COMO O PROF. FULANO AVALIA SICRANOS E BELTRANOS DA ESCOLA

0

COMO O PROFESSOR FULANO AVALIA SICRANOS E BELTRANOS DA ESCOLA

Vicente Martins

Chega às minhas mãos, em branco, preto e azul, o envelope das avaliações bimestrais da minha filha, de 12 anos, cursando o 7º ano do ensino fundamental, em um estabelecimento da rede privada de ensino. Como as escolas públicas e privadas vêm corrigindo as provas escolares e avaliando seus alunos? As escolas cumprem à risca as orientações da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional no tocante à verificação de rendimento escolar dos alunos? No presente artigo, tentaremos responder a estas duas questões, a partir de um fato pedagógico real, envolvendo minha filha e seu professor de Matemática.

Nas recomendações gerais, contidas na capa do envelope, enviada pela escola aos pais dos alunos, duas informações me chamam a atenção: a primeira diz que “ A avaliação da escola tem como objetivo diagnosticar a situação de ensino aprendizagem dos alunos, para estabelecer objetivos que nortearão o planejamento da ação pedagógica” e a outra informação parece-me dirigida aos pais e aos próprios alunos: “ No verso deste Envelope de Avaliações existe também um espaço reservado ao registro de toda e qualquer reclamação ou sugestão sobre as questões das avaliações. Ao fazê-lo – recomenda a escola – escreva numa linguagem clara e coerente, e com letra bem legível”. No verso do envelope, lembra ainda: “Registre neste espaço suas reclamações somente sobre as questões das provas que devem ser recorrigidas pelos professores” Parece-me tentador, como pai e educador, registrar toda e qualquer reclamação e até fazer sugestão à escola e poder, assim, colaborar, de alguma forma, para o “planejamento da ação pedagógica” da escola da minha filha. No entanto, como a escola não me diz para ir direto ao assunto, e sim, apenas ser claro e coerente, recorro, de logo, à entrevista do apresentador Luciano Huck à Revista Veja (“Huck no caldeirão”, 10 de outubro de 2007). A entrevista de Huck, nas páginas amarelas da Revista Veja, traz uma importante luz para educadores, pais e gestores educacionais. Ao ser indagado sobre a violência urbana, uma vez ter sido, recentemente, vítima de assalto, e “o que faria diferente se tivesse poder”, respondeu com duas questões simples e de insofismável epifania: “Cadê o projeto para a educação? Por que ela não é tão competente quanto outras áreas?”.

Atrevo-me, na condição de educador, a responder, assim, ao apresentador “caldeado”: primeiro, não temos projeto educacional no país, e sim, um plano nacional de educação (Lei n. 10.172/2001), burocrático e centralizador, que focaliza, retoricamente, o compromisso do poder público de garantir educação escolar para todos, mas não garante, na prática, uma educação em valores, emancipadora, que seja capaz de educar as pessoas para a vida, justiça, diálogo,paz, tolerância, respeito ao outro, enfim, capaz de salvaguardar a sua própria vida e a de outrem, como o que ocorreu com o apresentador global.

A reação de Huck (que nada tem a ver com o incrível Hulk verde) diante dos assaltantes foi de um homem educado em valores: ” Eles pediram o relógio. Eu entreguei. Depois, pediram o do meu amigo, que também entregou” e Huck soube, também, na entrevista, aplicar, muito bem, seus conhecimentos básicos de sujeito indeterminado (Eles pediram…) para não correr risco de sofrer qualquer rechaço futuro, uma vez que, como disse, fala e se veste igual às pessoas simples das favelas por onde sobe para gravar seu programa semanal. A educação é uma área que reúne profissionais competentes e suas ações são também produtivas em muitos estados da Federação, mas, como sabemos, longe das favelas e da pobreza, posto que a excelência escolar é, conforme atestamos em exames nacionais como Prova Brasil, SAEB ou ENEM, restrita ao setor privado, com exceções, é claro, de algumas escolas públicas.

Começo minha “reclamação” pelo caso de Luciano Huck para dizer que vejo, na educação privada, uma ilha de boas práticas pedagógicas na educação brasileira. Não farei à guisa de Luciano Huck uma crítica ao modelo de avaliação escolar por questões de ordem conjuntural

Tomarei a reclamação, na sua acepção jurídica, de reivindicação de um direito ou queixa, ou mais, precisamente, protesto educacional. E como tal, desejo que a coordenação da escola da minha filha tome minha reclamação como um requerimento dirigido à gestão pedagógica, reivindicando a reparação de algo tido, no meu olhar de pai e entendimento de educador, como injusto e antipedagógico.da educação.

Pensando na educação da minha filha, diria que minha reclamação caminha para um oportuna e necessária queixa pedagógica. Mais do que reclamação é um providencial protesto ou um generoso brado de repulsa ou de não-concordância com relação ao sistema de avaliação da escola, particularmente a do professor de Matemática Fulano de Tal. Vamos à minha reclamação. Trata-se da décima questão da prova bimestral de Matemática do professor Fulano de Tal. Diz o enunciado da questão: “Fulano tinha saldo negativo no banco: -500 reais. Mesmo assim, deu um cheque de 200 reais. Para calcular o novo saldo de Fulano podemos efetuar: a) – 500 + 200 = -300 b) -500-200 = -700 c) 200 – (-500) = 700 d) 500 + (-200) = 300” Vamos à resposta da minha filha: a) – 500 + 200 = – 300. A do professor: b) -500 -200 = – 700. Aprendi, desde cedo, como educador, a lidar com o erro e sendo assim, quando um aluno erra, em sala, sempre pergunto o que o levou a fazer a opção por a, b, c ou d. Assim, fiz a velha pergunta à minha filha:”Por que você fez opção pelo item a e não pelo item b?”” Ela me respondeu: “Ora, pai, o Fulano deu um cheque de 200 reais, logo, seu saldo negativo, que era de -500 reais, ficou -300”. E continuei: “Mas ele, o Fulano, deu o cheque a quem, filha? No que ela me respondeu de pronto:” Ao banco, claro”. Reli a questão e observei que, lingüisticamente, está mal formulada, com erro crasso de sintaxe: o verbo dar, que é bitransitivo, não tem objeto indireto (quem) expresso no enunciado, mas, somente seu objeto direto (que) é identificado na leitura da questão. Realmente, cadê o Sicrano da questão? A questão gerou, pois, ambigüidade, por razões didático-pedagógicas: (1) A ausência do objeto indireto do verbo dar no enunciado da prova, acabou por comprometer a compreensão literal e inferencial da questão, resultando, pois, em obscuridade de sentido; (2) O enunciando produz ambigüidade à medida que gera uma multiplicidade de significados conexos e complementares atribuíveis à questão, e que, à luz do desenvolvimento cognitivo das crianças, especialmente as da primeira infância, os erros ou lapsos são previsíveis ou inesperados, mas válidos, porque, nesse estágio, sabem muito bem especular, postular e inferir dados de forma plausível; (3) Lingüisticamente, a ambigüidade de questões de provas escolares deve ser evitada por todos os docentes que zelam pela aprendizagem dos seus alunos, posto que há contextos lingüístico e situacional que não indicam, com segurança, qual a interpretação correta a ser levada em conta o tempo de duração de uma elaboração de uma prova; (4) Formal e estilisticamente, uma questão com ambigüidade é indesejável em provas escolares, por trazer no enunciado ou na instrução uma instrução de natureza científica ou informativa, e alunos ou pais de alunos nunca esperam que uma questão de Matemática tenha o mesmo efeito de uma piada de humor. Retornemos a um trecho da décima questão da prova: “Mesmo assim, deu um cheque de 200 reais”. O que Fulano deu? A resposta objetiva é, pois, “um cheque de 200 reais”, o que se constitui, pois, em objeto direto, que, em gramática ou na lingüística estrutural, e, no caso específico do verbo dar, na questão objeto de análise, é considerado como complemento de verbo bitransitivo. A título de informação lingüística, diria que o verbo dar é duplamente transitivo, pois pede, simultaneamente, dois complementos: objeto direto e objeto indireto. No enunciado da questão, o verbo dar, realmente, é bitransitivo (ou transitivo direto e indireto), uma vez que seu significado é de “ceder, entregar, oferecer (algo de que se desfruta ou de que se está na posse), sem pedir contrapartida”, como nos ensinam as gramáticas normativas, o verbo dar pode ser mais bem exemplificado em frases do tipo” Beltrano deu dinheiro a um necessitado” ou” Sicrano deu presentes a familiares”. A questão está tecnicamente mal formulada ou elaborada, o que, na minha avaliação psicopedagógica, requer da gestão pedagógica da escola a providência de anulação da mesma. É o princípio de nulidade que deve prevalecer por parte da gestão pedagógica em caso de ambigüidade por razões lingüísticas, cognitivas ou técnicas. Mais do que uma recorreção por parte do professor, a questão deve ser anulada porque, do ponto de vista pedagógico, causou ambigüidade e dúvida na cabeça das crianças. A resposta oficial do professor também está errada porque o verbo dar não pode ter seu “objeto indireto” não pode estar “oculto” ou “subentendido” ou retido unicamente na memória do professor. Ao contrário, o verbo dar, no enunciado da questão, precisa estar claro, objetivo, completo e explícito por amor à semântica e à sintaxe da frase que, por outro lado,requer do aluno inferência e o cálculo matemático aplicável a partir do seu entendimento, ao ler a instrução final do enunciado “Para calcular o novo saldo de Fulano podemos efetuar:” Como pode o aluno efetuar o novo cálculo sem a compreensão literal do enunciado da questão? Portanto, a questão está lingüisticamente errada e induz a erros pedagógicos, tornando-se, desse modo, ineficaz do ponto de vista cognitivo. Sem eficácia, o ensino se torna contraproducente e perde a garantia de segurança de um bom e útil resultado educacional: a aprendizagem do aluno. Poderíamos, então, encerrar nossa reclamação aqui. Mas, confesso um “pecado pedagógico”,fiquei inculcado com essa história de Fulano (em com F maiúsculo, principalmente) da décima questão da prova e, curioso, fui ao buscador http://www.google.com.br para ver se tinha algo caso parecido com tipo de questão. Para minha surpresa, o professor plagiou a questão da Internet! Pois não é que no site http://paginas.terra.com.br/educacao/calculu/Exercicios/Teste6s/teste6.htm, que traz questões para testes do 7º ano (antiga 6ª série) ensino fundamental material retirado do livro didático Matemática, dos autores Lellis e Imenes( Editora Scipione). Agora, conhecendo o”banco de dados do professor”, aquela décima questão, doravante, para mim, não passa de uma questãozinha sem muito valor, uma vez que foi reproduzida, na prova da escola, tal qual aparece na Internet, inclusive com seus erros de Português. Em substância: o professor não formulou, e sim, plagiou a questão e, pior, com os erros crasos de construção de enunciado, anteriormente, apontados nessa minha reclamação. Aqui, sim, o erro é muito grave. Trata-se de plágio. Com todo respeito aos fulanos de tal, acho que o professor que assim procede nem é digno de ser chamado de Fulano, mas de um Fuão e só. O professor ao capturar a questão na Internet, sem qualquer de adaptação à sua realidade escolar, cometeu, pelos menos, três erros gravíssimos. Vamos citar, cada um deles, de forma bem sintética.
O primeiro erro de natureza grave e juridicamente criminosa é o plágio docente. Ocorre plágio docente quando o professor apresenta à escola e aos seus educandos uma questão (não quis mais verificar o restante das questões da prova) como de sua própria autoria, sendo a questão, originalmente, produzida por outrem e mais grave, retirada de livro com autor identificado e reproduzido na Internet, permitindo o acesso ao “banco de questões de Matemática” não só manipulado pelo professor, mas levado ao conhecimento dos alunos e dos pais dos mesmos. Plágio é péssimo exemplo a ser seguido na escola. É um caminho fácil, mas desonesto, tanto para professores ou alunos. Numa formação de valores, o plágio não produz autores nem cidadãos ativos na sociedade, mas velhacos, arapuqueiros, ardilões, canalhas, devassos, espertalhões, pulhas e trapaceiros de toda espécie insertos na política, na educação, na saúde e na vida em sociedade. A prova de Matemática do professor fuão está elaborada sem critério e revela-se, essencialmente, de feição somativa, preocupado deve estar o professor unicamente com aspectos quantitativos da sua avaliação: acertou uma questão, ganhou um ponto e encerrou o processo avaliativo na atribuição da nota de zero a 10. De modo geral, os professores de todas as disciplinas, nas escolas públicas ou privadas, não têm observado o valor de uma prova escrita, para qualquer disciplina, elaborada a partir de um barema, em que cada uma das questões é formulada por índice de dificuldade (fácil, média, difícil, muito difícil, por exemplo), portanto, bem montada, criteriosamente formulada e submetida pelo professor, em tempo hábil, à análise da gestão pedagógica. Os matemáticos entendem muito bem do que falo e sabem traduzir, para escola, o sentido de barema, descrevendo o valor pedagógico de elaborar uma prova escrita a partir de um conjunto de quadros ou de dados numéricos, com seus respectivos índices de dificuldade, que apresenta a montagem de uma prova, objetiva ou discursiva, em geral, organizando as questões (múltipla escolha, V ou F, e assim por diante) em escores, cuja correção, por parte do professor, irá, objetivamente, registrar não apenas os erros, mas os acertos cometidos pelo aluno durante a elaboração da prova. A prova de Matemática, objeto de análise e crítica aqui, por exemplo, poderia ser montada a partir de 100 escores.A décima questão valeria, assim, 10 escores. Um exemplo do valor da prova com barema e com escores pode ser exemplificado na nona questão, em que minha filha, encontra o valor de X, na equação 5.(x +2) – 2(3x -1) =13. O X da questão, nos seus cálculos, é assim expresso: x = 13-12 = X = 11. Observemos, o aluno chegou a X = 13-12, mas no resultado, coloca X = 11. O professor não considerou até onde o aluno acertou. Como diz ditado popular: “ Fulano nadou, nadou e morreu na praia”. O fracasso escolar é, para o aluno, como “morrer na praia”. Parece até uma metáfora, mas a reprovação ou o baixo rendimento é uma morte cultural para muitas crianças, jovens ou adultos, em formação escolar. Se valorizo X = 13-12, estou dentro de uma perspectiva da avaliação formativa e estou, pois, dando valor ou importância ao processo de construção do aluno. Se unicamente estou preocupado com o valor numérico, sintético, final e reducionista de X =1, minha preocupação é com o resultado e estou pedagogicamente atrelado a um modelo de avaliação somativa, que valoriza aspectos quantitativos e não qualitativos das respostas do aluno na prova. A LDB afirma no item a do inciso V, no artigo 24, que a avaliação do rendimento escolar deve observar o critério da “avaliação contínua e comulativa do desempenho do aluno, como prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais”. Dizendo de outra forma, a LDB nos manda o seguinte recado: um erro, como sabemos, dentro de uma visão construtivista do ensino produtivo, é uma hipótese importante a ser trabalhada em sala de aula por parte do professor após a aplicação da prova. A partir dos erros cometidos pelos alunos em uma prova, é motivo para os professores de quaisquer disciplinas mostrar o valor da atenção durante a elaboração das provas escritas, levando-os a ver a atenção como um princípio precioso da aprendizagem; uma tensão discente, é verdade, mas necessária para que os discentes respondam as questões de uma prova, dentro e fora da escola (vestibular, por exemplo), com orientação seletiva da percepção, do pensamento e da ação.

