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terça-feira, maio 21, 2024

A Importância dos Contos de Fadas no Gosto pela Literatura

Acredita-se ser importante oferecer às crianças o conto com diferentes modelos, de forma a contextualizar a língua falada e seus usos. Contar e ouvir estórias são atividades mais antigas do homem. Pessoas de todas as condições sócio-culturais têm prazer de ouvir e contar estórias. Neste artigo possibilita ao leitor a compreender a importância do estímulo do gosto e o prazer pelos contos de fadas em nossas crianças, uma vez que eles permitem que elas se acostumem com os conflitos que vivenciam. O objetivo geral é explicar a importância dos contos de fadas para o gosto da leitura. Por meio dos contos a criança tem a oportunidade de construir e reconstruir suas representações, criar e recriar tudo aquilo que lhe foi oferecido.

1 INTRODUÇÃO

Neste artigo abordam-se sobre os contos de fadas; por isso o autor do mesmo convida o leitor para viajar neste mundo fantástico e maravilhoso, com a cabeça e o coração, numa sensação única que só a literatura provoca. Ir mexendo em tudo e formando critérios, gostos, percebendo que o leitor, o ouvir, o contar é um ato ininterrupto de encantamento e de necessidades.

Necessidades essas que todos trazem desde a mais tenra idade e que abrem todas as portas para compreendermos o mundo por meio dos olhos dos autores e da vivência das personagens.

Como diz Rubem Alves (2000), as palavras nos dizem que estamos destinados a voar, a saltar sobre, abismos, a visitar mundos inexistentes: pontes de arco-íres que ligam coisas eternamente separadas.

A palavra “fadas”, associada aos contos, imediatamente nos faz esperar alguma coisa misteriosa e que nos fala de um mundo diferente deste nosso mundo visível. As princesas, bruxas e fadas nem sempre aparecem em todos os contos, uma vez que estão diretamente vinculadas a ideologia da família burguesa que se consolidava na época.

Nos contos de fadas os acontecimentos e processos são contados de uma forma simbólica, retirando do mundo palpável representações impossíveis e improváveis, porém intimamente relacionadas ao mundo material.

Mesmo assim, os contos de fadas emocionam todos profundamente e, quando bem contados, tocam nos sentimentos, deixando as pessoas pensativas como que degustando as palavras.

Eles têm origem muito antiga, datam de uma época em que a humanidade não tinha uma consciência crítica tão desperta como hoje, quando o pensamento intelectual era menos desenvolvido. A população, com a exceção de poucos, era analfabeta, mas informada e educada por meio de imagens faladas ou pintadas.

Pode-se dizer que os contos de fadas se constituem num alimento para a alma das pessoas sensíveis, independente da idade que tenham. Entretanto, para as crianças são um alimento indispensável, entre os quatro e onze anos, pois nesta fase elas vivem aquela consciência pictórica, do mesmo modo que foi vivida no passado pela humanidade.

2 REVISÃO DA LITERATURA

2.1 Arte de Ouvir e Contar Estórias Através dos Contos de Fadas

Pode-se afirmar que na versão literária, os contos de fadas são atualizados ou reinterpretados em suas diferentes questões comuns, assim como os conflitos do poder e a gênese dos valores, combinando realidade e ilusão no ambiente do “Era uma vez…”

Os contos de fadas são caracterizados pela presença do elemento fada, cuja palavra que tem a sua origem do latim fatum (destino, fatalidade, oráculo).

Segundo Oliveira (2010), as fadas se tornaram populares como criaturas magníficas, ou fantasiosos, de grande encanto, que se apresentavam sob forma de mulher. Dotadas de benefícios e domínios sobre-humanos, elas intervêm na vida dos homens para ajudá-los em situações-limite, quando já nenhum recurso natural seria aceitável. Encarnam também o mal e apresentam-se como o contrário da imagem antecedente, isto é, como bruxas.

