Sistema esquelético

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A human skeleton. Front and back view isolated on a white background. Vector illustration

Autoria: Helena Maria Tofol

SISTEMA ESQUELÉTICO

CAPÍTULO I

SISTEMA ESQUELÉTICO

1. Conceito de Esqueleto

Osteologia, em sentido restrito e etimologicamente, é o estudo dos ossos. Em sentido mais amplo inclui o estudo das formações intimamente ligadas ou relacionadas com os ossos, com eles formando um todo — o esqueleto.

Este, a julgar pelo emprego rotineiro do termo, poderia significar a simples reunião dos ossos, mas na realidade transcende este sentido significando “arcabouço” (daí esqueleto fibroso do coração, esqueleto cartilagíneo, etc.). Assim sendo, podemos definir o esqueleto como o conjunto de ossos e cartilagens que se interligam para formar o arcabouço do corpo do animal e desempenhar varias funções. Por sua vez os ossos são definidos como peças rijas, de número, coloração e forma variáveis e que, em conjunto, constituem o esqueleto.

2. Funções do Esqueleto

Como funções importantes para o esqueleto podemos apontar: proteção (para órgãos como o coração, pulmões e sistema nervoso central); sustentação e conformação do corpo; local de armazenamento de íons Ca e P (durante a gravidez a calcificação fetal se faz, em grande parte, pela reabsorção destes elementos armazenados no organismo materno); sistema de alavancas que movimentadas pelos músculos permitem os deslocamentos do corpo, no todo ou em parte e, finalmente, local de produção de certas células do sangue.

3. Tipos de Esqueletos

O esqueleto pode-se apresentar com todas as peças ou com ossos isolados inteiramente uns dos outros. No primeiro caso fala-se em esqueleto articulado; no segundo, esqueleto desarticulado.

No caso de tratar-se de um esqueleto articulado, podemos verificar que a união entre os ossos pode ser natural (isto é, feita pelos próprios ligamentos e cartilagens dessecadas), artificial (ligação dos ossos por meio de peças metálicas) e pode ser misto (quando são usados os dois processos de interligação). Quando se percorre a escala zoológica, verifica-se interessante modificação na posição do arcabouço de sustentação dos organismos.

Assim vê-se entre os artrópodos, que a base de sustentação é externa: há um exosqueleto e a esta porção externa mais rígida se prendem as partes moles. (Fig. 1).

Fig. 1. Dynastes tityrus, com seu exosqueleto

Com a evolução aparece um esqueleto interno, endosqueleto que, pouco a pouco substitui o exosqueleto (menos funcional para o tipo avançado de animal) (Fig. 2)

Fig. 2. Endosqueleto de quadrúpede (bovino)

Nos peixes, nos tatus, nos quelônios, nos crocodilos, podemos verificar a presença de um endosqueleto já bem desenvolvido, embora esteja ainda conservado, como resto da condição primitiva, um exosqueleto com graus de desenvolvimento muito variáveis. (Fig. 3).

Fig. 3. O tatu é um animal que apresenta exo e endosqueleto.

Ao homem restou apenas o endosqueleto, podendo-se olhar a estratificação da epiderme e a corneificação de sua camada mais externa como a “lembrança” da condição primitiva.

4. Divisão do Esqueleto

O esqueleto pode ser dividido em duas grandes porções. Uma mediana, formando o eixo do corpo, e composta pelos ossos da cabeça, pescoço e tronco (tórax e abdome): é o esqueleto axial; outra, apensa a esta, forma os membros e constitui o esqueleto apendicular. A união entre estas duas porções se faz por meio de cinturas: escapular (ou torácica, constituída pela escápula e clavícula) e pélvica constituída pelos ossos do quadril (coxais). Observe as figuras seguintes que representam os esqueletos axial, apendicular, e as cinturas, escapular e pélvica, com os ossos que as constituem (Figs. 4, 5a e 5b, 6a e 6b, 7, 8).

Fig. 4. Esqueleto Axial

Fig. 5 a – Esqueleto do membro superior, visto anteriormente

Fig. 5 b – Esqueleto do membro superior, visto posteriormente

Fig. 6 a – Esqueleto do membro inferior, visto anteriormente

Fig. 6 b – Esqueleto do membro inferior, visto lateralmente.

