discriminando toda e qualquer manifestação lingüística (fonética, morfológica e sintática), qualquer forma de expressão que se diferencie das regras prescritas pela gramática normativa é taxada de erro. Esse problema e visão não acontecem apenas com professores, mas com estudiosos da área (conservadores) e com muitos pais de alunos que exigem que a escola ensine o que a gramática mostra como certo.

Nosso objetivo é mostrar a variedade apoiada dentro da ciência. Não estamos querendo inventar ou mudar, mas queremos mostrar a grandeza de uma língua. O bom professor age como o filósofo Spinoza(2002), que escreveu: “Tenho me esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem odiá-las, mas por entendê-las”. Surge o questionamento por parte destes professores, estudiosos e pais: então vale tudo? Não é bem assim, em concepção de língua tudo tem sua importância, tudo vale alguma coisa ou quer transmitir algo. Precisamos então validar e analisar uma série de fatores, tudo é válido se usado no lugar certo e no contexto adequado com as pessoas certas. Como sempre, tudo vai depender de “quem diz o quê, a quem, como, quando, onde, por quê e visando que efeito” (BAGNO, 2002: 131).

Nossa meta é levar os professores, diretores e pais a entender que se faz necessário mudar, pois todas as ciências mudam, evoluem e que a ciência da língua como todas as outras também evolui. O próprio Ministro da Educação, através dos PCNS, apresentou uma grande proposta de avanço para a renovação do ensino da Língua Portuguesa. É claro que muita coisa ainda precisa ser feita. Não há como instituir essas transformações apenas nas escolas, é preciso empregar essas novas pesquisas em faculdades e processos de vestibular, deixando de lado os mitos de que falar certo só é possível se souber gramática. Mas fica claro que o governo já deu um passo, mas muita coisa ainda precisa ser feita, pois é preciso continuar com os planos, pois a meu ver, esses planos e metas ainda não foram conscientizados a todas as instituições de educação.

Durante o período em que estou na escola, eu converso com meus alunos perguntando a respeito das aulas de Português, se gostam e por que não gostam. As respostas eram sempre as mesmas. “Português é muito difícil, tem muitas regras…”.

Vejamos o que diz o professor Ataliba T. de Castilho da USP, atual presidente da Associação de Lingüística e Filosofia da América Latina e coordenador do grande Projeto da gramática do Português Falado escreve em seu livro A língua falada e o ensino de português:

[…] os recortes lingüísticos devem ilustrar as variedades socioculturais da Língua Portuguesa, sem descriminações contra a fala vernácula do aluno, isto é, de sua fala familiar. A escola é o primeiro contato do cidadão com o Estado, e seria bom que ele não se assemelhasse a um “bicho estranho”, a um lugar onde se cuida de coisas fora da realidade cotidiana. Com o tempo o aluno entenderá que para cada situação se requer uma variedade lingüística, e será assim iniciado no padrão culto, caso já não tenha trazido de casa. (…) a gramática deixará de ser vista pelos alunos como a disciplina do certo e do errado, reassumindo sua verdadeira dimensão, que é a de esquadrinhar através doa materiais lingüísticos o funcionamento da mente humana.(BAGNO, 2002: 181)

Não há como negar a necessidade de uma reformulação urgente, e isso pode começar com você e comigo, senão nossos alunos sempre verão o aprendizado de Língua Portuguesa como um fardo. O mito “saber português”, na verdade sempre significou saber gramática”, nisso vemos por que existe um grande bloqueio da parte dos alunos, em dizer que sua própria língua materna é difícil e complicada. Acredito que é possível, juntos, Ministro da Educação, professores, diretores e pais, mudar essa concepção, pois senão, nunca haverá um aprendizado, um conhecimento da riqueza lingüística que nossa língua tem a nos oferecer, a não ser que fiquemos presos à gramática normativa e fechemos os olhos para a variedade lingüística à nossa volta.

