APRENDIZAGEM DA CRIANÇA COM SÍNDROME DE DOWN 1/2

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APRENDIZAGEM DA CRIANÇA COM SÍNDROME DE DOWN 2/2

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Faculdades Integradas da Terra de Brasília
2005
A Família no Processo de Desenvolvimento na Aprendizagem da Criança com Síndrome de Down

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
1. SÍNDROME DE DOWN
1.1 Definições e tipos
1.2 Contexto histórico
1.3 Características físicas
2. DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM
2.1 Desenvolvimento e aprendizagem da criança com Síndrome de Down.
2.2 Dificuldades de aprendizagem da criança com Síndrome de Down.
3. A FAMILIA DA CRIANÇA COM SÍNDROME DE DOWN
3.1 A família no processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança com Síndrome de Down.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SANTOS, Helena Jesus. “A família no processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança com Síndrome de Down.” Monografia apresentada na conclusão do curso de Pedagogia – OE, das Faculdades Integradas da Terra de Brasília – DF, 2005.

RESUMO

O presente trabalho essencialmente bibliográfico tem por finalidade analisar o papel da família no processo de aprendizagem e desenvolvimento da criança com Síndrome de Down. Abordará a definição da Síndrome e os tipos existentes, apresentará seu contexto histórico e as características físicas da criança. Apontará o seu desenvolvimento e aprendizagem dando enfoque as dificuldades da criança nesse processo, e busca apresentar a importância da família, observando-se que nela se estabelece as interações iniciais, através de vínculos constituídos entre seus membros, que se constituem os primeiros ensinantes.

Palavras-chaves: Síndrome de Down, desenvolvimento, aprendizagem, família.

INTRODUÇÃO

Os primeiros estudos sobre Síndrome de Down surgiram há muitos anos, por volta do século XIX, e a cada dia novas descobertas trazem discussões inovadores sobre o assunto. No entanto, através de pesquisas realizadas sobre a evolução dos estudos sobre a Síndrome, encontramos um fato muito interessante que é a imagem que a sociedade por muitos anos postulou aos portadores desta Síndrome.

Por muitos anos a criança Down era considerada como a retardada, e a incapaz e em algumas sociedades era até mesmo considerado como monstro. Infelizmente, atualmente, ainda, encontramos algumas confusões sobre o conceito de Síndrome de Down. “A Síndrome de Down é decorrente de um erro genético presente desde o momento da concepção ou imediatamente após”, segundo Schwartzman, (2003, p. 3). No entanto, como descreve Schwartzman (2003), sabemos atualmente que a Síndrome se trata de uma alteração genética e que as pessoas com a Síndrome, embora apresentem algumas dificuldades podem ter uma vida normal e realizar atividades diárias da mesma forma que qualquer outra pessoa. Não negamos a afirmação de que o Down apresenta algumas limitações e até mesmo precise de condições especiais para aprendizagem, mais enfatizamos, que estes através de estimulações adequadas podem se desenvolver.

De cada 700/900 bebês nascidos, um é portador de Síndrome de Down. E, apesar dessa alta incidência, grande parte da população ainda ignora que essas crianças podem se tornar produtivas e independentes. A família é a primeira integradora, o amor, a compreensão, confiança, comunicação e estímulos que permeiam a relação, são formas de proteção utilizadas para facilitar o processo de integração, aprendizagem, desenvolvimento e participação do indivíduo nos diferentes grupos sociais da sociedade. Nela é que o indivíduo tem a oportunidade de aprender através de experiências positivas e mesmo negativas, ambas de grande importância para a formação de sua personalidade.

Evidencia-se, desta forma, a importância de realizar uma pesquisa sobre a seguinte problemática: Qual o papel da família no processo de aprendizagem e desenvolvimento da criança com Síndrome de Down?

Esta questão é de grande interesse, motivo pelo qual foi escolhida como tema de estudo e de investigação do presente trabalho.

E a partir de leituras e pesquisas bibliográficas este trabalho, propõe reflexões a cerca do entendimento das questões que envolve as crianças com Síndrome de Down e as interferências em sua aprendizagem e desenvolvimento, mediante as relações estabelecidas na família e com o meio.

Esta pesquisa foi estruturada em três capítulos, nos quais o primeiro apresenta a Síndrome sua definição e os tipos de trissomia, seu contexto histórico e as características físicas da pessoa com a Síndrome. O segundo aborda a aprendizagem e o desenvolvimento enfatizando as dificuldades de aprendizagem neste processo e o terceiro traz a reflexão sobre a família e a sua importância no processo de aprendizagem e desenvolvimento deste sujeito.

1- SÍDROME DE DOWN

Para um melhor entendimento do trabalho que se segue é necessário fornecer algumas noções sobre o que é a Síndrome de Down, a existência dos diferentes tipos de trissomia do cromossomo 21, seu contexto histórico e as características da criança que possui esta Síndrome.

1.1- Definições e Tipos

Todos os seres humanos são formados por células. Essas células possuem em sua parte central um conjunto de pequeninas estruturas que determinam as características de cada um, como: cor de cabelo, cor da pele, altura etc. Essas estruturas são denominadas cromossomos. Os cromossomos são pequeníssimas estruturas que contêm nossos “fatores hereditários” ou genes. Cada cromossomo tem milhares de genes e este material genético é absolutamente crítico para o desenvolvimento e o crescimento de qualquer organismo O número de cromossomos presente nas células de uma pessoa é 46 (23 do pai e 23 da mãe), e estes se dispõem em pares, formando 23 pares. No caso da Síndrome de Down, ocorre um erro na distribuição e, ao invés de 46, as células recebem 47 cromossomos. O elemento extra fica unido ao par número 21. Denominando-se de Trissomia do 21.

A Síndrome de Down é uma anomalia que compromete não apenas o desenvolvimento mental, como também o desenvolvimento motor em diferentes níveis.

Segundo Werneck (1993 p. 52), a Síndrome é definida por “conjunto de sinais e sintomas que caracterizam um determinado quadro clínico”. Podendo ter inúmeras causas. A mesma autora acrescenta que, a Síndrome de Down ocorre por um acidente genético, e que nenhuma atitude tomada durante a gravidez ou antes dela poderia evitar o aparecimento da trissomia.

Schwartzman (2003) diz que a Síndrome de Down é decorrente de um erro genético presente desde o momento da concepção ou imediatamente após e que este erro ocorre de modo bastante regular na espécie humana afetando um em cada 700/900 nascidos vivos. Estas incidências são mais ou menos constantes em todas as partes do mundo e não são afetadas pela classe social, raça, credo ou clima.

Bee (1996) define a Síndrome de Down como sendo uma anomalia genética em que todas as células contêm três cópias de cromossomo 21 ao invés de duas. As crianças nascidas com este padrão genético normalmente apresentam retardo mental e características físicas específicas.

Podemos observar que há um consenso entre os autores no que se refere a definição da Síndrome de Down.

Os tipos de Sídrome de Down mais conhecidos e suas prováveis origens genéticas, detectadas por um exame chamado cariótipo, são:

Trissomia simples – 2 cromossomos (pai e mãe) e o 3o. extra. Observa-se um cromossomo 21 extra em todas as células, resultando num cariótipo constituído por 47 cromossomos, devido à trissomia do 21. Corresponde a 96% dos casos da síndrome. Os pais possuem 46 cromossomos cada um, e a síndrome ocorre por acidente genético de causa desconhecida.

Trissomia por translocação – Corresponde a 2% dos casos. O 3o. cromossomo está bandeado em outro par, freqüentemente ao 14. O cariótipo, neste caso, apresenta 46 cromossomos e a translocação é representada como t (14;21) ou t (14q21q). A letra q refere-se ao braço longo dos cromossomos envolvidos. Clinicamente a pessoa com a Síndrome por translocação é igual a por trissomia simples. Existe a trissomia por translocação herdada pelo pai ou mãe e a causada por acidente genético. Sempre que uma criança apresentar Sídrome de Down devido a translocação é indicada a realização do cariótipo dos pais.

Mosaicismo – Corresponde a 2% dos casos estes apresentam dois tipos de células, um com número normal de cromossomos 46 e outro com 47 cromossomos devido à trissomia do cromossomo 21.

O termo trissomia refere-se, sempre, à presença de um cromossomo a mais no cariótipo de uma pessoa, e os cromossomos são designados por números. Assim, os indivíduos do sexo masculino são 46,XY e as mulheres são 46,XX

Independente do tipo, quer seja trissomia simples, translocação ou mosaicismo, é sempre o cromossomo 21 o responsável pelos traços físicos específicos e a função intelectual limitada observados na grande maioria dos portadores desta Síndrome.

1.2 – Contexto Histórico

Muitos pais se questionam se a Síndrome de Down esteve presente na humanidade desde os primórdios da civilização ou se surgiu apenas em tempos recentes. Embora não haja respostas definitivas a essa pergunta, supõe que no decorrer da história biológica e da evolução da humanidade ocorreram numerosas mudanças de genes e modificações cromossômicas. Assim, muitas doenças genéticas e desordens cromossômicas conhecidas, inclusive a Síndrome de Down, provavelmente ocorreram em épocas passadas.

Segundo Pueschel (2003), o registro antropológico mais antigo da Sídrome de Down deriva das escavações de um crânio saxônico, datado do século VII, apresentando modificações estruturais vistas com freqüência em crianças com Sídrome de Down.

Algumas pessoas acreditam que a Sídrome de Down tenha sido representada no passado em esculturas e pictografias. Os traços faciais de estatuetas esculpidas pela cultura Olmecas, tribo que viveu na região que hoje conhecemos como Golfo do México, há quase 3.000 anos foram considerados semelhantes aos de pessoas com Sídrome de Down. O exame cuidadoso dessas estatuetas, porém, gera dúvidas sobre essa afirmação.

O artista plástico italiano Andréa Mantegna (1430-1506), pintou “A virgem Maria”, no qual retrata “O menino Jesus”, apresentando traços comuns entre as pessoas que nasceram com a Síndrome de Down como o formato dos olhos, o tamanho do pescoço, a posição das orelhas e, principalmente, a distância maior entre o dedão do pé dos demais dedos. A obra está no museu de Boston (WERNECK 1993).

Apesar das suposições históricas, nenhum relatório bem documentado sobre pessoas com Sídrome de Down foi publicado antes do século XIX. Há algumas razões para isso como: havia poucas revistas médicas disponíveis; poucos pesquisadores estavam interessados em crianças com problemas genéticos e deficiência mental; outros doenças como infecções e desnutrição predominavam naquela época.

A primeira descrição de uma criança que presume-se tinha Sídrome de Down foi fornecida por Jean Esquirol em 1838. Logo a seguir, em 1846, Edouard Seguin descreveu um paciente com feições que sugeriam Sídrome de Down, denominando a condição de “idiotia furfurácea”. Em 1866, Duncan (apud SCHWARTZMAN, 2003, p. 28) registrou uma menina “com uma cabeça pequena e redonda, olhos parecidos com os chineses, projetando uma grande língua e que só conhecia algumas palavras”. Neste mesmo ano, John Langdon Down (cientista inglês), descreveu alguns dos traços característicos da Síndrome, como: cabelos amarronzados, ralos e lisos, traços semelhantes aos da raça mongólica, dotadas de uma notável capacidade de imitar, além de serem muito parecidas entre si. A denominação dada por ele foi “mongolian idiots”, porque acreditava que a Síndrome de Down representava uma “regressão, por degeneração, a uma raça mais primitiva” (os mongóis, no caso).

Esta denominação, prejudicou a imagem do portador da Sídrome, a qual achamos pejorativa e ajudou as pessoas a criarem certos preconceitos até os dias atuais.

A grande contribuição de Down foi o reconhecimento das característica físicas da Síndrome que hoje leva o seu nome, distiguindo estas crianças de outras com deficiência mental.

Ao final do século XIX outros cientistas, pela Europa, acrescentaram novas constatações ao diagnóstico da Síndrome, como incidências de problemas cardíacos e a ligeira curvatura do dedo mínimo.

Com os avanços tecnológicos, na área genética, o cientista francês Jerome Lejeune em 1958, pode descobrir a verdadeira causa da Sídrome de Down: 47 cromossomos agrupados em 23 pares sendo 1 par de 3 cromossomos, mais precisamente o par 21. Daí ser considerado um acidente genético.

Todas as pessoas estão sujeitas a ter um filho com Síndrome de Down, independente da raça ou condição sócio-econômica. No Brasil, acredita-se que ocorra um caso em cada 700 nascimentos, isso quer dizer que nascem cerca de 8 mil bebês com Síndrome de Down por ano.

1.3 – Características Físicas

As características físicas da criança com Sídrome de Down são formadas por influência de seu material genético. As crianças herdam os genes tanto da mãe quanto do pai, e por isso são parecidas nos aspectos como estrutura corporal, cor de cabelos, olhos, etc. As crianças com Sídrome de Down apresentam características diferentes de seus pais, em virtude do material genético adicional no cromossomo 21 extra. Este cromossomos 21 encontra-se nas células de toda criança com Sindrome de Down, influenciando na formação de seu corpo. Assim, estas crianças apresentam muitas características em comum.

Segundo Pueschel (2003) as características são: a cabeça da criança com Sídrome de Down é um pouco menor comparada com as das crianças “normais”. A parte posterior da cabeça é levemente achatada (braquicefalia) na maioria das crianças, o que dá uma aparência arredondada à cabeça. Em algumas crianças, pode haver áreas com falhas de cabelo (alopecia parcial), ou, em casos raros, todo o cabelo pode ter caído (alopecia total).

O rosto apresenta um perfil achatado, devido, principalmente, aos ossos faciais pouco desenvolvidos e ao nariz pequeno. Geralmente, o osso nasal é afundado. Em muitas crianças, as passagens são estreitas.

Os olhos são normais, quanto ao formato. As pálpebras são estreitas e levemente oblíquas. A dobra de pele (dobra palpebral) pode ser vista em muitos bebês nos cantos internos dos olhos.

A boca é pequena. Algumas crianças mantêm a boca aberta e a língua pode projetar-se um pouco. À medida que a criança com Sídrome de Down fica mais velha, a língua pode ficar com estrias. O céu da boca (palato) é mais estreito do que nas crianças que não possuem esta anomalia. As mandíbulas são pequenas, o que leva, muitas vezes, ao apinhamento dos dentes permanentes.

As orelhas são pequenas, às vezes, e a borda superior da orelha (hélix) é muitas vezes dobrada. A estrutura da orelha é ocasionalmente, alterada. Os canais do ouvido são estreitos.

O pescoço da pessoa com Sídrome de Down pode ter uma aparência larga e grossa. No bebê, dobras soltas de pele são observadas, muitas vezes, em ambos os lados da parte posterior do pescoço, os quais se tornam menos evidentes, podendo desaparecer, à medida que a criança cresce.

As mãos e os pés tendem a ser pequenos e grossos e o quinto dedo é muitas vezes levemente curvado para dentro, formado com apenas uma articulação. Em cerca de 50% das crianças com Sídrome de Down, uma única dobra é observada atravessando a palma em uma ou ambas as mãos.

Os dedos dos pés são geralmente curtos. Na maioria das crianças, há um espaço grande entre o dedão e o segundo dedo, com uma dobra entre eles na sola do pé.

A pele é geralmente clara e pode ter uma aparência manchada durante a primeira infância. Nas crianças mais velhas e nos adultos com Sídrome de Down, a pele pode ser áspera.

Os órgãos genitais de meninos e meninas não são afetados na maioria das crianças. Às vezes, podem ser pequenos. Em alguns casos, os testículos não se encontram no saco escrotal durante os primeiros anos de vida, mas podem estar na região da virilha ou dentro do abdômen.

É importante enfatizar que nem todas as crianças com Sídrome de Down apresentam todas as características citadas acima. Além disso, algumas características são mais acentuadas em algumas crianças do que em outras. Assim, embora as crianças com Sídrome de Down possam ser reconhecidas por sua aparência física semelhante, nem todas essas crianças parecem iguais.

2 – DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM

Do nascimento a idade adulta o ser humano passa por um processo de evolução que denominamos desenvolvimento. O processo de desenvolvimento humano abrange todos os aspectos do indivíduo, crescimento físico, afetivo, emocional, intelectual e etc. Sabemos que o crescimento e o desenvolvimento possuem características muito próprias variando de pessoa para pessoa, mas que normalmente seguem em ritmos e seqüências semelhantes a todos da espécie humana, uma vez que alguns fatores como: a família, a escola, o ambiente podem influenciar para o aceleramento desde processo.

Piaget (1990), diz que o desenvolvimento das pessoas, tem uma dinâmica interna. Isto é possível devido às interações sociais estabelecidas entre o indivíduo e os diferentes agentes que atuam como mediadores da cultura, família e escola (VYGOTSKY, 1991).

A criança é concebida como um ser dinâmico, que a todo momento interage com a realidade, operando ativamente com objetos e pessoas. Essa interação com o ambiente faz com que construa estruturas mentais e adquira maneiras de fazê-las funcionar.

Existem, pelo menos dois níveis de desenvolvimento identificados por Vygotsky (1988a): um real, já adquirido ou formado, que determina o que a criança já é capaz de fazer por si própria, e um potencial, ou seja, a capacidade de aprender com outra pessoa.

A aprendizagem interage com o desenvolvimento, produzindo abertura nas zonas de desenvolvimento proximal que é a distância entre o desenvolvimento real e o potencial, que está próximo mas ainda não foi atingido, onde interações sociais são centrais, estando então, ambos os processos, aprendizagem e desenvolvimento, inter-relacionados desde o primeiro dia de vida da criança.

A aprendizagem não parte do zero, pois a formação de novos hábitos consiste sempre numa diferenciação dos esquemas anteriores.

Para Vygotsky (1988b), a atividade do sujeito refere-se ao domínio dos instrumentos de mediação, inclusive sua transformação por uma atividade mental. Para ele, o sujeito não é apenas ativo, mas interativo, porque forma conhecimentos e se constitui a partir de relações intra e interpessoais. É na troca com outros sujeitos e consigo próprio que se vão internalizando conhecimentos, papéis e funções sociais, o que permite a formação de conhecimentos e da própria consciência.

Para Rodrigues (1976, p.16), a aprendizagem “refere-se às alterações no comportamento em decorrência de influências externas, o que, evidentemente, dará ao desenvolvimento de cada indivíduo o seu caráter particular, dada a diversidade histórica de cada um”. A mesma autora define desenvolvimento como o “conjunto de variações que se manifestam em um indivíduo por força de disposições interiores e da ação do ambiente”.

A aprendizagem é um processo de construção individual através do qual se faz uma interpretação pessoal e única da tal cultura. Segundo Magill (1984, p. 251), “a aprendizagem é o centro de toda educação”. Para Gallahue (1982), a educação não deve buscar um fim, não deve buscar tampouco a imagem de um homem ideal. Deve perseguir o propósito que o homem possa vivenciar e experimentar para que possa conhecer, selecionar, eleger, decidir e modificar seus caminhos. A partir desta perspectiva, os processos de aprendizagem não são uma mera associação de estímulos e respostas ou de acumulação de conhecimentos; são mudanças qualitativas nas estruturas e esquemas existentes de complexidade crescente, (PIAGET, 1990). A aprendizagem é um processo interno. Ninguém pode aprender por nós. A aprendizagem está diretamente relacionada à conduta. É aprendendo que reformulamos nossa maneira de atuar no mundo e sobre ele. (SOARES, 2003).

Os processos de desenvolvimento e aprendizagem caminham juntos, ou seja, as estruturas estabelecidas constituem a capacidade básica para a aprendizagem. Dessa forma, a aprendizagem depende do nível de desenvolvimento no sentido de as novas aquisições necessitarem de um referencial precedente. Por outro lado, a aprendizagem deve visar ao maior grau de desenvolvimento possível, já que a competência intelectual está relacionada às estruturas cognitivas disponíveis. Isso não significa que os conceitos e noções que caracterizam as etapas de desenvolvimento seja ensinados, pois isso seria confundir o processo de ensino-aprendizagem como o processo de desenvolvimento e a metodologia com técnica de estimulação evolutiva.

2.1 – Desenvolvimento e aprendizagem da criança com Síndrome de Down.

Toda criança necessita de pessoas ao seu lado, para satisfazer suas necessidades físicas e psicológicas. Através de um contato carinhoso, vão transmitindo e comunicando diversos sinais: um olhar, um sorriso, que o bebê percebe e tenta imitar, repetir e até responder ao gesto; espontaneamente ele também emite sons, que são reforçados e repetidos pelas pessoas, criando assim as bases para o processo de comunicação e desenvolvimento.

Segundo Vygotsky (1994) no processo de desenvolvimento, a criança começa usando as mesmas formas de comportamento que outras pessoas inicialmente usaram em relação a ela. Isto ocorre porque, desde os primeiros dias de vida, as atividades da criança adquirem um significado próprio num sistema de comportamento social, refratadas através de seu ambiente humano, que a auxilia a atender seus objetivos.

A seqüência de desenvolvimento da criança com Síndrome de Down geralmente é bastante semelhante à de crianças sem a Síndrome, embora em um ritmo mais lento. Esta demora para adquirir determinadas habilidades pode prejudicar as expectativas que a família e a sociedade tenham da pessoa com esta Síndrome, favorecendo o aparecimento de estigmas em relação ao seu desempenho. Durante muito tempo estes indivíduos foram privados de experiências fundamentais para o seu desenvolvimento porque não se acreditava que eram capazes. Todavia, atualmente já é comprovado que crianças e jovens com Síndrome de Down podem alcançar estágios muito mais avançados de raciocínio e de desenvolvimento. O que lhes falta, muitas vezes, são as oportunidades e estímulos que viabilizem seu desenvolvimento e aprendizagem.

A Síndrome de Down freqüentemente acarreta complicações clínicas que acabam por interferir no desenvolvimento global da criança, sendo que as mais encontradas são alterações cardíacas, hipotonia, complicações respiratórias e alterações sensoriais, principalmente relacionadas à visão e à audição.

Segundo Pueschel (2003) uma das características principais da Síndrome de Down, e que afeta diretamente o desenvolvimento psicomotor, é a hipotonia (tônus muscular reduzido). Esta hipotonia origina-se no sistema nervoso central, e afeta toda a musculatura e a parte ligamentar da criança. Com o passar do tempo, a hipotonia tende a diminuir espontaneamente, mas ela permanecerá presente por toda a vida, em graus diferentes.

Gusman & Torre citado por Schwatzman (2003, p.176) enfatizam neste sentido:

A hipotonia interfere nas aquisições do desenvolvimento motor da criança; nas habilidades, nas suas interações com o ambiente, retarda ou bloqueia sua exploração, diminuindo ou produzindo déficit de sensações e vivências, dificultando o desenvolvimento cognitivo. Limita suas habilidades físicas, tanto motora grossa como fina.

O tônus é uma característica individual, por isso há uma variação entre as crianças com esta Síndrome. A criança que nasceu com Síndrome de Down vai controlar a cabeça, rolar, sentar, arrastar, engatinhar, andar e correr, exceto se houver algum comprometimento além da Síndrome.

Zausmer (apud PUESCHEL 2003, p. 118) comenta que “muitas vezes o bebê com Síndrome de Down apresenta atraso na iniciação de habilidades motoras…” a autora enfatiza que para a criança com Síndrome de Down, é importante vivenciar desde muito cedo o maior número possível de movimentos prazerosos e eficientes, pois estes serão essenciais para o desenvolvimento de habilidades mais complexas no futuro.

Segundo Pueschel (2003), o peso da criança com Síndrome de Down merece atenção especial pois na primeira infância o ganho de peso é menor devido a dificuldades na alimentação, porém, no segundo e terceiro anos de vida, ocorre um aumento de peso e a partir daí a criança pode tornar-se obesa. Pesquisas comprovaram que a maioria das crianças com Síndrome de Down têm um desempenho na faixa entre leve e moderada de deficiência mental.

Segundo descreve Ferreira (2002, p. 2005) na obra Miniaurélio, o termo deficiência significa “falta, carência ou insuficiência”. Assim podemos entender por deficiência mental a insuficiência funcional das funções neurológicas. O cérebro da criança Down não atingir seu pleno desenvolvimento e assim todas suas funções estão alteradas:

O conceito de deficiência mental apoia-se, basicamente, em três idéias que tem sido utilizadas para definir este termo. É essencial examina-las do ponto de vista interativo. A primeira diz respeito ao binômio de desenvolvimento-aprendizagem (…) A segunda idéia se refere aos fatores biológicos (…) A última tem a ver com o ambiente físico e social (…). SCHWARTZMAN (2003 p. 243).

Os três conceitos a que o autor citado acima se refere podem ser explicados como bases das atividades mentais. Na verdade o cérebro de uma criança recém-nascida possui capacidades de aprendizagem, no entanto, estas serão desenvolvidas através da internalização de estímulos que está também associada aos fatores biológicos, como integridade orgânica e influências diretas dos fatores ambientais e sociais. A afirmação feita por Schwartzman (2003), é muito aceita e podemos observar inúmeros trabalhos de outros autores coerentes a esta abordagem. Um exemplo é Piaget (1990), que afirma, que os indivíduos nascem apenas com potencialidades (capacidade inata) a capacidade de aprender. Todo conhecimento e todo o desenvolvimento da criança depende de exposição ao meio e dos estímulos advindos deste.

A pessoa com Síndrome Down possui certa dificuldade de aprendizagem que na grande maioria dos casos são dificuldades generalizadas, que afetam todas as capacidades: linguagem, autonomia, motricidade e integração social. Estas podem se manifestar em maior ou menor graus.

Embora a Síndrome de Down seja classificada como uma deficiência mental, não se pode nunca predeterminar qual será o limite de desenvolvimento e aprendizagem do indivíduo. Historicamente, a pessoa com Síndrome de Down foi rotulada como deficiente mental severa e em decorrência deste rótulo acabou sendo privada de oportunidades de aprendizagem. A antiga classificação da deficiência mental nos grupos profundos (severos), treináveis e educáveis é bastante questionada hoje em dia. Estes diagnósticos, determinados a partir de testes de QI (Medida do Quociente da Inteligência), nem sempre condizem com a real capacidade intelectual do indivíduo.

Segundo Schwatzman (2003), há um inevitável atraso em todas as áreas do desenvolvimento e um estado permanente de deficiência mental. Porém, segundo o mesmo autor, não há um padrão previsível de desenvolvimento em todas as crianças afetadas, uma vez que o desenvolvimento da inteligência não depende exclusivamente da alteração cromossômica, mas também do restante do potencial genético, bem como das importantes influências do meio.

A criança com Síndrome de Down, desde o início, apresenta reações mais lentas do que as outras crianças; provavelmente isso altera sua ligação com o ambiente. O desenvolvimento cognitivo é não somente mais lento, mas também se processa de forma diferente. O desenvolvimento mais lento pode ser consequência dos transtornos de aprendizagem. A medida que a criança cresce, as diferenças mostram-se maiores, já que as dificuldades da aprendizagem alteram o curso do desenvolvimento. A criança demora mais tempo para ler, escrever e fazer contas. No entanto, a maioria das pessoas com esta Síndrome tem condições para ser alfabetizada e realizar operações lógico-matemáticas. Segundo Fonseca (1995), o que a criança grava mais rapidamente é o material que vê impresso, porque tem memória visual mais efetiva do que a memória auditiva.

A linguagem representa um dos aspectos mais importantes a ser desenvolvido por qualquer criança, para que possa se relacionar com as demais pessoas e se integrar no seu meio social.

Antes de a criança começar a falar, existe uma etapa importante que é a da preparação para a linguagem. Assim, a interação, as trocas afetivas que ocorrem entre a mãe e a criança, os ruídos emitidos no primeiro ano de vida, considerados por alguns estudiosos como um treinamento com a boca e a língua, e as tentativas de repetir sílabas, tudo isso são fatores que facilitam o desenvolvimento da linguagem.

Segundo Puesche (2003), a criança com Sídrome de Down apresenta hipotonia muscular e atraso no desenvolvimento intelectual, ela deve ser auxiliada no desenvolvimento da fala e linguagem e a família pode ajudar a estimular o seu desenvolvimento. A hipotonia muscular faz com que haja um desequilíbrio de força nos músculos da boca e face, ocasionando alterações na arcada dentária, projeção no maxilar inferior e posição inadequada da língua e lábios, com a boca aberta e a língua sempre para fora, a criança respira pela boca, o que acaba alterando a forma do palato. Esses fatores, dentre outros, fazem com que os movimentos fiquem mal coordenados e a articulação dos fonemas fique imprecisa e prejudicada. O desenvolvimento intelectual mais lento implica num atraso da linguagem, já que ela depende entre outros fatores, de um desenvolvimento intelectual normal.

O atraso na aquisição da fala e da linguagem constitui um dos maiores problemas encontrados pelos pais de crianças com Sídrome de Down. A assistência de um fonoaudiólogo é muito importante para auxiliar a família a verificar as dificuldades da criança e orientar quanto a melhor forma de estimulá-la em casa. De fato, muitos pesquisadores observaram que os cuidados e a estimulação que a criança recebe no ambiente familiar são muito importantes no aprendizado da fala e na aquisição da linguagem, pois a maior parte de seu tempo a criança está com a família. Cada peça do organismo, audição, visão, tato, o corpo inteiro, age no trabalho de receber, interpretar, assimilar e armazenar os conhecimentos elaborados dentro do próprio indivíduo e os que adquire do meio ambiente.

2.2 – Dificuldades de aprendizagem da criança com Síndrome de Down.

Antes de falarmos das dificuldades de aprendizagem da criança com Síndrome de Down, gostaríamos de conceituar dificuldades de aprendizagem.

Numa perspectiva orgânica, as dificuldades de aprendizagem são desordens neurológicas que interferem com a recepção, integração ou expressão de informações, caracterizando-se, em geral, por uma discordância acentuada entre o potencial estimando da criança e a sua realização escolar.

Numa perspectiva educacional, as dificuldades de aprendizagem refletem uma incapacidade ou impedimento para a aprendizagem da leitura, da escrita, ou do cálculo ou para a aquisição de aptidões sociais.

