O PAPEL DA FAMÍLIA E DA ESCOLA NA APRENDIZAGEM ESCOLAR 1/2

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INTRODUÇÃO

A participação dos pais na vida escolar dos filhos representa um papel muito importante em relação ao seu bom desempenho em sala de aula. Também o diálogo entre a família e a escola favorece sobremaneira para a construção do conhecimento por parte do aluno, o que denota que a criança e seus genitores mantêm entre si e com a aprendizagem uma ligação muito íntima e profícua.
Não é possível deixar de lado o fato de que os professores são extrema importância no processo ensino aprendizagem e, portanto, das ações escolares, incluindo aquelas relativas ao relacionamento escola família. Numa visão construtivista, o aluno tem a sua relação com o objeto mediada pelo professor e com ele mantém vínculos positivos, que impulsionam a aprendizagem, ou negativos, que proporcionam um afastamento das situações de aprendizagem.
Envolver a família na educação escolar dos filhos pode significar, para os educadores, que eles tenham que conhecer melhor os pais dos alunos e realizar um trabalho conjunto com eles para criar, entre outras fatores, uma atmosfera que fortaleça o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças.
Quando escola e família têm uma linguagem comum e posicionamentos adotados colaborativamente no trato de aspectos da educação das crianças e da sua escolarização, é possível que os educandos consigam ter uma aprendizagem mais significativa, um percurso acadêmico mais tranqüilo e um desenvolvimento intelectual e emocional mais harmonioso, o que não pode ser desprezado. Assim, percebe-se que a influência da família precisa ser bem recebida pela escola, sem preconceitos, orientando suas falhas e aplaudindo seus acertos.
Assim sendo, consciente dessas verdades e crendo que a família exerce uma relevante influência na vida escolar dos seus filhos, propus-me a elaborar a presente monografia, tendo por base experiências e práticas realizadas em escolas desta cidade. E, para a realização do meu trabalho, pude contar tanto com a colaboração de colegas educadores como de alunos e comunidade em geral, os quais não se eximiram em prestar a sua parcela de colaboração no desenvolvimento das pesquisas, estudos bibliográficos e demais metodologias que permitiram que a presente monografia se concretizasse.
Assim, além de consultas bibliográficas a teóricos e demais leituras sobre o assunto em questão, entrevistei cinco professores e cinco alunos distribuídos entre as escolas nas quais realizei as minhas práticas. A partir das respostas coletadas pude compreender melhor a realidade desses espaços de ensino e, em extensão, da própria realidade da educação brasileira no que tange a influência da família no processo de construção do saber por parte dos alunos.
Após a análise dos dados coletados e demais estudos realizados, sintetizei o conhecimento colhido e o expus nesta monografia, a qual se apresenta dividida em três capítulos principais: no primeiro trato da influência da família e da escola no processo ensino-aprendizagem, tecendo comentários sobre a responsabilidade de cada qual no referido processo, bem como a respectiva importância de cada parte envolvida.
Por sua vez, no segundo capítulo, falo da necessidade da família e da escola unirem forças, aproximarem-se através do diálogo e de outras ações em favor da construção do conhecimento por parte dos educandos, num efetivo estabelecimento de parcerias. Por fim, no terceiro e último capítulo, abordo o papel da família, da escola e dos alunos quanto à aprendizagem destes últimos, procurando criar a conscientização sobre a necessidade de se instaurar um clima de afetividade, transparência e cristalinidade em sala de aula envolvendo todos estes elementos.
Na expectativa de prestar a minha parcela de contribuição quanto ao assunto tratado neste trabalho, procuro compartilhar o resultado de minhas pesquisas e estudos com colegas, alunos e seus familiares, deixando a sua disposição à monografia que ora tem início.

1 – O PAPEL DA FAMÍLIA E DA ESCOLA NA APRENDIZAGEM ESCOLAR

1.1Afinal, educar é responsabilidade de quem?

Entendo que os conceitos e visões acerca das categorias escola, família, aluno e aprendizagem consistem numa tentativa de compreensão e interpretação do quanto à falta de participação dos pais no processo educacional constitui um fenômeno abrangente e complexo. A análise destes elementos tem a proposição de apreender e codificar o fenômeno da falta de participação da família na vida escolar dos seus filhos, bem como conhecer as influências deste fenômeno no referido processo.
Aliás, a aprendizagem não se resume necessariamente ao processo de ensino, como tantos imaginam. Não existe um processo único de ensino aprendizagem como muitas vezes se diz, mas dois processos distintos: o de aprendizagem, que é o desenvolvimento do aluno, e o de ensino, protagonizado pelo professor.
São dois momentos que se comunicam, mas que não se confundem: o sujeito do processo de ensino é o professor, enquanto do processo de aprendizagem é o aluno. Todavia, fica claro que o processo de ensino deve dialogar com o processo de aprendizagem. Através de minhas práticas pude perceber que um complementa o outro, e que ambos não podem se desenvolver isoladamente.
O que se observa cada vez mais, nos dias de hoje e em diferentes contextos, é que a freqüência das crianças com pouca idade em ambientes socializadores, como creches e escolas de Educação Infantil não é incomum, o que acarreta sua permanência por mais tempo fora de casa do que convivendo com os membros de sua família.
Com isso o papel socializador da família passa a ser mais difuso e a responsabilidade da educação dos filhos mais dividida, principalmente com a escola e com parentes como avós, tios e irmãos. Essas modificações na estrutura e forma de educar os filhos vai se refletir na conduta dos alunos dentro da escola assim como nas relações mantidas entre família e espaço de ensino, influenciando tanto os processos de ensino quanto os de aprendizagem.
Entendo que, para oferecer um leque diversificado de saberes, o currículo escolar necessita ser organizado com a participação dos estudantes, dos pais e da comunidade. Sendo o plano mestre adotado por uma escola, não é válido que este currículo seja um elenco de disciplinas e conteúdos linearmente organizados, mas que seja aberto, com grandes temas, possibilitando sempre a inclusão de novos eixos e conteúdos significativos.
Em torno desses temas, eixos e conteúdos é que se articularão os saberes oriundos dos diferentes enfoques da prática docente. Dessa forma, poderá ser possível às crianças aprender a aprender por toda a vida, porque aprenderam a buscar diferentes saberes, os quais se complementam graças às práticas e experiências do professor.
Entendo que o professor tem uma grande responsabilidade, mas o seu papel não é instruir, mas orientar: é possível influir o aluno de tal modo que este não se deixe influir, não cabe ao educador tirar dúvidas e sim trazer. Enfim, trata se de um amor exigente: ao mesmo tempo em que cabe apoiar o educando do modo mais envolvente possível, deve exigir dele o melhor desempenho viável.
Desta forma, os professores devem estar cientes de que a função da escola e da verdadeira responsabilidade profissional é o de conseguir que os alunos atinjam o maior grau de competência possível em todas as suas capacidades. Para tanto, mostra-se válido envidar esforços objetivando que estes superem suas deficiências, as quais muitas vezes carregam por motivos sociais, culturais e pessoais. Segundo a fala de uma aluna: A Não me importo que a professora exija.
Com isto pode-se perceber que as crianças não temem serem desafiadas a estudar, contanto que elas consigam perceber uma finalidade neste estudo.
Porem conseguir um clima de respeito mútuo, de colaboração, de compromisso com um objetivo comum é condição indispensável para que a atuação docente seja eficaz na construção da cidadania de seus alunos. E a observação da atuação dos educandos em situações o menos artificiais possíveis, em um clima de cooperação e cumplicidade, é a melhor maneira de se realizar uma avaliação formativa.
Devido a formas de pensar semelhantes a estas, pode se perceber que a transição da escola de hoje para a escola do amanhã não se dará sem traumas e conflitos: a cada dia que passa torna se mais e mais evidente que a construção da nova escola que tanto queremos exige de nós renúncias e transformações. E, para a escola que está sendo construída ser de fato nova, precisamos nos renovar também, abandonando antigas e ultrapassadas formas de pensar e de agir.
Como lembra Sacristán (2005 p. 192): Para que a situação do aluno mude, nós temos que mudar antes. A cada dia que passa, percebo com mais clareza que, para que essa metamorfose ocorra a contento, é necessário que todos nós, educadores, nos dispusemos a abrir nossas mentes a diferentes idéias e teorias, por vezes estranhas e incomuns, mas que nos ajudam a ver com outros olhos o mundo que nos cerca.
Ainda em função das minhas práticas pedagógicas, um dos maiores desafios que a escola de hoje enfrenta é realizar um trabalho que tenha um significado relevante tanto para o professor quanto para os alunos. Neste ponto cabe aos docentes repensarem suas propostas, reverem as rotinas, romperem com o formalismo dos conteúdos preestabelecidos, esquecerem a escola tradicional e tecnicista para construírem a nova escola.
De certa forma, a reflexão sobre sua proposta de trabalho envolve uma série de outras questões muito importantes para a construção da identidade profissional: visão de mundo, opção por um quadro de valores, posicionamento frente à realidade social conflitiva, etc, mas com a vantagem de se dar a partir do contexto bem definido de sua atuação como professor, tornando se, conseqüentemente, muito mais pertinente e realmente formativa, ciente de sua função perante o aluno.
Além da escola é a família que tem um papel preponderante na educação de seus filhos cabendo a ela dar continuidade ao processo educacional iniciado no ambiente familiar. Assim, o processo educacional que aí se dá necessita ser compreendido como complementar ao que cada um traz de história individual e coletiva. A educação não começa na escola, mas nasce antes, no seio familiar.
Quanto a este aspecto os professores que colaboraram na entrevista reconhecem que os pais são os principais responsáveis pela educação de seus filhos, porém há aqueles que deixam esta etapa apenas para a escola, sem comprometer-se de modo efetivo. E, quando questionados sobre o grau de participação dos pais dos alunos nas atividades escolares, os professores entrevistados, em sua grande maioria, informaram que é média a participação da família, podendo esta se dar de um modo bem mais amplo e sensível.
Porém, quando ocorre uma presença e participação maior dos pais na escola, este fato não pode significar uma desresponsabilização dos professores para com a aprendizagem dos alunos e do governo no que se refere à educação como um todo. Assim, entendo que os pais são capazes de envolver se com o processo escolar de seus filhos e exigir que a escola cumpra o papel que lhe cabe na educação, mas sem descaracterizar a especificidade dos papéis que cada instância deve exercer.

1.2A importância dos pais na educação das crianças

Os professores incentivam o acompanhamento e orientação em se tratando dos primeiros, e falta de diálogo e afetividade, ausência paterna ou materna e pouca participação nas atividades escolares em se tratando dos empecilhos.
Assim, percebo que os pais têm um importante papel em fortalecer a auto estima da criança, dando estímulos positivos, estabelecendo relações saudáveis, prazerosas e produtivas para que essa sensação se transforme em retorno somador para o desenvolvimento pessoal: para que a criança vá bem, ela precisa de um ambiente afetivamente equilibrado, onde receba amor autêntico capaz de satisfazer suas necessidades emocionais.
Pais que, ao contrário, não dispensam às crianças o valor que lhes é peculiar, tratando as com desprezo, julgando as preguiçosas, ruins, subestimando suas capacidades, projetam em suas atitudes uma imagem negativa. Quando à criança falta auto estima ela vive com medo de fracassar, cria um pensamento negativo e de menos valia, ansiedade, angústia, inferioridade e retraimento.
Ela se sente inibida, desanimada, insegura, desinteressada. Isso acarreta problemas no seu desenvolvimento normal e, conseqüentemente, em sua aprendizagem. E ainda conflitos oriundos da instabilidade familiar e a falta de formas eficazes para suprir as carências dos relacionamentos são fatores que influenciam nas dificuldades de aprendizagem na escola. Como me disse certa vez uma aluna: Não consigo me concentrar, minha cabeça tá longe.
Desta forma, entendo que a maneira como as crianças demonstram suas atitudes e reações sofrem influências e revelam situações emocionais entre pais e filhos. Por exemplo, quando na família há relacionamento de mando por parte do pai e obediência por parte da mãe e do filho, não havendo diálogo, está se trazendo padrões culturais de uma sociedade tradicional rígida, caracterizada pela importância da autoridade masculina, onde o pai é o chefe da família, a quem as demais pessoas devem obedecer, caso contrário são severamente punidas.
A criança traz para a escola estas situações, não aceita gestos de afago, carinho e age agressivamente com os colegas. Não estando bem estruturada emocionalmente, rejeita a presença do diálogo e do amor não só na família, mas também na sala de aula, como não raro tive a oportunidade de presenciar em minhas práticas.
Acredito que, em termos educativos, não há nada pior do que o nítido descompasso entre o casal na direção e resolução dos problemas dos filhos. É possível que os pais não concordem entre si em algumas situações, mas isso nunca pode transparecer para a criança ou o adolescente.
Os familiares podem discutir novamente a questão, argumentar sobre a decisão e até rever sua postura quando estiverem a sós, mas, na hora do sim ou não, a resposta deve ser assumida por ambos. Isso dá segurança ao jovem por não permitir que ele crie mecanismos para manipular os pais e evita que aconteça um jogo de empurra-empurra desnecessário e perigoso em seu processo evolutivo.
Ainda quanto ao fato da família ter por função socializar a criança e adaptá la à convivência na sociedade, este fato se dá oferecendo e ensinando os modelos de comportamento adotados em sua cultura, tais como valores, atitudes, formação do caráter e características pessoais.
Assim, os pais se revelam como exemplo, oferecendo disposições emocionais de como reagir diante de certas situações. Os familiares, a partir dessa convivência, mostram para a criança a maneira como o mundo é visto por eles. A própria auto estima que a criança vai fazendo de si é diretamente dependente da maneira como os pais a vêem.
Quanto a este aspecto, extensivo aos espaços educacionais a totalidade dos alunos entrevistados disse acreditar que seus pais influenciam na sua aprendizagem escolar, e uma das formas de haver uma colaboração ainda maior, segundo estes educandos, é que haja uma participação mais assídua de seus familiares nas reuniões e outras atividades desenvolvidas nos estabelecimentos de ensino.
E é de fato assim. A base de praticamente toda a aprendizagem escolar encontra se na família. E é justamente neste ponto que reside à importância das escolas estabelecerem um trabalho sintonizado com os pais de seus alunos, compartilhando dúvidas, anseios e também buscando soluções conjuntas para os problemas que se apresentarem. Além disso, esta parceria entre escola e família é extremamente benéfica para as crianças, que passam a desenvolver sentimentos positivos, sentindo se seguras e amparadas durante todo o desenrolar de seu ensino.
Entendo que é importante que os educadores percebam que cada criança traz de casa para a escola uma bagagem cultural muito grande, repleta de referências afetivas, às quais refletem diretamente no seu desempenho em sala de aula. Desta maneira, a escola somente vem a reforçar e a sedimentar o que a criança carrega em seu bojo, sendo uma continuadora das primeiras lições aprendidas em casa.
E são essas mesmas lições as grandes responsáveis pela capacidade das crianças conviverem harmoniosamente com seus colegas na escola, compreendendo as regras comuns a todos e reconhecendo direitos e deveres. Também a construção do conhecimento se dá de acordo com o que já se sabe, uma vez que todo novo conhecimento precisa associar se a outro já aprendido para, a partir de então modificá lo e a aumentá lo. Segundo Negrine:
O ambiente familiar parece ser o primeiro e mais significativo local para a internalização de valores, criação de hábitos e de aprendizagem variadas. Quanto mais estimulador for este ambiente, mais ele influi na transformação dos processos elementares em superiores; em contrapartida, quanto mais conflitivo, mais carente de afetividade, maiores problemas trará a criança em formação. De qualquer forma as influências do ambiente familiar adicionais àquelas extraídas do contexto sócio cultural permitem que ela vá construindo todo um saber e se constituem nos alicerces das primeiras aprendizagens (Bozzetto 1994).
Inclusive, percebo que quanto mais se valorizar o saber do aluno, mais relações podem ser estabelecidas entre os conteúdos que serão aprendidos e os conhecimentos já existentes, e também mais possibilidades terá a criança de responder a situações ou problemas complexos. Desta forma, o simples fato do estudo partir de situações próximas ao aluno já cria um ambiente favorável para a aprendizagem e motivação do educando. Segundo Bozzetto (2005): Os/As estudantes já vêm para a escola educados, tanto pela força da mídia, da televisão permeada pela violência, pela cultura de lazer e de consumo quanto pela influência de princípios religiosos, políticos, familiares e pelas normas que permeiam a sociedade.
E, de acordo com Chechia e Andrade (2003), a influência da família em relação à aprendizagem de seus filhos pode ser vista sob cinco perspectivas diferentes. A primeira enfatiza a classe social dos pais e o desempenho escolar dos filhos, indicando que o analfabetismo ou o pouco conhecimento dos familiares dificulta a ajuda nas tarefas de casa. A segunda análise aborda os diferentes graus de interesse da família em relação à escola de seus filhos.
O terceiro ponto se refere à participação dos pais na escola, indicando que a presença de familiares na vida escolar de seus filhos constitui um fator indispensável para o seu bom desempenho escolar. A quarta ótica revela que é a mãe que, com maior freqüência, acompanha as atividades escolares dos filhos. E a quinta e última análise enfatiza a importância dos pais especificamente em relação ao sucesso ou insucesso escolar dos filhos, mostrando que se fossem mais bem orientados sobre as atividades e obrigações escolares dos alunos, haveria maiores avanços por parte destes.
Assim sendo, as famílias podem e devem colaborar em relação à aprendizagem de seus filhos. Inclusive, as dificuldades no aprender, que levam a um retardo escolar, podem ter causas e conseqüências múltiplas, o que exige uma análise detalhada de cada caso para então se buscarem as devidas soluções.
Na maioria das vezes, os familiares podem contribuir decisivamente para a superação desses entraves, desde que sejam devidamente orientados para isso. Desta forma, não basta que os professores apenas comuniquem aos pais que uma criança não consegue aprender ou que não demonstra muita vontade em envolver se nas atividades propostas, mas deve dialogar com esses pais e mães, orientando os e estabelecendo uma parceria com eles.
Esse entrosamento entre família e escola traz apoio às crianças, além de estímulo e sensação de bem estar, o que se revela extremamente útil na superação das dificuldades de aprendizagem eventualmente surgidas. Além disso, os pais, uma vez incluídos no processo de ensino, abandonam a posição de simples espectadores e passam a ser protagonistas em busca de soluções.
Mas, somente uma avaliação psicopedagógica das dificuldades de aprendizagem de uma criança pode dizer qual é a parcela de responsabilidade dela, da sua família ou da escola. Porém, em muitos casos realmente a responsabilidade cabe à família, em especial quando é um tanto desorganizada, infligindo à criança excesso de atividades além das escolares como balé, informática e esportes, ou ainda permitindo lhe uma rotina relaxada, com muito tempo disponível para o lazer em detrimento aos estudos.
Por outras vezes os pais do aluno podem conflitá lo introduzindo métodos e exercícios alternativos de estudo, que se chocam com os empregados pela escola, além de poderem ser excessivamente ansiosos, depositando expectativas exageradas nos ombros dos filhos. Contudo, em nenhum desses casos à escola deve criticar esses familiares e sim pacientemente orientá los, levando os a proceder de forma mais apropriada.
Convém lembrar que, na maioria das vezes, trata se de pessoas leigas no que se refere à educação escolar e, por isso mesmo, suscetíveis a erros. Percebo que é esta suprema realidade das escolas em que realizei minhas práticas, onde os pais, em sua maioria de origem humilde, precisam enfrentar muitos obstáculos para convenientemente poderem orientar seus filhos.
Além de tudo isso também mostra-se necessário que se crie vínculos entre educação e humanização. Considero de grande valor os familiares posicionarem-se ao alcance de seus filhos, revelando com sinceridade que também tiveram dificuldades no aprendizado de certas matérias, e que dúvidas e inseguranças são comuns na vida de qualquer estudante. Pondo se em um mesmo patamar, os genitores estarão mais aptos a incentivarem seus filhos a vencer suas adversidades, e estes estarão mais predispostos a acolherem dicas, sugestões e conselhos, pois quem lhes fala é um ser igual a eles e não um intelectual onisciente, detentor das notas máximas no colégio em que estudou.
Assim, percebo que a família revela se fator indispensável para a boa formação destes. É ela que propicia o suporte afetivo necessário e, quando em sintonia com a escola, favorece o desenrolar de uma aprendizagem mais significativa, um percurso acadêmico mais tranqüilo e um desenvolvimento intelectual e emocional mais harmonioso para meninos e meninas.

1.2.1A liberdade dos filhos e a responsabilidade dos pais

A criança vai elaborando seus códigos de comportamento conforme experimenta a satisfação ou não de suas necessidades em contato com o mundo externo e as pessoas. As experiências cotidianas e simbólicas representam referencial para a formação da personalidade de meninos e meninas, que projetam no mundo e nos indivíduos suas sensações, fantasias e desejos, recebendo de fora pressões e satisfações que serão absorvidas e interpretadas segundo seus meios. Desta forma, o comportamento da criança resulta desse projetar se no mundo e devorá lo concomitantemente. Isto quer dizer que ela está sentindo a realidade e elaborando a sua sensibilidade ao mesmo tempo.
Quando nasce, a criança já encontra as coisas feitas: a linguagem, os objetos, os costumes, as leis, os dogmas da cultura. Essa é a realidade que enfrenta como o primeiro enigma: a família (ou a falta dela), a situação social, o meio onde mora, a alimentação, os contatos afetivos, os outros etc. A criança se torna o depósito dos conceitos, desejos, neuroses e até frustrações dos pais. Nas famílias em que há a frustração de expectativas, o simples fato de a criança ter nascido com o sexo que não o esperado já pode ser fonte de problemas.
Percebo que geralmente a criança é tomada como objeto dos pais e, não raro, como bibelô da família. Muitas vezes o meio familiar é mais hostil à criança do que a própria sociedade. De todo modo, é na família que se dá o pontapé inicial para a formação da criança (ou sua deformação). A criança, de toda maneira, tem que se desdobrar para virar adulto, adaptando se aos trancos e barrancos.Tive a oportunidade de conviver com alunos que penam em se amadurecer em ambientes nada propícios a crianças. Como disse certo aluno meu, de dez anos: Não sei se é pior ficar na estrada ou lá em casa.
É sábio que os pais servem de espelho para os filhos. Se a criança for excessivamente criticada, pode formar uma imagem ruim de si mesma, ou então, se for freqüentemente elogiada, pode carecer de limites. Nenhum dos extremos é saudável. E não é preciso falar tudo à criança, ela está atenta ao modo como os pais se relacionam com ela, entre si e com as outras pessoas. Todas essas funções exercidas pela família são importantes, e não é possível abster se desse primeiro convívio tão necessário à constituição do eu de meninos e meninas.
De acordo com Mendoça, apud, Domingos (2004, p. 1): Apesar de ser um fato que a influência das famílias é fator determinante no aprendizado das crianças, é também uma necessidade da escola reconhecer que um grande número de famílias não tem condição objetiva de acompanhamento das crianças escolarizadas.
Portanto, o ambiente familiar em seus aspectos afetivos interfere na aprendizagem, dependendo das vivências que gerara. Se a família criar laços fortes, de afeto mútuo, isso dá à criança base favorável e melhores condições de aprender, pensar e conviver em companhia de outras pessoas. Caso contrário, poderá gerar situações de agressividade e do respeito.
E algo bastante comum em nossas escolas se refere à indisciplina apresentada por alguns alunos, quando, não raro, a própria autoridade do professor é atacada. Diz Sacristán (2005, p. 209 , 210): O adulto tem saudade de um poder que lhe dava segurança em sua capacidade de influência, que agora já não sente ter. Sem dúvida trata se de um quadro difícil, mas, afinal, o que os professores devem fazer ao serem desrespeitados?
Embrutecer, gritar, vingar se da turma toda por meio de provas massacrantes ou simplesmente expulsar da sala de aula quem ousar questionar a autoridade de um educador? Segundo Cury (2003, p. 90): Deve haver autoridade na relação pai filho e professor aluno, mas a verdadeira autoridade é conquistada com inteligência e amor. Portanto, entendo que não é gritando que se consegue algo de produtivo: durante minhas práticas pude perceber, com absoluta certeza, que a verdadeira relação entre aluno e professor só se dará por meio da afetividade.
Sendo assim, nenhuma das alternativas anteriormente relacionadas mostra se válida: violência só faz nascer ainda mais violência. Sacristán (2005, p. 210 211) diz que (…) a >escola na medida’ do aluno se apóia na busca da cumplicidade, no pacto, e não na imposição. Por isso, urge que os educadores percebam que os alunos não são seus inimigos, e que, em vez de afastá los, piorando ainda mais uma situação de conflito, é seu dever esmerar se em trazer o educando para seu lado.
E como se consegue isso? Através do toque e demais formas de afetividade, do interesse sincero e, fundamentalmente, através do diálogo. Como apropriadamente lembra Cury (2003, p. 46): A verdadeira autoridade é o sólido respeito que nasce através do diálogo, e é de fato assim: já que envolve emocionalmente duas pessoas, dialogar com alguém pode fazer com que se quebre a mais sólida das resistências. Nós não nos tornamos amigos de uma pessoa conversando, dialogando com ela? Pois então, o que impede que os professores dialoguem com seus alunos, fazendo destes seus amigos? Devemos nos lembrar sempre que entre amigos não é necessário proclamar qualquer tipo de autoridade, o respeito flui naturalmente, sem qualquer imposição. Com certeza, é muito mais prazeroso e produtivo educar desse jeito.
E, não raro, a indisciplina que se verifica nas salas de aula é originária dos lares dessas crianças. Também neste ponto cabe aos professores ajudarem pais e mães a, por sua vez, ajudarem seus filhos: na grande parte das vezes, o comportamento agressivo de meninos e meninas (…) são clamores que imploram a presença, o carinho e a atenção dos pais (CURY, 2003, p. 44).
Dessa forma, com muito tato e destreza, os educadores podem esmerar se em aproximar os sujeitos envolvidos, fazendo com que percebam que são uma família e que precisam se amar. Rir e chorar junto, estabelecer e manter relações de afeto, carinho e empatia com os pais e irmãos só contribuirá para o bem do aluno, refletindo positivamente em sua vida escolar.

2- ESCOLA E FAMÍLIA: UMA APROXIMAÇÃO EM PROL DA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO POR PARTE DO ALUNO

2.1A importância do diálogo entre pais, alunos e professores

Estou plenamente convencida de que a participação dos pais na vida escolar dos filhos representa um papel muito importante em relação ao seu bom desempenho em sala de aula. De modo paralelo, também o diálogo entre a família e a escola favorece sobremaneira à construção do conhecimento por parte do aluno, o que denota que a criança e seus genitores mantêm entre si e com a aprendizagem uma ligação muito íntima e profícua.
Mas as relações entre seres humanos nem sempre são fáceis. E, para inibir casos em que situações desgastantes ocorram, devemos nos acercar de duas poderosas armas: o diálogo e o respeito. Tanto alunos, os pais destes, professores e funcionários que trabalham diariamente conosco são seres humanos, e sabemos perfeitamente que os dias para as pessoas não são todos iguais: existem aqueles em que parece que nada do que fazemos dá certo, que ninguém nos entende, que ninguém nos ama, e que o mundo todo conspira contra nós a fim de nos derrubar. Assim, é normal que homens, mulheres e crianças tenham dias considerados ruins, onde a irritabilidade impera, sendo que esses momentos precisam ser respeitados.
Desta forma, para que a escola não se torne um campo de batalha, devemos nos conscientizar da importância de duas atitudes: conhecermos a fundo nossas emoções, controlando as sempre que for necessário, e entendermos os momentos de fragilidade de quem convive conosco, procurando, desta maneira, evitar todo e qualquer momento negativo. Como diz Cury (2003, p. 76): Nos primeiros trinta segundos que estamos tensos, cometemos os piores erros, nossas piores atrocidades. No calor da tensão, seja amigo do silêncio, respire fundo.
Além disso, nós educadores, precisamos parar momentaneamente nossas atividades e refletir sobre as práticas que mantemos, pois a construção do conhecimento se dá pela reflexão. A escola não pode ser um lugar onde o erro não seja permitido e onde só é valorizado o aluno que consegue tirar boas notas. Sabemos que se trata de um processo delicado e que exige muitos cuidados, mas precisamos rever o que aprendemos em nossa formação, pois o mundo mudou e ainda vai continuar mudando.
Portanto, também precisamos mudar, nos contextualizando com essas transformações diárias. O professor deve estar em um constante fazer e refazer, propondo, questionando, avaliando, inovando… Porém, sua ação não pode dar se a esmo, necessita ser planejada e refletida com esmero. Segundo Cury (2003, p. 17): Um excelente educador não é um ser humano perfeito, mas alguém que tem serenidade para se esvaziar e sensibilidade de aprender.
Já o aluno necessita de incentivos e estímulos. É necessário que conheça sua situação em relação a si mesmo e em relação aos seus colegas e professores. Por sua vez, as informações que os familiares do educando devem receber deverá ter um caráter educativo: a partir desses dados os pais poderão estimular ainda mais seus filhos em seu dia a dia escolar.
A referência básica necessita ser o processo pessoal do educando, a fim de que se perceba claramente o que se poderá fazer para ajudá lo, instaurando-se um diálogo capaz de envolver família e escola. Tive um aluno que, de um momento para outro, passou a ter maiores dificuldades de aprendizagem.
Questionei-lhe sobre o que estava acontecendo e ele me disse que o pai estava exigindo que lhe ajudasse no cultivo da soja. Procurei, então, os familiares deste aluno e expus-lhes o problema. Eles prontamente entenderam a situação e mudaram sua forma de proceder, o que veio refletir benéfica mente na aprendizagem do educando.
E em se tratando da administração do estabelecimento de ensino, deve ser disponibilizada qualquer informação que solicitar, mas estas informações deverão ser o mais complexas possíveis, ricas em detalhes e dados. Seria extremamente incoerente se uma escola adotasse um ensino voltado à diversidade, globalização, transversalidade, etc, e ainda resumisse todas as informações acerca um aluno em uma simples nota.
Um outro fato relevante com referência às informações sobre os alunos é a sua privacidade. Estas informações necessitam ser usadas unicamente para contribuir para o progresso tanto do estudante como do professor: aos professores para que possam adaptar o ensino às necessidades do aluno e para que valorizem seu esforço, e ao aluno para que se conscientize de sua situação e analise seus progressos, retrocessos e envolvimento pessoal. Assim, não é justo e nem útil que esse conhecimento se proclame indiscriminadamente aos quatro ventos, o que, com certeza, não levaria a um diálogo construtivo.
Por exemplo, é costume sacramentado as informações sobre a aprendizagem dos alunos serem as mesmas tanto para eles, como para os professores, pais e administração da escola, geralmente vindas em forma de boletins de notas. Porém, uma escola que presta atenção à diversidade e que busca a formação integral da pessoa precisa propor formas diferentes de informação, cada qual destinado a um segmento envolvido no processo educativo, onde o diálogo entre pais, mestres e alunos é devidamente valorizado.
Assim, é conveniente que os professores sejam disponibilizados todos os dados que permitem conhecer cada passo seguido pelo aluno em seu processo de aprendizagem, visando determinar suas necessidades e, a partir daí, propor novas medidas educativas. A equipe docente precisa ficar a par de tudo o que se refere a cada aluno em particular, obtendo dados sobre o processo seguido, resultados obtidos, medidas específicas utilizadas e qualquer incidente significativo que ocorrer. Desta forma, a escola poderá garantir a continuidade e a coerência no percurso do aluno. Segundo Bozzetto (2005a, p. 42):
Os registros de acompanhamento dos alunos necessitam ser construídos ao longo do processo de ensino e de aprendizagem, pois a avaliação é integrante dos mesmos. A sua elaboração requer, portanto, um processo contínuo e constante. É durante o processo que o/a professor/a registrará as necessidades de cada aluno e o que fez para auxiliá lo a superá las.
Além disso, para que se instaure um clima de diálogo na escola e para bem realizar o seu trabalho ao longo do ano, é válido que o professor sugira leituras específicas e adequadas, promova reuniões de estudo, organize momentos em que haja efetiva troca de idéias e experiências com colegas e com o grupo em geral, estimulando e oportunizando o crescimento de todos, visando manter a hegemonia de pensamentos e ações da comunidade escolar.
Ele precisa também se manter permanentemente atualizado, realizando leituras da área educacional, bem como assuntos da contemporaneidade, uma vez que suas ações e orientações não podem incorrer no campo do achismo e de meias certezas. Desta forma, dialogando bem em seu próprio meio, a escola terá maiores condições de dialogar com êxito com seus pais.
Infelizmente, o que percebi é que ainda falta uma proximidade real entre família e escola. Uma aproximação que vá além do ato de deixar a criança ficar na porta do estabelecimento ou este encontrar os familiares do aluno somente em dias de festividade ou entrega de resultados. Urge instaurar uma relação que garanta verdadeiramente a criança e ao jovem estudante a certeza de que sua família e a escola em que estudam comungam dos mesmos valores, apesar de, em certos momentos, usarem meios diferentes para atingir a mesma finalidade: a construção do conhecimento por parte do educando.
Lembro que Freire (1997) dizia que ninguém educa ninguém, assim como ninguém educa sozinho: alguém só aprende se existir uma pessoa que lhe deseje ensinar. Da mesma forma, alguém só ensinará se houver um indivíduo predisposto a aprender, e o aprender se tornará prazeroso na medida em que for significativo.
Assim, no mundo complexo em que vivemos, a nossa missão é realmente desafiadora, pois temos o compromisso de introduzir, de lançar nosso educando em um espaço público, em um universo de muitas incertezas, onde, muitas vezes, nem sabemos o que está certo ou o que está errado. Pensando desta forma, vemos que o conhecimento se amplia e que cada aula dada por nós é uma grande oportunidade de crescimento, tanto nosso como o de nossos alunos.
Mas, para que isso ocorra a contento, é necessário diálogo: o professor constrói a sua história se comunicando, e é imprescindível que tenhamos essa capacidade de representar o mundo através de várias linguagens de expressão. Trata se de uma caminhada árdua e cheia de obstáculos, mas ser educador é isso mesmo: aquele que assume a força de suas idéias e não se abate diante das barreiras surgidas, aprimorando, constantemente, métodos para vencer estes desafios, dialogando com seus alunos e com a família destes. Como me disse uma aluna, certa ocasião: Profe, eu gosto quando a senhora conversa com a gente. Esta simples frase me fez ganhar o dia.