O conto de fadas surge na Europa durante a idade moderna tendo como fonte a tradição oral. Acredita-se que os primeiros contos foram registrados na memória popular e transmitidos de geração para geração através dos tempos. Muitos têm a ver com os rituais de iniciação dos povos primitivos, cujo iniciado para alcançar e comprovar o seu amadurecimento era submetido a várias provas de superação.

Conforme Richter e Merkel (1978, p. 6-20):

Os contos se apresentam como o desejo das classes oprimidas de libertar-se de sua inferioridade social. No entanto, essa situação opressiva leva a certo conformismo e manutenção do status quo, uma vez que as soluções para os problemas só acontecem por intermédio de uma situação mágica ou fantástica. Fica, portanto impossível a ascensão na escala social.

Desse modo, os autores apresentam como vantagem o esboço de sociedade e das relações intersociais, de forma que a passagem caracterizada da oralidade ao texto escrito é assinada pela inclusão da moralidade.

Com a ascensão da burguesia, por volta do século 18, e com a noção de família nuclear, a infância passa a ser valorizada, merecendo a atenção dos educadores, por representar uma etapa privilegiada à aquisição de hábitos e formação moral que comporta a vida do futuro adulto. Assim, é compreensível o caráter pedagógico de que se reveste a literatura infantil associada à escola que, como se sabe, colabora nessa tarefa.

Os contos de fadas sugerem soluções sutis para os questionamentos existenciais do homem sem, no entanto, explicitá-las, deixando para as crianças as possibilidades de completá-las com as suas fantasias os vazios narrativos do conto e de certa forma aplicando a estes, passagens das suas próprias vidas.

Sem contar que os contos de fadas mostram em imagem o que se passa no inconsciente, chegando mesmo a sugerir soluções e maneiras de trabalhar com as experiências internas.

Abordam, de maneira simbólica, as grandes dificuldades advindas do desenvolvimento psicológico, mas demonstram que, se as enfrentarmos com coragem e determinação, tais dificuldades poderão ser superadas. Narra como as coisas deveriam acontecer, satisfazendo a expectativa do leitor e contrariando o universo real, aquele que acontece muitas vezes de forma diferente da que gostaríamos.

Tais contos permitem que as crianças acostumem com os conflitos que vivenciam. Mostram-lhes que o herói é capaz de derrotar o bandido com astúcia e energia, nunca desistindo de agir. Segundo Figueiredo (2010, on line) o poeta alemão Schiller sempre dizia: “há maior significado nos contos de fadas que me contaram na infância do que na verdade que a vida ensina”.

O conto de fadas, do ponto de vista da aprendizagem, supõe uma relação entre o adulto e a criança: o ouvinte e o narrador e, assim, esse ouvinte (criança) tem a oportunidade de brincar com todos os elementos mais misterioso do existir isento da reprovação do narrador (adulto).

Dessa forma, a criança fica livre para construir e reconstruir suas representações, aprovar ou desaprovar, criar e recriar tudo aquilo que lhe é oferecido. Esse movimento interno essencial para a construção de novas aprendizagens sistematizadas, bem como para atribuir sentidos às formas socialmente aceitas e para resignificar o mundo, dependendo em grande parte do que foi apropriado em contato com o ambiente.

Para Rego (1990, p. 51):

É muito difícil uma criança que não se interessa, por exemplo, por ouvir histórias e não expresse espontaneamente um interesse lúdico pelas palavras. Contar história para as crianças pequenas é uma atividade muito comum em várias culturas. No entanto há uma diferença acentuada entre uma história contada e uma história lida.

Sartre apud REGO (1990, p. 51-52) comenta sua sensação ao escutar uma estória lida pela primeira vez:

O conto estava em trajes domingueiros: o lenhador, a mulher do lenhador, a sua filha, a fada, todos esses personagens, nossas criaturas conhecidas adquiriram majestade, seus trajes foram magnificamente descritos, as palavras deixavam suas marcas nos objetos, transformando ações em rituais e eventos em cerimônias.

Como pode-se perceber o autor sintetizou a mágica das palavras, o seu poder no mundo da escrita, o valor estético, a qualidade de que se apropria a linguagem em si tratando de um texto escrito.