Dificuldades de aprendizagem (DA) é um termo geral que se refere a um grupo heterogêneo de desordens manifestadas por dificuldades significativas na aquisição e utilização da compreensão auditiva, da fala, da leitura, da escrita e do raciocínio matemático. FONSECA (1995, p.71)

As crianças com dificuldades de aprendizagem podem apresentar problemas na resolução de algumas tarefas escolares e serem “brilhantes” na resolução de outras. Em termos de inteligência, estes alunos geralmente estão na média ou acima da média.

Pain (apud RUBINSTEIN, 1996) considera a dificuldade para aprender como um sintoma, que cumpre uma função positiva tão integrativa como o aprender, e que pode ser determinado por:

1. Fatores orgânicos: caracteriza-se pelo aspectos do funcionamento anatômico, como o funcionamento dos órgãos dos sentidos e do sistema nervoso central;

2. Fatores específicos: relaciona-se à dificuldades específicas do indivíduo, os quais não são passíveis de constatação orgânica, mas que se manifestam na área da linguagem ou na organização espacial e temporal, dentre outros;

3. Fatores ambientais: estão relacionados às condições objetivas ambientais que podem favorecer ou não a aprendizagem do indivíduo.

Fernández (1991), também considera as dificuldades de aprendizagem como sintomas ou “fraturas” no processo de aprendizagem, onde necessariamente estão em jogo quatro níveis: o organismo, o corpo, a inteligência e o desejo. A dificuldade para aprender, segundo a autora, seria o resultado da anulação das capacidades e do bloqueamento das possibilidades de aprendizagem de um indivíduo. Para a autora, a origem das dificuldades ou problemas de aprendizagem não se relacionam apenas à estrutura individual da criança, mas também à estrutura familiar a que a criança está vinculada, como no caso da criança com Síndrome de Down.

Para reconhecer em uma criança a dificuldade de aprendizagem, se faz necessário primeiramente entender o que é aprendizagem e quais os fatores que nela interferem. Pode-se dizer que a aprendizagem é um processo complexo que se realiza no interior do indivíduo e se manifesta em uma mudança de comportamento.

Pode-se destacar algumas das principais causas das dificuldades de aprendizagem, como: causas físicas, sensoriais, neurológicas, intelectuais ou cognitivas, sócio econômicas e emocionais, sendo esta última uma das principais causas que podem dificultar a aprendizagem. Como resultado, as crianças com dificuldades de aprendizagem têm muitas vezes baixos níveis de auto-estima e de autoconfiança, o que pode conduzir à falta de motivação, afastamento, crises de ansiedades e estresse e até mesmo depressão.

Não devemos tratar as dificuldades de aprendizagem como se fossem problemas insolúveis, mas, antes disso, como desafios que fazem parte do próprio processo da aprendizagem, a qual pode ser normal ou não-normal. Também parece ser consensual a necessidade imperiosa de se identificar e prevenir o mais precocemente possível as dificuldades de aprendizagem, de preferência ainda na pré-escola.

A dificuldade de aprendizagem é um tema que deve ser estudado levando-se em conta todas as esferas em que o indivíduo participa (família, escola, sociedade, etc. ) Sabe-se que nunca há uma causa única para o fracasso escolar e que também um aluno com dificuldade de aprendizagem não é um aluno que tem deficiência mental ou distúrbios relativos. Na verdade, existem aspectos fundamentais que precisam ser trabalhados para obter-se um melhor rendimento em todos os níveis de aprendizagem e conhecimento. Quando falamos de aprendizagem e conhecimento não estamos nos referindo somente a conteúdos disciplinares, mas também a conhecimento e desenvolvimento vital que são tão importantes quanto.

A criança com Síndrome de Down têm idade cronológica diferente de idade funcional, desta forma, não se pode esperar uma resposta idêntica, comparada com as crianças que não apresentam alterações de aprendizagem. As dificuldades de aprendizagem da criança com Síndrome de Down, decorre de lesões cerebrais e desajustes funcionais do sistema nervoso:

O fato de a criança não ter desenvolvido uma habilidade ou demonstrar conduta imatura em determinada idade, comparativamente a outras com idêntica condição genética, não significa impedimento para adquiri-la mais tarde, pois é possível que madure lentamente. SCHWARTZMAN (2003, p. 246).

Segundo Schwartzman (2003), a prontidão para a aprendizagem depende da complexa integração dos processos neurológicos e da harmoniosa evolução de funções específicas como linguagem, percepção, esquema corporal, orientação têmporo-espacial e lateralidade e etc. É comum observarmos na criança com a Síndrome de Down, alterações severas de internalizações de conceitos de tempo e espaço, que dificultarão muitas aquisições e refletirão especialmente em memória e planificação, além de dificultarem muito a aquisição da linguagem. Crianças com Síndrome de Down, não desenvolvem estratégias espontâneas e este é um fato que deve ser considerado em seu processo de aquisição de aprendizagem, já que esta terá muitas dificuldades em resolver problemas e encontrar soluções sozinhas.

De acordo com Schwartzman (2003), outros comprometimentos que afetam a criança com Síndrome de Down implicam em dificuldades ao desenvolvimento da aprendizagem são: alterações auditivas e visuais; incapacidade de organizar atos cognitivos e condutas, debilidades de associar e programar seqüências. Estas dificuldades ocorrem principalmente porque a imaturidade nervosa e não mielinização das fibras pode dificultar funções mentais como: habilidade para usar conceitos abstratos, memória, percepção geral, habilidades que incluam imaginação, relações espaciais, esquema corporal, habilidade no raciocínio, estocagem do material aprendido e transferência na aprendizagem. As deficiências e debilidades destas funções dificultam principalmente as atividades escolares:

Entre outras deficiências que acarretam repercussão sobre o desenvolvimento neuropsicológico da criança com síndrome de Down, podemos determinar dificuldades na tomada de decisões e iniciação de uma ação; na elaboração do pensamento abstrato; no calculo; na seleção e eliminação de determinadas fontes informativas; no bloqueio das funções perceptivas (atenção e percepção); nas funções motoras e alterações da emoção e do afeto. SCHWARTZMAN, (2003, p. 247).

No entanto, a criança com Síndrome de Down têm possibilidades de se desenvolver e executar atividades diárias e até mesmo adquirir formação profissional e no enfoque evolutivo, a linguagem e as atividades como leitura e escrita podem ser desenvolvidas a partir das experiências da própria criança.

Para que a criança com Síndrome de Down, possa desenvolver suas habilidades, no que se refere ao seu desenvolvimento e a aprendizagem é de suma importância que desde os seus primeiros dias de vida, seja estimulada através de um programa de estimulação, onde haja a participação efetiva da família.

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APRENDIZAGEM DA CRIANÇA COM SÍNDROME DE DOWN 2/2

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3 – A FAMÍLIA DA CRIANÇA COM SÍNDROME DE DOWN

A família é a primeira constituição social do qual uma criança faz parte.

“A família é conceituada como um conjunto de pessoas, que possuem vínculos afetivos/efetivos podendo ou não ser ambíguos. Fruto da constituição social a qual se integra diferenciando cultural e socialmente. Considerada centro integral de convivência de pessoas onde às necessidades são providas pelos membros integrantes uniformemente de forma, a manter a representação social da família”. LACERDA (1997, p. 44).

O nascimento de uma criança é um acontecimento de grande importância na família. A concepção de um filho com algum tipo de deficiência é um fato que inexiste nas consciências dos pais que esperam por uma criança, uma vez, que nossa sociedade cultua os padrões de normalidade. Assim sendo, o nascimento de um filho com Síndrome de Down geralmente causa desespero, dúvidas, conflitos, angústias e frustrações, contrariando às expectativas criadas acerca do filho normal pelo qual esperavam.

A forma como a notícia é transmitida a um casal, que concebeu uma criança com Síndrome de Down, é de grande importância, porque pode influenciar em sua relação inicial com a criança, fazendo-os agir de forma negativa ou fantasiosa e assim dificultando o processo de aceitação da criança.

Embora o núcleo familiar possa ser informado a respeito da deficiência do filho ainda no período gestacional, é a partir do diagnóstico da criança deficiente que a dinâmica familiar fica abalada e irá passar por várias fases no decorrer do crescimento desta criança.. ROJA (1993, p.5).

A partir do nascimento de um filho diferente do desejado, a família terá de se adaptar a uma nova realidade e enfrentar problemas e situações que até então lhes eram desconhecidas, pois terão uma rotina que com certeza será mais intensa do que a de uma família com um criança sem a Síndrome.

Lefévre (1981) em seu estudo de seguimento de mais de 350 crianças com Síndrome de Down e de apoio a inúmeras famílias que enfrentaram o desafio de criá-las, observou que o nascimento de uma criança com esta Síndrome desperta várias reações em seus pais; a descrença nos primeiros dias; a confusão, durante os primeiros meses, a incerteza e até a hostilidade contra o mundo. Com o passar dos anos surge uma esperança e se desenvolve o interesse pela criança e, aos poucos vai surgindo certa tranquilidade em relação ao problema á medida que a criança começa a falar e aprender a fazer algumas coisas sozinha. Entre esses sentimentos surge também a agressividade ou a teimosia diante da surpresa e a insegurança quando novos problemas se delineiam.

Esta insegurança aparece muito clara no depoimento de um pai de criança com Síndrome de Down:

O pai excepcional é o grande esquecido e sozinho. Quando este pai procura apoio não está querendo um “muleta” mas uma ajuda para continuar vivendo e promovendo a vida de seu filho. A criança precisa se sentir segura nas suas atitudes. Os amigos são críticos e conhecem soluções, espiritismo, remédios milagrosos, mas não dão a segurança necessária. LEFÉVRE (1981, p.15).

Bowlby (1993), afirma que a existência de uma criança com Síndrome de Down representa uma ruptura para os pais. Vistos como um projeção dos pais, esses filhos representam a perda de sonhos e esperanças gerando sentimento de luto e de incapacidade.

Estes pais, após o impacto da notícia catastrófica que lhes remeteram ao diferencial do filho, vivenciam um período caracterizado pela elaboração de inúmeras representações acerca de seus bebês. Representações estas, oriundas basicamente da cultura no qual estão inseridas, uma vez que a grande maioria dos pais nunca teve contato direto com a Síndrome de Down antes do nascimento do filho.

As representações portanto, são mecanismos que podem aparecer em forma de conceitos, afirmações, explicações, comportamentos e estereótipos dos quais o homem se utiliza para compreender um fenômeno (no caso a Síndrome de Down) e apropriar-se do mundo real objetivando tornar familiar à sua consciência aquilo que não lhe é familiar.

Como nos diz Rodrigues (1983, p.12), “os sistemas de representação atuam como uma grade que se estende sobre o mundo, buscando classificá-lo, codificá-lo e transformar suas dimensões sensíveis em dimensões inteligíveis”.

A Síndrome de Down foi associada, por mais de um século, à condição de inferioridade. Apesar do conhecimento acumulado sobre a Síndrome e das informações acessíveis, o estigma ainda está presente e influência a imagem que os pais constróem de sua criança.

Segundo Casarin citado por Schwatzman (2003), as famílias diferem em sua reação do nascimento da criança com Síndrome de Down. Algumas passam por um período de crise aguda, recuperando-se gradativamente. Outras tem mais dificuldade e desenvolvem uma situação crônica.

Para Bowlby (1993), existe um processo de luto, quando do nascimento de uma criança com Síndrome de Down, que envolvem quatro fases. Na primeira fase, há um entorpecimento com o choque e descrença. Na segunda, aparece ansiedade e protesto, com manifestações de emoções fortes e desejo de recuperar a pessoa perdida. A terceira se caracteriza pela desesperança com o reconhecimento da imutabilidade da perda. E, finalmente, a quarta fase traz um recuperação, com gradativa aceitação da mudança. Segundo o mesmo autor a segunda fase, é diferente, pois a criança está viva; os pais protestam contra o diagnóstico e prognóstico.

Em relação ao luto, a reação dos pais foi organizada em cinco estágios, segundo Casarin in Schwartzman (2003), citado por Drotar e colaboradores e Gath.

1º- Reação de choque. As primeiras imagens que os pais formam da criança são baseadas nos significados anteriormente atribuídos à deficiência.

2º – Negação da Síndrome. Os pais tentam acreditar num possível erro de diagnóstico, associando traços da Síndrome a traços familiares. Essa fase pode ajudar no primeiro momento, levando os pais a tratar a criança de forma mais natural, mas quando se prolonga, compromete o relacionamento com a criança real.

3º – Reação emocional intensa. Nessa fase, a certeza do diagnóstico gera emoções e sentimentos diversos: tristeza pela perda do bebê imaginado, raiva, ansiedade, insegurança pelo desconhecido, impotência diante de uma situação insustentável.

4º – Redução da ansiedade e da insegurança. As reações do bebê ajudam a compreender melhor a situação, já que ele não é tão estranho e diferente quanto os pais pensavam no início. Começa a existir uma possibilidade de ligação afetiva.

5º – Reorganização da família com a inclusão da criança com Síndrome de Down. Para conseguirem reorganizar-se, os pais devem ressignificar a deficiência e encontrar algumas respostas para suas dúvidas.

Na maioria das famílias, ocorre a aproximação entre seus membros, mas, embora o relacionamento seja próximo, há pouca abertura e pouca consciência das dificuldades.

Ainda que o choque seja inevitável, a maioria das famílias supera a crise e atinge um equilíbrio. A ajuda e a mediação de profissionais podem minimizar o impacto mostrando as possibilidades, e não somente os aspectos negativos, o que ajuda os pais a adquirir uma visão mais ampla da situação.

Muitas mães procuram orientação sobre a forma correta de tratar seus filhos com Síndrome de Down e necessitam da palavra de um profissional. Entretanto, a convivência envolve o aspecto afetivo, que gera conflitos de difícil solução para os quais não há respostas prontas. Para uma intervenção familiar, devem ser levadas em conta as informações relacionadas às características da criança, assim como mudar as percepções dos pais a respeito das necessidades dela, reavaliando suas crenças e valores. Também não se pode esquecer de considerar fatores que protegem as famílias dos impactos negativos na criação de seus filhos com atraso no desenvolvimento e que são aspectos importantes na mediação para enfrentar com êxito o problema, tais como: propiciar melhores relações familiares, criar estilos de reação adequados ante ao estresse, ampliar a rede de apoio aos pais.

Berger (apud RODRIGO & PALÁCIOS, 1998) propõe algumas considerações sobre a função do profissional na mediação da família na tarefa de educar seus filhos com atraso no desenvolvimento:

• Ajudar a enfrentar a educação da criança depois de superado o choque inicial, harmonizando as preferências e estilos educativos dos pais com um nível ótimo de interação familiar.

• Motivar os pais a propiciar estimulação sensorial, motora e comunicativa precoce. Isso é benéfico não só para a criança, mas também para os pais, porque é uma das primeiras experiências de interação e pode ajudar a vencer suas incertezas e inibições. Nessa interação é preciso tomar cuidado para que os pais não abusem de reforços externos para estimular a criança, tornando-a dependente deles, nem usem estimulação contínua, que atrapalha a interação natural.

• Ensinar aos pais a adotar uma atitude mais relaxada e recíproca. É necessário que a diretividade que caracteriza a interação seja acompanhada de maior sensibilidade e sincronização com as necessidades da criança. Por outro lado, é preciso que modifiquem suas estratégias conforme a criança evolui. Os profissionais devem ajudar a estabelecer interações positivas que sejam desfrutadas tanto pelos pais quanto pelas crianças, para evitar que se convertam em situações de aprendizagem cansativas e pouco agradáveis.

• Proporcionar boas orientações aos pais com respeito à interação com a criança; para tanto, é necessário conhecer as crenças dos pais sobre seu papel. Se acreditarem que seu papel é ensinar a criança, corrigirão seus erros e o uso inadequado dos jogos, impedindo a criança de explorar ao seu gosto. Porém, se crerem que seu papel é de mediador na aprendizagem, proporcionarão à criança oportunidades de experimentar, de cometer erros e de desfrutar do momento.

• Conhecer a organização e estruturação da vida cotidiana familiar. O objetivo do profissional não é modificar radicalmente a rotina diária, mas conhecê-la e aproveitar essa informação para introduzir novos elementos, ou adaptar os já utilizados, para conseguir melhor organização. Deve ser levado em conta e respeitado o estilo natural dos pais ao organizar suas atividades para favorecer o desenvolvimento de seus filhos.

• Conscientizar as famílias para que vejam como um fato natural pedir ajuda aos profissionais em sua interação com a criança com atraso no desenvolvimento. Essa ajuda deve ocorrer não só nos primeiros momentos de adaptação à criança, mas também em outros momentos de seu desenvolvimento, pois as necessidades que estas manifestam vão mudando com o passar do tempo.

As famílias que são atendidas fortalecem-se a partir do momento que tem seus problemas compartilhados, sentem-se ouvidas e apoiadas. Conscientizam-se de que há formas de melhorar a qualidade de suas vidas e a de seus filhos, modificam posturas, transformam o relacionamento com seus filhos, estabelecem novas formas de interação e, finalmente, conseguem identificar potenciais, habilidades e capacidades na criança, passando a incluí-la definitivamente no grupo familiar.

3.1 – O papel da família no processo de aprendizagem e desenvolvimento da criança com Síndrome de Down.

A família é o apoio, a sustentação, fonte de afeto e moral, de formação de valores tão necessários para a formação humana de todas as pessoas e essa importância fica ainda maior nas famílias em que os filhos apresentam algum tipo de anomalia, como é o caso da Síndrome de Down, pois essas crianças precisam de cuidados especiais indispensáveis para o seu desenvolvimento. É na relação com a família que a criança cresce, se desenvolve e aprende a se relacionar com o mundo que o cerca. Os pais não podem mudar a condição genética de seus filhos, mas podem e devem proporcionar a ela tudo de que ela precisa, amor e um ambiente necessário para desenvolver todo o seu potencial.

De acordo com Buscaglia (1993) o papel da família é oferecer um campo de treinamento seguro, onde as crianças possam aprender a ser humanas, a amar, a formar sua personalidade única, a desenvolver sua auto-imagem, e a relacionar-se com a sociedade da qual e para a qual nascem.

Segundo Kaloustian (1988), a família é o lugar indispensável para a garantia da sobrevivência e da proteção integral dos filhos e demais membros, independentemente do arranjo familiar ou da forma como vêm se estruturando. É a família que propicia os aportes afetivos e sobretudo materiais necessários ao desenvolvimento e bem-estar dos seus componentes. Ela desempenha um papel decisivo na educação formal e informal, é em seu espaço que são absorvidos os valores éticos e humanitários, e onde se aprofundam os laços de solidariedade. É também em seu interior que se constróem as marcas entre as gerações e são observados valores culturais.

Gokhale (1980), acrescenta que a família não é somente o berço da cultura e a base da sociedade futura, mas é também o centro da vida social. A educação bem sucedida da criança na família é que vai servir de apoio à sua criatividade e ao seu comportamento produtivo quando for adulto. A família tem sido, é e será a influência mais poderosa para o desenvolvimento da personalidade e do caráter das pessoas.

De acordo com Vygotsky (1988a, p. 99), “desde o início do desenvolvimento da criança, suas atividades adquirem um significado próprio dentro do contexto social em que vive”. Enfatiza a importância dos processos de aprendizado, que, segundo ele, desde o nascimento, estão relacionados ao desenvolvimento da criança. Os primeiros anos de vida de uma criança constituem um período crítico em seu desenvolvimento e aprendizagem, e o papel que a família desempenha nesse período é de fundamental importância.

A estimulação na fase inicial da vida é extremamente importante para o desenvolvimento da criança com Síndrome de Down, minimiza algumas dificuldades, na primeira infância, que poderão trazer sérias conseqüências futuras. Pois no período da primeira infância, o cérebro humano é altamente flexível. O trabalho de estimulação precoce procura propiciar o desenvolvimento do potencial da criança. Porém, segundo Casarin citado por Schwartzman (2003), observa-se uma ambigüidade: os pais estimulam, mas não acreditam no desenvolvimento e mantêm a pessoa com Síndrome de Down como uma eterna criança. Isso compromete a possibilidade de exploração e ampliação das representações que a criança pode fazer do ambiente. O alto grau de diretividade manifestado pelas mães pode ser resultado de sua adaptação às peculiaridades de seus filhos, devido ao baixo nível de participação da criança, ou também ao desejo dessas mães em mudar o comportamento seus filhos.

A família, desorganizada pela presença da Síndrome de Down, encontra alívio na intensa atividade de estimulação, mas muitas vezes essa atividade pode tomar o lugar do relacionamento afetivo e da disponibilidade da mãe em perceber e interagir com a criança. Mães que conseguem manter a ligação afetiva, estreita e positiva com a criança favorecem a aprendizagem, proporcionando condições de desenvolvimento e de segurança para sua independência e autonomia.

Para Rodrigo & Palácios (1998), o desenvolvimento das crianças com deficiência mental não depende só do grau em que são afetadas intelectualmente, pois numa visão mais sistêmica considera-se vários fatores, nos quais afetando o desenvolvimento, dos quais o principal é o ambiente familiar.

Mannoni (1991, p. 42) enfatiza neste sentido:

O que para mim constitui um problema é a diversidade muito grande de êxito escolar e social nestas crianças com QI insuficiente. Cada criança tem sua história particular que afeta todo seu futuro humano. O contexto afetivo foi descuidado durante anos por conta de uma orientação baseada estritamente num fator quantitativo da deficiência.

Segundo Bowlby (1989), há uma complementaridade entre o comportamento do bebê e a pessoa que cuida dele. A família, em especial a mãe, que reconhece a dependência da criança e se adapta às suas necessidades, oferece oportunidades para o bebê progredir no sentido da integração, do acúmulo de experiências, enfim, do desenvolvimento. São as primeiras experiências emocionais e de aprendizagem, vivenciadas nas relações com os pais, que serão responsáveis pela formação da identidade e, em grande parte, pelo desenvolvimento da criança.

De acordo com Melero (1999), no caso das crianças com Síndrome de Down, essas primeiras experiências podem ficar comprometidas pelo impacto que a notícia de ter um filho com essa Síndrome produz na família. Tal impacto pode dificultar que a mãe tenha reações, de acordo com sua sensibilidade natural, impedindo que as primeiras experiências ocorram satisfatoriamente.2

Para Casarin citado por Schwartzman (2003), além da condição de anomalia da qual é portadora, a criança com Síndrome de Down tem ainda a conseqüência secundária dessa condição, pois a dificuldade de uma ligação afetiva adequada entre a mãe e a criança pode afetar suas possibilidades de desenvolvimento.

A qualidade da interação que os pais estabelecem com a criança, produz efeitos importantes no desenvolvimento das áreas cognitivas, lingüísticas e socioemocionais da criança com Síndrome de Down.

A nossa sociedade tem dificuldade para conviver com as diferenças, isolando na maioria das vezes a pessoa com deficiência, pois cada um de nós carrega idéias preconcebidas em relação às pessoas com deficiência, o que influencia nas atitudes e na interação com elas. São muitas as situações pelas quais a sociedade mostra sua insensibilidade, falta de conhecimento, rejeição e preconceito em relação à deficiência. Os efeitos desses sentimentos refletem sobre a família que recebe uma criança com Síndrome de Down, e tais atuações podem ser reveladas ou não.

A superproteção dos pais em relação à criança pode influenciar de forma negativa no processo de desenvolvimento da criança e normalmente estes se concentram suas atenções nas deficiências da criança de modo que os fracassos recebem mais atenção que os sucessos e a criança fica limitada nas possibilidades que promovem a independência e a interação social. “As habilidades de autonomia pessoal e social proporcionam melhor qualidade de vida, pois favorecem a relação, a independência, interação, satisfação pessoal e atitudes positivas”. BOWLBY (1997, p 25).

A sociedade necessita de um amplo e contínuo esclarecimento em relação às crianças com Síndrome de Down, para que mudanças aconteçam fortalecendo as famílias e proporcionando a elas condições de interagir.

A criança com Síndrome de Down deve ser educada e disciplinada como qualquer outra criança. Os pais devem ensinar-lhe os limites, não permitindo que ela faça tudo que quiser. Será necessário maior cuidado e atenção, pois a criança demorará mais para aprender a andar, falar, ler, escrever, etc.

Os pais devem ser pacientes e insistir porque a criança vai progredir, embora em seu próprio ritmo. Clínicas, instituições e escolas especializadas oferecem programas de estimulação para criança com Síndrome de Down, que poderão orientá-los nos exercícios específicos.

Para Knobel (1992), a família é um dos grupos primários da nossa sociedade, em que o ser humano vive e se desenvolve. Nessa interação familiar, configura-se precocemente a personalidade, com suas características sociais, éticas, morais e cívicas. Portanto, tornasse importante incluir a família no processo educacional e terapêutico da criança. Por mais que a escola e os profissionais se esforcem no sentido de promover o desenvolvimento da criança com Síndrome de Down, seus esforços serão bastante limitados se não incluírem, tanto em sua filosofia educacional quanto em sua prática de ação, uma orientação aos pais.

Para Stelling (1996, p. 68) “a orientação de pais deve ser mais do que aconselhá-los. Cabe à escola definir os papéis, tanto da família, quanto da própria escola, enquanto colaboradores do processo educativo”. Há de se permitir aos pais um conhecimento bastante amplo de modo simples para que socializem com este universo de conhecimento. A orientação familiar deve buscar a mudança de comportamento dos pais, a mobilização e o engajamento nas tarefas que lhe competem executar.

A educação das crianças com Síndrome de Down deve ser vista num contexto mais amplo do que apenas escolar ou terapêutico. Os profissionais devem proporcionar tanto apoio prático como emocional às famílias. Os pais devem sentir que podem discutir suas dificuldades, compartilhar suas ansiedades e, principalmente, que podem confiar.

Acreditamos que a adequada educação permanente das crianças com Síndrome de Down, pelos familiares, seja um dos principais alvos que a maioria dos profissionais que atende essas crianças pretende alcançar. “As características próprias de cada núcleo familiar devem ser respeitadas para um bom termo no processo de orientação das famílias”. D’ANTINO (1998, p. 35).

Quanto mais estruturada emocionalmente for a família, com relações afetivas satisfatórias, convivências de trocas verdadeiras, e quanto mais precocemente puder ser informada e orientada, tanto maior será sua possibilidade de reestruturação de funções e papéis e, consequentemente, de facilitação do processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após a fecundação do óvulo pelo espermatozóide inicia-se a formação de um novo ser. Cromossomos do pai juntam-se com os da mãe e forma uma nova pessoa. Neste processo, pode ocorrer uma combinação diferenciada de cromossomos acarretando o que chamamos de Síndrome de Down. Geneticamente ela se define como a trissomia do cromossomo 21, que deveria ter dois pares de cromossomos e neste caso possui três.

A Síndrome de Down conhecida hoje como resultado de uma alteração genética foi ignorada durante muito tempo, seus portadores negligenciados e vistos da mesma forma que os outros, também, considerados deficientes. Procurava-se escondê-los, afastá-los da convivência social. Esse quadro pessimista e desumano persistiu durante muito tempo, influenciando na percepção que se mantinha sobre tais pessoas, tão carregada de maus prognósticos e com tão poucas perspectivas de aprendizagem e desenvolvimento. Nas últimas décadas, a partir dos avanços científicos, este quadro gradativamente vem sendo alterado. Essas pessoas passam a ser percebidas sob um enfoque mais humanizado. A repercussão no desenvolvimento, na aprendizagem e no comportamento deles vem desencadear indagações objetivas em torno das preocupações sobre as possibilidades de poderem atender às expectativas da sociedade, como pessoas e como cidadãos.

Quando nasce uma criança com Sídrome de Down, a maioria dos pais vivenciam sentimentos esmagadores de choque e incredulidade.

A relação familiar, principalmente entre pais e filhos sempre se mostrou de muita importância, sobremaneira nas famílias em que os filhos são portadores de algum tipo de deficiência, como é o caso da Síndrome de Down, pois nas pessoas com esta Síndrome a estimulação dos pais produz um melhor desenvolvimento físico, motor e psicológico e consequentemente uma melhor relação dessa pessoa com o mundo a sua volta.

É evidente, também, a necessidade de um apoio psicológico a essas famílias, elaborado com base nas interações familiares, o que facilitaria o processo de integração da criança de forma mais adequada, principalmente, se este apoio vir de programas de intervenção direcionados a essa população específica.

Concluímos que os pais que aceitam bem o filho, apesar de suas limitações diferentes das crianças consideradas “normais” ajudam na sua estimulação social e pessoal e consequentemente proporcionam a essas crianças um melhor desenvolvimento físico, motor e psicossocial.

A cooperação dos pais constitui um dos principais fatores para o êxito do processo de desenvolvimento e aprendizagem destas crianças. Quando não há esta colaboração, dificilmente estas crianças conseguirão atingir um desenvolvimento satisfatório; perto de toda a sua capacidade.

Todos esperaram que no futuro o conhecimento do valor da pessoa com Sídrome de Down não seja só da “boca para fora”, mas que lhe seja oferecida uma posição na qual se respeita seus direitos e privilégios como cidadão de uma sociedade democrática, na qual se preserve, verdadeiramente, sua dignidade. A sociedade deve se dar conta de que os indivíduos com Sídrome de Down são pessoas dignas, independentemente de suas realizações limitadas na área de desempenho acadêmico, e, assim sendo, têm necessidades, desejos e esperanças que merecem ser reconhecidos.

Acredita-se que o futuro da criança com Síndrome de Down pode vir a ser cada vez melhor devido às pesquisas e descobertas. Hoje, estas pessoas já provaram que tem capacidades para ter um bom desempenho na escola, no trabalho e na sociedade. No entanto , elas só terão chance de conquistar seu espaço e sua independência se os familiares e profissionais trabalharem juntos no sentido de conscientizar a sociedade de suas obrigações. Só assim, a pessoa com Síndrome de Down terá seus direitos garantidos, como qualquer outra pessoa.

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A participação da família

É de se esperar que esta tarefa de educar uma mesma criança de forma compartilhada, a partir de contextos tão diferentes como a casa e a creche, acabem fazendo com que surjam dificuldades e conflitos.

Costuma-se ouvir as seguintes reclamações:

• “Os pais não respeitam as regras que a creche pede que sejam seguidas.
• Os pais têm comportamentos não desejados pelos professores, tais como: não confiam quando o professor diz algo em relação às crianças.
• Os pais educam mal as crianças em casa, isto é, permitem que a criança coma só o que ela quer; acostumam a criança a dormir no colo; quando a criança chora e faz birra, cedem aos seus desejos.