Fig. 7. Esqueleto da cintura escapular, visto posteriormente.

Fig. 8. Esqueleto da cintura pélvica, visto anteriormente

5. Número dos ossos

No indivíduo adulto, idade na qual se considera completado o desenvolvimento orgânico, o número de ossos é de 206. este número, todavia, varia, se levarmos em consideração os seguintes fatores:

Fatores Etários: Do nascimento à senilidade há uma diminuição do número de ossos. Isto deve-se ao fato de que, certos ossos, no recém-nascido, são formados de partes ósseas que se soldam durante o desenvolvimento do indivíduo para constituir um osso único no adulto. Assim, o osso frontal é formado por duas porções, separadas no plano mediano. A figura 9, mostra um crânio de feto onde o fato pode ser observado.

Fig. 9. Crânio Fetal

O osso do quadril, no feto, é constituído de três partes, ísquio, pube e ílio, que posteriormente se soldam para formar um osso único no adulto. (Fig. 10).

Fig. 10. Osso do quadril, de feto e criança.

Por outro lado, nos indivíduos muito idosos, há tendência para a soldadura de dois ou mais ossos, levando a uma diminuição do seu número total. Este fato ocorre principalmente entre os ossos do crânio (sinostose), podendo transformar a abóbada craniana em um único osso.

Fatores individuais: Em alguns indivíduos pode haver persistência da divisão do osso frontal no adulto e ossos extranumerários podem ocorrer, determinando variação no número de ossos.

Critérios de contagem: Os anatomistas utilizam às vezes critérios muito pessoais para fazer a contagem do número de ossos do esqueleto e isto explica a divergência de resultados quando os comparamos. Assim, os ossos chamados sesamóides (inclusos em tendões musculares) são computados ou não na contagem global, segundo o autor. O mesmo ocorre com os ossículos do ouvido médio, ora computados, ora não.

6. Classificação dos Ossos

Há várias maneiras de classificar os ossos. Eles podem, por exemplo, ser classificados pela sua posição topográfica, reconhecendo-se ossos axiais (que pertencem ao esqueleto axial) e apendiculares (que fazem parte do esqueleto apendicular). Entretanto, a classificação mais difundida é aquela que leva em consideração a forma dos ossos, classificando-os segundo a predominância de uma das dimensões (comprimento, largura ou espessura) sobre as outras duas. Assim, reconhecem-se:

Osso Longo: È aquele que apresenta um comprimento consideravelmente maior que a largura e a espessura. Exemplos típicos são os ossos do esqueleto apendicular: fêmur, úmero, rádio, ulna, tíbia, fíbula, falanges. A figura 11 representa um osso longo.

Fig. 11. Fêmur, visto posteriormente.

Observe como o osso longo apresenta duas extremidades, denominadas epífises e um corpo, a diáfise. Esta possui, no seu interior, uma cavidade – canal medular (Fig. 16A), que aloja a medula óssea. Por essa razão os ossos longos são também chamados tubulares. Nos ossos em que a ossificação ainda não se completou, é possível visualizar entre a epífise e a diáfise um disco cartilaginoso — cartilagem epifisial, relacionado com o crescimento do osso em comprimento. (Fig. 16 A e 16 B).

Osso Laminar: Também chamado (impropriamente) plano, é o que apresenta comprimento e largura equivalentes, predominando sobre a espessura. Ossos do crânio, como o parietal, frontal, occipital e outros como a escápula e o osso do quadril, são exemplos bem demonstrativos. (Figs. 12 A, 12 B, 12 C).

Fig. 12 A. Occipital, visto inferiormente

Fig. 12 B. Escápula, vista anteriormente.

Fig. 12 C. Osso do quadril, visto lateralmente.

Osso Curto: È aquele que apresenta equivalência das três dimensões. Os ossos do carpo e do tarso são excelentes exemplos (Figs. 13 A e 13 B).

Fig. 13 A . Esqueleto da mão

Fig. 13 B. Esqueleto do pé

Existem ossos que não podem ser classificados em nenhum dos tipos descritos acima e são, por esta razão e por características que lhe são peculiares, colocados dentro de uma das categorias seguintes:

Osso Irregular: Apresenta uma morfologia complexa que não encontra correspondência em formas geométricas conhecidas. As vértebras e o osso temporal são exemplos marcantes. (Fig. 14 A e 14 B).

