O Tropicalismo foi um movimento artístico-cultural do final da década de 60, mas precisamente no final de 1967, que usando a irreverência, a alegria e a improvisação, revolucionou a música popular brasileira, inaugurando conceitos e tendências que iriam determinar na concepção da arte brasileira, até então dominada pela estética da bossa nova..

Sendo liderado pelos baianos Gilberto Gil e Caetano Veloso, o movimento tropicalista utilizou as idéias do manifesto antropofágico de Oswald de Andrade, se baseando também na contra-cultura, usando valores dos aceitos pela cultura dominante, incluindo referências consideradas cafonas e ultrapassadas. A realidade tropical nacional se apresentava numa forma “geléia geral”, descontínua e heterogênea, tão fragmentada que às vezes até contraditório, reflexo de uma busca constante por uma identidade nacional e uma política mais justa e democrática.

Acompanhadas por guitarras elétricas, as canções tropicalistas, como Alegria Alegria e Domingo no Parque, causaram polêmica na classe média universitária nacionalista contrária às influências estrangeiras nas artes brasileiras. O disco Tropicália e Panis et Circenses, manifesto musical do movimento, vai da estética brega à influência do rock e dos Beatles, contudo, com os arranjos de Rogério Duprat, não deixando de incluir o refinamento da Bossa Nova .

Fruto da audácia de novos talentos, o movimento entra no âmbito das mais diversas atividades artísticas, como o teatro, artes plásticas, cinema e com maior destaque, a música. Estas novas idéias se refletem nos mais diversos campos artísticos, como é o caso do cinema novo, de Glauber Rocha, que faz severas críticas à transformação (“redução”) da obra de arte em instrumento político. Terra em Transe, exibido em 1967, demonstra a descrença na política, a busca de uma nova linguagem e a presença do misticismo, características que já apontam para o Tropicalismo. Nas artes plásticas vale ressaltar a figura de Hélio Oiticica, que em abril de 67 apresenta no MAM uma espécie de labirinto, que buscava envolver o público com imagens tropicais, nostálgicas e lúdicas, estas que anunciavam um futuro próximo, industrial e tecnológico, representado pela TV. Também o teatro se envolveu numa busca de uma estética tropicalista. Exemplo disso é a montagem da peça “O rei da vela”, de Oswald de Andrade, com direção de José Celso Martinez Corrêa, em 1967, que explora o universo dos países dominadores em relação às suas “colônias”. Aliás, o nome do movimento vem do título da canção Tropicália, de Caetano Veloso, extraído dessa instalação de Hélio Oiticica, tendo sido composta sob o impacto do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, e que também tem afinidades com a encenação de O Rei da Vela. Atuando no contexto da MPB e dos festivais marcados pela defesa da musica nacional contra a influência estrangeira, as canções tropicalistas incorporam polemicamente a guitarra elétrica, símbolo do rock e do pop, e conjugam gêneros diferentes, como samba de roda ao bolero urbano, do repente nordestino à música de vanguarda, do frevo à Jimi Hendrix.

Com idéias revolucionárias, como “eu organizo o movimento, eu oriento o carnaval, eu inauguro o monumento no Planalto Central do país”, “o poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia” e “é proibido proibir” o movimento atuou principalmente na televisão, nos festivais da canção da TV Record contrapostos intencionalmente a aparições na Discoteca do Chacrinha e no programa Divino Maravilhoso, na Tv Tupi, interrompido pelo ato institucional nº 5, o AI-5, em dezembro de 1968, quando Gil e Caetano foram presos pelo governo militar.

Participaram ainda do movimento, os letristas Torquato Neto e Capinan, as cantoras Gal Costa, Maria Bethânia e Nara Leão, o grupo de rock Mutantes, Tom Zé, o compositor Jorge Ben e os arranjadores Rogério Duprat, Damiano Cozzella e Julio Medaglia, vindos do campo da música erudita de vanguarda para a música das massas.

Em contraste com as canções de protesto, da justiça social, baseadas no samba ou na moda-da-viola, procurando corresponder a um ideal de identidade cultural originado nas raízes nacionais, o movimento tropicalista expõe gritantemente as intersecções do moderno e do arcaico, do nacional e do estrangeiro, da cultura alta e do mundo de massas. Ao lado de seu teor de intervenção poético-musical, o tropicalismo produziu controvérsia no campo comportamental ao atuar de forma agressiva sobre hábitos arraigados ligados à corporalidade, à sexualidade, ao vestuário e ao gosto estético.

Com isso, o tropicalismo pode ser intitulado como a reação brasileira da nova onda de mudança cultural, comportamental, social e política que corria o mundo no final da década de 60, acarretando uma ruptura com o tradicionalismo, abrindo espaço para liberdade de tendências e experiências, criando uma identidade cultural livre de preceitos, como o seu próprio lema: “é proibido proibir”.

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