A atenção, como nos ensina a Psicologia, é função psicológica indissociável da consciência, memória e, sobretudo, fundamental à aprendizagem escolar. Por fim, minha reclamação, mais do que uma queixa de pai é uma advertência de educador que, em educação, aos docentes cabe, por incumbência legal, o zelo pela aprendizagem dos alunos, conforme preceitua o artigo 13 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Os professores, dentro e fora da escola, on-line ou off-line, são profissionais da educação escolar, formam cidadãos e não fulanos, sicranos e beltranos. Atenta a esses eventos antipedagógicos, cabe à escola oferecer cursos de atualização e de aperfeiçoamento sobre avaliação e currículo escolar. No século XXI, o ensino da leitura, escrita e cálculo, presentes nas habilidades e competências instrumentais de todas as disciplinas, requer uma escola voltada não apenas para os erros ou lapsos dos alunos, mas expedita para cumprir os grandes objetivos da sociedade para a educação escolar, ou seja, o desenvolvimento da pessoa, exercício da cidadania e qualificação para o trabalho e, mais especificamente, na Matemática, através de um currículo dirigido por competências e habilidades, o cumprimento de finalidades do ensino fundamental como desenvolvimento do raciocínio lógico e o desenvolvimento da capacidade de aprender e de aprendizagem.

Autor: Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral.

O MÉTODO FÔNICO NA ALFABETIZAÇÃO DE CRIANÇAS

0

O método fônico na alfabetização de crianças

O presente artigo responde a quatro perguntas sobre método de alfabetização em leitura:

    • (1) O método fônico é o mais eficaz para alfabetização?
    • (2) Quais as principais diferenças entre o modelo fônico e o construtivista?
    (3) Segundo uma pesquisa feita pela revista Veja 60% das escolas adotam o modelo construtivista para alfabetização dos alunos. Por que a grande maioria opta por esse método? (4) Quais as vantagens que o aluno tem ao ser alfabetizado pelo método fônico?

Comecemos pela primeira questão. Há uma guerra dos métodos de alfabetização em leitura, no Brasil e fora do Brasil, especialmente a Europa, que, na verdade, dissimula uma outra guerra, de ordem ideológica e financista, entre especialistas no mundo da lectoescrita. Não é de hoje. Diríamos que há, pelo menos, um século, discutimos a prevalência de um método sobre o outro. Ontem, hoje e amanhã, certamente, quem ganha, claro, terá seus dividendos editoriais e mais prestígio nacional ou internacional sobre o campo fértil das mídias, que é o da leitura e da escrita. No Brasil, nos anos 60, século passo, o educador Paulo Freire, por exemplo, com seu método de alfabetização, ganhou notoriedade internacional por defender a aquisição da leitura além do acesso ao código lingüístico e de levar o alfabetizado a uma visão crítica, política e politizada de um mundo do trabalho, do cotidiano, da vida em sociedade, povoado de inquietações, aspirações sociais, violências simbólicas, conflitos de classes sociais e dominado por forças de dominação econômica e cultural. É um modelo inspirador para os alfabetizadores do século XXI.A peleja dos métodos de alfabetização está bem polarizada: métodos fônicos de um lado, do outro, os construtivistas. Os métodos fônicos também são conhecidos por métodos sintéticos ou fonéticos. Partem das letras (grafemas) e dos sons (fonemas) para formar, com elas, sílabas, palavras e depois frases. São vários modelos de fônicos.Entre eles, o mais antigo e mais consistente, em termos de pedagogia da alfabetização em leitura, é o alfabético ou soletração, que consiste em primeiro ensinar as letras que representam as consoantes e, em seguida, unir as letras-consoantes às letras-vogais. Os modelos alfabéticos, por seu turno, partem das sílabas para chegar às letras e aos seus sons nos contextos fonológicos em que aparecem. As cartilhas de ABC, durante muito tempo encontradas em mercearias ou bodegas ou mesmo mercados, eram o principal material didático e contavam com a presença forte do alfabetizador que acreditava que, pelo caminho da repetição das letras e dos seus sons, o aluno logo chegaria ao mundo da leitura.
Os métodos construtivistas, também chamados analíticos ou globais partem das frases que se examinam e se comparam para, no processo de dedução, o alfabetizando encontrar palavras idênticas, sílabas parecidas e discriminar os signos gráficos do sistema alfabético. A aplicação do método construtivista, na prática, quando aplicado, tende a ser mais praxiologia do que mesmo método. Por que praxiologia? Induz à alfabetização, centra-se no alfabetizando e não no alfabetizador, quando, a rigor, nesse momento, a intervenção do educador se faz importante uma vez que há necessidade, na alfabetização, de um ensino sistemático e diretivo para levar o aluno à compreensão do sistema de escrita da língua. É na alfabetização que o aluno deve construir a consciência lingüística da leitura.
A tradição de helênica de alfabetização nos faz ver considerá-la esta importante etapa da educação escolar (embora a Lei de Diretrizes e Bases da Educação(LDB), promulgada, em 1986, não faça referência a uma sala específica de alfabetização na educação infantil ou no ensino fundamental) como uma iniciação no uso do sistema ortográfico. Há uma espécie de consenso entre os alfabetizadores de considerar que a alfabetização é um processo de aquisição dos códigos alfabético e numérico cujo finalidade última é a de levar o alfabetizado ao letramento, isto é, a adquirir habilidades cognitivas para desenvolver práticas que denotam a capacidade de uso de diferentes tipos de material escrito. Mas como garantir a alfabetização em leitura? Através de métodos ou estratégias de aprendizagem. Por isso, quando nos reportamos, historicamnente, aos métodos de alfabetização em leitura, estamos nos referindo, dentro da longa tradição da alfabetização, a um conjunto de regras e princípios normativos que regulam o ensino da leitura. Nos anos 60, a maioria da população brasileira aprendeu a ler pelo método da silabação, que consiste em ensinar a ler por meio do aprendizado de sílabas e a partir delas a formar palavras e frases. A segmentação das sílabas em fonemas e letras é uma etapa posterior. Todavia, só o método, em si, não garante a aprendizagem. É importante a formação do alfabetizador. Sem formação lingüística, o método pode perder sua eficácia. A alfabetização em leitura é diretamente relacionada com o sistema de escrita da língua. No caso das chamadas línguas neolatinas, particularmente o Português e o Espanhol, o método fônico se torna um imperativo educacional por conta do próprio sistema lingüístico, isto é, o chamado princípio alfabético, manifesto na correspondência entre grafemas e fonemas e na ortografia sônica, mais regular e digamos, assim, mais biunívoca: uma letra representa um fonema, na maioria dos casos. Como a língua não é perfeita unívoca – exatamente por é social, construída historicamente pala comunidade lingüística – sons como /sê/ ou /gê/ poderão terão várias representações gráficas, transformando esses casos isolados em contextos equívocos e que, no fundo, podemos contar nos dedos e que não perturba o processo de alfabetização. Com as afirmações acima, já podemos estabelecer algumas diferenças básicas entre os dois métodos. O fônico, como o próprio nome nos sugere, favorece o princípio alfabético, a relação grafema-fonema e seu inverso, isto é, a relação fonema-grafema. Se a escola partir do texto escrito, no método fônico, estará, assim, enfatizando a relação grafema-fonema. Se a escola parte da falta do alfabetizando, focalizará, desde logo, a relação fonema-grafema. O grande desafio dos docentes ou dos pedagogos da leitura é, tendo conhecimento de Lingüística e Alfabetização, levar os alunos a entenderem, ao longo do processo de alfabetização, as noções de fonema e grafema. Entender, por exemplo, que fonema, som da fala, faz parte do chamado módulo fonológico, uma herança genética do ser humano.
Na fase de balbucio, ainda não os sons da fala ainda não manipulados pela criança, mas, a partir dos três anos de idade, já considerada nativa, a escola pode ensinar ao educando, sistematicamente, o sistema sonoro da língua, levando-o à consciência fonológica ou fonêmica, de modo que entendam que o fonema é uma unidade mínima das línguas naturais no nível fonêmico, com valor distintivo. Os investigadores de leitura mostram que o método fônico também é mais eficiente para as comunidades lingüísticas pobres, ou seja, as camadas populares com acesso precário aos bens culturais da civilização letrada. Por que isso ocorre? Graças ao fonema podemos distinguir morfemas ou palavras com significados diferentes, todavia próprio fonema não possui significado. Em português, as palavras faca e vaca distinguem-se apenas pelos primeiros fonemas/f/ e/v/. Os fonemas não devem ser confundidos, todavia, com as letras dos alfabetos, porque estas frequentemente apresentam imperfeições e não são uma representação exata do inventário de fonemas de uma língua. As letras do alfabeto são signos ou sinais gráficos que representam, na transcrição de uma língua, um fonema ou grupo de fonemas. Como as letras não dão conta de todo o sistema de escrita, os lingüistas falam em grafemas no campo da escrita. Os grafemas, bastante variados, estão presentes no sistema da escrita da língua portuguesa. Para a compreensão da escrita alfabética ou ortografia da língua portuguesa, a noção de grafema se faz necessária uma vez ser uma unidade de um sistema de escrita que, na escrita alfabética, corresponde às letras e também a outros sinais distintivos, como o hífen, o til, sinais de pontuação e os números.O método global além de não ter funcionado ou vir tendo uma resposta eficaz no sistema educacional da América Latina, uma vez que não se presta ao nosso sistema lingüístico, ao contrário do método fônico, que requer conhecimentos metalingüísticos da fonologia da língua portuguesa, o global requer dos alunos uma maior carga de memorização lexical. O método global peca porque sobrecarrega a memória dos alfabetizandos quando ainda não estão em processo de construção do seu léxico, que depende, como nos ensina o sociointeracionismo, das relações intersubjetivas ou interpessoais e de engajamento pragmático das crianças no uso social da língua. Numa palavra, diríamos que o método global depende muito das formas de letramento da sociedade, dos registros de atos de fala, nos diferentes contextos sociais e culturais da sociedade, em que a palavra é, assim, o grande paradigma em ponto de partida da pedagogia da leitura. Para os países desenvolvidos e com equipamentos sociais à disposição dos alunos, cai como uma luva.
Para os países subdesenvolvimentos, tem se constituído uma lástima e é deplorável a situação por que passa o Brasil, nos exames nacionais e internacionais, anunciando o nosso pais como o pior país do mundo em leitura.Ao contrário do método fônico, o método global não tem um caráter emancipatório, retarda o ingresso da criança no mundo da leitura. A partir dos anos 80, no século passado, o Brasil, através de seus governos, influenciado com os achados da psicogênese da escrita, realmente uma teoria (e não pedagogia) bastante sedutora em se tratando de postulações pedagógicas, adotou o método construtivista para o sistema educacional, em particular, o público, a adotar o método construtivista ou global. Uma década depois, os resultados pífios do Sistema de Avaliação da Educação Escolar (convertido,agora, em Prova Brasil) revelaram que as crianças, depois de oito anos de escolaridade, estavam ainda com nível crítico de alfabetização, mal sabiam decodificação, isto é, transformar os signos gráficos(letras) em leitura. Sem leitura, como sabemos, o aluno não tem estratégia de desenvolvimento de capacidade de aprender ou de aprendizagem. Os primeiros seis anos do século XXI já assinalam o principal desafio dos governos, estabelecimentos de ensino e docentes, no meio escolar, é o de levar o aluno ao aprendizado da lectoescrita. O que deveria ser básico se tornou um desafio aparentemente complexo para os docentes da educação básica: assegurar, através da leitura, escrita e cálculo, a aprendizagem escolar.
Por que o domínio básico de lectoescrita se tornou tão desafiador para o sistema de ensino escolar? Por que ensinar a ler não é tão simples? Como desvelar o enigma do acesso ao código escrito?
Em geral, quando nos deparamos com as dificuldades de leitura ou de acesso ao código escrito, esperamos dos especialistas métodos compensatórios para sanar a dificuldade. Nenhuma dificuldade se vence com método mirabolante. O melhor caminho, no caso da leitura, é o entendimento lingüístico, do fenômeno lingüístico que subjaz ao ato de ler. Ler é ato de soletrar, de decodificar fonemas representados nas letras, reconhecer as palavras, atribuir-lhes significados ou sentidos, enfim, ler, realmente, não é tão simples como julgam alguns leigos. O primeiro passo, nessa direção, o de ensinar o aluno a aprender a ler antes para praticar estratégias de leitura depois, em outras palavras, de atuar eficientemente com as dificuldades do acesso ao código escrito, as chamadas dificuldades leitoras ou dislexias pedagógicas, é ensinar o aluno a aprender mais sobre os sons da língua, ou melhor, como a língua se organiza no âmbito da fala ou da escrita.Quando me refiro à fala, estou me referindo, sobretudo, aos sons da fala, aos fonemas da língua: consoantes, vogais e semivogais. A leitura, em particular, tem sua problemática agravada por conta de dificuldades de sistematização dos sons da fala por parte da pedagogia ou metodologia de plantão: afinal, qual o melhor método de leitura? O fônico ou o global? Como transformar a leitura em uma habilidade estratégica para o desenvolvimento da capacidade de aprender e de aprendizagem do aluno? Assim, um ponto inicial a considerar é a perspectiva que temos de leitura no âmbito escolar.
Como lingüística, acredito que a perspectiva psicolingüística responde a série de questionamentos sobre o fracasso da leitura na educação básica. Em geral, os docentes não partem, desde o primeiro instante de processo de alfabetização escolar, da fala. A fala recebe um desprezo tremendo da escola e é fácil compreender o porquê: a escrita é marcador de ascensão social ou de emergência de classe social. A escrita é ideologicamente apontada como sendo superior a fala. A tal ponto podemos considerar essa visão reducionista da linguagem, que quem sabe falar, mas não sabe escrever, na variação culta ou padrão de sua língua, não tem lugar ao sol, não tem reconhecimento de suas potencialidades lingüísticas. Claro, a escrita não é superior a fala nem a fala superior a escrita. Ambas, interdependentes. A alma e o papel, o pensamento e a linguagem, a fala e a memória, todos esses componentes têm um papel extraordinário na formação para o leitor proficiente.