III CAPÍTULO

ANÁLISE DOS DADOS DA PESQUISA DE CAMPO

O professor A, vê esse fenômeno como natural, e ele se enquadra nas concepções de Luft e Possenti(1995 – 1998), algumas regras devem ser respeitadas para não passar vexame, no caso de que jeito falar dependerá da ocasião. Para o professor A, não há erros na oralidade, o que pode acontecer é uma forma falada não ser aceita pelas pessoas, e isso é levantado por Possenti(1998). O professor A ainda esta dentro da concepção de Luft(1995) no que se diz respeito ao papel da escola, a escola deve orientar e não impor. O professor A, também vê como importância o ambiente social, pois não há manifestação lingüística fora do contexto social.

O professor B se enquadra dentro das concepções de Luft e Possenti(1995 – 1998), dizendo que as regras serão usadas dependendo do momento, o professor B estaria contra a gramática normativa, pois diz que na oralidade nada é erro se houver comunicação, basta haver entendimento, mas a gramática classifica como erro algumas estruturas se estas não estiverem como são convencionadas. Para o professor B o fator social também influência, tanto que ele cita o regionalismo como fator.

Entre os professores A e B, podemos observar um certo entendimento quanto à visão desse fenômeno. É possível dizer que os professores não são radicais, e que se enquadram dentro dos PCNS(1998), principal instrumento do Ministro da Educação.

O aluno A se encontra na concepção de Luft(1995), liberdade na oralidade, não sendo presa a normas cultas estipuladas pelas gramáticas. O aluno A diz que se a escrita fosse como a oralidade seria mais criativa, essa colocação encontra-se na concepção de Luft(1995), onde diz que: a gramática completa de uma língua deveria registrar sua variabilidade e as tendências evolutivas. Essa evolução a manteria animada. O papel da escola segundo o aluno A é conviver com os dois lados, não desprezando os que não usam a norma culta, Luft(1995) defende essa concepção, não é certo impor, deixe que a pessoa aprenda por si, é natural. O aluno A considera importante os fatores sociais. Em toda a história da língua encontraremos fatores históricos, culturais e sociais, não é apenas nas respostas dos professores e alunos.

O aluno B aceita essa evolução da língua no campo da oralidade concepção de Luft(1995), a oralidade para o aluno B, é diferente da escrita concepção de Possenti(1995). As regras gramaticais e a forma usada da oralidade vão depender da ocasião concepção de Luft(1995). Para o aluno B, o fator social também influência na maneira de falar.

Ao analisar as concepções e o que professores e alunos disseram, observei que todos aceitam esse fenômeno da língua, a língua é viva é está em constante modificação. A escola tem seu papel, mas, não deve desprezar essa variedade da oralidade.

Gostaríamos de deixar claro que os professores A e B, são professores de nível superior, e que estão mais abertos a estas novas tendências lingüísticas, mostrando que estão acompanhando os estudos quanto ao que diz respeito “evolução da oralidade”. Os alunos A e B, estão cursando o nível superior, e deram seus pareceres também.

Entretanto os professores C e D, são professores da rede pública, que seguem uma linhagem mais conservadora quanto ao ensino da língua, vimos que através das suas respostas, demonstraram ser bem conservadores, não aceitando nada que esteja fora da gramática normativa, prezam pela norma culta, tanto falada como escrita, e não são apenas professores, existem alunos que são verdadeiros discípulos e que também aceitam apenas a norma culta como certa. Na analise dos dados é claríssimo que estes professores e também alunos se enquadram dentro das concepções de Sacconi(1903), Bechara(1995), Figueiredo(1903), Pasquale(1997), mostrando que ainda prezam pela norma culta não aceitando outra forma a não ser a instituída pela gramática normativa.

Através desta pesquisa, gostaríamos de esclarecer que não são todos os que aceitam estas variantes lingüistas. Há professores mais orientados e preparados para esse assunto, mas ainda existem os que não estão. É preciso levantar a questão de que o Ministro da Educação, através dos PCNS(1998) propõe que deve haver respeito quanto às variedades lingüísticas. Mas, esta visão e proposta, não foram implantadas nas redes públicas, pois os professores ainda continuam com aquela visão de pureza e conservadorismo.

