BOATO

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DICAS PARA ANALISAR, COMPREENDER, E INTERPRETAR TEXTOS

Um tema de difícil entendimento e de fácil apresentação. Se a qualquer momento em nossas vidas ouvirmos alguém falar sobre o boato, teremos logo uma idéia clara do que se trata, é aquela que está formada em nosso inconsciente. Mas se pedirmos as pessoas para explicar o significado, ou até mesmo, nos cobrarmos uma explicação, coisas até mesmo inacreditáveis poderão vir à tona. Em anexo, segue uma experiência que fiz ao perguntar a três pessoas amigas, separadamente, o que era boato para eles, ou seja, o que era a primeira coisa que vinha em suas mentes, quando perguntados sobre “O que é o boato?”.

Cheguei a conclusão que, pelas respostas dadas, o senso comum é atuante, as pessoas possuem idéias praticamente iguais e nem sempre sabem explicar o porque de não possuir uma idéia formada sobre o que seria o boato. Quase nunca, com raras exceções, estas respostas são esclarecedoras ou intelectualizadas, mas é o conceito popular e temos que levar em conta este fato. Logicamente, nós não podemos nos restringir a três respostas e elegê-las como se fossem uma realidade generalizada, ou seja, não serve como uma base comprovada, ou como estudo estatístico ou como verdade absoluta, porém acredito que as idéias ali descritas são comuns.

O boato é do povo e para o povo? Às vezes não, pois como podemos constatar, os mais “cabeludos” boatos, ou aqueles que são mais atrativos e sempre explorados pela mídia, são os que vem das camadas sociais mais altas e não do povo. Mas, é lógico que, nas camadas medianas e nas mais baixas, ocorre também, muitos e muitos boatos. O boato é perceptível principalmente nas áreas televisivas. Por possuírem pessoas que são vistas como incomuns, longe da realidade de uma sociedade muito desigual, sofrida, que se nutre das fofocas más ou boas para esquecer os seus problemas, ou seja, para esta sociedade excluída, é muito bom chegar em casa, ligar o rádio ou a televisão e ver que os ricos e famosos também aprontam barracos, escândalos e que seus amores vem e vão com a mesma facilidade que os deles.

Vidas são devassadas e com isso, o que não se consegue esclarecer vira boato, fofoca, especulação pura, afim de se tentar descobrir algo de verdadeiro. Muitas revistas estão se especializando na arte de fofocar, de criar boatos e sofrem quando pegam muito pesado com alguém que não goste deste tipo de coisa. Para constatarmos esse fato, é só vermos a quantidade de pessoas que estão movendo ações contra essas revistas, pedindo indenizações milionárias que podem, até mesmo, beirar o absurdo. Não só as revistas estão nas listas de especialistas do boato, mas agora também a televisão e o rádio AM e FM. A indústria do boato, da fofoca, é atrativa e lucrativa para quem promove, por isso, cada boato novo surge como furo jornalístico, obtendo mais importância ao ser informado, do que a fome e a seca do Nordeste por exemplo.

Um dos vícios mais antigos e mais terríveis do brasileiro e da população mundial talvez, seja o boato. Como nasce afinal o boato? De modo muito simples: pela divulgação de “informações confidenciais”, transmitidas, em absoluto segredo, por pessoas que não precisam necessariamente ser conhecidas, importantes ou formadoras de opinião, mas precisam somente ser, “muito bem informadas”. A coisa acontece assim: uma pessoa deseja espalhar rapidamente um palpite, ou uma insinuação, e dispõe para isto de um meio eficientíssimo: o segredo. Encontra na rua um amigo que o fulmina com o clássico: “Então, que há de novo?”, e imediatamente toma um ar grave e confidencial: “Você me dá a sua palavra de honra que não diz isto a ninguém? Posso confiar na sua discrição?

O carioca por exemplo, tem ao lado do culto da anedota, que alimenta a sua malícia, o culto do boato, que lhe nutre a imaginação. O boato é, por isto, no Rio, uma instituição. Tem poder de ubiqüidade – e dá a ilusão de difundir-se com velocidade supersônica. E é, além de tudo, uma força: derruba situações políticas, inventa ministros, depõe governos, fomenta revoluções, cria candidaturas, forja celebridades, alimenta glórias e vaidades, vinga amarguras e castiga erros e crimes. O boato, entre nós, é uma arma todo-poderosa, diante de cuja ofensiva todas as resistências se debilitam e cedem. É em virtude do prestígio do boato que se instituiu entre nós esta fórmula singular e corrente de saudação social: “Então, que há de novo?”