Isso significa que esses conteúdos poderão despertar na criança a atenção para as características sintático-semânticas da língua escrita, bem como para as relações entre a forma lingüística e a representação gráfica.

Para desenvolver essa habilidade na criança é importante que, também em família, o adulto leia para ela, pois esses momentos se tornarão expressivos pelos laços de afetividade. Também é importante compartilhar um livro com gravuras e texto, em que a criança tem acesso as imagens, as ilustrações, ao mesmo tempo em que escuta a leitura. Se aparece um termo novo ou uma figura mais colorida que chame a sua atenção, surge a oportunidade para fazer comentários, perguntas, observações.

Esse momento é de grande riqueza do ponto de vista de uma aprendizagem não-formal, que passará por algumas adaptações antes de ser vivenciado no contexto escoar. Isso porque o número de alunos em sala de aula é maior e o professor deverá encontrar uma forma para que todas as crianças tenham acesso às ilustrações do livro que será lido.

É importante que o professor se mantenha aberto às perguntas das crianças e incentive a troca de comentários sobre o texto para que a história não se transforme num ritual didático diferente dos seus verdadeiros interesses.

Contar e ouvir estórias é uma maneira harmônica de recriar a vida no seu significado. Dessa forma, pode-se dizer que o conto de fadas é real na medida em que diz respeito ao humano como os amores, as invejas, as ambições, apontando para um mundo melhor onde a riqueza, os bens materiais são menos importantes que as riquezas abstratas como a beleza, o perdão, o amor, a justiça.

Para que os contos de fadas possam enriquecer as experiências internas das crianças, é necessário que o texto não sofra mutilações na adaptação, pois os elementos que o compõe não podem ser dissociados, uma vez que isso prejudicaria o seu significado.

Bettelheim (1980) diz que os contos, além de servir como alívio de todas as pressões e tensões, não só oferecem formas de solucionar os problemas, mas asseguram um final feliz para eles. Isso é fundamental para dar sentido à vida de uma criança: a esperança de crescer e ser feliz. Possibilita à criança viver papéis diferenciados: ora é herói ora é bandido; ora é um príncipe ora é um monstro. Assim ela vai experimentando, criando, recriando e optando por aquele com o qual mais se identifica e vivendo emoções próprias de cada personagem.

No conto, as personagens, os lugares e tempos são indeterminados, ou seja, não têm uma precisão histórica, inicia-se sempre com o “era uma vez….”. Não obedece a uma moral ingênua, não existe a ética da ação, mas a ética do acontecimento, o que significa que as personagens não fazem o que deveriam fazer. São os fatos que acontecem, como realmente deveriam acontecer.

Geralmente, os contos de fadas tratam de problemas vividos pela humanidade. Ainda de acordo com Bettelheim (1980) nos contos de fadas encontramos a mensagem necessária para vencer obstáculos e conquistar vitórias. No entanto, as estórias modernas, escritas para crianças, evitam tais problemas. Os perigos são minimizados, não relatam morte, envelhecimento, limite existencial, nem desejo pela vida eterna.

Também encontramos, nos contos de fadas, o predomínio da caracterização dos personagens, como por exemplo, o bem e o mal no corpo e na forma de agir de algumas figuras. A dualidade constada levanta um questionamento moral que evoca uma luta para solucioná-lo.

O que ocorre não é apenas uma preocupação de que a virtude necessita vencer no final, para o bem da moralidade, mas, sobretudo, a atração que o herói provoca na criança. Nos contos de fadas não existe ambigüidades, ou a personagem é boa ou é má, e quanto mais simples e direto o personagem, mas fácil será sua identificação.

Em muitos contos de fadas o personagem vence por meio da esperteza, da trapaça, porém a criança irá julgá-lo pela sua capacidade de vencer, independente de ser bom ou mau. Então, o que está em jogo é o sucesso, e não a moralidade.

