O presente estudo foi realizado por meio de pesquisa bibliográfica, tendo como principal objetivo, a compreensão da influencia que a ansiedade pode exercer na saúde física da pessoa que se encontra constantemente ansiosa e quando esta ansiedade se dá em altos níveis. No entanto, o estudo teve como aportes teóricos as teorias psicanalíticas e as teorias biológicas acerca da psicossomática, no sentido de elucidar essa problemática. Tendo em vista que a ansiedade pode interferir na saúde física, é de grande importância que este conhecimento seja difundido para que as pessoas afetadas por suas emoções possam não só compreender esse processo, bem como evitá-lo ou, no mínimo minimizá-lo. Pois, conhecendo e aprendendo a lidar com as emoções, os indivíduos podem diminuir os impactos das emoções e estas, influenciarem menos no adoecimento do corpo, contribuindo assim para uma melhora na qualidade de vida.


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO
2 REVISÃO DE LITERATURA
2.1 ANSIEDADE
2.1.1 O que é ansiedade?
2.1.2 Classificação do Transtorno de Ansiedade segundo Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM. IV)
2.1.3 Teorias Biológicas de Ansiedade
2.1.3.1 Sistema Nervoso Autônomo
2.1.3.2 Neurotransmissores
2.1.3.3 Estudo de imagens cerebrais 
2.1.3.4 Estudos genéticos 
2.1.4 Teoria Psicanalítica e Ansiedade
2.1.4.1 Consciente e Inconsciente
2.1.4.2 Aparelho Psíquico
2.1.4.3 Conceito Psicanalítico de ansiedade
2.1.4.4 Mecanismos de defesas e ansiedade patológica
2.2 PSICOSSOMÁTICA
2.2.1 Histórico
2.2.2 Conceito de Medicina Psicossomática
2.2.3 Psicossomática e psicanálise
2.2.4 Psicossomática na contemporaneidade
2.3 COMO AS EMOÇÕES INTERFEREM NA SAUDE FÍSICA
2.3.1 Um breve histórico
2.3.2 Vertentes teóricas da Psicanálise em Psicossomática
2.3.3 Representação da perda no paciente psicossomático
2.3.4 O paciente psicossomático e a questão do afeto
2.3.5 Psicoimunologia- Uma nova abordagem da psicossomática
2.3.5.1 Imunidade e Doença Mental
2.3.5.2 Psiconeuroimunologia e Estresse
2.4 RELATO DE CASO 
2.4.1 “Aspectos psicológicos e hipertensão essencial” – FADDEN, Mac; RIBEIRO, A. V.(1998)
2.4.1.1 Amostra e métodos utilizados
2.4.1.2 Pacientes
2.4.1.3 Procedimento
2.4.1.4 Resultados obtidos 
2.4.2 “Avaliação dos sintomas emocionais e comportamentais em crianças portadoras de dermatite atópica” NETO, Paulo. T. L. et al. (2005)
2.4.2.1 Método utilizado
2.4.2.2 Resultados
2.4.2.2.1 Competências sociais 
2.4.2.2.2 Escores totais e das dimensões
2.4.2.2.3 Escores individuais em cada escala 
2.4.3 Discussão dos resultados
2.4.4 Conclusão do estudo de caso

1 INTRODUÇÃO

A ansiedade sempre esteve presente na vida das pessoas, deste o tempo dos homens das cavernas em que viam sua moradia ameaçada por animais e tempestades, até atualmente com a agitada dinâmica existencial da modernidade. Mudaram os fatores que desencadeavam e desencadeiam hoje a ansiedade, como também mudou a preocupação do homem de estudar cada vez mais seus efeitos sobre o organismo e sobre seu psiquismo.

Este estudo foi realizado por meio de pesquisa bibliográfica, de natureza descritiva e qualitativa, tendo como objetivos compreender os efeitos da ansiedade na saúde física do corpo através da psicossomática.

Em relação à ansiedade, Monteiro (2008) a descreve como uma característica biológica do ser humano, que antecede momentos de medo, perigo ou de tensão, marcada por sensações corporais desagradáveis, tais como uma sensação de vazio no estômago, coração batendo rápido, nervosismo, aperto no tórax, transpiração etc. Todas as pessoas podem sentir ansiedade, principalmente com a vida atribulada atual. A ansiedade acaba tornando-se constante na vida de muitas pessoas. Dependendo do grau ou freqüência pode se tornar patológica e acarretar em muitos problemas posteriores, como o transtorno de ansiedade.

Ressaltam Bourne e Garano (2008), que ansiedade é um distúrbio de comportamento que atinge mais de 47 milhões de brasileiros, ou 25% da população nacional, segundo pesquisa do Hospital das Clínicas de São Paulo. Para quem está dentro desse grupo ou não quer “participar” dele, é preciso redefinir todo um estilo de vida para fugir dos prejuízos causados na saúde física e mental.

Neste sentido, considera-se que é por meio da somatização que as doenças psicossomáticas surgem, abrindo espaço para a ansiedade se manifestar também nos sintomas físicos. Entretanto, a somatização corresponde, segundo Mello Filho (1992), a uma tendência de experimentar e de comunicar distúrbios e sintomas somáticos não explicados pelos achados patológicos, atribuí-los a doenças físicas e procurar ajuda médica para eles. É usualmente assumido que essa tendência torna-se manifesta em resposta a estresse psicossocial acarretado por situações e fatos da vida particularmente importantes para o indivíduo.

Popularmente diz-se que doença psicossomática ou doença psicológica é aquela que não apresenta sintoma orgânico real, ou seja, quando você acha que tem uma doença que não existe. Gaspar (2008) esclarece que tal definição, embora comum, é errônea. Doenças psicossomáticas são manifestações orgânicas que podem ser causadas ou cujos sintomas podem ser agravados por aspectos psíquicos (mental/emocional). A autora ainda complementa dizendo que, não conhecemos o complexo mecanismo de interação entre mente e corpo, até porque o próprio conceito de mente é bastante controverso. No entanto, sabe-se hoje que certas condições orgânicas correspondem a determinados estados emocionais, pois estes interferem na produção de uma série de substâncias, como os hormônios e os neurotransmissores, que atuam na regulação fisiológica.

Esse estudo teve como aporte teórico os conceitos da linha psicanalítica freudiana e das teorias biológicas acerca da ansiedade e psicossomática. Serão apresentadas inicialmente definições de ansiedade, psicossomática, a influência das emoções na saúde física e por fim será apresentado um estudo de caso acerca de dois artigos científicos referente à ansiedade como promotora de doenças psicossomática.

2. ANSIEDADE

A ansiedade pode ser considerada como uma emoção presente em todos os seres humanos. Assim como toda emoção inerente ao ser humano, a ansiedade está presente na vida de todas as pessoas, porém, esta se dá de maneiras e intensidades diferentes em cada indivíduo.

Quando a ansiedade se torna tão intensa a ponto de dificultar o convívio com os outros e com o meio, esta pode ser uma ansiedade patológica. Assim a ansiedade pode se manifestar através de sintomas físicos prejudicando a saúde física e não apenas a saúde psicológica da pessoa ansiosa.

2.1 O que é ansiedade?

A ansiedade aparece como um sentimento de apreensão, uma sensação de que algo está para acontecer, sentimentos difusos ou desagradáveis. Neste sentido, a ansiedade, não deve ser confundida com medo. Segundo Fadimam e Fragner (2002), o medo é um sinal de alerta similar, porém, distingui-se da ansiedade por ser uma resposta a uma ameaça conhecida, externa, definida ou de origem não-conflituosa. Enquanto a ansiedade é uma resposta a uma ameaça desconhecida, vaga ou de origem conflituosa.

Desta forma, ansiedade é um estado emocional com componentes psicológicos e fisiológicos, que faz parte do aspecto normal da experiência humana, sendo propulsora do desempenho. Ela passa a ser patológica quando é desproporcional à situação que a desencadeia, ou quando não existe um objeto específico ao qual se direcione (ANDRADE; GORENSTEIN, 2000).

Após uma longa revisão sobre a origem e o significado da palavra ansiedade, Ballone (2001), cita características tais como do estado emocional, sendo este experiência subjetiva de medo ou outra emoção relacionada, como terror, horror, alarme, pânico, acerca de emoção desagradável que pode ser uma sensação de morte ou colapso iminente e pode ser direcionada em relação ao futuro, está implícita a sensação de um perigo iminente. Não há risco real, ou se houver a emoção é desproporcionalmente mais intensa. Quanto ao desconforto corporal subjetivo durante o estado de ansiedade são sensações de aperto no peito, na garganta, dificuldade para respirar, fraqueza nas pernas e outras sensações subjetivas. As manifestações involuntárias do corpo aparecem como formas de secura da boca, sudorese (suor excessivo), arrepios, tremores, vômitos, palpitação, dores abdominais, taquicardia (aceleração do batimento cardíaco) entre outros.

Esse mesmo autor lista alguns outros atributos que podem ser incluídos na descrição da ansiedade. A ansiedade pode ser normal, por exemplo: estudante frente a uma situação de exame ou patológica como nos transtornos de ansiedade. Pode ser leve ou grave, ser prejudicial onde pode paralisar a pessoa em uma situação em que ela precisaria agir ou ser benéfica onde, por exemplo, a ansiedade pode nos impulsionar a atos que sem ela estes não seriam realizados; ser episódica ou persistente; ter uma causa física ou patológica; ocorrer sozinha ou junto com outro transtorno como, por exemplo, a depressão, e afetar ou não a percepção e a memória.

Podemos notar assim, que a ansiedade não possui apenas um conceito que a defini. Existem várias patologias e transtorno relacionados à ansiedade, e esta possui vários aspectos e definições. Existem variações em relação a cada pessoa, assim como cada indivíduo é diferente do outro, suas emoções também se diferem em freqüência, gravidade ou patologia.

Sendo assim, a ansiedade como citada anteriormente, provavelmente, pode nos paralisar em momentos em que devemos agir ou pode nos impulsionar nos trazendo benefícios. Pode estar freqüente no cotidiano ou pode ser episódica. Assim o mesmo ocorre com as manifestações involuntárias no corpo, que são os aspectos físicos manifestados da ansiedade, algumas pessoas sentem enjôo enquanto outra sente suor excessivo nas mãos.

