Esta investigação teve como objetivo verificar se os professores de Educação física conhecem as atividades motoras, ou as adaptações destas atividades para a prática do desporto. Para tal foi utilizado um questionário com a seguinte pergunta: “Cite 3 esportes que você considera impossível de encontrar pessoas cegas praticando?”. Os resultados verificaram que a maioria dos esportes relatados foram os esportes de precisão, porém com a tecnologia atual podem-se fazer adaptações e permitir que o esporte seja praticado com pequenas alterações em suas regras conforme a deficiência do indivíduo.

Introdução

O esporte para pessoas com deficiências no Brasil teve início oficial em 1958, mas apenas recentemente os profissionais de Educação Física têm se preocupado com atividades físicas adaptada para este público e, não menos importante, com a concepção da inclusão social e maior divulgação e popularização do desporto (CPB, 2007).

As pessoas com deficiência têm as mesmas necessidades básicas de uma pessoa dita “normal”. Mesmo com uma aparência física diferente dos indivíduos com partes físicas, mentais e sensoriais regular, elas também querem ter sucesso, reconhecimento, aprovação, quer ter os mesmos direitos e deveres de todos da sociedade.

Freitas (1997) cita Mataruna et al (2005) por, que relata que o objetivo da Educação Física Adaptada é oferecer atendimento especializado aos educandos portadores de necessidades educativas especiais, respeitando-se as diferenças individuais, visando proporcionar um desenvolvimento global dessas pessoas, tornando possível não só o reconhecimento de suas potencialidades, como também a sua integração a sociedade. A pessoa com deficiência pode encontrar no esporte uma saída para reformular suas conquistas sociais.

A Educação Física Adaptada pode proporcionar aos educandos oportunidades de utilizarem suas habilidades através das atividades motoras, jogos e desporto com o fim de desenvolver o máximo de suas capacidades.

Cada pessoa tem o direito de escolher a atividade que melhor lhe adapta, atendendo suas expectativas e objetivos. Com a pessoa deficiente não deve ser diferente, porém observando suas limitações pela característica do quadro clínico.

Segundo o Ministério da Educação e do Desporto em 1985 foi realizado no Rio de Janeiro o I Fórum Nacional: “O Excepcional e a Política de Educação Física, Desporto e Esporte para todos”, onde representantes de cada estado apontaram as principais realidades de suas respectivas localidades, dentre estas foram citados: dificuldades financeiras; falta de recursos humanos qualificados para o trabalho com os PNE’S; recursos humanos não qualificados atuando; não aproveitando professores qualificados; falta de material pedagógico.

A pessoa com deficiência irá participar de uma atividade motora se houver interesse de sua parte (fator intrínseco) e se as condições de fatores externos forem a seu favor (fatores extrínsecos).

A Educação Física para cegos vem crescendo muito por parte dos incentivos através do trabalho realizado por novos professores, feito através de seminários, congressos cursos com as principais universidades do país.

O conhecimento popular do esporte para cegos no Brasil ainda é baixo principalmente por profissionais de Educação Física, os quais sentem muitas dificuldades de trabalho para realizar a inclusão social na escola.

Sendo assim elaborou-se esta investigação para identificar se estudantes de Educação Física dos últimos períodos dos cursos de licenciatura e bacharelado de uma instituição privada da cidade do Rio de Janeiro, dispõem de conhecimento a respeito do conhecimento sobre o esporte para cegos. Com vista aos desafios das limitações impostas pela deficiência, desenvolveu-se a intenção de saber se existiria alguma modalidade que fosse inacessível a pessoa com deficiência visual. O objetivo deste artigo é descrever os esportes que já existem para cegos, e que muitos estudantes e até mesmo profissionais da área de Educação Física desconhecem.



Metodologia

O grupo de voluntários é caracterizado como de conveniência, segundo Severino (1992) contando com acadêmicos do ultimo semestre dos cursos de licenciatura e bacharelado em educação física. A duração destes cursos é de três anos para a licenciatura e um ano para o bacharelado o que contextualiza que os indivíduos que compõem o último grupo possuem quatro anos de estudos dado que é condicional para a inscrição no bacharelado a conclusão prévia da licenciatura.

Para a coleta de dados das opiniões dos estudantes de Educação Física foi solicitado que os mesmos registrassem suas respostas para a seguinte questão: “Cite três esportes que você considera impossíveis de uma pessoa com cegueira praticar”, em formulário preparado pelo pesquisador.

