FUNÇÃO DOS INALANTES

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FUNÇÃO DOS INALANTES

Universidade Salgado de Oliveira
2008
Os inalantes são utilizados para obter um estado psíquico alterado através absorção pulmonar dos vapores por meio das fossas nasais (sniffing) ou pela boca (huffing).

Apesar de haver outras drogas que possam ser inaladas, convencionou-se não incluir na classe “inalantes” aquelas que devam ser queimadas ou aquecidas, como o crack, por exemplo.

O uso voluntário dos inalantes começou a se difundir a partir de 1940, na era do desenvolvimento industrial e da conseqüente fabricação em série de produtos contendo substâncias voláteis. Nos países latino-americanos, os inalantes encontram-se entre as drogas de uso mais difundido. No Brasil, por exemplo, este problema é freqüente em 2 grupos populacionais: jovens estudantes e crianças de rua, nos quais os inalantes são as drogas mais usadas, excetuando-se o álcool e o tabaco.

Classificação dos inalantes de acordo com a forma em que são encontrados:

a) Solventes voláteis: são líquidos que vaporizam a temperatura ambiente. Ex: tíner, removedor de tinta, desengordurantes, gasolina, cola etc.
b) Aerossóis: são líquidos ou sólidos em suspensão contidos em frasco pressurizado. A fonte propelente é geralmente um gás liquefeito, que é o componente procurado pelo usuário. Ex: tintas e desodorantes em spray.
c) Gases: são os anestésicos (éter, clorofórmio, halotano e óxido nitroso) e outros gases contidos em produtos caseiros ou comerciais, como o butano e o propano encontrados em gases combustíveis e fluidos de isqueiros.
d) Nitritos orgânicos voláteis: originalmente usados para aliviar dores no peito devido às suas propriedades vasodilatadoras, atualmente são usados por jovens e homossexuais para aumentar performance sexual e o prazer. Incluem os nitritos de amila, isoamila, butila e isobutila.

Qualquer produto químico que contenha um ou mais componentes voláteis pode ser utilizado para inalação. Os mais usados são os que contêm alta concentração dessas substâncias, são baratos e de fácil aquisição e uso.

De acordo com pesquisas no Brasil, os produtos mais utilizados são: lança-perfume, cola de sapateiro e cheirinho-da-loló (versão alternativa do lança-perfume contendo mistura das seguintes substâncias: éter etílico, etanol e clorofómio).

Método da inalação

Para produtos viscosos, como as colas, o modo usado é sua deposição em pequeno saco plástico que tem a extremidade franzida. O saco é colocado sobre a boca e o nariz para inalação dos vapores emitidos. Geralmente, líquidos e aerossóis são inalados na própria embalagem ou em um pedaço de pano embebido com o produto e aplicado sobe o rosto. Os nitritos são dispensados em ampolas de vidro, que são quebradas entre os dedos, tendo seus vapores inalados. Já o fluido de isqueiro é inalado colocando-se a válvula do mesmo entre os dentes e pressionando-a para a liberação do gás.

Perfil do usuário e padrões do uso

O abuso de inalantes ocorre em diversas faixas etárias, predominantemente entre adolescentes e pré-adolescentes, mas está se expandindo para grupos populacionais cada vez mais jovens, existindo relatos de uso por crianças de 5 anos de idade.

Alguns estudos sugerem que o abuso entre adultos é muito difundido, como o ocorrido com a população carcerária e os trabalhadores industriais.

Já no que diz respeito às diferenças de uso de inalantes entre os sexos, estas estão cada vez menos significativas, apesar de existir a predominância do sexo masculino.

A pobreza, o desemprego e a falta de estrutura familiar são citados em pesquisas como fatores geradores ao abuso dos inalantes. O uso destas substâncias parece servir como defesa temporária para um estado depressivo, problemas econômicos e dificuldades de relacionamento, associados principalmente à crise da adolescência. O baixo preço e a disponibilidade destes produtos contribuem para iniciação da prática.

Para as crianças que vivem nas ruas, além da falta de suporte financeiro e emocional, a redução da sensação da fome é um dos motivos que levam ao abuso dos inalantes. Para estas crianças, o uso é um fenômeno grupal, com produtos adquiridos pela compra ou por furto.

Segundo pesquisas, a estimativa média da duração da prática é de 18 meses, embora existam usuários que persistam no hábito por 5 anos ou mais. Os inalantes são apontados como a única droga que apresenta tendência de queda na sua utilização com o aumento da idade do usuário.

Toxicodinâmica

Os mecanismos de ação dos inalantes não estão ainda bem esclarecidos. Múltiplas propriedades explicam o emprego dos inalantes como anestésicos e sua utilidade no tratamento de abstinência de outras drogas como seus efeitos vasodilatadores, relaxamento da musculatura lisa, liberação de β-endorfinas, assim como suas propriedades psicogênicas.

Efeitos tóxicos ao uso abusivo

A manifestação destes efeitos depende de fatores como estrutura química do composto, quantidade inalada, freqüência da exposição, co-exposição e suscetibilidade individual.

Não se conhece muito sobre os efeitos a longo prazo, pois as informações disponíveis são baseadas em estudos ocupacionais e testes com animais de laboratório que apresentam relevantes diferenças em relação ao uso intencional, como: concentrações menores, tempo de exposição maior, uso de compostos puros, entre outros.

Efeitos tóxicos a curto prazo

Há uma fase excitatória inicial geralmente seguida por uma fase de depressão do SNC.

Na fase excitatória encontram-se os efeitos procurados pelo usuário: euforia e bem estar, alcançados segundos após a inalação e persistindo por minutos ou horas. São relatados sentimentos de invulnerabilidade, tranqüilidade, grandiosidade e hilaridade. Alucinações visuais são comuns. Geralmente não há “ressaca”.

Já no período da depressão ocorre desorientação, perda do autocontrole, dor de cabeça, palidez, sonolência, falta de coordenação muscular e diminuição dos reflexos. Nos casos mais severos, pode chegar à parada respiratória pelo fato de o usuário continuar a inalar vapores depois de perder a consciência.

A inalação de concentrações elevadas de solventes pode induzir arritmias cardíacas e levar à falência desse órgão, acarretando a morte em poucos minutos.

Os inalantes também podem causar morte por anoxia (diminuição da oxigenação), devido à incapacidade de retirar o saco plástico da cabeça; asfixia pela aspiração do próprio vômito ou pela aderência da cola na boca ou no nariz; asfixia pela oclusão das vias respiratórias, devido ao seu rápido resfriamento com o borrifo de gases frios contidos em produtos aerossóis ou o butano contido em gás de isqueiro; ou por traumatismos causados pelo prejuízo de julgamento que acompanha a intoxicação.

Efeitos tóxicos a longo prazo

O uso crônico de solventes voláteis causa destruição das fibras nervosas, similarmente às doenças neurológicas, como a esclerose múltipla.

Os efeitos neurotóxicos acarretam danos nas partes do cérebro que envolve a visão, audição, movimento e cognição, causando perda da acuidade visual, surdez, alteração da postura, incoordenação dos membros, apatia, prejuízo intelectual e instabilidade emocional.

O uso prolongado também pode causar paralisia e perda de sensibilidade, principalmente nos membros inferiores, e até tetraplegia nos casos mais severos, pois afeta o sistema nervoso periférico.

Na pele, pode causar prurido, eritema e queimaduras. No uso crônico destacam-se rinite, úlceras nasais e orais, halitose, tosse, aumento da expectoração, conjuntivite e hemorragia nasal periódica.

A inalação crônica de solventes pode causar dano hepático e renal, além de deteriorização da função pulmonar. Pesquisas indicam a possibilidade de indução de doenças autoimunes, como a glomerulonefrite e lesão pulmonar.

O abuso de inalantes durante a gestação pode causar a morte ou anormalidades no feto, como microcefalia, lábio leporino e achatamento do septo nasal.

Além de todos os malefícios acima citados, o abuso dos inalantes pode predispor o usuário ao câncer e aumentar a difusão de doenças infecciosas como AIDS, HIV e hepatite.

Apesar de algumas pesquisas na área, o uso de inalantes ainda precisa de maiores estudos focados em programas para combater o uso e ajudar no tratamento clínico do usuário.

RESUMO DE ACORDO COM AS NORMAS ABNT

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Resumo: Tipos e Redação

Universidade de Brasília
2010

Resumo é uma síntese das principais idéias do texto. Deve ser exato, sem ambigüidades. A NBR 6028 de 2003 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) assim define resumo: “s da introdução, outras da metodologia e as últimas da conclusão, sem a intervenção do resumidor. É amplamente utilizado por sistemas de automatizados que ele próprio selecionas essas sentenças para substituir o texto original na recuperação online. Lancaster (2004) refere-se a essas atividades como sumarização para “designar qualquer processo que reproduza representação condensada de textos, […].” Ou seja, abarca as atividades de resumo e extração.

Antes de redigir um resumo é necessário observar fatores que poderão modificar o produto final da atividade, tanto a extensão quanto o assunto a ser abordado, são eles:

 extensão do documento a ser resumido;
 complexidade do tema;
 diversidade do conteúdo;
 importância para a instituição que elabora o resumo;
 acessibilidade do documento;
 custo;
 finalidade.

Os resumos podem ser indicativos, informativos ou críticos. O primeiro, também denominado descritivo, indica (descreve) o assunto contido no documento de forma breve. Contém informações gerais sobre o conteúdo, a metodologia e indica conclusões, mas não as descreve amiúde. Este tipo de resumo tem a finalidade de substituir a leitura do original, e sim indicar a leitura e ajudar na decisão se é ou não pertinente para a pesquisa do usuário.

O segundo, resumo informativo, informa o assunto, a metodologia, os resultados, as conclusões e as recomendações do autor. A finalidade do resumo informativo é, na medida do possível, dispensar a leitura do original. Contudo, é necessário observar que o resuma trata de sucinta os pontos do texto, para aprofunda-se no conteúdo a leitura do original não é dispensada. Uma utilidade para esse resumo é também auxiliar na processo de indexação. O indexador, que não muitas vezes não possui os tempo ou não é rentável ler o texto original, lê o resumo e destaca dele os conceitos trabalho no texto.

Por fim, há o resumo crítico. Lancastar (2004) o define como uma resenha ou resensão condensada, embora a ABNT (2003) a considera como a própria resenha ou resenção. Combina aspectos descritivos e críticos. Para fins de normalização no Brasil, considera-se a definição da ABNT, apesar do resumo crítico ser mais breve que as suas correspondestes. Não é bastante difundido nas publicações científicas pelo seu alto custo, pois imprescinde um especialista de para elaborá-lo e mais tempo para analisar os dados do texto. Costuma ser assinado.

Facilitar a seleção de documento pelo o usuário, essa é finalidade dos resumos. Um bom resumo poupa o tempo do leitor que não terá a necessidade de acessar o original para tomar a decisão de lê-lo ou não. No caso do resumo informativo, se for bem redigido, poderá substituir a leitura do original para aqueles não buscam detalhamento sobre tema tratado, é necessário observar também se este é fiel ao documento.

Como ferramenta para o indexador o resumo informativo é ainda mais eficaz, pois ao indexador não dado o privilégio de ler o documento integralmente, sendo este juntamente com outras estratégias um importante requisito. Observado sempre a fidelidade ao original. Outra finalidade é a recuperação da informação em bases de dados. Levando em conta precisão e revocação a busca pelo resumo pode ser mais eficaz do pelo texto integral. Um bom resumo indicativo baseado em termo autorizados pode aumentar a precisão, podendo até dispensar a indexação. Um bom resumo informativo com mais de uma forma de descrever alguns termos pode aumentar a revocação. Porém, há de se encontrar um meio termo entre os dois para a eficácia da recuperação da informação. Pode ocorrer também que os termos contidos no resumo não contenham entre os termos de indexação, aumentando assim a revocação e a precisão.

Outros tipos de resumos foram proposto por pesquisadores, porém, seja por ser dispendioso, seja por ser ineficaz não são difundidos nas publicações científicas. Um desde tipo é o resumo estruturado, cujos assuntos são descritos em perguntas de uma espécie de questionário ou gabarito. O pesquisador J. W. Broer publicou em 1971 um artigo que propõe um resumo estruturado em diagramas. Na época era algo inviável por ser extenso e ocupar uma página inteira as editoras não adotaram esta idéia pois o custo seria maior. Contudo, na atual realidade, com publicações online seria uma boa proposta, pelo fato de mostrar em um “passar de olhos” os assuntos tratados no documento.

Os resumos modulares e minirresumos também são tipos de resumos. Um reúne em um mesmo documento os resumos indicativo, informativo, crítico e a referência do original. São úteis para sistema integrados, onde cada instituição vinculada pode utilizar o resumo que melhor lhe convier. O outro são notações sem conjunção ou preposições, formada somente por substantivos, muito parecido com indexação ponderação. Se resumo for considera como um texto estruturado os minirrsumos não farão parte de rol, pois não há texto. Exemplo, o minirresumo da notação: “Existe um decréscimo da quantidade de zinco no sangue de seres humanos com cirrose do fígado”, ficaria dessa forma:
ZINCO/SANGUE/HUMANOS/CIRROSE/FÍGADO

Nota-se que segue a ordem da notação. Essa descrição é facilmente utilizada para sistemas informatizados identificar a descrição do conteúdo do texto.

Redação de resumos

O bom resumidor é formado com a prática. Porém, aspecto iniciais imprescindíveis devem ser explanados para a redação de resumos. Em suma o resumo deve ser: breve, exato e claro. A redundância é algo que deve ser evitado, apesar de alguns autores o considerarem úteis para a recuperação da informação em sistemas informatizados.

Devem ser omitidas informações que o leitor possivelmente saiba ou não lhe interessem, antecedentes históricos ou resultados negativos. Quanto menor será o resumo, porém deve-se preservar a coerência e a fidelidade ao original. A auto-suficiência do resumo é algo inerente, não se pode admitir que o leitor tenha que ter acesso ao original para entender o resumo.

Jargões devem ser evitados, pois podem causar ambiguidade para o leito e imprecisão na recuperação. Ao resumidor é permitido o uso de palavras ou frase do autor, se esta forem as mais exatas e concisas encontradas na linguagem, não deve buscar sempre reescrever com suas palavras na busca de uma elegância no texto.“ O resumo é algo utilitário e não precisa ser uma obra de arte” Lancaster (2004).

A ABNT recomenda que se utilize verbos na voz ativa e na terceira pessoa do singular. Deve conter frase concisas, afirmativas e não de enumeração de tópicos, ou seja, texto corrido. Recomenda-se também seja redigido em texto único. Quanto ao objetivo deve conter o objetivo, o método, os resultados e as conclusões do documento, de acordo com tipo de resumo varia a extensão e ordem desse elementos. Deve-se evitar o uso de fórmulas, a não ser que sem indispensável para a compreensão. Siglas só devem ser utilizadas se forem de senso comum do usuários, se não deve ser escrita por extenso na primeira vez que aparece.

A extensão do resumo deve considerar, a qual tipo de publicação será vinculada, além, é claro, de respeitar o tipo de resumo: indicativo, informativo ou crítico. A na norma 6028 a ABNT determina o número de palavras cada resumo deve ter:

 150 a 500: trabalhos acadêmicos (tese, dissertações e outros) e relatório técnico-científico;
 100 a 250: artigos de periódicos;
 50 a 10: os destinados a indicações breves (o resumo indicativo).

Os resumo críticos por sua natureza especial não possuem delimitação de palavras.

Quando o resumo não está vinculado ao original recomenda-se que contenha a referência bibliográfica, no início ou no fim do texto. Segundo a norma 6028 é um elemento obrigatório e deve aparecer antes do texto. Um resumo completo possui três partes: referência, texto e assinatura.

O conjunto de regras sobre a preparação de resumos é imprescindível. Apesar de haver a norma técnica cada instituição deve elaborar seu próprio manual, dessa forma o resumo atenderá melhor as necessidades do usuários. Salientando que nenhum resumo será igual a outro, mesmo redigido por uma pessoa, só que em momentos distintos.

Indexar e resumir, são atividades intimamente ligadas, portanto estas devem ser realizadas, preferencialmente, por uma mesma pessoa, sempre que viável. Pois a etapa inicial de análise conceitual é mesmo. Além disso o ato de decidir os pontos mais relevantes a serem inclusos no resumo ajudará a decidir os termos de indexação e vice-versa.

Referências Bibliográficas

LANCASTER, F. W. Indexação e resumo: teoria e prática. Tradução de Antio Agenor Briquet de Lemos. 2. ed. Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 2004.

ASSOCIAÇÃO Brasileira de Normas Técnicas. Informação e apresentação – resumo – apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2003.

LINGUAGEM E LITERATURA

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Universidade de Brasília
2010

Uma questão é posta quando se fala em persuasão: existe discurso sem a intenção de persuadir? Talvez textos lúdicos, jogos verbais e algumas manifestações artísticas, tratando-se de todos os outros pode procurar que alguma intencionalidade deve conter. O que distingue um texto mais ou menos persuasivo é a visibilidade das marcas persuasivas, em alguns a aparente imparcialidade e impessoalidade são marcadamente intencionais, tentam orientar a visão do receptor sem que ele perceba.

Sabendo das marcas lingüísticas utilizadas na argumentação, técnicas de relação interpessoal e ter a sensibilidade de perceber a manipulação o receptor pode esquivar-se dessa prática e utilizá-las contra quem as aplica.

A retórica

O domínio da expressão verbal nasceu entre os gregos, estes tinham que expor suas idéias publicamente, era uma forma de aplicar a democracia. Esta preocupação era tamanha que as escolas antigas criaram disciplinas que ensinassem as artes do domínio da palavra, estas são: a gramática, a eloqüência e a retórica. Somadas à elegância e ao gosto pela cultura clássica estava pronto um perfeito orador, salienta-se que a retórica fornece as diretrizes para essa que essa soma aconteça da melhor forma.