É preciso compreender que esse relacionamento pais-professores envolve alguns sentimentos característicos, tais como: medo dos julgamentos, disputas sobre quem conhece melhor a criança, sentimento de culpa dos pais e, de outro lado, superioridade dos professores.

Mesmo que difícil, espera-se que a creche consiga promover entre professores e pais uma integração, uma colaboração mútua que passa pela confiança e pelo confiança e pelo conhecimento, com o objetivo de facilitar o desenvolvimento harmônico das crianças.

CONHECER A CRIANÇA à Está falando do conhecimento progressivo e mútuo, comprometimento em auxiliar e orientar pais e professores na busca de uma compreensão mais ampla da criança. Acredita-se que esta relação entre os pais, as mães e os professores contribuir para que todos se sintam colaboradores e interessados em oferecer a melhor educação para a criança.

ESTABELECER CRITERIOS EDUCATIVOS COMUNS à Este conhecimento compartilhado entre pais e professores vai permitir que sejam estabelecidos critérios educativos comuns. É importante que existam acordos com relação a determinadas proibições e permissões. Esta coerência irá contribuir para o desenvolvimento da criança.

OFERECER MODELOS DE INTERVENÇÃO E DE RELAÇÃO COM AS CRIANÇAS à É comum os pais ficarem impressionados quando presenciam seu filho guardando os brinquedos, obedecendo prontamente o professor e tendo outras atitudes que não costuma ter em casa.

AJUDAR A CONHECER A FUNÇÃO EDUCATIVA DA CRECHE à É fundamental que as famílias tenham a oportunidade de saber como é o funcionamento da creche/pré-escola e que possam reconhecer e valorizar o profissional da educação, em especial, aquele que tem conhecimentos específicos para educar crianças pequenas. Existem diferentes maneiras de os pais participarem, de se envolvem no trabalho da creche.

Formas de trabalho da creche com a família

FORMAS INDIVIDUAIS à Para conhecer melhor cada família, seu modo de vida, o sistema de educação da criança; para estabelecer a compreensão mútua e a confiança necessária, os professores das creches e pré-escolas podem utilizar algumas formas de trabalho individual com os pais, tais como:

• A entrevista antes da inserção da criança;
• Os contatos informais e cotidianos;
• As entrevistas solicitadas.

Os contatos informais e cotidianos são importantes por várias razões, pois permitem um conhecimento progressivo das pessoas que estão envolvidas com a educação; ajudam os pais a tranqüilizarem-se a verem com segurança a permanência do seu filho na creche e, ainda, a própria criança pode ver que as pessoas adultas significativas para ela têm coisas a conversar, relacionam-se. As entrevistas solicitadas podem acontecer sempre que a creche/pré-escola ou a família sentirem necessidade de discutir algum assunto específico de maneira mais detalhada.

Porque é preciso fazer a entrevista?

As finalidades mais habituais são: compartilhar a visão sobre a criança; informar os pais sobre a evolução que a criança está seguindo na creche; chegar a acordos com a família para reconduzir o processo de aprendizagem da criança.

FORMAS COLETIVAS à De qualquer forma, as reuniões precisam ser bem planejadas: anunciadas previamente, em horários minimamente adequados para os pais e profissionais, definindo duração, linguagem adequada, exemplos práticos, entre outros pontos.

OUTRAS FORMAS DE PARTICIPAÇÃO DOS PAIS à Um deles é por meio da representação dos pais nos Conselhos ou Associações. Pode-se permitir que os pais vejam e conheçam os seguintes pontos;

• Os projetos e trabalhos realizados pelas crianças;
• Calendário das atividades especiais de um determinado período;
• Informações relativas ao quadro de pessoal com as devidas qualificações;
• Informações relativas à estrutura e ao funcionamento da creche;
• Avisos importantes;
• Indicação de peças de teatro ou outro evento interessante para as crianças e as famílias.

As cadernetas servem para que família e professores possam trocar informações diárias, independentemente da possibilidade de encontro pessoal.

Os pais podem participar vindo falar para as crianças sobre o seu trabalho, ou ajudar na confecção de fantasias, contribuir com idéias para a organização de uma peça de teatro e participando de festas como: bingo, bazar, baile, festa junina, entre outras.

A FORMAÇÃO DAS ALMAS: O IMAGINÁRIO DA REPUBLICA NO BRASIL

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“O instrumento clássico de legitimação de regimes políticos no mundo moderno é, naturalmente, a ideologia, a justificação racional da organização do poder”. P. 09

“No caso do jacobinismo, por exemplo, havia a idealização da democracia clássica, a utopia da democracia direta, do governo por intermédio da participação direta de todos os cidadãos. No caso do liberalismo, a utopia era outra, era a de uma sociedade composta por indivíduos autônomos, cujos interesses eram compatibilizados pela mão invisível do mercado. Nessa versão, cabia ao governo interferir o menos possível na vida dos cidadãos. O positivismo possuía ingredientes utópicos ainda mais salientes”. P. 09

“Os republicanos brasileiros que se voltavam para a França como seu modelo tinham à disposição, portanto, um rico material em que se inspirar. O uso dessa simbologia revolucionária era facilitada pela falta de competição por parte da corrente liberal, cujo modelo eram os Estados Unidos. Esta não contava com a mesma riqueza simbólica a sua disposição”. P. 12

“… salientava-se jacobinos e positivistas, os últimos com a especificidade que os marcava e que tinha a ver com a visão histórica, filosófica e religiosa de Auguste Comte, e com sua concepção da estratégia política a ser adotada no Brasil para promover as transformações sociais. Ambos os grupos se mostraram conscientes da importância do uso dos símbolos e dos mitos na batalha pela vitória de sua versão republicana”. P. 13

“A discussão dos símbolos e de seu conteúdo poderá fornecer elementos preciosos para entender a visão de república que lhes estava por trás, ou mesmo a visão de sociedade, de história e do próprio ser humano. (…) Um símbolo estabelece uma relação de significado entre dois objetos, duas idéias, ou entre objetos e idéias, ou entre duas imagens”. P. 13

“No caso da criação de novos regimes, o mito estabelecerá a verdade da solução vencedora contra as forças do passado ou da oposição”. P. 14

“Todo regime político busca criar seu panteão cívico e salientar figuras que sirvam de imagem e modelo para os membros da comunidade. (…) Há situações em que a mesma figura pode apresentar diferentes imagens de heróis para diferentes setores da população, como é o caso de Abraham Lincoln nos Estados Unidos. Para a população negra e da costa leste em geral, Lincoln é o herói-salvador do povo, o mártir. Para o meio oeste e o oeste, ele é o herói-conquistador, o desbravador, o homem da fronteira. Por ser parte real, parte construído, por ser fruto de um processo de elaboração coletiva, o herói nos diz menos sobre si mesmo do que sobre a sociedade que o produz”. P. 14

I UTOPIAS REPUBLICANAS

“Como pais exportador de matérias-primas e importador de idéias e instituições, os modelos de república existentes na Europa e na América, especialmente nos Estados Unidos e na França, serviriam de referencia constante aos brasileiros”. P. 18

“… estavam certos os fundadores, ou grande maioria deles: a base filosófica da construção que deveriam compreender, a base do novo pacto político, tinha de ser a predominância do interesse individual, da busca da felicidade pessoal. (…) Como se sabe, para Hume todos os homens eram velhacos e só poderiam ser motivados por meio do apelo a seus interesses pessoais. (…) O mundo utilitário é o mundo das paixões, ou no máximo o mundo da razão a serviço das paixões, e não o mundo da virtude no sentido antigo da palavra.

O utilitarismo, a ênfase no interesse individual, colocava dificuldades para a concepção do coletivo, do público. A solução mais comum foi a de simplesmente definir o publico como a soma dos interesses individuais, como na famosa fórmula de Mandeville: vícios privados, virtude pública”. P. 19

“como observa Hannah Arendt em On revolution, no caso americano a verdadeira revolução já estava feita antes da independência”. P. 19

“Era conservador, na visão de Comte, aquele que conseguia conciliar o progresso trazido pela Revolução com a ordem necessária para apressar a transição para a sociedade normal, ou seja, para a sociedade positivista baseada na Religião da Humanidade”. P. 21

“De especial importância é a ênfase dada por Comte à noção de pátria. A pátria é a mediação necessária entre a família e a humanidade, é a mediação necessária para o desenvolvimento do instinto social. Ela deve, para atender a tal função, construir verdadeira comunidade de convivência, não podendo, portanto, possuir território excessivamente grande”. P. 22

“O fenômeno de buscar modelos é universal”. P. 22

“O Império brasileiro realizara uma engenhosa combinação de elementos importados”. P. 23

“Somente ao final do Império começaram a ser discutidas questões que tinham a ver com a formação da nação, com a redefinição da cidadania”. P. 23

“O guarani, de José de Alencar, romance publicado em 1857, buscava, dentro do estilo romântico, definir uma identidade nacional por meio da ligação simbólica entre uma jovem loura portuguesa e um chefe indígena acobreado. A união das duas raças num ambiente de exuberância tropical, longe das marcas da civilização européia, indicava uma primeira tentativa de esboçar o que seriam as bases de uma comunidade nacional com identidade própria”. P. 23

“Se o governo imperial contava com simpatias populares, inclusive da população negra, era isso devido antes ao simbolismo da figura paternal do rei do que à participação real dessa população na vida política do pais”. P. 24

“Em São Paulo existia, desde 1873, o partido republicano mais organizado do país, formado principalmente por proprietários. A província passara por grande surto de expansão do café e sentia-se asfixiada pela centralização monárquica”. P. 24

“No Brasil, não houvera a revolução prévia. Apesar da abolição da escravidão, a sociedade caracterizava-se por desigualdades profundas e pela concentração do poder”. P. 25

“Via-se no Império brasileiro, por exemplo, o atraso, o privilégio, a corrupção, quando o imperador era dos maiores promotores da arte e da ciência, quando a nobreza era apenas nominal e não hereditária, quando o índice de mortalidade pública era talvez o mais alto da história independente do Brasil. Mas as acusações eram feitas provavelmente de boa-fé, faziam parte da crença republicana”. P. 26

“Pela lei dos três estados, a Monarquia correspondia à fase teológico-militar, que devia ser superada pela fase positiva cuja melhor encarnação era a república. a separação entre Igreja e Estado era também uma demanda atraente para esse grupo, particularmente para os professores, estudantes e militares”. P. 27

“Um grupo social que se sentiu particularmente atraído por essa visão da sociedade e da república foi o dos militares. O fato é extremamente irônico, de vez que, de acordo com as teses positivistas, um governo militar seria uma retrogradação social. Mas entram ai as surpresas que fazem interessante o fenômeno da adaptação de idéias”. P. 27-28

“Com exceção de poucos radicais, os vários grupos que procuravam em modelos republicanos uma saída para a Monarquia acabavam dando ênfase ao Estado, mesmo os que partiam de premissas liberais. (…) A sociedade escravocrata abria também poucos espaços ocupacionais, fazendo com que os deslocados acabassem por recorrer diretamente ao emprego público ou à intervenção do Estado para abrir perspectivas de carreira. Bacharéis desempregados, militares insatisfeitos com os baixos salários e com minguados orçamentos, operários do Estado em busca de uma legislação social, migrantes urbanos em busca de emprego, todos acabavam olhando para o Estado como porto de salvação. A inserção de todos eles na política se dava mais pela porta do Estado do que pela afirmação de um direito de cidadão. Era uma inserção que se chamaria com maior precisão de estadania”. P. 29

“Dentro de tal visão, o patriota era quase incompatível com o homem econômico, a cidadania incompatível com a cultura”. P. 29

“Ora, alem de ter surgido em uma sociedade profundamente desigual e hierarquizada, a República brasileira foi proclamada em um momento de intensa especulação financeira, causada pelas grandes emissões de dinheiro feitas pelo governo para atender às necessidades geradas pela abolição da escravidão. (…) Em vez da agitação do Terceiro Estado, a República brasileira nasceu no meio da agitação dos especuladores, agitação que ela só fez aumentar pela continuação da política emissionista. (…) Predominava a mentalidade predatória, o espírito do capitalismo sem a ética protestante”. P. 29-30

“A imagem mais popular do marechal Floriano Peixoto era a do Guardião do Tesouro, uma pálida versão do Robespierre dos tempos do Comitê de Salvação Pública, chamado o Incorruptível. Mas durou pouco a reação. A corrupção e a negociata voltaram a caracterizar o novo regime, fazendo com que o antigo, acusado antes de corrupto, aparecesse já como símbolo de austeridade pública”. P. 30

“O ponto central do debate era a relação entre o privado e o público, o individuo e a comunidade”. P. 30

“As propostas concretas dos positivistas, e não apenas suas posições filosóficas, iam também na intenção de promover a integração. A começar por sua demanda básica de incorporação do proletariado à sociedade. De preferência, essa incorporação deveria ser feita pelo reconhecimento, por parte dos ricos, do dever de proteger os pobres, por meio de mudança de mentalidade, e não pelo conflito de classes.(…) Até mesmo a transição republicana deveria ser feita de maneira suave: os ortodoxos queriam que o imperador tomasse a iniciativa de se proclamar ditador republicano”. P. 31

“Para que funcionasse a república antiga, para que os cidadãos aceitassem a liberdade pública em troca da liberdade individual (…) talvez fosse necessária a existência anterior do sentimento de comunidade, de identidade coletiva, que antigamente podia ser o de pertencer a uma nação”. P. 32

“No Brasil do inicio da República, inexistia tal sentimento. Havia, sem dúvida, alguns elementos que em geral faziam parte de uma identidade nacional, como a unidade da língua, da religião e mesmo a unidade política. A guerra contra o Paraguai na década de 1860 produzira, é certo, um inicio de sentimento nacional. Mas fora muito limitado pelas complicações impostas pela presença da escravidão”. P. 32

“A busca de uma identidade coletiva para o país, de uma base para a construção da nação, seria tarefa que iria perseguir a geração intelectual da Primeira República (1889-1930). (…) Os propagandistas e os principais participantes do movimento republicano rapidamente perceberam que não se tratava da república de seus sonhos”. P. 32-33

II – AS PROCLAMAÇÕES DA REPÚBLICA

“Não decorrera ainda um mês da proclamação da República quando o encarregado de negócio da França, no Rio de Janeiro, Camille Blondel, anotava a tentativa dos vencedores de 15 de novembro de construir uma versão oficial dos fatos destinada à história. (…) O encarregado percebera um fenômeno comum aos grandes eventos: a batalha pela construção de uma versão oficial dos fatos, a luta pelo estabelecimento do mito de origem”. P. 35

“Benjamin Constant (…) seus seguidores insistem em lhe dar o papel de fundador da República, de responsável pela ação dos militares; teria sido ele quem fornecera os fundamentos ideológicos, quem convencera Deodoro e evitara que o episódio não passasse de quartelada”. P. 36

“Deodoro, Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva, Floriano Peixoto (…) A dança dos adjetivos, definidores do papel de cada um desses homens, prossegue até os dias de hoje. A luta maior é pela qualificação de fundador, disputada pelos partidários de Deodoro e Benjamin Constant. Quintino é raramente fundador; com freqüência aparece como patriarca ou aposto. Em torno de Floriano há mais consenso, pois veio depois: ele será o consolidador, o salvador da República. Os que tiram de Deodoro a qualidade de fundador lhe dão, em compensação, o título de proclamador”. P. 37

“… chegaram a se reunir após o 15 de novembro para estabelecer o que consideravam a verdade sobre os fatos e combater o esforço dos que tentavam, segundo eles, deturpar a história em proveito próprio”. P. 38

“O tema corporativo foi decisivo para convencer Deodoro a participar do movimento. É conhecida sua resistência à admissão de civis – paisanos, casacas, como dizia – na conspiração (…) De fato, Ouro Preto decidira reorganizar a Guarda Nacional e fortalecer a polícia como contrapeso à indisciplina do Exército, mas era certamente falso que pretendesse reduzir o contingente do exército, ou mesmo extingui-lo, como se disse a Deodoro”. P. 39

“Esse grupo não tinha visão elaborada de República, buscava apenas posição de maior prestígio e poder, a que julgava ter o Exército direito após o esforço da guerra contra o Paraguai”. P. 39

“O estilo do quadro é o da clássica exaltação do herói militar, elevado sobre os comuns mortais montando fogoso animal. (…) a 15 de novembro, ele não levava espada, apesar de depoimentos em contrário. Representá-lo erguendo a espada coruscante, como queria o major Jacques Ourive, seria violar por demais a verdade dos fatos. Já bastava a dúvida sobre o sentido do gesto de erguer o boné”. P. 40

“Benjamin não aparece em primeiro lugar como representante da classe militar, como vingador e salvador do Exército. Aparece como o professor, o teórico, o portador de uma visão da história, de um projeto de Brasil. A ele se devia o fato de o 15 de novembro ter ido além de uma aquartelada destinada a derrubar o ministério de Ouro Preto, de se ter transformado em mudança de regime, em revolução, em salvação da pátria”. P. 40

“Benjamin é colocado no panteão cívico do Brasil, ao lado de Tiradentes e José Bonifácio. Tiradentes na Inconfidência, José na Independência, Benjamin na República, era essa, para os ortodoxos, a trindade cívica que simbolizava o avanço da sociedade brasileira em direção a seu destino histórico, que era também a plenitude da humanidade em sua fase positiva”. P. 41

“Em sua forma pura, a vertente ligada a Benjamin Constant ficou restrita às propostas dos ortodoxos e não encontrou aplicação prática. Mas contribuiu para várias medidas dos primeiros anos da República, sobretudo a separação da Igreja e do Estado, a introdução do casamento civil, a secularização dos cemitérios, o início do contato com o operariado, a reforma do ensino militar”. P; 42

“Se a republicados deodoristas resumia-se à salvação do Exército, a república da vertente Benjamin Constant queria a salvação da pátria”. P. 42

“A figura simbólica da República, representada por uma mulher, deveria dominar o monumento. (…) A única modificação significativa, que não foge a simbologia positivista, foi a substituição da Pátria no alto do monumento pela Humanidade, representada também por uma mulher, agora com uma criança de colo”. P. 45

“Os republicanos civis foram colocados a par da conspiração apenas quatro dias antes do seu desfecho. Mesmo assim, como vimos, contra a vontade de Deodoro. Para a legitimidade do movimento, no entanto, era importante que ele não aparecesse como simples ação militar. Era fundamental que a presença dos históricos constasse do próprio evento, a fim de evitar a ironia de uma proclamação alheia ao esforço que desenvolviam havia tantos anos”. P. 49

No congresso do partido realizado em 1888, Barata Ribeiro, o futuro prefeito florianista da cidade, manifestava seu ceticismo, afirmando que era das províncias que se devia esperar a vitória do movimento. O Rio de Janeiro, no máximo, contribuir com a pirotecnia”. P. 50

“Deodoro representava o apoio da corporação militar sem interferência na concepção do novo regime e mesmo em seu funcionamento”. P. 50

“Se havia históricos positivistas, especialmente no Rio Grande do Sul, eles não predominavam no Rio e muito menos em são Paulo, onde estava maior o peso do movimento. A república sociocrática dos positivistas era incompatível com a república democrática dos paulistas, isto é, com a república representativa à maneira norte-americana. (…) Os grandes adversários ideológicos dos históricos eram os positivistas e não os deodoristas.

Não é de estranhar, então, que a versão de Quintino Bocaiúva e de Francisco Glicério buscasse reduzir o papel de Benjamin, mais do que o de Deodoro”. P. 50

“Segundo Quintino, foi sua decisão, apoiada por Sólon, que levou à proclamação, inventando os boatos deflagradores da movimentação dos movimentos de São Cristóvão e, assim, definindo a situação. (…) Sua decisão, o arrojo de Sólon, o heroísmo de Deodoro – eis, segundo ele, os ingredientes que fizeram a República. A decisão é dos históricos, é do chefe do Partido Republicano; os militares são os instrumentos livremente aceitos para implementá-la. Quintino sugere que a própria Questão Militar teria sido parte da tática republicana de agitar os quartéis contra o governo. Sena Madureira, ‘nosso companheiro’, teria dado inicio ao conflito com tal finalidade”. P. 51

“A interferência militar, segundo ele, tornara possível a proclamação do novo regime quando os republicanos eram parte insignificante da população. Daí também, segundo ele, a quase nenhuma diferença entre o regime antigo e o novo. Não era a república de seus sonhos”. P. 52

“Se nenhum líder republicano civil teve qualquer gesto que pudesse ser imortalizado pela arte, o povo também esteve longe de representar um papel semelhante ao que lhe coube na Revolução Francesa de que tanto falavam os republicanos”. P. 52

O único exemplo de iniciativa popular ocorreu no final da parada militar, quando as tropas do Exército deixavam o Arsenal da Marinha para regressar aos quartéis. Os populares que acompanhavam a parada pediram a Lopes Trovão que lhes pagasse um trago. A conta de quarenta mil-réis acabou caindo nas costas do taverneiro, pois Lopes Trovão só tinha onze mil-réis no bolso. O anônimo comerciante tornou-se, sem querer, o melhor símbolo do papel do povo no novo regime: aquele que paga a conta”. P. 53.

“Para o novo projeto militar, era necessária uma figura que não dividisse, que fosse o próprio símbolo não só da união militar mas da união da própria nação. O candidato teve de ser buscado no Império: Caxias. O duque passou a representar a cara nacional conservadora da República”. P. 53

“O mito de origem ficou inconcluso, como inconcluso ficou a República”. P. 54

III – TIRADENTES: UM HERÓI PARA A REPÚBLICA

“A luta em torno do mito de origem da República mostrou a dificuldade de construir um herói para o novo regime. Heróis são símbolos poderosos, encarnação de idéias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva. São, por isso, instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da legitimação de regimes políticos. (…) Herói que se preze tem de ter, de algum modo, a cara da nação. Tem de responder a alguma necessidade ou aspiração coletiva, refletir algum tipo de personalidade ou de comportamento que corresponda a um modelo coletivo valorizado”. P. 55

“Deodoro era o candidato mais óbvio ao papel de herói republicano. Não era apenas pela indisputada chefia do movimento militar que derrubou a Monarquia, mas também por certos aspectos de sua atuação na jornada de 15 de novembro. O velho militar, moribundo na véspera, mal se mantendo na sela, pondo-se à frente da tropa, entrando desassombradamente no Quartel-General: sem dúvida, havia aí ingredientes de heroicidade”. P. 56

“Em torna da passagem histórica de Tiradentes houve e continua a haver intensa batalha historiográfica até hoje se disputa por seu verdadeiro papel na Inconfidência, sobre sua personalidade, sobre suas convicções, sobre sua aparência física”. P. 57

“Pouco se sabe sobre a memória de Tiradentes entre o povo de Minas Gerais e da cidade do Rio de Janeiro. Que devia existir tal memória é difícil negar.”. P. 58

“Há também registro de que Joaquim Silvério dos Reis, o traidor dos inconfidentes, não pode viver em paz no Rio de Janeiro, para onde se mudara devido à rejeição dos mineiros. A animosidade da população era tão grande que ele alterou o nome, acrescentando-lhe Montenegro, e foi morar no Maranhão. As pessoas não lhe falavam; quando o faziam, era para o insultar. A se acreditar nele, houve até mesmo um atentado a tiros contra sua vida e um incêndio em sua casa”. P. 58-59

“O bisneto da rainha louca governava o país. O Brasil era uma monarquia governada pela casa de Bragança, ao passo que os inconfidentes tinham pregado uma república americana”. P. 59

“Tiradentes já aparece em seu texto com as cores próprias de um herói cívico. É o mártir que soube morrer sem traço de temor, pois ‘se sacrificava por uma idéia’, interpretação típica de um revolucionário francês”. P. 60

“Ao que parece, o primeiro conflito político em torno da figura de Tiradentes ocorreu em 1862, por ocasião da inauguração da estátua de D. Pedro I no então largo do Rocio, ou Praça da Constituição, hoje Praça Tiradentes. A ocasião e o local eram a própria materialização do conflito. No lugar onde fora enforcado Tiradentes, o governo erguia uma estátua ao neto da rainha que o condenara à morte infame”. P. 60

“A luta entre a memória de Pedro I, promovida pelo governo, e a de Tiradentes, símbolo dos republicanos, tornou-se aos pouco emblemática da batalha entre Monarquia e República”. P. 61

“Havia numerosa simbologia na luta entre Pedro I e Tiradentes”. P. 61

“Por revelar importantes documentos até então desconhecidos, a obra de Norberto tornou-se ponto de referência obrigatório nos estudos da Inconfidência que vieram posteriormente, seja para elogiá-la, seja para criticá-la”. P. 62

“Seu ardor patriótico teria sido substituído pelo fervor religioso, o patíbulo de glória se teria formado em ara de sacrifício. Tiradentes, segundo Norberto, tinha escolhido morrer com o credo nos lábios em vez de o fazer com o brado da revolta – viva a liberdade! Que explodira do peito dos mártires pernambucanos de 1817 e 1824. Norberto resumiu assim as razões de seu desapontamento: ‘Prenderam um patriota; executaram um frade! ’”. P. 63

“Além do óbvio apelo à tradição cristã do povo, que facilitava a transmissão da imagem de um Cristo Cívico, poder-se-ia perguntar por outras razões do êxito de Tiradentes como herói republicano. Pois não foi sem resistência que ele atingiu tal posição. (…) Não consta que se tenha tentado transformar Bento Gonçalves, presidente da república sul-rio-grandense, em herói republicano nacional. O fato talvez se deva à posição peculiar do Rio Grande do Sul no cenário brasileiro e a suspeita de separatismo dirigida à revolta farroupilha. Faltava aos heróis gaúchos à característica nacional, indispensável à imagem de um herói republicano.

Frei Caneca era um competidor mais sério. Herói de duas revoltas, uma pela independência, outra contra o absolutismo do primeiro imperador, morrera também como mártir, fuzilado, pois nenhum carrasco se dispusera a enforcá-lo”. P. 67.

“Talvez esteja ai um dos principais segredos do êxito de Tiradentes. O fato de não ter a conjuração passado à ação concreta poupou-lhe ter derramado sangue, ter exercido violência contra outras pessoas, ter criado inimigos. A violência revolucionária permaneceu potencial. Tiradentes era ‘o mártir ideal e imaculado na brancura de sua túnica de condenado’. A violência real pertenceu aos carrascos. Ele foi a vítima de um sonho, de um ideal, dos ‘loucos desejos de uma sonhada liberdade’, na expressão do autor da Memória. Foi vitima não só do governo português e seus representantes, mas até mesmo de seus amigos”. P. 68

“Ao final do Império, inicio da República, até mesmo os monarquistas começaram a reivindicar para si a herança de Tiradentes. P. 70.

“A aceitação de Tiradentes veio, acompanhada de sua transformação em herói republicano. Unia o país através do espaço, do tempo, das classes. Para isso sua imagem precisava ser idealizada, como de fato o foi”. P. 71

“A tentativa de transformar Tiradentes em herói nacional, adequado a todos os gostos, não eliminou totalmente a ambigüidade do símbolo”. P. 71

“O segredo da vitalidade do herói talvez esteja, afinal, nessa ambigüidade, em sua resistência aos continuados esforços de esquartejamento de sua memória”. P. 73

IV – REPÚBLICA MULHER: ENTRE MARIA E MARIANNE

“Um dos elementos marcantes do imaginário republicano francês foi o uso da alegoria feminina para representar a República. A Monarquia representava-se naturalmente pela figura do rei, que, eventualmente, simbolizava a própria nação”. P. 75

“Os pintores positivistas foram os únicos a levar a sério a tentativa de utilizar a figura feminina como alegoria cívica”. P. 86

“A virgem ou a mulher heróica dos republicanos era facilmente transformada em mulher da vida, prostituta”. P. 87

“Em vez de mãe, a República é mãe-de-leite, a vaca leiteira, que tem de alimentar políticos e funcionários que vivem dela e não para ela”. P. 88

“Segundo a denúncia, que provocou tumulto na Câmara e levou à suspensão da Sessão, mas que não foi contestada, a foto seria de uma tal sra. Prates, uma das meretrizes mais conhecida da capital. Segundo outras versões, seria de Laurinha Santos Lobo, sobrinha e amante de Murtinho. No reverso da nota, a República era representada por uma clássica Palas Atena, de capacete, escudo e lança. A nota é um resumo precioso. A República, quando não se representava pela abstração, clássica ou romântica, só encontrava seu rosto na versão da mulher corrompida, era uma res publica, no sentido em que a prostituta era uma mulher pública”. P. 89

“Ao considerar a política fora de ação do campo da mulher, Rondon na verdade não se afastava da ortodoxia positivista. Apesar da grande ênfase no papel feminino, apesar da declaração da superioridade da mulher sobre o homem, Comte acabava por lhe atribuir o papel tradicional de mãe e esposa, a guardiã do lar, pois era assim que a mulher garantia a reprodução da espécie e a saúde moral da humanidade”. P. 93

“Em nenhum dos casos a participação feminina indicava qualquer adesão à República. Pelo contrário, em 1904, durante a revolta contra a vacina, os jornais registraram a participação de prostitutas ao lado dos rebeldes. Nesse caso, a representação da República como prostituta talvez fosse tão insultuosa para eles como o era para o novo regime”. P. 93

“A separação entre Igreja e Estado efetivada pela República gerou animosidade entre a população, como o atesta a revolta de Canudos. O uso de um símbolo católico para representar a República poderia soar como profanação”. P. 93

“A maioria das representações femininas, à época da proclamação, já tinha traços fin-de-siècles. Salientava a sensualidade, a beleza, a fragilidade da mulher”. P. 95

“Nessas circunstâncias, a única maneira em que fazia sentido usar a alegoria era aproximar uma República considerada falsificada da visão de mulher que a época considerada corrompida, ou pervertida, a prostituta”. P. 96

V – BANDEIRA E HINO: O PESO DA TRADIÇÃO

“A batalha em torno da simbologia republicana deu-se também em relação à bandeira e ao hino. Não podia ser de outra maneira, de vez que são esses tradicionalmente os símbolos nacionais mais evidentes”. P. 109

“Mais do que a batalha da bandeira, a do hino nacional significou uma vitória da tradição, pode-se mesmo dizer uma vitória popular, talvez a única intervenção vitoriosa do povo na implantação do novo regime”. P. 122

BIBLIOGRAFIA

CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras. 1990

CONFLITO DE NORMAS NO DIREITO PREVIDENCIÁRIO 1/2

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MONOGRAFIA: O APARENTE CONFLITO DE NORMAS NO QUE DIZ RESPEITO AO INSTITUTO DA DECADÊNCIA NO DIREITO PREVIDENCIÁRIO

RESUMO

ROSA, C.O.L.C. Contribuições preciosas das teorias de Jean Piaget, correlacionando-as com o desenvolvimento da afetividade, da autonomia e sua influência na aprendizagem. 2003. Monografia (Especialização em Psicopedagogia: Construção do Conhecimento e Escolaridade) – Universidade de Franca, Franca.