Essas manifestações tais com enjôo, suor excessivo, são denominadas manifestações periféricas de ansiedade, outros exemplos de manifestações periféricas da ansiedade são: diarréia, tonturas, hipertensão, palpitações, inquietação, taquicardia, formigamentos nas extremidades, tremores, desconforto abdominal ente outros conforme especifica First (2000) no Manual de Diagnostico Diferencial DSM-IV. Assim a ansiedade pode ser uma vilã para alguns, e para isso é importante não apenas conhecermos sua definição e sintomas, mas conhecermos maneiras de controlá-la para melhorarmos nossa qualidade de vida tanto psicológica como fisiológica.

2.2 Classificação do Transtorno de Ansiedade segundo Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM. IV)

O DSM-IV (2000) relaciona os seguintes transtornos de ansiedade: Agorafobia; Ataque de Pânico com ou sem Agorafobia; Transtorno de Pânico sem Agorafobia; Transtorno de Pânico com Agorafobia; Agorafobia sem história de Transtorno de Pânico; Fobia Específica; Fobia Social; Transtorno Obsessivo-Compulsivo; Transtorno de Estresse Pós-Traumático; Transtorno de Estresse Agudo; Transtorno de Ansiedade Generalizada; Transtorno de Ansiedade devido a uma condição médica geral; Transtorno de Ansiedade induzido por substância e Transtorno de Ansiedade sem outra especificação.

Segundo First (2000), a característica essencial do Transtorno de Ansiedade Generalizada, é uma expectativa apreensiva ou preocupação excessiva, ocorrendo na maioria dos dias e com duração de, pelo menos, 06 (seis) meses. A pessoa portadora de Transtorno de Ansiedade Generalizada considera difícil controlar essa preocupação excessiva, a qual é acompanhada de pelo menos três dos seguintes sintomas adicionais: inquietação, fadiga, dificuldade em concentrar-se, irritabilidade, tensão muscular e perturbação do sono.

Embora os pacientes com Transtorno de Ansiedade Generalizada nem sempre sejam capazes de identificar suas preocupações como excessivas, eles relatam sofrimento subjetivo por causa delas, têm dificuldades em controlá-las ou experimentam prejuízo social ou ocupacional por causa disso. Ainda de acordo com o DSM. IV (2000), a intensidade, duração ou freqüência da ansiedade ou preocupações excessivas é claramente desproporcional ao evento estressor e a pessoa considera difícil evitar que essas preocupações influenciem na atenção e nas tarefas que precisam ser realizadas. Normalmente esta pessoa tem dificuldade em parar de se preocupar.

2.3 Teorias Biológicas de Ansiedade

Aqui será feita uma breve explicação das teorias biológicas da ansiedade, visto que no próximo capítulo será explicitado sobre medicina psicossomática e doenças psicossomáticas. Assim estas teorias biológicas podem contribuir para um melhor entendimento dos próximos capítulos onde serão adotadas teorias mais detalhadas acerca da ansiedade na fisiologia.

Em relação às teorias biológicas:

Em um extremo, há os que afirmam que as alterações biológicas mensuráveis nos paciente com transtorno de ansiedade refletem os resultados de conflitos psicológicos; o pólo oposto afirma que os eventos biológicos precedem os conflitos psicológicos. Ambas as situações podem existir em indivíduos específicos podendo haver um espectro de sensibilidade de base biológica entre as pessoas com sintomas de transtorno de ansiedade (KAPLAN, 1997).

Desta forma, para se compreender as teorias biológicas, é importante conhecer a relação da ansiedade com o sistema nervoso autônomo, neurotransmissores, a genética e o estudo das imagens cerebrais. Abaixo segue uma breve explicação de cada um deles.

2.3.1 Sistema Nervoso Autônomo

A estimulação do Sistema Nervoso Autônomo (SNA) como citado por Kaplan (1997) causa certos sintomas cardiovasculares (por ex., taquicardia ), musculares (por ex., cefaléia ), gastrointestinais (por ex., diarréia ) e respiratórios (por ex., taquipnéia ). Essas manifestações periféricas de ansiedade não são exclusivamente dos estados ansiosos nem estão necessariamente correlacionadas com a experiência subjetiva da ansiedade.

A opinião geral de estudioso é de que a ansiedade do sistema nervoso central precede as manifestações de ansiedade, exceto onde há uma causa periférica específica (por ex., feocromocitoma ). Muitos pacientes com transtorno de ansiedade, especialmente aqueles com transtorno de pânico, tem um SNA que exibe uma intensificação do tônus simpático adapta-se mais lentamente a estímulos repetidos e responde excessivamente a estímulos moderados (KAPLAN, 1997).

2.3.2 Neurotransmissores

Os três principais neurotransmissores associados à ansiedade com base em estudos de animais e resposta a tratamentos medicamentosos são a noradrenalina, serotonina e ácido γ-aminobutírico (GABA). As informações básicas da neurociência sobre a ansiedade provêm de experiências com animais, envolvendo paradigmas comportamentais e agentes psicoativos. Um desses modelos de ansiedade em animais é o teste do conflito, no qual o animal é simultaneamente confrontado com estímulos positivos (por ex., alimento) e negativos (por ex., choque elétrico). As drogas ansiolíticas tendem a facilitar a adaptação do animal a esta situação (OLIVEIRA; LIMA, 2002).

Podemos assim dizer que as drogas ansiolíticas que agem nos neurotransmissores podem colaborar para a redução da ansiedade, levando o sujeito ao maior enfrentamento das situações conflitantes.

2.3.3 Estudo de imagens cerebrais

Em relação aos estudos de imagens cerebrais, Kaplan (1997) cita que estes deram várias pistas para o entendimento dos transtornos de ansiedade, sendo feito através de Tomografia Computadorizada (TC) e Imagens de Ressonância Magnética (IRM). Os estudos eram realizados com transtornos de ansiedade específicos. As imagens revelaram, por exemplo, em uma IRM um aumento do tamanho dos ventrículos cerebrais, em outra imagem de outro caso foi observado um defeito específico no lobo temporal direito em um paciente com transtorno de pânico.

Em muitos estudos de imagens cerebrais descreveram achados anormais no hemisfério direito, mas não no hemisfério esquerdo, sugerindo a participação de algum tipo de assimetria cerebral no desenvolvimento dos sintomas de ansiedade em paciente específicos. Estes dados obtidos foram interpretados pelos estudiosos mais conservadores, como sendo afirmação que alguns pacientes com transtorno de ansiedade têm uma patologia cerebral funcional demonstrável, e que a patologia pode ser causalmente relevante para seus sintomas de transtornos de ansiedade. Ou seja, a patologia se dá de maneira neurológica (cerebral) e isso pode causar os transtornos de ansiedade (OLIVEIRA; LIMA, 2002).

2.3.4 Estudos genéticos

Segundo Kaplan (1997) estes estudos genéticos têm produzido dados sólidos quando à existência de, pelo menos, algum componente genético no desenvolvimento dos transtornos de ansiedade. Foram obtidos dados em pesquisas de que cerca de 50% dos pacientes com transtorno do pânico têm pelo menos um parente afetado. Em outros transtornos de ansiedade, embora não tão altos, os números também indicam uma freqüência maior de doença nos parentes em primeiro grau dos pacientes afetados que nos pacientes de pessoas não-afetadas.

2.4 Teoria Psicanalítica e Ansiedade

Para que se possa compreender o conceito psicanalítico da ansiedade é necessário conhecer um pouco da teoria psicanalítica fundada por Sigmund Freud. Para isso será feita uma breve explicação sobre definições psicanalíticas tais como consciente, inconsciente, aparelho psíquico (id, ego, superego) e enfim, ansiedade.

2.4.1 Consciente e inconsciente

A psicanálise é um método de investigação que consiste essencialmente em evidenciar o significado inconsciente das palavras, ações, das produções imaginárias (sonhos, fantasias, delírios) de um sujeito. Baseia-se principalmente nas associações livres do sujeito, as quais são as expressões indiscriminadas dos pensamentos que ocorrem a partir de um elemento dado ou de forma espontânea (TILLICH, 1976). Segundo a Psicanálise algumas funções de nossa mente não nos são acessíveis, para isso Sigmund Freud fez uma divisão imaginária de nossa mente entre o inconsciente e o consciente.

Dewald (1981) define consciente como uma parte da mente e inclui tudo o que estamos cientes num dado momento. É um aspecto da função mental que, no momento em que são observados, estão dentro da consciência do indivíduo, o que inclui grande variedade de pensamentos, sensações e sentimentos, mas o importante é o indivíduo ter conhecimento deles e neles focalizar parte de sua atenção.

Neste sentido, entende-se que a premissa inicial de Freud é de que há conexões entre todos os fenômenos mentais e quando um pensamento ou sentimento parece não estar relacionado aos pensamentos ou sentimentos que o precedem, as conexões estão no inconsciente.

Quanto ao inconsciente Laplanche (1980) relata que nele estão os elementos instintivos, que nunca foram conscientes e que não são acessíveis à consciência. Além disso, há material que foi excluído da consciência, censurado, reprimido. Esse material não é esquecido ou perdido, mas não é permitido ser lembrado.

Desta forma, pode-se dizer então que no consciente estão os conteúdos mentais (acontecimentos, fases da vida, emoções, entre outros) aos quais a pessoa está ciente como também os que estão guardados na memória e podem ser relembrados a qualquer momento. No inconsciente estão os conteúdos aos quais se tem acesso, são emoções, pensamentos, momentos vividos que foram armazenados na mente, porém não podem ser lembrados, no entanto eles ainda influenciam em pensamentos e ações.

2.4.2 Aparelho Psíquico

Freud também utilizou na Psicanálise o conceito de Aparelho Psíquico. Dewald (1981) descreve aparelho psíquico como certas características que a teoria freudiana atribui ao psiquismo, como sua capacidade de transmitir e transformar uma energia determinada e sua diferenciação em sistemas ou instâncias.

É importante destacar que Freud divide o aparelho psíquico em três instancias: o id, o ego e o superego. O id tem como função dar à mente uma representação psíquica para as forças instintivas oriundas da constituição biológica do organismo. É totalmente inconsciente e se constitui no reservatório de energia de toda personalidade e, para Freud contém tudo o que é herdado, que se acha presente no nascimento, que está presente na constituição (DEWALD, 1981).

Contudo, em relação ao id, este na teoria freudiana, seria o princípio do prazer, existente logo nos primeiros dias de vida. É o que rege o bebê a chorar e pedir pelo seio da mãe, pois ele precisa do prazer de sugar o leite e se sentir alimentado. O id acompanha a pessoa por toda a vida, no entanto, com o amadurecimento psicológico ele passa dar espaço a outros componentes do aparelho psíquico como o ego e o superego.

O ego é a instância central da personalidade e constitui o pólo psicológico por excelência. É ele o grupo de processos mentais, cuja função é perceber e reconhecer as variada forças que influenciam o organismo, tanto internas quanto externas, sintetizando-as, integrando-as, buscando uma adaptação interna e externa (LAPLANCHE, 1980).

Neste contexto, o ego está em contato com a realidade externa, seria o princípio da realidade. Este se desenvolve a partir do id na medida em que o bebê toma consciência de sua própria identidade, para atender e aplacar as constâncias exigências do id. Segundo Dewald (1981) podemos dizer que o ego tem como tarefa garantir a saúde, segurança e sanidade da personalidade.

O superego por sua vez tem como função julgar criticamente as outras funções mentais, em termos de padrão de certo e errado, bom e mau, recompensa e castigo. Pode-se dizer que o superego seriam as regras internalizadas, regras percebidas pela criança através dos pais e sociedade como também regras e conceitos estabelecidas pelo próprio indivíduo. Assim como o ego é em parte consciente e em parte inconsciente.

Freud (1988) descreve três funções do superego: consciência, auto-preservação e formação de ideais. Tillich (1976) ainda a respeito do superego comenta que o homem é responsável por si mesmo e coloca-se a si mesmo como juiz de si próprio.

2.4.3 Conceito psicanalítico de ansiedade

Como visto anteriormente o id, ego e superego possuem forças e funções psicológicas que se encontram presentes ao mesmo tempo na mente. Quando estas forças possuem objetivos contraditórios surgem situações de conflito psicológico, podendo ser um conflito intrapsíquico (dentro do aparelho mental) ou externo ao qual envolve o organismo e o ambiente em que ele se encontra.

Dentre as contradições e situações de estresses, como citado anteriormente, a função mais importante do ego é, muito provavelmente, a de manter um estado de adaptação interna para o aparelho mental, bem como a adaptação entre o organismo e o ambiente externo, procurando assim manter o equilíbrio. Este período de equilíbrio, no entanto segundo Laplanche (1980), nem sempre é estático podendo haver dentro de certos limites uma constante oscilação do estado dinâmico. Porém, o sistema todo deve ser mantido num estado dinâmico constante, compreendendo um grau mínimo de tensão e conflito e um grau máximo de satisfação das necessidades, além de uma interação eficaz como o meio ambiente. Quando qualquer ameaça para este estado de equilíbrio dinâmico é encontrado um sinal de alerta é acionado a ansiedade.

Para Tillich (1976) a ansiedade é a consciência de conflitos insolvidos, que levam a pessoa para o confronto com sua finitude e busca da centralidade. Para Freud (1988) a ansiedade representa importante papel no processo de adaptação e equilíbrio do indivíduo. Ela é povoada por um aumento, esperado ou previsto da tensão ou desprazer e pode desenvolver-se em qualquer situação (real ou imaginária), quando a ameaça a alguma parte do corpo ou da psique é percebida e não pode ser ignorada, controlada ou descarregada.

Ainda conforme Tillich (1976) as ansiedades podem ser: instintiva (id), ansiedade do ego e a ansiedade do superego. Em relação à ansiedade instintiva do id, Tillich (1976), diz que esta resulta de um excesso de tensões e estímulos oriundos de seus próprios impulsos e relaciona-se com as primeiras experiências infantis de acúmulo de tensão e gratificação. A ansiedade do ego resulta na percepção de uma situação perigosa incorporada, que uma vez foi sentida como externa. Se o ego é obrigado a admitir sua fraqueza ele irrompe em ansiedade, ansiedade realística referente ao mundo externo, ansiedade moral referente ao superego e ansiedade neurótica referente à força das paixões do id. Enquanto a ansiedade do superego resulta da incorporação de ameaças de punição ou perda do amor, baseada em regras morais, atualmente experimentadas pelo indivíduo como sentimento de culpa. Nesse momento o indivíduo falha em viver de acordo com seu ego-ideal, assim surge uma ansiedade do superego sentida como vergonha.

Fadimam e Frager (2002), em seu livro Teorias da Personalidade descrevem quatro situações que causam ansiedade, sendo estas podendo ser a perda de um objeto desejado (a morte de um amigo, pais, empregado, etc), a perda do amor (rejeição, fracasso em conquistar o amor ou a aprovação de alguém que lhe importa), perda de identidade (medo de castração, perda de prestígio, de ser ridicularizado em público), perda de auto-estima (desaprovação do superego por atos ou pensamentos que resultam em culpa ou ódio em reação a si mesmo).

Enquanto que Zimerman (2000), destaca os estados de ansiedade mais essenciais e típicos tais como a ansiedade de aniquilamento que é a mais primitiva de todas e corresponde a uma provável sensação da criança de que ela e seu corpo vão se desintegrar em pedaços. Isto se deve, em grande parte, ao fato de que o aparelho mental do bebe ainda não tem maturação neurobiológica capaz de absorver o formidável impacto de estímulos externos e internos. A ansiedade de desamparo que se trata da mais terrível das angústias, porquanto o bebê, a criança ou o adulto em estado de forte regressão pode sentir-se num estado de orfandade, sem contar com ninguém que possa conter e atender à suas necessidades vitais básicas que lhe garantem a sobrevivência física, psíquica e afetiva.

Ansiedade de fusão-despersonalização ao qual na pessoa surge como fortes tendências à contração de vínculos simbióticos, essa ansiedade irá se manifestar pelo seu apavoramento ante a possibilidade de fundir-se (tragar ou ser tragado) com o outro e daí perder a sua individualizada e identidade.

Ainda citando Zimermam (2000), outros estados de ansiedade seriam: a ansiedade de separação que forma-se quando a criança não conseguiu desenvolver um núcleo de confiança afetiva básica em relação à mãe, de quem depende completamente, e, devido ao medo de vir a perdê-la, não consegue se separar e vive grudada. Ansiedade da perda do amor onde a criança sente-se em condições de dispensar a constante presença física da mãe. No entanto, devido à ação de suas fantasias inconscientes, ela se mantém em permanente estado de sobressalto quanto a um possível abandono afetivo por parte da mãe, como um revide desta. Ansiedade de castração que surge como decorrência dos conflitos edípicos. Ansiedade devida ao Superego que seria herdeiro direto do Complexo de Édipo, o Superego ameaça o indivíduo com severas punições, caso as suas expectativas e exigências não foram cumpridas.

Pode-se notar que nos estados de ansiedade destacados acima, muitos deles são citados como experiências em relação à criança e sua mãe, estes estados de ansiedades, no entanto, podem ocorrer no decorrer de toda a vida, e pode ser referente a outro tipo de figura, sendo esta tão importante para a vida da pessoa como a figura representada inicialmente pela mãe.

No entanto no que se refere à ansiedade, pode-se considerar que a ameaça quando percebida pelo aparelho psíquico acaba por assim causá-la. Assim, ela se manifesta como um sinal de perigo ou ameaça externa ou interna ao qual utilizará os recursos intrapsíquicos de defesa visando o restabelecimento do equilíbrio do indivíduo. Estes recursos intrapsíquicos de defesa são denominados como mecanismos de defesa e são explicados logo a seguir.

2.4.4 Mecanismos de defesas e ansiedade

Como dito anteriormente o processo dinâmico do aparelho mental deve estar sempre em um campo dinâmico, visando o mínimo de conflito e o máximo de satisfação de necessidades. Os mecanismos de defesas então surgem como auxiliadores da manutenção desse campo dinâmico, pois sua função segundo Zimerman (2000) é designar os distintos tipos de operações mentais que têm por finalidade a redução das tensões psíquicas internas, ou seja, das ansiedades. Tillich (1976) ainda ressalta que os mecanismos de defesa bloqueiam a expressão direta de necessidades instintivas e podem ser encontrados em todas as pessoas e desempenhar um papel central no estabelecimento e manutenção do equilíbrio dinâmico.

Assim sendo, para serem conceituados os mecanismos de defesa, pode-se iniciar dizendo que os conflitos psíquicos sempre foram e sempre serão inevitáveis ao ser humano tendo em vista que nem sempre se consegue manter este equilíbrio constantemente estável e equilibrado, este se encontra presente em todas as pessoas e em diversas fases da vida, assim surgem os mecanismos de defesas onde sua função é estabelecer e se desenvolver em cada indivíduo fazendo parte de seu amadurecimento psicológico, para assim tratar e resolver os conflitos intrapsíquicos e aos conflitos referentes ao meio ambiente.

No entanto, nem sempre os mecanismos de defesas são suficientes em sua função. Surgem assim, então, os mecanismos secundários do ego que podem começar a atuar a fim de diminuir os efeitos de ansiedade sobre o indivíduo. Kusnetzoff (1982), afirma que tais mecanismos secundários são os chamados sintomas neuróticos que representam as manifestações da tentativa do ego de estabelecer um novo equilíbrio dinâmico frente a um conflito inconsciente não resolvido. Tais sintomas neuróticos rompem com a realidade, surgindo assim uma ansiedade patológica.

Desta forma, provavelmente, caberia reforçar antes de concluir este capítulo, que tais ansiedades e mecanismos de defesas se dão em níveis inconscientes. Diante de um tratamento psicológico, se faz necessário trazer ao consciente tais ansiedades e mecanismos para que assim possa trabalhá-los e amenizá-los.

2.5 PSICOSSOMÁTICA

A ansiedade pode interferir significantemente na saúde física através das doenças psicossomáticas. Para esclarecer tal interferência, será apresentado inicialmente o histórico dos conceitos e os primeiros autores sobre as teorias de psicossomática. A seguir será conceituado Medicina Psicossomática, psicossomática segundo psicanálise e a visão e conceitos de psicossomática na contemporaneidade.

