Lygia Fagundes Telles começou a escrever quando tinha oito anos. Com a caneta na mão direita, traçava estórias de horror nas últimas páginas de seus cadernos escolares. Posteriormente, a autora consideraria esses primeiros livros “imaturos e precipitados”.

Contista e romancista, Lygia nasceu em São Paulo a 19 de abril de 1923. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo em 1945. Na mesma universidade, concluiu o curso de Educação Física. Estreou em 1938 com os contos de Porões e Sobrados bem aclamados pela crítica e retirado pela escritora da relação de sua obra. Em 1944, Lygia publicou Praia Viva e, a partir daí, firmou-se em sua crescente carreira literária.

O Verão no Aquário, segundo romance da autora, foi publicado em 1963. A história é narrada em primeira pessoa. A personagem Raíza conta sua vida. Durante um verão, acentua-se o conflito de gerações entre a mãe, Patrícia, e a filha Raíza elemento constante no romance. Raíza reflete os abismos de uma geração sem nada a ouvir, sem escutar os mais velhos – para ela, eles nada têm a dizer. Sua mãe, escritora de renome, é representante da geração dos mais idosos e, por isso, sofre constantemente com as ironias e discussões promovidas pela filha.

O mundo interior de Raíza, ideal somente para ela, é constituído por pensamentos distantes da ação. Na verdade, cotidianamente, Raíza vive a alguém, formula um plano de conquista e ver-se impossibilitada de tomar a iniciativa e fraqueja, desanimando com tudo e todos.

De acordo com o avanço da narrativa, as recordações vão gradativamente aumentando a interioridade dos fatos, chegando ao presente narrado. Por meio das lembranças confusas no universo mental das personagens, pode-se reconstituir um passado que se faz presente no drama.

Raíza enciúma-se pela relação, que acha existir, entre sua mãe e André. Tenta seduzi-lo por todos os meios, mas ele se esquiva. Depois de muita insistência, a jovem consegue conquistá-lo, e numa noite de tempestade. André sente-se culpado por ter cedido à tentação e se suicida. Esse fato contribui para o reencontro de Raíza e Patrícia. A oposição entre mãe e filha se acentua quando André, ex-seminarista e amargurado por uma infância infeliz, surgem na trama. André não consegue se decidir pela vida eclesiástica nem pelo abandono de sua carreira religiosa.

E a autora utiliza-se da esperança existente no ser humano para a libertação de seus medos, de suas dúvidas. m verdade, a ambientação do drama familiar atinge sua resolução com o aniquilamento de uma vida que propõe o reencontro de duas. Lygia procura romper os círculos de solidão que enlaçam seus personagens ao libertá-los das ataduras feitas para o confinamento em si mesmo.

Existe a presença da técnica de interposição de planos psicológico e cronológico. O tempo psicológico cronometra as sensações e vivências das personagens. Em Verão no Aquário, Lygia emprega a narrativa em primeira pessoa, deixando-se, assim, penetrar pelas personagens e emprestar sua voz a elas para que surjam vivas e verossímeis aos olhos do leitor. Ela não narra, mas analisa a narrativa.

A autora aderiu ao romance das grandes cidades do sul, de multidões nas ruas e solidão na alma das personagens. O que está fora do homem – lugares, objetos e sensações importam apenas na proporção em que constituem índices e pistas de uma forma de ser interior. Lygia cria seres ficcionais que possui uma vida psicológica e isso os individualiza. Sua ficção alcança caráter intimista, na proporção em que a autora expõe suas personagens às situações de solidão e o suicídio, por exemplo.

Para alguns autores, como Nelly Novaes o caráter ficcional de Lygia ultrapassa várias barreiras, atingindo o abstrato de sua obra e de seus questionamentos. O amor com o qual a autora dá-se em constante conflito inspira-lhe autoconfiança e o desejo de ser lida para não ser compreendida. Para a mesma o sentido real das coisas que a cercam está no que é vivido Para todo tipo de assunto há um para quê, um por que e um do quê.

O mundo de ficção lygiano expõe a complexidade da vida humana. É parte constitutiva de esse ser possuir um caráter ontológico sem ser condicionado por uma falha no relacionamento entre os homens. Assim, Raíza inscreve uma trajetória para poder chegar às raízes prováveis deste comportamento, ao sentido das atitudes humanas. Por meio de elementos isolados, aparentemente desagregados, todo um drama intrincado de mistérios se retorce, e borda um painel introspectivo e psicológico no romance.

Na verdade, o leitor se vê num jogo no qual se descobrir o verdadeiro ponto que a autora quis atingir e acaba perdendo o jogo. A vitória fica para aqueles que chegam ao final da partida com um gostinho de mistério e dúvida. O aquário é o mundo de Raíza. Na transparência de sua figura, busca um desvendamento para seus tormentos psicológicos.

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