Fig. 14 A. Vértebra torácica, vista superiormente.

Fig. 14 B. Temporal, visto lateralmente.

Osso Pneumático: Apresenta uma ou mais cavidades, de volume variável, revestidos de mucosa e contendo ar. Estas cavidades recebem o nome de sinus ou seio. Os ossos pneumáticos estão situados no crânio: frontal, maxilar, temporal, etmóide e esfenóide. (Fig. 15).

Fig. 15. Maxilar, visto medialmente.

Repare que há ossos que, dadas as suas peculiaridades morfológicas, são classificados em mais de um grupo: o frontal, por exemplo, é um osso laminar, mas também pneumático; o maxilar é irregular, mas também pneumático.

Ossos Sesamóides: Desenvolvem-se na substância de certos tendões ou da cápsula fibrosa que envolve certas articulações. Os primeiro são chamados intratendíneos e os segundos peri-articulares. A patela é um exemplo típico de osso sesamóide intratendíneo. (Figs 6 A e 6 B).

7. Tipos de Substância Óssea

O estudo microscópico do tecido ósseo distingue a substância óssea compacta e a esponjosa. Embora os elementos constituintes sejam os mesmos nos dois tipos de substância óssea, eles dispõem-se diferentemente conforme o tipo considerado e seu aspecto macroscópico também difere. Na substância óssea compacta, as lamínulas de tecido ósseo encontram-se fortemente unidas umas às outras pelas suas fases, sem que haja espaço livre interposto. Por esta razão, este tipo é mais denso e rijo. Na substância óssea esponjosa as lamínulas ósseas, mas irregulares em forma e tamanho, se arranjam de forma a deixar entre si espaços ou lacunas que se comunicam umas com as outras. As ilustrações abaixo mostram os dois tipos de substância óssea num osso longo, em corte frontal e em corte transversal. (Fig. 16 A e 16 B).

Observe nas duas ilustrações a presença do canal medular que aloja a medula óssea. Esta também e encontrada nos espaços existentes entre as trabéculas de substância óssea esponjosa.

Fig. 16 A . Corte frontal de um osso longo

Fig. 16 B. Corte transversal ao nível da diáfise de um osso longo

8. Elementos Descritivos da Superfície dos Ossos

Os ossos apresentam na sua superfície, depressões, saliências e aberturas que constituem elementos descritivos par seu estudo. As saliências servem para articular os ossos entre si ou para a fixação de músculos, ligamentos, cartilagens etc. As superfícies que se destinam à articulação com outra (s) peça (s) esquelética (s) são ditas articulares; são lisas e revestidas de cartilagem, comumente hialina, que é destruída durante o processo de preparação dos ossos para estudo. Entre as saliências reconhecem-se: cabeças, côndilos, cristas, eminências, tubérculos, tuberosidades, processos, linhas, espinhas, trócleas etc. As depressões podem, como as saliências, ser articulares ou não, e entre elas citam-se as fossas, fossetas, impressões, sulcos, recessos, etc. Entre as aberturas, em geral destinadas á passagem de nervos ou vasos, encontram-se os forames, meatos, óstios, poros, etc. Impõe-se uma ressalva: os critérios para estas denominações nem sempre são lógicos, sendo conservadas pela consagração do uso.

9. Periósteo

No vivente e no cadáver o osso se encontra sempre revestido por delicada membrana conjuntiva, com exceção das superfícies articulares. Esta membrana é denominada periósteo e apresenta dois folhetos: um superficial e outro profundo, este em contato direto com a superfície óssea. A camada profunda é chamada osteogênica pelo fato de suas células se transformarem em células ósseas, que são incorporadas à superfície do osso, promovendo assim o seu espessamento. Este mecanismo, assim como as minúcias estruturais, devem ser estudadas em Histologia.

10. Nutrição

Os ossos, seja devido à sua função hemopoiética, seja pelo fato de se apresentarem com um desenvolvimento lento e contínuo, são altamente vascularizados.

As artérias do periósteo penetram no osso, irrigando-o e distribuindo-se na medula óssea. Por esta razão, desprovido do seu periósteo o osso deixa de ser nutrido e morre.

