Alterações Clínicas e Nutricionais

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A alimentação saudável, completa, variada e agradável ao paladar é de extrema importância. Indivíduos com transtornos alimentares apresentam inadequações no consumo, padrão e comportamento alimentar. Os transtornos alimentares são definidos como desvios do comportamento alimentar que podem levar ao emagrecimento extremo ou à obesidade acompanhados de várias complicações clínicas relacionadas ao comprometimento do estado nutricional. Os principais tipos de transtornos alimentares são a anorexia e a bulimia nervosas e o transtorno de compulsão alimentar periódico. A anorexia nervosa é um transtorno emocional que consiste numa perda de peso devido a um intenso temor da obesidade. A bulimia nervosa é um transtorno mental que se caracteriza por episódios repetidos de ingestão excessiva de alimentos, seguido por práticas compensatórias inadequadas para o controle do peso corporal.

No transtorno de compulsão alimentar periódico há episódios de ingestão excessiva de alimentos, mas sem se utilizarem de métodos purgativos. Independente do tipo de transtorno apresentado, o tratamento multidisciplinar que inclua abordagem nutricional, farmacológica e familiar é necessário para reverter as alterações clínicas e no estado nutricional.

INTRODUÇÃO

O comportamento alimentar não é apenas a prática empírica de se alimentar, mas também os aspectos subjetivos que envolvem a alimentação sejam eles socioculturais ou psicológicos (GARCIA, 2007).

Uma alimentação saudável, completa, variada e agradável ao paladar é de extrema importância para a promoção da saúde, para a prevenção e controle de doenças crônicas não transmissíveis. Assim, a educação nutricional assume papel importante na promoção de hábitos alimentares saudáveis (BOOG, 1999).

Os transtornos alimentares são síndromes comportamentais, descritas como transtornos e não como doenças por ainda não se conhecer bem sua etiologia. Geralmente apresentam as suas primeiras manifestações na infância e na adolescência (CLAUDINO & BORGES, 2002). São acompanhados de várias complicações clínicas relacionadas ao comprometimento do estado nutricional e às práticas compensatórias inadequadas para o controle do peso (ASSUMPÇÃO & CABRAL, 2002).

Resultam da interação de fatores pessoais, familiares e socioculturais, caracterizados pela preocupação intensa com alimento, peso e corpo (SOUTO & FERRO-BUCHER, 2006). Muitas complicações surgem em decorrência do atraso do diagnóstico e do início do tratamento (ASSUMPÇÃO & CABRAL, 2002).

Apresentam prognóstico reservado e, caracteristicamente, envolvem a família. O tratamento padrão deve ser multidisciplinar, evitando as formas crônicas e imutáveis das doenças alimentares (PIZON et al, 2004).

Indivíduos com transtornos alimentares possuem inadequações no consumo, padrão e comportamento alimentar, além de diversas crenças equivocadas sobre alimentação, acarretando piora do estado nutricional. Os principais tipos de transtornos alimentares são: anorexia nervosa (AN), bulimia nervosa (BN) e o transtorno de compulsão alimentar periódico (TCAP) (LATERZZA et al, 2004).

O tratamento nutricional é necessário para reverter as alterações clínicas e no estado nutricional, que necessita de cuidados dietéticos específicos, como reabilitação nutricional e orientação sobre dieta adequada (ALVARENGA & LARINO, 2002).

No presente artigo pretende-se discutir a respeito dos transtornos alimentares e suas possíveis conseqüências clínicas e nutricionais.

METODOLOGIA

Para a realização desta revisão de literatura foram utilizados artigos científicos retirados de base de dados como Scielo, Revista Brasileira de Nutrição Clínica, livros e busca em periódicos. Foi realizada a busca por referências atuais, publicadas a partir do ano de 1999. Os termos de busca utilizados foram: transtornos alimentares, anorexia nervosa, bulimia nervosa, compulsão alimentar, nutrição, saúde, inanição, caquexia, desnutrição, obesidade.

REVISÃO DA LITERATURA

Principais transtornos alimentares

Os transtornos alimentares são quadros psiquiátricos que afetam principalmente adolescentes e adultos jovens do sexo feminino, levando a grandes prejuízos biopsicossociais com elevada morbidade e mortalidade. Entre os principais transtornos alimentares estão anorexia e bulimia nervosas, e o transtorno de compulsão alimentar periódico (DOYLE & BRYANT-WAUGH, 2000).

A anorexia nervosa é caracterizada por perda de peso intensa devido a dietas rígidas em busca desenfreada pela magreza, ocasionando distorção da imagem corporal e amenorréia (ABREU & CORDÁS, 2004).

A bulimia nervosa caracteriza-se por uma grande ingestão de alimentos com consequente perda de controle, os chamados episódios bulímicos. Estes episódios são acompanhados de métodos compensatórios inadequados para o controle de peso, como vômitos auto-induzidos, uso de medicamentos, dietas e exercícios físicos rigorosos (FILHO & ABREU, 2004).

Indivíduos com o transtorno de compulsão alimentar periódico apresentam os episódios de compulsão alimentar com perda de controle, mas não utilizam métodos compensatórios para evitar o ganho de peso, sendo em sua maioria obesos (APPOLINÁRIO & CLAUDINO, 2000).

Etiologia dos transtornos alimentares

Fatores psicossociais desempenham um importante papel na etiologia dos transtornos alimentares. A influência da mídia e a busca por um corpo perfeito estão associadas com o seu desencadeamento. O modelo multifatorial que se baseia na hipótese de que fatores biológicos, psicológicos e sociais estejam envolvidos, explica a gênese e a manutenção destes transtornos (APPOLINÁRIO & CLAUDINO, 2000).

Na bulimia nervosa, todo tipo de situação que gera sentimentos negativos como frustração, tristeza, ansiedade, tédio e solidão resulta no ciclo compulsão alimentar-purgação (APPOLINÁRIO & CLAUDINO, 2000).

O medo de engordar é uma característica essencial, que diferencia os transtornos alimentares de outros tipos de doenças clínicas ou psiquiátricas. Os pacientes passam a viver exclusivamente em função da dieta, da comida, do peso e da forma corporal, restringindo seu campo de interesses e levando ao gradativo isolamento social (APPOLINÁRIO & CLAUDINO, 2000).

Imagem corporal

A imagem corporal é o conceito que cada um tem do seu corpo. O individuo portador de transtornos alimentares, pensa em extremos com relação a sua aparência ou é muito crítico com a mesma (SAIKALI et al, 2004).

A imagem corporal envolve três componentes: o perceptivo, que se relaciona com a precisão da percepção da própria aparência física envolvendo uma estimativa do tamanho corporal e do peso; o subjetivo, que envolve aspectos como satisfação com a aparência, o nível de preocupação e a ansiedade a ela associada; e o comportamental, que focaliza as situações evitadas pelo indivíduo por experimentar desconforto associado à aparência corporal (SAIKALI et al, 2004).

Diagnósticos

A anorexia e a bulimia nervosas e o transtorno de compulsão alimentar periódico, sendo transtornos de origem multifatorial, necessitam de avaliações que contemplem os vários aspectos envolvidos na sua gênese e manutenção. Para isso foram criados instrumentos de avaliação como: questionários auto-aplicáveis, entrevistas clínicas e automonitoração (GORENSTEIN et al, 2002).

Os questionários auto-aplicáveis são de fácil administração, eficientes e econômicos na avaliação de grande número de indivíduos. A entrevista clínica fornece avaliações descritivas da gravidade da psicopatologia específica dos transtornos alimentares e gera diagnósticos de acordo com os critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais (DSM-IV). Porém sua aplicação é demorada e requer entrevistadores treinados. O automonitoramento consiste em diários alimentares nos quais os pacientes anotam a ingestão alimentar durante uma semana. As dificuldades com o diário incluem a falta de adesão dos pacientes e a incerteza quanto à fidelidade das anotações (FREITAS et al, 2002).

No caso da anorexia e da bulimia nervosas os critérios de diagnóstico são referidos no DSM-IV e na Classificação Internacional de Doenças CID-10 (APA, 2000; OMS, 1993 & CLAUDINO & BORGES, 2002).

O diagnóstico dos transtornos alimentares deve abranger não apenas os aspectos psicopatológicos específicos, mas também os sintomas psicopatológicos gerais e distúrbios da imagem corporal que contribuem para a manutenção do transtorno e dificultam seu tratamento (APPOLINÁRIO et al, 2002).

Complicações clínicas

Os transtornos alimentares são acompanhados de várias complicações clínicas relacionadas ao comprometimento do estado nutricional e às práticas compensatórias inadequadas para o controle do peso (ASSUMPÇÃO & CABRAL, 2002).

Alterações metabólicas e hidroeletrolíticas

A hipercolesterolemia e a hipoglicemia são as principais alterações metabólicas ocorridas nos transtornos alimentares. A hipercolesterolemia decorre da redução dos níveis do hormônio tireoidiano T3 e da globulina carreadora de colesterol e/ou da diminuição da excreção fecal de ácidos biliares e colesterol. A hipoglicemia pode ocorrer após jejuns prolongados, ou em resposta a episódios de compulsão alimentar seguidos de vômitos (ASSUMPÇÃO & CABRAL, 2002).

Entre as alterações hidroeletrolíticas estão a hipocalemia que é causada pelo vômito, desnutrição e abuso de medicamentos depletores de potássio como diuréticos e laxantes; a hiponatremia conseqüente de uma grande ingestão de água ou às flutuações do hormônio anti-diurético (ADH); a hiperfosfatemia que pode ser conseqüência da desnutrição ou se desencadear após a realimentação. Quando há uso de laxativos ou de diuréticos e na prática de vômitos auto-induzidos, podem ocorrer distúrbios do equilíbrio ácido-básico como a acidose metabólica e a alcalose metabólica hipocalêmica (JORGE & VITALLE, 2008).

Alterações oftalmológicas

Catarata, atrofia do nervo óptico e degeneração da retina podem também acompanhar a inanição (ASSUMPÇÃO & CABRAL, 2002).

A catarata é indicada pela presença de uma ou várias áreas opacas no cristalino do olho, onde as proteínas em algumas fibras do cristalino se desnaturam. A atrofia do nervo óptico pode causar cegueira e a degeneração da retina pode causar a retinite pigmentosa, que leva primeiramente à cegueira no campo periférico da visão e depois gradualmente invade as áreas centrais (GUYTON & HALL, 2006).

Alterações endócrinas

Entre as alterações endócrinas, a amenorréia vem a constituir um dos critérios diagnósticos para anorexia nervosa, mas pode ocorrer também nos pacientes de peso normal que apresentem bulimia nervosa. Ela pode preceder ou ser concomitante à perda de peso, podendo persistir até a recuperação de um peso mínimo saudável. A amenorréia pode ser acompanhada de várias anormalidades como: regressão dos ovários para estágios pré-puberais com múltiplos pequenos folículos, regressão do tamanho mamário e perda parcial dos pêlos pubianos. O útero pode se encontrar diminuído e observam-se mudanças atróficas na parede vaginal levando a um transtorno sexual caracterizado pela sensação de dor genital durante o ato sexual conhecido como dispaurenia e diminuição da libido (GUSMÃO, 2002).

Os níveis de leptina são reduzidos na anorexia nervosa. A leptina é um hormônio peptídico liberado pelos adipócitos. Quando a quantidade de tecido adiposo aumenta, os adipócitos produzem quantidades aumentadas de leptina (GUYTON & HALL, 2006). Este hormônio controla a ingestão alimentar por ação hipotalâmica. Quando os transtornos alimentares ocorrem no sexo masculino, há diminuição dos níveis de testosterona, FSH e LH, associados a uma redução do volume testicular (ASSUMPÇÃO & CABRAL, 2002).

Na anorexia nervosa, a vasopressina (AVP) é liberada mais lentamente ou de forma errática em resposta às alterações osmóticas, podendo causar diabetes insípido parcial, responsivo à administração de AVP. O nível basal de hormônio do crescimento está aumentado na anorexia nervosa e na bulimia nervosa. Hipercortisolemia, elevação do cortisol livre urinário e alteração do ritmo circadiano do cortisol podem estar presentes (ASSUMPÇÃO & CABRAL, 2002).

No eixo tireotrófico há redução dos níveis de triiodotironina (T3) e tiroxina (T4), elevação dos níveis de T3 reverso e níveis normais ou pouco diminuídos do hormônio tireoestimulante. A redução dos níveis de T3, provavelmente ocorre por uma redução na conversão periférica de T3 à T4 como mecanismo adaptativo à desnutrição (ASSUMPÇÃO & CABRAL, 2002). Os hormônios tireoidianos T3 e T4 são essenciais para a manutenção das taxas metabólicas normais em todas as células corporais (GUYTON & HALL, 2006).

Alterações gastrintestinais

A constipação intestinal está entre as manifestações mais freqüentes nos transtornos alimentares e decorre do uso de laxantes que podem levar à danos irreversíveis ao cólon intestinal. Eritema do palato, faringe e gengiva e erosão do esmalte dentário, podem ser observados nos pacientes com transtornos (ASSUMPÇÃO & CABRAL, 2002).

Há um aumento das glândulas parótidas na bulimia nervosa. A regurgitação contendo acido gástrico, a alcalose metabólica, e a desnutrição aumentam a liberação de enzimas proteolíticas pancreáticas contribuindo também para a parotidite (GUSMÃO, 2002).

A hiperamilasemia acompanha a hipertrofia glandular salivar. A dilatação gástrica pode ocorrer como complicação na fase de realimentação abrupta ou nos casos de ingestão de grandes quantidades de alimentos. Os vômitos freqüentes podem levar à esofagite e ao sangramento da mucosa intestinal. A pancreatite aguda pode ser secundária aos episódios de compulsão alimentar ou ao uso abusivo de diuréticos (GUSMÃO, 2002).

Alterações renais

A concentração urinária pode estar diminuída devido a níveis flutuantes de ADH, grande ingestão de líquidos de baixa caloria, redução da osmolaridade da medula renal, inanição e diminuição da uréia. A hipocalemia pode resultar em nefropatia hipocalêmica devido às práticas compensatórias. A desidratação crônica e os níveis elevados de oxalato de cálcio favorecem o desenvolvimento de cálculos renais. A hematúria está relacionada ao excesso de atividade física, podendo se normalizar após a realimentação e hidratação (ASSUMPÇÃO & CABRAL, 2002).

Alterações pulmonares

Dentre as alterações pulmonares observa-se mais raramente o pneumomediastino, secundário à broncoaspiração em decorrência dos vômitos excessivos. A taquipnéia pode decorrer da acidose metabólica. A bradipnéia ocorre em resposta à alcalose metabólica decorrente da prática de vômitos (ASSUMPÇÃO & CABRAL, 2002).

Alterações ósseas e do crescimento

A má nutrição reduz a formação nova de osso, ou “turnover”, que associada à puberdade atrasada, ao hipercortisolismo, à diminuição da ingestão de cálcio, proteínas e vitamina D, favorecem a queda da densidade mineral óssea, levando a uma diminuição ou suspensão do crescimento ósseo linear (ASSUMPÇÃO & CABRAL, 2002).

Quando a anorexia nervosa ocorre na fase precoce da puberdade, pode ocorrer osteopenia ou até mesmo osteoporose irreversível, favorecendo a ocorrência de fraturas patológicas. A osteopenia também pode ocorrer no sexo masculino, em decorrência da diminuição da testosterona (ASSUMPÇÃO & CABRAL, 2002).

Alterações hematológicas

A anemia e a leucopenia são as principais alterações hematológicas nos transtornos alimentares (ASSUMPÇÃO & CABRAL, 2002). A anemia é a deficiência de hemoglobina no sangue que pode ser causada pela redução do teor celular de hemácias ou pela redução do teor de hemoglobina nas hemáceas. A leucopenia ocorre quando a medula óssea produz poucos leucócitos deixando o corpo desprotegido contra bactérias e agentes invasores (GUYTON & HALL, 2006).

Pode-se encontrar anemia em 30% dos pacientes com transtornos, sendo do tipo normocítica e normocrômica. Pode também ocorrer anemia do tipo ferropriva, em decorrência da deficiência de ingestão de ferro ou de sangramento retal por uso excessivo de laxativos e a anemia macrocítica por déficit de vitamina B12 ou folato, leucopenia com linfocitose relativa e trombocitopenia (ASSUMPÇÃO & CABRAL, 2002).

Alterações cardiovasculares

A hipotensão arterial resulta do estado de depleção crônica de volume circulante. A bradicardia decorre da redução do metabolismo em adaptação à inanição, por alterações na conversão do T4 em T3 ou por hiperatividade vagal. Em resposta à desidratação podem ocorrer taquicardia e alterações eletrocardiográficas, onde ocorre a síndrome de realimentação caracterizada por um colapso cardiovascular após a introdução da alimentação em um paciente desnutrido, devido à sobrecarga de ingestão calórica e pouca capacidade do sistema cardiovascular (JORGE & VITALLE, 2002).

Alterações nutricionais

A alimentação e a dieta têm um importante papel no desenvolvimento e manutenção dos transtornos alimentares. Indivíduos com transtornos alimentares apresentam importantes restrições dietéticas, padrões alimentares inadequados e uma sensação de incompetência para lidar com o alimento. Tais alterações podem levar a mudanças em seu estado nutricional, que necessita de cuidados dietéticos específicos, como reabilitação nutricional e orientação sobre dieta adequada (ALVARENGA & LARINO, 2002).

Desnutrição

A desnutrição é definida como uma condição clínica decorrente da deficiência de um ou mais nutrientes essenciais para o funcionamento do organismo. Pode ser causada por fatores socioeconômicos, culturais, disponibilidade de alimentos e fatores psicológicos, sendo o último a principal causa da desnutrição nos transtornos alimentares. A desnutrição acarreta alterações na composição corporal e no funcionamento normal do organismo (RECINE & RADAELLI, 2000).

Os sinais clínicos da desnutrição em pacientes com transtornos alimentares são lanugo, hiperbetacarotenemia e bradicardia. Indivíduos com anorexia nervosa na maioria das vezes apresentam-se desnutridos (SICCHIERI et al, 2006).

Inanição e caquexia

A inanição é caracterizada por uma extrema perda de peso. Pode ser provocada por uma inadequada disponibilidade de comida ou por condições fisiopatológicas que reduzem o desejo pela alimentação, incluindo distúrbios psicogênicos, anormalidades hipotalâmicas e fatores liberados pelos tecidos periféricos. O efeito principal da inanição é uma progressiva depleção de proteínas e das gorduras teciduais. Além disso, ocorre deficiência de vitaminas hidrossolúveis (GUYTON & HALL, 2006).

A caquexia é um distúrbio metabólico que aumenta o gasto energético acarretando uma perda ponderal maior do que a provocada pela redução da ingestão alimentar. A anorexia nervosa está relacionada com a inanição e a caquexia (GUYTON & HALL, 2006).

Obesidade

A obesidade é definida como um excesso de gordura corporal. É resultante de uma ingestão calórica superior ao gasto energético. Fatores ambientais, sociais e psicológicos contribuem para a ingestão excessiva de alimentos (GUYTON & HALL, 2006).

A leptina é um hormônio que regula o apetite e o peso corporal, sinalizando ao cérebro quando o organismo está satisfeito, iniciando a termogênese induzida pela dieta. No individuo obeso, os níveis de leptina estão diminuídos, não ocorrendo essa sinalização. No transtorno de compulsão alimentar é muito comum encontrar indivíduos obesos. (RECINE & RADAELLI, 2000).

Tratamento

O tratamento apresenta melhores resultados em casos de intervenção precoce durante a adolescência, evitando as formas crônicas e imutáveis das doenças alimentares. O tratamento-padrão deve ser multidisciplinar, contando com uma equipe formada por psiquiatras, nutricionistas, psicólogos, psicopedagogos e endocrinologistas, além da abordagem familiar (PIZON et al, 2004).

A principal meta do tratamento da anorexia nervosa é o ganho de peso até o índice de massa corporal acima de 19. No tratamento da bulimia nervosa a meta é a regularização do padrão alimentar com suspensão de práticas purgativas e restritivas. Os objetivos do tratamento do transtorno de compulsão alimentar periódico devem incluir a redução dos episódios bulímicos, diminuição do peso corporal para pacientes obesos e melhora da psicopatologia associada (SALZANO e CORDÁS, 2004).

Tratamento farmacológico

A farmacoterapia é um componente de abordagens psicológicas e nutricionais no tratamento dos transtornos alimentares. Os medicamentos psicotrópicos são os mais indicados para tratar as co-morbidades e também os sintomas chamados de nucleares (APPOLINÁRIO & BACALCHUK, 2002).

A anorexia nervosa ainda não possui um tratamento farmacológico considerado eficaz para melhora da psicopatologia do transtorno. O uso de antidepressivos tricíclicos e ISRS mostra-se parcialmente eficaz na bulimia nervosa e no transtorno de compulsão alimentar periódico (SALZANO & CORDÁS, 2004).

Tratamento nutricional

O tratamento nutricional visa reverter às alterações decorrentes dos transtornos alimentares, promover hábitos alimentares saudáveis e melhorar a relação com o alimento. O nutricionista é o profissional capacitado para propor essas modificações do consumo, padrão e comportamento alimentares (LATERZZA et al, 2004).

O tratamento nutricional se dá em duas fases: a fase educacional que objetiva a coleta e transmissão de informações como: história alimentar do paciente, a definição de conceitos relevantes sobre alimentos, a apresentação de exemplos de padrões de fome e de consumo alimentar e a orientação básica para a família; a fase experimental inclui separar comportamentos relacionados a alimento e peso de sentimentos e questões psicológicas, incentivar as mudanças de comportamento alimentar e orientar a manutenção de um peso adequado (ALVARENGA & LARINO, 2002).

O tratamento nutricional da anorexia nervosa envolve o restabelecimento do peso, normalização do padrão alimentar, da percepção de fome e saciedade e correção de seqüelas biológicas e psicológicas da desnutrição. Já na bulimia nervosa e no transtorno de compulsão alimentar periódico, os objetivos são diminuir as compulsões, minimizar as restrições alimentares, estabelecer um padrão regular de refeições, aumentar a variedade de alimentos consumidos, corrigir deficiências nutricionais e estabelecer práticas de alimentação saudável. (ALVARENGA & LARINO, 2002).

A primeira escolha para a recuperação do peso é a realimentação, com uma dieta balanceada e suficiente para atender as necessidades e recuperar o estado nutricional. No início é importante fornecer calorias necessárias para o metabolismo basal. A ingestão de 200 a 500 calorias adicionais, por semana, promove o ganho de peso gradual (JORGE & VITALLE,2002).

A terapia nutricional deve ser feita com cautela evitando a síndrome de realimentação, onde pode ocorrer hipofosfatemia grave e súbita, queda de potássio e magnésio, intolerância a glicose, hipocalemia, disfunção gastrintestinal e arritmias cardíacas (JORGE & VITALLE, 2002).

O diário alimentar é um dos instrumentos mais utilizados e com melhores resultados no tratamento nutricional. Nele, os pacientes registram o horário, o local das refeições, a qualidade e a quantidade dos alimentos ingeridos, além da ocorrência de episódios de compulsão alimentar e compensações. É uma técnica comportamental de automonitoração, na qual os sentimentos associados àquele momento são também registrados (ALVARENGA & LARINO, 2002).

O tratamento nutricional deve visar à promoção de hábitos alimentares saudáveis, a cessação de comportamentos inadequados e a melhora na relação do paciente para com o alimento e o corpo (LATERZZA et al, 2004).

Abordagem familiar

A família é parte integrante e significativa no tratamento multidisciplinar dos transtornos alimentares. Unir família e paciente é uma forma de encontrar maneiras e alternativas para reconstruir e dar um significado a suas vivências e assim libertar-se de padrões de comportamentos diferenciais e inadequados (COBELO et al, 2004).

O trabalho conjunto entre terapeuta e família, é necessário para desconstruir as histórias limitantes que o transtorno alimentar impõe e desenvolver o sentido de confiança para que possam compartilhar as possíveis crises que irão surgir ao longo do tratamento (SAIKALI et al, 2004).

Abordagem psicológica

O atendimento psicológico tem a finalidade de conhecer a dinâmica do paciente, o histórico do transtorno e seu significado pessoal, como ele se organiza em relação à alimentação, de que maneira seu cotidiano é afetado, ajudando-o a promover relações mais saudáveis com o alimento (FERNANDES & LIMA, 2009).

CONCLUSÃO

Por ser uma patologia multifatorial, os transtornos alimentares necessitam de uma abordagem multidisciplinar para um manuseio mais adequado e satisfatório dessas condições clínicas. O diagnóstico precoce e uma abordagem terapêutica adequada dos transtornos alimentares são fundamentais para o manejo clínico e o prognóstico destas condições. O tratamento visa reverter as alterações clínicas e nutricionais que ocorrem com o indivíduo com transtorno alimentar, através de terapias nutricional, farmacológica, abordagem familiar e psicológica.

Uma vez que essas doenças estão relacionadas diretamente à alimentação e alteram fortemente o padrão e comportamento alimentares, o nutricionista é o único profissional qualificado para realizar a terapia nutricional, porém esta só será efetiva se este profissional estiver em constante interação com os demais membros da equipe pluridisciplinar.

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