PERDA AUDITIVA INDUZIDA POR RUÍDOS

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DICAS PARA ANALISAR, COMPREENDER, E INTERPRETAR TEXTOS

Autor: Mayko Eduardo Camargo Ito

INTRODUÇÃO

A exposição a ruídos intensos pode resultar em perda auditiva temporária ou contínua, permanente. Se realmente ocorre perda, ou não, como resultado de exposição ao ruído intenso, isso também depende de diversos fatores. Eles incluem as características acústicas do som, como sua intensidade, duração e conteúdo de freqüência (espectro de amplitude), a duração da exposição e a sua suscetibilidade do indivíduo. (Fred e Larry, 1998).

Uma das mais possíveis causas dessa situação, segundo a é o ruído ambiental das grandes cidades, populosas – por definição -, e que apresenta atividade industrial intensa. “Um dos problemas dos centros urbanos é que eles contrariam a lei natural dos nossos ouvidos, que não foram feitos para suportar ruídos acima de 85 decibéis”. Na verdade, no mundo mecanizado e industrial de hoje, todo mundo pode estar exposto a ruído excessivo – em casa, no trabalho e no lazer.

Uma pesquisa comprova a informação ao apontar que o estado com maior índice de perda auditiva é São Paulo (29,56%), sendo seguido por Minas Gerais (12,58%), Paraná e Bahia, respectivamente, registrando 8,32% e 6,28%.

Os efeitos causados pelo ruído podem ir desde uma alteração passageira na audição até graves perdas auditivas irreversíveis ou melhor a audição não tem como voltar a ser como era.

Por isso, a Secretaria de Segurança no Trabalho divulgou Portaria em 1998, na qual estabeleceu a necessidade de promover diretrizes e parâmetros mínimos para a avaliação e o acompanhamento da audição dos trabalhadores, expostos a níveis de pressão sonora elevada.

A Lei que a Secretaria de Segurança e Saúde no Trabalho, divulgou a Portaria nº 19, de 09 de abril de 1998 no disposto artigo 168 da consolidação das Leis do trabalho, o disposto da NR7 – Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional, a necessidade de estabelecer diretrizes e parâmetros mínimos para a avaliação e o acompanhamento da audição dos trabalhadores, expostos a níveis de pressão sonora elevada, expressa que um exame audiométrico (que irá mensurar os efeitos do ruído no ambiente de trabalho ao funcionário) deverá ser realizado, no mínimo, no momento da admissão; no sexto mês após a mesma; anualmente, a partir de então, e na demissão do funcionário. E que este exame será executado por profissional habilitado, ou seja, fonoaudiólogo ou médico.

A pesquisa ressalta que poucos sabem também que o ruído excessivo ao organismo não acarreta somente a perda de audição; pode ainda provocar ansiedade, insônia, dores de cabeça, diminuição do rendimento no trabalho, distúrbios no sistema nervoso central, dores de cabeça e até mesmo impotência sexual.)

O QUE É RUIDO?

Ruído ou barulho é todo som desagradável que encontramos no ambiente em que vivemos: nossa casa, bairro, cidade, local de trabalho e de lazer. É em seu local de trabalho que encontramos alguns ruídos prejudiciais à sua saúde.

O ruído atinge nosso organismo através de “ondas de energia”, que percebemos através da audição e às vezes de vibrações do corpo. O ruído afeta geralmente o ouvido interno, danificando as células responsáveis pela captação dos sons que são transmitidos ao nervo auditivo e levados ao cérebro, onde são interpretados.

O ruído pode causar:

1. Perda de audição ou surdez profissional: Este tipo de perda auditiva não tem cura. No início, a pessoa afetada não percebe que está perdendo a audição, pois, não atinge a região do ouvido utilizada na comunicação. Evolui gradativamente atingindo geralmente os dois ouvidos podendo levar a uma dificuldade de audição. É muito comum a pessoa afetada sentir um chiado ou zumbido.

2. Trauma Acústico: Ocorre após exposição a um ruído muito forte (explosão) e pode acarretar uma perda repentina de audição, geralmente em um só ouvido, podendo afetar ambos.

3. Outros efeitos: Além dos problemas auditivos, o barulho elevado pode atingir outros órgãos do corpo, provocando diversos problemas.

Os principais sintomas são:

dores de cabeça;
problemas digestivos;
sono agitado, falta de sono;
dificuldade de atenção e concentração;
chiados nos ouvidos ou na cabeça;
vertigens e perda de equilíbrio;
alterações cardíacas e hormonais;
ansiedade, nervosismo e aumento da agressividade.

A PERDA AUDITIVA INDUZIDA POR RUÍDO – P.A.I.R.

Existem diversos tipos de perda auditivas e dentre elas encontramos a perda auditiva induzida por ruído (P.A.I.R). Decorre de vários fatores, depende do tempo de exposição, do tipo do ruído e da susceptibilidade individual. Tais perdas são de caráter neurossensorial e, por isso, irreversíveis.

A P.A.I.R. tem sido alvo de vários estudos. As pesquisas demonstram que os trabalhadores das áreas industriais, aéreas e militares constituem uma população de maior risco de exposição, onde além desta perda auditiva ocorre o zumbido, a insônia, a irritabilidade, o nervosismo, cefaléia, a hipertensão arterial, etc. Estes sintomas aparecem como conseqüência direta da exposição ao ruído. (PINHO E Cols. 1997).

A exposição ao ruído, durante um determinado tempo, produz uma deterioração auditiva lentamente progressiva, com características neurosensoriais, quase sempre similar bilateralmente e irreversível esta perda auditiva é denominada perda auditiva induzida por ruído. Quando os primeiros sintomas de dificuldade de comunicação aparecem, o grau da perda já se encontra extremamente elevado, por volta de 50% da capacidade da audição. (CNRCA, 1994).

O crescimento da perda auditiva é mais rápido nos primeiros 10 ou 15 anos de exposição, após os quais sua evolução parece diminuir e atingir um platô. Os padrões típicos mostram a perda máxima na faixa de freqüência de 4000 a 6000Hz com perdas menores ocorrendo em freqüências acima e abaixo desta banda, formando o que comumente chamamos de entalhe. (MELNICK, 1985)

A PAIR pode ser temporária ou contínua. Se for temporária, expressa pela sigla TTS (Temporay threshold shift), as lesões do órgão de Corti ainda são reversíveis. Mas se for permanente, isto é, PTS (permanent threshold shift), instala-se deficiência da circulação capilar da cóclea e degeneração irreversível das células ciliadas (primeiro as externas, posteriormente as internas) e de sustentação do órgão de Corti, a qual pode atingir as células nervosas bipolares do gânglio espiral se a exposição ao trauma sonoro perdurar através dos anos. Pode ocorrer colapso e até rotura da membrana de Reissner. O trauma sonoro prolongado atinge a destruição total do órgão de Corti. (HUNGRIA, 2000).

A exposição contínua (PTS), durante seis a oito horas por dia, a ruídos ao nível acima de 85-90dB vai acarretar, em indivíduos predispostos, lesões irreversíveis, em geral bilateral e simétricas, do órgão sensorioneural da audição, começando por atingir a freqüência de 4.000Hz, que é a zona de hipersensibilidade do órgão de Corti ao trauma sonoro. Segue-se a agressão das outras freqüências sonoras no campo auditivo, até completa deterioração da capacidade auditiva ao longo dos anos. A perda da discriminação já é acentuada quando a perda tonal, nas freqüências da palavra articulada, ainda está satisfatória. Os sons com intensidade de 130 dB são dolorosos e lesivos a cóclea. (HUNGRIA, 2000)

São fatores de predisposição: doenças sistêmicas, como o diabetes, a insuficiência renal, ototoxidez, surdez neurossensorial prévia, etc. agravando o quadro da PAIR.

ESTAGIOS DA P.A.I.N.E.R.:

A P.A.I.N.E.R encontra-se dividida em quatro estágios:

1º estágio: queda em 3k e/ou 4k e/ou 6khz inferior a 30dB, sem queixa auditiva; (CYRIL, H. M. 1987)

2º estágio: queda em 3k e/ou 4k e/ou 6khz superior a 30 dB , queda em 2khz, já apresenta o sintoma de ouvido tampado e dificuldade na compreensão de fala ; (CYRIL, H. M., 1987)

O paciente começa a notar alguma deficiência para ouvir e entender uma ou outra palavra; são comuns presença de zumbidos de alta freqüência e sensação de ouvido cheio, abafado. Se o indivíduo afasta logo do ambiente profissional ruidoso neste estágio inicial, ainda pode haver alguma recuperação da perda auditiva ao fim de algum tempo. (HUNGRIA, 2000).

3º estágio : queda em 3k e/ou 4k e/ou 6khz superior a 30dB , queda em 1k , 2k e 8khz ,apresenta grande dificuldade na compreensão de fala ; (CYRIL, H. M., 1987)

O fenômeno de recrutamento aqui está presente (HUNGRIA, 2000)

4º estágio : perda nos agudos de 70 a 90 dB com conservação dos graves , apresenta perda auditiva ,zumbido e vertigem. (CYRIL, H. M., 1987)

Neste estágio, todas as freqüências estão lesadas, inclusive 500Hz, e a surdez é profunda. (HUNGRIA, 2000)

O indivíduo exposto ao ruído pode apresentar alguns sintomas não auditivos como: nervosismo, fadiga física e mental, dificuldade no relacionamento social, insônia, tontura, irritabilidade, aumento na freqüência cardíaca e respiratória, aumento na pressão arterial, dilatação pupilar, contração muscular, perda de concentração, distúrbio de visão, alterações gastro-intestinais, entre outros. Como conseqüência tem-se um prejuízo no desempenho profissional, acarretando falta de atenção e piora na habilidade para desempenhar suas funções. (KWITKO, 1993).

