Autor: Daniela Filgueiras Britto

1. EMPATIA

Empatia é a capacidade de compreender ou de se identificar com que outra pessoa está vivendo. Não é de hoje que a música tem seu lugar de destaque nas sociedades humanas. E nos tempos recentes, está cada vez mais associada a uma ferramenta terapêutica.

A música é um meio de empatia por excelência. Quando cantamos uma música juntos, vivemos a mesma melodia, compartilhamos o mesmo centro tonal, articulamos a mesma letra, nos movemos de acordo com o mesmo ritmo a cada som através da atenção mantida no outro e através de esforços contínuos para permanecermos juntos, tornando-nos um na experiência.

Sabe aquela música que, no exato momento em que é ouvida, traz lembranças de bons ou maus momentos? Difícil encontrar alguém que não tenha essa memória musical, que nunca teve sua música favorita para cada momento, seja de alegria, de tristeza. A música é parte integrante do ser humano. Não interessa qual o ritmo, o tipo de instrumento, com ou sem voz.

O que torna a música particularmente condutora de empatia é que ela não une apenas os musicistas na mesma atividade sensório-motora, ela une os musicistas e os ouvintes no mesmo espaço e tempo auditivos, transportando-os para os mesmos domínios da experiência humana de maneira muito íntima.

Quando chegam aos ouvidos, os sons se convertem em impulsos que percorrem os nervos auditivos até chegar na parte do cérebro responsável pelas emoções, sentimentos e sensações. A música é capaz de influenciar os padrões de sono, a respiração, os batimentos cardíacos, a circulação sangüínea. Considerando toda essa dinâmica no organismo de uma pessoa, os especialistas são capazes de elaborar terapias específicas para diversas doenças físicas e mentais e para gerar bem-estar.

Mas não é só freqüentando sessões de musicoterapia que as pessoas podem se beneficiar dos sons, melodias e ritmos. Quantas pessoas escutam música no carro? Muita gente diz que não consegue viver sem o rádio, o aparelho de CD ou toca-fitas como acessório automotivo. Qualquer indivíduo constrói a sua relação com a música mesmo sem conhecer as técnicas de musicoterapia.

A identidade musical que é elaborada pelo terapeuta consiste numa espécie de catalogação de sons, canções, ruídos ou qualquer outra melodia que provoque a afinidade sonora de uma pessoa. Um exemplo: um paciente em coma, por causa de um acidente, é capaz de identificar e diferenciar os sons mesmo que esteja inconsciente. Esse é o tratamento chamado de receptivo. “Em geral, quando alguém está em coma é porque uma parte do cérebro não está funcionando bem. A música pode estimular outras partes do cérebro para que a capacidade total comece a ser restabelecida”. Como fazer isso? Imaginemos que este paciente seja um caminhoneiro e tenha sofrido um acidente no trabalho. Com certeza existem sons ou músicas que estimulem partes do cérebro dele. Poderia ser uma música que estivesse associada ao trabalho, ou até mesmo o som de buzinas de caminhão, ou o ruído do motor.

Se esses estímulos servem para ajudar um paciente na UTI de um hospital, imagine se forem utilizados no cotidiano de forma consciente, racional e que possa trazer bem-estar e tranqüilidade. Algumas canções podem ser um poderoso antídoto contra o estresse de uma volta do trabalho em meio ao trânsito pesado. Uma música de Bach, por exemplo, com seus acordes e harmonias perfeitos. Uma sonata de Beethoven para quem preferir.

Escolher um ritmo em busca de sossego ou para domar uma raiva depende muito de cada um. As escolhas passam pela idade, formação cultural, tipo de personalidade. Há quem não goste de música erudita, mas isso não tem a menor importância. Não se pode ter preconceito quanto às escolhas musicais de cada um. O fundamental é tentar identificar sensações e estados de espírito de acordo com o que se ouve e tirar seu próprio proveito disso.

A diferença entre a musicoterapia praticada por profissionais e a terapia leiga buscada dentro do carro ou de casa é como a música integra o processo. A ciência especializada acredita que a música em si já é a terapia e os seres humanos, não-profissionais, a utilizam como ferramenta.