CAPÍTULO II

JUNTURAS

1. Conceito

Os ossos unem-se uns aos outros para constituir o esqueleto. Esta união não tem a finalidade exclusiva de colocar os ossos em contato, mas também a de permitir mobilidade. Por outro lado, como esta união não se faz da mesma maneira entre todos os ossos, a maior ou menor possibilidade de movimento varia com o tipo de união. Para designar a conexão existente entre quaisquer partes rígidas do esqueleto, quer sejam ossos, quer cartilagens, empregamos os termos juntura ou articulação.

2. Classificação das Junturas

Embora apresentem consideráveis variações entre elas, as junturas possuem certos aspectos estruturais e funcionais em comum que permitem classifica-las em três grandes grupos: fibrosas, cartilaginosas e sinoviais. O critério para esta divisão é o da natureza do elemento que se impõem às peças que se articulam.

2.1. Junturas Fibrosas

As junturas nas quais o elemento que se interpõe às peças que se articulam é o tecido conjuntivo fibroso são ditas fibrosas, e a grande maioria delas se apresenta no crânio. É evidente que a mobilidade nestas junturas é extremamente reduzida, embora o tecido conjuntivo interposto confira uma certa elasticidade ao crânio.

Há dois tipos de junturas fibrosas:

Suturas – São encontradas entre os ossos do crânio. A maneira pela qual as bordas dos ossos articulados entram em contato é variável, reconhecendo-se suturas planas (união linear retilínea ou aproximadamente retilínea), suturas escamosas (união em bisel) e suturas serreadas (união em linha “denteada”).

No crânio, a juntura entre os ossos nasais é uma sutura plana; entre os parietais, sutura denteada; entre o parietal e o temporal escamosa.

No crânio do feto e recém-nascido, onde a ossificação ainda é incompleta, a quantidade de tecido conjuntivo fibroso interposto é muito maior, explicando a grande separação entre os ossos e uma maior mobilidade. É isto que permite, no momento do parto, uma redução bastante apreciável do volume da cabeça fetal pelo “cavalgamento”, digamos assim, dos ossos do crânio. Esta redução de volume facilita a expulsão do feto para o meio exterior (Fig. 1).

Fig. 1. Crânio fetal, onde se notam as fontanelas

Se observar atentamente a figura acima, que representa um crânio de feto em vista superior, um outro fator pode ser notado: em alguns pontos a separação entre os ossos é maior pela presença de maior quantidade de tecido conjuntivo fibroso. Estes são pontos fracos na estrutura do crânio, denominados fontanelas ou fontículos e vulgarmente chamados “moleiras”. Desaparecem quando se completa a ossificação dos ossos do crânio.

Seria interessante lembrar que na idade avançada pode ocorrer ossificação do tecido interposto (sinostose), fazendo com que as suturas, pouco a pouco, desapareçam e, com elas, a elasticidade do crânio.

Sindesmoses – Nestas junturas o tecido interposto é também o conjuntivo fibroso, mas não ocorrem entre os ossos do crânio. Na verdade, a Nomenclatura Anatômica só registra um exemplo: Síndrome tíbio-fibular, isto é, a que se faz entre as extremidades distais da tíbia e da fíbula.

2.2. Junturas Cartilaginosas

Neste grupo de junturas o tecido que se interpõe é cartilaginoso. Quando se trata de cartilagem hialina, temos as sincondroses; nas sínfises a cartilagem é fibrosa. Em ambas a mobilidade é reduzida. As sincondroses são raras e o exemplo mais típico é a sincondrose esfeno-occipital que pode ser visualizada na base do crânio.

Exemplos de sínfise encontram na união, no plano mediano, entre as porções púbicas dos ossos do quadril, constituindo a sínfise púbica.

Também as junturas que se fazem entre os corpos das vértebras podem ser consideradas como sínfise, uma vez que se interpõe entre eles um disco de fibrocartilagem – o disco intervertebral.

2.3. Junturas Sinoviais

A mobilidade exige livre deslizamento de uma superfície óssea contra outra e isto é impossível quando entre elas interpõe-se um meio de ligação, seja conjuntivo fibroso ou cartilagíneo. Para que haja o grau desejável de movimento, em muitas junturas, o elemento que se interpõe às peças que se articulam é um líquido denominado sinóvia ou líquido sinovial. Deste modo, os meios de união entre as peças esqueléticas articuladas não se prendem nas superfícies de articulação, como ocorre nas junturas fibrosas e cartilaginosas: nas junturas sinoviais o principal meio de união é representado pela cápsula articular, espécie de manguito que envolve a articulação prendendo-se nos ossos que se articulam. A figura 2a e 2b ilustra o fato.