Autor: Vicente Martins é professor da Universidade Estadual vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.

DISLEXIA: PERGUNTAS E RESPOSTAS

0

DISLEXIA: PERGUNTAS E RESPOSTAS

Vicente Martins

Qual a origem da dislexia?

É uma palavra de origem grega. Dis, quer dizer, dificuldade. Lexia, palavra, leitura. O primeiro relato de dislexia data de 1896, a partir de uma queixa de um jovem de 14 anos que vai a um médico ofalmologista relatar sua dificuldade específica de ler e escrever, tendo surpreendentemente intactas as habilidades em matemáticas e outras disciplinas escolares.

2. Quais os sinais mais comuns de uma criança disléxica?

Na educação infantil, o atraso da fala é um indício importante. No ensino fundamental, a dificuldade de alfabetizar-se em leitura, soletrar, por exemplo, um texto, em voz alta perante uma sala de aula ou para si mesmo. No ensino fundamental, se a soletração não tiver sido resolvida, o aluno terá implicações no entendimento do texto em todas as disciplinas escolares. A falta de consciência fonológica durante a alfabetização leva à dislexia escolar.

3. Dislexia tem cura?

Se for de origem genética, não. E por isso, será considerada uma síndrome, uma dislexia desenvolvimento, evolutiva ou genética. Se a dislexia é de natureza escolar, a mudança do método de leitura, por exemplo, mudar o método global para o fônico, pode trazer resultados bastante animadores para os disléxicos, docentes e aos pais.

4. Qual o papel da família no processo de tratamento?

Os pais devem ficar atentos sobre o desempenho leitor de seus filhos. As baixas notas em língua portuguesa e a falta de interesse em ler textos podem ser sinais de alerta importante para um pedido de ajuda profissional. Os alunos que são disléxicos tendem a se afastar de atividades que envolvem a leitura ou texto escrito, temendo as dificuldades inerentes ao sistema escrito da língua e caminham para atividades outras como atividades de lazer, esporte, liderança escolar, entre tantas em que possa revelar seu potencial de criação e inteligência.

5. Quais atribuições cabem à escola, enquanto instituição que identifica os primeiros sinais desse distúrbio?

Cabe à escola oferecer aos pais de alunos e aos próprios alunos, metodologias interessantes e eficientes, do ponto de vista pedagógico, para atender os alunos especiais, os que apresentam dificuldades em leitura, escrita e ortografia. É incumbência da escola e, em especial dos professores, oferecer recuperação de estudos para aqueles que têm baixo rendimento escolar.

A DISLEXIA EM SALA DE AULA

0

A DISLEXIA EM SALA DE AULA

Vicente Martins

Este texto tem por fim indicar os fatores que influenciam, na educação escolar, aparição da dislexia como dificuldade inesperada do aprendizado da leitura.
São quatro as habilidades da linguagem verbal: a leitura, a escrita, a fala e a escuta. Destas, a leitura é a habilidade lingüística mais difícil e complexa. A leitura é dos um processo de aquisição da lectoescrita e, como tal, compreende duas operações fundamentais: a decodificação e a compreensão.
A decodificação é a capacidade que temos como escritores ou leitores ou aprendentes de uma língua para identificarmos um signo gráfico por um nome ou por um som. Esta capacidade ou competência lingüística consiste no reconhecimento das letras ou signos gráficos e na tradução dos signos gráficos para a linguagem oral ou para outro sistema de signo.
A aprendizagem da decodificação se consegue através do conhecimento do alfabeto e da leitura oral ou transcrição de um texto. Conhecer o alfabeto não significa apenas o reconhecimento das letras, e sim, entendermos a evolução da escrita como: a) a pictográfica (desenho figurativo), a ideográfica (representação de idéias sem indicação dos sons das palavras) e a fonográfica (representação dos sons das palavras). Toda palavra tem uma origem, uma motivação e, a rigor, não é absolutamente arbitrária como quis Ferdinand de Saussure, em seu Curso de Lingüística geral.
O agá, por exemplo, nas línguas neolatinas, como o português, o espanhol, o italiano e o francês, pode indicar um fonema mudo, mas traduz, por sua vez, uma origem semítica heth. O grego, por exemplo, usou a letra h para representar a vogal longa eta. Por isso, toda palavra, em português, iniciada pela letra h (hoje, homem, história etc), é de origem grega.
A compreensão é a captação do sentido ou conteúdo das mensagens escritas. Sua aprendizagem se dá através do domínio progressivo de textos escritos cada vez mais complexos (ALLIENDE: 1987, p.27)

2. AS FUNÇÕES ESSENCIAIS DA LEITURA
São três os verbos que definem as funções essenciais da leitura: a)transformar, b) compreender e c) julgar.
Transformar, em leitura, se dá quando o leitor converte a linguagem escrita em linguagem oral.
Compreender se efetiva quando o leitor consegue captar ou dá sentido ao conteúdo da mensagem.
Julgar é capacidade que o leitor tem de analisar o valor da mensagem no contexto social.

3. OS PROCESSOS DA CAPACIDADE LEITORA
O enfoque da Psicolingüística, ramo interdisciplinar da Psicologia Cognitiva e da Lingüística Aplicada, considera a leitura como uma habilidade complexa, na qual intervém uma série de processos cognitivo-lingüísticos de distintos níveis, cujo início é um estímulo visual e cujo final deve ser a decodificação do mesmo e sua compreensão. Refiro-me aos processos básicos e superiores da habilidade leitora.

Os processos básicos da leitura são também chamados de “processos de nível inferior”. Sua finalidade é o reconhecimento e a compreensão das palavras. Dentro destes se encontram a decodificação e a compreensão de palavras.

Os processos superiores ou de nível superior têm por finalidade a compreensão de textos.

Os dois processos, isto é, os básicos e os superiores, devem ser considerados no ensino do português e na aprendizagem da lectoescrita uma vez que funcionam de modo interativo ou interdependente.