Esta pesquisa descritiva, do tipo survey é de natureza quantitativa, (THOMAS e NELSON, 2002). Através do questionamento aberto permitiu-se que a amostra expressasse seus conhecimentos, especificando-os apenas na nomenclatura dos esportes tidos como inviáveis a pessoas com cegueira, sem justificá-los.

Resultados e Discussão

Participaram do estudo um total de quarenta e cinco alunos do curso de licenciatura de uma instituição privada da Cidade do Rio de Janeiro, e do curso de bacharelado quarenta e dois acadêmicos.

Para a apresentação dos resultados faz se necessário entender que dividiu-se os esportes em cinco categorias utilizando o referencial apresentado por DaCosta (2005): esportes de quadra, esportes aquáticos, esportes de combate e precisão, esportes radicais e de aventura, esportes de lazer.

Sabe-se que alguns esportes apenas sofrem pequenas adaptações conforme a natureza física do indivíduo, e o grau de sua deficiência e outros não solicitam de nenhuma adaptação.

Nesta pesquisa entre os alunos que estão se graduando na licenciatura, os esportes que tiveram maior incidência na pesquisa foram “tiro ao alvo” e “arco e flecha” que estão relacionados aos esportes de precisão. A maior incidência deste esporte na pesquisa deve-se ao fato dos praticantes não possuírem visão. Porém tem como se utilizar adaptações para a prática destes desportos.

Esportes de Precisão e de Combate

Os esportes de precisão como tiro ao alvo e arco e flecha obtiveram um índice ligeiramente acentuado em relação aos demais, talvez seja pela relação da falta de visão e menor precisão para atingir o alvo que alguns alunos fizeram. Porém na Espanha e Japão onde são realizadas práticas de algumas modalidades de esportes para deficientes como laboratório. Há possibilidade de uma adaptação de um mecanismo sonoro que permite ao deficiente visual, atingir o alvo com maior precisão.

Os esportes de precisão foram os que tiveram maior incidência nesta pesquisa, tais esportes como golf, tiro ao alvo, tênis de mesa, basquete, arco e flecha, beisebol e automobilismo. Obtiveram índices elevados em relação aos demais esportes.

No Bird Golf é praticado por pessoas com baixa visão, onde o jogo é adaptado com alvos maiores, a bola possui estrutura similar a peteca, que possui mais direção do vôo e não rola ao tocar o solo.

O tiro com arco possui as mesmas regras do esporte convencional, com a diferença do sistema de mira sonora que permite ao competidor perceber se está mirando no ponto cego do alvo.

Na prática do tênis de mesa é feita em uma mesa igual à tradicional com a diferença que a bola é passada pro baixo da rede, está possui pequenas bolinhas de chumbo dentro, os pontos são marcados quando a bola toca a parte de trás da mesa, sem cair dela.

Nos esportes de combate segundo DaCosta (2005) nas artes marciais os movimentos de exibição de algumas lutas, ou seja a parte da exibição podem ser treinados e melhorados até para uma melhor percepção motora do indivíduo, melhorando a sua motricidade e sua percepção no espaço temporal, sendo assim na capoeira e no karatê.

No caso do boxe são usadas luvas sonoras para mostrar a distância e a posição da guarda utilizada.

Esportes Aquáticos

O esporte aquático que mais se destaca é a natação, pois esta é a modalidade com o maior número de participantes, e também os recordes mundiais que os nadadores cegos obtiveram não estão distantes dos nadadores dos atletas sem deficiência.

A primeira competição esportiva internacional para pessoas com cegueira e deficiência visual ocorreu na França no ano de 1970, sendo a deficiência visual inclusa nas Paraolimpíadas em 1976, na cidade de Toronto, Canadá. Mas somente em 1980 na Holanda que foram oferecidas no programa paraolímpico. (LUZ, 2006).

A prática da natação por pessoas com cegueira e deficiência visual esteve inicialmente restrita a uma utilização terapêutica, porém, com a massificação e disseminação das práticas esportivas para pessoas com deficiência, a natação passou também a ser praticada como competição. (LUZ, 2006.).

Nesta parte da pesquisa, houve poucas pessoas que responderam esportes aquáticos, sendo mais considerável esportes de demonstração artística, como saltos ornamentais e nado sincronizado com 3% enquanto que natação 1% das pessoas responderam que o cego não pode praticar, ou seja boa parte dos professores estão informados que a natação é um esporte paraolímpico.

