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terça-feira, setembro 27, 2022

TERRAS DO SEM FIM – Jorge Amado

TERRAS DO SEM FIM – Jorge Amado

A exploração do cacau trouxe para a região de Ilhéus, no sul da Bahia, o desenvolvimento e com este os mais diversos tipos humanos que ali aportavam, atraídos pelas histórias de terras férteis e dinheiro em abundância. Para todos, que chegavam, Ilhéus era a primeira ou a última esperança.

Dentre as pessoas vindas de longe, iludidas por essa febre, encontravam-se, no mesmo navio, o lavrador Antônio Vítor que sonhava com uma roça de cacau só sua, o aventureiro João Magalhães, jogador de cartas trapaceiro e falso engenheiro militar, que se via ganhando muito dinheiro no carteado, graças ao “azar” dos velhos coronéis milionários, e a prostituta Margot que deixara Salvador para encontrar o amante, o advogado Dr.Virgílio que, na esperança de riqueza fácil, já se encontrava em Ilhéus, esperando colocar seu conhecimento de leis a serviço da ambição dos coronéis.

Após o desembarque, encontraram em Ilhéus e vilarejos adjacentes: Ferradas e Taboca, sociedades em formação, conturbadas pela ganância dos poderosos, onde a lei era a dos mais fortes e corajosos, tornando-se por isso selvagens e violentas.

Depararam-se com o conflito entre dois grandes latifundiários: o Coronel Horácio e a família Badaró que, em busca de expansão do patrimônio e força política, lutavam pela posse das matas do Sequeiro Grande, que ficavam entre as duas propriedades.

Coronel Horácio, ex-tropeiro e empregado de uma roça no Rio-do-Braço, enriquecera plantando cacau. Como próspero fazendeiro, ajudara a construir a capela de Ferrada e a igreja de Taboca, mantendo assim sua força política no local. Viúvo, casara-se novamente com a bela e jovem Ester, que lhe deu um filho, seu orgulho.

Tudo o que fazia era em nome de um futuro brilhante para esse menino. Seu grande amor era a esposa, mulher fina, inteligente e culta; falava o francês e adorava música. Era feliz pelo que ela representava. Ester, no entanto, não o amava.

Para ela, a vida na fazenda era um tédio, um martírio; vivia apavorada com medo de insetos e cobras. Isso se refletia no frio relacionamento sexual com o marido, que tudo relevava, em nome da paixão.

Os advogados eram bem vindos em Ilhéus, onde faziam fortunas. Os grandes latifundiários, quando queriam se apossar de um roçado vizinho, para, gananciosamente, aumentar seu patrimônio, solicitavam de um advogado um “caxixe”, documento falso de propriedade, que expulsava, o pequeno lavrador de seu roçado.

Assim, de um dia para outro, este se via forçado a deixar sua lavoura, conquistada, na maioria das vezes, com muito sacrifício. Se, no entanto, punha resistência, era morto pelos jagunços do coronel que, em “tocaia”, esperavam-no passar por uma das estradas solitárias do sertão.

Virgílio e Margot viviam em casas separadas para evitar comentários do preconceituoso povoado de Tabocas. Apesar disso, ele passava a maior parte do dia em companhia da amante. Pareciam felizes. Ao contratar os serviços de Virgílio para regularizar a medição e os documentos de posse das terras de Sequeiro Grande, o coronel Horácio convida-o para um jantar em sua casa. Durante esse evento, Virgílio conhece Maneca Dantas, compadre e amigo de Horácio, e Ester que, ao final, aceitara tocar piano para eles.

Fica fascinado por ela que, por sua vez, encantara-se com a voz, a cabeleira loira, o olhar lânguido e as maneiras finas do jovem doutor. Nessa noite, Horácio se surpreendeu com a mudança da mulher na cama; mais calorosa e receptiva, entregava-se com paixão; achou que ela ainda o amava.

Na madrugada dessa mesma noite, quando todos já dormiam, Firmo chegou à fazenda. Após ter acordado todos, contou-lhes sobre o atentado que havia sofrido. O negro Damião, o melhor matador dos Badaró, esperava-o em uma tocaia, mas felizmente errara o tiro.

O pequeno sítio de Firmo localizava-se entre a mata e a propriedade dos Badaró, que já haviam proposto a sua compra. Ofereceram até mais do que a roça valia, mas Firmo, aconselhado por Horácio, não a vendeu.

Para Horácio, aquela tentativa de assassinato comprovava que eles estavam decididos entrar na mata de qualquer jeito e que a luta pela posse de Sequeiro Grande iria começar. Pede a Damião e Maneca Dantas para percorrerem todos os pequenos sítios que ficavam entre as duas propriedades e explicitarem sua proposta: todos que o ajudassem, não só manteriam suas terras como também teriam uma porção de Sequeiro Grande.

As terras na outra margem do rio, que cortava a mata, seriam divididas entre os que o ajudassem. Além disso, como a fazenda não seria uma lugar seguro, aconselha Ester a passar com o filho uns tempos no palacete de Ilhéus.

No caminho para Ilhéus, esperando Horácio resolver uns negócios, Ester passou quatro dias em Tabocas, onde conversou muito com Virgílio. Cada vez mais apaixonada, via no jovem advogado uma maneira de sair daquele lugar horrível, e este, por sua vez, não via a hora de poder se encontrar com ela a sós.

Os Badaró eram uma das famílias mais ricas e poderosas da região. Don’Ana, filha de Sinhô Badaró, era conhecida em Ilhéus como moça séria e enraizada à terra; raramente deixava a fazenda e pouco ligava para as festas da igreja e conversas de comadres.

Enquanto Sinhô Badaró era pela paz, matando somente em caso de extrema necessidade, Juca Badaró, seu irmão, resolvia tudo a tiro e morte. Juca era casado, sem filhos. Olga, sua esposa, passava, a maior parte do tempo, aos cochichos em Ilhéus e ele, por sua vez, nas lavouras de cacau, ou com as amantes.

Quando ela vinha para a fazenda, era para reclamar da vida e do marido. Don’Ana tinha pouco tempo e motivo para se condoer com ela. Como Badaró, não era contra as aventuras extraconjugais dos homens da família. Cumpriam com sua obrigação e não deixavam faltar nada, assim fora seu pai e assim deveriam ser todos os homens. Para ela, Olga era uma estranha na família.

Antônio Vítor, que, no navio, sonhava com sua volta para o Ceará, rico e bem vestido, abandonou essa ilusão, quando notou que jagunços e lavradores deixavam todo dinheiro ganho em contas no próprio armazém da fazenda e que, no final do mês, recebiam um saldo miserável, quando havia saldo. Contratado para a lavoura, tornou-se capanga de Juca Badaró, após ter-lhe salvo a vida.

A sua coragem o promoveu: trocou a foice pela espingarda; acompanhava Juca a todos os lugares. A namorada, deixada em sua cidade, estava muito longe; não existia mais. Sonhava com Raimunda, mulata de nariz chato, irmã de leite de Don’Ana e afilhada do Sinhô Badaró; estava se apaixonando por ela.

Após medição da mata, Virgílio registrou-a no cartório de Venâncio. A posse foi feita em nome de Horácio, Maneca Dantas, Braz, viúva Merenda, Firmo, Jarde e de Dr. Jessé Freitas. Os felizes proprietários não se regozijaram por muito tempo. Numa tarde, os homens de Badaró atearam fogo no cartório, perdendo-se, assim, todos os documentos.

Juca Badaró agora tinha que medir a mata com urgência para dar entrada nos papéis de posse. Como seu engenheiro viajara, contratou João Magalhães para executar a tarefa. Este que não era militar e muito menos engenheiro e que, naquele fim de mundo, não estava em busca apenas do dinheiro que lhe deixavam as mesas de pôquer, achou a oferta de Juca irrecusável; não só fez o serviço, como também passou a se interessar por Don’Ana.

O olhar afetuoso da moça sobre ele fez com que se colocasse à disposição dos Badaró, passando a discutir sobre as terras como um Badaró, sentia-se um parente.

Como Virgílio estava apaixonadíssimo por Ester, acabou brigando com Margot que, em seguida, caiu nos braços de Juca Badaró. Este se interessou por ela, desde que a vira no navio para Ilhéus. Nessa cidade, a força dos coronéis era medida pelas casas que possuíam.

Cada qual levantava uma melhor e, aos poucos, as famílias iam se acostumando e demorar mais tempo na cidade do que nas fazendas. O palacete de Horácio era maravilhoso e, ali, Ester recebia Virgílio; amavam-se e planejavam fugas às escondidas. Apesar disso, toda cidade já comentava o caso, rindo-se do coronel Horácio.

As emboscadas continuaram acontecendo. Numa noite, o irmão Merenda com três cabras de Horácio, atacaram Sinhô Badaró no atalho. Nessa mesma noite, Juca e seus homens cometeram uma série de violências na região. Mataram os irmãos Merenda, entraram na roça de Firmo e queimaram tudo, não o mataram porque ele não se encontrava em casa naquele momento.

Nas cidades distantes falavam-se das lutas em Sequeiro Grande. Diariamente chegavam jagunços de outras regiões que logo eram recrutados por alguém de um dos lados. O preço das armas e munições aumentavam; a luta exigia muito dinheiro.

Uma noite, como Horácio estava na cidade, Virgílio, impossibilitado de se encontrar com Ester, convidou Maneca Dantas para saírem. No cabaré, encontrou Margot e com ela dançou uma valsa. Quando Juca, que estava na sala de carteado, soube, entrou no salão a tempo de impedir o bis. Ao passar por Virgílio, puxando a mulher, insultou-o. Maneca Dantas, prudentemente, impediu-o de reagir.

Juca espalhou pela cidade que arrancara a mulher dos braços de Virgílio e que este nada fizera; era um cagão. Ao saber disso, Horácio explica a Virgílio que, diante daquela ofensa, se ele quisesse continuar advogando e ser respeitado na cidade, teria de mandar matar Juca.

O coronel já decidira, iria mandar matá-lo de qualquer jeito, pois este já tinha ido longe demais, acabando com quatro de seus homens. Apenas queria que fosse Virgílio a dar a ordem ao jagunço. Depois de relutar muito, o advogado concordou. Horácio ficou muito feliz; sabia então que seu amigo entraria para o rol dos homens valentes de Ilhéus.

A emboscada armada para Juca Badaró não foi bem sucedida. O homem na tocaia ficou morto em seu lugar e Antônio Vítor fora ferido para salvar o patrão. Outra infelicidade assolou a vida de Horácio; febre, que matara Sílvio, infectara-lhe também. Indiferentes aos comentários maldosos da cidade, Ester voltou para Tabocas em companhia de Virgílio.

Ali, desdobrando-se em cuidados, ficou ao lado da cabeceira do marido os sete dias em que esteve entre a vida e a morte. Dr. Jessé fez o mesmo, parou tudo, para socorrer o patrão. Graças, talvez, ao corpo forte de homem sem vícios e enfermidades, coronel Horácio não morreu.

Entretanto, logo em seguida, Ester caiu doente. Febre altíssima e delírios comeram-lhe toda a beleza. Como a febre não cedia, transportaram-na para Ilhéus, mas foi tudo em vão; Ester não agüentou, morreu.

A luta progredia, numa corrida para ver quem chegava primeiro. De um lado estavam os Badaró derrubando a mata e de outro os homens de Horácio, o barulho recomeçaria quando os dois grupos se encontrassem. Nesse período, uma festa de casamento agitou Ilhéus.

Don’Ana casou com João Magalhães que se mostrara suficientemente corajoso e envolvido com a família para continuar o trabalho dos Badaró. Raimunda e Antônio Vítor se casaram também. Todavia, durante a lua de mel de Don’Ana, uma tragédia se abateu sobre os Badaró.

Quando passava um fim de semana com Margot em Ilhéus, Juca foi assassinado. Eles sabiam quem tinha sido o mandante e sabiam também que um simples processo não resolveria a questão; Horácio deveria ser morto, mas também sabiam que isso não seria fácil.

Com a intervenção do governo federal no estado da Bahia, o governador teve de renunciar e a oposição tomou o poder. Nessa esteira, em Ilhéus, o interventor demitiu o prefeito e nomeou o Dr. Jessé para o cargo; o juiz também foi transferido, viria outro em seu lugar. Naquele momento, Sinhô Badaró tornara-se oposição e Horácio, que era governo, já imaginava Virgílio como deputado federal. Nesse ínterim a luta pela mata continuava, com muitos mortos e roças de cacau em chamas.