Este trabalho apresentou um estudo das contribuições preciosas das teorias de Jean Piaget, correlacionando-as com o desenvolvimento da afetividade, da autonomia e suas influências na aprendizagem. Teve por objetivo a ampliação do conhecimento da teoria piagetiana chamada Epistemologia Genética ou Teoria Psicogenética, conhecida como Construtivismo.

A metodologia utilizada constitui-se numa revisão de literatura realizada através de recorte acerca da construção do conhecimento, além de uma análise de como a afetividade e autonomia podem contribuir no processo de ensino e aprendizagem e no desenvolvimento intelectual do educando. Foi analisada também, a importância da afetividade e autonomia no processo educacional, entre alunos e professores em cursos à distância, com intuito de saber sua contribuição para a melhoria da qualidade de ensino. Colocamos as relações afetivas e autônomas como um desafio para o educador, devendo este agir de forma que expresse o seu interesse pelo crescimento dos educandos, respeitando suas individualidades. Concluiu-se que a afetividade e autonomia devem caminhar junto do aspecto cognitivo, a fim se criar uma relação favorável ao processo educacional.

Palavras chave: afetividade; autonomia; conhecimento; ensino; aprendizagem.

ABSTRACT

ROSA, C.O.L.C. Precious contributions of Jean Piaget`s theories, correlating them with the development of the affectivity, of the autonomy and her influence in the learning. 2003. Monograph (Specialization in Psicopedagogia: Construction of the Knowledge and Education) – University of. Franca, Franca.

This work presented a study of the precious contributions of Jean Piaget’s theories, correlating them with the development of the affectivity, of the autonomy and their influences in the learning. He/she had for objective the enlargement of the knowledge of the theory called piagetiana Epistemologia Genética or Theory of Psicogenética, known as Constructivism.

The used methodology is constituted in a literature revision accomplished through cutting concerning the construction of the knowledge, besides an analysis of as the affectivity and autonomy they can contribute in the teaching process and learning and in the student’s intellectual development. It was also analyzed, the importance of the affectivity and autonomy in the education process, between students and teachers in courses at the distance, with intention of knowing his/her contribution for the improvement of the teaching quality.

We put the affectionate and autonomous relationships as a challenge for the educator, owing this to act so that it expresses his/her interest for the students’ growth, respecting their individualities. It was ended that the affectivity and autonomy should walk the cognitive aspect near, to end to grow up a favorable relationship to the education process.

Words key: affectivity; autonomy; knowledge; teaching; learning

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
CAPÍTULO I – AFETIVIDADE E AUTONOMIA COMO FINALIDADE DA EDUCAÇÃO
1 INFLUÊNCIA DA AFETIVIDADE NA APRENDIZAGEM
2 A AUTONOMIA COMO FINALIDADE DA EDUCAÇÃO
CAPÍTULO II – AQUISIÇÃO DO CONHECIMENTO DE MUNDO: DIFERENTES PONTOS DE VISTA
1 COMO AS CRIANÇAS PENSAM, SE DESENVOLVEM E ADQUIREM CONHECIMENTO DE MUNDO?
CAPÍTULO III – UM POUCO DE HISTÓRIA
1 1 JEAN PIAGET, SUA VIDA
CAPÍTULO IV – CONCEPÇÃO CONSTRUTIVISTA DA FORMAÇÃO DA INTELIGÊNCIA: TEORIA DE JEAN PIAGET
1 O QUE É CONSTRUTIVISMO?
2 A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO SEGUNDO PIAGET
2.1 Os Esquemas
2.2 A Assimilação e Acomodação
2.3 Equilibração
CAPÍTULO V – CARACTERÍSTICAS GERAIS DOS PRINCIPAIS PERÍODOS DE DESENVOLVIMENTO
1 PRINCIPAIS PERÍODOS DO DESENVOLVIMENTO MENTAL E CARACTERÍSTICA DE CADA UM, SEGUNDO PIAGET
CAPÍTULO VI – DESENVOLVIMENTO DA AUTONOMIA
1 COMO DESENVOLVER SUJEITOS AUTÔNOMOS NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO?
CAPÍTULO VII COMO FICA A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO EM CURSOS À DISTÂNCIA?
1 CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO E O PAPEL DO PROFESSOR PARA DESENVOLVER ESTRATÉGIAS DE APRENDIZAGEM EM CURSOS À DISTÂNCIA
CAPÍTULO VIII – A IMPORTÂNCIA DA INTERAÇÃO SOCIAL NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO
1 RELAÇÃO PROFESSOR /ALUNO, ALUNO/ALUNO NO PROCESSO DE ENSINO
QUE TIPO DE APRENDIZAGEM E DE CRIANÇAS PROCURAMOS FORMAR?
CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS

INTRODUÇÃO

“Contribuições preciosas das teorias de Jean Piaget, correlacionando-as com o desenvolvimento da afetividade, da autonomia e suas influências na aprendizagem”, terá o intuito de apresentar um estudo da teoria piagetiana (dado sua importância à prática da pedagogia na educação), chamada Epistemologia Genética ou Teoria Psicogenética conhecida por construtivismo, sua origem, sua base filosófica, alguns pressupostos e propostas.

Observaremos as contribuições que o teórico construtivista Jean Piaget deu à prática da pedagogia na educação, o fato de ter mudado o paradigma “criança”, de um ser que recebe e acumula conhecimento com base em estímulos e reforços, para um sujeito ativo que constrói seu conhecimento graças à contínua interação com o meio.

Visaremos à ampliação do conhecimento e influência da afetividade e autonomia na construção do conhecimento e intervenção pedagógica, bem como o meu entendimento sobre tais propostas.

Verificaremos uma abordagem pedagógica na qual é dada atenção explícita ao papel da interação social na aprendizagem: relação professor/aluno, aluno /aluno, (na busca da praticidade, afetividade, autonomia e eficiência no preparo do educando para a vida), tanto no ensino presencial quanto à distância, numa redefinição de postura e do processo ensino-aprendizagem do século XXI.

Compararemos a teoria piagetiana (que passa então a ser vista como uma varinha de condão, como um método milagroso de se ensinar crianças), com o método tradicional de se transmitir conhecimento. Cada profissional deverá ter nitidamente definido o seu papel nesse contexto social, onde esta relação passa a ser alvo de pesquisas, do livre debate de idéias, da interação social e da diminuição do trabalho individualizado.

Utilizaremos o método dedutivo-bibliográfico que especificará e organizará as contribuições preciosas de Jean Piaget.

Almejaremos uma contribuição para os profissionais da educação que buscam conhecimentos inesgotáveis no real significado de seu papel como educador, de seu “ofício de mestre”, no sentido de apropriar-se de um fazer e de um saber fazer adequados ao momento que vive a escola na atualidade.

CAPÍTULO I – AFETIVIDADE E AUTONOMIA COMO FINALIDADE DA EDUCAÇÃO

1 INFLUÊNCIA DA AFETIVIDADE NA APRENDIZAGEM

A palavra afeto vem do latim affectur (afetar, tocar) e constitui o elemento básico da afetividade. Segundo Ferreira “o verbete afetividade : conjunto de fenômenos afetivos (tendências, emoções, sentimentos, paixões etc.)./ Força constituída por esses fenômenos, no íntimo de um caráter individual./ Que se manifestam acompanhados sempre da impressão de dor, insatisfação, de agrado ou desagrado, de alegria ou tristeza.”

A questão da afetividade tem sido bastante discutida por professores, pais e educadores em que é percebida a importância da afetividade e sua influência no processo ensino e aprendizagem. Mas o que é afetividade?

Afetividade é um estado psicológico do ser humano que pode ou não ser modificado a partir das situações, é parte de nossa vida psíquica. Segundo Piaget, tal estado psicológico é de grande influência no comportamento e no aprendizado das pessoas juntamente com o desenvolvimento cognitivo.

Tanto o aspecto cognitivo quanto o afetivo desempenham papéis chaves no desenvolvimento intelectual. Considerando os postulados teóricos dos diversos autores que estudam o assunto, a construção do conhecimento-aprendizagem, pode ser caracterizado:

• De forma gradual: o conhecimento é construído aos poucos, onde cada indivíduo tem seu ritmo próprio de aprender;
• De forma cumulativa: onde cada nova aquisição-experiência se adiciona ao repertório já adquirido;
• De forma integrativa: supondo uma dinâmica interna, mental de aprender e apreender onde o conteúdo teórico apreendido na prática interage com a teoria;
• De forma contínua: onde o indivíduo aprende ao longo de sua vida/conhecimento.

Piaget (1980), afirma que a afetividade não modifica a estrutura no funcionamento da inteligência, porém é a energia que impulsiona a ação de aprender . Brenelli (2000) considera que a ação seja ela qual for, necessita de instrumentos fornecidos pela inteligência para alcançar um objetivo, uma meta, mas é necessário o desejo, ou seja, algo que mobiliza o sujeito em direção a este objetivo e isso correspondem a afetividade. A afetividade passa então a constituir um fator que influencia diretamente na aprendizagem, ou seja, a relação afetiva entre quem ensina e quem aprende, isto é, a afetividade entre o professor e o aluno. O caráter afetivo influencia nas construções cognitivas, possibilitando liberdade, confiança, honestidade, etc. e na (re) elaboração de saberes/conhecimentos.

Diretamente ligada à emoção, a afetividade consegue determinar o modo como as pessoas visualizam o mundo e também a forma com que se manifesta dentro dele. Todos os fatos e acontecimentos que houve na vida de uma pessoa traz recordações e experiências por toda a sua história. Dessa forma, a presença ou ausência do afeto determina a forma com que um indivíduo se desenvolverá. Também determina a auto-estima das pessoas a partir da infância, pois quando uma criança recebe afeto do meio em que vive consegue crescer e desenvolver com determinação e segurança.

O desenvolvimento psíquico da criança dá-se através do meio social que ela convive. Para Barros (1996), são as emoções que unem a criança ao meio social: são elas que antecipam à intenção e o raciocínio. A primeira e maior fonte de afeto e estímulo para o desenvolvimento integral da criança, sem dúvida, é a mãe. A mãe que canta, acalenta e acaricia seu bebê, este por sua vez responde a ela com gesto de bem-estar, ou simplesmente com seu olhar.

Episódio tão simples, vivido tantas vezes na história da humanidade, é mais um elo na formação dos vínculos afetivos.

“O primeiro ano de vida é fundamental para acreditar ou não no mundo e crianças que sentem queridas desenvolvem uma percepção positiva da vida, confiam em si mesmas e nos demais, são otimistas e muito confiantes”. (ERIKSON apud CALVIN, 2000, p. 176). O vínculo afetivo é definido como um laço de afeto filial que uma pessoa estabelece com outra e que se manifesta mediante a intenção de manter alto nível de proximidade com quem é objeto do apego.

Estar presente na vida dos filhos é muito importante. Deixar que eles façam parte do seu mundo, contar uma história, sentar com eles, rolar no tapete, soltar pipa, jogar bola, participar do seu dia a dia; essa afetividade com certeza trará grandes benefícios para a aprendizagem escolar da criança.

A afetividade é uma sensação de extrema importância para a saúde mental de todos os seres humanos por influenciar o desenvolvimento geral, o comportamento e o desenvolvimento cognitivo. As manifestações de nossa afetividade estão presentes em tudo que fazemos.

Existem alguns transtornos que ocorrem devido ao pouco recebimento ou ausência de afeto: depressão, fobia, somatização, ansiedade generalizada e outros. Indivíduos com recordações e experiências ruins e ou tristes se tornam apáticas, ou seja, pessoas que excluem a afetividade de suas vidas, podem ainda tornar-se incontinentes emocionais (alteração da afetividade onde o indivíduo não consegue se controlar emocionalmente).

“A teoria piagetiana vê na afetividade […], a motivação e o interesse que é um trampolim para o propósito. Sem interesse, não há esforço construtivo para extração de um sentido da realização de uma experiência. Sem interesse naquilo que se traduz como novo para aquele que o sente, jamais haverá uma modificação no raciocínio ou no seu sistema de significações que geram os valores.” (De VRIES e ZAN, 1997 apud TOGNETTA, 2003, p.107) .

Para Piaget (1980), a afetividade é intrapessoal (motivação, curiosidade, necessidade, esforço, interesse, etc.), e interpessoal (atrações, simpatias, antipatias, etc.).

Afetividade e inteligência são dois aspectos que caminham lado a lado em uma ação e, portanto, evoluem no processo de desenvolvimento, sendo possível observar transformações coerentes nesses dois aspectos conforme a criança vai desenvolvendo-se (a cada estágio, transformações são evidentes).

A relação entre inteligência e afetividade, razão e emoção no desenvolvimento do aluno e no contexto da educação estão inteiramente ligadas ao desempenho escolar, pois, o desenvolvimento é um processo contínuo e a afetividade tem um papel imprescindível nesse processo de desenvolvimento do aluno, no entanto, o meio deve proporcionar relações de afetividade entre pais e filhos, professores e alunos. A aula deve ser encarada como uma relação entre professor e aluno, numa aprendizagem mútua, onde a escola seja encarada como um lugar de reflexões na construção e reconstrução do saber. Nesse contexto, a reflexão sobre a importância e o papel do professor e do seu relacionamento com os alunos, vai bem mais além, pois estamos diante de constantes mudanças, onde o novo sempre traz expectativas que muitas vezes são obscuras, preocupam e deixam os profissionais perdidos.

O objetivo é enfrentar esse grande desafio, a fim de contribuirmos para um futuro melhor, onde devemos romper com antigos conceitos, através de crítica, criatividade, afetividade, autonomia e diálogo, para a construção de novas formas no presente, com vistas ao futuro.

No instante em que se fala sobre construção do conhecimento e da aprendizagem e sua relação com a afetividade, tem se esta envolvendo o uso e o desenvolvimento de todos os poderes e capacidades do homem, tanto físicas, quanto mentais e afetivas. Logo, aprendizagem/construção do conhecimento, não se rotula na simples memorização mecânica de conteúdos, fatos e experiências, mas sim abrangendo o todo humano, haja vista que, no universo físico-psicoemocional, a construção do conhecimento não pode ser vista e/ou analisada como forma fragmentada.

Certamente, a afetividade interfere na aquisição de conhecimentos, pois pode acelerar ou retardar o desenvolvimento cognitivo de uma criança.

Piaget afirmava que a afetividade é como se fosse o combustível do motor, ou seja, o que nos move a querer a aprender, essa motivação e interesse que impulsionam a aprendizagem.

É muito importante para a criança perceber no professor um amigo já que é o laço afetivo que irá influenciar diretamente na aquisição do conhecimento. Vale ressaltar que, na dinâmica do processo ensino-aprendizagem, encontra-se também a moralidade, pois esta estabelece regras do jogo que se chama aprendizagem. Na verdade, a moralidade humana é o palco, por excelência, onde a afetividade e a razão se encontram, via de regra, sob a forma de confronto. Em outras palavras, a afetividade interfere no uso da razão.

A respeito do desenvolvimento da afetividade, Piaget (1969, p. 38, grifo do autor), comenta que:

Existe um estreito paralelismo entre o desenvolvimento da afetividade e o das funções intelectuais, já que estes são dois aspectos indissociáveis de cada ação. Em toda conduta, as motivações e o dinamismo energético provêm da afetividade, enquanto que as técnicas e o ajustamento dos meios empregados constituem o aspecto cognitivo (senso-motor ou racional). Nunca há ação puramente intelectual (sentimentos múltiplos intervêm, por exemplo: na solução de um problema matemático, interesses, valores, impressão de harmonia, etc.), assim também não há atos que sejam puramente afetivos (o amor supõe a compreensão). Sempre e em todo lugar, nas condutas relacionadas tanto a objetos como a pessoas, os dois elementos intervêm porque se implicam um ao outro.

2 A AUTONOMIA COMO FINALIDADE DA EDUCAÇÃO

A palavra autônoma vem de raízes que significam “auto-regulação”, auto (sozinho, por si próprio, a si mesmo), “nos mos” que em grego significa (lei, ordem). Por “autonomia”, Piaget não quis dizer “simples independência” (grifo do autor) em fazer coisas por si mesmo, sem ajuda. Antes disso, o indivíduo autonomamente moral segue regras morais do si – mesmo. Essas regras têm um sentido de necessidade pessoal para o indivíduo, que segue convicções internas sobre a necessidade de respeitar as pessoas nos seus relacionamentos com os outros. (PIAGET, 1965 apud FOSNOT, 1998 p. 127).

Kamii (1991), seguidora de Jean Piaget afirma que a essência da autonomia é que as crianças se tornem capazes de tomar decisões por elas mesmas. Autonomia não é liberdade completa, significa ser capaz de considerar os fatores relevantes para decidir qual o melhor caminho da ação. A autora coloca a autonomia numa perspectiva de vida grupal. Autonomia significa o indivíduo ser governado por si próprio, levar em consideração fatores relevantes para decidir agir da melhor forma para todos. O contrário é heteronomia, que significa ser governado pelos outros. A educação quando autoritária reforça a heteronomia da criança e dificulta a formação de indivíduos livres. Quando se considera apenas o próprio ponto de vista, não pode haver moralidade.

Piaget e seus seguidores mostram a importância de que as crianças ajam corretamente por escolha própria, e não pela pressão de castigos ou recompensas. Que tenha respostas corretas, não porque alguém lhe mostrou, mas porque as encontrou. É importante que as crianças tenham consciência de seus atos, conseqüências e que pensem sobre eles, não como máquinas ou robôs.

A escola no âmbito intelectual deve propor atividades desafiadoras que provoquem desequilíbrios e reequilibrações sucessivas, promovendo a descoberta e a construção do conhecimento.

Autonomia e afetividade caminham juntas, pois, quando um professor é extremamente autoritário faltando com afeto, os alunos ficam inseguros e não desenvolvem e nem atingem a autonomia

CAPÍTULO II – AQUISIÇÃO DO CONHECIMENTO DE MUNDO: diferentes pontos de vista

1 COMO AS CRIANÇAS PENSAM, SE DESENVOLVEM E ADQUIREM CONHECIMENTO DE MUNDO?

As pessoas que se interessam pela educação sentem necessidade de saber como que a criança pensa, se desenvolve e adquire o conhecimento de mundo. Ao educador é necessário conhecer o estudo do desenvolvimento e da aprendizagem. Os estudiosos têm considerado o ser humano a partir de diferentes pontos de vista e tem tido diferentes concepções a seu respeito.

Foram criadas diferentes teorias sobre o desenvolvimento e o processo de ensino aprendizagem. Cada uma dessas teorias baseia-se num “modelo” de ser humano, considera o aluno de modo diferente. Todas essas teorias procuram contribuir para o aperfeiçoamento máximo do aluno, mas cada uma delas tem uma visão própria das potencialidades desse aluno (cada teoria exigirá diferente atuação do educador).

Segundo Becker (1993, p.15), existe três formas de representar a relação ensino/aprendizagem escolar através de modelos pedagógicos que correspondem, cada um, por determinada epistemologia que de acordo com Ferreira “epistemologia : estudo das ciências, no que cada uma, e o seu conjunto, têm por objeto apreciar seu valor para o espírito humano; teoria do conhecimento”.

Os três modelos epistemológicos são: empirismo, inatismo e construtivismo que correspondem determinadas pedagogias em sala de aula, a saber, a pedagogia diretiva, a não-diretiva e a relacional. Na literatura consultada esses modelos constituem motivo suficiente de análise para desvendar as relações epistemológicas que ocorrem no âmago das relações pedagógicas.

A pedagogia diretiva (monopólio do professor) e o seu pressuposto epistemológico: de acordo com Becker (1993, p.15-16), o conhecimento e a capacidade de conhecer do aluno viriam do meio físico e social que deixam suas impressões, o que enquadra epistemologicamente no empirismo.

O professor acredita na crença do mito da transferência do conhecimento: o que ele sabe pode ser transmitido para o aluno, ficando esse submetido à fala do professor, conforme as idéias do americano Burrhus Frederic Skinner (Susquehanna, estado da Pensilvânia nos Estados Unidos, 20 mar. 1904 – Cambridge, 18 ago.1990).

A pedagogia não-diretiva e o seu pressuposto epistemológico: a epistemologia que fundamenta essa postura pedagógica é chamada de inatismo ou apriorismo. Está baseada na idéia de que ao nascer a criança já traz um saber que só precisa ser organizado, trazer à consciência, ela já vem equipada com capacidades, aptidões, e possibilidades que irão amadurecendo até sua transformação em um adulto (amadurecimento do sistema nervoso central). Avram Noam Chomsky (Filadélfia, estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos, 07 dez.1928), defensor do inatismo evidencia que o sistema nervoso contém mecanismos inatos, onde a criança adquire a linguagem assim como aprende a andar de maneira maturacional, a educação é um processo de dentro para fora.

A pedagogia relacional (interacionismo), e o seu pressuposto epistemológico, parte da premissa de que não se transmite conhecimento, este se constrói por força do sujeito e pelo retorno desta ação sobre o sujeito. O professor traz determinado material e o aluno explora, o professor acredita que o aluno construirá algum conhecimento novo se ele agir e problematizar a sua ação. Para Jean Piaget (Neuchâtel, Suíça, 09 ago.1896 – Genebra, 17 set. 1980), a criança é um ser ativo que age espontaneamente sobre o meio e possui um modo de funcionamento intelectual próprio que a leva a se adaptar a esse meio e organizar suas experiências. Seu desenvolvimento cognitivo se realiza por estágios, cuja seqüência é a mesma em todas as crianças. Pelo contato com objetos a criança irá construindo seu conhecimento de mundo.

CAPÍTULO III – UM POUCO DE HISTÓRIA

1 JEAN PIAGET, SUA VIDA

Nasceu em Neuchâtel, Suíça em nove ago.1896 e faleceu em Genebra em 17 set. 1980. Estudou a evolução do pensamento até a adolescência, procurando entender os mecanismos mentais que o indivíduo utiliza para captar o mundo. Como epistemólogo, investigou o processo de construção do conhecimento, sendo que nos últimos anos de sua vida centrou seus estudos no pensamento lógico-matemático.

Foi um menino prodígio. Interessou-se por história natural ainda em sua infância. Aos 11 anos de idade, publicou seu primeiro trabalho sobre a observação de um “pardal” albino. Esse estudo é considerado o início de sua brilhante carreira científica. Aos sábados, Piaget trabalhava gratuitamente no Museu de História Natural. Piaget freqüentou a Universidade de Neuchâtel, onde estudou biologia e filosofia, concluiu seu doutorado em biologia em 1918, aos 22 anos de idade. Após formar-se, Piaget foi para Zurich, onde trabalhou como psicólogo experimental, em uma clínica de psiquiatria, essas experiências influenciaram-no em seu trabalho onde passou a combinar psicologia experimental (estudo formal e sistemático, com métodos informais de psicologia: entrevistas, conversas e análises de pacientes).

Em 1919, Piaget mudou-se para a França, foi convidado por Alfred Binet (um famoso psicólogo infantil (que desenvolveu testes de inteligência padronizada para crianças), para trabalhar em seu laboratório.

Piaget notou que crianças francesas da mesma faixa etária cometiam erros semelhantes nesses testes e concluiu que o pensamento se desenvolve gradualmente. Iniciou seu estudos experimentais sobre a mente humana e começou a pesquisar também sobre o desenvolvimento de habilidades cognitivas. Seu conhecimento em biologia levou-o a enxergar o desenvolvimento cognitivo de uma criança como sendo uma evolução gradativa. Na teoria de Piaget, a inteligência está à Biologia no sentido que herdamos estruturas anatômicas (nosso sistema nervoso e sensorial), bem como um modo de funcionamento mental. Sobre essa base biológica, o homem constrói o conhecimento. Nessa construção o homem transforma o ambiente agindo diretamente sobre ele e ao agir, também se modifica. Por isso, a teoria piagetiana é considerada interacionista.

Em 1921, casou-se com Valentine Châtrnay com quem teve três filhos: Jaqueline (1925), Lucienne (1927) e Laurent (1931). As teorias e estudos de Piaget foram em grande parte, baseadas em observações em seus filhos (teve ajuda de sua esposa Valentine nas observações). Lecionou em diversas universidades européias. Registros revelam que Piaget foi o único suíço a ser convidado a lecionar na Universidade de Sorbonne (Paris- França), onde permaneceu de 1952 a 1963. Fundou e dirigiu o Centro Internacional Epistemologia Genética. Escreveu mais de setenta livros e centenas de trabalhos científicos, onde expõe de maneira clara as idéias básicas de seu projeto/estudo: construção do conhecimento no sujeito ou sujeito epistêmico.

Por ter se concentrado em explicar de que modo a criança constrói o conhecimento, como a criança passa de um estágio de menor desenvolvimento para outro mais desenvolvido, quais transformações ocorrem durante o desenvolvimento, quais os fatores responsáveis pelo aparecimento dessas transformações no funcionamento intelectual é que sua psicologia é identificada como construtivista (Escola de Genebra – Suíça).

CAPÍTULO IV – CONCEPÇÃO CONSTRUTIVISTA DA FORMAÇÃO DA INTELIGÊNCIA: TEORIA DE JEAN PIAGET

1 O QUE É CONSTRUTIVISMO?

O construtivismo é uma concepção teórica onde o desenvolvimento da inteligência é determinado pelas ações mútuas entre o indivíduo e o meio. O homem não nasce inteligente, mas também não é passivo sob a influência do meio. Ao contrário, responde aos estímulos externos agindo sobre eles para construir e organizar o seu próprio conhecimento, de forma cada vez mais elaborada.

A Epistemologia Genética ou Teoria Psicogenética, concepção teórica criada por Jean Piaget, é a mais conhecida concepção construtivista da formação da inteligência. Ele explicou com propriedade, de forma detalhada como, desde o nascimento, o indivíduo constrói o conhecimento.

Construtivismo significa para Becker de que nada, está pronto, acabado, se constitui pela interação do indivíduo com o meio físico e social, com o simbolismo humano, com o mundo das relações sociais, por força de sua ação e não por qualquer dotação prévia, na bagagem hereditária ou no meio, de tal modo que se pode afirmar que antes da ação não há psiquismo nem consciência e, muito menos, pensamento.

Segundo Vinha (2000, p.26), foram propostas a alguns professores na cidade de Leme, estado de São Paulo questões sobre construtivismo, procurando levá-los a refletir sobre alguns princípios importantes dessa teoria e as suas decorrências para a educação escolar, rompendo com algumas interpretações distorcidas; afirmações oriundas do senso comum sem muita “consistência” teórica (“No construtivismo, não pode ensinar nada”), (“Tem que trabalhar no concreto”).

Surgiram contra-argumentações, reflexões sobre idéias preconcebidas, trocam de pontos de vista. São exemplos do tipo de questões que foram formuladas, por Vinha (2000, p.162-163).

O que é construtivismo? (…) Mas o que significa “construção”? Construir o quê? Como ocorre essa construção? Então, depende apenas dos estímulos que a criança receberá do meio ambiente? O que é meio? Quais são os princípios do construtivismo? De onde surgiu o construtivismo? É um modismo? Qual o problema ou questão principal que orientou as investigações de Piaget? O que é inteligência para Piaget? O ser humano nasce inteligente? Como ele se torna inteligente? Se existe um inicio, há um término na construção da inteligência ou a pessoa está sempre “ampliando” sua inteligência? Todo mundo constrói as estruturas do pensamento formal? E uma pessoa de 30 anos que não as construiu, ainda pode vir a construí-las? Mas será que as conclusões de Piaget também são válidas para crianças brasileiras, já que a realidade daqui é tão diferente da de lá? Qual é o sujeito que Piaget nos ajudou a conhecer? O construtivismo é uma teoria voltada à pedagogia? O construtivismo é um “método” de educação?

Como é uma escola construtivista?…A criança na escola tradicional também constrói? Quais são as características principais de uma classe construtivista? A criança te liberdade? E se ela não quiser fazer nada naquele dia de aula, deve-se respeitar sua vontade? Qual a postura de um professor construtivista? Mas, o que significa “trabalhar no concreto”? Para que “trabalhar no concreto”?…O professor construtivista pode ensinar? Ensinar o que? …Como o professor construtivista lida com a indisciplina de sala de aula?Os limites existem numa classe construtivista? Etc..

“A guisa de conclusão, mencionamos algumas características que consideramos importantes estarem presentes numa escola que adota uma orientação construtivista: Vinha (2000, p.169-170):

• visando promover o desenvolvimento das crianças, a sala de aula é vista como socialmente interativa, sendo valorizadas em todos momentos, as trocas sociais, do tipo cooperativo; dessa forma favorece-se a interação social entre os adultos e as crianças;
• o centro pedagógico (trabalho) é o grupo de alunos;
• propõe-se apenas atividades coerentes com o desenvolvimento intelectual, social, físico e afetivo da criança, e as decisões pedagógicas são fundamentadas no estudo do seu desenvolvimento e no processo de construção do conhecimento;
• a participação dos alunos é ativa e não passiva;
• há o respeito ao ritmo, ao interesse, ao desenvolvimento de crianças criativas, independentes, curiosas, questionadoras e críticas;
• trabalha-se os três tipos de conhecimento de maneira coerente com seus processos de aquisição, e compreende-se que os erros e acertos são sempre relativos a um problema ou sistema, sendo eles considerados como necessários, ou até inevitáveis, à construção do conhecimento (Macedo,1994);
• o educador utiliza uma linguagem adequada e quando necessário emprega sanções por reciprocidade;
• as crianças tomam pequenas decisões, assumem responsabilidades e resolvem os problemas “sozinhas” (professor mediador).” (grifo do autor).