Acredito que ficou claro através desta pesquisa o que pensam os dois lados, tanto professores e alunos, a respeito da “evolução da oralidade”.

CONCLUSÃO

A análise apresentada nesta pesquisa revelou como a língua é viva, e como os teóricos se posicionam frente a essa evolução. Os fatores que se apresentam no decorrer do processo da oralidade confirmam uma língua viva.

Não há como evitar, mesmo que queiram os conservadores, nunca irão conseguir, pois a língua é como um rio em que as águas se renovam a todo instante e a gramática e suas regras, é como uma lagoa, parada que nunca muda. É claro não podemos desprezar e abandonar a gramática de uma vez por todas, mas devemos entender que a gramática não é absoluta, pois ela mesma não consegue acompanhar essas evoluções. O que deve ficar claro, é que todas as variedades são possíveis, e a gramática deve ser ensinada como uma variedade, para ser usada em ocasiões onde a fala deve ser mais formal. Ao longo deste trabalho consideramos, se há ou não há lugar para a gramática na escola. O ponto principal é não excluir essa imensa variedade lingüística existente na língua falada, e para explicar e nos apoiar na base teórica encontramos os autores mais liberais, reflexivos no que diz respeito à língua falada.

Concluímos que, devemos como professores, profissionais da área de línguas, entender que não existe uma única forma de expressão, o que existe, quanto a questão da oralidade (língua falada), é um campo magnífico, mas ao mesmo tempo complicado, porque não há aceitação por parte de todos os que deveriam entender e conhecer. Aqui fica a sugestão: pare de criticar o falante que não utiliza a língua padrão e faça uma reflexão, não deplore, mas procure entender.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico/o que é, como se faz. 10ª ed, São Paulo: Loyola, 2002.

BECHARA, Evanildo. Ensino da Gramática. Opressão? Liberdade? Série Princípios, 8ª ed, São Paulo: Ática, 1995.

CASTILHO, Ataliba T. de. A língua falada e o ensino de língua portuguesa. Campinas, Contexto, 1998.

CIPRO, Neto P. & Infante U. gramática da língua portuguesa. São Paulo: Scipione, 1997.

FIGUEIREDO, Cândido de. O que não se deve dizer. Lisboa: Clássica, 1903.

HAVELOCK, E. A oralidade da linguagem frente à cultura escrita. Revista Anpoll, nº 9, julho/dezembro 2000.

LOBATO, J. B. Monteiro. Emília no país da Gramática. 3ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1934.

LUFT Celso Pedro. Língua e Liberdade. 4ª ed, São Paulo: Ática, 1995.

LYONS, John. Linguagem e Lingüística. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.

MAGALHÃES, I. A oralidade da linguagem frente à cultura escrita. Revista Anpoll, nº 9, julho/dezembro 2000.

MARCUSCHI, L. A oralidade na produção textual. Revista Anpoll, nº 9, julho/dezembro 2000.

PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS. (PCNs), Língua Portuguesa, 5ª a 8ª séries, Brasília, 1998.

POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas SP: Mercado de Letras, 1998.

SACCONI, Luiz Antônio. Não erre mais, São Paulo: Harbra, 1903

WILLIANS, Edwin B. Do latim ao português. 6ª ed. Rio de Janeiro: Tempo, Brasileiro, 1994.

ANEXOS

Meu intuito com essa pesquisa de campo é mostrar para os leitores o que acham os professores de Língua Portuguesa. Verificando se são favoráveis ou contra, a estas manifestações lingüísticas, com certeza é de grande importância saber deles, pois, são profissionais da área. minha pesquisa também inclui alunos, pois também quero saber como eles vêm essas variedades.

O método que adotei para essa pesquisa foi em forma de questionário, onde professores A, B, C, D, e alunos responderam o questionário. No entanto nossa pesquisa gostaria de enfatizar o posicionamento de professores e alunos dos dois níveis, superior e básico. Para isso, minha pesquisa se estendeu ao Ensino Básico, sendo o mesmo questionário direcionado a dois professores e um aluno do Ensino Médio do Colégio Estadual Ministro Petrônio Portella da cidade de Estrela do Norte GO.