A Empatia é essencial na relação cliente-terapêuta; na realidade ela é a base de todas as intervenções que um terapeuta utiliza para ajudar o cliente. A empatia favorece o rapport com o cliente, a estrutura das necessidades do cliente, a segura confiança e o prepara para todos os tipos de ajuda que o terapeuta oferecerá.

Além dos benefícios diretos que o cliente recebe através da empatia, ele também adquire um modelo de empatia. Experenciando e observando a empatia do terapeuta, o cliente pode ser motivado a ter empatia para com outros e desenvolver as habilidades e sensibilidades necessárias ao longo do processo.

A saúde começa na mente do ser humano e se reflete na fisiologia do corpo, por isto devemos ter a meta de reabilitar o emociona através das vibrações das notas musicais, devemos afetar o indivíduo para interagir intimamente conquistando a confiança que o deixara apto a aceitar toda ajuda que podemos propiciar.

Os ritmos fazem o paciente vibrar experimentadas experiências que o motivaram a empatia com os outros ou ate mesmo desenvolver habilidades e sensibilidades necessárias ao progresso do processo de reabilitação.

Através do elo criado pela empatia fica-se mais próximo do paciente interagindo de maneira positiva para que esta técnica reflita no corpo e faça parte deste processo .

Podemos aplicar estas técnicas de acordo com o paciente e elas podem ser ativas ou receptivas:

– Forma ativa: é empregada quando o paciente já é familiarizado com a música (músico), utilizamos a imitação (produzir um ritmo e pedir para que ele o reproduza); sincronização (tocar o mesmo ritmo junto com o paciente); reflexão (retratar musicalmente o humor do paciente); e finalmente a incorporação (fazer com que o paciente faça parte da música).

– Forma receptiva: quando o paciente é um ouvinte (gostar de música), devemos relacionar a música de Acordo com o ISO do paciente, ou seja refletir o emocional, cultural individual para atingirmos de forma consciente ou inconsciente o sentimento, humor ou atitudes que o levem a ter empatia.

Dentro destas técnicas podemos proporcionar tipos de experiências musicais que se são: improvisação, re-criar; compor, ouvir músicas. A terapia deverá ser construída por etapas ou “tijolinhos”, respeitando sempre o limite do paciente, até atingirmos a empatia.

2. EXPERIÊNCIA ATIVA

2.1. Experiência de improvisação

O terapeuta levará em conta que o paciente poderá fazer música, cantar, criar uma melodia, um ritmo, uma canção ou até mesmo uma peça musical de improviso.

Deve-se seguir as seguintes etapas:

– O cliente escolhe os instrumentos a serem utilizados;

– Deixe-o experimentar livremente os instrumentos;

– Deverá ser apresentada uma regra a ser seguida ao tocar pelo terapeuta;

– O improviso será de acordo com a estrutura escolhida;

– A improvisação devera ser discutida;

– Continuar no mesmo passo até o final da sessão.

Estas etapas podem ser feitas em grupos ou individuais, e o terapeuta pode indagar ou até mesmo oferecer espelhamentos para o paciente.

Objetivos:

– Estabelecer um canal de comunicação não-verbal e uma ponte para a comunicação verbal;

– Dar sentido à auto-expressão e à formação de identidade;

– Explorar os vários aspectos do eu na relação com os outros;

– Desenvolver a capacidade de intimidade interpessoal;

– Desenvolver habilidades grupais;

– Desenvolver a criatividade, liberdade de expressão, espontaneidade e capacidade lúdica;

– Estimular e desenvolver os sentidos;

– Desenvolver habilidades perceptivas e cognitivas.

Variações:

– Instrumental não-referencial: o paciente improvisa com instrumentos musicais, sons ou músicas (solo, dueto e grupo).

– Instrumental referencial: o paciente improvisa com instrumento musical um sentimento, uma idéia, assunto…

– Improvisações de canções: o paciente improvisa letras, melodias ou acompanhamento de uma canção.

– Improvisação vocal não-referencial: o paciente improvisa uma peça vocal sem palavras ou imagens.

– Improvisações corporais: improvisação de vários sons corporais percussivos (palmas, toques, estalidos).

2.2. Experiências re-criativas

O termo re-criativo significa executar, reproduzir, transformar e interpretar qualquer parte ou o todo de um modelo musical existente, com ou sem audiência.

Nesta terapia também incluem atividades musicais estruturadas e jogos onde o paciente apresenta comportamento ou desempenha papeis que foram definidos para ele.

Objetivos:

– Desenvolver habilidades sensório-motoras;

– Promover comportamento ritmado e a adaptação;

– Melhorar a orientação e a atenção;

– Desenvolver a memória;

– Promover a identificação e a empatia com os outros;

– Desenvolver habilidade de interpretação e comunicação de idéias e sentimentos;

– Aprender a desempenhar papéis específicos nas várias situações interpessoais;

– Melhorar as habilidades interativas e de grupo.

Variações:

Re-criações instrumentais: O paciente pode ser envolvido em atividades com reprodução de materiais musicais estruturados ou pré-composto, com instrumentos.

Re-criação vocal: O paciente envolvido em atividades, de reprodução vocal de materiais musicais estruturados ou pré-compostos.

Produções musicais: Envolver o paciente em planejamento e apresentação de um show.

Atividades e jogos musicais: Atividades estruturadas pela musica como charadas musicais, dança de cadeira.

Condução (regência): Dirigir uma apresentação musical através de gestos de marcação.

2.3. Experiências de Composição

O terapeuta auxilia o paciente a escrever canções, letras ou peças instrumentais, ou a criar qualquer tipo de produto musical (vídeos ou fitas). O terapeuta assume a responsabilidade dos aspectos mais técnicos do processo e tenta adequar a participação do paciente de acordo com a sua capacidade.

Objetivos:

– Desenvolver habilidades de planejamentos e organização;

– Desenvolver habilidades para solucionar problemas de forma criativa;

– Promover a auto-responsabilidade;

– Desenvolver a habilidade de documentar e comunicar experiências internas;

– Promover a exploração de temas terapêuticos através das letras das canções;

– Desenvolver a habilidade de integrar e sintetizar partes em um todo.

Variações:

– Paródias de canções: na melodia com acompanhamento original, o paciente substitui palavras , frases ou a letra inteira da música.

– Escrever canções: o paciente compõe uma canção com registro.

– Composição instrumental: o paciente compõe uma peça inteira original com registro.

– Atividades de notação: o paciente pode criar um sistema de notação, ou fazer uma que já havia sido composta.

– Colagens musicais: o paciente escolhe as canções, sons musicas e fragmentos delas e os coloca em seqüência para reproduzir um registro que explore questões autobiográficas ou terapêuticas.

3. EXPERIÊNCIA RECEPTIVA

O paciente ouve músicas e responde a experiência de forma silenciosa, verbalmente ou através de outra modalidade, esta experiência pode enfocar os aspectos físicos, emocionais intelectuais, estéticos ou espirituais da música de acordo com a terapia aplicada.

Espera-se desenvolver habilidades de tensão.

Objetivos:

– Promover a receptividade;

– Evocar respostas corporais especificas;

– Estimular ou relaxar;

– Desenvolver habilidades auto-motoras;

– Evocar estados e experiências efetivas;

– Explorar idéias e pensamentos;

– Facilitar a memória, as reminiscências e as regressões;

– Evocar fantasias e a imaginação;

– Estabelecer uma conexão entre o ouvinte e o grupo comunitário ou sócio-cultural;

– Estimular experiências espirituais.

Variações:

Escuta somática: utiliza-se vibrações de sons e de musica para influenciar o corpo do paciente.

– Entrainment: estabelecer sincronismo com as respostas corporais voluntárias ou autônomas, podem ser gravados ou criados, instrumental ou vocal.

– Ressonância: utilização de sons de várias formas elementares e combinadas para fazerem vibrar partes do corpo do paciente. Podem ser instrumentais ou vocais.

– Música vibro-acústica: utiliza-se freqüências vibratórias ao corpo enquanto ele ouve músicas

– Biofeedback: músicas com feedback contínuo das funções corporais (batimento cardíacos, etc.) objetivando o controle e conscientização do corpo.

