Um dos maiores desafios, do ponto de vista da prática pedagógica, é realizar um trabalho que tenha um significado relevante tanto para o professor quanto para os alunos. Neste ponto a equipe escolar, em especial o supervisor, tem um campo de atuação da maior importância: ajudar os docentes a repensarem suas propostas, reverem as rotinas, romperem com o formalismo dos conteúdos preestabelecidos.

De certa forma, a reflexão sobre sua proposta de trabalho envolve uma série de outras questões muito importantes para a construção da identidade profissional: visão de mundo, opção por um quadro de valores, posicionamento frente à realidade social conflitiva, etc, mas com a vantagem de se dar a partir do contexto bem definido de sua atuação como professor, tornando-se, conseqüentemente, muito mais pertinente e realmente formativa.

A sociedade humana vive hoje, problemas que não podem mais ser ignorados. Esses problemas assumem dimensões e características cada vez mais amplas e diversificadas em virtude dos acelerados avanços científicos, tecnológicos, informativos e de comunicação, que promovem mudanças nos valores de convivência humana, difundindo diversificadas culturas e estimulando desejos e necessidades, antes, impensados.

Ao mesmo tempo, a vida social é permeada por problemas cruciais na área da saúde, da segurança, da habitação, da violência, do tráfico e consumo de drogas, da poluição, da destruição do meio ambiente, entre outros, gerados por modelos econômicos equivocados que dificultam a sobrevivência humana e promovem, cada vez mais, a exclusão social.

Há o despreparo da sociedade em geral para usufruir e participar da economia informacional e global, cujo surgimento foi facilitado pela revolução tecnológica dos últimos anos e organiza se em redes interativas baseadas em alianças estratégicas e cooperativas entre grandes empresas, cujo modo de gestão supera as hierarquias, prioriza a participação dos trabalhadores e promove franquias e sub-contratações.

Um novo valor cultural, a descentralização, orienta o novo modelo empresarial. Surgem múltiplas situações desiguais de crescimento econômico, com países passando da categoria de dependentes para a de estruturalmente irrelevantes. O desemprego estrutural dá origem a novos bolsões de pobreza, denominados de “quarto mundo”, nas grandes cidades.

A escola, para contribuir com uma formação abrangente da pessoa humana, que não privilegie somente habilidades lingüísticas, lógico matemáticas e tecnológicas, necessita colocar lado a lado, com a mesma ênfase, oportunidades de vivenciar os valores da sensibilidade ou da estética, bem como, da ética, da compreensão e da espiritualidade, pois a pessoa humana ultrapassa seu enraizamento terreno e é capaz de criar um projeto utópico para a vida no planeta a partir de seus sonhos, desejos fantasias e imaginações.

De acordo com Demo (2004, p. 31): A menos que dominar conteúdos, que envelhecem e desaparecem rapidamente, é importante que o professor consiga que o aluno saiba pensar, porque esta habilidade representa a aprendizagem que se confunde com a vida.

Assim, as instituições educacionais são desafiadas a cumprir uma dupla função: de preparar as pessoas para o mundo do trabalho permeado por valores de individualismo, competição e produção e, ao mesmo tempo, a função de construir o cidadão para o mundo civil, que necessita ser permeado por valores de solidariedade, de colaboração e de construção de uma sociedade justa e inclusiva, onde seja possível viver e conviver em consonância com os direitos primordiais do ser humano e em harmonia com todas as formas de vida planetária. Por isso, articular as disciplinas curriculares com a problemática que pulsa no seio da sociedade possibilita superar a compartilhamento do saber, contribuindo para a construção de sujeitos autônomos, críticos, morais e éticos, capazes de encontrar soluções para os problemas que os afligem.

A auto organização criativa do currículo ocorre se os alunos desenvolverem autoconfiança na solução de problemas, na interpretação, desempenho e análise do material, bem como, se perceberem a possibilidade de brincar com o mesmo, com sutileza e imaginação, indo além da simples descoberta do que é para criar e projetar o que pode ser. Esse processo requer que a exigência de sucesso não seja fator condicionante, mas que o espaço para um diálogo com os alunos, sobre suas idéias e, também, sobre seus erros, seja real (BOZZETTO, 2005, p. 33).

Para oferecer um leque tão diversificado de saberes, no entanto, o currículo escolar necessita ser organizado com a participação dos estudantes, dos pais e da comunidade. Um currículo ou plano de estudos, que não seja um elenco de disciplinas e conteúdos linearmente organizados, mas que seja aberto, com grandes temas, possibilitando, sempre, a inclusão de novos eixos e conteúdos significativos. Em torno desses temas, eixos e conteúdos é que se articularão os saberes oriundos das diferentes ciências. Dessa forma poderá ser possível às crianças e jovens aprender a aprender por toda a vida, porque aprenderam a buscar diferentes saberes, os quais se complementam.