O estudo da linguagem foi transformado pela retórica, que passou a ser estuda como discurso e não mais como língua. Ou seja, a retórica é responsável por reconstruir as palavras visando o convencimento sobre uma suposta verdade.

O exercício da retórica era da natureza do estado grego e imperativo nas camadas dominantes. “O exercício da palavra era ao mesmo tempo uma ciência e uma arte, […]” (Citelli, 1989). O surgimento formal da retórica é atribuído a Aristóteles, apesar desta já ter sido praticada por Sócrates e Platão foi ele, Aristóteles, quem a formalizou e descreveu suas principais diretrizes. Sua primeira obra tratando sobre os processos compositivos do texto foi “A arte da retórica”, composto por normas e regras quem visam saber o que é, como se faz e qual o significado da persuasão.

Da obra de Aristóteles depreendem-se quatro aspectos: (1) retórica não é persuasão; (2) retórica revela como se faz a persuasão; (3) a retórica é analítica; (4) a retórica é uma espécie de código dos códigos.

O discurso, de acordo com a referida obra, deve ser divido em quatro importantes partes para o exercício da retórica. Essa estrutura de apresentação ainda pode ser encontrada nos livros didáticos atuais.

1. Exórdio – início do discurso (introdução);
2. Narração – assunto do texto, primeira argumentação;
3. Provas – elementos sustentadores da argumentação;
4. Peroração – epílogo ou conclusão, última oportunidade de convencimento do receptor;

Persuadir é aconselhar o receptor de uma dada verdade, porém essa verdade pode não ser uma verdade propriamente dita. O persuasor dessa forma cria lógica para sua verdade, a essa prática denomina-se verossimilhança. Apesar da inverdade a lógica estruturada leva o receptor a aceitá-la como verdade.

No final do século XIX o conceito de retórica foi confundido com “embelezamento” do texto. Suas técnicas foram utilizadas para escamotear a falta de consistência das idéias, são as chamadas “muletas lingüísticas”, que na falta do que dizer ou por não saber como dizer são utilizadas. Citelli (1989) considera o parnasianismo e seu principal representante, Olavo Bilac, como os maiores exemplos do artesanato no Brasil.

Raciocínios discursivos

Os raciocínios discursivos, já descritos pela retórica clássica e classificados de acordo com o grau de intencionalidade persuasiva, agora são utilizados na retórica moderna, sofrendo atualizações quanto à aplicabilidade.

O raciocínio apodítico tem um tom de verdade incondicional, não restando nenhuma dúvida sobre sua veracidade da mensagem, não dá margem à discussão. O verbo tem um caráter imperativo torna o enunciado indiscutível. Ex.: Zupavitin, a sopa que emagrece 1 quilo por dia.

Com o tom mais ameno, sem imposição, o raciocínio dialético dá mais de uma opção ao emissor, porém a escolha é induzida pela lógica, por exemplo: Você poderia comprar várias marcas de sabão em pó. Mas há uma que lava mais branco. Nota-se que o verbo no condicional dá impressão de ação não realizada, mas poderia ter sido realizada, porém como o consumidor espera o melhor do produto deve comprar o que lava mais branco.

Por fim, o raciocínio retórico. Tem certa semelhança com o raciocínio dialético, porém este não tenta convencer somente pela lógica, busca o lado emotivo do emissor quando esta não é suficiente. É bastante utilizado em discursos políticos, religiosos e nos conselhos de pais. Exemplo: “Lula é um homem do povo, tem uma história marcada pela luta trabalhista…”.

Figuras de Linguagem

As figuras de linguagem transformam os discursos buscando prender atenção do receptor ou mudar o foco do realmente está sendo falado. São importantes ferramentas lingüísticas há muito desenvolvidas pela retórica. A metonímia e metáfora são as mais presentes nos discursos, assim afirma o lingüista Roman Jakobson. Segundo ele a imensa maioria dos textos possui essas duas figuras, ora com predominância de uma, ora de outra. Contudo, outras figuras também marcam os discursos persuasivos.

Metáfora

Caracteriza-se pela representação para um conceito que muitas vezes não se encontra o melhor designativo ou para aproximar o conceito da realidade do receptor. Uma comparação é feita entre dois conceitos que tenha alguma característica em comum, porém esta comparação é aceita como sem um fosse o outro.

Exemplo: “Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair pérolas, que é a razão.” (Machado de Assis).

Metonímia

Metonímia é caracterizada pela transposição de termo, por exemplo, o singular é posto no lugar do plural ou o autor substitui a obra. Esta figura é primordialmente utilizada nos discursos políticos, quando o candidato refere-se, i. e., aos eleitores como se fossem apenas um: “caros eleitores”. Essa substituição o discurso do individuo, fazendo-o sentir-se próximo que está sendo falado e não alheio. Os tipos de metonímia são as seguintes substituições: o todo pela parte, o continente pelo conteúdo e o outro pela obra.

Eufemismo

Consiste em “suavizar” alguma idéia desagradável. Em um discurso persuasivo o emissor, ao tentar convencer o receptor acerca de algo que não seja tão favorável ao emissor, valer-se-á dessa figura para amenizar sejam os efeitos, sejam as causas. Exemplo: O candidato X enriqueceu por meios ilícitos (roubou).

Outras figuras são utilizadas, porém não são tão difundidas.

Signo e persuasão

A natureza do signo lingüístico

Os signos devem ser estudados para a prática da persuasão pelo fato de serem a inter-relação entre eles que forma as frases, os períodos e os textos.

De acordo com Ferdinand Saussure todo signo possui duas faces: o significante e o significado. O significante é o fonema e grafia, o significado é conceito que representa o fonema, a representação mental que este signo remete. O significante juntamente com o significado forma a significação do signo lingüístico, essa é o produto final entre as duas faces. O signo é arbitrário, pois não há relação direta entre o conjunto de fonemas ou a grafia da palavra e o que ela representa. É também representativo, pois as palavras não se confundem com as coisas e vice-versa.

Signo e ideologia

Citelli (1989) cita em sua obra Mikail Bakhtin, que desenvolveu uma teoria sobre a relação entre signos e ideologia. Segundo ele é impossível afastar o estudo dos signos do estudo da ideologia. A escolha dos sinos e modo de dispô-los revela muitos comprometimentos de cunho ideológico. “Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo, sem signos não há ideologia” (Bakhtin, 1979 apud Citelli, 1989).

A ideologia reflete e refrata a realidade ao mesmo tempo em que está inserida sua própria realidade. Os signos são escolhidos para essa representação. Por exemplo: O martelo é um instrumento de trabalho, não outra função senão a de fixar e extrair pregos ou quebrar pedras. No entanto, inserida em um novo contexto (realidade) passa a refletir e refratar essa realidade que está fora de si mesma. O martelo e a foice na bandeira da URSS produzem a idéia de um estado construído sob a aliança entre os trabalhadores do meio urbano e os trabalhadores do meio rural, respectivamente. Ou seja, o signo bandeira reflete a ideologia e a realidade da União Soviética. É a ideologia sendo transmitida através de signos, à ideologia que os trabalhadores são o mais importante para a nação.

Porém, esses signos não poderiam transmitir tal idéia se não fossem pensados socialmente, o martelo e a foice admitiram o significado de instrumento de trabalho porque a sociedade assim os considera. Com essas observações, deduz-se que o modo de conduzir o signo será de vital importância para a compreensão dos modos de se produzir a persuasão.

“A palavras nasce neutra (em estado de dicionário), ao se contextualizar, ela passa a expressar valores e idéias, transitando ideologias, cumprindo um amplo espectro de funções persuasivas às quais não faltam a normatividade e o caráter pedagógico” (Citelli, 1989).

Modalidades discursivas

O discurso apresenta três grandes modos organizacionais: o lúdico, o polêmico e o autoritário, do menos para o mais persuasivos. Será difícil encontrar um discurso que contenha somente um desses modos, eles são dependentes entre si. O que ocorre é que um predomina e caracteriza o discurso. Ou seja, o polêmico pode conter o lúdico, ou o autoritário polêmico.

Discurso lúdico

Lúdico significa jogo, ou seja, o discurso lúdico é marcado por jogos de interlocuções, o movimento dialógico eu-tu-ele se dinamiza e passa a convier com signos abertos. A verdade única desaparece, logo o convencimento do receptor também desaparece. É presença principalmente na produção artística.

Discurso polêmico

O grau de persuasão aumente neste tipo de discurso. Os enunciados são dirigidos como num debate/embate, onde uma voz tenderá a sobrepor outra. Produz, de certa forma, uma instigação, pois apresenta argumentos que possam ser contestados. Para a estruturação do discurso predomina o raciocínio dialético e retórico, apelando para aspectos lógicos e emotivos para o convencimento. O discurso polêmico está presente em discussões entre amigos, defesa de teses e editoriais jornalísticos.

Discurso autoritário

É por excelência um discurso persuasivo, em grau muito maior que o polêmico. Aqui se instalam todas as condições para o exercício da dominação pela palavra. O receptor perde quase que por completo a possibilidade de interferir e modificar o discurso. Exclusivista, não permite mediações ou ponderações, portanto o raciocínio apodítico é predominante.

O discurso autoritário é encontrável desde o discurso de um pai que manda como forma de conselho, passando pelo do Padre que ameaça sob a guarda de Deus, até o grito de um general com seus soldados. Há ainda o discurso publicitário, que mesmo mascarado tem o objetivo de “mandar” o consumidor adquirir um certo produto.

Análise do discurso

Já expostos os tipos de discursos e o grau de persuasão de cada um é necessário analisá-los para identificar qual deles está sendo aplicado. A análise do discurso deve ser considerada a partir de quatro elementos: distância, modalização, tensão e transparência.

•Distância: atitude do sujeito falante face ao seu enunciado. Quando a voz do sujeito é mais importante do que o enunciado diz que é um sujeito exclusivo.
•Modalização: modo como o sujeito constrói o enunciado. Por exemplo, o uso do imperativo no discurso autoritário, persuasivo.
•Tensão: relação que se estabelece entre emissor e receptor. Como o eu impositivo no discurso autoritário.
•Transparência: maior ou menor grau de transparência, ou opacidade, do enunciado. Se a verdade está sendo apresentado na integrada ou informações estão sendo sonegadas.

Aspectos não-verbais da comunicação

Não é só por palavras que a comunicação se estabelece, na verdade esta representa 7% da capacidade influência pessoal. Contudo, há de se observar que é um elemento-chave, da forma como é aliada aos outros elementos a influência como ser eficaz ou não. Os outros elementos são o tom de voz e a fisiologia, postura corporal, representam 38% e 55%, respectivamente, do poder de influência.

Recentes descobertas da neurolingüística fornecem ao emissor técnicas para melhorar sua comunicação, poder de persuasão e influência.

Na ação comunicativa o receptor deve sempre estar atento às seguintes perguntas básicas:

1. O quê? (O que está querendo comunicar?).
2. Quem? (Com quem?)
3. Como? (Qual a melhor forma?).
4. Onde? (Qual o lugar apropriado?).
5. Quando? (Qual o momento apropriado?).
6. Por quê?

Observadas essas questões basta ao emissor buscar as melhores técnicas, descritas pela retórica e estudas pela neurolingüística, para transpor obstáculos e comunicar-se com eficácia e eficiência.

CONCEITO DE ESTRATÉGIA

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Universidade de Brasília
2011

A palavra estratégia deriva do grego “strátegos”, que significa general, sendo assim estratégia significa literalmente “a arte do general”. Porém, após a era de Napoleão o conceito de estratégia estendeu-se e passou a abranger movimentos políticos e econômicos visando melhores mudanças para a vitória militar. E é dessa forma que a estratégia é utilizada pelas organizações. Esse paralelo entre guerra e mercado competitivo é uma boa forma de se entender a necessidade de uma política estratégica, de forma que há sempre que se preocupar com o inimigo/concorrente, respeitando a inteligência e capacidade de provocar mudanças no cenário assim.

Ansoff (1997), citado por Oliveira (2007), define bem estratégia: “É quando a munição acaba, mas continua-se atirando, para que o inimigo não descubra que a munição acabou”. Fazendo um paralelo entre a guerra e o mercado competitivo ao qual está inserido a empresa essa definição leva a crer que a estratégia é um movimento inteligente, sagaz. O momento de agir é tão importante, ou mais, do que o movimento em si.

Entra-se dessa forma em outro conceito: a tática. Essa é habitualmente confundida com estratégia. Estratégia são movimentos fora do “campo de batalha”, definição do que fazer e quando fizer. Tática são os movimentos no “campo de batalha”, executando os princípios estabelecidos pela estratégia.

Estabelecer o destino da empresa é o que o administrador deve ter em mente para estabelecer suas estratégias. Para isso consideram-se o passado, tortuoso ou não, o ambiente ao qual está inserida a empresa, seus pontos fortes, neutros e fracos. Será dessa forma que o futuro será projetado. Manipulam-se informações, por isso estratégicas, para imaginar possíveis passos e quais reações derivariam dessa ação. Dois dispositivos são utilizados para tanto:

•Dispositivos políticos – externos à empresa, referentes ao ambiente;
•Dispositivos técnico-econômicos – transações dos insumos em produtos e serviços, por isso internas à empresa.

Esses dispositivos estão estritamente ligados à eficácia e a eficiência, respectivamente.

Definições de estratégia

As definições são das mais variadas, porém todas deixam claro que objetivo é o sucesso da organização e a manutenção do sucesso, portanto projetos para o futuro. Abaixo algumas definições encontradas na literatura:

1. Regras e diretrizes para decisão que orientem o processo de desenvolvimento de uma empresa (Ansoff, 1990);
2. Modo pelo qual a empresa procura distinguir-se de maneira positiva da concorrência, usando seus pontos fortes para atender melhor às necessidades dos clientes (Ohmae, 1985);
3. Plano ou curso de ação vital, intensa e continuada importância para a empresa em sua totalidade (Sharplin, 1985);
4. Busca de uma posição competitiva favorável em uma indústria, a arena fundamental onde ocorre a concorrência; e a escolha desta estratégia competitiva está baseada no nível de atratividade da indústria e nos determinantes da posição competitiva relativa dentro desta indústria (Porter, 1985);
5. Futuridade das decisões correntes (Steiner, 1979);
6. Determinação de normas básicas em longo prazo e dos objetivos de uma empresa, e a adoção das linhas de ação e aplicação dos recursos necessários para alcançar essas metas (Chandler Jr., 1962);

Define-se então, para fins de compreensão, estratégia como sendo conjunto de princípios, subsidiados por informações do passado e do presente, para alcançar no futuro a melhor posição no mercado competitivo. Deixando a cargo do nível tático detalhes de ação.

Classificação das estratégias

As estratégias podem ser classificadas das mais diferentes formas:

• Quanto à amplitude
o Macroestratégias – correspondem à ação perante o ambiente, de acordo com a missão, os propósitos da empresa e o diagnóstico estratégico;
o Estratégia funcional – corresponde à forma de atuação e uma área funcional da empresa, relacionada ao nível tático;
o Microestratégia – corresponde à forma de atuação operacional.

• Quanto à concentração
o Estratégia pura – desenvolvimento específico de uma ação numa área de atividade;
o Estratégica conjunta – conjunto de estratégias.

• Quanto à fronteira
o Estratégias internas à empresa;
o Estratégias externas à empresa;
o Estratégias internas e externas – preferidas pelo fato de uma ação quase sempre necessitar de ações interna e externas à empresa.

• Quanto à qualidade dos resultados
o Estratégias fortes – provocam grandes mudanças;
o Estratégias fracas – provocam resultados mais amenos.

• Quanto ao enfoque
o Estratégias pessoais – valores, motivações, proteções contra o ambiente hostil, métodos de mudar o ambiente, técnicas para lidar com o pessoal e execução de tarefas pelo executivo.
o Estratégias empresariais – ação da empresa perante o ambiente. Confunde-se com macroestratégia.

Importância da estratégia

“A empresa é como a guerra, em certos aspectos, pois, se a estratégia adotada for correta, muitos erros táticos podem ser cometidos e a empresa ainda sairá vitoriosa” (Chandler Jr., 1962), citado por Oliveira (2007).

Estratégia é o que a empresa tenta ser, dessa forma, se ela não tenta ser algo ou obter algo, ela provavelmente não vai conseguir. Contudo, algumas estratégias são implícitas, as empresas nem sempre sabem que as empregam. Até certo ponto é bom, porém se empresa expande e diversifica sua atuação no mercado a antiga estratégia não será mais suficiente e uma nova deverá ser formulada, mas se a empresa que antes era bem sucedida sem saber o motivo, como saber que dera estabelecer novas regras de atuação.

É necessário saber o ambiente de inserção da organização, clientes os quais deseja atender e a forma que quer atuar nessas áreas. É preciso tentar ser, para então no futuro, sê-lo. Em um sistema de informação isto se aplica na delimitação do perfil dos usuários que devem ser atendidos, suas necessidades informacionais e a forma como estas informações devem ser disponibilizadas. Para atender seus usuários com eficiência, eficácia e sucesso.

Referências bibliográficas

OLIVEIRA, Djalma de Pinho Rebouças de. Planejamento estratégico: conceitos, metodologia, práticas. 23. ed. atual. e amp. São Paulo: Atlas, 2007. 331 p.

ANSOFF, H. Igor; McDonnell, Edward J. Implantando a administração estratégica. 2. Ed. São Paulo: Atlas, 1993. 587 p.

