TEMPO DA CAMISOLINHA – MÁRIO DE ANDRADE

0

Tempo da Camisolinha – Mário de Andrade

Mário de Andrade, no conto Tempo da Camisolinha, da obra Contos Novos, assume um foco narrativo em primeira pessoa, com narrador participante, que, simultaneamente, é o protagonista da narrativa. A narrativa, por sua vez, é posterior aos fatos: o narrador adulto conta sua experiência infantil. Apesar de os fatos estarem distantes no tempo, estão próximos emocionalmente.

Para contá-los, o narrador envolve-se tanto, que assume a linguagem da criança e expressa suas emoções e interrupções por meio de sinais de pontuação subjetivos, como reticências e exclamações: “(…) davam nela, machucavam muito ela, isto é … muito eu não queria não, só um bocadinho, que machucassem um pouco, sem estragar a cara tão linda da pintura, só pra minha madrinha saber que agora que eu tinha a boa sorte, estava protegido e nem precisava mais dela, tó! ai que saudades das minhas estrelas-do-mar! (…)” “(…) eu bem não queria pensar, mas pensava sem querer, deslumbrado, mas a boa mesmo era a grandona perfeita, que havia de dar mais boa sorte pra aquele malvado de operário que viera, cachorro! dizer que estava com má sorte! Agora eu tinha que dar pra ele a minha grande, a minha sublime estrelona-do-mar!…”

A apresentação do conflito não é a tradicional, já que, inicialmente, o narrador não parece ter a preocupação de situar o leitor no tempo e no espaço; não se preocupa em conduzir o texto para que o leitor o assimile de forma segura. “A feiúra dos cabelos cortados me fez mal.”: tal colocação não conduz o leitor ao assunto diretamente. Posteriormente, saberemos que os “cabelos cortados” foram os dele.

O narrador parte de suas próprias experiências; o corte dos cabelos trouxe-lhe uma “noção prematura de sordidez dos nossos atos” ou “da vida”. A criança não queria seus cabelos cortados; isso lhe trouxe sofrimento, mas a justificativa recebida foi que deveria ficar homem. Isso, em vez de animá-lo, apavorava-o, pois uma criança de três anos não queria ser homem; queria ser apenas criança. É o início, assim, de uma das abordagens contidas no texto: o pré-estabelecido, o convencional, as regras fundamentais, que devem ser sempre seguidas por alguém que deseja fazer, coerentemente, parte da estrutura social. É “sórdido”, como nos coloca o narrador, um menino ter cabelos “dum negro quente, acastanhados nos reflexos”, principalmente se “caíam pelos ombros em cachos gordos, com ritmos pesados de molas de espiral”. A reflexão que nos fica é se o que é sórdido é a imposição, ou a delicadeza dos cachos… Tal fato se torna tão marcante, que, já homem, os cachos tornaram-se a lembrança de um “engano grave”, que o fizeram destruir o quadro que ainda continha essa lembrança. No corte dos cabelos, não são apenas eles que são destruídos, mas o “olhar manso, um rosto sem marcas, franco, promessa de alma sem maldade”. O que fica é o homem que acha “besta” a camisolinha conservada pela mãe para que economizasse. O adulto, que agora é, tenta-se justificar pelo que ele foi (“Guardo esta fotografia porque si ela não me perdoa do que tenho sido ao menos explica”). A criança, forçada a virar homem aos três anos, passa a ter um “quê repulsivo de anão”. É nítida a comparação que faz entre ele e o irmão, Totó.

O irmão mantém o ar sem malícia e infantil; parece não ter sofrido a repressão vivida pela personagem protagonista. Ao caracterizá-lo como “criança integral”, reforça as perdas sofridas pelo narrador; nesse momento, a idéia dos cachos retorna à mente do leitor: o problema reforça-se como moral, não como físico; com os cabelos, perdeu-se a pureza. O personagem narrador – a “monstruosidade insubordinada”, revelada pelos “olhos que espreitam” – contrapõe-se ao irmão, “a própria imagem da infância”. Num momento de “flash-back”, o narrador reflete sobre o valor dos signos do passado (“não sei por que não destruí em tempo também essa fotografia”): é a forma de buscar-se e encontrar-se nas reminiscências. É como se fosse capaz de perceber que a foto era a comprovação da repressão e seus resultados: o que fazer diante disso? … a sensação da incapacidade de reagir… Quando o leitor entra em contato com tudo isso, sente que os cachos cortados são ponto de partida do enredo. O fluxo de consciência vai tomando maior espaço à medida que incomoda o narrador. “Voltemos ao caso que é melhor”: prefere interromper as reflexões a deparar-se, possivelmente, com o que não quer ver… Nessa repressão tão sofrida, o pai é elemento desencadeador de todo o processo: “meu pai suavemente murmurou uma daquelas suas decisões irrevogáveis”.

A antítese marca a introdução do pai no enredo – suave e irrevogável; nesse caso, a suavidade não se liga à delicadeza, mas ao fato de não haver discussão nas decisões por ele tomadas. A maior revolta do menino é não ter nenhuma participação nisso: “Deixassem que eu sentisse por mim, me incutissem aos poucos a necessidade de cortar os cabelos, nada: uma decisão à antiga, brutal, impiedosa, castigo sem culpa, primeiro convite às revoltas íntimas (…)”. A reação do narrador é de “monstruosidade insubordinada”, voltando-se contra o cabeleireiro; a dificuldade de lembrar é grande, já que a resistência a tudo isso se mantém até hoje (“Tudo o mais são memórias confusas ritmadas por gritos horríveis (…)”). A seleção de vocabulário é pesada porque a dor também é: “cadáveres de meus cabelos”, “um não-conformismo navalhante”… e a reação do menino é de pranto. Nota-se que o que dói mais é a troca proposta pelos adultos: presentes, gozações, espelhos. Ninguém tenta entender a dor do garoto. Na relação indivíduo/mundo, a reação do indivíduo é a revolta: nasce o homem – como queriam os “outros” – mas é alguém “cheio de desilusões, de revoltas, fácil para todas as ruindades”, com lembranças infantis desagradáveis, cujo único elemento restante foram “as camisolinhas”, tão detestáveis quanto todo o resto.

A figura paterna não afeta apenas o menino, mas também a mãe: depois de um parto desastroso, movia-se “premiada pelas obrigações da casa e dos filhos”. A idéia de “obrigação” intensifica-se ao longo das ações dela (“menos tratava da casa que se iludia, consolada por cumprir a obrigação de tratar da casa.”). A atitude do pai diante do sofrimento materno é exposta de forma irônica: “Diante da iminência de um desastre maior, papai fizera um esforço espantoso, o seu ser que só imaginava a existência no trabalho sem recreio, todo assombrado com os progressos financeiros que fazia e a subida de classe.” Observa-se o antagonismo de interesses entre esses elementos do mesmo ciclo familiar: a criança, preocupada apenas com a própria dor (tal egocentrismo reflete-se, inclusive, nas reminiscências do narrador, que não consegue lembrar-se, exatamente, do que ocorria com sua mãe – “(…) não sei direito…” -; a mãe, preocupada com suas obrigações para com a família; o pai, preocupado com os “progressos financeiros e a subida de classe”. O que vemos, portanto, é a família conservadora burguesa.

Para melhorar o estado de saúde de sua mãe, vão para a praia. A mudança de espaço não mudará esse quadro familiar. Observa-se isso, por exemplo, no quadro de Nossa Senhora do Carmo (trazido da cidade para a praia), utilizado para ameaçar e amedrontar o menino (“Meu filho, não mostra isso, que feio! repare: sua madrinha está te olhando na parede!”). Diante disso, o menino não se submete, pois desafia a “madrinha santa”, quando a mãe não está olhando (“Tó! que eu dizia, olhe! Olhe bem! Tó! olhe bastante mesmo!”).

Nessa mudança de espaço, as poucas mudanças de atitudes são apenas aparentes: a mãe “sentia um prazer perdoável de representar naquelas férias o papel largado de convalescente”; o pai “deixara menos pai, um ótimo camarada com muita fome e condescendência”. O que se nota é que pai e mãe precisam de motivos, “desculpas”, para se comportarem de modo diferente, enquanto que o filho mantém sua personalidade rebelde, avessa ao formal. Os operários trabalhadores do canal reforçam a hierarquia que a criança já observava na família, já que tratavam melhor a ele, “filhinho de ‘seu dotô’, do que aos próprios filhos”: como diz o próprio narrador, agiam “proletariamente”…

Tudo isso se segue de um fato novo que modifica o ritmo do enredo: o garoto é presenteado com três estrelas-do-mar por um operário, que lhe diz que as mesmas dão boa sorte. A posse das estrelas-do-mar tornou-se algo fundamental para a criança: constituíam-se num segredo. Não sendo necessário dividi-las ou partilhá-las com alguém, tornam-se algo só seu, capaz de dar a boa sorte prometida e protegê-lo de qualquer infortúnio: “Comer? pra que comer? elas me davam tudo, me alimentavam, me davam licença para brincar no barro, e si Nossa Senhora, minha madrinha, quisesse se vingar daquilo que eu fizera pra ela, as estrelas me salvavam, davam nela (…)” Porém, a posse das estrelas é momentânea; a felicidade é momentânea. Ao ver, na praia, um operário triste, queixando-se da sua má sorte, a criança sente-se na obrigação de ceder-lhe sua estrela-do-mar (de início, a pequena, mas, depois, sabia que devia ceder a maior: “(…) aquele homem com tantos filhinhos pequenos e aquela mulher paralítica na cama!… e no entanto eu era feliz, feliz e com três estrelinhas-do-mar pra me darem sorte…”).

