Helena – O Eterno Feminino

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Autoria: Marlene Aparecida

HELENA, O ETERNO FEMININO

Pág. 9. O mito do rapto de Helena é universalmente conhecido, mas em regra, quando se fala da rainha de Esparta, o ângulo investigado é o de sua sedução por Páris, dito também Alexandre, príncipe troiano, filho de Príamo e Hécila, reis de Ilion.

Pág.10….a responsável pela sangrenta Guerra de Tróia (…) qualidade de imortal e de deusa espartana, a seu pedestal de glória, na Ilha dos Bem-aventurados.

Pág. 11. É simplesmente impossível falar da mulher grega de maneira genérica, e isso porque a grosso modo, jamais existiu um Grécia Antiga independente que fosse jurídica, política e socialmente constituída…

Pág. 12… a mulher de Creta era detentora dos mesmos direitos que os homens…

Pág. 13. Na Ilíada e Odisséia (…) existe uma pequena mas encantadora galeria de matizados e apaixonantes retratos femininos…

Pág. 16. O homem prudente une-se a uma mulher comprada, uma escrava que pode enxotar a qualquer momento, e não a uma legitima esposa que possui direitos vagos, porém incontestáveis.

A Idade Lírica (…) a mulher volta a ser o centro das atenções, positiva ou negativamente, ao menos na poesia.

Pág. 17. O poema nos aponta dez tipos diferentes de mulheres, todas indesejáveis, com exceção do ultimo: a mulher suja descendente da porca; a mulher astuta e velhaca procede da raposa; a má e questionadora, da cadela, (…) e por fim a honesta e desejável provém da abelha.

Quanto ao homem, atribui-se a sua criação nos primórdios, ao ser inteligente, sem concurso de mulher.

Pág. 19. … as jovens de Lesbos dedicavam-se com afinco aos esportes atléticos, quando não para conservarem a beleza do corpo, a graça e os encantos femininos.

… para um pais como a Grécia, em que a mulher semi-analfabeta passava o tempo no gineceu ocupando-se do tear e da roca; a “residência das discípulas das musas” foi uma iniciativa corajosa e arrojada (…) a poetisa, a mulher, por sua independência e cultura, tornou-se alvo fácil das chicotadas machistas e conservadoras dos poetas da comédia Ática.

Na poesia de Péricles, a menina já vinha ao mundo como indesejável. O ideal seria que o casal tivesse logo um menino (…) se casando jovem passava a participar do culto familiar do marido…

Pág. 26. Para evitar famílias numerosas e problemas com filhos ilegítimos, praticavam em Atenas a exposição e o aborto, genericamente tidos como legais.

Pág. 28. …o casamento era sempre do homem (…) do qual não participava a mulher, portanto esta em Atenas não tinha direitos, nem políticos, nem jurídicos…

Pág. 29. …os jovens atenienses se casavam por conveniência religiosa e social, e não por gosto…

Pág. 33…. o grego não inovou em matéria de repressão à mulher particularmente no que tange ao matrimonio…

Pag. 35. A função primeira da mulher é dar ao marido um herdeiro, talvez um casal…

Pág. 39. …três ocasiões em que a mulher estava autorizada a ausentar-se do lar: para comparecer a uma festa, para fazer determinadas compras ou para o cumprimento da obrigações religiosas.

Pág. 40. Na literatura, Eurípedes (…) tentou mostrar aquilo de que a mulher era capaz no amor e no ódio (…) como diz Medeia (…) “O coração tem razoes que a própria razão desconhece”(…) das dezessete tragédias euripedianas chegadas até nós, doze são de nomes femininos e treze tem como protagonista uma mulher”.

Pág. 42… a vida de um só homem vale mais que a de milhares de mulheres (Eurípedes, JA, 1394)…

Pág. 44. Um casamento sem amor, apenas para perpetuar a família, fatalmente levaria o ateniense para outros braços (…) as concubinas e heteras…

Pág. 47. .. em Atenas concubinas e heteras eram muito mais amadas do que a esposa legítimas.

Pág. 49. …a mulher espartana é outra vítima de uma estrutura social caduca e ultraconservadora (…) os casamento eram realizados no interior de um mesmo grupo social…

Pág. 51. Mas algo muito estranho ocorria no casamento espartano, cortava os cabelos da jovem e a travestia, com trajes e calçado masculino.

Pág. 52… o travestismo era rito de passagem (…) tinha assim um valor positivo e benéfico: cada um dos sexo adquiria com ele as energias do sexo oposto.

Pág. 53. …As jovens gregas, pouco antes do casamento ofereciam um mecha de cabelo a um deus, a um herói ou a uma heroína (em Esparta era a cabeleira toda). O sentido simbólico desse rito é o de separação, do individuo com a vida profana, para penetrar no sagrado.

Pág. 57. A grande pedagogia espartana resumia-se em ensinar a criança a obedecer sem discutir, a falar estritamente o necessário (…) a suportar pacientemente a fadiga e a perseguir sempre a vitória…

Pág.63. …a mulher grega ainda foi obrigada a enfrentar a concorrência do homossexualisamo…

Pág. 66. Existem pedaços de Helena dispersos por toda a literatura grego-latina e nas obras que tratam de seu mito, inclusive nos dois primeiros volumes de nossa Mitologia Grega.

Pág. 67. O nascimento de Helena foi cercado de acidentes. O nascimento complicado é característica comum a toda a constelação de heróis e heroínas.

Pág. 71… Nêmesis pôs um ovo que foi escondido num bosque, era a semente depositada no seio da terra. O ovo encontrado por um pastor, foi entregue a Leda, consorte de Fíndaro. A princesa o guardou num cesto e, devido tempo nasceu Helena, para os homens a bela das mulheres e o mais grave dos destinos. Tradição que faz de Leda mãe de Helena, metamorfoseada. Também em gansa, acrescenta que Zeus, igualmente em forma de uma ave – um cisne fê-la pôr um ovo, do qual nasceu Helena.

Pág. 71. Segundo uma outra versão, foram dois ovos: de um nasceu Helena e Pólux, imortais; do outro Castor e Clitemnestra, mortais.

Pág. 72. Pela Ilíada se sabe que Helena é filha de Zeus, mas acerca de sua mãe nada se diz (…) a Guerra de Tróia foi considerada pelos Aqueus como uma expedição para vingar o rapto de Helena.

Pág. 73. Troianos e Aqueus lutavam por Helena, a Nêmesis que os punia…

Pág. 73. …A Ilíada (…) herói é Aquiles e a heroína Helena.

Pág. 74. Do casamento de Helena com Menelau teria vindo ao mundo apenas uma filha, Hermiona…

Pág. 75… O gênio de Homero nos oferece em sua Ilíada uma Helena desvinculada de Nêmesis e vitima de Afrodite , embora a idéia de punição permaneça subjacente.

Pág. 76. Através do mito, da epopéia homérica e da literatura clássica grega é possível seguir a evolução de Helena, de deusa a heroína e desta a uma simples mulher adultera e criminosa (…) iniciando sua carreira como gran mãe cretense, Helena chega a Homero através da civilização creto-micênica como heroína e herdeira da apoteose. Converte-se em simples mulher, oscilando entre a fidelidade e a tropeza, entre Penélope e a cadela traidora, no dizer de Eurípedes, uma consumada adultera, um espécie de Frinéia aristocrata…Apenas a conservadora Esparta e alguns outros locais em geral, laconizados, teimaram em manter-lhe o culto e invocá-la como deusa…

Pág. 77. … diz Alsina que o mito de Helena é de origem cretense, isto é, que a futura rainha de Esparta é uma grande mãe. Helena e tantas outras, em função de transformações políticas, sociais e culturais decaíram de seu pedestal de deusas, transformando-se em heroínas, ou foram rebaixadas à condição de princesa ou até mesmo de simples mulheres…

Pág. 79…. o culto à deusa Helena foi sobremodo difundido na antiguidade clássica.

Pág. 80. Helena foi raptada na realidade, tr|ês vezes: a primeira aos sete anos, por Teseu; a segunda por Afidno e a terceira por Páris ou Alexandre.

Pág. 81. … levaram até Roma a Helena dos vales helênicos, ecoando-lhe, no entanto, como se a de mencionar, particularmente o adultério e a responsabilidade pela ruína de tróia.

Pág. 82. Ela própria, refletindo sobre as desgraças que trouxera a gregos e troianos, amaldiçoa seu destino e se julga digna de castigo.

Pág. 83. A catarse da heroína atinge o clímax quando ela saudosa da pátria e do marido, enxerga que Páris é tão comente beleza e sensualidade.

Pág. 84. …ligação entre Alexandre e Helena, apoiada unicamente na atração carnal.

Pág. 88. … o grande épico, na Ilíada e na Odisséia jamais a acusa frontalmente de haver provocado a Guerra de Tróia.

Pág. 89…. Helena mítica, transformada em heroína ou, mais precisamente, em autentica mulher nos poemas homéricos agiu irrefletidamente sob o impulso de Afrodite.

Pág. 90. …uma nova mentalidade social, política e cultural, brilhou no horizonte da Hílade pós-homérica… Helena, descendo o ultimo degrau da escada de ouro que ligava o Olimpo à terra dos mortais, teve seu mito racionalizado e converteu-se em mulher-desejo, em mulher-sexo, quando não em adultera e cadela traidora… Páris, tendo raptado Helena, navegou célebre em direção a Tróia, mas ventos contrários fizeram-no aportar no Egito…

Pág. 98. em Andrômaca, Helena é a lacedemônia pervertida e depravada…

Pág. 99. As torianas marcam ainda mais a aversão do poeta pela adultera rainha de Esparta.

Pág. 104. A deusa dos espartanos era tão somente uma criminosa e adultera indigna de uma imortalidade gloriosa e merecedora de morte infamante (…) Hera, a protetora dos amores legítimos, ferida em sua majestade e orgulho com o julgamento de Páris, fez que este levasse para Tróia não a verdadeira Helena, mas seu ‘corpo astral’.

Pág. 106…. Helena, após a morte receberia como recompensa a apoteose, que seria cultuada como deusa, e que o ínclito Menelau habitaria a Ilha dos Bem-aventurados, Teoclímeno fecha a tragédia com um hino de louvor à mais corajosa casta e digna de todas as mulheres.

Pág. 109. Helena é, a nosso ver, uma peça política em prol da paz, jamais uma desefa da mulher (…) para explicar o rapto da mais bela das mulheres, a rainha de Esparta ou foi coagida, ou vencida pelo poder da palavra, ou enfeitiçada pelo amor.

Pág.111. …na questão de seu rapto Alexandre, o orador deixa claro que o seu objetivo não é justificar o procedimento de Helena, mas sim fazer-lhe tão somente o elogio.

Pág. 112. O rapto da rainha espartana acabou-se sendo altamente benéfico, por ter livrado os gregos de uma escravidão que de outra forma os bárbaros lhes haveriam imposto. Graças a Helena, os desregrados Aqueus se uniram e sobre as cinzas de Tróia, pode então a Europa pela primeira vez erguer um troféu no coração de Ana…

Pág. 113. Morto Páris, por uma flecha de Tiloctetes, Helena foi obrigada a unir-se a Deífobo (…) a beleza divina de Helena era capaz de desarmar qualquer ódio dos mortais, habituados que estavam ao belo em outra dimensão…

Pág. 114. …a presença da heroína no Egito é uma constante quer sozinha, quer em companhia de Páris e mais tarde do esposo.

Pág.115. Mais tarde, terminada a Guerra de Tróia, Menelau encontrou-a no Egito. Nem mesmo após sua morte ou gloriosa apoteose, a rainha de Esparta se libertou dos poetas e escritores gregos e latinos.

Pág. 124. Bem mais benévolo foi Goethe no tratamento dispensado à antiga deusa da vegetação, à heroína micênica, a mulher Helena, à beleza imprescindível do eterno feminino. Se a beleza em si é de pouco apreço, porque efêmera quando vinculada ao amor é o belo perene, que a tudo transcede. O poeta não atrela ao tempo, nem o mito, por ser um perene recomeço. Nem Helena, a mulher, por ser a matriz da vida, a fonte da criação, bem mais próxima de Deus.

Pág. 121…. entre muitos poetas modernos Helena continua sendo sua caminhada, às vezes parecendo que o sangue de Tróia nunca foi expurgado…

Pág. 126. Um aspecto que aflora da análise diacrônica do mito e da personalidade literária de Helena, é seu lento, mas progressivo descenso, de deusa da vegetação, para uma simples mulher, bela e fatal.

Pág. 129. A Helena todavia, por ser mulher, símbolo da reprimida, considerada incapaz, foi a pouco descendo de seu pedestal de filha de Zeus e de rainha de Esparta para converter-se não só na principal responsável pela Guerra de Tróia, mas também numa cadela traidora, num impudica mulher de muitos maridos, uma concubina de reis e príncipes. A cobiça expansionista das duas principais polis da Grécia (…) cujo trágico desfecho dói a Guerra do Poloponeso.

Pág. 130. Como adultera Helena era a esposa do atrida Menelau (…) Helena é a mulher de muitos homens e Menelau o poltrão, o pusilânime, o que se deixou vencer pelos seios desnudos da Frinéia da Lacônia. Helena (…) voltou a compartilhar do néctar e da ambrósia dos imortais (…) Esparta soube honrar a sua deusa, erguendo-lhe um templo e mantendo-lhe um culto permanente. Estava fechado o uróboro. Os deuses também repousaram.

Fonte:

HELENA, O ETERNO FEMININO – BRANDÃO, Junito de Souza. Petrópolis:Vozes, 1989

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