Outros esportes aquáticos também foram citados na pesquisa tais como: nado sincronizado, mergulho e pólo aquático que é um esporte recente para deficientes visuais, mas já existe, e é desconhecido pro alguns profissionais da área.

Esportes de Quadra

O esporte de quadra é praticado pela maioria dos atletas deficientes de um modo geral, e também possui um número elevado de praticantes entre os deficientes visuais. Estes esportes de quadra são: o Goalball, o Futsal, o Futebol de cinco, o Futebol Society, o Vôlei.

Segundo DaCosta 2005 o Vôlei é praticado onde a rede fica colocada a 30 cm do chão e a bola é rolada por baixo dela: os pontos são contabilizados da seguinte forma: quando a equipe lança a bola para a quadra adversária e esta cruza os limites laterais, ou a linha de fundo da quadra, ou quando há mais de 3 toques da mesma equipe. O Vôlei foi apontado por 7% dos profissionais de Educação Física que estão se graduando na licenciatura e 4% dos profissionais que estão concluindo o bacharelado.

A prática do futebol de cinco modalidade exclusiva para atletas cegos ou deficientes visuais. Normalmente joga-se em uma quadra de futsal adaptada, mas desde os Jogos Paraolímpicos de Atenas, a modalidade também vem sendo praticada em campos de grama sintética. Somente o goleiro tem visão total e ele não pode ter atuado em competições oficiais da Fifa nos últimos cinco anos. Junto às linhas laterais, são colocadas bandas que impedem que a bola saia excessivamente do campo. (CPC, 2007).

Possui as mesmas regras do praticado convencionalmente, mas com adaptações. A primeira e mais curiosa adaptação é a de que somente o goleiro enxerga. A segunda é a utilização de um guia atrás de cada gol, para orientar os atletas. Além disso, as laterais da quadra, que possui as mesmas medidas da convencional, possuem bandas de 1,20m, também servindo de orientação para os jogadores. Fora os goleiros, os outros atletas jogam obrigatoriamente vendados, para que nenhum jogador que tem algum resquício de visão leve alguma vantagem. Além disso, o goleiro do futsal para cegos não pode sair de sua área. (Revista Sentidos, 2006)

O futebol society é uma modalidade que se aproxima bastante ao futebol de 5 e ao futsal para cegos, com a diferença que é jogado com bolas maiores e grama sintética.

Segundo DaCosta (2005) o Goalball é um desporto que é praticado em quadras cobertas, onde o objetivo principal é que a bola siga rolando e ultrapasse a linha do gol adversário, que terá que impedi-lo realizando deslocamentos laterais ao longo da quadra. A bola possui guizos, os atletas geralmente se posicionam em pé para os arremessos e agachados para realizar a defesa.

É interessante também salientar que o Brasil possui grande destaque em nível mundial nos esportes de quadra, estando entre os melhores do mundo em boa parte dessas modalidades.

Esportes de Aventura

Trabalhados juntamente com o ecoturismo – que também recebe o nome de turismo de aventura – os esportes de aventura passam por um momento bastante importante, que evidencia seu potencial, principalmente financeiro.

Os esportes em destaque são: trekking, rafting, balonismo, mountain bike, off-road, escalada, montanhismo, entre outros. Não importa o esporte de aventura, sempre que praticados eles provocam fortes emoções e integração entre os participantes, e mantendo um contato direto com a natureza. Não é por acaso que os esportes de aventura num contexto geral estão em franco crescimento, principalmente para os portadores de necessidades especiais.

Escalar paredes, descer nas corredeiras de rios “nervosos”, atravessar fendas e obstáculos naturais preso a uma corda estão entre as atividades que vêm conquistando a adesão cada vez maior desses deficientes.

O desafio agora é aumentar o acesso dos portadores de deficiência nos esportes de aventura. Não segregando, mas incluindo-os com pessoas que aparentemente não possuem deficiência. Um passo já foi dado, pelo menos por algumas agências de turismo de aventura e ecoturismo ao adaptarem seus passeios e atividades para atender também a esse segmento. O resto depende dos próprios deficientes e da sociedade superarem preconceitos e medos. Mesmo com certas limitações, o fato é que não existe diferença entre pessoas que estão em busca de diversão e aventura nos esportes.

