SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO
2. DOLORES DURAN
2.1. A era do rádio
2.2. Samba canção
2.3. A compositora
3. CONCLUSÃO
4. BIBLIOGRAFIA

1. INTRODUÇÃO

A escolha do tema deste recai em um fato inusitado: a existência de poucas mulheres compositoras. Como afirma Maria Izilda Santos de Matos (1997), na coleção de 75 discos da História da Música Popular Brasileira da Editora Abril, existem apenas três mulheres que compõe. Dolores Duran é uma dessas compositoras e pretendo com este estudo resgatar a época em que ela viveu, época que particularmente tenho grande fascínio e também desvendar o universo de Copacabana, nos seus anos dourados, através de suas canções.

Outro material de apoio será alguns trechos de crônicas do também compositor Antônio Maria Araújo de Moraes, transcritas também no livro de Matos (idem). É conveniente ser destacado que os anos de 1940 e 1950 são menos analisados que os anos 30 (auge do samba), bem como os anos posteriores a 60 (desenvolvimento da Bossa Nova e mais tarde da tropicália, canção de protesto, etc).

2. DOLORES DURAN

Adiléia Silva da Rocha, nome de batismo de Dolores Duran, nasceu em 1930 no bairro carioca da Saúde, vivendo em Irajá e Pilares, portanto conhecendo as dificuldades da vida suburbana.

Filha de um sargento da Marinha, a “Princesinha do Mar” não concluiu o curso primário e teve poucas aulas de canto, porém se consagrou como cantora afinada e segura, cantando em vários idiomas com pronúncia impecável. Aprendeu apenas alguns acordes no violão, mas suas composições possuem melodias encantadoras e sensíveis.

Dolores escrevia letras e também as musicava. Um exemplo são as músicas Castigo (1958) e Noite do meu bem (1959). O fato de não escrever partituras não foi um empecilho para compor, pois cantarolava para os amigos que sabiam escrever e eles expressavam no papel os anseios de Dolores.

A sua carreira começou aos seis anos de idade cantando em programas de calouros no período de ouro do rádio (anos 30 e 40). Aos 12 anos, após a morte do pai foi trabalhar no radioteatro da Tupi, em um programa de histórias infantis. Posteriormente, aos 16 anos, foi contratada pela boate Vogue, uma das mais requintadas do Rio de Janeiro. Interpretava de forma muito peculiar as composições de Ismael Neto, Antonio Maria e Billy Blanco, já mostrando seu domínio vocal com improvisações jazzísticas. Além de cantar, Dolores fazia imitações das vozes de cantoras e até de cantores nacionais e estrangeiros.

Durante os sete anos em que gravou, estiveram presentes em seus discos desde sambas humorísticos, baiões até músicas estrangeiras. Sua estréia em disco foi em 1952, ocasião em que gravou dois sambas para o Carnaval de 1953. Em 1956 alcança um dos seus maiores sucessos como intérprete: Filha de Chico Brito (Chico Anísio)

Ingressou também na caravana circense de Paulo Gracindo (1956) com a qual percorreu os subúrbios cariocas, alternando suas apresentações em boates opulentas, países estrangeiros e o picadeiro. Como a própria artista afirma: “Troquei a boate pelo circo. Para falar com franqueza, gosto muito de trabalhar nos circos. Ao contrário do que muitos pensam, isso não desmerece ninguém, e, além de fazer nossas músicas mais conhecidas, nos dá a alegria do aplauso direto do público, um público muito carinhoso, constituído geralmente de pessoas que não têm tempo de comparecer aos auditórios”.

Foi considerada pela Rádio Nacional como uma “promessa”. Contudo sua morte precoce, com apenas 29 anos, devido a um colapso cardíaco, a impediu de seguir sua trajetória, mas não a privou de ser incluída entre os grandes intérpretes da Música Popular Brasileira.

Segundo o Professor Ruben George Oliven: “a escolha de seu pseudônimo sinaliza alguém que vê a dor com uma categoria fundante da alma feminina”.