Assim, os professores necessitam compreender porque grande parte de seus alunos não é mais obediente, atencioso, interessado e estudioso como antigamente. Em conseqüência dessa compreensão, suas práticas pedagógicas também necessitam mudar. É importante considerar as diferentes formas possíveis de aprender, estabelecendo vínculos, no processo de construção do conhecimento, com o prazer, com a emoção, com a expressão criadora e com outras capacidades humanas, que diferem das convencionais habilidades lingüísticas e lógico matemáticas.

É através dessas habilidades que a escola tem classificado e selecionado os alunos que podem escolarizar se, excluindo os que não se enquadram nos seus padrões e modelos. Hoje, é necessário perceber que aprender também passa pelo corpo, pela sensibilidade, pelo prazer, pelo movimento, pela expressão, pelo relacionamento interpessoal, além do intelecto. Ler, escrever e calcular já não é mais suficiente para fazer frente aos desafios que surgem diariamente na vida das pessoas.

Quando se fala de mudança da prática de sala de aula para educadores, não há uma adesão imediata; ao contrário, manifesta se amiúde certa resistência, comentários que deixam transparecer nas entrelinhas descrença ou desânimo. É comum encontrarmos situações em que, de um lado, estão os técnicos a defender, e, de outro, os professores fazendo de tudo para se livrarem das tais novas propostas… Para dar conta deste desafio, a coordenação pedagógica deverá ser capacitada nas três dimensões básicas da formação humana: conceitual, procedimental e latitudinal (VASCONCELLOS, 2006, p. 90).

Incentivar práticas curriculares inovadoras possibilita desencadear um processo de formação continuada durante o qual o professor vivencia um novo jeito de ensinar e aprender, revendo sua maneira de ser e fazer, uma vez que a inovação incide diretamente em sua pessoa e em sua atividade profissional. Nesse processo o professor assume naturalmente a formação continuada, movido por uma necessidade interna, aprendendo a aprender e transformar-se. Aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser pilares do conhecimento que não podem ser considerados estanques e isolados um do outro, pois possuem pontos de interação e complementaridade.

Hoje, o conhecimento é provisório e torna-se rapidamente obsoleto. Por isso, a escola e os professores estão desafiados a repensar seu currículo e sua prática pedagógica de face com um novo mapa geográfico, mais heterogêneo e fragmentado, que coloca em evidência os problemas de respeito e à diversidade cultural e tolerância às diferenças religiosas, políticas e ideológicas, entre outras, presentes na sociedade.

A corporeidade surge como valor veiculado pela televisão que modela condutas, desejos e sentimentos desde a mais tenra idade. A força das imagens faz com que as pessoas passem a imitar o que é representado nos programas de auditório, nas novelas, nos comerciais e noticiários e assumam um estilo existencial simulado de vida, perdendo sua autenticidade e ignorando a própria identidade. As crianças e jovens habituados à tutela da televisão, têm dificuldade de prestar atenção às explicações teóricas dos professores, que não sejam acompanhadas de um pequeno show colorido, movimentado, emocionante e diversificado.

O papel do professor não é instruir, mas orientar: precisa influir o aluno de tal modo que este não se deixe influir, não cabe ao educador tirar dúvidas e sim trazer. Enfim, trata-se de um amor exigente: ao mesmo tempo em que cabe apoiar o aluno do modo mais envolvente possível, cabe exigir dele o melhor desempenho viável.

REFERÊNCIAS

BOZZETTO, Ingride Mundstock. Reflexões sobre educação, aprendizagem e ensino. Programa de incentivo à produção docente. Ijuí: Ed. Unijuí, 2005. (Cadernos Unijuí).

CORAZZA, Sandra. O que quer um currículo?: Pesquisas pós-críticas em educação. 3.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

DEMO, Pedro. Professor do futuro e reconstrução do conhecimento. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

FURASI, José Cerchi. Formação contínua de educadores na escola e em outras situações. In: BRUNO, Eliane Bambini Gorgueira et al (Orgs.). O Coordenador Pedagógico e a formação docente. 6.ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005. P. 17 – 24.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2003. 117 p.

SAMPAIO, Dulce Moreira. A pedagogia do ser: educação dos sentimentos e dos valores humanos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

SCHMITZ, Neuza Bernardete. Orientação Educacional: crise e perspectivas no confronto das racionalidades. Ijuí: Unijuí, 1997. P. 91.

VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Coordenação do trabalho pedagógico: do projeto político-pedagógico ao cotidiano da sala de aula. 6.ed. São Paulo: Libertad Editora, 2006.

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