Os processos básicos, isto é, que se voltam à decodificação e à compreensão de palavras, são particularmente importantes nas primeiras etapas da aprendizagem da leitura (ou leitura inicial na educação infantil) e devem ser automatizados ou bem assimilados no primeiro ciclo do ensino fundamental (até a quarta série), já que um déficit em algum deles atua como um nó de gravata que impede o desenvolvimento dos processos superiores de compreensão leitora.

A GUERRA DOS MÉTODOS NA ALFABETIZAÇÃO

0

A GUERRA DOS MÉTODOS NA ALFABETIZAÇÃO

O presente artigo responde a quatro perguntas sobre método de alfabetização em leitura: (1) O método fônico é o mais eficaz para alfabetização?(2) Quais as principais diferenças entre o modelo fônico e o construtivista? (3) Segundo uma pesquisa feita pela revista Veja 60% das escolas adotam o modelo construtivista para alfabetização dos alunos. Por que a grande maioria opta por esse método? (4) Quais as vantagens que o aluno tem ao ser alfabetizado pelo método fônico?
Comecemos pela primeira questão. Há uma guerra dos métodos de alfabetização em leitura, no Brasil e fora do Brasil, especialmente a Europa, que, na verdade, dissimula uma outra guerra, de ordem ideológica e financista, entre especialistas no mundo da lectoescrita. Não é de hoje.
Diríamos que há, pelo menos, um século, discutimos a prevalência de um método sobre o outro. Ontem, hoje e amanhã, certamente, quem ganha, claro, terá seus dividendos editoriais e mais prestígio nacional ou internacional sobre o campo fértil das mídias, que é o da leitura e da escrita.
No Brasil, nos anos 60, século passo, o educador Paulo Freire, por exemplo, com seu método de alfabetização, ganhou notoriedade internacional por defender a aquisição da leitura além do acesso ao código lingüístico e de levar o alfabetizado a uma visão crítica, política e politizada de um mundo do trabalho, do cotidiano, da vida em sociedade, povoado de inquietações, aspirações sociais, violências simbólicas, conflitos de classes sociais e dominado por forças de dominação econômica e cultural. É um modelo inspirador para os alfabetizadores do século XXI.
A peleja dos métodos de alfabetização está bem polarizada: métodos fônicos de um lado, do outro, os construtivistas. Os métodos fônicos também são conhecidos por métodos sintéticos ou fonéticos. Partem das letras (grafemas) e dos sons (fonemas) para formar, com elas, sílabas, palavras e depois frases.
São vários modelos de métodos fônicos. Entre eles, o mais antigo e mais consistente, em termos de pedagogia da alfabetização em leitura, é o alfabético ou soletração, que consiste em primeiro ensinar as letras que representam as consoantes e, em seguida, unir as letras-consoantes às letras-vogais.
Os modelos alfabéticos de alfabetização em leitura, por seu turno, partem das sílabas para chegar às letras e aos seus sons nos contextos fonológicos em que aparecem. As cartilhas de ABC, durante muito tempo encontradas em mercearias ou bodegas ou mesmo mercados, eram o principal material didático e contavam com a presença forte do alfabetizador que acreditava que, pelo caminho da repetição das letras e dos seus sons, o aluno logo chegaria ao mundo da leitura.
Os métodos construtivistas de alfabetização em leitura, também chamados analíticos ou globais partem das frases que se examinam e se comparam para, no processo de dedução, o alfabetizando encontrar palavras idênticas, sílabas parecidas e discriminar os signos gráficos do sistema alfabético.
A aplicação do método construtivista, na prática, quando aplicado, tende a ser mais praxiologia do que mesmo método. Por que praxiologia? Induz à alfabetização, centra-se no alfabetizando e não no alfabetizador, quando, a rigor, nesse momento, a intervenção do educador se faz importante uma vez que há necessidade, na alfabetização, de um ensino sistemático e diretivo para levar o aluno à compreensão do sistema de escrita da língua. É na alfabetização que o aluno deve construir a consciência lingüística da leitura.
A tradição de helênica de alfabetização nos leva a considerá-la uma importante etapa da educação escolar (embora a Lei de Diretrizes e Bases da Educação(LDB), promulgada, em 1986, não faça referência a uma sala específica de alfabetização na educação infantil ou no ensino fundamental) como uma iniciação no uso do sistema ortográfico.
Há uma espécie de consenso entre os alfabetizadores de considerar que a alfabetização é um processo de aquisição dos códigos alfabético e numérico cujo finalidade última é a de levar o alfabetizado ao letramento e ao enumeramento, isto é, a adquirir habilidades cognitivas para desenvolver práticas que denotam a capacidade de uso de diferentes tipos de material escrito.
Mas como garantir a alfabetização em leitura? Através de métodos ou estratégias de aprendizagem. Por isso, quando nos reportamos, historicamnente, aos métodos de alfabetização em leitura, estamos nos referindo, dentro da longa tradição da alfabetização, a um conjunto de regras e princípios normativos que regulam o ensino da leitura. Nos anos 60, a maioria da população brasileira aprendeu a ler pelo método da silabação, que consiste em ensinar a ler por meio do aprendizado de sílabas e a partir delas a formar palavras e frases. A segmentação das sílabas em fonemas e letras é uma etapa posterior.
Todavia, só o método, em si, não garante a aprendizagem. É importante a formação do alfabetizador. Sem formação lingüística, o método pode perder sua eficácia. A alfabetização em leitura é diretamente relacionada com o sistema de escrita da língua.
No caso das chamadas línguas neolatinas, particularmente o Português e o Espanhol, o método fônico se torna um imperativo educacional por conta do próprio sistema lingüístico, isto é, o chamado princípio alfabético, manifesto na correspondência entre grafemas e fonemas e na ortografia sônica, mais regular e digamos, assim, mais biunívoca: uma letra representa um fonema, na maioria dos casos. Como a língua não é perfeita unívoca – exatamente por é social, construída historicamente pala comunidade lingüística – sons como /sê/ ou /gê/ poderão terão várias representações gráficas, transformando esses casos isolados em contextos equívocos e que, no fundo, podemos contar nos dedos e que não perturba o processo de alfabetização.
Com as afirmações acima, já podemos estabelecer algumas diferenças básicas entre os dois métodos. O fônico, como o próprio nome nos sugere, favorece o princípio alfabético, a relação grafema-fonema e seu inverso, isto é, a relação fonema-grafema. Se a escola partir do texto escrito, no método fônico, estará, assim, enfatizando a relação grafema-fonema. Se a escola parte da falta do alfabetizando, focalizará, desde logo, a relação fonema-grafema.
O grande desafio dos docentes ou dos pedagogos da leitura é, tendo conhecimento de Lingüística e Alfabetização, levar os alunos a entenderem, ao longo do processo de alfabetização, as noções de fonema e grafema. Entender, por exemplo, que fonema, som da fala, faz parte do chamado módulo fonológico, uma herança genética do ser humano.
Na fase de balbucio, ainda não os sons da fala ainda não manipulados pela criança, mas, a partir dos três anos de idade, já considerada nativa, a escola pode ensinar ao educando, sistematicamente, o sistema sonoro da língua, levando-o à consciência fonológica ou fonêmica, de modo que entendam que o fonema é uma unidade mínima das línguas naturais no nível fonêmico, com valor distintivo.
Os investigadores de leitura mostram que o método fônico também é mais eficiente para as comunidades lingüísticas pobres, ou seja, as camadas populares com acesso precário aos bens culturais da civilização letrada. Por que isso ocorre? Graças ao fonema podemos distinguir morfemas ou palavras com significados diferentes, todavia próprio fonema não possui significado. Em português, as palavras faca e vaca distinguem-se apenas pelos primeiros fonemas/f/ e/v/.
Os fonemas não devem ser confundidos, todavia, com as letras dos alfabetos, porque estas frequentemente apresentam imperfeições e não são uma representação exata do inventário de fonemas de uma língua. As letras do alfabeto são signos ou sinais gráficos que representam, na transcrição de uma língua, um fonema ou grupo de fonemas. Como as letras não dão conta de todo o sistema de escrita, os lingüistas falam em grafemas no campo da escrita.
Os grafemas, bastante variados, estão presentes no sistema da escrita da língua portuguesa. Para a compreensão da escrita alfabética ou ortografia da língua portuguesa, a noção de grafema se faz necessária uma vez ser uma unidade de um sistema de escrita que, na escrita alfabética, corresponde às letras e também a outros sinais distintivos, como o hífen, o til, sinais de pontuação e os números.
O método global além de não ter funcionado ou vir tendo uma resposta eficaz no sistema educacional da América Latina, uma vez que não se presta ao nosso sistema lingüístico, ao contrário do método fônico, que requer conhecimentos metalingüísticos da fonologia da língua portuguesa, o global requer dos alunos uma maior carga de memorização lexical.
O método global de alfabetização em leitura peca porque sobrecarrega a memória dos alfabetizandos quando ainda não estão em processo de construção do seu léxico, que depende, como nos ensina o sociointeracionismo, das relações intersubjetivas ou interpessoais e de engajamento pragmático das crianças no uso social da língua. Numa palavra, diríamos que o método global depende muito das formas de letramento da sociedade, dos registros de atos de fala, nos diferentes contextos sociais e culturais da sociedade, em que a palavra é, assim, o grande paradigma em ponto de partida da pedagogia da leitura. Para os países desenvolvidos e com equipamentos sociais à disposição dos alunos, cai como uma luva.
Para os países subdesenvolvimentos, tem se constituído uma lástima e é deplorável a situação por que passa o Brasil, nos exames nacionais e internacionais, anunciando o nosso pais como o pior país do mundo em leitura.Ao contrário do método fônico, o método global não tem um caráter emancipatório, retarda o ingresso da criança no mundo da leitura.
A partir dos anos 80, no século passado, o Brasil, através de seus governos, influenciado com os achados da psicogênese da escrita, realmente uma teoria (e não pedagogia) bastante sedutora em se tratando de postulações pedagógicas, adotou o método construtivista para o sistema educacional, em particular, o público, a adotar o método construtivista ou global. Uma década depois, os resultados pífios do Sistema de Avaliação da Educação Escolar (convertido,agora, em Prova Brasil) revelaram que as crianças, depois de oito anos de escolaridade, estavam ainda com nível crítico de alfabetização, mal sabiam decodificação, isto é, transformar os signos gráficos(letras) em leitura. Sem leitura, como sabemos, o aluno não tem estratégia de desenvolvimento de capacidade de aprender ou de aprendizagem.
Os primeiros seis anos do século XXI já assinalam o principal desafio dos governos, estabelecimentos de ensino e docentes, no meio escolar, é o de levar o aluno ao aprendizado da lectoescrita. O que deveria ser básico se tornou um desafio aparentemente complexo para os docentes da educação básica: assegurar, através da leitura, escrita e cálculo, a aprendizagem escolar.
Por que o domínio básico de lectoescrita se tornou tão desafiador para o sistema de ensino escolar? Por que ensinar a ler não é tão simples? Como desvelar o enigma do acesso ao código escrito? Em geral, quando nos deparamos com as dificuldades de leitura ou de acesso ao código escrito, esperamos dos especialistas métodos compensatórios para sanar a dificuldade.
Nenhuma dificuldade se vence com método mirabolante. O melhor caminho, no caso da leitura, é o entendimento lingüístico, do fenômeno lingüístico que subjaz ao ato de ler. Ler é ato de soletrar, de decodificar fonemas representados nas letras, reconhecer as palavras, atribuir-lhes significados ou sentidos, enfim, ler, realmente, não é tão simples como julgam alguns leigos.
O primeiro passo, nessa direção, o de ensinar o aluno a aprender a ler antes para praticar estratégias de leitura depois, em outras palavras, de atuar eficientemente com as dificuldades do acesso ao código escrito, as chamadas dificuldades leitoras ou dislexias pedagógicas, é ensinar o aluno a aprender mais sobre os sons da língua, ou melhor, como a língua se organiza no âmbito da fala ou da escrita.Quando me refiro à fala, estou me referindo, sobretudo, aos sons da fala, aos fonemas da língua: consoantes, vogais e semivogais.
A leitura, em particular, tem sua problemática agravada por conta de dificuldades de sistematização dos sons da fala por parte da pedagogia ou metodologia de plantão: afinal, qual o melhor método de leitura? O fônico ou o global? Como transformar a leitura em uma habilidade estratégica para o desenvolvimento da capacidade de aprender e de aprendizagem do aluno?
Assim, um ponto inicial a considerar é a perspectiva que temos de leitura no âmbito escolar. Como lingüística, acredito que a perspectiva psicolingüística responde a série de questionamentos sobre o fracasso da leitura na educação básica. Em geral, os docentes não partem, desde o primeiro instante de processo de alfabetização escolar, da fala. A fala recebe um desprezo tremendo da escola e é fácil compreender o porquê: a escrita é marcador de ascensão social ou de emergência de classe social.
A escrita é ideologicamente apontada como sendo superior a fala. A tal ponto podemos considerar essa visão reducionista da linguagem, que quem sabe falar, mas não sabe escrever, na variação culta ou padrão de sua língua, não tem lugar ao sol, não tem reconhecimento de suas potencialidades lingüísticas. Claro, a escrita não é superior a fala nem a fala superior a escrita. Ambas, interdependentes. A alma e o papel, o pensamento e a linguagem, a fala e a memória, todos esses componentes têm um papel extraordinário na formação para o leitor proficiente.

