Livro: Capitães da Areia

0
102

O livro é dividido em três partes:

Antes delas, no entanto, via uma seqüência de reportagens e depoimentos, explicando que os Capitães da Areia é um grupo de menores abandonados e marginalizados, que aterrorizam Salvador. Os únicos que se relacionam com eles são Padre José Pedro e a Mãe de Santo, Don’Aninha

O reformatório é um antro de crueldades, e a polícia os caça como adultos antes de se tornarem um. A primeira parte em si, conta algumas histórias quase independentes sobre alguns dos principais Capitães da Areia. Pedro Bala, o líder, de longos cabelos loiros e uma cicatriz no rosto, uma espécie de pai para os garotos, mesmo sendo tão jovem quanto os outros, que depois descobre ser filho de um líder sindical morto durante uma greve.

Volta Seca, afilhado de Lampião, que tem ódio das autoridades e o desejo de se tornar cangaceiro. Professor, que lê e desenha velozmente, sendo muito talentoso; Gato, que com seu jeito malandro acaba conquistando uma prostituta, Dalva. Sem-Pernas, o garoto coxo que serve de espião se fingindo de órfão desamparado (que trai uma família que lhe ampara); João Grande o “nego bom” como diz Pedro Bala, segundo em comando; Querido de Deus, um capoeirista amigo do grupo, que dá algumas aulas de capoeira para Pedro Bala, João Grande e Gato; e Pirulito que têm grande fervor religioso.

O apogeu da primeira parte é dividido em quando os garotos se envolvem com um carrossel mambembe que chega à cidade, exercendo assim a sua “meninez”, e quando a varíola ataca a cidade, matando um deles, mesmo com Padre José Pedro tentando ajudá-los e infringindo a Lei.

A segunda parte da obra, narra a história de amor que surge quando a menina Dora torna-se a primeira “Capitã da Areia”, e mesmo que inicialmente os garotos tentem tomá-la a força, ela se torna como mãe e irmã para todos. Pedro Bala e Professor se apaixonam por Dora, ela por sua vez se apaixona pelo líder dos Capitães.

“O homossexualismo é comum no grupo, mesmo que em dado momento, Pedro Bala tente impedi-lo. Os Capitães da Areia costumam derrubar negrinhas e negrinhos na orla”.

Em pouco tempo Dora, passa a roubar como um dos meninos, e logo é capturada junto com Pedro, eles são muito castigados no reformatório e Orfanato. Quando escapam, muito fracos, se amam pela primeira vez na praia. Dora morre marcando assim o começo do fim para os principais membros do grupo.

A terceira parte vai mostrando a desintegração dos líderes. Sem Pernas se mata antes de ser capturado pela polícia que odeia; Professor parte para o Rio de Janeiro para se tornar um pintor se sucesso, entristecido com a morte de Dora; Gato se torna um malandro de verdade, abandonando eventualmente sua amante Dalva; Pirulito se torna frade, Padre José Pedro finalmente consegue uma paróquia no interior e vai para lá ajudar os desgarrados do rebanho do Sertão; Volta Seca se torna um cangaceiro do grupo do temido Lampião e mata mais de sessenta soldados antes de ser capturado e condenado; João Grande torna-se marinheiro; Querido de Deus continua sua vida de capoeirista e malandro; Pedro Bala, cada vez mais fascinado com as histórias de seu pai sindicalista, se envolve com os doqueiros e finalmente os Capitães da Areia ajudam numa greve.

Pedro Bala abandona a liderança do grupo, mas antes os transforma numa espécie de grupo de choque. Assim, Pedro Bala deixa de ser o líder dos Capitães da Areia e se torna um líder revolucionário comunista.



ANÁLISE DO CONTEXTO HISTÓRICO E CRÍTICA EXPOSTA PELO LIVRO:

Publicado em 1837, este livro foi escrito na primeira fase da carreira de Jorge Amado, e nota-se grandes preocupações sociais. As autoridades e o Clero são sempre retratados como opressores (Padre José Pedro é uma exceção), cruéis e responsáveis pelos males.

Os Capitães da Areia são tachados como heróis no estilo “Robin Hood”. No geral as preocupações sociais dominam, mas os problemas existenciais dos garotos os transformando em personagens únicos e corajosos – Corajosos Capitães da Areia de Salvador.