2.5.1 Histórico

Desde a Grécia, passando pela Idade Média, até o século XVII, a dicotomia alma/corpo, em função de fatores principalmente de ordem religiosa, alcança seu ápice com Descartes que teve uma grande influência no pensamento médico. Canova (2008), destaca que Descartes realizou uma distinção entre mente e corpo. Esta postura é a postura denominada dualista e preconizava que a medicina deveria ocupar-se do corpo que era simplesmente uma máquina a ser entendida e conservada. Por estas épocas, a psicologia não existia como ciência e seu terreno pertencia à filosofia sendo esta subscrita à religião.

Posteriormente, com o surgimento da psiquiatria, Filho (1994) ressalta que, durante muitos séculos os médicos incapazes de entender e manejar os sintomas dos neuróticos e psicóticos devido às suas formações exageradamente organicista, começaram a ver com desagrado esses doentes, ficando contra eles porque não podiam neles utilizar os exames de laboratório e precisavam defender a ciência experimental. Os neuróticos e psicóticos eram vistos como estorvo, eles eram cruéis a seu médico porque não demonstravam alteração morfológica ou bioquímica. Às vezes os sintomas somáticos não correspondiam à distribuição anatômica dos nervos, o que posteriormente evidenciou a primazia da mente sobre o corpo.

Assim, em 1929 Cannon desenvolve o conceito de Homeostase dando a base fisiológica para a concepção holística, onde o homem não é mais visto como uma simples máquina a ser entendida e conservada, e começam a surgir às raízes da psicossomática. Segundo Canova (2008), o conceito de Homeostade de Cannon é universalmente aceito, mas nem sempre levado em consideração, em todas suas implicações, onde Cannon (1929 apud CANOVA, 2008) cita que “todo e qualquer estímulo, incluindo psicossocial, que perturba o funcionamento do organismo, o perturba como um todo”.

Com o decorrer da evolução histórica da doença finalmente o termo “psicossomática” foi utilizado por Heinroth, um psiquiatra alemão no ano de 1808, ao tentar explicar a origem da insônia. Segundo Ramos (1994), Heinroth utilizou o termo definindo que como regra geral, a origem da insônia é psicossomática, mas é possível que cada fase da vida possa, em si mesma, fornecer a razão completa para a insônia. Mais tarde em 1828, Heinroth introduziu o termo “somatopsíquico”, que se aplicava às doenças em que o fator orgânico afetava o emocional, diferente da psicossomática que indicava o poder das paixões.

De acordo com Ramos (1994), o termo “medicina psicossomática” foi primeiro utilizado por Helen Dunbar em seu livro Emotions and Biology Changes. Dunbar define medicina psicossomática no edital do primeiro número de Phychosomatic Medicine de 1939, esta tendo como objetivo estudar a inter-relação dos aspectos psicológicos e fisiológicos do funcionamento normal a anormal do corpo e integrar a terapia somática na psicoterapia.

2.5.2 Conceito de Medicina Psicossomática

Um dos grandes teóricos da Medicina Psicossomática foi Franz Alexander. Alexander (1989), discorre em relação à especificidade da doença, que as respostas fisiológicas aos estímulos emocionais, normais e mórbidos variam de acordo com a natureza do estado emocional que a desencadeia. Haveria uma especificidade (orgânica) na maneira pela qual uma força psicológica motivadora poderia expressar-se. Assim, cada doença corresponderia a um quadro emocional ou a um tipo de personalidade. Alexander descreveu sete doenças, mais tarde chamadas de psicossomáticas, mas considerava que toda doença é psicossomática, uma vez que fatores emocionais influenciam em todos os processos do corpo, através das vias nervosas e humorais (RAMOS, 1994).

Os objetivos de estudo da Medicina Psicossomática já foram acima citados no histórico, porém torna-se interessante conceituar de acordo com Paiva (1996), o qual a define como o estudo dos transtornos corporais nos quais as aplicações dos enfoques psicológicos proporcionam uma informação de alto valor etiológico. A Medicina Psicossomática não estuda somente a causalidade, mas também a condicionalidade psíquica das doenças. Osler (1950 apud PAIVA, 1996) diz que esta é a parte da medicina que se ocupa em valorizar tanto os mecanismos psíquicos como os físicos que intervém na enfermidade de todo paciente e salienta a influência que estes dois fatores exercem mutuamente sobre si e sobre o indivíduo como pessoa. Pode-se assim dizer que a Medicina Psicossomática é um ponto para a íntima compreensão entre a mente e o corpo.

2.5.3 Psicossomática e psicanálise

A psicossomática provém diretamente da psicanálise. Suas orientações e suas descobertas importantes são resultados do trabalho de psicanalistas clássicos interessados pelos pacientes somáticos. O método, o estilo, o sentido geral do estudo psicossomático modelam-se sobre os da psicanálise (MARTY, 1993).

Ainda segundo o mesmo autor, a psicanálise constitui uma referência permanente da psicossomática. A formação psicanalítica pessoal e a prática da análise das neuroses clássicas devem preceder a formação dos especialistas em psicossomática. A prática de análise dos neuróticos deve prosseguir paralelamente às das psicoterapias das doenças somáticas. Não se pode, de fato, estimar as particularidades do funcionamento mental dos somáticos a não ser comparando-as, a todo instante, com os mecanismos psíquicos dos neuróticos ensinados por Freud.

Sigmund Freud, segundo Ramos (1994), estudava a influência das emoções sobre o corpo, preocupando-se principalmente com o papel da etiologia na formação dos sintomas. Seus conceitos de repressão e conversão forneceram os instrumentos que poderiam ser aplicados à hipótese das relações psicossomáticas.

Para Sigmund Freud, os sintomas histéricos apareciam quando o afeto associado com uma idéia entrava em conflito com o ego e, consequentemente reprimido, era descarregado em sintomas e inervações somáticas. Freud usava o termo “conversão” para se referir aos processos em que a excitação era transformada em sintomas histéricos e “complacência somática” para significar uma suscetibilidade orgânica, prévia ou simultânea ao trauma e que serviria de “leito” à conversão histérica (RAMOS, 1994).

Jung (1990 apud FILHO, 1992) envolvido com o estudo das realizações psicofisiológicas afirma:

A distinção entre mente e corpo é uma dicotomia artificial, um ato de discriminação baseado muito mais na peculiaridade da cognição intelectual do que na natureza das coisas. De fato, é tão íntimo o inter-relacionamento dos traços psíquicos e corporais, que podemos não somente estabelecer inferências sobre a constituição da psique a partir da constituição do corpo, como também podemos inferir características corporais a partir das peculiaridades psíquicas (JUNG, 1990 apud FILHO, 1992).

Seguindo ainda a linha psicanalítica, Otelo (1992 apud MARQUES, 2004) indica que muitos psicanalistas tinham como idéia central que os pacientes psicossomáticos se diferenciam dos demais pela pobreza do mundo simbólico. Sonham pouco e seus sonhos são “realistas”. Há pouca elaboração psíquica, sendo seu pensamento do tipo operatório, aprisionado no concreto e na orientação pragmática. O paciente psicossomático teria pouca ligação com seu inconsciente. Frente a qualquer estresse, esse paciente, por incapacidade de simbolizar, reagiria com uma doença somática. Neste sentido as doenças orgânicas, diferentemente das neuroses e psicoses, carecem de sentido, não tem significação simbólica, havendo uma incompatibilidade entre as doenças psíquicas e orgânicas.

Idéias semelhantes foram desenvolvidas por Sífneos, com o conceito de alexitimia , em 1970. Para eles os pacientes psicossomáticos seriam os alexitímicos, isto é aqueles incapazes de nomear e expressar sentimentos, como falha de reconhecimento dos mesmos (SIFNEOS, 1993).

Em relação às associações de psicanalistas freudianos, estas ajudaram no desenvolvimento do movimento psicossomático em quase todo o mundo. Contudo, a posição pessoal dos psicanalistas clássicos acerca da psicologia somática varia. A maioria considera a psicossomática como uma vizinha interessante de sua casa, alguns às vezes flertam satisfatoriamente com ela. Outros se mostram abertamente satisfeitos com a penetração ainda mais profunda da psicanálise no domínio das ciências humanas, apesar do risco que corre de se tornar assim mais oficial, porque ligada à administração de saúde; ou satisfeitos com a extensão dos estudos analíticos a pacientes somáticos que, diferentes dos neuróticos mentais, formam o conhecimento do funcionamento mental; ou mais praticamente satisfeitos, por considerar o imenso domínio profissional de ordem terapêutica que a psicossomática abre aos jovens psicanalistas, ao mesmo tempo em que as indicações de análises clássicas se reduzem.

Outros ainda, em contrapartida, vêem com maus olhos o fato da psicanálise e eles próprios se desviarem da tradição, e diante da dificuldade e de duas posições, consideram-se como suficientemente sábios para, com auxilio de técnica clássica, tratar qualquer ser humano, independentemente de seu estado (MARTY, 1993).

2.5.4 Psicossomática na contemporaneidade

Na atualidade, a Psicossomática, refere-se ao estudo da pessoa como ser histórico. Ser histórico, citado por Canova (2008) é o homem que vivencia, por exemplo, o seu reumatismo e seus envolvimentos laborais, sociais, seu esquema corporal alterado, sua sexualidade perturbada; a mulher com sua infertilidade e a pressão social sobre sua gestação; o jovem com sua diabetes e que tem sua vida limitada por sucessivos fatores decorrentes de sua dieta; o hipertenso que não consegue aderir as suas pautas de tratamento, entre outros.

Define-se classicamente por “psicossomático” todo distúrbio somático que comporta, em seu determinismo, um fator psicológico interveniente, não de modo contingente, como pode ocorrer em qualquer afecção, mas por uma contribuição essencial à gênese da doença. Segundo Grinker (1905 apud Haynal e Pasini, 1993), psicossomática é uma abordagem que engloba, em sua totalidade, processos integrados de transações entre diversos sistemas: somático, psíquico, social e cultural. Refere-se a um conceito de processos entre os sistemas vivos e sua elaboração social e cultural.

