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sábado, maio 18, 2024

O Campo do Currículo no Brasil

O objetivo do texto “O campo do currículo no Brasil” de Antônio Flávio Barbosa Moreira (2001), é entender pontos de vista de pesquisadores brasileiro, conhecidos nacionalmente, sobre os rumos da teoria/ensino de currículo, seus impasses, influências e possibilidades. A partir de entrevistas com estes pesquisadores, é que se permite perceber como são hoje abordados, os estudos de currículo em distintos espaços acadêmicos.

Antes de enveredar pelas narrativas dos pesquisadores brasileiros, o autor menciona o estudo realizado nos Estados Unidos por Barry Franklin (1999). Tal estudo assemelha-se ao realizado por ele aqui no Brasil. Após visitar cinco departamentos de universidades americanas, Franklin, verificou que a dispersão encontrada nas disciplinas de responsabilidades dos departamentos dificulta a reunião de pesquisadores e estudantes acerca do estudo de temas relevantes, impedindo, assim, o desenvolvimento de projetos mais densos e significativos.

Franklin acrescenta que falta aos departamentos a unidade e a coerência que caracterizaram o pensamento sobre currículo e interesse pela formação de professores. Existem professores dedicados à pesquisa e professores interessados no ensino. Essa divergência entre os departamentos, faz com que não exista um campo articulado e coerente de pesquisas e práticas. A seu ver isso ocorre devido à divergência entre os departamentos, a ausência de trabalhos que abordem objetivos educacionais, seleção, organização e distribuição do conhecimento escolar, além da avaliação.

A partir da exposição de Franklin, Moreira conclui que a maioria dos teóricos prefere discutir o currículo de forma abstrata, em vez de se voltar para a realidade da escola e da sala de aula. Esse dado gerou inquietações em Moreira, sobretudo, diante do acréscimo de teorizações recheadas de metáforas, categorias e conceitos refinados. Tais inquietações se manifestaram numa pesquisa realizada pelo autor com o objetivo de focalizar o campo do currículo no Brasil nos anos noventa.

A pesquisa foi realizada com membros do Grupo de Trabalho de Currículo da ANPEd (Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação), nacionalmente renomados. Através de entrevistas, Moreira procurou entender seus pontos de vista acerca dos rumos da teoria e do ensino de currículo, seus impasses, influências e possibilidades. As perspectivas dos entrevistados foram organizadas em três blocos temáticos: a teorização em currículo, o ensino de currículo na universidade e a prática na escola.

Sobre a teorização em currículo, boa parte dos especialistas avalia que o campo do currículo no Brasil, atualmente, vem crescendo e ganhado visibilidade/prestígio. Isso ocorreu devido às recentes discussões sobre políticas oficiais de currículo, bem como o desenvolvimento de pesquisas e de uma produção teórica significativa, que trata novos temas e reflete novas influências.

As falas dos especialistas anunciam a constatação do acréscimo de produção teórica brasileira, bem como a influência estrangeira. Porém, suas falas expressam algumas tensões: oscilação entre a valorização do prestígio acadêmico de um campo de intenso crescimento e a preocupação com a produtividade dessa produção na resolução de problemas de ordem prática. Moreira acredita que essa tensão pode dificultar a promoção de práticas alternativas consistentes.

Outra tensão é a forma como os entrevistados vêem a influência estrangeira no campo do currículo. São especialistas que tem uma participação intensa no desenvolvimento da tendência curricular no Brasil, e que não aceita qualquer coisa se produz no Primeiro Mundo.

Para alguns dos entrevistados, o currículo no Brasil ainda oscila entre o aproveitamento crítico de teorias estrangeiras e o esforço por uma produção mais nativa, da qual continuamos carentes. Com essa oscilação corre-se o risco de fazer de leituras menos críticas e de adesões apressadas.

Com relação ao ensino de currículo nas universidades, alguns entrevistados defendem que se vincule nos cursos o processo curricular a desenvolvimentos culturais mais amplos, abrindo espaço para a crítica de diferentes manifestações culturais. Enquanto outros defendem a ampliação da concepção de currículo para além dos muros da escola e a articulação teoria-prática.

Para Moreira a ampliação do conceito de currículo permite, por um lado, perceber a importância de elementos extra-escolares na formação das identidades dos alunos. Por outro, pode colocar em risco a especificidade e a efetividade das ações docentes, caso não se delimitem os espaços, na escola e fora dela, em que tais ações podem ser exercidas.

Quantos aos temas e autores abordados nos cursos, um dos entrevistados demonstrou dificuldade em manter uma linearidade com relação à temática (currículo). Moreira compreende que não é fácil um tratamento mais integrado e consistente de questões de currículo diante da diversidade temática e teórica que este abarca. Essas dificuldades, também ocorrem em cursos ministrados por outro especialista, já que estes buscam fazer uso de toda a produção recente lançada na universidade, seja na área da psicologia, antropologia, sociologia.

Essa gama de conhecimento favorece a compreensão mais acurada da educação no mundo/sociedade em que vivemos como também, pode contribuir para uma maior indefinição dos contornos do campo do currículo, dificultando a análise e o enfrentamento de questões específicas que afetam as escolas.

Moreira destaca que a ampliação de referenciais é uma via de mão dupla, pois esta tanto pode enriquecer a discussão das questões de currículo, como empobrecer tendo que a diversidade de temas, autores e abordagens que caracteriza o ensino do Currículo no Brasil, pode não propiciar, o estabelecimento de elos mais significativos com situações e problemas vivenciados na prática.

Por fim, Moreira questionou os especialistas sobre a prática do currículo na escola. Suas falas revelaram avanços na produção de conhecimento teórico, porém a prática não sofreu modificações substantivas.

Para Moreira, ao expressarem um compreensível desencanto em relação aos efeitos das teorizações nas escolas/salas de aula, demonstram a necessidade de se repensar a articulação teoria-prática no campo do currículo de modo a facilitar o desenvolvimento da capacidade prática e da experiência teórica do professorado.

As entrevistas apontaram alguns desafios a serem enfrentados pelos especialistas no que diz respeito à escola e a seu currículo. Dentre estes estão: definir os alvos preferidos de suas preocupações, delimitando melhor os temas prioritários das investigações a serem realizadas, ou seja, que o currículo deixe de ser visto como lista de disciplina/conteúdo e passe a ser visto como todo e qualquer fenômeno educacional. É preciso que se tenha uma proposição mais clara dos contornos do campo do currículo e de seu objeto de estudo.

Por fim, Moreira defende o incremento de investigações que priorizem as ações que se passam nas escolas, visando a compreendê-las mais profundamente, bem como o estímulo ao diálogo entre os pesquisadores da universidade e a escola. Este acrescenta que é preciso teorizar o currículo tendo por base a escolarização e suas condições econômicas, políticas e culturais. A discussão e a revisão dos conteúdos e métodos empregados no ensino de Currículo nas instituições de ensino superior, é para Moreira uma questão que precisa ser discutida urgentemente.

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