Segue-se abaixo o questionário que todos os entrevistados preencheram.

Questionário da pesquisa de campo

1. Como você vê a oralidade em relação à evolução lingüística?
2. Como deve ser considerada a relação entre a oralidade e a escrita?
3. Até que ponto deve ser respeitado, na oralidade, a gramática normativa?
4. O que deve ser considerado como erro na oralidade.
5. Qual o papel da escola na constituição da oralidade de um aprendiz da língua materna.
6. O ambiente social é fator decisivo na constituição da oralidade? Justifique.

Descrição dos dados

Analisei em meu trabalho quatro professores e três alunos, focalizando assim como eles vêem esse fenômeno lingüístico. Por razões étnicos não citarei o nome de nenhum deles, tanto professores como alunos.

ROFESSOR: A

1. Como você vê a oralidade em relação à evolução lingüística?
R: A oralidade é a primeira manifestação do ser humano. A fala é um gesto natural, adquirida normalmente desde os primeiros anos do indivíduo no ambiente familiar, enquanto a escrita é adquirida em um ambiente formal e institucionalizado com a escola. Há culturas que até hoje não possuem língua escrita, mas nenhuma deixou de desenvolver a oralidade.
2. Como deve ser considerada a relação entre a oralidade e a escrita?
R: Essa relação oralidade/escrita tem a ver com a visão que o indivíduo tem da língua. A posição que eu defendo é a do continuum tipológico, ou seja, oralidade e escrita não devem ser vistas como duas modalidades separadas, pois, não é possível classificá-las de modo homogêneo. Há textos escritos como cartas pessoais, bilhetes, e outros que se aproximem do pólo da conversação oral enquanto há textos falados como conferencias e palestra está mais próxima da escrita. Assim, vista desta perspectiva, a língua apresenta-se como um fenômeno dinâmico, não linear, não focalizado.
3. Até que ponto deve ser respeitado, na oralidade, a gramática normativa?
R: Há situações de uso formal da língua onde se exige o domínio da norma padrão. Em um discurso político, uma conferência, um sermão pregado, uma aula e situações similares. Deve-se considerar o contexto de uso da língua neste caso.
4. O que deve ser considerado como erro na oralidade.
R: Não sei se “erro” é a melhor expressão. Talvez seja melhor dizer adequado ou não adequado, levando-se em conta o contexto de uso. Não seria adequado usar a norma coloquial (o modo como se fala com pessoas íntimas) em uma situação de formalidade.
5. Qual o papel da escola na constituição da oralidade de um aprendiz da língua materna.
R: A escola tem privilegiado mais a escrita, através dos tempos do que a oralidade. Felizmente essa visão está se modificando. O papel da escola é trabalhar as quatro competências: ouvir, falar, ler e escrever propiciando ao aprendiz um domínio equilibrado da língua moderna.
6. O ambiente social é fator decisivo na constituição da oralidade? Justifique.
R: Sem dúvida. Não há manifestação lingüística fora do social. Língua, cultura e sociedade interagem significantemente na constituição lingüística do indivíduo. A expressão oral se constituíra a partir do ambiente social do indivíduo.