2.1.1Reuniões entre pais e professores

Durante as minhas práticas pedagógicas propus uma série de atividades, as quais envolviam, entre outras, reuniões entre pais e professores e encontros com alunos da 10 e da 40 a 80 série. Todos esses momentos foram muito proveitosos, revelando se experiências enriquecedoras e gratificantes, que alargaram sobremaneira os meus horizontes profissionais.
Percebi que cada turma possui características próprias, mas todas têm muito que aprender e também a ensinar. Percebei, também, que a grande maioria das famílias é participativa e dedicada, mas, por vezes, nota se uma dificuldade maior por parte de alguns pais em expressarem os seus sentimentos, o que os leva a não se envolver ativamente das atividades propostas.
Desta forma, procurando ajudar quanto à aproximação desses familiares, entendo que se mostra válido o educador acompanhar de perto o desenvolvimento de todas as atividades educativas e reuniões realizadas na escola. Longe de esta atitude ter caráter de vigilância ou controle, ela evidencia preocupações e envolvimento com o espaço educacional no sentido de contribuir para uma maior aproximação das famílias, apresentando novas idéias capazes de enriquecer práticas, orientando, propondo atividades diferenciadas, sugerindo e organizando encontros.
Este compartilhar propicia a formação de elos que serão sedimentados em sólidas bases de confiança mútua e respeito, sem os quais a possibilidade de êxito fica extremamente comprometida. De acordo com Cury (2003, p. 55): Educar é ser um artesão da personalidade, um poeta da inteligência, um semeador de idéias.
Neste sentido, o Projeto Político Pedagógico e o regime escolar geralmente dão grande ênfase à responsabilidade que os pais têm de acompanhar o desenvolvimento de seus filhos e, por isso, abrem espaço para que os familiares visitem freqüentemente a escola, conversem com os professores e participem das reuniões e eventos em geral. Este elo de proximidade entre família e escola contribui para que a educação familiar e a educação escolar se complementem, que estejam abertas ao diálogo e ao entendimento visando trabalhar juntas para superar dificuldades encontradas.
Esses encontros entre pais, professores e alunos mostram se valiosos e produtivos. Por exemplo, ao serem questionados se ficam felizes quando os seus pais participam das atividades desenvolvidas na escola, a unanimidade dos alunos entrevistados disse sentirem-se satisfeitos com esta participação, o que demonstra o interesse dos familiares quanto ao seu futuro. E realmente estas oportunidades podem levar ao envolvimento e ao comprometimento de todos.
Além disso, é muito gratificante perceber que as famílias envolvidas nas práticas propostas começam a acreditar nas suas capacidades e em seu poder de tornar a vida uma experiência maravilhosa, cheia de realizações. Essas pessoas passam a gostar mais de si mesmas, sentindo se úteis e valorizadas, contribuindo, servindo e cooperando e, também, estando felizes por participarem de uma sociedade disposta a mudar e a evoluir.
É com satisfação que percebi que, quanto a este aspecto, os educadores entrevistados estão em sintonia com esta forma de pensar, sugerindo algumas maneiras para as famílias participarem ainda mais ativamente das atividades e decisões da escola de seus filhos, tais como freqüentar ativamente das reuniões escolares, buscar informações sobre seus filhos e visitar regularmente a escola, demonstrando interesse quanto ao futuro de suas crianças.
Desta forma, percebo que os espaços educacionais devem, mais do que nunca, abordar temáticas que despertem nos pais inquietações e, ao mesmo tempo, dêem a eles respaldo para orientar os filhos para o mundo e a transformação dele, além de propor a convivência sadia nas relações interpessoais e a aceitação das diferenças e da pluralidade cultural existente em nosso país.
E tudo isso deve ser feito com o objetivo de formar cidadãos cada vez mais engajados nos projetos sociais, mais atentos à mudança acelerada que acontece diariamente, com clareza e discernimento suficientes para a tomada de decisões e, sobretudo, para tornar as pessoas mais aptas a enfrentarem o mundo.
Assim sendo, quando as escolas chamam os pais para o seu interior, assumem uma postura democrática na medida em que vão utilizar a reunião para discutir, analisar ou comunicar algo que é de importância para a família. E, por parte dos pais, o ideal é que reflitam sobre o que se deve levar de contribuição ou dúvida sobre os filhos para estas ocasiões.
Assim, é de extrema importância para a família avaliar a vida escolar dos filhos sistematicamente, informando se sobre seu desempenho, seus procedimentos, suas ações em geral para que, quando convocadas pela escola para um momento de encontro, tenha elementos para conversar com os professores e orientadores. E ainda mais: entendo que possuir todos os dados sobre a vida escolar das crianças não será somente importante para a reunião, mas também para conhecer melhor os próprios filhos.
Da mesma maneira, a família não deve ficar numa posição passiva, à espera de que a chamem para uma reunião. Ao detectar qualquer problema escolar com seus filhos, necessitam imediatamente se comunicar com a escola a fim de buscar esclarecimentos, lembrando sempre que cada caso é único.
De igual forma, é válido que usem este tempo para a troca de informações sobre educação, temas atuais sobre as crianças e adolescentes e, principalmente, sobre a proposta pedagógica da escola, muitas vezes não explicitada à família, que deve conhecer quais conteúdos serão trabalhados com os filhos, com qual metodologia serão tratados e quais serão seus significados para a vida.
Em suma, entendo que a escola é a responsável pelo processo de escolarização formal dos alunos e sabe quais objetivos precisa atingir. Sabe também que os profissionais envolvidos precisam dar conta desse processo, mas necessitam contar com o apoio integral da família, pois o tempo de convivência dos alunos com os pais e irmãos é muito maior do que com professores e colegas de classe. Assim, a interferência da família é importante na hora e medida certas e nesse ponto um bom diálogo com professores e orientadores, durante as reuniões de pais, poderá ser muito útil e esclarecedor.

2.2O estabelecimento de parcerias entre família e escola por um objetivo comum: a aprendizagem escolar

Os professores são sujeitos fundamentais no processo ensino aprendizagem e, portanto, das ações escolares que incluem aquelas relativas ao relacionamento escola família. Numa visão construtivista, o aluno tem a sua relação com o objeto mediada pelo professor e com ele mantém vínculos positivos, que impulsionam a aprendizagem, ou negativos, que proporcionam um afastamento da situação de aprendizagem. Envolver a família na educação escolar dos filhos pode significar, para os educadores, que eles tenham que conhecer melhor os pais dos alunos e realizar um trabalho conjunto com eles para criar, entre outras fatores, uma atmosfera que fortaleça o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças.
Porém, mesmo garantindo se a especificidade dos papéis da escola e do governo na educação das crianças e o respeito ao conhecimento especializado que detêm os professores para desenvolverem o seu trabalho, o estreitamento das relações entre escola e família pode ajudar os professores a exercerem a sua profissão com mais competência.
Com essa aproximação os educadores podem passar a ter maiores informações a respeito de quem são os seus alunos, suas famílias, sua cultura, sua vida cotidiana, o que, em última instância, favorece a organização do trabalho a ser desenvolvido em benefício dos alunos e da comunidade.
E, por parte dos pais, relações mais estreitas com a escola podem ajudá los a compreender melhor o trabalho por ela realizado e a se envolverem, na medida de suas possibilidades, no processo educacional dos filhos, trabalhando de forma consoante com as necessidades educativas da vida e da participação no mundo atual.
Inclusive, quando inquiridos se procuram estabelecer relações de parceria com as famílias de seus alunos, quase a totalidade dos professores entrevistados disse buscar a participação dos familiares de seus alunos na escola através de reuniões, confraternizações e conversas informais, procurando também visitar os educandos na casa destes.
Outros educadores, entretanto, disseram não se esmerar na realização de nenhuma dessas atividades, o que leva a questionar a falta de motivação e interesse desses profissionais o que, a meu ver, se deve ao fato de alguns educadores sentirem a presença da família como uma ameaça a sua profissionalidade, sentindo-se destituídos de sua competência e de seu papel de ensinar.
Ainda quanto a este sentido, crianças que colaboraram com a entrevista alegaram perceber um bom nível de amizade envolvendo alunos e professores, sendo que algumas atividades sugeridas para aumentar ainda mais este entrelaçamento vem a ser a realização de festinhas, jogos, gincanas, reuniões e outros encontros semelhantes. Este ponto de vista confirma outra posição defendida por 100% dos alunos questionados: todos eles disseram preferir a escola como uma entidade aberta, permitindo a presença de pais e outros elementos da sociedade em seu meio.
E, de fato, quando escola e família têm uma linguagem comum e posicionamentos adotados colaborativamente no trato de aspectos da educação das crianças e da sua escolarização, é possível que os educandos consigam ter uma aprendizagem mais significativa, um percurso acadêmico mais tranqüilo e um desenvolvimento intelectual e emocional mais harmonioso, o que não pode ser desprezado. Assim, percebi que a influência da família deve ser bem recebida pela escola, sem preconceitos, orientando suas falhas e aplaudindo seus acertos.
Além disso, é recomendável que a família que possui condições sociais e econômicas deve procurar conhecer da melhor forma possível a escola que vai escolher para os seus filhos, procurando uma coerência entre suas expectativas e o que o espaço educacional realmente tem a oferecer. Quanto a este ponto, segundo Winnicott (1982, p. 217), é importante que os pais reflitam sobre certos aspectos que podem vir a favorecer a aprendizagem escolar de suas crianças:
a) Mostra se recomendável inteirar se previamente das metodologias aplicadas pela nova escola. Se estas exigirem a intensiva participação dos pais em atividades tais como trabalhos de casa, pesquisas, reuniões, festinhas no colégio, etc, e os familiares não puderem cumprir com essas solicitações por trabalharem fora ou outro motivo qualquer, a criança poderá não compreender a situação devidamente e sentir se desprezada. Por meio de minhas práticas constatei que as crianças cobravam dos pais esta participação, e sentem-se infelizes quando não são atendidas em seus interesses;
b) Também se mostra recomendável considerar o tamanho e a organização da escola em relação à personalidade do estudante. Há crianças que se intimidam em escolas muito grandes, com turmas imensas e salas de aula superlotadas. Estes alunos vão sentir se melhor em escolas pequenas, mais acolhedoras e, portanto, menos ameaçadoras. Por outro lado, há aqueles que gostam de grandes grupos, muito espaço e de atividades diversificadas, neste caso cabendo melhor os colégios de maior porte.
Vejo a importância de que os pais tenham consciência de seu papel na formação de seus filhos e clareza na maneira de conduzir os mesmos. É fundamental que a relação pais e filhos seja baseada no carinho, no diálogo e no amor, pois o relacionamento familiar implicará diretamente em sua vida futura, principalmente nos espaços educacionais. Sabe se que a escola vai melhor quando a família está presente: se os familiares se interessam por ela, a criança se comprometerá mais com os estudos.
Desta forma pais, educadores e toda sociedade precisam estar conscientes sobre a importância da união entre a família e a escola na formação das crianças. Ambas têm função de auxiliar o sujeito a ser autônomo, criativo, capaz de relacionar se bem com o outro e interagir significativamente na sociedade.
Desta forma, para que se efetive na prática o processo ensino-aprendizagem, é necessário partilhar responsabilidades com a presença ativa de todos os envolvidos, organizando e definindo objetivos e estratégias, bem como sanar conflitos e situações indesejáveis que não foram previstos no planejamento. Tecer essa dimensão significa transformar, revolucionar.
Por isso, é fundamental que as relações entre as pessoas sejam horizontais, contribuindo, dessa forma, no processo de intercâmbio de vivências, experiências e interações entre os sujeitos. Sabe-se que a escola não tem somente o papel de transmitir conhecimentos, mas, muito mais, o de repensar a sociedade na qual vivemos e que desejamos reconstruir.
Contudo, para que isso aconteça, o comprometimento de todos é indispensável: quando dizemos que a escola é um lugar onde os alunos possam descobrir e desenvolver seus talentos, estamos colocando à prova o nosso trabalho, visto ser nossa a tarefa de proporcionar espaços e possibilidades para o seu fecundo desenvolvimento.

O PAPEL DA FAMÍLIA E DA ESCOLA NA APRENDIZAGEM ESCOLAR 2/2

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3 – ESCOLA, PAIS E ALUNOS: SEU PAPEL NO PROCESSO ENSINO- APRENDIZAGEM

Compreendo que os espaços de ensino podem ser vistos como os responsáveis pela educação escolar: locais destinados ao trabalho pedagógico formal, ao entendimento de regras, à formação de valores, ao exercício da cidadania, à experimentação de sentimentos, etc. Por sua vez, vejo a família como a base da formação do indivíduo, o ambiente em que ocorrem os primeiros contatos e relacionamentos da criança, modelo, referencial e (não menos importante) responsável pela formação de valores, entre outros elementos.
Mas estes conceitos podem ser sobremodo ampliados. É também na escola que a criança começa a tomar um contato mais amplo com a coletividade, passa a enriquecer seu repertório de experiências e relacionamentos, assim como é preparada para a vida social. Desta forma, a educação da escola é aquela em que o aprendizado é sistematizado e formalizado, onde se busca uma transmissão ordenada e serial de informações e conhecimentos para que estes sejam reconstruídos pelo aluno.
A escola tanto pode reproduzir os padrões vigentes como também criar espaços para novas alternativas, favorecendo uma revisão da sociedade e do mundo. Percebo isso a partir da realidade que me cerca, onde temos a chance de criar uma nova sociedade, mais justa e digna, ou simplesmente dar prosseguimento à na qual vivemos.
Sendo assim, a escola se caracterizaria como um importante espaço educativo e socializador, complementando o trabalho desenvolvido pelas famílias. Da mesma forma, mais recentemente, tem se procurado atribuir às famílias a responsabilidade por igualmente complementar o trabalho realizado pela escola, o que inclui efetivo comprometimento com a aprendizagem.
Daí resulta que família e escola passam a ser vistas como espaços a fins e não como mundos diferentes, pois, apesar de distintas, buscam atingir objetivos complementares. Enquanto a escola se dedica em ensinar bem os conteúdos de áreas de saber considerados como fundamentais para a instrução das novas gerações, às famílias cabe dar acolhimento a seus filhos num ambiente estável, provedor e amoroso, influenciando lhes beneficamente na elaboração de seu conhecimento.
Porém, para que a escola possa contribuir em prol de uma formação abrangente da pessoa humana, que não privilegie somente habilidades lingüísticas, lógico matemáticas e tecnológicas, necessita colocar lado a lado, com a mesma ênfase, oportunidades de vivenciar valores da sensibilidade e da estética, bem como da ética, da compreensão e da espiritualidade, pois a pessoa humana ultrapassa seu enraizamento terreno e é capaz de criar um projeto utópico para a vida no planeta a partir de seus sonhos, desejos, fantasias e imaginações.
De acordo com Demo (2004, p. 31): Menos que dominar conteúdos, que envelhecem e desaparecem rapidamente, é importante que o professor consiga que o aluno saiba pensar, porque esta habilidade representa a aprendizagem que se confunde com a vida. Através desta reflexão é possível compreender que o conhecimento é provisório e torna se rapidamente obsoleto. Por isso, a escola e os professores estão desafiados a repensar seu currículo e sua prática pedagógica de forma mais heterogênea e fragmentada, capaz de colocar em evidência os problemas de respeito à diversidade cultural e tolerância às diferenças religiosas, políticas e ideológicas, entre outras, presentes na sociedade.
Além disso, incentivar práticas curriculares inovadoras que diferem das tradicionais ou tecnicistas, possibilita desencadear um processo de formação continuada durante o qual o professor vivencia um novo jeito de ensinar e aprender, revendo sua maneira de ser e fazer, uma vez que a inovação incide diretamente em sua pessoa e em sua atividade profissional.
Nesse processo o educador assume naturalmente a formação continuada, movido por uma necessidade interna, aprendendo a aprender e a transformar se. Aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser pilar do conhecimento que não pode ser considerado estanque e isolado um do outro, pois possuem pontos de interação e complementaridade, os que se expressam em elos entre os saberes da experiência, pedagógicos, específicos e também os da luta cotidiana em sala de aula.
Acredito que com esta mentalidade o professorado é capaz de efetivamente colaborar no surgimento de uma escola verdadeiramente comprometida com a formação de seus alunos.
E, quanto à família, esta vem a ser o lugar indispensável para a garantia da sobrevivência e da proteção integral dos filhos e demais membros. É a família que propicia o suporte afetivo e material necessários ao desenvolvimento e bem estar dos seus componentes. Ela desempenha um papel decisivo na educação formal e informal, é em seu espaço que são absorvidos os valores éticos e humanitários, e onde se aprofundam os laços de solidariedade.
É também em seu interior que se constroem as marcas entre as gerações e são observados valores culturais. Por exemplo, por ocasião da entrevista realizada com os professores, pude constatar que os mesmos reconhecem da forma clara que a família possui uma importância fundamental para o crescimento e a formação do caráter do ser humano, sendo os filhos reflexos de suas respectivas famílias.
E ainda mais: quanto à família de nossos alunos, é fácil perceber que ela já não é a mesma de tempos atrás. Neste início de milênio a sociedade brasileira passa por muitas e drásticas transformações, sendo que devido a elas o conceito de família não pode mais ser percebido como uniforme e estático.
Pude perceber isso em minhas práticas, onde convivi com crianças cujas famílias diferem em muito do modelo tradicional. Inclusive, em nosso país, por exemplo, além de passar a ser menos numerosa, a família nuclear, constituída de pai, mãe e filhos com uma base biológica comum, deixou de ser o modelo socialmente aceito como padrão, convivendo ao lado de configurações familiares cuja base é estritamente social ou econômica, em especial nas camadas mais desfavorecidas da população.
Entre os fatores que alteraram o cotidiano das famílias e influenciaram na sua organização e, conseqüentemente a visão que se tem dela, estão a presença da televisão, o acesso à escolaridade (especialmente no caso da mulher), o surgimento dos movimentos feministas, a mudança dos papéis sexuais, a modernização do discurso da Igreja Católica, a super valorização do consumo, a psicologização das relações familiares e, devido ao ingresso da mulher na força de trabalho e como provedora do lar, a substituição dos cuidados maternos com os filhos por instituições como creches e escolinhas, o que afeta diretamente a sua aprendizagem.
Porém, mesmo com todas estas significativas mudanças e mesmo reconhecendo que a família de hoje está mais desestruturada que a do passado, mostrando-se sob diferentes formas, os professores que prestaram os seus depoimentos continuam a crer que esta nova família pode ser tão acolhedora quanto à tradicional.
Desta forma, entendo que tanto a escola quanto a família passam por profundas transformações, onde nada mais é como era antes. Mas, ao contrário dessas mudanças distanciarem esses dois elementos, aproximam-nos ainda mais, fazendo com que de fato tornem-se mundos afins.

3.1 As diferentes visões entre pais e professores

Através das pesquisas bibliográficas realizadas pude perceber que a escola tem tido como função responsabilizar se pelo percurso escolar dos indivíduos, favorecendo a aprendizagem de conhecimentos sistematizados construídos pela humanidade e valorizados em um dado período histórico. A aprendizagem dos conteúdos escolares de diferentes naturezas deveria se concretizar durante a permanência dos alunos na escola, independente do contexto social e familiar ao qual pertençam.
Porém, radicalizando este aspecto, há famílias que exigem da escola a educação integral de seus filhos, omitindo se do processo ensino aprendizagem. Ao não realizarem as funções paternas e maternas que são de sua responsabilidade, esses pais favorecem o surgimento de muitos problemas psicológicos nas crianças, dentre os quais pode se citar casos agudos de introversão ou extroversão, agressividade, falta de preparo emocional, carência de atenção e de afeto, etc. Assim, entendo que há uma cobrança natural pela ajuda de seus pais em sua aprendizagem. Mais do que aceitar a influência paterna e materna, meninos e meninas reivindicam na.
A partir desta constatação considero que o fenômeno que se tem observado atualmente é, no mínimo, curioso. Por um lado à escola reclama da ausência da família no acompanhamento do desenvolvimento escolar da criança, da falta de pulso dos pais para dar limites aos filhos, da dificuldade que muitos deles encontram em transmitir valores éticos e morais importantíssimos para a convivência em sociedade. E, por outro lado, a família reclama da excessiva cobrança da escola para que os pais se responsabilizem mais pela aprendizagem da criança, da ausência de um currículo mais voltado para a transmissão de valores e da preparação do aluno para os desafios não-acadêmicos da sociedade e do mundo de trabalho.
Confusão de papéis? Falta de objetivos claros de ambas as partes? A definição da raiz do problema não é tão simples assim, e o fenômeno parece mais complexo do que se pode imaginar à primeira vista. O que percebo, porém, são as conseqüências dele. Nos conflitos de quem é responsável pelo que, nota-se crianças e adolescentes cada vez mais soltos, muitas vezes desmotivados com a escola, distantes de suas famílias e de seus professores, necessitando de uma atenção maior em relação aos seus conflitos e a sua formação como pessoas.
Um exemplo disso é o problema de disciplina. A escola reclama que os pais não conseguem dar uma educação que ensine às crianças e aos adolescentes o respeito pelas pessoas e pelas instituições. Já os pais alegam que é a escola que não é capaz de estabelecer os limites adequados para a convivência social. No meio desse jogo de empurra-empurra estão o aluno, personagem de importância indiscutível tanto para a família quanto para a escola, mas cujas necessidades continuam à espera de um olhar mais apurado tanto da parte de seus pais quanto das instituições de ensino.

4 – DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM E SEU DIAGNÓSTICO

As dificuldades de aprendizagem, segundo Rogers (1988), podem significar uma alteração no aprendizado específico da leitura e escrita, ou alterações genéricas do processo de aprendizagem, onde outros aspectos, além da leitura e escrita, podem estar comprometidos (orgânico, motor, intelectual, social e emocional).
Conforme consta em Polity (1998, p.73), o termo Dificuldade de Aprendizagem é definido pelo Instituto Nacional de Saúde Mental (EUA) da seguinte forma:
Dificuldade de Aprendizagem é uma desordem que afeta as habilidades pessoais do sujeito em interpretar o que é visto, ouvido ou relacionar essas informações vindas de diferentes partes do cérebro. Essas limitações podem aparecer de diferentes formas: dificuldades específicas no falar, no escrever, coordenação motora, autocontrole, ou atenção. Essas dificuldades abrangem os trabalhos escolares e podem impedir o aprendizado da leitura, da escrita ou da matemática. Essas manifestações podem ocorrer durante toda a vida do sujeito, afetando várias facetas: trabalhos escolares, rotina diária, vida familiar, amizades e diversões. Em algumas pessoas as manifestações dessas desordens são aparentes. Em outras, aparece apenas um aspecto isolado do problema, causando impacto em outras áreas da vida.
Segundo a autora, esse termo é definido de várias maneiras, por diferentes autores, diferindo-se quanto à origem: orgânica, intelectual/cognitiva e emocional (incluindo-se aí a familiar). O que se observa na maioria dos casos é um entrelaçamento desses aspectos.
Para a compreensão das possíveis alterações no processo de aprendizagem é necessário considerar-se tanto as condições internas do organismo (aspecto anátomo-funcional e cognitivo), quanto as condições externas (estímulos recebidos do meio-ambiente) ao indivíduo. Fatores como linguagem, inteligência, dinâmica familiar, afetividade, motivação e escolaridade, devem desenvolver-se de forma integrada para que o processo se efetive (ROGERS, 1988).
Este trabalho refere-se ao papel da família no desenvolvimento da aprendizagem da criança quanto ao aspecto psicológico, emocional, social e de estimulação dos aspectos cognitivos.
Sabe-se que as crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem, geralmente, possuem uma baixa auto-estima em função de seus fracassos e que esses sentimentos podem estar vinculados aos comportamentos de desinteresse por determinadas atividades, tempo de atenção diminuído, falta de concentração e outros.
A família, desconhecendo as necessidades da criança e a maneira apropriada de lidar com esses aspectos, muitas vezes, necessita de orientações que lhe dê suporte e lhe possibilite ajudar seu filho. Fatores como motivação, formas de comunicação, estresses existentes no lar, influenciam o desempenho da criança no processo de aprendizagem, e os psicopedagogos, muitas vezes, sentem-se limitados quanto às orientações a serem dadas pela falta de conhecimento aprofundado sobre os diversos aspectos familiares que podem contribuir para um resultado mais desejável.
Vários comportamentos manifestados pelas mães também levam a questionar a respeito da influência familiar sobre a aprendizagem. Segundo Marturano (1999), há mães que demonstram excessiva ansiedade quanto a superação da dificuldade da criança; outras que se mostram impacientes quanto ao desempenho insatisfatório que o filho apresenta; mães que atribuem todo o problema à criança e a caracterizam como “preguiçosa”, “lerda”, “distraída”; mães que negam a dificuldade que a criança demonstra; mães que não acompanham as atividades de seu filho e mães que punem a criança pela seu fracasso nas atividades escolares.
Isso acontece pelo fato de os pais desconhecerem como ocorre a aprendizagem e, portanto, necessitam de orientações específicas a esse respeito. Sabe-se, também, que, muitas vezes, os conflitos familiares estão associados a essas manifestações e que as relações familiares são relevantes no desenvolvimento da criança, havendo, portanto, a necessidade de maior compreensão desse processo, por parte dos profissionais, para que possam intervir de forma mais abrangente diante da problemática.
Em muitos casos, em um trabalho especializado com crianças apresentando dificuldade de aprendizagem, não é suficiente transmitir aos pais as atividades específicas a serem realizadas; outros aspectos ligados à família, à escola ou relacionados a dificuldades em outras áreas do desenvolvimento também estão presentes, e é necessário ouvir os pais, analisar a situação e buscar caminhos que facilitem o desenvolvimento global da criança.
Alguns pais confiam seus filhos com dificuldade de aprendizagem aos professores acreditando que o mau desempenho da criança seja proveniente apenas de si mesma, sem questionar sua possível participação nessas alterações.
A importância da participação da família no processo de aprendizagem é inegável e a necessidade de se esclarecer e instrumentalizar os pais quanto as suas possibilidades em ajudar seus filhos com dificuldades de aprendizagem é evidenciada ao manifestarem suas dúvidas, inseguranças e falta de conhecimento em como fazê-lo. Conforme Martins (2001, p.28), “essa problemática gera nos pais sentimentos de angústia e ansiedade por se sentirem impossibilitados de lidar de maneira acertada com a situação”.
Acredita-se que um programa de intervenção familiar seja de fundamental importância para o desenvolvimento e aprendizagem da criança. O relacionamento familiar, a disponibilidade e interesse dos pais na orientação educacional de seus filhos, são aspectos indispensáveis de ajuda à criança. Em um trabalho de orientação a pais, de acordo com Polity (1998), é possível despertar a sensibilidade dos mesmos para a importância destes aspectos, dando-lhes a oportunidade de falar sobre seus sentimentos, expectativas, e esclarecendo-lhes quanto às necessidades da criança e estratégias que facilitam o seu desenvolvimento.
Através das experiências e relações interpessoais, a família pode promover o desenvolvimento intelectual, emocional e social da criança. Ela pode criar situações no dia-a-dia que estimularão esses aspectos, desde que esteja desperta para isso. Além disso, a participação da criança nas atividades rotineiras do lar e a formação de hábitos também são importantes na aquisição dos requisitos básicos para a aprendizagem, pois estimulam a organização interna e a habilidade para o fazer, de maneira geral (MARTURANO, 1998).
A família tem um papel central no desenvolvimento da criança, pois é dentro dela que se realizam as aprendizagens básicas necessárias para o desenvolvimento na sociedade, como a linguagem, sistema de valores, controle da impulsividade. As características da criança também são determinadas pelos grupos sociais que freqüenta e pelas características próprias, como temperamento.
As crianças possuem uma tendência natural, instintiva que as direciona ao desenvolvimento de suas potencialidades. Os pais devem ter conhecimento desse processo para que não dificultem ou impeçam o crescimento espontâneo da criança. Pela falta de compreensão da natureza e necessidades básicas do ser humano, os pais, muitas vezes, prejudicam a busca do próprio desenvolvimento, pela criança. O modo como os pais lidam com seus filhos pode ajudá-los no desenvolvimento das suas potencialidades e no relacionamento com o mundo, possibilitando-lhes o enriquecimento pessoal através das experiências que o meio lhes proporciona.
O processo educativo (desenvolvimento gradativo da capacidade física, intelectual e moral do ser humano) familiar deve ser adequado para possibilitar à criança o sucesso na aprendizagem, proporcionando-lhe a motivação, o interesse e a concentração necessária para a apreensão do conhecimento.
A adequação desse processo compreende o atendimento às necessidades da criança quanto à presença dos pais compartilhando suas experiências e sentimentos, orientação firme quanto aos comportamentos adequados, possibilidade de escolhas, certa autonomia nas suas ações, organização da sua rotina, oportunidade constante de aprendizagem e respeito e valorização como pessoa.
A criança necessita de equilíbrio entre condutas disciplinares e diálogo, compreensão e carinho. Num processo educativo os pais experienciam a necessidade de um trabalho de auto-análise, de reestruturação de seus comportamentos, crenças, sentimentos e desejos. Os pais precisam conquistar, em relação a si mesmos, primeiramente, o que querem que os filhos sejam: justos, disciplinados, honestos, responsáveis (GRUNSPUN, 1985). Esse processo ocorre nas vivências do dia-a-dia, na medida em que pais e filhos comunicam-se de maneira transparente e sincera, falando de suas percepções, suas dúvidas, objetivos, emoções, aprendendo uns com os outros.
Criar filhos não significa torná-los perfeitos, pois os pais têm muitas dúvidas e estão sujeitos a muitas falhas; mas o que é necessário é tentar identificar os conflitos e desfazê-los, aprendendo a conviver com essas situações. Através dos conflitos os pais desenvolvem a percepção de si mesmos e de seus filhos. Essas situações estimulam pais e filhos a instalar um diálogo verdadeiro, expondo o entendimento e sentimento em relação às experiências cotidianas. Por outro lado, aspectos fundamentais do processo educativo revelam que os pais devem ter respeito sobre o que o filho sente, mas cabe a eles negar com firmeza e determinação as atitudes que possam contrariar o que desejam para a educação de seus filhos (TIBA, 1999).
Dificuldades escolares apresentadas pelas crianças, relacionadas à falta de concentração e indisciplina ocorrem e podem ser causadas pela ausência de limites. A primeira geração educou os filhos de maneira patriarcal, isto é, os filhos eram obrigados a cumprir as determinações que lhes eram impostas pelo pai. A geração seguinte contestou esse sistema educacional e agiu de maneira oposta, através da permissividade. Os jovens ficaram sem padrões de comportamentos e limites, formando uma geração com mais liberdade do que responsabilidade.
Tanto na família quanto na escola, segundo Tiba (1999, p.45), há “a necessidade de orientação às crianças quanto às regras disciplinares, para que elas possam desenvolver a capacidade de concentração e de apreensão dos conceitos”. A aprendizagem se dá de maneira gradativa e não será possível sem a participação ativa do aluno, de maneira disciplinada, orientada.
Os pais devem preparar os filhos para arcarem com suas responsabilidades. Na medida em que a criança vai aprendendo a cuidar de si mesma, vai experimentando a sensação gratificante da capacidade de enfrentar desafios. E cada realização é um aprendizado que servirá de base para um novo aprendizado. Assim, realizando suas vontades e necessidades, a criança vai gostando de si mesma, desenvolvendo a auto-estima.
O relacionamento familiar também é fundamental no processo educativo. A criança estará muito mais receptiva às instruções dos pais, se os membros da família se respeitarem entre si, procurando conversar e colaborar um com o outro. É importante a participação dos pais na vida dos filhos, numa convivência como companheiros, compartilhando emoções, o que contribui muito para a disciplina.
Todos esses aspectos citados e muitos outros, são fundamentais para que o desenvolvimento da criança se efetive. Portanto, a família necessita da ajuda dos profissionais na aquisição desses conhecimentos básicos e essenciais para que possa cumprir seu papel de facilitadora do processo de aprendizagem de seus filhos, através de comportamentos mais adaptativos.

5 – A INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA NESTE CONTEXTO

A intervenção psicopedagógica veio introduzir uma contribuição mais rica no enfoque pedagógico. O processo de aprendizagem da criança é compreendido como um processo abrangente, implicando componentes de vários eixos de estruturação: afetivos, cognitivos, motores, sociais, políticos, etc. A causa do sucesso de aprendizagem, bem como de suas dificuldades, deixa de ser localizada somente no aluno e no professor e passa a ser vista como um processo maior com inúmeras variáveis que precisam ser apreendidas com bastante cuidado pelo professor e psicopedagogo.
Um outro problema grave a ser ressaltado é uma concepção redutora do modelo piagetiano que tem sido adotada em boa parte dos cursos de Pedagogia, no qual são privilegiadas apenas as colocações iniciais da sua obra. Ela tem direcionado os professores a conceberem o processo de ensino-aprendizagem de uma maneira estática, universalista e atemporal. Com isto ficam de fora as contribuições mais importantes de Piaget em relação aos processos de equilibração e reequilibração das estruturas cognitivas (MARCELINO, 1998).
O educador já não se defronta com um processo linear de crescimento e desenvolvimento, tanto no desenvolvimento intrínseco como na expressão, mas com um realizar-se descontínuo no qual fases e períodos se entrecruzam, se opõem dialeticamente, oposições de que resulta uma nova estruturação. Paragens, acelerações, saltos bruscos são a expressão formal. Isto altera completamente o panorama da pedagogia graduada: se o desenvolvimento não é contínuo e ininterruptamente acelerado e progressivo, como se lhe adequará uma educação regulada por grandes períodos de desenvolvimento? Como pretender apreender a instabilidade do desenvolvimento pela instabilidade de um processo educativo que se mede por anos? Os fins da pedagogia não deveriam apontar para o homem futuro, o que realmente será permanente e atuante, e não para as etapas da idade evolutiva? (MARCELINO, 1998).
Esta visão aponta um deslocamento de uma vertente universalista atemporal para uma vertente particularista temporal.
Oliveira (1995) revela alguns dos aspectos fundamentais deste processo. Segundo a autora, o fundamental “é perceber o aluno em toda a sua singularidade, captá-lo em toda a sua especificidade em um programa direcionado a atender as suas necessidades especiais”.
É a percepção desta singularidade que vai comandar o processo e não um modelo universal de desenvolvimento. Isto porque o uso do modelo universalista camufla normalmente uma concepção preestabelecida do processo de desenvolvimento do sujeito. Na intervenção psicopedagógica deve-se evitar as chamadas “profecias auto-realizadoras”, isto é, prognósticos que o professor lança a respeito do processo de desenvolvimento de seu aluno sem levar em consideração o seu desempenho.
É preciso que o psicopedagogo também altere a sua forma de conceber o processo de ensino-aprendizagem. Ele não é um processo linear e contínuo que se encaminha numa única direção, mas, sim, multifacetado, apresentando paradas, saltos, transformações bruscas, etc.
O processo de ensino-aprendizagem inclui também a não-aprendizagem, ou seja, a não-aprendizagem não é uma exceção dentro do processo de ensino-aprendizagem, mas se encontra estreitamente vinculada a ele. O aluno pode se recusar a aprender em um determinado momento. O chamado fracasso escolar não é um processo excepcional que ocorre no sentido contrário ao processo de ensino-aprendizagem. Constitui, sim, exatamente a outra face da mesma moeda, o seu lado inverso.
O saber e o não-saber estão estreitamente vinculados. O não-saber se tece continuamente com o saber. Com isto, pretende-se dizer que o processo de ensino-aprendizagem, do ponto de vista psicopedagógico, apresenta sempre uma face dupla: de um lado, a aprendizagem, e do outro, a não-aprendizagem.
O desejo de saber faz um par dialético com o desejo de não-saber. Segundo Fernández (1991, p.87):
O jogo do saber-não-saber, conhecer-desconhecer e suas diferentes articulações, circulações e mobilidades, próprias de todo ser humano ou seus particulares nós e travas presentes no sintoma, é o que nós tratamos de decifrar no diagnóstico.
Neste contexto, a aprendizagem coloca em foco as diferentes dimensões do aprendiz sob a ótica integradora dos aspectos cognitivo, afetivo, orgânico e social. O “olhar” sobre estes aspectos, ao mesmo tempo que relativiza a importância da escola na aprendizagem, coloca em foco a importância de toda a reunião de fatores extra-classe que interferem no processo de construção do conhecimento e do papel de aprendiz.
Ao considerar a aprendizagem como um processo articulado ao momento do aprendiz, a sua história e as suas possibilidades sob o aspecto cognitivo, afetivo e social, a Psicopedagogia, segundo Silva (1998, p.59):
Rompe a ligação ensino-aprendizagem, porque, tanto o aprender como processo quanto o processo de construção do conhecimento não têm relação necessária com o ensinar e, finalmente, porque ambos os processos antecedem e ultrapassam o ensinar.
Sob este ponto de vista passa a existir a necessidade de o psicopedagogo investigar com profundidade os contextos do aprendiz e tentar reuni-los em uma síntese que retrate o momento desse aprendiz, ao mesmo tempo que viabiliza a aprendizagem.
Para aprender, o aluno precisa estar apto a fazer um investimento pessoal no sentido de renovar-se com o conhecimento. Implica um movimento que envolve, tanto a utilização dos recursos cognitivos mesclados com os processos internos, quanto com suas possibilidades sócio-afetivas. Vale dizer que a aprendizagem vai acontecendo à medida que o educando vai construindo uma série de significados que são resultados das interações que ele fez e continua fazendo em seu contexto social.
Popularizou-se a visão de que não basta e nem é garantia de sucesso escolar um ambiente doméstico favorável materialmente aos estudos, e uma professora interessada e competente para que a aprendizagem aconteça com sucesso. Desta forma, trabalha-se com a possibilidade do modelo de aprendizagem não se caracterizar como algo de cunho somente individual, mas também como um modelo desenvolvido em uma rede de vínculos que se estabeleceu em família.
É a família que dará noções de poder, autoridade, hierarquia, funções que têm diferentes níveis de poder e onde aprendem habilidades diversas. Aprendem ainda a adaptar-se às diferentes circunstâncias, a flexibilizar, a negociar. Enfim, desenvolverá o pertencimento da criança ao seu núcleo familiar. À medida que a criança vive em família e se submete aos seus rituais, processo e desenvolvimento, ela vai se individualizando, diferenciando-se em seu sistema familiar. Quanto mais as fronteiras entre os membros da família estiverem nítidas, mais possibilidade de individualizar-se a criança terá. Se tiver irmãos, é a oportunidade de experimentar relações com iguais.
É neste cenário que a criança constrói o seu modelo de aprendiz e a forma como ela se relaciona com o conhecimento. Para a família do aluno, a escola tem uma simbologia e um significado que estará presente na forma de “ser aluno” e na sua forma de participação nas atividades escolares. A maneira pela qual a criança se integra e se entrega ao seu processo de aprender está diretamente relacionado à capacidade desenvolvida em família de viver o coletivo compactuado.
Para a escola do aprendiz, a família é a matriz indispensável para que o trabalho de construção do cidadão aconteça. Toda a riqueza do desenvolvimento da criança se inicia na família e vai se fortificando à medida em que esta vai estabelecendo sua rede relacional que, na seqüência, acontece na escola e se expande para além dela. É em relação com seus pares e em um contexto democrático que a criança consolida o seu papel social de cidadã. Porém, de uma forma geral, a escola não vê com bons olhos interferências pedagógicas suscitadas pela família que, por sua vez, nem sempre aceita orientações psicopedagógicas de caráter formativo da escola.
Nesse jogo de forças quem perde são os alunos e, conseqüentemente, todos os envolvidos. O sucesso está na unidade e na coerência de atitudes. Eis um desafio constante que, sem dúvida, merece ser perseguido.