A obra em análise mostra sua importância dentro do Modernismo e traça um paralelo com a realidade, pois mostra temas considerados antigos, que ainda são importantes. Seu contexto denuncia problemas sociais como a questão do menor abandonado e das diferenças de classes que geram: discriminação, marginalidade, prostituição, miséria, pobreza, abandono, infelicidade, entre outros. Tudo isso mostra a falta de posicionamento da sociedade no que tange à busca de uma solução para questões tão presentes, ainda hoje, em nosso meio.

Em seu contexto, Capitães de Areia introduz a vida dos meninos de rua vagando por Salvador com autonomia de quem conhece tudo e todos.

“Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem” (AMADO, 1982, p.25). Essa é uma cena vista no cotidiano das cidades da década de 30. As crianças dessa época, devido a problemas familiares, buscavam refúgio na liberdade das ruas. Sobreviviam do furto, gozando dos prazeres proibidos pela sociedade e prezando acima de tudo o companheirismo “grupal”.

De acordo com a classe social que ocupavam, eram vistos de forma diferenciada, estando sempre sob julgamento da população. Esta sempre imparcial, com atos imprudentes, acabava prejudicando a formação daqueles que realmente queriam ser considerados cidadãos, aumentando assim, a revolta e sede de vingança.

O sistema capitalista, opressor e ditador, somado à condição de ser “menor abandonado”, levam a busca pelo companheirismo e apreciação da vida, pois, de certa maneira, isso significa sentir o gosto de viver intensamente cada segundo ao lado de quem realmente se identifica, quer pela semelhança de ideais e aspirações, quer pelo sofrimento igual para todos.

A necessidade de afeto marca decididamente as pobres crianças sem pai, nem mãe, o que faz Sem-Pernas, talvez o mais carente de todo grupo, sentir-se angustiado devido à falta de carinho. Convivendo com um espírito conflitante, estas crianças fazem com que o mundo reflita sobre a situação antiga, mas que ainda se encontra viva em nosso meio.

Os policiais são apontados, no livro, não como defensores da justiça, mas a favor da tortura, da marginalidade, pois agem como monstros, vêem através da infelicidade alheia o prazer de sorrir. Hoje esta situação se encontra igual, é cada vez menor o número de policiais que tem comprometimento com os princípios de defesa, a maioria espanca, humilha e até mesmo ceifam vidas.

Outra situação preocupante abordada por Jorge Amado no livro, que ainda existe hoje é a questão da discriminação para com os deficientes físicos – Sem Pernas era coxo. “Era o espião do grupo, aquele que sabia se meter na casa de uma família uma semana, passando por um bom menino perdido dos pais na imensidão agressiva da cidade. Coxo, o defeito físico valera-lhe o apelido”. (AMADO, 1982, p.30.).

Crianças, jovens e adultos continuam hoje, a serem vítimas de uma sociedade individualista e capitalista que não os incluem como pessoas normais capazes de estudar e ter uma vida profissional digna. Competências todos têm, falta-lhes espaço, oportunidade para desempenhá-las.

Por tanto, Capitães da Areia é uma obra da Segunda Geração Modernista que se destaca por abordar temas contemporâneos, denunciando a vida dos meninos abandonados, num regionalismo apresentado por Jorge Amado, que denunciou os problemas sociais ocorridos na época.

E esses problemas denunciados pelo escritor, infelizmente, persistem na atualidade. A metodologia de recuperação de menores precisa ser urgente e profundamente revista por profissionais capacitados, sob uma administração eficaz.

O país precisa urgentemente tomar providências, pois, problemas histórico-sociais ainda persistem por falta de vontade política e solidariedade ao próximo.

A obra Capitães de Areia revela um quadro de um país que vem sofrendo, há vários séculos, com um sistema social perverso. Acontece uma transferência de responsabilidade, envolvendo autoridades que nada fazem para mudar essa situação.

O ENREDO E SUA ESTRUTURAÇÃO:

A narrativa organiza-se em quatro partes:

Cartas à redação; Reportagem de jornal seguida de transcrição de cartas de leitores sobre o problema dos menores abandonados “Os Capitães da Areia” e o reformatório.