PROFESSOR: B

1. Como você vê a oralidade em relação à evolução lingüística?
R: Vejo que a lingüística tem se preocupado com esse assunto em conseqüência disso, os estudos em torno da oralidade têm trazido grandes esclarecimentos sobre a afirmação espacial da oralidade na sociedade moderna.
2. Como deve ser considerada a relação entre a oralidade e a escrita?
R: É, ao meu modo de ver, uma relação bem tênue, pelo fato da dificuldade de escrevermos aquilo que pensamos ou falamos. Falar é bem mais fácil do que escrever. Dominar a escrita exige outra competência bem diferente do falar.
3. Até que ponto deve ser respeitada, na oralidade, a gramática normativa?
R: Aqui penso que o falante será a peça fundamental. Pois é ele (o falante) que decidira o momento exato de fazer o uso ou não de uma gramática normativa. É lógico que isso se dará dentro de um contexto histórico imediato de desse falante.
4. O que deve ser considerado como erro na oralidade.
R: Talvez tudo o que for usado (palavras) e não consiga ser comunicável.
5. Qual o papel da escola na constituição da oralidade de um aprendiz da língua materna.
R: Ninguém aprende a língua materna na escola, portanto todos já a praticam desde o berço. O papel da escola, neste caso, é dar continuidade a esse processo de oralidade e aperfeiçoá-lo na medida do possível.
6. O ambiente social é fator decisivo na constituição da oralidade? Justifique.
R: Claro que sim. Podemos perceber isso na linguagem regionalista que temos em nosso país. O sul tem a linguagem característica, assim como o nordeste.

PROFESSOR: C

1. Como você vê a oralidade em relação à evolução lingüística?
R: Não há como deixar de aceitar a ciência do campo lingüístico, mas a lingüística como estudo, aceita essas transformações da língua, e põem por terra as regras gramaticais da língua, pois, se existe a gramática, ela deve ser respeitada e seguida como guia tanto para a escrita como para a fala.
2. Como deve ser considerada a relação entre a oralidade e a escrita?
R: Deve ser um todo e toda pessoa deve escrever e falar conforme o que as regras gramaticais propõem.
3. Até que ponto deve ser respeitado, na oralidade, a gramática normativa?
R: Acredito que para uma formação da língua é preciso conhecer à gramática e suas regras, e a língua é formada por fala e escrita, então, não vejo como as regras servirem apenas para a escrita, as regras devem ser seguidas e respeitadas pela escrita e pela oralidade, há meu ver deve ser respeitada sempre.
4. O que deve ser considerado como erro na oralidade.
R: As novas tendências, expressões, construções de frases, palavras faltando letras, criam uma linguagem sem regras e isso conforme a gramática é erro, pois não tem classificação. As pessoas estão abusando, falando tudo errado.
5. Qual o papel da escola na constituição da oralidade de um aprendiz da língua materna.
R: O papel da escola e dos professores é mostrar a forma correta de falar e escrever, os alunos vêm para a escola para aprender, e aprendem a norma culta, baseado na gramática.
6. O ambiente social é fator decisivo na constituição da oralidade? Justifique.
R: Não podemos aceitar que o aluno ou qualquer outra pessoa fale de forma errada só por que vive em um ambiente social diferente, porque sendo assim, se deixarmos falar da maneira como aprendem na sociedade ou em casa, onde vamos chegar.

PROFESSOR: D

1. Como você vê a oralidade em relação à evolução lingüística?
R: A oralidade é hoje diferente da escrita, está seguindo novos rumos e apoiada à lingüística, mas, essa evolução coloca por terra toda uma norma culta da língua, fazendo com que desvalorize com o passar do tempo, é preciso que a língua seja preservada, mantida como era.
2. Como deve ser considerada a relação entre a oralidade e a escrita?
R: Elas precisam caminhar juntas, se existe normas para a língua, é preciso que estas normas sejam seguidas por todo tipo de manifestação da língua.
3. Até que ponto deve ser respeitado, na oralidade, a gramática normativa?
R: Como já disse, a oralidade deve respeitar as regras existentes. Estas regras servem tanto para a escrita como para a fala. Aprendemos a escrever corretamente e precisamos falar como se escreve, precisamos seguir as regras, para não termos uma língua comum e desvalorizada.
4. O que deve ser considerado como erro na oralidade.
R: Erro é tudo aquilo que foge as normas estabelecidas pela gramática normativa. Se não estiver conforme as normas vigentes e estabelecidas, está errado.
5. Qual o papel da escola na constituição da oralidade de um aprendiz da língua materna.
R: Levar e mostrar o aluno que existe uma maneira correta de falar e escrever, e os alunos vão à escola para aprender, e não há como aceita estas manifestações, pois elas não seguem o padrão da língua.
6. O ambiente social é fator decisivo na constituição da oralidade? Justifique.
R: Sim, mas não podemos aceitar as várias manifestações da oralidade, existe uma que precisa e deve ser seguida, então quando estas pessoas tiverem contato com a escola ou de outra forma, devemos ensiná-las a maneira correta.