Para Bettelheim (1980), a criança apresenta sentimentos de solidão, angústia, medo, desespero, mas é incapaz de verbalizar por não ter consciência clara desses fatos. No entanto, isso é representado pelo medo de escuro, de animais, gagueira, roer as unhas, fazer xixi na cama.

Os contos de fadas traduzem esses sentimentos desconfortáveis com naturalidade, simplicidade, seriedade e clareza: a necessidade de ser amado, o amor pela vida. Para esse autor, os contos de fadas enriquecem a vida da criança e dão-lhes dimensões encantadas, exatamente porque ela não sabe, absolutamente, como as estórias pôs a funcionar seu encantamento sobre ela.

2.2 Estrutura Composicional dos Contos de Fadas

“Era uma vez…”, “No tempo em que os bichos falavam…”, “Num país distante…”, “Há muito tempo atrás…”. Assim começam os contos de fadas sugerindo um mundo diferente, muito distante.

Segundo Oliveira (2010), a estrutura básica do enredo dos contos de fadas apresenta-se da seguinte maneira:

• Início: nele aparece o herói (ou heroína) e sua dificuldade ou restrição. Problemas vinculados à realidade, como estados de carência, penúria, conflitos, etc., que desequilibram a tranqüilidade inicial.
• Ruptura: é quando o herói se desliga de sua vida concreta, sai da proteção e mergulha no completo desconhecido.
• Confronto e superação de obstáculos e perigos: busca de soluções no plano da fantasia com a introdução de elementos imaginários.
• Restauração: início do processo de descobrir o novo, possibilidades, potencialidades e polaridades opostas.
• Desfecho: volta à realidade. União dos opostos, germinação, florescimento, colheita e transcendência.

Pode-se observar que em toda narrativa a estrutura composicional segue mais ou menos um mesmo padrão:

• Enredo;
• Justificativa do título em relação ao enredo;
• Verossimilhança;
• Personagem;
• Espaço;
• Ambiente;
• Tempo;
• Narrador.

O conjunto de fatos narrados, enredo, tem como base:

• Introdução – na qual são apresentados os fatos iniciais, servindo para situar o leitor.
• Complicação – parte da estória em que os problemas são desenvolvidos; na complicação é criado um clima de tensão que organiza os fatos prendendo a atenção do leitor.
• Clímax – ponto alto da estória, o momento de maior suspense.
• Desfecho – solução da complicação, sendo que se apresentam de muitas maneiras:

– feliz;
– cômico;
– Trágico;
– Surpreendente etc.

Dessa forma, em toda narrativa é apresentada uma justificativa do título em relação ao enredo, ou seja, o motivo pelo qual o texto recebeu determinado título. A estória deve ter uma lógica interna, o leitor deve acreditar no que lê, isso se chama verossimilhança.

As personagens são aquelas que vivem a ação. Elas podem ser:

• Principais – é a personagem mais importante no desenrolar do enredo e apresenta algumas características físicas, psicológicas, sociais e pode ser protagonista quando tem características que sobressaem em seu grupo. Pode ser ainda antagonista quando atrapalha a ação da protagonista.
• Secundárias – é aquela que tem participação menor, com menos freqüência na estória.

A duração e a época são caracterizadas pelo tempo em que se passa o enredo. Geralmente o que caracteriza a duração de um conto é o tempo que a história levou para ocorrer, ou ainda, quando não há indicação desse tempo, mas, de alguma forma podemos deduzí-lo. Já a época é justificada com elementos da atualidade ou por uma correspondência com fatos históricos.

O ponto de vista ou o foco narrativo é a maneira como o narrador conta a estória, pode ser em primeira pessoa ou em terceira pessoa.

De acordo com Rumelhart (1975), quando melhor for organizada a estrutura de uma história, melhor a sua compreensão e, conseqüentemente, a retenção de informações. Dessa maneira, que contém enredo, personagens, tempo, espaço e narrador.

O símbolo universal dos contos de fadas se apresenta como objeto universal do mundo conhecido sugerindo algo desconhecido, é o sentido do inexprimível.