A abordagem psicossomática, desta maneira, não se trata de uma nova especialidade médica ou psicológica. Canova (2008) a define como uma visão integrativa e enriquecedora do conhecimento profissional, além de constituir em paradigma de uma forma de pensar o ser humano e que privilegia a interação terapêutica profissional-cliente como meio facilitador da transição para a saúde. É uma proposta de visão menos dicotomizada do homem, ou seja, considera o homem como um todo, um ser dinâmico, que acontece num ambiente (natureza, sociedade e cultura).

A integração no meio social e as relações que se consegue manter com outras pessoas são de fundamental importância para o bem estar físico e mental e para a saúde do ser humano. Desse modo, Canova (2008) destaca que a concepção mais recente e abrangente não fala mais em doença psicossomática ou somatopsíquica, mas sim em doença sócio somática, isto é, a saúde ou doença seria resultado da conjugação de fatores originados do corpo, da mente e da interação de ambos entre si e com o ambiente e o meio social.

Importante destacar que, conforme Goethe (1845 apud Canova 2008), em todo ser vivo aquilo que designamos como partes constituintes formam um todo inseparável, que só pode ser estruturado em conjunto, pois a parte não permite reconhecer o todo, nem o conjunto deve ser reconhecido nas partes.

Desde modo, podemos notar que a dicotomia mente/corpo, vista há tantos séculos como eficaz pelos estudiosos da medicina, nem sempre consegiu oferecer para os mesmos respostas para todas as doenças, pois a investigação na ordem fisiológica não permite ao homem ser visto como uma totalidade entre mente e corpo e nem se torna relevante sua sociabilidade. Assim, surge a psicossomática, que investiga todos os fatores recorrentes da doença.

2.6 COMO AS EMOÇÕES INTERFEREM NA SAÚDE FÍSICA

Nos capítulos anteriores foram conceituadas a ansiedade e psicossomática. Neste capítulo será apresentada a correlação entre emoção e psicossomática do ponto de vista das teorias psicológicas e fisiológicas, visando à explicação de como as emoções podem realmente interferir na saúde física.

2.6.1 Um breve histórico

Desde a antiguidade já se relatava a influência das emoções sobre o organismo humano, havendo, desde então, o reconhecimento de ser o coração o órgão mais sensível a reações emocionais. Diante de situações violentas, o coração reage prontamente, por alguns momentos, através de batidas aceleradas e em descompasso, para voltar, em seguida, à normalidade. Quando as emoções retornam com muita freqüência, o coração torna-se mais sensível, podendo sofrer alterações irreversíveis. Essa situação ressalta a importância do estudo das causas de ordem psicológica, capazes de repercutir sobre o organismo humano (MAC FADDEN E RIBEIRO, 1998).

Estes autores ainda esclarecem que estudos sobre doenças cardíacas permitem levantar a hipótese de que sintomas cardíacos (que se presume serem doenças cardíacas) podem configurar-se como reflexos ou expressão de fortes tendências agressivas reprimidas, citando-se, por exemplo, os sentimentos de hostilidade intensa que possibilitam a elevação da pressão arterial. Logo, nas situações de pressão arterial constantemente elevada, deve-se pressupor que exista uma série continuada desses estímulos. É do conhecimento clínico que pessoas submetidas à tensão emocional prolongada, freqüentemente, apresentam hipertensão. Quando a tendência constitucional à hipertensão está presente, a dificuldade de expressar os sentimentos hostis é um fator agravante do quadro clínico.

No entanto, como citado por Mac Fadden e Ribeiro (1998), Safar em 1978 investigou a relação entre fatores psicológicos e hemodinâmicos, por meio da prova de Rorschach, em dois grupos que classificou como hipertensos fronteiriços e permanentes . Os resultados desse estudo mostraram que os pacientes não apresentavam neurose estruturada, devido à pobreza de fantasia e da inadequação dos mecanismos de repressão, relacionados às tendências agressivas. Tais observações mostraram-se mais acentuadas em hipertensos permanentes. Nos hipertensos fronteiriços, a escassez de fantasias, vinculadas às percepções cinestésicas, foi altamente significativa, estando associada à ansiedade e a sintomas funcionais. Isto sugere um aumento de labilidade do sistema nervoso autônomo. Nos hipertensos permanentes verificou-se, entretanto, inabilidade para exprimir a ansiedade de forma simbólica.

Os resultados obtidos indicam que os hipertensos permanentes apresentam caráter predominantemente somático, em oposição aos conflitos psicológicos observados em hipertensos fronteiriços.

Entretanto, de acordo com os autores citados, podemos notar que a dicotomia mente/corpo cada vez mais vai perdendo seu espaço, estudos e pesquisas recentemente realizadas mostram que os fatores psicológicos podem sim interferir na saúde física e muitas vezes de modo bastante significativo.

2.6.2 Vertentes teóricas da Psicanálise em Psicossomática.

A área da interseção da Psicanálise com a Medicina Psicossomática, é o ponto teórico nodal, que descreve a transformação do id e do ego. Freud, quando discute a origem da mente, estabelece que a atividade corporal origina o id que, em contato com o mundo exterior, diferencia uma capa mais superficial, o ego. Sugere que não só a atividade físico-biológica está representada na mente, mas ela própria se transforma na mente. Assim, a observação empírica da aparente influência dos processos mentais sobre as funções somáticas é que deu origem às especulações sobre a gênese psicológica dos transtornos somáticos (MELLO, 1992).

Tais observações passaram por três vertentes teóricas da Psicanálise. Mello (1992), as cita sendo a primeira delas, e também mais primitiva, a premissa de energias psíquicas sendo estas capazes de intervir nos fenômenos orgânicos e corporais, delas derivam o conceito de libido, de investimento ou catexia e as bases dinâmicas dos processos de defesa. Dois mecanismos de fundamental importância estão vinculados às formulações energéticas: a sublimação, da qual deriva a formação cultural do ego, e a formação de sintomas, base para o estudo da Patologia Psicanalítica e subsídios essenciais para o estudo da Patologia Geral. A segunda vertente teórica refere-se à organização simbólica da mente e tem subministrado importantes contribuições para a Psicolingüística. É onde estão incluídos os conceitos de representação, da associação de idéias e dos processos de pensar, nos quais Freud distinguiu uma forma primária ligada à linguagem inconsciente, e uma forma secundária, ligada à consciência e comunicação.

Referente a terceira vertente, Mello (1992), diz que esta se refere ao momento evolutivo que o organismo privilegia nas suas decisões adaptativas. Faz parte da concepção psicanalítica o estudo pormenorizado do desenvolvimento. A concepção atemporal, que faz parte desta vertente, permite-nos entender que o mental, psicanaliticamente concebido, contém uma biografia sempre presente, ou seja, no homem a história é um presente contínuo. A memória fica sendo não a reserva do passado, mas o fato pré-consciente ou inconsciente de uma estrutura mental. Eis o esboço das interseções da Psicanálise com a Medicina Psicossomática, com alguns vislumbres de como a mente e o corpo estão ligados na teoria, como se articulam para produzir prazer, sofrimento, saúde, lesão ou doença.

2.6.3 Representação da perda no paciente psicossomático.

Anteriormente foi citado o conceito de alextimia, porém vale retomar este termo, pois este é uma das características bastante presente nos pacientes psicossomáticos e de grande interesse aos curiosos da psicossomática. Desta forma, Sífneos (1993) aponta como alexitimia uma falha no reconhecimento dos estados afetivos do próprio sujeito e o condiciona a um achado clínico nos pacientes psicossomáticos, agora já assim chamadas as pessoas que padecendo de determinados transtorno somáticos, não histéricos, evidenciam uma demonstrável relação entre estes transtornos e determinados acontecimentos e situações vitais que, por seu caráter repetitivo, conferem uma característica singular aos fenômenos e às pessoas.

Neste sentido, Filho (1992) afirma que situação típica seria dada por uma imaginária pessoa que sempre se vê diante de um desafio existencial que ameace sua situação de equilíbrio anterior e desenvolve uma crise ulcerosa. Nesta pessoa, como achado clínico, descobre-se uma enorme dificuldade para falar sobre e para identificar seus próprios sentimentos. Sendo esta a descrição de alextimia. Outros estudos da mesma época correlacionam a doença somática à situação de perda, separação e a estados depressivos, em que um certo número de autores correlacionam a eclosão psicossomática a acontecimentos reais, em geral ou diretamente à perda, como a morte de um ente querido, desemprego, separação, migração ou, indiretamente, como no caso das crises vitais, à adolescência, o vestibular ou o casamento por exemplo.

No entanto, em seu texto sobre o Recalcamento e o Inconsciente, Freud (1988), propõe para o destino do afeto, a sua transformação (conversão, deslocamento, e transformação) ou supressão onde “…já não encontramos mais nada dele” (do afeto reprimido). Assim como na neurose o que importa é o destino dado à representação, no fenômeno psicossomático o que importa é o destino dado ao afeto.

Deste modo, as representações que desencadeiam os fenômenos somáticos não têm uma ligação simbólica com a perda ou separação, mas uma ligação imaginaria, ou seja, são representações sem a mediação de um discurso. Dois pequenos exemplos serão citados para ilustrar esta relação de representação à evocação da perda no fato psicossomático e na histeria. Primeiro exemplo: um homem começa a sentir-se dispnéico e tem uma crise de asma ao ver um casal de namorados brigando. Segundo exemplo: uma moça tem crise de dispnéia e sufocação histérica ao ver o trono de determinado rei em um museu. No primeiro exemplo, a cena da briga evoca diretamente a questão da separação, é a própria imagem da separação, daí o desencadeamento da asma. No segundo, a histérica, associando posteriormente, viu nas formas feminina dos braços do trono sua relação de submissão com o namorado, que era “seu rei” e a subjugava. O namorado a sufocava e era preciso fugir desta constatação.

Vamos à segunda questão que só pode ser respondida se levar em conta a “clivagem do ego”. Esta clivagem, como descrita por Freud em 1938, permite a coexistência no ego de determinadas articulações para a pulsão e suas representações e outros para a possibilidade de perda do objeto (FILHO et al., 1992).

O mesmo autor conclui dizendo que, teríamos no fenômeno psicossomático uma situação real de perda ou equivalente ou ainda uma representação imaginariamente presa a uma cena de perda, um particular destino dado ao afeto que lhe corresponderia e que é impossível ser vivenciado, a supressão, e uma clivagem do ego permitiria a coexistência com outras defesas e estruturas de articulação da pulsão. Esta hipótese traz conseqüências clínicas na medida em que é buscado na análise das manifestações psicossomáticas ou do “sujeito psicossomático”, não uma escrita a ser lida nem uma brecha a ser remedada. É mais que tudo construção de uma possibilidade de vivenciar afetos sem o risco de uma dor impossível, a de sua própria destruição como sujeito, alienado que está primariamente àquele do qual não pode ser separado.

Assim, pode-se exemplificar dizendo que no fenômeno psicossomático situações de perda, real ou imaginária podem se desencadear por um desequilíbrio psíquico, em que os afetos não são assimilados e compreendidos pela própria pessoa que o sente, causando através deste desequilíbrio os fatores somáticos.

2.6.4 O paciente psicossomático e a questão do afeto

No acompanhamento de pacientes definidos como psicossomáticos, Filho (1992) defende que autores franceses e americanos encontram características comuns e freqüentes que apontam para uma forma peculiar de pensamento e de lidar com as emoções. Partindo de estudos sobre a vida onírica, feitos por Fain e David (1985 apud FILHO, 1992), estes encontraram uma forma de pensamento que julgaram original ou, quando presente, de pouca significação funcional para o equilíbrio psíquico. Eles chamaram este tipo de estrutura de pensamento operatório. Também assinalaram que tais pacientes apresentavam uma característica que se traduzia na dificuldade de descrever suas emoções e mesmo de senti-las.

Neste contexto, os portadores de pensamento operatório têm um mundo interno pobre e investe intensamente na realidade externa, da qual passam a ser dependentes ou “hiper-adaptados”. De orientação pragmática, são “tenazmente aderidas ao circunstancial”. Quando sofrem problemas existenciais, intensificam o investimento no trabalho para que este ocupe o lugar do objeto interno segurador (mãe). A dificuldade do psicossomático de cuidar de si decorre do fato de, quando criança viver como transgressão e sujeito a castigo, adotarem o ato de interiorizar o objeto materno com o propósito de adquirir funções protetoras e tranqüilizadoras. O uso do trabalho é facilitado porque registram pouco cansaço ou sinais físicos do mesmo. As representações ou percepções carregadas de afetos são afastadas da mente e as tensões físicas não encontram caminho para o psíquico.

Neles ocorrem também que os resíduos diurnos não se traduzem em elaborações adequadas de sonhos, tornando pobre a vida fantasmástica e não podendo ser usados adequadamente como cenários da pulsão (FILHO, 1992).

No entanto, segundo Dejours (1988), existe um inconsciente primitivo que abriga e se constitui na pulsão de Morte, clivado defensivamente do Inconsciente Secundário, ou Inconsciente Freudiano, onde todo o material recalcado aí está. O sonho teria uma função fundamental de recolher e recalcar os impulsos destrutivos, violentos, originários da referida pulsão, tornando mais efetivo os mecanismos defensivos do ego. O mesmo autor defende que o sonho seria um dos elementos estruturantes do aparelho psíquico, função esta importantíssima ao lado da conhecida função, que atribuiu Freud, da realização de desejos inconscientes. Dessa forma, a presença da pulsão de morte nos fenômenos psicossomáticos é defendida principalmente por Marty (1993) como responsável pelos movimentos de desorganização psíquica e corporal, levando à alterações somáticas fisiológicas, patológicas e mesmo mortais.

Desta forma, Kristal (1973) aponta que outra característica dos pacientes psicossomáticos é a dificuldade de viver as emoções prazerosas, o que chamou de anhedonia. Assinala que infas, do latim, significa “que não pode falar ainda”. A mãe é quem tem de nomear os afetos do filho no início. O adulto alexitímico funciona como se fosse esta criança não verbal, no que se relaciona com seus afetos. Observou-se, em muitas situações, que os pais criticam ou deixam dúvida quanto ao afeto da criança, às vezes lhe indicam o que deve ou não deve sentir ou mesmo a proíbem de sentir, tipo “menino-homem não chora”. A criança acaba se confundindo e não sabe o que pode sentir ou não sentir. Sendo assim, Mc Dougall (1983) diz que após conviver com pacientes em processo de luto aos quais não expuseram suas emoções contraíram doenças, o autor conclui “por não terem sido capazes de abrir seu coração para o luto, abriram o pulmão para o bacilo de Koch”.

Neste sentido, continua Mc Dougall (1983), nas psicossomatoses há uma estrutura semelhante à estrutura psicótica, só que nesta o pensamento é delirante e naquele corpo é que delira. O sintoma é desprovido de sentido quer no campo biológico, quer no campo psíquico. Os lacanianos dizem que no fenômeno psicossomático o sintoma não é para ser lido. Quinet (1988 apud LACAN, 1990) diz que o corpo é comprometido, mas não o corpo fantasmático e que os fenômenos psicossomáticos não são mesmo sintomas no sentido psicanalítico do termo. Valas (1988) discorre que não há um sujeito psicossomático e que qualquer pessoa possa ter fenômenos psicossomático enfatizando que o “fenômeno psicossomático” é induzido pelo significante, mas não estruturado como “sintoma”.

Voltando às teorias de Kristal (1973), este autor fez estudos em toxicômanos, vítimas de holocausto e psicossomáticos, concluindo que o que ocorre é um bloqueio de desenvolvimento dos afetos, em conseqüência das situações traumáticas infantis, exceto de afetos não neutralizados ou amortecidos pela ajuda materna, levando a uma paralisação do desenvolvimento afetivo normal. Sabe-se que neste desenvolvimento deve ocorrer uma diferenciação (eu/não eu), uma verbalização e uma dessomatização. Em circunstância traumáticas (aqui consideradas fundamentalmente as distorções da relação mãe-filho), haveria uma interrupção nesta evolução, ficando o indivíduo a meio do caminho de sua elaboração afetiva e, sob posterior situação traumática, a sobrecarga de afetos , haverá regressão às fases de não diferenciação, não verbalização e ressomatização.

Para concluir usemos as palavras de Mc Dougall (1983) no qual diz que “o afeto suprimido não recebe compensação, não deixando atrás de si, na mente, mais que um branco e corre o risco de seguir um curso como um feito puramente somático abrindo caminho para a desorganização psicossomática”.

2.6.5 Psicoimunologia – Uma nova abordagem da psicossomática

A Psicoimunologia tem despertado atenção entre vários profissionais de vários domínios, pois esta nova teoria busca compreender porque razão os acontecimentos de vida ou as emoções afetam a saúde. Marques (2004), destaca que o termo “Psiconeuroimunologia” foi introduzido por Robert Ader, em 1981, para definir o campo da ciência que estuda a interação entre o sistema nervoso central (SNC) e o sistema imunológico.

Deste modo, a disciplina designada por Psiconeuroimunologia é o campo científico que investiga as ligações entre o cérebro, o comportamento e o sistema imunológico, bem como as implicações que estas ligações têm para a saúde física e a doença (MAIA, 2002). Neste sentido, a hipótese base deste modelo segundo o mesmo autor, é que os estressores psicossociais diminuem a eficiência do sistema imunológico o que leva ao aumento de sintomas médicos (risco de uma doença). Assim, face a uma ameaça biológica com uma determinada potência, a imunocompetência, ou seja, a capacidade do sistema imunológico proteger o corpo num determinado momento estará relacionada com os fatores psicossociais que afetam o sistema imunológico. Entre estes fatores contam-se os estados emocionais, o tipo e a intensidade de stress que a pessoa está a enfrentar, as características de personalidade e a qualidade das relações sociais.

Desta forma, esta abordagem sugere que o processamento dos acontecimentos de vida, especialmente das situações traumáticas, os significados que os sujeitos constroem, ou as estratégias de coping que vão sendo utilizadas, passam por uma série de fases sobre as quais poderá haver uma intervenção de modo a diminuir os efeitos nefastos sobre o sistema imunológico. A psicoterapia ou outras estratégias poderão ser concebidas como formas de intervir nesta seqüência, contribuindo para acelerar o processo de lidar com o trauma e prevenindo os potenciais efeitos nefastos sobre a saúde de uma determinada experiência (MAIA, 2002).

No entanto, depois do estabelecimento da relação global entre acontecimentos e problemas de saúde, muitos estudos têm procurado analisar o impacto dos acontecimentos de vida sobre a saúde em função dos fatores psicológicos. Este modelo assume que a mudança imunológica é mediada por fatores como a ativação do Sistema Nervoso Central (SNC), a resposta hormonal e a mudança comportamental, em função das características e estados psicológicos. As ligações entre o SNC e o sistema imunológico foram identificadas nomeadamente pela observação de que linfócitos como as NK têm receptores para os neurotransmissores. Vários autores encontraram igualmente ligações entre o sistema imunológico e o endócrino através do efeito de diferentes mediadores hormonais como catecolaminas (epinefrina e norepinefrina), cortisol, prolactina, ACTH, TSH, hormônios do crescimento ou opiáceos endógenos, hormônios que estão relacionadas com a resposta ao stress. Além disso, existe enervação simpática e parasimpática dos órgãos linfóides.

Alguns comportamentos que são associados a características psicológicas ou são respostas ao stress aos quais podem influenciar o sistema imunológico ou práticas de saúde más como fumar, dieta inapropriada e sono perturbado aos quais diminuem a resposta imunológica (FELTEN, 1995).

Neste contexto, Blalock (1984 apud BALLONE 2001), se refere ao Sistema Imunológico como uma espécie de “sexto sentido” orgânico, remetendo informações do ambiente e acessível aos cinco sentidos do cérebro. A sabedoria antiga já tinha sólido conhecimento da integração corpo-mente. Aristóteles disse que a “psique” e corpo reagem complementariamente um com o outro. Uma mudança no estado da psique produz uma mudança na estrutura do corpo, e à inversa, uma mudança na estrutura do corpo produz uma mudança na estrutura da psique. No final da década de 1950, experimentos com animais mostraram que o estresse poderia afetar a imunidade (tanto em sua parte humoral, quanto celular). Estes constataram que os ratos, expostos à importante estresse, foram mais susceptíveis em contrair infecção pelo vírus do Herpes Simples. Um pouco mais tarde, autores demonstraram que nos primeiros anos de vida da criança o estresse poderia afetar a futura resposta dos anticorpos na vida adulta.

