INTRODUÇÃO

É de extrema importância a brincadeira para o desenvolvimento psicológico, social e cognitivo da criança, pois é através dela que a criança consegue expressar seus sentimentos em relação ao mundo social.

As atividades lúdicas preparam a criança para o desempenho de papéis sociais, para a compreensão do funcionamento do mundo, para demonstrar e vivenciar emoções.

Quanto mais a criança brinca, mais ela se desenvolve sob os mais variados aspectos, desde os afetivo-emocionais, motor, cognitivo, até o corporal. É através da brincadeira que a criança vive e reconhece a sua realidade.

Podemos dizer que a brincadeira não é apenas uma dinâmica interna da criança, mas uma atividade dotada de um significado social que necessita de aprendizagem.

Tudo gira em torno da cultura lúdica, pois a brincadeira torna-se possível quando apodera elementos da cultura para internalizá-los e criar uma situação imaginária de reprodução da realidade. É através da brincadeira que a criança consegue adquirir conhecimento, superar limitações e desenvolver-se com indivíduo.

Com imaginação, apresentação, simulação, as atividades com jogos são considerados como estratégia didática, facilitadora da aprendizagem, quando as situações são planejadas e orientadas por profissionais ou adulto, visando aprender, isto é, proporcionar à criança a construção de algum tipo de conhecimento, alguma relação ou desenvolvimento de alguma habilidade.

O lúdico enquanto recurso pedagógico na aprendizagem, deve ser encarado de forma séria, competente e responsável. Usado de maneira correta, poderá oportunizar ao educador e ao educando, importantes momentos de aprendizagens em múltiplos aspectos.

Considerando-se sua importância na aprendizagem, o lúdico favorecerá de forma eficaz o pleno desenvolvimento das potencialidades criativas das crianças, cabendo ao educador, intervir de forma adequada, sem tolher a criatividade da criança. Respeitando o desenvolvimento do processo lúdico, o educador poderá desenvolver novas habilidades no repertório da aprendizagem infantil.

O problema levantado no trabalho em pauta indaga como analisar a prática do lúdico na psicopedagogia?

O objetivo geral é identificar os métodos lúdicos que podem auxiliar o psicopedagogo nas dificuldades de aprendizagem.

Os objetivos específicos são: caracterizar o lúdico, relatar sobre o profissional psicopedagogo e relacionar a atuação do psicopedagogo com o lúdico.

A escolha do tema “a prática do lúdico na psicopedagogia” deve-se em afirmar que como alternativa de resgatar a alegria e o prazer de aprender, as diferentes abordagens da prática lúdica no contexto psicopedagógico poderão contribuir para ampliar os conhecimentos e oportunizar, para um profissional dinâmico e reflexivo, caminhos capazes de atender às necessidades dos educandos.

A importância da elaboração desse tema está em afirmar que acima de tudo, o brincar motiva e, conseqüentemente, proporciona um clima especial para a aprendizagem, ajudando os participantes a desenvolverem confiança em si mesmos e em suas capacidades, ajuda-os a ponderarem as variáveis presentes nas interações sociais e, nessas situações, ser empático com as pessoas.

A contribuição desse trabalho está pautado de que a partir de ferramentas e recursos adequados, ou seja, conhecendo as propriedades da atividade lúdica, podemos como psicopedagogos promover o estímulo adequado e um ambiente propício para que cada criança em sua individualidade desenvolva da melhor maneira possível suas qualidades e características.

1. REVISÃO DA LITERATURA

1.1 Jogar e brincar no processo de aprendizagem

É no brincar, e somente no brincar que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (WINNICOTT, 1975)

Macedo (1997) defende os jogos especialmente os de regra porque criam um contexto de observação e diálogo sobre os processos de pensar e construir o conhecimento de acordo com os limites da criança.

Para Klein (1977) brincando a criança expressa de modo simbólico suas “phantasias”, seus desejos e suas experiências vividas.

Para Vygotsky (1989) o brincar tem origem na situação imaginária criada pela criança, em que desejos irrealizáveis podem ser realizados com a função de reduzir a tensão e ao mesmo tempo, para construir uma maneira de acomodação a conflitos e frustrações da vida real.

Piaget (1970) dedicou-se a estudar os jogos e chegou a estabelecer uma classificação de acordo com a evolução das estruturas mentais.

Para Piaget (1970) os jogos são classificados em:

Jogos de exercícios – de zero a 2anos;
Jogos de Símbolos – 2 a 7anos;
Jogos de Regras – a partir dos 7anos.

Jogos de Exercícios

O período sensório-motor (0 a 2 anos) se caracterizam pela satisfação das necessidades básicas. O jogo consiste em rituais ou manipulações de objetos em função dos desejos e hábitos motores da própria criança. Aos poucos a criança vai ampliando seus esquemas, adquirindo cada vez mais prazer através de suas ações. O prazer é que traz significado para as suas ações.

O ato de sugar é tão importante. O bebê mama não apenas para sobreviver, mas porque descobre o prazer de mamar à medida que sacia a sua fome.

Nesta fase outras conquistas vão surgindo (engatinhar, andar, falar) são todas atividades cheias de prazer. Ele prefere o chão, onde ensaia os primeiros passos, emite os primeiros sons na tentativa de imitação da fala, se dedica a observar mãos e pés, descobrindo o seu corpo.

Ao observar estas condutas a criança percebeu que ao repetir as ações existia um prazer em fazer funcionar, em exercitar o que já havia aprendido.

Mas apesar de adultos não deixamos de utilizá-lo. Quando compramos um eletrodoméstico, ou qualquer aparelho que ainda não dominamos, ligamos e repetimos varias vezes as operações até termos certeza de que podemos fazê-lo funcionar. Neste momento sentimos enorme prazer em ter o poder e controle sobre a máquina.