Se, no início do conto, o embate da criança era com o mundo, agora, é consigo mesma, quando descobre que até dentro de si as coisas não são harmoniosas: ao mesmo tempo que deseja as estrelas, que quer as três – que, para ele, representam a suprema felicidade -, incomoda-se com o sofrimento do operário. Dolorosamente, acaba deixando sua vontade de lado e entrega-lhe a estrela: “Tome! Eu soluçava gritado, tome a minha… tome a minha estrela-do-mar! dá… dá, sim, boa sorte!…”. Tal atitude não deixa – ao contrário do que se poderia esperar de uma narrativa moralista tradicional – o garoto satisfeito consigo mesmo, já que foi tão altruísta. O que ocorre, na verdade, é um imenso sofrimento, arrependimento (“eu sofria arrependido”), que ele não consegue conter: “Eu corri pra chorar à larga, chorar na cama, abafando os soluços no travesseiro sozinho.”. À sua maneira, a narrativa torna-se cíclica: o sofrimento vivido com a perda dos cachos castanhos retorna na perda da estrela-do-mar… é o homem que se forma através de perdas sucessivas, de sofrimentos contínuos, “no infinito dos sofrimentos humanos”.

TEMPO DAS FRUTAS – NÉLIDA PIÑON

0

Tempo das Frutas – Nélida Piñon

É o primeiro livro de contos de Nélida Piñon que mostra ser tão talentosa nas narrativas curtas quanto no romance. Suas histórias, igualmente bem trabalhadas, exploram sentimentos profundos de personagens soterrados pelo caos social da civilização. Criaturas que transitam no fraco limite do real explorando sensações distintas que, muitas vezes, se misturam com o elaborado e provocador discurso da autora.

Conto escolhido – Breve Flor

A sua inconsistência era a raça. A segura orientação do sangue. No meio da lucidez de cristal, a suavidade dos seus passos percorrendo céu e terra, tal o seu arcabouço, o ímpeto desgorvenado. Perdera o rumo entre admoestações dos amigos, e gargalhava solitária entre a graça das pedras. Até decifrá-las, desmanchar segredos, agora que recente adquirira o dom das palavras. Brincar de esconder deslumbrando os homens, seria o seu gracejo. Haveriam de procurá-la sempre que a pressentissem perdida. Engraçada era a ofensa, que sobre ela cometiam, para que vibrasse, e desse acordo de si. De um jeito ou do outro, emendava os destroços e punha vestido novo, brilhando a luz do dia, a tessitura da sua matéria.

Em certas noites, bem diante do espelho, afugentava a descoberta do corpo. Olhava até desfrutar, do conforto e da sensação. Não corando o rosto por pensar que ainda viria a se deslumbrar quando dos exames minuciosos e exaltados da carne. Assim, clareava uma zona sempre imaginada escura e imunda. Dominando o milagre, corria pela praia, as areias avançavam na medida do vento, fazendo cócegas que sempre irritam, embora a inocência.

Sobre uma pedra pensou: agora posso decifrar qualquer espera. E teve dor de barriga, como quando comia chocolate em excesso, ou como quando se deu a primeira modificação de seu corpo, alterando seus fluxos sanguíneos, o susto daquela abundancia inicial perturbando-a, a compreensão de se fazer mulher. Após o entendimento, ficou esperta e atrevida diante do exagero dos recursos recebidos. Adivinhando dispensava resposta, até aprender e respirar.

Passavam os homens pensando, como é bom uma mulher tão moça, aquilo que nela ou numa outra que surgirá sem dúvida eu dominarei, porque hei de possuir quem me aguarda para se fazer conduzir aos verdes campos, e não sendo esta moça uma outra nela já desfruto, enquanto eu viver.

Tomando sorvete cansou-se. Embora a sua coragem de continuar, porque o sol ainda brilhava. A companhia dos pequenos bichinhos, coisas nervosas protegidas por uma casca, e deixando lastro, molécula que se descobre pelo brilho. Tão engraçados, e mais do que companhia ofereciam-lhe espanto, a qualquer momento descobriria um mundo imediato, surgido e acabado pela sua precária ciência, que tudo adivinha.

Apanhou um caramujo, com vontade de enfiar dentro a língua, na restrição daquela abertura, provar o sabor e graça. De repente invadida pela torpeza do pequeno animal e compreender sua artimanha, escondido lá dentro, tão preso em si mesmo que se arrebatou e foi perdido, já fugindo à ordem da sua espécie e do seu mistério. E a menina querendo por a língua temia o encontro, da língua e a coisa mole a se desfazer, até que quebrasse ela o segredo, arrebatando a fragilidade do bichinho, a secura íntima de quem inconseqüente abre as pernas, sem seleção, engolfadas no fluxo vital dos recursos estranhos.

A moça teve medo de que tendo chegado a hora, jamais se impedisse a obrigação de procriar, coisas melhores e mais sérias, ou coisas perdidas que não cedem ante a vigência da graça e do seu capricho, que é também perfeição.

Atirou longe o animal, a sua verdade, após o amadurecer necessário da sua raça inconsciente. Depois, outros homens diferentes dos primeiros, ensaiaram iniciativas mais atrevidas dispostos aos avanços que disciplinam as raças. Como se empreendessem tarefas que dominam mulheres vagas e circunspectas. Que na primavera se deixam amparar, por qualquer domínio, após armazenarem em mel a virtude os doces e paladares raros.

Pedro é meu nome, disse-lhe um, e atrevido aguardava a queda das frutas. Mexendo na terra, fingindo embaraço, atenção dispersa, sentou-se a seu lado. A moça, mudando de pedra, da mais alta para a mais baixa, nada disse. Desdenhoso o rapaz fumou um cigarro, protegido pela fumaça gritou, e o seu, como é? Feiticeira ela disse: uma moça não tem nome. Como um cavalheiro sereno com as inquietações do seu cavalo, cheio de regras e espaldas incandescentes, respondeu-lhe: de agora em diante se você não tem nome, já tem dono.

Depois, ela arrumou a casa, cuidou dos vegetais selvagens, enfeitava a mesa para consagrar a vida. Delicada com a limpeza dos objetos. Até que ficou grávida e bonita, a violência do crescimento. Mal percebera porque era simples, sentindo os seus efeitos, e tal a sua modéstia. Diariamente o rapaz ocupava a casa, perdendo cerimônia e graduação do respeito. Esfregava-se abusado pela poltrona, após o que a arrastava para a cama. A moça, ainda deslumbrando-se, deixava-se ir, entre irritada e exaltada. Tendo-se tornado um hábito, extraía-lhe o homem à vontade e o ímpeto. Mal se definiam as orientações da sua natureza.

E assim iam-se pondo até que a criança nasceu. Forte e atrevido como o pai, desabrochando contínuo sem que nele se estabelecesse uma beleza que logo a seguir não se alterasse. Resolveu o rapaz desaparecer, sem que jamais o encontrassem de novo. O que perturbou a moça profundamente. Embora passasse a dispensar trajetórias tão violentas, continuava olhando estrelas, a mesma intensidade. Precariamente intuía a liberdade de qualquer estima que haveria de confortá-la, disporia de farinha que enobrece o homem após a mistura delicada de algum fermento. Só então repousou um pouco. Para unir-se na cama e na mesa a um novo companheiro.

A princípio a estranheza, as hesitações de um outro corpo, a imposição de outros hábitos. Aquele riso amarelo e deslumbrado que sempre dominava o homem mesmo fazendo amor, como se também isto fosse parte do rito. Após o que, seus dentes foram caindo de tanto que se exibiram, e descobriu-se a moça unida a um velho que além de feio também impunha-lhe a sordidez da sua carne agora relaxada. Embora com dificuldade expressasse o nojo, a visão daquelas gengivas, mal agüentava o vômito, a penúria de um convívio intenso. Corria para o banheiro e ali desfazia-se abundante atrás da esperança, após a abolição de tantas coisas. Ainda assim era maciça a presença do homem, ocupando além de seu corpo, toda a casa, a cobiça do ouro na sua cara. Um dia pegou o filho já bem crescido e abandonou a casa. Afastando-se da cidade à medida que se transferia de tantos abrigos, a força de novas perturbações. Pois perdera as noções essenciais do convívio, e pretendendo gentileza descontrolava-se a toa, no tormento de querer bem viver.

Quando um outro homem a escolheu, como se escolhe leviano o que se dispõe em seguida a jogar fora. E ela aceitou confundida. Foi criar galinhas, sadia e matutina, cuidar das vacas, teimosa ficando as mãos nos ubres fartos, até sua vida modificar-se, como também o cheiro de sua pele. Ainda assim seguia a trajetória da estrela, e o seu falso brilho, como se a liberdade se experimentasse deste jeito, pelo seu excesso. Todas as manhãs friccionava as vacas, após o homem ter-lhe friccionado o corpo. Iludida de que repousaria quando ficassem velhos. Como isto demorava, e o filho crescia rápido e exagerado, a mulher hesitava diante da inovação daquele mundo que se desligara do seu ventre, marginal e operante. A luta parecia dura e brava.

Um dia, arrastando o filho, foram à cidade, depois de uma longa ausência. Delicados contemplavam a passagem épica dos homens. E tomaram sorvete, que ela tanto gostava, capitulando na apreciação vital de cerrar os olhos e gozar, o deslize da língua sem exigências maiores. Como se ao menino ensinasse futuros procedimentos quando se invade a área do prazer. E se o menino imitava a mãe, era porque fazia-lhe bem a intimidade daquela cara, que se tornara uma poderosa aparência e por dever descobrir uma expressão que nele também acusasse o gozo que haveria de sentir quando, mesmo descuidado, não conseguiria poupar seu corpo das necessárias exibições. Depois, forma outras coisas, sórdidas e coloridas, que alcançam fundo.

TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA – JORGE AMADO

0

Tereza Batista Cansada de Guerra – Jorge Amado

O romance conta a história de Tereza Batista, adolescente ainda, que é vendida pelos pais, ficando à mercê do Capitão Justiniano Duarte da Rosa , homem sem escrúpulos , Tereza consegue jugir, depois de matar o capitão. Passa a viver com Emiliano Guedes um amor quase filial. Com a morte deste, Tereza Batista prostitui-se , lutando contra a polícia em favor das companheiras. Finalmente cansada de guerra, no dia de seu casamento sem amor, foge com Januário Gereba,o sonho realizado.

TIETA DO AGRESTE – JORGE AMADO

0

Tieta do Agreste – Jorge Amado

“Tieta do Agreste, pastora de cabras, ou a volta da filha pródiga, melodramático folhetim em cinco sensacionais episódios e comovente epílogo:emoção e suspense!” O livro de Jorge Amado se anuncia assim e cumpre todas as promessas. A história de Tieta, pastora de cabras de Sant’Ana do Agreste que é expulsa pelo próprio pai e volta anos depois, riquíssima graças à prostituição, é contada em tom folhetinesco. Engraçado e sensual, o livro traz personagens inesquecíveis, como a irmã da protagonista, Perpétua; seu sobrinho Ricardo; e o coronel Artur da Tapitanga. Jorge Amado usa e abusa de expressões e folclore regionais para criar uma narrativa envolvente, na qual o autor vez por outra se faz de personagem e dá seus próprios palpites na trama. Foi transformado em novela de grande sucesso, com Betty Faria como Tieta, e depois em filme, com Sônia Braga como a protagonista.

TRATADO DA TERRA DO BRASIL – PERO DE MAGALHÃES

0

Tratado da Terra do Brasil – Pero de Magalhães

Num sumário da geografia local, Gândavo descreve rapidamente cada capitania em suas particularidades (engenhos, escolas de jesuítas, tamanhos, distâncias, donos das capitanias, etc.) e depois vai ao que interessa: o geral. Fala sobre os costumes da terra, da fauna e da flora (relatos importantes, mas ridículos de um ponto de vista meramente científico) descreve um ritual de antropofagia e diversos outros costumes da terra. Gândavo neste texto mostra um sentimento forte contra os nativos, exagerando suas guerras e costumes que parecem bárbaros aos “civilizados colonos” de Portugal.

TRÊS GÊNIOS DE SECRETARIA – LIMA BARRETO

0

Três Gênios de Secretaria – Lima Barreto

O meu amigo Augusto Machado, de quem acabo de publicar uma pequena brochura aliteratada – Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá – mandou-me algumas notas herdadas por ele desse seu amigo, que, como se sabe, foi oficial da Secretaria dos Cultos. Coordenadas por mim, sem nada pôr de meu, eu as dou aqui, para a meditação dos leitores:

“ESTAS MINHAS memórias que há dias tento começar, são deveras difíceis de executar, pois se imaginarem que a minha secretaria é de pequeno pessoal e pouco nela se passa de notável, bem avaliarão em que apuros me encontro para dar volume às minhas recordações de velho funcionário. Entretanto, sem recorrer a dificuldade, mas ladeando-a, irei sem preocupar-me com datas nem tampouco me incomodando com a ordem das cousas e fatos, narrando o que me acudir de importante, à proporção de escrevê-las. Ponho-me à obra.

Logo no primeiro dia em que funcionei na secretaria, senti bem que todos nós nascemos para empregado público. Foi a reflexão que fiz, ao me Julgar tão em mim, quando, após a posse e o compromisso ou juramento, sentei-me perfeitamente à vontade na mesa que me determinaram. Nada houve que fosse surpresa, nem tive o mínimo acanhamento. Eu tinha vinte e um para vinte e dois anos; e nela me abanquei como se de há muito já o fizesse. Tão depressa foi a minha adaptação que me julguei nascido para ofício de auxiliar o Estado, com a minha reduzida gramática e o meu péssimo cursivo, na sua missão de regular a marcha e a atividade da nação.

Com familiaridade e convicção, manuseava os livros – grandes montões de papel espesso e capas de couro, que estavam destinados a durar tanto quanto as pirâmides do Egito. Eu sentia muito menos aquele registro de decretos e portarias e eles pareciam olhar-me respeitosamente e pedir-me sempre a carícia das minhas mãos e a doce violência da minha escrita.

Puseram-me também a copiar ofícios e a minha letra tão má e o meu desleixo tão meu, muito papel fizeram-me gastar, sem que isso redundasse em grande perturbação no desenrolar das cousas governamentais.

Mas, como dizia, todos nós nascemos para funcionário publico. Aquela placidez do ofício, sem atritos, nem desconjuntamentos violentos; aquele deslizar macio durante cinco horas por dia; aquela mediania de posição e fortuna, garantindo inabalavelmente uma vida medíocre – tudo isso vai muito bem com as nossas vistas e os nossos temperamentos. Os dias no emprego do Estado nada têm de imprevisto, não pedem qualquer espécie de esforço a mais, para viver o dia seguinte. Tudo corre calma e suavemente, sem colisões, nem sobressaltos, escrevendo-se os mesmos papéis e avisos, os mesmos decretos e portarias, da mesma maneira, durante todo o ano, exceto os dias feriados, santificados e os de ponto facultativo, invenção das melhores da nossa República.

De resto, tudo nele é sossego e quietude. O corpo fica em cômodo jeito; o espírito aquieta-se, não tem efervescência nem angústias; as praxes estão fixas e as fórmulas já sabidas. Pensei até em casar, não só para ter uns bate-bocas com a mulher mas, também, para ficar mais burro, ter preocupações de “pistolões”, para ser promovido. Não o fiz; e agora, já que não digo a ente humano, mas ao discreto papel, posso confessar porque. Casar-me no meu nível social, seria abusar-me com a mulher, pela sua falta de instrução e cultura intelectual; casar-me acima, seria fazer-me lacaio dos figurões, para darem-me cargos, propinas, gratificações, que satisfizessem às exigências da esposa. Não queria uma nem outra cousa. Houve uma ocasião em que tentei solver a dificuldade, casando-me. ou cousa que o valha, abaixo da minha situação. É a tal história da criada… Aí foram a minha dignidade pessoal e o meu cavalheirismo que me impediram.

Não podia, nem devia ocultar a ninguém e de nenhuma forma, a mulher com quem eu dormia e era mãe dos meus filhos. Eu ia citar Santo Agostinho, mas deixo de fazê-lo para continuar a minha narração…

Quando, de manhã, novo ou velho no emprego, a gente se senta na sua mesa oficial, não há novidade de espécie alguma e, já da pena, escreve devagarinho: “Tenho a honra”, etc., etc.; ou, republicanamente, “Declaro-vos. para os fins convenientes”, etc.. etc. Se há mudança, é pequena e o começo é já bem sabido: “Tenho em vistas”… – ou “Na forma do disposto”…

Às vezes o papel oficial fica semelhante a um estranho mosaico de fórmulas e chapas; e são os mais difíceis, nos quais o doutor Xisto Rodrigues brilhava como mestre inigualável.

O doutor Xisto já é conhecido dos senhores, mas não é dos outros gênios da Secretaria dos Cultos. Xisto é estilo antigo. Entrou honestamente, fazendo um concurso decente e sem padrinhos. Apesar da sua pulhice bacharelesca e a sua limitação intelectual, merece respeito pela honestidade que põe em todos os atos de sua vida, mesmo como funcionário. Sai à hora regulamentar e entra à hora regulamentar. não bajula. nem recebe gratificações.

Os dous outros, porém, são mais modernizados. Um é “charadista”, o homem que o diretor. consulta, que dá as informações confidenciais, para o presidente e o ministro promoverem os amanuenses. Este ninguém sabe como entrou para a secretaria; mas logo ganhou a confiança de todos, de todos se fez amigo e, em pouco, subiu três passos na hierarquia e arranjou quatro gratificações mensais ou extraordinárias. Não é má pessoa, ninguém se pode aborrecer com ele: é uma criação do ofício que só amofina os outros, assim mesmo sem nada estes saberem ao certo, quando se trata de promoções. Há casos muito interessantes; mas deixo as proezas dessa inferência burocrática, em que o seu amor primitivo a charadas, ao logogrifo e aos enigmas pitorescos pôs-lhe sempre na alma uma caligem de mistério e uma necessidade de impor aos outros adivinhação sobre ele mesmo. Deixo-a, dizia, para tratar do “auxiliar de gabinete”. É este a figura mais curiosa do funcionalismo moderno. É sempre doutor em qualquer cousa; pode ser mesmo engenheiro hidráulico ou eletricista. Veio de qualquer parte do Brasil, da Bahia ou de Santa Catarina, estudou no Rio qualquer cousa; mas não veio estudar, veio arranjar um emprego seguro que o levasse maciamente para o fundo da terra. donde deveria ter saído em planta, em animal e, se fosse possível, em mineral qualquer. É inútil, vadio, mau e pedante, ou antes, pernóstico.

Instalado no Rio, com fumaças de estudante, sonhou logo arranjar um casamento, não para conseguir uma mulher, mas, para arranjar um sogro influente, que o empregasse em qualquer cousa, solidamente. Quem como ele faz de sua vida, tão-somente caminho para o cemitério, não quer muito: um lugar em uma secretaria qualquer serve. Há os que vêem mais alto e se servem do mesmo meio; mas são a quintessência da espécie.

Na Secretaria dos Cultos, o seu típico e célebre ” auxiliar de gabinete”, arranjou o sogro dos seus sonhos, num antigo professor do seminário, pessoa muito relacionada com padres, frades, sacristães, irmãs de caridade, doutores em cânones, definidores, fabriqueiros, fornecedores e mais pessoal eclesiástico.

O sogro ideal, o antigo professor, ensinava no seminário uma física muito própria aos fins do estabelecimento, mas que havia de horripilar o mais medíocre aluno de qualquer estabelecimento leigo.

Tinha ele uma filha a casar e o “auxiliar de gabinete”, logo viu no seu casamento com ela, o mais fácil caminho para arranjar uma barrigazinha estufadinha e uma bengala com castão de ouro.

Houve exame na Secretaria dos Cultos, e o “sogro”, sem escrúpulo algum, fez-se nomear examinador do concurso para o provimento do lugar e meter nele “o noivo”.

Que se havia de fazer? O rapaz precisava.

O rapaz foi posto em primeiro lugar, nomeado e o velho sogro (já o era de fato) arranjou-lhe o lugar de “auxiliar de gabinete” do ministro. Nunca mais saiu dele e, certa vez, quando foi, pro for .. mula se despedir do novo ministro, chegou a levantar o reposteiro para sair; mas, nisto, o ministro bateu na testa e gritou:

– Quem é aí o doutor Mata-Borrão?

O homenzinho voltou-se e respondeu, com algum tremor na voz e esperança nos olhos:

– Sou eu, excelência.

– O senhor fica. O seu “sogro” já me disse que o senhor precisa muito.

É ele assim, no gabinete, entre os poderosos; mas, quando fala a seus iguais, é de uma prosápia de Napoleão, de quem se não conhecesse a Josefina.

A todos em que ele vê um concorrente, traiçoeiramente desacredita: é bêbedo, joga, abandona a mulher, não sabe escrever “comissão”, etc. Adquiriu títulos literários, publicando a Relação dos Padroeiros das Principais Cidades do Brasil; e sua mulher quando fala nele, não se esquece de dizer: ” Como Rui Barbosa, o Chico…” ou “Como Machado de Assis, meu marido só bebe água.”

Gênio doméstico e burocrático, Mata-Borrão, não chegará, apesar da sua maledicência interesseira, a entrar nem no inferno. A vida não é unicamente um caminho para o cemitério; é mais alguma cousa e quem a enche assim, nem Belzebu o aceita. Seria desmoralizar o seu império; mas a burocracia quer desses amorfos, pois ela é das criações sociais aquela que mais atrozmente tende a anular a alma, a inteligência, e os influxos naturais e físicos ao indivíduo. É um expressivo documento de seleção inversa que caracteriza toda a nossa sociedade burguesa, permitindo no seu campo especial, com a anulação dos melhores da inteligência, de saber, de caráter e criação, o triunfo inexplicável de um Mata-Borrão por aí”.

Pela cópia, conforme. Brás Cubas, Rio, 10-4-1919.

TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA – LIMA BARRETO

0

Triste Fim de Policarpo Quaresma – Lima Barreto

O livro conta a história do Major (ele não era, apenas o chamavam, mas vem a se tornar mais tarde) Policarpo Quaresma, um nacionalista exaltado e ufanista que romantiza todo o Brasil. Na primeira parte da história tenta fazer um a revolução social de costumes, é considerado louco e internado. Na segunda torna-se fazendeiro e planeja reformas nacionais tendo como base a agricultura. Na terceira se envolve nas Segunda Revolta da Armada, no lado governista e planeja mudanças políticas. Ao defender alguns prisioneiros, passado a revolta, é preso e supostamente fuzilado no final. Toda a história apresenta os funcionários corruptos, ineficientes e bajuladores, a preguiça, a incompetência, a falsidade e a traição no cenário político-social brasileiro. Várias histórias passam-se no pano de fundo, notavelmente as de Ismênia e Olga, duas jovens muito distintas que encaram de modo diferente o casamento.

TUTAMÉIA – JOÃO GUIMARÃES ROSA

0

Tutaméia – João Guimarães Rosa

Aqui está, o último livro do escritor, Tutaméia, publicado poucos meses antes da sua morte, a exigir leitura e reflexão. Por mais que o procure encarar como mero texto literário, desligado de contingências pessoais, apresenta-se com agressiva vitalidade, evocando inflexões de voz, jeitos e maneiras de ser do homem e amigo. A leitura de qualquer página sua é um conjuro. Como entender o título do livro? No Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa encontramos tuta-e-meia definida por mestre Aurélio como “ninharia, quase nada, preço vil, pouco dinheiro”. Numa glosa da coletânea o próprio contista confirma a identidade dos dois termos, juntando-lhes outros equivalentes pitorescos, tais como “nonada, baga, ninha, inânias, ossos de borboleta, quiquiriqui, mexinflório, chorumela, nica”. Atribuiria ele realmente tão pouco valor ao volume fórmula como antífrase carinhosa e, talvez, até supersticiosa? Inclino-me para esta última suposição. Em conversa comigo (numa daquelas conversas esfuziantes, estonteantes, enriquecedoras e provocadoras que tanta falta me hão de fazer pela vida afora), deixando de lado o recato da despretensão, ele me segredou que dava a maior importância a este livro, surgido em seu espírito como um todo perfeito não obstante o que os contos necessariamente tivessem de fragmentário. Entre estes havia inter-relações as mais substanciais, as palavras todas eram medidas e pesadas, postas no seu exato lugar, não se podendo suprimir ou alterar mais de duas ou três em todo o livro sem desequilibrar o conjunto. A essa confissão verbal acresce outra, impressa no fim da lista dos equivalentes do título, como mais uma equação: “meaomnia'”. Essa etimologia, tão sugestiva quanto inexata, faz tutaméia vocábulo mágico tipicamente rosiano, confirmando a asserção de que o ficcionista pôs no livro muito, senão tudo, de si. Mas também em nenhum outro livro seu cerceia o humor a esse ponto as efusões, ficando a ironia em permanente alerta para policiar a emoção. – Por que Terceiras estórias – perguntei-lhe – se não houve as segundas? – Uns dizem: porque escritas depois de um grupo de outras não incluídas em Primeiras estórias. Outros dizem: porque o autor, supersticioso, quis criar para si a obrigação e a possibilidade de publicar mais um volume de contos, que seriam então as Segundas estórias. – E que diz o autor? – O autor não diz nada – respondeu Guimarães Rosa com uma risada de menino grande, feliz por ter atraído o colega a uma cilada. Mostrou-me depois o índice no começo do volume, curioso de ver se eu lhe descobria o macete. – Será a ordem alfabética em que os títulos estão arrumados – Olhe melhor: há dois que estão fora da ordem. – Por quê? – Senão eles achavam tudo fácil. “Eles” eram evidentemente os críticos. Rosa, para quem escrever tinha tanto de brincar quanto de rezar, antegozava-lhes a perplexidade encontrando prazer em aumentá-la. Dir-se-ia até que neste volume quis adrede submetê-los a uma verdadeira corrida de obstáculos. Seria esse o motivo principal da multiplicação dos prefácios, de que o livro traz não um, mas quatro? Prefácio por definição é o que antecede uma obra literária. Mas no caso do leitor que não se contenta com uma leitura só, mesmo um prefácio colocado no fim poderá ter serventia. Estórias à primeira vista, num segundo relance os prefácios hão de revelar uma mensagem. Juntos compõem ao mesmo tempo uma profissão de fé e uma arte poética em que o escritor, através de rodeios, voltas e perífrases, por meio de alegorias e parábolas, analisa o seu gênero, o seu instrumento de expressão, a natureza da sua inspiração, a finalidade da sua arte, de toda arte. Assim “Aletria e hermenêutica” é pequena antologia de anedotas que versam o absurdo; mas é, outrossim, uma definição de “estória” no sentido especificamente guimaraes-rosiano, constante de mostruário e teoria que se completam. Começando por propor uma classificação dos subgêneros do conto, limita-se o autor a apontar germes de conto nas “anedotas de abstração”, isto é, nas quais a expressão verbal acena a realidades inconcebíveis pelo intelecto. Suas estórias, portanto, são “anedóticas” na medida em que certas anedotas refletem, sem querer, “a coerência do mistério geral que nos envolve e cria” e faz entrever “o supra-senso das coisas”. “Hipotrélico” aparece como outra antologia, desta vez de divertidas e expressivas inovações vocabulares, não lhe faltando sequer a infalível anedota do português. E é a discussão, às avessas, do direito que tem o escritor de criar palavras, pois o autor finge combater “o vezo de palavrizar”, retomando por sua conta os argumentos de que já se viu acossado como deturpador do vernáculo e levando-os ao absurdo: põe maliciosamente a vista as inconseqüências dos que professam a partenogênese da língua e se pasmam ante os neologismos do analfabeto, mas se opõem a que “uma palavra nasça do amor da gente”, assim “como uma borboleta sai do bolso da paisagem”. A “glosação em apostilas” que segue esta página reforça-lhe a aparência pilhérica, mas em Guimarães Rosa zombaria e pathos são como o reverso e o anverso da mesma medalha. O primeiro “prefácio” bastou para nos fazer compreender que em suas mãos até o trocadilho vira em óculo para espiar o invisível. “Nós os temulentos” deve ser mais que simples anedota de bêbado, como se nos depara. Conta a odisséia que para um borracho representa a simples volta a casa. Porém os embates nos objetos que lhe estorvam o caminho envolvem-no em uma sucessão de prosopopéias, fazendo dele, em rivalidade com esse outro temulento que é o poeta, um agente de transfigurações do real. Finalmente confissões das mais íntimas apontam nos sete capítulos de Sobre a escova e a dúvida, envolvidas não em disfarces de ficção, como se dá em tantos narradores, mas, poeticamente, em metamorfoses léxicas e sintáticas. É o próprio ficcionista que entrevemos de início num restaurante chic de Paris a discutir com um alter ego, também escritor, também levemente chumbado, que lhe censura o alheamento a realidade: “Você evita o espirrar e o mexer da realidade, então foge-não-foge.” Surpreendidos de se encontrarem face a face, os dois eus encaram-se reciprocamente como personagens saídas da própria imaginativa, perturbados e ao mesmo tempo encantados com a sua “sociedade” (sic!), tecendo uma palestra rapsódica de ébrios em que o tema do engagement ressurge volta e meia como preocupação central. O Rosa comprometido sugere ao Rosa alheado escreverem um livro juntos; este não lhe responde a não ser através da ironia discreta com que sublinha o contraste do ambiente luxuoso com o ideal “da rude redenção do povo”. Mas a resposta é acusação de alheamento deve ser buscada também e sobretudo nos capítulos seguintes. Em primeiro lugar, põe-se em dúvida a natureza da realidade através da parábola da mangueira, cada fruta da qual reproduz em seu caroço o mecanismo de outra mangueira; e o inacessível nos elementos mais óbvios do cotidiano real e aduzido, afirmado, exemplificado. Depois de tentar encerrar em palavras o cerne de uma experiência mística, sua, o autor procura captar e definir os eflúvios de um de seus dias “aborígenes” a oscilar incessantemente entre azarado e feliz, até enredá-lo numa decisão irreparável. Possivelmente há em tudo isto uma alusão à reduzida influência de nossa vontade nos acontecimentos, as decorrências totalmente imprevisíveis de nossos atos. A seguir, evoca o escritor o seu primeiro inconformismo de menino em discordância com o ambiente sobre um assunto de somenos, o uso racional da escova de dentes; o que explicaria a sua não-participação numa época em que a participação do escritor é palavra de ordem. Nisto, passa a precisar (ou antes a circunscrever) a natureza subliminar e supraconsciente da inspiração, trazendo como exemplo a gênese de várias de suas obras, precisamente as de mais valor, antes impostas do que projetadas de dentro para fora. Para arrematar a série de confidências, faz-se o contista intermediário da lição de arte que recebeu de um confrade não sofisticado, o vaqueiro poeta em companhia de quem seguira as passadas de uma boiada. Ao contar ao trovador sertanejo o esboço de um romance projetado, este lhe exprobrou decididamente o plano (talvez, excogitado de parceria com o sósia de Montmartre), numa condenação implícita da intencionalidade e do realismo: “Um livro a ser certo devia de se confeiçoar da parte de Deus, depor paz para todos.” Arrependido de tanto haver revelado de suas intuições, o escritor, noutro esforço de despistamento, completou o quarto e último prefácio com um glossário de termos que nele nem figuram, mas que representam outras tantas idiossincrasias suas, ortográficas e fonéticas, a exigir emendas nos repositórios da língua. Absorvidos pelos prefácios, ei-nos apenas no limiar dos quarenta contos merecedores de outra tentativa de abordagem. Quantas vezes, mesmo nesta breve cabra-cega preliminar, terei passado ao lado das intenções esquivas do contista, quantas vezes as suas negaças me terão levado a interpretações erradas? Só poderia dizê-lo quem não mais o pode dizer; mas será que o diria? Descontados os quatro prefácios, Tutaméia, de Guimarães Rosa, contém quarenta “estórias” curtas, de três a cinco páginas, extensão imposta pela revista em que a maioria (ou todas) foram publicadas. Longe de constituir um convite à ligeireza, o tamanho reduzido obrigou o escritor a excessiva concentração. Por menores que sejam, esses contos não se aproximam da crônica; são antes episódios cheios de carga explosiva, retratos que fazem adivinhar os dramas que moldaram as feições dos modelos, romances em potencial comprimidos ao máximo. Nem desta vez a tarefa do leitor é facilitada. Pelo contrario, quarenta vezes ha de embrenhar-se em novas veredas, entrever perspectivas cambiantes por trás do emaranhado de outros tantos silvados. Adotando a forma épica mais larga ou gênero mais epigramático, Guimarães Rosa ficava sempre (e cada vez mais) fiel à sua fórmula, só entregando o seu legado e recado em troca de atenção e adesão totais. A unidade dessas quarenta narrativas está na homogeneidade do cenário, das personagens e do estilo. Todas elas se desenrolam diante dos bastidores das grandes obras anteriores; as estradas, os descampados, as matas, os lugarejos perdidos de Minas, cuja imagem se gravara na memória do escritor com relevo extraordinário. Cenários ermos e rústicos, intocador pelo progresso, onde a vida prossegue nos trilhos escavados por uma rotina secular, onde os sentimentos, as reações e as crenças são os de outros tempos. Só por exceção aparece neles alguma pessoa ligada ao século XX, à civilização urbana e mecanizada; em seus caminhos sem fim, topamos com vaqueiros, criadores de cavalos, caçadores, pescadores, barqueiros, pedreiros, cegos e seus guias, capangas, bandidos, mendigos, ciganos, prostitutas, um mundo arcaico onde a hierarquia culmina nas figuras do fazendeiro, do delegado e do padre. A esse mundo de sua infância o narrador mantém-se fiel ainda desta vez; suas andanças pelas capitais da civilização, seus mergulhos nas fontes da cultura aqui tampouco lhe forneceram temas ou motivos, o muito que vira e aprendera pela vida afora serviu-lhe apenas para aguçar a sua compreensão daquele universo primitivo, para captar e transmitir-lhe a mensagem com mais perfeição. Através dos anos e não obstante a ausência, o ambiente que se abrira para seus olhos deslumbrados de menino conservou sempre para ele suas cores frescas e mágicas. Nunca se rompeu a comunhão entre ele e a paisagem, os bichos e as plantas e toda aquela humanidade tosca em cujos espécimes ele amiúde se encarnava, partilhando com eles a sua angustia existencial. A cada volta do caminho suas personagens humildes, em luta com a expressão recalcitrante, procuram definir-se, tentam encontrar o sentido da aventura humana: “Viver é obrigação sempre imediata”; “Viver seja talvez somente guardar o lugar de outrem, ainda diferente, ausente.” “A gente quer mas não consegue furtar no peso da vida.” “Da vida sabe-se: o que a ostra percebe do mar e do rochedo.” “Quem quer viver, faz mágica.” A transliteração desse universo opera-se num estilo dos mais sugestivos, altamente pessoal e no entanto determinado em sua essência pelas tendências dominantes, às vezes contraditórias, da fala popular. O pendor do sertanejo para o lacônico e sibilino, o pedante e o sentencioso, o tautológico e o eloqüente, a facilidade com que adapta o seu cabedal de expressões as situações cambiantes, sua inconsciente preferência pelos subentendidos e elipses, seu instinto de enfatizar, singularizar e impressionar são aqui transformados em processos estilisticos. Na realidade o neologismo desempenha nesse estilo papel menor do que se pensa. Inúmeras vezes julga-se surpreender o escritor em flagrante de criação léxica, recorre-se, porém, ao dicionário, lá estará o vocábulo insólito (acamonco, alarife, avejão, brujajara, cara fuz, chuchorro, esmar, ganja, grinfo, gueta, jaganata, marupiara, nomina, panema, pataratesco, quera, safio, seresma, sessil, uca, vogoroca etc) rotulado de regionalismo, plebeísmo, arcaísmo ou brasileirismo, outras vezes, não menos freqüentes, a palavra nova representa apenas uma utilização das disponibilidades da língua, registrada por uma memória privilegiada ou esguichada pela linspiração do momento (associoso, borralheirar, convidatividade, de extraordem, inaudimento, infinição, inteligentudo, inventação, mal-entender-se, mirificacia, orabolas deles!, reflor!, reminisção etc) Com freqüência bem menor há, afinal, as criações de inegável cunho individual, do tipo dos amálgamas, abusufruto, fraternura, lunático de mel, metalurgir, orfandade, psiquepiscar, utopiedade com que o espírito lúdico se compraz a matizar infinitamente a língua. Porém, as maiores ousadias desse estilo, as que o tornam por vezes contundente e hermético são sintáticas: as frases de Guimarães Rosa carregam-se de um sentido excedente pelo que não dizem, num jogo de anacolutos, reticências e omissões de inspiração popular, cujo estudo está por fazer. Estonteado pela multiplicidade dos temas, a polifonia dos tons, o formigar de caracteres, o fervilhar de motivos, o leitor naturalmente há de, no fim do volume, tentar uma classificação das narrativas. é provável que a ordem alfabética de sua colocação dentro do livro seja apenas um despistamento e que a sucessão delas obedeça a intenções ocultas. Uma destas será provavelmente a alternância, pois nunca duas peças semelhantes se seguem. A instantâneos mal esboçados de estados de alma sucedem densas microbiografias; a patéticos atos de drama rápidas cenas divertidas; incidentes banais do dia-a-dia alternam com episódios lírico-fantásticos. Entre os muitos critérios possíveis de arrumação vislumbra-se-me um sugerido pelo que, por falta de melhor termo, denominaria de atonímia metafísica. Essa figura estilística, de mais a mais freqüente nas obras do nosso autor, surge em palavras que não indicam manifestação do real e sim abstrações opostas a fenômenos percebíveis pelos sentidos, tais como: antipesquisas, acronologia, desalegria, improrrogo, irriticencia, desverde, incogitante, descombinar (com alguém), desprestar (atenção), inconsiderar, indestruir, inimaginar, irrefotar-se etc, ou em frases como “Tinha o para não ser célebre.” Dentro do contexto, tais expressões claramente indicam algo mais do que a simples negação do antônimo: aludem a uma nova modalidade de ser ou de agir, a manifestações positivas do que não é. Da mesma forma, na própria contextura de certos contos o inexistente entremostra a vontade de se materializar. Em conversa ociosa, três vaqueiros inventam um boi cuja idéia há de lhes sobreviver consolidada em mito incipiente (“Os três homens e o boi”). Alguém, agarrado a um fragmento de frase que lhe sobrenada na memória, tenta ressuscitar a mocidade esquecida (“Lá nas campinas”). Ameaça demoníaca de longe, um touro furioso se revela, visto de perto, um marrua manso (“Hiato”). Noutras peças, o que não é passa a influir efetivamente no que é, a moldá-lo, a mudar-lhe a feição. O amante obstinado de uma megera, ao morrer, transmite por um instante aos demais a enganosa imagem que dela formara “Reminisção”). A idéia da existência, longe, de um desconhecido benfazejo ajuda um desamparado a safar-se de suas crises (“Rebimba o bom”). Um rapaz ribeirinho consome-se de saudades pela outra margem do rio, até descobrir o mesmo mistério na moça que o ama (“Ripuaria”). Alguém (“João Porém, o criador de perus”) cria amor e mantém-se fiel a uma donzela inventada por trocistas. Num terceiro grupo de estórias por trás do enredo se delineia outra que poderia ter havido, a alternativa mais trágica a disponibilidade do destino. O povo de um lugarejo livra-se astutamente de um forasteiro doente em quem se descobre perigoso cangaceiro (“Barra de Vaca”). Um caçador vindo da cidade com intuito de pesquisas escapa com solércia há armadilhas que lhe prepara a má vontade do hospedeiro bronco (“Como ataca a sucuri”). Enganado duas vezes, um apaixonado prefere perdoar à amada e, para depois viverem felizes, reabilita a fugitiva com paciente labor junto aos vizinhos (“Desenredo”). Noutros contos o desenlace não e um “desenredo”, mas uma solução totalmente inesperada. Atos e gestos produzem resultados incalculáveis num mundo que escapa às leis da causalidade: daí a multidão de milagres esperando a sua vez em cada conto. Por entender de través uma frase de sermão, um lavrador (“Grande Gedeão”) pára de trabalhar; e melhora de sorte. Um noivo amoroso que sonhava com um lar bonito e abandonado pela noiva; mas o sonho transmitiu-se ao pedreiro (“Curtamão”) e nasce uma escola. Para que a vocação de barqueiro desperte num camponês é preciso que uma enchente lhe desbarate a vida (“Azo de almirante”). Nessa ordem de eventos, uma personagem folclórica (“Melim-Meloso”), cuja força consiste em desviar adversidades extraindo efeitos bons de causas ruins, apoderou-se da imaginação do escritor a tal ponto que ele promete contar mais tarde as aventuras desse novo Malasarte. Infelizmente não mais veremos essa continuação que, a julgar pelo começo, ia desabrochar numa esplêndida fábula; nem a grande epopéia cigana de que neste livro afloram três leves amostras (“Faraó e a Água do rio”, “O outro ou o outro”, “Zingaresca”), provas da atracão especial que exercia sobre o erudito e o poeta esse povo de irracionais, ébrios de aventura e de cor, refratários é integração social, artistas da palavra e do gesto. Muito tempo depois de lidas, essas histórias, e outras que não pude citar, germinam dentro da memória, amadurecem e frutificam, confirmando a vitória do romancista dentro de um gênero menor. Cada qual descobrira dentro das quarenta estórias a sua, a que mais lhe desencadeia a imaginação. Seja-me permitido citar as duas que mais me subjugaram pela sua condensação, dos romances em embrião que fazem descortinar os horizontes mais amplos. “Antiperipléia” e o relatório feito em termos ambíguos por um aleijado, ex-guia de cego, do acidente em que seu chefe e protegido perdeu a vida. Confidente, alcoviteiro e rival do morto, o narrador ressuscita-o aos olhos dos ouvintes enquanto tenta fazê-los partilhar seus sentimentos alternados de ciúme, compaixão e ódio; “Esses Lopes” é a história, também contada pela protagonista, de um clã de brutamontes violentos que perecem um após outro, vítimas da mocinha indefesa a quem julgavam reduzir a amante e escrava. Duas obras-primas em poucas páginas que bastavam para assegurar a seu autor uma posição excepcional.

UBIRAJARA – JOSÉ DE ALENCAR

0

UBIRAJARA – JOSÉ DE ALENCAR

Em sintonia com o objetivo de definir a nacionalidade, que no Brasil coincide com a independência do país, o romance indianista, com muita idealização, vai investigar o nosso passado histórico em suas origens mais intocadas, como é o caso de Ubirajara.

O subtítulo da obra — “Lenda Tupi” – esclarece que Alencar remontará ao Brasil pré-colonial em que o índio, sem ter tido contato com a civilização européia, ainda se encontra em seu estado natural.

A narrativa tem a finalidade de revelar a origem dos índios ubirajaras e se passa no encontro entre o Tocantins e o Araguaia.

No primeiro capitulo (“O Caçador”), temos o jovem caçador araguaia Jaguarê, que aspirava à conquista da fama de guerreiro imbatível. Ele está no meio da mata, procurando novos desafios. Essa oportunidade, porém, não ocorre, pois quem ele encontra é a belíssima virgem Araci, “estrela do dia”, filha de ltaquê, chefe da nação tocantim.

Nesse encontro, eles mantêm um breve diálogo e ela lhe diz : “O mais forte e valente [guerreiro] me terá por esposa.” Ele não se alista, mas pede que ela mande pretendentes para combatê-lo.

Quando ela parte, Jaguarê, ao cruzar com Pojucã, guerreiro tocantim, começa uma luta titânica na qual o araguaia sai vencedor. Como era costume entre os povos primitivos, Pojucã segue como prisioneiro de guerra para a nação araguaia onde seria executado nos rituais antropofágicos.

Com este feito heróico, Jaguarê torna-se o guerreiro Ubirajara, “senhor da lança”, e herda de seu pai, Camacã, o posto de chefe dos índios araguaias.

Após essa conquista, Ubirajara busca uma outra: a da esposa. Embora o jovem guerreiro já tivesse a virgem Jandira, sorriso de mel, prometida como sua esposa, ele não conseguia se esquecer de Araci. Assim, afirma à sua prometida que não merecia seu amor. E pede que ela seja a esposa do guerreiro prisioneiro. A virgem, filha de Magé, não aceita tal proposta, pois o amava, e foge para a floresta. Em seguida, o herói parte para a nação tocantim.

Lá ele é recebido com todas as honras de hóspede ilustre. Os índios acreditavam que um hóspede era um enviado de Tupã.

Assim, seguindo as tradições, Ubirajara senta-se na taba do chefe ltaquê junto com os mais bravos guerreiros e os anciões para fumar cachimbo, compartilhado entre todos os presentes.

Como “a lei da hospitalidade não consentia que se perguntasse o nome ao estrangeiro que chegava, nem que se indagasse de sua nação”, Ubirajara passa a ser chamado de Jurandir, “aquele que veio trazido pela luz do céu”.

Depois de ter sido recebido com todas as honras, Jurandir pede ao grande chefe ltaquê que lhe conceda Araci como sua esposa. O chefe tocantim aceita e Jurandir, conforme as tradições daquele povo, deixa sua condição de estrangeiro para pertencer à “oca de ltaquê, e devia, como servo do amor, trabalhar para o pai de sua noiva”. Além disso, ele deveria disputar com os outros guerreiros tocantins a posse de Araci.

Assim fez o guerreiro apaixonado, mas uma visita inesperada vem temperar a vida do par romântico: Jandira, a virgem araguaia, noiva de Jurandir, aparece com uma faca para ameaçar Araci.

O guerreiro chega no exato momento para impedir uma tragédia, amarra Jandira e faz dela escrava de Araci: “— Jandira é tua escrava. Não lhe dês a liberdade. Ela tem a astúcia da serpente e seu veneno.”

Araci dá a Jandira uma lição de moral, explicando-lhe os valores da cultura indígena: “Araci está alegre; porque o amor do guerreiro voltou-se para ela; e Jandira vai fazê-la companheira de sua glória e mãe de seus filhos. Quando a esposa de Jurandir não tiver mais beleza para seu guerreiro, ela consentirá que Jandira durma em sua rede.”

Chega o dia em que os guerreiros devem combater para conquistar Araci. Durante os rituais de combate, a noiva canta: “Araci ama o mais forte e mais valente. Ela pertencerá ao vencedor que vencer a bravura dos outros guerreiros, como venceu a vontade da esposa.”

Jurandir passa por provas de força e astúcia, vencendo a todos os guerreiros. Então o chefe tocantim lhe diz: “Quando o estrangeiro chegou à cabana de ltaquê, ninguém lhe perguntou quem era e donde vinha. (…) Mas agora o estrangeiro saiu vencedor do combate do casamento e conquistou uma esposa na taba dos tocantins. É preciso que se Faça conhecer.” Jurandir, sabendo que seu prisioneiro de guerra (Pojucã) era filho do chefe ltaquê e irmão de Araci, resolve, mesmo constrangido, se apresentar: “Eu sou Ubirajara, o senhor da lança; e o maior guerreiro depois do grande Camacã, cujo sangue me gerou. Se quereis sabei por que tomei este nome. ouvi a minha maranduba [história] de guerra.” Em seguida, relata sua batalha contra Pojucã e afirma que partiria no dia seguinte para assistir ao combate final de seu prisioneiro. Ele, então, ouve do chefe tocantim a declaração de guerra: “Parte. O sol que viu o estrangeiro na cabana hospedeira o acompanhará amigo; mas com a sombra da noite, mil guerreiros, mais velozes que o nandu, partirão para levar-te a morte”.

Na partida. Ubirajara e Araci se encontram novamente. A moça deseja acompanhá-lo, mas o jovem afirma que jamais trairia o chefe ltaquê. Ela, portanto, deveria esperar pela batalha final.

Quando Ubirajara volta à sua tribo, liberta Pojucã para que ele possa lutar ao lado de seu povo. Os araguaias, então, liderados por Ubirajara, seguem para atacar os tocantins, mas lá encontram os tapuias, que por uma questão antiga de vingança tinham o direito de atacá-los primeiro. Vence ltaquê. mas fica cego na batalha, o que o leva á busca de um sucessor, que deveria ser capaz de manejar o arco e a flecha tão bem quanto ele. Só Ubirajara o consegue, unindo o arco de ltaquê ao seu próprio arco, herdado de Cainacã, seu pai. É o momento épico do romance.

O chefe ltaquê propõe paz à nação araguaia e, mais do que isso, afirma: “por teu heroísmo, e ainda mais pela nobreza com que restituíste a liberdade a Pojucã, tu merecias uma esposa do sangue do Tocantim”. Após um diálogo comovido, os dois guerreiros jogam suas lanças ao ar e elas se cruzam, simbolizando a união dos dois povos, formando um só: a nação ubirajara.

Jandira, a virgem araguaia que também amava o jovem Ubirajara, torna-se a segunda esposa do guerreiro por sugestão da própria Araci: “Jandira é irmã de Araci, tua esposa. Ubirajara é o chefe dos chefes, senhor do arco das duas nações. Ele deve repartir seu amor por elas, como repartiu sua força.” Assim foi feito, já que a poligamia fazia parte da cultura dos indígenas