De acordo com Bettelheim (1980) são símbolos nos contos de fadas:

• Príncipe ou Princesa – menino ou menina.
• Floresta – lugar misterioso, onde é fácil se perder, emaranhado (significando o caos do eu interior), fora da segurança do lar – independência dos pais.
• Rei ou Rainha – adulto, completo, que tem o poder, que zela pelo bem de todos, valorizado principalmente na Idade Média.
• Caçador – (homem bom, ligado à natureza, forte, que elimina o mal principalmente bichos perigosos, monstros). Surge na Idade média, quando a caçada era uma atividade da nobreza.
• Monstros, dragões, serpentes, lobos – representantes do perigo, do mal.
• Bruxas, feiticeira, madrastas – mãe má, não atende as necessidades dos filhos.
• Fadas, duendes – seres que oferecem a ajuda necessária para o herói ou o bem vencer.
• Animais bondosos – contrariamente aos monstros, aos dragões, sempre ajudam o herói.
• Amuleto, mandalas, anéis, pedras mágicas – representam a integridade entre o espiritual e o corpóreo, a inteligência e o desejo, a caminho da plenitude.
• Números simbólicos – são vários os números simbólicos: os três porquinhos; as três laranjas; passar por três provas – persistência, totalidade.
• Herói animal – dualidade corpo e espírito – corpo: feio, fraco, irracional, sexual, assustador. Espírito: qualidades morais, espirituais, intelectuais.
• Personagem fraco, mais bobo, mais novo – insegurança infantil perto dos mais velhos, mais sábios, mais importantes e mais poderosos, que em geral os desvalorizam. Um bom exemplo é o patinho feio.
• Anão – ser que não amadurece – personalidade infantil que não se casa, que não tem filhos.

2.3 Ouvir e Contar Estórias: uma proposta de trabalho na sala de aula

O que levou à preservação dessas estórias cuja origem é a novelística medieval não está totalmente esclarecido, mas alguns folcloristas afirmam que a criança teve importância nesse processo.

Há um contar que envolve o desejo de transmitir às futuras gerações esse acervo que fala à alma do povo. A transmissão acontece primeiramente no seio familiar e também na comunidade que participa dessa vivência.

O ato de contar e ouvir estórias faz parte da natureza do ser humano. As estórias representam um conforto para a ansiedade e a necessidade de compreensão do universo e da existência.

Os povos primitivos buscavam entender a vida e, por meio do pensamento mágico e de duas vivências, criavam suas narrativas. Lendas, mitos, histórias folclóricas, fábulas criaram um mundo de narrativas que são testemunhos da paixão humana pela narrativa, desde sempre.

O homem desde as mais remotas épocas sonhou e criou seus mitos, lendas, fábulas e contos, realizando por meio deles o processo de evolução de sua psique e da sociedade.

A criança se abastece desse “imagismo primitivo” na construção de sua identidade. O jovem busca as estórias de aventuras que, por meio dos processos iniciais, que garantem o espaço de superação do drama de assumir o mundo adulto. São formas que o homem utiliza para explicar a si mesmo e ao mundo. É por isso que as estórias estão sempre reaparecendo de uma forma ou de outra na literatura infantil e juvenil.

O Maravilhoso é um dos elementos mais importantes na formação da criança que se sente atraída pela afetividade do contar. O escritor Moacir Scliar em um comentário na Revista Cult (2005, p. 54) salienta que toda criança sente ansiedade diante do ato de dormir em separado dos pais e que o contar estórias ameniza esta sensação tanto quanto amenizava a ansiedade dos povos primitivos diante da vida.

Scliar (2005) diz que nenhuma criança recebe bem a frase “esta na hora de ir para a cama”. Mas que todo pai e toda mãe sabe (ou deveria saber) que existe um antídoto para a recusa da criança: “Se você for deitar agora eu lhe conto uma estória”.