Os jogos simbólicos

Compreende de 2 aos 7 anos aproximadamente. É a fase do faz de conta, da representação, do teatro, onde uma coisa simboliza outra. Uma vassoura pode virar um cavalo, e ao brincar com as bonecas pode representar o papel de mãe.

A criança é capaz porque já estruturou as imagens mentais, já domina a linguagem falada com a qual pode se expressar.

Os jogos simbólicos têm características que lhes são próprias: liberdade de regras, desenvolvimento da imaginação e fantasia, ausência de objetivos, ausência de uma lógica da realidade, adaptação da realidade aos seus desejos.

Nesses momentos vivência aspectos de sua realidade muitas vezes difíceis de elaborar: a chegada de um irmão, morte de alguém, mudança de escola.

Betttlheim (1988) nos conta o caso de uma menina de 4 anos, que diante da gravidez de sua mãe, passou por um processo de regressão. Mesmo sendo orientada pela mãe, começou a molhar-se, sua alimentação tinha de ser feita pela mamadeira e voltou a engatinhar.

Esta situação foi muito incômoda para a mãe, mas ela não tentou impedir a regressão. Meses depois, a situação era outra, brincava com as bonecas de forma até mais carinhosa.

O medo de que com a chegada do novo bebê, a mãe pudesse privá-la de todas as gratificações, levaram-na a comportasse desse modo.

Mas como deixaram-na agir, aos poucos foi percebendo que ficar molhada não era tão bom, como havia imaginado; que só a mamadeira era desvantagem diante de uma grande variedade de outros alimentos; que correr e saltar eram muito melhor que engatinhar. Parou de brincar que era um bebê e resolver brincar de ser mãe.

À medida que a criança vai se desenvolvendo passa para estágios mais avançados, as atividades têm a tendência de serem mais imitativas, busca coerência com a realidade. Jamais a criança brinca tentando colocar uma boneca grande numa caminha pequena.

Jogo de regras

Com os progressos da socialização da criança e o desenvolvimento de suas estruturas intelectuais, o jogo egocêntrico é abandonado. O convívio social é mais interessante. As obrigações são impostas por intermédio das relações de reciprocidade e cooperação do grupo.

O jogo de regras é necessário para que as convenções sociais e os valores morais de uma cultura sejam transmitidos.

As estratégias de ação, a tomada de decisão, a análise dos erros, lidar com perdas e ganhos, replanejar jogadas em função dos movimentos dos adversários, tudo isso é importante para o desenvolvimento das estruturas cognitivas de cada pessoa. O jogo provoca conflitos internos, a necessidade de buscar uma saída, e é desses conflitos que o pensamento sai enriquecido, reestruturado e apto para lidar com novas transformações.

Depois das observações feitas acima vimos que a escola não pode prescindir deste recurso. Na escola a construção do conhecimento pode ser feita de forma prazerosa garantindo uma motivação para aprendizagem.

O jogo vai depender da etapa em que cada aluno se encontre. Se estão aprendendo a escrever seu nome ou palavras de sua língua, a escola pode lhe propor jogos de exercícios a fim de que os esquemas de ação motora tão necessários para que esta tarefa seja adquirida.

Quando já se encontra numa fase mais avançada é a vez dos jogos simbólicos, serem chamados a cena, entonação, o brincar com a linguagem num constante recriar.

Nas séries mais avançadas (adolescência) é a vez do de regras, onde as atividades em grupo são bastante valorizadas para que as convenções sociais e os valores morais de uma cultura possam ser transmitidos.

O processo de aprendizagem lúdica bem como o processo cognitivo visa a sua preparação para o futuro. Neste inclui sua inserção no mercado de trabalho. Ter capacidade de ver o trabalho como algo criativo, na medida em que nele se estabelecem relações gratificantes. Do jogo simbólico pode se herdar a possibilidade de experimentar papeis, representar, dramatizar, recriar situações do dia a dia.

Para o diagnóstico psicopedagógico a atividade lúdica é um rico instrumento de investigação, permite ao sujeito se expressar livre e de forma prazerosa. Para o psicopedagogo é uma importante ferramenta de observação sobre a simbolização e as relações que este estabelece com o jogo, permitindo a formulação de hipóteses e diagnósticos para uma posterior intervenção.

Refletindo sobre os jogos e brincadeira, tivemos uma curiosidade de conhecer um pouco como surgiu o brinquedo e pensamos ser interessante fazer uma breve pontuação histórica em relação a isso.

Alguns autores relatam que os brinquedos surgiram no século XVIII, dentro das próprias famílias, por criação dos entalhadores de madeiras, que começaram a fazer bonecas e dos fundidores de cobre, que criaram os soldadinhos de chumbo. Cada um, nesta época, se ocupava somente do que tinha haver com o seu trabalho, assim, as bonecas não podiam ser pintadas pelo marceneiro.

Surge às pequenas industrias e como elas tinham que dividir trabalhos simples, o marceneiro fabricando a boneca, o pintor pintando e etc. ocorreu um encarecimento do brinquedo. Nascia assim a era dos brinquedos artesanais, onde havia exportadores que compravam brinquedos para distribuir e vender em pequenas lojas.

O brinquedo começa a tomar proporções maiores no meado do século XIX e com o aumento da industrialização, deixa o brinquedo de ser do controle da família, isto é, as famílias deixam de produzir os seus próprios brinquedos e começam a comprá-los em lojas.

O primeiro estudo sério do jogo foi, com efeito, o de Goss sobre os Jogos dos animais, em 1896; seguiu-se, em 1899, um estudo do mesmo autor sobre os Jogos humanos (DEBESSE,1972).

Rodrigues (1992) expõe em seu livro que Fingermann (1970) relata que cabe a Claparéde o mérito de haver classificado, de forma sistemática, quatro teorias sobre a natureza do jogo. A mais antiga é a que considera o jogo como recreio, ou seja, uma reparação ou restituição das forças físicas e mentais esgotadas pelo trabalho…”

Rodrigues (1992) continua a contextualizar as teorias classificadas por Claparede e afirma que: A última teoria agrupada por Claparéde é a teoria de Goss (1896 que diz ser o jogo uma preparação para a vida).

Queiroz (2002) enfatizando a importância do brincar e cita Beheheim “Brincar é muito importante porque, enquanto estimula o desenvolvimento intelectual da criança, também ensina, os hábitos necessários ao seu crescimento.

Brincar é uma linguagem, é a nossa primeira forma de cultura. A cultura que pertence a todos e que nos faz participar de idéias e objetivos comuns (MEYER, 2004).

É através do movimento que a criança explora o mundo que a rodeia, se expressa e se comunica, pois ele possibilita o seu desenvolvimento como um todo, representando o que ela sente, pensa e quer. (RODRIGUES, 1992).

Rodrigues (1992) observa que é importante pontuar que “há um longo processo para a criança chegar ao domínio das habilidades mais complexas e, para isso, as experiências com os movimentos fundamentais como correr, saltar, arremessar, chutar, quiçá, etc., são de grande importância e vão servir de base para a aquisição de habilidades da etapa seguinte” .

Refletindo sobre vários autores que dissertam sobre jogos e brincadeiras, encontramos um questionamento similar ao nosso, quando Meyer (2004) pergunta: “Brincar, brincadeira, brinquedo e jogo. Serão sinônimos? Será a brincadeira apenas mais um recurso didático?.

Encontramos em Queiroz (2002) uma explicação para tal dúvida: Brincar: proposta criativa e recreativa de caráter físico ou mental, desenvolvida espontaneamente, cuja evolução é definida e o final nem sempre previsto. Quando sujeito a regras, estas são simples e flexível, e o seu maior objetivo é a prática da atividade em si. Jogar: forma de comportamento organizado, nem sempre espontâneo, com regras que determinam, duração, intensidade e final da atividade. Importante lembrar que o jogo tem sempre como resultado a vitória, o empate ou a derrota. Lúdico: é tudo aquilo que diverte e entretém, seja em forma de atividade física ou mental.

E afirma Pereira (2004) que brincar é uma forma própria da criança se relacionar com o mundo, é a exteriorização de sentimentos através do concreto, é o encontro com o próprio mundo, a interação com o outro, a descoberta do mundo construído no real e no ‘faz-de-conta.

Nesta forma de se relacionar com o mundo, segundo Meyer (2004) o brinquedo enquanto objeto, é suporte de brincadeira, é o material que permite fluir o imaginário infantil.

E dando continuidade sobre este pensamento Meyer (2004) afirma ainda que: o brinquedo coloca a criança na presença de reproduções: tudo que existe no cotidiano, na natureza e nas construções humanas, o brinquedo acaba sendo um substituto dos objetos reais, podendo assim manipulá-los.

Para Debesse (1972) o jogo é o melhor elemento de equilíbrio psíquico na criança; assegura a base da personalidade.

Vêem se estudando ao longo dos anos o comportamento das crianças como um todo. Em relação à importância do brincar, vale ressaltar que já na década de 20, Melanie Klein, ao iniciar um trabalho em relação a bebês e criança, começa a dá um outro significado ao brincar, desenvolveu um novo instrumento de trabalho e, como ocorre freqüentemente no desenvolvimento científico, a estas novas descobertas seguiu-se o uso de novas ferramentas. No caso da análise de crianças a nova ferramenta foi a técnica de brincar. O caráter primitivo do psiquismo infantil exigiu uma técnica analítica específica e foi encontrada na forma lúdica. Por meio dela foi possível alcançar as fixações e experiências mais profundamente recalcadas da criança e exercer uma influência importante em seu desenvolvimento.” (MELO, 2006)

Atualmente, o comportamento assumido na brincadeira tem uma significação específica de acordo com a situação. Para brincar é preciso se comunicar e interpretar, a partir de uma decisão por parte daqueles que brincam (PEREIRA, 2004)

O brincar assume um papel social, onde as crianças convivem e experimentam as regras sociais, os seus limites, e a realmente tomar consciência de que o outro existe.

E, como Oliveira (2001) perguntam: “Que papel é esse atribuído pelas crianças aos objetos?

Qual o personagem que eles estão substituindo no faz-de-conta? O grande personagem oculto seria a própria criança que, nesta ocasião, passa a ocupar o papel do adulto, aquele que provê cuidados à criança (OLIVEIRA, 2001).

O intenso prazer que as crianças encontram em seus jogos ocorre não somente por estes gratifica em seus impulsos de realização de desejos mas porque o brinquedo permite o domínio da angustia (MELO, 2006)

Meyer (2004) quando diz que em toda brincadeira infantil estão presentes três características: a imaginação, a imitação e a regra. Cada uma delas pode aparecer de forma mais evidente em um tipo ou outro de brincadeira, tendo em vista a idade e a função específica que desempenham junto às crianças. Apesar de todos estes estudos, ainda nos dias de hoje encontramos profissionais, ligados a educação, que parecem não entender bem a importância do brincar.