Fig. 2a – Corte frontal de uma juntura sinovial

Fig. 2b – Cápsula articular de articulação do quadril

O corte frontal (esquemático) de uma juntura sinovial mostra a presença de uma cavidade articular. (Fig. 2a e fig. 3)

Fig. 3 – Corte frontal da articulação do ombro

A cavidade articular é um espaço virtual onde se encontra o líquido sinovial. Este é o lubrificante natural da juntura, que permite o deslizamento com um mínimo de atrito e desgaste.

Nota-se que a cápsula articular, cavidade articular e líquido sinovial (sinóvia) são características da juntura sinovial. Nos tópicos seguintes certas considerações são feitas com relação a este importante tipo de juntura

2.3.1. Superfícies articulares e seu revestimento

Sabemos que superfícies articulares são aquelas que entram em contato numa determinada juntura. Estas superfícies são revestidas em toda a sua extensão, por cartilagem hialina (cartilagem articular) que representa a porção do osso que não foi invadida pela ossificação. Em virtude deste revestimento as superfícies articulares se apresentam lisas, polidas e de cor esbranquiçadas (Fig. 4). São superfícies de movimento e, portanto, suas funções estão condicionadas a ele: a redução da mobilidade na articulação pode levar à fibrose da cartilagem articular, com anquilose da juntura (perda da mobilidade). A cartilagem articular é avascular e não possui também inervação. Sua nutrição, portanto, principalmente nas áreas mais centrais, é precária, o que torna a regeneração, em caso de lesões, mais difícil e lenta.

2.3.2. Cápsula Articular

Sendo uma membrana conjuntiva que envolve a juntura sinovial como um manguito. Apresenta-se com duas camadas: a membrana fibrosa (externa) e a membrana sinovial (interna). A primeira é mais resistente e pode estar reforçada, em alguns pontos, por feixes também fibrosos, que constituem os ligamentos capsulares, destinados a aumentar sua resistência. Em muitas junturas sinoviais, todavia, existem ligamentos independentes da cápsula articular denominados extra-capsulares ou acessórios e em algumas, como na do joelho, aparecem também ligamentos intra-articulares (Fig. 4).

Fig. 4 – Articulação do joelho, vista anteriormente.

A cápsula articular foi retirada a fim de visualizar-se as demais estruturas.

Ligamentos e cápsula articular têm por finalidade manter a união entre os ossos, mas além disto, impedem o movimento em planos indesejáveis e limitam a amplitude dos movimentos considerados normais.

A membrana sinovial é a mais interna das camadas da cápsula articular. É abundantemente vascularizada e inervada, sendo encarregada da produção da sinóvia (líquido sinovial). Discute-se se a sinóvia é uma verdadeira secreção ou um ultrafiltrado do sangue, mas é certo que contém ácido hialurônico que lhe confere a viscosidade necessária à sua função lubrificadora.

2.3.3. Discos e Meniscos

Em várias junturas sinoviais, interpostas às superfícies articulares, encontram-se formações fibro-cartilagíneas, os discos e meniscos intra-articulares, de função discutida: serviriam à melhor adaptação das superfícies que se articulam (tornando-as congruentes) ou seriam estruturas destinadas a receber violentas pressões, agindo como amortecedores. Meniscos, com sua característica forma de meia lua, são encontrados na articulação do joelho. (Fig. 4 e 5).

Fig. 5 – Articulação do joelho, vista posteriormente.

Exemplo de disco intra-articular encontramos nas articulações esternoclavicular e têmporomandibular (Fig. 6).

Fig. 6 – Articulação esternoclavicular.

Do lado esquerdo foi feito um corte frontal para mostrar o disco.

Os meniscos do joelho são freqüentemente lesados e sua retirada cirúrgica é bastante comum. Algumas vezes, após a retirada, forma-se um novo menisco réplica do primeiro, porém, não mais constituído de fibrocartilagem mas sim de conjuntivo fibroso denso, menos resistente.

