Aristóteles

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Lewis Mumford, em seu texto Absolutismo e urbanidade helenística, nos diz que Aristóteles estudou sob a direção de Platão e foi professor de Alexandre Magno e demonstrava interesse pelas ciências naturais tanto quanto se preocupava com a humanidade. Muito embora servisse em um império em expansão, nunca compreendeu plenamente que o crescimento humano exigia uma ampliação e um aprofundamento do processo total de associação.

Seu exame das cidades ideais foi muito além do de seu mestre, pois admitia a necessidade de variedade e pluralidade. Porém, não diferia muito politicamente de Platão, pois apenas sistematizou o pensamento dele fazendo com que se aproximasse um pouco mais da realidade, embora rejeitasse sensatamente a comunidade de esposas e de mostrar as ambigüidades na disposição de classes feita por seu mestre.

Mas Aristóteles partilhava a desconfiança de Platão em que mudanças trariam melhoramentos na política, embora admitisse que em outras artes e ciências tinham sido benéficas e que muitos melhoramentos reais tinham ocorrido pelo afugentamento de costumes bárbaros.

Introduziu na discussão das cidades, algo que faltava a seu mestre: o conhecimento da imensa variedade de espécies e a apreciação das intermináveis manifestações criadoras da própria vida. Também compreendia um pouco a natureza teológica, e os limites naturais que definem o crescimento normal. O ideal não era uma forma abstrata, a ser imposta à comunidade, era uma forma já potencial na própria natureza da espécie, apenas necessitando ser revelada e desenvolvida.

Aristóteles compreendia que a “finalidade se acha entranhada em todos os processos naturais, não sendo superposta pelo homem, embora não admita explanações ulteriores mais do que as admite a causalidade”. Aplicou às fabricações humanas como a cidade, a lição que tinha aprendido mundo orgânico, que é o crescimento controlado: se uma cidade é muito pequena, continuará sendo uma aldeia, não importando sua condição legal ou arquitetura, e se é grande demais, absorvendo mais pessoas do que pode, já não é cidade, pois sua desorganização a impede de realizar suas funções.

Aristóteles faz objeção ao tamanho da população de cidadãos de Platão porque seria necessário “território tão grande quanto a Babilônia ou alguma outra enorme cidade, para que tão numerosas pessoas fossem sustentadas no ócio”. Sua posição é mais válida que a de Platão, inclusive, possui mais valia que a da maior parte dos planejadores atuais, que não chegaram a uma definição funcional da cidade e que não compreendem que tamanho e superfície não podem ser aumentados indefinidamente, sem destruir a cidade ou causar nova organização urbana.

Ele dizia que o limite da cidade não era a muralha. O que a unifica é o interesse comum pela justiça e a finalidade comum de procurar a boa vida. Em “tamanho e extensão deve ser ela tal que permita aos habitantes viver, ao mesmo tempo, moderada e liberalmente, no gozo do lazer”.

Mumford diz que os gregos chegaram empiricamente a essa conclusão muito antes de Aristóteles, pois não há melhor maneira de definir a cidade grega no início do período helênico do que de dizer que, para seu próprio bem, era decididamente pequena e as limitações naturais ajudavam a levar os cidadãos a essa conclusão, porém nem mesmo cidades marcantes como Mileto que poderiam ter enfrentado o crescimento ampliando as exportações e compras de cereais, optaram por esse caminho.

Embora apresente muitos razões práticas e metafísicas para limitar o tamanho da cidade, o limite final para Aristóteles é pela experiência política: “tanto os governadores como os governados têm deveres a cumprir; as funções especiais de um governador são comandar e julgar. Se, porém, os cidadãos de um Estado devem julgar e distribuir funções segundo o mérito, devem conhecer os caracteres uns dos outros; quando não possuem esse conhecimento, tanto a eleição de funções quanto a decisão e processos legais andará errada.

Quando a população é muito grande, são manifestamente distribuídas ao acaso, o que claramente não deveria ocorrer. (…) o melhor limite da população da cidade, pois, é o maior número suficiente para as finalidades da vida e que pode ser abrangido de um único olhar”. Essa é a concepção estética e política de unidade urbana.