ALUNO: A

1. Como você vê a oralidade em relação à evolução lingüística?
R: Muito bom, uma língua evolui com o passar do tempo tanto a escrita e a oralidade. O português só é o português que conhecemos graças à influência de outras línguas e a sua evolução.
2. Como deve ser considerada a relação entre a oralidade e a escrita?
R: Elas se divergem, nem tudo que se fala pode ser escrito.
3. Até que ponto deve ser respeitado, na oralidade, a gramática normativa?
R: Até o ponto que não ofenda as pessoas que não falam de acordo com a gramática normativa.
4. O que deve ser considerado como erro na oralidade.
R: Aquilo que se fala e não se consegue entender.
5. Qual o papel da escola na constituição da oralidade de um aprendiz da língua materna.
R: A escola tem o papel de ensinar a oralidade que for, por mais conveniente que seja para usar na sociedade.
6. O ambiente social é fator decisivo na constituição da oralidade? Justifique.
R: Sim. A sociedade ou o meio em que você vive influenciara a maneira que a pessoa fala.

ALUNO: B

1. Como você vê a oralidade em relação à evolução lingüística?
R: Como algo muito positivo, pois a língua (no caso a oralidade) é livre para seguir outros caminhos. Ela não é presa a normas cultas que prendem o ser humano.
2. Como deve ser considerada a relação entre a oralidade e a escrita?
R: A escrita sendo vista como um posicionamento mais tradicional e restrito. Porém se vista como a oralidade pode ser mais livre e criativa. Através da oralidade o homem pode criar novas formas de escrita.
3. Até que ponto deve ser respeitado, na oralidade, a gramática normativa?
R: A gramática normativa é sempre padronizada, que segue suas leis estáveis e não aceita muitas vezes a oralidade que é livre.
4. O que deve ser considerado como erro na oralidade.
R: Acredito que não há erros na oralidade o que pode acontecer é uma forma falada não ser aceita pelos usuários
5. Qual o papel da escola na constituição da oralidade de um aprendiz da língua materna.
R: O papel da escola é saber conviver com os dois lados e não ser extremista a ponto de só aceitar a norma culta.
6. O ambiente social é fator decisivo na constituição da oralidade? Justifique.
R: Sim, pois cada grupo possui a sua individualidade e liberdade para criar a sua própria linguagem, são as gangues, os ripes, os skatistas, enfim os grupos que se destacam como diferentes da sociedade.

ALUNO: C

1. Como você vê a oralidade em relação à evolução lingüística?
R: Gosto e prezo muito pela minha língua materna, mas existem muitas formas de falar, e muitas palavras que são ditas não como mostra e pede a gramática. Para mim, é importante seguir a maneira mais correta da língua.
2. Como deve ser considerada a relação entre a oralidade e a escrita?
R: Bem, elas devem estar uma ao lado da outra, falamos o que é escrito, se há regras para a escrita, então devemos falar da maneira como é escrito ou registrado as palavras através dos textos, etc.
3. Até que ponto deve ser respeitada, na oralidade, a gramática normativa?
R: Como já disse, a oralidade deve seguir a escrita.
4. O que deve ser considerado como erro na oralidade.
R: Bom, já respondi esta pergunta na questão dois, mas digo que, a oralidade deve estar ao lado da escrita sempre, e a escrita deve ser da melhor maneira possível, seguida conforme as regras da gramática normativa.
5. Qual o papel da escola na constituição da oralidade de um aprendiz da língua materna.
R: Ensinar a maneira correta de se expressar através da fala e da escrita.
6. O ambiente social é fator decisivo na constituição da oralidade? Justifique.
R: Concordo que sim, mas não devemos aceitar estas tendências, pois elas desvalorizam a língua, e as pessoas começam a falar de qualquer jeito. Vejo isso como um erro e não concordo.

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