2.3.4. Principais movimentos realizados pelos segmentos do corpo

O movimento em uma articulação faz-se, obrigatoriamente, em torno de um eixo, denominado eixo de movimento. A direção destes eixos é antero-posterior (ventro-dorsal), látero-lateral e longitudinal (crânio-caudal).

Na análise do movimento realizado, a determinação do eixo de movimento é feita obedecendo à regra, segundo a qual, a direção do eixo de movimento é sempre perpendicular ao plano no qual se realiza o movimento em questão. Assim, todo movimento é realizado em um plano determinado e o seu eixo de movimento é perpendicular àquele plano. Os movimentos executados pelos segmentos do corpo recebem nomes específicos e aqui serão definidos apenas o mais importantes.

Movimentos angulares – Nestes movimentos há uma diminuição ou aumento do ângulo existente entre o segmento que se desloca e aquele que permanece fixo. Quando ocorre a diminuição do ângulo diz-se há flexão; quando ocorre o aumento, realizou-se a extensão. A figura abaixo mostra a flexão e a extensão do antebraço. (Fig. 7).

Os movimentos angulares de flexão e extensão ocorrem em plano sagital (ventro-dorsal) e, seguindo a regra, o eixo desses movimentos é látero-lateral.

Fig. 7.

Adução e abdução – São movimentos nos quais o segmento é deslocado, respectivamente, em direção ao plano mediano ou em direção oposta, isto é, afastando-se dele. Para os dedos prevalece o plano mediano do membro.

Os movimentos da adução e abdução desenvolvem-se em plano frontal e seu eixo de movimento é antero-posterior. É preciso ter sempre em mente que a realização do movimento é feita levando-se em consideração a posição de descrição anatômica. Quase sempre o estudante ao realizar a adução ou abdução da mão flete o antebraço. Nesta falsa posição o plano do movimento passa a ser horizontal e o estudante determina o eixo de movimento, erradamente, como sendo vertical.

Rotação – È o movimento em que o segmento gira em torno de um eixo longitudinal (vertical). Assim, nos membros, pode-se reconhecer uma rotação medial, quando a face anterior do membro gira em direção ao plano mediano do corpo, e uma rotação lateral, no movimento oposto. Repare que a regra geral continua a ser obedecida, isto é, a rotação, considerada a posição de descrição anatômica, é feita em plano horizontal e o eixo de movimento, perpendicular a este plano é vertical.

Circundação – Em alguns segmentos do corpo, especialmente nos membros, o movimento combinatório que inclui a adução, extensão, abdução e flexão resulta na circundação. Neste tipo de movimento, a extremidade distal do segmento descreve um circulo e o corpo do segmento, um cone, cujo vértice é representado pela articulação que se movimenta.

2.3.5. Classificação Funcional das Junturas Sinoviais

O movimento nas articulações depende, essencialmente, da forma das superfícies que entram em contato e dos meios de união que podem limita-lo. Na dependência destes fatores as articulações podem realizar movimentos em torno de um, dois ou três eixos. Este é o critério adotado para classifica-los funcionalmente. Quando uma articulação realiza movimentos apenas em torno de um eixo, diz-se que é mono-axial ou que possui um só grau de liberdade; será bi-axial a que os realiza em torno de dois eixos (dois graus de liberdade) e tri-axial se eles forem realizados em torno de três eixos (três graus de liberdade). Assim, as articulações que só permitem a flexão e extensão, como a do cotovelo, são mono-axiais; aquelas que realizam extensão, flexão, adução e abdução, como a rádio-cárpica (articulação do punho), são bi-axiais; finalmente, as que além de flexão, extensão, abdução e adução, permitem também a rotação, são ditas tri-axiais, cujos exemplos típicos são as articulações do ombro e do quadril.

2.3.6. Classificação Morfológica das Junturas Sinoviais

O critério de base para a classificação morfológica das junturas sinoviais é a forma das superfícies articulares. É fora de dúvida que o simples exame destas superfícies indica consideráveis variações morfológicas. Isto é tanto mais importante quando se sabe que a variedade e mesmo a amplitude dos movimentos realizáveis em uma articulação dependem do tipo de “encaixe ósseo”, ou seja, da morfologia das superfícies que entram em contato. Há grandes divergências entre os autores quanto à nomenclatura a ser empregada nesta classificação. Nos tipos que são descritos a seguir, se conservou a nomenclatura oficial, com as ressalvas que pareceram válidas.