Bibliografia:

1. ABUD, Maria José Millarezi. O ensino da leitura e da escrita na fase inicial de escolarização. São Paulo: EPU, 1987. (Coleção temas básicos de educação e ensino)
2. ALLIEND, G. Felipe, CONDEMARÍN, Mabel. Leitura: teoria, avaliação e desenvolvimento. Tradução de José Cláudio de Almeida Abreu. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.
3. BETTELHEIM, Bruno, ZELAN, Karen. Psicanálise da alfabetização. Tradução de José Luiz Caon. Porto Alegre: Artmed, 1984.
4. BOUJON, Christophe, QUAIREAU, Christophe. Atenção e aproveitamento escolar. Tradução de Ana Paula Castellani. São Paulo: Loyola, 2000.
5. CARDOSO-MARTINS, Cláudia (org.). Consciência fonológica e alfabetização.Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.
6. CARVALHO, Marlene. Guia prático do alfabetizador. 4ª ed. São Paulo: Ática, 1999.
7. CASTELLO-PEREIRA, Leda Tessari. Leitura de estudo: ler para aprender a estudar e estudar para aprender a ler. Campinas, SP: Alinea, 2003.
8. CATACH, Nina (org.). Para uma teoria da língua escrita. Tradução de Fulvia M. L Moretto e Guacira Marcondes Machado. São Paulo: Ática, 1996.
9. CATANIA, A. Charles. Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição. 4ª ed. Tradução de Deisy das Graças de Souza. Porto Alegre: Artmed, 1999.
10. CHAPMAN, Robin S. Processos e distúrbios na aquisição da linguagem. Tradução de Emilia de Oliveira Diehl e Sandra Costa. Porto Alegre: Artmed, 1996.
11. COHEN, Rachel, GILABERT, Hélène. Descoberta e aprendizagem da linguagem escrita antes dos 6 anos. Tradução de Clemence Marie Chantal Jouët-Pastre et ali. São Paulo: Martins Fontes, 1992. (Coleção Psicologia e Pedagogia)
12. COLL, César, MARCHESI, Álvaro e PALACIOS, Jesús. Desenvolvimento psicológico e educação: volune 3, transtornos do desenvolvimento e necessidades educativas especiais. 2 ed. Tradução Fátima Murad. Porto Alegre: Artmed, 2004.
13. COLOMER, Teresa, CAMPS, Anna. Ensinar a ler, ensinar a compreender. Tradução de Fátima Murad. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002.
14. CONDEMARÍN, Mabel e MEDINA, Alejandra. A avaliação autêntica: um meio para melhorar as competências em linguagem e comunicação. Tradução de Fátima Murad. Porto Alegre: Artmed, 2005
15. CONDEMARÍN, Mabel, GALDAMES, Viviana, MEDINA, Alejandra. Oficina da linguagem: módulos para desenvolver a linguagem oral e escrita. 1ª ed. Tradução de Marylene Pinto Michael. São Paulo: Moderna, 1999.
Vicente Martins é professor da Universidade Estadual vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.

DISLEXIA E O PROJETO GENOMA HUMANO

0

DISLEXIA E O PROJETO GENOMA HUMANO

A dislexia é um problema que se detecta em crianças que sofrem dificuldades de leitura. Os testes psicopedagógicos, com uma relativa precisão, diagnosticam as dificuldades de aprendizagem relacionadas à linguagem. Todavia, qual a origem da dislexia ou das dislexias? Os maus leitores são conseqüências de maus métodos do ensino da leitura? A dislexia é hereditária?
Há uma lista interminável de causas atribuídas à dislexia. Psicólogos, oftalmologistas, neurologistas, neuropsicólogos, pediatras, pedagogos, psicopedagogos, lingüistas, neurolingüistas e psicolingüistas, todos têm uma explicação ou uma etiologia da dislexia, apontando, entre outros fatores, problemas sócio-efetivos, visuais, auditivos, motores, neurológicos, fonológicos e, agora, com o Projeto Genoma Humano, geneticistas europeus acreditam que as alterações cromossômicas estão associadas ao transtorno da leitura.
Como lingüista, tenho uma forte inclinação para considerar que as dificuldades de leitura são problemas de consciência fonológica das crianças, na educação infantil e no processo de alfabetização escolar, indicando o déficit lingüístico como a principal causa da dislexia.
Minha investigação sobre o assunto, nos últimos sete anos, revela que a incapacidade do reconhecimento dos fonemas e letras é um componente que pesa muito na hora de a criança ler e compreender o que lê ou no simples ato lingüístico de soletrar palavras. Sem embargo, confesso que me rendo às recentes descobertas dos quatro genes ligados à dislexia.
Chega-nos, através da revista britânica Journal Of Medical Genetics, a informação de que são quatro os genes de suscetibilidade à dislexia: o DYX1, o DYX2, o DYX3 e o DYX4. Observem que determino cada gene, antepondo o artigo definido em todos os símbolos genéticos, o que significa que já foram localizados e mapeados pelos pesquisadores. São genes em diferentes posições, o que nos leva a suspeitar do caráter heterogêneo dos transtornos de leitura.
O gene de descoberta mais recente é o DYX3, do cromossomo 2, que vem merecendo especial atenção dos estudiosos na área de Linguagem, especialmente os neurolingüistas e psicolingüistas, por ser resultado de uma pesquisa levada a cabo pelo doutor Toril Fagerheim, do Hospital Universitário de Tromsoe, na Noruega. O doutor Fagerheim coordenou uma equipe multinacional de médicos e descobriu o gene DYX3 após estudar 36 membros de uma família noruega com antecedentes de dislexia.
O segundo passo agora é clonagem dos genes. Clonando o gene DYX3, os geneticistas poderão demonstrar a natureza e a freqüência dos genes envolvidos nas alterações de leitura e linguagem.
A descoberta do gene e de seu funcionamento é de extrema importância para a pedagogia da leitura. Uma vez sendo identificado um gene ligado à dislexia, na criança em idade escolar, provavelmente não poderemos, ainda, oferecer uma cura, não obstante, para a pediatria ou neurologia a intervenção médica será reorientada e os professores, por sua vez, poderão intervir pedagogicamente, isto é, de forma mais individual, precisa e eficaz, no processo de aprendizagem da leitura.
Certo é que os pesquisadores do Projeto Genoma Humano descobrem, a cada momento, que não existem mais dúvidas de que componentes genéticos estão envolvidos com os transtornos de leitura e escrita. Os médicos e os profissionais da educação escolar se rendem também à biotecnologia.
Uma outra pesquisa, não menos importante do que a de Toril Fagerheim, está sendo feita pelo neuropsicólogo Frank Wood, da Universidade de Forest Wake, e revela que outros cromossomos (6, 1,2 e 15) têm relações com a inabilidade de algumas crianças no processamento do texto.
Estas descobertas genômicas, no momento, levam-nos a especulações de diversas ordens. Uma delas é a implicação ética do fazer pedagógico. É bem provável que, no futuro, a identificação dos leitores será feita através de um microchip, que descreverá nossos defeitos e qualidades nas habilidades lingüísticas (leitura, escrita, fala e escuta).
Estamos aqui a esperar que a lingüística se transforme em uma biotecnolingüística (o neologismo é meu) em que a dificuldade de leitura não será mais chamada de dislexia e sim, simplesmente, desordem genética.

Autor: Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), Sobral, Ceará.

EDUCAÇÃO GREGA

0

EDUCAÇÃO GREGA

“Educar é ensinar a caminhar sozinho”
(Sociedade dos Poetas Mortos)

INTRODUÇÃO

A educação na Grécia teve formas diferentes. No decorrer deste trabalho, veremos essas diferenças. Em Esparta ela assume um papel de preparação para a guerra. Entretanto, em Atenas assume uma papel mais intelectual.

Na Grécia foi o local onde fluiu a sofistica, mesmo que, não tenha sido a Grécia o local de origem da sofistica. Os sofistas tiveram grande importância na profissionalização da educação. Além disso, a Grécia é considerada como o berço da pedagogia.

No decorrer deste trabalho veremos todos esses aspectos da educação grega e as contribuições que ela trouxe até os dias de hoje.

A ANTIGUIDADE GREGA: A PAIDÉIA

Foi devido ao poder econômico de seu império que a Pérsia conseguiu dominar todo o oriente. No entanto, vencidos contra os gregos, os persas perderam o predomínio sobre os outros Estados da Antigüidade. Dessa forma, a hegemonia econômica se deslocou das civilizações do Oriente próximo para a civilização grega.

Veremos a seguir como a civilização grega conquistou o poderio econômico sobre todo o mundo antigo e acabou perdendo-o para o Império Romano.

* Período Pré-Homérico (2500-1100 a.C.), período que aconteceu a formação do povo grego.

* Período Homérico (1100-800 a.C.), fase retratada pelos poemas de Homero, Ilíada e Odisséia.

* Período Arcaico (800-500 a.C.), fase da formação das cidades-estado: a escrita, a moeda, a lei e a pólis.

* Período Clássico (500-400a.C), fase correspondente ao apogeu da civilização grega.

* Período Helenístico (336-146 a.C.), fase da decadência da Grécia.

A Grécia está localizada a leste do mar Mediterrâneo, na Península Balcânica, apresentando relevo acidentado e um litoral recortado por golfos e bóias, banhado pelo mar Egeu e pelo mar Jônio.

O território grego é cortado ao meio pelo golfo de Corinto. Ao norte desse golfo localiza-se a Grécia continental; ao sul, a Grécia peninsular.

Devido ao relevo marcadamente montanhoso, a prática da agricultura releva-se difícil na Grécia, registrando-se um quinto das terras. Assim, o comércio tornou-se a atividade econômica básica.

FORMAÇÃO DO POVO GREGO

O período anterior à formação do povo grego é denominado pré-Homérico, ou da Grécia Primitiva na região ocupada pela população autóctone – isto é, originária da própria região -, desenvolveu-se a civilização creto-Micênica, cujos principais centros eram a cidade de Micenas e a Ilha de Creta.

Os cretenses foram fundadores do primeiro império marítimo de que se tem notícia, e os mesmos cultivavam vinhas, cereais e oliveiras que utilizavam para seu próprio consumo ou para exportar para outras regiões. Ensinados por outros povos tornaram-se hábeis artesãs, trabalhando principalmente com metais e cerâmica.

