A autora do artigo, Nize Maria Campos Pellanda, inicia-o com uma epígrafe: trecho de Ítalo Calvino. Depois, segue-se a nota introdutória na qual afirma ter sido aquela leitura de Calvino a causadora daquele artigo. A epígrafe explana sobre o caráter multifacetado e pluralístico da literatura. Diferentemente dos outros campos da atividade humana que podem ser reprovados se apresentar uma excessiva ambição de propósitos.

Assim, os modelos que ela retirou do texto serviram como conjeturas para a construção do seu artigo. Um desses pressupostos é o da realidade vista como um sistema dinâmico e complexo; a ciência deixa, pausadamente, de ser generalizada e vai primando pela atenção à particularidade e subsidia a construção inventiva da realidade e do conhecimento.

O primeiro pressuposto que aborda e que considera o principal é de que não há limites epistêmicos e ontológicos para o ser humano. Ou seja, por excelência o ser humano é um ser construtor e que apresenta um auto-diferencial.

Essas idéias, por sua vez, são contrárias às de Kant, que declarava haver limites ao processo cognitivo, e ao inatismo platônico. Alguns pressupostos colocam em dúvida a existência de um mundo acabado e prático a ser representados dentro de nós.

Na verdade, o ser humano vai desenvolvendo a sua cognição à medida que vai atuando/ interagindo com o meio. A partir daí que suas potencialidades começam a emergir e a crescer. Diante dessas relações emaranhadas e energias vemos, claramente, que a realidade e o conhecimento não são processos fragmentados e simplificados, mas sim que estão ligados ao paradigma (modelo) da complexidade.

Há uma desconfiança com relação à existência de uma ciência universal sem vislumbrar as questões complexas da interação, que inclui as subjetividades individuais. A evolução deixa de ser vista, segundo Maturana e Varela, como um processo conduzido pelo princípio da sobrevivência do mais competente, hábil; para ser um processo determinado pela produção de diferença, por uma “evolução criadora”.

A intenção do texto, então, é pensar a cognição numa perspectiva da complexidade, disjunta da lógica formal e governada por processos de autonomia e interação. A leitura, nada mais é que um dispositivo de cognição, mobilizador da capacidade inventiva e autônoma do ser. Sendo, logo, um dispositivo perturbador.

O tema obedece a uma perspectiva autopoiética, na qual não existe realidade externa objetiva, independente do sujeito cognitivo, pensante. A vida e, analogamente, o conhecimento é um processo cognitivo. Os seres vivos se constituem como sistemas fechados, isto é, autônomos e auto-referentes. Por isso, Humberto Maturana e Francisco Varela (biólogos chilenos que desenvolveram a Biologia da Cognição) inventaram o termo autopoesis (do grego, auto= por si mesmo; poesis=produção).

É, portanto, um sistema fechado no qual os seres estão em ininterrupta produção de si mesmos. Depende das interações com o meio, mas este não a determina. No entanto, desencadeia mudanças interiores. Estas, por sua vez, ocasionam atividades cognitivas criadoras das configurações do viver. É, pois, uma teoria biológica e da cognição de forma intrínseca.

Há também a conceituação de “acoplamento estrutural”, que seria uma amarração, conexão dos seres vivos com o meio. E é por meio dessa vinculação que se originam as configurações dinâmicas do sujeito e do meio. Um exemplo de acoplamento é a linguagem. Ela é um modo de acoplamento social humano à medida que modifica as condutas do ser, possibilitando uma conscientização, uma reflexão, uma análise, como a que estou fazendo agora sobre o texto em questão, por exemplo. Eu o li, o interpretei, o estou fazendo um resumo dele a partir dos subsídios que ele me deu e dos conhecimentos que eu já possuía ou vim a possuir com a leitura.

Por isso, a leitura entendida numa perspectiva autopoiética é baseada numa relação leitor-texto. O texto não é algo objetivo, ele se compõe em cada leitor durante a leitura. Ou seja, cada um o interpreta a sua maneira. No entanto, é um instrumento que aumenta em todas as pessoas as sinapses cerebrais, transforma o ser e aperfeiçoa suas capacidades e visões/ relações do mundo.

A Teoria da Biologia da Cognição não surgiu aleatoriamente. Ela é um desdobramento da cibernética (ciência dos anos 40 e 50 do século passado). Foi nessa época que um grupo de cientistas se reuniu em Nova Iorque em dez sessões (Macy Conferences) para discutirem as novas teorias científicas no que concernia ao princípio da auto-organização. Uma dessas foi a da Biocibernética de Heinz Von Foester. Este cientista da cibernética foi quem possibilitou os estudos dos biólogos chilenos e que fez com que eles compreendessem os seres humanos como sistemas auto-organizados.

A grande contribuição da cibernética não foi à invenção do computador, mas sim a nova conceituação e visão de realidade e conhecimento. Já que sujeito e objeto passam a fazer parte da mesma realidade, ou seja, coexistem. E não só os seres, mas também a natureza e as coisas. Tudo num mesmo plano.

Assim, não é possível conceber leitura e cognição como algo que não esteja ligado a esses elementos externos. No entanto, esses elementos aparentemente “externos” estão dentro de nós, assim como toda e qualquer informação. Na Biologia do Conhecer a cognição está vinculada à vivência, à ação e à corporificação. Conhecer é, pois, sempre uma experiência vivida, encarnada, corporificada e ressignificada nos termos subjetivos de cada um em seu processo de viver.

Deleuze diz, ao lembrar Foucault, que a linguagem “é um sistema longe do equilíbrio”. Isso é evidenciado quando concebemos a leitura como mecanismo cognitivo e virtual; sujeito a diferentes interpretações e perturbações, instrumento instável, inacabado e subjetivo. Se não fosse assim não poderia ser um instrumento formador de opinião e subjetivação nos seres.

Ilya Prigogine utilizou a declaração “sistema longe do equilíbrio” na sua Teoria da Estruturas Dissipativas, que se fundamenta na contraposição dos sistemas vivos com os sistemas em equilíbrio.

É o que acontece quando lemos um texto, pois estabelecemos com ele um acoplamento estrutural, já que ele é um instrumento complexo de adaptação à realidade. Esse ato de acoplamento estrutural desestabiliza o sistema, originando novas reconfigurações do texto e do leitor a partir da leitura.

Isso remete ao que elucidamos anteriormente com o conceito de virtualização oferecido pela cibernética. Não há elementos pré-dados, mas sim um devir permanente dos seres humanos. Logo, são idéias de virtualidades que se atualizam com o ato humano. É por isso que todo conhecimento é um autoconhecimento.

A autora, Nize Maria, elucida ainda alguns mecanismos cognitivos para a temática da leitura como cognição:

a) movimento de apropriação (mecanismo que faz o leitor dividir as palavras ou frases dos enunciados para deles extrair sentenças e apropriar-se dos significados);

b) movimento de interação (a partir do momento que eu leio um texto eu ressignifico o meu viver, pois ocorre uma interação entre mim, o texto e o autor);

c) movimento de experimentação (conhecer é experimentar, e é isso que devemos fazer com um texto; nunca devemos tentar interpretá-lo simplesmente, pois a relação com o texto se dá pelo nosso próprio devir);

d) movimento de virtualização/ atualização (a leitura dispara em mim o que antes era virtual configurando uma atualização de mim mesmo, vislumbrado pela característica circulatória entre virtualização e atualização”;

e) movimento das emoções (um texto pode ter a função de provocar emoções que disparam as disposições cognitivas);

f) movimento de invenção (nunca representamos o texto escrito por outrem dentro de nós, nós o reinventamos com nossos próprios termos);

g) movimento da produção de diferença (conhecer é produzir diferença, o texto possibilita tornamo-lo outro) e

h) movimento da imaginação (a imaginação é instrumento cognitivo fundamental, sendo hoje redenominada “simulação”).

Por fim, a autora reitera em “O fim é ali de onde partimos” (T. S. Eliot) os conceitos de virtualidade, de cognição, de acoplamento estrutural, de conhecimento, de autopoesis citando Flores e Winograd, Calvino, Maturana e Nietzsche. A partir dessas repetições, ela correlaciona essas reflexões para a Educação quando fala que a cultura escolar faz o ato da leitura não ter articulação profunda com a vida. E nos deixa uma pergunta no ar ao indagar de que maneira podemos articular as novas descobertas científicas no nosso dia-a-dia. Só que no parágrafo seguinte ela própria responde a sua indagação com citações de Maturana e Rosenblatt.

Maturana ao dizer que educar é “criar espaços de convivência”. A partir desses espaços, o ser humano interage com os outros e mobiliza-se devido às perturbações causadas por estas interações. Um espaço para diferença de o ser humano tornar-se si “mesmo”. Já Rosenblatt versa sobre uma pedagogia nova, que chama transacional. Um ambiente propício à estimulação de insights relativos a transações com textos.

Numa circularidade, finaliza o artigo colocando a questão do infinito e citando Lévy ao concordar com este de que a leitura é uma tecnologia intelectual. Já que ela pode atualizar/ virtualizar um texto e concomitantemente a isso também podemos fazer o mesmo com nossas vidas numa espiral infinita.

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