EDUCAÇÃO INCLUSIVA

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UNIVERSIDADE ESTADUAL VALE DO ACARAÚ
2010

CAPÍTULO I

1 – EDUCAÇÃO INCLUSIVA

O que é Educação Inclusiva? A educação inclusiva é um processo em que se amplia a participação de todos os estudantes nos estabelecimentos de ensino regular. Trata-se de uma reestruturação da cultura, da prática e das políticas vivenciadas nas escolas de modo que estas respondam à diversidade de alunos. É uma abordagem humanistica e democráticas, que percebe o sujeito e suas singularidades, tendo como objetivos o crescimento, a satisfação pessoal e a inserção social de todos. A Educação Inclusiva atenta a diversidade inerente à espécie humana, busca perceber e atender as necessidades educativas especiais de todos os sujeitos-alunos, em salas de aulas comuns, em um sistema regular de ensino, de forma a promover a aprendizagem e o desenvolvimento pessoal de todos. Prática pedagógica coletiva, multifacetada, dinâmica e flexível requer mudanças significativas na estrutura e no funcionamento das escolas, na formação humana dos professores e nas relações família-escola. Com força transformadora, a educação inclusiva aponta para uma sociedade inclusiva. O ensino inclusivo não deve ser confundido com educação especial, a qual se apresenta numa grande variedade de formas incluindo escolas especiais, unidades pequenas e a integração das crianças com apoio especializado. O ensino especial é desde sua origem um sistema separado de educação das crianças com deficiência, fora do ensino regular, baseado na crença de que as necessidades das crianças com deficiência não podem ser supridas nas escolas regulares. Existe ensino especial em todo o mundo seja em escolas de frequência diária, internatos ou pequenas unidades ligadas à escola de ensino regular.

A chamada Educação Inclusiva teve início nos Estados Unidos através da Lei Pública 94.142, de 1975 e, atualmente, já se encontra na sua segunda década de implementação. Há em todo Estados Unidos o estabelecimento de programas e projetos dedicados à Educação Inclusiva:

* Departamento de suporte às escolas, bibliotecas, hospitais e clínicas e vários outros projetos que tem sido direcionado para integrar no processo de educação de qualidade para todos.

Por Educação Inclusiva entende-se o processo de inclusão dos portadores de necessidades especiais ou de distúrbios de aprendizagem no ensino regular graus.

O princípio da normalização diz respeito a uma colocação seletiva do indivíduo portador de necessidade especial na classe comum. Neste caso, o professor de classe comum não recebe um suporte do professor da área de educação especial. Os estudantes do processo de normalização precisam demonstrar que são capazes de permanecer na classe de ensino regular. O processo de inclusão se refere a um processo educacional que visa estender ao máximo a capacidade da criança portadora de deficiência na escola e na classe regular. Envolve fornecer o suporte de serviços da área de Educação Especial através dos seus profissionais. A inclusão é um processo constante que precisa ser continuamente revisto.

A pratica escolar inclusiva requer primeiramente o respaldo de uma direção escolar disposta a adotar modelos de participação e descentralização, onde o processo de planejamento, execução, avaliação e socialização contarão com a participação de todos, inclusive dos próprios alunos e professores, que deverão partir do principio de que ensinar uma turma é na realidade trabalhar com um grande grupo homogêneo que poderá ser subdividido e deverá evitar a qualquer custo à exclusão dos alunos em situação de deficiência, que por sua vez poderão aderir aos grupos de sua escolha, evitando assim a formação de grupos destinados apenas àqueles que possuem dificuldade de aprendizado. Lembrando que só é possível à inclusão nos casos dos alunos adaptáveis ao modelo excludente. A educação especializada tem sido usada para tentar adaptar os alunos com deficiência mental as exigências da escola comum tradicional, que em um primeiro momento para organizar o trabalho educacional especializado, limitou-se a subdividir os alunos em grupos de treináveis, educáveis e dependentes visando à inserção familiar e social na escola.

Vygotsky, precursor sócio-interacionista, enfatiza as contribuições da cultura, da interação social e a dimensão histórica no desenvolvimento cognitivo. Vygotsky ressalta que para ocorrer mudança no processo educativo é necessário, analisar, participar das relações da sociedade com consciência, com leitura da realidade e, sobretudo que haja oportunidades para todos e ensino de qualidade. Destacando a cultura, as interações sociais, a dimensão histórica do desenvolvimento mental, as relações interpessoais e intrapessoais.

A contribuição de Vygotsky para a educação é de suma importância, pois atribui à escola um grande papel para a dimensão do desenvolvimento, por isso o professor precisa ter um conhecimento internalizado, consciência de seu papel, com uma boa formação para que alcance a inclusão de fato.

CASTRO (2003:27-39) ressalta também que o sucesso dos serviços prestados aos alunos portadores de necessidades especiais, depende da formação do professor. Pois a Educação Inclusiva na concepção de MERECH (1999:28), “tem uma perspectiva de aprender a conviver com as diferenças, as mudanças com aquilo que está além das imagens, uma maneira de apostar no outro”. Por isso a necessidade de profissionais especializados, preparados para então está promovendo e mediando neste processo.

De acordo com CARVALHO (2000: 35-54), apesar de a educação ser vista como dimensão central e de desenvolvimento de um país tanto nos aspectos econômicos, culturais, políticos e sociais, a mesma convive com tantos obstáculos, ainda possui elevados índices de fracasso escolar. É preciso remover barreiras na prática pedagógica com uma proposta de inclusão para todos, escola de qualidade que inclua os alunos independentes de suas condições físicas, intelectuais, sociais emocionais, lingüísticas, visuais, auditivas, mentais.

Infelizmente, podemos constatar que ainda falta muito para que a educação inclusiva tenha êxito de forma clara, pois, muitos educadores ainda não são especializados e com isso dificultada a realização da inclusão de maneira eficaz, a precariedade das escolas públicas em relação aos recursos econômicos, as estruturas, as adequações curriculares, ampliação de materiais didáticos especializados, de acordo com as teorias e práticas, a inclusão funciona parcialmente, devido à complexidade que há no processo educativo.

A educação inclusiva busca promover a participação de todos os alunos, inclusive os portadores de deficiências, à escola regular. Essa integração é obtida através da adaptação de políticas, estruturas, materiais didáticos e práticas de ensino para que essas atendam a diversidade dos alunos.

A educação inclusiva: Reconhece que todas as crianças podem aprender e respeita as diferenças de cada criança Prepara as estruturas e os sistemas de ensino, e suas metodologias, a atenderem as necessidades de todas as crianças Engloba abordagens de ensino centradas nas necessidades de aprender de cada criança, ao invés de centradas nos currículos escolares.

A educação inclusiva é um processo em que se amplia à participação de todos os estudantes nos estabelecimentos de ensino regular. Trata-se de uma reestruturação da cultura, da prática e das políticas vivenciadas nas escolas de modo que estas respondam à diversidade de alunos. É uma abordagem humanística, democrática, que percebe o sujeito e suas singularidades, tendo como objetivos o crescimento, a satisfação pessoal e a inserção social de todos.

A Educação Inclusiva atenta à diversidade inerente à espécie humana, busca perceber e atender as necessidades educativas especiais de todos os sujeitos-alunos, em salas de aulas comuns, em um sistema regular de ensino, de forma a promover a aprendizagem e o desenvolvimento pessoal de todos. Prática pedagógica coletiva, multifacetada, dinâmica e flexível requer mudanças significativas na estrutura e no funcionamento das escolas, na formação humana dos professores e nas relações família-escola. Com força transformadora, a educação inclusiva aponta para uma sociedade inclusiva.

O ensino inclusivo não deve ser confundido com educação especial, a qual se apresenta numa grande variedade de formas incluindo escolas especiais, unidades pequenas e a integração das crianças com apoio especializado. O ensino especial é desde sua origem um sistema separado de educação das crianças com deficiência, fora do ensino regular, baseado na crença de que as necessidades das crianças com deficiência não podem ser supridas nas escolas regulares. Existe ensino especial em todo o mundo sejam em escolas de freqüência diária, internatos ou pequenas unidades ligadas à escola de ensino regular.

Na condição humana como uma natureza cuja evolução e realiza ultima que é o ser social. Por tanto se o desenvolvimento individual depende da interação social, a própria formação, o próprio mundo de significados em que se existe, é função do viver com os outros. A aceitação do outro é, então, o fundamento para que o ser observador ou auto-consciente possa aceitar-se plenamente a si mesmo. MUTURANA E VALRELA (1995: 50)

1.1 – BREVE HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA NO BRASIL.

Programa Educação Inclusiva Direito à Diversidade iniciado em 2003, pelo Ministério da Educação – Secretaria de Educação Especial que conta atualmente com a adesão de 144 municípios-pólo que atuam como multiplicadores da formação para mais 4.646 municípios da área de abrangência. O objetivo geral do programa é garantir o acesso de todas as crianças e adolescentes com necessidades educacionais especiais ao sistema educacional público, bem como disseminar a política de construção de sistemas educacionais inclusivos e apoiar o processo de implementação nos municípios brasileiros.

Os principais objetivos desse programa são:

• Subsidiar filosófica e tecnicamente o processo de transformação do sistema educacional brasileiro em um sistema inclusivo;
• Sensibilizar e envolver a sociedade em geral e a comunidade escolar em particular;
• Preparar gestores e educadores dos Municípios-pólo para dar continuidade à política de Educação Inclusiva;
• Preparar gestores e educadores para atuarem como multiplicadores nos Municípios de sua área de abrangência;
• Desenvolver projetos de formação de gestores e educadores para dar continuidade ao processo de implementação de sistemas educacionais inclusivos;

1.1.1 – Ações do Programa

O Programa Educação Inclusiva: direito à diversidade disponibiliza equipamentos, mobiliários e material pedagógico para que sejam implantadas salas de recursos para viabilização do atendimento nos municípios-pólo, apoiando o processo de inclusão educacional na rede pública de ensino. A meta prevista é de até o final de 2006 realizarmos a formação de gestores e educadores para a educação inclusiva em 83,5% dos municípios brasileiros, alcançando de cerca de 80.000 educadores. Como parte da mesma ação inclusiva, a Secretaria de Educação Especial vem desenvolvendo desde 2004 o Projeto Educar na Diversidade, que visa à formação de professores inclusivistas nos 144 municípios-pólo. Até o final de 2006 o projeto deve atingir aproximadamente 30 mil educadores que atuam em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal.

A evolução da educação inclusiva no Brasil pode ser comprovada através dos dados do Censo Escolar/INEP, o qual registra o crescimento da matrícula de alunos com necessidades educativas especiais na rede regular de ensino tendo aumentado de 337.326 alunos, no ano de 1998, para 640.317 em 2005. Essa evolução se reflete também no aumento de escolas da rede pública que registram matrículas de alunos com necessidades educativas especiais tendo aumentado de 4.498, em 1998, para 36.897 em 2005.

Declaração Internacional de Montreal sobre Inclusão: A comunidade internacional, sob a liderança das Nações Unidas, reconhece a necessidade de garantias adicionais de acesso para excluídos, e neste sentido declarações intergovernamentais levantam a voz para formar parcerias entre governos, trabalhadores e sociedade civil com o objetivo de desenvolverem políticas e práticas inclusivas. No Congresso Internacional “Sociedade Inclusiva” convocado pelo Conselho Canadense de Reabilitação e Trabalho, foi feito um apelo aos governos, empregadores e trabalhadores bem como à sociedade civil para que se comprometessem com o desenvolvimento e a implementação de contextos inclusivos em todos os ambientes, produtos e serviços.

Convenção da Organização dos Estados Americanos: Aprovada pelo Conselho Permanente na sessão realizada em 26 de maio de 1999, na Guatemala, a Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência define em seu Artigo I que: O termo “deficiência” significa uma restrição física, mental ou sensorial, de natureza permanente ou transitória, que limita a capacidade de exercer uma ou mais atividades essenciais da vida diária, causada ou agravada pelo ambiente econômico e social;

O termo “discriminação contra as pessoas portadoras de deficiência” significa toda diferenciação, exclusão ou restrição baseada em deficiência, antecedente de deficiência, conseqüência de deficiência anterior ou percepção de deficiência presente ou passada, que tenha o efeito ou propósito de impedir ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício por parte das pessoas portadoras de deficiência de seus direitos humanos e suas liberdades fundamentais. Não constitui discriminação a diferenciação ou preferência adotada pelo Estado Parte para promover a integração social ou o desenvolvimento pessoal dos portadores de deficiência, desde que a diferenciação ou preferência não limite em si mesma o direito à igualdade dessas pessoas e que elas não sejam obrigadas a aceitar tal diferenciação ou preferência. Nos casos em que a legislação interna preveja a declaração de interdição, quando for necessária e apropriada para o seu bem-estar, esta não constituirá discriminação.

Em seu Artigo II afirma que a Convenção tem por objetivo prevenir e eliminar todas as formas de discriminação contra as pessoas portadoras de deficiência e propiciar a sua plena integração à sociedade. Enquanto os Artigos III e IV enumeram as ações que os Estados se comprometem a tomar para alcançar o objetivo acordado. O conjunto de Artigos desta convenção apresenta medidas práticas, baseadas no princípio de eliminar toda e qualquer forma de discriminação baseada em deficiência.

O Congresso Nacional brasileiro aprovou o texto da Convenção Interamericana por meio do Decreto legislativo nº 198, de 13 de junho de 2001. A Convenção entrou em vigor, para o Brasil, em 14 de setembro de 2001, nos termos do parágrafo 3, de seu artigo VIII. [9]

Legislação que regulamenta a Educação Especial no Brasil

Constituição Federal de 1988 – Educação Especial

Lei nº. 9394/96 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBN
Lei nº. 9394/96 – LDBN – Educação Especial
Lei nº. 8069/90 – Estatuto da Criança e do Adolescente – Educação Especial
Lei nº. 8069/90 – Estatuto da Criança e do Adolescente
Lei nº. 8859/94 – Estágio
Lei nº. 10.098/94 – Acessibilidade
Lei nº. 10.436/02 – Libras
Lei nº. 7.853/89 – CORDE – Apoio às pessoas portadoras de deficiência
Lei nº. 8.899, de 29 de junho de 1994 – Passe Livre.
Lei nº. 9424 de 24 de dezembro de 1996 – FUNDEF
Lei nº. 10.845, de 5 de março de 2004 – Programa de Complementação ao Atendimento Educacional Especializado às Pessoas Portadoras de Deficiência
Lei nº. 10.216 de 4 de junho de 2001 – Direitos e proteção às pessoas acometidas de transtorno mental

Plano Nacional de Educação – Educação Especial

A Educação inclusiva focaliza, mais uma vez, o direito universal à educação, consagrado na Constituição Brasileira e nas cartas internacionais de direitos do homem. Por que reafirmar esse direito, no âmbito da teoria e da prática em Psicologia, se no plano jurídico já há consenso sobre sua pertinência? Talvez exatamente porque, muitas vezes, a sua realização, embora afirmada do ponto do vista estritamente formal, é negada na prática a determinados grupos sociais populações excluídas, meninos de rua, minorias étnicas, portadores de deficiência física e mental nas próprias instituições encarregadas de torná-la real.

A escola comum é responsável por ampliar o conhecimento que o aluno traz de suas experiências pessoais, sociais e culturais levando este a superar o senso comum. O conhecimento escolar é revestido de valores éticos, estéticos e políticos independente do modelo de ensino e gestão adotado pela instituição escolar que ao final, será responsável pela passagem da vida particular e familiar para o domínio publico, tendo assim a escola a função social reguladora e formativa para os alunos. A construção do conhecimento é pré-definida, intencional e deliberada devendo levar em conta as decisões dos professores que selecionarão um caminho para a aprendizagem através de metodologias de ensino e recursos didático-pedagógicos a serem usados. Ao final, a escola devera ter auxiliado diretamente na introdução do aluno no mundo social, cultural e cientifico. Em contra partida a escola especial foi criada equivocadamente para substituir a escola comum no atendimento aos alunos em situação de deficiência, impedindo assim a construção de uma identidade própria no decorrer do tempo. Com a inserção parcial e condicional dos alunos em situação de deficiência nas escolas comuns, muitas dúvidas foram levantadas sob o papel e continuidade das escolas especiais, uma vez que acreditava-se que ainda com caráter transitório, cabia-lhes o papel de passar tais alunos por seus cursos para possibilitar a integração destes no ensino regular. Diante do advento da inclusão escolar acredita-se que a escola especial deveria complementar a escola comum, atuando sobre o saber particular que invariavelmente vai determinar e possibilitar a construção do saber universal.

A constituição de 1988, no seu artigo 208 aponta que o atendimento em situação de deficiência mental deveria acontecer preferencialmente na rede regular de ensino, embora se saiba que para a construção do conhecimento existe a necessidade de saber lidar com as particularidades de cada um para que se consiga chegar a um objetivo e que os alunos em situação de deficiência terão a necessidade de um espaço que não seja clinico, mas que resguarde as características educacionais. Com o intuito de obter uma compreensão mais amplas das deficiências, em 1980 a Organização Mundial de Saúde (OMS), propôs três níveis paras as deficiências: deficiência, incapacidade e desvantagem social. Já em 2001 houve uma reedição indicando a interação das funções orgânicas as atividades e participação social, motivando a substituição da terminologia “pessoa deficiente” por “pessoa em situação de deficiência”, embora ainda exista uma grande dificuldade em detectar com clareza o diagnóstico do que seja doença mental e deficiência mental principalmente no caso de crianças pequenas em idade escolar.

O movimento inclusivo foi muito além da aprendizagem, propondo mudanças estruturais para as escolas comuns, especiais e também para o atendimento clinico que deve manter o dialogo entre os diversos profissionais para obter um aprofundamento e melhor desempenho seja do aluno, do professor ou do especialista. Nesse dialogo deve-se existir um respeito mutuo entre os diversos especialistas que devem descobrir saídas conjuntas na atuação de cada caso, não devendo nunca se sobrepor a educação escolar e ao atendimento educacional especializado. Sabemos que ainda existem algumas contradições entre a teoria e o projeto da educação inclusiva.

CAPÍTULO II

1 – POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A EDUCAÇÃO INCLUSIVA.

As políticas educacionais, enquanto políticas públicas, são definidas, implementadas e avaliadas em estreita relação com o desenvolvimento social dos países. Elas retratam os tipos de regulação adotados por determinada sociedade, segundo a ideologia vigente.