Utilizando as madeiras , construíram navios de até vinte metros de comprimento. São famosos seus edifícios públicos, embora não tenham ficado vestígios dessas construções.

Cnossos, a capital de Creta, era uma cidade de grandes palácios, onde viviam reis (chamados Minos) cercados de uma poderosa nobreza, o que refletia sua pujança econômica.

A partir do século XX a.C., sucessivas invasões de tribos nômades, de origem indo-européia, abalaram o vigor cultural creto-micênico. Aqueus, Jônios, Eólios e Dórios saquearam e destruíram a região e assimilaram parte dos costumes e das instituições formando, pela mistura racial e cultural, o povo grego.

A civilização Micênica se desenvolve desde o início do segundo milênio, constituída por diversos povos, sobretudo os Aqueus, que se estabeleceram com um regime de comunidade primitiva. Com o tempo, forma-se uma aristocracia militar: a figura do guerreiro tem importância cada vez maior, e os chefes mais destacados vivem nos castelos de Tirinto e Micenas. No século XII a. C., partem Agaménon, Aquiles e Ulisses para sitiar e conquistar Tróia, no litoral da Ásia Menor. No final desse mesmo século ocorre a invasão dos Bárbaros Dórios, que mergulham a Grécia em um período obscuro até o século IX. Muitos Aqueus fugiram para a Ásia Menor, onde fundam colônias e prosperam pelo comércio.

AS TRANSFORMAÇÕES DA MENTALIDADE: DO MITO À RAZÃO.

A Concepção mítica do homem nos poemas homéricos

Até o século VI a.C. pode-se dizer que na Grécia ainda predomina uma concepção mítica do mundo. Isso significa que as ações humanas se acham explicadas pelo sobrenatural, pelo destino, pela interferência divina. Os mitos gregos são escolhidos pela tradição e são transmitidos oralmente pelo aedos e rapsodos, cantores ambulantes que dão forma poética a esses relatos e os recitam de cor em praça pública. Dentre estes, destacamos Homero, provável autor das epopéias Ilíadas, que trata da guerra de Tróia (Illion, em grego), e da Odisséia, que relata o retorno de Ulisses (odisseus, em grego) a Ítaca, após a guerra de Tróia.

A Emergência da Consciência Racional

O surgimento da filosofia na Grécia não é na verdade, um salto realizado por um povo privilegiado, mas a culminância de um processo que se fez através de milênios e para o qual concorreram diversas transformações.

– A escrita gera uma nova idade mental fixando a palavra, e consequentemente, o mundo para além daquele que o profere.

– E o advento da lei escrita ? Drácon, Sólon e Clístenes são os primeiros legisladores que marcam uma nova era.

– A invenção da Moeda desempenha um papel revolucionário. Muito mais do que um metal precioso que se troca por qualquer mercadoria, a moeda é um artifício racional, uma convenção humana, uma noção abstrata de valor.

– A pólis se faz pela autonomia da palavra: não mais a palavra mágica dos mitos, concedida pelos deuses e, portanto, comum a todos, mas a palavra humana do conflito, da discursão, da argumentação.

– Decorre disso tudo uma nova concepção de virtude (areté), diferente da virtude do guerreiro belo e bom. Se antes a virtude era ética, aristocrática, agora é política, voltada para o ideal democrático da igual repartição do poder.

– A filosofia, “filha da cidade”: a filosofia surge como problematização e dicursão de uma realidade antes não questionada pelo mito.

A EDUCAÇÃO ESPARTANA

Grécia achava-se dividida em Cidades-Estado, das quais as mais conhecidas são as antagônicas Esparta e Atenas. Esparta ocupava o fértil vale do rio Eurotas, na região da Lacônia, ao sudeste da península do Peloponeso.

No oitavo e no sétimo século a.C, Esparta travou uma guerra com Missênia. Essa guerra teve por motivo básico o desejo de Esparta de se apoderar das terras férteis dessa região, que eram as melhores de todo o Peloponeso.”(PEDRO. Antônio & CÁCERES. Florival. História Geral. p. 48).

“Por volta do século IX, o legislador Licurgo organiza o Estado e a educação. De início os costumes não são tão rudes, e a formação militar é entremeada com a esportiva e a musical. Com o tempo e, sobretudo no século IV a.C. quando Esparta derrota Atenas – o rigor da educação se assemelha à vida de caserna” (ARANHA. Maria Lúcia de Arruda. História da Educação. p. 38).

“A visão que os gregos tinham do mundo os distinguia de todos os demais povos do mundo antigo, ao contrário destes, os gregos em vez de colocarem a razão humana a serviço dos deuses ou dos deuses monarcas, enalteceram a razão como instrumento a serviço do próprio homem (…) Recusavam qualquer submissão aos sacerdotes e tampouco se humilhavam diante dos seus deuses. Glorificavam o homem como o ser mais importante do universo (…) O primeiro povo a enfrentar explicitamente o problema da natureza, as idéias, as tarefas e objetivos do processo educativo foi o povo grego. Os alicerces institucionais dessa atitude encontram-se na realidade sócio-poética da Grécia, processo que se realiza entre 1200 e 800 a.C. Trata-se do período pré-Homérico (GILES. Thomas Ranson. História da Educação. p. 11). Esse período recebeu esse nome, devido ao conhecimento baseado na interpretação da lendas contidas nos poemas épicos: A ILÍADA e A ODISSÉIA, que a tradição atribui ao poeta grego Homero (op. cit. p. 46)

“Nessa época as principais ocupações são a agricultura e o pastoreio. Excetuando-se algumas formas de artesanato, não há especialização, e a estratificação da sociedade é mínima”

EDUCAÇÃO ATENIENSE

Atenas passou pelas mesmas fases de desenvolvimento de Esparta; mas enquanto Esparta se deteve na fase guerreira e autoritária, Atenas priorizava a formação intelectual sem deixar de lado a educação física que não se reduzia apenas a uma simples destreza corporal mas que vinha acompanhada por uma preocupação moral e estética.

A primeira parte de sua cultura aparecem formas simples de escolas e a educação deixa de ficar restrita à família e a partir dos 7 anos começava a educação propriamente dita, que compreendia a educação física, a música e a alfabetização. O pedotriba era o responsável em orientar a educação física na palestra onde os exercícios físicos eram praticados.

Além da educação física, a educação musical era extremamente valorizada não se limitando apenas à música mas também a poesia, canto e a dança. Os locais que eram praticados eram geralmente as palestras ou, então, em lugares especiais. O ensino elementar como a leitura e a escrita durante muito tempo não teve a sua devida atenção como teve as práticas esportivas e musicais tanto que os mestres eram geralmente pessoas humildes e mal pagas e não tinham tanto prestigio quanto o instrutor físico.

Com o passar do tempo foi se exigindo uma melhor formação intelectual delineando-se três níveis de educação: elementar, secundária e superior. O didáscalo era o responsável em ensinar a leitura e a escrita em locais não definidos e com métodos que dificultam a aprendizagem e por volta dos 13 anos completava-se a educação elementar.

Aqueles que tinham maiores condições de continuar os seus estudos entravam para a educação secundária ou ginásio onde, inicialmente, eram praticados os exercícios físicos e musicais, mas com o tempo deu-se lugar as discussões literárias abrindo espaço para o estudo de assuntos gerais como a matemática, geometria e astronomia principalmente a partir das influências dos professores. O termo secundário chegou mais próximo do seu conceito atual quando foram criadas as bibliotecas e salas de estudos.

Dos 16 aos 18 anos, a educação superior só se dá com os sofistas, que mediante retribuições elevadas se encarregavam de preparar a juventude para a oratória. Sócrates, Platão e Aristóteles também ministravam a educação superior.

Neste contexto não havia uma preocupação com o ensino profissional, pois estes eram aprendidos no próprio mundo do trabalho com exceção da medicina que era uma profissão altamente valorizada entre os gregos e que tomavam como parte integrante da cultura grega.

A EDUCAÇÃO NO PERÍODO HELENÍSTICO

No final do século IV a. C., inicia-se a decadência das cidades-estados gregos assim como a sua autonomia e a força da cultura helênica se funde à das civilizações que a dominam se universaliza e converte-se em helenísticas; nesse período a antiga Paidéia, torna-se enciclopédia ou seja, educação geral” consistindo na ampla gama de conhecimentos exigidos na formação do homem culto diminuindo ainda mais o aspecto físico e estético.

Nesse período eleva-se o papel do pedagogo com a criação do ensino privado e o desenvolvimento da escrita, leitura e o cálculo. O conteúdo abrangente das disciplinas humanistas (gramática, retórica e dialética) e quatro científicas (aritimética, música, geometria e astronomia). Além do aperfeiçoamento do estudo da filosofia e, posteriormente, o de teologia na era cristã. Inúmeras escolas se espalham e da junção de algumas delas (Academia e Liceu) é formada a Universidade de Atenas, foco importante de fermentação intelectual, que perdura inclusive no período de dominação romana.

PERÍODO CLÁSSICO

Atenas havia se tornado o centro da vida social, política e cultural da Grécia, em virtude do crescimento das cidades, do comércio, do artesanato e das artes militares. Atenas viva seu momento de maior florescimento da democracia. “A democracia grega possuía duas características de grande importância para o futuro da filosofia. Em primeiro lugar, a democracia afirmava a igualdade de todos os homens adultos perante as leis e o direito de todos de participar diretamente do governo da cidade, da polis. Em segundo lugar, e como conseqüência, a democracia, sendo direta e não por eleição de representantes no governo, garantia a todos a participação no governo e os que dele participavam tinham direito de exprimir, discutir e defender em público suas opiniões sobre as decisões que a cidade deveria tomar. Surgia assim, a figura do cidadão”. (CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, p. 36).

Contudo, é bom lembrarmos que as opiniões, não eram simplesmente jogadas às assembléias e aceitas por elas, era necessário que o cidadão além de opinar, falar, deveria também buscar persuadir a assembléia, daí o surgimento de profundas mudanças na educação grega, pois antes da democracia as famílias aristocratas eram donas não só da terra como também do poder. A educação possuía um padrão criado por essas famílias que era baseado nos dois poetas gregos Homero e Hesíodo que afirmava que o homem ideal era o guerreiro belo e bom.

Entretanto, com a chegada da democracia, o poder sai das mãos da aristocracia e, “esse ideal educativo vai sendo substituído por outro. O ideal de educação do Século de Péricles é a formação do cidadão.”(IDEM. P. 36)

O cidadão somente se faz cidadão a partir do momento em que

exerce seus direitos de opinar, discutir, deliberar e votar nas assembléias. Dessa forma, o novo ideal de educação é a formação do bom orador, ou seja, aquele que saiba falar em público e persuadir os outros na política.

Para suprir a necessidade de dar esse tipo de educação aos jovens em substituição a educação antiga, surgem os sofistas que foram os primeiros filósofos do Período Clássico. Em síntese, os sofistas surgem por razões políticas e filosóficas, entretanto, mais por funções políticas.

Os sofistas foram filósofos que surgiram de várias partes do mundo e não tinham portanto, uma origem bem definida. “Sofista significa (…) “sábio” – “professor de sabedoria”. (…)[Em] um sentido pejorativo, passa a significar “homem que emprega sofismas”, ou seja, homem que usa de raciocínio capcioso, de má-fé com intenção de enganar.

Os sofistas contribuíram bastante para a sistematização da educação. Eles se julgavam sábios, possuidores da sabedoria e como Atenas passava por uma fase de crescimento cultural e econômico e paralelo a isto, o surgimento da democracia, os sofistas ensinavam principalmente a retórica, que é a arte da persuasão, instrumento principal para o cidadão que vivia a democracia. Contudo, é bom ressaltar que não ensinavam de graça, mas cobravam, e bem, por seus ensinamentos. Isso teve grande contribuição na profissionalização da educação.