5.1 Dificuldades para a Psicopedagogia

O trabalho psicopedagógico, mesmo no atendimento individual, encontra dificuldades localizadas no desconhecimento do processo de aprendizagem e na própria relação com o aprendiz.
Num trabalho na instituição escolar, o psicopedagogo, além dessas dificuldades, encontra outros tipos de resistência, pois essa ação exige mudanças no sentido de avaliar as propostas de ensino, a partir do acompanhamento do processo de aprendizagem do aluno.
À tradicional aceitação do rendimento do estudante, sem análise do seu processo de elaboração e das condições para sua aprendizagem, cria um falso quadro sobre a situação de escolarização (MASINI, 1994).
Nesse enfoque, os maus resultados são vistos, quase exclusivamente, como de responsabilidade do aprendiz. Apontá-lo como lento, problemático, ou sem pré-requisitos é um procedimento comum por parte das equipes educacionais, nas suas várias instâncias.
Analisar o processo do aluno em situação de sala de aula, na relação com o professor e os colegas ante as condições de ensino que lhe são oferecidas, constitui uma drástica mudança no quadro da escolarização, exigindo dos educadores constante reflexão sobre sua ação. Isto não é fácil, pois envolve transformações de atitudes e do pensar dos educadores.
É preciso repensar o ato de aprender na instituição escolar utilizando uma proposta viável em busca de uma aprendizagem significativa por parte do sujeito.

CONCLUSÃO

A família é indispensável para a garantia da sobrevivência e da proteção integral dos filhos e demais membros, independentemente do seu arranjo ou da forma como vêm se estruturando. É ela que propicia o suporte afetivo e sobretudo materiais necessários ao desenvolvimento e bem estar dos seus componentes.
Ela desempenha um papel decisivo na educação formal e informal, é em seu espaço que são absorvidos os valores éticos e humanitários, e onde se aprofundam os laços de solidariedade. É também em seu interior que se constroem as marcas entre as gerações e são observados valores culturais.
Desta forma, a família não é somente o berço da cultura e a base da sociedade, mas é também o centro da vida social. A educação bem sucedida da criança na família é que vai servir de apoio à sua criatividade e ao seu comportamento produtivo quando for adulto. A família tem sido, é e será sempre a influência mais poderosa na aprendizagem das crianças e, conseqüentemente, no desenvolvimento da sua personalidade e caráter.
Assim, a base de toda a aprendizagem escolar encontra-se na família. E é justamente neste ponto que reside à importância das escolas estabelecerem um trabalho sintonizado com os pais de seus alunos, compartilhando dúvidas, anseios e também buscando soluções conjuntas para os problemas que se apresentarem. Além disso, esta parceria entre escola e família é extremamente benéfica para as crianças, que passam a desenvolver sentimentos positivos, sentindo-se seguras e amparadas durante todo o desenrolar de sua aprendizagem.
Entendo que é no vínculo afetivo entre professores, pais e alunos, no seu interagir, que ocorrerão as situações de aprendizagem, pois assim é formado um conjunto harmonioso capaz de proporcionar o desenvolvimento físico, afetivo, social e intelectual que se enraízam e se completam, tendo em vista que o aprendizado não pode ocorrer de forma isolada dos sentimentos. Para aprender, é necessário antes de tudo estar disposto a desenvolver-se integralmente.
E ainda, é importante que os educadores percebam que cada criança traz de casa para a escola uma bagagem cultural muito grande, repleta de referências afetivas, as quais refletem diretamente no seu desempenho em sala de aula. Desta maneira, a escola somente vem a reforçar e a sedimentar o que a criança carrega em seu bojo, sendo uma continuadora das primeiras lições aprendidas em casa.
E são essas mesmas lições as grandes responsáveis pela capacidade das crianças conviverem harmoniosamente com seus colegas na escola, compreendendo as regras comuns a todos e reconhecendo direitos e deveres. Também a construção do conhecimento se dá de acordo com o que já se sabe, uma vez que todo novo conhecimento precisa associar-se a outro já aprendido para a partir de então modificá-lo e a aumentá-lo.
As famílias também podem colaborar em relação às dificuldades de aprendizagem apresentadas por seus filhos. Essas dificuldades no aprender, que levam a um retardo escolar, podem ter causas e conseqüências múltiplas, o que exige uma análise detalhada de cada caso para então se buscarem as devidas soluções. Na maioria das vezes, os familiares podem contribuir decisivamente para a superação desses entraves, desde que sejam devidamente orientados para isso.
Desta forma, não basta que os professores apenas comuniquem aos pais que uma criança não consegue aprender ou que não demonstra muita vontade em envolver-se nas atividades propostas, mas deve dialogar com esses familiares, orientando-os e estabelecendo uma parceria com eles. Esse entrosamento entre família e escola traz apoio às crianças, além de estímulo e sensação de bem-estar, o que se revela extremamente útil na superação dos problemas de aprendizagem eventualmente surgidos. Além disso, os pais, uma vez incluídos no processo ensino-aprendizagem, abandonam a posição de simples espectadores e passam a ser protagonistas em busca de soluções.
Da mesma forma, percebo que é necessário que se crie vínculos entre educação e humanização. Os pais precisam posicionar-se ao alcance de seus filhos, revelando com sinceridade que também tiveram dificuldades no aprendizado de certas matérias, e que dúvidas e inseguranças são comuns na vida de qualquer estudante. Pondo-se em um mesmo patamar, os genitores estarão mais aptos a incentivarem seus filhos a vencer suas adversidades, e estes estarão mais predispostos a acolherem dicas, sugestões e conselhos, pois quem lhes fala é um ser igual a eles e não um intelectual onisciente, detentor das notas máximas no colégio em que estudou.
E, para que se efetive na prática esse processo de participação e aprendizado, é necessário partilhar responsabilidades nas fases de elaboração, execução e avaliação, com a presença ativa de todos os envolvidos, organizando e definindo objetivos e estratégias, bem como sanar os conflitos e situações indesejáveis que não foram previstos no planejamento.
Tecer essa dimensão significa transformar, revolucionar. Por isso, é fundamental que as relações entre as pessoas sejam horizontais, contribuindo, dessa forma, no processo de intercâmbio de vivências, experiências e interações entre os sujeitos. Sabemos que a escola não tem somente o papel de transmitir conhecimentos, mas, muito mais, o de repensar a sociedade na qual vivemos e que desejamos reconstruir. Contudo, para que isso aconteça, o comprometimento de todos é indispensável: quando dizemos que a escola é um lugar onde os alunos possam descobrir e desenvolver seus talentos, estamos colocando à prova o nosso trabalho, visto ser nossa a tarefa de proporcionar espaços e possibilidades para o seu fecundo desenvolvimento.
Entendo que nós, educadores, precisamos parar momentaneamente nossas atividades e refletir sobre as nossas práticas, pois a construção do conhecimento se dá pela reflexão. A escola não pode ser um lugar onde o erro não seja permitido e onde só é valorizado o aluno que consegue tirar boas notas. Sabemos que se trata de um processo delicado e que exige muitos cuidados, mas precisamos rever o que aprendemos em nossa formação, pois o mundo mudou e ainda vai continuar mudando. Portanto, também precisamos mudar, nos contextualizando com essas transformações diárias. Tanto o professor como o supervisor e o orientador devem estar em um constante fazer e refazer, propondo, questionando, avaliando, inovando… Porém, sua ação não pode dar-se a esmo, necessita ser planejada e refletida com esmero.
Assim, também é imperioso o educador buscar sua própria formação continuada, esforçando-se em ser um exemplo a ser seguido, demonstrando que numa escola de gestão democrática não há espaço para imposições descabidas e cobranças de atitudes unilaterais. Dentro de um ambiente de trabalho proposto desta forma, todos, qualquer que seja o cargo ou posição dentro da instituição, caminham juntos, buscando o aprimoramento e a melhoria da instituição escolar em nosso País.
Não há como fugir da realidade que nos cerca: vive-se num mundo com tantos desafios e desmandos, desigualdades, crises e injustiças que muitas vezes nos sentimos inseguros e impotentes. São em momentos assim que se percebe que o conhecimento adquirido já não supre as necessidades do nosso dia-a-dia. Isso é algo ao mesmo tempo assustador e fabuloso: ensinamos a nossos alunos e também precisamos aprender como alunos, conscientizando-nos de que somos eternos aprendizes. Assim, o educador tem o compromisso de ampliar o seu olhar, pois será ele o elemento que, ao lado de alunos e pais, poderá dar um novo rosto para a educação e, conseqüentemente, para a sociedade em que vivemos.
De acordo com a literatura pesquisada, constatou-se também os efeitos da rotulação e dos problemas de aprendizagem na escola, necessitando, ainda mais a atuação do psicopedagogo dentro das instituições escolares, trabalhando com diagnósticos, auxiliando os professores na sala de aula e, principalmente, na prevenção dos casos de alunos com problemas de aprendizagem, evitando mais um fracasso escolar.
Em síntese, uma escola é funcional quando conta com forte aliança entre a comunidade, o corpo docente e o administrativo, os quais trabalham os seus conflitos através da colaboração e diálogo. Esses elementos são flexíveis em sua maneira de lidar com os conflitos, utilizando-se do conhecimento de várias técnicas e métodos adequados. As decisões são tomadas em conjunto e a participação dos alunos é solicitada, mas sem ser igualitária. Cada membro do sistema escolar tem seu papel determinado. O psicopedagogo observa e diagnostica o sistema escolar e, então, cria condições favoráveis para a resolução dos problemas que surgem, fazendo com que o ensinar e o aprender se tornem comprometidos. Sendo assim, a atuação do psicopedagogo dentro da escola exige algumas características básicas.

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A RELAÇÃO HOMEM, NATUREZA E ESPAÇO NA SOCIEDADE

1. INTRODUÇÃO

Ao longo da história, o homem sempre produziu ferramentas para facilitar seu trabalho ou para ajudá-lo a superar suas limitações físicas.
Assim o homem, um ser que facilmente seria vencido pelos elementos da natureza, produziu um enorme número de artefatos que lhe possibilitaram dominar e transformar o meio natural. Essa atitude de criar instrumentos e aperfeiçoá-los constantemente torna possível a compreensão de processo civilizatório pelo qual vem passando desde que surgiu na Terra.
O ensino de Arte em Educação, Educação e Meio Ambiente, e Geografia, nas primeiras séries do ensino fundamental, não é tarefa muito fácil e não tem sido muito comum acontecer quando se trata de ensino e aprendizagem relacionados a essas séries.
Partindo dessa realidade compreendeu-se a necessidade da prática de ensino dessas disciplinas. Realizando esse trabalho, pretende-se demonstrar a forma como a criança vai aprendendo apreciar a arte, dar a devida importância ao meio ambiente, adquirindo noções de espaços decorrente das experiências vivenciadas a partir de objetos, ações e representações.
Os antropólogos culturais sabem muito bem disso e são capazes de reconstituir a organização de um grupo humano a partir dos objetos que se preservaram. (PASSINI, Elza Y., 2002)
No ambiente urbano das médias e grandes cidades a população está cada vez mais envolvida com as novas tecnologias e com cenários urbanos, perdendo de certa forma a relação natural que tinham com a terra e suas culturas, sendo que os valores relacionados com a natureza não têm mais ponto de referência na sociedade moderna.
O relacionamento da humanidade com a natureza, tem hoje culminado numa forte pressão exercida sobre os recursos naturais. E atualmente é comum a contaminação dos cursos de água, a poluição atmosférica, as devastações das florestas, a caça indiscriminada, alarem de muitas outras formas de agressão ao meio ambiente.
Dentro deste contexto, é clara a necessidade de mudar o comportamento do homem em relação à natureza. De certa forma, promover simultaneamente o desenvolvimento de atitudes e habilidades necessárias à preservação e melhoria da qualidade ambiental. (PASSINI, Elza Y., 2002)
Como ciência social a geografia tem como objeto de estudo a sociedade que, no entanto, é objetivada. O estudo da geografia abrange, hoje, grande complexidade de aspectos; o desenvolvimento dos meios de comunicação, o crescimento demográfico, descoberta de novos meios de explorar a superfície terrestre, a evolução da técnica em geral, e a entrada do capitalismo trará profundas transformações na geografia, no plano da realidade e no plano do saber. Começa a ser observada a partir do momento em que se necessita de orientação, com a ajuda da ciência e às expedições que abrirão as portas das civilizações, estudando a individualidade dos lugares, compreendendo o caráter singular de cada porção do planeta, podendo ter uma visão ecológica da diferenciação de áreas através da individualização e comparação, propondo uma perspectiva mais generalizada e explicativa, das relações entre o homem e a natureza. Estudo do espaço: que só seria aceito se fosse concebido como um ser específico do real, com características e com uma dinâmica própria somente depois de demonstrar a afirmação efetuada, visando uma maior compreensão e interpretação da realidade.
Os métodos de ensino do qual o professor pode fazer uso, variam desde uma aula em que a evolução dos acontecimentos represente uma progressão, seja a uma aula em que os desafios e enigmas geográficos capacitem o aluno a raciocinar e interpretá-los. Sendo assim, fazer com que diante do grande desafio que é o estudo da Geografia para muitas pessoas, torna-se dessa forma necessário o uso de métodos pedagógicos modernos que estimulem a criatividade e a capacidade dos alunos, e facilite de certa forma o conhecimento da Geografia principalmente no cotidiano, estimulando-os quanto à necessidade de repensar o passado da nossa disciplina que o mesmo possa aprender por compreensão.
[…] e o professor dotado de uma sensibilidade para tais mudanças, demonstre competência para geri-las e potencialize a compreensão dos alunos através dos meios mais modernos de educação que se tornam necessários. (CAVALCANTE, Lana de Sousa, 2002, p. 12)
Pois, se remontarmos aos primórdios da história, o homem primitivo ao registrar em seus desenhos os seus costumes, a sua gente, representou também a natureza e o trabalho. Tal fase da história do conhecimento geográfico, Sodré chamou de etapa preliminar da pré-história (SODRÉ, 1987, p.14). A segunda etapa da história proposta pelo mesmo autor corresponde ao período posterior ao registro escrito e nesta estaria à contribuição dos pensadores da Antiguidade, especialmente aqueles registrados nos périplos, desenvolvidos pelos navegadores, militares, comerciantes, matemáticos, etc.
Nesse conjunto de contribuições estaria à obra de Heródoto – mais conhecido como pai da História – que realizou ricas descrições do Egito, da Babilônia, do Nilo, do Saara, enfim, das regiões da África por onde viajou. Hipócrates, Erastóstenes, ou o próprio Aristóteles também deram importantes contribuições à formação do conhecimento geográfico. Nestas descrições e nestes estudos dos pensadores gregos, encontram-se registros sobre a terra, a cultura e os homens, portanto, da natureza, da sociedade e do trabalho. (CAVALCANTE, Lana de Sousa, 2002, p. 12)
Ainda na Antiguidade, merecem destaque Estrabão e Ptolomeu por terem sistematizado conhecimentos anteriormente produzidos. Segundo Blanco (1991), apesar da dificuldade em se unificar os diversos métodos de investigação dos relatos das viagens terrestres e marítimas realizadas na Antiguidade, pode-se afirmar que os seus propósitos eram a expansão política e o intercâmbio comercial, principalmente quando se tratava de terras estranhas. Ainda de acordo com o mesmo autor, após Eudox e Eratóstenes, somente Estrabão procurou unificar aqueles conhecimentos. Estrabão destaca-se dos outros pensadores pela grande contribuição dada à formação do conhecimento geográfico e mesmo da Geografia, especialmente a partir da sua obra Geografia.

2. EDUCAÇÃO E MEIO AMBIENTE

A educação ambiental vem sendo incorporada como uma prática inovadora em diferentes âmbitos. Neste sentido, destaca-se tanto sua internalização como objeto de política, de educação e de meio ambiente em âmbito nacional, quanto sua incorporação num âmbito mais capilarizado, como mediação educativa, por um amplo conjunto de práticas de desenvolvimento social. A observação destas práticas facilmente mostrará um universo extremamente heterogêneo onde, para além de um primeiro consenso em torno da valorização da natureza como um Bem, há uma grande variação das intencionalidades sócias educativas, metodologias pedagógicas e compreensões acerca do que seja a mudança ambiental desejada.
Trabalhos de campo, estudos do meio, temas geradores, aulas ao ar livre, não são atividades inéditas na educação. Estes recursos educativos, tomados cada um por si, não são estranhos às metodologias consagradas na educação como aquelas inspiradas em Paulo Freire e Piaget, entre outras.
[…] assim, qual seria o diferencial da educação ambiental? O que ela nos traz de novo que justifique identificá-la como uma nova prática educativa? (SILVA, José Afonso da, 1997)
De todo modo, a construção de um anexo entre educação e meio ambiente, capaz de gerar um campo conceitual teórico-metodológico que abrigue diferentes propostas de educação, só pode ser entendida à luz do contexto histórico que o torna possível.
Uma outra idéia bastante recorrente nesta perspectiva é a de que, embora todos os grupos sociais devam ser educados para a conservação ambiental, as crianças são uns grupos prioritários. As crianças representam aqui as gerações futuras em formação.
Considerando que as crianças estão em fase de desenvolvimento cognitivo, supõe-se que nelas a consciência ambiental pode ser internalizada e traduzida em comportamentos de forma mais bem sucedida do que nos adultos que, já formados, possuem um repertório de hábitos e comportamentos cristalizados e de difícil reorientação.
Desta forma, surge uma Educação, que vai tomar para si como meta principal o desafio das mudanças de comportamento em relação ao meio ambiente. Informada por uma matriz conceitual apoiada na psicopedagogia comportamental, desta Educação. (SILVA, José Afonso da, 1997, p. 10)

2.1. A RELAÇÃO HOMEM, NATUREZA E ESPAÇO NA SOCIEDADE TRABALHO

Desta forma, se normalmente são destacados neste período histórico os chamados avanços científicos, tais como as noções de latitude e longitude, informações sobre a superfície terrestre, fenômenos astronômicos e atmosféricos, é preciso lembrar, que, já naquelas contribuições, ou mesmo nesses registros geográficos, estava-se tratando da natureza, da sociedade e também do trabalho. Naquelas obras, vários são os registros das condições do escravismo, da necessidade da dominação, bem como as descrições das áreas a serem devassadas, trata-se de descrições físicas daquelas regiões, mas também dos costumes, da vida daqueles povos, e, portanto, da sociedade e do trabalho.
Na verdade, esse resgate dos primórdios do conhecimento geográfico foi estabelecido não para comprovar uma existência da Geografia desde a Antiguidade ou mesmo desde a Pré-História, mas sim para dizer que a tríade apresentada Homem, Espaço e Natureza dizem respeito à História da Humanidade, está presente desde a nossa origem e, portanto, está na base do conhecimento geográfico, pois nela, e não a partir dela, está o espaço geográfico.
A relação sociedade natureza é materializada pelo trabalho, como bem explicou Lucien Febvre (1949):
Estas marcas acabam por precisar, aos nossos olhos, o verdadeiro caráter da ação dos homens na superfície do Globo. Não se trata da ação de indivíduos isolados. Trata-se da ação de amplas coletividades extensas, e que se impõe a massas humanas consideráveis. Tão longe quanto nossas investigações permitem alcançar, leis, costumes, modos de agir que reagem poderosamente sobre a conduta dessas massas em face das forças e dos recursos da natureza (FEBVRE apud SODRÉ, 1987, p. 84).
Em outras palavras, o trabalho é a mediação da Natureza com a Sociedade e que por sua vez produz o espaço. A compartimentação Natureza, Sociedade, Trabalho faz-se necessária para o conhecimento. Salientamos que, a princípio, não estamos falando do trabalho alienado, mas do trabalho no seu sentido mais genérico, que corresponde à aplicação das forças e faculdades humanas para alcançar um determinado fim. Estas forças e faculdades humanas podem ser principalmente físicas e/ou intelectuais. De acordo com Albornoz (1992):
Trabalho é o esforço e também o seu resultado: a construção enquanto processo e ação, e o edifício pronto. (p. 12).
De acordo com a mesma autora, para muitos, o que distingue o trabalho humano do dos outros animais é que neste há consciência e intencionalidade, enquanto os animais trabalham por instinto, programados, sem consciência. (1992, p.12.). E complementa a autora:
Assim, se o conceito de trabalho acompanha um longo percurso histórico, é preciso notar que nesta trajetória há uma ruptura. Ruptura esta que se dá na História, mas que também constitui a separação homem natureza. Nas comunidades primitivas não havia esta distinção, aí o trabalho humano representa um prolongamento do trabalho da natureza: a caça e a coleta compõem as ações dos grupos humanos integrados às ações dos outros animais.
Homem é natureza e sente-se natureza.
Se o aprimoramento das técnicas agrícolas dá início à divisão do trabalho, com esta há a separação sociedade natureza que posteriormente se intensifica com o surgimento da propriedade privada e do trabalho industrial. Como bem explicou Engels (1961):
O trabalho é a primeira condição fundamental de toda vida humana, a tal ponto que, em certo sentido, deveríamos afirmar que o próprio homem foi criado por obra do trabalho (p. 143).
Neste momento, há a separação homem natureza, e nesta divisão há a ruptura homem trabalho. O trabalho então não mais corresponde ao prolongamento da ação da natureza, mas sim à actividad totalmente extraña a si misma, extraña al hombre y a la naturaleza y por ello totalmente extraña a la conciencia y a la manifestación vital. (MARX, 1984, p. 125). Estamos, pois, agora, nos remetendo a um outro momento histórico, pois estamos tratando do trabalho alienado.
Conseqüentemente, o homem também se exterioriza da natureza, muito embora continue sendo natureza. A natureza passa, portanto, a pertencer a um mundo exterior onde se concretiza o trabalho, em que este atua e com que e por meio do qual produz coisas. Desta forma, a natureza separada, também se torna coisa da Natureza, sociedade e trabalho: conceitos para um debate geográfico OKARA:
Geografia em debate, v.1, n.1, p. 33-42, 2007 qual o trabalhador depende, pois este não pode criar nada sem a natureza, sem o mundo exterior sensível (MARX, 1984, p. 105).
Precisamos, portanto, refletir melhor sobre a origem dessa separação, dessa ruptura, desse estranhamento. Ora, este processo não decorre unicamente do desenvolvimento das forças produtivas nem surgiu como um passe de mágica da instituição da propriedade privada. Na verdade, na origem desta separação, está a capacidade do distanciar-se, do desassociar-se, portanto, do olhar o outro.
Segundo Rilke (1965) foi preciso abandonar:
[…] o olho preconcebido do nativo, que relaciona tudo o que vê consigo mesmo e com suas necessidades. […]. Foi necessário então começar por afastar as coisas de si para tornar-se capaz, em seguida, de aproximar-se delas de modo mais imparcial e mais sereno, com menos familiaridade e com um recuo respeitador. Porque só quando se deixou de tocar a natureza começou-se a percebê-la; quando sentia-se que ela era o outro, o indiferente, que não tem sentidos para nos notar, só então saíamos dela, solitários, de um mundo solitário. (1965, p.3).
Portanto, essa capacidade de olhar o outro somente será possível com o surgimento do indivíduo e da individuação, ou seja, da capacidade de distinguir-se em relação a outros. Aristóteles pode ser considerado como o primeiro autor a pensar sobre esta questão e ele atribuía à matéria a constituição da individuação.
Na filosofia contemporânea, a individuação corresponde à uma construção mental à base dos dados dos sentidos, o individual está fundamentado em si mesmo e ainda a idéia de coisa como <> é determinada pela localização espacio-temporal (FERRATER MORA, 1982, p. 209). Apesar das diferentes reflexões, Leibiniz atribuiu à individuação o princípio das negações (apud FERRATER MORA, 1982). Veja-se que este princípio esclarece a origem dos outros, inclusive do que fundamentou a idéia de Aristóteles, pois, ao atribuir à matéria o princípio da individuação, estes seriam indivíduos a partir da sua constituição, em que a matéria de todos os corpos naturais é a terra, o fogo, a água e o ar; a dos corpos orgânicos, os tecidos; a dos seres humanos, os órgãos, e assim sucessivamente. Este princípio também toma por base a negação, isto é, ao reunirem-se os elementos de mesma matéria, separam-se os de matéria distinta, portanto, àquela que nega a outra. Neste princípio, portanto, encontra-se a origem da separação homemnatureza, na capacidade de individualizar-se, de distinguir-se dela, de negar-se a ela. Nega-se a ela, para poder, inclusive, reconhecer-se nela.
Neste sentido, Carlos Walter P. Gonçalves em seu livro Os (dez) caminhos do meio ambiente, ao pensar sobre a relação entre os homens e a natureza reflete sobre a construção do conceito de natureza, e diz: MAIA, D. S. OKARA: Geografia em debate, v.1, n.1, p. 33-42, 2007
Toda sociedade, toda cultura, cria, inventa, institui uma determinada idéia do que seja a natureza. Nesse sentido, o conceito de natureza não é natural, sendo na verdade criado e instituído pelos homens. Constitui um dos pilares através do quais os homens erguem as suas relações sociais, sua produção material e espiritual, enfim, a sua cultura (1989, p. 23).
Realmente, o conceito de natureza, assim como qualquer conceito, é uma elaboração, é um pensar, uma produção, portanto, um trabalho. Mas também se pensarmos nas idéias de Marx anteriormente apresentadas, na origem, este pensar é natureza, pois o homem e todas as suas funções natureza. Desta forma, poderíamos dizer que o conceito de natureza é, e não é natural.
Mas, poder-se-ia indagar: em que esta discussão interessa à Geografia?
Responderia: em tudo, pois iniciamos este artigo apresentando as bases preliminares do conhecimento geográfico. Lá estavam os fundamentos dos conhecimentos da natureza, antes mesmo do princípio da individuação, se é que podemos chamar ali de natureza. Contudo, na institucionalização do conhecimento geográfico, portanto, na origem da Geografia, o homem e a natureza são os seus conteúdos basilares, e a paisagem surge enquanto categoria geográfica que traduzirá a natureza. Fisionomia da vegetação, estudo da vegetação, noção de meio natural, conceito de região natural, são algumas noções trabalhadas pela Geografia para compreender a natureza. Evidentemente que estas noções compõem o que se denomina de Geografia Clássica ou Tradicional e que desde então muito já se repensou sobre as noções apontadas. (ALBORNOZ, Suzana, 1982, p. 11)
Todavia, elas ilustram muito bem como se dá a apreensão da natureza pela Geografia. Isto não acontece unicamente na Geografia, ela não será uma exceção, mas corresponde ao processo de constituição das ciências e da sua divisão: ciências da Natureza e ciências Humanas.
Em linhas gerais, as ciências da Natureza desenvolveram-se desde Aristóteles a partir do exercício da observação e da experimentação. No século XIX formula-se o princípio do Determinismo que se configura como uma doutrina sobre a Natureza: O determinismo universal é, assim, a afirmação do princípio da razão suficiente, ou da causalidade, e da idéia de previsibilidade absoluta dos fenômenos naturais (CHAUÍ, 1995, p. 264). Já o que se passou a denominar de ciências Humanas data do século XIX, quando o homem passa a ser objeto de algumas ciências. Isto não quer dizer que só então se começou a estudar o homem, mas antes, tudo que dizia respeito ao homem era tratado pela Filosofia.
Assim, segundo Chauí (1995, p. 271), as ciências Humanas surgem no período em que prevalecia à concepção empirista e determinista da ciência, e, por conseguinte, trataram de estudar o homem utilizando os mesmos métodos das ciências da Natureza, os métodos hipotético-indutivos e experimentais de estilo empirista, buscando leis causais necessárias e universais para os fenômenos humanos. (CHAUÍ, 1995, p. 271).
Ainda de acordo com a mesma autora, apesar Natureza, sociedade e trabalho: conceitos para um debate geográfico OKARA:
Geografia em debate, v.1, n.1, p. 33-42, 2007 das ciências humanas datarem do século XIX, a percepção de que os seres humanos são diferentes das coisas naturais é antiga (1995, p. 272).
Desta forma, está nas origens do conhecimento à apreensão do Homem e da Natureza como coisas distintas. O apreender ou o perceber a natureza como algo diferente permitiu o entendimento de diversos fenômenos e organismos.
Contudo, como bem escreveu Arlete Rodrigues (1994), os eventos da natureza vulcanismo, tectonismo, enchentes, inundações, incêndios em florestas provocados por tempestades – que interferiam na organização socio-espacial, mas que não dependiam diretamente da ação humana, eram tratados como catástrofe ou desastre. Complementa a autora:
[…] Cabia conhecer a natureza para dominá-la. Muito embora, esses desastres fossem mais problemáticos nas áreas ocupadas por grandes concentrações populacionais, a pesquisa e análise da natureza foi realizada, desde a antiguidade clássica, em todo o mundo habitado Arlete Rodrigues , 1994 p.37
E acrescenta:
[…] Embora o homem tenha instintos naturais e a própria vida seja natural, a natureza como um todo tem sido considerada exterior ao homem e à sociedade. A natureza é assim: mágica, recurso, tem leis próprias, deve ser dominada, deve servir ao homem, etc., e o homem, através da sua natureza social, se apropria da natureza para transformá-la em bens em mercadorias. Para isso precisa conhecer as leis da natureza. (p. 37-38).
Marx, em Os Manuscritos Econômicos Filosóficos escreve sobre esta fragmentação da ciência. Para ele, o homem é objeto imediato da Ciência natural, mas também a natureza é o objeto imediato da Ciência do homemo. (1984, p. 153).
Pois, ainda nas palavras do referido autor:
O primeiro objeto do homem o homem é natureza, sensibilidade, e as especiais forças essenciais sensíveis do ser humano só na ciência do mundo natural podem encontrar seu auto-conhecimento, do mesmo modo que só nos objetos naturais podem encontrar sua realização objetiva (Marx, 1984, p. 153).
E prossegue:
Algum dia a Ciência natural se incorpora à Ciência do homem do mesmo modo que a Ciência do homem se incorpora à Ciência natural, haverá uma só Ciência (1984, p. 153). MAIA, D. S. OKARA: Geografia em debate, v.1, n.1, p. 33-42, 2007
Se tomarmos como princípio geral a idéia descrita acima para pensarmos a Geografia, a velha dicotomia Geografia Física x Geografia Humana não teria sentido. Algumas categorias geográficas como espaço, lugar e paisagem não permitem a dualidade, a separação. Nelas estão encravadas as categorias expostas no título desta comunicação Natureza, Sociedade e Trabalho. A respeito da atribuição do que seria o conhecimento de uma e de outra parcela da Geografia, trazemos a contribuição dada por Dirce Suertegaray (2000) em texto publicado no livro Geografia e Educação: geração de ambiências. (RÊGO; SUERTEGARAY e HYDRICH, 2000). A autora, ao refletir sobre a questão o que ensinar em Geografia (Física), formulada por um acadêmico de Geografia, diz ter respondido aquela indagação, com as seguintes palavras: tudo o que for possível ensinar no contexto espaço-temporal da disciplina sob a nossa responsabilidade (2000, p. 98), e chama atenção para o fato de que:
O significativo nesta pergunta é mais do que o conteúdo em si, a questão metodológica, ou seja, como ensinar no contexto da Geografia os conteúdos referentes à compreensão da natureza, nesta ciência, reconhecidos como Geografia Física (2000, p. 98).
Neste mesmo texto, Suertegaray propõe alguns estudos que partam da concepção de lugar:
Como espaço próximo, espaço vivido e como espaço de expressão de relações horizontais (relações de comunidade com seu meio) e espaço de relações verticais (relações sociais mais amplas determinando em parte a especificidade dos lugares) (2000, p. 99).
Concordamos com a autora acima citada e acrescentamos que o problema da dualidade está no método e na episteme, portanto, na teoria do conhecimento e na metodologia. Desta forma, Natureza, Sociedade e Trabalho são inerentes à Geografia. Como bem explicou Milton Santos em A natureza do espaço: técnica e tempo razão e emoção:
É por demais sabido que a principal forma de relação entre o homem e a natureza, ou melhor, entre o homem e o meio, é dada pela técnica. As técnicas são um conjunto de meios instrumentais e sociais, com os quais o homem realiza sua vida, produz e, ao mesmo tempo, cria espaço (1996, p.25).
Se técnica é trabalho, como afirmamos no início desta exposição, a relação natureza sociedade trabalho produz o espaço. Por fim, utilizamo-nos das palavras do Milton Santos (1986) para expressar as últimas idéias e deixar a mensagem do autor:
Natureza, sociedade e trabalho: conceitos para um debate geográfico OKARA: Geografia em debate, v.1, n.1, p. 33-42, 2007 41.
Devemos nos preparar para estabelecer os alicerces de um espaço verdadeiramente humano, de um espaço que possa unir os homens para e por seu trabalho, mas não para em seguida dividi-los em classes, em exploradores e explorados, um espaço matéria-inerte que seja trabalhada pelo homem, mas não se volte contra ele; um espaço Natureza social aberta à contemplação direta dos seres humanos, e não um fetiche; um espaço instrumento de reprodução da vida, e não uma mercadoria trabalhada por outra mercadoria, o homem Fetichizado. (1986, p. 27).