Conforme afirma Kamii (1992), o construtivismo de Piaget refere-se ao processo pelo qual um indivíduo desenvolve sua própria inteligência adaptativa e seu próprio conhecimento.

O que é construído é inteligência e conhecimento. Piaget usa esses termos para referir-se a mesma coisa: a inteligência adaptativa do indivíduo ou o conhecimento que o habilita a adaptar-se a um maior número de situações. Este “conhecimento” é conhecido no sentido amplo e isto para Piaget é igual a inteligência, que é diferente do conhecimento restrito. Conhecimento restrito é igual a pequena informação e conhecimento amplo é igual a inteligência. Como exemplo tem uma criança de pré-escola que faria uma repetição mecânica de o que é Brasília, a criança ainda não tem o quadro geral de conhecimento que necessita para colocar esta afirmação (Geografia, organização política etc.), mesmo morando em Brasília. Para compreender Brasília é necessário ter a capacidade de classificação. Alunos de sexta ou sétima séries poderiam compreender um pouco melhor que Brasília é a capital do Brasil, que nos lembra o Palácio da Alvorada, Praça dos Três Poderes, etc.

Associações exemplificam o ponto de vista de Piaget, segundo o qual “desde que o conhecimento seja organizado numa totalidade estrutural coerente, nenhum conceito pode existir isolado, cada conceito é sustentado por uma rede completa de outros conceitos”.

Conhecer o fato específico de que Brasília é a capital do Brasil é um exemplo do conhecimento restrito. Conhecer Brasília nos aspectos de sua classificação e relação é sentido amplo. Este conhecimento não é coleção de fatos específicos, mas, antes, uma estrutura organizada. Conhecimento no sentido amplo é o que possibilita à criança compreender uma informação específica.

Para Piaget, o significado do conhecimento específico depende do desenvolvimento do conhecimento no sentido amplo. A criança compreende e aprende novas coisas através de seu amplo quadro de conhecimento.

“Acredita que a mudança do ensino tradicional para o construtivista levará muito tempo […], a teoria piagetiana é muito extensa e complexa. E não é possível ser construtivista se não a conhecer […]. As pessoas consideram-se construtivistas sem sequer conhecer parte da teoria epistêmica de Piaget. Não raro, são encontrados alguns professores que, somente pelo fato de utilizarem um material didático que se “auto-intitula construtivista” julgam-se construtivistas (KAMII, 1982 apud VINHA, 2000 p. 115) .

Alguns pesquisadores mostraram-se céticos quanto à teoria de Piaget argumentando que o método de pesquisa não era científico por apresentar falhas: o pequeno número de sujeitos observados (no início apenas seus três filhos, ou três ou quatro crianças), sua “amostra” era considerada pequena, não lhe permitindo apresentar dados estatísticos; não seguia padrão formal de entrevista, não fazia as mesmas perguntas a todas as crianças de modo que as entrevistas pudessem ser exatamente comparáveis; seus críticos poderiam ainda apontar como falha o fato de Piaget ter seus próprios filhos como sujeitos em muitas das suas observações isso poderia contrariar o princípio da imparcialidade científica que exige neutralidade do observador quanto aos observados, com os quais não deveria, portanto, ter nenhum laço afetivo. Os cientistas céticos acabaram por reconhecer o valor de sua teoria.

Não é o tamanho da amostra, porém, que interessa essencialmente às descobertas, em muitos estudos interessa mais o método de observação longitudinal, ou seja, estudar uma mesma criança durante anos sucessivos.

Por que a demora na aceitação da teoria de Piaget? Uma razão importante para a teoria de Piaget demorar a ser aceita na América é que entre os psicólogos dominava a aversão pelo estudo dos “processos mentais” internos: pensamentos, sentimentos etc., a preocupação única de estudar era o comportamento resultante de estímulos do ambiente. Outra razão para a demora ao cruzar o Atlântico é que seu trabalho era escrito em Francês numa época de grande problema de tradução, assim, o trabalho de Piaget ficou confinado em Genebra cidade da Suíça onde trabalhou por muito tempo no Instituto Jean Jacques Rousseau. Piaget acumulou evidência suficiente para se tornar o maior teórico do desenvolvimento intelectual.

Piaget não propõe um método de ensino, mas, ao contrário, elabora uma teoria do conhecimento e desenvolve muitas investigações cujos resultados são utilizados por psicólogos, pedagogos, fonoaudiólogos, psicopedagogos, etc.. Desse modo, suas pesquisas recebem diversas interpretações que se concretizam em propostas didáticas também diversas. Com as observações Piaget chegou à formulação de uma teoria explicativa de como os conhecimentos são adquiridos, de como se processa nosso desenvolvimento cognitivo. Essa teoria é conhecida como Epistemologia Genética ou Teoria Psicogenética origem e formação dos fenômenos psicológicos durante o desenvolvimento humano.

O desenvolvimento acontece em função da atividade do sujeito em relação ao meio. Nessa concepção o conhecimento é construído a partir da ação do sujeito sobre o objeto de conhecimento, interagindo com ele, sendo as trocas sociais condições necessárias para o desenvolvimento do pensamento, essa relação de interdependência entre o sujeito e o meio, tem um sentido de organização, estruturação e explicação a partir do que foi experimentado. Os esquemas sofrem sucessivas transformações (formas de pensar ou resolver problemas). Essas elaborações resultam de um processo de equilibrações seguidas de equilibrações majorantes que corrigem e completam as formas anteriores de desequilíbrio.

Para Piaget, o conhecimento não é uma cópia da realidade, nem simplesmente olhar e fazer uma cópia mental ou imagem de um acontecimento: modificar, transformar o objeto, e compreender o processo dessa transformação e, por conseguinte, compreender o modo como o objeto é construído é para Piaget o que constitui o ato de conhecer.

Piaget dedicou sua vida ao estudo do desenvolvimento cognitivo, procurando explicar como a criança vai construindo os fenômenos psicológicos. Sua teoria interacionista é conhecida como Construtivismo.

Segundo Scriptori (2003) a finalidade da pesquisa de Piaget e seus colaboradores era epistemológica (descrever estruturas psicológicas que nos possibilitam o conhecimento no sentido científico, descrever processos que nos direcionam para estruturas cada vez mais elaboradas quanto à tarefa de conhecer), e não educacional.

2 A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO SEGUNDO PIAGET

Entre as principais contribuições de Piaget está o fato de ter mudado o paradigma criança, de um ser que recebe e acumula conhecimento com base em estímulos e reforços externos (ao estilo condutivista), para um sujeito ativo que constrói seu conhecimento por dentro, graças à contínua exploração do meio que a rodeia, através dos processos de assimilação e acomodação. O conhecimento não está no sujeito-organismo, tampouco no objeto-meio, mas decorrente das contínuas interações entre os dois. Para ele, a inteligência é relacionada à aquisição de conhecimento na medida em que sua função é estruturar as interações sujeito- objeto. Assim, para Piaget todo pensamento se origina na ação, e para se conhecer a gênese das operações intelectuais é imprescindível a observação da experiência do sujeito com objeto.

Para ele todo ser vivo se adapta ao seu ambiente e é organizado de um modo que possibilita a adaptação. Mente e corpos não funcionam independentemente um do outro, a atividade mental se submete às mesmas leis que em geral governam a atividade biológica.

Quando as experiências de uma criança sobre seu ambiente não encaixam na sua estrutura mental, é produzida nela uma situação de desequilíbrio (confusão), originado por um estímulo que não se encaixa no esquema mental existente. Vejamos um exemplo. Uma criança pequena conhece como são as galinhas e as chama pelo seu nome. Quando se encontra pela primeira vez com um peru, o chama de “galinha”. Seus pais ou alguém próximo a corrige e ela entra em um estado de desequilíbrio cognitivo produzido pelo fato de o conhecimento existente (galinha), não coincidir com o novo (peru). Com o tempo a criança aprende a diferenciar os dois animais e a chamar cada um pelo seu nome, o que constituirá um novo conhecimento (conhecimento assimilado: saber diferenciar o peru da galinha).

Num primeiro momento é produzida uma assimilação do estímulo sem que isto constitua uma mudança na estrutura mental; porém posteriormente dentro de um processo de acomodação, é modificada a estrutura para incorporar novos elementos atingindo-se assim um estado de equilíbrio.

Um adulto, por exemplo, possui um vasto arranjo de esquemas comparativamente complexos que permitem um grande número de diferenciações. Estes esquemas são utilizados para processar e identificar a entrada de estímulos, e graças a isto o organismo está apto a diferenciar estímulos, como também está apto a generalizá-los. O funcionamento é mais ou menos o seguinte, uma criança apresenta um certo número de esquemas, autores sugerem que imaginemos um arquivo de dados em sua cabeça, os esquemas são análogos às fichas deste arquivo, ou seja, são as estruturas mentais ou cognitivas pelas quais os indivíduos intelectualmente organizam o meio. Diante de um estímulo, essa criança tenta “encaixar” o estímulo em um esquema disponível. Vemos então, que os esquemas são estruturas intelectuais que organizam os eventos como eles são percebidos pelo organismo e classificados em grupos, de acordo com características comuns.

São estruturas que se modificam com o desenvolvimento mental e que tornam-se cada vez mais refinadas à medida em que a criança torna-se mais apta a generalizar os estímulos.

Entretanto, qual é o mecanismo pelo qual é produzido o desenvolvimento da inteligência? Segundo Piaget (1982), a criança possui esquemas mentais ou propriedades organizadas de inteligência que correspondem a seu nível de desenvolvimento biológico e a sua bagagem de experiências adquiridas através da sua interação com o meio. Um dos primeiros esquemas mentais desenvolvidos pelo bebê de seis a oito meses é o do objeto permanente, esquema que permite a ele responder, por exemplo, quando um objeto desaparece da vista, ele ainda existe, embora não possam vê-lo. Sabe que o objeto desaparecido é apenas temporário, pois, já tem o conceito de “permanência do objeto”; tem prazer em brincar de “esconde-esconde” (uma pessoa desaparece e logo reaparece do alcance de sua visão).

O desenvolvimento da “permanência do objeto” é quase como o início de uma “memória elementar” (as crianças podem manter em suas mentes uma figura do objeto desaparecido), Piaget observou em seus estudos que a “permanência do objeto” desempenha importante papel no desenvolvimento mental, comparando crianças cegas com crianças normais. É indício de desenvolvimento o fato de o bebê procurar um objeto que estiver escondido, chegando a remover um obstáculo para apanhá-lo.

Não há aprendizagem sem o interesse do aluno em instruir-se. Para o sujeito construir o seu conhecimento a respeito de um objeto qualquer é preciso que esse objeto tenha significado para o sujeito. Mesmo um simples significado no primeiro momento já é suficiente. Faz-se necessário despertar e motivar o desejo de conhecer o objeto. A mobilização é o caminho.

Conhecer é sempre uma ação que demanda esquemas de assimilação e acomodação, num processo constante de reorganização, que é fruto da atividade daquele que interage com o mundo. Nesse sentido uma ação docente construtivista pautar-se-á nas condições concretas do aluno, no conhecimento dos períodos de seu desenvolvimento em relação aos esquemas de elaboração mental, no respeito a sua individualidade dentro do contexto grupal em que está inserido. Com este referencial as atividades serão apresentadas em diferentes níveis de desempenho, serão desafiadoras, pois devem estimular a procura, a busca constante e a elaboração se respostas múltiplas.

As estratégias do professor estarão centradas principalmente na iniciativa do aluno, valorizando o conhecimento que ele já traz e avançando com ele na descoberta de novas formas de trabalho. O aluno adquirirá uma nova compreensão do significado e da utilidade daquilo que faz, do seu “fazer”, e como é o agente criador e transformador do próprio conhecimento, podemos dizer que ele constrói o seu “saber”. Se o professor possuir a consciência desse referencial pedagógico e permitir que esse referencial norteie o “seu fazer”, estará adquirindo uma nova postura, que garantirá o aparecimento também de um novo tipo de aluno: conhecedor de sua realidade, criativo mais crítico e participativo.

• Os alunos precisam enfrentar contradições, e pensar sobre o conteúdo em torno do qual o professor organizou a atividade;
• Os alunos têm problemas a resolver e decisões a tomar em função daquilo que desejam produzir;
• O conteúdo trabalhado mantém suas características de objeto sócio-cultural real sem transformar-se em objeto escolar, sem significado social e contextual;
• O professor que organiza a atividade garante a circulação do máximo de informações possíveis.

Professores adeptos da linha pedagógica tradicional não aplicam a dialética da mobilização em sala de aula. Não entendem a “construção do conhecimento”. Para esses professores o caráter reflexivo e ativo dos alunos em torno do objeto não tem significância.

Piaget concebe a inteligência como a capacidade que cada indivíduo tem para se adaptar-se ao meio que o rodeia, adaptação que requer o equilíbrio entre os mecanismos de assimilação e acomodação. Para explicar como e por que ocorre o desenvolvimento cognitivo Piaget usa quatro conceitos básicos: esquema, assimilação, acomodação e equilibração.

2.1 Os Esquemas

É interessante introduzir um novo conceito que é amplamente utilizado quando essas operações, assimilação e acomodação, são empregadas. Esse novo conceito que estamos procurando introduzir é chamado por Piaget de esquema (schema).

Wadsworth (1996, p.16), define os esquemas como estruturas mentais, ou cognitivas, pelas quais os indivíduos intelectualmente se adaptam e organizam o meio. Assim sendo, os esquemas são tratados, não como objetos reais, mas como conjuntos de processos dentro do sistema nervoso. Os esquemas não são observáveis, são inferidos e, portanto, são constructos hipotéticos .

Esquema é uma estrutura cognitiva, ou padrão de comportamento ou pensamento, que emerge da integração de unidades mais simples e primitivas em um todo mais amplo, mais organizado e mais complexo. Dessa forma, os esquemas não são fixos, mas mudam continuamente ou tornam-se mais refinados. Uma criança, quando nasce, apresenta poucos esquemas sendo de natureza reflexas motoras: agarrar, sugar, etc., suga tudo o que for colocado em sua boca, bico do seio, dedo, mamadeira, brinquedos etc. Sem fazer diferenciação, tem apenas um esquema global e único: sugar. Algum tempo depois já faz uma diferenciação, quando está com fome. Terá então dois esquemas de sugar: um para estímulos que produzem leite e um para estímulos que não produzem leite. As crianças modificam seus esquemas e também constrói novos esquemas e à medida que se desenvolvem, seus esquemas tornam-se generalizados, mais diferenciados e mais numerosos.

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CONFLITO DE NORMAS NO DIREITO PREVIDENCIÁRIO 2/2

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2.2 A Assimilação e Acomodação

A assimilação é o processo cognitivo pelo qual uma pessoa integra (classifica) um novo dado perceptual, motor ou conceitual às estruturas cognitivas prévias (Wadsworth, 1996, p.19). Ou seja, quando a criança tem novas experiências (vendo coisas novas, ou ouvindo coisas novas) ela tenta adaptar esses novos estímulos às estruturas cognitivas que já possui.

O próprio Piaget (1996, p.13), define “a assimilação como: […] uma integração à estruturas prévias, que podem permanecer invariáveis ou são mais ou menos modificadas por esta própria integração, mas sem descontinuidade com o estado precedente, isto é, sem serem destruídas, mas simplesmente acomodando-se à nova situação. Isto significa que a criança tenta continuamente adaptar os novos estímulos aos esquemas que ela possui até aquele momento.”

Imagine que colaboradores e uma criança estão aprendendo a reconhecer animais, e até o momento, o único animal que ela conhece e tem organizado esquematicamente é o cachorro. Assim, podemos dizer que a criança possui, em sua estrutura cognitiva, um esquema de cachorro. Pois bem, quando apresentada, à esta criança, um outro animal que possua alguma semelhança, como um cavalo, ela a terá também como cachorro quadrúpede, um rabo, pescoço, nariz molhado, etc.. Há ligeira semelhança entre um cavalo e um cachorro, notadamente ocorre, neste caso, um processo de assimilação, ou seja a similaridade entre o cavalo e o cachorro (apesar da diferença de tamanho) faz com que um cavalo passe por um cachorro em função da proximidades dos estímulos e da pouca variedade e qualidade dos esquemas acumulados pela criança até o momento. A diferenciação do cavalo para o cachorro deverá ocorrer por um processo chamado de acomodação. Ou seja, a criança, apontará para o cavalo e dirá “cachorro”.

Neste momento, um adulto intervém e corrige, “não, aquilo não é um cachorro, é um cavalo”. Quando corrigida, ela entra em um estado de desequilíbrio cognitivo produzido pelo fato de o conhecimento existente (cachorro) não coincidir com o novo (cavalo). Com o tempo a criança aprende a diferenciar os dois animais e chamar cada um pelo seu nome, o que constituirá um novo conhecimento definindo, que se trata de um cavalo, e não mais de um cachorro, a criança, então, acomodará aquele estímulo a uma nova estrutura cognitiva, criando assim um novo esquema. Essa criança tem agora, um esquema para o conceito de cachorro e outro para o conceito de cavalo.

A acomodação acontece quando a criança não consegue assimilar um novo estímulo, ou seja, não existe uma estrutura cognitiva que assimile a nova informação em função das particularidades desse novo estímulo. Diante desse impasse, restam apenas duas saídas: criar um novo esquema ou modificar um esquema existente. Ambas as ações resultam em uma mudança na estrutura cognitiva. Ocorrida a acomodação, a criança pode tentar assimilar o estímulo novamente, e uma vez modificada a estrutura cognitiva, o estímulo é prontamente assimilado.

Wadsworth (1996, p.7), afirma que a acomodação explica o desenvolvimento (uma mudança qualitativa), e a assimilação explica o crescimento (uma mudança quantitativa na vida mental, explica o crescimento da inteligência), juntos eles explicam a adaptação intelectual e o desenvolvimento das estruturas cognitivas.

Piaget (1996), quando expõe as idéias da assimilação e da acomodação, no entanto, deixa claro que da mesma forma como não há assimilação sem acomodações (anteriores ou atuais), também não existem acomodações sem assimilação. Esta declaração de Piaget significa que o meio não provoca simplesmente o registro de impressões ou a formação de cópias, mas desencadeia ajustamentos ativos. Procurando elucidar essas declarações, quando se fala que não existe assimilação sem acomodação, significa que a assimilação de um novo dado perceptual, motor ou conceitual se dará primeiramente em esquemas já existentes, ou seja, acomodados em fases anteriores. E quando se fala que não existem acomodações sem assimilação, significa que um dado perceptual, motor ou conceitual é acomodado perante a sua assimilação no sistema cognitivo existente. É neste contexto que Piaget (1996, p.18) fala de “acomodação de esquemas de assimilação”.

Partindo da idéia de que não existe acomodação sem assimilação, podemos dizer que esses esquemas cognitivos não admitem o começo absoluto (Piaget, 1996), pois derivam sempre, por diferenciações sucessivas, de esquemas anteriores. E é dessa maneira que os esquemas se desenvolvem por crescentes equilibrações e auto-regulações. Pode-se dizer que a adaptação é um equilíbrio constante entre a assimilação e a acomodação.

De uma forma bastante simples, Wadsworth (1996, p.20), escreve que durante a assimilação, uma pessoa impõe sua estrutura disponível aos estímulos que estão sendo processados. Isto é, os estímulos são “forçados” a se ajustarem à estrutura da pessoa. Na acomodação o inverso é verdadeiro. A pessoa é “forçada” a mudar sua estrutura para acomodar os novos estímulos.

Os processos de assimilação e acomodação ocorrem durante anos, irão transformar os esquemas primitivos do bebê em esquemas mais sofisticados tais como os dos adultos; ambas as ações resultam no desenvolvimento da estrutura cognitiva (uma mudança qualitativa da vida mental). Quando um bebê agarra uma argola, a argola é assimilada aos esquemas de olhar, tocar, agarrar, sugar etc. O bebê não vai repetir comportamentos adquiridos anteriormente:

• os esquemas são ampliados para assimilar o novo objeto. A criança aprende que além dos outros objetos, as argolas também podem ser olhadas, agarradas, sugadas etc..
• os esquemas são modificados à medida que o novo objeto requer alguma variação na maneira de agarrar de empurrar, sugar etc.. Em linguagem comum a criança aprende que objetos do tipo argola são sugados de uma maneira um pouco diferente de outros objetos sugados no passado e que objetos tipo argola causam uma impressão visual e tátil diferente dos objetos vistos e tocados anteriormente.

Piaget diria que a criança acomodou seus esquemas ao novo objeto. Essas novas acomodações levam a outras mudanças na organização intelectual, e o ciclo se repete. Porém num único encontro entre o bebê e a argola a mudança nos esquemas é muito limitado porque a criança não assimilará nem acomodará, naquele momento por não haver presente na criança esquemas que permita isso. A criança não poderá apreender que a argola pode rolar como um aro, ou que pode ser como uma pulseira etc.

Assim, de acordo com a teoria construtivista, a maior parte dos esquemas, em lugar de corresponder a uma montagem hereditária acabada, constrói-se pouco a pouco, e dão lugar a diferenciações, por acomodação às situações modificadas, ou por combinações (assimilações recíprocas com ou sem acomodações novas).

2.3 Equilibração

Equilibração é um processo ativo pelo qual uma pessoa reage a distúrbios ocorridos em sua maneira comum de pensar através de um sistema de compensação e satisfação, ou seja, em equilíbrio. É processo de passagem do desequilíbrio (conflito cognitivo que ocorre quando expectativas ou predições não são confirmadas pela experiência), para o equilíbrio. Se apresenta na sucessão dos períodos de desenvolvimento expressando níveis crescentes de reversibilidade, onde em cada período, o nível de equilíbrio é maior do que o do período anterior.

Os dois mecanismos de assimilação e acomodação são modos de funcionamento de nossa vida mental para garantir um estado de equilíbrio ou de adaptação ao meio. Esses dois mecanismos são acionados quando há mudanças no nosso ambiente ou alterações no nosso organismo.

O organismo está constantemente buscando um estado de equilíbrio, de satisfação; esse processo ativo é denominado equilibração.

Podemos definir equilibração como o aparecimento de uma nova estrutura cognitiva que reconcilia os conflitos de um estágio anterior. Como exemplo temos uma criança que acredita que com água quente em forminhas para gelo, consegue obter mais rapidez para formação de gelo. Fazendo um experimento com água fria a criança percebe que congela mais rápido, ao perceber/concluir ela estará pronto para se equilibrar.

Quando percebemos e nos convencemos de que nosso modo de pensar é falso (encaixamos uma solução melhor na teoria da temperatura), equilibramos e aceitamos o fato de que nossa convicção anterior não era lógica ou científica.

Os construtivistas reconhecem que o conflito cognitivo (processo intelectual), leva pessoas a um nível mais elevado de conhecimento, e por isso, recomendam aos educadores produzirem “conflito cognitivo” nos alunos, como uma forma de motivação do trabalho escolar.

A transição entre um estágio de desenvolvimento cognitivo e o seguinte é resultante de equilibrações dentro da criança.

“A teoria da equilibração, de uma maneira geral, trata de um ponto de equilíbrio entre a assimilação e a acomodação, e assim, é considerada como um mecanismo auto-regulador, necessária para assegurar à criança uma interação eficiente dela com o meio-ambiente.” (PIAGET, 1975 apud WADSWORTH, 1996, p.22).

A importância da teoria da equilibração é notada principalmente frente a dois postulados organizados por Piaget (1975, p.14) Primeiro Postulado: Todo esquema de assimilação tende a alimentar-se, isto é, a incorporar elementos que lhe são exteriores e compatíveis com a sua natureza. Segundo Postulado: Todo esquema de assimilação é obrigado a se acomodar aos elementos que assimila, isto é, a se modificar em função de suas particularidades, mas, sem com isso, perder sua continuidade (portanto, seu fechamento enquanto ciclo e processos interdependentes), em seus poderes anteriores de assimilação.

O primeiro postulado limita-se a consignar um motor à pesquisa, e não implica na construção de novidades, uma vez que um esquema amplo pode abranger uma gama enorme de objetos sem modificar ou compreendê-los. O segundo postulado afirma a necessidade de um equilíbrio entre a assimilação e a acomodação na medida em que a acomodação é bem sucedida e permanece compatível com o ciclo, modificado ou não.

Esta equilibração é necessária porque se uma pessoa só assimilasse estímulos acabaria com alguns poucos esquemas cognitivos, muito amplos, e por isso, incapaz de detectar diferenças nas coisas, como é o caso do esquema “seres”, já descrito. O contrário também é nocivo, pois se uma pessoa só acomodasse estímulos, acabaria com uma grande quantidade de esquemas cognitivos, porém muito pequenos, acarretando uma taxa de generalização tão baixa que a maioria das coisas seriam vistas sempre como diferentes, mesmo pertencendo à mesma classe.

Segundo Wadsworth (1996), uma criança, ao “experienciar” (grifo do autor) um novo estímulo (ou um estímulo velho outra vez), tenta assimilar o estímulo a um esquema existente. Se ela for bem sucedida, o equilíbrio, em relação àquela situação estimuladora particular, é alcançado no momento. Se a criança não consegue assimilar o estímulo, ela tenta, então, fazer uma acomodação, modificando um esquema ou criando um esquema novo. Quando isso é feito, ocorre a assimilação do estímulo e, nesse momento, o equilíbrio é alcançado.

Fases do processo de equilibração:

• Percepção de uma contradição que dá origem a:
• Um estado de desequilíbrio ou conflito cognitivo que desencadeia:
• Uma reorganização cognitiva que implica:
• Um ultra passamento de um estágio anterior e a passagem para um novo estágio de equilíbrio buscando:
• Uma equilibração majorante (mecanismo de evolução ou desenvolvimento do organismo. É o aumento de conhecimento).

Na teoria de Piaget, o conceito de equilibração é fundamental. Ele explica o desenvolvimento como uma espécie de equilibração progressiva, como a evolução de um estado de equilíbrio menor, para um estado de equilíbrio superior. Piaget refere-se à equilibração majorante, como um conceito central na explicação do desenvolvimento cognitivo, significando o melhoramento das formas de equilíbrio. Para ele o desenvolvimento do equilíbrio resulta do fato que sistemas mais complexos exigem novas regulações. A idéia de regulações de ordem superior exige categorização hierarquizada das mesmas: regulações simples, regulações de regulações, auto-regulações, essas últimas podendo possibilitar a auto-organização. A progressividade dos estados de equilíbrio, bem como das regulações, levam à equilibração majorante (isto é, o novo equilíbrio é mais consistente que o anterior. O sujeito constrói – daí, construtivismo).

A auto-regulações, que pode ser identificadas com a abstração refletida (auto-regulação do processo de aprendizagem, soma as atividades de refletir, no sentido de projetar num nível superior, alguma coisa construída, primeiramente em um nível inferior e de fazer reflexões conscientes, no sentido de reconstruir e reorganizar o que foi transferido), conduzindo ao auto-monitoramento do processo cognitivo.

CAPÍTULO V – CARACTERÍSTICAS GERAIS DOS PRINCIPAIS PERÍODOS DE DESENVOLVIMENTO

1 PRINCIPAIS PERÍODOS DO DESENVOLVIMENTO MENTAL E CARACTERÍSTICA DE CADA UM , SEGUNDO PIAGET

Piaget realizou pesquisas por mais de sessenta anos com crianças, buscando compreender como o homem chega ao conhecimento.

Por meio de observação direta, sistemática e cuidadosa das crianças e de seus três filhos, Piaget chegou a uma teoria explicativa do desenvolvimento da inteligência. Essa teoria explica o desenvolvimento mental do ser humano no campo do pensamento, da linguagem e da afetividade.

De acordo com Piaget, o desenvolvimento é um processo de sucessivas mudanças qualitativas e quantitativas das estruturas cognitivas derivando cada estrutura de estruturas precedentes. Ou seja, o indivíduo constrói e reconstrói continuamente as estruturas que o tornam cada vez mais apto ao equilíbrio.

Essas construções seguem um padrão estabelecido por Piaget de estágios que seguem idades mais ou menos determinadas. O importante é a ordem dos estágios e não a idade de aparição destes.

Piaget, quando descreve a aprendizagem, tem um enfoque diferente do que normalmente se atribui à esta palavra. Piaget separa o processo cognitivo inteligente em duas palavras: aprendizagem e desenvolvimento. Segundo Macedo (1992), a aprendizagem para Piaget refere-se à aquisição de uma resposta particular, aprendida em função da experiência, obtida de forma sistemática ou não. Enquanto que o desenvolvimento seria uma aprendizagem de fato, sendo este o responsável pela formação dos conhecimentos. Piaget, quando postula sua teoria sobre o desenvolvimento da criança, descreve-a, basicamente, em quatro estados, que ele próprio chama de fases de transição (PIAGET, 1985).

Estágio Sensório motor (0 a 2 anos), as crianças atuam, conhecem e se relacionam com o mundo através dos seus sentidos, mãos e sistema sensório-motor (atividade intelectual da criança é de natureza sensorial e motora), o contato com o meio é direto e imediato, sem representação ou pensamento. Exemplos: o bebê pega o que está em sua mão; “mama” o que é posto em sua boca; “vê” o que está diante de si. Aprimorando esses esquemas, é capaz de ver um objeto, pegar e levá-lo a boca.

Estágio pré-operacional (mais ou menos de 2 a 6 anos), nesta fase que surge, na criança, a capacidade de substituir um objeto ou acontecimento por uma representação e esta substituição é possível, graças à função simbólica. Assim esse estágio é também muito conhecido como o estágio da Inteligência Simbólica. Contudo, Macedo (1992), lembra que a atividade sensório-motor não está esquecida ou abandonada, mas refinada e mais sofisticada, pois verifica-se que ocorre uma crescente melhoria na sua aprendizagem, permitindo que a mesma explore melhor o ambiente, fazendo uso de mais e mais sofisticados movimentos e percepções intuitivas. A criança deste estágio: é egocêntrica, centrada em si mesma, e não consegue se colocar, abstratamente, no lugar do outro. Não aceita a idéia do acaso e tudo deve ter uma explicação (é fase dos “por quês”) Já pode agir por simulação, “como se”. Possui percepção global sem discriminar detalhes. Deixa se levar pela aparência sem relacionar fatos.