Entretanto, por cobrarem e se julgarem sábios e possuidores da sabedoria, foram bastante criticados por Sócrates e seus seguidores, haja vista que para Sócrates o verdadeiro sábio é aquele que reconhece sua própria ignorância. Para combater os sofistas, Sócrates desenvolve dois métodos que são bastantes conhecidos até os dias de hoje: a ironia e a maiêutica. O primeiro consiste em conduzir, através de questionamentos, o ouvinte que até o momento está convencido de que domina completamente determinado conteúdo, de que este não sabe realmente tudo. A partir do momento em que este se convence disto, Sócrates passa a utilizar o segundo método que é a maiêutica, que significa dar luz às idéias. Nesse momento o ouvinte consciente de que não sabe tudo busca saber mais buscando respostas por si próprio.

A PEDAGOGIA GREGA

O termo pedagogia é de origem grega e deriva da palavra paidagogos, nome dado aos escravos que conduziam as crianças à escola. Somente com o tempo, esse termo passa a ser utilizado para designar as reflexões feitas em torno da educação. Assim, a Grécia clássica pode ser considerada o berço da pedagogia, até porque é justamente na Grécia que tem início as primeiras reflexões acerca da ação pedagógica, reflexões que vão influenciar por séculos a educação e a cultura ocidental.

Os povos orientais acreditavam que a origem da educação era divina. O conhecimento que circulava na comunidade resumia-se aos seus próprios costumes e crenças. Essa realidade impedia uma reflexão sobre a educação, uma vez que esta era rígida e estática, fruto de uma organização social teocrática. A divindade, portanto, era autoridade máxima, logo, sua vontade não poderia ser contestada.

Na Grécia Clássica, pelo contrário, a razão autônoma se sobrepõe às explicações puramente religiosas e místicas. A inteligência crítica, o homem livre para pensar e formar os juízos a cerca da sua realidade, preparado não para submeter-se ao destino, mas para influenciar e ser agente de transformação como cidadão, eis no que resume-se a revolucionária concepção grega da educação e seus fins.

Dentro dessa nova mentalidade, surgem várias questões cuja reflexão visa enriquecer os fins da educação. Como por exemplo:

– O que é melhor ensinar ?

– Como é melhor ensinar ?

Essas questões enriquecem as reflexões de vários filósofos e dão origem à dimensões tendenciosas. Para entendermos melhor é necessário fazermos a divisão clássica da filosofia grega, não esquecendo que o eixo central é Sócrates:

Período pré-socrático (Século VII e VII a.C.); os filósofos das colônias gregas que iniciam o processo de separação entre a filosofia e o pensamento mítico.

Período socrático (Séculos V e IV a.C.) Sócrates, Platão e Aristóteles. Os sofistas são contemporâneos de Sócrates e alvos de suas críticas. Isócrates também é desse período.

Período pós-socrático (Séculos III e II a.C.) época helenística, após a morte de Alexandre. Fazem parte ainda as correntes filosóficas mais famosas: o estoicismo e o epicurismo.

PERÍODO PRÉ-SOCRÁTICO

O período pré-socrático inicia-se por volta do século VI a.C., quando aparecem os primeiros filósofos nas colônias gregas da Jônia e na Magna Grécia. Podemos dividi-los em várias escolas:

Escola Jônica: fazem parte os seguintes filósofos: Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Empídoeles;

Escola Itálica: Pitágoras;

Escola Eleática: Xenófones, Parmênides, Zenão;

Escola Atomista: Gencipo e Demócrito.

Esse período caracteriza-se como uma nova forma de analisar e ver a realidade. Antes esta era analisada e entendida, apenas do ponto de vista mítico, agora é proposto o uso da razão, o que não significa dizer que a filosofia vem para romper radicalmente com o mito, mas sim para suscitar o uso da razão no esclarecimento, sobretudo da origem do mundo.

Os antigos relatos míticos da origem, inicialmente transmitidos oralmente e depois transformados em poemas por Homero e Hesíodo, são questionados pelos pré-socráticos, cujo objetivo principal é explicar a origem do mundo a partir do “arché” ou seja, o elemento originário e constitutivo de todas as coisas.

Nessa busca de desvendar racionalmente a origem, cada um surge com uma explicação diferente, como por exemplo:

– Tales: a origem é a água;

– Anaxímenes: a origem é o ar;

– Anaximandro: a origem está no movimento eterno que resulta na separação dos contrários (quente e frio, seco e úmido, etc.)

– Heráclito: tudo muda, tudo flui. A origem reside num constante ‘devir”.

– Parmênides: A origem está na essência: o que é, é e não pode ser ao mesmo tempo.

Outra diferença que podemos notar entre a filosofia nascente e as concepções míticas é que esta era estática, ou seja, não admitia reflexões ou discordância. A filosofia nascente por sua vez, deixa o espaço livre para reflexão, daí cada filósofo surgir com uma explicação diferente para o “arché”, ou seja, a origem.

Apesar dessas diferenças, vale ressaltar que não há uma ruptura radical com o pensamento mítico, permanecendo este, presente em algumas explicações desses filósofos frente às divindades, uma vez que este não aceita a interferência dessas nas explicações. Assim, a “phisys” (natureza)é dessacralizada e todas as afirmações passam a exigir fatos que justifiquem as idéias expostas.

Toda essa mudança de pensamento é de fundamental importância para o enriquecimento das reflexões pedagógicas em busca de uma educação ideal que faça do homem grego senhor de si mesmo, combatendo assim, as velhas idéias de submissão às explicações puramente mitológicas.

O PENSAMENTO DE PLATÃO

Se Sócrates foi o primeiro grande educador da história, Platão foi o fundador da teoria da educação, da pedagogia, e seu pensamento foi baseado na reflexão pedagógica, associada à política.

Platão nasceu em Atenas (428 -347 a.C.) de família nobre. Foi discípulo de Sócrates, que induziu ao estudo da filosofia. O vigor de seu pensamento nos faz questionar sempre o que de fato é socrático e que já é sua criação original.

Para que possamos compreender a proposta de Platão, não podemos dissociá-la do projeto inicial que é, antes de tudo, político: vejamos algumas características do pensamento filosófico de Platão.

Platão se preocupou a vida inteira com os problemas políticos. A situação de seu país, saído de uma tirania, o impede de participar ativamente da vida política, em compensação, de dica a esta, grande parte de seus escritos entre eles as obras mestras, A República e as leis.

No livro VII de A República, Platão relata o mito da caverna. A análise deste mito pode ser feita pelo menos sob dois pontos de vista:

1. Epistemológico (relativo ao conhecimento): compara o acorrentado ao homem comum que permanece dominado pelos sentidos e só atinge um conhecimento imperfeito da realidade.

2. Político: quando o homem se liberta dos grilhões é o filósofo, ultrapassa o mundo sensível e atinge o mudo das idéias, passando da opinião à essência, deve se dirigir aos homens para orientá-los. Cabe ao sábio dirigir, sendo-lhe reservada a elevada função da ação política.

A UTOPIA PLATÔNICA

Platão propõe uma utopia, onde são eliminadas a propriedade e a família, e todas as crianças são criadas pelo estado, pois para Platão, as pessoas não são iguais, e por isso devem ocupar posições diferentes e serem educadas de acordo com essas diferenças.

Até os 20 anos, todos merecem a mesma educação. Ocorre o primeiro corte e definem-se quem tem “alma de bronze”, são os grosseiros, devem se dedicar a agricultura, comércio e ao artesanato.

Mais dez anos de estudo, se dá o segundo corte. Aqueles que tem “alma de prata”. É a virtude da coragem. Serão guerreiros que cuidarão da defesa da cidade, e a guarda do rei.

Os que sobrarem desses cortes por terem “alma de ouro” serão instruídos na arte de dialogar e preparados para governar.

Quando analisamos o postulado platônico voltado para sua época, é visível uma dicotomia na relação corpo e espírito.

Na Grécia Antiga, o cuidado com o aspecto físico do corpo merecia uma atenção muito especial. No entanto, Platão apesar de reconhecer a importância atribuída aos exercícios físicos, acreditava que uma outra educação merecia relevante atenção ao ponto de ser superior às questões corporais. Trata-se da educação espiritual. No desenvolvimento de seus argumentos, ao tratar da superioridade da alma sobre o corpo, Platão explicita que a alma ao ter que possuir um corpo, torna-se degradante. Para Platão o corpo possui uma alma de natureza inferior que dividida em duas partes: uma que age irrefletidamente, de maneira impulsiva e outra voltada para os desejos e bens materiais. Argumenta ainda que todo problema humano está centrado na tentativa de superar a alma inferior através da alma superior. Se esta não controlar a alma inferior, o homem será incapaz de possuir um comportamento moral.

Nesta concatenação está explícito o ideal pedagógico na concepção platônica. O conhecimento para ele é resultado do lembrar do que a alma contemplou no mundo das idéias. Nesse sentido a educação consiste no despertar no indivíduo do que ele já sabe e não no apropriar de um conhecimento que está fora. Ele enfatiza ainda a necessidade da educação física no sentido de que esta proporcione ao corpo uma saúde perfeita, evitando que a fraqueza torne-se um impecílio à vida superior do espírito.

Outro aspecto na pedagogia platônica é a crítica que se faz aos poetas. Na época, a educação das crianças eram baseadas em poemas heróicos da época, contudo, ele diz que a poesia deveria ser restrito ao gozo artístico e não ser usada na educação. Argumenta que ao ser trabalhado uma imitação, como as dos textos das epopéias, o conhecimento verdadeiro torna-se cada vez mais distante: “o poeta cria um mundo de mera aparência”.

Em Aristóteles (384-332 a.C.)podemos perceber um outro aspecto da pedagogia grega. Apesar deste ser discípulo de Platão, conseguiu ao longo do tempo, através de influências, inclusive a do seu pai, superar o que herdou de seu mestre. Aristóteles desenvolveu, ao contrário de Platão, uma teoria voltada para o real, onde procurava explicar o movimento das coisas e a imutabilidade dos conceitos. Trabalho totalmente divergente à superioridade do mundo das Idéias desenvolvida por Platão.

Em seu raciocínio, ao explicar a imutabilidade dos conceitos, Aristóteles afirmava que todo ser possui um “suporte aos atributos variáveis”, ou melhor, esse ser ou substância possui variáveis e que essas variáveis são, em síntese, características que geralmente damos a ele e ressalta que algumas dessas características assumem valores essenciais no sentido de que se estas faltarem o ser não será o que é. Por outro lado, existem outros que são acidentais, uma vez que sua variação necessariamente não irá alterar a essência do ser. Ex.: velho, novo.

Outros conceitos também são usados por Aristóteles para a explicação do ser. Conceitos intimamente ligados como forma e matéria são em seu postulado ricos e, tal explicação, uma vez que ele considera a forma como princípio inteligível. Uma essência que determina a todos que são o que são. “Numa estátua por exemplo, a matéria é o mármore; a forma é a idéia que o escultor realiza”. Assim como os pré-socráticos Heráclito e Parmênides, Aristóteles, também se preocupou com o devir, com o movimento e conseqüentemente às suas causas. Ainda se utilizando dos conceitos de forma e matéria, ele argumenta que tudo tende a atingir a sua forma perfeita, assim uma semente de uma árvore, tende a se desenvolver e se transformar em uma árvore novamente. Dessa maneira tudo para Aristóteles tem um devir, um movimento, uma passagem do que ele chama de potência para o ato.

Aristóteles ao fazer tal abordagem, comenta ainda que o movimento assume algumas características: movimento qualitativo onde uma dada qualidade é alternada; movimento quantitativo em que se percebe a variação da matéria e por fim o movimento substancial onde o que se tem um existência ou inexistência, o que nasce ou que se destrói.