Anestesia musical: utiliza-se para aumentar o efeito das drogas anestésicas e /ou analgésicas, com o objetivo de reduzir ou controlar a dor e reduzir a ansiedade.

Relaxamento musical: reduzir o stress e a tensão, reduzir a ansiedade e induzir ao relaxamento.

Escuta meditativa: para acompanhar uma meditação ou contemplar uma idéia em particular.

Escuta subliminar: utilizada para mascarar a difusão de sugestão de mensagens verbais para o inconsciente.

Escuta para estimulação: para estimular os sentidos, despertar a atenção, elevar o humor, aumentar a energia.

Escuta eurrítmica: organizar ritmicamente e monitorizar os comportamentos motores do paciente (fala, respiração, movimentos grossos ou finos).

Escuta perceptivas: melhorar as habilidades de atenção, da percepção, da discriminação e percepção auditivas.

Escuta para a ação: evocar respostas de comportamentos especificas.

Escuta contingente: reforço eventual de mudança de comportamento.

Escuta mediativa: estratégia na mediação do aprendizado ou na memorização de informações .

Atividades de apreciação musical: ajudam o paciente a compreender ou apreciar a estrutura, o estilo, o significado histórico e o valor estético da música.

Reminiscência musical: evocar lembranças de experiências passadas.

Regressão (musical) com canções: o paciente re-experimenta o passado através da música.

Lembranças induzidas com canções: música induzida conscientemente com intuito terapêutico.

Comunicação com canções: o paciente apresenta uma canção que revele algo sobre ele, sua preferência.

Discussão de canções: o paciente é solicitado a examinar a letra de uma canção e explicar o seu significado.

Escuta projetivos: sons ou músicas para que ele identifique, interprete ou faça associações livres.

Identificação sonora: o paciente ouve sons e os classifica.

Associação livre: ouve sons e fala ou escreve sobre o que lhe vem à mente.

Contar histórias projetivas: enquanto ouve sons, o paciente conta uma história que pode ser escrita.

Dramatização musical: o paciente representa o que ouve na música.

Escolha de canções: o paciente escolhe suas canções favoritas.

Movimentos projetivos com música: ao ouvir a música o paciente improvisa movimentos expressivos.

Escuta imagística: utilização da escuta musical para evocar experiências internas em estado alternado de consciência.

– Imagem musical dirigida: o paciente cria uma imagem sobre o que apresentado pelo terapeuta, enquanto ouve música em estado alternado de consciência.

– Imagem musical não dirigida: o paciente cria livremente uma imagem enquanto ouve música em um estado alternado de consciência., sem dialogar com o terapeuta.

– Imagem musical guiada: o paciente cria uma imagem em estado alternado de consciência dialogando com o terapeuta.

– Imagem musical guiada interativa: o paciente cria imagens juntamente com outros pacientes sob a direção do terapeuta.

Auto-escuta: o paciente ouve uma gravação e sua própria improvisação, apresentação ou composição par refletir sobre si e sobre a experiência.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Empatia são todas as técnicas que usamos para afetar os nossos pacientes de forma eficiente e interativa .

Na musicoterapia esta situação pode ser estabelecida de uma forma quase totalizada pela ação dos sons ou músicas, que são muito difíceis de serem bloqueadas, e elas podem ser de forma consciente ou não dependendo do quadro do paciente em questão.

Quando se consegue estabelecer um elo terapeuta-paciente, compartilhamos a mesma intensidade de emoções representada pela melodia, pelo tom, e até mesmo pela articulação da letra da música exibida durante a musicoterapia. Cria-se um ambiente que se funde na mesma atividade sensório-motora e que não se permite ser bloqueada tão facilmente como os outros tipos de estímulos.

BIBLIOGRAFIA

BRUSCIA, Kenneth E. Definindo Musicoterapia. 2. ed. Enelivros: Rio de Janeiro, 2000.

CELIDÔNIO, Flávia. Sons que cuidam do corpo e da alma. Disponível no site: http://www.spbancarios.com.br/rb89/rb7.htm. Consultado em: 14/03/04.

FONSECA, Manuel Dias. Os Grandes Clássicos – História da Música Clássica. Madri: Delprado, 1997.

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