Exemplos: Mostram-se para a criança, duas bolinhas de massa iguais com mesma quantidade de massa, transforma-se à vista da criança uma das bolinhas em uma forma alongada “salsicha” e pergunta-se a ela qual das duas, a bola ou a “salsicha” contém mais massa. Crianças pequenas dizem que é a “salsicha” porque é mais comprida, ou que a “salsicha” contém menos massa porque é mais fininha, demonstrando assim a incapacidade de levar em conta os dois fatores (comprimento e largura). A criança nega que a quantidade de massa continue igual, pois as formas são diferentes, não relaciona as situações. Crianças mais velhas respondem: a mesma coisa, porque a salsicha é mais comprida, mas, é mais estreita. Ela já é capaz de descentralizar.

Estágio das operações concretas (mais ou menos de 7 a 11 anos), o raciocínio adquire características lógicas. As crianças são capazes de aplicar sua base cognitiva racional no mundo dos objetos concretos. Neste estágio a criança desenvolve noções de tempo, espaço, velocidade, ordem, casualidade, sendo então capaz de relacionar diferentes aspectos e abstrair dados da realidade. Já faz classificação com base em suas características: cor, forma, tamanho etc. compreendem termos de relação maior, menor, direita, esquerda, mais alto mais largo etc. Apesar de não se limitar mais uma representação imediata, depende do mundo concreto para abstrair. Um importante conceito desta fase é o desenvolvimento da reversibilidade, ou seja, a capacidade da representação de uma ação no sentido inverso de uma anterior, anulando a transformação observada. Exemplos: despeja-se a água de dois copos em outros, de formatos diferentes, para que a criança diga se as quantidades continuam iguais.

A resposta é afirmativa uma vez que a criança já diferencia aspectos e é capaz de “refazer” a ação.

Estágio das operações formais (mais ou menos de 12 anos em diante) desenvolve a capacidade de abstração mental, o que permite a elas raciocinar com o mundo das possibilidades. O pensamento da criança já não depende tanto da percepção ou manipulação de objetos concretos. É neste momento que as estruturas cognitivas da criança alcançam seu nível mais elevado de desenvolvimento. A representação agora permite à criança uma abstração total, não se limitando mais à representação imediata e nem às relações previamente existentes. Piaget (1969) fala em operações de pensamento ao invés de ações. Agora a criança é capaz de pensar logicamente, formular hipóteses e buscar soluções, sem depender mais só da observação da realidade. Em outras palavras, as estruturas cognitivas da criança alcançam seu nível mais elevado de desenvolvimento e tornam-se aptas a aplicar o raciocínio lógico a todas as classes de problemas.

CAPÍTULO VI – DESENVOLVIMENTO DA AUTONOMIA

1 COMO DESENVOLVER SUJEITOS AUTÔNOMOS NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO?

Acreditando que a aquisição de novos conhecimentos é um fenômeno processual, e, todo processo tem, suas fases; a cada etapa o sujeito remodela seus conhecimentos e isso ocorre de uma maneira muito particular: através de um mecanismo de desestabilização e reordenação dos conhecimentos. Dessa forma, para passar de uma fase a outra, para se apropriar de novos conhecimentos, é necessário que a confiança adquirida pelo sujeito em relação aos seus conhecimentos seja exposta a uma série de desestabilizações ou desequilíbrios. Essas desestabilizações ou desequilíbrios provocam um verdadeiro reordenamento de conceitos e aprendizados prévios para acomodar novos conhecimentos. É o que podemos chamar de uma aprendizagem significativa. Partindo de uma caracterização prévia de nossos alunos podemos planejar situações didáticas que possam desencadear aprendizagem significativa.

No entanto, é preciso propiciar ao aluno condições para que ele se torne sujeito de sua própria aprendizagem; é preciso educar para que ele seja autônomo.

O professor construtivista promove a autonomia das crianças em situações de conflito, reconhecendo que o conflito pertence às crianças. Ele evita tirar das crianças o controle do conflito. Conforme Fosnot (1998) um professor construtivista não afastaria um brinquedo disputado entre duas crianças, mas, acreditando na habilidade das crianças para resolver seus próprios conflitos, ajuda-as a verbalizar seus sentimentos e desejos uns para os outros e a escutar uns aos outros, dá às crianças a oportunidade para sugerir e propor soluções apenas quando elas não conseguem pensar em soluções por elas mesmas. O professor defende o valor do acordo mútuo e proporciona a oportunidade para rejeitar as soluções propostas.

Nós, educadores, devemos proporcionar condições para que nossos alunos incorporem o hábito de confrontar seus conhecimentos com novos modelos e conhecimentos. O aluno deve saber buscar respostas para suas dúvidas. Saber pesquisar em revistas, jornais, enciclopédias, filmes, noticiários, documentários, etc. Deve saber dialogar com pessoas (meio), com vistas a buscar respostas para suas dúvidas (entrevistas), ou confrontar opiniões ou troca de idéias com opiniões diversas (diálogos, debates), com colegas e professores. O aluno deve desenvolver a capacidade de interagir com seus colegas para buscar soluções e respostas para dúvidas e problemas comuns.

CAPÍTULO VII COMO FICA A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO EM CURSOS À DISTÂNCIA?

1 CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO E O PAPEL DO PROFESSOR PARA DESENVOLVER ESTRATÉGIAS DE APRENDIZAGEM EM CURSOS À DISTÂNCIA

A inteligência humana somente se desenvolve no indivíduo em função de interações sociais. Na escola, o aluno é ativo e constrói seu conhecimento na interação com o meio, com os conteúdos, com o professor e com outros alunos. Então, como vemos a interação online? Diz La Taille (1992, p.18):

“As relações de cooperação representam justamente aquelas que vão pedir e possibilitar esse desenvolvimento (de operações mentais). Como seu nome indica, a cooperação pressupõe a coordenação das operações de dois ou mais sujeitos. Agora não há mais assimetria , imposição repetição, crença etc. Há discussão, troca de pontos de vista, controle mútuo dos argumentos e das provas. Vê-se que a cooperação é o tipo de relação interindividual que representa o mais alto nível de socialização. E é também o tipo de relação interindividual que promove o desenvolvimento.”

No caso de a educação à distância/online, a interatividade caracteriza-se pela presença da comunicação entre aluno-professor, aluno-aluno, pelo uso de diferentes mídias e pelas possibilidades de trabalho realizado em grupo colaborativo por meio da internet. A atividade que possibilite a interação e a troca de idéias deve pressupor cooperação entre os participantes, para haver aprendizagem e desenvolvimento.

Com a utilização do computador e da Internet, novas formas de ensinar (e de aprender), são experimentadas e aumentam as propostas que combinam à educação presencial, com a educação à distância. Para Moran (1998, p.85) “Com a Internet o professor pode também estar atento ao ritmo de cada aluno, às suas formas pessoais de navegação. O professor não impõe; ele sugere, incentiva, questiona, aprende junto com o aluno”. O aumento das tecnologias da informação e da comunicação ligadas a Internet propiciou a modalidade de ensino à distância um desenvolvimento no que se refere à Educação a distância on-line e, paralelamente a essa situação, a preocupação com a formação de profissionais para atuarem nessa área. Entretanto pouco se tem estudado ou pesquisado sobre a afetividade na relação professor-aluno dentro desse contexto. A escola (presencial ou à distância) tem o objetivo de possibilitar ao aluno a aprendizagem. O papel do professor será o de mediador.

Há pesquisadores que acreditam que a educação à distância, com a utilização da Internet e outras ferramentas tecnológicas, pode ser um meio de resolver o problema da falta de interatividade na educação. Em contrapartida, há os que crêem que essa nova modalidade facilitará ainda mais a falta de vínculos e afetividade entre alunos e professores, o que fortalece os argumentos e receios sobre essa modalidade de ensino. No ensino presencial, tem sido alvo de preocupação por parte dos professores: o fato de não conseguirem interagir com alunos de forma positiva e, em função disso dificulta estabelecimento de vínculos, o que prejudica a aprendizagem uma vez que não se encontra prazer e nem correspondência afetiva entre o sujeito e o objeto dessa aprendizagem.

Vasconcelos (1994, p. 46) afirma que:

[…] o pressuposto fundamental de qualquer trabalho educacional é acreditar na possibilidade de mudança do outro. A verdadeira relação educativa não se faz sem o vínculo afetivo recíproco de confiança: o educando confiando na competência do professor e o professor confiando na capacidade de aprender do educando.

A interação professor/aluno ou professor/grupo não fica prejudicada pela ausência da presença física. O ser humano em sua complexidade encontra sempre novas formas de se relacionar. Muitos acreditam que o computador separa as pessoas tornando-as mais individualistas. O computador pode aproximar pessoas, criar laços afetivos.

CAPÍTULO VIII – A IMPORTÂNCIA DA INTERAÇÃO SOCIAL NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO

1 RELAÇÃO PROFESSOR /ALUNO, ALUNO/ALUNO NO PROCESSO DE ENSINO APRENDIZAGEM

O relacionamento entre professor e aluno é fator primordial e fundamental na realização comportamental e profissional. Independente do modo deste relacionamento em cursos presenciais ou à distância.

Comenta Oliveira (1993, p. 111) que “em qualquer grupo de estudo, a interação entre educadores e alunos é condição básica para que a aprendizagem se faça de modo satisfatório”. O ensino/aprendizagem se torna mais interessante quando o aluno se sente integrado/entrosado em sala de aula e no grupo. O prazer pelo aprender não é uma atividade que surge espontaneamente nos alunos, o professor deve ser um estimulador, e provocar a curiosidade dos alunos, acompanhando suas ações no desenvolver das atividades. O papel do educador é o de agir como mediador/intermediário entre os conteúdos da aprendizagem e a atividade construtiva para assimilação.

Segundo Freire (1996, p.96), o bom professor é o que consegue, enquanto fala trazer o aluno até a intimidade do movimento do seu pensamento. Sua aula é assim um desafio e não uma cantiga de ninar. Seus alunos cansam, não dormem. Cansam porque acompanham as idas e vindas de seu pensamento, surpreendem suas pausas, sua dúvidas, suas incertezas.

Tanto professor, quanto alunos devem estar abertos à interação; a empatia é questão necessária para que haja amálgama entre ambos. Embora tenhamos que ter uma relação afetiva com nossos alunos, não significa que precisamos ser humoristas ou carinhosos em extremo para que os alunos se sintam bem. Faz-se necessário uma relação didática eficaz caso contrário não haverá relação professor/aluno.

Paulino afirma que a atitude do professor é fundamental para o desenvolvimento duma atmosfera de resolução de problemas em sala de aula. Torna-se responsabilidade do educador tentar imaginar o que a criança quer dizer e, se necessário apoiar a criança com afetividade, na verbalização desse significado. Não menos importante é a relação aluno/aluno, que ao trabalhar em pequenos grupos devem cooperar/demonstrar afeto para resolver situações e ou problemas e devem juntos chegar a um consenso. Deveres que as crianças devem explicar seu pensamento ao colega, assumir que as tentativas de solução do outro fazem sentido, e persistir tentando buscar e imaginar coisas para si próprias. Interações que dão origem a oportunidades de aprendizagem que não ocorrem em situações de sala de aula tradicional (informação verbal).

Para Oliveira (1993, p.133), “a verdadeira arte de ensinar é saber dirigir a interação social da sala de aula de forma a facilitar o processo educativo.”

O professor deverá ser o instigador, o provocador, o desafiador em situações-problema buscando a construção do conhecimento. Entende-se que numa relação professor/aluno, as afetividades, a autonomia, não poderão ser eficazes se não houver de fato a competência da tarefa didática, do envolvimento, do planejamento.

Autores como Pain (1996 apud RUBINSTEIN, 2001, p.22) “preconizam que o objetivo da Psicopedagogia é devolver à criança o anseio por saber, pois em algum lugar ela o perdeu.”

As relações interpessoais são manifestadas de diversas formas, das quais: a dedicação de tempo, à comunicação com os alunos, o elogio sincero, o interagir com os alunos com prazer, entre outros; o oposto se trata de rejeição. Os alunos devem sentir-se livres para errar e aprender com seus erros, sentir que o professor se interessa por eles. O sentir-se livre traduz ausência de medo, de angústia de ansiedade.

Não se deve utilizar pressões ou a garantia de prêmios àqueles que realizarem com afinco as atividades, a autonomia do aluno está relacionada com a liberdade concedida no momento da aprendizagem. É função de o professor transformar sua aula motivada pelo bom relacionamento, pelas atividades grupais, pela cooperação, pelo prazer, pelo amor e pela paz.

“A arte pedagógica, realmente prática, diz Rudolf Steiner (1987), não pode nascer de uma mentalidade materialista. Se o homem não sentir unido a algo superior, por meio de laços seguros, sua vontade e seu caráter permanecerão dúbios, desintegrados e até doentios.”

2 QUE TIPO DE APRENDIZAGEM E DE CRIANÇAS PROCURAMOS FORMAR?

Scriptori afirma que, uma das funções do psicopedagogo é a de estimular e canalizar o desejo de conhecer do aprendiz, ou aprendizes, portanto, esse será seu primeiro desafio que uma vez vencido, dará continuidade a todo processo de aprendizagem posterior (informação verbal).

Nas escolas do século XXI, alunos trabalham em tarefas complexas e desafiadoras que exigem que eles reflitam sobre o conteúdo em questão e monitorem a própria aprendizagem; colaboram com colegas, professores e especialistas em tarefas relevantes utilizando raciocínio complexo; utilizam tecnologia para tomar decisões e criar novas idéias. O acesso à informação é ilimitado e com qualidade e níveis de profundidades variados. Os alunos aprendem elaborando várias respostas possíveis vêem o conteúdo de forma interdisciplinar, de uma maneira que mostra as conexões entre os diferentes assuntos.

Conforme Freire (1996, p.77), “toda prática educativa demanda a existência de sujeitos, um que, ensinando , aprende, outro, que, aprendendo ensina”.

A aprendizagem centrada no aluno difere da aprendizagem tradicional que era totalmente centrada no professor. Tanto a aprendizagem do aluno quanto a do professor, têm abordagens, conteúdos, instruções, ambiente de sala, avaliação e tecnologia diferentes.

Os professores para ajudar o aluno a alcançar níveis de total participação devem concentrar-se nas habilidades do terceiro milênio: responsabilidade e adaptabilidade, boa comunicação, criatividade e curiosidade intelectual, pensamento crítico, alfabetização tecnológica e de mídia, habilidades de relacionamento e de colaboração, identificação de problemas formulação e solução, autodirecionamento e responsabilidade social.

Procuramos uma criança capaz de se auto-regular dinamicamente de se sentir, processar e gerar respostas à informação afetiva e cognitiva que recupera e recebe do ambiente, que graças a sua vitalidade e curiosidade se constrói e descobre a si mesma: seu corpo, movimentos, expressões, emoções, seus afetos e pensamentos. Desejamos uma criança que seja formada a partir de seus interesses e potencialidades, conforme seu ritmo pessoal de aprendizagem, através do jogo, da arte e da exploração do seu ambiente.

Uma criança tem sua própria personalidade, interesses e gostos, além de um perfil de habilidades que a tornam única entre seus semelhantes. Um ser humano não é uma massa de argila ou algo que possamos moldar.

A criança constrói sua personalidade e auto-estima através de um processo constante de interação com seus pares, com seus pais, professores e demais pessoas próximas. A variedade de estímulos e a qualidade de interações, (especialmente com os pais), promoverão o desenvolvimento de uma criança inteligente e feliz.

Ser educador não constitui tarefa simples, ao contrário, requer amor e habilidades. O professor deve tornar seu saber pedagógico uma alavanca desencadeadora de mudanças, não somente ao nível da escola, mas, também ao nível social, econômico e político. O relacionamento professor/aluno requer sabedoria e a convivência requer arte e cuidados. Paulo Freire (1998 p.25):

“Se, na experiência de minha formação, que deve ser permanente, começo por aceitar que o formador é o sujeito em relação a quem considero o objeto por ele formado, me considero como um paciente que recebe os conhecimentos –conteúdos -acumulados pelo sujeito que sabe e que são a mim transferidos. Nesta forma de compreender e de viver o processo formador, eu, objeto agora, terei a possibilidade, amanhã, de me tornar o falso sujeito da “formação”do futuro objeto de meu ato formador. É preciso que, pelo contrário, desde os começos do processo, vá ficando cada vez mais claro que, embora diferentes entre si, quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado. É neste sentido que ensinar não é transferir conhecimentos, conteúdos nem formar é ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado.Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender.”

CONCLUSÃO

Através da análise e estudos da obra de Jean Piaget, concluímos que o fio condutor de sua teoria, idéia fundamental e argumentação é a de que o conhecimento não se origina na percepção, mas na ação. Por isso, é extremamente importante oportunizar situações para que a criança aja sobre os objetos, sobre o meio.

A função principal da educação está na construção do conhecimento. A escola deve oportunizar a construção do conhecimento através de sua ação pedagógica. A aprendizagem exige auto-aprendizagem, e para isso, a capacidade de gerir seu próprio desenvolvimento cognitivo, da seleção dos conteúdos, à definição das próprias estratégias, com vistas ao objetivo pretendido, portanto, interagindo com o meio, com tudo o que a rodeia, é que a criança constrói sua inteligência.

O educador, acreditando na capacidade do aluno (independente de raça, nacionalidade, valor cultural), de construir o seu conhecimento passa a considerá-lo como o centro do processo de ensino-aprendizagem. É possível ao professor incentivar e desenvolver mecanismos que levem os alunos a desenvolverem estratégias mais profundas de aprendizagem, incorporando a concepção da aprendizagem como um processo que, não apenas pode reproduzir, mas que principalmente é capaz de transformar. Entretanto sabemos que nem sempre as práticas pedagógicas atingem, ou buscam atingir a construção do conhecimento.

A motivação para a aprendizagem não pode ser impulsionada apenas por fatores extrínsecos, como ambiente familiar, a escola, o professor, ou o sistema de avaliação, o conhecimento só acontece através da importância ou significado que adquire aquilo que se estuda, aquilo que se fala e que se faz por quem realiza a ação, podendo ser o educador ou o aluno; e principalmente só acontece quando há interação, quando há afetividade, busca de autonomia, onde todos podem trocar idéias, falar e discutir. Compreendemos então que afetividade, autonomia e inteligência são aspectos indissociáveis, intimamente ligados e influenciados pela socialização. Na escola é além de dar carinho, é aproximar-se do aluno, saber ouvi-lo, valorizá-lo e acreditar nele, dando abertura para a sua expressão.

Trabalhar visando à afetividade, a autonomia nos conduzirá à transformação para a melhoria dos relacionamentos em todos os níveis, tornando as aulas mais atrativas e a escola um rico laboratório de vivências e aprendizagens positivas, onde crianças e jovens se desenvolverão à luz dos pensamentos, bons sentimentos e na construção do conhecimento.

O educador construtivista tem uma meta principal, não o ensino pré-determinado e dogmático, mas o ensino que proporcione a seus alunos a descoberta daquilo que realmente devem saber, com base em conceitos de justiça, cooperação, liberdade, afetividade e autonomia. Sempre tendo em mente as necessidades, os ritmos e os interesses diferentes, a bagagem já adquirida em relação a cada criança. A construção do conhecimento, visa à participação ativa da criança, trocas interativas por meio de trabalhos em grupos, respeito mútuo, autonomia/tomada de decisões, disciplina; esta construção só é subordinada aos estágios do desenvolvimento intelectual, ou cada fase do indivíduo, conduzindo para um “realizar”, “fazer pensar” e não um “ensinar a pensar” (grifo nosso).

O construtivismo se apresenta como sendo uma fonte inesgotável de possibilidades de orientação para todos aqueles que estejam implicados no processo educativo, não só de crianças, mas de adolescentes e adultos. Construtivismo não é varinha de condão, poção milagrosa, não faz milagre por si só. É preciso conhecê-lo, saber interpretar as suas intencionalidades.

O educador ou facilitador da aprendizagem poderá fazer do construtivismo uma ferramenta para a sua prática pedagógica, a fim de alcançar o objetivo do processo educativo de propiciar a criança o instrumento físico, intelectual, emocional e social. A criança se desenvolverá construindo e reconstruindo continuamente suas estruturas, buscando um estado de equilíbrio, de satisfação que a torna cada vez mais apta ao processo ativo de equilibração em busca de uma equilibração majorante. O conhecimento é algo tão amplo que nos torna muito pequenos diante do que há para saber. (A questão está em aberto e integra o universo de meus interesses de pesquisa).

REFERÊNCIAS

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DE VRIES, R. e ZAN,B.1997 apud TOGNETTA, L. R.P. A construção da solidariedade e a educação do sentimento na escola. Campinas: Mercado de Letras Edições e Livraria Ltda, 2003.
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______. 1982 apud VINHA, T. P. O educador e a moralidade infantil: uma visão construtivista. Campinas: Mercado de Letras, FAPESP, 2000.
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OLIVEIRA, P. S. Introdução à sociologia da educação. São Paulo: Ática, 1993
PIAGET, J. Seis estudos de psicologia, Rio de Janeiro: Forense, 1969.
_____. A psicologia da criança. São Paulo/ Rio de Janeiro: DIFEL, 1980. ______. O nascimento da inteligência na criança. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
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WADSWORTH, B.J. Inteligência e afetividade da criança na teoria de Piaget. São Paulo: Pioneira, 1996.

ENTORSE DE TORNOZELO

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1. Definição: Ocorrem em esportes como o vôlei, basquete e futebol.

2. Anatomia e Biomecanica:

Ossos: O tornozelo é uma estrutura formada pela união de 3 ossos: tíbia, fíbula e tálus.

Partes Moles: A estabilidade do tornozelo se dá através de ligamentos, que são: Ligamento Colateral Medial – tem no maléolo tibial e inserção nos ossos navicular, tálus e calcâneo: são eles: tibiotalar anterior e posterior, tibiocalcâneio e tibionavicular, que juntos formam o forte ligamento deltóide.

Ligamento Colateral – tem origem no maléolo fibular e inserção nos ossos tálus e calcâneo; são eles: talofibular anterior e posterior e calcâneo fibular. Sindesmose Tibiofibular – tem origem na tíbia e inserção na fíbula: são eles: tibiofibular anterior e posterior e interósseos.

Articulações: O tornozelo é formado por três articulações:
– Articulação Talocrural – formado pela extremidade inferior da tíbia e fíbula com o dorso do tálus;
– Articulação Subtalar – entre o tálus e calcâneo;
– Articulação tibiofibular – formada pela extremidade inferior da tíbia e da fíbula.

Cinesiologia:

Os movimentos envolvidos na articulação do tornozelo são:

– Flexão Plantar – movimento pelo qual a planta do pé é voltada para o chão, músculos envolvidos neste movimento são: gastrocnêmio e sóleo, a amplitude de movimento é de 0 – 50º;
– Flexão Dorsal – movimento no qual o dorso do pé é voltado para a cabeça, músculos envolvidos neste movimento são: tibial anterior e extensor longo dos dedos, a amplitude de movimento é de 0 – 20º;
– Inversão – movimento no qual se vira a planta do pé para a perna, músculos envolvidos são: tibial anterior e posterior, a amplitude de movimento é de 0 – 45º;
– Eversão – movimento no qual se vira a planta do pé para a parte lateral da perna. Músculos envolvidos são: extensor longo dos dedos e fibular longo e curto, a amplitude de movimento é de 0 – 30º.

3. Causas:

Mecanismo de Lesão:

As lesões do tornozelo são causadas por uma súbita aplicação de força que exceda a resistência dos ligamentos, rodando o pé em inversão ou eversão.

4. Lesão traumática por entorse:

Definição: A Entorse pode ocorrer por uma sobrecarga grave, estiramento ou laceração de tecidos moles como cápsula articular, ligamentos, tendões ou músculos. Porém esse termo é freqüentemente usado em referência especifica a lesão de um ligamento, recebendo graduação de entorse de grau I, grau II e grau III.

Etiologia: Após o trauma os ligamentos do tornozelo podem ser estirados ou rompidos, o tipo mais comum de entorse no tornozelo é provocado por uma sobrecarga em inversão e pode resultar em ruptura parcial ou total do ligamento talofibular anterior, provocando uma sobrecarga no tornozelo, tornando-o instável. Raramente componentes do ligamento deltóide são sobrecarregados, existe uma maior probabilidade de avulsão ou fratura do maléolo medial com uma sobrecarga em eversão.

5. Tipos de Entorses:

– Entorse em inversão: é quando o tornozelo se desloca para fora, projetando a sola do pé para dentro, em direção ao outro pé. É o tipo mais comum de entorse. Os ligamentos da parte de fora do tornozelo se estendem além do seu comprimento natural, podendo causar lesões e/ou fraturas. Em 90% dos casos, as entorses acontecem dessa forma.
– Entorse em eversão: é quando o tornozelo se desloca para dentro, projetando a sola do pé para fora. Os ligamentos da parte de dentro do tornozelo se estendem além do seu comprimento natural, podendo causar lesões e/ou fraturas.

6. Classificação:

As entorses de tornozelo são classificadas da seguinte maneira:

– Grau I – ligamento preservado processo álgico ligamentar e edema local;
– Grau II – frouxidão ligamentar, dor intensa, edema difuso e hematoma;
– Grau III – ruptura ligamentar parcial ou total, provável fratura por avulsão, dor intensa, instabilidade, edema difuso e hematoma.

7. Cicatrização do Ligamento: Os ligamentos tendo vascularização regular cicatrizam lentamente, sendo o reparo feito por tecido fibroso e colágeno. Os ligamentos com ruptura total devem ser saturados cirurgicamente.

8. Diagnóstico: Nos entorses de tornozelo o diagnóstico é feito através de exames radiológicos, ultra-sonografias e testes de instabilidades.

9. Avaliação: testes especiais

Sinal de Gaveta do Pé: Procedimento – Com o paciente em decúbito dorsal, estabilizar o tornozelo com uma mão, com a mão oposta, exercer uma pressão empurrando sobre a tíbia. A seguir, pegar a face anterior do pé, e para teste posterior pegar a face posterior da tíbia e puxar.
Fundamento: Se ocorrer secundário a trauma quando a tíbia é empurrada, uma ruptura do ligamento talofibular anterior estará sendo indicada. Se o espaçamento ocorrer quando a tíbia é puxada, será indicada uma ruptura do ligamento talofibular posterior.
Teste de Estabilidade Lateral: Procedimento – Com o paciente em decúbito dorsal, invertê-lo o pé passivamente.
Fundamento: Se estiver presente um espaçamento secundário a trauma, suspeitar uma ruptura do ligamento talofibular anterior e/ou ligamento calcaneofibular.
Teste de Estabilidade Medial: Procedimento – Com o paciente em decúbito dorsal, evertê-lo o pé passivamente.
Fundamento: Se estiver presente um espaçamento secundário a trauma, suspeitar de uma ruptura do ligamento deltóide.

10. Exame Físico:

– Análise da dor – paciente relata dor ao subir e descer escada ;
– Análise da palpação – em palpação profunda da região maléolo lateral, paciente relata dor;
– Análise do edema – em região do maléolo medial e maléolo lateral edema do tipo quente e duro;
– Análise da crepitação;
– Análise da pele;
– Análise do tônus muscular;
– Análise da marcha – paciente de marcha claudicante;
– Análise de cacifo.

11. Objetivos de tratamento:

– Restaurar a amplitude de movimento;
– Fortalecer os músculos do tornozelo;
– Melhorar o equilíbrio e coordenação;
– Diminuir dor e edema;

12. Tratamento:

– Grau I – Crioterapia + compressão + elevação + fortalecimento muscular + propriocepção;
– Grau II – imobilização de 3 a 4 semanas. Após 20 dias faz-se: crioterapia + fortalecimento muscular + propriocepção;
– Grau III – cirúrgico;

Fase aguda (1 á 3 dias):

– PRICE;
– Corrente diadinâmica de Bernardi (DF/MF/CP) eletrodo positivo na lesão e eletrodo negativo na proximal de eversores;
– Laser de 1 á 2 j/cm2;
– Ondas curtas pulsado freqüência < 125 hz;
– Bandagem compressiva;
– Alongamento (IT/TS);

Fase subaguda (3º ao 10º dias):

– Ultra som pulsado 20%, dose de 0,7 w/cm2;
– Exercício isotônico concêntrico e excêntrico, em eversores e dorsiflexores;
– Corrente diadinâmica de Bernardi (DF/MF/CP) eletrodo negativo na lesão e bandagem funcional;
– Laser de 3 á 5 j/cm2;
– Alongamentos;
– Propriocepção estática bipodal.

Fase crônica (10º á 20º dias):

– Exercícios isotônicos concêntricos e excêntricos (4×8) repetições com theraband em dorsiflexores e eversores e (3×8) repetições com theraband em flexores plantares e inversores;
– Alongamentos;
– Propriocepção dinâmica: gestos esportivos na quadra, simulação com bola;
– Exercícios pliométricos: saltos e deslocamentos laterais e corridas;
– Bandagem funcional.

REFERÊNCIAS
Aula de Traumatologia e Reumatologia, ministrada em sala
Joseph J. CIPRIANO,D.C.Manual Fotográfico de Testes Ortopédicos e Neurológicos. SÃO PAULO;Manole,3ªedição
www.crefito5.com.br
www.santafisio.com

CENÁRIO MACROECONÔMICO BRASILEIRO NOS ÚLTIMOS 7 ANOS

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Introdução

Este trabalho visa à identificação dos índices da economia política brasileira do governo até o presente e também no contexto mundial, e a partir daí observar e estudar os aspectos favoráveis e desfavoráveis usando o senso crítico, isentando-se de posicionamento partidário, para que se possa fazer um estudo e análise com resultados verdadeiros e corretos, e sem intenções de denegrir a imagem do governo, buscando soluções que objetivem melhores condições de vida para o povo em geral.

Desenvolvimento

A economia brasileira terá em 2004 seu melhor desempenho nos últimos dez anos, segundo os dados divulgados pelo governo, que mostraram que o crescimento no terceiro trimestre foi de 6,1% em relação ao mesmo período de 2003. Em comparação com o segundo trimestre, o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) foi de 1% e no acumulado dos primeiros nove meses do ano a economia brasileira cresceu 5,3%, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Esses números, os melhores em oito anos, estão dentro das expectativas do mercado financeiro, que, como o governo, previu para 2004 um crescimento da economia de 5%.

Nos anos do primeiro mandato presidencial de Lula, a situação econômica internacional apresentou-se extraordinariamente favorável em todas as esferas. O mundo todo cresceu e puxou o Brasil com ele, e é este o principal fator responsável pelo bom desempenho de indicadores econômicos exibidos pelo governo como se fossem resultantes da política econômica doméstica. Trabalhando com dados do FMI, Figueiras e Gonçalves mostram que a renda mundial cresceu a uma taxa média de 4,9%, muito superior à média secular (1890-2006) de 3,2%, o mesmo acontecendo com a taxa de investimentos, significando um ciclo claramente expansivo da economia internacional, apesar da inflação relativamente baixa. Cresceram também o volume do comércio mundial e os preços internacionais, enquanto melhoraram as contas externas de quase todos os países, inclusive os “em desenvolvimento” (a grande exceção, que explica o fenômeno, foram os EUA).

Num cenário como este, a melhoria da situação das contas externas e a redução da vulnerabilidade externa constituíram uma tendência geral que atingiu a maioria dos países, inclusive o Brasil. Combinando, de modo criativo e audacioso, indicadores distintos comumente empregados para medir a vulnerabilidade das economias nacionais a choques e pressões externos, os autores concluem que, neste quesito, o governo Lula não é melhor do que o seu antecessor imediato (FHC, 1995-2002), embora o contexto internacional seja muito mais favorável, nem melhor do que a média mundial entre 2003 e 2006. Ao contrário da propaganda oficial, o que os números indicam é que o “governo Lula deve ser responsabilizado pela perda da extraordinária oportunidade criada pelo contexto internacional pós-2002”.

Os produtos que respondem pela maior competitividade internacional das exportações brasileiras são intensivos em recursos naturais e caracterizam o que os autores chamam de “especialização retrógrada”, isto é, a participação crescente de bens primários no valor (e não apenas no volume) das exportações. Os produtos intensivos em tecnologia, de alto valor agregado e de impacto maior nas cadeias produtivas, mantiveram tendência a reduzir sua participação nas exportações, acentuando a trajetória de “retrocesso industrial” a qual o governo Lula deu continuidade. O crescimento industrial em termos absolutos não é suficiente para inverter a trajetória de queda relativa do peso da indústria no PIB, na geração de postos de trabalho e no montante das exportações.

Conclusão

Muitas vezes aquilo que nos é transmitido através da mídia não está coerente com a realidade, daí a necessidade de termos visão crítica para podermos discerni o que é real da propaganda manipuladora e enganosa. Quando vemos os noticiários temos a impressão de que o governo Lula veio para salvar a Pátria, mas especialistas no assunto, através de suas análises mostram o contraditório. Sabemos que o governo Lula investiu em vários Programas como, por exemplo: PROUNI – Universidade para todos, programa bolsa escola, programa bolsa família e outros programas que visam o atendimento na área social.

Mas ainda existem preocupações maiores: o desemprego que leva o pai de família ao desespero por não ter como sustentar sua família, falta de segurança pública onde as pessoas de bem ficam à mercê de bandidos que ceifam vidas por motivos fúteis, é necessário à criação de programas para combater a prostituição infantil, tráfico de drogas, tirarem as crianças de ruas oferecendo a elas melhores condições de vida e oportunidades de crescimento para que possam exercer sua cidadania. A má distribuição de renda é um dos grandes fatores que levam muitos para o mundo do crime, pois uns têm muito e outros não têm nada.

BIBLIOGRAFIA

1-http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/osal/osal26/20lula.pdf
2-http://noticias.uol.com.br/ultnot/. jhtm

RESENHA DO LIVRO – A GALÁXIA DA INTERNET

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Numa referência ao que McLuhan chamou de “A Galáxia de Gutenberg”, criada a partir da difusão da máquina impressora no Ocidente, Manuel Castells denomina seu livro de “A Galáxia da Internet”, que no decorrer de seus capítulos transmite uma análise e uma reflexão sobre as transformações sociais, econômicas, políticas e culturais produzidas no final do século XX, com a emergência da Internet e a sua conseqüente utilização em escala global.

O livro possui uma introdução – “A rede é a Mensagem” – e uma conclusão – “Os desafios da sociedade em rede”. O conteúdo principal organiza-se em nove capítulos, cada qual com uma pequena introdução ao tema que será desenvolvido e com a respectiva bibliografia no final de cada capítulo.

A Galáxia da Internet inicia fazendo um panorama da história da Internet. O primeiro capítulo, “Lições de História da Internet”, traz a descrição de uma seqüência de acontecimentos relevantes da formação da Internet, desde 1962, passando pela Arpanet, até cerca de 1995, quando a rede começava a se consolidar. Também expõe a importância do movimento Open Source, a cultura hacker, e o conceito de copyleft (que seria o avesso do conceito de copyright) na estruturação e desenvolvimento social e técnico da Internet.

O segundo capítulo, “A Cultura Internet”, trata ainda do contexto de criação da Internet, mas do ponto de vista social e cultural. O autor esclarece que a cultura da Internet está diretamente ligada ao seu desenvolvimento tecnológico, e explica como o código aberto possibilitou a maior utilização, modificação e replicação do conteúdo da rede, e da rede em si. A partir daí surgem as quatro camadas culturais que deram forma colaborativamente à Internet, que o autor desenvolve nesse capítulo.

A expansão dos setores mais dinâmicos da economia mundial, após a expansão da Internet, é abordada no capítulo três, “Negócios eletrônicos e a nova economia”. Castells sugere o termo e-economia para definir esta nova economia, que segundo ele “emerge do interior da velha (economia), como resultado da utilização da Internet pelas empresas para os seus próprios fins e em contextos específicos”.

O autor avalia e explora o surgimento de novas formas de interação social em “Comunidades virtuais ou sociedade em rede?”, quarto capítulo da obra. Ele expõe algumas questões como os perigos da comunicação em rede, o isolamento social do indivíduo, a quebra da comunicação social e da vida familiar, e o desempenho de fantasias on-line – onde os indivíduos vivem realidades virtuais, fugindo do mundo real. Situações que podem existir pontualmente, mas que não são generalizáveis, tornando-se “difícil chegar a uma conclusão definitiva sobre os efeitos que a rede pode ter sobre o grau de sociabilidade” (Castells, 2004).

Nos capítulos cinco e seis, respectivamente “A política da Internet I: redes de computadores, a sociedade civil e o Estado” e “A política da Internet II: Privacidade e liberdade no ciberespaço”, Castells contextualiza o controle político das redes, e a relação existente entre governo e sociedade, e o poder de detenção da informação. Ele mostra como a liberdade e a privacidade na Internet se tornou conseqüência direta da sua comercialização. Volta-se novamente ao conflito da liberdade: Por um lado, a ideologia libertária que tenta a todo o custo conservar a Internet como este novo terreno de oportunidades. Por outro lado, um grau de controle que aumenta exponencialmente, com a crescente mobilização dos recursos dos governos para podar esta liberdade.

Em “Multimídia e a Internet: Hipertexto além da convergência”, capítulo sete, numa tentativa de compreender os novos modelos de comunicação, o autor analisa a convergência entre Internet e multimídia. Ele reflete sobre as práticas midiáticas atuais que se baseiam na Internet, tais como o compartilhamento de áudio e vídeo, os jornais disponíveis on-line, entre outros. Também conceitualiza e distingue os meios de comunicação dos meios de entretenimento, dentro e fora da rede, e a personalização do conteúdo hipertextual.

Castells analisa e reflete no penúltimo capítulo de seu livro – “Geografia da Internet: lugares em rede” – um dos aspectos mais importantes na Era da Internet: a desigualdade de implementação e de expansão da Internet, que provoca uma lacuna cada vez maior entre o primeiro e o terceiro mundo. O autor faz a análise da geografia da Internet sob três aspectos: a geografia técnica (distribuição física), a geografia dos utilizadores, e a geografia econômica de produção da Internet (concentração dos produtores de conteúdos Internet). Nos três pontos, o autor identifica uma correlação entre o uso da Internet e a dimensão das cidades e também que as zonas mais pobres do planeta são as mais afastadas das infra-estruturas da Internet, independentemente da sua densidade populacional.

No último capítulo, “A divisão digital numa perspectiva global”, Manuel Castells retoma a questão abordada no capítulo anterior. Estuda a relação existente entre os níveis de acesso à Internet e as fontes sociais da desigualdade, e como a Internet contribui para que se acentuassem as diferenças sociais. Ele conclui que Internet “não é apenas uma tecnologia: é o instrumento tecnológico e a forma organizativa que distribui o poder da informação, a geração de conhecimentos e a capacidade de ligar-se em rede em qualquer âmbito da atividade humana” (Castells, 2004), e que a sociedade em rede poderia representar uma possibilidade de participação e interação democrática, entre governos e cidadãos, na construção de um mundo melhor, concretizando a disseminação da Internet de fato para todos os cidadãos ao redor do mundo.

A obra de Castells proporciona ao leitor, de forma literal e ilustrativa, uma viagem pela Galáxia da Internet, com uma linguagem clara e idéias bem estruturadas no que diz respeito aos termos relacionados à Internet – o que torna a leitura instigante e fascinante, principalmente para quem está inserido no meio da comunicação digital. O autor apresenta de maneira seqüencial os pontos mais importantes referentes à criação histórica, cultural e política da Internet e a correlaciona à emergência e a consolidação de uma nova economia, às novas formas de sociabilidade em rede, participação social e intervenção política. Uma leitura fundamental para quem deseja ir além ao entendimento da Internet e da sociedade em rede.

FILME A VILA – CONSTRUÇÃO DA REALIDADE

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O filme “A vila” trás em seu enredo pontos pertinentes e interessantes que se refere à sociedade e seu campo relacional. Entretanto é inevitável não focalizarmos o sujeito enquanto seu discurso e prática.

As sociedades se organizam a princípio por interesses comuns, passando a congregar culturas e também hábitos. O indivíduo enquanto agente dessa sociedade constrói seu próprio espaço, seus discursos, compondo noções de conceitos e verdades.

O interesse da organização de uma vila na Floresta Covington gira em torno da fuga da realidade. Penso que não há como fugir desta, apenas recriá-la, por isso que ainda se mantém instituições, leis e culturas da realidade antes habitada, existente.

Se o que une os indivíduos é o interesse o que as mantém unidas é o discurso, que possibilita a manipulação de conceitos e direciona as práticas.

Definida a partir do discurso, e não por um método experimental, a verdade adquire um caráter de falseamento.

O discurso promove uma limitação do sujeito em sua prática. Ele não se questiona, mas sim ao outro que é pensado enquanto errado, mal. As caracterizações derivam da significação atribuída aos símbolos que ajudam a compor a noção de medo, morte, amor… Entretanto o signo tem maior destaque, se atribuem a cor vermelha como ruim é como se a idéia se sobrepusesse ao objeto, pois a associação da forma (significante) e a idéia (significado) tivesse como conseqüência a simbologia, neste caso, que a cor vermelha deve ser temida.

Quanto aos personagens, o diretor faz algumas ressalvas interessantes como à ação do Cego (a protagonista Yve) e o Louco (Nolah) a princípio nenhuma relação seria notada. Mas quando colocamos em pauta a realidade observo certa dualidade aonde: O cego percebe a realidade, mas não a vê. Enquanto o louco compreende a realidade, mas prefere não vê-la.

A noção de louco vai além quando estabelecemos uma noção dicotômica com a normalidade. Pois se os indivíduos “fugiram” do lugar que integravam e, daqueles tidos como normais, como então serão caracterizados? Penso que a normalidade, enquanto conceito é fruto daquele que discursa e assim o impõe como tal e qual.

O caso de Nolah torna-se mais complexo, se pensarmos que ele não era louco, mas foi levado à loucura. Pois caracterizado como um dos poucos com coragem de ultrapassar as fronteiras da floresta passou a ser inserido na sociedade normal, como um ser anormal, ou seja, aquele que quebra as regras contesta os limites e não é visto como um criminoso, apenas distinto, diferente.

Penso que o filme trás uma discussão que muitas vezes esquecemos, ou seja, a realidade se constrói de subjetivismo e de forma relativa. Os argumentos promovem discursos conceituais e cabe a nós selecioná-los, congregando-os em nossa normalidade imaginária para que na prática a sociedade organize seus signos modelando sua cultura, hábitos e regras.

ADOÇÃO POR HOMOSSEXUAIS 1/2

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CENTRO DE CIÊNCIAS EMPRESARIAIS E SOCIAIS APLICADAS
direito
alderei valerio frança
ADOÇÃO POR HOMOAFETIVOS
LEI Nº 12.010, DE 3 DE AGOSTO DE 2009.
Londrina
2010

RESUMO

As relações afetivas e sexuais entre pessoas do mesmo sexo são questões polêmicas em diversos países, inclusive no Brasil. Ainda mais polêmico e controverso é o tema da adoção por homossexuais, não só porque envolve a paternidade e/ou maternidade homossexual, mas também porque a própria adoção tem uma história de condenação. A nova lei de adoção no Brasil gerou um ponto controverso, porque a adoção por casais homossexuais não foi citada, o que significa que esse tipo de adoção continua sendo possível, conforme já vem ocorrendo em algumas cidades, visto que não existe nenhuma proibição legal. Sendo assim, a adoção por pessoas solteiras homossexuais continua sendo possível, já que seria preconceito vetar esta adoção baseando-se exclusivamente em orientação sexual do requisitante. Já a adoção por casais homossexuais continua dependendo do entendimento do magistrado, que poderá ou não considerar que duas pessoas do mesmo sexo constituam uma família, assim como um casal heterossexual, por meio da união estável.
Palavras-chave: Homoafetivos, Família Homoparental, Adoção, Lei de Adoção.

ABSTRACT

The affective and sexual relations between persons of the same sex are controversial issues in several countries, including Brazil. Even more controversial and contentious is the issue of adoption by homosexuals, because it involves not only paternity and / or leave a homosexual, but also because the adoption itself has a history of conviction. The new law on adoption in Brazil has generated a controversial issue, because the adoption by homosexual couples was not mentioned, which means that this type of adoption is still possible, as is already happening in some cities, since there is no legal prohibition. Thus, the adoption by unmarried homosexuals remains possible, as this would prejudice veto adoption based solely on sexual orientation of the applicant. Since the adoption by homosexual couples is still depending on the judge’s understanding, which might be regarded as two of the same sex are a family and a heterosexual couple, through the stable.
Key-words: Homosexual, Homo Family, Adoption, Adoption Law.

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO
2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA da adoção
2.1 Período pré-romano
2.2 PERÍODO ROMANO
2.3 A Adoção para os Povos Antigos
O instituto da adoção é encontrado nos sistemas jurídicos dos povos mais antigos.
2.4 Idade Média
2.5 IDADE MODERNA
2.5.1 Direito Francês
2.6 ADOÇÃO NO BRASIL a PARTIR DO CÓDIGO CIVIL DE 1916
2.7 EVOLUÇÃO NO MODELO DE FAMÍLIA
2.8 EVOLUÇÃO EM RELAÇÃO À HOMOSSEXUALIDADE
3 adoção
3.1 conceito e natureza jurídica
3.2 Requisitos objetivos e subjetivos da adoção
3.3 cadastro e habilitação para adoção
3.4 aspecto psicológico
3.5 ESTABILIDADE FAMILIAR NA ADOÇÃO
3.6 ADOÇÃO HOMOAFETIVA AO REDOR DO MUNDO
3.7 ADOÇÃO HOMOAFETIVA no brasil
3.7.1 Aspectos a Favor da Adoção
3.7.2 Aspectos Contrários a Adoção
4 CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS
BRASIL. TJ/RS. Consulta. Disponível em:.Acesso em: 20 jan. 2010.

INTRODUÇÃO

Tendo em vista as significativas mudanças no mundo contemporâneo, no cenário internacional e nacional frente à dinâmica das relações afetivas, entre pessoas do mesmo sexo, a Sociedade Jurídica deve-se inclinar para evolução do pensamento científico, os quais por meio de debates, do exercício da dialética, de críticas e sugestões, seminários, trabalhos e projetos de pesquisas científicas, é que se torna possível vislumbrar e trilhar caminhos antes não percorridos.
O pensamento jurídico científico, elaborado e demonstrado pelos estudiosos do direito, é sem dúvida, uma das molas propulsoras, que motiva e possibilita a própria necessidade do direito acompanhar a evolução da sociedade, e conseqüentemente garantir-lhe maior segurança.
A questão da adoção por casais homoafetivos é uma das mais discutidas no meio jurídico, sendo o ponto de atenção da mais moderna doutrina civilística, encontrando-se posicionamentos contrários e favoráveis a adoção por casal homossexual. A discussão está sendo travada tanto em nosso país quanto no exterior, pois os anseios são os mesmos em qualquer lugar do mundo.
Deve-se ressaltar que não há nenhum empecilho à adoção fincado na opção sexual do adotante. Inicialmente eram julgados improcedentes os pedidos de adoção quando vinha à tona a preferência sexual do requerente, sob o fundamento de que a vida que o adotante levaria e os exemplos que a criança ou adolescente teriam na convivência doméstica seriam prejudiciais para seu bom desenvolvimento como pessoa.
Com o passar do tempo este posicionamento foi sendo alterado e passaram a ser concedidas adoções, independente da opção sexual do adotante, orientados por estudos e pareceres psicológicos e psiquiátricos de que a orientação sexual dos pais não influencia a dos filhos. Com base nos princípios da dignidade humana, igualdade e não discriminação, os Tribunais passaram a conceder as adoções.
Este posicionamento que deve ser adotado em face do ordenamento jurídico pátrio ter verificado no curso da instrução processual, que a adoção atenderá aos reais interesses do adotando e o sentimento paterno-filial surgirá independente de credo, cor, sexo idade. Para a criança e adolescente, a adoção trará grandes vantagens, pois sairá da situação de abandono para o seio de uma família, onde receberá amor e proteção.

EVOLUÇÃO HISTÓRICA da adoção

Período pré-romano
A adoção não é um instituto moderno, isso porque desde Antiguidade, era permitido o ingresso de pessoas sem afinidade sanguínea na família acolhedora, como comprovam os primeiros textos legais de que se tem notícia.
O Código de Hamurabi, do período de 1728 a 1686 a.C., já ditava as regras relativas à adoção na Babilônia.
O assunto era tratado do parágrafo 185 aos 195 do referido código, os quais demonstravam a maior preocupação dos escribas do rei Hamurabi, os legisladores da época, que era estabelecer em quais casos seriam possíveis, ao adotado, voltar à casa do pai biológico.
XI – ADOÇÃO, OFENSAS AOS PAIS, SUBSTITUIÇÃO DE CRIANÇA
185º – Se alguém dá seu nome a uma criança e a cria como filho, este adotado não poderá mais ser reclamado.
[…]
195º – Se um filho espanca seu pai se lhe deverão decepar as mãos.1
Antônio Chaves explica o capitulo XI do Código de Hamurabi assim:
Enquanto o pai adotivo não criou o adotado, este pode retornar à casa paterna; mas uma vez educado, tendo o adotante gastado dinheiro e zelo, o filho adotivo não pode sem mais deixá-lo e voltar tranqüilamente à casa do pai de sangue. Estaria lesando aquele princípio de justiça elementar que estabelece que as prestações recíprocas entre os contratantes devam ser iguais, correspondentes, princípio que constitui um dos fulcros do direito babilonense e assírio.2
Note-se a expressão contratante utilizada por Antônio Chaves, a qual demonstra o caráter contratual que possuía, à época, a adoção.
Outro importante fato que se conclui, ao analisar o modo pelo qual a adoção é tratada pelo código em questão, é o de que, uma vez adotado de modo irrevogável, tinha o filho adotivo os mesmos direitos hereditários do filho natural. Observa-se aí, mais uma vez, o forte senso de justiça que possuía o Código de Hamurabi.
Da mesma forma que a sociedade babilônica, a hindu também previa, em sua legislação, o instituto da adoção.
Segundo as Leis de Manú, IX, 10, aquele a quem a natureza não deu filhos, pode adotar um para que as cerimônias fúnebres não cessem.3
Conforme afirma Valdir Sznick, através da leitura de passagens da Bíblia, é possível encontrar vários relatos de adoções, conhecidas pelo nome de levirato, entre os hebreus. Citam-se os casos de Jacó, que adotou Efraim e Manasses, filhos de seu filho José; e de Moisés, adotado por Termulus, filho do Faraó, que o encontrou às margens do rio Nilo.4
Em Esparta, embora haja relatos a respeito da existência da prática da adoção, esta era diferente do modo pelo qual vemos, hodiernamente, o instituto em questão. De fato, o modelo de organização espartana de família e sociedade determinava que os filhos somente pudessem permanecer em companhia da mãe até os sete anos de idade, quando tinham obrigatoriamente de ser entregues ao treinamento militar, no contexto de uma Cidade-Estado eminentemente beligerante. A adoção deveria ser confirmada na presença do rei.
Em Atenas, somente os homens polites, ou seja, cidadãos podiam adotar. Podiam ser adotados tanto homens como mulheres, porém para tanto também era necessário ser cidadão ou cidadã. Desta forma, tanto os estrangeiros como os escravos não podiam adotar ou ser adotados. O filho adotivo não poderia retornar à sua família natural sem que deixasse filho substituto na adotiva. A ingratidão do adotado era causa de revogação do ato.

PERÍODO ROMANO

A forma pela qual a civilização romana se estruturava religiosa e socialmente favoreceu o desenvolvimento e a plenitude dos efeitos da adoção.
Nas palavras de José Benício de Paiva, citadas por Antônio Chaves:
Era (a adoção) uma instituição de direito privado, simétrica à da naturalização do direito público: assim como a naturalização incorporava um estrangeiro no Estado outorgando-lhe a cidadania, também a adoção agregava um estranho na família romana, concedendo-lhe os direitos e deveres do filho-família.5
No Direito Romano e segundo a Lei das XII Tábuas, eram praticados dois tipos de adoção: a ad-rogatio e a adoção propriamente dita ou em sentido estrito.
Para adotar através da ad-rogatio era necessário que o adotante tivesse mais de sessenta anos e ser, pelo menos, dezoito anos mais velho que o adotado. Como muitas vezes o adotado era um chefe de família, até então sui juris, que sofria uma capitis diminutio, porque se convertia em alieni iuris, a sua família inteira extinguia-se, passando ao pátrio poder do adotante, em cuja família se integrava pela linha ágnata, com todos os seus descendentes e bens. Como se pode ver, por ser medida de suma gravidade e importantíssimos efeitos, a ad-rogatio somente se realizava por força de uma lei, com o concurso sucessivo da Religião e do Estado. Para a efetivação da ad-rogatio era necessário, ainda, a concordância das partes interessadas, ou seja, do ad-rogante e do ad-rogado.
Como também lembra Antônio Chaves, citando José Benício de Paiva, sobre a ad-rogatio, em Roma:
Poderosa arma política, uma vez que, mediante ela, se podiam obter as honras e a magistratura, passando-se da classe dos plebeus para a dos patrícios e vice-versa, e, ainda, por seu intermédio, se tornou possível a designação de sucessor ao trono, ao tempo do Império.6
De fato, a História mostra que um grande número de filhos adotivos, através da ad-rogatio, tornaram-se imperadores em Roma: Scipião Emiliano, César Otaviano, Calígula, Tibério, Nero, Justiniano. No fim da República, Cláudio, para chegar ao tribunato, fez-se adotar por um plebeu, e Galba adotou Pison, homem do povo, para que continuasse as tradições de seu governo.
A adoptio ou adoção em sentido estrito ou propriamente dita do direito romano é a que mais se assemelha à concepção moderna do instituto.
Esse tipo de adoção possuía os seguintes requisitos em relação à pessoa do adotante: deveria este último ser sui juiris (homem), ser mais velho ao menos dezoito anos que o adotado, e não possuir filhos legítimos ou adotados.
Valdir Sznick ressalta uma diferença importante entre a adoptio e a ad-rogatio. Enquanto a primeira era um instituto de direito privado, a segunda, em contraste, pertencia ao ramo do direito público.7
Em um primeiro momento histórico, a efetivação da adoptio dependia de duas solenidades: a mancipatio, que extinguia o pátrio poder do pai natural, e a in juri cessio, que consistia na cessão de direito pura e simples em favor do adotante, que deveria ser realizada perante o pretor. Em um segundo momento histórico, passou-se a realizar somente a segunda solenidade.
A adoptio poderia ser realizada de três maneiras, a primeira seria através da mancipatio; a segunda através de um contrato; e a terceira por meio de testamento.
Em Roma, à época de Justiniano, havia duas espécies de adoptio: a primeira seria a plena; e a segunda a minus plena. A primeira tinha a finalidade de conceder pátrio poder a quem não o tinha, porém somente entre membros da mesma família natural ou de sangue. A adoptio minus plena, em contrapartida, se caracterizava por manter os laços de parentesco do adotivo com sua família natural, ficando sob o pátrio poder de seu pai de sangue. Neste caso, na eventualidade de o adotante falecer sem testamento, o filho adotivo concorria à sucessão. Praticada entre pessoas estranhas, este tipo de adoção exigia a presença do magistrado para se concretizar.
A Adoção para os Povos Antigos
O instituto da adoção é encontrado nos sistemas jurídicos dos povos mais antigos.
Como lembra Fustel de Coulanges:
O homem após a morte se considerava um ser feliz e divino, necessitando da oferenda de banquetes fúnebres em sua homenagem pelos seus descendentes vivos, sem as quais ele (o falecido), decairia para uma esfera inferior, logo passando para uma categoria de demônio desgraçado e malfazejo. Julgavam os antigos que sua felicidade após a morte dependia não de sua conduta em vida, mas sim da de seus descendentes para consigo nos cultos fúnebres.8
Coulanges explica também que:
Adotar um filho era o último recurso para se velar pela continuidade da religião doméstica, tendo a adoção a sua razão de ser apenas na necessidade de se evitar a extinção de um culto. Desta forma, adotar um filho significava velar pela continuidade da religião doméstica, pela salvação do fogo sagrado, pela continuação das oferendas fúnebres, pelo repouso dos manes dos antepassados. Como a adoção não tinha outra razão de ser além da necessidade de evitar a extinção do culto, seguia-se daí que não era permitida senão a quem não tinha filhos.9
Sabe-se também que, no período de Roma, de uma forma geral, não se admitia a adoção por parte de pessoas que possuíssem filhos naturais ou adotivos. No entanto, também é sabido que, à época de Gaio, um mesmo homem poderia ter filhos naturais ou por adoção, o que causou muita polêmica entre os juristas de então.
Ainda em Roma, quando ocorria a adoção, o pater familias iniciava o adotado ao culto doméstico de sua nova família, renunciando ao culto da antiga (in sacra transiit), rompendo-se o vínculo de parentesco natural. A única maneira através da qual o filho adotivo poderia retornar à sua antiga família era deixando, à sua família adotante, um filho seu em seu lugar, rompendo-se, porém, todos os seus laços de parentesco com este, ao partir.
Idade Média
Com as invasões bárbaras e o início da Idade Média a adoção cai em desuso.
Para Omar Gama Bem Kauss, a adoção teria caído em desuso pela substituição da base religiosa que lhe dava sustento, com o surgimento da família cristã, cujos princípios giram em torno do sacramento do matrimônio.10
Com o advento do cristianismo construiu-se uma nova base religiosa que veio em substituição à antiga que dava sustento ao instituto. Com o sacramento do matrimônio a igreja só reconhecia a família e os filhos que fossem provenientes do casamento. Desta forma, a Igreja passou a combater o instituto da adoção, não o disciplinando o direito Canônico, pois os sacerdotes só vislumbravam críticas e desvantagens em relação à adoção. Via no instituto uma maneira de suprir o casamento e a constituição da família legítima, como também a possibilidade de fraudar as normas que proibiam o reconhecimento de filhos adulterinos e incestuosos. Assim, a adoção era tida como um concorrente, um rival do matrimônio. Enfim, pouco foi o seu uso durante este período.

IDADE MODERNA

Durante a Idade Média o pensamento predominante era o Teocentrismo, centrado na figura de Deus. A Idade Moderna marca o início de uma mudança na forma de pensar, colocando o homem no centro dos interesses e das decisões. Vários fatores contribuíram para essa mudança e que caracterizam a época Moderna, na economia ocorreu o surgimento do sistema capitalista, na sociedade a importância crescente da burguesia, na política o surgimento do estado nacional, na cultura o renascimento, na religião a reforma protestante.
A secularização do saber, da moral, da política e do direito é fomentada pela capacidade de livre investigação, levando o homem moderno a opor a fé e a revelação, o poder da razão de entender, diferenciar e comparar.
Assim informa Valdir Sznick Ocorrendo essa nova forma de pensar ressurge o instituto da adoção em três legislações, no Código dinamarquês em 1683 promulgado por Cristiano V, no Código Prussiano, conhecido também como Código de Frederico na Alemanha em 1751, e no Codex Maximilianus da Bavária em 1756. O Prussiano, de inspiração romana foi promulgado como lei por Frederico II, em 1794, regulamentando a adoção, tendo como requisitos, o contrato por escrito submetido ao Tribunal, à diferença mínima de idade, direito do adotado a herança e por último a irrevogabilidade da adoção.11
Essa legislação teria influenciado o Código Napoleônico.
Direito Francês
O instituto da adoção passa por um processo de renascimento com o início da Idade Moderna, destacando-se, neste contexto, o Código Civil francês de 1792, o chamado Código de Napoleão.
Napoleão sabendo que a Imperatriz Josefina era estéril resolveu incluir o instituto no Código Civil, com a finalidade de adotar seu sobrinho Eugene de Branhamais e deixá-lo como herdeiro do trono. Desta forma os fatores que levaram ao surgimento da adoção foram de natureza política e privada, pois tinha também a função de perpetuar a tradição patronímica.
Segundo Sznick, o Código Civil francês previa quatro tipos principais de adoção:
1. A ordinária, realizada através de contrato, sujeita à homologação por parte do magistrado, a qual concedia direitos hereditários ao adotado, era permitida somente a pessoas maiores de cinqüenta anos que não tivessem filhos, exigindo-se uma diferença de idade mínima de quinze anos entre adotante e adotado;
2. A remuneratória, concedida a quem tivesse salvado a vida do adotante, caracterizando-se pela irrevogabilidade;
3. A testamentária, feita através de declaração de última vontade, permitida ao tutor somente após cinco anos de tutela;
4. A tutela oficiosa ou a adoção provisória, criada em favorecimento a menores, regulando questões de tutela da criança.12
Após o advento do Código de Napoleão, o instituto da adoção voltou a inserir-se em todos os diplomas legais ocidentais, haja vista a grande influência do Código Francês nas legislações modernas dos demais países.
ADOÇÃO NO BRASIL a PARTIR DO CÓDIGO CIVIL DE 1916
Com a introdução do Código Civil de 1916, nos termos dos artigos 368 a 378 do estatuto legal, somente poderiam adotar os maiores de cinqüenta anos, e ao menos dezoito anos mais velhos que o adotado, que não possuíssem prole legítima ou legitimada. Desta forma, havia sérios obstáculos impostos àqueles que tivessem a intenção de adotar. Quanto a esse aspecto, é interessante observar a necessidade de o adotante não possuir filhos. Este detalhe importante demonstra como a adoção possuía, à época, a função primordial de dar a oportunidade àquele que não pôde ou não quis ter um filho, adotar uma criança, mantendo-se o caráter que a adoção já possuía desde suas origens.
Art. 368 – Só os maiores de 30 (trinta) anos podem adotar.
Parágrafo único – Ninguém pode adotar, sendo casado, senão decorridos 5 (cinco) anos após o casamento.
[…]
Art. 378 – Os direitos e deveres que resultam do parentesco natural não se extinguem pela adoção, exceto o pátrio poder, que será transferido do pai natural para o adotivo. 13
A Lei nº 3.133 de 8 de maio de 1957 veio mudar os requisitos indispensáveis para que a adoção fosse possível: diminuiu a idade mínima para trinta anos, e a diferença de idade entre adotado e adotante para dezesseis anos. Deixou de existir a necessidade do casal adotante não possuir filhos, passando-se apenas a exigir comprovação de estabilidade conjugal por um período de no mínimo cinco anos de matrimônio. Pode-se, através da citada Lei, notar uma pequena evolução no que se refere ao caráter da adoção, uma vez que menos limites é impostos a quem queira adotar.
Estabelecia ainda a Lei nº 3.133/57 que o parentesco resultante da adoção tinha efeitos apenas para o adotante e adotado. Com exceção de o pátrio poder, que era transferido, os demais direitos e deveres em relação ao parentesco natural não se extinguiam. Além disso, em se tratando de sucessão hereditária, o adotante tinha direito a apenas metade do quinhão a que tinham direito os filhos biológicos, segundo o artigo 1.605 do Código Civil, que foi revogado pelo artigo 227, § 6º da Constituição Federal de 1988, Os filhos, havidos ou não na relação do casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação. 14
Pode-se notar que o artigo proíbe qualquer distinção entre filhos legítimos ou legitimados.
Pode-se facilmente concluir, de acordo com as palavras de Rosângela de Morais Souza, que:
A adoção ainda possuía o cunho de solução dos problemas do adotante, ou seja, de dar filhos ao casal que não os tivesse biologicamente e, para a perpetuação do nome da família, distinto dos dias atuais, quando predomina o caráter humanitário e protetor do direito da criança e do adolescente, fazendo da adoção um dos institutos mais nobres do mundo.15
Em 2 de junho de 1965, entra em vigor a Lei nº 4.655, cuja única modificação importante que trouxe, ao instituto da adoção, foi a de permitir que fosse cancelado o registro de nascimento primitivo e substituído por outro, com novos dados. Mantiveram-se as exigências anteriores, ou seja, que os candidatos fossem casados, sem filhos, e de esterilidade comprovada.
Em 1979, veio ao ordenamento jurídico brasileiro, o Código de Menores, como ficou sendo conhecida a Lei nº 6.697 de 10 de outubro daquele ano. Com ele, pôde-se observar um significativo avanço na proteção à criança e adolescente e, por conseqüência, no tratamento dado pela legislação pátria à adoção.
O Código de Menores previa dois tipos de adoção: a plena e a simples.
Para haver adoção plena era necessário que os cônjuges fossem casados há mais de cinco anos, tendo um deles idade igual ou superior a trinta anos e pelo menos mais que dezesseis anos em relação ao adotado, fossem casados há cinco anos ou mais, salvo se um deles fosse estéril, tivesse o adotado não mais de sete anos, salvo se este já se encontrasse à época em que completou tal idade, sob a guarda dos adotantes e houvesse estágio de convivência entre adotantes e adotado de, ao menos, um ano, salvo se o adotado fosse recém-nascido.
Não se permitia aos solteiros, estrangeiros, viúvos ou separados adotar, nestes dois últimos casos, salvo se já iniciado o estágio de convivência de três anos antes da morte sobrevinda ou da separação. A adoção plena prevista pelo Código de Menores extinguia todos os vínculos do adotado com a sua família biológica, mantendo-se apenas os impedimentos matrimoniais.
Com a introdução do Código de Menores no ordenamento jurídico nacional, observa-se uma importante evolução ao tratamento do tema da adoção. Pode-se dizer que pela primeira vez o legislador deixou de proteger a figura dos adotantes que não podiam ter filhos, assim como ocorria desde o direito antigo, para voltar a sua preocupação aos adotados. É apenas em função do bem-estar deste último que a adoção passa a ser aplicada. A proteção da criança é priorizada em função de qualquer outro fator que envolva a adoção, inclusive a impossibilidade dos adotantes em ter filhos.
Novamente nos dizeres de Rosângela de Morais de Souza:
O art. 5º do Código de Menores preceituou que a proteção aos interesses dos menores sobrelevaria qualquer outro bem ou interesse juridicamente tutelado. Desta forma, concluiu-se que o legislador deixou de se preocupar com o bem-estar dos adotantes, como no princípio se fazia. E ainda, considerando a evolução do instituto da adoção, emerge claramente o progresso social abarcado agora pelo patrocínio do bem-estar do menor, não mais como forma de imitação da família natural, mas voltando-se para aqueles que, privados da sorte, perderam seus pais em meio à pobreza e à indigência que assolam nossa sociedade.16
A adoção simples prevista pelo Código de Menores, apesar de possuir trâmite judicial, assemelhava-se à adoção prevista no Código Civil, salvo no que tange a algumas diferenças como o uso dos apelidos da família substituta, a possibilidade de mudança de prenome, a destituição de o pátrio poder e a concorrência em igualdade na sucessão hereditária.
A constituição federal de 1988 trouxe como característica a proteção do Estado junto à família e a característica que mais marcou é a equiparação do adotado junto aos filhos naturais, acabando assim com a discriminação quanto ao tipo de filiação.
Após a nova Constituição Federal surgiu então, um novo estatuto legal para modificar o instituto da adoção em 13 de julho de 1990, com a Lei nº 8.069, que instituiu o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA.
O ECA vem confirmar o que o Código de Menores já fazia, ou seja, proteger, acima de tudo, o interesse da criança e do adolescente, como demonstra o artigo 43 a adoção será deferida quando apresentar reais vantagens para o adotando e fundar-se em motivos legítimos.17 Além disso, foram implementadas algumas mudanças com o fim de causar menos entraves à adoção, sempre tendo-se em vista o bem-estar da criança ou adolescente. A idade máxima do adotando passa de sete para dezoito anos à época do pedido, salvo se, antes de completar tal idade, já estivesse em companhia do adotante, e a idade mínima dos adotantes passou de trinta para vinte e um anos, independentemente da diferença de idade em relação ao adotando ou de seu estado civil.
Após o Estatuto da Criança e do Adolescente surgiu ainda o Código Civil de 2002 que contempla a participação do Estado e de uma sentença judicial para a adoção tornar-se um ato propriamente dito, tão logo mantendo um caráter constitutivo e dando ao adotado a posição de filho, conforme ensinamentos de Silvio de Salvo Venosa:
A adoção moderna, da qual nossa legislação não foge a regra, é direcionada primordialmente para os, menores de 18 anos, não estando mais circunscrita a mero ajuste de vontades, mas subordinada à inafastável intervenção do Estado. Desse modo, na adoção estatutária há ato jurídico com marcante interesse público que afasta a noção contratual. Ademais, a ação de adoção é ação de estado, de caráter constitutivo, conferindo a posição de filho ao adotante.18
Atualmente o instituto de adoção tem por princípio a irrevogabilidade do ato jurídico, após dado a sentença de adoção sua revogação será apenas re-estabelecida com princípios processuais, mesmo que o adotante morra o adotado não voltará seu vínculo com os pais naturais.
No dia 3 de novembro de 2009 entrou em vigor a nova lei da adoção com o nº 12.010, sancionada pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em agosto deste mesmo ano, a lei dita novas regras para o processo de adoção de crianças e adolescentes.
Algumas práticas que se tornaram obrigatórias com a nova lei, já vinham sendo aplicadas pelos juízes, como a necessidade de manter juntos irmãos, e também que crianças maiores de 12 anos obrigatoriamente possam dar sua opinião sobre o processo de adoção. Outro ponto revisto foi à idade mínima necessária para o adotante, que passou dos 21 para os 18 anos, contanto que diferença entre este e o adotado seja de 16 anos. Com a nova lei, será efetuado um cadastro nacional, que deve contar com todos os nomes de interessados em adotar, assim como crianças e adolescentes aptos a adoção.
Uma questão que ainda gera polêmica, é que a nova lei não contempla casais homossexuais como possíveis adotantes. No entanto, qualquer pessoa, independentemente de sexo ou estado civil, pode se candidatar à adoção.
Neste caso, apenas um membro de um casal formado por pessoas do mesmo sexo seria o responsável oficial pela criança adotada.
Os objetivos da mudança são a agilidade do processo de adoção e o cuidado com as crianças e adolescentes.

EVOLUÇÃO NO MODELO DE FAMÍLIA

Até bem pouco tempo, a família era compreendida somente através do casamento. Consistia numa união de homem e mulher que tinha por objetivo a procriação como perpetuação da família, concentração e transmissão do patrimônio.
O casamento é uma das instituições mais antigas do mundo civilizado, que sofreu larga influência sócio-religiosa. O afeto natural entre o grupo familiar não era o seu esteio.
Devido a essa concepção, até os casais, mesmo casados, que não podiam ter filhos eram discriminados, sofrendo humilhações por sua incapacidade de gerar seus próprios filhos. Filhos tidos fora do casamento também eram considerados filhos ilegítimos, bastardinhos, sofrendo restrições, inclusive, sucessórias.
A família, nessa época, era uma comunidade rural, formada pelos pais, filhos, parentes e agregados, sendo considerada uma verdadeira unidade de produção. Incentivava-se a procriação, quanto maior a família, melhor a condição de sobrevivência. A figura central da família era o homem, que tinha o papel de provedor. Já a mulher ocupava o papel de reprodutora. A finalidade da família era sua continuidade.
Com a Revolução Industrial, foi preciso a mulher assumir também o mercado de trabalho, havendo uma mudança substancial dos papéis dos cônjuges na família, que agora, com a mudança para as cidades, passou a ser o casal e prole. Não era mais só o homem o provedor da casa, o qual precisou desempenhar algumas funções em casa para ajudar a mulher. Aos poucos vieram às lutas pela emancipação da mulher que foi tomando cada vez mais um papel ativo na família e na sociedade, não aceitando mais ser subjugada pelo homem, como era anteriormente.
Para Kátia Regina Ferreira Lobo Andrade Maciel este instituto envelhecido que é a família adquiriu feições modernas e consolidou a extinção definitiva do modelo de família patriarcal do direito romano, ou da chefia da sociedade de conjugal pelo marido, com a mulher no papel de mera colaboradora.19
Surpreendente, porém, é o fato de que a Constituição Federal do Brasil, outorgada no Império em 1884, não fez referência à família ou ao casamento.
Idêntico foi a Constituição Federal de 1891, não dedicou capítulo algum a família.
Como instituição, somente mereceu a tutela constitucional em 1934, mas seus integrantes, como pessoas, não gozavam de tal proteção.
Os laços entre o Estado e a Igreja foram se afrouxando e, com isso, os rígidos padrões de moralidade foram diminuindo. O objetivo maior passou a ser a busca da felicidade e, com ela, passaram a surgir novas formas de famílias.
Diante desses novos ares, o constituinte precisou acompanhar a evolução social, trazendo à Constituição Federal de 1988 a consagração dessas novas formas de convívio. A instituição familiar passou a ser reconhecidos e tratados como sujeitos de direitos, respeitando-se suas individualidades e seus direitos fundamentais.
A família, que é apreciada como a base da sociedade, recebeu, então, uma maior atenção do Estado. Hoje, todos os filhos, sejam adotados, tidos dentro ou fora do casamento, têm os mesmos direitos. Aquele que tem uma família constituída por união estável passou a ter os mesmos direitos como se fosse casado.
Os modelos de família estão mais diversificados. É comum a família monoparental formada pelo pai ou mãe e o filho, a família formada apenas por irmãos, por primos, por tios e sobrinhos, por avós e netos e, por que não, a família formada por homossexuais, sem filhos, com filhos de um deles ou até com filhos adotados por um deles. Desde que haja amor, afeto, essas formações humanas merecem ser chamadas de família, pois cumprem a função desta no seu dia a dia. Diante de tanta diversidade, fica difícil conceituar família na atualidade. Atualmente as pessoas sabem o que fazer com o seu afeto e não mais são obrigadas a reprimi-lo para se subjugar ao desejo dos pais ou da sociedade.
Os artigos 226 e 227 da Constituição Federal apontam essa ruptura no conceito e finalidade de família, reafirmando ser a família, base da sociedade, bem como reconheceu outras formas de organização familiar, que não através do casamento, explicitando o fundamento da família, quais sejam, ajuda mútua e solidariedade entre seus membros.
Com isso o direito vem buscando dar a família uma nova organização, procura captar o caudal de novas situações criadas, reconhecendo-lhe como núcleo de preparação do ser humano para a vida.
Possuindo uma função instrumental para a melhor realização dos interesses afetivos e existências de seus componentes, a família, como sociedade natural, nos ensinamentos de Pietro Perlingieri é, portanto, a formação social, garantida pela Constituição, não como portadora de um interesse superior e superindividual, mas, sim, em função da realização das exigências humanas, como o onde se desenvolve a pessoa.20
A Constituição Federal enumera três possibilidades que podem ser consideradas como entidade familiar, aquela celebrada com observância nas formalidades estabelecidas na lei, que é chamada família legítima, a família natural advinda da união estável e a família monoparental, formada por um dos pais e seus filhos.
A Carta Magna dá preferências à família constituída pelo casamento, mas reconhece a existência de entidades familiares, que são realidades sociais. A Lei Maior, apartando-se das anteriores e mais especificamente as de 1937, 1946, 1967 e 1969, que tinham o casamento como única forma de se constituir uma família, logo, verifica-se que foram ampliadas as formas de constituição de família, incluindo, nesse universo, a união estável e a família monoparental.
Com a inclusão da união estável e a família monoparental quebrou o monopólio do casamento como única forma de legitimar a entidade familiar, hoje talvez pode-se visualizar varias outras formas de entidade familiar.
O princípio da dignidade da pessoa humana foi o principal marco para a mudança do padrão da família, tornando o requisito não mais jurídico e sim fático, o afeto, ou seja, criando um novo requisito para a Constituição Federal.
Pode-se observar que a entidade familiar ultrapassa os limites de previsão jurídica, como o casamento, união estável e a família monoparental, portanto, deve-se abarcar todo e qualquer grupo de pessoas que permeiam o instituto afeto, em novas palavras, o ordenamento jurídico deverá sempre reconhecer todos os grupos no qual seus membros enxergam um aos outros como seu familiar.
Em 07 de agosto de 2006, foi sancionada a Lei nº 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, em seu art. 5º, inciso II e parágrafo único, apesar de ter como finalidade primordial a criação de mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar praticada contra a mulher, trouxe neste artigo uma importante inovação no ordenamento jurídico nacional.
Art. 5o Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial:
[…]
II – no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa;
[…]
Parágrafo único. As relações pessoais enunciadas neste artigo independem de orientação sexual.21
Veja-se que este artigo menciona que a frase violência doméstica e familiar, independente de orientação sexual, estando assim enquadrando os homossexuais como família.
A organização da família muda no decorrer da história do homem, muito entende-se que a família não é só uma instituição de origem biológica, mas sobretudo um organismo com forte caracteres culturais e sociais.
O relacionamento entre familiares, portanto, ganha uma nova roupagem. Passa a ser mais aberto, plural e democrático, permitindo que cada indivíduo venha a obter, de fato, a realização da sua felicidade.
Desse modo, conclui-se que a família advinda da Constituição Federal de 1988 tem o papel único e específico de fazer valer, no seu seio, a dignidade dos seus integrantes como forma de garantir a felicidade pessoal de cada um deles.
Segundo Luiz Mello de Almeida Neto:
O que diferencia a família, de todas as formas possíveis de agrupamento humano, é o afeto especial que une os seus membros, na clara perspectiva de uma vida em comum, por meio da qual sejam partilhadas não somente responsabilidades, mas, especialmente, sentimentos, desejos, em prol da felicidade dos que a integram.
A família, em nossos dias, é o espaço de subjetividades, culturalmente modelado, por meio do qual uma, ou mais pessoas afetivamente unidas (ainda que não coabitem estritamente no mesmo espaço físico), procura(m) se desenvolver da melhor forma possível, tecendo a sua realização.
É o lócus sagrado do afeto, por excelência, sem o qual resta difícil (senão, impossível) pensar no melhor desenvolvimento humano. Por isso, uma das mais graves injustiças é a negação do status de família a pessoas que, por se amarem, resolveram caminhar juntas.22
Acolhendo destarte, o que os fatos sociais já demonstravam a existência de outras formas de organização familiar e demonstrando o desejo de permanência da família como centro da sociedade.
O art. 17 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, mais conhecido como Pacto de São José de Costa Rica, elaborado na Conferência Especializada Interamericana sobre Direitos humanos, assinado em 22 de novembro de 1969 e ratificado pelo Brasil em 25 de setembro de 1992, possui redação semelhante ao estabelecer que a família é o elemento natural e fundamental da sociedade e deve ser protegida pela sociedade e pelo Estado. 23
Nota-se que a família transformou-se numa comunidade findada no afeto, cujos membros se unem por um sentimento de solidariedade, o que separa de toda a coletividade, é a chamada família sociológica, assim considera-se as várias formas de organização familiar, dentre elas as entres pessoas do mesmo sexo.

EVOLUÇÃO EM RELAÇÃO À HOMOSSEXUALIDADE

O homossexualismo sempre existiu nas civilizações antigas, principalmente para os romanos, egípcios, gregos e assírios.
Como afirma Maria Berenice Dias a homossexualidade é tão antiga como a heterossexualidade.24
O homossexualismo tomou maior proporção entre os gregos, pois além de relacioná-la à carreira militar e religiosa, como os demais, também atribuíam à homossexualidade fatores como a intelectualidade, ética comportamental e estética corporal. Na antiguidade clássica a homossexualidade era aceita sem qualquer discriminação.
Na Grécia clássica as pessoas possuíam o livre exercício das relações sexuais, tal questão era introduzida no cotidiano de todos os membros daquela sociedade.
Além do homossexualismo, a bissexualidade também estava inserida em tal contexto social, assim como a heterossexualidade, que era reservado para fins de procriação. 25
Além disso, pode-se notar a inserção cultural do homossexualismo em relatos e lendas da mitologia grega, onde temos a presença dos casais masculinos Zeus e Gamimede, Aquiles e Patroclo, dentre outros relatos de relações homoafetivas.
Com o Cristianismo, o surgimento das religiões e o fortalecimento da igreja na sociedade, esta começou definir padrões morais e éticos de comportamento. Tornando-se uma grande rival do homossexualismo e expressando excessivo preconceito.
A Igreja Católica considera, ainda hoje, a homossexualidade como uma grande imoralidade e perversidade, destacando tal conduta como moralmente inaceitável para os padrões cristãos. Desde então, os homossexuais convivem com a intolerância e discriminação, sendo taxados como imorais.26
Não obstante, no III Concílio de Latrão, em 1179, o homossexualismo fora considerado crime, coadunando com tal pensamento os legisladores do século XII.
Contudo, a partir do século XVII, com a decadência da influência da Igreja, houve uma redução de culpa referente aos atos praticados em discordância com os ditados pela igreja.
Dessa forma Rainer Czajkowski dita que a partir deste momento, a orientação sexual começou a se caracterizar como uma opção e não como um ilícito ou uma culpa.27
O maior preconceito surgiu com as religiões, pois, para a maioria delas, todas as relações sexuais deveriam dirigir-se apenas à procriação. A homossexualidade é considerada pela Igreja Católica como uma transgressão, uma verdadeira perversão.
Como muito bem aponta Maria Berenice Dias ao reportar-se à concepção tida pela Igreja Católica:
Toda atividade sexual com uma finalidade diversa da procriação constitui pecado, infringindo o mandamento crescei e multiplicai-vos. Daí a condenação ao homossexualismo masculino: haver perda de sêmen, enquanto o relacionamento entre mulheres era considerado mera lascívia. 28
Já no final do século XX e início deste século, observamos maior compreensão por parte da sociedade no tocante ao homossexualismo.
A partir de 1960, 1970 com os movimentos de liberação a sexualidade torna-se livre, podendo ser ou não ser gay.
Hodiernamente não se ocultam mais e passam a lutar por seus direitos à igualdade, cidadania, dignidade e principalmente, pelo respeito aos seus sentimentos.
Além disso, institucionalizaram a data de 28 de junho, como sendo O dia do Orgulho Gay, relembrando a rebelião de travestis em Nova Iorque em 1969.
Dessa forma, os homossexuais formam um grupo coerente, ainda marginal, mas que tomou consciência de sua própria identidade, um grupo que reivindica seus direitos contra uma sociedade dominante que ainda não ò aceita, conforme explicita Maria Berenice Dias.29
Por ter sido considerada uma doença, uma perversão e até uma maldição, cientistas passaram a pesquisar sobre os possíveis fatores para tal comportamento, isto é, os chamados desvios de personalidade.
Além disso, destaca-se a criação do vocábulo homossexualidade, pelo médico húngaro Benkert, em 1869, em substituição ao vocábulo homossexualismo, onde vemos a substituição do termo ismo que significa doença, pelo termo dade, que significa jeito de ser.
Atualmente a Medicina considera a homossexualidade uma maneira diferente de ser, um comportamento diferente do indivíduo. Isso se deu após vários estudos neurológicos, hormonais e genitais. Pois na idade média, a homossexualidade era considerada uma enfermidade com interferências na faculdade mental do indivíduo, decorrente de defeitos genéticos.
Dentre os geneticistas prevalece a tese de que o homossexualismo provém de um estado de natureza, com origens biológicas, e não culturais.
Na visão da Psicologia e Psicanálise, a questão da homossexualidade ainda é objeto de estudo, juntamente com a tentativa de compreensão da psique humana.
Observa-se, de tal modo, que ainda não há consenso quanto à gênese da homossexualidade. Mas percebe-se que não constitui em uma livre escolha do indivíduo, pois em uma sociedade onde tal comportamento é repelido, discriminado e considerado imoral, não há ser humano que suporte simplesmente escolher ter tal comportamento ciente das terríveis conseqüências que terá tais quais, sofrimento, discriminação, preconceito, omissão de seus direitos pelo Estado, dentre outros.
Sendo assim, a homossexualidade não é uma doença, como afirmava os pioneiros no estudo, muito menos uma escolha consciente.
Quanto à aceitação da homossexualidade entre os países do mundo, notamos que a polêmica no tocante o assunto ainda é global. Entretanto a variações segundo o grau de desenvolvimento de determinado país, bem como o nível cultural.
Há países mais tolerantes dentre eles estão alguns países da Europa, onde já admitem uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, além de descriminalizarem tais condutas e incentivarem políticas afirmativas apoiando os homossexuais na luta por seus direitos.
O país pioneiro no reconhecimento da união homossexual foi a Dinamarca em 1989, seguida da Suécia, Noruega, Groelândia e Islândia.
No que concerne ao reconhecimento do casamento entre homossexuais, a Holanda foi à pioneira, garantindo aos homossexuais os mesmos direitos e deveres assegurados aos heterossexuais, no tocante ao casamento.
Ademais, por meio desse reconhecimento legislativo a lei facultou aos homossexuais que viviam em união civil transformá-la em casamento, bem como o casamento em parceria civil.
Contudo há países que não reconhecem tais direitos, mas que descriminalizam a homossexualidade, estando em um ponto intermediário no tocante a evolução do reconhecimento dos direitos homossexuais. Dentre os países que adotam tal conduta, temos a Finlândia, Bélgica, Eslovênia, Austrália, Nova Zelândia, Alemanha, República Tcheca e alguns estados norte-americanos, Nova Iorque e Nova Jersey. Na Espanha, encontram-se cidades onde são registradas uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, quais sejam Toledo, Barcelona, Córdoba, Ibiza e Granada.30
Na França, a legislação civil permite que duas pessoas do mesmo sexo firmem contrato para que possam ter comunhão de vida comum, acatando a determinados requisitos e sujeitando a certos deveres e obrigações.31
Nos países mulçumanos e islâmicos, estão entre os que condenam a homossexualidade, onde sua prática é considerada crime e tem como sanção a pena de morte.
No Brasil não há criminalização, mas também não tem medidas positivas ou afirmativas no tocante a homossexualidade. Todavia, projetos de lei correm no Congresso a fim de que seja vedado qualquer tipo de discriminação, e também visando à garantia de direito aos homossexuais, baseado nos princípios da igualdade, dignidade da pessoa humana e liberdade. Pois, a omissão do legislador não pode gerar efeitos negativos aos fatos existentes na sociedade, como a homossexualidade e seus aspectos, como por exemplo, a união entre parceiros do mesmo sexo, a questão do direito sucessório aos parceiros que vivem em união e a adoção por homossexuais.32
E esse breve apanhado histórico no tocante à homossexualidade, sua origem e evolução no Direito Comparado e no Brasil, têm por escopo demonstrar que as relações entre homossexuais são fatos em todo mundo e que aos poucos vem ganhando espaço e respeito no seio da sociedade, com exceção de alguns países.
Entretanto, no Brasil, ainda é necessário que seja respeitado os direitos individuais básicos assegurados a todos os indivíduos, na Constituição Federal, e que as lacunas no tocante a omissão legislativa no que concernem as relações homoafetivas sejam supridas.
Ainda hoje, mesmo com todo avanço e luta por respeito e contra a discriminação, há a incidência de demasiado preconceito social no que concerne a opção e liberdade de escolha sexual, que não aquelas pré-estabelecidas pela moral.
Segundo bem aponta Viviane Girardi o nosso tempo impõe a dissolução o estigma cultural de anormalidade que impede os homossexuais de serem livremente o que são nas suas relações afetivas e de se realizarem como pessoas no seio de uma sociedade plural. 33
Dessa forma, cumpre ao legislador analisar e valorar os fatos sociais no que se refere à proteção e tutela dos interesses das minorias, ou seja, no caso do presente estudo os homossexuais.
Na constituição brasileira, encontram-se arranjado princípios acerca dos direitos e garantias fundamentais, elencados nos artigos 5º aos 17. Portanto, competem destacar alguns direitos individuais garantidos a todos os cidadãos no artigo 5º, quais sejam, o direto a igualdade, a liberdade e a dignidade.
Basicamente, os princípios são normas derivadas de um alto grau de generalidade, de indeterminação, de costume programático, posicionada no grau mais elevado na hierarquia das fontes do Direito, que exercem funções importantes e fundamentais no sistema jurídico, que requerem a concretização por via interpretativa.
Ademais, segundo José Afonso da Silva, princípios seriam aqueles que reconhecem autonomia aos particulares, garantindo a iniciativa e independência aos indivíduos diante dos demais membros da sociedade política e do próprio estado.34
Assim a discussão acerca dos princípios, a começar do princípio da igualdade ou isonomia. Tal princípio tem grande importância não só no direito brasileiro, como também em ordenamentos jurídicos de diversos países, sendo grande meio de combate a discriminação e desigualdade. A regulamentação do princípio da igualdade encontra-se disposto no caput do artigo 5º da Constituição Federal, todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza […].35
O princípio da igualdade diz respeito à garantia de não discriminação, assim como ao respeito e o tratamento igualitário de todos os indivíduos, uns para com os outros, assim como para o Estado responsável pela garantia de tal princípio.
Contudo deve-se observar e valorar a diferença, para que se possa adotar o tratamento igualitário.
Além da proibição a discriminação e ao preconceito, com base no princípio da igualdade, este se fundamenta na questão relativa à dignidade da pessoa humana, efetivando dessa forma o maior sentido de cidadania.
A Constituição da República em seu artigo 1º, inciso III, explicita a dignidade da pessoa humana 36, como fundamento constitucional, garantindo ao individuo o respeito e proteção independentemente de sexo, raça, religião, idade, condição social, dentre outros.
Dessa forma, tal princípio é condição para que se efetive o respeito à integridade física e moral do ser humano.
Mediante a esse aspecto Viviane Girardi ensina:
permitido legalmente pela interpretação dos princípios constitucionais, em especial ao princípio da dignidade da pessoa humana, irradiado na concretização dos direitos constitucionais fundamentais que os homossexuais e os pares homossexuais estão encontrando, tanto na doutrina, quanto na jurisprudência, o respeito à diferença com base na efetivação, primeiro, do princípio da igualdade.37
Outros direitos decorrentes do princípio da dignidade da pessoa humana são os direitos personalíssimos e o direito à orientação sexual. Observando a manifestação daquele na consolidação dos direitos que ao indivíduo são considerados essenciais para a concretização de sua personalidade, apartando dessa forma Viviane Girardi a possibilidade da reivindicação do exercício à paternidade ou maternidade, via adoção de crianças, por pessoa de orientação homossexual 38, e neste o respeito ao direito à orientação sexual e o reconhecimento de que também são sujeitos de direitos, e que tem direito a inserção e tutela jurídica de seus direitos subjetivos concretizando dessa maneira os princípios da igualdade e dignidade da pessoa humana.
adoção

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