A presença e a voz asseguram o conforto necessário para a superação das inseguranças. A criança se interessa muito mais pelo “Era uma vez” que pelo final “ E foram felizes para sempre”. Adormece antes, pois já conhece o final. Os maiores possuem outras ansiedades que as histórias podem ajudar a superar.

Os contos maravilhosos descrevem uma realidade mágica na qual circulam personagens e seres imaginários (fadas, anões, bruxas, ogres gigantes, reis, rainhas, princesas etc) que carregam toda ética valorativa das sociedades arcaicas; outras ainda, tais como as narrativas exemplares, revelam o mundo religioso cristão no dualismo da virtude e do pecado.

A temática dessas estórias sustenta-se nas necessidades básicas do ser humano: a necessidade de sobrevivência e a superação da miséria, a ética do poder e o enfrentamento do mais forte pela astúcia e esperteza, as situações afetivas que exigem provas para a superação dos obstáculos.

Estruturalmente montam-se labirinticamente com uma história saindo de dentro de outra. Iniciam-se sempre pelos índices do contar (conta-me, conta-se, um certo homem disse, fala-se etc), dado o fato de terem origem oral. Este aspecto pressupõe o ouvinte, ou o leitor-ouvinte em sintonia com o emissor.

De acordo com Proust in Geraldi (1991, p. 166-167) o produto do trabalho de produção se oferece ao leitor, e nele se realiza a cada leitura, num processo dialógico cuja trama toma as pontas dos fios do bordado tecido para tecer sempre o mesmo e outro bordado, pois as mãos tecem trazem e traçam outra estória. Não são mãos amarradas, se o fossem, a leitura seria reconhecimento de sentidos e não produção de sentidos; não são mãos livres que produzem o seu bordado apenas com os fios que trazem nas veias de sua história, se o fossem, a leitura seria um outro bordado que se sobrepõe o bordado que se lê, ocultando, apagando-o, substituindo-o. São mãos carregadas de fios, que retomam e tomam os fios que no que se disse pelas estratégias de dizer se oferece pela tecedura do mesmo bordado. É o encontro desses fios que produz a cadeia de leituras construindo os sentidos de um texto.

A seguir apresenta-se algumas propostas de atividades possíveis de serem realizadas em sala de aula. Vale lembrar que elas não são receitas e, por isso, necessitam ser adaptadas à sua realidade de sala de aula:

A sugestão é que a professora convide seus alunos a visitarem a biblioteca da escola ou da comunidade.

Deixe que as crianças manipulem os livros, pois este é um conteúdo que também deve ser ensinado, uma vez que muitas crianças não têm esta prática e não sabem como fazê-lo.

Peça para que cada um escolha um livro de sua preferência.

Faça um círculo, pode ser sentados no chão, e peça para que criança diga o porquê da escolha de tal livro.

Seria uma avaliação diagnóstica para saber a preferência literária de seus alunos.

Outra providência importante seria junto com seus alunos fazer um levantamento, na biblioteca da escola, sobre os livros que possuem contos de fadas, por exemplo.

Levar para a sala de aula alguns desses exemplares, selecionar alguns trechos e ler para as criança pedindo que terminem a estória em uma produção escrita. Seria interessante discutir com elas a função do narrador, como ele conta a história, ou de algum personagem.

Tais observações darão oportunidade aos alunos de perceber o grau de emoção, humor ou tristeza da narrativa. É importante atentar para o fato de que isso os ajudará a procurar a melhor forma de narrar um fato ao escrever.

O clímax é outro aspecto da narrativa que deve ser bem trabalhado, uma vez que se não for bem construído a narrativa perde a possibilidade de prender o leitor. O clima de expectativa estabelecido enche o leitor de suspense e desejo de resolver o conflito. O significado do que se diz depende da forma como se diz.

Em suas aulas de produção de texto, nunca deixe de explorar o pensamento dos alunos, dessa forma eles perceberão com muita clareza a importância do modo como se conta um fato e suas implicações.

Por isso, proponha para que alguns alunos leiam em voz alta para a turma e peça que o restante da classe descubra qual o estilo escolhido.

