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PIERRE BOURDIEU – PEDAGOGIA

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PIERRE BOURDIEU – PEDAGOGIA
2010

Bourdieu revolucionou o enfoque sociológico de sua época ao refutar a teoria de que através da escolarização as diferenças sócio-culturais nivelar-se-iam afirmando, inclusive, que a escola fomentaria o abismo existente entre as classes e que os diplomas auferidos de nada adiantavam para alcançar a tão sonhada ascensão em uma sociedade tão estratificada, onde os privilégios já eram determinados desde o nascimento. Esta escola funcionava sim, como uma produtora dos padrões sociais, lingüísticos e comportamentos das classes dominantes, sendo vista como uma extensão do aprendizado familiar. Isto explicaria porque as classes com maior poder aquisitivo teriam um melhor desempenho escolar que as classes menos privilegiadas, que não dominariam os significados e a linguagem propalados no meio escolar, concluindo que, alcançar a mobilidade social através da escolaridade era bem improvável.

As classes legavam a competência cultural e lingüística através do capital econômico (bens financeiros, patrimônio), capital cultural (diplomas, etiquetas, erudição) e cultura geral (gostos artísticos, gastronômicos, desportivos, etc), que em sua grande parte, era perpetuada.

Bourdieu observou que a escolha da consorte era fundamentada no pertencimento ao mesmo grupo, na partilha de gostos comuns e que o maior ou menor grau de incentivo à vida acadêmica dos filhos estava diretamente relacionado ao retorno provável deste investimento no campo profissional e até mesmo material, este grau de investimento acontecia em três escalas:

– os menos favorecidos economicamente e culturalmente investiam o mínimo na educação dos seus filhos, em carreiras curtas e de rápido acesso ao mercado de trabalho, desmotivados pelo baixo retorno, muitas vezes incerto e a longo prazo.
– a classe burguesa investia pesada e sistematicamente na formação acadêmica dos filhos, na esperança de que os mesmos ascendessem socialmente ao grupo das elites. Este grupo renunciava aos prazeres imediatos em função de projetos futuros (ascetismo), tinham menos filhos (malthusianismo) e valorizam a cultura como um meio de atingir a um fim.
– a elite econômica e cultural, numa posição laxista (o sucesso escolar é visto como nato), livre da disputa pela ascensão social devido ao fato de já ocuparem o topo, vêm o meio acadêmico apenas como a legitimação deste “direito”.

Muitos autores contestam as concepções bourdieurianas:

– Percheron acredita que o meio onde a pessoa vive (rural ou urbano) e a cultura religiosa influenciam na trajetória acadêmica,
– Lahire – ressalta a importância da dinâmica interna de cada família e das relações sociais e afetivas existentes entre seus membros que são fatores determinantes quando da decisão de investirem ou não na educação dos filhos (não é apenas a classe que é determinante na formação do indivíduo, mas também a família, a sociedade, etc, tem sua contribuição).
– Singly ressalta que a transmissão da herança cultural está intrinsecamente ligada à receptividade por parte dos filhos.

Em sua obra, A Reprodução, Bourdieu contesta a visão ingênua e otimista de que a escola era o caminho para a ascensão social através do poder transformador, ao contrário, ela exercia o poder simbólico das classes dominantes que impunham sua ideologia ao sistema educacional, transformando-a numa instituição seletiva e difusora desta ideologia, tornando-se um instrumento de reprodução das desigualdades sociais ao tratarem de modo igual os desiguais (a dualidade entre o aluno esforçado advindo de uma camada social mais baixa e o aluno brilhante e precoce pertencente a “elite” intelectual).

Bourdieu conseguiu enxergar a escola como uma instituição não neutra, a bem da verdade, uma instituição que privilegiava aqueles que atendessem as exigências implícitas por ela.

Comentário/crítica:

Com sua crítica à eufórica visão de que a escola era o caminho que eliminaria as diferenças sócio-culturais, modelo vigente até os meados do século passado, Bourdieu revoluciona a sociologia do século XX através de idéias aceitas e aplicáveis até os dias atuais. Apesar de sua teoria ter apresentado algumas limitações tais como desconsiderar a receptividade ou não dos filhos a educação fornecida pelos pais na explicação das desigualdades escolares; não levar em conta o mérito da influência do local de moradia (urbano/rural) e a religião adotada pela família na avaliação do sucesso escolar (as crianças criadas no meio rural desde cedo desviavam o foto da educação para entrarem no mercado de trabalho e suprirem as necessidades econômicas da família), além das relações sociais e afetivas existentes entre os membros da família (habitus familiar, que seria ou não incorporado pelos membros, dependendo do grau de empatia entre si), fazer uma análise crítica a seu trabalho consiste em uma árdua tarefa. Não podemos deixar de levar em conta que, apesar de a educação nos países desenvolvidos ter mudado de enfoque, contradizendo em muito as teorias bourdieurianas, muitas dessas realidades observadas aplicam-se em países do terceiro mundo, aonde quanto mais fácil é o acesso a um título escolar, maior a tendência de sua desvalorização. Se por um lado Bourdieu fez bem em criticar a imposição da cultura dominante sobre a cultura das massas, que relegava a um plano inferior as particularidades de expressar-se e as tradições das camadas menos favorecidas, por outro lado, criticar a transmissão desta cultura das elites pelos professores às camadas menos favorecidas não deixa de ser um retrocesso evolutivo (a escola fica na posição de supridora destas carências pelo fato destes alunos menos favorecidos não terem recebido de suas famílias os padrões lingüísticos e culturais aceitos como socialmente valorizados).

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