2.1 A era do rádio

A primeira transmissão radiofônica oficial no Brasil, data do dia 7 de setembro de 1922. Foi transmitido pelas ondas do rádio um discurso do então Presidente da República Epitácio Pessoa, no Rio de Janeiro, ocasião da comemoração do centenário da Independência. Após o discurso foi apresentada a ópera “O Guarany”, de Carlos Gomes, diretamente do Teatro Municipal. Logo em 1923 foi fundada a primeira emissora brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.

No início dos anos 30 o Brasil já contava com 29 emissoras de rádio. Porém esse crescimento em sua primeira década de existência no Brasil se deu de forma vagarosa, pois a legislação brasileira não permitia os comerciais, motivo pelo qual dificultava a manutenção financeira das Rádio-Sociedades. No ano de 1932, Getúlio Vargas autoriza a publicidade em rádio. Com isso o cenário havia mudado e o rádio se transformou num veículo mais popular.

Ainda em 32, o rádio mostrava sua capacidade de mobilização política. O movimento denominado Revolução Constitucionalista eclodiu em São Paulo e os revoltosos exigiam a deposição do então Presidente Getúlio Vargas e a convocação de eleições para formação de uma Assembléia Constituinte e a posterior promulgação de uma nova Constituição.

As emissoras de rádio foram utilizadas para divulgar os acontecimentos a outras partes do país, com destaque especial à rádio Record. Chegando ao auge nas décadas de 40 e 50 as rádios preenchiam um espaço cada vez maior na vida das pessoas, seja transmitindo informações, seja divertindo. Portanto podemos inferir que entre os anos 20 e os anos 60 do século XX, o rádio foi o principal veículo de comunicação de massa do Brasil.

É nesse contexto em que Dolores Duran vive e se apresenta nas rádios, com isso usufruiu-as ainda no auge da popularidade, absorvendo todo o seu potencial.

2.2 Samba canção

Um gênero muito presente na época foi o samba canção, também chamado de samba de meio de ano, por ser lançado depois dos sambas do carnaval. Trata-se de um tipo mais lento, deprimido, introspectivo e romântico que o samba tradicional, sendo acompanhado por orquestra, possuindo um caráter “aboletado”. O samba-canção se firmaria mesmo a partir de 1930.

Seus primeiros compositores foram Joubert de Carvalho, Henrique Vogeler, Heckel Tavares e Sinhô, sendo imortalizados nas vozes de: Francisco Alves, Orlando Silva, Marlene, Isaura Garcia, Elizeth Cardoso, Zezé Gonzaga, Dalva de Oliveira, Caubi Peixoto, Ângela Maria, Maysa e é claro por Dolores Duran.

O samba-canção reinava na noite, nas boates de Copacabana, as famosas: Little Club, Kit Club e Vogue. Nessas casas noturnas o samba-canção encontrou seu par perfeito: um ambiente intimista, numa atmosfera enfumaçada da boemia carioca dos anos 50.

Segundo Maria Izilda Matos, o samba-canção sobre forte influência do bolero, notadamente os boleros latino-americanos. Cantava melodiosamente os dramas e os flagrantes amorosos do cotidiano. “Demonstrava toda uma crise de valores e costumes conservadores e denotando as mudanças das relações entre os gêneros” (Matos, Maria Izilda, 1997). Ainda citando Matos, Dolores Duran foi a “cronista da fossa e poeta do cotidiano a dois”.

Toda a geração dos anos de ouro do rádio sofreu intensa influência do existencialismo europeu. Esta doutrina filosófica foi a mais discutida nas décadas de 40 e 50, tornando-se sinônimo de fatos ou pessoas que se desviavam do caminho habitual. A sua reflexão é centrada sobre a existência humana considerada nos aspectos particular, individual e concreto. Traduzia o pessimismo decorrente da devastação da Europa pelas duas grandes guerras do século vinte. Além do pessimismo, outros problemas abordados pelo existencialismo foram: o subjetivismo, o tédio, a morte, a melancolia e a liberdade.

2.3 A compositora

No ramo da autoria, Dolores Duran, juntamente com Maysa, foram de grande evidência na década de 50. Pode-se dizer que a partir delas ocorre uma alteração expressiva no cenário musical. Primeiramente com a abertura de espaço para as compositoras, e também por terem dado uma linguagem poética à dor de amor (tema principal da suas composições).

Foi considerada a rainha do samba-canção. Possuía um estilo especial de cantar, utilizando o scat singing interpretava de forma intimista, contribuindo assim para uma guinada significativa, culminando mais tarde com a Bossa Nova, advinda do cool jazz.

Dolores Duran compôs pouco mais de 20 sambas-canções, mas mesmo com esse tímido repertório suas composições estão carregadas de sensibilidade, sendo inconfundível a sua poética musical notadamente pelo intimismo, cantando os momentos mais ocultos dos corações enamorados e desenganados, produzindo versos singelos, como por exemplo, os de Noite do meu bem:

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
e a primeira estrela que vier
para enfeitar a noite do meu bem

Hoje eu quero paz de criança dormindo,
E o abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem

Quero, a alegria de um barco voltando
Quero a ternura de mãos se encontrando,
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, eu quero amor
O amor mais profundo
Eu quero toda a beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, como esse bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda a pureza que quero lhe dar
(Noite do meu bem, Dolores Duran).

Já a outra composição de letra e música de sua autoria denota a coloquialidade de uma conversa, uma confissão:

Eu desconfio que o nosso caso
Está na hora de acabar
Há um adeus em cada gesto, em cada olhar
Mas nós não temos é coragem de falar
(Fim de caso, Dolores Duran).

Compôs algumas músicas em parceria com Tom Jobim. A primeira foi “Se É por Falta de Adeus”, de 1955. Depois vieram: “Por Causa de Você” e “Estrada do Sol”.

Ilustro essa parceria com palavras do próprio Tom Jobim:

“Ela era muito sensível, além de muito talentosa. Das três músicas que fizemos juntos, minha preferida é” Por causa de você “, cuja letra deveria ser feita pelo Vinícius de Morais. Só que Dolores, assim que ouviu a música, escreveu a letra em dois minutos e mandou um recado para o Vinícius, pedindo que a deixasse assim…” (Tom Jobim).

Dolores nesta letra, assim como em outras, consegue poetizar a simplicidade:

Aí, você esta vendo só
Do jeito que eu fiquei, e que tudo ficou
Uma tristeza tão grande
Nas coisas mais simples
que você tocou
A nossa casa, querido
Já estava acostumada
Aguardando você
As flores na janela
Sorriam, cantavam
Por causa de você!
Olhe meu bem, nunca mais me deixe, por favor
Somos a vida, o sonho
Nós somos o amor!
Entre, meu bem, por favor
Não me deixe o mundo mau lhe levar outra vez
Me abrace simplesmente
Não fale, não lembre
Não chore, meu bem!
(Por causa de você, Dolores Duran e A. C. Jobim)

Nesta canção o lar é sinônimo de aconchego, um porto seguro para a mulher que deseja sempre agradar ao seu amado. Por isso que se o homem se ausentar, tudo perde sentido, vindo a tona sentimentos como a tristeza e a culpa pelo lar fracassado. Resta a mulher relevar as atitudes infiéis do homem e perdoar:

Se mil vezes você me deixar e voltar, eu aceito
Quem sou eu para dizer o que é
E o que não é direito?
Meu amor é sincero,
É o amor e sempre será assim
Quem sou eu pra querer que você
Goste apenas de mim?
Se mil vezes você me trair, perdoarei
E palavras amargas e tristes
Jamais lhe direi
Sou assim, ai de mim!
Sou assim e não posso mudar,
Meu amor é mais forte que eu
Quem sou eu pra lutar?
(Quem sou eu?, Dolores Duran e J. Ribamar)

Na obra de Duran aparece também um outro perfil do masculino, um homem parceiro, sincero, companheiro e afetivo que permitisse o prazer de estar junto e construir uma relação:

É de manhã
Vem o sol, mas os pingos da chuva
Que ontem caiu
Ainda estão a brilhar,
Ainda estão a dançar
Ao vento alegre que me traz esta canção
Quero que você me dê a mão,
Que eu vou sair por aí,
Sem pensar no que foi que sonhei,
Que chorei, que sofri
Pois a nossa manhã
Já me fez esquecer
Me dê a mão vamos sair
Pra ver o sol
(Estrada do sol, Dolores Duran e A. C. Jobim).

Esta letra com música de Ribamar, seu parceiro mais freqüente foi feita no avião, numa viagem de Moscou a Paris. Com ele também compôs Pela rua, Idéias erradas e Se eu tiver. Conta-se que Dolores escrevia compulsivamente, mas muito se perdeu. Alguns versos foram musicados após sua morte por Ribamar: Quem foi?, Que é que eu faço e Ternura antiga, premiada no Festival da Mais Linda Canção de Amor (1960). Carlos Lyra também musicou postumamente O negócio é amar.

Encontramos também em algumas músicas uma dualidade de expressões das emoções. De um lado a mulher submissa ao marido e de outro uma mulher independente e que tem sob controle seus sentimentos:

Não faças idéias erradas de mim
Só porque eu quero você tanto assim
Eu gosto de você, mas não esqueço
De tudo quanto valho e mereço
Não pense que se você me deixar
A dor será capaz de me matar…
(Idéias Erradas, Dolores Duran e J. Ribamar).

Toda essa ambigüidade, tensões e conflitos na representação das relações entre os gêneros retratada nas letras devem ser encaradas como um reflexo da sociedade, elementos integrados ao contexto histórico. Assim como os modos de comportamento transmitidos pelo samba-canção se misturavam a outros meios como, por exemplo, o cinema tanto americano quanto nacional, as revistas de atualidade e mais timidamente a televisão por não ser ainda tão difundida.

Por esse motivo nas canções de Dolores Duran os comportamentos femininos são cheios de dualismo, sendo que concomitantemente a fazer críticas a sociedade, questionando-a, afirmam o estereótipo das mulheres puras, caseiras e fiéis ao marido. Denotam a ambigüidade entre o desejo da mudança dos padrões instituídos e uma postura de submissão, dada pela espera e aceitação.

Dolores Duran representou o início da quebra de tabus, era uma mulher dona de si, da sua vida e de sua sexualidade, tendo enfrentado por tais conquistas preconceito e incompreensão. Foi uma mulher de vanguarda no que se refere a comportamentos. Assim podemos perceber em suas canções esse dilema de permanecer presa a códigos tradicionais ou absorver outros novos.

Começou ainda que de forma tímida a falar sobre seus desejos e frustrações, aspirava a uma vida independente, porém ainda se mostrava arraigada a valores convencionais e medos, o maior dos quais fosse o da solidão. Notadamente o término desta ambigüidade dá-se com os movimentos de contracultura dos anos 60, por exemplo, os hippies apresentam sinais de convergência nos papéis de homem e mulher:

A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer
Briga pensando que não vai sofrer
Que não faz mal se tudo terminar
Um belo dia a gente entende que ficou sozinha
Vem a vontade chorar baixinho
Vem o desejo triste de voltar
Você se lembra, foi isso mesmo que se deu comigo.
(Castigo, Dolores Duran).

3. CONCLUSÃO

Notadamente ao término deste, ficou evidenciado a importância da época de ouro do rádio, período em que serviu de alicerce para a eclosão de vários movimentos nos anos posteriores, dentre eles a Bossa Nova, tendo por base de pesquisa a vida e obra da “Princesinha do Mar”.

Dolores Duran em suas músicas representou o seu momento histórico, demonstrando ainda que de forma acanhada toda a ambigüidade presente em seu tempo, às relações entre homens e mulheres sendo questionada, tensões tramadas entre o velho e novo, o arcaico e o moderno, o hierárquico e o igualitário.

Assim, sem maiores pretensões senão de despertar o interesse para novos estudos nesse período tão pouco analisado, porém de grande importância para o entendimento de toda a Música Popular Brasileira.

4. BIBLIOGRAFIA

MATTOS, Maria Izilda Santos de. Dolores Duran: experiências boêmias em Copacabana nos anos 50. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

PENHA, João da. O que é existencialismo. São Paulo: Brasiliense, 1987.

TÁVOLA, Arthur da. 40 anos de bossa nova. Rio de Janeiro: Sextante, 1998.

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