E toda pessoa, ao ser interpelada nesses termos, se sente no dever de contar imediatamente uma “novidade”. E lá vem algum “palpite”! Esse “palpite” poderá ser um boato sobre a sucessão presidencial, como poderá ser um “plano” de salvação nacional, ou a “notícia” de um grande escândalo político. Lançado assim, em um simples encontro de acaso, esse boato rapidamente tomará vulto, ampliará suas proporções e importância, circulará pela cidade e pelo país – e dentro de alguns dias será um “acontecimento”. E é através desse “acontecimento” e do modo como este é passado, que os boatos se formam, ganham força e atravessam as comunidades, a cidade, o estado, o país, quem sabe o mundo.

Nesse sentido os boatos seriam importantes ou não? Ou melhor, é necessário haver ou existir os boatos? Em anexo também, segue uma charge tirada da Internet, onde se ressalta não a importância do boato, mas sim o poder que ele possui, como ele pode ser danoso para as pessoas e neste caso específico, pode ser muito engraçado apesar de tudo. Nesta charge é que podemos ter a verdadeira idéia de como é que se espalha com tamanha rapidez um boato. Isso sem levar em conta, que hoje em dia possuímos a Internet, o e-mail, as salas de bate-papos, enfim, esse mundo virtual, que além de ajudar na propagação de qualquer notícia, ainda faz com que nossas imaginações alcem vôos muito mais altos e vá bem na linha “Nelson Rubens” de ser: “Eu aumento, mas eu não invento”.

O boato nasce como realização ilusória de um desejo perverso, originário de uma paixão inconfessável – raiva, vingança, interesse torpe, seja este pecuniário, político ou sexual. O boateiro escolhe um momento oportuno para lançar a sua mentira. Esse momento é de alta importância, porque nele se acha a circunstância que dá aparência de verdade ao fato que se pretende propalar. Essa circunstância é muito variável de um caso a outro. Não é possível, por exemplo, divulgar a notícia de que um certo financeiro importante está louco (para dar-lhe, suponhamos, um golpe de momento) se estiver ele presente e visível a todo o mundo; é preciso que esteja ausente, fortuitamente. É a circunstância oportuna.

“Dizer mal e gostar de ouvir falar mal de alguém é um velho cacoete da alma humana. Talvez seja a música mais harmônica que existe, porque convibra bem com qualquer espírito”. A frase é de Austregésilo, no livro O Mal da Vida. Toda a pessoa de valor social, vencedora na luta pela vida, bem sucedida em todos os seus esforços, tem na sociedade número incontável de desafetos gratuitos, instintivos, mesmo entre os que lhe são absolutamente estranhos, não se tratando já de oficiais no mesmo ofício, conhecidíssimos como inimigos natos. “A felicidade de qualquer é desespero para muitos”, diz muito bem Austregésilo no Mal da Vida. É inegável, pois, que no meio social, por toda a parte, existe sempre uma atmosfera de insidiosa e inconsciente hostilidade contra a pessoa que vence na vida. Haverá alguém tão ingênuo que a desconheça?

Nessa atmosfera é que se acha o elemento vital indispensável à germinação e rápida florescência do boato. A escuridão do anonimato dá ao boateiro o ânimo e a proteção de que carece para agir. É mesmo essa uma das feições que distinguem o boato de outros fenômenos sociais da mesma natureza, como o tumulto das ruas, por exemplo, que se realiza em pleno dia, por contágio quase explosivo. O aperfeiçoamento da consciência chegará a extinguir o boato no dia em que a maioria dos homens tiver clara intuição do que acontece atualmente, em casos raros, quando um cúmplice do boateiro encontra um homem bom ele narra uma calúnia, mais ou menos nestes termos: “Sabe que “se anda dizendo” de Fulano? Dizem que fez isto, aquilo e mais aquilo outro. Eu não creio, mas me garantiram e de fonte limpa que é verdade. Estou dizendo só aqui entre nós; não convém falar, porque talvez seja invenção. Em todo o caso é uma pena, se é verdade.”

Como disse no início deste trabalho, é difícil de entender e creio que também é difícil de se apresentar o tema boato. E para finalizar, somente como mais uma curiosidade, no “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa – 2ª Edição Revista e Ampliada, Editora Nova Fronteira”, boato significa: notícia anônima que corre publicamente sem confirmação; atoarda; boatice; balela; falaço; ruído; rumor; voz; zunzum; zunzunzum rumores.

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