No entanto, Aristóteles possuía grande preconceito contra os artífices e mercadores. Quando definiu a Polis como comunidade de iguais, excluiu os “mecânicos ou comerciantes, pois tal vida é ignóbil e inimiga da virtude”.

Essas classes nem podem ter função sacerdotal, “pois os deuses devem receber honras apenas dos cidadãos”. Aristóteles não pensou em que a comunidade inteira deva partilhar a vida ativa da cidade, tal qual em uma aldeia no campo, pois a boa vida só podia ser encontrada no nobre lazer e isso significava que outros deveriam fazer o trabalho.

Todavia, essa impossibilidade de alcançar a cidadania explica um pouco a queda da cidade grega, pois mantendo grande parte de seus habitantes fora da política e da área da plena cidadania, a polis lhes dava licença para serem irresponsáveis e não lhes dava outra ocupação senão a atividade econômica autopromotora, e os aliviava de qualquer finalidade ou obrigação moral, mesmo daquelas questões que eles podiam governar.

Aristóteles traduziu seus princípios na estrutura física da cidade e ali, o antigo e o novo se misturavam. Ele previa a orientação da cidade a fim de promover a saúde, com uma exposição para o sul, e insistia na importância da abundância de fontes e mananciais, ou um reservatório e uma cisterna para coletar água de chuva.

No que se referia a proteção militar, Aristóteles condenava a falta de uma muralha em algumas cidades gregas, e tentava combinar o novo modo de traçar as ruas em blocos com o antigo e irregular, com ruas tortuosas que seguíamos contornos ou antigos caminhos de pedestres, pois esse traçado dificultava assaltos de estrangeiros e invasores de entrar na cidade: “a cidade inteira não deve ser traçada em linhas retas, mas apenas certos bairros e regiões: assim, combinar-se-ão a segurança e a beleza”.

Sendo conservador em alguns pontos, desejava transformar o ágora em praça de mercado, o fórum político seria um ágora de homens livres de onde o comércio e os comerciantes seriam excluídos, exceto se convocados pelos magistrados. E achava que os exercícios de ginástica dos homens mais velhos deveriam ocorre ali, levando de volta ao coração da cidade, ao menos em parte, o ginásio dos subúrbios.

Mumford fala que Platão e Aristóteles não eram nem apologistas nem publicistas da nova ordem que deu forma às crescentes cidades he-lenísticas, sem ajuda deles e com pouca consideração às suas crenças.

Ambos não tinham a visão de uma polis mais ampla, que incorporasse os princípios ideais de Cós, Delfos e Olímpia, e os inserisse nas enormes complexidades de uma sociedade aberta. A cidade ideal ainda era o pe-queno invólucro estático, sob o severo comando da cidadela, que para seu sustento, possuía apenas uma economia reprimida em si mesma, su-portada por uma vigorosa classe média.

Aristóteles, assim como seu mestre, procurou a simetria citada por Emerson (“é necessária toda uma sociedade para dar a simetria que bus-camos”, disse ele) não em uma sociedade completa, mas em uma parcela dela petrificada em uma imagem arcaica. Muito embora, a polis crescen-te, com toda a sua desordem, estendendo-se para fora dos seus limites prévios, fazia maior justiça às possibilidades ideais da sociedade urbana.

Pode-se acrescentar ao Mumford, a passagem sobre Aristóteles feita por Harouel em seu texto sobre o urbanismo na Grécia e em Roma. Ele fala que Aristóteles aconselha a escolha de um sítio não somente salubre, mas que permita um abastecimento fácil, devendo a cidade tirar proveito tanto do mar quanto do campo e em todo lugar onde a água natural não é abundante, ele aconselha separar a água potável daquela que serve ao uso comum. E no que se refere à estrutura urbana, ele defende uma especialização dos bairros segundo sua função: comercial ou artesanal, residencial, administrativo e religioso.

Referências bibliográficas:

  • MUMFORD, Lewis. A cidade na História. Cap. 7: Absolutismo e ur-banidade helenística. Ed.Itatiaia.

  • HAROUEL, Jean-Louis. História do urbanismo. Cap. 1: Urbanismo na Antigüidade: Grécia e Roma. 1970

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