Segundo DaCosta (2005) o montanhismo é uma prática não competitiva que tem como objetivo a exploração e a prática, a principal adaptação é o sistema de guia para permitir a prática para pessoas com cegueira, ou baixa visão, no caso de provas de travessia também é realizado o acompanhamento de um nadador que não tenha deficiência.

Outros esportes recentes para cegos também merecem destaque como: Surf, corrida de orientação, paraquedismo, entre outros esportes na natureza, onde visa principalmente aumentar o contato do deficiente com a natureza e fazer vivenciar diferentes formas e ambientes.

Esportes de Lazer

Os esportes de lazer tem como objetivo principal, estimular o convívio social do deficiente visual com as pessoas sendo ela ou não um deficiente, não tem finalidade de competição, ou seja não primam pela performance mas sim pelo bem-estar.

Nestes esportes pode-se incluir a recreação, ou qualquer outra atividade que não tenha fim competitivo, tenha um caráter apenas de desenvolver a autonomia e buscar diferentes vivências para estas pessoas.

Considerações Finais

Este trabalho procura mostrar que, estando a Educação Física presente no cotidiano dos estudantes, os profissionais que trabalham com deficientes visuais, podem ser facilitadores no processo de aprendizagem. Afinal, o aluno é sujeito atuante na construção de seu saber (Brasil, 1998). É importante demonstrar que através da prática do desporto seja ele visando ou não a performance tem como conseqüência principal o resgate da auto-estima destas pessoas.

Pensar num deficiente visual, muitas vezes sugere para muitos um sentimento de dúvida em relação as suas capacidades, por “acharem” que, devido à falta da visão, o seu mundo será totalmente restrito e sem perspectivas. Um trabalho de atividades físicas desenvolvidas para essa clientela dá conta de desmistificar essa idéia equivocada que muitas pessoas possuem.

Outro ponto importante, é que a prática esportiva serve como instrumento para a inclusão social, e além da prática de convívio em grupo de pessoas semelhantes em grau de deficiência, faz com que gere nesses indivíduos um grau maior autonomia em sua vida social fora da atividade esportiva.

A principal questão a ser debatida neste artigo é se os professores de Educação Física têm o conhecimento para poder atuar ajudando estes deficientes, orientando-lhes da melhor maneira possível, e se estão devidamente atualizados sobre estas informações.

O que se viu foi que a maioria dos profissionais desconhecerem as adaptações de alguns esportes para cegos, achando que seja impossível que eles pratiquem esta modalidade por causa da sua natureza e, na maioria dos casos, nos esportes de precisão. Sendo que com algumas alterações a essência do esporte continua e as modalidades só sofrem alterações por causa da natureza da deficiência do indivíduo.

ANEXO 1

Questionário

Cite 3 esportes que você considera impossíveis de encontrar pessoas cegas praticando?
R:

Referências:

BRASIL. MEC. Parâmetros Curriculares Nacionais. Temas Transversais. Brasília: MEC/SEF, 1998.

BRASIL.MEC. Programa Nacional de apoio à educação de deficientes visuais: Orientação e Mobilidade – Projeto Ir e Vir. Brasília: MEC/SEE, 2002.

CPB. História do Esporte Paraolímpico. Disponível em: www.cpb.org.br. Acessado em: 10 de setembro de 2007.

DaCOSTA, L. Atlas do Esporte no Brasil. Rio de Janeiro: Shape, 2005

LUZ, L. M. R. Natação paraolímpica: manual de orientação para professores de educação física – Brasília : Comitê Paraolímpico Brasileiro, 2006.

MATARUNA, L. et al. Inclusão Social para Deficientes Visuais. In: DaCosta, L. Atlas do Esporte no Brasil. Rio de Janeiro: Shape, 2005

Revista Sentidos. Futsal para cegos e Goalbal, qual a diferença?. Disponível em:http://sentidos.uol.com.br/canais/materia.asp?codpag=181&codtipo=1&subcat=86&canal=revista. Acessado em: 05 de dezembro de 2007.

SEVERINO, A.J. Metodologia do trabalho científico: diretrizes para o trabalho didático-científico na Universidade.18ª rev. amp. São Paulo: Cortez, 1992.

THOMAS J.R.; NELSON J.K. Métodos de Pesquisa em Atividade Física. 3.ed. Porto Alegre: ARTMED, 2002.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui