Clarissa – Érico Veríssimo

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Clarissa – Érico Veríssimo

Modernismo de segunda fase. Clarissa é uma jovem de 13 anos que mora na pensão da tia enquanto estuda em Porto Alegre. Ela é uma jovem curiosa, descobrindo o mundo, a adolescência e a vida. Não gosta muito de escola, sente saudades da fazenda em sua cidade natal, Jacarecanga e observa as pessoas que moram na pensão da tia e na vizinhança: Ondina, a infiel esposa de Barata; Amaro, o músico triste e contemplativo; o distraído major; a conservadora tia e seu desempregado marido; a família rica que mora ao lado e a viúva com o filho mutilado. Este último, Tonico, perdeu as duas pernas num acidente de bonde e sonha em marchar com exércitos. Frágil, acaba morrendo. Quanto a Amaro, este sempre contempla Clarissa, sua juventude, sua inocência, sua beleza aflorando da menina que vai se tornando moça. Clarissa faz 14 anos (e ganha permissão para usar salto alto) e passa na escola. O livro acaba com Clarissa voltando para Jacarecanga (e encontrar o primo Vasco) enquanto Amaro fica triste na pensão a pensar nela. O primeiro romance de Érico Veríssimo, Clarissa apresenta um panorama da vida de uma jovem na Porto Alegre de 1932 e começa a história que se estenderá por seus romances da primeira fase.

Comédias da Vida Privada – Luís Fernando Veríssimo

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Comédias da Vida Privada – Luís Fernando Veríssimo

São 101 crônicas – pequenas estórias sobre as ironias do cotidiano- humor – piada crônicas divididas em 6 capítulos, a saber:

    • 1. Fidelidade e infidelidades – 14 crônicas
    • 2. Encontros e desencontros – 16 crônicas.
    • 3. Eles e ou Elas – 41 crônicas.
    • 4. Família – 13 crônicas.
    • 5. Pais e Filhos – 5 crônicas.
    6. Metafísicas – 8 crônicas.

1. Fidelidades e Infidelidades

A fidelidade
Em plena terça-feira, mulher e filhos descansavam na praia. Chegou o marido e contou que recebera um telefonema anônimo revelando que a esposa tinha um amante surfista. Ela negou e pediu que ele nunca desconfiasse da fidelidade dela. Ele
voltou para Porto Alegre, pois teria um compromisso no dia seguinte. Mas o compromisso era naquela noite mesmo: ela se chamava Maitê. Na verdade, com toda essa história, conseguira um habeas-corpus preventivo.

Zona Norte, Zona Sul
Depois de muito tempo, Vânia aceitou encontrar-se com Rogério, seu amante, no apartamento dele. Saiu de casa dizendo que ia a Copacabana fazer compras. Quando os dois já estavam tirando a roupa, ouviram um rebuliço no corredor. Em seguida, batidas na porta. Era a polícia procurando Gatão, um famoso bandido que morava no apartamento vizinho e que conseguira fugir. No quarto, os policiais encontram Vânia seminua. Ela corre para a cozinha onde Gatão a agarra. Ele exigia um carro para a fuga. Nesta altura, já havia repórteres e câmeras de TV por todo lado. Gatão consegue fugir levando Vânia. Quando ele a liberta, ela pensa no marido, nos filhos e nos amigos naquele momento já deveriam estar sabendo de tudo. Então, pede ao bandido que a leve junto. Hoje, vive com Gatão em Rezende e jamais o trai. Outro final: Vânia chega em casa preparada para tudo, mas se surpreende com a animação da família por terem visto-a na televisão.

Infidelidade
Um homem conta a seu médico que para conseguir fazer sexo com a sua mulher tinha que pensar em outras mulheres, alguns objetos … E passado algum tempo, isso já não adiantava mais. Ele agora só se excitava quando pensava numa mulher madura, com o cabelo começando a ficar grisalho, olhos castanhos…E esta era a sua própria mulher.

O encontro
Um casal que havia se separado há pouco tempo, reencontra-se por acaso num supermercado. Era a primeira vez que se encontravam depois da separação. Os dois estavam embaraçados. Ele perguntou se ela costumava fazer compras de madrugada. Ela respondeu que estava lá aquela hora porque tinha alguns amigos em casa. Ele usou a mesma desculpa quando ela perguntou sobre ele. Na verdade os dois estavam sozinhos.

Sala de espera
Uma mulher jovem e muito bonita e um homem com seus quarenta anos encontram-se na sala de espera do dentista. Os dois interessam-se um pelo outro. Pensam em falar muita coisa. Mas no fim acabam não dizendo nada. Aí a enfermeira abre a porta e diz: – O próximo. E eles nunca mais se vêem.

Cantada
Um homem e uma mulher tentam “desvendar o mistério” de onde já se conheciam. Ambos mentem dizendo que poderia ser em Nice, Nova York, Londres, Paris… Depois de passarem a noite juntos eles confessam que nunca estiveram nesses lugares. Na verdade, eles já haviam se conhecido, mas na praia de Guarapari.

Lixo
Um casal se encontrava-se na área de serviço do prédio onde morava. Cada um trazia o seu pacote de lixo. Depois de alguma conversa descobrem que, já há algum tempo, um analisava o lixo do outro. Sabiam muitas coisas a respeito do outro através do lixo. Ela o convida para jantar camarões. Ele não quer dar trabalho. Ela diz que rapidamente limpa tudo e põe os restos fora. No seu lixo ou no meu?

02) Eles &/ou Elas

A comadre
Aquele veraneio terminou mal. Tudo porque o Itaborá tinha soltado um omnahnmon! ao ver a comadre Mirna de biquíni fio-dental. Isamara, a esposa exigiu explicações. O compadre Adélio, deixou passar. Afinal, eram amigos demais e o aluguel da casa já estava pago para um mês. Mas até o fim ficou aquela coisa chata entre os quatro. O Itaborá não podia tossir que todos olhavam desconfiados.

O Mendoncinha
Um casal estava tendo uma conversa durante o ato sexual. Falavam que parecia haver outras pessoas ali com eles naquele momento: pai, mãe, o analista, o superego de cada um… Ela diz que parecia que Mendoncinha, o seu primeiro namorado, também estava ali. A reação dele foi imediata: Bota o Mendoncinha para fora desta cama. (…) Ou sai o Mendoncinha, ou saímos eu e a minha turma!

O brinco
Maurão, às três horas da manhã, liga para a casa do Russo, querendo falar com a sua esposa, Moira. Russo responde que ela não está com ele. Maurão insiste. Não acredita. tinha visto o Russo comprar um brinco e este apareceu na orelha de Moira. Na verdade, quem tinha recebido os brincos era Roberto. E era ele que estava deitado com Russo. Quem fica intrigado, agora, é o próprio Russo. Como os brincos foram parar nas orelhas de Moira? Roberto explica que dera os brincos a Lise, sua esposa. E concluindo: Lise deu-os a Moira. – Você acha que a Lise e a Moira…

Flagrante de praia
Uma mulher bonita está na praia passando óleo para bronzear. Faltavam as costas. Perto dela, um homem lia jornal. De repente, ela pergunta por que ele estava olhando. Ela diz que nem olhou para os lados. Ele continua a conversa perguntando se ele não estava pensando em propor-lhe um programa ou caisa parecida. Ele responde que não. Não queria nenhum envolvimento emocional naquele momento. Perfeito. Ela levantou-se, caminhou até onde ele estava, sentou ao seu lado e pediu: – Me passa óleo nas costas?

O homem trocado
O homem acorda da anestesia e pergunta à enfermeira se foi tudo bem na operação. Esta dá resposta positiva. Ele estranha, pois a sua vida sempre fora rodeada de trocas. Trocaram-no na maternidade; no cartório, ao invés de Lauro, escreveram Lírio; na escola pagava por aquilo que não tinha feito; passara no vestibular, mas o computador se enganara e seu nome não aparecera na lista; contas telefônicas astronômicas para pagar e ele nem tinha telefone; fora preso por engano. E agora a sua operação de apendicite tinha sido um sucesso. A enfermeira parou de sorrir. – Apendicite? – perguntou, hesitante. – É. A operação era para tirar o apêndice. – Não era para trocar de sexo?

03) Família

A rocha
Dona Mimosa, aos 100 anos, adquirira uma sólida autoridade moral sobre a família. Todos vinham pedir conselhos a ela, sobreeducação, aplicação de dinheiro, etc, e tudo era resolvido por ela. Mas certo dia Dona Mimosa sentiu que o mundo lhe escapava. – A Berenice vai sair de casa. – Não deixa. – Não adianta. Ela vai juntar. – O quê? – Com a Valdirene. – Ah, bom. Vai morar com uma amiga. – Não. Vão formar um casal. Silêncio. – O que a senhora acha? Dona Mimosa sentiu que o mundo lhe escapava. Seu nariz não lhe diz mais nada. Era preciso, no entanto, resguardar a autoridade. Com um esforço, recompôs-se e perguntou: – E essa Valdirene, tem uma posição?

Reencontro
Frederico encontra, no elevador, o amigo Parra que não via há vinte anos. Leva-o para seu apartamento e apresenta-o à mulher. Começam a conversar sobre os velhos tempos. No meio da conversa, Frederico diz que está velho, que a Sandra, já tinha noivo. Parra disse que sabia. Frederico pergunta se ele conhece a sua filha. Parra disse que ele era o noivo de Sandra. Os dois começam a discutir e Parra vai embora. A mulher que pegara a conversa pela metade, não entende nada.

Tios
A primeira história é sobre tio Paulito. Era um homem quieto que sempre almoçava com a família de sua irmã. Certo dia, a filha mais moça foi à conferência do Prestes no PT e encontrou o tio Paulito, que se mostrava íntimo do político. No outro dia, tio Paulito foi o centro da admiração de todos na mesa do almoço. Já tio Dedé fazia questão de contar a sua vida. Era muito falador. Sempre falava que tinha feito um filme em Hollywood, aparecia numa cena do filme “Island of Love”. Certo dia, o filme passou na televisão; juntou-se muita gente na casa da família, todos ansiosos para verem o tio Dedé. Mas ele não apareceu. Então, ele pulou da cadeira e bradou aos céus: Cortaram! Cortaram!

Férias
A família está discutindo sobre onde passar as férias. O pai tenta uma proposta que não seja muito cara. Decidem passar uma semana na praia e outra na serra. Vão a um hotel numa praia ainda não desenvolvida, pois é mais barato. O pai fica o dia inteiro lendo Agatha Christie e falando mal do general. Em seguida, viajam para a serra. O pai permanece no hotel, mas descobre que o general também está hospedado ali. Então anuncia para a família: Vamos passear no mato!

04) Pais e Filhos

Pai não entende nada
A filha pede um biquíni novo para o pai. Este lhe pergunta se ela não tinha comprado um no ano passado. Ela diz que cresceu, que passou de 14 para 15 anos. Enfim, ele deixa a filha comprar um maior. Maior não, pai. Menor!

Suflê de chuchu
Duda viajara para a França sozinha. Os pais estavam aflitos, aqui no Brasil, pois ela nunca fizera nada em casa. Lá, começou a trabalhar de empregada e, às vezes, ligava para seus pais para pedir alguma receita de comida. Duda estava indo bem. Certo dia, a mãe deu a receita errada de um suflê de chuchu, com esperança do fracasso da filha por lá que assim voltaria ao Brasil. Provavelmente Duda foi despedida da casa. Mas dias depois ligou para pedir a letra de uma música ao pai. O pai foi categórico: Diz pra essa menina voltar pra casa. Já.

A bola
Um pai dá uma bola de presente ao filho e esse não se entusiasma muito. Outro dia, o pai vê o menino com um jogo de bola no video game. O pai ainda tenta animar o filho com a bola que lhe dera de presente fazendo embaixadas, mas este mal desvia os olhos da tela. Talvez um manual de instrução fosse uma boa idéia, pensou. Mas em inglês, para a garotada se interessar.

A descoberta
O pai chega de surpresa no apartamento do filho que mora em outra cidade. Este sempre mandava cartas dizendo que precisava de dinheiro para gastar em bebida, som e mulheres. O pa orgulha-se do filho por causa disso. Mas tem uma decepção quando descobre que o filho gastava tudo em materiais para pesquisa, livros e material didático.

O mundo restaurado
Um pai de família adora brincar com os brinquedos das crianças e lembrar da sua infância. Mas os adultos não o entendem; falam e agem num tom muito sério. Mas ele não ouve mais nada. Ergue o Henry Kissinger até os olhos, como se mirasse uma metralhadora, e começa a girar uma manivela invisível do lado do livro. Ao mesmo tempo, com a boca imita o ruído de tiros, e descobre entusiasmado que ainda não perdeu o jeito. O cunhado fica olhando, entre surpreso e divertido, enquanto ele varre a sala com rajadas imaginárias.

05) No Bar

Dezesseis chopes
Estão cinco amigos num bar conversando e bebendo chope. Nos primeiros copos a conversa é normal. Depois passam por vários assuntos diferentes, alguns, já sem qualquer nexo. Nos últimos copos, começam a falar de coisas nostálgicas. Um deles afirma não ser feliz porque nunca teve um canivete decente. Outro levanta-se e diz que teve um bom canivete. Ali está o melhor dos homens, o homem completo, e eles não sabiam.

Conversas de bar
Dois amigos, sentados num bar, conversam. Era um reencontro e eles relembravam as coisas boas da juventude. Reconhecem que o garçom também tinha sido um grande amigo deles, mas não falam nada.De tudo que Mafra falava Tarol duvidava. Eram inseparáveis, mas viviam brigando. Mafra contava histórias absurdas, impossíveis. Certo dia, os dois foram viajar. Quando voltaram, Mafra contou para a turma que tinha um apito de chamar mulheres e para não desmerecer o amigo, Tarol confirmou, mas revelou que só chamava bagulho.A mesa Cinco amigos, cada um com sua família, iam todos os dias a um bar para um chope, mas logo voltavam para casa. Certo dia, um deles jantou lá. Com o tempo os outros foram jantando também. Passado mais um tempo, Gordo (o primeiro que tinha jantado no bar) resolveu dormir por lá. Decidiu, ainda, não sair mais do bar. Os outros gostaram da idéia e também resolveram viver lá, comendo, bebendo e conversando. Os familiares tentam convencê-los a ir para casa, mas estes não dão bola. Já perderam os empregos e certamente não terão dinheiro para pagar a conta, mas é pouco provável que peçam a conta num futuro próximo. O papo está cada vez mais animado.

06) Metafísicas

Borgianas
O narrador estava jogando “xadrez” com Jorge Luís Borges, no escuro. Este ficava contando várias histórias. Ouvia barulho na rua e inventava mais coisas. Também falou do Antigo Egito. Outra vez, jogava xadrez com peças invisíveis e tabuleiro imaginário. Conversavam sobre a importância da experiência para o escritor. Borges não achava importante. Soubera da história de um tigre que tinha entrado na biblioteca de um escritor e que nunca mais saiu de lá. Esse escritor não poderia escrever de maneira convincente sobre o tigre, pois teria que voltar à biblioteca para pesquisar e isso ele não pode fazer pois tem um tigre na sua biblioteca.

Contículos
Jorge Luís Borges está sonhando, mas pensa que está acordado, pois até fala com dois homens que já tinham morrido. Tinham avisado Sandrinha sobre o mau comportamento do rapaz. Mesmo assim Sandrinha se aproximou. Depois pôde perceber que todos tinham razão.O desejo da Madre de começar um conto com um palavrão. Um dia o pai saiu de casa, afirmando que voltaria muito rico e os buscaria. Ele voltou amarrado na balsa todo ensangüentado com uma tabuleta no peito. O filho tem curiosidade de saber o que estava escrito na tabuleta. Dois fatos que não se relacionam: Marisa abrindo uma lata de pêssego e o desmoronamento do Himalaia.Encontraram-se 25 anos depois. Um deles chamou o outro de kid. Este diz que não era o kid. O primeiro tem certeza de que ele era o Kid. Agora não é mais. Maria José casou com José Maria por uma certa fascinação intelectual. Foram muito felizes.

Gravações
No fim do dia, um homem escuta todas as conversas que foram gravadas no seu telefone durante o dia. Espera ansioso pela última. E ouve: Alô, aqui é o Mário. Algum recado para mim?

Conto Erótico
O chefe tenta fazer uma ligação, mas não consegue porque instalaram um novo sistema telefônico. No começo ele pensa que é a secretária falando. Mais tarde descobre que é uma gravação. Tem pensamentos eróticos com a “gravação”, pois acha a voz linda.

Concerto Campestre – Assis Brasil

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Concerto Campestre – Assis Brasil

A história se passa na Vila de São Vicente, e tem como trama principal o amor proibido de Clara Vitória pelo Maestro. A trama se passa na fazendo do Major Antônio Eleutério, potentado em terras e charqueador. Homem que viveu no passado uma vida rude, e agora dedicava sua vida a música e a sua orquestra particular, A Lira de Santa Cecília. Homem conservador e de princípios rígidos. Não admite um modo de pensar e de amar diferente do dele. Tem uma filha, a jovem Clara Vitória. Ela abala a sociedade, declarando abertamente seu amor pelo Maestro. Faz isso, quando descobre que espera um filho dele. É caracterizada pela quebra do seu antigo modo de pensar. Após conhecer o maestro muda todos os seus antigos conceito que provinham de sua família conservadora. O Major, criou em suas terras uma orquestra particular: a Lira de Santa Cecília. E convidou um maestro para reger sua orquestra. Este, era um homem com idéias diferentes das do major, mas possue muita diplomacia e sabe lidar como difícil gênio de Antônio Eleutério. Aos poucos vai se apaixonando pela filha do major, a Clara Vitória, e vai conquistando-a. Então vive aquele dilema de se integrar ao amor proibído ou manter a fidelidade ao intransigível major. Acaba por se integrar este amor, e este amor proibido resulta em um filho. O major é casado com Dona Brígida. Esta, tem uma maneira de pensar bastante conservadora. Mas não suportava as idéias musicais do major. Achava um disperdício de tempo a Lira de Santa Cecília. Interessante a posição da Igreja neste romance. É simbolizada pelo Vigário. Um homem que condena o casamento livre, “arranja” casamentos junto com os pais dos noivos. Tem princípios antiquados, mas não age com o mesmo radicalism do Major. Condena o major por ele ter “aprisionado sua filha”. Exatamente isso que acontece quando o major descobre que sua filha está grávida de outro homem. Só que ele não sabe qual homem. Ele pensa que quem engravidou Clara Vitório foi seu noivo, o Silvestre Pimentel. Vai até a casa de Silvestre Pimentel e tenta assassiná-lo. Só que não consegue, pois, errou os tiros. Então ao voltar para casa ele determina que Clara Vitória deve ser afastada da fazenda e a leva para uma tapera em um lugar distante da civilização. E lá ela permanece a espera do parto. O Maestro e a orquestra da Lira de Santa Cecília se desfaz após isso e o Maestro vai para Porto Alegre e se integra a orquetra da Catedral. Outro músico da orquestra se chama Rossine. Ele entra na trama de uma maneira sutíl, começa aos poucos a ser o conselheiro do Maestro. Representa um pai para o Maestro, quem dá os melhores conselhos e depois espera os resultados. O Maestro sente muita falta de sua amada e resolve voltar para a Vila de São Vicente e libertar Clara Vitória de sua “prisão”. Reune os musicos da antiga Lira de Santa Cecília e aparece na fazenda do major Antônio Eleutério. Este, recebe muito bem a orquestra e resolve organiza um um concerto. Convida todos da vizinhança, todas as figuras importantes de São Vicente mas ninguém aparece. Ninguém em São Vicente concordou com o que o Major fez com sua filha. Sozinho, deprimido e após receber desaforos do padre por sua atitude se suicida com um tiro na cabeça. O Major aproveita o momento de confusão e vai em busca de sua amada. Encontra ela com seu filho e acabam por ficarem juntos.

Contos Esquecidos – Machado de Assis

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Contos Esquecidos – Machado de Assis

1 — Decadência do Dois Grandes Homens

Argumento

Miranda, que foi ao Rio de Janeiro tratar questões políticas com os ministros, encontrou no

café Carceler (local da burocracia) o velho Jaime. Este chamou a atenção do médico, pois, sendo

um “original”, todos os dias fazia suas refeições no Carceler, seguindo uma rotina: almoçava,

tomava uma chávena de chocolate, acendia um charuto, lia jornais e por fim adormecia por 30

minutos. Miranda tenta infrutiferamente uma aproximação.

Porém, nos idos de março (dia 15), o velho Jaime depois de almoçar não procurou ler os

jornais. Miranda aproximou-se e, depois de apresentarem-se, entregaram-se a uma longa

conversa, Jaime estava inquieto e preocupado, os idos de março atormentavam-no. Ao saírem do

Carceler, encaminharam-se para a casa do velho. Lá foram surpreendidos por um grande gato

negro, chamado Júlio César. A presença do gato atormentou Miranda, mas, em seguida, Jaime

acariciou o gato acalmando-o. Miranda percebe que entre os muitos livros do velho havia um de

Metempsicose.

Assim, em uma conversa, Jaime revela que na realidade era Marco Bruto, o homem que

matou Júlio César, este tinha seu espírito no corpo do gato. Miranda, ao escutar tal história,

resolvo acender o charuto que ganhara, no café, do velho Jaime. Em silêncio, Miranda escutava

atentamente tudo aquilo que Jaime lhe contava. Nos idos de março Júlio César voltaria para

vingar-se de Marco Bruto, seu assassino. Porém, diante de Miranda, Jaime começa a transformarse

em um rato, que foi perseguido pelo gato, Júlio César. Depois que o gato comeu o rato, aquele

transformou-se em uma bola de luz, e de dentro saiu outra. As duas precipitaram-se ao céu. O

telhado da casa havia desaparecido, junto com as bolas de luz Miranda sobe ao céu. De lá, as

bolas seguem seu caminho, o Miranda despenca do céu. Ao cair no chão, reparou que as casas

estavam estranhas. Os telhados estavam no chão e os alicerces nos telhados. Ao acordar na outra

manhã, Miranda teve certeza de que Jaime era um “original” e de que a vingança de Júlio César, o

imperador romano, tinha se concretizado nos idos de março. Miranda resolveu ir até o Carceler

para contar a todos sua aventure e, ao chegar lá, encontrou o velho Jaime sentado à mesma

mesa, este agradeceu-lhe a ajuda e preocupar-se-ia apenas com os idos de março do ano

seguinte, pois agora estava salvo. Miranda questiona Jaime a respeito do que havia ocorrido e este

explica-lhe que tudo fora culpa do charuto opiado que Miranda tinha fumado.

2— Muitos anos depois

Argumento

Padre Flávio, um jovem de 27 anos, fora criado pelo Pe. Vilela. Abandonado pela mãe e

criado por uma madrasta. Esta morreu e deixou o menino Flávio aos cuidados do Pe. Vilela. Por

uma decepção amorosa, Flávio entra para o seminário e toma-se padre. Carismático, Flávio tinha a

atenção de seus paroquianos, assim corno uma vasta biblioteca formada e livros de teologia,

romances e livros profanos. Um dia, chaga à casa dos padres Henrique Aires, amigo de infância do

Pe. Flávio. Muito afoito, Henrique pediu-lhes ajuda e contou que havia fugido com Luisa. Contra a

vontade de seus pais unira-se a uma moça pobre. Os padres celebraram o casamento dos jovens

e reconciliaram o filho com os pais, João e Mariana Aires de Lima. Dona Mariana tolerava a nora,

mas não conseguia esconder seu descontentamento em relação ao casamento do filho. Depois de

um tempo, Henrique deixa a casa paterna. Nas os padres continuaram a visitar o casal Aires de

Lima. Até que um dia Pe. Flávio disse a Pe. Vilela que fora destrato por João Aires de Lima e, por

isso, não freqüentaria mais a casa da família. Pe. Vilela encontra João A. de Lima, então, o pai de

Henrique diz a Pe. Vilela que Pe. Flávio tinha desrespeitado D. Mariana. A fim de desfazer o mal

entendido, os dois homens dirigem-se à residência do casal. Lá, eles vêem D. Mariana de mãos

dadas com o Pe. Flávio. A cena confirmava a desconfiança do marido traído. Porém, chorando, D.

Mariana revela que Pe. Flávio é seu filho. Pe. Flávio tinha uma carta de sua mãe biológica, más

não esperava estar tão próximo dela. O. Mariana recolheu-se ao Convento da Ajuda, onde mais

tarde faleceu. Pe. Flávio faleceu no interior das Minas Gerais, onde fora refletir sobre o erro de uma

pessoa e sobre as conseqüências que trouxe à vida de muitos.

3—A melhor das noivas

Argumento

Não há nada mais bonito que o sorriso de um velho, menos o de João Barbosa em fim de

setembro, de 1868. Seu João Barbosa, um septuagenário muito rico, um dia colocou um anúncio

no jornal, pois precisava de uma mulher. Seus sobrinhos foram contra a idéia, mas seu João não

lhes deu ouvidos. D. Joana atendeu as exigências do patrão. Quando foi trabalhar na casa do

velho, D. Joana pensava que um dia seu esforço seria reconhecido e, assim, ganharia uma parte

da herança do velho. Porém, seu João começou a ficar muito animado acordava cedo, parecia ter

visto passarinho verde. Um dia o velho disse a O. Joana que precisava falar-lhe algo sério. O.

Joana pensou que seria o momento em que o velho reconheceria o trabalho prestado, pois ele

dizia que não queria deixa-la e que ela deveria estar disposta a fazer o mesmo. Assim, D. Joana

pensava no casamento, no testamento e na herança. O velho começou a falar em casamento, e O.

Joana sentia-se casada com ele. Até que o velho revela o nome da amada: D. Lucinda. Foi um

choque, uma decepção, pois O. Joana percebeu que havia uma interesseira rondando a fortuna do

velho João. Tão irritada com a situação ficou O. Joana, que resolveu partir. No entanto, o velho

persuadiu-a a permanecer com ele. A contra gosto D. Joana conhecera D. Lucinda em um jantar,

em um domingo na casa do velho. José, um dos sobrinhos, convidou-se para o jantar a fim de

conhecer a futura tia e mostrou ao tio que ela era apenas uma interesseira. Quando o sobrinho

falou ao tio o que pensava, este ficou irritado. Só que com o tempo João Barbosa percebeu que as

desconfianças do sobrinho tinham fundamento. Um resfriado afasta os enamorados e faz João

Barbosa perceber que aquilo de que precisava estava todo o tempo em sua casa: O. Joana. Esta

tinha-lhe devotado a vida. Seria certo casar com ela. Assim, para a alegria de D. Joana, esta é

pedida em casamento pelo velho.

Juntos faziam planos para construir uma nova casa. D. Joana apressou o casamento e, na

hora deste, ela foi chamar o noivo. Este estava sentado e sorrindo, O. Joana chamou-lhe algumas

vezes até que percebeu que o velho morrera. Tinha para ele, chegado a morte, a melhor das

noivas.

4— Um Esqueleto

Argumento

Em uma praia, 10 ou 12 rapazes estavam reunidos. Conversavam sobre vários assuntos,

até que um deles resolveu elogiar a língua alemã, e outro concordou. Assim, Alberto disse que

aprendera alemão com o Dr. Belém, um homem que escrevera um livro de teologia um romance e

descobrira um planeta. Não encontrou editor para os livros, e a carta enviada para atestar a

descoberta do planeta perdera-se. O narrador obtém a atenção de todos quando prova a

excentricidade do Dr. Belém contando-lhes a história de um esqueleto. Em Minas Gerais, um dia

Alberto conversava com o Dr. Belém, na porta da casa deste. Alberto perguntou se o Dr. Belém já

tinha sido casado e este disse-lhe que fora casado e que casaria novamente daí a três meses. Dr.

Belém convidou Alberto para ir até seu gabinete lá mostrou ao jovem o esqueleto de sua primeira

esposa. Alberto ficou aterrorizado. Porém o jovem deu uma nova idéia ao Dr. Belém: o casamento.

Dr. Belém escolheu a jovem viúva D. Marcelina para ser sua nova esposa. Embora ela tivesse

apenas 26 anos e fosse cortejada pelo tenente Soares, Dr. Belém durante três meses insistiu no

pedido de casamento. D. Marcelina sempre negou. Porém, passados os três meses, D. Marcelina

aceita o pedido de casamento do Dr. Belém. Todos estranharam tal união, não era por dinheiro,

tampouco por amor pensavam os convivas. Dr. Belém tinha 50 anos, mas aparentava 60, vestia-se

de forma estranha e devido à sua aparência física era chamado de defunto ou lobisomem. No

entanto, o casamento aconteceu e Dr. Belém transformou-se. Passou a vestir-se conforme o gosto

da esposa, e sua casa encheu-se de alegria Alberto era o único o freqüentar-lhes a casa, assim

convivia com a alergia daquela morada. Um dia, não podendo ficar para almoçar na casa do casal,

pediu para ficar algum tempo no gabinete para terminar a leitura de um romance. Estranhou o

silêncio do casal e, ao ir despedir-se, viu que, à mesa, sentado com o casal estava o esqueleto.

Horrorizado com aquela cena, decidiu não freqüentar mais aquela casa. Entretanto, um dia Dr.

Belém cobra-lhe a visita e diz-lhe que o amigo deveria fazer-se presente na casa do casal. Alberto

decide ir, pois ele era a única pessoa normal com quem O. Marcelina tinha contato. Além das três

pessoas, durante um jantar, estava à mesa o esqueleto. Alberto percebe o constrangimento de D.

Marcelina e pede ao amigo uma explicação para aquela situação absurda Dr. Belém diz-lhe que

queria que as duas esposas se dessem bem ou que a primeira serviria do exemplo à segunda. Dr.

Belém contou que matou sua primeira esposa com as próprias mãos, pois ela o traíra.

Uma carta anônima tinha denunciado o adultério. Porém, mais tarde, Dr. Belém soube que

fora um engano, uma mentira. Não houve traição, mas a primeira esposa, Luisa, deveria servir

como exemplo à segunda caso esta não cumprisse suas obrigações de esposa. Alberto deixa a

casa do casal disposto a não voltar mais. Não entendeu aos chamados do amigo, mas, em 15

dias, recebeu um bilhete de O. Marcelina, que dizia que ele em a única pessoa normal com quem

tinha contato.

Apiedou-se da jovem senhora e lá foi. Surpreendeu-se com um anúncio e um pedido. Dr.

Belém diz-lhe que fará uma viagem ao interior e pede-lhe para fazer companhia a sua esposa.

Temeroso, Alberto diz não ao pedido, mas não havia outra pessoa. Assim, Alberto faz a irmã e o

cunhado hospedarem a esposa do Dr. Belém. Passados alguns dias, Dr. Belém manda-lhes uma

carta, pedindo que Alberto levasse ao seu encontro D. Marcelina. Mais uma vez, Alberto convence

a irmã e o cunhado a viajarem ao encontro do Dr. Belém. Era indispensável que levassem com

eles o esqueleto. Ao completarem a viagem a esposa e o esqueleto são entregues ao Dr. Belém.

Ao despedirem-se, a fim de voltar a cidade, o Dr. Belém persuade a todos a esperarem por ele. No

outro dia pela manhã, Dr. Belém convida sua esposa e o amigo Alberto para um passeio na

floresta.

Alberto seguia o casal que caminhava em silêncio. Quando chegaram a uma clareira, lá

estava sentado o esqueleto, Dr. Belém tirou uma carta do bolso e disse aos jovens que sabia de

tudo, que eles não o enganariam mais. D. Marcelina começou a chorar e Alberto, em vão, tentava

explicar a situação. Até que Dr. Belém disse que entendia tudo, pois eles eram jovens e amavamse

e por isso deveriam ficar juntos. Dito isso, agarrou-se ao esqueleto e correu pára a mata.

Alberto não o pode perseguir, pois precisou auxiliar D. Marcelina que se desesperava. Dr. Belém

recebera a carta do tenente Soares, porque este estava despeitado devido à escolha da jovem.

Todos os rapazes escutaram a história com a maior atenção e um deles disse a Alberto que o Dr.

Belém era verdadeiramente um doido. Alberto nu e disse-lhe que o Dr. Belém teria sido um doido

se tivesse existido.

5— Lima Loureira

Argumento

Em certa noite de abril de 1860, houve grande agitação na casa do comendador Nicolau

Nunes. Alberto, um jovem de 27 anos, filho de um primo, chegaria para noivar com uma jovem. Ela

chamava-se Luisa, tinha 18 anos, era a filha do meio. Seu irmão mais velho, assim como o pai,

chamava-se Nicolau, tinha 20 anos, e o mais novo Pedro, de 7 anos. Todos eram filhos do

comendador e de sua esposa Feliciana. Esta tinha a obrigação, segundo o mando, de descobrir se

a filha não estava interessada por outro homem, pois a moça não manifestava tais desejos. Então,

D. Feliciana perguntou à filha se esta já tinha se apaixonado, ela respondeu que não sabia. A mãe

perguntou à filha se deveria explicar-lhe o que era o amor. A mãe percebeu que a filha hesitou por

um momento. Assim, Luisa confessou que já tinha sentido amor por um rapaz, que no outro dia lhe

escrevera uma carta. A mãe, indignada perguntou se a filha respondeu a carta. E, para a tristeza

de D. Feliciana, Luiza respondera 25 vezes. Chamando a filha de desgraçada e dizendo-lhe que

seria a vergonha da casa, descobriu que a moça teve outros correspondentes. Para um enviou

quinze e para outro trinta e sete cartas. Escutando as lamentações da mãe, Luisa disse-lhe que

não havia mais nenhum. Era mentira, pois findada a conversa, foi escrever a quinta carta para o

alferes Coutinho. Assim em uma noite de abril de 1860, chegou o pretendente, dono de nariz

romano.

Alberto agradou a todos, menos à Luisa, pois esta não estava acostumada a dividir as

atenções com os outros. Na realidade, Luisa recebia o novo pretendente, mas continuava a

corresponder-se com o alferes e ainda tinha o Antonico. Quando Coutinho soube do novo

pretendente, escreveu uma carta apaixonada à moça. Ao receber a carta pensou que realmente

amava o alferes. Mas a disputa estava longe de terminar. Luíza sentia-se um pouco dividida, O

comendador Nicolau Nunes solicitou do futuro genro uma definição, e este disse-lhe que tudo

estava certo e que já podiam sentir-se como pertencentes da mesma família. Alberto resolve ir

conversar com o Coutinho, a fim de pedir a este que saia do caminho da jovem Luisa. Porém a

resposta do alferes foi negativa, assim ambos disputam o coração da jovem com todos as armas.

Alberto com sua presença e Coutinho com suas cartas. Mas a chagada do primo Gonçalves, o

sonso, faz Luisa preocupar-se, pois ele havia percebido que ela andava de namorico com os dois

rapazes. Luisa ficou furiosa com o primo. No entanto chegou o dia em que os dois pretendentes

não agüentavam mais a longa espera e ambos pediram Luisa em casamento, enviando-lhe cartas.

Coutinho escutou a moça dizer-lhe que lhe responderia mais tarde.

Depois de um tempo Coutinho foi à casa de Alberto para dizer-lhe que achava que era o

vencedor, ambos confessaram ter recebido muitas provas da moça. Coutinho confessou até ter

beijado a mão da moça. Quando, inesperadamente, chegou o comendador Nicolau e confessou

que a filha fugira com o primo.

6 — Brincar com fogo

Argumento

Duas amigas, Lúcia e Mariquinhas (Maria), estavam à janela em. uma tarde,

quando avistaram um jovem garboso a passear. Ele chamava-se João dos

Passos e tinha decidido que naquele dia iria conhecer o bairro Cajueiros.

Trajava um termo novo de riscado e usava um chapéu importado da França.

As moças ficaram ouriçadas ao ver o rapaz desfilando. Disputaram a atenção e o olhar do

jovem. Mariquinhas falava alto para que João a escutasse. Lúcia beliscava a amiga dizendo-lhe

caluda. João caminhou devagar para desfrutar os olhares desejosos das amigas. Passou

novamente por elas. No outro dia elas não se encontraram. Ficaram em suas casa: Mariquinhas,

rua do Príncipe; Lúcia, rua da Princesa. Porém a espera foi em vão, pois João não foi passear em

cajueiros. Passados alguns dias, o rapaz entra na rua de Lúcia, que estava à janela. Ele corteja a

jovem.Apresentando-se, João pede permissão à moça para enviar-lhe cartas, e ela consenti.

Saindo dali dirige-se a rua de Marquinhas e faz o mesmo com ela. As amigas sabiam que ele se

correspondia com ambas. Para elas, isso era motivo de gozação. Riam e debochavam do

pretendente atrapalhado. No entanto, o interesse de ambas pelo jovem cresceu tanto, que

deixaram de contar, uma a outra, os encontros amorosos. João apaixonara-se verdadeiramente

pelas duas.

Decidiu, então, casar. Resolveu escrever uma carta a Lúcia, pedindo-lhe a não em

casamento. Ele dizia-lhe que estava ansioso pelo momento de chamá-la de esposa e que o pai

dela ganharia, assim, um filho. No entanto ele também confessa seu amor a Mariquinhas, através

de um carta, pedindo-a em casamento. João ajoelhar-se-ia diante da mãe de Mariquinhas para

louvar-lhe. Passaria às 7hs pela casa do Lúcia e 8hs pela de Mariquinhas para oficializar o pedido.

As cartas foram entregues a um portador, que confundiu os destinatários, pois entregou a carta de

Lúcia a Mariquinhas e vice-versa. As duas moças recusaram-se a receber outras cartas do jovem

pretendente, que ignorava o acontecido. Posto isso, João decidiu o destino de seu casamento.

Optou por casar-se com urna prima do interior, que possuía um lindo par de olhos e cinco prédios

excelentes. Quanto a Lucia e Mariquinhas, casaram-se mais tarde, mas jamais voltaram a ser

amigos. Para os três jovens, a Páscoa de 1868 foi inesquecível.

7- A última receita

Argumento

A viúva Paula Lemos, em uma noite de setembro, adoecera ao regressar de um baile. Uns

acreditavam que a causa era a saudade, outros, os nervos. Assim, o Dr. Avelar foi chamado para

examiná-la e constatou ser uma constipação grave. Receitou dois ou três remédios, mas apenas

um era eficaz. A viúva “tomou os remédios como quem não queria deixar a vida’. Ela tinha apenas

24 anos, fora casada dois anos e há treze meses era viúva. O casamento fora arranjado pela

família dela e pelo noivo. Ela não tinha por este a menor estima. Devido à moléstia, o médico

passa a freqüentar a casa de D. Paula. Uma tia velha, que morava com a viúva, por ser surda, não

escutava as conversas entre o médico e sua paciente. Mas, não sendo tola, desconfiava que a

viúva nutria um forte interesse pelo médico. Ocorreram muitas visitas e forma trocados muitos

bilhetes. Por três meses a doença não cedeu. Por isso julgaram que o mal de D. Paula era interno,

já que o rosto não manifestava outros sintomas. Assim, Dr. Avelar escreve a O. Paula dizendo-lhe,

que a moléstia que a afligia necessitava da última receita. Então, o médico revela seu intenso amor

por ela, e, em quarenta dias, casam-se.

8—O Passado, passado

Argumento

Na residência do comendador Valadares, o capitão-tenente Luis Pinto — 42

anos, alto, elegante, bem-feito, olhos negros e rasgados, ar de superioridade

e boa moral — encontrou alguém que amava antes de casar-se. Era D.

Madalena Soares — trinta anos, cuja presença era tranqüila e austera — que

trajava uma vestimenta preta devido à recente viuvez. Havia 10 meses que

falecera seu marido, deixando-a com um filho de 6 anos. O tenente também

era viuvo há dez anos, tendo uma filha, que estudava em um colégio interno.

A alegria de rever um amor do passado não foi percebida pelos outros

convidados para o sarau, pois todos deram atenção à jovem. Ao

despedirem-se, Luis Pinto disse que a iria visitar na rua das Mangueira. Dona

Madalena morava com o filho e com uma tia do marido, esta tinha por

ocupação fazer companhia à viúva. Em um encontro Luis indagou se

Madalena lembrava o passado. “O passado de que ele falava, como já a

leitora terá suposto, era um namoro travado entre os dois antes do

casamento de ambos. Não foi namoro ligeiro e sem raízes, antes

passatempo que outra coisa; foi paixão séria e forte”. Assim o capitãotenente

começa a visitar a viúva com urna intenção clara: o casamento.

Apesar de ela estar no “meio-dia da vida” e ele na “tarde da vida”, Luís Pinto

tinha certeza de que ficaria com o amor do passado. Em um jantar na casa

do comendador Valadares, encontraram-se os dois novamente. Quando

conseguiram ficar a sós, o capitão começou, em um diálogo entrecortado,

indagar o que Madalena pensava sobre a possibilidade de um novo

casamento. Porém foram interrompidos, pois Madalena iria cantar para os

convidados do comendador. Ao despedir-se de Luís, disse-lhe um

significativo ‘talvez’. Para ele a resposta fora ‘sim’. Com a certeza de um

vencedor, descuidou-se das visitas à pretendente. Passados dois meses, em

uma conversa com o comendador, Luís descobre que Madalena iria casar-se

com o Dr. Álvares, era esse o comentário atual. Luís resolve perguntar

diretamente à Madalena, a resposta dela foi um silêncio constrangedor. Em

um mês o casamento foi anunciado.

‘Luís Pinto devia, não digo morrer, mas ficar abatido e triste. Nem triste, nem abatido. Não ficou

coisa nenhuma. Deixou de assistir ao casamento, por um simples escrúpulo; e teve pena de não ir

comer os bolinhos das bodas.

Qual era então a moralidade do conto? A moralidade é que não basta amar muito um dia

para amar sempre o mesmo objeto, e que um homem pode fazer sacrifícios por uma fortuna, que

mais tarde verá ir-se-lhe das mão sem mágoas ou ressentimentos.’

9—Dona Mônica

Argumento

O capitão Matias do Nascimento, ao morrer, deixou sua fortuna (300 contos) para seu

sobrinho Gaspar. No entanto, para receber a herança, ele deveria casar-se com D. Mônica, a tia de

seu tio. Senhora de sessenta anos, cuja elegância de 1810 e o sorriso de mais de três dentes

causam temor ao jovem herdeiro. O bacharel Veloso, amigo de Gaspar, em uma conversa diz-lhe

que D. Mônica provavelmente não aceitaria o pedido de casamento, pois cairia no ridículo. E que

havia uma pessoa mais preocupada com a especial cláusula do testamento: o comendador, pai de

Lucinda. Interessava, ao comendador casar a filha com um homem de posses. Porém, Lucinda, de

apenas dezessete anos, estava certa de seu sentimento por Gaspar. D. Mônica, ao tomar

conhecimento da imposição do testamento, demonstrou profundo desagrado. No entanto, ao

refletir melhor pensou que jamais seu sobrinho faria algo para desagradá-la. Gaspar, ao ir ter com

tia-avó, após sair da secretaria, onde trabalhava, estava decidido a abrir mão da fortuna em nome

do amor de Lucinda, enquanto a velha não queria contrariar a vontade do morto. O comendador

Lima, pai da moça, resolve separar os jovens amantes. A desgraça de Gaspar era enorme perdera

sucessivamente o tio, a herança e a amada. O pai de Lucinda faz a moça viajar para fora do Rio de

Janeiro. Mas, na noite em que recebe a recusa de seu futuro sogro, quebra a chave na fechadura

de sua casa. E, sem ter onde dormir, pois a casa do amigo Veloso era muito longe, resolve dirigirse

à rua do Inválidos, onde morava D. Mônica. Acolhido por um escravo, consegue pouso na casa

de O. Mônica.

No outro dia pela manhã, quando soube que Gaspar dormira na casa, sem seu

consentimento, ficou furiosa e fez com que Gaspar ficasse para o almoço O. Mônica fez o almoço

atrasar, pois deveria vestir-se e toucar-se adequadamente. Durante o almoço, o jovem é

persuadido a contar à velha os dilemas de seu coração. No outro dia também faltou ao emprego,

para ir a Niterói. Durante o trajeto, escutou a conversa de dois homens. Eles falavam sobre os

“cem contecos” que o mais velho possuía. Gaspar conversa com o dono da pequena fortuna e este

diz-lhe que trabalhou muito para conseguir a quantia e aconselha ao jovem que case com a tia

para ganhar os 300 contos. No outro dia ao ler o jornal, viu que tinha sido demitido. Resolveu ir

conversar com Lucinda, ela estava fria. Em contra parida D. Mônica mostrava-se acolhedora,

conversaria com o pai da moça e arranjaria um novo emprego para o sobrinho. Depois de perceber

a tristeza da filha, o comendador Lima permite o namoro entre os dois. Contudo, era tarde, Gaspar

opta por casar com D. Mônica, ela era uma boa mulher, e ele, assim, ganharia a herança.

10 – Casa não casa

Argumento

As duas da manhã, do dia 16 de março, Júlio Simões estava acordado, era uma noite

quente. De sua janela, ele vê um vulto de mulher aproximar-se de sua casa. Ele desce as escadas

e abre a porta, então a luz da vela ilumina o rosto de Isabel, que, chorando, entrega a foto de

Luísa. Na mesma noite, novamente chega à sua porta outro vulto de mulher, que ele julgava ser

Isabel, para explicar-lhe o que tudo significava. Mas, para sua surpresa, era Luíza, que, chorando,

lhe entrega a foto de Isabel e parto. Sem sabor o que elas queriam dizer com aquela ação, foi

visitá-las passados 7 dias. Primeiro, Isabel. Esta recebeu-o com frieza e dizia-lhe que pusesse a

mão na consciência. Júlio, um dia, elogiou, através de uma foto, Luísa. Isso foi suficiente para

despertar o ciúme de Isabel. No entanto, ele conseguiu convencer Isabel que tudo foi um mal

entendido. Ao sair da casa de Isabel, foi à de Luísa. A mesma situação repetiu-se. E, ao voltar para

casa, já tinha reconquistado as duas moças. Na verdade, ele não as amava. Mas casar-se-ia com

uma delas, pois ambas eram bonitas. Quando resolvia casar com Isabel, ficava com pena de Luísa

e vice-versa. Porém, um dia, Luísa e sua mãe foram à casa de Isabel. Enquanto as senhoras

conversavam, as duas jovens faziam a mesma coisa. Enquanto falavam de amores, Luísa olhava o

álbum de Isabel. Estranhou aquela que sua foto não se encontrava mais em uma das páginas.

Isabel tratou de explicar-lhe que, mesmo sem saber como, a foto estava em mãos de terceira

pessoa, dizia ter recebido dela em uma madrugada.

Luísa disse a Isabel que o mesmo havia acontecido com ela. Era alguém que queria

zombar de ambas. Até que Isabel diz que Júlio Simões é seu namorado. Ambas julgaram-no um

patife e disseram que chagaram a sonhar com a situação descrita por Júlio. As duas mães

descobrem que as filhas padeciam do mesmo mal: sonambulismo. Daí explicam-se as visitas

noturnas a Júlio. Sabendo que suas namoradas tinham consciência do ocorrido, resolveu não as

encontrar juntas. No dia seguinte, foi ter com Isabel, e ela culpou Luísa pela situação. Júlio foi

perdoado. Saindo da casa de uma, foi à casa da outra. Júlio disse a Luísa que Isabel fora a

culpada e que ele não trocaria aque4a por esta. Júlio foi perdoado. Se uma delas tivesse uma

perna torta ou um olho furado, a escolha seria fácil, mas ambas eram igualmente bonitas. Em três

dias ele deveria fazer a escolha, mas antes disso ele foi surpreendido por uma carta de Fernando,

que comunicava-lhe o casamento com a prima Isabel. Apesar do passo de Isabel simplificar a

escolha, ele ficou aborrecido. Agora Isabel parecia mais bonita que a outra. Decidiu casar-se com

Luísa, mas quando chegou à casa da jovem descobriu que ela iria se casar com o primo Teixeira.

Assim Júlio prometeu nunca se casar, mas casou, teve 5 filhos e morreu.

11— Silvestre

Argumento

José 5. P. Vargas era um dos péssimos procuradores. Só achava coisas para os outros no

foro. Casado e pai de 2 filhos. Silvestre era seu filho mais velho, 15 anos, melancólico, taciturno,

muito amado pela mãe. A irmã, 12 anos, era viva, alegre, vendia saúde, enquanto Silvestre,

parecia sofrer do físico ou da alma. A noite, Silvestre divertia-se olhando um livro, que comprara

em algibebe com dinheiro dado pela mãe. Segundo a irmã, ele divertia-se olhando as figuras. Por

um descuido, o livro foi esquecido sobre a mesa, e seu pai descobriu que o mesmo era de

mulheres nuas. Apesar de todas as lágrimas, o livro foi confiscado. José Vargas fez seu filho

trabalhar no cartório, a fim de que Silvestre se tomasse um escrivão juramentado, um escrivão ou

tabelião. A dinastia dos Vargas manter-se-ia dentro do foro. Silvestre distraia-se no trabalho. Um

dia, ao passar pela Academia de Belas-Artes, entrou para ver alguns quadros e percebeu que sua

vida era a pintura. Silvestre necessitava levar à luz dos homens uma Vênus que ele tinha na

cabeça. O jovem pediu permissão aos pais para abandonar o cartório e entrar para a Academia de

Bela-Artes, mas foi-lhe negada. A desatenção no trabalho chegou a tal ponto, que um amigo do pai

de Silvestre quase perdeu o emprego. Ao relatar o dilema, pelo qual passava o filho, José Vargas

recebeu o apoio do Dr. Luís Borges, que se ofereceu para cuidar do jovem a fim de influenciá-lo a

abandonar as idéias da arte.

A mãe, a irmã e o próprio Silvestre choraram muito ao se despedirem, mas o pai julgava

que aquela atitude era a mais acertada pata o caso do menino. Assim, Silvestre foi para a casa de

seu algoz, Dr. Luís Borges. Foi acomodado em um quarto no 20 andar, que possuía uma grande

janela para o mar. D. Camila, esposa de Dr. Borges, era uma jovem de 25 anos gentilíssima.

Estranhou Silvestre que o seu tutor o incentivasse à carreira artística. Na verdade o Dr. Luís

Borges era um homem sensível e amante da arte. Enfim, Silvestre conseguiu dedicar-se àquela

obra que esta pronta em seu pensamento, uma Vênus que precisava apenas de técnicas para

toma-se uma obra de arte.

O trabalho e a família forma esquecidos. O tempo do menino pertencia à arte. Foi à casa

paterna apenas duas vezes depois da mudança. A primeira porque a mãe e a irmã tinham

saudade, e a segunda, pelo falecimento desta. Dedicou-se à sua obra e não permitia que ninguém

a visse. D. Camila, que se tomara uma companhia agradável, pediu ao jovem para ser a primeira

pessoa a contemplar-lhe a obra. Passado algum tempo D. Camila entra no quarto do menino, este

estava sentado na borda da janela. Então ela reconhece o próprio rosto no quadro, uma

exuberante Vênus, nua. Primeiro ela fica maravilhada com a obra, depois inquieta, pois as pessoas

perceberiam a semelhança entre a pintura e ela. Sem ecitar, Silvestre diz que não há necessidade

de se preocupar, pois ele daria o quadro de presente para o marido dela. D. Camila pede que ele

confesse que ela fora a inspiração dele. Pergunta-lhe se ele casaria com ela. Silvestre não lhe

responde e joga o corpo para trás, caindo pela janela. Silvestre morre, O. Camila enlouquece e os

pais do jovem nunca encontraram o consolo. A culpada por tudo isso foi a arte.

12—A Pianista

Argumento

Malvina, uma jovem morena de 22 anos, era uma modesta professora de piano. Vivia com

sua mãe, a viúva Teresa. Quando o pai de Malvina faleceu, deixou como herança apenas a

honradez de uma vida. Assim as duas mulheres viviam a sina das Danaides. Malvina sempre fora

elogiada por sua educação refinada. A jovem provia o sustento da casa com as aulas que

ministrava. Entre suas alunas estava Elisa, a irmã de Tomás Gonçalves de Valença. A família

Gonçalves de Valença vivia a tradição da fidalguia, o sr. Basílio, avô dos jovens, foi um dos

primeiros a entregar sua casa para a corte da Família Real. O pai dos jovens, sr. Tibério, seguia a

tradição da família, julgava que as pessoas pertenciam a classes diferentes e assim deveriam

permanecer. Porém, o jovem Tomás apaixona-se por Malvina e, contra a vontade do pai, casa-se

com ela. Tibério severamente pune o filho deserdando-a, pois julgava Malvina uma interesseira.

Casados, Malvina e Tomás, viviam modestamente.

No principio de 1851, Tibério Valença adoece, e seu filho vai ao encontro do pai, este

necessitava de muitos cuidados. Assim, Malvina ofereceu-se para ser a enfermeira do sogro. Após

o restabelecimento do sogro, ela volta para casa. Em um primeiro momento, Tibério demonstra

gratidão, mas depois volta a pensar que tudo era parte de um golpe de Malvina para conseguir a

simpatia do sogro. No entanto, ele estava enganado. Após algum tempo ele resolve procurar o filho

e a nora. Descobre, então que havia se enganado a respeito dela. Esquece um pouco o filho e a

nora, pois Elisa regressava ao Rio de Janeiro, acompanhada pelo marido, um senador jovem e

rico. Tibério organiza uma festa para a filha, mas não estava feliz. Assim ele decide ir buscar o filho

e a nora e apresenta-os com arrependimento pois quisera excluir aqueles dois filhos do convívio

familiar.

13—O Machete

Argumento

Inácio Ramas pertencia a uma família de músicos. Seu pai era

concertista da capela imperial. Desde ceda Inácio manifestou sua vocação

musical, assim aprendeu a tocar rabeca, instrumento que rendia-lhe o

sustenta. Porém, seu instrumento do coração era o violoncelo, desde que

vira o concerto de um músico alemão. Casou-se com a jovem Carlotinha,

com quem teve um filho. A moça não entendia nada de música. Um dia ela

pede-lhe que toque alguma canção, pois nunca o vira em atividade. Ele toca

uma canção que fez quando a mãe falecera, mas a esposa demonstra um

entusiasmo falso. Apenas um amigo incentiva Inácio, dizendo-lhe que

deveria tocar em salões. Um dia 2 jovens que passavam pela casa do casal,

escutaram a música de lnácio e romperam aplausos e felicitações ao artista

divino. Eram AmaraI e Barbosa, dois estudantes de Direito, em São Paulo.

Os homens tomam-se conhecidos e, a partir dai, estabelecem uma relação

de amizade. Amarei passa a ser um grande incentivador musical para lnácio.

Barbosa mantinha-se mais distante, pois ele também era musico e apreciava

outro instrumento, o machete. Um dia reuniram-se os dois músicos com

seus instrumentos. lnácio e o violoncelo foram abalados pelo sucesso de

Barbosa e de seu machete. Carlotinha, de índole mundana e jovial, não

disfarçou o interesse pelo novo instrumento. Os estudantes, que estavam no

período de férias, retomaram a São Paulo. Depois de um tempo Barbosa

voltou para fazer uma visita ao casal amigo. Depois foi a vez de Amaral nas

férias seguintes. O rapaz encontrou o amigo, na sala do conceito, tocando

como nunca seu violoncelo, aos pés de lnácio estava seu filho de meses,

que, dominado pela música, via o pai tocar. Quando percebeu a presença do

amigo, abraçou-o Barbosa percebeu a tristeza do amigo. lnácio tomou o filho

nos braços e disse que o menino deveria aprender a tocar machete, pois era

melhor que o violoncelo. Conta, então, ao amigo que Carlotinha havia fugido

com Barbosa, pois preferia o machete ao violoncelo. A alma de lnácio

chorava, mas seus olhos mantiveram-se secos. Enlouqueceu após uma

hora.

14— Vidros Quebrados

Argumento

Venâncio em uma conversa com amigos diz-lhes que os casamentos bons se organizam

no céu e que os maus são obra do diabo. Nos tempo dos bailes do Campestre, Venâncio, com 22

anos, apaixonou-se por Cecília, de 20 anos. Escreveu uma carta à mãe da moça, pedindo-lhe

permissão para namorar a filha. Porém, a viúva negou, argumentando que Cecília era muito jovem

para o casamento. Venâncio escreveu para a própria Cecília. A moça jurou que seria dele.

Venâncio, com a ajuda de uma preta da casa, pulava o muro para ver Cecília, mas um dia um cão

soltou-se, e ele fugiu.

O barulho acordou a viúva, que o viu pular o muro. Desconfiada, fez a escrava confessar e

castigou-a, deixando-a em sangue. Mandou chamar o filho que morava na Tijuca, José Soares

comandante do 60 batalhão da guarda nacional. Ele aconselhou a mãe a encontrar um marido

pare Cecília. Com desculpa de passar 2 semanas na Tijuca, a mãe fez Cecília preparar-se pare

uma viagem. No caminho, revelou à Cecília a verdade. A moça gritou, esbravejou, quebrou os

vidros do carro, esmurrava-se, mas nada adiantou, pois, conforme a vontade da mãe, foi para o

convento. lnácio, desesperado, pensava em qualquer coisa para resgatar sua amada. No entanto,

um desembargador amigo, Dr. João Regadas, orienta-lhe para agir de acordo com a justiça. O

desembargador recebe Cecília como hóspede em sua casa. A mãe da moça ficou furiosa e foi

busca-la na casa do desembargador. A esposa deste sem saber o que dizer foi auxiliada pelos

filhos, ambos advogados, Alberto (casado havia dois meses) e Jaime (viúvo). Os irmãos tentaram

convencer a mãe da moça a aceitar a união entre os jovens, mas ela não fraquejou, manteve-se

contra casamento. lnácio escreveu para seu pai pedindo-lhe a autorização para o casamento. O

pai pediu-lhe que fosse a Santos vê-lo lnácio viajou, mas o casamento 1á tinha data marcada. O

pai pediu que o filho adiasse o casamento por um mês. Venâncio escreveu para a corte e esperou

as quatro semanas mais longas de sua vida. No dia de partir, houve um acidente com a mãe de

Venâncio. Fato que o obrigou a esperar mais um mês até o reestabelecimento da mãe. Quando,

enfim, chegou ao Rio de Janeiro, procurou ir ver a noiva. Contudo, Cecília não o recebeu, pois

estava indisposta. Na segunda visita a moça demonstrava uma grande frieza. Venâncio escreveu

uma carta à noiva perguntando-lhe se estava realmente doente ou se não desejava mais o

casamento. Na verdade, Cecília apaixonou-se por Jaime, e a recíproca era verdadeira. Iriam casarse.

O que explicou a paixão fulminante foi um arranjo de Deus.

15— Vênus! Divina Vênus!

Argumento

Ricardo, um jovem de 20 anos, funcionário do arsenal da guerra, vivia

com sua mãe, Mana dos Anjos. Ambos muito pobres. Ricardo era poeta. Sua

inspiração vinha de uma Vênus de gesso presa à parede. O ano era o de

1859. Moravam no bairro dos Cajueiros. Em um domingo, a mãe ao sair de

casa deixa sobre a mesa uma xícara de café para o filho. Ao retomar da

missa percebeu que a xícara continuava sobre a mesa, o café estava frio.

Ricardo não bebera o café, pois precisava terminar seus versos. Enquanto

escrevia, pensava na jovem Marcela, moça rica, filha do Dr. Viana. O. Maria

dos Anjos pede ao filho que esqueça a jovem rica e pense na prima

Felismina. Para Ricardo, não havia comparação. Enquanto Marcela era linda,

Felismina tinha olhos de peixe podre, nariz comprido, ombros estreitos e

falava como uma pessoa da roça. O rapaz jamais mostrou qualquer poesia

dedicada a amada. Um dia tomou coragem. Havia uma festa na casa do Dr.

Viana muitos convidados. Após desculpar-se e abandonar o jogo de solo,

Ricardo foi à sala onde estava Marcela, esta tocava piano e era

acompanhada por um tenor, um jovem médico baiano. Com o término da

apresentação, Marcela sentou-se entre duas amigas e perguntou a Ricardo:

Pareço-lhe bonita?’. Ele preparava-se para responder “Sois o mais belo, o

mais puro, o mais adorável dos arcanjos, á soberana do meu coração e da

minha vida’, quando a jovem fez a mesma pergunta a Maciel, que lhe

responde com a mesma pergunta. Ela sem constrangimento diz que ele seria

um belo noivo.

Ricardo perdeu seu amor. Contudo passou a concentrar seus esforços

na jovem Virgínia, de 16 anos, filha de um tabelião. Porém, esta também

possuía outro pretendente, o bacharel Vieira. Ricardo teve duas decepções

amorosas. D. Maria dos Anjos convida o filho para ir visitar a prima

Felismina, lá estava o noivo da moça, um rapaz da estrada de ferro. Ricardo

começa a perceber a prima. Ela toma-se Vénus inspiradora. Felismina era a

rima de ouro pois rimava com divina e cristalina. “E tu, criança amada, tão

divinal não és cópia da Vênus celebrada. És antes seu modelo, Felismina.”

Ricardo faz a prima abandonar o noivo e casa-se com ela. E já com cinco

filhos não escrevia mais poesias.

16— A chinela Turca (Primeira Versão)

Argumento

Em 1850, o bacharel Duarte preparava-se para ir a uma festa no Rio Comprido, a soirée da viúva

Meneses. Ele queria encontrar a jovem Cecilia, moça de finos cabelos loiros e pensativos olhos

azuis. Inesperadamente, ele recebe a visita de Lopo Alvos, um amigo da famitia, que já bnha

deixado a esposa e as filhas na festa da viúva. Foi a Catumbi, pedir a opinião do Duarte sobre um

drama que havia escrito, de cento e oitenta páginas. Duarte pensou em ouvir tudo sem

manifestação alguma. Assim, o tempo passaria mais rápido. Duarte preocupava-se, pois com

aquela leitura perderia a festa. Lopo Alvos continuava a ler o drama até que chegou a meia-noite e

o major enfurecido levantou e foi embora. Duarte não entendeu o que havia desagradado ao

amigo, mas achava que ele deveria ter ido embora antes. Um empregado anunciou outra visita.

Era um homem baixo e gordo que dizia ser da polícia. Duarte foi, então, acusado de ter roubado

um par de chinelas turcas, ornadas por diamantes. Relutando, Duarte foi preso. Levaram-no para

um carro, que rapidamente abandonou sua casa. Quando o carro parou, Duarte foi vendado. Na

verdade, aqueles homens não eram policiais. Ele tinha sido seqüestrado. Pensou que podia ser

obra de um rival ao coração de Cecília. Duarte foi levado para uma sala grande e luxuosa. Lá ele

ficou só por algum tempo. De repente uma porta abre-se, e entra um padre, que o cumprimenta.

Depois um homem velho vai conversar com Duarte, diz-lhe que as chinelas turcas não foram

roubadas e que eles não pertenciam à polícia. O velho manda buscar as chinelas que de tão

pequenas, cabiam na palma da Mão. Não eram cravejadas de pedras preciosas, eram bordadas

com um fio de ouro. O velho manda buscar a dona das chinelas, uma jovem loira,

desgrenhadamente penteada. Então, ela foi apresentada a Duarte como sua noiva. Duarte disse

que não quem casar. Porém o velho afirmou que Duarte faria três coisas: casaria, faria seu

testamento e depois tomaria veneno, o passaporte do céu. A jovem desconhecida seria a herdeira

universal do bacharel, este casaria obrigado por uma pistola que lhe era apontada. Com a ajuda do

padre, que na verdade, era um tenente do exército, Duarte conseguiu fugir. Foi perseguido por

algum tempo. Chegou a uma casa, que tinha a porta aberta. Entrou e deixou seu corpo cair em

uma cadeira, diante de um homem que lia o Jornal do Comércio. Aos poucos as formas ficaram

mais nítidas. Duarte fitou os olhos no homem, era o major Lopo Alves, que terminava a leitura do

drama. Eram duas horas da manhã. Duarte despediu-se do amigo e jurou nunca mais assistirá

leitura de melodramas.

Contos Gauchescos – Simões Lopes Neto

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Contos Gauchescos – Simões Lopes Neto

Os Contos Gauchescos são uma coleção de contos que tem como ambientação no pampa gaúcho. Contado pelo envelhecido vaqueano Blau Nunes, as histórias contam de aventuras de peões e soldados. Ora protagonizadas, ora testemunhadas por Blau, as histórias narram sempre sobre o gaúcho, guerreiro, trabalhador, rústico. Nelas a linguagem é sempre um dialeto característico do interior do Rio Grande do Sul e existe um enorme respeito pelos elementos deste estilo de vida: os animais, os instrumentos, a paisagem. Existe também uma grande exaltação do espírito guerreiro do gaúcho, especialmente nas narrativas de guerra, ambientadas na maioria das vezes na Revolução Farroupilha.

Contos Novos – Mário de Andrade

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Contos Novos – Mário de Andrade

Contos Novos (1947) foi escrito num período de crise pessoal, teve publicação póstuma. Reúne narrativas da maturidade artística do autor, marcadas pela maior depuração compositiva e estilística. “Eu também me gabo de levar de 1927 a 42 pra achar o conto, e completá-lo em seus elementos” (Carta a Alphonsus de Guimaraens Filho). De estrutura moderna, seu gênero demosntra acolhida às principais correntes ficcionistas que marcaram a Literatura Brasileira das décadas de 30 e 40. Mais do que os fatos exteriores, os relatos procuram registrar o fluxo de pensamento das personagens. Seu contexto histórico-cultural passa-se em São Paulo, capital e interior, décadas de 20 a 40; processo de urbanização e industrialização (cidade); patriarcalismo X progressismo (ambiente rural). Enredos: 1. “Vestida de preto”: Juca, em flash-back, recupera as primeiras experiências amorosas com sua prima Maria, bruscamente interrompidas por uma Tia Velha. A repressão associa-se à rejeição da prima, que o esnoba na adolescência. A prima se casa, descasa, e o convida para visitá-la. “Fantasticamente mulher”, sua aparição deixa Juca assustado. 2. “O ladrão”: Numa madrugada paulistana, um bairro operário é acordado por gritos de pega-ladrão. Num primeiro momento, marcado pela agitação, os moradores reagem com atitudes que vão do medo ao pânico e à histeria, anulados pela solidariedade com que se unem na perseguição ao ladrão. Num segundo momento, caracterizado pela serenidade e enleio poético, um pequeno grupo de moradores experimenta momentos de êxtase existencial. Os comportamentos se sucedem, numa linha que vai do instinto gregário ao esvaziamento trazido pela rotina. 3. “Primeiro de Maio”: Conflito de um jovem operário, identificado como “chapinha 35”, com o momento histórico do Estado Novo. 35 vê passar o Dia do Trabalho, experimentando reflexões e emoções que vão da felicidade matinal à amargura e desencanto vespertinos. Mesmo assim, acalenta a esperança de que, no futuro, haja liberdade democrática para que “sua” data seja comemorada sem repressão. 4. “Atrás da catedral de Ruão”: Relato dos obsessivos anseios sexuais de uma professora de francês, quarentona invicta, que procura hipocritamente dissimular seus impulsos carnais. Aplicação ficcional da psicanálise: decifração freudiana. 5. “O poço”: Joaquim Prestes, fazendeiro dividido entre o autoritarismo e o progressismo, é desafiado por um grupo de peões que se insubordinam, desrespeitando o mandonismo absurdo do patrão. 6. “Peru de Natal”: Juca exorciza a figura do pai, “o puro-sangue dos desmancha-prazeres”, proporcionando à família o que o velho, “acolchoado no medíocre”, sempre negara. 7. “Frederico Paciência”: Dois adolescentes envolvidos por uma amizade dúbia, de conotação homossexual, procuram encontrar justificativas para esse controvertido vínculo e se rebelam contra as convenções impostas pela sociedade. 8. “Nélson”: Registro do comportamento insólito de um homem sem nome. Num bar, um grupo de rapazes exercita seu “voyeurismo” pela curiosidade despertada pelo estranho sujeito: quatro relatos se acumulam, na tentativa de decifrar a identidade e a história de vida de uma pessoa que vive ilhada da sociedade, ruminando sua misantropia. 9. “Tempo de camisolinha”: Juca, posicionando-se novamente como personagem-narrador, evoca reminiscências da infância, especialmente do trauma que lhe causou o corte de seus longos cabelos cacheados. Reconcilia-se com a vida ao presentear um operário português com três estrelas-do-mar. Foco narrativo de 1ª pessoa – Centra-se no eixo de individualidade de Juca, protagonista-narrador. Por meio de evocação memorialista, em profunda introspecção, ele relembra a infância, a adolescência e o início de vida adulta. Foco narrativo de 3ª pessoa – Centra-se num eixo de referência social, de inspiração neo-realista. A denúncia de problemas sociais se alia à análise da problemática existencial das personagens. Espaço – Integra-se de forma dinâmica nos conflitos das personagens. Por exemplo, em “O poço”, o frio cortante do vento de julho, no interior paulista, amplifica o tratamento desumano que o fazendeiro Joaquim Prestes dá a seus empregados. Personagens – Nas nove narrativas, evidencia-se um profundo mergulho na realidade social e psíquica do homem brasileiro. Os quatro contos de cunho biográfico e memorialista, centrados em Juca, promovem uma “interiorização” de temas sociais e familiares. Já os com enunciação em terceira pessoa apresentam personagens cuja densidade psicológica procura expressar a relação conflituosa do homem com o mundo. Em contos como “Primeiro de Maio”, “Atrás da catedral de Ruão” e “Nélson”, os protagonistas não têm nome: isso é índice da reificação e da alienação que fragmentam a existência humana na sociedade contemporânea.

Coração, Cabeça e Estômago – Camilo C. Branco

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Coração, Cabeça e Estômago – Camilo C. Branco

Primeiramente trata-se de uma obra metalingüística, pois o livro conta a história da origem do próprio livro melhor explicando a obra é uma herança deixada para um amigo, seu conteúdo é a biografia do autor que após morrer endividado explica o porquê de tê-lo escrito: dar explicação para o saber viver vive dito pelos franceses, aproveitar a vida de modo a conquistar dela o máximo. Acreditava o autor que tal obra seria de grande valia para a humanidade e isto alçaria a obra à lista dos best–sellers e sanaria as suas dívidas póstumas. É um típico romance balzaquiano, pois a procura do conforto material, o ascender social e o gozo são caricaturas dos personagens, muitas vezes satirizados nas situações que enfrentam.

CORAÇÃO
Guiado pelo coração Silvestre, nosso personagem – biográfico ama sete mulheres ( sete é o símbolo dos pecados capitais que levam o homem ao degredo da alma ). Sete mulheres . “O meu noviciado de amor passei-o em Lisboa. Amei as primeiras sete mulheres que vi e que me viram.” 1° mulher – Leontina, vizinha de Silvestre, órfã, criada por um ourives, meigo do par dela, analfabeta, de olhos bonitos. Por ela também era apaixonado um outro vizinho, um algibebe (vendedor de roupas), que, tomado pela paixão descuidava de seus negócios. Ele odiava Silvestre e lhe escreveu uma carta ‘anônima’ – Leontina reconheceu a letra ameaçando-o de morte. A moça teve raiva do algibebe por isso. Cientificado por outra carta anônima do algibebe de que Leontína namorava Silvestre, o ourives levou-a para sua propriedade rural e casou-se cora ela, apesar da objeção das filhas dele. Silvestre ignorou o rumo tomado pela amada. Contudo o leitor fica sabendo que esta após algumas desventuras acaba por enriquecer-se após o óbito do marido, vem posteriormente casar-se com o algibebe que vem a ganhar um prêmio lotérico tornaram-se gordos e ricos. 2° mulher – Silvestre nunca soube o nome dessa outra vizinha. Ela só aparecia na janela, assim mesmo ficavam visíveis apenas os olhos, entre as tábuas das persianas. Silvestre lhe remeteu uma carta enorme declarando-se. Como resposta, recebeu um bilhete, incentivando-o a escrevei mais. Julgando que ela o ironizara, Silvestre chegou a adoecer de urna febre que o reteve onze dias na cama. ( Caro leitor observe o exagero romântico desta cena! Aos nossos olhos contemporâneos chega a parecer hilária tal postura ). Nunca mais Silvestre viu a vizinha. Soube depois que a moça era amante de um conde, que, por ser casado, não vivia com ela. Tornara-se alcoólatra. Na época em que Silvestre a conheceu tinha um filho de cinco anos. Nota do autor – O nome dessa mulher era Margarida. Ela e o filho vieram a morrer de febre amarela, abandonados por todos, inclusive o conde. 3° mulher — Catarina era uma quarentona, conheceu Silvestre quando do seu freqüentar da casa onde este vivia hospedado. Declarou-se a ele, dizendo-se possuidora de boa renda financeira e proprietária de dez burrinhos. Na noite em que o apaixonado rapaz teve um encontro com Catarina na casa dela, apareceu repentinamente o irmão dela de espada em punho. Silvestre fugiu amedrontado. Catarina exigiu que Silvestre se casasse com ela, pois estava desonrada perante a opinião publica. O ex-namorado se negou a casar. Cinco anos depois, Silvestre soube que Catarina e o irmão se tornaram herdeiros de um tio rico. ( Observe que o nosso personagem ao obedecer o coração não alcança nunca o sucesso financeiro. 4° mulher – Silvestre conheceu Clotilde numa festa. O cavalheiro que os apresentou informou ao rapaz que ela e as companheiras eram muito fúteis e vaidosas. Isso ocorrera em um balneário. Retornando a Lisboa, Silvestre, apaixonado por Clotilde procurou-a no endereço, que lhe dera, mas não a localizou. Num encontro casual com o mesmo cavalheiro da festa, Silvestre lhe contou sua paixão por Clotilde. Surpreso, soube que o tal cavalheiro era o marido dela! Ele ofereceu ao apaixonado uma das amigas da mulher. Constrangido, Silvestre rasgou os poemas que havia escrito para Clotilde e nunca mais a procurou. 5° mulher – Esta agora é a D. Martinha, proprietária do hotel onde vivia Silvestre. Sempre o paquerava, mas este demorou a aperceber-se disso. D. Martinha era uma viúva de 35 anos. Então, passaram a se relacionar. Veremos que este caso não vai dar certo. 6° mulher – D. Martinha contratou corno criada uma mulata brasileira, chamada Tupinoyoyo (observe o estereótipo da brasileira aos olhos do europeu, mulata de nome indígena). Silvestre ardeu de paixão pela criada. Os dois se encontravam às escondidas da ciumenta. Até que foi flagrado e expulso do hotel. Alguns anos depois, avistou a mulata brasileira, num teatro, com um português importante. (Dizia-se que ela era rica e educada em Londres) 7° mulher – Mademoiselle Elise de la Sallete viera da França, envergonhada porque tinha sido abandonada por um duque, seu marido. Em Portugal, mudou de nome e se tornou modista. Cibrão Taveira, amigo de Silvestre, marcou um encontro com ela; mas, como não sabia falar francês, pediu que Silvestre fosse com ele. Enquanto este se afastou com a francesa, aquele ficou com a amiga dela e soube a história da outra. Comovido, chegou a escrever alguns capítulos sobre a vida nobre francesa. Certo dia, estando Silvestre no Passeio Público, cumprimentou de longe as duas francesas que passavam. Ouviu de um grupo de homens, que conversavam perto, a verdadeira história da “santa” francesa: era um na mulher vulgar que tinha tido caso com vários homens e agora, com falso nome, inventou a versão de nobre envergonhada. Silvestre voltou a encontrá-la na casa de um amigo, acompanhada de um tenor italiano. Aproximou-se dela, chamou o companheiro de duque e acrescentou que, afinal, tomara vergonha e viera buscar a esposa. O tenor, sem entender nada, mas considerando-se insultado, ameaçou bater em Silvestre, que se retirou sem reagir. A mulher que o mundo respeita – Depois de tantas desilusões amorosas, Silvestre resolveu ser cético Escreveu poemas que tematizavam a desilusão e mudou sua aparência: cabelos desgrenhados, calva artificial (raspava os cabelos no alto da testa), pintura para empalidecer o rosto e criar olheiras, roupas pretas e cavalo preto… Corria a história de que ele queria morrer por ter amado uma neta de reis, cujo pai, contrariado, a fez ingressar no convento. Certo dia, aconteceu que Silvestre, indo para Benfica, viu numa varanda urra moça bonita, por quem logo se apaixonou. No dia seguinte, conseguiu um breve diálogo com o criado da moça, o qual lhe contou que o nome dela era Paula, uma fidalga morgada (= herdeira única de bens de família). Mandou-lhe carta pelo criado, sem obter resposta. Num baile, Silvestre viu Paula entrar de braço com um rapaz. Quando conseguiu oportunidade de falar com ela a sós, Paula pediu que não a procurasse mais, pois já estava comprometida. Sem desanimar, inspirado no poeta Castilho, segundo o qual é preciso ofertar presentes às ninfas (“Festões, grinaldas, passarinhos, frutos”), Silvestre mandou para Paula uma cesta com pêssegos, flores e um periquito, acompanhada de uma carta. Paula respondeu, também por carta, agradecendo. Movido de paixão, Silvestre resolveu passar de madrugada diante da casa de Paula e viu um homem encapotado parado lá. Escondido, o romântico apaixonado viu uma mulher – supostamente Paula – abrir a janela e ficar conversando, aos sussurros, com o desconhecido. Armado, Silvestre tornou a postar-se, alta noite, diante do palacete da moça, disposto a matar os dois amantes. Saindo de casa, aproximou-se dele uma mulher chamando-o de Caetano, sem se reconhecerem na escuridão. Convidou-o a entrar. Silvestre sussurrou não se chamar Caetano e se retirou. Assim que a mulher, assustada, voltou para o interior da casa, deixando o portão aberto, ele entrou no jardim e ficou escondido. Cal a pouco, chegou Caetano e ela o atendeu da janela, sem permitir que entrasse, com medo do outro. Foi então que Silvestre reconheceu Eugênia, a empregada. Julgando-se digno de ser amaldiçoado por ter pensado mal de Paula. Retornando a Lisboa, Silvestre soube que Paula tinha sido abandonada pelo noivo, um duque, que a surpreendera traindo-o com um amigo dele. Tornou a vê- la num teatro, acompanhada de Piedade, conhecida por seu sarcasmo, No dia seguinte, Paula enviou-lhe uns versos, compostos por Piedade, nos quais era chamado de periquito. Ele ficou muito magoado. Para esquecer sua mágoa, Silvestre resolveu passar uma temporada em Santarém Acabou hospedando-se na casa de um antigo colega, administrador do Concelho. Quando, por ordem do governador, seu anfitrião foi localizar um casal de fugitivos, Silvestre o acompanhou. Para surpresa dele, a moça procurada era Paula; saiu da sala sem olhar para a desgraçada’. O amante acabou na cadeia e ela foi levada para a propriedade rural do pai. Paula veio a casar-se com um primo que lhe fora destinado desde a infância. O filho do casal nasceu forte, apesar de prematuro (aliás, no dizer do avó de Paula, era comum na sua família, as mulheres terem filhos que nasciam antes de 6 meses de casadas, ou seja a safadeza era traço genético, que ironia!). Paula tornou-se senhora respeitada na alta sociedade, alvo da atenção e companheira de honrados anciãos de Lisboa. Observe que Paula é a mulher que o mundo respeitauma verdadeira cortesã ou dita vagabunda nos dias atuais, por ser rica todos os pecados são lhe perdoados, fosse pobre seria escorraçada socialmente. Agora vejamos quem é a mulher que o mundo despreza. A mulher que o mundo despreza – Silvestre fazia parte daquele grupo de românticos que gostavam de se embebedar para abafar as mágoas. Bêbado, ele fazia discursos sobre a filosofia da história ou sobre a história da filosofia. Certa noite, ao sair alcoolizado de um bar, encontrou no cais urna mulher. Levou-a para casa o pediu-lhe que contasse sua história. Marcolina relatou que, órfã de pai desde o dia em que nasceu, viveu a infância com as cinco irmãs mais novas, filhas de sua mãe com o padrasto, que acabou preso e degredado para o Brasil. (Para o Brasil só vem coisa boa, né!??) Quando Marcolina completou 14 anos, a mãe que esmolava e se prostituía – entregou-a para um barão cinqüentenário. Este tornou-a sua amante e a educou como pessoa da sociedade, não lhe permitindo contato com a família dela. tantas desilusões amorosas, Silvestre resolveu ser céptico Escreveu poemas que tematizavam a desilusão e mudou sua aparência: cabelos desgrenhados, calva artificial (raspava os cabelos no alto da testa), pintura para empalidecer o rosto e criar olheiras, roupas pretas e cavalo preto… Corria a história de que ele queria morrer por ter amado uma neta de reis, cujo pai, contrariado, a fez ingressar no convento. Certo dia, aconteceu que Silvestre, indo para Benfica, viu numa varanda urra moça bonita, por quem logo se apaixonou. No dia seguinte, conseguiu um breve diálogo com o criado da moça, o qual lhe contou que o nome dela era Paula, uma fidalga morgada (= herdeira única de bens de família). Mandou-lhe carta pelo criado, sem obter resposta. Num baile, Silvestre viu Paula entrar de braço com um rapaz. Quando conseguiu oportunidade de falar com ela a sós, Paula pediu que não a procurasse mais, pois já estava comprometida. Sem desanimar, inspirado no poeta Castilho, segundo o qual é preciso ofertar presentes às ninfas (“Festões, grinaldas, passarinhos, frutos”), Silvestre mandou para Paula uma cesta com pêssegos, flores e um periquito, acompanhada de uma carta. Paula respondeu, também por carta, agradecendo. Movido de paixão, Silvestre resolveu passar de madrugada diante da casa de Paula e viu um homem encapotado parado lá. Escondido, o romântico apaixonado viu uma mulher – supostamente Paula – abrir a janela e ficar conversando, aos sussurros, com o desconhecido. Armado, Silvestre tornou a postar-se, alta noite, diante do palacete da moça, disposto a matar os dois amantes. Saindo de casa, aproximou-se dele uma mulher chamando-o de Caetano, sem se reconhecerem na escuridão. Convidou-o a entrar. Silvestre sussurrou não se chamar Caetano e se retirou. Assim que a mulher, assustada, voltou para o interior da casa, deixando o portão aberto, ele entrou no jardim e ficou escondido. Cal a pouco, chegou Caetano e ela o atendeu da janela, sem permitir que entrasse, com medo do outro. Foi então que Silvestre reconheceu Eugênia, a empregada. Julgando-se digno de ser amaldiçoado por ter pensado mal de Paula. Retornando a Lisboa, Silvestre soube que Paula tinha sido abandonada pelo noivo, um duque, que a surpreendera traindo- o com um amigo dele. Tornou a vê- la num teatro, acompanhada de Piedade, conhecida por seu sarcasmo, No dia seguinte, Paula enviou-lhe uns versos, compostos por Piedade, nos quais era chamado de periquito. Ele ficou muito magoado. Para esquecer sua mágoa, Silvestre resolveu passar uma temporada em Santarém Acabou hospedando-se na casa de um antigo colega, administrador do Concelho. Quando, por ordem do governador, seu anfitrião foi localizar um casal de fugitivos, Silvestre o acompanhou. Para surpresa dele, a moça procurada era Paula; saiu da sala sem olhar para a desgraçada’. O amante acabou na cadeia e ela foi levada para a propriedade rural do pai. Paula veio a casar-se com um primo que lhe fora destinado desde a infância. O filho do casal nasceu forte, apesar de prematuro (aliás, no dizer do avó de Paula, era comum na sua família, as mulheres terem filhos que nasciam antes de 6 meses de casadas_ ou seja a safadeza era traço genético, que ironia!). Paula tornou-se senhora respeitada na alta sociedade, alvo da atenção e companheira de honrados anciãos de Lisboa. Observe que Paula é a mulher que o mundo respeita_ uma verdadeira cortesã ou dita vagabunda nos dias atuais, por ser rica todos os pecados são lhe perdoados, fosse pobre seria escorraçada socialmente. Agora vejamos quem é a mulher que o mundo despreza. A mulher que o mundo despreza – Silvestre fazia parte daquele grupo de românticos que gostavam de se embebedar para abafar as mágoas. Bêbado, ele fazia discursos sobre a filosofia da história ou sobre a história da filosofia. Certa noite, ao sair alcoolizado de um bar, encontrou no cais urna mulher. Levou-a para casa o pediu-lhe que contasse sua história. Marcolina relatou que, órfã de pai desde o dia em que nasceu, viveu a infância com as cinco irmãs mais novas, filhas de sua mãe com o padrasto, que acabou preso e degredado para o Brasil. (Para o Brasil só vem coisa boa, né!??) Quando Marcolina completou 14 anos, a mãe que esmolava e se prostituía – entregou-a para um barão cinqüentenário. Este tornou-a sua amante e a educou como pessoa da sociedade, não lhe permitindo contato com a família dela. Odiando a vida de cativeiro que levava, Marcolina apaixonou-se por Augusto, guarda-livros do barão. Ciente disso, despediu o rapaz do emprego. Mesmo assim, através da professora de bordados, a moça entrou em contato com Augusto. Informado do encontro, o barão chegou a bater em Marcolina, mas, arrependido, prometeu casar-se com ela, assim que morresse a esposa dele, que vivia no Brasil. Marcolina aprendeu a escrever – mesmo sem permissão do barão – com a professora de bordados- Resolveu fugir; mas deixou urna carta para o amante. Antes que fosse embora, o barão entrou no quarto dela com duas pistolas engatilhadas, uma para matá-la e outra para matá-lo, Amedrontada, Marcolina manifestou arrependimento e jurou fidelidade a ele. Às ocultas, porém, escreveu uma carta para Augusto, pedindo-lhe que a recebesse pobre. A intermediária seria a professora de bordado, que, comprada pelo barão, entregou-lhe a carta. Enfurecido, o desatinado amante entrou subitamente no quarto de Marcolina e mandou que ela devolvesse tudo o que dele havia ganho: vestidos, jóias… e a liberou para o guarda-livros, Na saída, porém, o barão ajoelhou-se aos pés dela e implorou que ficasse com ele, lembrando-lhe a pobreza em que passaria a viver. Marcolina aceitou a nova proposta do barão. O casal saiu em viagem pela Europa. Na Alemanha, o barão sofreu um ataque apopléctico e morreu de repente. A viúva então ficou com todos os bens e Marcolina vendeu as jóias, apurou uma importância significativa. Procurou a irmã prostituta para ajudá-la; no entanto, no último grau de decadência, dominada pelo álcool, pela miséria e pela tuberculose, a irmã faleceu. Marcolina encontrou casualmente Augusto, agora estudante de Medicina. Os dois continuaram se vendo e ele propôs casarem-se. Mesmo sem o antigo amor, mas por precisar de vida sossegada, Marcolina aceitou a proposta. Dentro de dois anos, Augusto pôs a perder todos os bens da mulher, com maus negócios, jogatina e prostitutas; depois, sumiu. Em extrema miséria, Marcolina ingressou na prostituição e foi acometida de tuberculose. Na noite em que Silvestre a encontrou, ela planejava matar-se. Ele, então, passou a protegê-la. Recolheu as irmãs numa casa de recuperação e levou Marcolina para sua propriedade rural. Lá ela melhorou um pouco, contudo não resistiu à doença e morreu. Um pouco antes de sua morte, soube que o padrasto havia retornado e levou as filhas para sua companhia, sem interessar-se pela ex-mulher. Nota-se aqui que a prostituta tem uma alma caridosa, dadivosa e fraterna, a antítese de Paula que triunfa socialmente e não possui quaisquer destes sentimentos. O autor faz tal comparação exatamente para demonstrar ( isto é até uma postura realista ) a indústria de estereótipos a que somos submetidos os ricos são bons e os pobres são maus o mais puro maniqueísmo ideológico.

CABEÇA
Silvestre resumiu suas idéias sobre o amor em sete máximas ( princípios); porém preteriu tornar-se jornalista político. Ofendidos por seus artigos, os opositores impossibilitaram a permanência dele em sua aldeia, Foi morar no Porto, onde, para surpresa dele, ninguém o conhecia, exceto um literato que, ao dizer-lhe que o considerava um péssimo escritor provinciano (= da roça) levou um soco no rosto. Silvestre passou a freqüentar a sociedade, Encantava-se com a vivacidade e naturalidade das mulheres, que gostavam de se alimentar bem e divertir-se. Foi pena que, alguns anos depois, os romances românticos as fizeram pálidas, lacrimosas e sem vida. Deixando o coração de lado, Silvestre só vivia da cabeça, isto é, calculava como poderia chegar a ministro. Em seus artigos polêmicos, pediu que se matassem os velhos e se exaltasse a juventude. Depois, combateu também as novas gerações. O jornal em que escrevia recebeu multas por causa de seus escritos. Tão decepcionado no Porto quanto ficara com as mulheres de Lisboa, Silvestre mudou de planos: abandonou as pretensões políticas e criou o objetivo de enriquecer com o casamento. Páginas sérias de minha vida – Num baile, Silvestre conheceu as três herdeiras mais ricas da sociedade portuense. Sua cabeça pediu que namorasse a mais velha, viúva e feia. Aproximou-se dela e fez algumas perguntas. Além de ouvir respostas tolas, ela o desprezou por tê-la ironizado. Silvestre tentou aproximar-se da segunda, morena e bonita, mas soube que ela namorava Josino – velho conquistador, com quem veio a se casar, Aliás, Josino foi objeto de versos satíricos de Silvestre num jornal literário da época. A terceira mulher, Mariana, mais nova e que lembrava um anjo de igreja, sem vida, órfã de um brasileiro rico, era criada por Francisco José de Sousa, casado com uma brasileira, D. Rita. Este casal acabou desaparecendo repentinamente do Porto, deixando Mariana num convento. Mais tarde se ficou sabendo que a razão do sumiço do casal foi o escândalo que envolveu a “família dos brasileiros”, como eram chamados, O Sr. Francisco José admirava o advogado Dr. Anselmo Sanches, homem honesto. Embora os homens honestos do Porto fossem hipócritas, Dr. Anselmo perecia exceção. Muitos o contratavam para advogar a favor de mães e filhas, A ele Silvestre escreveu uma série de artigos agressivos contra o Dr. Anselmo, sem mencionar o nome dele e das vitimas. Contudo os homens honestos e a própria imprensa defenderam a reputação do advogado, que processou o articulista. Sem apoio algum, Silvestre foi condenado a pagar multa e cumprir três meses de prisão. Esse episódio fez Silvestre encerrar sua vida de intelectual, Fracassaram o coração e a cabeça. Agora era a vez do estômago. (Nesta altura do livro, o autor inseriu alguns artigos de Silvestre sob o titulo O Mundo Patarata’, isto é, o mundo elegante, criticando a sociedade do Porto).

ESTÔMAGO
De como me casei – Silvestre resolveu recolher-se a sua casa. A esse período ele chamou de estômago. Para regular o estômago, ou seja, para ter paz, ele precisava destruir a influência de duas pessoas da aldeia: o regedor e o vigário. Quanto ao regedor, Silvestre recorreu à retórica, Fez uma verdadeira campanha junto à população pobre contra ele Resultado: o governo perdeu as eleições na aldeia, o regedor adoeceu e foi destituído do cargo. Daí a meses, Silvestre foi nomeado regedor. Nas eleições para renovação da câmara, o vigário começou a fazer campanha política contra Silvestre. Este mandou que seu empregado desaparecesse com o garrano ( cavalo) do vigário, impedindo-o assim, de falar nas regiões mais afastadas. O regedor venceu as eleições por larga margem. Silvestre recebeu o hábito de Cristo, solicitado pelo governador civil. Ao ver Tomásia, filha do poderoso sargento-mor de Soutelo, interessou-se por ela. Convidado pela família, passou um dia na casa da moça. O pai a ofereceu a ele em casamento Tomásia era muito trabalhadeira e pouco intelectualizada. Seus quatro tios padres também passaram aquele dia na casa do sargento e aprovaram a idéia do casamento com Silvestre. Tomásia já gostava do regedor há muito tempo, sem que ele percebesse ou mesmo se lembrasse dela. As horas transcorreram com muita comida, bebida e conversa. Oficializou-se o casamento de Tomásia com Silvestre para dentro de 20 dias. A única condição que o pai da moça impôs foi que os dois morassem na casa dele enquanto vivesse. Silvestre não se perguntou se amava Tomásia ou não. Segundo ele, a julgar pelos casais bíblicos, o casamento não se faz por amor – este é coisa do coração, que não tem importância nenhuma. O casamento se realizou como tinha sido previsto: os dois se confessaram, comungaram e receberam a bênção nupcial num clima de animada festa.

EDITOR AO RESPEITÁVEL PÚBLICO
Silvestre foi um marido fiel. Exerceu cargos políticos na região e conseguiu espertamente espantar credores de várias dívidas contraídas em solteiro. Abandonou totalmente a vide intelectual, engordou muito por comer demais e se dedicou à jogatina, endividando-se. Acreditava que, na publicação de seus manuscritos após a morte, lá pela 10’ edição, haveria dinheiro suficiente para pagar as dívidas que não conseguiria quitar em vida. Por isso, autorizou a publicação, se pudesse ser proveitosa para a iniciação da mocidade. Morto Silvestre, o editor recebeu os manuscritos encaminhados pelo sogro do ex-regedor, com a transcrição de seu último soneto atinentes à sua vida pregressa e o quanto as fases do coração, cabeça e estômago são válidos para alcançar a sabedoria.

Cyrano de Bergerac – Edmund Rostand

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Cyrano de Bergerac – Edmund Rostand

O Valente espadachim e romântico poeta Cyrano de Bergerac não é fruto da imaginação criativa de Edmond Rostand : Saviniano Hércules Cyrano de Bergerac nasceu em Paris em 1619. Aos 19 anos abraça a carreira militar, tornando-se cadete da Guarda de Paris. Participa de várias batalhas, inclusive do cerco de Arras , onde recebe forte golpe na garganta, o que encerra sua vida militar. Em 1653, passa a trabalhar na casa do duque de Arpajon, instalando-se no palácio de Marais, onde é ferido na cabeça devido à queda de um pedaço de madeira do teto. Em 1655, pressentindo a morte, vai para a casa de uma prima- a baronesa de Neuvillette-, vindo a falecer cinco dias depois. Cyrano talvez não tenha tido a coragem, o heroísmo e a nobreza do personhagem de Rostand. Mas era um homem polêmico e dedicado à cultura. Foi escritor, teatrólogo, filósofo, ensaísta, comediante e boêmio. E parece que tinha realmente um enorme nariz, motivo de zombarias que o levavam a bater-se em duelo com muita freqüência. Sua obra é pouco expressiva, mas curiosa. Escreveu um volume de Cartas, muitas contendo ataques vigorosos a personalidades da época; uma comédia, Le pédant joué, onde critica seus antigos chefes militares; uma tragédia. A morte de Agripina, citada na peça de Rostand; e uma obra audaciosa, chamada O outro mundo. Muitos dos fatos e personagens incluídos em Cyrano de Bergerac são verídicos, como a batalha de Arras e o inimigo Montfleury. O famoso escritor Moliér foi realmente contemporâneo de Cyrano, e parece Ter sofrido alguma influência dele ( na peça , é acusado de plagiá-lo). Rostand cita também personagens de outros autores do século XVII, como por exemplo D’Artagnan, o conhecido herói da obra Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Quanto a Roxana, teria sido a prima que acolheu Curano pouco antes de sua morte. Não se sabe , porém, se a devotada paixão do célebre narigudo era real, nem tão intensa. Na peça , a jovem aparece como uma “preciosa”, uma típica mulher da sociedade parisiense de meados do século XVII, que frequentava salões mundanos, usando linguagem rebuscada e artificial. Embora Molière as tenha satirizado em sua peça As Preciosas ridículas, Rostand não apresenta uma Roxana caricatural, apesar de ela se mostrar um tanto frívola e fascinada pela literatura empolada de Cyrano. Cyrano de Bergerac foi representada em inúmeros paises. No Brasil foi traduzida em 1907 por Carlos Porto Carreiro, cujo trabalho admirável é uma verdadeira proeza de habilidade linguistica.

D. Branca – Almeida Garrett

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D. Branca – Almeida Garrett

É um poema narrativo , de feição novelesca , em que as personagens e o assunto são nacionais. O Assunto histórico – a conquista do Algarve – está romanticamente integrado no romance de amor, na paixão irresistível de Dona Branca e do chefe mouro Aben-Afã, personagens a qujem o autor comunica o idealismo característico da escola, que envolve, também , as figuras de Oriana e Mem do Vale – o glorioso e apaixonado cavaleiro de Santiago.

Darandina – Guimarães Rosa

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Darandina – Guimarães Rosa

A manhã era clara. O narrador, já em horário de serviço, estava junto ao portão do prédio de uma instituição destinada a tratar de doenças mentais, onde trabalhava, provavelmente como médico. De repente, alguém gritou e o narrador, embora de relance, percebeu que um senhor distinto que passava por ali furtou a caneta-tinteiro da lapela do paletó de outro transeunte e saiu correndo, perseguido. Apesar de vestido socialmente, não tirou os sapatos para se refugiar no alto de uma palmeira da praça, na qual havia subido com rapidez. Sem demora, formou-se, em volta da árvore, uma pequena multidão de curiosos que faziam comentários ou ameças. O narrador julgou tratar-se de um camelô importuno que queria vender canetas. Adalgiso, colega de serviço – a dupla estava de plantão – puxou-o pelo braço e lá se foram os dois, passando no meio do ajuntamento formado ao pé da árvore. As pessoas supunham que o tal homem fosse um doido que fugira e, por isso, facilitavam a passagem dos dois plantonistas, identificados assim pelo avental que usavam. Adalgiso comentou baixo que o fugitivo não devia ser um louco, pois tinha aparência de normal. Lá de cima o homem discursava. Afirmava que não era demente, mas percebia que estava quase sendo tomado pela insanidade ao ver a humanidade enlouquecida. Por isso, resolveu internar-se num hospício, no qual estaria protegido quando a humanidade piorasse. O narrador viu no tal homem a confirmação da teoria do professor Dartanhã: 40% das pessoas são loucos reconhecidos e grande parte das demais poderia receber o mesmo diagnóstico. Adalgiso cochichou que o colega deles, Sandoval, reconheceu o homem da palmeira: era o Secretário das Finanças Públicas. Ia chamar as autoridades para decidirem o que fazer. Enquanto não aparecia ninguém que tomasse providências, o tal falso louco se equilibrava muito bem e falava como um doido de verdade, que ele não era gente, que ele era uma ilusão. Chegou o diretor do hospício, acompanhado de policiais, de médicos, do Sandoval, do capelão, de enfermeiros e padioleiros, trazendo camisa-de-força. O diretor e o professor Dartanhã não se davam. Então, começaram a discutir: o primeiro acreditava na normalidade do homem da palmeira, dizendo que se tratava do Secretário; o outro aplicava-lhe um diagnóstico de paciente mental. De novo o tal homem bradou e a multidão o ouviu em silêncio: “Viver é impossível.” O narrador teve simpatia intelectual por ele. Veio do diretor a idéia de chamar os bombeiros. Enquanto nada se fazia, as vaias dirigidas ao homem da palmeira se fizeram ouvir, quando espalharam sua identidade de pessoa importante. Achavam que não passava de um demagogo. Nesse instante, ele deixou cair um dos sapatos. Dr. Bilôlo exclamou que o homem era um gênio. O povo começou a aplaudi-lo. O outro sapato também foi largado. Mais aplausos. Vieram os bombeiros e começaram a armar uma escada. Lá do alto da palmeira ouviu-se: “O feio está ficando coisa… Nada de cavalo-de-pau! Querem comer-me ainda verde? Pára!… Só morto me arriam, me apeiam! Se vierem, me vou, eu… Eu me vomito daqui!…” Diante do murmúrio das pessoas lá de baixo, replicou: “Cão que ladra, não é mudo…l” Prendeu-se à árvore só pelos joelhos e deu a impressão de que ia cair. A multidão pediu: “Não!” Os bombeiros interromperam as manobras com a escada. O homem parou de balançar-se. Apareceram o Chefe-de-Polícia e o Chefe-de-Gabinete do Secretário. Este olhou para o alto da palmeira com binóculo e disse que não estava reconhecendo o Secretário. O diretor, ansioso por popularidade, tomou o alto-falante dos bombeiros e tentou resolver a situação. Disse: Excelência… Excelência…” Mas a multidão o vaiou. Então, passou o megafone para o narrador e foi ditando o que ele deveria falar, palavas que convencessem o homem a se entregar, mas ele resistiu, não aceitou. Um impasse estava criado. Parecia não haver solução. Naquele momento, para surpresa geral, apareceu o verdadeiro Secretário das Finanças. De cima do carro dos bombeiros, dirigiu-se ao público e manifestou sua indignação ante o que ele suspeitava ser calúnia, jogo de adversários para destruí-lo. O outro gritou: “Vi a Quimera!” e começou a tirar a roupa. Jogava peça por peça sobre a multidão, até ficar nu, mostrando um corpo muito branco em contraste com a folhagem verde da palmeira, em pleno meio-dia de sol e calor. Escândalo e algazarra no meio do povo, raiva por parte das autoridades. Os bombeiros foram novamente acionados. O pessoal da imprensa, fotógrafos e filmadores documentavam tudo. Como reação, para não ser capturado, o homem subiu até o ponto mais alto da árvore e gritou: “Minha natureza não pode dar saltos?” Achou-se que iria saltar ou cair. A escada avançava, recuava, ajustava-se ao salvamento. A essa altura, surgiu um grupo de estudantes barulhentos com a intenção de resgatar aquele que eles supunham ser colega deles. No meio da balbúrdia, o Secretário tentou contê-los. Teve relativo sucesso, mas acabou indo para a casa de mansinho, sem ninguém perceber. O professor Dartanhã, reconciliado com o diretor, explicava para os que lhe estavam ao redor que o infeliz era doente mental. Dr. Bilôlo o considerava um primitivo, no nível dos índios. O diretor resolveu tentar convencer o desastrado fugitivo de perto. Para tanto, acompanhado do narrador, os dois foram subindo pela escada dos bombeiros. O outro os ouvia, mas gritou: “Socorro!” Os espectadores lá de baixo estavam enfurecidos com o pobre coitado. O narrador notou que ele merecia piedade porque, de repente, veio-lhe a lucidez. Saiu do delírio em que estivera, entrou em pânico, tomado pela aerofobia e pelo medo da multidão que queria linchá-lo. Conseguiu alcançar a escada manobrada pelos bombeiros. Então, voltando-se para o povo, exclamou, talvez novamente enlouquecido: “Viva a luta! Viva a liberdade!” As pessoas aglomeradas, em vez de vaiá-lo como vinham fazendo, passavam a aplaudi-lo. Receberam-no festivamente e o carregaram vitorioso. Os médicos e funcionários do hospício comentavam que tinham acabado de assistir a um caso inédito e sem explicação. Só Adalgiso muito sério, nada falou ” foi para a cidade comer camarões.”