Quando se trata de pais cujos filhos apresentam alguma deficiência “real” as possibilidades de escolha em muito se reduzem, pois, além das ofertas públicas governamentais serem desiguais de município para município, as ofertas também são desiguais em relação aos vários grupos de pessoas com deficiência.

A interação é “um processo dinâmico de participação das pessoas num contexto relacional, legitimando sua interação nos grupos sociais. A interação implica em reciprocidade”. “É sob o enfoque escolar é processo gradual e dinâmico que pode tomar distintas formas de acordo com as necessidades e habilidades dos alunos”. MEC (1994:18)

Nas ultimas décadas a sociedade tem presenciado inúmeros movimentos que lutam pela justiça social, e muitos tiveram conquista significativas, o reconhecimento do direito de toda a plena participação construindo uma concepção de sociedade inclusiva, onde as instituições passam a contemplar as necessidades de todos os indivíduos e não ao contrário quando estes são sujeitos às exigências do sistema. Esse novo paradigma definiu o conceito de educação inclusiva que pressupõe uma reestruturação da educação para tornar a escola um ambiente democrático de valorização da diversidade, sem distinção social, cultural, étnica, de gênero ou em razão de deficiência.

O direito de todos a educação fundamentado na Declaração dos Direitos Humanos e ratificado nas políticas educacionais se constituiu num movimento mundial de efetivação da inclusão das pessoas que enfrentam barreiras no acesso à educação, participação e aprendizagem. Este princípio está presente nos instrumentos legais que orientam para a inclusão escolar e questionam a concepção tradicional de escola com sua forte tendência à padronização e seleção, configurando-se numa abordagem que busca responder às necessidades de todos os alunos, com foco específico naqueles que são mais vulneráveis.

Entre as ações do Governo Federal para apoiar a construção de sistemas educacionais inclusivos, destacam-se os programas Educação Inclusiva: direito à diversidade, Informática na Educação Especial – PROINESP, Interiorizando Braille, Interiorizando Libras, Educar na Diversidade, a implantação das Salas de Recursos Multifuncionais, a universalização da entrega de livros didáticos em Braille no ensino fundamental, a disponibilização das coleções de literatura infanto-juvenil digital em Libras e do Dicionário Ilustrado Trilíngüe – Português, Inglês e Libras. Outro foco de atenção da política educacional se refere à expansão do acesso ao ensino superior com a criação, no Brasil, do primeiro curso de graduação bilíngüe Libras/Português; de cursos de graduação e pós-graduação à distância em Educação Especial e do curso a distância Letras/Libras em diversos estados, com pólo na UFSM; também o Programa de Apoio a Educação Especial – PROESP desenvolvido pela Secretaria de Educação Especial e CAPES tem impulsionado a pesquisa e a formação na área da educação especial em vinte instituições de ensino superior, incluindo a UFSM.

A constante melhoria do sistema de ensino e da escola é um objetivo perseguido pela administração em educação. A sociedade, organizada em instituições públicas e privadas, identifica a relevância da administração como um meio para atingir objetivos, avaliar processos e resultados, ajusta-se às demandas.

As políticas públicas evoluem, e com elas evoluem os paradigmas. Buscam-se soluções para o gerenciamento e a qualidade educacional mediante a parceria com os que fazem à educação acontecer no cotidiano da escola, reuni-se todas as forças para melhor desenvolver o processo educacional.

A gestão democrática – participativa requer competência cognitiva e afetiva, respaldada na internalização de valores, hábitos, atitudes e conhecimentos.

A formação da equipe escolar, adaptando-se as novas possibilidades gestoras pedagógicas, Há necessidade de aprimoramento com base teórica e prática sobre gestão democrática… Para que a equipe escolar ““… possa exercer autonomia pedagógica e administrativa e de gestão financeira. As escolas públicas devem planejar, a partir de sua realidade, integrando questões administrativas e financeiras com currículo e demais preocupações político-pedagógicas. É necessário, que a legislação vigente permita a prática da gestão participativa e da autonomia. A escola e sua equipe devem estar preparadas para ocupar esse espaço com compromisso, competência humana, teórica, técnica e política.

É importante que se conheça o processo histórico de exclusão escolar na educação brasileira, e a relação da concepção de inclusão escolar, encontrada nas Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (BRASIL, 2001) – com o significado de inclusão escolar -, para gestores e educadores, com suas práticas inclusivas, no contexto escolar do ensino fundamental, séries iniciais, no começo do século XXI. Fundamenta-se esta pesquisa nos fenômenos da inclusão e exclusão escolar e na história da educação brasileira, tendo como eixo as Políticas Públicas Educacionais brasileiras. Numa perspectiva dialética, a pesquisa de campo foi realizada em uma escola pública de ensino fundamental, de uma região de exclusão social. Os procedimentos utilizados para a coleta de dados foram: entrevista aberta não-diretiva, análise documental e observação assistemática. A pesquisa mostrou que, embora a maioria das crianças brasileiras, de 07 a 14 anos esteja freqüentando à escola neste começo do século XXI, o que é um direito garantido por lei, há uma exclusão escolar que é de fundo histórico e que se manifesta, no período estudado, numa exclusão simbólica, de base econômica, social, cultural, orgânica e emocional, a crianças e adolescentes. Estes são advindos, principalmente, de regiões de exclusão social, e o pretexto da inclusão é a tentativa de torná-los sujeitos iguais, tendo-se como referência a racionalidade da classe dominante.

“A todas as crianças (…) com deficiência e crianças bem dotadas, crianças que vivem nas ruas e que trabalham crianças de populações distantes ou que são nômades: crianças de minoria lingüísticas, étnicas ou culturais e crianças de outros grupos ou zonas desfavorecidos ou marginalizados”. CARTA DE SALAMANCA (1994: 17-18)

Esta citação não esta propriamente voltada apenas para crianças com deficiência, mas para todas as minorias, e ela não tem sido muito levada em conta, às vezes nem esta sendo tão discutidas pelos educadores do ensino regular.

1.1 – Sociedade civil pede propostas concretas para educação especial.

A educação especial é um tema que avanço nestes últimos seis anos. O debate sobre a questão da educação inclusiva é hoje um fenômeno de retórica como foi à integração escolar nos últimos 20 anos. O paradoxo é que, ao mesmo tempo em que se trata de uma ideologia importada de países desenvolvidos – que representa um alinhamento ao modismo, pois não temos lastro histórico na nossa realidade que a sustente –, não podemos negar que, na perspectiva filosófica, a inclusão é uma questão de valor, ou seja, é um imperativo moral. Não há como questioná-lo dentro da ética vigente nas sociedades ditas democráticas, e não dá para descartar que a adoção de diretrizes baseadas na educação inclusiva pode ser a única estratégia política com potencial para garantir o avanço necessário na educação especial brasileira.

Em outros países, por exemplo, o movimento se assenta em contextos em que já existia um razoável acesso à educação, uma rede diversificada e melhor qualificada de serviços, nos quais a perspectiva de educação inclusiva representou apenas um passo natural em direção à mudança. Aqui, a educação inclusiva é ainda uma página em branco de uma história a ser construída. E como pode a universidade brasileira contribuir para esse processo.

Na atualidade, constata-se que, para uma estimativa de cerca de 6 milhões de crianças e jovens com necessidades educacionais especiais, não chega a 400 mil o número de matrículas, considerando o conjunto de todos os tipos de recursos disponíveis, ou seja, desde os matriculados em escolas especiais até os que estão nas escolas comuns. Portanto, a grande maioria dos alunos com necessidades educacionais especiais está fora de qualquer tipo de escola. Tal quadro indica muito mais uma exclusão escolar generalizada dos indivíduos com necessidades educacionais especiais na realidade brasileira, a despeito da retórica da integração escolar.

As mazelas da educação especial brasileira, entretanto, não se limitam à falta de acesso. Os poucos alunos com necessidades educacionais especiais que têm tido acesso a algum tipo de escola não estão necessariamente recebendo uma educação apropriada, seja por falta de profissionais qualificados ou mesmo pela falta generalizada de recursos. Além da predominância de serviços que envolvem, desnecessariamente, a segregação escolar, há evidências que indicam um descaso do poder público; uma tendência de privatização (considerando-se que a maioria das matrículas está concentrada na rede privada e, mais especificamente, em instituições filantrópicas) e uma lenta evolução no crescimento da oferta de matrículas, em comparação com a demanda existente.

Pode-se dizer, portanto, que os resultados dos últimos 30 anos de política de “integração escolar” provocaram uma grande expansão das classes especiais, favorecendo o processo de exclusão na escola comum pública. Os modelos de serviços propostos pelo movimento de integração escolar, que previam uma opção preferencial pela inserção na classe comum com a manutenção do continuum de serviços, ou sistema de cascata, nunca chegaram a ser implementado na “integração escolar” à moda brasileira. Os recursos predominantes ainda hoje são classes especiais nas escolas públicas e nas escolas especiais privadas e filantrópicas.

As pessoas com deficiências representam hoje pelo menos 10% de nossa população: são 16,5 milhões de indivíduos, em todo o Brasil. Deste contingente, mais de um terço é constituído por crianças e adolescentes. Forçada a levar uma vida subterrânea, a maior parte deles não freqüenta as escolas, não encontra postos de trabalho e não têm acesso aos meios de lazer.

Por tudo isso, a questão dos direitos das pessoas com algum tipo de deficiência – física, motora, mental, sensorial, ou múltipla – é hoje uma das causas que mais exige a atenção de nossa sociedade. Começam a surgir, por todo o País, projetos e ações visando à construção de uma “sociedade inclusiva”. Neste processo o papel da mídia é decisivo.

Tanto a integração quando a inclusão constituem formas de inserção social das pessoas com deficiência. Mas a prática da integração – definida mais claramente nas décadas de 60 e 70 – era baseada no “modelo médico”, cuja proposta visa modificar (habilitar, reabilitar, educar) a pessoa com deficiência, para torná-la apta a satisfazer os padrões aceitos no meio (familiar, escolar, profissional, recreativo, ambiental).

Já a prática da inclusão, que se inicia na década de 80 e se consolida nos anos 90, vem seguindo o “modelo social”, segundo o qual a nossa tarefa é modificar a sociedade para torná-la capaz de acolher todas as pessoas que, uma vez incluídas nessa sociedade em modificação, poderão ser atendidas em suas necessidades comuns e/ou especial.

No Brasil, os números oficiais sobre os indivíduos com deficiência, oferecidos pelo IBGE, correspondem a projeções realizadas a partir de amostragem colhida em um a cada dez domicílios visitados durante o censo de 1991. Por isso as entidades envolvidas na luta pelos direitos das pessoas com deficiência trabalham para que o governo brasileiro se disponha a realizar a contagem completa deste segmento populacional, pois somente assim será possível contemplá-lo com políticas públicas realmente eficazes.

É importante lembrar que, se projetarmos também o envolvimento de familiares e parentes das pessoas com deficiência, poderemos ter 30% ou mais do total da população de nosso País sendo afetados pelos fatores decorrentes da deficiência, o que termina se refletindo diretamente no desenvolvimento nacional.

A Assembléia Geral da ONU, em 1990, estabeleceu a meta de concluir, até 2010, o processo de construção de “uma sociedade para todos”. E, para apoiar ações de implementação dessa meta, existe hoje o Fundo Voluntário das Nações Unidas sobre Deficiência.

CAPÍTULO III

3- EDUCAÇÃO INCLUSIVA NO BRASIL, SONHO OU REALIDADE?

Antes de tudo, é melhor que se defina o que significa Inclusão Escolar. Uma escola pode ser considerada inclusiva, quando não faz distinção entre seres humanos, não seleciona ou diferencia com base em julgamentos de valores como “perfeitos e não perfeitos”, “normais e anormais”. É aquela que proporciona uma educação voltada para todos, de forma que qualquer aluno que dela faça parte, independente deste ser ou não portador de necessidades especiais, tenha condição de conhecer, aprender, viver e ser, num ambiente livre de preconceitos que estimule suas potencialidades e a formação de uma consciência crítica.

Inclusão não pode significar adequação ou normatização, tendo em vista um encaixar de alunos numa maioria considerada “privilegiada”, mas uma conduta que possibilitasse o “fazer parte”, um conviver que respeitasse as diferenças e não tentasse anulá-las. A escola inclusiva deve ser aberta, eficiente, democrática, solidária e, com certeza, sua prática traz vários benefícios que serão abordados em um próximo artigo.

A escola inclusiva é aquela, como dito anteriormente, que se organiza para atender alunos não apenas ditos “normais”, mas também os portadores de deficiências, a começar por seu próprio espaço físico e acomodações. Salas de aula, bibliotecas, pátio, banheiros, corredores e outros ambientes são elaborados e adaptados em função de todos os alunos e não apenas daqueles ditos normais. Possui, por exemplo, cadeiras com braços de madeira tanto para destros quanto para canhotos, livros em braile ou gravados em fita cassete, corrimãos com apoio de madeira ou metal, rampas nos diferentes acessos de entrada e saída e assim por diante.

Mas, o principal pré-requisito não reside nos recursos materiais, já difíceis de serem obtidos por todos os estabelecimentos de ensino. O principal suporte está centrado na filosofia da escola, na existência de uma equipe multidisciplinar eficiente e no preparo e na metodologia do corpo docente. E é aqui que começo a me questionar sobre o que é real e o que pode ser quase utópico, mediante a realidade de nosso sistema educacional.

Como já é difícil para o homem estar em contato, ser capaz de pular para o outro lado, não ser só empático, mas estar presente e confirmar o outro, suspendendo seus preconceitos, permanecendo aberto para a fenomenologia de outro ser, sem que haja qualquer diferença visível ou manifestação de necessidades especiais… O que dirá quando estas estiverem realmente presentes? Como conseguir falar e conversar com a alma de outro ser e não só com a sua cabeça?

Se realizar a inclusão como forma de relacionamento e de diálogo em situações habituais já é um grande desafio, o que poderemos pensar sobre “ensinar inclusivamente”? É como se quiséssemos colher os frutos sem antes cuidar da terra, escolher cuidadosamente a semente, respeitando as estações e o tempo certo.

A Inclusão Escolar só pode ser viável enquanto fruto e não como terra ou arado. Ela só poderá acontecer realmente quando aquele que tem a função de plantar, ou seja, o professor e toda a equipe que faz parte do funcionamento da escola, desde a direção até o servente, mudarem sua atitude em relação ao lidar com a diferença, aceitando-a, estabelecendo novas formas de relação, de afetividade, de escuta e de compreensão, suspendendo juízos de valores que abarcam pena, repulsa e descrença.

Como acolher o aluno com necessidades especiais se não se consegue lidar saudavelmente com as diferenças inerentes à própria existência humana?A Inclusão Escolar depende antes de tudo de um reconhecimento humilde por parte da Escola e da Sociedade, da qual aquela faz parte, da necessidade de se educarem a si mesmas para lidar com a diferença, antes de criarem técnicas, estratégias ou métodos.

Quando se refleti sobre a Inclusão Escolar, dois sentimentos se afloram: o receio de como esta será conduzida e a preocupação com um equilíbrio filosófico que lhe dê suporte.

A meta tem que se basear num enfoque equilibrado, onde, de um lado, não se alimente a segregação do aluno com necessidades especiais, colocando-o em uma sala distanciada, e de outro, não se queira incluí-lo na classe regular, passando por cima de suas características e do que precisa em relação tanto ao espaço físico como de atendimento profissional especializado e multidisciplinar.

Somos seres em relação e só crescemos em relação. Assim sendo, o equilíbrio para mim reside, antes de tudo, em permitir que o aluno portador de necessidades especiais possa interagir com os demais e vice-versa, e que ambos aprendam a lidar com as diferenças, não para anulá-las, mas para poder usá-las como fonte de contato verdadeiro e de amadurecimento mútuo.

O Artigo 2º da LDBEN, que trata dos principio e fins da educação brasileira, garante “A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sai qualificação para o trabalho”.

Tradicionalmente, a educação especial tem sido concebida como destinada apenas ao atendimento de alunos que apresentem deficiências (mental, visual auditiva, físico/motora e múltiplas); condutas típicas de síndromes e quadros psicológicos, neurológicos ou psiquiátricos, bem como de alunos que apresentam altas habilidades/superdotação.

Apesar dos avanços conseguidos na concepção da educação como dimensão central dos países como vistas ao desenvolvimento sustentado nos aspectos econômicos e social, ainda convivemos com enormes obstáculos para assegurar escola de boa qualidade para todos e por toda a vida, o que pode ser constatado nos elevados índices de fracasso escolar.

Na verdade, a inclusão escolar não é um processo em si mesmo, dissociado de outros, igualmente sociais. Para analisar-la, precisamos considerar os mecanismos excludentes que estão presentes pela sociedade segundo seus preconceitos e /ou o modelo de desenvolvimento econômico vigente mo país.

É importante apontar alguns desafios e polaridades que permeiam o discurso e a ação de todos aqueles que estão envolvidos com a problemática da educação inclusiva no Brasil. Com o objetivo de avaliar teoricamente as constatações e inferências construídas a partir da vivencia de pessoas portadoras de necessidades especiais engajadas nos diversos setores do poder público e da sociedade. Os fenômenos e situações focalizados são indicadores da polaridade entre educação inclusiva e educação especial.

São inúmeros os problemas que dificultam a atuação dos professores na área da educação inclusiva, falta de capacitação, falta de material e espaço adequado. È muito importante que se desenvolva este trabalho com pais, professores, especialistas, gestores de políticas publicas e outros atores sociais.

O discurso acerca da inclusão de pessoas com deficiência na escola, no trabalho e nos espaços sociais em geral, tem-se propagado rapidamente entre educadores, familiares, líderes e dirigentes políticos, nas entidades, nos meios de comunicação etc. Isto não quer dizer que a inserção de todos nos diversos setores da sociedade seja prática corrente ou uma realidade já dada. As políticas públicas de atenção a este segmento, geralmente, estão circunscritas ao tripé educação, saúde e assistência social, sendo que os demais aspectos costumam ser negligenciados.

A educação destas pessoas tem sido objeto de inquietações e constitui um sistema paralelo de instituições e serviços especializados no qual a inclusão escolar desponta como um ideal utópico e inviável. A saúde limita-se à medicalização e patologização da deficiência ou à reabilitação compreendida basicamente como concessão de órteses e próteses. A assistência social traduz-se na distribuição de benefícios e de parcos recursos, em um contexto de miséria e de privações, no qual impera a concorrência do assistencialismo e da filantropia. Em cada um destes setores, o foco do atendimento privilegia certa dimensão do contexto de vida familiar, comunitário e social.

Para a educação, o sujeito com deficiência é um “aluno especial”, cujas necessidades específicas demandam recursos, equipamentos e níveis de especialização definidos de acordo com a condição física, sensorial ou mental. No âmbito da saúde, o mesmo aluno é tratado como “paciente”, sujeito a intervenções tardias e de cunho curativo, enquanto no campo da assistência social ele é um “beneficiário” desprovido de recursos essenciais à sua sobrevivência e sujeito as formas de concessão de benefícios temporários ou permanentes de caráter restritivo.

O que se observa, nestes setores, são ações isoladas e simbólicas ao lado de um conjunto de leis, projetos e iniciativas insipientes e desarticuladas entre as diversas instâncias do poder público. Em todos os casos, percebemos uma concepção de sujeito fragmentado, incompleto sem a necessária incorporação das múltiplas dimensões da vida humana. Existe uma teia de contradições e um fosso entre o discurso e a ação, pois o mundo continua representado pelo “nós, os ditos normais” e “eles”, as pessoas com deficiência.

Tais observações podem parecer pouco otimistas, e talvez o sejam, por representarem à perspectiva de quem tem a experiência da exclusão atravessada nas cenas do quotidiano e nos descaminhos da própria existência. Dificilmente, conseguimos abordar esta realidade sem exaltações ou animosidades, pois o tema tem suscitado debates calorosos que trazem em seu teor concepções divergentes e acentuam o antagonismo entre educação especial e inclusiva.

Via de regra, deparamos com argumentos que se justificam pela análise do óbvio, isto é, pela explicitação das dificuldades e limitações vivenciadas no contexto do sistema escolar e no ambiente da sala de aula. Os professores do ensino regular ressaltam, entre outros fatores, a dura realidade das condições de trabalho e os limites da formação profissional, o número elevado de alunos por turma, a rede física inadequada, o despreparo para ensinar “alunos especiais” ou diferentes. Os professores da educação especial também não se sentem preparados para trabalhar com a diversidade do alunado, com a complexidade e amplitude dos processos de ensino e aprendizagem. A formação destes profissionais caracteriza-se pela qualificação ou habilitação específicas, obtidas por meio de cursos de pedagogia ou de outras alternativas de formação agenciadas por instituições especializadas. Nestes cursos, estágios ou capacitação profissional, esses especialistas aprenderam a lidar com métodos, técnicas, diagnósticos e outras questões centradas na especificidade de uma determinada deficiência, o que delimita suas possibilidades de atuação.

Além disso, constatamos o receio, a insegurança e a resistência dos pais que preferem manter os filhos em instituições especializadas temerosos de que sejam discriminados e estigmatizados no ensino regular. Muitos deles desistiram por terem ouvido tantas vezes que não havia vaga para o seu filho naquela escola ou que o melhor para ele é uma escola especial. Outros insistem por convicção ou simplesmente por se tratar da única opção no local de moradia da família, pois existem os que estão fora da escola pelas razões aqui apontadas.

Os representantes de instituições e serviços especializados reagem ao risco iminente de esvaziamento ou desmantelamento destas estruturas. Trata-se de um campo de tensões no qual se manifestam o espírito corporativista e a (confusão) entre as estruturas e os sujeitos nelas inseridos, o que dificulta a reflexão e o aprofundamento do debate. Esta realidade caótica evidencia um confronto de tendências opostas entre os adeptos da educação inclusiva (em escolas comuns) e os defensores da educação especial (escolas especializadas em determinada deficiência).

Por outro lado, constatamos uma inegável mudança de postura, de concepções e atitudes por parte de educadores, pesquisadores, de agentes sociais, formadores de opinião e do público em geral. Estas mudanças se traduzem na incorporação das diferenças como atributos naturais da humanidade, no reconhecimento e na afirmação de direitos, na abertura para inovações no campo teórico-prático e na assimilação de valores, princípios e metas a serem alcançadas. Trata-se, portanto, de propor ações e medidas que visem assegurar os direitos conquistados, a melhoria da qualidade da educação, o investimento em uma ampla formação dos educadores, a remoção de barreiras físicas e atitudinais, a previsão e provisão de recursos materiais e humanos entre outras possibilidades. Nesta perspectiva se potencializa um movimento de transformação da realidade para se conseguir reverter o percurso de exclusão de crianças, jovens e adultos com ou sem deficiência no sistema educacional.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

BRASIL. Constituição da Republica Federativa do Brasil. Brasília/DF: Senado, 1988.

BRASIL Lei 7.853 – direito das pessoas portadoras de deficiência (regulamentada pelo decreto n. 1.744 de 08/12/1995.

BRASIL/MEC. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei n. 9.394. Brasília/DF, 1996.

BRASIL. Política Nacional para a integração da pessoa portadora de deficiência (regulamentada pelo decreto n. 3.298 de 20/12/1999). Brasília/DF, 1999.

BRASIL. Plano Nacional de Educação. Brasília/DF, 2000.

BRASIL/MEC/SEESP. Salas de recursos multifuncionais – espaço para atendimento educacional especializado. Brasília/DF, 2006.

BRASIL/MEC/SEESP. Educação Inclusiva: atendimento educacional especializado para deficiência mental. Brasília/DF, 2005.

BRASIL/MEC/SEESP. Educação Inclusiva: documento subsidiário à política de inclusão. Brasília/DF, 2005.

BRASIL/MEC/SEESP. Direitos à educação: subsídios para a gestão dos sistemas educacionais – orientações gerais e marcos legais. Brasília/DF, 2004.

BRASIL/MEC/SEESP. Programa educação inclusiva: direito à diversidade. Brasília/DF, 2004. volumes I, II, III e IV.

BRASIL/MEC/SEESP. Resolução CNE/CEB n.2. Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Brasília/DF, 2001.

CARTILHA. O acesso de pessoas com deficiência às classes e escolas comuns da rede regular de ensino. Procuradoria Federal dos Direitos

Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão. Brasília/DF, 2003.

DECLARAÇÃO DE SALAMANCA: sobre princípios, política e prática em educação especial. Disponível: www.regra.neteducacao. Acesso em: 18/10/2000.

INDEPENDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

Colegio Energia Ativa
2011

Introdução

Antes da Independência, os EUA era formado por treze colônias controladas pela metrópole: a Inglaterra. Dentro do contexto histórico do século XVIII, os ingleses usavam estas colônias para obter lucros e recursos minerais e vegetais não disponíveis na Europa. Era também muito grande a exploração metropolitana, com relação aos impostos e taxas cobrados dos colonos norte-americanos.

Colonização dos Estados Unidos

Para entendermos melhor o processo de independência norte-americano é importante conhecermos um pouco sobre a colonização deste território. Os ingleses começaram a colonizar a região no século XVII. A colônia recebeu dois tipos de colonização com diferenças acentuadas:

• Colônias do Norte: região colonizada por protestantes europeus, principalmente ingleses, que fugiam das perseguições religiosas. Chegaram à América do Norte com o objetivo de transformar a região num próspero lugar para a habitação de suas famílias. Também chamada de Nova Inglaterra, a região sofreu uma colonização de povoamento com as seguintes características: mão-de-obra livre, economia baseada no comércio, pequenas propriedades e produção para o consumo do mercado interno.
• Colônias do Sul: colônias como a Virginia, Carolina do Norte e do Sul e Geórgia sofreram uma colonização de exploração. Eram exploradas pela Inglaterra e tinham que seguir o Pacto Colonial. Eram baseadas no latifúndio, mão-de-obra escrava, produção para a exportação para a metrópole e monocultura.

Guerra dos Sete Anos

Esta guerra ocorreu entre a Inglaterra e a França entre os anos de 1756 e 1763. Foi uma guerra pela posse de territórios na América do Norte e a Inglaterra saiu vencedora. Mesmo assim, a metrópole resolveu cobrar os prejuízos das batalhas dos colonos que habitavam, principalmente, as colônias do norte. Com o aumento das taxas e impostos metropolitanos, os colonos fizeram protestos e manifestações contra a Inglaterra.

Metrópole aumenta taxas e impostos

A Inglaterra resolveu aumentar vários impostos e taxas, além de criar novas leis que tiravam à liberdade dos norte-americanos. Dentre estas leis podemos citar: Lei do Chá (deu o monopólio do comércio de chá para uma companhia comercial inglesa), Lei do Selo (todo produto que circulava na colônia deveria ter um selo vendido pelos ingleses), Lei do Açúcar (os colonos só podiam comprar açúcar vindo das Antilhas Inglesas).

Estas taxas e impostos geraram muita revolta nas colônias. Um dos acontecimentos de protesto mais conhecidos foi a Festa do Chá de Boston (The Boston Tea Party). Vários colonos invadiram, à noite, um navio inglês carregado de chá e, vestidos de índios, jogaram todo carregamento no mar. Este protesto gerou uma forte reação da metrópole, que exigiu dos habitantes os prejuízos, além de colocar soldados ingleses cercando a cidade.

Primeiro Congresso da Filadélfia

Os colonos do norte resolveram promover, no ano de 1774, um congresso para tomarem medidas diante de tudo que estava acontecendo. Este congresso não tinha caráter separatista, pois pretendia apenas retomar a situação anterior. Queriam o fim das medidas restritivas impostas pela metrópole e maior participação na vida política da colônia.

Porém, o rei inglês George III não aceitou as propostas do congresso, muito pelo contrário, adotou mais medidas controladoras e restritivas como, por exemplo, as Leis Intoleráveis. Uma destas leis conhecidas como Lei do Aquartelamento, dizia que todo colono norte-americano era obrigado a fornecer moradia, alimento e transporte para os soldados ingleses. As Leis Intoleráveis geraram muita revolta na colônia, influenciando diretamente no processo de independência.

Segundo Congresso da Filadélfia

Em 1776, os colonos se reuniram no segundo congresso com o objetivo maior de conquistar a independência. Durante o congresso, Thomas Jefferson redigiu a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América. Porém, a Inglaterra não aceitou a independência de suas colônias e declarou guerra. A Guerra de Independência, que ocorreu entre 1776 e 1783, foi vencida pelos Estados Unidos com o apoio da França e da Espanha.

Constituição dos Estados Unidos

Em 1787 ficou pronta a Constituição dos Estados Unidos com fortes características iluministas. Garantia a propriedade privada (interesse da burguesia), manteve a escravidão, optou pelo sistema de república federativa e defendia os direitos e garantias individuais do cidadão.

A POLITICA NACIONAL DO MEIO AMBIENTE

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A POLÍTICA NACIONAL DO MEIO AMBIENTE

UNO CHAPECÓ
2010

A Política ambiental brasileira no contexto histórico

Para uma noção da política brasileira relativa ao ambiente, precisa-se situar a questão ambiental na história contemporânea.

Os cinco séculos que medeiam entre a descoberta do Novo Mundo e o acaso do século XX foram marcados pelo crescente e cada vez mais rápido domínio do homem europeu sobre o orbe terrestre.

Marcas do século XX são a concentração da população nas cidades, a elevação do nível econômico de grande parte da população, a produção intensiva de bens de consumo e o descarte precoce de bens usados.

O sistema socioeconômico leva à exploração predatória dos recursos naturais, renováveis ou não, e a geração de grande quantidade de resíduos de toda natureza.

O homem assustou-se em Hiroshima e Nagasaki com seu próprio poder e como aprendiz de feiticeiro. Passam a ser notícia vários desastres ecológicos e afinitude de recursos naturais começa a ameaçar o mito do desenvolvimento econômico a qualquer preço. É o caso da crise do petróleo.

Nasce o movimento ambientalista, pugnando pela preservação do ambiente e contra todo gênero de poluição. A defesa do meio ambiente e o crescimento econômico são vistos como excludentes e inconciliáveis. A oposição entre crescimento econômico consumista e a defesa do meio ambiente marca a segunda metade do século XX e o limiar deste novo século.

A oposição entre crescimento econômico e a proteção ambiental tem íntima conexão com a oposição entre sociedades ricas e sociedades pobres: o conflito social que marca estes novos tempos, polarizado emblematicamente entre Norte e Sul. Nas sociedades mais ricas, fortes segmentos da comunidade organizada têm consciência ambiental e exigem legislação adequada à proteção do meio ambiente, no seu próprio território e em outras partes do mundo. Nas mais pobres, prevalece o domínio político das elites econômicas que enriqueceram a custa da exploração predatória dos recursos naturais.

No Brasil, evidencia-se entre as regiões mais desenvolvidas, do sul e sudeste, e as mais pobres, do norte e nordeste.

Feitas essas considerações históricas, analisemos a questão ambiental no Brasil.

Em Estocolmo, 1972, o Brasil expressou a oposição entre o Norte, rico e já preocupado com a proteção ambiental, e o Sul, pobre e preocupado com seu enriquecimento. Na mesma década os estados de São Paulo e Rio de Janeiro editaram leis e instituíram órgãos para controlar a poluição, notadamente das águas e do ar. O Governo Federal, em pleno regime autoritário, respondeu com um decreto-lei, proibindo Estados e Municípios de interditar indústrias, reservando esse ato ao Presidente da República.

No início da década de 80 dispôs sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação. Essa lei incorporou e aperfeiçoou normas estaduais já vigentes e instituiu o Sistema Nacional do meio Ambiente, integrado pela União, Estados e Municípios, e atribuiu aos Estados à responsabilidade maior na execução das normas protetoras do meio ambiente.

Os Estados mais industrializados assumiram essa responsabilidade e, alem disso, estabeleceram normas próprias. O estado de São Paulo, de modo especial, instituiu varias áreas protegidas, com restrições ao uso do solo. Porém, outros estados adotaram a superada posição do nosso país em Estocolmo e continuam preferindo o crescimento econômico sem restrições ambientais, embora não ousem dize-lo. Isso tem provocado o êxodo de indústrias insalubres de São Paulo para outros Estados.

Municípios pouco industrializados têm-se oposto às restrições ambientais impostas às atividades que causem impactos ambientais. Tudo isso dificulta a formação de uma Política Ambiental de caráter nacional. Não existe um efetivo plano de ação governamental integrando a União, os Estados e os Municípios, visando preservação do meio ambiente.

Diga-se, bem a verdade, que o planejamento ambiental, isolado do planejamento econômico e social, é irreal. O meio ambiente é um bem essencialmente difuso e engloba todos os recursos naturais. Por isso mesmo, o planejamento do uso desses recursos deve considerar todos os aspectos envolvidos: os econômicos, os sociais e os ambientais. Não é possível planejar o uso de qualquer desses recursos apenas sob o prisma econômico-social ou somente sob o aspecto da proteção ambiental.

A estrutura do Sistema Nacional do Meio Ambiente

O Sistema Nacional do Meio Ambiente – Sisnama, criado pela Lei 6.938/81, é formado pelo conjunto de órgãos e instituições dos diversos níveis do Poder Público incumbido da proteção do ambiente, constituindo-se grande arcabouço institucional de gestão ambiental no Brasil. A simples menção da adoção de um sistema para fundamentar a tutela administrativa indica que, a semelhança dos sistemas cibernéticos, há muitas entradas e saídas referentes à gestão ambiental.

O Sistema Nacional do Meio Ambiente – Sisnama- é, de direito e de fato, uma estrutura político-administrativo oficial, governamental, ainda que aberta à participação de instituições não governamentais, através dos canais competentes.

Constituído pelos órgãos e entidades da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Municípios e pelas Fundações instituídas pelo Poder Públicos, responsáveis pela proteção e melhoria da qualidade ambiental, tem a seguinte estrutura:

I – Órgão superior
II – Órgão Consultivo e deliberativo: o conselho Nacional do Meio Ambiente-Conama
III – Órgão Central: o Ministério do Meio Ambiente
IV – Órgão Executor: Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis-Ibama
V – Órgãos Setoriais
VI – Órgãos Seccionais
VII – Órgãos Locais

O Sisnama não pode exercer a tutela administrativa do ambiente.

DIREITO DO AMBIENTE

Sentido da expressão meio ambiente

No conceito jurídico de meio ambiente mais em uso podemos distinguir duas perspectivas principais: uma estrita e outra ampla.

– Numa visão estrita, o meio ambiente nada mais é do que a expressão do patrimônio natural e as relações com e entre os seres vivos.
– Numa concepção ampla, o meio ambiente abrange toda a natureza original e artificial, assim como os bens culturais correlatados. Nessa perspectiva ampla, o meio ambiente seria a interação do conjunto de elementos naturais, artificiais e culturais que propiciem o desenvolvimento equilibrado da vida em todas as usas formas.

Conceito de Direito do Ambiente

O direito do ambiente, considerando-o como o complexo de princípios e normas coercitivas reguladoras das atividades humanas que, direta ou indiretamente, posa afetar a sanidade do ambiente em sua dimensão global, visando à sua sustentabilidade para as presentes e futuras gerações. A missão do Direito do Ambiente é conservar a vitalidade, a diversidade e a capacidade de suporte do planeta Terra, para usufruto das presentes e futuras gerações.

Autonomia do Direito do Ambiente

O Direito do Ambiente conta com princípios próprios, com assento constitucional e com um regramento infraconstitucional complexo e moderno. Trata-se de uma disciplina jurídica de acentuada autonomia, dada à natureza especifica de seu objeto – ordenação da qualidade do meio ambiente com vista a uma boa qualidade de vida que não se confunde nem mesmo se assemelha com o objeto de outros ramos do Direito.

– O direito Ambiental mantém estreitas relações com o Direito Constitucional, derivadas da hegemonia que cabe a essa disciplina sobre as demais.
– Com o Direito Penal, pois varias agressões praticadas contra o ambiente configuram delitos punidos por vários diplomas legais, que dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente.
– Do Direito Tributário também recebe subsídios, na medida em que se presta, através do tributo, a estimular as condutas não-poluidoras e desestimular as poluidoras.
– Com o Direto Processual, dele haurindo mecanismos de responsabilização, perante o Poder Judiciário, dos agressores do ambiente.
– No Direito Civil vai buscar regras de tutela ambiental, como, aquelas ligadas ao Direito de vizinhança.
– Com o Direito Internacional se entrosa, já que a globalização dos problemas ambientais enseja, cada vez mais, a assinatura de tratados e convenções destinados a regrar o comportamento das nações em defesa do ambiente planetário.

A LEGISLAÇÃO AMBIENTAL

A legislação ambiental no Brasil

No Brasil, as primeiras formulações legislativas disciplinadoras do meio ambiente vão ser encontradas na legislação portuguesa que aqui vigorou até o advento do Código Civil, em 1916.

O primeiro passo encetado pelo legislador brasileiro para a tutela jurídica do meio ambiente coincide, portanto, com a edição do Código Civil de 1916, que elencou várias normas de colorido ecológico destinadas à proteção de diretos privados na composição de conflitos de vizinhança.

Os marcos mais importantes

A partir da década de 1980 é que a legislação sobre a matéria passou a desenvolver-se com maior consistência e celeridade. É que o conjunto das leis até então não se preocupava em proteger o meio ambiente de forma específica e global, dele cuidando de maneira diluída, e mesmo casual, e na exata medida de atender sua exploração pelo homem.

Dos quatros marcos mais importantes dessa postura recente do ordenamento jurídico na busca de respostas ao clamor social pela imperiosa tutela do ambiente.

– O primeiro é o da edição da Lei 6.938, de 31/08/1981, trouxe para o mundo do Direito o conceito de meio ambiente, como objeto específico de proteção em seus múltiplos aspectos.
– O segundo marco coincide com a edição da Lei 7.347, de 24/07/1985, que disciplinou a ação civil pública como instrumento processual específico para a defesa do ambiente e de outros interesses difusos e coletivos, e que possibilitou que a agressão ambiental finalmente viesse a tornar-se um caso de Justiça.
– O terceiro marco prontifica em 1988, com a promulgação da Constituição brasileira, onde o progresso se fez notável, na medida em que a Magna Carta deu ao meio ambiente uma disciplina rica, dedicando à matéria um capítulo próprio em um dos textos mais avançados em todo o mundo.
– O quarto é representado pela edição da Lei 9.605, de 12/02/1998, que dispõe sobre as sanções penais e administrativas aplicáveis às condutas e atividades lesivas ao meio ambiente. Dita lei, conhecida como Lei dos Crimes Ambientais, representa significativo avanço na tutela do ambiente, por inaugurar uma sistematização das sanções administrativas e por tipificar organicamente os crimes ecológicos.

Um Código de Meio Ambiente para o Brasil

O Direito Ambiental precisa tornar-se claro, acessível, certo, coerente.

O meio ambiente carece de uma instrumentação de alto nível quanto à qualidade do texto legislativo, assim como:

DANO AMBIENTAL

Conceito

A devastação do ambiente é um fenômeno que acompanha o homem desde os primórdios de sua história.

Podemos dizer que dano ambiental é a lesão aos recursos ambientais, com conseqüente degradação – alteração adversa ou in pejus – do equilíbrio ecológico e da qualidade de vida.

Ao falar em lesão aos recursos ambientais, estamos nos referindo, na linha do disposto no art. 3º, V, da Lei 6.938/81, não só aos meros recursos naturais, mas também aos elementos da biosfera.

Classificação

Pela conformação que o Direito dá ao dano ambiental, pode mos distinguir:

– O dano ambiental coletivo, causado ao meio ambiente globalmente considerado, em sua concepção difusa, como patrimônio coletivo;
– O dano ambiental individual, sofrido pelas pessoas e seus bens. Aquele, quando cobrado, tem eventual indenização destinada a um Fundo, cujos recursos serão alocados à reconstituição dos bens lesados. Este, diversamente, dá ensejo à indenização dirigida à recomposição do patrimônio individual das vítimas.

Características

O dano ambiental tem características próprias, que acabam por orientar o tratamento que as várias ordens jurídicas a ele conferem.

– Em primeiro lugar, o dano ambiental se caracteriza pela pulverização de vítimas. O dano ambiental afeta, necessariamente, uma pluralidade difusa de vítimas, mesmo quando alguns aspectos particulares da sua danosidade atingem individualmente certos sujeitos.
– Em segundo lugar, o dano do ambiente é de difícil reparação. Daí que o papel da responsabilidade civil, especialmente, quando se trata de mera indenização, é sempre insuficiente.
– Finalmente, o dano ambiental é de difícil valoração. Ou seja, mesmo que levado avante esforço reparatório, nem sempre é possível, no estágio atual do conhecimento, o cálculo da totalidade do dano ambiental.

Formas de reparação

A Lei 6.938/81 dispõe que a Política Nacional do Meio Ambiente visará a imposição ao poluidor e ao predador da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados.

Há duas formas principais de reparação do dano ambiental:

– A recuperação natural ou o retorno ao status quo ante,
– A indenização em dinheiro. Não estão elas hierarquicamente em pé de igualdade.

A modalidade ideal – e a primeira deve ser tentada, mesmo que mais onerosa – de reparação do dano ambiental é a reconstituição ou recuperação do meio ambiente agredido, cessando-se a atividade lesiva e revertendo-se a degradação ambiental.

A regra é buscar por todos os meios razoáveis ir além da indenização em seqüência ao dano, garantindo-se, ao contrario, a fruição do bem ambiental.

Apenas quando a reconstituição não seja viável – fática ou tecnicamente- é que se admite a indenização em dinheiro. Essa – a reparação econômica- é, portanto, forma indireta de sanar a lesão.

REAÇÃO DO DIREITO À DANOSIDADE AMBIENTAL

A atuação do Direito do Ambiente

O Direito do Ambiente tem três esferas básicas de atuação:

– A preventiva;
– A reparatória;
– E a repressiva.

A reparação e a repressão ambientais representam atividades menos valiosas, que a prevenção. Aquelas cuidam do dano já causado. Na prevenção, há ação inibitória. Na reparação, remédio ressarcitório.

Responsabilidade administrativa

Na esfera administrativa, o Estado, através do poder de polícia que lhe é inerente, busca a conjuração do dano ambiental através de instrumentos preventivos e repressivo.

O instrumento de tutela preventiva, por excelência, é o licenciamento ambiental, que é o procedimento administrativo pelo qual o órgão ambiental competente licencia a localização, instalação, ampliação e a operação de empreendimentos e atividades utilizadores de recursos ambientais, consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras ou daquelas que, sob qualquer forma, possam causar degradação ambiental, considerando as disposições legais e regulamentares e as normas aplicáveis ao caso.

Esta fase, de emissão de licença, desdobra-se em:

– Licença prévia
– Licença de instalação
– Licença de operação.

No aspecto repressivo, as sanções administrativas figuram entre as mais importantes expressões do poder de polícia conferido à Administração pública.

De acordo com o art. 72 da Lei 9.605/98 e art. 2º do dec. 3.179/99, são previstas as seguintes sanções aos infratores:

I – Advertência;
II – Multa simples;
III – Multa diária;
IV – Apreensão de animais, produtos e subprodutos da fauna e flora, instrumentos, petrechos, equipamentos ou veículos de qualquer natureza utilizados na infração;
V – Destruição ou inutilização do produto;
VI – Suspensão de venda e fabricação do produto;
VII – Embargo de obra ou atividade;
VIII – Demolição de obra;
IX – Suspensão parcial ou total da atividade;
X – Restritivas de direito, que compreendem:

a) Suspensão de registro, licença, permissão ou autorização;
b) Cancelamento de registro, licença, permissão ou autorização;
c) Perda ou restrição de incentivos e benefícios fiscais;
d) Perda ou suspensão da participação em linhas de financiamento, em estabelecimentos oficiais de crédito;
e) Proibição de contratar com a administração pública, pelo período de até três anos.

XI – Reparação dos danos causados.

Responsabilidade civil

No Direito comum, o regime da responsabilidade extracontratual ou aquiliana de aplicação geral é o da responsabilidade subjetiva, fundada na culpa ou dolo do agente causador do dano.

Na legislação especial, ao contrário, o dano ambiental é regido pelo sistema da responsabilidade objetiva, fundada no risco, que prescinde por completo da culpabilidade do agente e só exige, para tornar efetiva a responsabilidade, a ocorrência do dano e a prova do vínculo causal com a atividade. No regime da responsabilidade objetiva, fundada na teoria do risco da atividade, para que se possa pleitear a reparação do dano, basta a demonstração do evento danoso e do nexo de causalidade.

A adoção, pela lei, da teoria do risco da atividade, da qual decorre a responsabilidade objetiva, traz como conseqüências para que haja o dever de indenizar:

– A prescindibilidade de investigação da culpa, independentemente de existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros afetados por sua atividade;
– A irrelevância da licitude da atividade, pois apenas a potencialidade de dano que a atividade possa trazer aos bens ambientais é que será objeto de consideração;
– A inaplicação das causas de exclusão da responsabilidade civil, já que não se discute a subjetividade do agente, sobrevindo a responsabilidade indenizatória pelo só fato de existir a atividade da qual adveio o prejuízo.

Responsabilidade penal

O Direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, na sua concepção moderna, é um dos direitos fundamentais da pessoa humana, o que, por si só, justifica o sancionamento penal das agressões contra ele perpetradas, como estrema ratio. Em outro modo de dizer, ultima ratio da tutela penal ambiental significa que esta é chamada a intervir somente nos casos em que as agressões aos valores fundamentais da sociedade alcancem o ponto do intolerável ou sejam objetos de intensa reprovação do corpo sociais.

Os riscos globais, a extinção de espécies animais e vegetais, assim como a satisfação de novas necessidades em termos de qualidade de vida deixa claro que o fenômeno biológico e suas manifestações sobre o planeta estão sendo perigosamente alterados. E as conseqüências desse processo são imprevisíveis, já que as rápidas mudanças climáticas, (…) a menor diversidade da espécie fará com que haja menor capacidade de adaptação por causa da menor viabilidade genética e isto estará limitando o processo evolutivo, comprometendo inclusive a viabilidade de sobrevivência de grandes contingentes populacionais da espécie humana.

Se o Direito Penal é, de fato, ultima ratio, na proteção de bens individuais com mais razão impõe-se sua presença quando se está diante de valores que dizem respeito a toda a coletividade, já que estreitamente conectados à complexa equação biológica que garante a vida humana no planeta.

Sustentava-se que só o ser humano, pessoa física, podia ser sujeito ativo de crime, por estar a responsabilidade penal, no sistema brasileiro, assentada na imputabilidade, definida como conjunto de condições pessoais que dão ao agente capacidade para lhe ser juridicamente imputada a prática de um fato punível. A imputabilidade exige do autor, no momento da prática delitiva, plena capacidade de entender o caráter ilícito do fato e de determinar-se de acordo com esse entendimento.

Seguindo tendência do Direito Penal moderno de se superar o caráter meramente individual da responsabilidade penal ate então vigente, e o legislador brasileiro erigiu a pessoa jurídica à condição de sujeito ativo da relação processual penal. O intento do legislador, como se vê, foi punir o criminoso certo e não apenas o mais humilde. O verdadeiro delinqüente ecológico não é a pessoa física, mas a pessoa jurídica que, quase sempre, busca o lucro como finalidade precípua, e para há qual pouco interessam os prejuízos em curto e longo prazos causados à coletividade, bem como pouco importa que a saúde da população venha a sofrer com a poluição.

A personalidade da pessoa jurídica não inclui a das pessoas físicas, autoras, co-autoras ou partícipes do mesmo fato, na medida em que a empresa, por si mesma, não comete crimes.

Não cabe mais, diante da expressa determinação legal, entrar no mérito da velha polêmica sobre a pertinência da responsabilidade penal das pessoas jurídicas. Melhor será exercitar e buscar os meios mais adequados para a efetiva implementação dos desígnios do legislador, o jurista não pode esperar por um Direito ideal. Ele deve trabalhar com o Direito existente, em busca de soluções melhores.

Referências Bibliográficas

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Aproveitamento Hidrelétrico Peixe: Estudos de Viabilidade. Volume 5 – Avaliação de Impactos. Nº THEMAG 6235-01GL-830-RT-00563.

BENJAMIN, Antonio Herman V. Dano Ambiental Prevenção, Reparação e Repressão. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1993.

CAPOBIANCO, João Paulo Ribeiro. Um tiro na Lei de Crimes Ambientais. In: Revista Ciência Hoje; vol. 24 n. º 143/outubro de 1998, p. 45 a 47.

CARRAMENHA, Roberto. Direito da Natureza. 1a ed., São Paulo: Mantiqueira, 1999.
Constituição Federal (1988). Coordenação Maurício Antonio Ribeiro Lopes. 6º ed. ver. e atual. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2001.

FIORILO, Celso Antonio Pacheco e RODRIGUES, Marcelo Abelha. Manual de Direito Ambiental e Legislação Aplicável. 2a ed., São Paulo: Max Limonad, 1999.

LECEY, Eladio A Proteção do Meio Ambiente e a Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica. in FREITAS, Vladimir Passos de. Direito Ambiental em Evolução. Curitiba: Juruá, 1998.

MACHADO, Paulo Affonso Leme. As 17 Leis Ambientais mais Importantes do País. Artigo de professor da Universidade Estadual Paulista UNESP, campus Rio Clara. Enviada por E-mail.

MUKAI, Toshio. Direito Ambiental Sistematizado. 3a ed., Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1998.

SILVA, José Afonso da. Direito Ambiental Constitucional. 2a ed., São Paulo: Malheiros, 1988

BARREIRAS PARA O ADMINISTRADOR

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UEG / 2010

Vivemos atualmente em um mundo totalmente competitivo. Se não estamos totalmente capacitados, com certeza faltará emprego. Vemos em jornais, revistas e quaisquer outros noticiários que o Brasil vive uma ótima fase para se arrumar emprego, pois em toda história do país nunca houve um índice tão alto de empregados. Porém, ao mesmo tempo estamos vendo que cada dia que passa, aumenta o nível de vagas para pessoas capacitadas, e falta às mesmas no mercado.

Com Administrador não é diferente. O perfil do administrador no terceiro milênio é de um ator que busca o aprendizado contínuo e é capaz de desenvolver o seu grupo de trabalho, na busca de novas formas para administrar uma empresa que se renova através da aprendizagem e se transforma continuamente. Para isso, o Administrador precisa de uma série de qualidades individuais e profissionais para ajudar as organizações a alcançar seus objetivos; qualidades estas que vem sendo cada vez mais valorizadas e cada vez mais procuradas, para se ingressar no mercado de trabalho.

A administração é uma área muito importante da atividade humana, influencia nas indústrias, comércio, organizações, serviços públicos, hospitais, universidades, instituições e em qualquer outra forma de empreendimento humano, e resolve os mais graves problemas que atrapalham o mundo moderno. A administração é o processo de planejar, organizar, dirigir e controlar o uso de recursos a fim de alcançar objetivos.

A humanidade está inserida na era da informação. O grande volume de informações existentes contribui para tornar o conhecimento uma ‘arma’ a disposição das pessoas e das empresas para vencer a competitividade. A comunicação passou a ser valorizada, pois é o meio pelo qual se disseminam as informações, agregando valor aos indivíduos que conseguem transformar essas informações em conhecimentos. Talvez seja esta a dificuldade encontrada por muitos Administradores recém-formados; não conseguem acompanhar a tecnologia que o mercado do trabalho necessita.

A função do administrador é ampla e variada, o administrador é o responsável pela direção de outras pessoas que seguem suas ordens e orientação e talvez por isso para se ingressar no mercado de trabalho seja algo tão delicado. Cada época desenvolve uma forma organizacional apropriada a suas características. Com isso novas formas e modelos de organização serão necessários, bem como uma nova mentalidade dos administradores, cabendo assim a nós, futuros administradores, acompanhar todo avanço do mundo atual para que quando chegar a nossa vez, possamos estar preparados para ingressar de vez no mundo dos negócios.

RESENHA DO LIVRO: DESENVOLVIMENTO DE EQUIPES

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FGV / 2011

Resenha do Livro: REIS, A. M. V.; TONET, H.; BECKER, L. C. J; COSTA, M. E. B. Desenvolvimento de Equipes. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005. 156p. (Gestão de Pessoas)

Trata-se de um livro em que os autores pretendem transmitir interesse e conhecimento sobre o tema “trabalho em equipe”, visto que, no âmbito das organizações, as pessoas são os principais agentes de mudança, a principal fonte de criação, retenção, utilização e compartilhamento do conhecimento existente na organização. Pois, em um contexto histórico atual que se tem caracterizado por intensas e velozes mudanças, em que as fronteiras econômicas se expandem e a competição se intensifica pela globalização, em que as tecnologias propiciam aceleração alucinante à informação, percebe-se que a única chance de sucesso das organizações está na utilização harmoniosa e conjunta de seus “saberes”, aplicados aos seus processos corporativos e empresariais.