Sob a lua, num velho trapiche abandonado; Episódios que descrevem a vida miserável dos meninos abandonados e seus principais líderes. A narração por meio de fragmentos, sem acompanhar uma seqüência lógica de fatos, como no romance tradicional aproxima o livro das práticas cubistas da literatura.

Noite da grande paz, da grande paz dos teus olhos; Narrativa mais seqüenciada, com ordenamento das peripécias.

Canção da velha Bahia, canção da liberdade; Os destinos dos “Capitães da Areia”.

CONTEXTUALIZAÇÃO:

O ciclo regionalista nordestino; Neorrealismo Regionalista: temas associados a questões históricas, sociais e culturais do Nordeste. Percebe-se que Capitães da Areia é um romance de temática urbana e moderna, apesar de inserido, cronologicamente no romance nordestino neorrealista que recupera a tradição do romance regionalista romântico de maneira crítica e engajada.

A linguagem do narrador e dos personagens letrados segue a norma culta, mais coloquial: períodos breves, repetição de palavras ou expressões que ajuda a dar ritmo à narrativa e aproximá-la, em algumas passagens da poesia. Personagens marginalizados, registro da linguagem popular, erros de concordância, gírias, chavões.

O narrador em várias passagens utiliza o discurso indireto livre e a prosa poética, já as linguagens das reportagens e cartas do jornal parodiam à linguagem dos jornais conservadores da época.

O espaço delimita-se a cidade de Salvador, principalmente a Cidade Baixa; o trapiche (hoje lá funciona o Museu de Arte Moderna, no edifício conhecido como Solar do Unhão); o terreiro de Jesus e o corredor da vitória (área nobre da cidade).

As moradias dos pobres, o trapiche, espaço decadente que abriga os meninos com as roupas molambentas que vestem, elas valem tanto quanto os ratos de lá. As ruas, as praias e as docas são algumas vezes espaços ameaçadores, mas nas mais delas espaços de liberdade. Temos também os espaços de repressão na obra; O reformatório e Orfanato.

A estruturação do tempo em episódios torna a narrativa alinear; com muitas referências ao passado remoto ou momentos de fluxo de consciência. “As palavras finais da obra, referem-se ao ano em que todas as bocas foram impedidas de calar”, provavelmente 1935, quando o governo de Getúlio Vargas, em relação à intentona comunista, principia as perseguições políticas que culminaram no golpe de 1937, que instalou a Ditadura do Estado Novo. Jorge Amado, no mesmo ano terminou de escrever e publicar Capitães da Areia, que foi proibido e apreendido, enquanto ele suportava o exílio.

Os personagens são quase todos planos, sem aprofundamento psicológico, mais ou menos esquemáticos em sua caracterização psicológica e moral. Os nomes dos meninos Capitães da Areia resumem geralmente, suas características físicas ou psicológicas. A idealização poética e ideológica dos miseráveis explorados, marginalizados: eles não são culpados de seus crimes, pois foram arrastados a praticá-los, sua violência é expressão torta de uma rebeldia contra o sistema capitalista da época que culmina até hoje.

A obra é narrada em 3ª pessoa por um narrador onisciente, que tanto apresenta visões panorâmicas das cenas e acontecimentos quanto, por meio do discurso indireto livre, penetrando nos sentimentos e pensamento das personagens para apresentá-los ao leitor. Enquanto Jorge Amado é o narrador parcial, que assume posição ideológica simpática aos marginalizados, o típico intelectual engajado do Marxismo. Resultando numa visão um tanto maniqueísta, comum nas obras de arte que aderiram ao realismo socialista proposto por Stalin na década de 30.

Para finalizar, temos a temática como sendo a vida miserável dos meninos de rua, a violência que perpassa as relações sociais, a intolerância e a hipocrisia religiosa, a exploração dos pobres pelos ricos, o cangaço, a revolta social organizada e lúcida como caminho para a liberdade e igualdade.

Indo mais fundo, podemos considerar a Obra Capitães da Areia como sendo um “Romance de Formação” e de ideais políticos e revolucionários (Marxistas e Comunistas).