UBIRAJARA – JOSÉ DE ALENCAR

0

Ubirajara – José de Alencar

Esta obra trata-se da formação da grande nação Ubirajara. CAP-I Jaguarê , u caçador da nação araguaia procura um inimigo terrível para vencê-lo em combate de morte e ganhar nome de guerra. Para conseguir essa façanha, ele deixa sua taba e a presença de Jandira, sua futura esposa. Depois de alguns dias na selva, à beira do rio Tocantins-Araguaia, onde a nação Tocantim dominava, ele encontra Araci, filha desta valente nação. Jaguari propõe a Araci que retorne a sua nação e “diga aos seus guerreiros que eu os desafio ao combate”. Mas, antes de Araci retornar, Pojucã, seu irmão, encontra com Jaguarê que propõe um combate leal. Depois de muito tempo de combate, os dois perceberam que eram iguais em força e valentia e se convenceram que nenhum derrubaria o outro, e para finalizar, eles resolveram disputar uma corrida. Quem chegasse primeiro na lança venceria o combate. Os dois tocaram juntos na lança, porém, esta ficou na mão de Pojucã. Ao arremessar a lança para matar Jaguarê, ela se voltou contra Pojucã e esse recebeu-a no peito. Logo, Jaguarê se torna o vencedor, leva Pojucã como prisioneiro para a festa da vitória, onde será reconhecido como Ubirajara. CAP-IINa festa a nação araguaia, depois de Pojucã relatar o feito heróico de Ubirajara, Camacã, o grande chefe da nação araguaia e pai de Ubirajara, reconhece que seu filho passou por uma grande prova e o nomeou chefe da nação. CAP-IIICom a nomeação de guerreiro, Ubirajara no dia seguinte pegaria Jandira e a levaria para a cabana nupcial. Como Ubirajara não apareceu, ela partiu em busca de seu noivo. Na noite anterior, Ubirajara sonhara com Araci e foi ao seu encontro, sendo interrompido por Jandira. Então, ele disse a Jandira que ainda não escolhera o seio que geraria seu primeiro filho. Sendo um ritual, Ubirajara escolhe uma esposa digna de acompanhar o herói inimigo nos seus últimos dias e ter um filho de guerra, e Jandira foi a escolhida. Inconformada com a decisão e com o abandono, sujeitava-se a morte, por isso, fugira da cabana de Pojucã, antes da volta de Ubirajara para matar o prisioneiro. CAP-IVAo chegar à grande taba dos Tocantins, como hóspede Ubirajara é acolhido por Itaquê o grande chefe dos Tocantins. Sendo de costume ele não poderia perguntar a origem nem o nome do hóspede. Então, Ubirajara tinha que escolher um nome, e o nome escolhido foi Jurandir. Araci avistou o caçador araguaia e adivinhou que ele viera a cabana de Itaquê para disputar sua beleza aos guerreiros Tocantins. Foram feitas muitas festas para o estrangeiro, mas, através da Lei de Hospitalidade, Araci não podia revelar o segredo do visitante. CAP-VDepois de festas, Jurandir, conduzido pela virgem foi ao encontro de Itaquê, dizendo que viera servir ao pai de Araci, pois queria disputar aos outros guerreiros o seio de esposa de Araci. A partir daí, Jurandir deixou de ser estrangeiro e passou a fazer parte da cabana de Itaquê como servo do amor, trabalhando para o pai de sua noiva. Jurandir era o maior caçador e o melhor pescador, tudo estava em abundância na cabana do chefe dos Tocantins. Quando Araci foi procurar as plumas para fazer o cocar do amor, encontrou-se com Jandira. Araci quase foi atacada por Jandira, mas Jurandir chegou a tempo de impedir. Então, ele amarrou a mão de Jandira e as deixou a sós. Ficaram então competindo e defendendo o amor por Ubirajara. Depois de algum tempo, Araci desata os braços de Jandira e dá a ela a liberdade. CAP-VIChega o dia do combate nupcial, os noivos de Araci estavam disputando sua posse. Depois de muitas provas típicas do costume indígena, Jurandir se consagra vencedor, mas antes de receber a esposa, devia declarar quem era, pois fora recebido como visitante e ninguém o conhecia. CAP-VIIItaquê pede a Jurandir que se identifique, pois ele não deixaria sua filha Araci, entrar numa taba onde habituasse quem tivesse ofendido um só de seus guerreiros. Sendo assim Jurandir se apresenta-se como Ubirajara, o chefe da grande nação Araguaia. Contou aos Tocantins o seu encontro com Pojucã, o combate que o venceu e que voltara no sol seguinte para assistir ao combate da morte. Nisso, Itaquê reconhece o matador de seu filho Pojucã, que havia partido para rastejar a marcha dos Tapuias. Mas não podia vingar seu filho pois o matador era seu hóspede e não admite que sua esposa Jacamim chore na frente de Jurandir o matador de seu filho. Itaquê disse a Ubirajara que nunca iria ofendê-lo em sua taba pela lei da hospitalidade e despede-se dele. Ubirajara ao partir propõe a guerra à Itaquê como inimigo, pois queria restituir a sua esposa. Então, Ubirajara vai até a sua nação buscar seus guerreiros, nisso liberta Pojucã e dá a ele a chance de lutar com sua nação. Depois de cinco sois, o chefe dos Araguaias volta à taba dos Tocantins, mas, antes de chegar encontra-se com os Tapuias que iam vingar Pojucã que havia incendiado a taba dos Tapuias. Como não era certo lutar as três tribos ao mesmo tempo , Itaquê, Ubirajara e Canicrã decidem que o vencedor de Tocantins X Tapuias iria combater com os Araguaias. CAP-VIIIDurante o combate entre Canicrã e Itaquê, Itaquê é atingido nos olhos por Pãa e atinge Canicrã, arrancando-lhe a cabeça. Então Ubirajara viu-se sem os guerreiros para vencer, mas viu Pãa, e mandou que Abeguar o apanhasse para ser escravo de Itaquê. Nisso, a nação Tocantim ficou sem o grande guerreiro Itaquê que ficara cego. CAP-IXOs Tapuias voltaram, com Agná à frente de sua nação, para vingar a morte de Canicrã seu irmão. Mas os Tocantins estavam sem um grande chefe que pudesse abrir-lhes o caminho da guerra já que Itaquê estava cego e Pojucã não agüentava brandir o arco de seu pai e jamais empunharia outro arco chefe menos glorioso. Então, com sua experiência Itaquê pede a Ubirajara e propôs a ele que empunhasse o arco de Itaquê e conquistasse por heroísmo uma esposa e uma nação. Então Ubirajara uniu a nação dos Tapuias e formou a grande nação dos Ubirajaras tendo duas esposas, Araci pelos Tocantins e Jandira pelos Araguaias que seriam mães de seus filhos. Comentários sobre o livro O livro se passa em um intervalo não muito grande de tempo. Os personagens não envelhecem, mas, a formação psicológica é muito alterada ao decorrer de várias modificações principalmente culturais. Em Ubirajara, focaliza-se a vida dos aborígenes em seu meio natural, livres, longe do contato com a civilização. Sendo o índio em comunhão com a natureza, fonte de inspiração para os escritores românticos. A narrativa é feita na 3ª pessoa, não havendo interferência do autor, que apenas relata a vida entre os índios. O índio de Alencar é visto através do mito do bom selvagem, é uma criação artística já que os descreve de uma forma pessoal e bastante idealizada, o índio é construído apenas com os detalhes positivos. Em todos os seus romances patenteiam-se o domínio da imaginação, prescindindo muitas vezes da observação que entra principalmente nas descrições dos costumes e do ambiente, comprovando isto, no livro, trata-se por exemplo, a lei da hospitalidade, que é um dos costumes entre as nações para receber um estrangeiro, que não pode ser interrogado sobre sua vida. “Os guerreiros que tinham acudido ao som da inúbia, deixaram passar o estrangeiro sem inquirir donde vinha, nem o que o trouxera. Era este o costume herdado de seus maiores; que o hóspede mandava na taba aonde Tupã o conduzia.” O texto foi escrito com vocábulos indígenas.José de Alencar buscou reconstituir traços que considerava essenciais na cultura do homem que primitivamente habitou o Brasil. Por isso, no livro trata-se apenas da vida do índio. O índio era visto pela visão de bom selvagem de Rousseau. Além do indianismo que reflete o nacionalismo e a exaltação da natureza pátria, essa obra revela uma preocupação histórica. Ubirajara-lenda tupi representa o índio em seu estado mais puro, pré-cabralino. A ação se desenvolve ás margens do Tocantins-Araguaia e relata a formação da grande nação Ubirajara. Lidos com os olhos de hoje, os romances indianistas de Alencar parecem exagerados nos sentimentos e nas boas qualidades atribuídas aos indígenas. Assim agindo, procurava demonstrar que o indígena brasileiro, apesar de primitivo, podia servir de modelo estético para a criação literária uma vez que fornecia elementos ricos de fantasia e imaginação , inclusive pela nobreza estilizada de seus traços humanos. Personagens:Os personagens principais são: *Jaguarê, um jovem caçador filho do chefe da nação Araguaia, que estava para ser aclamado guerreiro desde que conquistasse uma grande façanha. Quando venceu o primeiro guerreiro dos guerreiros de Tupã, Jaguari recebeu o nome Ubirajara, senho da lança, o mais forte dos guerreiros da nação Araguaia. Jurandir foi o nome escolhido por Ubirajara enquanto permanecia na cabana hospedeira de Itaquê. Depois, Ubirajara torna-se o chefe das nações.*Jandira, a virgem formosa Araguaia que guardava para Jaguarê o seio de esposa. Sujeitou-se a morte pelo abandono de Jaguarê. No fim ficou sendo esposa de Ubirajara, pela nação Araguaia.*Araci, a estrela do dia, é filha de Itaquê, pai da grande nação Tocantim. Haviam muitos guerreiros disputando seu amor mas, só o mais valente e forte a teria como esposa. Ao final, ela se tornou esposa de Ubirajara pela nação Tocantim.*Itaquê, o grande chefe da nação Tocantim, pai de Araci e Pojucã. Depois de ficar cego, pede a Ubirajara que se torne também chefe da nação Tocantim, para vencer os Tapuias.*Pojucã, um grande guerreiro e o chefe mais feroz da nação Tocantim, matador de gente, irmão de Araci, e inimigo de Jaguarê. Depois de aprisionado e libertado por Ubirajara, não fora mais um grande guerreiro.Houveram também outros personagens que fizeram parte do livro:. *Tupã, o Deus do raio e trovão. Os Tupis atribuíam grande poder a essa divindade.*Camacã, o grande chefe da nação Araguaia, pai de Jaguarê, depois passa o arco da nação Araguaia para seu filho.*Jacamim, a mãe dos filhos de Itaquê.*Canicrã, o chefe dos Tapuias.*Pãa, um curumim, último filho de Canicrã, que cegou Itaquê, pois estava revoltado com a morte de seu pai.*Crebã, um guerreiro, irmão de Pãa, filho de Canicrã.*Tubim, um jovem caçador que tinha asas de abelha e recebeu o nome de Abeguar ao pegar o curumim Tapuia Pãa.*Agniná, irmão de Canicrã que foi a frente dos Tapuias vingar a morte de seu irmão.*Majé, pai de Jandira. Tinha boas influências na nação Araguai