Contudo as brincadeiras infantis nem sempre são bem entendidas por certas pessoas, inclusive alguns educadores que costumam dizer: ’as crianças estão só brincando’, como se ali nada acontecesse (OLIVEIRA, 2001).

1.2 A intervenção da escola no processo lúdico

É importante traduzir as práticas infantis para a comunidade e mostrar que brincar é um direito da criança e que muito se aprende brincando (MEYER, 2004).

Meyer (2004) considerando a escola como continuidade do lar e levando em conta a importância dela na formação da personalidade de uma criança e na afirmação de que a vivência familiar é insubstituível. No entanto, a possibilidade de ampliar esta vivência entre outras crianças, num ambiente propício, com metodologia que considere suas necessidade se características, favorece e enriquece o seu desenvolvimento. Escola e família não se excluem, se completam. É na interação que a criança constrói o seu conhecimento.

A entrada no colégio modifica profundamente o mundo do brinquedo. As letras e os números convertem-se em brinquedos para as crianças. A curiosidade pelo conhecimento é a continuidade da curiosidade que sentirá pelo mundo circundante até os cinco ou seis anos. Com a aprendizagem escolar aparecem novos jogos em que combinam as aptidões intelectuais e sorte (PEREIRA, 2002)

Segundo Oliveira (2001) cabe aos profissionais que estão trabalhando com a criança nas escolas que respeitem o brincar das crianças, pois percebemos que alguns educadores de creche dizem que a criança bem pequena não gosta de brincar, que ela vive mudando de brincadeira, pegando e largando logo os objetos. O que eles não consideram é que a criança pequena pode ter esta forma de brincar, envolvendo-se em sucessivas brincadeiras por curto período de tempo. Apenas com o desenvolvimento é que a criança é capaz de criar e participar de enredos mais planejados e duradouros.

Pensando sobre o papel da educação infantil, Pereira (2002) afirma que na Educação Infantil cujo objetivo principal é favorecer o desenvolvimento integral da criança deve se procurar que os professores se preocupem mais com tudo aquilo que contribuir para a maturidade da criança do que com conteúdos ou informações a serem adquiridas.

Portanto, a possibilidade de absorção de certos conhecimentos pelo aluno dependerá, em parte, de como estas informações lhe chegaram, lhe foram ensinadas, o que por sua vez dependerá, nessa cadeia, das condições sociais que determinam a qualidade do ensino (WEISS, 2004).

Queiroz e Martins (2002) em seu livro Jogos e brincadeiras de A a Z, pontuam que a educação tem que levar em conta, segundo os documentos internacionais editados pela UNESCO.

Queiroz e Martins (2002) relatam que aprender a aprender, conhecer, selecionar, pesquisar, aprender a fazer, resolver problemas, qualificar-se, aprender a viver, com os outros e co a sociedade, envolve compreensão e respeito, aprender a ser, expressar opiniões, desenvolver personalidade, ser Humano.

Assim sendo como relata Meyer (2004) educar significa estar junto, construir, vivenciar, atuar, trocar, ceder, descobrir e humanizar estabelecendo uma interação dinâmica com o grupo. Educar significa também respeitar a criança: ela não é um mini-adulto, mas um ser que tem características, sensibilidade e lógica próprias. Assim, desenvolvimento, transformação, crescimento são partes deste processo global.

A educação toma assim, uma nova forma de ser, onde há a possibilidade do encontro do professor com o aluno bem como o grupo geral, buscando e respeitando o que foi tão bem exposto acima por Meyer.

1.3 Educação infantil e atividades lúdicas

De acordo com Teixeira (1995), vários são os motivo que induzi os educadores a apelar às atividades lúdicas e utilizá-las como um recurso pedagógico no processo de ensino-aprendizagem.

Segundo Schwartz (2002), a criança é automotivada para qualquer prática, principalmente a lúdica, sendo que tendem a notar a importância de atividades para o seu desenvolvimento, assim sendo, favorece a procura pelo retorno e pela manutenção de determinadas atividades.

Huizinga (1996), diz que numa atividade lúdica, existe algo “em jogo” que transcende as necessidades imediatas da vida e confere um sentido à ação.

Para Schaefer (1994), as atividades lúdicas promovem ou restabelecem o bem estar psicológico da criança. No contexto de desenvolvimento social da criança é parte do repertório infantil e integra dimensões da interação humana necessária na análise psicológica (regras, cadeias comportamentais, simulações ou faz-de-conta aprendizagem observacional e modelagem).

Toda a atividade lúdica pode ser aplicada em diversas faixas etárias, mas pode sofrer intervenção em sua metodologia de aplicação, na organização e no prover de suas estratégias, de acordo com as necessidades peculiares das faixas etárias. As atividades lúdicas têm capacidade sobre a criança de gerar desenvolvimento de várias habilidades, proporcionando a criança divertimento, prazer, convívio profícuo, estímulo intelectivo, desenvolvimento harmonioso, autocontrole, e auto-realização.

O educador deverá propiciar a exploração da curiosidade infantil, incentivando o desenvolvimento da criatividade, das diferentes formas de linguagem, do senso crítico e de progressiva autonomia. Como também ser ativo quanto às crianças, criativo e interessado em ajudá-las a crescerem e serem felizes, fazendo das atividades lúdicas na educação Infantil excelentes instrumentos facilitadores do ensino-aprendizagem.

As atividades lúdicas, juntamente com a boa pretensão dos educadores, são caminhos que contribuem para o bem-estar, entretenimento das crianças, garantindo-lhes uma agradável estadia na creche ou escola. Certamente, a experiência dos educadores, além de somar-se ao que estou propondo, irá contribuir para maior alcance de objetivos em seu plano educativo.

1.4 Formação e regulamentação da profissão do psicopedagogo

A Psicopedagogia constitui-se em uma justaposição de dois saberes – psicologia e pedagogia – que vai muito além da simples junção dessas duas palavras. Isto significa que é muito mais complexa do que a simples aglomeração de duas palavras, visto que visa a identificar a complexidade inerente ao que produz o saber e o não saber. É uma ciência que estuda o processo de aprendizagem humana, sendo o seu objeto de estudo o ser em processo de construção do conhecimento.

Surgiu no Brasil devido ao grande número de crianças com fracasso escolar e de a psicologia e a pedagogia, isoladamente, não darem conta de resolver tais fracassos. O Psicopedagogo, por sua vez, tem a função de observar e avaliar qual a verdadeira necessidade da escola e atender aos seus anseios, bem como verificar, junto ao Projeto Político-Pedagógico, como a escola conduz o processo ensino-aprendizagem, como garante o sucesso de seus alunos e como a família exerce o seu papel de parceira nesse processo.

Considerando a escola responsável por grande parte da formação do ser humano, o trabalho do Psicopedagogo na instituição escolar tem um caráter preventivo no sentido de procurar criar competências e habilidades para solução dos problemas. Com esta finalidade e em decorrência do grande número de crianças com dificuldades de aprendizagem e de outros desafios que englobam a família e a escola, a intervenção psicopedagógica ganha, atualmente, espaço nas instituições de ensino.

No Brasil, a formação do psicopedagogo vem ocorrendo em caráter regular e oficial desde a década de 70 em instituições universitárias de renome. Esta formação foi regulamentada pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) em cursos de pós-graduação e especialização, com carga horária mínima de 360h. O curso deve atender às exigências mínimas do Conselho Federal de Educação quanto à carga horária, critérios de avaliação, corpo docente e outras. Não há normas e critérios para a estrutura curricular, o que leva a uma grande diversificação na formação.

Os cursos de psicopedagogia formam profissionais aptos a trabalhar na área clínica e institucional, que pode ser a escolar, a hospitalar e a empresarial. No Brasil, só poderão exercer a profissão de psicopedagogo os portadores de certificado de conclusão em curso de especialização em psicopedagogia em nível de pós-graduação, expedido por instituições devidamente autorizadas ou credenciadas nos termos da lei vigente – Resolução 12/83, de 06/10/83 – que forma os especialistas, no caso, os então chamados “especialistas em psicopedagogia” ou psicopedagogos.

A lei que trata do reconhecimento da profissão de psicopedagogo está na câmara dos deputados federais. Psicopedagogos elaboraram vários documentos nos anos de 1995 e 1996, explicitando suas atribuições, seu campo de atuação, sua área científica e seus critérios de formação acadêmica, um trabalho que contou com a colaboração de muitos.

O psicopedagogo possui a Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp) como elo de interlocução. A ABPp iniciou com um grupo de estudos formado por profissionais preocupados com os problemas de aprendizagem, sendo que, atualmente, também busca o reconhecimento da profissão.

É do Deputado Federal Barbosa Neto o projeto de reconhecimento desse profissional (Projeto de Lei 3124/97). De início, o deputado propôs uma sondagem entre os políticos da época (1996) sobre a aceitação ou não do futuro projeto. Nesse período, o MEC organizava a nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB), promulgada em dezembro do mesmo ano.

A data que formalizou a entrada do Projeto de Lei é 14 de maio de 1997. Em 24 de junho desse mesmo ano, a ABPp assumiu, em visita à câmara, o reiterar do projeto junto às lideranças políticas do país, do que resultou a sua aprovação no dia 03 de setembro de 1997 pela Comissão de Trabalho de Administração e Serviço Público.

Após esta aprovação, o projeto foi encaminhado à 2ª Comissão, que é a de Educação, Cultura e Desporto, acontecendo, então, em 18 de junho de 1998 e 06 de junho de 2000, audiências para aprofundamento do tema. A aprovação nessa comissão ocorreu em 12 de setembro de 2001, após um trabalho exaustivo da relatora Marisa Serrano, do Deputado Federal Barbosa Neto e dos psicopedagogos que articularam tal discussão no Brasil.

Em 20 de setembro de 2001, houve mais um avanço político com a aprovação do Projeto de Lei 10891, da autoria do Deputado Estadual (SP) Claury Alves da Silva. O Projeto de Lei 10891 “autoriza o poder Executivo a implantar assistência psicológica e psicopedagógica em todos os estabelecimentos de ensino básico público, com o objetivo de diagnosticar e prevenir problemas de aprendizagem”.

Atualmente, o Projeto de Lei que regulamenta a profissão do Psicopedagogo está na Comissão de Constituição, Justiça e Redação para ser aprovado. Quando aprovado, irá para o Senado onde terá que passar por três comissões: Trabalho, Educação e Constituição, Justiça e Redação para, finalmente, ser sancionado pelo Presidente da República.

No momento, a profissão de Psicopedagogo, tendo em vista o trabalho de outras gestões da ABPp ( Associação Brasileira de Psicopedagogia ) e dessa última, tem amparo legal no Código Brasileiro de Ocupação. Isto quer dizer que já existe a ocupação de Psicopedagogo, porém, isso não é suficiente. Faz-se necessário que esta profissão seja regulamentada.

1.5 Atuação do Psicopedagogo: Preventiva e terapêutica

O psicopedagogo pode atuar em diversas áreas, de forma preventiva e terapêutica, para compreender os processos de desenvolvimento e das aprendizagens humanas, recorrendo a várias estratégias objetivando se ocupar dos problemas que podem surgir.

Numa linha preventiva, o psicopedagogo pode desempenhar uma prática docente, envolvendo a preparação de profissionais da educação, ou atuar dentro da própria escola. Na sua função preventiva, cabe ao psicopedagogo detectar possíveis perturbações no processo de aprendizagem; participar da dinâmica das relações da comunidade educativa a fim de favorecer o processo de integração e troca; promover orientações metodológicas de acordo com as características dos indivíduos e grupos; realizar processo de orientação educacional, vocacional e ocupacional, tanto na forma individual quanto em grupo.

Numa linha terapêutica, o psicopedagogo trata das dificuldades de aprendizagem, diagnosticando, desenvolvendo técnicas remediativas, orientando pais e professores, estabelecendo contato com outros profissionais das áreas psicológica, psicomotora. fonoaudiológica e educacional, pois tais dificuldades são multifatoriais em sua origem e, muitas vezes, no seu tratamento. Esse profissional deve ser um mediador em todo esse processo, indo além da simples junção dos conhecimentos da psicologia e da pedagogia.

O psicopedagogo pode atuar tanto na Saúde como na Educação, já que o seu saber visa compreender as variadas dimensões da aprendizagem humana. Da mesma forma, pode trabalhar com crianças hospitalizadas e seu processo de aprendizagem em parceria com a equipe multidisciplinar da instituição hospitalar, tais como psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e médicos.

No campo empresarial, o psicopedagogo pode contribuir com as relações, ou seja, com a melhoria da qualidade das relações inter e intrapessoais dos indivíduos que trabalham na empresa.

1.6 Atuação do psicopedagogo na instituição escolar e sua intervenção no contexto familiar

Diante do baixo desempenho acadêmico, as escolas estão cada vez mais preocupadas com os alunos que têm dificuldades de aprendizagem, não sabem mais o que fazer com as crianças que não aprendem de acordo com o processo considerado normal e não possuem uma política de intervenção capaz de contribuir para a superação dos problemas de aprendizagem.

Neste contexto, o psicopedagogo institucional, como um profissional qualificado, está apto a trabalhar na área da educação, dando assistência aos professores e a outros profissionais da instituição escolar para melhoria das condições do processo ensino-aprendizagem, bem como para prevenção dos problemas de aprendizagem.

Por meio de técnicas e métodos próprios, o psicopedagogo possibilita uma intervenção psicopedagógica visando à solução de problemas de aprendizagem em espaços institucionais. Juntamente com toda a equipe escolar, está mobilizado na construção de um espaço adequado às condições de aprendizagem de forma a evitar comprometimentos. Elege a metodologia e/ou a forma de intervenção com o objetivo de facilitar e/ou desobstruir tal processo.

Os desafios que surgem para o psicopedagogo dentro da instituição escolar relacionam-se de modo significativo. A sua formação pessoal e profissional implicam a configuração de uma identidade própria e singular que seja capaz de reunir qualidades, habilidades e competências de atuação na instituição escolar.

A psicopedagogia é uma área que estuda e lida com o processo de aprendizagem e com os problemas dele decorrentes. Acreditamos que, se existissem nas escolas psicopedagogos trabalhando com essas dificuldades, o número de crianças com problemas seria bem menor.

Ao psicopedagogo cabe avaliar o aluno e identificar os problemas de aprendizagem, buscando conhecê-lo em seus potenciais construtivos e em suas dificuldades, encaminhando-o, por meio de um relatório, quando necessário, para outros profissionais – psicólogo, fonoaudiólogo, neurologista, etc. que realizam diagnóstico especializado e exames complementares com o intuito de favorecer o desenvolvimento da potencialização humana no processo de aquisição do saber.

Segundo Fermino (2001) as evidências sugerem que um grande número de alunos possui características que requerem atenção educacional diferenciada. Neste sentido, um trabalho psicopedagógico pode contribuir muito, auxiliando educadores a aprofundarem seus conhecimentos sobre as teorias do ensino-aprendizagem e as recentes contribuições de diversas áreas do conhecimento, redefinindo-as e sintetizando-as numa ação educativa. Esse trabalho permite que o educador se olhe como aprendente e como ensinante.

Além do já mencionado, o psicopedagogo está preparado para auxiliar os educadores realizando atendimentos pedagógicos individualizados, contribuindo para a compreensão de problemas na sala de aula, permitindo ao professor ver alternativas de ação e ver como as demais técnicas podem intervir, bem como participando do diagnóstico dos distúrbios de aprendizagem e do atendimento a um pequeno grupo de alunos.

Para o psicopedagogo, a experiência de intervenção junto ao professor, num processo de parceria, possibilita uma aprendizagem muito importante e enriquecedora, principalmente se os professores forem especialistas nas suas disciplinas. Não só a sua intervenção junto ao professor é positiva. Também o é a sua participação em reuniões de pais, esclarecendo o desenvolvimento dos filhos; em conselhos de classe, avaliando o processo metodológico; na escola como um todo, acompanhando a relação professor e aluno, aluno e aluno, aluno que vem de outra escola, sugerindo atividades, buscando estratégias e apoio.

Segundo Bossa (1994) cabe ao psicopedagogo perceber eventuais perturbações no processo aprendizagem, participar da dinâmica da comunidade educativa, favorecendo a integração, promovendo orientações metodológicas de acordo com as características e particularidades dos indivíduos do grupo, realizando processos de orientação. Já que no caráter assistencial, o psicopedagogo participa de equipes responsáveis pela elaboração de planos e projetos no contexto teórico/prático das políticas educacionais, fazendo com que os professores, diretores e coordenadores possam repensar o papel da escola frente a sua docência e às necessidades individuais de aprendizagem da criança ou, da própria ensinagem.

O estudo psicopedagógico atinge seus objetivos quando, ampliando a compreensão sobre as características e necessidades de aprendizagem de determinado aluno, abre espaço para que a escola viabilize recursos para atender às necessidades de aprendizagem. Para isso, deve analisar o Projeto Político-Pedagógico, sobretudo quais as suas propostas de ensino e o que é valorizado como aprendizagem. Desta forma, o fazer psicopedagógico se transforma podendo se tornar uma ferramenta poderosa no auxílio de aprendizagem.

O conhecimento e o aprendizado não são adquiridos somente na escola, mas também são construídos pela criança em contato com o social, dentro da família e no mundo que a cerca. A família é o primeiro vínculo da criança e é responsável por grande parte da sua educação e da sua aprendizagem.

É por meio dessa aprendizagem que a criança é inserida no mundo cultural, simbólico e começa a construir seus conhecimentos, seus saberes. Contudo, na realidade, o que temos observado é que as famílias estão perdidas, não estão sabendo lidar com situações novas: pais trabalhando fora o dia inteiro, pais desempregados, brigas, drogas, pais analfabetos, pais separados e mães solteiras. Essas famílias acabam transferindo suas responsabilidades para a escola, sendo que, em decorrência disso, presenciamos gerações cada vez mais dependentes e a escola tendo que desviar de suas funções para suprir essas necessidades.

A escola, como observa IGEA (2005) veio ocupar uma das funções clássicas da família que é a socialização: A escola se converteu na principal instituição socializadora, no único lugar em que os meninos e as meninas têm a possibilidade de interagir com iguais e onde se devem submeter continuamente a uma norma de convivência coletiva.

Considerando o exposto, cabe ao psicopedagogo intervir junto à família das crianças que apresentam dificuldades na aprendizagem, por meio, por exemplo, de uma entrevista e de uma anamnese com essa família para tomar conhecimento de informações sobre a sua vida orgânica, cognitiva, emocional e social.

O que a família pensa, seus anseios, seus objetivos e expectativas com relação ao desenvolvimento de seu filho também são de grande importância para o psicopedagogo chegar a um diagnóstico.

Vale lembrar o que diz Bossa (1994) sobre o diagnóstico:

O diagnóstico psicopedagógico é um processo, um contínuo sempre revisável, onde a intervenção do psicopedagogo inicia, segundo vimos afirmando, numa atitude investigadora, até a intervenção. É preciso observar que esta atitude investigadora, de fato, prossegue durante todo o trabalho, na própria intervenção, com o objetivo de observação ou acompanhamento da evolução do sujeito.

Souza (1995) diz que fatores da vida psíquica da criança podem atrapalhar o bom desenvolvimento dos processos cognitivos, e sua relação com a aquisição de conhecimentos e com a família, na medida em que atitudes parentais influenciam sobremaneira a relação da criança com o conhecimento.

Para Polity (2009) uma criança pode desistir da escola porque aceita uma responsabilidade emocional, encarregando-se do cuidado de algum membro da família. Isso se produz, em resposta à depressão da mãe e da falta de disponibilidade emocional do pai que, de maneira inconsciente, ratifica a necessidade que tem a esposa, que seu filho a cuide.

A intervenção psicopedagógica também se propõe a incluir os pais no processo, por intermédio de reuniões, possibilitando o acompanhamento do trabalho realizado junto aos professores. Assegurada uma maior compreensão, os pais ocupam um novo espaço no contexto do trabalho, abandonando o papel de meros espectadores, assumindo a posição de parceiros, participando e opinando.

1.7 Contribuição da psicopedagogia na dificuldade de aprendizagem

Psicopedagogia, ciência nova que estuda o processo de aprendizagem e as suas dificuldades (Scoz,1996), muito tem contribuído para explicar a causa da dificuldade de aprendizagem, pois tem como objeto central de estudo o processo humano de aquisição de conhecimento: seus padrões evolutivos normais e patologias bem como a influência do meio (família, escola, sociedade) no seu desenvolvimento.

A partir de uma visão interdisciplinar, a Psicopedagogia observou que o fracasso escolar deixou de ser algo patológico, deixou de ser tratado como “doença”. Segundo Cypel (1986) a impressão que causava ao atender crianças com dificuldade de aprendizagem, na época em que havia a crença de que o fracasso estava associada a problemas genéticos e físicos, era a de que convivíamos em nossas salas de aulas com uma população de anormais, visto que, ao serem avaliados pelos médicos em análises clínicas, o diagnóstico de Disfunsão Cerebral chegava a índices de 40%.

A Psicopedagogia, por contar com a contribuição de várias áreas do conhecimento-Psicologia, Sociologia, Antropologia, Lingüística, Neuropsicologia e outras-, assume o papel de desmistificadora do fracasso escolar, entendendo o erro apresentado pelo indivíduo como um processo de construção do seu conhecimento como fator importante no desenvolvimento das interações sociais.

Inicialmente o profissional da Psicopedagogia só atuava em clínicas atendendo aqueles que, encaminhados pelas escolas, precisavam de uma avaliação mais apurada da dificuldade escolar.

Mesmo sendo convocado para ajudar a desvendar as causas do fracasso escolar, este profissional encontra, ainda hoje, muitas resistências configuradas em omissões de dados necessários para a composição do diagnóstico do sujeito que não quer aprender.

Para a avaliação da situação, o psicopedagogo, no encontro inicial com o sujeito aprendente e seus familiares, na anamnese, usa dois recursos importantíssimos: o “olhar” e a “escuta” psicopedagógica, que o auxiliará a captar através do jogo, do silêncio, das expressões do sujeito, dados que possam explicar a causa do não aprender.

A história pessoal do indivíduo, a função que ele desempenha na família, o conhecimento da vida pessoal da criança ou jovem, como ele lida com a sua ansiedade, com o medo do desconhecido e das mensagens inconscientes existentes no discurso dos pais ou responsáveis também fazem parte do trabalho de investigação do caso.

Na composição do diagnóstico, o psicopedagogo considera os outros sistemas – escola, professor e família – que interferem positiva ou negativamente no processo de aprendizagem.

Em relação à escola, avalia-se a forma como está organizada, inclusive a sua estruturação hierárquica, sua orientação de trabalho, os conflitos internos e o seu projeto pedagógico.

Os professores, observa-se:

• a forma de circulação do conhecimento utilizada;
• o comprometimento com o trabalho;
• o zelo pelo aluno e pela aprendizagem;
• as transferências realizadas durante a interação com cada estudante;
• o estímulo que é capaz de provocar ao apresentar seu saber;
• a formação que possui, que o habilitará a identificar as dificuldades escolares a partir da interpretação dos processos mentais que levaram o aluno a responder desta ou daquela forma;
• a conduta pedagógica – se respeita ou não o conhecimento trazido pelo aluno.

As pontuações feitas na observação familiar são:

• sua função social e as funções de cada elemento da família;
• as formas de circulação do conhecimento;
• as normas que a regulamentam;
• as resistências;
• a identidade dessa família (ideologias, crenças etc);
• as expectativas e conflitos.

No entanto, a partir dos atendimentos, constata-se a necessidade de se realizar uma atuação preventiva junto às instituições escolares na busca da identificação precoce de um número maior de indivíduos com dificuldade de aprendizagem.

Na atuação institucional, junto com educadores, o psicopedagogo, através de discussões e atividades lúdicas, contribui para o esclarecimento das dificuldades escolares, que podem ser decorrentes da organização administrativa do sistema escolar e familiar, das relações truncadas entre professor e aluno, das exigências pedagógicas inadequadas, das expectativas familiares, das formas de circulação do conhecimento do professor e da família e das modalidades de aprendizagem que, segundo Alicia Fernandez, são passadas de pai para filho, determinando como serão as relações do sujeito aprendente com o saber, levando em consideração as crenças, os mitos, as mensagens repassadas na comunicação familiar.

O psicopedagogo poderá, também, auxiliar o professor a investir numa prática pedagógica que seja respaldada na visão psicopedagógica de educar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O lúdico (brincar e jogar) favorece a aprendizagem infantil, visto que leva a criança a pensar de forma sistemática, o que lhe permite construir conhecimentos a respeito dos fenômenos sociais, culturais e naturais.

O lúdico contribui para a expansão mental, à medida que estimula a criança a experimentar e passar emoções, sentimentos, desejos, fantasias e representar papéis sociais, favorecendo o desenvolvimento da linguagem e comunicação, da motricidade, da integração psicomotora, das habilidades perceptivo, motora e psicossocial, facilitando o intercâmbio social.

Sendo assim, observa-se que o lúdico está mais relacionado a estímulos internos que as contingências externas, ou seja, a criança é atraída por alguma brincadeira graças a forças internas de sua evolução. Deste modo, a criança busca no meio exterior as brincadeiras e os jogos que lhe permitem satisfazer suas necessidades. Assim, deve-se dar à criança a possibilidade de brincar, porque essa atividade resulta no desenvolvimento integral, no envolvimento afetivo, no convívio social e no desenvolvimento de novas competências.

A criança ao brincar despende energia, imagina, constrói e cria alternativas para resolver os conflitos que venham a surgir no momento. Através dessa atividade, ela expressa habilidades e conhecimentos, manifesta sua forma de ver o mundo, aprimora o relacionamento interpessoal e intrapessoal, dá vazão aos seus desejos e fantasias, além de adquirir cognitivamente diferentes conceitos.

Em função disso, propõe-se que o lúdico deve ser trabalhado na clínica psicopedagógica como uma ferramenta de auxílio das dificuldades de aprendizagem, mas deve atender às necessidades de cada criança, dentro do seu nível de desenvolvimento psicossocial, e auxiliar no processo de construção da auto-estima.

Sendo assim, a psicopedagogia do lúdico ganha uma nova dimensão no modo de ser trabalhado em sala de aula, ou seja, trata-se de uma proposta metodológica que visa estimular na criança a observação, a descoberta e o interesse na assimilação dos conteúdos programados pela escola.

Deste modo, a criança, ao brincar, aprende a estrutura lógica da brincadeira e o conteúdo sociocultural, pois essa atividade traz para a criança contribuições em vários aspectos, como: saber perder, enfrentar desafios, fazer escolhas, tomar decisões, desenvolver a criatividade, apresentar soluções, realizar descobertas etc. Além disso, favorece que ela torne-se mais segura em seus trabalhos, aprenda a superar dificuldades e a conviver com a diversidade cultural.

Nessa direção, entende-se que essa atividade poderá ajudar o educador a organizar melhor sua prática, levando em conta as necessidades da criança. Porém, o conteúdo escolar necessita estar organizado pedagogicamente, com objetivos claros e bem definido, para que esse processo se efetive.

Neste sentido, vale ressaltar, como salienta Piaget, que a escolha do material deve ser feita de forma que a criança entenda os conceitos. Esse autor esclarece que a criança aprende e desenvolve suas estruturas cognitivas ao lidar com brincadeiras e jogos, pois estes estão impregnados de aprendizagens.

As regras preestabelecidas nessas atividades possibilitam à criança tornar-se mais socializada, à medida que assimila os conhecimentos e os transformam em um dado de aprendizagem.

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