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quarta-feira, novembro 24, 2021

Adolescência

O presente trabalho monográfico traz uma reflexão sobre a adolescência, analisando essa fase do desenvolvimento humano, em seus aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Buscamos, a princípio, abordar as mudanças por que passou o termo adolescência ao longo dos tempos, as concepções difundidas historicamente e seu significado social. Num segundo momento, discutiremos as mudanças biofisiológicas na adolescência, na perspectiva de entender as transformações físicas que ocorrem no corpo do adolescente menino e menina durante a puberdade. Além de analisarmos ainda os efeitos psicossociais decorrentes das mudanças biológicas. Num terceiro momento do trabalho trouxemos a reflexão e a compreensão da adolescência não apenas em suas transformações biológicas, mas também destacamos a influência do meio social para o desenvolvimento dos mesmos, levando em consideração a importância de instituições sociais como: família, escola e sociedade, para a constituição do indivíduo adolescente e sua inserção no meio social.

Através de estudo bibliográfico nos embasamos em autores como: Carvajal(2001), Campos(1985), Gallantin(1978), Palácios(1995), dentre outros, para melhor compreensão do estudo. O trabalho busca demonstrar que essa fase do desenvolvimento humano não é afetada apenas por fatores biológicos, mas que o meio em que está inserido tem uma enorme influência na formação da personalidade dos mesmos. Enfim, que a adolescência deve ser compreendida como um processo de transição biopisicossocial da infância para a idade adulta, onde estão presentes fortes influências do meio social, e que os aspectos biológicos desenvolvidos na adolescência são apenas fenômenos universais para todos os membros da espécie por englobar as transformações físicas pelas quais todos os indivíduos passarão.

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO
1.1 ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS
2. UM RESGATE HISTÓRICO SOBRE A ADOLESCÊNCIA
2.1 CONCEITO DE ADOLESCÊNCIA
2.1.1 Adolescência Amputada
2.1.2 Adolescência em Condensação Simbólica
2.1.3 Adolescência Exuberante
3. AS MUDANÇAS BIOFISIOLÓGICAS NA ADOLESCÊNCIA
3.1 ADOLESCÊNCIA E PUBERDADE: As Mudanças Biológicas
3.1.1 A Puberdade para Eles
3.1.2 A Puberdade para Elas
3.2. OS EFEITOS PSICOSSOCIAIS DECORRENTES DAS MUDANÇAS BIOLÓGICAS
3.3 AS CRISES PRÓPRIAS DA ADOLESÊNCIA
3.3.1 A Crise de Identidade
3.3.2 A Crise de Autoridade
3.3.3 A Crise Sexual
4. A ADOLESCÊNCIA E A INFLUÊNCIAS DAS INSTITUIÇÕES SOCIAIS
4.1 A FAMÍLIA COMO PRIMEIRA EXPRESSÃO DE SOCIEDADE
4.2 O PAPEL SOCIAL DA ESCOLA NA FORMAÇÃO DO ADOLESCENTE
4.3 ADOLESCÊNCIA E SOCIEDADE
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
BIBLIOGRAFIA
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho monográfico faz uma discussão sobre a adolescência como um processo de construção biológico, psicológico e social. Buscamos como objetivo principal entender a influência do meio social, especialmente de instituições família, escola e sociedade no desenvolvimento e na formação desses indivíduos durante todo o processo de transição de criança à fase adulta.

Para escolha do objeto de estudo foram utilizados critérios que seguiram os seguintes aspectos: enquanto estudante de pedagogia e conhecedora de algumas teorias nas quais fazem analogia a adolescência como uma fase difícil apenas por conta das transformações biológicas, e segundo essas teorias o adolescente é o único culpado de esse período ser tão conflitivo, e, sobretudo abranger o estudo na área, já que quando diz respeito à adolescência como um processo biopsicossocial as pesquisas nunca serão demais.

Sabemos que devido a tantas transformações biológicas, conseqüentemente acontecem uma série de transformações que acabam abalando o psicológico desses indivíduos. Sendo assim, torna-se imprescindível o apoio de instituições que possam contribuir para o bom desenvolvimento dos adolescentes.

Outro aspecto da temática, que despertou-me o interesse, constituiu na minha experiência profissional, enquanto funcionária de uma instituição escolar onde o número de adolescente é bastante expressivo. Nessa instituição presenciei por diversas vezes situações conflitivas de adolescentes, que por sua vez não tem uma influência positiva da sociedade, levando-os a apresentar nenhuma perspectiva de vida. E como boa parte não possuem uma boa estrutura familiar, acabam por apresentar esses comportamentos conflituosos.

Pretendemos analisar a adolescência como uma das fases de desenvolvimento humano, focalizando seus aspectos biopsicossociais compreender ainda as mudanças pelas quais passou o conceito de adolescência ao longo dos tempos; analisar os efeitos psicossociais decorrentes das transformações biológicas; e por fim, identificar como as instituições sociais podem influenciar no desenvolvimento dos mesmos e qual a função da família e da escola para a adaptação desses indivíduos à sociedade.

Partindo desse pressuposto, fez-se necessário o levantamento de uma problemática séria e relevante: Qual a importância da adolescência ser analisada não só pelos seus aspectos biológicos, mas também psicossociais? Para responder a esta indagação que norteia o nosso trabalho, abordamos conceitos como: adolescência, mudanças biofisiológicas, valores sociais dentre outros afins, no intento de compreender os caminhos construídos, que venham dar corpo ao assunto em questão.

1.1 ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS

Apresentaremos as estratégias metodológicas deste estudo, explicitando os percursos metodológicos, como se deu todo processo de desenvolvimento do trabalho, os caminhos percorridos para que pudéssemos chegar aos nossos objetivos e a possíveis conclusões.

A metodologia utilizada para o aprofundamento da problemática a ser investigada pressupõe uma abordagem de natureza qualitativa. Por ser possível através da mesma compreender os aspectos objetivos e subjetivos nas causas que levam à analisar a adolescência no seu processo de construção biopsicosocial. Conforme MINAYO (1994, p. 21):

A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. (…) Ela se preocupa com o nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.

Para desenvolver uma análise crítica que nos proporcione um melhor embasamento da temática trabalhamos com a pesquisa bibliográfica, analisamos as teorias que amparam o tema em questão a partir das leituras e fichas analíticas dos seguintes teóricos: CARVAJAL (2001), CAMPOS (1985), GALLANTIN (1978), PALÁCIOS (1995) dentre outros afins, além de artigos e textos pesquisados na Internet e Jornais.

E para dar corpo ao estudo é que nos propomos em abordar o tema adolescência, suas modificações biopisicológicas e as influências das instituições sociais na formação do indivíduo adolescente – utilizamo-nos da seleção de algumas categorias analíticas como: adolescência, aspectos do desenvolvimento biológico e psicológico, relações sociais, identidade e valores, instituições sociais: escola, família e sociedade, no sentido de compreender com maior rigor e profundidade elementos que estruturassem o processo de investigação, conferindo-lhe o caráter científico.

A estrutura desse trabalho está dividida da seguinte forma. No primeiro capítulo fizemos um regaste histórico da adolescência, tornando perceptíveis as mudanças por que passou o significado dessa fase do desenvolvimento humano ao longo dos tempos. Explicitamos ainda o conceito de adolescência segundo alguns teóricos e como esta fase passou a ser vista dentro da sociedade.

No segundo capítulo falamos a respeito das mudanças biofisiológicas na adolescência, dando ênfase a uma etapa do crescimento humano marcado por grandes transformações físicas, a puberdade. Ressaltamos como se desenvolve a puberdade para eles/meninos e para elas/meninas, e quais os efeitos psicossociais decorrentes dessas mudanças biológicas. Destacamos ainda as crises que são próprias da adolescência, falando um pouco de cada uma e como essas se desenvolvem no indivíduo adolescente.

No terceiro capitulo apresentaremos a adolescência e a influência das instituições sociais, já que ao longo do nosso estudo sempre procuramos abordar a adolescência como um processo de construção social. Falamos da importância da família como primeira expressão de sociedade, do papel social da escola na formação do adolescente, já que é na instituição escola que esse indivíduo passa a ter contanto com figuras de adultos que não são pessoas da família. E por fim apresentamos uma relação da adolescência e sociedade, como essa instituição pode contribuir para que o adolescente possa chegar a ser um adulto seguro e de boa personalidade.

Nesse sentido, pretendemos com esse trabalho apresentar uma visão diferente sobre a adolescência, desmistificar essa visão de que o adolescente é um ser difícil, e que todos esses conflitos pelos quais passam os adolescentes englobam uma série de fatores que não são apenas as mudanças biológicas. E ainda questionar que a adolescência é sem dúvida um processo de construção social, que é através das instituições que englobam toda a sociedade que se dá todo o processo de direcionamento da adolescência.

Não pretendemos que esse estudo seja um ponto final, mas uma abertura a estudos posteriores, cada vez mais aprofundados a fim de ajudar a entender o papel da sociedade como um todo, no desenvolvimento do adolescente. Que este estudo possa apontar alternativas a serem seguidas como exemplo de atuação, para que possamos multiplicar nossos saberes e olhares socialmente, principalmente para o desenvolvimento da adolescência.

2. UM RESGATE HISTÓRICO DA ADOLESCÊNCIA

O presente capítulo tem como objetivo tornar perceptíveis as mudanças por que passou o significado da adolescência ao longo dos tempos. As concepções de alguns pensadores sobre o tema estudado, mostrar também alguns tipos de adolescência dentro de cada cultura. Também defini-la dentro dos estudos e compreensões feitos e contextualizá-la a partir da organização social da época em que se desenvolve o estudo.

No decurso do estudo de teorias psicológicas sobre a adolescência, observamos que essa fase da vida humana nem sempre existiu como um período específico de desenvolvimento como um estágio intermediário entre a infância e a idade adulta. Para reforçar essa afirmação, GALLATIN (1978, p. 10), nos diz que:

O conceito de adolescência é relativamente novo para o mundo ocidental, apesar de ser tido como um período de tempestade e tormenta, como um período mais complexo que a infância, não aparece antes do século dezoito e não se difunde amplamente antes do século vinte.

Há evidências de que há três ou quatro séculos a cultura ocidental não fazia uma distinção particular entre infância, adolescência e maturidade. Pois já na infância as crianças começavam a serem tratadas como adultas, fazer o trabalho adulto, enfim, um exemplo disso são as pinturas anteriores ao Renascimento que retratavam as crianças como adultos em miniaturas, ao invés das figuras angelicais às quais estamos acostumados a ver. ÁRIES apud GALLATIN (1978, p. 32) escreve que:

…Era prática comum entre todos, a não ser entre as classes mais privilegiadas, colocar seus filhos para trabalhar desde a tenra idade de sete anos. (…) A este ponto, elas começavam a aprender um ofício, ou seja, ajudar seus pais nos trabalhos no campo, mas elas não eram protegidas das asperezas da vida como são as crianças.

Nesse sentido, a criança já passava direto para o estágio adulto, sem passar pelo processo de desenvolvimento psicológico que hoje é concebido de adolescência.

Na Grécia Antiga as crianças cresciam no gineceu , escutando as canções, as fábulas moralizantes e as histórias da mitologia. A responsabilidade familiar com relação à criança e o adolescente era deixada de lado, passando para instituições, como a escola, por exemplo, encarregadas de tal missão, formar a moral e a personalidade das crianças e jovens.

No Império Romano, tanto o menino como a menina tinham seus destinos separados, até poder abandonar suas vestes infantis e se tornar adultos. Para melhor compreensão dessa afirmativa GROSSMAN [online] (1998, p. 02) afirma que:

No Império Romano aos doze anos, os destinos de meninas e meninos se separavam, assim como dos ricos e dos pobres. Os romanos de boa família, aos doze anos, deixavam o ensino elementar; sob os cuidados de um “gramático” ou professor de literatura, e estudavam os autores clássicos e a mitologia, com o objetivo de enfeitar o espírito. Aos catorze anos, abandonavam as vestes infantis, tendo o direito de fazer tudo o que o jovem gostasse de fazer.

Assim não existia uma distinção entre a maior e a menor idade. Esses indivíduos, ao completarem uma idade especifica, através de um ritual (em algumas culturas) já se tornavam adultos. Especialmente os meninos, podiam optar por uma carreira pública, as meninas já estavam preparadas para o casamento, enfim, automaticamente o ser humano já passava de criança à fase adulta. Ainda conforme GROSSMAN [online] (1998, p. 02)

Especificamente os meninos, aos dezesseis ou dezessete anos, podiam optar pela carreira pública, entrar no exército. Não existia “maioridade”, não havia menores, e sim impúberes, que não mais o seriam quando o pai ou o tutor considerasse que estavam na idade de tomar as vestes de homem e cortar o primeiro bigode.

Nesta época a palavra adolescente era muito difícil de ser pronunciada, pelo fato de que não havia nenhuma alusão ao termo adolescência. Conforme GALLATIN (1978, p. 06): “Bastante longe daquilo que o pensamento ocidental consideraria como acreditável, há evidências de que há três ou quatro séculos a cultural ocidental não fazia uma distinção particular entre infância, adolescência e maturidade”. A partir da Idade Média com a influência de Aristóteles foi que as “idades da vida” passaram a ocupar um lugar nas enciclopédias e o termo adolescência passou a estar presente em alguns discursos.

A partir do século XIX, a revolução industrial provoca muitas mudanças de maneira notável. Com a industrialização, o estudo e a capacitação tornaram-se fatores imprescindíveis ao desenvolvimento. Ainda sim, a classe operária não tinha as mesmas oportunidades de uma escolarização prolongada como a classe média, sendo submetido ao mundo do trabalho muito cedo. Mas, com o passar do tempo essa classe operária também foi tendo a oportunidade de ingressar na escola e retardar seu ingresso na vida profissional. PALÁCIOS (1995, p. 38) nos afirma que:

Embora os filhos dos operários continuassem se incorporando ao mundo do trabalho em idades precoces, os filhos das classes médias e altas tenderam a permanecer nas escolas que aumentaram em número(…). Finalmente, os filhos dos operários também passaram a adotar o mesmo estilo de vida, quando, conforme avançava o século , foi sendo introduzido, nos diversos países ocidentais, o conceito de escolaridade obrigatória, o que foi se ampliando até chegar na atualidade…

Conforme GROSSMAN [online] (1998, p. 04) “este é um período marcado pelo fortalecimento dos Estados Nacionais, pela redefinição dos papéis sociais de mulheres e crianças, pelo avanço acelerado da industrialização e da técnica e pela organização dos trabalhadores”.

Assim, as mudanças com relação ao conceito de adolescência vieram se dar com o prolongamento da escolaridade até os dezoito ou vinte anos apenas para os jovens mais privilegiados, essas transformações ajudaram a diferenciar a infância da idade adulta, mas mesmo depois que tal prática tornou-se amplamente estabelecida à infância e a adolescência continuaram a ser confundidas. ARIÉS apud GALLATIN (1978, p.11) afirma que: “… Dentro do mundo escolar, o adolescente era separado do adulto e confundido com a criança, com a qual compartilhava a humilhação do castigo corporal…”.

Para tanto GALLATIN (1978, p.11), continua dizendo que:

Apenas quando os exércitos do século dezoito começaram a tentar atrair os ‘jovens gloriosos’ para suas fileiras é que algo semelhante ao moderno conceito de adolescência começou a emergir e, mesmo assim, numa forma rudimentar.

A partir de então, com a permanência do adolescente na escola retardou a incorporação ao status adulto, formou-se uma nova fase de desenvolvimento humano com características próprias, tendo como particularidade o adiamento de assumir responsabilidades adultas. Para GROSSMAN [online] (1998, p. 05 )

Neste momento a figura do adolescente é delineada com precisão. Este período é delimitado, no menino entre a primeira comunhão e o bacharelado, e na menina, da primeira comunhão ao casamento. Ao longo do século XIX, a adolescência passa a ser reconhecida como um ‘momento crítico’ da existência humana. A adolescência é temida como uma fase de potenciais riscos para o próprio indivíduo e para a sociedade como um todo.

Sendo assim, este período tornou-se solidamente institucionalizado como um período de mudanças, de conflitos, onde não se é mais criança, mas ainda não se é adulto, tendo sido representado, na nossa cultura, na nossa sociedade como adolescência.

Como podemos ver ao longo desse tópico a obrigatoriedade da escolarização teve uma importante influência para o surgimento da adolescência, pelo fato de que o indivíduo tinha como dever, permanecer na escola no período que intermediava a infância e a idade adulta tendo assim que retardar o ingresso no mundo do trabalho. A partir de então houve também a necessidade de criar um conceito para esse período, surgindo assim o termo adolescência, no qual, o conceito, falaremos no tópico seguinte.

2.1 O CONCEITO DE ADOLESCÊNCIA

A adolescência é um estágio intermediário entre a infância e a idade adulta, onde o ser humano passa por uma série de mudanças e crises. Inicia-se por volta dos doze e estende-se até mais ou menos os vinte anos. Esse período é sem dúvida a mais turbulenta de todas as fases, pois o indivíduo entra numa preparação para ingressar na vida adulta. Para melhor compreensão PALÁCIOS (1995, p. 37) nos afirma que: “Costumamos entender por adolescência a etapa que se estende, a grosso modo, dos 12-13 anos até aproximadamente o final da segunda década da vida. Trata-se de uma transição, na qual não se é mais criança, mas ainda não se tem o status de adulto”.

Para tanto, a adolescência é acima de tudo uma fase da vida do ser humano pela qual o indivíduo perpassa por muitas transformações, turbulências, aceitação, metamorfose. HORROKCS apud GALLATIN (1978, p. 14) afirma que:

A adolescência é tanto um modo de vida quanto um segmento do desenvolvimento físico, psicológico e social de um indivíduo. Ela representa um período de crescimento e mudanças em quase todos os aspectos da vida física, mental, social e emocional da criança. É uma época de novas experiências, novas responsabilidades e novos relacionamentos com os adultos e companheiros.

Conforme afirma o referido autor, constitui reconhecer que a adolescência começa na biologia e termina na cultura. O ser humano não se define apenas por seu desenvolvimento individual, mas também por todo um conjunto de suas relações específicas com as figuras importantes na sua vida.

Para pensar a adolescência, é preciso considerar, de modo especial, além dos aspectos psicológicos, aspectos fisiológicos e sócio-culturais. Outrossim, é preciso pensar no contexto, ou seja, refletir sobre o mundo, o cenário em que esse jovens estão inseridos. PALÁCIOS (1995, p. 65) diz que “as características da idade adolescente, são em grande parte, determinadas pela cultura”.

A partir dessas observações, pode-se afirmar que vinculada à idéia adolescente encontramos o estilo adolescente, que pode ser resumido em: preparação, vir a ser, crescimento e dor.

A adolescência deve ser abordada do ponto de vista de suas condutas e de suas manifestações. Trata-se, em última instância, de um grupo de fenômenos que eclode num momento da vida, para dar lugar a comportamentos, condutas fenômenos característicos da idade adulta.

Ao perpassar essa “idade difícil” o adolescente enfrenta muitas adversidades em busca de uma identidade, identidade essa que pode ser achada em um instante e que pode ser mudada mais rápido ainda, causando assim uma controvérsia na cabeça de cada indivíduo, transformando essa fase de transição da vida do ser humano, em uma fase de turbulências, podendo caracterizar a adolescência como uma fase de crises. Conforme apresenta CARVAJAL (2001, p. 23):

Utilizamos à palavra crise porque na adolescência há uma mudança em ebulição, há algo que está em processo, em situação de ruptura, de caos, de transformação abrupta, aguda, quase cega, intensa, com freqüência angustiante, dolorosa e enormemente móvel.

Mesmo sendo a adolescência, como vimos anteriormente, um processo complexo de metamorfose entre a criança e o adulto, com certas regras do jogo às quais nenhum ser humano pode escapar, suas manifestações comportamentais variam de forma dramática, dependendo do modelo padronizado por cada cultura.

Como vimos no tópico anterior, à adolescência não era especificamente caracterizada em outros momentos de nossa história, assim como ainda hoje em algumas culturas esse processo do desenvolvimento humano não se dá mesma forma que se constitui na nossa cultura ocidental.

Conforme CARVAJAL (2001, p. 29), apresentamos a seguir a classificação de alguns tipos de adolescência de acordo com cada cultura, na tentativa de distinguir alguns tipos de adolescência: são eles.

2.1.1 Adolescência Amputada

É comum observarmos esse tipo de adolescência, especialmente nas famílias de nível sócio-econômico e cultural baixo, adolescentes provenientes dessa realidade tendem a ter essa fase amputada, pelo fato dos pais não terem um nível educacional razoável que os torne capazes de compreender as mudanças ocorridas nessa época tão dramática e também por não terem tido a oportunidade de caracterizar essa fase na sua época, devido aos mesmos fatores. Para CARVAJAL (2001, p. 29):

A carência de capacidade egóicas, decorrente da falta de oportunidades educativas e de desenvolvimento de suas potencialidades (dada a inclemência do ambiente que o rodeia), anula as manifestações do processo da adolescência a que está submetido inexoravelmente, tornando este inconsciente ou oculto, ou seja, guardado nos mais recônditos de seu ser e não podendo ser manifestado a não ser em situação-limite como a embriaguez, o ato delinqüente ou a loucura em alto grau.

É o caso da adolescência de nosso camponês mais primitivo. Obrigado a abandonar o jogo infantil, substituí-lo por uma enxada. Num processo contínuo e sem fim transcorre a infância, puberdade, adolescência e idade adulta, tornando-se um ancião aos quarenta anos de idade, com morte prematura. Passa sua vida encurvado sobre a terra, fazendo sempre o mesmo, sem um mínimo de desenvolvimento das funções psíquicas, sem ir além de uma motricidade automática. É um ser submetido por uma cultura injusta que o obriga a sacrificar tudo, por uma empobrecida subsistência.

Devido a tantas obrigações que já lhes são cabidas desde tão novos, esses indivíduos pagam um preço, o de abandonar um pedaço de sua vida, são obrigados, pelas circunstâncias, a negar manifestações externas de sua metamorfose devido a sua condição sócio-econômica absurda e desumana.

2.1.2 Adolescência Em Condensação Simbólica

Este é um modelo extinto da cultura ocidental moderna, devido aos avanços ocorridos com a modernidade e a concomitante perda do mito, do rito e da religião, entre outras coisas. Segundo CARVAJAL, (2001, p. 31).

A adolescência em condensação simbólica é um fenômeno cultural que consiste em condensar a situação da adolescência num fato ou ritual simbólico, que ao ser executado, permite a descarga total da tensão contida, produzida pela não realização, no nível da conduta, de seu estado crítico adolescente em outro tipo de atividades. O mito, o rito e o simbolismo substituem a ação direta do desejo ou da necessidade.

Um exemplo disso é que há três ou quatro séculos na cultura ocidental a aquisição ritual da maioridade pela púbere, ao se converter magicamente em mulher depois de completar quinze anos. Em outras palavras podemos dizer que em época remotas a adolescência era castrada, pois ao completar quinze anos, a menina deixava de brincar de boneca e de ser tratada como menina, passando a usar vestidos compridos, cosméticos, saltos altos; transformando-se assim numa jovem casadoira. Tudo isso num só dia.

A adolescente-menina esperava pacientemente o advento dessa maravilhosa data, que viria com toda certeza. Sua energia de adolescente estava voltada para a preparação do momento. Era menina ate os quatorze anos, onze meses e trinta dias, e mulher aos quinze anos. Nesse dia, esquecia-se de suas atividades infantis e das amizades que pertenciam a essa etapa e passava automaticamente a engrossar as fileiras das mulheres casadoiras, com todas as exigências e responsabilidades inerentes a essa condição.

O mesmo podia ser dito do adolescente-menino-homem, com suas calças curtas e sua proibição de entrar nos salões destinados apenas aos adultos. De um dia para outro transformava-se em homem, situação que também esperava pacientemente com a certeza de que a cultura em que estava imerso não falharia com ele. A expectativa era possível devido à absoluta certeza interna e vivencial de que o acontecimento era inexorável. Era menino até os dezessete anos, onze meses e trinta dias. Aos dezoito anos começava sua vida adulta com padrões também definidos, dos quais não podia se afastar sem graves conseqüências de marginalização social. Para que assim compreendamos melhor essa questão CARVAJAL (2001, p. 31) explica que:

O preço interno desse comportamento, de acordo com as regras do jogo social, era a ‘neurose vitoriana’, tão genialmente descrita por Sigmund Freud. Rito e rigidez dos padrões estruturais, avalizados por uma concepção religiosa e moral, permitiam condensar num ato simbólico toda a problemática da adolescência, que só era vivenciada em pequenas manifestações de rebeldia e exaltação, recalcadas superegoicamente desde dentro e desde fora do individuo em processo de mudança. A esperança de que uma chave abriria tudo isso algum dia permitiria calar a voz da crise. Este instante justificava deter toda a efervescência interna.

Assim as mudanças eram intrapsíquicas e não eclodiam, exceto no momento do rito e de maneira simbólica. Havia tempo para tudo, e um “modelo de espera”, continha as manifestações comportamentais da crise de identidade, de autoridade e de sexualidade.

A adolescência em condensação simbólica era uma fase muito difícil para esses indivíduos, pois eles eram privados de suas manifestações adolescentes no momento em que passavam da fase infantil automaticamente para uma fase adulta. Sendo assim existia um enorme conflito de personalidade já que eles não passavam pela fase de auto-afirmação, ou seja, de busca por identidade.

2.1.3 Adolescência Exuberante

O adolescente exuberante apresenta um perfil de comportamento decorrente da ação direta de suas necessidades, borbulhantes, sem a presença de simbolismos ou amputações.

Ou seja, ele tende a atuar diretamente no que é conflitivo em sua mente. Não poupa comportamentos, modas ou expressões que permitam dar a conhecer sua inconformidade ou seu desejo. Converte-se no paradigma do socialmente conflitivo quando se excede em sua apresentação, é popularmente chamado por adolescente rebelde, que gosta de enfrentar todas as barreiras. Para esses os modelos tradicionais são caretas e ultrapassados, não condizem com o seu estilo de vida.

Segundo CARVAJAL, (2001, p.33), “a adolescência exuberante é próprio do modelo cultural ocidental. O mundo se destribalizou”. Funciona como uma grande aldeia onde os modelos e valores, tradicionais são postos em xeque e substituídos por outros novos, produzidos pelos questionamentos, contraposições e contradições dos meios de comunicação. Ainda segundo CARVAJAL (2001, p. 33):

…O adolescente pode manifestar de forma ampla e direta sua situação crítica de desenvolvimento, tendo a certeza de que seu meio vai recebê-lo, contê-lo, compreendê-lo e respeitá-lo, assim como vai permitir um desenvolvimento harmônico de suas potencialidades intelectuais e afetivas. É um ambiente que vai tender mais para o pensar do que para o atuar.

Para resumir, a adolescência exuberante é o abandono dos modelos tradicionais míticos, tribais, ritualísticos e religiosos. Esse abandono acaba exigindo um alto custo de racionalidade e um profundo conhecimento dos processos que virão a se desencadear no adolescente. A ignorância desses conceitos é absolutamente catastrófica.

Olhando por um ponto de vista da psicologia do desenvolvimento e buscando embasamento também no nosso cotidiano, percebemos que a adolescência é realmente uma fase que merece um estudo amplo e profundamente relevante, por ser uma fase de muitas transformações como já foi citado várias vezes anteriormente.

Para o adolescente, as coisas são “eternas enquanto duram”, embora tudo possa durar um mês ou mesmo um minuto. A sensação que têm é, por um lado, de uma imobilidade do tempo e do espaço, mas, por outro lado, na prática, demonstram uma mobilidade enorme de apetites, desejos e, também de ações.

Esta visão panorâmica e inicial tenta demonstrar a complexidade do processo da adolescência. Trazem à tona as profundas repercussões que tem esse período da vida, não apenas para o desenvolvimento e bem-estar individual, mas também para o tipo de convivência em sociedade. Na verdade, a adolescência deve ser compreendida em vários aspectos.

Além de considerado o desenvolvimento biológico do indivíduo deve ser valorizado ainda os aspectos psicológicos e sociais. A seguir nos deteremos a falar das mudanças biofisiológicas da adolescência, onde abordaremos questões referentes à puberdade e as alterações psicológicas decorrentes das mudanças biológicas.

3. AS MUDANÇAS BIOFISIOLÓGICAS NA ADOLESCÊNCIA

3.1 ADOLESCÊNCIA E PUBERDADE: As Mudanças Biológicas

Costumamos entender que adolescência é uma etapa de transição, na qual não se é mais criança, mas ainda não se tem o status de adulto. Segundo PALÁCIOS (1995, p. 37): “É aquilo que Erikson (1968) chamou de uma “moratória social”, um compasso de espera que a sociedade oferece a seus membros jovens, enquanto se preparam para exercer seus papéis adultos”.

Todavia a adolescência trata-se de uma etapa de crescimento e desenvolvimento do ser humano marcado por grandes transformações físicas, psíquicas e sociais, mais precisamente o período de desenvolvimento situado entre a infância e a idade adulta. A este período de desenvolvimento humano alguns organismos ou leis, estabelecem uma determinada faixa etária correspondente, sendo que essa faixa etária nem sempre é a mesma para todos os organismos.

A Organização Mundial de Saúde delimita cronologicamente a adolescência como sendo a faixa dos 10 a 19 anos de idade, esta também adotada no Brasil, pelo Ministério da Saúde. Já o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) considera adolescente o indivíduo de 12 a 18 anos. Segundo PALÁCIOS (1995, p. 40), há também uma distinção do inicio da adolescência entre os meninos e as meninas, conforme este autor: “Em média nos meninos começam pelos 12-13 e terminam pelos 16-18 anos. Nas meninas começam em média, pelos 10-11 anos e terminam pelos 14-16 anos”.

Sendo assim, a adolescência é considerada uma fase do desenvolvimento humano em que o indivíduo passa por algumas etapas. A puberdade é a primeira delas, é a fase de desenvolvimento biológico na qual o indivíduo passa por algumas transformações físicas.

Mas, para que se possamos compreender melhor as peculiaridades desta etapa torna-se importante discutirmos algumas diferenças entre os conceitos de puberdade e adolescência. Conforme PALÁCIOS (1995, p. 39):

Chamamos de puberdade ao conjunto de modificações físicas que transformam o corpo infantil, durante a segunda década de vida, em corpo adulto, capacitado para a reprodução. Chamamos de adolescência um período psicossociológico que se prolonga por vários anos, caracterizado pela transição entre a infância e a adultez.

A puberdade é um fenômeno universal para todos os membros de nossa espécie, como fato biológico que é, por englobar as transformações físicas, ou seja, são transformações externas pelas quais todos os indivíduos passarão.

Já a adolescência é um fato psico-sociológico que os adolescentes passarão internamente, não é necessariamente universal e não adota os mesmos padrões comportamentais em todas as culturas. Cada cultura estabelece seus valores morais, éticos, religiosos, entre outros que são construídos na coletividade, socialmente para os adolescentes.

Ressaltamos o conceito de adolescência e puberdade, mas o objetivo desse tópico será fixado no desenvolvimento biológico dos adolescentes, sendo assim, nos aprofundaremos mais no conceito de puberdade e suas conseqüências à vida desses indivíduos.

A puberdade engloba o conjunto de modificações biológicas que transformam o corpo infantil em adulto constituindo-se em um dos elementos da adolescência. É constituída pelos seguintes componentes: crescimento físico; aceleração, desaceleração, até a parada do crescimento; mudanças na composição corporal e outros. Segundo CARVAJAL (2001, p.71): “… O corpo da criança começa a se modificar rumo a um modelo adulto, impulsionado pelas mudanças hormonais e pelo mandato genético…”.

De acordo com o autor, é na puberdade que ocorrem as mudanças biológicas e fisiológicas. É nesta etapa do desenvolvimento do indivíduo que o corpo do adolescente começa a torna-se maduro.

Distinguido pelas modificações visíveis no corpo do individuo, as mudanças ocorridas na puberdade costumam se caracterizar como um ato biológico e da natureza. Conforme CARVAJAL (2001, p. 68): “A puberdade é que dá início ao processo da adolescência e se caracteriza fundamentalmente por um rompimento maciço com os fenômenos infantis e um isolamento do mundo externo em geral”.

Nesse sentido podemos afirmar que a partir do início da puberdade a criança já não será mais a mesma. Ela vai começar a participar avidamente do mundo dos adultos e se transformará nos novos convidados da realidade onde aquela personalidade infantil vai dar lugar a um novo mundo, a novas experiências.

Essas mudanças são características dessa etapa de desenvolvimento em que o adolescente terá de enfrentá-las, experimentando-as em maior ou menor medida, e que farão parte de sua vida, de sua pessoa, da maravilha de se transformar em adulto.

O processo de transformação física é posto em evidência por uma série de mecanismos hormonais, que desencadeiam um longo processo de modificações que, como veremos a seguir, apresenta um padrão diferente em ambos os sexos . Tantos para os meninos como para as meninas as mudanças físicas na puberdade aparecem de maneira diversa, apresentando características especificas para cada sexo.

3.1.1 A Puberdade Para Eles

Conforme PALÁCIOS (1995, p. 40), “A puberdade para os homens normalmente inicia entre 12 e 13 anos”. Esta mudança acontece quando nos testículos começa a ser produzida a testosterona (hormônio masculino).

Este hormônio é o responsável pelo aparecimento das características sexuais secundárias que são: aceleração do crescimento e aumento de peso; aumento do tamanho dos genitais, seguido por um discreto aparecimento de pêlos púbicos não-pigmentados, pêlos no rosto, nas axilas e em outros lugares (pernas, braços, etc.); aumenta o tamanho da laringe e a voz fica mais grossa.

A puberdade se caracteriza também no homem pela primeira ejaculação ou polução, podendo esta ocorrer espontaneamente durante o sono ou até mesmo induzida, resultante da masturbação. Segundo CARVAJAL (2001, p. 71):

A polução é um fenômeno normal que se produz no processo de desenvolvimento dos homens. Trata-se da evidência externa do início da produção e liberação de sêmen (esperma). É denominado assim porque acontece quando está dormindo, é involuntário e deixa uma pequena mancha na roupa de baixo. A idade média para a primeira polução noturna é aos 13 ou 14 anos, mas pode variar muito já que é possível acontecer desde os 10 até os 16 anos.

Todas estas mudanças são totalmente normais à essa etapa do desenvolvimento humano. Com certeza os indivíduos levarão certo tempo para se adaptar, mas, na medida em que o adolescente for se familiarizando com isso, poderá perceber que este fenômeno lhe permite crescer e se desenvolver mais e melhor como pessoa.

3.1.2 A Puberdade Para Elas

Para as mulheres não é diferente. Estas mudanças também não deixam de acontecer. Geralmente começa entre 11 e 13 anos de idade, quando os ovários começam a produzir mês após mês, um óvulo, o qual produz um hormônio chamado estrógeno que faz com que aconteça por primeira vez a menstruação ou menarca .

O útero, a vagina, os lábios e o clitóris aumentam de tamanho posteriormente. Os pêlos púbicos passam a crescer mais depressa e a ser pigmentados. Desenvolvem-se as mamas, com pigmentação das aréolas e mamilos.

Os estrógenos são os hormônios responsáveis pelo desenvolvimento das características sexuais secundárias femininas . Essas características são as alterações citadas anteriormente que ocorrem no corpo dos adolescentes de ambos os sexos no período da puberdade.

Os processos antes descritos são produzidos de maneira relativamente lenta, devemos destacar que algumas das manifestações de mudanças mais evidentes são apenas a parte final de um processo já iniciado há bastante tempo. CARVAJAL (2001, p. 71) diz que: “As mudanças físicas imperceptíveis vêm acompanhadas de mudanças psíquicas que anunciam o início psicológico da adolescência. O físico, por assim dizer, ‘demarca’ o psíquico”.

Portanto, a puberdade é marcada por significativas mudanças biológicas e psicossociais. Decorre daí uma visão de que com todas essas mudanças fisiobiológicas o indivíduo será diretamente atingido no seu psicológico, onde a partir de então começam a gerar conflitos e crises decorrentes dessas mudanças físicas que apareceram.

Vimos até aqui que as mudanças biológicas na adolescência são acontecimentos existentes em todos os indivíduos que perpassam essa fase da vida humana, independente de classe social, cultura ou religião.

Ressaltamos o início da puberdade as transformações físicas ocorridas no corpo do menino e da menina adolescente. Para termos um melhor aprofundamento do assunto em questão no próximo tópico abordaremos as questões psicológicas, mostrando como essas mudanças físicas interferem na forma de pensar dos adolescentes.

3.2 OS EFEITOS PSICOSSOCIAIS DECORRENTES DAS MUDANÇAS BIOLÓGICAS

Por acontecer várias mudanças biológicas, ou seja, mudanças físicas no corpo dos adolescentes, essas acabam atingindo diretamente o psicológico desses indivíduos.

Os sintomas psíquicos são resultantes do aparecimento das mudanças corporais, onde os adolescentes não estão preparados psicologicamente para receber tantas transformações ao mesmo tempo. Assim CARRETERO (1995, p. 47) nos diz que:

Como já se sabe, a adolescência abre a porta para um mundo novo, que traz consigo importantes e profundas mudanças, não apenas na própria imagem do indivíduo e na maneira de interagir com seus iguais e com o resto das pessoas, mas se estende a novas formas de pensamento.

A partir de então podemos constatar que um fator importantíssimo que acaba influenciando os conflitos psicológicos é o aparecimento das mudanças corporais sem as correspondentes mudanças psíquicas. Nesse momento o adolescente ainda está tentado entender o que de fato está acontecendo com seu corpo, ou seja, qual o real sentido dessas mudanças. E sem encontrar a devida resposta vão se formando um turbilhão de questionamentos em seu psicológico.

Sobre esta desconexão, ou atraso do desenvolvimento psicológico em relação ao desenvolvimento biofisiológico CARVAJAL (2001, p. 73) afirma que “o puberal não aceita o ingresso numa etapa definitiva e metamorfose”. Partindo daí o adolescente começa a formar uma série de questionamento, uma série de dúvidas e anseios por respostas.

O psicológico desses adolescentes está invadido por mudanças que afetam o comportamento, as ações, e suas manifestações perante a família, escola e grupos sociais. Conforme CARVAJAL (2001, p. 74):

Os pais, professores ou adultos que convivem com adolescentes púberes acreditam que eles estão cheios de conflitos interiores que não querem expor, que tem traumas e conflitos conscientes que, por capricho ou agressão, não querem contar.

Não é simplesmente assim. Segundo o autor, não se trata de um conflito consciente, mas de conflitos decorrentes das mudanças que lhes foram acontecendo no decorrer do seu desenvolvimento físico e biológico.

Esses conflitos fazem com que o indivíduo mude sua maneira de se apresentar perante aqueles que até então os tinham como crianças, que a tudo aceitava, que a tudo se deixava permitir. O adolescente púbere está invadido por novas vivências e novos desejos. Vive uma grande ambivalência. O novo lhe agrada e ao mesmo tempo lhe inspira temor. Segundo CARVAJAL (2001, p. 76): “A mudança estrutural é ostensiva. O modelo infantil que consiste em uma concreta simbolização fora da mente, é abandonado, instalando-se em seu lugar uma abstrata simbolização intrapsíquica…”

É a partir dessa mudança ostensiva que o adolescente começa uma incessante busca para entender o que realmente está lhe acontecendo. Até então os conflitos não vão desaparecer, pelo contrário, ele vai entrar em uma nova etapa de busca onde começam a surgir outros sintomas freqüentes na vida dos adolescentes, são os sintomas conhecidos como crises. Essas são as Crises de Identidade, de Autoridade e Sexual nas quais será o assunto de nosso próximo tópico, onde buscaremos entender o que acontece aos adolescentes quando entram na complexa etapa das crises.

3.3 AS CRISES PRÓPRIAS DA ADOLESCÊNCIA

Na fase adolescente, a personalidade se consolida a partir de um processo que se denomina crise de identidade. As transformações físicas e psicológicas próprias da idade geram muitas inseguranças.

Coloca-se um conflito crucial entre deixar de ser criança e tornar-se um adulto. Por um lado, o jovem deseja conquistar sua autonomia, ser diferente dos seus pais, adquirir novas visões de mundo, mas por outro, sabe que ainda não está preparado para viver sem o apoio familiar. Por isto, mostra-se tão contraditório em algumas situações.

Partindo desse pressuposto é que abordaremos a seguir a questão das crises próprias dessa fase, onde falaremos da crise de identidade, autoridade e sexual.

3.3.1 A Crise de Identidade

O termo “crise” origina-se do grego “krisis” e significa ato ou faculdade de distinguir, escolher, decidir ou resolver. O vocabulário é usado, pois como parte integrante no processo de desenvolvimento do adolescente. Tanto no menino como na menina que entra na adolescência inicia uma caminhada onde se dá lentamente o adeus à infância. O brinquedo, até então algo inseparável começa a ser deixado de lado. Surge na memória um tempo que foi passando e não voltará mais. Começa brotar um sentimento de perda que ocasiona a crise.

A identidade é a consciência que a pessoa tem de si mesma como alguém que integra o mundo real existente. A crise de identidade está centrada na necessidade que o adolescente tem de ser ele mesmo na procura de uma definição de seu self , para assim romper com sua infância e conseguir se firmar como pessoa.

Conforme CARVAJAL (2001. p. 103) “a crise de identidade é a crise central da adolescência, pilar das mudanças, essência da metamorfose”. O período da adolescência é marcado por diversos fatores, mas, sem dúvida, o mais importante é a tomada de consciência de um novo espaço no mundo, a entrada em uma nova realidade que produz confusão de conceitos e perda de certas referências. ERIKSON, (1976, p. 132), diz que “a expressão ‘Crise de identidade’ foi apresentada para explicar o momento de incerteza quanto às mudanças que se fazem presentes na adolescência, tornado-se reconhecida como um momento catastrófico do desenvolvimento humano”.

Devido às mudanças ocorridas durante seu desenvolvimento biológico e psicológico os quais citamos no tópico anterior o adolescente anseia pela necessidade de encontrar o seu “eu”. Essa busca do “eu” significa a procura, a tentativa em obter uma identidade para seu ego. É o que lhe acarreta mais angústias, passividade ou revolta, dificuldades de relacionamento inter e intrapessoal, além de conflitos de valores. CARVAJAL (2001, p. 70), define:

A crise de identidade consiste na necessidade de o adolescente ser ele mesmo, de procurar definir seu self e seus objetos e de adquirir algo que o diferencie da criança e do adulto, para desta forma romper a dependência infantil e conseguir a auto-sustentação própria do ser maduro que dê continuidade à espécie.

Esse é um dos motivos que, conforme Carvajal faz com que o adolescente sinta a necessidade de romper com a dependência para formar uma identidade estável, ou à necessidade de finalizar uma confusão de papéis. Nesse momento, o comportamento oscila entre as ações impulsivas impensadas, esporádicas e repressão compulsiva.

Todavia, durante este tempo difícil o jovem procura um conhecimento interno e um entendimento de si, e busca formular um conjunto de valores. FIGUEIRA, et all (2007, p. 26) diz que “a identidade baseia-se na necessidade humana inata de sentir que se pertence a algum gênero particular ou espécie”. É preciso saber que se pertence a um grupo com o qual se compartilhe costumes, ideologias, enfim. A vitória desta etapa é a realização do sentimento básico de que “eu sou”.

O que realmente implica na crise de identidade é a perda das características infantis e a ruptura com figuras de dependências para encontrar uma nova característica corporal e entrar na busca por uma independência psicossocial.

É nesse momento que os adolescentes começam a luta pelo rompimento com as figuras parentais, especialmente a figura dos pais. Eles passam a se achar os heróis do pedaço, sem necessidade alguma do acompanhamento daquelas figuras que até pouco tempo eram o seu porto seguro. A partir daí torna-se mais violenta a luta contra seus representantes externos, os pais. Conforme CARVAJAL (2001, p. 112):

A desobediência, a prepotência, o denegrimento, a zombaria ante a autoridade dos pais serão maiores. O corporal começa a ganhar grande importância interna. O mundo externo se opacifica. Isso toma muito tempo do púbere e o afasta cada vez mais do contato familiar.

Entra aí, no entanto, a busca por novas relações. Àquelas que possam compreender o momento e compartilhar o que estão passando. Essa busca agora é pela identificação em algum grupo. Segundo CARVAJAL (2001, p. 113):

Agora o grupo é tão importante quanto cada indivíduo e está narcisicamente investido como o centro da atividade psíquica em cada membro do grupo. Por isso a intimidade é do grupo, já que tudo é compartilhado e todos ficam sabendo de tudo.

A partir daí o adolescente começa um novo investimento, o amigo íntimo e o grupo da mesma maneira ou até mais forte do que antes era investido na figura dos pais.

Estes investimentos não vão minimizando a crise de identidade, nem tão pouco levando-a rumo ao final, ao contrário, vai desencadeando em um novo tipo de crise. Agora existe a necessidade de enfrentamento a tudo que proíba a sua maneira de se manifestar: é a Crise de Autoridade, a qual falaremos no tópico seguinte.

3.3.2 A Crise de Autoridade

A crise de autoridade, na adolescência, é algo bastante forte e se caracteriza pelo confronto. Há uma atitude de rebeldia e muitas vezes até de desrespeito para com o adulto, especialmente para com os pais e outras pessoas que têm autoridade ou exercem determinada função.

Como o adolescente está mudando sua forma de ser, agir e pensar, e principalmente sua interação grupal, então ele está também absorvendo outros valores, outras condutas, diferentes daquelas que os pais lhe “impunham” antes de ele entrar nesse modelo. Para melhor fundamentar CARVAJAL (2001, p. 70) diz que “a crise de autoridade consiste num enfrentamento com tudo o que signifique norma ou imposição de modelos e que seja gerado pela vivência com o adulto de tudo de superegóico que não pôde ser internalizado no self durante a infância”.

Embora a crise central da metamorfose da adolescência seja a crise de identidade, em paralelo e inter-relacionada com aquela existe a crise de autoridade. É a mais ostensiva e incômoda para os adultos que convivem com os adolescentes e consiste numa atitude de oposição, de rebeldia e de confronto, às vezes dramático, com tudo o que implique autoridade.

É importante considerar que a adolescência consiste na passagem da inserção familiar para a absorção dos valores de uma cultura mais ampla, e um dos motivos que acarreta essa crise de autoridade é a busca intensa por uma identidade que o diferencie do resto do mundo, com ruptura do infantil e com um mandato interno de independência que implica necessariamente em se opor de maneira ativa ou passiva a qualquer coisa que possa inibir essa independência ou a qualquer coisa que lhe dê a sensação de continuidade com o objeto parental abandonado.

É nessa hora que se exige um delicado acompanhamento dos pais, não querendo impor algo, pois esse já é o motivo da crise de autoridade, mas na tentativa de prevenção, pois nesse momento o adolescente só aceita como normas, suas próprias internalizações e tende a rejeitar por princípio tudo o que considere alheio.

E o que passa a ser referência nesse momento são as figuras grupais, onde começam a associar naquele momento a imagem de líderes que merecem serem seguidos por apresentar comportamentos compatíveis com o deles. É também nesse momento que merece ainda mais a atenção dos pais, pois esses algumas vezes acabam se colocando em situação de riscos. De acordo com essa concepção CARVAJAL (2001, p. 129) diz que:

É importante esclarecer que por esta facilidade de identificar projetivamente em outras coisas não internalizadas, o adolescente é propenso a seguir ao líder. É bucha de canhão de personagens carismáticos que com freqüência podem conduzi-lo ao desvio de um desenvolvimento harmonioso e a viver situações de alto risco de vida.

Por todas essas razões, encaixam-se como uma luva todas aquelas estruturas de confronto e violência contra todas as figuras de autoridade. Os pais passam a ser chatos, caretas e incompreensivos.

Essa forma de pensar dos adolescentes vai distanciando-os cada vez mais do seio familiar, representando este um dos principais momentos em que a família deve se munir de muita paciência diante da tentativa do adolescente de se apropriar de espaços e objetos específicos só para ele. O egoísmo, gerado pelo excesso de narcisismo, faz com que compartilhar as coisas com pessoas diferentes de seus pares grupais seja quase impossível para ele.

A crise de autoridade que parece ser tão preocupante quanto à crise de identidade ainda não é a última turbulência por que passam os adolescentes até chegarem à reta final da sua evolução. Existe ainda uma outra crise que também é considerada muito importante para a adolescência a qual falaremos a seguir.

3.3.3 A Crise Sexual

A crise sexual é considerada também uma crise complexa. Há, nesta fase, uma re-elaboração total do mundo sexual que transforma a estrutura infantil em uma estrutura adulta. Em meio a esta nova fase de transição, o adolescente se desenvolve lentamente, o que acontece em diversas etapas. Há inicialmente a maturidade das gônadas e a mudança genital. Conforme CARVAJAL (2001, p. 70):

A crise sexual está centrada no aparecimento de um novo modelo psicológico para o manejo dos impulsos libidinais em eclosão e em aumento qualitativo, com vistas a instalar uma procriação eficiente e defensora da prole. (…) De maneira sucinta podemos pensar que está baseada na organização do erotismo sob novas leis estruturais. Trata-se de transformar uma estrutura infantil de funcionamento erótico em uma estrutura adulta.

Sendo assim, a crise sexual se instala a partir das transformações do corpo, o que exige uma adaptação à nova realidade. De um momento para o outro o corpo do menino e da menina começa a se transformar em um corpo de homem e de mulher, tudo isto os torna impacientes e descontentes, pois a imagem que o adolescente tem de si mesmo não corresponde ao seu lado ideal estético.

Braços, pernas, pés e mãos tornam-se longos. Emagrecem e espicham, ultrapassando, muitas vezes, os pais. O nariz parece ao adolescente pouco estético. Surgem às espinhas, e o suor passa a exalar um forte cheiro. A voz se modifica e é motivo para brincadeiras maldosas por parte de amigos e colegas de escola .Toda essa insatisfação leva os adolescentes a crises de desespero que são ainda mais fortes porque, nessa época, o adolescente tem necessidade de agradar ao sexo oposto.

Esse desenvolvimento lento e firme, que conta com algumas mudanças físicas de características muito definidas acaba desencadeando um conflito muito maior para o adolescente. Aquela criança que até então existia dentro de si agora mais do que nunca está dando lugar a um corpo com características adultas. E essas tais mudanças vão causar um desequilíbrio muito maior ao adolescente, pois é a partir de então que esse indivíduo começa também a descobrir um novo erotismo que vem acompanhado de uma grande ambivalência, altos níveis de excitação contida e concomitante angústia. Segundo CARVAJAL (2001, p. 136):

O púbere precisa se defender deste ‘ataque’ e o faz regredindo, recalcando, negando, dissociando, isolando-se, todas estas, manobras que se traduzem em condutas psíquicas e comportamentais: angústia, ensinamento, infantilização, passividade motora, indisciplina, irritabilidade, agressão, afetos desencontrados, fantasias invasivas e ambivalentes de procura e rejeição do gozo erótico.

A partir daí começa a se desencadear um novo conflito psicológico na vida

do adolescente, pois para fugir da situação ele encontra uma nova “saída” e acaba de forma indireta demonstrando outras manifestações. Esse pode ser definido de “masturbação na adolescência”.

Pouco a pouco a masturbação vai se convertendo normalmente em interesse maior na vida do adolescente. Pois esse procura investigá-la, colocá-la à prova e divertir-se com ela, manipulando-a até obter prazeres cada vez mais controlados e também mais intensos. Um primeiro orgasmo voluntariamente alcançado introduzem-os vertiginosamente e angustiadamente na masturbação.

Segundo CARVAJAL (2001, p. 137), “começa então a luta em relação a que lugar dar a esta nova experiência. Em geral não está suficientemente preparado para isso, por maior que seja a informação teórica que tenha a respeito”.

Como não está devidamente preparado para tal experiência essa acaba se tornando compulsiva e angustiante acompanhada ainda por uma sensação de culpa, essa última como tradução equivocada da angústia e ansiedades confusionais.

Com muita freqüência, o adolescente não consegue registrar adequadamente suas sensações e afetos, que acabam traduzindo equivocadamente o medo pela raiva, à angústia pela irritabilidade, a inveja pela perseguição, enfim, acabam confundindo uma série de sentimentos, transformando-os em conflitos e problemas.

Partindo de todos esses pressupostos a crise sexual é realmente uma das mais, senão a mais complexa, pois acaba desencadeando uma série de conflitos, que vão desde o descobrimento do erotismo, passando pelo sentimento de culpa causado pela masturbação até os conflitos de aceitação do próprio corpo, onde o adolescente precisa aceitá-lo e viver em paz com ele para alcançar um bom nível de relações com os outros.

Diante de tantas transformações físicas e psicológicas pelas quais passam os adolescentes, desde a entrada na puberdade até chegar a um período mais adulto, podemos perceber que essa é sem dúvidas uma fase muito delicada que merece muita atenção, não só por parte da família como também por parte da sociedade como um todo.

Sendo assim, tanto família, escola e sociedade tem papel fundamental no desenvolvimento biopsicossocial desse indivíduo. Conforme MOSQUERA (1977, p. 32) “o jovem é um ser humano com problemas e interesses, preocupado na busca de valores e significações”. As instituições sociais devem se encarregar de ajudar esses indivíduos a encontrar essas significações.

Os adolescentes mesmo com a necessidade de se tornarem autônomos precisam de um referencial, e o próximo capítulo se encarregará de trabalhar sobre a importância de instituições que o rodeiam, especialmente a família, escola e a sociedade. Como essas instituições devem lidar com esses indivíduos sem os alienar a seus padrões já moldados e como conviver com suas necessidades sem causar conflitos maiores.

4. A ADOLESCÊNCIA E A INFLUÊNCIA DAS INSTITUIÇÕES SOCIAIS

Abordamos no capítulo anterior a adolescência e suas transformações biológicas, a seguir nos propomos a falar da influência das instituições sociais para o desenvolvimento dos mesmos, levando em consideração a importância de instituições como família, escola e sociedade.

4.1 A FAMÍLIA COMO PRIMEIRA EXPRESSÃO DE SOCIEDADE

A adolescência é sem dúvida uma fase de vida da existência humana situada entre a infância e a idade adulta, na qual se verificam comportamentos típicos que identificam esse momento de transição. Entretanto, como já foi citado nos capítulos anteriores, a caracterização da adolescência não constitui tarefa muito fácil, porque os fatores biológicos específicos, atuantes na faixa-etária, se somam aos determinantes sócio-culturais, advindas do ambiente onde o fenômeno da adolescência ocorre. Para tanto CAMPOS (1985, p. 28) diz que:

No desenrolar da adolescência, o indivíduo é particularmente vulnerável não só aos efeitos decorrentes das transformações biológicas ocorridas em seu corpo, mas também das mudanças sem precedentes, provocadas, no mundo moderno, pelo impacto das explosões demográficas, do progresso científico, da tecnologia, das comunicações, das novas aspirações humanas e da rápida transformação social.

Assim, a autora nos demonstra que além dos fatores biológicos, os adolescentes são influenciados pelo ambiente familiar, social e cultural onde os mesmos se desenvolvem. Desta forma, iniciaremos nossa discussão pelo papel da família, já que esta representa a primeira instituição no sistema social em que o ser humano é inserido desde o seu nascimento.

A família, desde os tempos mais antigos, corresponde a um grupo social que exerce marcada influência sobre a vida das pessoas, sendo encarada como um grupo inserido em um contexto social mais amplo com o qual mantém constante interação.

O grupo familiar tem um papel fundamental na constituição dos indivíduos, sendo importante na determinação e na organização da personalidade, além de influenciar significativamente no comportamento individual através das ações e medidas educativas tomadas no âmbito familiar.

Sendo assim, SCHENKER (2003, p. 35), diz que “esta instituição é responsável pelo processo de socialização primária das crianças e dos adolescentes”. Nessa perspectiva, a família tem como finalidade estabelecer normas e limites para as relações estabelecidas entre as gerações mais novas e mais velhas, propiciando a adaptação dos indivíduos às exigências do conviver em sociedade, levando em consideração as normas e valores que a sociedade impõe a cada indivíduo.

Assim nem todos os processos da adolescência dependem apenas do indivíduo como unidade isolada em um mundo impessoal inexistente, ou seja, não depende somente das transformações biofisiológicas, mas também da influência social, do meio em que está inserido.

Conforme KNOBEL et all (1981, p.18) “não há dúvida que a constelação familiar é a primeira expressão da sociedade que influi e determina grande parte da conduta e comportamento dos adolescentes”. A partir daí torna-se perceptível que é nessa instituição que esses indivíduos começam a conhecer e ter noção de valores, de conduta e de moral. A família é como uma rede de apoio social para as diversas transições que o adolescente sofrerá até chegar ao estágio adulto.

É fato que a estrutura familiar sofreu mudanças ao longo dos tempos. Aliás, estranho seria não ter sofrido, uma vez que está acompanha as mudanças da sociedade. Entretanto, as funções básicas desempenhadas por esta instituição no decorrer do processo de desenvolvimento psicológico de seus membros permanecem as mesmas. Ou seja, mesmo sofrendo tantas transformações ao longo dos tempos, a família ainda traz em sua estrutura a consciência de que é seu o papel de educar e instruir os adolescentes para enfrentar os desafios que a vida adulta oferecer.

Todos os conflitos, transformações e mudanças vividas no processo adolescente por cada individuo, é também vivido pela família. Segundo KNOBEL et all, (1981, p.19) “muitos pais sentem grande ansiedade e temor frente ao crescimento de seus filhos”. E isso causa certa instabilidade por parte dos pais, talvez por não estarem preparados e não saberem lidar com tais transformações na vida dos filhos que até então eram crianças e agora estão se transformando em adolescentes.

Conforme CAMPOS (1985, p. 121) ”muitos pais se angustiam e atemorizam diante do advento da genitalidade dos filhos, revivendo suas próprias situações edipianas e originando situações conflitivas complexas”. Mesmo tendo passado por todas essas transformações que os filhos estão passando no momento, ainda sim, ao lidar com eles os pais se sentem um pouco perdidos até pelo fato que a família atual já não tem mais a estrutura que tinha antigamente, o modelo familiar que antes era tido como tradicional, hoje já não é mais igual.

Diante de todas as transformações da adolescência, é necessário que os pais encontrem uma maneira de lidar com as situações de mudanças ocorridas na adolescência, para que não causem conflitos maiores com os filhos. Sobre esse ponto, KNOBEL et all (1981, p. 39) diz que:

Pais ajustados psicologicamente são aqueles que proporcionam ao ser em desenvolvimento condições satisfatórias para que não surjam situações traumáticas, isto é, situações que surgem as capacidades do ego para se defender e sublimar. (…) Pais ajustados são aqueles que se comportam de forma a não violentar a intimidade dos filhos, permitindo que se realizem normalmente os processos biopsicológicos do desenvolvimento, o que possibilitará a aquisição da ‘identidade sexual’ e da identidade do self sem fixações nem dependências estressantes e conflitivas.

Sendo assim, por a adolescência se tratar de uma fase naturalmente conflitiva e por a família ser a primeira instituição na qual esses indivíduos tem contato, é necessário que seja um ambiente tranqüilo e que os pais possam estar preparados para lidar com os conflitos e transformações ocorridos nesse processo de transformação.

A família possui um papel primordial no amadurecimento e desenvolvimento biopsicossocial dos indivíduos, apresentando algumas funções primordiais, as quais podem ser agrupadas em três categorias que estão intimamente relacionadas: funções biológicas (sobrevivência do indivíduo), psicológicas e sociais. Conforme Osório (1996, p. 38):

A função biológica principal da família é garantir a sobrevivência da espécie humana, fornecendo os cuidados necessários para que o bebê humano possa se desenvolver adequadamente. Em relação às funções psicológicas, podem-se citar três grupos centrais: proporcionar afeto ao adolescente, aspecto fundamental para garantir a sobrevivência emocional do indivíduo; servir de suporte e continência para as ansiedades existenciais dos seres humanos durante o seu desenvolvimento, auxiliando-os na superação das “crises vitais” pelas quais todos os seres humanos passam no decorrer do seu ciclo vital (um exemplo de crise que pode ser mencionado aqui é a adolescência); e criar um ambiente adequado que permita a aprendizagem empírica que sustenta o processo de desenvolvimento cognitivo dos seres humanos. No que tange à função social da família, o cerne está na transmissão da cultura de uma dada sociedade aos indivíduos, bem como na preparação dos mesmos para o exercício da cidadania.

Para melhor explicar à citação acima, podemos dizer que no que diz respeito às funções biológicas da família, caracteriza-se uma instituição capaz de prover a subsistência dos seus membros, capaz, sobretudo, de servir ao homem como espaço propiciador de desenvolvimento e de adequação do seu ser ao mundo.

No que se refere às funções psicológicas, a família tem a possibilidade de mostrar, com sua presença e atenção constante, os caminhos da verdadeira humanização, os valores individuais e sociais, por sua vez, pode-se considerá-la como um espaço em que se educa, estimulando os seus membros a serem eles mesmos, a desenvolverem suas qualidades, a potencializarem sua alto estima sem precisar transgredir a vida em sociedade.

Para concluir de forma sucinta, ao falarmos das funções sociais da família, podemos dizer também, que é a partir do processo socializador que o indivíduo elabora sua identidade e sua subjetividade, adquirindo, no interior da família, os valores, as normas, as crenças, as idéias, os modelos e os padrões de comportamento necessários para a sua atuação na sociedade. PRADO (1995, p. 40), nos afirma que “é através da própria família que o adolescente se integra no mundo adulto. É nesse meio que ele aprende a canalizar seus afetos, a avaliar e selecionar suas relações”.

A família deve, portanto, estar presente em todos os momentos da vida de seus filhos. Deve ser presença que implica envolvimento, comprometimento e colaboração. Deve estar atenta a todas as dificuldades encontradas por eles e estar pronta para intervir da melhor maneira possível, visando sempre o bem estar dos mesmos.

Em outros termos a instituição familiar deve ser o espaço indispensável para garantir um bom desenvolvimento bio-psico-social do adolescente. Por conseguinte, entende-se por família, o espaço gerado pelo dinamismo social do homem, que unido a um outro semelhante, projetam uma história que foram socialmente partilhadas.

Para não tornarmos esta discussão por demais simplista, é importante abordamos que quando se trata da preparação do individuo adolescente para a inserção no mundo adulto e na sociedade, a família não é uma instituição isolada que trata desse processo de formação. A escola assim como a família é uma instituição de extrema importância à formação e preparação do adolescente para a sociedade.

Baseado neste pressuposto que desenvolveremos a seguir o próximo tópico que fala sobre a escola. Falaremos da função social e dos conflitos que os adolescentes se deparam dentro dessa instituição, e o que esta pode fazer para que esse indivíduo possa superá-los de maneira positiva.

4.2 O PAPEL SOCIAL DA ESCOLA NA FORMAÇÃO DO ADOLESCENTE

Vimos no tópico anterior à importância da família para a vida dos adolescentes, já que esta é a primeira instituição na qual o indivíduo mantém contanto socialmente, a partir daí, consequentemente esse individuo expandirá suas relações com outros meios e instituições.

Dessa forma iniciamos o presente tópico apontando a importância da instituição escola para a vida dos adolescentes, visto que esta é uma instituição também socializadora, onde prepara o indivíduo para o mundo adulto.

É fato que a etapa do ciclo vital que começa na puberdade e desemboca na adolescência é um período difícil para todos os membros que nela estão envolvidos direta, ou indiretamente. Sejam os indivíduos adolescentes, sejam as instituições nas quais eles compõem: família, escola ou sociedade.

Essa etapa traz mudanças que implicam em comportamentos novos e conseqüentemente necessidade de modificações na estrutura, funcionamento, regras, limites tanto na família e especialmente na escola.

Assim, a escola tem como missão educar o adolescente à vida adulta e socializada, possibilitar o conhecimento de valores e ajudar o adolescente no seu aperfeiçoamento de vida, na sua capacidade de desenvolvimento da eficiência. Esta instituição constitui um referencial estruturante nesta fase importante da formação da personalidade que é a adolescência e, por este motivo, deve contemplar, em sua filosofia de ensino, atividades que promovam o amadurecimento do jovem.

Cabe, pois, à escola, além das ações específicas da escolarização, assumir também seu papel de instância formadora dando oportunidade aos adolescentes de manifestarem seus desejos de transformação e mudança, sem castrar seus valores adquiridos ao longo de todo esse processo de transição. Segundo MACEDO (1998, p.164):

O jovem é, talvez, o membro que tem maior mobilidade entre o dentro e o fora dos sistemas dos quais é membro, podendo trazer, com grande ímpeto e muita rapidez, estímulos novos, questionamentos, expressões, comportamentos e valores…

Assim, o individuo adolescente traz à escola uma capacidade de mudança dos padrões estabelecidos, causando até uma série de conflitos, mas a escola precisa compreender que esse individuo está passando por um momento onde tudo é transformação, e que, aceitar normas e padrões impostos, pode não ser tarefa tão fácil para ele.

Sabemos que quando o indivíduo começa a transição entre a infância e a adolescência algumas normas e padrões dentro da escola precisam ser revistos, porque estes estão ganhando mais autonomia, necessitam então que suas opiniões sejam levadas em consideração. Ao contrário, surge daí vários conflitos, onde nasce a analogia em que rotula o jovem adolescente como um ser difícil de lidar, e que este é apenas o único culpado por seu comportamento. Para reforçar essa afirmação, MACEDO (1998, p. 161) nos diz que “na escola, a rigidificação das regras produz grandes confrontos que culminam em geral com a identificação e punição dos alunos-problemas, via de regra sua expulsão do sistema”.

Todo sistema escolar aberto, tem a capacidade de mudar, assim como na família, na escola o jovem precisa encontrar espaço para exercer seus questionamentos, sem que estes representem a destruição dos valores já elaborados por ambas as partes. Ou seja, o jovem adolescente deve respeitar assim como precisa ser respeitado também.

De certa forma, o confronto entre os limites impostos pela sociedade e pelas leis de convivência social é necessário para que o adolescente aprenda a negociar ao invés de apenas submeter-se ou impor-se. Nesse aspecto, a escola tem como função oportunizar contextos de expressão para que o jovem também possa manifestar seus desejos de transformação, sem que haja conflitos maiores. Para melhor compreensão desse tópico, MACEDO (1998, p. 165), diz o seguinte:

Compreender o jovem implica em perceber o grau de flexibilidade com o que podemos aceitar, absorver e nos enriquecer com suas contribuições. Tolerar e poder lidar com os altos e baixos das próprias decisões e atitudes do jovem: ora muito ‘maduras’, ora completamente ‘absurdas’ segundos os critérios em vigor. Dar suporte para a experimentação necessária às suas idéias, potencialidade.

Essa forma de poder compreender os comportamentos manifestados pelos adolescentes, implica, sem dúvidas, no estabelecimento de novas formas de relacionamento, onde o adolescente vai ser mais bem compreendido não apenas dentro da escola, mas também dentro da família e da sociedade em que está inserido.

Sabemos que a escola traz uma série de padrões já estabelecidos a serem cumpridos pelos indivíduos que lá freqüentam, mas essa instituição precisa rever suas relações com a realidade que gira em torno, dando assim maior oportunidade para que não haja conflitos rancorosos entre a instituição e o individuo adolescente. Sabemos que é muito difícil mudar, ainda mais quando quem nos aponta essas necessidades de mudanças são pessoas que estão passando por um momento de transição e que para todos os efeitos ainda não tem uma “personalidade definida”, mais ainda sim é possível, basta à escola aprender a ter maior flexibilidade. Conforme MACEDO (1998, p. 166):

A questão toda está na maior habilidade para lidar com os conflitos, com o impacto da inadequação das regras estabelecidas e enfrentar as crises com criatividade e coragem para mudar. É muito difícil reconhecer que é preciso mudar e, sobretudo o que é preciso mudar e como, principalmente quando quem nos aponta as falhas são os filhos/alunos.

Tendo em vista que a escola é um espaço de reflexão, é possível acreditarmos na sua plena influência para a vida dos adolescentes já que estes estão no processo de transição à fase adulta, precisando encontrar bases fundamentais para formação de um indivíduo conscientes dos direitos e deveres. Sendo assim, a escola é o lugar ideal para que ocorra a busca por essa consciência, pois é através dela que podemos conservar ou superar modelos e valores.

Ainda nessa linha de raciocínio é função do meio escolar equilibrar os vários elementos do meio social, e providenciar para que cada indivíduo tenha a oportunidade de se libertar das limitações do grupo social em que nasceu e entrar em contato ativo com um meio mais amplo. Neste sentido é interessante observamos a reflexão desenvolvida por RODRIGUES (2001, p. 21):

A escola tem como função desenvolver, organizar, e ampliar a consciência política dos educandos a partir da própria prática pedagógica, enquanto atividade específica da vida da escola, desde os seus níveis mais elementares até os níveis superiores de educação escolar.

Desse modo, a escola como mediadora do conhecimento, tem como função principal estimular o adolescente enquanto sujeito transformador é também na escola que o adolescente precisa encontrar seu espaço para assumir o protagonismo de sua história e de seu futuro na sociedade.

Assim como na família, na escola o adolescente precisa encontrar espaço para exercer seus questionamentos e mostrar o seu momento de ascensão à fase adulta. A escola precisa oportunizar contextos de expressão para que o jovem possa mostrar seu potencial e desmistificar esse paradigma tão forte que diz ser a adolescência uma fase de tormenta e que o adolescente é um ser difícil de lidar.

Conforme GANDIN (1997, p. 108) ”educar é dotar a população de instrumentos básicos para a participação na sociedade”. O desenvolvimento emocional e cognitivo na adolescência se realiza no decorrer das diversas atividades oferecidas no espaço educativo da escola. Além disso, é importante que o mesmo possa exercitar na escola seu desenvolvimento social, do ponto de vista de sua participação no coletivo, enquanto cidadão de direitos e deveres.

Vimos, pois, como a escola assume função importante na aquisição das habilidades para o desempenho da vida societária. Destacamos, aqui, a noção de alteridade, ou seja, de reconhecimento e respeito às necessidades do outro, a ética das relações, a convivência com as diferenças. Destacamos como a escola pode influenciar para que estes indivíduos possam se tornar adultos responsáveis e donos de sua história.

Dessa forma reconhecemos que escola e família são dois sistemas interligados na busca de uma boa formação de seus membros. Para que possamos melhor entender isso, MACEDO (1998, p. 171) nos revela que:

A situação é complexa e se cada qual resolver agir à sua maneira, reagindo às adaptações, tornando-se rígidos demais em suas exigências, não considerando as peculiaridades e novidades apresentadas por esses membros e, o que é pior, ignorando-se um ao outro, os resultados a esperar são os piores possíveis na direção de conflitos, confrontos, rebeldia, omissão, agressividade de todas as partes.

Pensando nisso é que a escola assim como a família, precisa preparar bem o adolescente, para que ao se deparar com as normas e valores exigidos pela sociedade não haja mais tantos conflitos. Sendo assim, no próximo tópico abordaremos como se relaciona sociedade e adolescência, diante de tantas transformações e mudanças ocorridas no decorrer de todo esse processo de transição pelo qual passa o adolescente até chegar à fase adulta.

4.3 ADOLESCENCÊNCIA E SOCIEDADE

No tópico anterior vimos à importância da instituição escola para a vida dos adolescentes. Sendo a adolescência também um fenômeno social, almejamos nesse tópico entender como se dá a relação do adolescente com a sociedade como um todo, já que os conflitos existenciais na adolescência normalmente aparecem como problemas entre o sujeito e a sociedade.

Quando estudamos o sujeito adolescente estamos estudando também todo o social que o envolve. Pois todas as transformações ocorridas ao longo do processo de mudanças implicarão justamente no meio social, onde esses indivíduos se orientam e organizam suas condutas.

A sociedade traz um conjunto de regras e valores aos quais o indivíduo adolescente precisa adaptar-se, isso demonstra a poderosa influência da sociedade no estabelecimento da personalidade desse indivíduo, bem como as diferentes possibilidades de patologia onde a família, as subculturas adolescentes e as variáveis culturais intervém de forma evidentemente determinantes. Para compreendermos melhor KNOBEL (1981, p. 19) nos diz que:

Se agregarmos a isto os típicos mecanismos projetivos do adolescente e de toda a sociedade na qual se desenvolve, observa-se que a sociedade intervém, muito ativamente, na situação conflitiva do adolescente. A sociedade estabelece as normas de conduta e determina a maioria das possibilidades e tipos de identificações, assim como o esquema final de estruturação da personalidade em determinada cultura.

Nossa sociedade é muito complexa e padronizada, onde exige que todas as pessoas mantenham um padrão uniforme, especialmente no que diz respeito a moral e os costumes. Como o adolescente está saindo da infância, ele ainda não tem estrutura suficiente para absorver todas essas exigências com a qual se depara, daí começa a surgir os conflitos.

Partindo desse pressuposto, seria um grave erro atribuir todas as características do adolescente, sejam elas conflitivas ou não, às suas mudanças biológicas, subestimando o contexto social. As primeiras identificações do adolescente com o meio social começam com a família, mas ao longo do processo de transformações os outros meios em que o adolescente vive vão determinando novas identificações e incorporando uma quantidade de normas sócio-culturais que se tornam impossíveis de recusar ou minimizar.

A sociedade de certa forma caracteriza o adolescente como um ser difícil de lidar, este fato ocorre devido as incontroláveis mudanças físicas que acontecem nesta fase e às exigências feitas pelo meio social acabam formando um turbilhão de conflitos na personalidade dos mesmos.

A sociedade também apresenta uma série de mudanças, é regulada e dirigida de diferentes maneiras, de acordo com cada cultura, limitando assim o adolescente, fazendo com que o mesmo reaja de forma a querer adaptar esse meio aos seus anseios. Essas mudanças acabam causando instabilidade na vida dos adultos que já tem uma personalidade formada, imagine para os adolescentes que estão em fase de transição. Para justificar esse parágrafo KNOBEL (1981, p. 20) diz que:

A sociedade, por outro lado, atravessa intensas reestruturações em todos os momentos, especialmente em nossa época. Portanto, adquire significado diferente para os adultos que devem enfrentar estas modificações com maior responsabilidade (e, sem dúvida, com maior ansiedade). Essas mudanças geram sentimentos de insegurança, desacomodação e reações paranóides facilmente detectáveis. O mundo adulto se vê ameaçado não apenas pelas mudanças sócio-culturais, como também sente ameaçada sua intimidade, além de seus próprios conflitos, obrigando-o a recorrer a um mecanismo paranóide por meio do qual projeta e desloca toda ameaça na juventude. Assim, por efeito desse mecanismo psicodinâmico, os jovens são, muitas vezes, marginalizados e rejeitados.

Estes fatos implicam numa cuidadosa atenção às acusações feitas pela sociedade aos adolescentes, quando apontam este indivíduo como um ser difícil e complicado de lidar. É realmente uma fase difícil, mas é também um momento de transição, sendo assim a sociedade também apresenta falhas ao querer adotar um padrão de regras, na qual julga o adolescente.

Este julgamento pode deixar os indivíduos vulneráveis a prováveis desestruturações de personalidade, já que a subestimação dessas situações acarretará na predominância de uma adolescência ressentida, que dessa maneira irá projetar-se na idade adulta. Conforme KNOBEL (1981, p. 21) “o fato de o adolescente chegar a ser um adulto satisfeito, irá depender, em grande parte, das possibilidades que encontrar para expressar adequadamente sua personalidade”.

Partindo de todos esses pressupostos, torna-se importante ressaltar mais uma vez, que esse desenvolver gradual, do poder e da capacidade, não é simplesmente um fato universal condicionado biologicamente. Ainda que os processos biológicos básicos de maturação sejam, provavelmente, semelhantes em todas as sociedades humanas, o desenvolvimento social desse indivíduo é variável e influenciado de acordo com cada meio e cada cultura. Reforçando esse entendimento concordamos com SOLARI apud MOSQUERA (1977, p. 30), quando diz que “a adolescência, apesar de suas transformações biológicas, é, essencialmente, um fenômeno social e por isso é profundamente influenciada pelas considerações e mitos que a sociedade faz de si”.

Portanto, é conveniente considerar a adolescência tanto como um fenômeno específico de um ciclo vital do desenvolvimento, como também uma expressão circunstancial de natureza sócio-cultural.

O adolescente é um ser inseguro, essa insegurança é considerada intensa devido ao momento de metamorfose pelo qual está passando. Esse indivíduo não pode olhar à frente com facilidade e nem planejar seu futuro sem perigos. Sua área principal é crescer, desenvolver confiança, alcançar uma clara visão de si como homem/mulher que surge, do mundo circundante e talvez o mais significativo, preparar-se para as tarefas da vida adulta.

Sendo assim, tanto a família, a escola e a sociedade tem papel fundamental no desenvolvimento biopsicossocial desse indivíduo. Conforme MOSQUERA (1977, p. 32) “o jovem é um ser humano com problemas e interesses, preocupado na busca de valores e significações”. As instituições sociais devem se encarregar de ajudar esses indivíduos a encontrar essas significações.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao aprofundar essa discussão sobre o tema citado verificou-se através de um resgate histórico que o conceito de adolescência passou por um processo de transformação ao longo dos tempos. Através de estudos sobre psicologia da adolescência, percebemos ainda que só a partir do século XVIII, XIX, que surgiu a necessidade de elaborar um conceito para a fase da vida humana que intermediava entre a infância e a idade adulta.

Esse conceito caracterizou-se por adolescência, onde o individuo passa por uma série de transformações biológicas, psicológicas e sociais. Também podemos constatar que mesmo sendo a adolescência um processo de metamorfose entre a criança e o adulto, suas manifestações e comportamentos variam dependendo do modelo padronizado por cada cultura. Assim o adolescente manifestará seu comportamento de acordo com o meio em que está inserido, desencadeando assim vários tipos de adolescência, conforme as regras e padrões que cada cultura impõe.

As mudanças biológicas ocorridas na puberdade, durante esse processo, são fenômenos universais para todos os membros da espécie humana, pois englobam transformações físicas pelas quais todos os indivíduos passarão independente de qualquer cultura ou sociedade, porém os efeitos psicossociais que atingem o ser humano nessa fase da vida são efeitos dessas mudanças, por não estarem preparados para tantas transformações os adolescentes, acabam reagindo de forma à desencadear conflitos e crises.

Essas crises se dão pelo fato do individuo não saber quem é realmente, gerando muitas inseguranças, colocando-se um conflito crucial entre deixar de ser criança e torna-se adulto. Essas crises trazem perdas, encontros e dúvidas. Como na crise de identidade onde o adolescente está deixando seu corpo e mente de criança e adquirindo outras características físicas, outras maneiras de pensar e agir. Na crise de autoridade como o adolescente está mudando sua forma de agir e pensar, este também está absorvendo novos valores. E a crise sexual traz ao adolescente uma nova adaptação à realidade, pelo fato, das transformações do corpo, pela descoberta do erotismo, enfim, por todas as transformações que os envolvem nesse processo de mudança.

Podemos perceber ainda, que diante de todo esse processo de transformação, o ser adolescente mesmo com a necessidade de tornar autônomo, precisa de um apoio fundamental para o desenvolvimento de sua personalidade. Esse apoio vem de instituições que acompanham de perto todas as transformações ocorridas e todas as necessidades pelas quais os adolescentes perpassam. Assim a família, como primeira expressão de sociedade, a escola como segundo sistema em que o adolescente se insere e a sociedade com suas normas e valores impostos trazem uma importante influência para a vida dos mesmos. Porém, da mesma forma que estes podem trazer benefícios, podem também prejudicar causando traumas, medos etc, travando o processo criativo dos adolescentes.

A partir de todo o estudo desenvolvido, de todas as teorias estudadas, podemos constatar que a adolescência, portanto, deve ser compreendida como um processo de transição biopsicossocial da infância para a idade adulta, onde estão presentes influências históricas e culturais na constituição do psicológico internalizado, mas com uma enorme influência dos aspectos culturais e socais referentes ao “modelo” difundido na sociedade, além dos papeis atribuídos a cada gênero pela cultura. Sendo assim, torna-se errôneo ou equivocado falar-se da adolescência apenas como uma transformação biológica, onde o que marca essa fase são apenas mudanças físicas.

Ao longo de todo o processo da adolescência, o adolescente está envolvido diretamente com o biopsicossocial, pois desde que entra na etapa da puberdade, onde começam aflorar as transformações biológicas, ou seja, físicas, esse individuo já começa a passar também por um processo de transformação psicológica e social.

Portanto, torna-se necessário, como possibilidade de superar essa visão negativista sobre a adolescência, de que essa é uma fase isolada do desenvolvimento humano, reconhecer o adolescente como alguém que cresceu, que também deve ser tratado com respeito quanto ás suas opiniões e desejos.

Por fim, queremos apontar a importância que os sistemas sociais, especialmente, família, escola e sociedade, têm sobre o desenvolvimento dos adolescentes para que esse indivíduo possa se tornar um ser maduro e consciente de seus direitos e deveres. Sem medos ou traumas. Que possa encarar os processos sociais como sujeito histórico, como ser ativo no seu fazer social.

O objetivo desse estudo foi promover uma discussão maior sobre o tema abordado, fazendo com que se dê a devida importância sobre a adolescência como um processo de construção social. Depois, abrir novos caminhos a posteriores pesquisadores, já que as limitações de pesquisa se fizeram presentes durante todo o desenvolvimento do trabalho.

Entretanto, percebemos que a presente discussão é muito ampla e requer um maior aprofundamento. Então esperamos que esse estudo não seja um ponto final, mas uma abertura a estudos posteriores, cada vez mais aprofundados que possa promover uma reflexão maior a respeito dessa temática, fornecendo elementos para um debate não somente em nível acadêmico, mas também socialmente, estimulando nossos estudiosos um interesse maior sobre a questão.

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