Plana: As superfícies articulares são planas ou ligeiramente curvas, permitindo deslizamento de uma superfície sobre a outra em qualquer direção. A articulação sacro-ilíaca (entre o sacro e a porção ilíaca do osso do quadril) é um exemplo. Deslizamento existe em todas as junturas sinoviais mas nas articulações planas ele é discreto, fazendo com que a amplitude do movimento seja bastante reduzida. Entretanto, deve-se ressaltar que pequenos deslizamentos entre vários ossos articulados permitem apreciável variedade e amplitude de movimento. É isto que ocorre, por exemplo, nas articulações entre os ossos curtos do carpo, tarso e entre os corpos das vértebras.

Gínglimo: Este tipo de articulação é também denominado dobradiça e os nomes referem-se muito mais ao movimento que elas realizam do que à forma das superfícies articulares: Flexão e extensão (movimentos angulares). A articulação do cotovelo é um bom exemplo de gínglimo e a simples observação mostra como a superfície articular do úmero, que entra em contato com a ulna, apresenta-se em forma carretel; todavia, as articulações entre as falanges também são do tipo gínglimo e nelas a forma das superfícies articulares não se assemelha a um carretel. Este é um caso concreto em que o critério morfológico não foi rigorosamente obedecido. Realizando apenas flexão e extensão, as junturas sinoviais do tipo gínglimo são mono-axiais.

Trocóide: Neste tipo as superfícies articulares são segmentos de cilindro e, por esta razão, cilindróides talvez fosse um termo mais apropriado para designa-las. Estas junturas permitem rotação e seu eixo de movimento, único, é vertical: são mono-axiais. Um exemplo típico é a articulação rádio-ulnar proximal (entre o rádio e a ulna) responsável pelos movimentos de pronação e supinação do antebraço. Na pronação ocorre uma rotação medial do rádio e, na supinação, rotação lateral. Na posição de descrição anatômica o antebraço está em supinação.

Condilar: As superfícies articulares são de forma elíptica e elipsóide seria talvez um termo mais adequado. Estas junturas permitem flexão, extensão, abdução e adução, mas não a rotação. Possuem dois eixos de movimento, sendo portanto bi-axiais. A articulação rádio-cárpica (ou do punho) é um exemplo. Outro é a articulação têmporomandibular (entre o osso temporal e a mandíbula).

Em sela: Nesse tipo de articulação a superfície articular de uma peça esquelética tem a forma de sela, apresentando concavidade num sentido e convexidade em outro, e se encaixa numa segunda peça onde convexidade e concavidade apresentam-se no sentido inverso da primeira.

A articulação carpo-metacárpica do polegar (entre o osso trapézio do carpo e o I osso do metacarpo) é exemplo típico. É interessante notar que esta articulação permite flexão, extensão, abdução, adução e rotação (conseqüentemente, também circundação) mas é classificada como bi-axial. O fato é justificado porque a rotação isolada não pode ser realizada pelo polegar: ela só é possível com a combinação dos outros movimentos.

Esferóide: As articulações de tipo esferóides apresentam superfícies articulares que são segmentos de esferas e se encaixam em receptáculos ocos. O suporte de uma caneta de mesa, que pode ser movimentado em qualquer direção, é um exemplo não anatômico de uma articulação esferóide. Este tipo de juntura permite movimentos em torno de três eixos, sendo portanto, tri-axial. Assim, a articulação do ombro (entre o úmero e a escápula) e a do quadril (entre o osso do quadril e o fêmur) permitem movimentos de flexão, extensão, adução, abdução, rotação e circundação.

2.3.7. Junturas Sinoviais Simples e Composta

Quando apenas dois ossos entram em contato numa juntura sinovial diz-se que ela é simples (por exemplo, a articulação do ombro); quando três ou mais ossos participam da juntura ela é denominada composta (a articulação do cotovelo envolve três ossos: úmero, ulna e rádio).

BIBLIOGRAFIA

DANGELO, J.G. & FATTINI, C.A Anatomia Humana Básica. Editora Atheneu. São Paulo, 1999.

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