POEMA MODERNO QUE CONTEXTUALIZA A OBRA ALAGADOS

Os Paralamas do Sucesso

Compositor(es): Hebert Viana / Bi Ribeiro / João Barrone

Todo dia o sol da manhã 
Vem e lhes desafia 
Traz do sonho pro mundo 
Quem já não o queria 
Palafitas, trapiches, farrapos 
Filhos da mesma agonia 
E a cidade que tem braços abertos 
Num cartão postal 
Com os punhos fechados da vida real 
Lhes nega oportunidades 
Mostra a face dura do mal

Alagados, Trenchtown, Favela da Maré 
A esperança não vem do mar 
Nem das antenas de TV 
A arte de viver da fé 
Só não se sabe fé em quê 
A arte de viver da fé 
Só não se sabe fé em quê

Todo dia o sol da manhã 
Vem e lhes desafia 
Traz do sonho pro mundo 
Quem já não o queria 
Palafitas, trapiches, farrapos 
Filhos da mesma agonia 
E a cidade que tem braços abertos 
Num cartão postal 
Com os punhos fechados da vida real 
Lhes nega oportunidades 
Mostra a face dura do mal

Alagados, Trenchtown, Favela da Maré 
A esperança não vem do mar 
Nem das antenas de TV 
A arte de viver da fé 
Só não se sabe fé em quê 
A arte de viver da fé 
Só não se sabe fé em quê

Alagados, Trenchtown, Favela da Maré 
A esperança não vem do mar 
Nem das antenas de TV 
A arte de viver da fé 
Só não se sabe fé em quê 
A arte de viver da fé 
Só não se sabe fé em quê

Alagados, Trenchtown, Favela da Maré 
A esperança não vem do mar 
Nem das antenas de TV 
A arte de viver da fé 
Só não se sabe fé em quê 
A arte de viver da fé 
Mas a arte de viver da fé 
Só não se sabe fé em quê 
A arte de viver da fé 
Só não se sabe fé em quê 
A arte de viver da fé

INTERTEXTO ENTRE A OBRA E A MÚSICA:

Analisando o que foi exposto na obra de Jorge Amado, e a letra da canção de Hebert Viana (Os Paralamas do Sucesso), vemos uma crítica social aos descasos que a sociedade faz em relação aos menos favorecidos, em que utiliza o cenário de Salvador (na obra) e Rio de Janeiro (na letra da música).

As situações que o autor impõe a cada personagem nos remete a letra da canção, fazendo lembrar as situações em que vivem vários adolescentes brasileiros e do mundo, nas mais diversas condições de precariedade, nos fazendo mergulhar nas dificuldades que não somente Salvador e Rio de Janeiro enfrentaram na época e enfrentam ainda hoje.

Na atualidade é constante a luta de menores para ter uma vida digna, com moradia e afeto por uma família, tentando serem cidadãos um dia, com direito a um lar, estudos, uma vida que lhes traga algum conforto nessa sociedade que é ainda discriminante.

“Todo dia o sol da manhã 
Vem e lhes desafia 
Traz do sonho pro mundo 
Quem já não o queria 
Palafitas, trapiches, farrapos 
Filhos da mesma agonia 
E a cidade que tem braços abertos 
Num cartão postal 
Com os punhos fechados da vida real 
Lhes nega oportunidades 
Mostra a face dura do mal”

As partes grifadas na estrofe da canção supramencionada mostram claramente a “arte da vida real”, enfrentada todos os dias por milhões de pessoas, que ainda vivem descasos como exposto por Jorge Amado na obra. Pessoas estas, que muitas vezes desistem de lutar por seus objetivos, por terem se acostumado com a situação em que vivem, degradados com a situação de indelinquência, por parte de um sistema corrupto e discriminante.

REFERÊNCIAS

AMADO, Jorge. Capitães da Areia. Rio de Janeiro: Record, 2004.

GOMES, Álvaro Cardoso. Capitães da Areia: Jorge Amado. São Paulo: Ática, 1994. (Coleção Roteiro da Leitura).

______ . Alagados de Os Paralamas do Sucesso no Vagalume (Letra). Disponível em: http://vagalume.uol.com.br/paralamas-do-sucesso/alagados.html. Acesso em 22/03/2009.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui