1. O ECLIPSE DA RAZÃO

As idéias de Max Horkheimer presidiram toda uma linha de pensamento crítico de muitos estudiosos que se dedicaram a refletir sobre os aspectos sociais, culturais e políticos de seu tempo. Daí a razão de ser ele considerado a viga mestra de sustentação da “Escola de Frankfurt”, por ele batizada como “teoria crítica da sociedade”, termo que passou a ser adotado pelos seguidores. Financiada e dirigida pelos governos e estruturada, através de um processo de produção, onde o objeto da percepção é dado historicamente e o sujeito (o homem) é determinado, tanto social como historicamente de acordo com o seu aspecto “metodológico e categorial”. (Teoria Crítica e Categorial -252/255).

Em “O Eclipse da Razão”, publicado em 1974, Horkheimer procura estabelecer uma relação entre o impasse existente no momento filosófico atual com o dilema concreto das perspectivas humanas para o futuro. E, nessa abordagem dos problemas sócio-econômicos da atualidade, procura mergulhar no conceito de racionalidade subjacente, existente na cultura industrial contemporânea, com vistas a descobrir se tal conceito é falho, ou mesmo vicioso, em sua essência. E observa então que, mesmo em nossos tempos, as nações ditas democráticas continuam a lutar pela vitória, utilizando as armas, quando já era tempo de pôr em prática os princípios humanitários, em nome dos quais tanto sangue já fora derramado. É que, ainda hoje, persistem nos homens os mesmos sentimentos de desilusão e temor, de esperanças remotas, em face de uma brutal tecnologia que esmaga o pensamento e cerceia todas as potencialidades criadoras.

As técnicas mais avançadas de informação continuam cada vez mais pautadas por um progressivo espírito de desumanização. É o progresso que parece voltar-se contra o seu próprio objetivo: o homem.

Horkheimer pondera, todavia, que o atual estágio por que passamos, tanto poderá ser útil ao crescimento social, como pode representar um retrocesso ao néo-barbarismo e que a conclusão a que se pode chegar dependerá de nossa capacidade de interpretar com exatidão as mudanças efetuadas no homem e na própria natureza. Reafirma que o papel da filosofia será o de lançar alguma luz sobre as implicações filosóficas dessas mudanças, já que não compete a ela sugerir programas de ação, porque a ação “só por si mesma” é quase sempre inferior ao pensamento “só pelo pensamento”.

E, da forma como está sendo entendida a razão, pela nossa civilização, a “racionalização progressiva” tende a anular a própria substância da razão, em nome da qual vem sendo defendido esse progresso.

2. O Conceito de Filosofia em Horkheimer

Realmente, o homem comum se embaraça quando questionado sobre o significado da “razão”. Uns dizem ser a faculdade através da qual as pessoas conhecem e julgam; para outros, é ela que distingue os homens dos outros animais; outros afirmam que é a regra para as nossas ações; que é a retidão do espírito; que é o argumento básico do raciocínio; que ela é motivo, causa; que, como razão eterna, tem o mesmo conceito do Divino; e outros que tais.

Filosoficamente, há quem afirme que o termo “razão” pode ser entendido como a função mais elementar da inteligência que regula todas as operações intelectuais. Dela dependem os princípios primários e as idéias primárias.

Para Horkheimer, o conceito de “razão”já se explica a si mesmo. Nada há, a seu respeito, que ainda deva ser indagado. O homem comum dirá que é racional tudo o que lhe possa ser útil. É a razão subjetiva. Segundo Horkheimer, a razão formalizada dos tempos modernos conduz a um paradoxo:

– por um lado, o antagonismo que destrói o homem e a natureza atinge o seu clímax: a tentativa totalitária subjuga a natureza e reduz o homem a mero instrumento de repressão, subestimando todas as demais funções do ego, expressas em idéias e conceitos gerais.
– por outro lado, o presente momento filosófico, cuja função seria tentar conciliar o homem com a natureza, já nem se lembra da existência daquele antagonismo.

A filosofia que hoje se conhece, tal como os demais ramos da cultura, têm apenas contribuído para aumentar aqueles riscos de destruição, quando, pelo contrário, o seu papel deveria ser o de ajudar a invertê-los.

Acreditar na filosofia, diz Horkheimer, é “não ter medo de pensar”. É saber utilizar-se da técnica para, através dela, gerar compreensão. E é isto que falta aos homens de hoje: compreender que estão sendo vítimas e, ao mesmo tempo, executores da opressão. Existindo essas condições favoráveis, não se pode mais falar em “imaturidade”.Os que puderem defender a cultura, devem unir-se contra a degradação dos conformistas e a aniquilação dos bárbaros.

Para Horkheimer, o processo parece irreversível. As metafísicas que tentam fazer voltar o curso da História estão viciadas pelo próprio pragmatismo que elas dizem abominar. Já é tarde para lutar, assevera ele. A “doença” do mundo teria contaminado a consciência do homem, restando a este apenas uma “memória” já diluida na História. É uma “doença” agravada pelas próprias “revivências ontológicas”:

– os conservadores, que mostraram os aspectos negativos do cientificismo, tentando minimizar suas consequências funestas, não quiseram “correr o risco da revolução”;
– os liberais – como Tarde e, depois, Ortega y Gasset – que tentaram uma “unidade política” para o mundo civilizado e terminaram caindo num “conservadorismo pedagógico”.Ortega y Gasset, por exemplo, na “La Rebelion de las Massas”, comparam as massas a “crianças mimadas”, desprovidas de individualidade. Bastaria isto para tornar nulas essas teorias, como filosofia. Teorias que se utilizam demagogicamente de processos históricos, geralmente se transmudam em doutrinas repressivas, sejam elas radicais ou conservadoras.

A filosofia não é instrumento nem plano de ação. Ela apenas descortina perspectivas, desde que essas venham marcadas por necessidades reais. Nisto, pode até antecipar reações e resistências que o triunfo do homem moderno poderá provocar, diz Horkheimer.

A filosofia não se define. Ela se identifica com a descrição extrínseca do que tem a dizer. Isto porque as definições só assumem algum significado no decurso de um processo histórico. Sentenças atemporais não são definições.

O empirismo lógico, com seu anti-historicismo, tentou formalizar termos indefiníveis, no uso cotidiano, e, com isso, passou a dever à própria natureza histórica da linguagem. A filosofia deve ser sensível a esses testemunhos “mudos”da linguagem, prescrutando neles os extratos da experiência.

Nesta época da razão formalizada, o povo já deteriorou os verdadeiros conceitos e idéias, distorcidos por novos esquemas que lhes foram inculcados. Eis o perigo a que deve fugir o filósofo! Ele não possui formas padronizadas para falar do homem e da natureza, como os laboratoristas possuem “fórmulas”para construir seus experimentos.

A palavra, com todos os seus extratos semi-esquecidos, mas que devem ser preservados em suas idéias universais, é a verdadeira arma do filósofo. A tecnologia e a ciência pretendem mascará-la e até pressionar os filósofos modernos a conceber suas obras como frutos desse processo de “produção padronizada”.

Cada conceito é parte de uma verdade total. A preocupação maior da filosofia é construir a verdade, partindo desses conceitos. A liberdade, por exemplo, é um conceito que pode sofrer transformações no decurso da História. Mas a ciência manipula os conceitos como se fossem átomos. E, num sistema atômico, esses constituintes permanecem imutáveis.

Na filosofia, não. Mesmo utilizando-se dos princípios da lógica tradicional, ela procede com base num esquema transcendental, através de atos cognitivos, em que a estrutura lógica deve coincidir com os traços essenciais do objeto. Para a filosofia, a lógica tanto é do objeto quanto do sujeito. Teoria que abrange as categorias básicas e as suas relações com o meio.

Toda filosofia que afirma a unidade da natureza e do espírito (monismo filosófico) fortifica a idéia da dominação da natureza pelo homem. Postular por esta unidade é tentar consolidar a aspiração do espírito para a total dominação, mesmo que essa unidade seja proclamada em nome da natureza, que é o oposto do espírito. Nada existe, porém, fora do conceito da totalidade. A afiirmação do primado da natureza já traz intrínseca a afirmação da soberania do espírito, pois é este que concebe o primado da natureza e tudo a ela subordina.

Resta situar o “momento” em que se resolve essa tensão entre natureza e espírito:

– para os idealistas, a unidade é proclamada em nome do espírito absoluto;
– para os naturalistas, em nome da natureza absoluta.

As duas correntes servem, assim, aos mesmos propósitos:

– o idealismo glorificou o espírito em essência, subestimando os conflitos sociais e elevando o espírito ao nível da Divindade;
– o naturalismo glorificou a natureza, reduzindo o homem a uma quase-natureza, mero “objeto de tratamento”, esquecendo que o espírito se tornou não-natureza e que, mesmo como “reflexo” dela, ele transcende o “aqui e agora” (hic et nunc). Negar essa dupla qualidade do espírito – o ser, ao mesmo tempo, identificado com a natureza e diferente dela – é insinuar que o homem, na sua essência, não passa de um objeto de processos cegos naturais. Seria por demais diminuto o seu valor.

A dificuldade consiste, agora, em configurar a polaridade das duas entidades e, concomitantemente, a redução de uma à outra.

Presumir a dualidade suprema parece ser inadmissível, segundo Horkheimer. Não só porque a exigência de um princípio supremo é logicamente incompatível com essa dualidade, mas em razão do conteúdo mesmo dos conceitos. Os dois polos não podem confluir para um princípio monístico, mesmo que essa dualidade seja entendida como produto de ambos.

Para ele, o naturalismo não está totalmente errado. O espírito está inseparavelmente ligado ao seu objeto (a natureza). O idealismo conduz às filosofias da natureza e da mitologia e deixa insolúveis os problemas epistemológicos do espírito. Embora afirme que o espírito é fonte de toda a existência e natureza, seu conteúdo sempre se refere a algo “fora”da razão autônoma.

E parece encontrar-se aqui a questão fundamental:

– a relação entre os conceitos subjetivos e objetivos da razão deve ser apreciada à base de reflexões sobre o espírito e a natureza – o sujeito e o objeto.

Não é papel da filosofia jogar esses conceitos uns contra os outros, mas criticá-los reciprocamente e, se possivel, conciliá-los.

A ênfase que as modernas teologias pretendem dar à razão objetiva não é, para Horkheimer, uma decisão filosófica. O aparente dualismo do espírito e da natureza, da razão objetiva e da razão subjetiva, são conceitos que se entrelaçam, pois as consequências de cada um tanto dissolvem como fazem voltar ao outro. Importa é que se compreenda tanto a separação como a interrelação dos dois conceitos.

Desde que a razão se transformou em instrumento de dominação, ela se frustrou na sua tentativa de descobrir a verdade, porque reduziu a natureza a mero objeto e não se descobriu nessa objetivação. A razão só entenderá a sua “racionalidade” se ela refletir a “enfermidade”do mundo. A industrialização, que esmagou a autonomia do indivíduo, tenta, hoje, servir de pré-requisito para a emancipação da razão.

É a filosofia que nos conscientiza dessas contradições, porque avalia a sociedade à luz dos valores que ela reputa elevados e, ao mesmo tempo, se conscientiza dos vícios contidos, porventura, nesses valores.

A filosofia se identifica com a arte, quando reflete as paixões, através da linguagem. Porque é a natureza a refletir-se no espírito, vendo nele a sua própria imagem.

O conceito de verdade filosófica – adequação entre nome e coisa – é que capacita o pensamento a superar os efeitos maléficos da “razão formalizada”.

Para Horkheimer, devemos aos sistemas clássicos da razão objetiva (o platonismo) , e não ao positivismo, a preservação da idéia de que a verdade é a correspondência da linguagem na realidade.

A ontologia, cerne de toda a filosofia tradicional, ao contrário da ciência, tenta reduzir as essências e as formas das coisas a algumas “idéias universais” que a razão pensa encontrar em si mesma. Horkheimer, como Nietzche, refuta esse engano ontológico, afirmando ser perigoso confundir as coisas últimas com as primeiras. Assim, o conceito de Deus, por exemplo, para ele o último, é concebido como sendo o começo do começo, o “ens realissimum”.

Indaga ele como se pode dar precedência ontológica a uma qualidade mais geral e logicamente anterior. E responde que aquilo que é logicamente anterior não está mais próximo do núcleo do que é temporalmente anterior. Seria confundir prioridade com essência.

Para Horkheimer, os postulados maiores da filosofia atual são:

– não considerar-se como verdade definitiva e infinita;
– aceitar as idéias culturais básicas como valores de verdade e possíveis pontos de referência;
– negar as pretensões da ideologia dominante, mas sem ceticismos;

Em seguida, indaga :

Se foram contraditórios os positivistas e os racionalistas, estaria a solução no ativismo político?

Vacila na resposta, mas acrescenta: a filosofia não é veículo de propaganda ou de expedição de ordens. As suas reflexões pairam acima de quaisquer movimentos, ativistas ou não.

Quanto à religião, sua posição se avizinha da de Lynd, ao afirmar que ela permanecerá ou declinará, segundo sua utilidade. Reconhece a validade dos movimentos cristãos revivescidos, achando difícil, porém, à religião recuperar o seu “status”, porque a sua verdade está comprometida com seus objetivos programáticos, os quais, para ele, teriam perdido o sentido.

A filosofia não pode determinar se, no futuro, prevalecerá o humanismo ou a barbárie. Ela só entra como corretivo da História, no seu papel de memória e consciência da espécie humana. Se ela conseguir contornar os erros e abrir novos caminhos, tudo bem. A ciência, que já quase afastou de nós o medo do desconhecido, levou-nos, todavia, à condição de seus escravos.

Se a evolução dessa ciência nos libertar definitivamente do medo, a denúncia do que ora chamamos de razão, diz Horkheimer, será o maior serviço que esta mesma razão prestará à humanidade.

3. CONCLUSÕES

Do que acima expusemos, acerca do CONCEITO DE FILOSOFIA EM HORKHEIMER, podemos retirar as seguintes conclusões:

– Vivemos uma época de racionalização progressiva, em que a própria filosofia é pressionada por ideologias dominantes e o homem moderno não compreendeu ainda que é a vítima e o executor dessa opressão;
– A filosofia não é instrumento nem plano de ação, mas tenta ser um corretivo da História;
– A filosofia, que é a lógica do sujeito e do objeto, relaciona as categorias básicas com o mundo exterior;
– Tanto os idealistas como os naturalistas são paradoxais. Eles não entenderam a polaridade e a redução concomitantes da natureza e do espírito;
– A razão, hoje, manipulada como instrumento de opressão, deixou de ser tentativa de descoberta da verdade;
– A verdade filosófica ajudará a recuperar essa razão formalizada;
– A filosofia não deve considerar-se como verdade definitiva e infinita, mas deve aceitar as idéias culturais básicas como valores de verdade e possíveis pontos de referência , devendo negar também as pretensões da ideologia , porém sem ceticismo.
– As reflexões filosóficas devem pairar acima de quaisquer movimentos ativistas ou não;
– Há validade nos movimentos cristãos revivescidos, mas está difícil à religião recuperar o seu “status”;
– A filosofia não pode prever se, no futuro, dominará a barbárie ou os princípios humanitários. Ela tenta, apenas, ser corretivo da História, como memória e consciência, que é, da Humanidade.

4. CONSULTA BIBLIOGRÁFICA

– SLATER, Phil – “Origem e Significado da Escola de Frankfurt”- Zahar Editores- Rio – 1978.
– HORKHEIMER, Max – ” Eclipse da Razão”- Ed. Labor do Brasil S/A – Rio – 1976.

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