No entanto, nos anos de 1960, Solomon (1964 apud BALLONE, 2001), destaca que algumas observações psicossomáticas foram feitas em relação às alterações emocionais que surgiam no início e durante o curso das doenças auto- imunes, principalmente em relação à Artrite Reumatóide, ao Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) e ao Mal de Graves, que é um tipo tireoidite, entre outras patologias. Tentava-se, nessa época, avaliar a força dos elementos emocionais no desenvolvimento de algumas doenças. Uma das observações mais intrigantes, talvez tenha sido o fato dos parentes saudáveis de pacientes com Artrite Reumatóide, também apresentarem uma sorologia características de anticorpo dessa doença (o fator reumatóide ou Anti-imunoglobulina G), mas, apesar disso e por possuírem capacidade superior de adaptação psicológica à vida, esses parentes não apresentavam a doença. Esse fato sugere que o bem-estar psicológico pode ter uma influência protetora, até mesmo contra uma predisposição genética.

Alguns trabalhos da década de 1990, à respeito das alergias, têm constatado que o estresse, a ansiedade e a depressão, retardam significativamente a atividade dos Linfócitos T, proporcionando hipersensibilidades, dermatites e asma.

Neste sentido, os clínicos mais sensíveis e observadores têm conhecido as alterações emocionais que alguns pacientes apresentam no começo e no curso de determinadas doenças. Por conta disso, Osler (1950) dizia, que “em relação ao prognóstico da tuberculose pulmonar, é tão importante conhecer o que está se passando na cabeça do paciente, quanto o que está se passando em seu peito”.

De acordo com Maia (2002), algumas alterações emocionais podem surgir no início e durante o curso de muitas doenças auto-imunes. Essas alterações podem incluir forte tensão, sentimentos de insegurança, retraimento social, dificuldade para expressar sentimentos e sensibilidade afetiva muito aumentada. Psicologicamente, pode haver perda da adaptação ou, melhor dizendo, perda da habilidade para atitudes que antes eram eficazes na adaptação.

2.6.5.1 Imunidade e Doença Mental.

As diferenças individuais no comportamento, nos estilos pessoais de enfrentamento dos conflitos, nos traços de personalidade e psicológicos podem acompanhar diferentes características imunológicas. Amkraut, em 1972, percebeu que ratos dotados de maior comportamento de luta espontânea mostravam maior resistência imunológica à indução de vírus tumorais. De um modo geral, as anormalidades imunológicas que ocorrem junto com transtornos psicoemocionais, devem ser divididos em dois grupos: aquelas associadas às desordens afetivas e aquelas associadas à esquizofrenia. Aparentemente, no caso das desordens afetivas (depressão) a baixa imunidade apareceria como conseqüência e, no caso da esquizofrenia, como causa ou comorbidade (FILHO, 1992).

No entanto o mesmo autor ainda cita que de qualquer forma, a constatação da contribuição de processos imunológicos em doenças mentais e vice-versa é muito problemática. Não obstante, desde a década de 1980, tem-se documentado muito bem alguns elementos importantes entre funções imunológicas e depressão. Em casos de estados depressivos mais graves, a função dos Linfócitos T declina de uma forma idade-dependente. Isso significa que pessoas jovens e com testes psicológicos sugestivos de depressão não tiveram déficit no funcionamento de células T mas, pessoas mais velhas e com os mesmo resultados nesses testes para depressão, sofrem diminuição significativa da imunidade (idade-dependente)

Desta forma, Ballone (2001) afirma que a reativação de vírus latentes também pode ocorrer na depressão. Essas experiências são mais comumente constatadas com o vírus do Herpes Simples. A depressão não é associada apenas à diminuição ou supressão da imunidade, mas também com sinais de ativação alterada do Sistema Imunológico. Essas alterações são o que ocorre nas doenças chamadas Autoimunes. Também se constata que os tratamentos efetivos para a depressão costumam ser acompanhados, gradualmente, do retorno da normalidade imunológica. Quanto às anormalidades imunológicas que se tem encontrado em pacientes com esquizofrenia, a situação é bastante ampla e diferente do que acontece na depressão.

Alguns autores até chegaram a questionar se a esquizofrenia não poderia ser uma doença autoimune. Essa idéia se baseia em numerosos informes de anticorpos anticerebrais na sorologia de pacientes com esquizofrenia. Tais estudos foram iniciados há tempos cuja iniciativa consistia em tentar reproduzir sintomas de esquizofrenia pela administração de injeções de imunoglobulinas de pacientes esquizofrênicos em macacos Fessel (1965 apud BALLONE, 2005).

Deste modo, Tachibana (1998 apud BALLONE, 2005) defende que alguns trabalhos têm insistido na patologia imunológica dos neuroreceptores e neurotransmissores, ambos da serotonina e dopamina. Anticorpos poderiam atuar bloqueando ou estimulando esses receptores ou os próprios neurotransmissores, tal como ocorre nos casos de Miastenia Grave e da Doença de Graves, respectivamente. Na esquizofrenia postulava-se que um anticorpo poderia atuar como agonista do neurotransmissor dopamina.

Também, Hirata-Hibi (1993 apud BALLONE, 2005) observou anormalidades morfológicas em linfócitos de muitos pacientes com esquizofrenia, particularmente naqueles com os chamados Sintomas Negativos da Esquizofrenia, além da constatação dessas alterações celulares em alguns membros de suas famílias.

2.6.5.2 Psiconeuroimunologia e Estresse

Os experimentos relacionandos à imunidade e estresse em animais foram, sem dúvida, a porta de entrada para a Psiconeuroimunologia. Eles datam da década de 1930 e foram iniciados pelo canadense Hans Selye. Esse tema de investigação científica dispõe, portanto, de uma muito extensa bibliografia. Tipo de estresse, duração e intensidade do estímulo aversivo, administração de antígenos, entre outros, são todos temas muito relevantes para a Psiconeuroimunologia (BALLONE,2001).

Entretanto, Nallibof (1991 apud MAIA 2002), considera que o fato de o apoio social ser um importantíssimo modificador dos efeitos deletérios do estresse em experiências com primatas pode sugerir a importância do apoio ambiental na saúde da pessoa estressada. Quando o tipo de resposta do indivíduo ao estresse se caracteriza por uma postura de derrota e pessimismo, o Sistema Imunológico corre sérios riscos. O estresse agudo em humanos, cuja fisiologia é semelhante às reações de luta que se vê no reino animal, geralmente aumenta o número e a atividade das Células NK . Porém isso só ocorre numa primeira fase dessa atitude de defesa.

Neste sentido, o estresse da vida cotidiana, principalmente nas situações mais exaustivas, tensas e crônicas, segundo Friedmam (19-? apud MAIA, 2002) pode afetar uma série elementos imunológicos. Entre essas alterações estão as funções de Células T, a atividade de Células NK, a resposta de anticorpos, a função dos macrófagos , a reativação de vírus latentes (como o Herpes Simples), entre outras, com severas implicações na saúde global da pessoa (Glaser). As relações entre o estresse e infecções são bastante antigas e, inúmeras vezes, constatados por trabalhos experimentais, alguns bastante rigorosos .

No entanto, de acordo com Cohem (1991 apud MAIA, 2002), existe uma grande variedade de vírus intra-nasais capazes de desenvolver alterações imunológicas, tanto através da produção de anticorpos, quanto de infecções, como uma forma de resposta aos aumentos no grau de tensão psicológica. Cada vez mais trabalhos científicos confirmam efeitos danosos do estresse sobre infecções virais e bacterianas.

Pode-se destacar também os hormônios respondem ao estresse, incluindo a adrenalina, os corticoesteróides e as catecolaminas. Esses hormônios têm variadíssimos efeitos na regulação da resposta imune (Maia, 2002). Em níveis anormais, altos ou baixos, os hormônios afetam a imunidade. A atividade integrada entre o Hipotálamo, a Hipófise e as glândulas Suprarenais, conhecido por Eixo Hipotálamo-Hipófise-Suprarenal, é ativado por eventos psicológicos, regulando assim a secreção de hormônios produzidos na Hipófise e destinados às Suprarenais, como é o caso da corticotrofina (CRF) e do hormônio adrenocorticotrofico (ACTH). Esses, por sua vez, terão efeitos diretos na imunidade (BALLONE, 2001).

No entanto, Marques (2008) explica que o hormônio do crescimento, também estimulado por eventos psíquicos, pode aumentar as funções dos Linfócitos T e NK em animais de experiência. Os hormônios sexuais também afetam a imunidade. A atividade da Célula NK é mais alta na fase lútea de ciclo menstrual e é também estimulada pelos hormônios da tireóide. A Psiconeuroimunologia está, assim, se desenvolvendo a passos largos, colaborando fortemente para apagar o incômodo dualismo ainda presente na medicina, o qual separa hermeticamente a mente do corpo.

Neste sentido, Ballone (2001) postula que a Psiconeuroimunologia contribui para que os pacientes possam compreender que seu corpo é uma somatória integrada e indissolúvel do mental com o orgânico, influenciado significativamente pela experiência de vida e por sua própria sensibilidade. Finalmente, a Psiconeuroimunologia não só deve contribuir solidamente para a compreensão da fisiopatologia médica como da visão holística da medicina.

Cabe aqui destacar que no próximo capítulo será feita uma análise de relato de caso, que focará a ansiedade e suas repercussões na saúde física dos indivíduos.

2.7 RELATO DE CASO

Este capítulo tem como propósito abordar e discutir, um estudo de caso, a partir de informações coletadas de relato bibliográfico. No entanto, para o desenvolvimento deste capítulo foram estudados dois artigos científicos, resultado de pesquisas, que serão relatados parcialmente e são intitulados “Aspectos psicológicos e hipertensão essencial” e “Avaliação dos sintomas emocionais e comportamentais em crianças portadoras de dermatite atópica” com o objetivo de ser feita uma comparação referente aos resultados por estes obtidos em relação às teorias pesquisadas.

2.7.1 “Aspectos psicológicos e hipertensão essencial” – MAC FADDEN, Mac; RIBEIRO, A. V.(1998).