O primeiro capítulo, que aborda o tema Histórico do Movimento das Equipes, os autores ressaltam que desde que nascemos, fazemos parte de um grupo, grupos pequenos como a família, os quais consideraram a primeira experiência, e outros grandes como: escolas, instituições e organizações. Abordam que nos dias atuais, o sucesso das organizações depende não mais do destaque individual de um dos membros, mas do desenvolvimento de habilidades e competências da equipe. Em uma equipe de trabalho, a proximidade física simplesmente não é o bastante, é preciso que haja pessoas com interesse comum em interação. É possível identificar suas características quando os participantes do grupo se reúnem por uma razão comum, desenvolvendo papéis simpatias, apatias, antipatias, normas e valores. Alem disso também para elaborar componentes normativos para regular a ação um dos outros e formar assim uma estrutura organizacional. Se tratando de fases ou estágios de um grupo, os autores apresentam o ciclo de processo grupal e as características das fases mencionando o primeiro contato como fase inicial, o aprofundamento das relações como fase intermediária, o estabelecimento de vínculos e confiança como a fase de plenitude e, por último, a finalização como a fase de fechamento do grupo. Sobre esse assunto, Minicucci (2003), apresenta as fases de um grupo como composta de tais estágios: a formação, onde há incertezas sobre propósito, estrutura e liderança, sendo como uma fase de teste, que se completa quando os membros vêem-se como parte do grupo. A tempestade é o segundo estágio, onde o grupo é aceito, mas sua restrição no indivíduo é resistida, até o final desta fase, quando haverá uma hierarquia formada. No estágio normatização, nasce o sentimento de camaradagem no grupo, e essas relações culminam num conjunto de expectativas comuns definindo o comportamento ideal de membro. O desempenho é o quarto estágio e, em grupos permanentes, o último. No caso de grupos temporários há um quinto estágio, a suspensão, que é uma preparação para a separação do grupo, onde os membros respondem de maneiras muito diferentes.

No segundo capítulo, Características dos Integrantes das Equipes, os autores apresentam uma análise da história do Homem em sua luta pela participação no trabalho, e sua integração em grupos e equipes. Ressaltam que desde o surgimento do modelo capitalista e a conseqüente Revolução Industrial, o homem foi despojado do seu poder e influência sobre o trabalho que executava, causando uma das maiores doenças do mundo moderno; a alienação. Esta alienação e o descompromisso com o que é produzido trazem como conseqüência baixo moral aos trabalhadores. Com o passar do tempo, vários movimentos buscaram resgatar a satisfação pelo trabalho, apesar das contradições envolvidas no sistema capitalista. Nas sucessivas tentativas de reverter este quadro, buscaram-se elementos que propiciaram o surgimento dos primeiros grupos de trabalho. Respondendo à questão sobre Modelos Gerencias na Era Industrial e na Era Pós-Capitalista (Era do Conhecimento), segundo os autores desse livro e outras obras pesquisadas, foi percebido que na
Era Industrial formou-se o proletariado, a grande massa de trabalhadores assalariados que passou a viver em condição de extrema miséria. Os operários, proletários ou trabalhadores assalariados possuíam apenas sua força de trabalho e a vendiam aos empresários para produzir mercadorias em troca de salários. No início da revolução os empresários impuseram duras condições de trabalho aos operários sem aumentar os salários para assim aumentar a produção e garantir uma margem de lucro crescente. A disciplina era rigorosa, mas as condições de trabalho nem sempre ofereciam segurança. Em algumas fábricas a jornada ultrapassava 15 horas, os descansos e férias não eram cumpridos e mulheres e crianças não tinham tratamento diferenciado. Assim, as empresas adotaram a estrutura organizacional burocrática, com ênfase na departamentalização funcional, a centralização das decisões no topo da hierarquia e o estabelecimento de regras e regulamentos internos para disciplinar e padronizar o comportamento das pessoas. O homem era
considerado um apêndice da máquina e deveria tal como ela ser padronizado na medida do possível. A abundância de níveis hierárquicos tratava de isolar o trabalhador e repassar apenas as informações essenciais para o desempenho da tarefa em questão. Todo trabalho era projetado individualmente e não previa a interação entre as pessoas. Enquanto a Era do Conhecimento, pode ser caracterizada pela velocidade das informações e pela busca incessante por novos nichos de mercado. Empresas e trabalhadores procuram adquirir e disseminar conhecimentos e utilizam as informações como uma ferramenta na busca de novas formas para otimizarem o desempenho organizacional e o próprio desempenho pessoal. Buscando a utilização de modelos gerenciais capazes de se adaptarem às mudanças e transformar os trabalhadores em parceiros cada vez mais qualificados, utilizando a inovação e a criatividade como aliadas na busca de novas fórmulas para garantir o sucesso da empresa. Essas mudanças fazem parte de um processo que procura tornar as organizações competitivas através das pessoas. Essa competitividade só será possível se houver participação de todos da organização, numa relação de confiança e de respeito mútuo. As pessoas deixam de serem simples recursos (humanos) organizacionais para serem abordadas como seres dotados de inteligência, personalidade, conhecimentos, habilidades, competências, aspirações e percepções singulares. São os novos parceiros da organização, que tomam decisões a respeito de suas atividades, cumprem metas e alcançam resultados previamente negociados e que servem o cliente no sentido de satisfazer suas necessidades e expectativas. Assim, o perfil do administrador na Era da Informação e do Conhecimento será definido como um conjunto de qualidades ou atributos, relacionados com conhecimentos, habilidades, valores e atitudes. Contudo, outro dado relevante que tratado neste capítulo seria as competências indispensáveis para o trabalho em equipe, nas quais seriam: fraternidade, humildade, confiança, responsabilidade, lealdade, respeito e o amor, mantendo a equipe unida, satisfeita e, disposta a encarar novos desafios.

O terceiro capítulo, Formação e Desenvolvimento de Equipe de Trabalho, através da breve apresentação da distinção dos grupos de equipes, entende-se que grupos interagem basicamente para compartilhar informações e tomar decisões a fim de ajudar cada um, de forma a desempenhar suas responsabilidades individuais, para atingir um objetivo, enquanto a Equipe demanda colaboração com o significado que tenho explicitado e supõe, além da interdependência, responsabilidade e comprometimento, resultados de ação coletiva e conjunta conseguidos com coesão, cooperação, consenso, disciplina e empenho, desenvolvendo a sinergia. Formar equipes é preciso educar continuamente as pessoas na metodologia de construção e fortalecimento de equipe, desenvolvendo principalmente a competência interpessoal, pois durante muito tempo as pessoas foram educadas para o individualismo e a competição, e para trabalhar em conjunto têm que cooperar, compartilhar, respeitar as individualidades e fortalecer relações com os colegas, que muitas vezes não compactuam com suas crenças e valores. O trabalho em equipe é uma atividade de doação e compromisso com o outro, é o sentimento de querer contribuir e colaborar para o sucesso individual e grupal, por isso precisa ser visto como um processo de desenvolvimento pessoal e profissional. As equipes sofrem influencias por variáveis estruturais e organizacionais, e essas, mantém relação direta com o tempo (temporária e permanente) e titularidade das equipes (funcionais e interfuncionais). O que diferencia a Equipe de alto desempenho das demais é sua eficácia conquistada através de características como: defender idéias sem radicalismo, habilidade de escutar, liderança situacional, energias e habilidades para o objetivo, discussões abertas, processos e resultados revistos, confiança elevada, decisão por consenso, conflitos analisados e resolvidos, feedback dado e solicitado, busca do autodesenvolvimento, entre outras que envolvam atributos como participação, responsabilidade, clareza, interação, flexibilidade, focalização, criatividade e rapidez. Sobre a questão levantada a respeito das estratégias e ferramentas para a formação e desenvolvimento de equipes, neste capítulo os autores provocam uma reflexão a respeito, no qual foi entendido que o trabalho em equipe é mais do que uma ferramenta de trabalho. É um recurso primordial para a produtividade, e, para tal, é necessário que a equipe desenvolva atividades para uma determinada missão, projeto ou qualquer desafio dentro da organização. Em relação aos objetivos e missão da organização, existem alguns requisitos básicos para que a equipe seja eficaz: missão (definição vocacional) e resultados a serem alcançados (definição instrumental); a vocação para desenvolver determinadas tarefas será completada com a operacionalização e a utilização correta dos instrumentos de trabalho. Respondendo à questão levantada, as principais estratégias e ferramentas que podem contribuir para a formação e desenvolvimento de equipes podem ser aplicadas no cotidiano, por gerentes ou líderes, sendo elas: Empowerment, Coaching e o Portfólio de desempenho. Comentando sobre elas, o Empowerment – ou “empoderamento” das pessoas – aumenta o controle, incrementa a auto-estima e impulsiona a qualidade dentro da organização. Seu objetivo é transmitir responsabilidade e recursos para todas as pessoas, a fim de obter sua energia criativa e intelectual, de modo que possam mostrar a verdadeira liderança dentro de próprias esferas individuais de competência e também, ao mesmo tempo, ajudar a enfrentar os desafios globais de toda a organização. Com isso, busca a energia, esforço e dedicação de todos e procura tirar do gerente ou líder o antigo monopólio do poder, informações e desenvolvimento; dando poder e autonomia aos funcionários (membros da equipe) para aproveitar ao máximo o seu talento coletivo. O Coaching tem como papel estimular o desenvolvimento das pessoas, ajudando-as a utilizar todos os seus talentos e a superarem suas dificuldades. Sendo assim, ajuda a pessoa gerenciar o seu próprio desempenho, isto é, a contratar metas viáveis, a manter uma autocrítica realista, a utilizar bem o feedback que recebe, a redirecionar as ações diante de imprevistos e a avaliar a sua contribuição para a equipe e para a organização ou comunidade. O perfil do coaching possui as qualidades mais importantes que integram a competência interpessoal: intuição, escutar as pessoas ativamente e demonstrar respeito por suas opiniões e posições, disposição para expor-se (principalmente os fracassos) e compromisso com o crescimento humano em todos os níveis. Além disso, capacidade de análise de problemas, espírito crítico, alto compromisso com os acordos sustentam sua credibilidade. Pode ocorrer em quaisquer situações onde há oportunidades de: aperfeiçoamento de desempenho, aumento de eficácia de liderança ou desenvolvimento profissional, sempre que for possível esperar um impacto positivo no indivíduo assim como na organização e nos resultados desejados. Finalizando o comentário, o Portfólio de Desempenho, tem como objetivo fornecer oportunidades de crescimento e condições de efetiva participação a todos os membros da organização, tendo em vista, de um lado, os objetivos organizacionais e, de outro, os objetivos individuais; diagnosticar e analisar o desempenho individual e grupal dos funcionários, promovendo o crescimento pessoal e profissional, bem como um melhor desempenho. Envolvendo aspectos das competências: pessoal, tecnológica, metodológica e social. Os integrantes da equipe serão beneficiados com uma orientação mais segura de seu superior imediato em relação ao seu desenvolvimento profissional. Isso acontecerá no dia-a-dia, naturalmente, sem necessidade de feedback formal programado. O gestor (diretor, gerente, supervisor) conseguirá ver com mais clareza os pontos que necessitam de sua atenção em relação ao seu estilo e forma de “gerenciar pessoas”; tendo uma visão de planejamento de longo prazo das necessidades de sua área em termos de competências e potencial humano. Terá também um discernimento melhor para decisões relacionadas com aumentos de salário por mérito, relatividades salariais, promoções, treinamento e desenvolvimento, contratações e outros assuntos relacionados com gestão de pessoas. Portanto, ressalto que na atual realidade em que estamos inseridos é preciso que tenhamos nosso papel e a empresa também tenha o seu, ou seja, cabe às pessoas a gestão de seu desenvolvimento, de sua competitividade profissional e de sua carreira; as pessoas estão adquirindo consciência de seu papel e passam a cobrar de si mesmas a gestão de sua carreira, e da empresa as condições objetivas de desenvolvimento profissional. Além de, as empresas criarem o espaço, estimular o desenvolvimento e oferecer o suporte e as condições para uma relação de alavancagem mútua das expectativas e necessidades. A empresa não conseguirá fazê-lo sem estar em contínua interação com as pessoas e, ao fazê-lo, conseguirá alavancar sua competitividade por meio de pessoas. Competitividade que está suportada por um aprendizado da organização que dificilmente é passível de reprodução imediata pela concorrência, garantindo à organização um diferencial por longo período, longo o suficiente para se colocar mais à frente ainda.

O tema tratado pelos autores no quarto capítulo seria Dinâmica da Comunicação em Equipes, aborda a importância da comunicação dentro da equipe, devendo fluir de forma natural e sem barreiras. As diferenças entre os membros devem ser trabalhadas de forma a se extrair sinergia desta relação. Administrar diferenças e tirar proveito de opiniões divergentes. Em diversos casos, a grande falha de comunicação, acontece por fatores de: postura e linguagem utilizada. Devemos compreender que nossos métodos coloquiais (como lidar e se dirigir ao outro / transmitir uma informação) devem necessariamente, passar por “manutenção”, considerando a necessidade de direcionamento de informações. Procurar desenvolver a comunicação assertiva, falar e ouvir, possuir abertura para feedback, planejamento, maneiras de expressão, compreensão, buscando evitar as várias barreiras da comunicação que são: filtragem, percepção seletiva, sobrecarga de informação, defesa, medo da comunicação, dentre outras mais. A comunicação é uma habilidade, à medida que personalizam os processos internos, conduzindo a qualificação e a eficácia como postura facilitadora no diálogo organizacional, bem como nos enfoques estratégicos que despertam interfaces diversas que alinham indiscutivelmente o discurso à ação.

No quinto capítulo, titulado por A Cultura Organizacional, os autores apresentaram um estudo sobre aspectos da cultura organizacional que causam impacto na formação de equipes e de elaboração de um plano de ação. O que foi entendido neste é que a cultura representa as normas informais e não-escritas que orientam o comportamento dos membros de uma organização no dia-a-dia em que direciona suas ações para o alcance dos objetivos organizacionais. A cultura organizacional é apresentada em diferentes níveis, sendo estes: artefatos, valores compartilhados e pressuposições básicas. Ela pode ser forte ou fraca, adaptativa ou conservadora. No fundo, há uma dupla necessidade de estabilidade e de adaptabilidade. Nesse caso, o importante é adotar um modelo de equipe compatível com a cultura preexistente, contando com organizações onde a comunicação é mais aberta, onde as pessoas estão acostumadas a cooperar umas com as outras, um modelo centrado em competências técnicas; quando não existir essa possibilidade pode-se criar clima de confiança na organização toda, desenvolvendo transparência nas atitudes, estímulo à participação, aceitação das idéias e sugestões para desenvolver confiança entre as pessoas que trabalham na mesma organização. Se tratando de procedimentos para a formação e desenvolvimento de equipes é conhecido três fontes distintas: consultoria organizacional externa, desempenhando papel de facilitador na identificação de conflitos latentes e dificuldades não perceptíveis, propondo soluções compatíveis com necessidades e objetivos da organização, e com as expectativas e características dos integrantes da equipe; programas pré-moldados, desenvolvendo treinamentos de habilidades e atitudes pertinentes ao trabalho em equipe; própria chefia ou gerência, através de estratégias de orientação com participação existente, cooperação e empenho em construir o trabalho em equipe. Na sugestão de desenvolvimento de equipes com objetivos de solucionar problemas na organização, quanto aos indicadores internos encontram-se: baixa produtividade, perda de qualidade, clima tenso, clima apático, falta de iniciativa, falta de decisões; e nos indicadores externos: acirramento da competição, novos concorrentes, queixas e reclamações, complexidade dos insumos e tecnologias, crescimento e expansão, ingresso em novos mercados, alianças e parcerias, aquisição de outras empresas.

Os autores concluem a obra relatando as variáveis que interferem no desenvolvimento de equipes, sendo necessário e imprescindível desenvolver nossa sensibilidade, estando sempre alertas aos resultados buscados pela ciência na interpretação do comportamento humano.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Vive-se na Era do Conhecimento e tê-lo nessa realidade, significa maior liberdade. O diferencial ainda é o humano e “talentos” nem sempre estão disponíveis no mercado, portanto devem ser “preservados” e também “conquistados”. Daí decorre a necessidade de Políticas de Gestão de Pessoas que reflitam a necessidade e satisfação das pessoas que integram ou que virão integrar as Organizações. Hoje, com a internacionalização da economia e a exigência de melhores níveis de qualidade e produtividade, a atenção se voltou para o processo global de produção, daí surgiu à necessidade de preparar equipes para essa nova realidade. Desenvolvimento de Equipes é como um momento (inacabado, constante), mas reforço a importância de entendê-lo como o espaço (local) sistemático de aprendizagem. Dessa forma, a definição tende a extrapolar o objetivo do termo na lógica produtivista, ainda que traga como conseqüência a tal produtividade. A qualidade das relações, as descobertas, as mudanças de significados e obtenção de novas respostas (criatividade), tendem a adquirir um caráter muito maior que o atingir a produtividade, se todo aquele que trabalhar com equipes tiver claro que está interferindo politicamente neste desenvolvimento, ou seja, que poderá estar trabalhando no sentido de promover trocas de valor ou desconsiderá-las. Partindo dessa concepção, pensar-se-á o desenvolvimento de equipes no contexto organizacional, como um espaço/momento de aprendizagem, mas não esquecendo que ele é também uma das estratégias de enfrentamento das novas demandas. Mas até que ponto essas estratégias contribuem para a promoção integral do indivíduo, promoção entendida não somente como evolução profissional de status ou financeira, mas também em nível pessoal, através dos novos conhecimentos obtidos, traduzidos pela possibilidade de uso que se pode fazer destes.

COMPORTAMENTO HUMANO

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COMPORTAMENTO HUMANO

E começaremos recordando que o peso das adaptações filogenéticas no desenvolvimento da conduta moral do ser humano parece estar fora de qualquer discussão em toda teoria social normativa com traços de seriedade, coerência e consistência. A evolução da conduta moral não é apenas o resultado da adaptação ao meio ambiente material, tal como pressupôs Engels em ensaio publicado em 1876. Também implicou a seleção de atributos que determinaram o sucesso nas interações entre os membros da mesma espécie.

Em termos mais gerais, nossa capacidade ética e nosso comportamento moral (e jurídico-normativo) devem ser contemplados como um atributo do cérebro humano e, portanto, como um produto mais da evolução biológica e que está determinado pela presença (no ser humano) de três faculdades que são necessárias e, em conjunto, suficientes para que dita capacidade ou comportamento se produza: a de antecipar as conseqüências das ações; a de fazer juízos de valor e; a de eleger entre linhas de ações alternativas.

O desenvolvimento neurocognitivo do ser humano favoreceu o aparecimento de tais faculdades e, a partir delas, surgiu inevitavelmente à moralidade. Na advertência de Changeux, o cérebro é evidentemente a “base” da linguagem e da moral. E o ser humano é o único meio através do qual os valores chegam ao mundo. De fato, se se borrasse o conjunto de cérebros humanos da face da terra, a moral e o direito desapareceriam ao mesmo tempo. As normas e teorias jurídicas seguiriam plasmadas em livros guardados em estantes de bibliotecas abandonadas. Todas estas obras do gênio humano não teriam já a oportunidade de viver cada vez que uma mirada humana recai sobre elas. A moral e o direito não existem mais que no cérebro do homem ao que vai dirigido e que somente ele é capaz de produzir e compreender. Somente os cidadãos individuais têm direito ou sentido de justiça e bondade, e as têm precisamente em seu cérebro, na forma de representações plasmadas em suas conexões neuronais. O resto é mitologia.

De fato, toda nossa conduta, nossa cultura e nossa vida social, tudo quanto fazemos, pensamos e sentimos, depende de nosso cérebro. O cérebro é a sede de nossas idéias e emoções, de nossos temores e esperanças, do prazer e do sofrimento, da linguagem, da moral, do direito e da personalidade. Se em algum órgão se manifesta a natureza humana em todo o seu esplendor, é sem dúvida em nosso volumoso cérebro (Mosterín). Daí que Gazzaniga defenda a idéia de que poderia existir um conjunto universal de respostas biológicas aos dilemas morais, uma sorte de ética integrada no cérebro.

Assim que nosso comportamento, nossas sociedades, nossa cultura e nossas normas de conduta (éticas ou jurídicas) parecem ser a respostas que elaboramos, com os mecanismos psicológicos evolucionados de que dispomos, para solucionar os problemas relativos às exigências e contingências de uma existência essencialmente grupal. E isto se dá graças a uma arquitetura cerebral que confirma a longínqua idéia de Konrad Lorenz, a saber: a existência de um imperativo biológico capaz de combinar respostas instintivas e códigos morais.

Nesse sentido, as transformações evolutivas do último período do gênero Homo modelaram a conduta moral primitiva e se serviram dela para a aparição de grupos cuja sobrevivência dependia sobremaneira da relação mútua entre o grau muito elevado de altruísmo/cooperação e a emergência de uma inigualável capacidade preditiva da conduta humana. E os subprodutos de tais estratégias (sócio-) adaptativas (nelas incluídas, por certo, o direito), baseadas na complexidade cognitiva e lingüística do ser humano, são o resultado da enorme riqueza de nossa insólita e complicada “inteligência social”.

Ora, se damos por boa à afirmação anterior, chegamos a uma cadeia causal que justifica parte do processo de surgimento da moral e do direito. Tem que ver com a circunstância da evolução filogenética, fixada já em nossos antecessores do gênero Homo, de uns cérebros o bastante grandes e complexos como para sustentar a arquitetura cognitiva que nos permite realizar juízos avaliativos a respeito do comportamento humano.

Mas a obtenção induvidável durante a filogênese humana de uns cérebros maiores e complexos levanta desde logo um enigma. Dado que o tecido neuronal é o mais “custoso” em termos de necessidades biológicas e energéticas (Aiello & Wheeler), não se pode pensar que se conseguira de forma acidental. Devem existir benefícios importantes derivados da disposição de maiores cérebros. Mas, quais são estes benefícios? Em que consistem?

A resposta pode intentar buscar-se mediante a comparação das condutas filogeneticamente fixadas. Outras espécies de certa complexidade social resolvem suas necessidades adaptativas por outras vias. Durante a evolução dos seres vivos em nosso planeta apareceram ao menos quatro vezes os comportamentos altruístas extremos nas chamadas “espécies eusociales”: os himenópteros (formigas, vespas, abelhas, térmitas), os camarões parasitários das anêmonas dos mares coralinos (Synalpheus regalis, Duffy), as ratas-topo peladas (Heterocephalus glaber, O`Riain, Jarvis, & Faulkes) e os primatas (com os humanos como melhor exemplo). Pois bem, nem os insetos sociais, nem as ratas-topo e nem os camarões parasitários dispõem de uma linguagem como a nossa.

Seus meios de comunicação podem ser muito complexos. As abelhas, por exemplo, efetuam um exercício de dança específico para transmitir informações sobre a localização e qualidade dos alimentos. Inclusive os animais da espécie mais próxima à humana, os chimpanzés, dispõem de uma variada gama de gestos, gritos e outras condutas para manifestar ou dissimular o medo e a agressividade, da mesma maneira com que manifestam certo sentido de justiça, mostram desejos de congraçar-se e mantêm relações sexuais complexas (de Waal). Mas jamais fazem uso de uma linguagem de dupla articulação com estrutura sintática.

A linguagem, pois, pode ser considerada como a chave para rastrear benefícios adaptativos capazes de supor uma pressão adaptativa no sentido dos grandes cérebros dos seres humanos.

A capacidade lingüística própria de nossa espécie, que é a ferramenta mais importante para a transmissão da cultura, aporta-nos certas vantagens claras na estratégia de sobrevivência social que os sistemas de comunicação mais simples não poderiam sustentar. Sem embargo, seguimos sem conhecer por que a vantagem adaptativa é tão grande como para chegar ao ponto de permitir-nos conhecer “quem fez o que a quem”. Podemos predizer em termos de conduta bem definidas as conseqüências das ações de nossos congêneres mas, por outro lado, não somos capazes de acudir a uma definição mais precisa de justiça ou de delimitar em que aspecto, por exemplo, a teoria do direito natural é preferível a de um positivismo mais sossegado.

Para intentar entender e superar a obscuridade tradicional das discussões teóricas na análise da moral e do direito quiçá a perspectiva mais fecunda seja a funcional, quer dizer, aquela que não parte de uma suposta (e por vezes reducionista e/ou eclética) perspectiva axiológica, sociológica ou estrutural dos mesmos, senão que intenta dilucidar para que servem a moral e o direito no âmbito da (evolucionada) existência humana. O ponto de partida funcional não obriga a recorrer ao expediente retórico (relativista ou tradicional) de condicionar o conhecimento moral ou jurídico aos limites obscuros da revelação de umas teorias que transcendem a compreensão e a própria experiência humana.

Não é necessário propor a existência de verdades morais ou jurídicas independentes que nossa inteligência não é capaz de processar e entender, nem há que dar por inabordáveis as razões que justificam a existência da moral e do direito como um dos aspectos essenciais da vida em grupo. Com efeito, as discussões funcionais sobre a existência da moral e do direito contribuem para dissolver (ou pelo menos para amenizar) a bruma piedosa de limites indeterminados gerada pelas teorias habituais, uma vez que há uma grande diferença entre estudar o que um mecanismo pode fazer e estudar o que está desenhado para fazer. Saber para que foi desenhado um determinado artefato cultural – qual é sua função – tem um enorme valor heurístico porque sugere os traços que deve conter. Permite-nos também inferir os tipos de problemas que um artefato deve poder resolver à perfeição assim como possibilita desenvolver tarefas que especifique que características funcionais devem ter um artefato para poder resolver determinados problemas. Muitos filósofos e juristas estudam a moral e o direito sem perguntar-se com que propósitos foram desenhados. Preferem mais bem descobrir suas estruturas estudando as coisas que são capazes de fazer. Sem embargo, na investigação acerca da singularidade da moral e do direito, o pensamento funcional é simplesmente iniludível; não podemos enumerar suas possibilidades sem pressupor um conceito de função.

Afinal, a moral e o direito estão entre os fenômenos culturais mais poderosos já criados pela humanidade, e precisamos entendê-los melhor se quisermos tomar decisões políticas bem informadas e justas. Embora haja riscos e desconfortos envolvidos, nesse tema, devemos tomar fôlego e deixar de lado nossa relutância tradicional de investigar cientificamente os fenômenos éticos e jurídicos, de modo a compreender como e por que a moral e o direito inspiram tal devoção, e descobrir como deveríamos aperfeiçoa-los a partir do estabelecimento de elos com a natureza humana.

E uma vez redimensionado e situado este tipo de análise sobre a moral e o direito a uma dimensão propriamente evolucionista e funcional, é possível conjeturar – no que aqui nos interessa de forma prioritária – que se ambos foram criados pelo homem, para os propósitos do homem, então todos os propósitos que porventura possamos encontrar e extrair deles devem ser devidos, em última instância, aos propósitos do homem. Mas, “quais são estes propósitos?”, é algo assim como um mistério.

Sem embargo, e porque os humanos são sempre um problema tão sensível, parece razoável partir da hipótese (empiricamente rica) de que a resposta se encontre nas teorias que relacionam o tamanho do cérebro com a inteligência social, isto é, de que a moral e o direito aparecem e se justificam pela necessidade de competir com êxito em uma vida social extremamente complexa. Ao enfrentarem-se nossos ancestrais hominídeos com problemas adaptativos associados aos múltiplos e incessantes relacionamentos derivados de uma vida substancialmente grupal, apareceram às pressões seletivas em favor de órgãos de processamento cognitivo capazes de manejar o universo de normas e valores.

Trata-se, insistimos, de uma hipótese. Mas é ao menos a mesma que justifica o tipo de comportamento social e as capacidades cognitivas de outros primatas (Humphrey). Apareceria assim à otimização funcional e adaptativa do mecanismo de interação de certas formas elementares de sociabilidade e valores que parecem estar arraigados na estrutura de nossa arquitetura mental.

Nesse sentido, uma explicação darwinista sobre a evolução da ética e do direito supõe que as normas de conduta representaram uma vantagem seletiva ou adaptativa para uma espécie essencialmente social como a nossa que, de outro modo, não haveria podido prosperar. Tais normas plasmaram a necessidade da possessão de um mecanismo operativo que permitisse habilitar publicamente nossa capacidade inata de inferir os estados mentais e de predizer (e controlar) o comportamento dos indivíduos.

De tal maneira se ampliaria o conhecimento social entre os membros do grupo e se desenvolveria nossa também inata capacidade para cooperar e resolver conflitos sociais sem necessidade de recorrer às formas de hierarquização e organização social típicas de numerosas espécies animais como é a agressividade. Um tal mecanismo normativo supõe a possibilidade de oferecer soluções a problemas adaptativos práticos, delimitando (mais do que compondo conflitos) por uma via não conflitiva os campos em que os interesses individuais, sempre a partir das reações do outro, possam ser válida e socialmente exercidos (Ricouer).

E entendido assim, parece razoável admitir que a evolução humana desenvolveu no homem a capacidade de estruturar valores morais e determinadas formas elementares de sociabilidade por meio das quais constrói estilos aprovados de interação e de estrutura social. Neste particular, o avanço das ciências cognitivas tem ajudado a compreender melhor o funcionamento do cérebro, os correlatos cerebrais que intervêm no processo cognitivo de formular juízos morais acerca do justo ou injusto e a forma em que se ativam as neuronas, como as denominadas neuronas espelhos, que são as responsáveis do mecanismo de mimetização do que sucede no entorno por meio do processo de aprendizado. Tudo isso nos adverte da plasticidade e da modificabilidade do cérebro, assim como da não-determinação do comportamento e as normas éticas, da íntima dependência que existe entre estas, o cérebro e o entorno social.

Esta plasticidade do cérebro permite que cada experiência seja adaptada pelo sistema nervoso e que este mude ou se adapte segundo as circunstâncias, quer dizer, que o cérebro humano tem uma grande capacidade, através das ativações neuronais, para o aprendizado e a evolução. Mas este aprendizado dependerá da natureza e o contexto social, que são dois fatores essenciais na elaboração da conduta. Na sociedade atual, onde o respeito a muitos dos valores dos direitos humanos se encontram em crise, este contexto joga um papel fundamental. A educação é uma maneira de ensinar-nos a pensar. A genética é uma parte do cérebro, mas não podemos olvidar que há outra parte muito importante que é o entorno.

Daí porque Dennet faz referência a que os indivíduos aprendem muito por imitação de modelos e ressalta que «não são os genes os que dão o aprendizado, senão esta imitação de modelos com a interação do entorno». O ser humano aprende de diversas maneiras e as mais fundamentais são, como lembra Dennet, a experiência e a imitação de modelos. A experiência é um background que se absorve consciente ou inconscientemente, mas é importante destacar que a distinção entre umas e outras não radica no cérebro senão no tipo de atividades que realiza o indivíduo e as percepções que este recebe de ditas atividades. O aprendizado dependerá então da própria experiência pessoal do indivíduo e de sua relação com o entorno familiar e social.

Assim, o ensino, os processos de educação explícitos e implícitos, formais e informais, resultam indispensáveis para assimilar o cooperativismo no indivíduo porque permite a interação entre o entorno e o cérebro. O cérebro serve às crianças para aprender, mas não é o cérebro a chave para este processo altruísta, senão o que se lhe ensina os valores que se lhe transmitem, os modelos que imita dentro do contexto social onde se formará.

O importante neste processo é que o ser humano seja consciente desta forma de aprendizado, pois isso lhe permitirá apreciar as questões que lhe são diferentes como algo que não aprendeu, ainda que isto não significará que deva rechaçá-lo. Quer dizer, que deve partir de uma certeza com perspectiva já que uma certeza sem perspectiva, sem um posicionamento consciente que lhe permita entender e aprender que suas certezas não são as únicas nem as superiores, pode levar o indivíduo a um individualismo injustificável e a pensamentos intolerantes. Esta perspectiva e o respeito farão possível que, no ato de conhecer ao Outro, o indivíduo se conheça a si mesmo e seja consciente da fragilidade da condição humana.

Para assimilar este processo de aprendizado de normas cooperativas ou altruístas, os seres humanos contam com uma ferramenta indispensável produto da própria evolução do cérebro e que o diferencia do resto dos seres vivos do planeta: a linguagem. Sem linguagem, já dissemos antes, não pode haver cultura. É o que nos diferencia dos animais e que foi criada a partir da evolução do homem e seu cérebro. A linguagem não é somente um meio de comunicação senão uma maneira de arrumar o mundo (Derek Bickerton). A linguagem é ao mesmo tempo uma ferramenta para o aprendizado e um aprendizado em si mesmo. Um conteúdo e um formador de conhecimentos e normas. Aportações fundamentais das disciplinas humanísticas e naturais ao longo de todo o século XX se dão à mão nestas afirmações e o urgente que é converter estes consensos em planos de ação: entender e fazer da palavra, da linguagem, do diálogo, a chave para a convivência pacífica da Humanidade.

Sem embargo, o problema ao que se enfrenta o indivíduo é que na sociedade atual existe uma desorientação psicológica-ética já que não sabe armonizar as normas sociais com os traços característicos da natureza humana. Valores que imperam na sociedade atual como o consumismo, o egoísmo ou a intolerância produzem uma dissociação entre a mente, a ética e o direito. A ciência é a ferramenta que pode levar-nos a entender melhor o fato de que o desenho de um modelo normativo (moral ou ético-jurídico) adequado pode considerar-se, antes de tudo, como a arqueologia de uma ponte entre natureza e cultura, em forma de uma explicação científica da mente, do cérebro e da natureza humana, isto é, em forma de uma explicação de como são os seres humanos, considerados sob uma ótica muito mais empírica e respeitosa com os métodos científicos.

Assim que o grande reto da sociedade é, a partir destes conhecimentos científicos, encontrar a maneira que os indivíduos aprendam a comportar-se de forma altruísta ante uma sociedade que tende cada vez mais ao egoísmo. Cientistas, psicólogos e filósofos já concluíram que não há uma distinção clara entre cérebro e sentimentos morais. Mas sim que o aprendizado através de modelos (quer dizer, a educação) – e isto inclui a todos os setores de uma sociedade – poderá ajudar a construir um ser humano altruísta, assim como uma sociedade mundial que viva mais longe do conflito.

Dito de outro modo, porque nosso cérebro está desenhado pela seleção natural para termos tanto instintos sinistros como instintos luminosos (os seres humanos têm alguns instintos que fomentam a virtude e o bem comum e outros que favorecem o comportamento egoísta e anti-social) precisamos planejar uma sociedade que estimule aqueles e desencoraje estes (Ridley); ou, na aguda observação de Sandel: na presença de indivíduos dotados de certas qualidades de caráter, de certas disposições morais que os levam a identificar com a sorte dos demais e, em definitiva, com os destinos de sua comunidade, o melhor será deixar de lado a idéia liberal do Estado neutral, para substituí-la por um Estado ativo em matéria moral, e decidido a “cultivar a virtude” entre seus cidadãos.

Assim, pois, o objetivo de uma boa educação e o objetivo de uma sociedade próspera, deveriam ser o de fomentar a virtude de cultivar o melhor da natureza humana e, do mesmo modo, reprimir o pior. Compreender a natureza humana, sua limitada racionalidade, suas emoções e seus sentimentos parece ser o melhor caminho para que se possa formular um desenho institucional e normativo que, evitando ou reduzindo o sofrimento humano, permita a cada um conviver ( a viver com o outro) na busca de uma humanidade comum: o modo como se cultivem os traços de nossa natureza e a forma como se ajustem à realidade configuram naturalmente o grande segredo da cultura , da civilização , da nossa condição de cidadão e de nossa própria educação.