Escrito nas Estrelas – Sidney Sheldon

0

Escrito nas Estrelas – Sidney Sheldon

Lara Cameron, depois de uma tortuosa infância, decide tornar-se uma incorporadora imobiliária em uma pequena cidade da Nova Escócia, Glace Bay. Para conseguir adquirir um terreno, pede emprestado muito dinheiro ao banqueiro local, Sean MacAllister. O velho, que não queria pôr tanto dinheiro nas mãos de uma moça de dezessete anos, diz a Lara que para ele lhe emprestar o dinheiro ela deveria dar um bom motivo a ele, ou seja, que fosse para a cama com ele. Lara pensa em toda a dificuldade por que passou até chegar onde estava e resolve ceder. Assim, consegue o dinheiro e financia seu primeiro prédio, que é rapidamente locado por uma grande empresa, tornando-a instantaneamente numa grande empresária do ramo imobiliário.
Depois do primeiro sucesso, a trama se desenrola pelo difícil caminho trilhado pelos incorporadores imobiliários. Após ganhar muito dinheiro, prestígio e fama, Lara encontra um amor verdadeiro e acaba se casando com um pianista de categoria internacional, Philip Adler.

Lara se tornou rainha em um universo tradicionalmente dominado por homens, conquistando assim fortuna e renome além de qualquer expectativa. Porém, um presente de glórias e sucesso oculta um passado sombrio e repleto de monstros que ameaçam retornar e destruir tudo que Lara construiu. Alguém planeja uma vingança que, se bem-sucedida, fará com que Lara perca não só sua reputação, como também o controle de seu império, ao qual ela dedicou toda a sua vida e muito de sua própria alma.

Tudo ia muito bem até que de repente começam os problemas. Ela lembra-se de seu pai, que colocava a culpa da pobreza da família no Destino. Daí o nome do livro, Escrito nas Estrelas. Apesar de todos os acontecimentos, Lara não perde as esperanças. Seu marido pianista é assaltado depois de um de seus shows, tendo a mão direita ferida brutalmente. E tudo desaba quando Lara descobre quem fez tamanha crueldade.

As Alegres Comadres de Windsor – William Shakespeare

0

As Alegres Comadres de Windsor – William Shakespeare

O Juiz-de-paz Shallow e seu sobrinho, Slender, queixando-se amargamente de Sir Jão Falstaff e dos maus companheiros que o cercam, Bardolfo, nym e Pistol, quando chega Page que os convida a beber todas as tristezas. Ao mesmo lugar, chega Falstaff que vem a conhecer as senhoras Ford e Page, ambas extremamente dominadoras no ambiente doméstico. Falstaff acredita logo haver conquistado o coração das duas senhoras e, conseqüentemente, entrega o Pistol e a Nym duas cartas de amor para serem entregues ás duas damas. ambos se negam a entregar as cartas, o que faz com que Falstaff os mande embora, enviando-as por intermédio de seu pagem, Robim. Surge a vingança:Pistol e Nym resolvem tudo contar aos esposos das duas damas. Enquanto isto, ana, filha do Senhor Page, anda ás voltas com três candidados . O primeiro é Slender, apoiado pelo próprio tio, Shallow, e por Sir Hugo Evans e preferiod pelo Senhor Page. O segundo é o Doutor Caius, médico francês e preferido pela Senhora Page. Finalmente um amigo do Príncipe Hal, cujo nome é Fenton e que não conta com o apoio de ninguém. Todos procuram o apoio da Senhora Quickly, em cuja casa mora o Dr. Caius e todos declaram que são os donos do amor de Ana. Há uma descoberta: o Dr. Caius vem a saber que Sir Hugo Evans enviou uma carta procurando favorecer a condidatura de Slender e desafia o sacerdote para um duelo.

As duas esposas recebem as cartas de Falstaff e juram tirar vingança do atrevimento do gordo cavaleiro. Auxiliadas pela Senhora Quickly, conhecedora profunda do assunto, cada uma delas envia uma lembrança a Falstaff. A Senhora Ford combina um encontro na ausência do marido e a Senhora Page lhe pede que envie o pagem. Page não sente ciúmes pela esposa. Ford, porém, disfarça-se em um tal Brook para descobrir o que existe. Fingindo-se apaixonado pela Senhora Ford, Brook pede a Falstaff que lhe sirva de intermediário e recebe a garantia de que antes do anoitecer ele terá a certeza de que Ford não passa de um patife e de um marido traído.
Nesse meio tempo, o taberneiro da estalagem da Jarreteira se diverte com o Dr. Caius e com Sir Hugo, fazendo-os ir a lugares diferentes, a fim de se encontrarem em duelo, mas, apesar de tudo, ambos se encontram e fazem as pazes. Quando Falstaff chega para o encontro marcado com a Senhora Ford, esta está justamente separando a roupa suja para mandar lavá-la.

Nem bem chegara o conquistador, quando entra a Senhora Page dizendo que Ford está a caminho de casa. Não tendo tempo de fugir, Falstaff, que se acultara atrás de uma tapeçaria á entrada da Senhora Page, manda todo o orgulho ás favas e auxiliado por Robim é metido pelas duas mulheres na cesta de roupa suja, coberto com a roupa que ia ser lavada, transportado para o rio e lá atirado no meio do lodo e da sujeira. Ford, embora muito desconfiado, nada encontra em casa que possa acusar a esposa. Todo molhado e sujo pelo banho que tomara, Falstaff recebe a visita da Senhora Quickly que vem pedir-lhe profundas desculpas pelo acidente que sofrera. Promete-lhe arranjar novo encontro com a Senhora Page. Brook recebe, também, a confidência do que lhe acontecera. Falstaff é aconselhado a não perder a esperança.

Novo encontro e novo aparecimento de Ford. A cesta já pronta está á espera do galanteador que prefere vestir-se de mulher, disfarçado numa tal Prat, mulher gorda detestada por Ford, o que faz com que receba uma surra, embora consiga escapar bem maltratado. As duas esposas resolvem, então contar aos maridos os planos que urdiram contra Falstaff e todos traçam um plano para a vitória final contra o pobre coitado.

Falstaff se dirige para o parque de Windsor e lá se encontra com as duas senhoras. Ouve-se um barulho. Ambas fogem e deixam o pobre conquistador sozinho. Sir Hugo, dissendo ajudado por Pistol, disfarçado em espantalho, pela estajadeira Quickly, como Rainha das Fadas, e vários outros rapazes fantasiados de duendes, fadas verdes e brancas. Durante a brincadeira, o Dr.Caius foge com uma fada vestida de verde, Slender com outra vestida de branco e Fenton com uma terceira. Ford, Page e as respctivas esposas surgem diante de Falstaff e, enquanto todos se divertem ás custas do pobre cavalheiro, o Dr. Caius e Slender descobrem que as belas fadas não passam de dois rapazes, ao passo que a bela Ana Page coubera a Fenton com quem se casa.

CINDERELA – CHARLES PERRAULT

0

CINDERELA – CHARLES PERRAULT

Cinderela era uma jovem de beleza incomparavel, tão bela era sua alma e tão agradável era sua presença, tinha brilho no olhar sereno, era magra, mas com medidas perfeitas. Sua mãe morreu quando ainda era muito pequena, seu pai era um comerciante bem-sucedido, que casou-se novamente com uma jovem senhora também viúva que tinha duas filhas, uma de mesma idade de Cinderela, a outra um pouco mais velha. Quando casou-se o pai sde Cinderela acreditava que a madrasta poderia cuidar e educar Cinderela assim como fazia com suas duas filhas. A madrasta a tratava com indiferença, mas perto do pai fingia muito bem gostar da bela garota. Depois da morte de seu pai, a madrasta nem parecia a mesma senhora que no velório derramou mares de lágrimas pelo marido morto, dizia amá-lo, porém quando este acabou a sete palmos, ela limpou os olhos e se tornou uma verdadeira bruxa para a jovem Cinderela. A madrasta ficou com todos os bens do pai de Cinderela inclusive a enorme casa. Cinderela se tornou então a empregada da casa, se quisesse comer, teria que trabalhar duro, passava o dia todo lustrando o enorme casarão até que nele não houvesse nem mesmo poeira. Cinderela era muito caprichosa com os afazes domésticos, era também rápida , apesar do tamanho da casa. As filhas da madrasta de Cinderela, a invejavam por sua beleza, delicadeza e coragem, por isso debochavam e faziam maldades para a pobre moça.

Certa vez, um soldado do rei foi até a casa anunciar que o Rei iria dar um baile no Castelo, a razão deste era que o príncipe encontrasse em uma das tantas jovens convidas, sua esposa, seu grande e único amor, alguém cujo coração fosse bom o suficiente para despertar no príncipe um sentimento chamado “amor”, fosse rica ou pobre, magra ou gorda, alta ou baixa, feia ou bela, todas as moças da região foram convocadas a ir ao Grande Baile.

A madrasta, logo mandou fazer dois belos vestidos para suas filhas, e vendo que a beleza de Cinderela superava da das moças de toda a região, não permitiu que ela fosse alegando que ela iria envergonhá-la perante o rei, pois ela não tinha trajes adequados para um baile como aquele. Cinderela então fez com a ajuda dos seus amigos animais um vestido feito de retalhos, simples mais bonito. Mas a madrasta sabendo que o príncipe somente teria olhos para a bela moça, rasgou seu vestido em pedaços, dizendo que ela não tinha ordem para usar os retalhos dos vestidos de suas filhas que foram jogados no lixo.

Cinderela subiu as escadas aos prantos, foi direto para o sotão, sue quarto e observando o Castelo da janela ficou por muito tempo, chorou, soluçou e rezou muito, implorou para que alguém acima atendesse suas preces, até que surgiu alguém, uma voz a falar com a pobre, era sua fada-madrinha, que usando de sua varinha mágica, fez surgir um belo vestido com o que sobrou dos trapos rasgados ao chão, depois fez uma abobora virar uma bela carruagem para Cinderela e seus amigos ratinhos viraram cocheiro e ajudantes da garota, depois entregou-lhe um par de sapatos de cristal, e avisou-lhe que retornasse antes da meia-noite ou seria descoberta pela madrasta quando todo o luxo se tornasse novamente o que eram.

Cinderela era a princesa mais bela de todo o baile, causou na madrasta e nas filhas que não reconheram Cinderela novamente olhares odiosos de ciúmes. O príncipe, logo que a moça chegou somente tinha olhos para ela, dançaram, sorriram, se divertiram juntos a noite toda, Cinderela se apaixonou pelo príncipe e ele por ela, porém eram quase meia noite e a garota saiu correndo, despareceu escada acima, escada abaixo deixando somente uma pista sua para trás, seu sapatinho de cristal.
O príncipe pediu ao seu pai que visita-se todas as casas, a fim de encontrar seu amor verdadeiro, cujo nome ele desconhecia, a encontraria pelo tamanho dos seus pequenos pés de anjo.

Assim saiu o príncipe e seu ajudante levando consigo o sapatinho de cristal, tentando encontrar o pé de sua princesa, ele buscou em vários lugares mas todos os pés que encontrou eram enormes demais para um sapato tão delicado quanto Cinderela. Enfim chegou na casa da madrasta de Cinderela, e ordenou que todas as mulheres da casa experimentassem o pequeno sapato, as irmãs de Cinderela tentaram por várias horas até que o príncipe muito desapontado com as duas feiosas do pé gigantesco, perguntou se na casa havia mais alguma mulher jovem, embora a madrasta negasse, Cinderela foi vista e o príncipe muito empolgado com a beleza da moça que mesmo trajando um terrível vestido sujo de cinzas, sabia ser bela.

Era o amor falando mais alto, era o encontro de duas almas, a direção ao paraiso, Cinderla então sentou-se e experimentou o sapato de cristal que ficou perfeito em seu pé, logo em seguida, ela tirou do bolso do avental o outro pé do sapato e colocou, assim o príncipe a beijou e pediu para que ela se tornasse sua esposa, futura rainha, deixando para trás as maldades da madrasta e suas irmãs. Cinderela e o príncipe foram felizes para sempre, até que a morte e o destino os separe.