Considerações sobre a Morte e Morrer

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O artigo “Reflexões de estudantes sobre a morte e o morrer”, da autoria de José Roberto da Silva Brêtas, José Rodrigo de Oliveira e Lie Yamaguti, apresenta a primeira parte de uma pesquisa realizada com estudantes de enfermagem do primeiro ano do curso de graduação da Universidade Federal de São Paulo, acerca de reflexões sobre a morte e o morrer, abordando dados como o medo da morte, conceitos, atitude diante da morte e como a crença interfere em tais atitudes e pensamentos.

No livro “O Corcunda de Notre Dame”, de Victor Hugo, palavra grega ANAΓKH, escrita nas frias paredes da Catedral pode ser traduzida como “fatalidade”. Não se sabe a que se referia o autor nessa passagem do seu romance, mas, essa palavra, descreve a maneira como encaramos a morte e o morrer. Fatalidade, fim de tudo.

O que esquecemos é que a morte é nosso mais certo destino. Que não acontece de hora pra outra. Morrer é acontecimento diário. Morrem sonhos, amizades, convicções, há a morte diária do trabalho indesejado, dos amores que se vão, dos filhos de pais afastados, das palavras que não foram ditas. A morte é, em verdade, companheira silenciosa a espreitar o momento de chegar perto e esticar seus frios braços. O ser humano teme, e com toda razão, a chegada desse momento. Com razão porque morte é igual a desconhecido. E quem há de dar saltos no escuro sem nenhum medo?

A “indesejada das gentes” é magra mulher carregando foice e ceifando passos. Sobre ela diversas crenças e visões, diversas formas de enfrentá-la. Em países europeus o corpo morto passa por um processo de conservação e é em cima da própria cama, no quarto resfriado, que espera para que todos lhe venham dar adeus por exatos oito dias. No dia do sepultamento funcionários de uma funerária surgem para colocar o corpo no caixão e prepará-lo chegando ao capricho de maquiar a face. Exéquias, choros esparsos e após o sepultamento há festa. Estranho hábito para quem se acostumou a uma rápida despedida brasileira e não vê possibilidade de confraternização em tal momento.

Divergência cultural. Mas divergências são o que há de comum quando se trata de morte e morrer. Oriente e Ocidente enxergam de forma distinta tal rito de passagem. Alguns crêem no regresso à carne para que se possa, numa nova vida, corrigir erros passados e angariar novos conhecimentos; outros afirmam que “do pó vieste e ao pó voltará” sem nenhuma possibilidade de retorno. Católicos, umbandistas, kardecistas, protestantes, budistas… a nossa maneira de crer em Deus, influencia também o nosso modo de ver a morte.

O único ponto comum talvez seja o medo, o silêncio. Ninguém inclui a morte no bate papo diário e quando por estranho desígnio se fala na tal, fala-se do receio que se tem a respeito, do não gostar de cemitérios, alguns até arriscam um “queria morrer dormindo”, “tenho mais medo da morte das pessoas que amo”, “não quero morrer tão cedo”. As falas são muitas e o que mais se teme, que assusta, é a morte do corpo. O fim da pessoa, da matéria que recebeu nome, RG, CPF e com quem se acostumou a conviver. O poeta gaúcho Mário Quintana, teve humor suficiente para dizer que “morrer é quando se pode, finalmente, estar deitado de sapatos”; há ainda o fanático flamenguista da cidade de Nazaré que anda feliz a festejar a tão sonhada compra de um caixão com o escudo do seu time. Mas esses que encaram o morrer com humor são poucos. Sob um aspecto mais geral, o medo da morte é o resultado de um tabu. Se tivéssemos mais familiaridade com a própria idéia da morte, não a veríamos sob o manto da tragédia.

Quanto mais tentamos fugir de um medo, mais ele cresce. Mas o silêncio a respeito do assunto é tão grande que mesmo nos cursos da área de saúde ele permanece. Não há uma preparação do profissional para lidar com situações de terminalidade, de finitude. O profissional de saúde não aprende a lidar com a morte, não tem uma educação voltada para a morte. Apesar do grande número de faculdades, de congressos, de conferências e literaturas, não há quase nada que trate diretamente do paciente que está morrendo, de como o profissional deve se portar nestas situações, não piorando ainda mais a carga destes pacientes e de suas famílias.

A educação desse profissional é contra a morte e no entanto ele convive com o advento da morte mais de perto que qualquer outro. A fria senhora está no leito ao lado do paciente numa guerra muda e impiedosa, mas médicos e enfermeiros estão acostumados a tratar, a cuidar da vida e brigam ferrenhamente para que a vida permaneça, para que a saúde seja vitoriosa. Quando se entra num hospital se entra acompanhado de esperança por pior que seja o estado de saúde, e é a ela que se agarram parentes e profissionais. Temos que ter em conta, todavia, que muitos pacientes não chegam a curar-se, que muitos diagnósticos são incompletos, que muitos tratamentos se modificam continuamente e, também, muitas pessoas morrem.

Acreditar que o profissional de saúde deve ser preparado para enfrentar a morte é utópico posto que para tal não há preparação. É possível que por encontrá-la, por convivê-la amiúde, médicos e enfermeiros saibam lidar melhor com tal acontecimento, mas, não há de se afirmar que seja fácil mesmo para tais profissionais. Por certo, sempre haverá a sensação de impotência diante de uma vida que se vai posto que médicos, enfermeiros, profissionais de saúde em geral, são a priori, humanos, e assim como as pessoas que abraçam outras profissões, a perda de um amigo, pai, filho ou pessoa amada a todos iguala, o medo da morte e de morrer seja no contexto pessoal ou profissional é universal.

REFERÊNCIAS

• BRÊTAS et al, José Roberto da Silva. Reflexões de estudantes de enfermagem sobre a morte e o morrer.2006.São Paulo: Revista de Enfermagem da USP. Vol. 40, nº.4.

MULTIMEIOS

• http://www.pesquisapsicologica.pro.br
• http://www.facenf.uerj.br

Consultas realizadas em 10 de abril de 2010 às 20:30.

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