Além dos sintomas citados acima , existem os efeitos específicos do ruído ao sistema extra-auditivo : fadiga muscular ; alterações no sistema cardio-vascular, ocasionando um aumento dos batimentos cardíacos e , com isso , o aumento do risco coronariano ; alterações no sistema pulmonar com aumento no ritmo respiratório com hiperventilação ; alterações no sistema metabólico e endócrino, com alterações no sangue e na urina e , aumento na produção de adrenalina ; alterações no Sistema Nervoso Central ocasionando problemas visuais e vertigem do tipo rotatória ; alterações no sistema gastro-intestinal como náuseas , epigastralgia e até hemorragias.

Cada pessoa tem seu modo de reagir frente a esta exposição, ou seja, estes sintomas dependem da susceptibilidade individual de cada um. (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE).

A exposição ao ruído pode causar inicialmente uma queda temporária no limiar auditivo, este fenômeno é chamado mudança temporária do limiar (T T S), depois de um período de descanso, este limiar retorna a normalidade. A recuperação do padrão normal, depois de um repouso acústico, depende da susceptibilidade individual e do tipo de exposição à ruído.

Este processo de ir e vir do limiar pode, gradualmente, causar uma perda permanente da audição, este fenômeno é denominado mudança permanente do limiar (P T S). (BAHANNAN, S. e BAHNASSY, A., 1993).

TRATAMENTO

Não há tratamento para as lesões auditivas decorrentes de trauma sonoro ou acústico, a não ser o afastamento definitivo do indivíduo do ambiente ruidoso, a fim de evitar a progressão da perda auditiva ou conseguir, eventualmente, alguma da deficiência já instalada. Em vista disto, o tratamento é profilático, isto é, a proteção do operário contra ruídos contínuos de intensidade igual ou superior a 85 dB.

Enquanto a engenharia não conseguir reduzir o ruído de máquinas a níveis não – prejudiciais, o único recurso é o profilático, por meio do uso de protetores auriculares individuais, cujo mais comum é o que introduz no canal auditivo. Os protetores são mais ou menos desconfortáveis, mas, na atualidade, são mundialmente usados por operários devidamente esclarecidos sobre suas inestimáveis vantagens na preservação da capacidade auditiva e motivados a recorrerem ao seu uso; os protetores reduzem a intensidade dos ruídos em cerca de 20 ou mais dB (na dependência da freqüência sonora), com isto atenuando o nível de intensidade do ruído ambiente para menos de 80dB, não prejudicial à audição. Além disso, o indivíduo exposto ao trauma sonoro deve ser esclarecido de que as lesões iniciais da audição passam despercebidas e podem caminhar lentamente para a surdez definitiva, que nenhuma reparação pode compensar. A outra opção do tratamento profilático seria a mudança de emprego por parte do operário. (HUNGRIA, 2000)

CONCLUSÃO

O sistema auditivo é maravilhosamente complexo e, não vulnerável a ataque e danos de doença, trauma, e condições ambientais extremas (ou seja, o ruído).

A Perda Auditiva Induzida por Ruídos – PAIR, ainda não ocupa na mentalidade da população, a importância que deveria. Muitas empresas já são conscientes do prejuízo irreparável que esta patologia pode causar, porém ainda há muitas, que não sabe o que significa e principalmente não sabe os danos que esta pode causar. Cabe ao trabalhador consciente, se proteger, mas e os que não trabalham em indústrias e máquinas ruidosas mas vive nos grandes centros e estão expostos aos estresses do trânsito e a todos os barulhos do cotidiano? E os que convivem com os dois tipos de ruídos? Nem no caminho de casa estão protegidos. A prevenção e a conscientização é atualmente a melhor solução, pois cada vez mais, o mundo é bombardeado com eletro eletrônicos e máquinas industriais com elevado índice sonoro.

Para refletir: Os passarinhos da cidade não sabem mais cantar? Quem no seu dia a dia, ainda percebe o canto do passarinho? Será que eles ficaram mudos? …

BIBLIOGRAFIA

BESS, Fred H. e HUMES, Larry E. Fundamentos de audiologia. 2. Ed. Porto Alegre: Atmed, 1998.

PINHO, L. G.; GAMA, M.R. ; CAETANO, C.; Avaliação do conhecimento de graduandos de odontologia sobre perda auditiva por níveis elevados de ruído, in: Anais do 4º Congresso Internacional Unicastelo, 1997).

COMITÊ NACIONAL DE RUÍDO E CONSERVAÇÃO AUDITIVA – Caracterização da PAIR. Jamp, 9. 1994.

KWITKO, A., Tópicos em audiometria industrial e conservação da audição: revisão crítica da NR-7 e proposta para nova legislação, S.P., CIPA , 1ª edição, 1993.

HUNGRIA, HELIO, Otorrinolaringologia. 8 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000.

INTERNET:

Audioran. http://www.audioran.com.br

Conselho Regional de Fonoaudiologia de São Paulo (CRFSP) http://www.crfasp.org.br .

Por: Mayko Eduardo Camargo Ito e Patrícia De Fátima Barbosa de Moraes. 2º Período de Fonoaudiologia, na Faculdade São Lucas de Porto Velho – Rondônia.

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