Compare a linguagem das produções, a riqueza de detalhes às inferências do narrador, de forma a mostrar uma determinada interpretação. O momento da leitura é muito rico e uma forma importante de aprendizagem.

Uma outra proposta de trabalho seria conhecer mais contos de fadas. De que forma você poderá fazer isso?

Depois de trabalhar e conhecer de maneira mais aprofundada o conto escolhido pode-se tentar conhecer outros contos. Vocês concordam? O que fazer para conhecer outros contos? Podemos fazer uma pesquisa, o que acham?

Pode-se pesquisar os contos:

• O Gato de Botas
• João e o pé de feijão
• Cinderela
• Rapunzel
• João e Maria
• A Bela e a Fera

Dentre outros sugeridos pelas crianças.

Deve-se também estabelecer algumas regras para essa pesquisa que poderão ser discutidas pelo grupo, como:

• Dividir os alunos em grupos (critério a ser discutido: tanto por afinidade, por sorteio, ou por indicação do professor).
• Sortear a estória que cada grupo irá pesquisar.
• Discutir onde buscar as informações, pode ser na biblioteca da escola, do bairro ou na biblioteca municipal, pedir por empréstimo com amigos.
• Discutir a possibilidade de pedir a alguém da comunidade que conte a estória ao grupo.
• Estabelecer regras para a apresentação das pesquisas:

– em forma de coletânea;
– em uma roda de conversa.
– em forma de dramatização.

CONCLUSÃO

Acredita-se que com o estudo desse artigo o leitor tenha se reportado aos tempos de sua meninice, trilhando caminhos para fruir, se emocionar, sensibilizar-se, por meio dos contos de fadas.

A intenção desse artigo é fornecer ao leitor a possibilidade de levar esse gênero textual para dentro da escola com uma visão mais aprofundada, centrada na valorização do trabalho com a diversidade textual.

Ler, escrever, falar e escutar são habilidades que possibilitam agir no mundo que nos cerca e com ele interagir, sendo colocadas em prática por meio da linguagem. Quanto mais se conhece a linguagem e as inúmeras possibilidades de usá-la, tanto melhor se expressará e compreenderá a expressão do outro. Pelo domínio da linguagem é que se consegue a chave para a criação e a interação.

Dessa forma, é preciso oferecer recursos para que o aluno tenha condições de tecer o texto associando sua criatividade, competência leitora e escritora ligada às vivências. Portanto, precisamos estar atentos para mostrar aos alunos que ler e escrever não é apenas uma atividade escolar a mais, mecânica e descontextualizada, mas uma atividade que precisa ser, desde cedo, plena de significações, fonte inesgotável de experiências insubstituíveis.

No entanto, é indispensável criar algumas situações de produção a partir de situações cotidianas para produzir um conto de fadas. Para isso, a leitura é fundamental. Só dessa forma acredita-se poder formar um cidadão crítico o bastante para que possa atuar como agente transformador de sua realidade.

REFERÊNCIAS

ALVES, Rubem. A Alegria de Ensinar. 3. ed. Campinas: Papirus, 2000.

BETTELHEIM, B. A Psicanálise dos Contos de Fadas. 3. ed. Paz e Terra, 1980.

GERALDI, João Wanderley (org.) O Texto na Sala de Aula: leitura e produção. Cascavel: Assoeste, 1985.

OLIVEIRA, C. M. Estudo das Diversas Modalidades de Textos Infantis. Disponível em: http://www.graudez.com.br/litinf/textos.htm. Acesso em: 18 fev. 2010.

REGO, L. L. B. Literatura Infantil: uma nova perspectiva da alfabetização na pré-escola. 2. ed. São Paulo: FTD, 1990.

RICHTER, Dieter & MERKEL, Johannes. A função da fantasia dos contos de fadas na educação burguesa”. Boletim Informativo da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Rio de Janeiro, n. 10, v. 41, p. 6-20, jan./mar., 1978.

SLIAR, Moacir. Dez Contos Escolhidos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

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