O cerco da casa Grande dos Badaró pelos homens de Horácio pôs fim na luta. Sinhô Badaró ainda resistiu por quatro dias e noites. Quando este caiu ferido, Don’Ana mandou-o para Ilhéus. Excetuando Don’Ana, Capitão Magalhães fez com que as outras mulheres, Olga e Raimunda, fossem também com o Sinhô. No final todos fugiram e o cerco culminou com o incêndio da casa grande.

Meses depois, Horácio foi levado a julgamento e, por unanimidade de votos, foi considerado inocente. Alguns dias mais tarde, bastante acabrunhado, procurou o compadre Maneca Dantas para lhe dizer que mandaria matar Virgílio.

Encontrara, entre os papéis de Ester, algumas cartas de Virgílio, que comprovavam que tinham sido amantes. Deu-se conta, atordoadamente, que toda mudança ocorrida no seu relacionamento com a esposa era por causa do advogado; os dois o haviam traído.

No final daquele mesmo dia, Maneca Dantas encontrou-se com Virgílio que estava de partida para Ferradas. Sem sucesso, Maneca, que gostava muito do advogado, tentou convencê-lo a não viajar naquela noite. Diante de tanta teimosia, contou-lhe os planos do compadre.

Virgílio agradeceu, mas confirmou que não voltaria atrás. Explicando-se, disse que ficara com Horácio, porque ali tudo ainda era Ester. Quando ela ainda vivia, tinha a esperança de ir embora, mas nada mais fazia sentido. Para ele, o triste era viver sem Ester; iria morrer corajosamente, segundo as leis do lugar. Despediu-se de Maneca e partiu. Naquela mesma noite foi morto em uma emboscada, a caminho de Ferradas.

A nomeação de um bispo para Ilhéus também era sinal de progresso e dentre os que saíram às ruas para saudá-lo estavam Horácio, Maneca Dantas, Sinhô Badaró, que ainda coxeava um pouco, e Don’Ana e esposo. Após as eleições, Dr. Jésse foi levado à Câmara Federal como deputado do governo.

Graças a ele, um decreto criou o município de Itabuna – ex Tabocas -, desmembrando-o de Ilhéus. Horácio elegeu Maneca Dantas para prefeito de Ilhéus e o Sr. Azevedo para prefeito de Itabuna.

“Um baiano romântico e sensual”

Autor dos mais respeitados na literatura brasileira, desde os anos trinta, Jorge Amado tem pontificado e feito sucesso de crítica e de público. Sua obra explora os mais diferentes aspectos da vida baiana: a posse violenta da terra, com as conseqüências sociais terríveis, como ocorreu na colonização da zona cacaueira do Sul da Bahia, está magistralmente imortalizada em Cacau, São Jorge de Ilhéus, Gabriela, Cravo e Canela e Terras do Sem Fim.

Os tipos folclóricos das ladeiras de Salvador estão presentes em Tenda dos Milagres, Capitães da Areia, Mar Morto. A literatura engajada, comprometida com a ideologia política do Autor faz-se presente em Os Subterrâneos da Liberdade, O Cavaleiro da Esperança. Os perfis de mulheres extraordinárias que comovem e seduzem estão em Tieta do Agreste, Dona Flor e seus Dois Maridos, Gabriela e muitos outros…

Primeiro é preciso que se tenha em mente o “descompromisso” do Autor com o registro formal culto, para se entender melhor o comentário que se faz constantemente sobre seu “estilo”. Jorge Amado já se auto proclamou “um baiano romântico e sensual”.

É o que a crítica costuma rotular de contador de estórias. Não segue, intencionalmente, o rigor da técnica de construção literária e nem dá a mínima para as normas gramaticais e ortográficas.

Incorpora, com a maior naturalidade, à língua escrita, termos e expressões típicas da língua oral e de sua Bahia idolatrada. Não espere o leitor, portanto, defrontar-se com um texto primoroso, regular, pasteurizado. Entretanto, quem se aventurar nos meandros de suas páginas, esteja preparado para o deguste de um texto saboroso e suculento que transpira a trópico, a calor, a vida. Suas histórias são tramadas sobre o povo simples e rude, numa língua que esse povo fala e entende.

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