Mac Fadden e Ribeiro (1988), destacam que a pesquisa teve como objetivo averiguar a existência de fatores psicológicos peculiares do grupo em estudo e definidos esses dinamismos, observar se tratava de estrutura e dinâmica básica da personalidade desses pacientes, favorecendo a aquisição da doença, ou apenas de atitudes reativas ao estado mórbido.

2.7.1.1 Amostra e métodos utilizados

A seguir segue a descrição da amostra e dos métodos utilizados.

2.7.1.2 Pacientes

A amostra constituiu-se de 20 pacientes do Ambulatório de Hipertensão do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas, na faixa etária de 27 a 55 anos, com hipertensão arterial essencial como doença base. O diagnóstico baseou-se na anamnese, exame clínico e laboratorial. Os pacientes com hipertensão foram classificados de acordo com os três níveis que são: leve, 95/95/104mmHg; moderada, 105/119mmHg; grave, acima de 120mmHg.

O grupo de referência correspondeu a amostra de 100 pacientes normais, utilizados por Silveira (1964), para a padronização da prova de Rorschach à população brasileira.

2.7.1.3 Procedimento

Após a seleção e encaminhamento dos pacientes pela equipe médica, a avaliação das condições psicológicas foi feita de acordo com as seguintes etapas:

I) Contato inicial e entrevista psicológica tendo por objetivo a investigação dos seguintes dados: a) dados heredológicos; b) desenvolvimento físico, psicológico e social do paciente.

As entrevistas obedeceram a um roteiro preestabelecido, a fim de se determinar normas estáveis para posterior comparação dos dados. Durante as entrevistas, os pacientes discorreram sobre seus problemas e forneceram informações, sempre a partir do referencial que lhes foi fornecido. A transcrição dos dados foi literal.

A pesquisa heredológica constituiu-se da investigação das condições psíquicas e somáticas apresentadas pelos pais, irmãos e tios dos pacientes. Nesta seqüência da entrevista, as informações foram pouco precisas, pois, freqüentemente, os pacientes revelaram ignorar dados a respeito de familiares, devido a fatores, tais como: não manterem laços de amizade, morte, perda de contato devido a mudança para outras cidades, etc.

II) Prova de Rorschach

Neste estudo, a prova de Rorschach foi utilizada segundo o critério de classificação das respostas, terminologia e fundamentação teórica de Silveira (1964). A contribuição de Silveira, além de trazer a transposição, para nosso idioma, dos termos adotados por Herman Rorschach, aprofundou e objetivou a análise dos diferentes mecanismos psicológicos que ocorrem durante a interpretação da prova. Silveira contribuiu, também, com a adaptação e padronização do teste de Rorschach à população brasileira, o que tornou possível a comparação dos resultados obtidos nos testes em estudo com os dados dessa população.

2.7.1.4 Resultados obtidos

De acordo com a entrevista entre os 20 pacientes entrevistados estes situam-se na faixa etária de 27 a 55 anos, sendo 41 a idade média do grupo. Dezesseis pacientes são do sexo feminino e quatro do masculino. Quanto ao estado civil, 18 são casados (duas enviuvaram e casaram pela segunda vez) e dois são solteiros. Quanto à escolaridade dos 20 pacientes entrevistados, três são analfabetos e, dos 17 alfabetizados, dois completaram as quatro primeiras séries do primeiro grau. Portanto, 85% dos casos estudados apresentam baixo nível e 15%, ausência de escolaridade. De acordo com os dados fornecidos pelos pacientes, tal condição é explicada pela situação socioeconômica.

Em relação à atividade ocupacional, a distribuição dos pacientes é a seguinte: os pacientes do sexo masculino têm as atividades ocupacionais que seguem: um rádio-patrulha; um funileiro de automóvel; um ceramista (afastado) e um ator; os pacientes do sexo feminino distribuem-se nas seguintes ocupações: duas empregadas domésticas; 14 de prendas domésticas (uma tecelã afastada; uma costureira). Este grupo apresenta-se homogêneo e restrito quanto à atividade profissional, enquanto que em relação aos pacientes do sexo masculino a diversificação profissional é de 100%, ou seja, os quatro têm atividades profissionais diferentes.

Quando questionados sobre suas condições psicológicas, 45% dos pacientes (9) descrevem-se como pessoas nervosas, 45% vêem-se como indivíduos controlados (9) em relação à agressividade, e os 10% restantes (2) não deram informações precisas.

Quanto ao início da hipertensão arterial essencial, os dados fornecidos são os seguintes: 40% (8) tiveram a hipertensão arterial essencial diagnosticada dos 22 aos 35 anos de idade; 55% (11), dos 36 aos 50 anos, e um paciente, dos 51 aos 52 anos.

A classificação quanto ao tipo de hipertensão, durante o tratamento, foi a seguinte: 30% graves (seis casos, sendo cinco mulheres e um homem); 45% moderados (nove casos, sendo sete mulheres e dois homens); 25% leves (cinco casos, sendo quatro mulheres e um homem).

Dos 20 pacientes submetidos ao estudo heredológico, 10% (2) não souberam dar quaisquer informações: 15% (4) das famílias não apresentam ocorrência de hipertensão arterial em pai ou mãe; em nove (45%) das famílias, pai ou mãe apresentam hipertensão arterial; em duas (10%) famílias, pai e mãe tiveram derrame cerebral; 15% (3) não mencionam o pai, mas informam ser a mãe hipertensa; em um caso a informação obtida é sobre uma irmã hipertensa.

O estudo revela a presença de alcoolismo em duas famílias; cardiopatia em quatro famílias; diabetes em três famílias; reumatismo em duas famílias; bronquite em duas famílias.

A análise dos resultados obtidos na prova de Rorschach sugere a presença de uma dinâmica afetivo-emocional que se expressa como alterações conativas e que pode ter importância etiológica na enfermidade em estudo. Os pacientes apresentaram trabalho mental pobre, restrito e imaturo. O rendimento intelectual mostrou-se afetado por uma problemática afetivo-emocional, que leva a uma retração das emoções, a qual, por sua vez, impede uma boa ligação com o meio, o que poderia favorecer maior produtividade e eficiência do trabalho mental. Verifica-se a prevalência de impulsos primários e preocupação de ordem hipocondríaca, sobre interesses e estímulos afetivos mais diferenciados socialmente.

Os recursos intelectuais intrínsecos, utilizados na adaptação social dos probandos, são imaturos. Predominam construções emocionais resultantes de fantasias infantis, desligadas das necessidades atuais. Estas fantasias podem estar interferindo no desenvolvimento de papéis diferenciados que os ajudaria a se localizarem diante de outros indivíduos.

O feitio de personalidade coartado é o mais comum no grupo, insinuando um contato afetivo superficial com o meio, além de um apego aos aspectos práticos e imediatos da realidade objetiva. Isto pode ocorrer devido ao formalismo e à impessoalidade dos examinados, no contato com o ambiente.

Observa-se, também, um bloqueio emocional na maioria dos protocolos. Essa reação, porém, aparece apenas num segundo momento, como pano de fundo e acompanhando todo o trabalho mental, o contato com o mundo e as relações interpessoais.

Ao analisar as diferentes esferas da personalidade dos examinados, verifica-se que, de forma geral, os dinamismos mais imaturos e subjetivos prevalecem sobre as reações mais amadurecidas e atuais, levando-os a uma retração emocional, como defesa contra a inadequação afetiva. Assim, o contato afetivo é pobre e restrito, expressando-se mediante ligações superficiais e pouco criativas.

2.7.2 “Avaliação dos sintomas emocionais e comportamentais em crianças portadoras de dermatite atópica” FONTES, Paulo Neto. T. L. et al.(2005)

A dermatite atópica (DA) é uma doença inflamatória crônica da pele que apresenta um impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes, em conseqüência de episódios recorrentes durante a vida. Considerando estudos recentes que descrevem a associação entre aspectos psicológicos e DA, acredita-se que a investigação da existência de um possível perfil comportamental destas crianças possa auxiliar o desenvolvimento de intervenções psicoterápicas específicas, assim como aumentar o conhecimento sobre a doença.

2.7.2.1 Método utilizado

O estudo é observacional, do tipo caso-controle. Foram incluídos dois grupos (estudo e controle) de crianças. Para o grupo-estudo (GE), foram selecionados, aleatoriamente, 25 pacientes portadores de DA e seus pais/cuidadores entre os pacientes atendidos no Serviço de Dermatologia do HCPA; para o grupo-controle (GC), 25 crianças, matriculadas em uma escola da rede pública de Porto Alegre (RS), selecionadas aleatoriamente entre as classes. Os grupos foram equiparados em idade (4-16 anos), sexo, condições socioeconômicas e informantes dos questionários (pai, mãe e outros). O cálculo do tamanho da amostra foi estimado com uma confiança de 95%, com poder de 90% e tamanho do efeito padronizado em 1, resultando em um total de 50 crianças, 25 em cada grupo.

Como critérios de inclusão do GE, foram considerados: ser criança ou adolescente de 4 a 16 anos; ser portador de DA diagnosticada por especialistas; ter consentimento informado, assinado previamente por seus pais/responsáveis, para a participação das atividades, quando menores. Para o GC, os critérios de inclusão foram: ser criança ou adolescente de 4 a 16 anos; ser estudante da Escola Estadual Jerônimo de Albuquerque, de Porto Alegre (RS); não possuir DA, não estar em tratamento para alguma doença dermatológica ou asma.

Como critérios de exclusão, para ambos os grupos, foram observados a não-concordância em participar do estudo e não estar acompanhado de seu cuidador. Todos os participantes concordaram com o estudo e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

Apesar do CBCL ter sido desenvolvido para ser um instrumento auto-aplicável, neste estudo, a escala foi utilizada em entrevista individual, em função do baixo grau de escolaridade encontrado nas famílias, como descrito durante a sua validação no Brasil27. As entrevistas ocorreram no Ambulatório do Serviço de Dermatologia do HCPA com o GE e no próprio colégio das crianças selecionadas com o GC.

2.7.2.2 Resultados

Os dados foram coletados no período de dezembro de 2003 a dezembro de 2004. A amostra totalizou 50 crianças com as características demonstradas na . Os grupos foram equiparados em idade, sexo e informantes, como evidenciado após análise estatística. Quanto à profissão dos pais, encontrou-se um grupo homogêneo, sendo que todos eram pertencentes às classes sociais C e D.

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