2.2. ARTE EM EDUCAÇÃO

Criar imagens e pensar sobre as artes visuais, sobre uma imagem, o que ela mostra e como ela mostra, é ler, é atribuir-lhe um significado, é estabelecer uma relação de produção de sentido.
A arte é o fruto da sensibilidade e da criatividade do ser humano. Ela é algo que se materializa, ou seja, que passa a possuir um “corpo físico” para que possa ser vista por outras pessoas, podendo ser apreciada ou rejeitada.
Desde o inicio da historia, quando ainda não existia uma educação formal, sabemos do interesse do homem em pintar as paredes de suas cavernas. A função dessas pinturas na vida desses ancestrais é questionada ate hoje.
Muita gente acredita que a dança é uma das primeiras expressões artísticas do homem.
Provavelmente surgiu de forma espontânea para chamar a atenção dos deuses, em agradecimento pelas caçadas gloriosas para o sustento de seus clãs. De certa forma a arte é uma maneira original e bela do homem se fazer entender, conhecer, ou se manifestar frente ao mundo. Serve também para provocar respostas, ou simplesmente para não demonstrar nada disso e somente expressar uma emoção. (ARGAN, Giulio Carlo, 1992)
Assim, as idéias e os sentimentos que provocam ação, são os sentimentos da arte. A arte é, portanto, uma forma de se materializar sentimentos e provocar emoções.
Como seres humanos participam da renovação da vida, á medida que nos relacionamos com o mundo. Como educadores a nossa contribuição será a de melhorar a qualidade do trabalho escolar, através dos nossos saberes, valores e experiências próprias. Essa qualidade passa pela nossa formação, valorização profissional e condições de trabalho, sendo que nossa valorização envolve uma formação continuada.

2.3. GEOGRAFIA

Com as várias facetas da educação, tornou-se imprescindível o uso de instrumentos que se figurem num aprendizado mais significativo e direcionado para a realidade. Sendo assim, os desafios e a tecnologia vêm muitos a contribuir para este avanço no estudo geográfico, a Internet e outros processos, como desafios a evolução geográfica, podem se tornar excelentes meios pedagógicos para esse intuito. E os professores dotados desta visão pedagógica contribuirão para o avanço no seu crescimento profissional.
O atual paradigma educacional que se apresenta, figura uma tentativa de se repensar o aspecto essencialmente conteudístico da educação nacional. Uma forma elaborada de contextualização das disciplinas, visando uma maior compreensão e interpretação da realidade.
Conforme a tradição kantiana, a Geografia, por ser uma ciência sintética, descritiva, e que visa abranger uma visão de conjunto do planeta, tornou-se uma disciplina que poucos dominam, não por ser vista como a disciplina que estuda o espaço, mas por não se figurar em algo que se possa abstrair, seja por falta de capacidade da classe docente ou discente, na realidade. Diante disso, faz-se necessário encontrar meios para substituir de forma criativa e equilibrada a atual metodologia que vem sendo aplicada no ensino de Geografia. Muitos recursos estão sendo desenvolvidos, entre eles o uso de multimeios digitais que visam a capacitação científico-geografico para suprir deficiências na forma de quantificar e interpretar a realidade através dos mapas .
A Internet também é uma ferramenta poderosa no que diz respeito ao avanço no modelo escolar, pois encontramos uma enorme quantidade de informações úteis ao crescimento educacional do aluno. Trabalhando em forma de projetos buscamos um estudo detalhado e útil ao estudo geográfico. A mesma possui uma vasta quantidade de informações ampla e diversificada. A partir dessa constatação precisamos fazer uma triagem do que verdadeiramente é útil ao estudo geográfico, como exemplos têm a História da Geografia, os diversos aspéctos procedimentais com o que posteriormente será considerada Geografia. Nessa nova ordem, o papel do professor vem mudando, pois é praticamente um consenso entre eles que deva ser um articulador habilidoso.
Logicamente que o crescimento do professor no que diz respeito ao seu desenvolvimento educacional diante das novas tecnologias, se faz mais que necessário, pois o mesmo é o responsável direto para formular projetos e estratégias que impulsionem o aluno a ver a tecnologia, como uma ferramenta de uso comum para seu aprendizado.
Os métodos de ensino dos qual o professor podem fazer uso, variam desde uma aula em que a evolução dos acontecimentos represente uma progressão, seja a uma aula em que os desafios e enigmas geográficos capacitem o aluno a raciocinar e interpretá-los. Sendo assim, fazer com que o mesmo possa aprender por compreensão. Dessa forma, o resultado de um maior preparo do professor como agente identificador das minúcias e problemas do aluno, significa uma maior preocupação por parte dele em assimilar meios tecnológicos e criativos visando uma compreensão bem mais proveitosa no estudo da Geografia por parte dos alunos. (ARGAN, Giulio Carlo, 1992. p.21)

2.4. CARTOGRAFIA NA ESCOLA

Entre as linguagens gráficas encontram-se o desenho e o mapa. O primeiro consiste em uma das manifestações mais antigas da humanidade, presente na cultura de praticamente todos os povos. Aparece espontaneamente nas atividades das crianças, desde bem pequenas. O segundo resulta de séculos de acumulação de conhecimentos e do desenvolvimento de técnicas cartográficas, o que exige um longo aprendizado para que se possa ler e entender os mapas. No entanto, quando pensamos em ambos como linguagens podem estabelecer paralelo interessante entre eles, no ensino.
Há diversos estudos á respeito do desenho de crianças. Vamos nos ater, neste texto, a aspéctos relativos à representação do espaço no desenho infantil. É conveniente, antes, lembrar as fases do desenho, pois são mencionadas em muitas publicações destinadas aos professores.
Uma das primeiras publicações á respeito do desenho de crianças foi realizada por Georges-Henri Luquet, em 1913, ao escrever a obra Os desenhos de uma criança, na qual apresenta os desenhos de sua filha. Em 1927, publicou a obra clássica O desenho infantil. Conforme visão vigente em sua época, Luquet considerou as produções gráficas das crianças tomando como referência o desenho do adulto, daí a interpretação dada por ele repousar na noção de realismo. Apesar de não aceitarem esse ponto de vista, estudos posteriores, principalmente em psicologia, continuaram a usar a terminologia de Luquet, o que lhes deu uma visão marcadamente evolutiva. A influência desses estudos no ensino pode levar os professores a verem, de modo inadequado, os desenhos das crianças como produções a serem melhoradas, ou até como incorretas.
Para as crianças, desenhar é brincar. “A criança desenha para se divertir”, disse Luquet. Os primeiros desenhos são feitos pelo prazer de riscar, de explorar as possibilidades do material (lápis de cor, giz de cera, caneta hidrográfica), para produzir efeitos interessantes no papel. É uma atividade lúdica, na qual os rabiscos não têm um significado determinado. (CHAUÍ, Marilena, 1995)

3. COMUNHÃO COM A NATUREZA

Quero destacar uma citação de René Dubos que diz o seguinte: o relacionamento humano e a comunhão com a natureza são as supremas fontes de felicidade e beleza.
Mas devemos ter como base de que essa comunhão com a natureza não se prende a sentimentos românticos, poéticos, mas a dados científicos.

4. LIGAÇÃO UMBILICAL DO HOMEM COM A NATUREZA

René Dubos ainda continua, dizendo: se é verdade que o homem é o último e mais perfeito produto da evolução das espécies, então ele é ligado organicamente a todo o universo e não somente ao universo dos seres vivos. Isso explica que o homem necessita de sol, água, ar, luz e calor para sobreviver, e não somente dos seres que têm vida aqui nesta terra.
O homem está profundamente enraizado no universo. Está preso a ele por todas as fibras da matéria, mesmo às mais humildes como um pedacinho de folha seca que cai sobre o solo e entra em estado de decomposição para tornar a terra mais fértil e poder dar ao homem seu nutriente de sobrevivência.
Além da história da evolução, podemos dizer que é a própria embriologia que nos coloca na natureza. Assim, os cientistas concluíram que o desenvolvimento de um embrião humano em suas diversas fases tem semelhanças com outros embriões de animais inferiores ao homem. Para reforçar essa tese dos cientistas, Haeckel cita a seguinte lei: o desenvolvimento do indivíduo é a recapitulação do desenvolvimento da espécie aqui na terra o embrião humano, em poucos meses, passa por estágios semelhantes aos das espécies que levaram a evolução até o homem: peixes, répteis, aves e mamíferos.
Os antigos para elogiar o homem o chamavam de microcosmo, dando a ele uma dimensão da milésima parte do milímetro. Enquanto isso os biólogos estudam o ser humano, suas funções animal e vegetativo numa preocupação tão grande a ponto de esquecer sua principal característica e nobreza a racionalidade. (CHAUÍ, Marilena, 1995. p.8)
Portanto, o homem não é só uma recapitulação da história da vida no universo durante os tempos, mas também uma miniatura da estrutura da do universo.
Então podemos dizer que o homem não é o senhor do universo, como queria ser os ocidentais, e sim parte integrante dele.
O maior exemplo da nossa grande ligação intima com a natureza está nos povos primitivos, nos camponeses, nos sertanejos do interior do Brasil. Todos esses têm grande amor pela terra que cultivam. A terra para esses é um meio de sua existência e é quase parte da sua família. Quando abandonam a terra, sofrem e choram.
Os homens tecnológicos das megalópoles não conseguem entender esse sentimento eles são frios assim como os libertinos não compreendem os sentimentos místicos do homem religioso para com Deus. Somente o poeta e o artista, com suas almas de crianças simples podem experimentar tamanha emoção em relação à natureza.

5. LIGAÇÃO DINÂMICA DO HOMEM COM A NATUREZA

É da natureza que o homem deve tirar o seu sustento e o sustento da sua família, como também viver dela. O que nós observamos é que os seres que mantêm uma relação mais intimam com a natureza índios, “selvagens” e os povos orientais em geral, são pobres, famintos e subdesenvolvidos, enquanto os seres mais distantes dela, os que mais lhe maltratam, são os que mais se sobressaem financeiramente. (GONÇALVES, Carlos Walter Porto, 1989)
O sonho de que a natureza possa ser algo inviolado ainda é apenas uma esperança que muito custará se concretizar. O homem tão cedo não se conformará em simplesmente admirar essa natureza, pois ele a quer como sendo ele grande senhor dela, e a esta ele simplesmente dispensa a função vital de objeto do homem.
É claro e evidente que a humanidade não quer que o homem viva somente para contemplar a natureza, como também não é justa a ação brutal a qual ela é submetida pelos homens. O que se deve levar em consideração é a reciprocidade que deve existir entre o homem e ela um dependendo do outro para sobreviver, ou ainda a correta relação entre ambos: ele trabalhando-a e cativando-a; a natureza servindo o homem, tornando-se humana para satisfazer às suas necessidades através de um trabalho amoroso, onde se viva bem distante da idéia de prejudicá-la.
O certo é que, se estivermos convencidos dessa nossa ligação familiar e de trabalho com a natureza, devemos por em prática uma mudança na nossa mentalidade e na nossa atitude para com ela:
Devemos interpretar corretamente as palavras da Bíblia que nos ensinam que a terra é um jardim a ser guardado e cultivado pelo homem, e não uma selva a ser desbravada (Gn: 1,27-28; Gn: 2,18). Ela é para o ser humano, ao mesmo tempo, um dom e uma tarefa.
Deveremos entender corretamente o real conceito de “homo faber”, que diz que o homem não existe só para trabalhar e progredir, mas também para realizar-se como homem e buscar sua felicidade, pois o trabalho não é fim, é meio. O que vale agora não é o homem que somente contempla, especula e fica extasiado diante da natureza, mas sim o homem que se apega aos conhecimentos filosóficos e científicos para poder entendê-la, modificá-la e transformá-la. O que importa agora não é saber para saber, e sim, saber para poder transformar. (GONÇALVES, Carlos Walter Porto, 1989)
É preciso entender que para executar as tarefas mencionadas anteriormente, devemos acabar com a ideologia que prega uma grande melhoria para os homens e para a humanidade se o crescimento científico, econômico e tecnológico for cada vez maior. Sabemos que isso não é verdade, e os efeitos da globalização nos ajudam a entender essa afirmativa de maneira bem simples.
“Crescer só para crescer, no sentido de números sempre crescente e tamanho maior, simplesmente não pode continuar para sempre (Clube de Roma, p. 24-25).
Não podemos colocar a produção e o lucro como meta do desenvolvimento, em lugar do homem.
Se nos homens primitivos e pré-históricos a natureza é vista como algo cheia de deuses ou de forças sobrenaturais, onde o homem se sente como escravo ou criatura frágil e impotente, depois da renascença a visão que se tem sobre ela é totalmente o inverso. O homem, através do aumento dos seus conhecimentos científicos e artefatos técnicos, tomam consciência do seu poder sobre a natureza. Hoje ele sente-se senhor e dominador absoluto da natureza, e tem certeza de que alguns dos setores por ele ainda não dominados serão barreiras derrubadas num futuro próximo. Melhor explicando o homem nunca mais será escravo e nem se ajoelhará diante da natureza.
Mas todo esse pensamento tem uma fundamentação errada quando observamos o que escreve Marx a respeito da dialética entre o homem e a mulher.
Para Marx, homem e mulher não representam duas categorias diferentes, mas uma nova categoria onde os dois são faces da mesma realidade humana. Os dois se integram e se completam para uma realização individual na perpetuação da espécie humana. (MARX, Karl, 1984)
Assim, podemos dizer que as relações entre homem e mulher devem ser marcadas pelo mútuo respeito, amor e colaboração. Da mesma forma, deve ser a relação do homem com a natureza uns contatos cada vez mais estreitam para que o homem fique sempre mais enriquecido e gratificado. Ninguém é escravo de ninguém, e o homem é só parte integrante da natureza que lhe deu a luz da existência.
Se o homem tem uma nova mentalidade, uma nova categoria mental, então ele agora deve tomar novas atitudes:
– Acabar com sua fúria selvagem de destruição da natureza pensando só em lucros e vantagens materiais.
– Não mais comportar-se como senhor diante da natureza e tê-la como sua escrava.
– Ficar ciente de que, maltratando a natureza, terá como resposta conseqüências desastrosas.
– Formar uma consciência ecológica em todo o mundo.
– Protestar não somente junto aos filósofos e cientistas, mas também ao lado do povo que luta e se organiza contra a poluição das cidades, rios, mares e destruição das florestas.
– Influenciar uma educação individual, desde a infância, dentro da família, até a fase adulta, para que se possa respeitar a natureza e comungar com ela.
– Levar as crianças de vez em quando para a selva, rios e praias, pois assim, conhecendo esses magníficos lugares, elas terão mais amor pela natureza.
– Se não puder colocar a criança num contato direto com a natureza, algumas medidas podem ser tomadas: cultivar as ciências exatas e naturais, cultivar o esporte alpinismo caça, pesca e natação, esqui no gelo ou aquático, corrida e motociclismo. (MAIA, D. S. OKARA:, 2007, p. 33-42).
Essas medidas também aproximarão a criança da natureza.
– Na falta de tudo isso, podemos recorrer às crianças, pois nelas haverá as riquezas e o milagre da natureza livre, espontâneo e inocente.

TESTEMUNHOS E EXEMPLOS DE AMOR À NATUREZA

Segundo Leonardo da Vinci, a inspiração dos artistas não surge quando eles observam as obras de outros pintores, mas sim quando têm um conhecimento profundo da natureza. Já Galileu Galilei achava que a cidade era um cárcere para as mentes especulativas, e achava a liberdade dos campos o livro da natureza sempre aberto para quem quisesse ler com os olhos da inteligência.
E falando-se de Jesus Cristo, podemos dizer que ninguém teve maior comunhão com a natureza do que ele. Quase todas as suas parábolas se inspiram em fatos da natureza ou na relação do homem com ela.
Nos seus ensinos ele também manifesta sua perfeita comunhão com a natureza. Através do próprio comportamento de Jesus, podemos ver que seus ensinamentos eram em contato com a natureza: lago de Tiberíades, as montanhas, as planícies da Palestina verdadeiras salas-de-aula.
Claro que Jesus falava aos homens dentro de casa, no interior dos templos, mas a sua mensagem central teve como cenário os campos, as águas e os montes.
E quem mais se aproximou de Jesus Cristo quanto ao amor pela natureza foi São Francisco de Assis. Tornou-se um protótipo de fraternidade para com a natureza e foi proclamado o patrono da ecologia.
Na música popular brasileira, não podemos deixar de ressaltar a grande preocupação com a natureza por parte dos compositores Roberto e Erasmo Carlos.

7. CONCLUSÃO

Após inúmeras pesquisas, com vista a um estudo mais aprofundado nas disciplinas de Artes, Meio Ambiente e Geografia, constatamos que, aprender essas disciplinas é, desenvolver progressivamente um percurso de criações pessoal cultivado, ou seja, alimentada pelas interações significativas, na qual o grupo realizou através de meios que fornece informações no processo ensino aprendizagem (livros, vídeo, meio tecnológicos e alguns especialistas no assunto ).
Portanto fazer arte e pensar sobre o trabalho artístico, que realiza assim como sobre a arte, que é e foi concretizada na historia, que pode nos garantir uma situação de aprendizagem conectada com os valores e os modos de produção artística nos meios sócios culturais.
Neste contexto concluí-se que a imaginação criadora permite ao ser humano perceber situações, fatos, idéias e sentimentos que se realizam como imagens internas, a partir da manipulação da linguagem. É essa capacidade de formar imagens que torna possível a evolução do homem e o desenvolvimento da criança a visualizar situações que não existem, mas que podem vir a existir, abrir acesso a possibilidades que está alem da experiência imediata. Espera-se que este trabalho possa contribuir progressivamente no nosso dia a dia e que de maneira contínua tendem nos aproximar de modos mais elaborados de fazer e pensar sobre Arte.
Partindo da idéia de que a educação na escola deveria formar integralmente os alunos e alunas, transmitindo ensinamentos para a vida e não somente “conteúdos burocratizastes,” um trabalho educativo necessita empreender discussões sobre saúde e meio ambiente. As diversas disciplinas (com as suas diferentes linguagens) precisam englobar esses temas de forma a problematizar os discursos hegemônicos sobre essas questões.
Estudar geograficamente o mundo, no todo ou em parte, é buscar entender como e por que as paisagens apresentam as características que observamos. A geografia deve propor-se a investigar, principalmente, o modo pelo qual a sociedade produz o espaço geográfico.
O trabalho da prática (das referidas disciplinas) desenvolvido neste período, foi de grande valia. A experiência adquirida contribuiu para realização de um trabalho de melhor qualidade.
Esse trabalho reforçou a nossa percepção de que as crianças, quando estimuladas e valorizadas, sentem prazer em participar e interagir.
A presença e a participação nas oficinas, os desenhos e pinturas, a confecção de painéis e brinquedos, os debates, a construção de maquetes e mapas reproduzindo o ambiente percebido, as músicas, as histórias contadas e recontadas, as dramatizações, os textos produzidos, as falas, as observações e os exemplos dados, as posturas diante do grupo e, ainda, os depoimentos de alguns familiares e professores sobre situações nas quais as crianças se afirmaram como sujeitos, são indicadores do interesse e da capacidade das crianças de conhecer, representar e transformar o seu meio. Os níveis de conhecimento, de representação e de percepção do ambiente vivido são diversificados.

8. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICA

ALBORNOZ, Suzana. O que é trabalho. 5. ed. (Coleção Primeiros Passos). São Paulo: Brasiliense, 1992.
ALMEIDA, Rosângela Doin de: PASSINI, Elza Y. O espaço geográfico: ensino e representação. 7. ed. São Paulo; Contexto, 2002.
ARGAN, Giulio Carlo; Arte moderna; São Paulo: Companhia das Letras, 1992. ISBN 8571642516
BLANCO, J. García. Introcción General. In: ESTRABÓN. Geografia. Madrid: Gredos, 1991.
CAVALCANTE, Lana de Sousa. Geografia e pratica de ensino. Goiânia: Alternativa 2002
CHAUÍ, Marilena. Convite á Filosofia. São Paulo: Ática, 1995.
ENGELS, F. Dialética da Natureza. México: s/e, 1961.
GONÇALVES, Carlos Walter Porto. Os (des)-caminhos do meio ambiente. São Paulo: Contexto, 1989.
MARX, Karl. Manuscritos Economia y Filosofia. 11. ed. Madrid: Alianza Editorial, 1984.
RILKE, Rainer Maria. Da Paisagem. s/d; s/l. (mimeo). Extraído Samtliche Werke, Fünfter Baand, Frakfurt am Main: Insel Verlag, 1965. Tradução de Luciana Martins e Ferdinand Reis.
RODRÍGUES, Arlete Moisés. A questão ambiental e a (re) descoberta do espaço: uma nova relação sociedade/natureza? Boletim Paulista de Geografia, n. 73, São Paulo: Associação dos Geógrafos Brasileiros São Paulo, 1994).
SANTOS, Milton. Pensando o espaço do homem. São Paulo: Hucitec, 1986. MAIA, D. S. OKARA: Geografia em debate, v.1, n.1, p. 33-42, 2007
SILVA, José Afonso da, Direito Ambiental Constitucional, Malheiros, 2ª edição (2ª tiragem),São Paulo, 1997.

CESARIANA X PARTO NORMAL 1/2

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CURSO DE ENFERMAGEM
UNIDADE DE DOURADOS
ANIANDRA KAROL GONÇALVES
FATORES DETERMINANTES PARA AS EXPECTATIVAS DE GESTANTES ACERCA DA VIA DE PARTO
DOURADOS
2009

RESUMO

A gravidez e o parto representam eventos especiais na vida da mulher, no qual a sensação de tornar-se mãe confunde-se muitas vezes com incertezas, medos e inseguranças. É um evento biossocial, pois está cercado de valores culturais, sociais e emocionais. Embora sendo um processo considerado, predominantemente fisiológico, e que decorre geralmente decorre sem complicações, tem crescido o uso de técnicas intervencionistas e entre estas, a cesariana. Esta pesquisa foi desenvolvida com gestantes usuárias da Estratégia de Saúde da Família e com gestantes usuárias de um serviço de saúde privado no município de Dourados/MS. Teve por objetivo principal identificar as expectativas de gestantes com relação ao tipo de parto bem como os motivos de sua escolha, procurando dar voz a gestante, pois ela deve ser a condutora de seu próprio processo de parturição, tendo a liberdade segundo o Ministério da Saúde, de escolher onde, como e com quem quer realizar seu parto. Os resultados mostraram que os fatores socioculturais, familiares e a atuação do profissional que conduz a assistência pré-natal podem ser determinantes na formação da opinião das gestantes sobre o tipo do parto. Entre as usuárias do serviço publico houve preferência para o parto normal enquanto que, no serviço privado a cesárea. O estudo reforça a importância da ação educativa durante o pré-natal para resgatar o papel ativo da mulher no processo parturitivo, para que esta tenha o direito de escolha sobre a preferência do tipo de parto, bem como ser ouvida e esclarecida em suas dúvidas e temores.
Palavras Chaves: Gestação, vias de parto, parto.

ABSTRACT

Pregnancy and delivery represent special events in womans life and sometimes, the condition of becoming mother is confused with some uncertanties, fears and insecurities. It is a biossocial event since it is surrounded with cultural, social and emotional values. Although it is considered predominantly a physiological process that generally passes without any complication, the use of interventionist techniques has been increased and among them, it is the caesarean one. This research was developed with pregnants who use Family Health Program and others with a private health care, in Dourados/MS. This work aimed to identify pregnants expectancies in relation to the choice, giving her some support since she is the leader of her own process of deliver. So, according to Health Department, she has the liberty to choose where, how and with whom she wants to carry out her delivery. The results showed socio-cultural and familiar factors and the professionals role that leads the antepartum course may be decisive to form pregnants opinion to decide what kind of delivery she wants. Among users from Public Service, there was a preference for normal delivery while for private ones, it was the caesarean delivery. The study reinforces the importance of an educational action during the antepartum course to recover womans active function during childbirth process so that she may choose what kind of delivery she wants as well as she may be heard and her doubts and fears may be explained.
Keywords: Pregnancy, kinds of delivery, delivery.

LISTA DE TABELAS

LISTA DE ABREVIATURAS

CAM Centro de Atendimento à Mulher
CFM – Conselho Federal de Medicina
DATASUS – Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde
ESF – Estratégia de Saúde da Família
MS – Ministério da Saúde
OMS – Organização Mundial de Saúde
PAISM – Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher
PHPN – Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento
SINASC – Sistema de Informação de Nascidos Vivos do Ministério da Saúde
SISPRENATAL – Sistema de Acompanhamento do Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento
SUS – Sistema Único de Saúde
TCLE – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
TP – Trabalho de Parto
UBS – Unidades Básicas de Saúde
UEMS Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul
UFMS – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
UNICAMP – Universidade de Campinas

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO

A gestação representa período único e especial na vida da mulher, no qual a sensação de tornar-se mãe confunde-se muitas vezes com incertezas, medos e inseguranças. É um evento biossocial, pois está cercado de valores culturais, sociais e emocionais. Embora seja um processo considerado, predominantemente, fisiológico e que geralmente decorre sem complicações, tem crescido o uso de técnicas intervencionistas e entre estas, a cesariana (TEDESCO et al., 2004).
Discutindo sobre os altos índices de partos operatórios, Rea (2003) questiona se este fato decorre do desejo da mulher, ou pode ocorrer por conveniência médica, facilidade do sistema de saúde, currículos de obstetrícia fracos, ausência de parteiras qualificadas, ou da busca de laqueadura durante a cesárea. Aponta também que, embora os hospitais privados façam mais cesárea que os públicos, não é desejo da mulher de classe média a opção preferencial por cesárea.
De Melo e Souza (apud SILVA, 2008) afirmam que a assistência obstétrica atual nega à mulher o direito de escolha às opções existentes no momento do parto. Normalmente a gestante é manipulada com relação às informações prestadas sobre os riscos envolvidos nos procedimentos do parto. Neste enfoque, Besio (1999) considera que a escolha materna não deve sobrepor-se ao critério médico, sob a alegação de ser este o profissional mais capacitado para saber qual a melhor via de parto para a mulher. Apesar dessa realidade, autores do mundo todo acreditam que a escolha materna sobre o seu parto é direito humano fundamental (TEDESCO et al., 2004).
Nesse sentido, entendemos que aspectos sociais tais como nível econômico, acesso a educação, a informação, bem como aos serviços de saúde, entre outros e juntando-se a estes, os fatores culturais, entendidos como o complexo dos padrões de comportamento, das crenças e valores transmitidos coletivamente que se modificam entre cada sociedade e com o decorrer do tempo, interferem e talvez até mesmo determinem a escolha que a mulher terá em relação ao tipo de parto e suas expectativas em relação ao mesmo.
Para tanto, este estudo envolve uma temática bastante discutida nos últimos anos: a definição da melhor via para a resolução do parto. Nele procuramos conhecer as possíveis escolhas de gestantes com relação ao tipo de parto desejado por elas.
Optamos por este tema, por nosso envolvimento com gestantes durante o Curso de Graduação em Enfermagem, tanto em atividades de ensino, como de extensão participando no desenvolvimento de ações educativas em grupos de gestantes.
Pensando nisso, propusemo-nos a estudar os fatores que podem contribuir para a tomada de decisão sobre a definição da via de parto. Assim, partimos do pressuposto de que, os fatores sócio-culturais, a opinião dos profissionais, as ações educativas realizadas em grupos de gestantes, são fatores que poderiam ajudar a trazer os altos índices de cesarianas a níveis aceitáveis, diminuindo os riscos de morte materna.
Assim, ao longo da pesquisa procuramos responder a seguinte questão: qual a expectativa da gestante em relação ao tipo de parto que deseja?
Buscando alcançar as possíveis respostas, traçamos por objetivos.

1.1 OBJETIVOS

Geral:
Identificar as expectativas de gestantes com relação ao tipo de parto preferido por elas, bem como os motivos de sua escolha.
Específicos:
– Caracterizar o perfil das gestantes segundo as variáveis sociais, demográficas e reprodutivas;
– Conhecer o nível de informação das gestantes acerca do parto;
– Verificar se há diferença entre as expectativas de gestantes com relação ao tipo de parto preferido por elas, bem como os motivos de sua escolha entre gestantes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e um hospital privado.
Para a apresentação deste relatório de pesquisa, estruturamos em sete partes. A introdução acima desenvolvida, a metodologia envolvendo o estudo, o referencial bibliográfico para subsidiar as análises dos dados, os resultados e discussões do estudo, as considerações finais, as referencias e os anexos.

2 CASUÍSTICA E MÉTODO

2.1 Casuística

A pesquisa incluiu gestantes que realizaram o Pré-Natal na Estratégia de Saúde da Família (ESF) no Parque do Lago II e gestantes que participaram do serviço de Pré-natal no ambulatório do Hospital Evangélico Dr°. e Srª. Goldsby King, na Cidade de Dourados, MS no período de fevereiro de 2009 a julho de 2009.

2.2 Método

2.2.1 Tipo de estudo

Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, que se caracteriza, segundo Minayo (1994, p. 22) por trabalhar com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.
A abordagem qualitativa se preocupa com a realidade que não pode ser quantificada e se aprofunda no mundo dos significados das relações humanas. A pesquisa qualitativa também oferece ao pesquisador a possibilidade de captar a maneira pela qual os indivíduos pensam e reagem frente às questões focalizadas (PRAÇA, MERIGHI, 2003).

2.2.2 O local de estudo

O estudo foi desenvolvido na Unidade de Estratégia de Saúde da Família (ESF) do Parque do Lago II, e no ambulatório do Hospital Evangélico Dr°. e Srª. Goldsby King no município de Dourados/MS.
Dourados, por ser a segunda maior cidade do Estado de Mato Grosso do Sul é referência na região em prestação de serviços nos setores de saúde, comércio, educação, dentre outros, para os 35 municípios vizinhos que compõe a região da Grande Dourados referência também às necessidades de risco em saúde, das cidades do Paraguai, país vizinho que faz fronteira com o nosso Estado à oeste.
O município de Dourados compõe uma rede de atenção básica, com 26 ESF urbanas e nove ESF rurais, além de quatro Unidades Básicas de Saúde que oferecem assistência em nível de atenção primária a toda população e acompanhamento de pré-natal às gestantes sem risco gestacional (SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE, 2008).
Segundo dados do Sistema de Informação de Nascidos Vivos do Ministério da Saúde – SINASC no ano de 2008 foram registrados aproximadamente 3.008 nascidos vivos em Dourados.
Nesse mesmo período, cerca de 33% das gestantes realizaram até seis consultas pré-natais e 63% mais de seis consultas de pré-natal nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos ESF, que oferecem atenção primaria (pré-natal de baixo risco) (SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE, 2008).
Já as gestantes de alto risco são encaminhadas ao Centro de Atendimento à Mulher-CAM, local de referência do município e região.
A Unidade de Estratégia de Saúde da Família (ESF) do Parque do Lago II oferece assistência em nível de atenção primaria a toda população coberta por esta Unidade e acompanhamento de pré-natal às gestantes sem risco gestacional. No decorrer do atendimento do Pré-Natal nesta ESF, são realizadas atividades educativas com as gestantes e acompanhantes abordando temas como planejamento familiar, desenvolvimento da gestação, parto e puerpério, cuidados com o recém-nascido, dentre outros. A ESF é composta por uma equipe de Saúde da Familia, a Equipe 34, onde são atendidas mais de três mil pessoas. Os bairros cobertos por esta Unidade são a Estrela Porã e o Parque do Lago II.
O município de Dourados possui sete hospitais, sendo quatro privados que atendem usuários na forma particular e convênios e, três públicos, que atendem pelo Sistema Único de Saúde.
Uma das instituições privadas do município de Dourados/MS é o Hospital Evangélico Dr°. e Srª. Goldsby King, onde também foi realizada a entrevista deste projeto com as gestantes. Foi fundado em 15 de novembro de 1946, tendo dado início à construção pela doação financeira feita pelas senhoritas Annie e Dulie King, em memória de seus pais, “Dr°. e Srª. Goldsby King”.
É um hospital filantrópico, de propriedade da Igreja Presbiteriana do Brasil, sendo a Associação Beneficente Douradense a entidade que o mantém e o administra.
O Hospital Evangélico atende por convênios particulares e atualmente voltou a atender pelo SUS. Na ala particular I do hospital há o atendimento das gestantes. Neste local pretende-se desenvolver um trabalho de orientação com as mães que vêem dar a luz, chamado de projeto Barriguinha. Nesta atividade serão discutidos os cuidados no desenvolvimento da gestação, aleitamento materno, cuidados com o recém-nascido, alojamento conjunto, puerpério e planejamento familiar. O projeto será desenvolvido por Enfermeiros e Médicos Obstetras no Hospital Evangélico Dr°. e Srª. Goldsby King, o qual envolve gestantes usuárias de convênios e/ou atendimento particular atendidos nesta instituição.

2.2.3 Seleção dos Sujeitos

A amostra foi semi-intencional, participando todas as gestantes que comparecia a unidade ou ao serviço na data previamente agenda para a consulta de pré-natal com o médico e/ou enfermeiro responsável pelo serviço. Utilizamos como critérios de inclusão gestantes com idade maior que 16 anos que estivessem recebendo assistência pré-natal.
Foram considerados critérios de exclusão, pacientes mentalmente incapacitadas; gestantes de alto risco, incluindo diabéticas, cardiopatas, pneumopatas, com restrição de crescimento intra-uterino, com polidrâmnio ou oligodrâmnio, descolamento prematuro da placenta, placenta prévia, rotura prematura das membranas, malformação fetal e pós-datismo, dentre outras situações clínicas que pudessem interferir na escolha do parto pela paciente.
Nesta pesquisa foi adotada a amostra por conveniência que, segundo Marconi e Lakatos (1996), é empregada quando se procura obter uma amostra de elementos convenientes. A seleção das unidades amostrais é deixada a cargo do entrevistador em que o critério desta seleção é dado pela facilidade de acesso a estas unidades. Assim, os integrantes da amostra a serem entrevistados foram determinados entre as gestantes que estavam no local da realização da pesquisa para a consulta de pré-natal, considerando os critérios de inclusão e exclusão.

2.2.4 Coleta de dados

A coleta dos dados foi realizada através de entrevista semi-estruturada, especialmente elaborada e pré-testada para este fim.

2.2.4.1 Procedimentos utilizados na coleta de dados

Para a realização da coleta de dados foi utilizado como instrumento uma entrevista semi-estruturada (Apêndice A), com o objetivo de nortear a abordagem. A mesma foi composta por três partes, contendo a primeira dados das características sócio-demográficas da gestante, como idade, raça/cor, cidade, bairro de residência, escolaridade, renda, profissão/ocupação e contexto familiar/social.
Na segunda parte foram alocados os dados reprodutivos e obstétricos: número de gestação, paridade, tipos de partos anteriores e idade gestacional.
Na terceira parte foi abordado o local da realização do pré-natal, o número de consultas que havia feito até o momento da entrevista e as questões norteadoras da pesquisa Recebeu informações sobre as vantagens e desvantagens das vias de parto?, Qual sua preferência inicial pela via de parto?, Quais as suas expectativas em relação ao tipo de parto escolhido?.
A entrevista tem sido a estratégia básica na coleta de dados qualitativos, existindo uma variedade de formas e usos para a sua utilização. Costuma ter vantagem sobre outras técnicas utilizadas na pesquisa qualitativa, pois permite a captação imediata e corrente da informação desejada, praticamente com qualquer tipo de informante e sobre os mais variados tópicos. Quando conduzida adequadamente, permite o tratamento tanto de assuntos de natureza pessoal, como temas de natureza complexa e escolhas nitidamente individuais. A entrevista ganha vida, ao se iniciar o diálogo, além de permitir correções, esclarecimentos e adaptações, o que a torna eficaz na obtenção das informações desejadas (LUDKE; ANDRE, 1986).
As entrevistas foram gravadas com o uso de mp3, transcritas e posteriormente analisadas.

2.2.5 Ações éticas

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul UFMS (Anexo A), pelos órgãos competentes da UEMS e pelas duas instituições onde foi realizada a entrevista (Anexo B e C).
As gestantes foram esclarecidas sobre a intenção científica da pesquisa, as questões abordadas na entrevista, o sigilo de suas respostas e o direito da desistência a qualquer momento por parte da gestante. Para a participação, as gestantes consentiram participar na pesquisa com a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), constante no Apêndice B.
Foram, portanto, respeitados todos os aspectos éticos, conforme legislação vigente para realização de pesquisa em seres humanos (Resolução N° 196/96 do Conselho Nacional de Saúde).

2.2.6 Análise dos dados

De acordo com Ludke e Andre (1986), analisar os dados qualitativos significa trabalhar o material obtido no decorrer da pesquisa. Num primeiro momento, implica a organização de todo material dividindo-o em partes, relacionando essas partes e procurando identificar padrões relevantes.
Para nortear as análises dos dados do estudo, adotamos como referencial teórico os dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde e autores com trabalhos de referencia nesta área como Faúndes e Cecatti.
Para a apresentação dos resultados encontrados no estudo, agrupamos os dados em unidades temáticas.

3 REVISÃO DE LITERATURA

3.1 Histórico da Assistência ao Parto

A Obstetrícia é a parte da medicina que estuda os fenômenos da reprodução, na mulher. A palavra obstetrícia é originária do latim, do verbo obstare, que significa ficar ao lado. Segundo Rezende (2000, p. 1) o significado da palavra obstetrícia equivaleria a mulher assistindo a parturiente ou a mulher que presta auxílio.
Para Rezende (2000) a Obstetrícia progrediu muito lentamente em relação às outras ciências médicas. Justifica isso pelo fato do atendimento à gestante e ao parto ser guiado desde a antiguidade por parteiras e feiticeiras que transmitiam de geração em geração práticas sem cunho científico baseadas em crendices e feitiços. Para as ações na prática obstétrica, essas mulheres se utilizavam de bebidas repugnantes e flagelações que complicavam a parturição, muitas vezes dilacerando e infectando a genitália levando em muitos casos à morte fetal e materna.
Assim, historicamente a assistência ao parto era de responsabilidade exclusivamente feminina na maioria dos povos primitivos, pois apenas as parteiras realizavam essa prática. O fenômeno da parturição estava associado aos aspectos místicos e religiosos.
Por muito tempo as parteiras foram conhecidas na sociedade por suas experiências, embora não dominassem o conhecimento científico. Assim, os acontecimentos na vida da mulher se sucediam na sua residência, onde as parteiras e a parturiente trocavam conhecimento e descobriam afinidades. Além disso, a presença masculina durante a parturição era considerada incômoda (PAIVA, 1999).
Para Rezende (2000), a participação masculina no parto até a idade média foi pouco frequente. Este fato encontrava como obstáculo a moral, que impediam a entrada dos homens nos aposentos da parturiente. Outro fator de destaque para a não participação do homem no acompanhamento do parto é que este ato era uma atividade secundária, da mesma forma em que a mulher era considerada como um ser inferior. Segundo este autor, com o surgimento do mercantilismo ocorreram mudanças na compreensão do trabalho e o status do médico cirurgião se eleva, sendo que a prática da obstetrícia passa a ser paulatinamente por eles incorporadas e supervisionadas.
Neste sentido, para Schirmer et al. (2002), com o surgimento da obstetrícia como área acadêmica do conhecimento, a partir da metade do século XIX, a assistência empírica prestada por mulheres durante o ciclo gravídico-puerperal perde seu espaço, ou seja, inicia-se uma intensa disputa entre a classe médica e as parteiras, e estas vêm perdendo o domínio do saber sobre a arte de assistir o parto e o nascimento.
Nessa nova ordem, a mulher perde gradativamente seu espaço na assistência durante o período gravídico-puerperal. Com o passar do tempo, o ato de partejar torna-se um processo de domínio médico, com uma nova lógica, na qual a mulher passa de sujeito da ação a objeto desse processo. Assim, construiu-se um modelo social predominante que, de certa forma, vem impedindo a mulher de ser sujeito pleno de sua própria história.
No contexto sócio-histórico, observa-se que no século XX, na década de 40, visando à redução da mortalidade materna e infantil a hospitalização do parto intensificou-se, o que permitiu a medicalização e controle do período gravídico-puerperal. Assim, o parto que antes era entendido como um processo natural, privativo e familiar, passou a ser vivenciado na esfera pública em instituições de saúde, em nome da redução da mortalidade materna e infantil, com a presença de vários atores (profissionais) conduzindo este período. Esse fato favoreceu a submissão da mulher que deixou de ser protagonista do processo parturitivo (OSAVA, 1997).
Com a institucionalização do parto a mulher perdeu sua privacidade e autonomia, foi separada da família e submetida a normas institucionais e práticas intervencionistas sem o devido esclarecimento e consentimento da parturiente e, por outro lado, procurou-se oferecer para mulher e seu bebê uma assistência com aparente segurança (OSAVA, 1990).
Oliveira et al., (2002) acreditam que, nos últimos anos, o ato de parir e a gestação, considerados como fenômenos naturais e fisiológicos, foram transformados em um processo patológico e medicalizado, alterando sua essência original de evento de mãe e filho em acontecimento social.
O propósito da assistência ao parto em instituições é oferecer melhores condições à mãe e como um processo predominantemente biológico na qual o patológico é mais valorizado, ou seja, durante a formação destes, doenças e intercorrências são enfatizadas e as técnicas intervencionistas são consideradas de maior importância. Entretanto, a gestação é um processo que geralmente decorre sem complicações (BRASIL, 2001).
Nesse contexto, deve-se ter em mente que a mulher que está sob os cuidados de uma equipe profissional é um ser humano singular, integral, indivisível, insubstituível, pleno na sua concepção de interagir com o mundo. Neste sentido, a mulher precisa ser considerada como um todo, sem ferir sua condição de indivíduo, sem violar a íntima relação que existe entre os aspectos biológico, psicológico, social, cultural e econômico (SCHIRMER, 2002).
É inegável que houve ganhos com a institucionalização do parto, como a melhor assepsia causa frequente de infecção puerperal e morte materna e formas de acompanhamento e resolução como o pronto atendimento ao recém-nascido de risco por uma equipe médica especializada (ROCHA, 2004).
Desta forma, a institucionalização do parto trouxe ganhos importantes para a obstetrícia, porém, a supervalorização da técnica do nascimento, a ênfase exagerada à sua fisiologia, negligenciou seus aspectos psicoemocionais e sociais, passando a negar a parturiente seu direito de experimentá-lo de acordo com seus significados adquiridos culturalmente (GUALDA,1993; HELMAN,1994).
Por outro lado, com a institucionalização do parto houve um crescimento cada vez maior no número de partos operatórios (cesarianas) em detrimento do parto normal (vaginal). Esse índice tem favorecido as altas taxas de morbimortalidade materno-infantil (CAPARROZ, 2003).
Assim, no final dos anos de 1990, pelo alto índice de partos hospitalares e como consequência os altos índices de partos operatórios, elevando os índices de morte materna, surge a discussão em torno da humanização da assistência obstétrica (DINIZ, 2005).
Desta forma, o movimento de humanização do nascimento e do parto passa em nossos dias a ser necessário, devido aos excessos de partos operatórios por cesarianas no Brasil, o que leva ao questionamento se isso decorre do desejo da mulher, conveniência médica, facilidade do sistema de saúde, currículos de obstetrícia fracos, ausência de parteiras qualificadas, ou da busca de laqueadura durante a cesárea (REA apud BERQUÓ, 2003).
Potter et al. (apud TEDESCO et al., 2004) apontam que, embora os hospitais privados façam mais cesárea que os públicos, não é desejo da mulher de classe média a opção preferencial por cesárea.
Acredita-se, então, que o parto humanizado sendo um conjunto de condutas e procedimentos que visam a sua promoção e a do nascimento saudável e a prevenção da morbimortalidade materna e perinatal, cujas condutas baseiam-se essencialmente na concepção de que ele não é doença e no respeito à dignidade e liberdade da mulher como condutora de seu próprio processo de parturição, cabe a ela escolher onde, como e com quem (profissional) quer realizar seu parto (BRASIL, 2001).

3.2 A Assistência pré-natal

Na história da saúde pública no Brasil, a introdução do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), no ano de 1983, ampliou o elenco de ações de saúde destinadas à parcela feminina da população, destacando a atenção pré-natal pelo seu impacto e transcendência no resultado perinatal (TREVISAN et al., 2002).
Em decorrência ao processo de mobilização social, feministas e profissionais da saúde iniciaram, em parceria com o Ministério da Saúde, a elaboração de propostas de atendimento à mulher que garantissem o respeito a seus direitos de cidadania, o que resultou na estruturação das bases fundamentais do PAISM (RIOS; VIEIRA, 2007).
Assim, o PAISM entrou no cenário das Políticas de Saúde apontando como objetivos a ampliação dos problemas a serem tratados pelo setor, a recuperação da função educativa dos serviços e a adoção de uma nova perspectiva de atenção a cada mulher, situando-a em seu contexto social e atendendo-a de forma integral.
Nesse contexto, Osis (1998, p. 27) afirma que:
A atenção à mulher deveria ser integral, clínico-ginecológica e educativa, voltada ao aperfeiçoamento do controle pré-natal, do parto e puerpério; à abordagem dos problemas presentes desde a adolescência até a terceira idade; ao controle das doenças transmitidas sexualmente, do câncer cérvico-uterino e mamário e à assistência para concepção e contracepção.
De acordo com a normatização do Ministério da Saúde (BRASIL, 1985, p. 19-20), o pré-natal na sua essência se constitui como um conjunto de procedimentos clínicos e educativos com o objetivo de promover a saúde e identificar precocemente os problemas que possam resultar em risco para a saúde da gestante e o concepto.
Sendo um dos objetivos da assistência pré-natal a redução de riscos durante a gestação, Barbosa (1981, p. 135) afirma que a boa qualidade, eficiência, frequência e assistência pré-natal revelam, sem dúvida, o desenvolvimento de uma nação. A assistência pré-natal é, por si, capaz de reduzir drasticamente as complicações da gestação e do parto e minimizar a mortalidade perinatal.
Neste sentido, Faúndes et al. (1987, p. 102) complementam que:
Os objetivos principais da assistência pré-natal são assegurar uma evolução normal da gravidez; preparar a mãe para o parto, puerpério e lactações normais; identificar o mais rápido possível as situações de risco, para que seja possível prevenir as complicações mais frequentes da gravidez e do ciclo puerperal.
Segundo Galleta (2000), o pré-natal foi instituído no início do século XX e chegou ao Brasil por volta das décadas de 20 e 30 e só se estabeleceu no pós-guerra. Neste período, pensava-se na mulher, em diminuir os agravos para sua saúde, sem se pensar no feto. Nos anos 50 e 60, com a diminuição das taxas de morte materna, começou a preocupação, com o feto e sua saúde. Assim, com os avanços tecnológicos e sociais, o pré-natal constituiu-se e se firmou, transformando-se na prática assistencialista que acontece hoje.
Segundo apontamentos do Ministério da Saúde a assistência ao pré-natal é o primeiro passo para o parto e o nascimento humanizados. O conceito de humanização na assistência ao parto deve pressupor uma relação de respeito estabelecida entre os profissionais de saúde e as mulheres durante o processo de parturição. Assim, o processo de humanização compreende:
Parto como um processo natural e fisiológico que, normalmente, quando bem conduzido, não precisa de condutas intervencionistas;
Respeito aos sentimentos, emoções, necessidades e valores culturais;
A disposição dos profissionais para ajudar a mulher a diminuir a ansiedade e a insegurança, assim como o medo do parto, da solidão, da dor, do ambiente hospitalar, do bebê nascer com problemas e outros temores;
Promoção e manutenção do bem estar físico e emocional ao longo do processo da gestação, parto e nascimento;
Informação e orientação permanente a parturiente sobre a evolução do trabalho de parto, reconhecendo o papel principal da mulher nesse processo, inclusive aceitando a sua recusa a condutas que lhe causem constrangimento ou dor;
Espaço e apoio para a presença de um (a) acompanhante que a parturiente deseje;
O direito da mulher na escolha do local de nascimento e co-responsabilidade dos profissionais para garantir o acesso e qualidade dos cuidados de saúde (BRASIL, 2000, p. 11).
Neme (2000) confirma que o caráter preventivo do pré-natal é fundamental para diminuir os índices de mortalidade materna e perinatal, pois um pré-natal bem feito previne patologias, tais como anemias, doenças hipertensivas gestacional (pré-eclâmpsia, eclâmpsia); também favorece o preparo psicológico materno para o parto, além de garantir a perfeita estruturação do organismo fetal, prevenção do abortamento e o risco de parto prematuro e até o óbito perinatal.
No sentido da prevenção das complicações, esse mesmo autor ressalta que:
A instalação da prenhez representa razão obrigatória para exigir que as pacientes procurem assistência médica. Nessas condições, ao salientar a importância da segurança fetal, o tocólogo sensibiliza as gestantes, que se tornam receptíveis, a ser assíduas em suas visitas médicas e a atender as recomendações dietéticas e terapêuticas, mesmo quando incômodas (NEME, 2000, p. 118).
Dessa maneira, faz-se necessário o acompanhamento periódico e contínuo das gestantes, em nível de pré-natal que pode ser realizada em Unidades Básicas de Saúde, instituições hospitalares e maternidades (NEME, 2000).
Nas Unidades Básicas de Saúde quem faz o acompanhamento do Pré-Natal também é o Enfermeiro, desde que esta gestante não apresente gravidez de risco. Esta prerrogativa é confirmada na Lei do Exercício Profissional da Enfermagem – Decreto nº 94.406/87 apontando que o pré-natal de baixo risco pode ser inteiramente acompanhado pela enfermeira. Já nas instituições privadas, as gestantes normalmente são acompanhadas pelo seu médico obstetra (BRASIL, 2000).
Baseado nas análises das necessidades de atenção específica à gestante, ao recém-nascido e à mulher no período pós-parto, o Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento (PHPN) foi instituído pelo Ministério da Saúde (MS), através da Portaria/GM nº 569, de 01/06/2000, o qual buscava reduzir as altas taxas de morbimortalidade materna e perinatal, adotando medidas que assegurassem a melhoria do acesso, da cobertura e da qualidade do acompanhamento pré-natal, da assistência ao parto, puerpério e neonatal. Para que isso aconteça, todos os dados da gestante seriam digitados no SISPRENATAL e encaminhados mensalmente para a base nacional de dados, como condição indispensável ao monitoramento do PHPN e ao recebimento dos incentivos.
O SISPRENATAL, de acordo com Fajardo et al. (2007, p. 9):
É um banco de dados dinâmico onde permanentemente são digitados cadastros de consultas e exames de usuárias em acompanhamento de Pré-Natal.
Nas ações preconizadas para a assistência pré-natal, após confirmação da gravidez em consulta médica ou de enfermagem, dá-se o início do acompanhamento da gestante, a qual deverá receber as orientações necessárias referentes ao acompanhamento pré-natal, como a sequência das consultas (médica e de enfermagem), na qual o intervalo entre as consultas deve ser de aproximadamente quatro semanas. Após a 36a semana, a gestante deverá ser acompanhada semanalmente, visando à avaliação da pressão arterial, da presença de edemas, da altura uterina, dos movimentos do feto e dos batimentos cárdio-fetais. No acompanhamento pré-natal deve haver também as visitas domiciliares e as reuniões educativas (BRASIL, 2000).
Segundo Penna et al. (1999), a dimensão educativa objetiva contribuir com o acréscimo de informações que as mulheres possuem sobre seu corpo e valorizar suas experiências de vida. Desse modo, como um dos componentes das ações básicas de saúde, a ação educativa para o Ministério da Saúde deve:
Ser desenvolvida por todos os profissionais que integram a equipe da unidade de saúde, estar inserida em todas as atividades e deve ocorrer em todo e qualquer contato entre profissional de saúde e a clientela, com o objetivo de levar a população a refletir sobre a saúde, adotar práticas para sua melhoria ou manutenção e realizar mudanças, novos hábitos para a solução de seus problemas (BRASIL, 1985, p. 20).
Por fim, sendo o pré-natal um espaço adequado para que a mulher se prepare para viver o parto de forma positiva, integradora, enriquecedora e feliz, Rios e Vieira (2007) acreditam que o processo educativo (educação em saúde) é fundamental não só para a aquisição de conhecimentos sobre o processo de gestar e parir, mas também para o fortalecimento da gestante como ser e cidadã.

3.3 Tipos de parto

3.3.1 Parto normal

O parto é considerado como um processo psicossomático, no qual o comportamento da gestante ou da parturiente depende, além da própria evolução do trabalho de parto, do nível de informação da mulher, sua história pessoal, contexto sócio, histórico e econômico, de traços de sua personalidade e do simbolismo que este processo representa. Muitas vezes, o parto é vivido como uma realidade distante que pode se encerrar com alguns riscos, irreversibilidade e imprevisibilidade que nem sempre se pode prever se vai transcorrer normalmente ou se vai surgir complicações. Estas situações podem ser vivenciadas pela mulher de forma tranquila ou não, dependendo de sua adaptação (DAVIM; MENEZES, 2001).
O trabalho de parto (TP) é um processo fisiológico, através do qual o útero grávido expulsa os produtos da concepção após a 20a semana de gestação. Caracteriza-se pela existência de contrações uterinas regulares, com intensidade e frequência crescentes, eficazes para apagar e dilatar a cérvix uterina (REZENDE, 2000).
Para um trabalho de parto e o nascimento bem sucedidos é necessário que haja coordenação entre o feto, a pelve, as contrações uterinas, a placenta e a resposta psicológica da parturiente (BRANDEN, 2000).
Geralmente o parto normal ocorre de forma fisiológica, não trazendo complicações nem para a mãe e nem para o bebê. Pode ocorrer em instituições hospitalares maternidades – ou em casa de parto, e ainda no domicílio. O tempo de internação para este evento é de 24 a 48 horas. A recuperação materna após o parto normal é rápida (REZENDE, 2000).

3.3.2 Cesariana

Ao longo do século XX, os avanços da medicina transformaram o parto operatório em uma alternativa segura quando ocorrem complicações durante a gravidez ou o parto, gerando algum tipo de risco para a mãe, o bebê ou ambos. Entretanto, nos últimos anos, suas indicações vêm crescendo indiscriminadamente sendo muito utilizada, ocasionando aumento nos riscos de morbimortalidade materna e perinatal (FAUNDES; CECATTI, 1991, DIAS; DESLANDES, 2004).
Historicamente a cesariana surgiu como alternativa para situações extremas, como recurso para salvaguardar a vida do concepto ou da mãe (KATZ; CEFALO apud CECATTI et al., 2000). Até o final do século XIX, as estatísticas mundiais mostravam sobrevida materna à operação cesariana que não ultrapassava 50% (FRANCOME et al. apud CECATTI et al., 2000).
A cesariana pode ser definida como o ato cirúrgico que visa à retirada do feto da cavidade uterina pela incisão através das paredes do abdômen e do útero. Segundo Rezende (1995, p. 588) a cesariana ou cesárea é:
O ato cirúrgico que consiste em incisar o abdome e a parede do útero para libertar o concepto aí desenvolvido. É manifesta a tendência de ampliar-se a designação, nela incluindo todas as operações, laparotômicas ou vaginais, destinadas a extrair o feto, assim o crescido na matriz, como na trompa (cesariana tubária) ou no abdome.
De acordo com os autores acima citados são inúmeras as indicações para a cesariana, nas quais se destacam:
Paciente anteriormente cesareada;
Desproporção cefalopélvica;
Discinesias;
Distócias das partes moles;
Placenta prévia;
Descolamento prematuro da placenta;
Toxemia tardia;
Pós-maturidade;
Diabetes;
Doença hemolítica perinatal;
Sofrimento fetal agudo ou crônico;
Morte habitual do feto ou do recém-nascido;
Prolapso e procidência de cordão;
Primiparidade idosa;
História de partos laboriosos;
Antecedentes de operações plásticas ginecológicas;
Câncer genital;
Atos tocúrgicos intentados e frustrados per vaginam;
Morte da gestante com feto presumidamente vivo (cesárea post mortem) (REZENDE, 1995, p. 588).
Em relação às indicações das cesarianas, o Conselho Federal de Medicina (CFM) (1997, p. 18-19) informa que:
As repercussões da indicação do parto cirúrgico são sérias, pois acarretam quatro vezes mais risco de infecção puerperal, três vezes mais risco de morbimortalidade materna, aumento dos riscos de prematuridade e mortalidade neonatal, recuperação mais difícil da mãe, maior período de separação entre mãe/bebê com retardo do início da amamentação e elevação de gastos para o sistema de saúde.
Segundo Faúndes e Cecatti (1991), durante praticamente toda a década de 70 até quase metade da década de 80, supunha-se que a cesariana melhorava o prognóstico perinatal, o que serviu como justificativa para o aumento do número de cesáreas neste período. Hoje, já se sabe que os principais determinantes da diminuição da morbimortalidade perinatal observada em décadas anteriores foram os avanços no tipo, qualidade e disponibilidade dos serviços médicos em geral e dos obstétricos e neonatais, em particular, com a melhoria global na atenção à saúde materna, sem relação com a via de parto.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) (1996) defende que o uso considerado abusivo destas cirurgias se deve, sobretudo, pelo avanço tecnológico do procedimento. A vantagem da cesariana é que ela se dá praticamente sem dor e é mais rápido do que o parto normal, trazendo maior comodidade tanto para a futura mãe, como também para o médico que a atende.
De acordo com Cecatti (2002), vários fatores têm sido relacionados à indicação da via de resolução do parto: condição sócio-econômica, indicação médica, opção da parturiente ou do obstetra, condições institucionais e, entre outros, o antecedente de cesárea. Na atualidade podem-se observar as consequencias resultantes da realização indiscriminada de cesáreas pelo aumento de complicações obstétricas como placenta prévia, infecções, hemorragias e os vários graus de acretismo placentário.
Entre os fatores que influenciam a alta incidência deste tipo de parto nos últimos anos nas diversas regiões do Brasil, Faúndes; Cecatti (1991) mencionam os fatores socioculturais, institucionais e legais. Como fatores socioculturais, isto é, os que levam as mulheres e os profissionais de saúde a optar pelo parto operatório, destacam o medo da dor no parto normal e de possíveis lesões na anatomia e fisiologia da vagina e, a crença de que o parto vaginal é mais arriscado do que o parto cesáreo.
Já os fatores institucionais e legais, encontram-se principalmente ligados à forma de pagamento e à exclusão do pagamento de anestesia peridural para partos vaginais pelo SUS, a esterilização cirúrgica, realizada frequentemente durante o parto cesáreo eletivo e, a organização da atenção obstétrica, pautada pela conveniência de uma intervenção programada e muitas vezes, pela insegurança do médico do desenrolar de um parto normal (FAÚNDES; CECATTI, 1991).
As complicações maternas na cesariana podem variar de eventos menores como um episódio de febre ou a perda maior de volume de sangue, até eventos maiores como lacerações acidentais de vísceras, infecções puerperais e acidentes anestésicos (DIAS, DESLANDES, 2004).
O crescente número de cesarianas nos últimos anos coloca o Brasil entre os países que mais fazem este tipo de parto no mundo. Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM) (apud HOTIMSKY et al., 2002), dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS) do Ministério da Saúde apontaram taxa de 39,7% para 1997, sendo que esse número excluía hospitais privados e de convênio, que tradicionalmente apresentam taxas mais altas. Atualmente, dados apontados pelo Ministério da Saúde demonstram que a cesariana já representa 43% dos partos realizados no Brasil no setor público e no privado. Analisando apenas as mulheres que utilizam planos de saúde, esse percentual é ainda maior, chegando a 80%. No Sistema Único de Saúde, as cesáreas somam 26% do total de partos. De acordo com a recomendação da Organização Mundial da Saúde, as cirurgias deveriam corresponder a, no máximo, 15% dos partos (BRASIL, 2006).

3.4Determinantes para a escolha do tipo de parto

A atenção adequada à mulher no momento do parto garante que ela possa experimentar a maternidade com segurança e bem-estar, e respeita os significados dados ao nascimento por ela e sua família. A vivência do parto será mais ou menos prazerosa a depender de uma série de condições intrínsecas – idade, experiência em partos anteriores, experiência de parto de mulheres que lhe são próximas, planejamento da gravidez -, e outras relacionadas ao sistema de saúde – qualidade da assistência pré-natal e ao parto (BRASIL, 2001).
Desta forma, indagamos: Qual o melhor tipo de parto? Parto normal ou parto cesárea? Esta é uma discussão que surgiu junto com o início das intervenções cirúrgicas na gravidez e persiste até hoje em que a dúvida é ainda maior.
Em relação às vantagens e desvantagens e as formas da mulher parir, Vianna (2004) menciona que:
É sabido que o parto normal tem muitas vantagens em relação à cesariana: é o fisiológico – o corpo da mulher foi preparado para isso; a recuperação é muito mais rápida; há menor chance de hematomas ou infecções; menor risco de complicações para a mãe e para o feto; menor chance de dor pélvica crônica. Quanto à dor, com as técnicas de analgesia de parto utilizadas hoje em dia, essas podem ser evitadas.
A princípio então, deve-se pensar primeiro no parto normal, principalmente em se tratando de mulheres saudáveis e com gestações sem intercorrências. Mas, algumas chegam até o médico com muito medo do parto normal. Seja por antecedentes próprios ou familiares de um trauma qualquer ocorrido por ocasião de algum nascimento, seja por desconhecimento do que é um parto, seja pela insegurança que a aparente imprevisibilidade de um parto normal possa causar. Desse modo, algumas mulheres não conseguem sequer aventar a possibilidade de terem um parto normal preferindo o parto marcado, preparado, tranquilo, “seguro”. Muitas vezes, mesmo sendo informadas sobre os tipos de parto (normal e cesárea), sobre as vantagens e desvantagens de cada um, por vezes, não se consegue demovê-las desta idéia fixa, e o normal para elas seria a cesariana (VIANNA, 2004).
Neste processo, o parto passou a ser vivenciado como um momento de intenso sofrimento físico e psicológico. O medo, a tensão e a dor das parturientes nesse modelo de assistência impedem o processo fisiológico do parto normal, o que pode culminar com práticas intervencionistas que, na maioria das vezes, poderiam ser evitadas (OMS, 1996).

3.4.1A influência e a atuação médica

O parto normal, apesar de ser considerado uma alternativa mais favorável à saúde da mãe e do bebê, tem sido quase relegado ao esquecimento pela população e por parte dos profissionais da área médica. Faúndes e Cecatti (1991) comentam que a preferência dos médicos pela cesariana pode ter várias origens. Contudo, atualmente, o que domina é a conveniência de uma intervenção programada, que não tomará mais que uma hora de seu tempo, ao contrário do parto vaginal que pode ocorrer a qualquer hora do dia ou da noite, fins de semana ou feriados, e que ocupará um período maior e imprevisível de seu tempo. Ainda para esses autores, outro motivo seria pelo fato dos partos cesáreos serem considerados mais convenientes pelos médicos que o parto vaginal, em virtude de deficiências de treinamento na condução de partos complicados e medo de processo por imperícia.
Faúndes e Cecatti (1991) comentam que ainda não existe no Brasil qualquer estudo que determine a influência do fator do médico sobre a incidência de cesáreas. No entanto, Hauagge (2005) acredita que depois de uma campanha promovida pelo Ministério da Saúde, em 1998, que incluiu pagar menos por este tipo de parto ao hospital e ao médico, estabelecendo o limite de 40% de cesáreas para fins de pagamento, esse índice poderá diminuir. Confirmando isso, verifica-se que em 2003 que a taxa de cesáreas realizadas pelo SUS caiu para próximo de 25% em relação ao ano de 1995 em que essa taxa era de aproximadamente 33% (DATASUS, 2005).

3.4.2Fatores sócio-culturais e escolarização

Para Faúndes e Cecatti (1991) fatores sócio-culturais também podem afetar a decisão da mulher quanto à via de parto. Uma razão seria o medo da dor antes do parto e no parto, em que a gestante optaria pela cesárea eletiva, a qual é decidida com antecedência para dia e hora marcados e que permitirá a ela um parto sem qualquer dor, desde que receba também fortes analgésicos depois da cirurgia.
A outra razão é que a cesárea permite à mulher manter intactas a anatomia e fisiologia da vagina e do períneo, enquanto que o parto vaginal pode produzir perda da função do coito normal. Existe também o conceito popular de que o parto vaginal é mais arriscado para o feto do que uma cesárea. Assim, um mau resultado neonatal é muitas vezes atribuído ao fato do médico não se ter decidido por uma cesárea, ao invés de um parto vaginal (FAÚNDES; CECATTI, 1991).
Para Viggiano et al. (1982), Braga (1988) e Moraes (1982), o despreparo psicológico das mulheres para o parto vaginal condicionado pelo ambiente social e pelos meios de comunicação e falha do pré-natal neste aspecto, são fatores agravantes do índice de incidência de cesáreas, transformando-se em um fenômeno cultural que extrapola a área médica.
A maneira como se pratica a assistência obstétrica no Brasil também contribui para as expectativas quanto à via de parto. Para Hardy et al. (1988), o cuidado pré-natal, em geral, não prepara a mulher grávida psicologicamente para o parto, pelo contrário, o medo e insegurança que toda mulher grávida sente são mais estimulados do que prevenidos no pré-natal que ela recebe e no contexto social em que ela passa a sua gravidez. Portanto, o medo da dor no parto é exacerbado com as primeiras contrações uterinas, requerendo um apoio psicológico para a parturiente.
Alguns autores, como Paim (1998), afirmam que algumas mulheres entendem as dores do parto vaginal como algo inerente ao processo de parturição, sendo parte da experiência de tornar-se mãe (passagem para o status de adulta), levando-as à escolha pela via vaginal.
Diniz et al. (apud HOTIMSKY et al., 2002), definem as dores do parto vaginal como processo de naturalização do sofrimento. Corroborando essa idéia, Besio (1999), após enumerar justificativas para as altas taxas de cesárea, defende as razões para que os partos sejam vaginais. Para ele, a gravidez e o parto são processos naturais que acontecem por si mesmos, não necessitando da intervenção de terceiros. A cesárea seria uma intervenção médica sobre um processo que a natureza resolve e regula sem artifícios. No entanto, para Cecatti (2002), as discussões hoje estão mais centradas na escolha do tipo de parto pela mulher, sendo que se a maior parte preferia cesariana porque era vendida como um produto de qualidade, atualmente, estabelecidos o valor do parto normal bem feito e as possíveis complicações da cirurgia, a visão passa a ser mais favorável ao processo natural.
Estudos de Haidar et al., (2001), mostram que a baixa escolaridade materna está associada a um maior risco de mortalidade materna e a ocorrência de recém-nascido de baixo peso. Cita que as mães com menos de oito anos de escolaridade apresentam os maiores índices. Associando a baixa escolaridade (ensino fundamental incompleto) e o baixo padrão sócio-econômico das gestantes observa-se que essas mães apresentam menor ganho de peso na gestação, início tardio do pré-natal e maior número de filhos (mais de três), menor intervalo entre as gestações predispondo as crianças aos riscos.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Participaram do estudo 20 mulheres, sendo 10 gestantes que realizavam seu pré-natal na Estratégia Saúde da Familia (ESF) do bairro Parque do Lago II e 10 gestantes que realizavam o seu pré-natal no ambulatório do Hospital Evangélico Dr°. e Srª. Goldsby King. Para a apresentação e discussão dos dados, organizamos os mesmos em unidades temáticas abaixo apresentadas: Características Sócio-Demográficas e Reprodutivas das Gestantes e Determinantes para a escolha do tipo de parto.

CESARIANA X PARTO NORMAL 2/2

0

4.1Características Sócio-Demográficas e Reprodutivas das Gestantes

Em relação às características sócio-demográficas apresentadas na Tabela 1, encontramos mulheres com idade entre 17 e 43 anos tanto no setor privado como no setor público, sendo 10% com menos de 19 anos, 70% entre 20 e 34 anos e 20% com mais de 35 anos. Quanto à etnia, 70% eram brancas e 30% pardas nas duas instituições.
Quanto à escolaridade, 14 gestantes entrevistadas apresentavam ensino fundamental completo; entretanto, observou-se 50% com fundamental incompleto do setor público e somente gestantes do setor privado apresentaram ensino superior.
Para Haidar et al., (2001), a escolaridade materna está associada ao tipo de parto, sendo que as mães com maior escolarização apresentam uma chance seis vezes maior de terem filhos de parto cesáreo. Esse tipo de parto é decorrente tanto da opção da mãe como opção médica, pois, sendo que a cesariana tem um custo maior, as mães com maior escolaridade costumam ter melhores condições econômicas, podendo optar por ele. Relatam também que o número de consultas no pré-natal é maior nas gestantes que possuem maior instrução.
Em nosso estudo observamos que, nas gestantes com menor escolaridade o índice de abortos foi maior, fator constatado somente entre as usuárias do serviço público (50% das gestantes). Já no setor privado, em que as gestantes possuíam maior grau de instrução (ensino médio e/ou ensino superior) não houve relato de aborto.

Das entrevistadas, 80% responderam estar vivendo em algum tipo de união no momento da entrevista. No entanto, houve um maior percentual de solteiras no setor público (20%), em contraste com as gestantes do setor privado, que apresentaram o maior percentual de casadas: 80%.
Mais de 90% das entrevistadas do setor privado declararam ter ocupação remunerada, e 60% do setor público declararam serem do lar. Observou-se que a maior parte das mulheres do setor privado declarou renda familiar entre quatro e 12 salários mínimos (70%). Entretanto, 100% das mulheres do setor público informaram uma renda familiar inferior a três salários mínimos.
No Chile, Murray (apud FAISAL CURY; MENEZES, 2006) realizou um estudo retrospectivo com 540 puérperas e constatou que as mulheres que dispunham de assistência particular, ou seja, de maior nível socioeconômico, tinham maior chance de serem submetidas à cesariana do que as mulheres atendidas em serviços públicos. As possíveis explicações para esse fato incluem o tipo de cuidados médicos e de serviço hospitalar, bem como o modo de participação da mulher no processo decisório sobre o tipo de parto. No nosso estudo, o índice de cesáreas foi maior no setor privado do que no público, no entanto devido à pequena amostra de gestantes nos dois setores, não foi possível a associação entre motivação para cesariana e hospital (ou médico privado) no parto prévio.
A expectativa em relação ao parto está ligada à experiência vivida culturalmente por essa mulher. Sabe-se que a experiência do parto é influenciada por fatores como procedimentos obstétricos, os cursos de preparação para gestantes, a história obstétrica anterior, o desfecho de uma gravidez prévia e a experiência pessoal, ou familiar, que essa mulher tem em relação aos diferentes tipos de parto (LOPES et al., 2005).
Além disso, fatores ligados à assistência médica, à precária educação e orientação às gestantes, assim como causas de natureza econômica, têm, provavelmente, proporcionado elevado número de parto cesariano em detrimento do parto normal (FABRI; MURTA, 1999).
Com relação à idade gestacional três mulheres do setor particular se encontravam no primeiro trimestre de gestação e sete, entre o segundo e o terceiro trimestre de gestação, enquanto no setor público todas estavam entre o segundo e o terceiro trimestre de gestação.
No tocante ao número de consultas até o momento da entrevista, 40% das mulheres mencionaram ter realizado seis consultas de pré-natal. Entretanto, verificou-se uma diferença importante: enquanto no setor público cerca de 60% das mulheres referiram ter tido mais de seis consultas de pré-natal, no setor particular apenas 20% das mulheres alcançaram esse patamar.
No setor público, observou-se maior proporção de multíparas (acima de três gestações) (50%), contra 20% no setor privado

Para aquelas mulheres com história de partos anteriores, verificou-se uma mesma proporção de cesáreas entre os dois setores, no entanto foi observada maior proporção de parto normal no setor público.

4.2Determinantes para a escolha do tipo de parto

É importante destacar que o desejo pelo parto normal foi manifestado em 45% das entrevistadas. No tocante no parto operatório este índice aumentou para 55%, sendo que no setor privado sete gestantes preferiram cesárea e três, o parto normal. Já no setor público, seis gestantes escolheram o parto normal e quatro, cesárea, o que confirma a literatura estudada em relação ao aumento de cesáreas no Brasil, principalmente nas instituições privadas. Entre as primíparas, as usuárias do setor público preferiram o parto normal, enquanto que no setor privado, das cinco primíparas entrevistadas, duas preferiram o parto normal e três o parto cesáreo.

Tendo em vista as conclusões do Simpósio Cesariana: incidências de fatores que a determinam e consequências maternas e perinatais, realizado na Universidade de Campinas, (UNICAMP, 1983), os dados corroboram com nosso estudo confirmando-os quando dizem que, o aumento na incidência de cesariana é, porém diferenciado, observando-se ser relativamente menor nas camadas sócio-econômicas mais desfavorecidas e maior nas camadas mais favorecidas, que constituem a clientela particular.
A análise dos dados sobre o tipo de parto sugerido pelo médico no setor privado foi de dois partos cesáreos e dois partos normais, e um onde a gestante teve que aguardar o desenvolvimento da gestação. O restante das entrevistadas alegou não ter recebido sugestão do profissional. Já no setor público as gestantes mencionaram que houve sugestão para o parto normal.
Quanto às expectativas das gestantes entrevistadas acerca da via de parto, as narrativas foram agrupadas pela similaridade e analisadas sob uma perspectiva qualitativa, para melhor compreensão do conteúdo, respeitando-se as particularidades de cada pessoa, indicando assim as igualdades e as diferenças existentes em cada indivíduo.
A análise das falas das gestantes permitiu a construção de unidades temáticas expostas a seguir, contendo trechos das entrevistas feitas para melhor clarificar a idéia do conceito.

4.2.1 Dor e medo: o medo da dor

Nesta pesquisa, encontramos o medo como um fator sócio-cultural altamente contribuinte do parto cesáreo, confirmando os achados na revisão da literatura estudada de que a cultura influencia nos fatores emocionais contribuindo para o medo e a angustia relacionados à gestação e a parturição.
É comum as gestantes manifestarem medo do parto. Para Lopes et al. (2005), a realidade desse medo está presente, geralmente, pela sensação de dor inerente ao trabalho de parto, ou seja, as contrações.
Na realidade, pode-se dizer que o medo do parto pode ser considerado a expressão de vários sentimentos de ansiedade alimentados durante a gestação e que está estreitamente vinculado a elevação do risco de uma experiência negativa do parto.
As colocações feitas pelas gestantes ilustram bem a presença do medo da dor e sua correlação com o parto, especialmente para o parto normal.
[…] eu tenho medo de ficar sofrendo, minha mãe teve normal, e ela sentiu a dor e falou que dói muito, mas meu marido quer normal, mas eu não, não quero sentir dor (G6 particular).
[…] Quando eu fiquei sabendo que estava grávida eu queria normal, por causa da recuperação depois que é mais rápida, mas eu fui ficando com medo, com medo, com medo e ai eu optei por cesárea. Por que fiquei com medo da dor na hora, minha mãe, minha avó falaram que parto normal dói muito (G3 particular).
Mesmo as gestantes que tiveram parto normal anterior referem medo e ansiedade frente à vivência de uma nova experiência com relação ao parto.
[…] vai ser normal, mas eu to com medo de sofrer, porque eu tenho um casal e tive eles tudo normal e sofri muito, quase perdi um […] (G10 público).
Outro fator importante observado nas entrevistas aponta que a família também é determinante na escolha do tipo de parto pelas gestantes.
[…] minha família que falou como é o parto normal (…). Normal a gente sente uma dor (…) a cesárea a gente sente dor também na hora e depois, mas tenho muito medo do parto normal, morro de medo (G7 público).
[…] Eu recebi informações de um monte de pessoas de dentro de casa, porque na minha casa tem crianças. Falavam que o parto normal é bem melhor […] (G8 público).
[…] fiquei com medo da dor na hora, minha mãe, minha avó falaram que parto normal dói muito […] (G3 particular).
[…] Quero cesárea, eu tenho medo de ficar sofrendo, porque minha mãe teve normal, e ela sentiu a dor e falou que dói muito… não quero sentir dor (G6 particular).

4.2.2 Parto normal e rápido

O fato de o parto normal ser mais rápido foi uma expectativa citada nas falas, ligada à unidade anterior, já que a experiência de vivenciar a dor traz o interesse na evolução rápida do parto.
[…] quero normal. Espero que seja rápido igual ao outro (G7 particular).
[…] não sofrer muito, e que (o médico) tire o bebê rápido (G5 particular).
[…] Espero que na hora seja bom, que não demore muito, porque a dor é na hora […] (G3 público).

4.2.3 Tipo de parto

A expectativa em relação ao parto está ligada à experiência vivida culturalmente por essa mulher. Sabe-se que a experiência do parto é influenciada por fatores como procedimentos obstétricos, os cursos de preparação para gestantes, a história obstétrica anterior, o desfecho de uma gravidez prévia e a experiência pessoal, ou familiar, que essa mulher tem em relação aos diferentes tipos de parto (LOPES et al., 2005).
Além disso, fatores ligados à assistência médica, à precária educação e orientação às gestantes, assim como causas de natureza econômica, têm, provavelmente, proporcionado elevado número de parto cesariano em detrimento do parto normal (FABRI; MURTA, 1999).

4.2.3.1 Parto normal

Entre as gestantes que preferiram o parto normal, os motivos apontados foram: a recuperação pós-parto mais rápida, o medo de um parto cirúrgico e suas possíveis sequelas (hemorragia pós-parto, infecção dos pontos, entre outros).
Nas bibliografias editadas pelo Ministério da Saúde, para serem trabalhadas no contexto do PAISM, podemos colocá-las como responsáveis pelo aumento da preferência das gestantes pelo parto normal. No Brasil se abusa muito da cesárea, muitas vezes de maneira desnecessária. Na literatura são encontrados dados de que as cesáreas e abortos mal feitos são as principais causas da mortalidade materna (BRASIL, 1997). Algumas falas confirmam o exposto:
Eu quero normal… Tenho medo da cesárea, da cirurgia e daquela agulha que eles colocam nas costas da gente, e eu sei que é bem grande. Tenho medo de abrir os pontos também […] (G7 particular).
[…] Era cesárea, agora quero normal, porque o parto normal é mais rápido e recupera mais rápido para eu poder fazer as coisas e não precisar depender dos outros (G1 público).
[…] o parto normal é melhor mesmo, para nós mulheres, porque não pega nenhum tipo de doença… no parto cesáreo é perigoso a gente pegar alguma infecção por causa dos pontos […] (G3 público).
[…] a recuperação é mais rápida, não fica dependendo dos outros… a cesárea a gente depende praticamente 90 dias […] (G4 público).
[…] Quero normal, porque a dor é só na hora e depois que ganha pára, a recuperação é mais rápida e é melhor para o bebê porque é natural e é melhor pra ele (G5 público).
[…] Eu quero normal, porque é só àquela hora ali e depois em dois, três dias você já está boa, já pode andar e tudo mais (G9 público).
Entre as multíparas, as experiências anteriores de partos normais que lhes foram, em alguma medida, satisfatórias, fizeram com que escolhessem novamente o parto normal.
[…] o meu primeiro foi parto normal, então parto normal é bem melhor… eu me senti mais segura, foi rápido, não doeu muito e a recuperação é mais rápida, não fica dependendo dos outros […] (G4 público).
Eu quero normal, porque o meu primeiro foi normal e eu não senti muita dor, foi só àquela hora ali que estourou a bolsa e pronto, foi o tempo de chegar ao hospital e ganhar […] (G7 particular).
Um ponto interessante a ser destacado nas entrevistas foi a escolha do parto normal para incentivo de outras pessoas da família e o nível de informação acerca do parto, mesmo não sendo o parto normal sua escolha preferencial.
[…] normal, só para incentivar os filhos, porque para mim não dá certo, eu sei que é bom tanto para mãe quanto para o neném, é a recuperação, o leite para amamentação, que o leite aparece mais rápido, e o parto cesariano corre o risco durante a anestesia, e em minha opinião o parto normal é melhor (G4 particular).

4.2.3.2 Parto cesáreo

Segundo Siqueira et al., (1981), pesquisas realizadas na região sul e sudeste do Brasil demonstram um predomínio de partos cesarianos entre pacientes particulares e conveniadas em relação às demais. Do mesmo modo, no levantamento dos dados das entrevistas das duas instituições de níveis sócio-econômicos diferentes, também foi encontrada uma maior proporção de parto cesariano na instituição privada.
Autores como Rattner (1996) e Yazlle et al., (2001), mencionam que as principais indicações não médicas para o parto operatório são: a conveniência do médico, o fato da cirurgia ser vista pela população como um bem de consumo, o desejo de aproveitar o procedimento cirúrgico para fazer laqueadura e o medo da dor e lacerações vaginais que podem aparecer no parto vaginal.
G6, usuária do serviço público, comenta sobre a preocupação com o parto normal por complicações clínicas, como mostra a fala a seguir:
[…] falaram que o parto melhor é o normal, mas pra mim não, quero cesárea… eu tenho varizes na vagina então tem que ser o parto cesáreo, porque da outra que tive foi o parto normal e ela nem estava encaixada, o médico me fez ficar até ela sair, então por isso eu não quero mais para não ter a mesma experiência da outra.
Os dados encontrados nessa pesquisa mostram que a maioria das mulheres entrevistadas, tanto da instituição privada como da pública, fazem a opção inicial pelo parto normal. Entretanto verificou-se maior influência do médico, na preferência pela cesárea na instituição privada o que confirma o que foi exposto anteriormente.
O médico me falou na primeira consulta que normal não era muito bom… porque o bebe sofre mais, ele disse que cesárea era melhor… eu queria normal, por causa da recuperação que é mais rápida, mas fui ficando com medo e optei por cesárea. […] (G3 particular).
[…] O médico me disse que cesárea é melhor, porque eu posso escolher o dia e a hora de ganhar, sem dor. […] (G9 particular).
Vianna (2004) também cita a cesárea como bem de consumo nas regiões mais desenvolvidas, visto que em clínicas particulares o número de cesáreas é bem maior, pois na prática a parturiente acaba tendo maior direito de escolha e os médicos não são obrigados a se submeter a protocolos internos como no setor público.
Não recebi informações. Quero cesárea. Porque cesárea não sente dor, é mais prático […] (G5 particular).
No caso das multíparas, a escolha pela cesárea como facilitador para um método contraceptivo definitivo, a laqueadura, e experiências reprodutivas anteriores favoráveis à cesariana também estiveram associados à escolha desse tipo de parto.
[…] como tive pré-eclâmpsia na gravidez anterior e quero fazer laqueadura, então eu quero cesárea […] (G1 particular).
[…] Minha preferência inicial seria normal, mas como eu vou laquear então não tenho muita escolha, vou fazer cesárea (G2 particular).

4.2.4 A realização do Pré-Natal

OBA (1996) expõe que a consulta de enfermagem e as outras atividades educativas desenvolvidas pelo Enfermeiro parecem ser preenchedoras das lacunas deixadas pela consulta médica, que na maioria das vezes enfatiza unicamente os aspectos biológicos. Assim, a consulta de enfermagem associada a atividades educativas torna-se um espaço importante de discussão e orientação para as gestantes.
O acesso à informação durante a gestação também foi bastante diferenciado nos dois setores (público e privado). As mulheres do setor público relataram se sentirem mais informadas sobre as vantagens e desvantagens dos diferentes tipos de parto (60%) em comparação às mulheres do setor privado (40%).
Pelos depoimentos a seguir, pode-se observar que durante as consultas no pré-natal muitas dúvidas não foram esclarecidas.
O médico falou que ainda não é hora para eu escolher o parto… que ainda não é o momento para eu saber (G6 particular).
Eu quero normal agora, porque antes eu queria cesárea, tinha medo de sentir dor, mas o médico me disse que tenho tudo pra ser normal e que eu não iria fazer cesárea, de jeito nenhum… (G8 particular).
Ninguém me disse nada no consultório, eu fui atrás para saber na internet. Porque eu perguntava para meu ginecologista e ele dizia que era cedo para eu saber que parto escolher, que eu tinha que me preocupar com minha saúde e do bebê, porque o parto depende disso […] (G10 particular).
A Enfermeira falou que parto normal é melhor porque não fica muito deitada, é mais rápido, é melhor para gente e para o bebê […] (G3 público).
Na consulta ele (o médico) não conversa com a gente sobre os tipos de parto, ele conversa sobre de como está o bebê, como eu estou, se sente dor, mais voltado para o bebê (G4 público).
[…] a Enfermeira me falou que é melhor o parto normal porque o bebê não tem sequela, e é mais rápido, é só àquela hora e pronto… (G9 público).
Os dados permitem concluir que o parto normal era o tipo de parto esperado pela maioria das mulheres do setor público (60%), sendo que essa expectativa diminui dentre aquelas do setor particular (30%) que preferiram o parto normal. A principal justificativa para preferir a via vaginal para o parto foi a recuperação mais rápida e para a escolha da cesárea, o medo da dor. Com isso, fica claro a importância da assistência pré-natal como dimensão educativa para contribuir com o acréscimo de informações que as mulheres possuem sobre seu corpo e valorizar suas experiências de vida. No entanto, infelizmente, essa dimensão educativa foi, na maior parte, observada através das falas das gestantes do setor público.
Rios e Vieira (2007) acreditam que o processo educativo (educação em saúde) é fundamental não só para a aquisição de conhecimentos sobre o processo de gestar e parir, mas também para o fortalecimento da gestante como ser e cidadã. Desta forma, o pré-natal é um espaço adequado para que a mulher se prepare para viver o parto de forma positiva, integradora, enriquecedora e feliz.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com este estudo de trabalho de conclusão de curso, procuramos identificar as expectativas de gestantes com relação ao tipo de parto preferido por elas, bem como os motivos de sua escolha. Foi desenvolvido com gestantes atendidas em uma ESF e no ambulatório de um hospital privado.
Fizeram parte da pesquisa 20 gestantes, com idade entre 17 e 43 anos, a maioria é branca. Ainda, grande número das entrevistadas disse estar vivendo algum tipo de relação conjugal e apenas duas disseram ser solteiras. A maior parte apresentava ensino fundamental completo, e apenas gestantes do setor privado relataram ter o ensino superior. Quanto à renda, todas do setor público mencionaram receber menos de três salários mínimos, já no setor privado a maioria disseram receber mais de quatros salários mínimos. Quase todas as entrevistadas do setor particular exercem atividade profissional, sendo que no setor público mais da metade são do lar. Quanto ao número de gestações, houve maior multiparidade no setor público, e também presença de abortos entre usuárias do setor público. Com relação ao tipo de parto escolhido, a maioria relatou preferir o parto normal, no entanto no setor privado houve maior preferência pela cesariana.
A pesquisa mostrou que há divergencias entre a percepção dos médicos a respeito da opinião das mulheres e a real opinião/preferência das mesmas sobre a via do parto. Isso nos leva a concluir de que a percepção do profissional nem sempre é a mesma das preferências das mulheres. Buscar uma melhor comunicação e orientação às gestantes poderia diminuir os altos índices de cesárea e evitar mortes desnecessárias relacionadas às suas complicações como, por exemplo, maior risco de hemorragia e infecção.
Conforme ressalta o Ministério da Saúde (BRASIL, 2001), na orientação sobre o melhor tipo de parto estão implicados necessidades, riscos e benefícios, complicações e repercussões futuras, sendo importante à informação e formação de opinião entre as mulheres, para que elas possam reivindicar aquilo que é melhor para a sua saúde e a de seus filhos, pois, embora profissionais e mulheres possam fazer a opção antecipada do tipo de parto, esse fato não pode ser visto como uma simples questão de preferência (OLIVEIRA et al., 2002).
Balan e Serafim (1996) apontam que a assistência pré-natal adequada durante a gestação realizada por uma equipe multiprofissional é medida essencial para preservar a saúde da gestante e do feto. Pelos resultados de nosso estudo concordamos com este mesmo autor quando ele cita que a participação do Enfermeiro no atendimento às gestantes de baixo risco é de fundamental importância para a orientação das queixas comuns destas mulheres, educação à saúde, discussão dos temores próprios desta fase e de atitudes que favoreçam a evolução fisiológica do período gestacional e do parto. Salientamos que, nossa vivencia na área da obstetrícia enquanto acadêmica de um curso de Graduação em Enfermagem nos mostrou que a ausência de um atendimento pré-natal que prepare a gestante para o parto vaginal está entre um dos fatores agravantes dos índices de cesarianas.
Com relação às expectativas para o tipo de parto encontrado junto às gestantes entrevistadas, o medo de sentir dor foi o mais referido. Nesse caso, as colocações foram feitas de diferentes formas, a maioria referindo o medo do próprio trabalho de parto, outras com relação ao pós-parto, devido a histórias pregressas e familiares de vivência de dor nessa fase. Esses dados são corroborados por outras pesquisas como a de Lopes et al., (2005), nas quais visualizaram a mesma preocupação por parte de gestantes entrevistadas.
Com os resultados de nosso estudo, sentimos a necessidade de mudança nas filosofias institucionais (tanto no serviço público como no privado), para que recebam a gestante com respeito, ética e dignidade, além de serem incentivadas para o exercício de sua autonomia no resgate do papel ativo da mulher no processo parturitivo, para que esta tenha o direito de escolha sobre a preferência do tipo de parto, bem como ser ouvida e esclarecida de suas dúvidas e temores em relação ao mesmo.

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A MUNDIALIZAÇÃO DO CAPITAL

1

A Mundialização do capital

“Os sinais presentes sugerem que os banqueiros do mundo tem propensão ao suicídio (…) já se deixou que as coisas fossem tão longe que se tornou extraordinariamente difícil encontrar uma saída”
John Maynard KEYNES – Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro -Inflação e Deflação

Esta citação de Keynes, escrita no início do século passado, relatava o espanto de como a riqueza dos ativos reais de uma economia transmutavam-se em capital no sistema financeiro, precisamos lembrar que quando Keynes fez sua obra, ele o fez tendo a experiência da crise de 1929 viva em sua mente, e também é espantoso a atualidade deste comentário.
Dizem que a geopolítica é a incorporação geográfica da política, do poder, como tão bem nos lembrou o sueco Rudolf Kjellén, em seu artigo “As grandes potências”, publicado em 1905, quando utilizou pela primeira vez o termo geopolítico, embora a compreensão política do território já fosse algo analisado desde Aristóteles, Sun Tzu, Maquiavel entre outros, sem esquecer os clássicos da geopolítica, como Ratzel, Mackinder, Mahan, Haushofer entre outros, que compreendiam a importância do território para determinar os meios de ação que os atores, no caso o Estado, possuem para que possam agir no ambiente, na verdade determinar os meios de ação que são possíveis, determinar a sua capacidade de poder.
É interessante abordar a questão da mundialização do capital e as crises econômicas mundiais fazendo um paralelo com a ótica geopolítica, pois esta representa uma percepção de ação do Poder, no caso pela via geográfica, para que os Estados possam concretizar seus projetos e sua interação externa, e mesmo o potencial de ação internacional, em suma, as ferramentas de ação que o Estado tem a sua disposição para que possa agir, o Estado possui consciência dos limitantes e vantagens do seu território, é um elemento previsível, e lógico, visível e real.
Já quando falamos de crises econômicas mundiais, entramos em um território enevoado que normalmente só torna-se claro quando a turbulência já passou, e então vemos inúmeros economistas criticando tal ou tal ação econômica de um determinado governo como culpado pela crise que foi instaurada, na verdade há um adágio que dita que os economistas são os profetas do passado… o que por si não é algo necessariamente ruim, o pior é a visão, iniciada na década de 50 e muito forte em início de 70 de tornar as ciências humanas exatas como um cálculo matemático, onde ao analisarmos dois fatores, teríamos como soma final um terceiro fator dado como certo, esta deturpação na economia também foi visto em outras ciências humanas, como a história, a geografia e até mesmo no campo das Relações Internacionais, onde esta ação behaviorista utilizou-se em demasia gráficos, planilhas, dados estatísticos, para dar uma ar de ciência exata, calculável, a algo que em princípio é impossível de auferir previsibilidade, que é a realidade, o objeto de estudo destas ciências.
Para entendermos o processo das crises econômicas mundiais precisamos entender a dinâmica do capital e sua evolução ao longo do tempo, a formação do capital financeiro através da junção do capital bancário mais o capital industrial, a mundialização do capital produtivo através dos Investimentos Diretos Estrangeiros, a mundialização do capital financeiro, na forma de Investimentos Indiretos, capitais especulativos etc, precisamos olhar também a questão da revolução na informática e nas telecomunicações, é preciso também entender os processos políticos e econômicos e suas respectivas forças centrípetas (de unificação) e centrífugas (fragmentação) e como estas afetam as economias das nações. É preciso enfim, analisar as crises tendo como pano de fundo cenários políticos e econômicos.
Uma das características das crises econômicas mundiais e da mundialização do capital é que a velocidade de propagação e a intensidade da movimentação dos fluxos financeiros tornaram virtualmente impossível o seu controle a partir da deflagração, a possibilidade de operar em diversos mercados ao redor do mundo faz com que os capitais operem alheios à vontade dos Estados Nacionais, e estes possuem pouca eficácia com seus instrumentos de política monetária e fiscal, na verdade acabam sendo dependentes do capital externo para viabilizarem suas políticas econômicas ou mesmo sua balança de pagamentos. Um dado interessante é que entre 1980 e 1990, o volume mundial de transações de ações através da fronteiras se elevou em 28% ao ano, de US$ 120 bilhões para US$ 1,4 trilhões anuais, o que mostra a força e a velocidade deste processo.
Uma sensação, talvez provocada pelo distanciamento histórico dos fatos, é a de que as crises econômicas mundiais sejam um aspecto novo, mas sempre houve na história do capitalismo os chamados “crashs”, sendo inerentes ao próprio sistema capitalista, como já proferira Schumpeter em sua tese “Destruição Criadora”, ou mesmo Karl Marx em seu “Manifesto Comunista”. O Brasil já enfrentou ao longo de sua história diversas crises econômicas, podemos enumerar o, a suspensão da conversibilidade dos mil-réis a partir da crise de 1929, as moratórias inevitáveis durante a depressão dos anos 30, as sucessivas negociações com os credores oficiais e com o FMI no final dos anos 50 e começo dos anos 60, a crise da dívida externa nos anos 80, as crises asiáticas, russas e a mais recente, ainda não transfigurada em crise, mas com o elemento catalisador da maioria das crises de financiamento do capital, que é a suspeita de solvência da economia de um país, no caso, dos papéis e títulos públicos do governo brasileiro e a capacidade de serem pagos estes juros, a suspeita faz com que a rolagem da dívida possa não ser feita, o que provocará medidas na política de câmbio ou de juros na economia.
Se olharmos, no entanto, o que ocorria há vinte e cinco anos atrás, podemos verificar o impressionante volume de instrumentos de política disponíveis para os governos interferirem em suas economias, através de impostos, gastos públicos, taxa de juros, controles de crédito, taxas de câmbio, controles de capitais e políticas de renda. Com as mudanças provocadas com a mundialização, os instrumentos de intervenção governamental perderam grande parte de sua força.
O mercado global de capitais funciona segundo as regras do mercado, nada mais é do que um mecanismo de formação de preço dos capitais e de alocação aos seus usos mais produtivos. Os mercados agem recolhendo e processando informação, funcionando como um espelho da realidade da situação econômica, a crise do México tinha como pano de fundos desequilíbrios econômicos e erros da política doméstica.
Já dizia Adam Smith, em seu livro “A riqueza das Nações”, – “… o bom pagador é dono da bolsa alheia” – os mercados seguem uma lógica similar, eles deslocam capital dos centros onde é abundante e migra para onde há as oportunidades, nos países subdesenvolvidos, emergentes, carentes de capitais para fortalecer/alimentar sua economia de crédito e poupança. O problema ocorre quando o mercado, como no momento atual, está avesso a qualquer suspeita de risco mais elevado, a crise brasileira, embora ainda não configurada como uma crise, já possui o estopim para tal, já que há um questionamento da solvência da economia brasileira, mais específco, a solvência da dívida pública interna, compostos de empresas multinacionais e as próprias pessoas físicas, que temem que o governo brasileiro torne-se insolvente.
O grande problema, já dito no início, é como parametrizar um dado que é no mínimo, subjetivo, que é a solvência, que não significa se um país pagou ou não tal título, mas a confiança que o mercado possui em uma economia, em um país, e classificá-la nos índices do Moody´s ou do Standard & Poors para os riscos dos países para os investidores, embora muitas vezes estas agências constatam erros ou distorções nas economias de diversos mercados, há certo exagero em algumas classificações, como colocar uma economia com a nossa abaixo da Nigéria, o que ocorria há alguns dias e pode voltar a acontecer, mesmo com uma economia complexa como a nossa.
Um dos grandes problemas em um cenário como este é como repensar a forma de conduzir a política econômica dos Estados, afinal, na medida em que os mercados financeiros cresçam e as ligações entre os mercados se aprofundem, esses mercados funcionarão como um único mercado na avaliação dos riscos (e nas decisões de investimento), se tal fato ocorrer, como é provável, o mercado de capitais terá um papel cada vez mais importante na determinação das taxas de câmbio e de juros, afetando substancialmente as políticas monetárias e fiscais domésticas, em um cenário como este, é cada vez mais difícil até mesmo para pensarmos em uma Política Externa Independente, que penso eu, foi descontinuada a partir de 82, com as renegociações da dívida externa, embora muitos digam que com a ditadura houve um alinhamento automático.
Há crises mais recentes no cenário internacional, como a recente crise argentina, mas como ainda não está claro quais serão as soluções para este problema resta esperar para verificarmos as ações da comunidade internacional e as reações da economia argentina, por sinal, um dos maiores exemplos de fragilidade dos Estados Nacionais e da capacidade de correção do mercado quando há distorções macroeconômicas dos países.
A mundialização do capital provocou maiores oportunidades de interação entre as nações, ao mesmo tempo também aprofundou as dependências das economias da periferia às potências, tornando mais difícil administrar as políticas monetárias e fiscais, embora sempre o foram, o que torna-se imperativo é uma discussão em torno do regulamento do sistema financeiro, por ora, a melhor medida para proteger-se de futuras crises é estabelecer políticas econômicas consistentes, de buscar uma maior compreensão da natureza do problema do que em uma cruzada contra a globalização ou os mecanismos da economia moderna

A GLOBALIZAÇÃO E SEUS IMPACTOS NA ECONOMIA

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A GLOBALIZAÇÃO E SEUS IMPACTOS NA ECONOMIA

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
A GLOBALIZAÇÃO E SEUS IMPACTOS
COMO ENFRENTAR OS NOVOS DESAFIOS DA ECONOMIA
MUDANÇAS NAS REGRAS DO JOGO DA MACROECONOMIA
A GRANDE MUDANÇA
AS FACES DA GLOBALIZAÇÃO
PÓS E CONTRAS
CONCLUSÃO
BIBLIOGRAFIA

INTRODUÇÃO

Na atualidade, vivemos o aprofundamento da inovação da globalização, onde indústria e conhecimento espalham-se por todos os cantos do planeta. Todas as nações são dependentes umas das outras, porém esse movimento não é atual, ele iniciou-se no século XVII e acelerou no século XIX.
Esse movimento de evolução tecnológica e Interdependente de mercado faz que as mudanças sejam cada vez mais rápidas e essas cada vez mais fortes geram uma necessidade de acompanhamento do capital humano nos países em especial nos países em desenvolvimento para conseguirem acompanhar o nível de concorrência Internacional.
O Brasil encontrava-se em meio a esse turbilhão de mudanças globais e além de receber os bônus, também sofreu com o ônus dessas mudanças. A economia brasileira necessita adaptar a realidade atual para ser competitivo no mundo globalizado
O presente trabalho tem por objetivo verificar de forma superficial os impactos da abertura comercial e da evolução tecnológica no mercado de trabalho do Brasil e analisar a sua evolução após a abertura comercial do país na década de 90 até os dias de hoje, conforme as visões de diferentes autores.
A compreensão do mundo globalizado permite desvendar a natureza das transformações econômicas, sociais e políticas da natureza da atualidade. Porém devemos ter cautela para não usarmos globalização como uma palavra mágica que explica tudo e qualquer coisa. Isso porque a globalização interage com as realidades nacionais e locais, alterando a sua forma de relacionamento com o mundo externo, mas sem eliminar as suas características peculiares.

A GLOBALIZAÇÃO E SEUS IMPACTOS

O mundo passa por mudanças drásticas, onde distâncias que até ontem eram percorridas em alguns meses, hoje, essas mesmas distâncias são percorridas em algumas horas. Mensagens que demoravam vários dias para serem entregues aos seus destinatários, hoje são instantâneas. Nunca a humanidade produziu tantos bens e serviços quanto na atualidade, em pouco mais de 300 anos a humanidade desenvolveu-se muito mais que todo o período anterior de sua história.
Tendo uma visão apenas da Globalização econômica da História, vamos encontrá-la já muito antes do Império Romano. A Globalização aparece na constituição do Império Chinês; na civilização egípcia, que manteve o domínio de todo o continente africano; Na Grécia, que apesar das cidades-estado, que mesmo independentes viam uma globalização da economia. O que os Romanos fizeram foi jurisdicizar a Globalização da economia. Os gregos descobriram o direito. Mas é em Roma que o direito surge como instrumento de poder, pois só assim os romanos poderiam organizar e controlar o Estado. Além disso, com a expansão territorial, os romanos se vêem obrigados a construir uma rede de estrada, que possibilitou a comercialização e a comunicação entre os diversos povos.
Porque os portugueses se lançaram às grandes descobertas? Não só para se proteger dos mouros espanhóis, mas também para procurar novas rotas comerciais de globalização. Nesses séculos (XIV e XV), ocorreu um descompasso entre a capacidade de produção e consumo. O resultado disso era uma produtividade baixa e falta de alimento para abastecer os núcleos urbanos, enquanto a produção artesanal não tinha um mercado consumidor, a solução para esses problemas estava na exploração de novos mercados, capazes de fornecer alimentos e metais ao mesmo tempo, aptos a consumir os produtos artesanais europeus.
Outro exemplo que temos é do século XIX, chamado de Imperialismo ou neocolonialismo. Ocorreu quando a economia européia entrou em crise, pois as fábricas estavam produzindo cada vez mais mercadorias em menos tempo, assim, com uma superprodução, os preços e os juros despencaram. Na tentativa de superar a crise, países europeus, EUA e Japão buscaram mercados para escoar o excesso de produção e capitais. Cada economia industrializada queria mercados cativos, transformando o continente Africano e Asiático em centro fornecedor de matéria prima e consumidores de produtos industrializados, gerando com isso um alto grau de exploração e dependência econômica.
Podemos comparar essa dependência econômica e exploração com os dias de hoje, pois é difícil de acreditar na possibilidade de os países desenvolvidos serem generosos com os demais, os emergentes e subdesenvolvidos.
Já no final dos anos 70, os economistas começaram a difundir o conceito de globalização, usados para definir um cenário em que as relações de comércio entre os países fossem mais freqüentes e facilitadas. Depois, o termo passou a ser usado fora das discussões econômicas.
Assim, as barreiras comerciais entre os países, começaram a cair, com a diminuição (a eliminação) de impostos sobre importações, o fortalecimento de grupos internacionais (como o MERCOSUL ou a Comunidade Européia) e o incentivo do governo de cada país à instalação de empresas estrangeiras em seu território.

COMO ENFRENTAR OS NOVOS DESAFIOS DA ECONOMIA

Na historia de hoje a economia mundial presencia mudanças bruscas nas expectativas em relação ao futuro como a ocorrida nos primeiros anos deste século. O fim do século XX havia sido marcado por um grande otimismo, pelas bondades do sistema capitalista, sua capacidade de gerar crescimento e bem-estar e o processo de globalização. Neste contexto, as principais preocupações das lideranças empresariais em todo o mundo concentravam-se em manter o crescimento, atrair e reter os melhores talentos, aprofundar a orientação ao cliente, alavancar adequadamente as novas tecnologias e transpor os mercados dos grandes países emergentes como China, Índia e Brasil. O impacto destes acontecimentos não se fez esperar, alterando completamente a agenda empresarial, que passou a focalizar e eficiência de curto prazo, o desenvolvimento de método para recriar a credibilidade na gerencia e governo corporativos e a adaptação do modelo de negócios aos novos cenários.
Em 1865, quando o presidente dos EUA, Abraham Lincoln, foi assassinado, a notícia levou 13 dias para chegar à Europa. Hoje em dia bastam apenas alguns segundos para uma notícia qualquer cruzar o planeta, seja por telefone, seja por fax ou até mesmo pelas redes de TV. Além disso, o mundo inteiro acompanha o fato de mulheres canadenses conquistando o direito de andarem de seios nus em qualquer lugar, ou as pessoas do mundo inteiro cada vez mais comendo nas mesmas cadeias de fast food, bebendo os mesmos refrigerantes, vestindo jeans, ouvindo músicas semelhantes e assistindo aos mesmos filmes.
Em 1950 eram necessárias 18 horas para um avião comercial cruzar o oceano Atlântico, fazendo a rota NY-Londres. Em 1990 essa rota era feita em somente 3 horas, por um avião supersônico, e até o final do século esse tempo vai se reduzir ainda mais.
Em 1980 o volume dos investimentos de residentes de um país nos mercados de capitais (compra de ações de empresas) de outros países atingia a quantia de 120 milhões de dólares; em 1990, dez anos depois, esse valor já atingia a casa dos 1,4 trilhões de dólares, Isso quer dizer que as economias nacionais estão se desnacionalizando em ritmo acelerado, pois os norte-americanos possuem ações ou títulos de propriedades no Japão, na Europa e na América Latina, japoneses investem em empresas norte-americanas ou coreanas, as alemãs compram ações de firmas russas ou tailandesas, etc.
A Globalização está associada a uma aceleração do tempo. Tudo muda mais rapidamente hoje. E os deslocamentos também se tornaram muito rápidos, o espaço mundial ficou mais integrado.

MUDANÇAS NAS REGRAS DO JOGO DA EVOLUÇÃO MACROECONÔMICA

O fim da década de 90 foi inicio de um longo período dominado pela recessão de deflação de preço que provocou crescentes tensões e modificou as expectativas em relação ao potencial de crescimento da economia e a solvência do setor público. Naquela ocasião, inúmeros problemas emergiram com força progressiva e a economia ficou vulnerável aos choques externos e provocou o agravamento da fragilidade do sistema financeiro. Certo viés anticompetitivos da estrutura de preços; os problemas de equilíbrio entre o destino do gasto e do investimento e suas formas de financiamento, a sustentabilidade fiscal e sua relação como o sustento de um câmbio fixo nominal a presença de forças endógenas que induziam um ajuste recessivo e uma modernização heterogênea do aparelho produtivo, que era insuficiente para dotar e economia de maiores e crescentes níveis de produtividade.
A crise pela qual passávamos transformou uma longa e profunda recessão, com um progressivo aumento nos índices de desemprego, pobreza e indigência e um moderado processo de deflação pela impossibilidade, quase absoluta, de financiar o desequilíbrio de maneira voluntária. Aos poucos, a dúvida sobre a capacidade de sanar a crescente divida publica e sobre a sustentabilidade do regime monetário e do sistema de contratos associados se transformaram em incertezas. A existência de uma profunda crise política, o agravamento da dificuldade social e a quase inexistente credibilidade nas sucessivas políticas econômicas que foram ensaiadas as vésperas da queda final do regime agravaram o panorama. Nessas circunstâncias, houve uma violenta e acelerada queda de deposito bancários, juntamente com um processo de evasão de divisas, que levou a imposição de restrições aos fundos do sistema financeiro e ao controle de pagamentos ao estrangeiro.
O saldo comercial foi extraordinariamente elevado, devido à abrupta queda das importações, gerando um considerável superávit na conta corrente. O investimento caiu violentamente, ao mesmo tempo em que cresceram as reservas. Apesar do ambiente conturbado, o peso se manteve como referência de preço e media de câmbio. Ainda que os preços internos tenham crescido consideravelmente, não foi observado o ressurgimento de comportamentos adaptados a uma conjuntura inflacionária persistente.
Nos anos 90 um dos problemas básicos da economia era a geração de exportações suficientes para sustentar os níveis de gastos em dólares já vigentes, depois da desvalorização, era a demanda interna que aparecia como inusitadamente comprimida em comparação com a exportação. De qualquer modo, essa variação na balança comercial gerou uma margem para que pudesse haver uma importante recuperação da demanda internam, sem que fosse necessário um financiamento liquido do exterior, e sim uma diminuição da saída de fundos.
A partir da segunda metade de 2002 configurou uma situação de tendências a normalização. Do ponto de vista do processo de dotação de recursos, a estrutura de incentivos implícita nos novos preços relativos da economia redefiniu o incentivo implícito a favor dos bens comercializáveis dos processos intensivos em trabalho e das vantagens naturais. ,

A GRANDE MUDANÇA (AS FORCAS POR TRÁS DA TRANSFORMAÇÃO)

Durante uma crise ou recessão profunda, o administrador só pensa em metas de desempenho de curto prazo, como corte de custos, faturamento e aumento da participação de mercado. Já economistas monitoram dados como crescimento do PIB, taxa de desemprego e saldo da balança comercial para medir a saúde da economia como um todo. O problema é que o foco exclusivo em indicadores tradicionais costuma ocultar fatores de mudança ao longo prazo, forças que minam fontes normais de valor econômico. Alias normal pode ser coisa do passado: mesmo quando a economia se reaquece, o retorno de empresas continuara sob pressão.
Anteriormente registram rápidos surtos de inovação na tecnologia subjacente, o telefone, o motor de combustão interna, rapidamente se estabilizam. Hoje, ainda não há sinais de estabilização. Isso sugere não só que a intensidade competitiva continue a crescer, mas também que a infraestrutura digital seguira turbinando o potencial (e a necessidade) de inovação na empresa.
Os gestores neste momento definitivamente difícil apresentaram um marco para que entenda três ondas de transformação no cenário competitivo: bases para mudanças importantes; fluxos de recursos, como conhecimento, que permitem à empresa aumentar a produtividade; e o impacto dessas bases e desses fluxos sobre a empresa e a economia. Juntos, esses fatores refletem o que chamamos de a Grande mudança no cenário global de negócios
O maior impacto sobre a atividade empresarial nas ultimas quatro décadas. Esse conjunto de indicadores revela que o desempenho de empresas americanas sofre pressão cada vez maior. Seu retorno sobre o ativo (ROA) médio caiu sem parar. Hoje, equivale a quase um quarto do que foi em 1965, apesar do aumento da produtividade da mão-de-obra. Para piorar, até as empresas de melhor desempenho estão penando para manter o nível do ROA e perdendo a posição de liderança a um ritmo ainda maior. O paradoxo do ROA menor e da produtividade maior se explica, pelo menos em parte, pelo aumento da remuneração total de trabalhadores do conhecimento e de outros funcionários de talento, bem como pelo crescente poder do consumidor sobre empresas que, na disputa por clientes, acabam anulando cortes de custos. Um exame ainda detido da situação mostra um descompasso fundamental entre a mentalidade da empresa de hoje e o ambiente no qual compete.
Elementos da grande mudança
A primeira onda estrutural da Grande mudança consiste de extraordinárias transformações na infraestrutura digital que trazem produtividade, transparência e conectividade muito maiores. È só pensar em como a tecnologia digital pode ser usada por empresa para criar ecossistemas de usuários, designers e fornecedores diversos e dispersos, ecossistemas nos quais inovação em produtos e processos traz ganhos de desempenho sem o acréscimo de muita complexidade.
A segunda onda envolve a crescente circulação de conhecimento, observados em qualquer ambiente social fluido no qualquer ambiente social fluido na qual possa haver aprendizado e colobaração, rapidamente se tornam uma das fontes mais cruciais de geração de valor. O mesmo vale para empresas que trabalham em problemas similares e se situam próximas umas das outras. Instituições do século 20 formaram e protegeram reservas de conhecimento, recursos exclusivos aos quais ninguém mais tinha acesso. Quanto mais o ambiente de negócios muda, no entanto, mais depressa cai o valor do conhecimento detido em determinando momento. O sucesso depende as capacidade de participar de uma crescente leva de fluxos de conhecimento, que o conhecimento seja rapidamente atualizada,. Quando tenta melhorar o tempo do ciclo de um processo de produção, a solução de problemas moldada por experiências, perspectivas e aprendizados.
Fluxo de conhecimento pode ajudar a empresa a conquistar vantagem competitiva numa era de ruptura quase que ininterrupta.
A boa noticia é que uma robusta tecnologia de base está viabilizando fluxos de conhecimento muito mais ricos e diversos. A má é que certas mentalidades e praticas tendem a inibir a geração desses fluxos e a participação neles. Daí a importância que atribuímos a isso na segunda onda da Grande Mudança. A quantidade e a qualidade dos fluxos de conhecimento de uma empresa, determinadas em parte pela existência de abertura, de equipes multifuncionais e de partilha de informações, serão indicadores cruciais de sua capacidade de lidar com a grande mudança e de transformar em oportunidade desafios de desempenho. O fluxo maior de conhecimento entre empresas será um sinal particularmente importante de que as empresas estão adotando novas arquiteturas institucionais, novas estruturas de governança e novas praticam operacionais necessárias para a plena exploração da infraestrutura digital.
Resultados iniciais de nosso estudo indicam que há correlação entre o uso cada vez maior de mídias sociais e o crescente fluxo de conhecimento entre organizações.
A última onda reflete ate que ponto a empresa vem explorando avanços na infraestrutura digital com a criação e a partilha de conhecimento, e que impacto isso esta tendo em mercados, empresas e indivíduos. Até aqui, uma competição mais intensa abala quase que universalmente o desempenho institucional. Com o tempo, no entanto, à medida que a empresa for aprendendo a explorar a infraestrutura digital e a participar de modo mais eficaz de fluxos de conhecimento, seu desempenho vai melhorar.
Diferenças de abordagem entre empresas de alto e baixo desempenho são reveladora. À medida que certas organizações forem participando mais de fluxos de conhecimento, veremos que se distanciarão da maioria e terão um desempenho bem melhor em longo prazo. Outras, ainda aferradas a velhos modos de agir, provavelmente se deteriorarão depressa.
Feche o vão de desempenho
A empresa foi projetada para ficar mais eficiente à medida que crescia. Assim que conseguiu gerar um considerável valor econômico. Só que a infraestrutura digital, que muda rapidamente, mudou essa equação; à medida que a estabilidade dá lugar a mudança e a incerteza, a organização precisa aumentar não só a eficiência, mas também o ritmo ao qual aprende e inova o que por sua vez vai elevar a taxa de avanço de seu desempenho. Em outras palavras, a eficiência dimensionavél. O descompasso entre a maneira como a empresa é operada e regida, de um lado, e como o ambiente de negócios esta mudando, de outro, ajuda a explicar porque o retorno diminui enquanto talentos e clientes colhem os frutos da produtividade
A empresa do século 20 aprendeu a explorar a então nova infratrutura de energia, de transporte e de comunicação para se tornar maior e mais eficiente, a empresa de hoje deve tirar o Maximo da infratrutura digital. isso requer inovação no plano institucional que a deixem em melhor posição para triunfar tanto durante a atual crise quanto depois que a economia se recuperar. Com o cultivo de relações diversas com outros atores, a empresas pode acelerar o avanço de desempenho à medida que agrega participante o seu ecossistema, ampliando o aprendizado e a inovação.
A pressão sobre o desempenho continuara crescendo mesmo depois da crise. Para sobreviver à recessão, portanto, o líder precisa ir alem de cortes marginais de despesas que possa estar promovendo no momento. Precisa ser implacável na hora de decidir que ativos, indicadores, operações e praticas tem o maior potencial de gerar um crescimento rentável em longo prazo, e se desfazer de tudo o que não tem.
As montadoras japonesas usaram elementos dessa abordagem, com efeitos dramáticos sobre os resultados, ao transformar o pessoal da linha de montagem de meros operários os solucionadores de problemas.
Em ultima instancia, o modelo da Grande Mudança coloca na pauta da liderança uma serie de perguntas: a empresa esta organizada de modo a gerar e participar com eficácia de um amplo leque de fluxos que extrapolem suas fronteiras? Qual a melhor maneira de criar e extrair valor desses fluxos? E, acima de tudo, como medir o progresso á medida que a empresa vai percorrendo a Grande Mudança no cenário empresarial? Esperamos que o índice de mudança ajude o executivo a achar as respostas, nesses tempos difíceis e no futuro.

Índice da mudança

Os indicadores aqui apresentados podem ser usados para medir forças de longo prazo que estejam influenciando o cenário de negócios e para melhorar o desempenho geral da empresa. Cabe ao executivo:
Monitorar transformações nas bases de tecnologia digital e em políticas publica que possam alterar a dinâmica da competição;
Avaliar ate que ponto sua empresa participa de fluxos ( ou seja, da circulação de conhecimento, talentos e capital), com foco especial sobre a geração e a partilha do conhecimento;
Observar os impactos de mudança em bases e fluxos sobre mercados, empresas e indivíduos

Índice de Impactos

Mercados
Intensidade competitiva: Herfindahi Hirschman, índex, que mede concentração de mercado;
Produtividade da mão de obra: dados do U.S Bureau of Statistics
Volatilidade da ação: Desvio padrão médio da cotação diária das ações no decorrer de um ano;
Empresas
Rentabilidade de ativos: retorno total do ativo (ROA) Para Todas as empresas americanas;
Vão de desempenho do ROA: diferença entre ROA de empresas do quartil superior e do quartil inferior;
Topple Rate de empresas: mudança anual da posição de empresas americanas no ranking;
Vão de valor ao acionista: diferença entre retorno total ao acionista de empresas do quartil superior e do quartil inferior;
Indivíduos
Poder do consumidor: pesquisa para medir hábitos e atitudes do consumidor em relação à escolha de produtos acessa a informações sobre empresas e outros indicadores;
Traição da marca: pesquisa para medir disposição do consumidor a trocar de marca, tendência a comparar preços, consulta a amigos sobre uso de produto/ serviço e outros indicadores
Retorno de talentos: Vão de remuneração entre grupos ocupacionais mais e menos criativos;
Rotatividade de executivos: numero de alto gerente que deixam empresas dos EUA

As Faces da Globalização

O que é Globalização? Quais são os aspectos gerais desse fundamental tema da ciência geográfica? O referido fenômeno é uma etapa avançada do sistema socioeconômico capitalista ou um processo de integração mundial essencialmente econômico?. Os mundos relativamente isolados do passado deram lugar a um mundo em rede (sistêmico), ou seja, um planeta com relevantes conexões entre nações.
Com relação ao que foi mencionado acima, pode-se constatar que a mundialização tornou homogêneo o espaço mundial? Certamente não, esse fenômeno acirrou as desigualdades sociais e regionais, ou seja, tornou heterogêneo o espaço global. A integração é relativa, porque existem áreas que estão praticamente fechadas ou estabelecem relações inexpressivas com o mundo, por exemplo, o continente africano e a Amazônia do Brasil. Esses espaços estão à margem dos grandes fluxos de pessoas e capitais.
O fenômeno dinamizou a economia de determinadas regiões, enquanto outras permaneceram economicamente estagnadas ou tiveram suas situações agravadas pelo processo, com isso, as possibilidades de inserção e ascensão no âmbito profissional são maiores para os cidadãos que vivem em cidades onde o capital está fortemente instalado e são menores para aqueles que vivem em municípios rurais insignificantes dentro de uma lógica própria do capital (nacional e multinacional). Isso não quer dizer que a oferta de emprego nas Metrópoles ou mesmo nas cidades de porte médio é excelente, nessas também há desemprego e subemprego.

Portanto, a globalização é um fenômeno geográfico abrangente com conseqüências e contradições. A globalização organizou o mundo em rede trazendo facilidades e vantagens para os negócios mundiais, preferencialmente para os mega-empresários (proprietários de empresas transnacionais) ou agentes econômicos e ao mesmo tempo aprofundou as disparidades sociais e regionais.

PÓS E CONTRAS

A abertura da economia e à Globalização são processos irreversíveis, que nos atingem no dia-a-dia das formas mais variadas e temos de aprender a conviver com isso, porque existem mudanças positivas para o nosso cotidiano e mudanças que estão tornando a vida de muita gente mais difícil. Um dos efeitos negativos do intercâmbio maior entre os diversos países do mundo é o desemprego que, no Brasil, vem batendo um recorde atrás do outro.
No caso brasileiro, a abertura foi ponto fundamental no combate à inflação e para a modernização da economia com a entrada de produtos importados, o consumidor foi beneficiado: podemos contar com produtos importados mais baratos e de melhor qualidade e essa oferta maior ampliou também a disponibilidade de produtos nacionais com preços menores e mais qualidade. É o que vemos em vários setores, como eletrodomésticos, carros, roupas, cosméticos e em serviços, como lavanderias, locadoras de vídeo e restaurantes. A opção de escolha que temos hoje é muito maior.
Mas a necessidade de modernização e de aumento da competitividade das empresas produziu um efeito muito negativo, que foi o desemprego. Para reduzir custos e poder baixar os preços, as empresas tiveram de aprender a produzir mais com menos gente. Incorporavam novas tecnologias e máquinas. O trabalhador perdeu espaço e esse é um dos grandes desafios que, não só o Brasil, mas algumas das principais economias do mundo têm hoje pela frente, crescer o suficiente para absorver a mão-de-obra disponível no mercado, além disso, houve o aumento da distância e da dependência tecnológica dos países periféricos em relação aos desenvolvidos.
A questão que se coloca nesses tempos é como identificar a aproveitar as oportunidades que estão surgindo de uma economia internacional cada vez mais integrada.
Com todas essas mudanças no mercado de trabalho, temos que tomar muito cuidado para não perder espaço. As mudanças estão acontecendo com muita rapidez. O cidadão para segurar o emprego ou conseguir também tem de ser manter em constante atualização, ser aberto e dinâmico. Para sobreviver nesse mundo novo, precisamos estar em sintonia com os demais países e também aprendendo coisas novas todos os dias.
Ser especialista em determinada área, mas não ficar restrita a uma determinada função, porque ela pode ser extinta de uma hora para outra. É preciso atender a requisitos básicos, como o domínio do computador, de outros idiomas e mais do que tudo é preciso não ter preconceito em relação a essas mudanças, não adianta lutar, as empresas querem empregados dispostos a vencer desafios.

CONCLUSÃO

Embora o assunto seja muito amplo, buscou-se fazer um apanhado geral, de forma sucinta, sobre os impactos da globalização no mercado de trabalho brasileiro conforme a literatura atual sobre o assunto.
De maneira geral pode-se concluir que o impacto da globalização, juntamente com a nova revolução tecnológica teve efeitos muito significativos na economia nacional, onde setores produtivos foram alterados por pressões da concorrência externa, privatizações e melhorias na qualidade da capacitação da mão-de-obra do país.
A aplicação de nova tecnologia e nova prática de gestão propiciou uma elevação na produtividade geral do mercado de trabalho brasileiro e conjuntamente com a alteração da participação de inúmeros setores na economia, diminuição da participação estatal no setor produtivo e com um crescimento pífio da economia desde a abertura comercial gerou um incremento nas taxas de desemprego no país.
Esse excedente de mão-de-obra, em conjunto com maior pressão para produtividade, gerou para a economia uma necessidade da melhoria no nível educacional da PEA (população economicamente ativa), embora os níveis salariais dos trabalhadores não absorvessem totalmente essa melhoria da capacitação da mão-de-obra, visto que de forma geral, as empresas apenas substituíram os trabalhadores menos produtivos por trabalhadores mais produtivos.
Contudo o desemprego de mão-de-obra mais capacitada foi mais elevado que para os demais trabalhadores com menor nível educacional, o que gerou um incremento na subtilização do potencial produtivo da mão-de-obra em setores menos produtivos ou até mesmo deslocando-os para o mercado de trabalho informal.
Porém nos últimos anos, a elevação das taxas de crescimento do país, juntamente com novas oportunidades advindas das novas tecnologias e oportunidades internacionais, propicia a recuperação do nível de emprego e uma conseqüente melhoria nos níveis salariais do país.
Nesse contexto o país sofreu impacto direto da globalização, mesmo que não inserido totalmente neste processo. O mercado de trabalho apresentou variações e realocações dos fatores de produção juntamente com uma melhoria nos níveis de produtividade e da melhor qualificação da mão-de-obra, dadas às exigências impostas pela concorrência internacional.
As novas tecnologias, formas de gestão e aumento de produtividade fizeram com que, num primeiro momento ocorresse uma elevação nos níveis de desemprego, porém com a volta do crescimento da economia essa tendência está sendo revertida. Se forem avaliadas as oportunidades originadas por aspectos demográficos, conforme apresentado em aula, há uma perspectiva de melhoria mais significativa no mercado de trabalho do país. E com a elevação do nível de inserção do país no mercado global, acabará gerando para o país um maior nível de especialização e melhoria mais drástica nos níveis produtivos.

BIBLIOGRAFIA

MACHADO,. Os Impactos Da Abertura Comercial Sobre A Remuneração Relativa Do Trabalho No Brasil. Belo Horizonte: Cedeplar, 2001.
EDIÇÃO ESPECIAL , A nova economia no novo mundo; Harvard Business Review; julho 2009.
CACCIAMALI, Maria C. Globalização e Processo de Informalidade. Campinas: Economia e Sociedade, jun. 2000
Regina Aparecida. O impacto da Globalização nas relações de trabalho. Disponível na Internet: http://www.mundojuridico.adv.br

GRUPO DE GESTANTES: EDUCAÇÃO EM SAÚDE NO PRÉ NATAL

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Título: Grupo de gestantes: educação em saúde no pré-natal

1 Introdução

Na atualidade, a necessidade da grupalidade está presente em quase todos os tipos de ambientes em que se convive com outras pessoas. Munari e Zago (1997) acreditam que através do grupo o homem pode desenvolver atividades em suas relações pessoais, realizar tarefas, oferecer e receber ajuda.
O ser humano busca conviver em certos grupos, mais específicos, em determinadas fases de sua vida, especialmente em momentos de crise, quando sente necessidade de ser acolhido e identificado com pessoas que vivenciam as mesmas situações que as suas. A fase da gestação é uma dessas situações, quando a mulher e companheiro/família passam por uma série de mudanças em suas vidas, pois, conforme Viçosa (1997, p.305), neste período, além das mudanças corporais da mulher, vai acontecer mobilizações emocionais em sua vida, para adaptar-se ao novo papel que lhe é “dado” a partir desta vivência (SARTORI; VAN, 2004).
Na base da atenção pré-natal está a promoção da educação em saúde e consequentemente da cidadania, ação recomendada pelo Ministério da Saúde, que desde o ano de 2000, através de uma série de medidas propõe atingir de forma mais efetiva a atenção primária à mulher gestante, levando-a ao desenvolvimento de um processo gestacional seguro e saudável que culmine com o nascimento seguro em bases humanitárias. A educação em saúde através da formação de grupo de gestantes foi estabelecida como uma das principais estratégias para a melhoria da qualidade da atenção à saúde a esta clientela (FRANK, 2009).
Para isto, este projeto de extensão tem a intenção de desenvolver atividades de educação em saúde junto a grupos de gestantes, para contribuir com a melhoria da qualidade da assistência prestada à mulher durante o ciclo gravídico-puerperal, além de proporcionar às gestantes, socialização e esclarecimento de dúvidas que possam surgir nestas fases, assim como prepará-las para o parto e o aleitamento materno.

2 Justificativa

A gestação representa período único e especial na vida da mulher, no qual a sensação de tornar-se mãe confunde-se muitas vezes com incertezas, medos e inseguranças. É um evento biossocial, pois está cercado de valores culturais, sociais e emocionais (TEDESCO et al., 2004).
Na história da saúde pública no Brasil, a introdução do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), no ano de 1983, ampliou o elenco de ações de saúde destinadas à parcela feminina da população, destacando a atenção pré-natal pelo seu impacto e transcendência no resultado perinatal (TREVISAN et al., 2002).
Em decorrência ao processo de mobilização social, feministas e profissionais da saúde iniciaram, em parceria com o Ministério da Saúde, a elaboração de propostas de atendimento à mulher que garantissem o respeito a seus direitos de cidadania, o que resultou na estruturação das bases fundamentais do PAISM (RIOS et al., 2007).
Assim, o PAISM entrou no cenário das Políticas de Saúde apontando como objetivos a ampliação dos problemas a serem tratados pelo setor, a recuperação da função educativa dos serviços e a adoção de uma nova perspectiva de atenção a cada mulher, situando-a em seu contexto social e atendendo-a de forma integral.
Nesse contexto, Osis (1998, p. 27) afirma que:
A atenção à mulher deveria ser integral, clínico-ginecológica e educativa, voltada ao aperfeiçoamento do controle pré-natal, do parto e puerpério; à abordagem dos problemas presentes desde a adolescência até a terceira idade; ao controle das doenças transmitidas sexualmente, do câncer cérvico-uterino e mamário e à assistência para concepção e contracepção.

De acordo normatização do Ministério da Saúde (BRASIL, 1985, p. 19-20), o pré-natal na sua essência se constitui como “um conjunto de procedimentos clínicos e educativos com o objetivo de promover a saúde e identificar precocemente os problemas que possam resultar em risco para a saúde da gestante e o concepto”.
Sendo um dos objetivos da assistência pré-natal a redução de riscos durante a gestação, Barbosa (1981, p. 135) afirma que “a boa qualidade, eficiência, freqüência e assistência pré-natal revelam, sem dúvida, o desenvolvimento de uma nação. A assistência pré-natal é, por si, capaz de reduzir, drasticamente as complicações da gestação e do parto e minimizar a mortalidade perinatal”.
Neste sentido, Faúndes et al. (1982, p. 102) complementam que:
Os objetivos principais da assistência pré-natal são assegurar uma evolução normal da gravidez; preparar a mãe para o parto, puerpério e lactações normais; identificar o mais rápido possível as situações de risco, para que seja possível prevenir as complicações mais freqüentes da gravidez e do ciclo puerperal.

Segundo GALLETA (2000), o pré-natal foi instituído no início do século XX e chegou ao Brasil por volta das décadas de 20 e 30 e só se estabeleceu no pós-guerra. Neste período, pensava-se na mulher, em diminuir os agravos para sua saúde, sem se pensar no feto. Nos anos 50 e 60, com a diminuição das taxas de morte materna, começou a preocupação, decididamente, com o feto e sua saúde. Assim, com os avanços tecnológicos e sociais, o pré-natal constituiu-se e se firmou, transformando-se na prática assistencialista que acontece hoje.
Segundo apontamentos do Ministério da Saúde a assistência ao pré-natal é o primeiro passo para o parto e o nascimento humanizados. O conceito de humanização na assistência ao parto deve pressupor uma relação de respeito estabelecida entre os profissionais de saúde e as mulheres durante o processo de parturição (BRASIL, 2000, p. 11).
NEME (2000) ainda confirma que o caráter preventivo do pré-natal é fundamental para diminuir os índices de mortalidade materna e perinatal, pois um pré-natal bem feito previne patologias, tais como anemias, doenças hipertensivas gestacional (pré-eclâmpsia, eclâmpsia); também favorece o preparo psicológico materno para o parto, além de garantir a perfeita estruturação do organismo fetal, prevenção do abortamento e o risco de parto prematuro e até o óbito perinatal.
No sentido da prevenção das complicações, esse mesmo autor ressalta que:
A instalação da prenhez representa razão obrigatória para exigir que as pacientes procurem assistência médica. Nessas condições, ao salientar a importância da segurança fetal, o tocólogo sensibiliza as gestantes, que se tornam receptíveis, a ser assíduas em suas visitas médicas e a atender as recomendações dietéticas e terapêuticas, mesmo quando incômodas (NEME, 2000, p. 118).

Dessa maneira, faz-se necessário o acompanhamento periódico e contínuo das gestantes, a nivel de pré-natal que pode ser realizada em Unidades Básicas de Saúde, instituições hospitales e maternidades.
Nas Unidades Básicas de Saúde quem faz o acompanhamento do Pré-Natal é o profissional de enfermagem, desde que esta gestante não apresente gravidez de risco. Esta prerrogativa é confirmada na Lei do Exercício Profissional da Enfermagem – decreto nº 94.406/87 apontando que “o pré-natal de baixo risco pode ser inteiramente acompanhado pela enfermeira” (BRASIL, 2000, p. 18)
Nas ações preconizadas para a assistência pré-natal, após confirmação da gravidez em consulta médica ou de enfermagem, dá-se o início do acompanhamento da gestante, a qual deverá receber as orientações necessárias referentes ao acompanhamento pré-natal, como a seqüência das consultas (médica e de enfermagem), onde intervalo entre as consultas deve ser de aproximadamente quatro semanas. Após a 36a semana, a gestante deverá ser acompanhada semanalmente, visando à avaliação da pressão arterial, da presença de edemas, da altura uterina, dos movimentos do feto e dos batimentos cárdio-fetais. No acompanhamento pré-natal deve haver também as visitas domiciliares e as reuniões educativas (BRASIL, 2000).
Segundo Penna et al. (1999), a dimensão educativa objetiva contribuir com o acréscimo de informações que as mulheres possuem sobre seu corpo e valorizar suas experiências de vida. Desse modo, como um dos componentes das ações básicas de saúde, a ação educativa para o Ministério da Saúde (1984) deve:
Ser desenvolvida por todos os profissionais que integram a equipe da unidade de saúde, estar inserida em todas as atividades e deve ocorrer em todo e qualquer contato entre profissional de saúde e a clientela, com o objetivo de levar a população a refletir sobre a saúde, adotar práticas para sua melhoria ou manutenção e realizar mudanças, novos hábitos para a solução de seus problemas.

Zampieri (2001) reforça essa idéia, pois para ele as atividades de educação em saúde são recursos que permitem a aproximação entre profissionais e receptores do cuidado, além de contribuírem para o oferecimento de assistência humanizada.
O Ministério da Saúde (2000) diz que as atividades educativas (pelas quais as gestantes constituem o foco do processo de aprendizagem) a serem realizadas em grupo ou individualmente devem conter uma linguagem clara e compreensível, a fim de promover orientações gerais sobre os cuidados na gestação, alterações fisiológicas e emocionais, cuidados com o recém-nascido, amamentação e planejamento familiar, respeitando a cultura e o saber popular para minimizar suas dúvidas, medo e ansiedade no momento do parto.
Para Alonso (1999), a técnica de trabalho com grupos promove o fortalecimento das potencialidades individuais e grupais, a valorização da saúde, a utilização dos recursos disponíveis e o exercício da cidadania. Portanto, a implementação de grupos de gestantes é fundamental para garantir uma abordagem integral e, ao mesmo tempo, específica à assistência no período gestacional (REBERTE; HOGA, 2005).
Tendo como base as perspectivas descritas até aqui a respeito da gravidez e assistência pré-natal, estudos apontam que a participação em grupos, por parte das pessoas envolvidas com o processo de gestar, tem se mostrado eficaz. Em especial, se referindo a grupos de gestantes, estes vêm trazer aspectos terapêuticos e oferecer suporte a estas pessoas, uma vez que, segundo Munari e Rodrigues (1997, p.14, a) “um grupo pode ajudar pessoas durante períodos de ajustamentos a mudanças, no tratamento de crises ou ainda na manutenção ou adaptação a novas situações” (apud SARTORI; VAN, 2004).
Por fim, Rios et al. (2007) acreditam que a realização de ações educativas no decorrer de todas as etapas do ciclo grávido-puerperal é muito importante, no entanto é no pré-natal que a mulher deverá ser melhor orientada para que possa viver o parto forma positiva, integradora, enriquecedora e feliz, além de ter menos riscos de complicações no puerpério e mais sucesso na amamentação. Sendo o pré-natal e nascimento momentos únicos para cada mulher e uma experiência especial no universo feminino, é importante para os profissionais de saúde assumir uma postura de educadores que compartilham saberes, buscando devolver à mulher sua autoconfiança para viver a gestação, o parto e o puerpério.
Para isto, este projeto de extensão tem a intenção de desenvolver atividades de educação em saúde junto a grupos de gestantes, para contribuir com a melhoria da qualidade da assistência prestada à mulher durante o ciclo gravídico-puerperal. São compartilhados conhecimentos a respeito das seguintes temáticas: Modificações fisiológicas da gestação; Autocuidado na gestação; Alimentação da gestante; Aleitamento materno; Sinais de parto e tipos de parto; Cuidados com o recém-nascido; Cuidados no puerpério; Planejamento familiar; Direitos da gestante.
Este projeto esta inserido no projeto da professora orientadora Roselaine Terezinha Migotto Watanabe. Alguns dos objetivos se repetem, porém serão trabalhadas dinâmicas com as gestantes em todos os encontros referentes aos temas como banho do recém-nascido, curativo do coto, posição para amamentação, entre outros, e, ao término de todos os encontros, será feita uma avaliação informal das atividades realizadas no dia, o que diferencia esse projeto daquele que está sendo vinculado.

2 OBJETIVOS

• Geral
– Realizar dinâmicas com um grupo de gestantes abordando temas a cerca da gestação, do parto e do puerpério;

• Específicos
– Estimular o parto normal e o aleitamento materno;
– Orientar e compartilhar conhecimentos e experiências sobre o ciclo grávido-puerperal; – Desenvolver atividades educativas e dinâmicas abordando temas como: Modificações fisiológicas da gestação; Autocuidado na gestação; Alimentação da gestante; Aleitamento materno; Sinais de parto e tipos de parto; Cuidados com o recém-nascido; Cuidados no puerpério; Planejamento familiar; Direitos da gestante;
– Permitir a expressão de vivências emocionais das participantes;
– Promover a visita à maternidade e informar sobre suas rotinas;

3 METODOLOGIA

Para o desenvolvimento do projeto será estruturado a formação do Grupo de Gestante, com bases no Projeto de Extensão já existente na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, intitulado: “Assistência de Enfermagem no Pré-Natal para Grupo de Gestantes” tendo como coordenadora do projeto a professora enfermeira Roselaine Terezinha Migotto Watanabe.
Os conteúdos a serem trabalhados nos grupos serão pertinentes para qualquer idade gestacional.
Os encontros serão semanais, realizados às quartas-feiras à tarde. Serão abordados conteúdos diversos como: Modificações fisiológicas da gestação; Autocuidado na gestação; Alimentação da gestante; Aleitamento materno; Sinais de parto e tipos de parto; Cuidados com o recém-nascido; Cuidados no puerpério; Planejamento familiar; Direitos da gestante. Terão duração prevista de no máximo uma hora e 30 minutos, precedidos ou finalizados com dinâmica de sensibilização. O local para os encontros será na Estratégia Saúde da Familia (ESF) do bairro Vila Vieira e na ESF do bairro João Paulo II, ambas localizadas no município de Dourados-MS, alternando-se os encontros, sendo duas quartas-feiras na ESF da Vila Vieira e as outras duas na ESF do bairro João Paulo II.
Os materiais e equipamentos a serem utilizados para os encontros serão a confecção de cartazes, folders, uso de notebook para a apresentação das palestras, bonecos, entre outros materiais didáticos para a apresentação dos temas que serão abordados.
Os participantes do grupo (gestante) não deverão exceder o limite de 20 (vinte) pessoas.
As palestras serão ministradas na unidade, que conta com espaço amplo para o desenvolvimento das atividades.
No último encontro será realizada a visita à maternidade.

4 CRONOGRAMA

5 RESULTADOS

Os objetivos do projeto, de forma geral foram alcançados, no entanto houve dificuldade na realização do mesmo, pois no início houve resistência por parte de algumas gestantes em comparecer aos encontros, devido à timidez de algumas ou até mesmo porque algumas trabalhavam e não podiam comparecer. Outra dificuldade encontrada foi o número pequeno de gestantes cadastradas no Pré-Natal na Unidade de Estratégia de Saúde de Familia 33.
Para incentivar as gestantes a participarem, tive que atraí-las com sorteios de brindes após as atividades, e com isso foi aumentando o número de mulheres nos encontros. No começo apenas uma gestante participava do grupo, e no decorrer do projeto chegou a comparecer cinco gestantes, e no final, como algumas iam saindo para o parto, apenas três permaneceram até o final do projeto.
Com a perda da timidez e o receio em realizar perguntas, as gestantes passaram a participar com maior frequência das atividades desenvolvidas, até mesmo sugerindo sugestão para as atividades de forma espontânea, e compartilhando com outras gestantes do grupo suas experiências de vida e modos de pensar, contribuindo para o enriquecimento das atividades realizadas.
Através das palestras foi possível intervir em relação a temáticas referentes à gestação e puerpério, tanto na relação mãe/filho como mãe/família das gestantes e puérperas acompanhadas, abordando nos encontros temas referentes aos movimentos fetais, edema, posição para dormir, alimentação materna, esquema de vacina, dinâmica familiar, importância do pré-natal, verificação de pressão arterial, freqüência cardíaca e pulso, cicatrização puerperal, higiene mãe e bebê, vinculo mãe e bebê, amamentação e alimentação materna, cuidados com o coto umbilical, crescimento e desenvolvimento da criança, teste do pezinho, vacinas, apoio psicológico e emocional, dentre outros.
Vale destacar que as gestantes vinham ao grupo, geralmente acompanhadas por seus filhos, como também pelo atual companheiro ou outros familiares. Este aspecto tornou o grupo bastante enriquecedor, uma vez que a gravidez é uma etapa de vida da mulher que precisa ser compartilhada com os demais membros da família. As gestantes constituem foco do processo de aprendizagem, porém é preciso atuar, também, entre os companheiros e familiares.
Desta forma, esse projeto foi totalmente proveitoso em relação a adquirir conhecimento e experiência com as atividades realizadas, essa troca de conhecimento mútuo entre gestante e profissional fez com que percebesse a importância do grupo em relação à vivência dessas mulheres, pois algumas dúvidas que as mesmas tinham em relação aos temas expostos não eram sanadas nas consultas de pré-natais, e sim nos encontros semanais, onde elas podiam trocar experiências entre elas a cerca da gestação, cuidados com o recém-nascido e puerpério.

6 DISCUSSÃO

O grupo de gestantes constitui-se num espaço de socialização de vivências, sendo uma oportunidade para a gestante e família expressarem seus medos, ansiedades e sentimentos, como também para relacionar-se com outras pessoas que estão passando pela mesma experiência, o que possibilita um melhor enfrentamento das mudanças e situações que envolvem a gestação.
Além disso, o grupo de gestantes desponta como uma proposta ideal para realização de atividades de extensão dentro do curso de Enfermagem, pois proporciona ao acadêmico a vivência na assistência integral à saúde da mulher através do atendimento à gestante, parturiente, puérpera, organizando e produzindo atividades em grupos de gestantes ao nível de assistência primária. Além disso, o projeto proporcionou maior interação com a comunidade de gestantes vinculadas ao serviço de saúde no programa de assistência ao pré-natal, parto, nascimento e puerpério; aproximação aos modos de enfrentamento e resolução das dúvidas surgidas no período gravídico-puerperal pelas gestantes.
Por fim, este projeto aponta que, apesar das dificuldades encontradas, faz-se necessário a persistência dos profissionais de enfermagem no sentido de que sejam implementadas atividades que visem à melhoria das ações educativas no pré-natal, com o intuito de promover maior interação entre comunidade e profissional de enfermagem.

7 MUDANÇAS OCORRIDAS EM RELAÇÃO AO PROJETO ORIGINAL

No início deste ano, observamos a verificação da necessidade e decidimos mudar o local dos encontros para somente um lugar, que no caso não realizamos o grupo de gestantes na Unidade de ESF do Bairro João Paulo II, e somente montamos o grupo na ESF 33 do Bairro Vila Vieira. Assim, todas as quartas-feiras foram realizados os encontros somente nessa Unidade.

8 DIFICULDADES ENCONTRADAS PARA A REALIZAÇÃO DO PROJETO

Houve dificuldade em relação ao local para a realização dos encontros, onde não havia local próprio para a realização das palestras, e as mesmas eram realizadas ora no pátio da Unidade, ora dentro da sala da triagem quando a mesma não estava sendo utilizada.
Outra dificuldade foi o pequeno número de gestantes que participaram do grupo, devido à falta de disponibilidade de tempo devido ao emprego ou até mesmo por falta de condução para chegarem à Unidade.

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FATORES DETERMINANTES PARA AS EXPECTATIVAS DE GESTANTES

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FATORES DETERMINANTES PARA AS EXPECTATIVAS DE GESTANTES ACERCA DA VIA DE PARTO

Resumo
A gravidez e o parto representam eventos especiais na vida da mulher, no qual a sensação de tornar-se mãe confunde-se muitas vezes com incertezas, medos e inseguranças. É um evento biossocial, pois está cercado de valores culturais, sociais e emocionais. Embora sendo um processo considerado, predominantemente fisiológico, e que decorre geralmente em complicações, tem crescido o uso de técnicas intervencionistas e entre estas, a cesariana. Esta pesquisa foi desenvolvida com gestantes usuárias da Estratégia de Saúde da Família e com gestantes usuárias de um serviço de saúde privado no município de Dourados/MS. Teve por objetivo principal identificar as expectativas de gestantes com relação ao tipo de parto bem como os motivos de sua escolha. Procurou-se dar voz a gestante, pois ela deve ser a condutora de seu próprio processo de parturição, tendo a liberdade segundo o Ministério da Saúde, de escolher onde, como e com quem quer realizar seu parto. Os resultados mostraram que os fatores socioculturais, familiares e a atuação do profissional que conduz a assistência pré-natal podem ser determinantes na formação da opinião das gestantes sobre o tipo do parto. Entre as usuárias do serviço publico houve preferência para o parto normal enquanto que, no serviço privado a cesárea. O estudo reforça a importância da ação educativa durante o pré-natal para resgatar o papel ativo da mulher no processo parturitivo, para que esta tenha o direito de escolha sobre a preferência do tipo de parto, bem como ser ouvida e esclarecida em suas dúvidas e temores.

Palavras Chaves: Gestação, vias de parto, parto.

Abstract
Pregnancy and delivery represent special events in woman’s life and sometimes, the condition of becoming mother is confused with some uncertanties, fears and insecurities. It is a biossocial event since it is surrounded with cultural, social and emotional values. Although it is considered predominantly a physiological process that generally passes without any complication, the use of interventionist techniques has been increased and among them, it is the caesarean one. This research was developed with pregnants who use Family Health Program and others with a private health care, in Dourados/MS. This work aimed to identify pregnants’ expectancies in relation to the choice, giving her some support since she is the leader of her own process of deliver. So, according to Health Department, she has the liberty to choose where, how and with whom she wants to carry out her delivery. The results showed socio-cultural and familiar factors and the professional’s role that leads the antepartum course may be decisive to form pregnants’ opinion to decide what kind of delivery she wants. Among users from Public Service, there was a preference for normal delivery while for private ones, it was the caesarean delivery. The study reinforces the importance of an educational action during the antepartum course to recover woman’s active function during childbirth process so that she may choose what kind of delivery she wants as well as she may be heard and her doubts and fears may be explained.

Keywords: pregnancy, kinds of delivery, delivery.

1 INTRODUÇÃO
Segundo Rezende (2002) a Obstetrícia progrediu muito lentamente em relação às outras ciências médicas. Uma justificativa para este fato deve-se ao atendimento prestado às gestantes e à assistência ao parto serem guiados desde a antiguidade por parteiras e feiticeiras que transmitiam de geração em geração práticas sem cunho científico baseadas em crendices e feitiços. O fenômeno da parturição se sucedia na residência da mulher, lócus onde as parteiras e a parturiente trocavam conhecimentos e descobriam afinidades.
Com o surgimento do mercantilismo ocorreram mudanças na compreensão do trabalho e o status do médico cirurgião se eleva, favorecendo para que a prática da obstetrícia fosse, paulatinamente, incorporada e supervisionada por esses profissionais (REZENDE, 2002).
Schirmer et al., (2002) comenta que a partir da metade do século XIX, com o desenvolvimento da obstetrícia como área acadêmica do conhecimento, à assistência empírica prestada por mulheres durante o ciclo gravídico-puerperal perde seu espaço, pois, inicia-se uma intensa disputa entre a classe médica e as parteiras, e estas vêm perdendo o domínio do saber sobre a arte de assistir o parto e o nascimento.
Foi a partir dos anos 40 com o objetivo de reduzir a mortalidade materna e infantil que a hospitalização do parto intensificou-se, o que permitiu a medicalização e controle do período gravídico-puerperal. Assim, o parto que antes era entendido como um processo natural, privativo e familiar, passou a ser vivenciado na esfera pública em instituições de saúde. Esse fato favoreceu a submissão da mulher que deixou de ser protagonista do processo parturitivo (OSAVA, 1997).
Com a institucionalização do parto a mulher perdeu sua privacidade e autonomia, foi separada da família e submetida a normas institucionais e práticas intervencionistas sem o devido esclarecimento e consentimento. Por outro lado, procurou-se oferecer para mulher e seu bebê uma assistência com aparente segurança (OSAVA, 1990).
Oliveira et al., (2002) acrescentam que, nos últimos anos, o ato de parir e a gestação, considerados como fenômenos naturais e fisiológicos, foram transformados em um processo patológico e medicalizado, alterando sua essência original de evento de mãe e filho em acontecimento social. Segundo orientações do Ministério da Saúde, a gestação é um processo que geralmente decorre sem complicações e o propósito da assistência ao parto em instituições é oferecer melhores condições à mãe e ao concepto (BRASIL, 2001).
É inegável que houve muitos ganhos com a institucionalização do parto, como a melhor assepsia – causa freqüente de infecção puerperal e morte materna – e formas de acompanhamento e resolução como o pronto atendimento ao recém-nascido de risco por uma equipe médica especializada. Entretanto, com a supervalorização da técnica do nascimento, a ênfase exagerada à sua fisiologia, negligenciou seus aspectos psicoemocionais e sociais, passando a negar a parturiente seu direito de experimentá-lo de acordo com seus significados adquiridos culturalmente. Com a institucionalização do parto também houve um crescimento cada vez maior no número de partos operatórios (cesarianas) em detrimento do parto normal (vaginal). Esse índice tem favorecido as altas taxas de morbimortalidade materno-infantil (BRASIL, 2001).
Assim, no final dos anos de 1990, pelo alto índice de partos hospitalares e como consequência dos altos números de partos operatórios, elevando os casos de morte materna, surge a discussão em torno da humanização da assistência obstétrica, que culminou na organização pelo Ministério da Saúde do Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento. Este programa baseia-se em um conjunto de condutas e procedimentos que visam à promoção do nascimento saudável e a prevenção da morbimortalidade materna e perinatal, cujas condutas norteiam-se essencialmente na concepção de que o parto não é doença e no respeito à dignidade e liberdade da mulher como condutora de seu próprio processo de parturição, cabendo a ela escolher onde, como e com quem (profissional) quer realizar seu parto (BRASIL, 2001).
A gestação e o parto representam um período único e especial na vida da mulher, no qual a sensação de tornar-se mãe confunde-se muitas vezes com incertezas, medos e inseguranças. É um evento biossocial, pois está cercado de valores culturais, sociais e emocionais. Embora seja um processo considerado, predominantemente, fisiológico e que geralmente decorre sem complicações, tem crescido nas últimas décadas o uso de técnicas intervencionistas e entre estes, o parto operatório (cesariana) (TEDESCO et al., 2004).
O Brasil é considerado um dos paises em que a taxa de cesariana é muito alta, ultrapassando os parâmetros recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que deve ficar em torno de 15%. Em hospitais privados e ou conveniados o índice de parto operatório é mais elevados que em hospitais públicos (HOTIMSKY et al., 2002).
As conseqüências do grande número de cesarianas podem ser sérias levando a maiores chances para a mulher desenvolver uma infecção puerperal; risco elevado para a mortalidade e morbidade materna, aumento dos riscos de prematuridade e mortalidade neonatal, recuperação mais difícil da puerpera, maior período de separação entre mãe/bebê levando a atraso e dificuldade para o início da amamentação e elevação de gastos para o sistema de saúde (HOTIMSKY et al., 2002).
Estudos apontam que a grande demanda por cesariana pode estar relacionada à maior remuneração deste tipo de parto até a década de 1980 pelo antigo INAMPS, a não remuneração da analgesia em partos vaginais, a formação dos profissionais que passou a privilegiar o uso de tecnologia mais sofisticada, a demanda por laqueadura, o medo da dor no momento do trabalho de parto e parto e a preferência das mulheres por esta via de parto (FAÚNDES, CECATTI, 1991).
Discutindo sobre os altos índices de partos operatórios, Rea (2003) questiona se este fato decorre do “desejo da mulher”, ou pode ocorrer por conveniência médica, facilidade do sistema de saúde, currículos de obstetrícia fracos, ausência de parteiras qualificadas, ou da busca de laqueadura durante a cesárea. Embora os hospitais privados façam mais cesárea que os públicos, não é desejo da mulher de classe média a opção preferencial por cesárea.
Para tanto, este estudo propôs identificar as expectativas de gestantes com relação ao tipo de parto preferido por elas. Procuramos também caracterizar o perfil das gestantes segundo as variáveis sociais, demográficas e reprodutivas; verificar se houve diferença entre as expectativas com relação ao tipo de parto preferido por elas, bem como os motivos de sua escolha entre gestantes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e um hospital privado.

2 METODOLOGIA
Trata-se de um estudo descritivo e exploratório de abordagem qualitativa, que se caracteriza, segundo Minayo (1994, p. 22) “trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis”. A abordagem quantitativa se preocupa com a realidade que não pode ser quantificada e se aprofundar no mundo dos significados das relações humanas. A pesquisa qualitativa também oferece ao pesquisador a possibilidade de captar a maneira pela qual os indivíduos pensam e reagem frente às questões focalizadas (PRAÇA, MERIGHI, 2003).
A pesquisa incluiu gestantes que realizaram o Pré-Natal na Estratégia de Saúde da Família no Parque do Lago II e gestantes que participaram do serviço de Pré-natal no ambulatório do Hospital Evangélico Dr. e Srª. Goldsby King, na Cidade de Dourados, MS no período de fevereiro de 2009 a julho de 2009.
Dourados, por ser a segunda maior cidade do Estado de Mato Grosso do Sul é referência na região em prestação de serviços nos setores de saúde, comércio, educação, dentre outros, para os 35 municípios vizinhos que compõe a região da “Grande Dourados”. É referência também às necessidades de risco em saúde, das cidades do Paraguai, país vizinho que faz fronteira com o nosso Estado a oeste.
O município de Dourados compõe uma rede de atenção básica, com 28 equipes de Estratégia da Saúde da Família (ESF) urbanas e nove ESF rurais, além de Unidades Básicas de Saúde que oferecem assistência em nível de atenção primária a toda população e acompanhamento de pré-natal às gestantes sem risco gestacional. As gestantes de alto risco são encaminhadas ao Centro de Atendimento à Mulher (CAM) (SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE, 2008).
Segundo dados do Sistema de Informação de Nascidos Vivos do Ministério da Saúde (SISNASC) no ano de 2008, foram registrados aproximadamente 3.008 nascidos vivos em Dourados. Nesse mesmo período, cerca de 33% das gestantes realizaram até seis consultas pré-natais e 63% mais de seis consultas de pré-natal nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos ESF, que oferecem atenção primaria (SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE, 2008).
Uma das instituições privadas do município de Dourados/MS é o Hospital Evangélico Dr. e Srª. Goldsby King. Foi fundado em 15 de novembro de 1946, tendo dado início à construção pela doação financeira feita pelas senhoritas Annie e Dulie King, em memória de seus pais, “Dr. e Srª. Goldsby King”. É um hospital filantrópico, de propriedade da Igreja Presbiteriana do Brasil, sendo a Associação Beneficente Douradense a entidade que o mantém e o administra. Atende por convênios particulares e atualmente voltou a atender pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A coleta dos dados foi realizada através de entrevista semi-estruturada, especialmente elaborada e pré-testada para este fim, dividida em três partes: parte um, na qual constaram as características sócio-demográficas das gestantes; parte dois, dados reprodutivos e, parte três, na qual foram abordadas as expectativas de gestantes com relação ao tipo de parto preferido por elas, bem como os motivos de sua escolha. As entrevistas foram gravadas com o uso de mp3, transcritas e posteriormente analisadas.
A amostra foi semi-intencional, participando todas as gestantes que compareciam à unidade ou ao serviço na data previamente agendada para a consulta de pré-natal com o médico e/ou Enfermeiro responsável pelo serviço.
Utilizamos como critérios de inclusão gestantes com idade maior que 16 anos que estivessem recebendo assistência pré-natal. Como critérios de exclusão, pacientes mentalmente incapacitadas; gestantes de alto risco, incluindo diabéticas, cardiopatas, pneumopatas, com restrição de crescimento intra-uterino, com polidrâmnio ou oligoâmnio, descolamento prematuro da placenta, placenta prévia, rotura prematura das membranas, malformação fetal e pós-datismo, dentre outras situações clínicas que pudessem interferir na escolha do parto pela paciente.
As gestantes foram esclarecidas sobre a intenção científica da pesquisa, as questões abordadas na entrevista, o sigilo de suas respostas e o direito da desistência a qualquer momento por parte da gestante. Para a participação, as gestantes consentiram participar na pesquisa com a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Conforme a Legislação Brasileira (Resolução N° 196/96 do Conselho Nacional de Saúde) – a presente proposta de pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS e pelos órgãos competentes da UEMS.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Participaram do estudo 20 mulheres, sendo 10 gestantes que realizavam seu pré-natal na Estratégia Saúde da Familia (ESF) do bairro Parque do Lago II e 10 gestantes que realizavam seu pré-natal no ambulatório do Hospital Evangélico Dr. e Srª. Goldsby King. Para a apresentação e discussão dos dados, organizamos os mesmos em unidades temáticas abaixo apresentadas.

3.1Características Sócio-Demográficas e Reprodutivas das Gestantes
Em relação às características sócio-demográficas encontramos mulheres com idade entre 17 e 43 anos tanto no setor privado como no setor público, sendo 10% com menos de 19 anos, 70% entre 20 e 34 anos e 20% com mais de 35 anos. Quanto à etnia, 70% brancas e 30% pardas nas duas instituições.
Quanto à escolaridade, 14 gestantes entrevistadas apresentavam ensino fundamental completo; entretanto, observou-se 50% com fundamental incompleto do setor público e somente gestantes do setor privado apresentaram ensino superior.
Estudos de Haidar et al., (2001) mostram que a baixa escolaridade materna está associada a um maior risco de mortalidade materna e a ocorrência de recém-nascido de baixo peso. Cita que as mães com menos de oito anos de escolaridade apresentam os maiores índices. A escolaridade materna está associada ao tipo de parto, sendo que as mães com maior escolarização apresentam uma chance de seis vezes maior de terem filhos de parto cesáreo. Esse tipo de parto é decorrente tanto da opção da mãe como opção médica, pois, sendo que a cesariana tem um custo maior, as mães com maior escolaridade costumam ter melhores condições econômicas, podendo optar por ele. Relatam também que o número de consultas no pré-natal é maior nas gestantes que possuem maior instrução.
Associando a baixa escolaridade (ensino fundamental incompleto) e o baixo padrão sócio-econômico das gestantes observa-se que essas mães apresentam menor ganho de peso na gestação, início tardio do pré-natal, maior número de filhos (mais de três), menor intervalo entre as gestações predispondo as crianças aos riscos. Em nosso estudo observamos que, nas gestantes com menor escolaridade o índice de abortos for maior, fator constatado somente entre as usuárias do serviço público (50% das gestantes). Já no setor privado, as gestantes possuíam maior grau de instrução (ensino médio e/ou ensino superior) não houve relato de aborto.
Das entrevistadas, 80% responderam estar vivendo em algum tipo de união no momento da entrevista. No entanto, houve um maior percentual de solteiras no setor público (20%), em contraste com as gestantes do setor privado, que apresentaram o maior percentual de casadas: 80%.
Mais de 90% das entrevistadas do setor privado declararam ter ocupação remunerada, e 60% do setor público declararam serem do lar. Observou-se que a maior parte das mulheres do setor privado declarou renda familiar entre quatro e 12 salários mínimos (70%). Entretanto, 100% das mulheres do setor público informaram uma renda familiar inferior a três salários mínimos.
A expectativa em relação ao parto está ligada à experiência vivida culturalmente por essa mulher. Sabe-se que a experiência do parto é influenciada por fatores como procedimentos obstétricos, os cursos de preparação para gestantes, a história obstétrica anterior, o desfecho de uma gravidez prévia e a experiência pessoal, ou familiar, que essa mulher tem em relação aos diferentes tipos de parto (LOPES et al., 2005).
Além disso, fatores ligados à assistência médica, à precária educação e orientação às gestantes, assim como causas de natureza econômica, têm, provavelmente, proporcionado elevado número de parto cesariano em detrimento do parto normal (FABRI; MURTA, 1999).
Três mulheres do setor particular se encontravam até a 16ª semana de gestação e sete, acima de 16 semanas, enquanto no setor público todas estavam com mais de 16 semanas de gestação.
No setor público, observou-se maior proporção de multíparas (acima de três gestações) (50%), contra 20% no setor privado. Em ambos os setores, para aquelas com histórias de partos anteriores, verificou-se a mesma proporção de cesáreas e parto normal pregressos.
Em relação ao número de consultas, até o momento da entrevista, 40% das mulheres mencionaram ter realizado seis consultas de pré-natal. Entretanto, verificou-se uma diferença importante: enquanto no setor público cerca de 60% das mulheres referiram ter tido mais de seis consultas de pré-natal, no setor particular apenas 20% das mulheres alcançaram esse patamar.

3.2Determinantes para a escolha do tipo de parto
A atenção adequada à mulher no momento do parto garante que ela possa experimentar a maternidade com segurança e bem-estar, e respeita os significados dados ao nascimento por ela e sua família. A vivência do parto será mais ou menos prazerosa em razão de uma série de condições intrínsecas (idade, experiência em partos anteriores, experiência de parto de mulheres que lhe são próximas, planejamento da gravidez) e outras, relacionadas ao sistema de saúde (qualidade da assistência pré-natal e ao parto) (BRASIL, 2001).
Desta forma, surge a indagação: Qual o melhor tipo de parto? Parto normal ou parto cesáreo? Esta é uma discussão surgiu junto com o início das intervenções cirúrgicas na gravidez e persiste até hoje em que a dúvida é ainda maior.
Em relação às vantagens e desvantagens as formas da mulher parir, Vianna (2004) menciona que:
É sabido que o parto normal tem muitas vantagens em relação à cesariana: é o fisiológico – o corpo da mulher foi preparado para isso; a recuperação é muito mais rápida; há menor chance de hematomas ou infecções; menor risco de complicações para a mãe e para o feto; menor chance de dor pélvica crônica. Quanto à dor, com as técnicas de analgesia de parto utilizadas hoje em dia, essas podem ser evitadas.

A princípio então, deve-se pensar primeiro no parto normal, principalmente em se tratando de mulheres saudáveis e com gestações sem intercorrências. Mas, algumas chegam até o médico com muito medo do parto normal. Seja por antecedentes próprios ou familiares de um trauma qualquer ocorrido por ocasião de algum nascimento, seja por desconhecimento do que é um parto, seja pela insegurança que a aparente imprevisibilidade de um parto normal possa causar. Desse modo, algumas mulheres não conseguem sequer aventar a possibilidade de terem um parto normal preferindo o parto marcado, preparado, tranqüilo, “seguro”. Muitas vezes, mesmo sendo informadas sobre os tipos de parto (normal e cesárea), sobre as vantagens e desvantagens de cada um, por vezes, não se consegue demovê-las desta idéia fixa, e o normal para elas seria a cesariana.
Neste processo, o parto passou a ser vivenciado como um momento de intenso sofrimento físico e psicológico. O medo, a tensão e a dor das parturientes nesse modelo de assistência impedem o processo fisiológico do parto normal, o que pode culminar com práticas intervencionistas que, na maioria das vezes, poderiam ser evitadas (OMS, 1996).
O parto normal, apesar de ser considerado uma alternativa mais favorável à saúde da mãe e do bebê, tem sido quase relegado ao esquecimento pela população e por parte dos profissionais da área médica. Faúndes e Cecatti (1991) comentam que a preferência dos médicos pela cesariana pode ter várias origens. Atualmente, o que domina é a conveniência de uma intervenção programada, que não tomará mais que uma hora de seu tempo, ao contrário do parto vaginal que pode ocorrer a qualquer hora do dia ou da noite, fins de semana ou feriados, e que ocupará um período maior e imprevisível de seu tempo. Muitos optam por esta via de parto em virtude de deficiências de treinamento na condução de partos complicados e medo de processo por imperícia. Comentam que ainda não existe no Brasil qualquer estudo que determine a influência do fator do médico sobre a incidência de cesáreas.
O Ministério da Saúde em 1998 passou a pagar menos pelo parto cesáreo ao hospital e ao médico, estabelecendo o limite de 40% de cesáreas para pagamento. Assim, verificou-se que em 2003 a taxa de cesáreas realizadas pelo SUS caiu para próximo de 25% em relação ao ano de 1995 em que essa taxa era de aproximadamente 33% (DATASUS, 2005).
A maneira como se pratica a assistência obstétrica no Brasil também contribui para as expectativas quanto à via de parto. Para Hardy et al., (1988), o cuidado pré-natal, em geral, não prepara a mulher grávida psicologicamente para o parto, pelo contrário, o medo e insegurança que toda mulher grávida sente são mais estimulados do que prevenidos no pré-natal que ela recebe e no contexto social em que ela passa a sua gravidez. Portanto, o medo da dor no parto é exacerbado com as primeiras contrações uterinas, requerendo um apoio psicológico para a parturiente.
Besio (1999), após enumerar justificativas para as altas taxas de cesárea, defende as razões para que os partos sejam vaginais. Para ele, a gravidez e o parto são processos naturais que acontecem por si mesmos, não necessitando da intervenção de terceiros. A cesárea seria uma intervenção médica sobre um processo que a natureza resolve e regula sem artifícios. No entanto, para Cecatti (2002), as discussões hoje estão mais centradas na escolha do tipo de parto pela mulher, sendo que se a maior parte preferia cesariana porque era vendida como um produto de qualidade, atualmente, estabelecidos o valor do parto normal bem feito e as possíveis complicações da cirurgia, a visão passa a ser mais favorável ao processo natural.
Em nosso estudo verificamos que para duas gestantes usuárias do setor privado houve indicação para que o parto fosse cesárea e, para outras duas, para o parto normal. Já no setor público as gestantes mencionaram que houve sugestão/orientação para o parto normal.
É importante destacar que o desejo pelo parto normal foi manifestado em apenas 45% das entrevistadas. No tocante ao parto operatório este índice aumentou para 55%, sendo maior nas usuárias do setor privado: sete gestantes preferiram cesárea e três, o parto normal. Já no setor público, seis gestantes escolheram o parto normal e quatro, cesárea, o que confirma a literatura estudada em relação ao aumento de cesáreas no Brasil, principalmente nas instituições privadas. Entre as primíparas, as usuárias do setor público preferiram o parto normal, enquanto que no setor privado, das cinco entrevistadas, duas preferiram o parto normal e três, o parto cesáreo.
Tendo em vista as conclusões do Simpósio “Cesariana: incidências de fatores que a determinam e conseqüências maternas e perinatais”, Universidade de Campinas, (UNICAMP, 1983), os dados corroboram com nosso estudo confirmando-os quando dizem que, o aumento na incidência de cesariana é, porém diferenciado, observando-se ser relativamente menor nas camadas sócio-econômicas mais desfavorecidas e maior nas camadas mais favorecidas, que constituem a clientela particular.
A análise dos relatos das gestantes sobre suas expectativas em relação ao tipo de parto permitiu a construção de unidades temáticas expostas a seguir, contendo trechos das entrevistas feitas para melhor clarificar a idéia do conceito.

3.2.1Dor e medo: o medo da dor

Fatores sócio-culturais também podem afetar a decisão da mulher quanto à via de parto. Uma razão seria o medo da dor na hora do parto e parto, em que a gestante optaria pela cesárea eletiva, a qual é decidida com antecedência para dia e hora marcados e que permitirá a ela um parto sem qualquer dor, desde que receba também fortes analgésicos depois da cirurgia.
A cesárea permite à mulher manter intactas a anatomia e fisiologia da vagina e do períneo, enquanto que o parto vaginal pode produzir perda da função do coito normal. Existe também o conceito popular de que o parto vaginal é mais arriscado para o feto do que uma cesárea. Assim, um mau resultado neonatal é muitas vezes atribuído ao fato do médico não se ter decidido por uma cesárea, ao invés de um parto vaginal (FAÚNDES; CECATTI, 1991).
Para Viggiano (1982), Braga (1988) e Moraes (1982), o despreparo psicológico das mulheres para o parto vaginal condicionado pelo ambiente social e pelos meios de comunicação e falha do pré-natal neste aspecto, são fatores agravantes do índice de incidência de cesáreas, transformando-se em um fenômeno cultural que extrapola a área médica.
Nesta pesquisa, encontramos o medo como um fator sócio-cultural altamente contribuinte do parto cesáreo, confirmando os achados na revisão da literatura estudada de que a cultura influencia nos fatores emocionais contribuindo para o medo e a angustia relacionados à gestação e a parturição.
É comum as gestantes manifestarem medo do parto. Para Lopes et al (2005), a realidade desse medo está presente, geralmente, pela sensação de dor inerente ao trabalho de parto, ou seja, as contrações.
Na realidade, pode-se dizer que o medo do parto pode ser considerado a expressão de vários sentimentos de ansiedade alimentados durante a gestação e que está estreitamente vinculado a elevação do risco de uma experiência negativa do parto.
As colocações feitas pelas gestantes ilustram bem a presença do medo da dor e sua correlação com o parto, especialmente para o parto normal.
[…] eu tenho medo de ficar sofrendo, minha mãe teve normal, e ela sentiu a dor e falou que dói muito, mas meu marido quer normal, mas eu não, não quero sentir dor (G6 particular).

[…] Quando eu fiquei sabendo que estava grávida eu queria normal, por causa da recuperação depois que é mais rápida, mas eu fui ficando com medo, com medo, com medo e ai eu optei por cesárea. Por que fiquei com medo da dor na hora, minha mãe, minha avó falaram que parto normal dói muito (G3 particular).

Mesmo as gestantes que tiveram parto normal anterior referem medo e ansiedade frente à vivência de uma nova experiência com relação ao parto.
[…] vai ser normal, mas eu to com medo de sofrer, porque eu tenho um casal e tive eles tudo normal e sofri muito, quase perdi um […] (G10 público).

Outro fator importante observado nas entrevistas aponta que a família também pode ser determinante na escolha do tipo de parto pelas gestantes.
[…] minha família que falou como é o parto normal… Normal a gente sente uma dor… a cesárea a gente sente dor também na hora e depois, mas tenho muito medo do parto normal, morro de medo (G7 público).
[…] Eu recebi informações de um monte de pessoas de dentro de casa, porque na minha casa tem crianças. Falavam que o parto normal é bem melhor […] (G8 público).

[…] fiquei com medo da dor na hora, minha mãe, minha avó falaram que parto normal dói muito […] (G3 particular).

[…] Quero cesárea, eu tenho medo de ficar sofrendo, porque minha mãe teve normal, e ela sentiu a dor e falou que dói muito… não quero sentir dor (G6 particular).

3.2.2 Parto normal é rápido

O fato de o parto normal ser mais rápido foi uma expectativa citada nas falas, ligada à categoria anterior, já que a experiência de vivenciar a dor traz o interesse na evolução rápida do parto.
[…] quero normal. Espero que seja rápido igual ao outro (G7 particular).

[…] não sofrer muito, e que (o médico) tire o bebê rápido (G5 particular).

[…] Espero que na hora seja bom, que não demore muito, porque a dor é na hora […] (G3 público).

Entre as gestantes que preferiram o parto normal, apontaram motivos como: a recuperação pós-parto mais rápida, o medo do parto cirúrgico e suas possíveis sequelas (hemorragia pós-parto, infecção dos pontos). Algumas falas confirmam o exposto:
Eu quero normal… Tenho medo da cesárea, da cirurgia e daquela agulha que eles colocam nas costas da gente, e eu sei que é bem grande. Tenho medo de abrir os pontos também […] (G7 particular).

[…] Era cesárea, agora quero normal, porque o parto normal é mais rápido e recupera mais rápido para eu poder fazer as coisas e não precisar depender dos outros (G1 público).

[…] o parto normal é melhor mesmo, para nós mulheres, porque não pega nenhum tipo de doença… no parto cesáreo é perigoso a gente pegar alguma infecção por causa dos pontos […] (G3 público).

[…] a recuperação é mais rápida, não fica dependendo dos outros… a cesárea a gente depende praticamente 90 dias […] (G4 público).

[…] Quero normal, porque a dor é só na hora e depois que ganha pára, a recuperação é mais rápida e é melhor para o bebê porque é natural e é melhor pra ele (G5 público).

[…] Eu quero normal, porque é só àquela hora ali e depois em dois, três dias você já está boa, já pode andar e tudo mais (G9 público).

Entre as multíparas, as experiências anteriores de partos normais que lhes foram, em alguma medida, satisfatórias, fizeram com que escolhessem novamente o parto normal.
[…] o meu primeiro foi parto normal, então parto normal é bem melhor… eu me senti mais segura, foi rápido, não doeu muito e a recuperação é mais rápida, não fica dependendo dos outros […] (G4 público).

Eu quero normal, porque o meu primeiro foi normal e eu não senti muita dor, foi só àquela hora ali que estourou a bolsa e pronto, foi o tempo de chegar ao hospital e ganhar […] (G7 particular).

Um ponto interessante a ser destacado nas entrevistas foi a escolha do parto normal para incentivo de outras pessoas da família e o nível de informação a cerca do parto, mesmo não sendo o parto normal sua escolha preferencial.
[…] normal, só para incentivar os filhos, porque para mim não dá certo, eu sei que é bom tanto para mãe quanto para o neném, é a recuperação, o leite para amamentação, que o leite aparece mais rápido, e o parto cesariano corre o risco durante a anestesia, e em minha opinião o parto normal é melhor (G4 particular).

3.2.3Parto cesáreo

Segundo Siqueira et al., (1981), pesquisas realizadas na região sul e sudeste do Brasil demonstram um predomínio de partos cesarianos entre pacientes particulares e conveniadas em relação às demais. Do mesmo modo, no levantamento dos dados das entrevistas das duas instituições de níveis sócio-econômicos diferentes, também foi encontrada uma maior proporção de parto cesariano na instituição privada.
Autores como Rattner (1996) e Yazlle et al., (2001), mencionam que as principais indicações não médicas para o parto operatório são: a conveniência do médico, o fato da cirurgia ser vista pela população como “um bem de consumo”, o desejo de “aproveitar o procedimento cirúrgico” para fazer laqueadura e o medo da dor e lacerações vaginais que podem aparecer no parto vaginal.
G6, usuária do serviço público, comenta sobre a preocupação com o parto normal por complicações clínicas, como mostra a fala a seguir:
[…] falaram que o parto melhor é o normal, mas pra mim não, quero cesárea… eu tenho varizes na vagina então tem que ser o parto cesáreo, porque da outra que tive foi o parto normal e ela nem estava encaixada, o médico me fez ficar até ela sair, então por isso eu não quero mais para não ter a mesma experiência da outra.

Os dados encontrados nessa pesquisa mostram que a maioria das mulheres entrevistadas, tanto da instituição privada como da pública, fazem a opção pelo parto normal. Entretanto verificou-se maior influência do médico, na preferência pela cesárea na instituição privada o que confirma o que foi exposto anteriormente.
O médico me falou na primeira consulta que normal não era muito bom… porque o bebe sofre mais, ele disse que cesárea era melhor… eu queria normal, por causa da recuperação que é mais rápida, mas fui ficando com medo e optei por cesárea. […] (G3 particular).

[…] O médico me disse que cesárea é melhor, porque eu posso escolher o dia e a hora de ganhar, sem dor. […] (G9 particular).

VIANNA (2004) também cita a cesárea como “bem de consumo” nas regiões mais desenvolvidas, visto que em clínicas particulares o número de cesáreas é bem maior, pois na prática a parturiente acaba tendo maior direito de escolha e os médicos não são obrigados a se submeter a protocolos internos como no setor público.
Não recebi informações. Quero cesárea. Porque cesárea não sente dor, é mais prático […] (G5 particular).

No caso das multíparas, a escolha pela cesárea como facilitador para um método contraceptivo definitivo, a laqueadura, e experiências reprodutivas anteriores favoráveis à cesariana também estiveram associados à escolha desse tipo de parto.
[…] como tive pré-eclâmpsia na gravidez anterior e quero fazer laqueadura, então eu quero cesárea […] (G1 particular).

[…] Minha preferência inicial seria normal, mas como eu vou laquear então não tenho muita escolha, vou fazer cesárea (G2 particular).

3.2.4A realização do Pré-Natal

De acordo com a normatização do Ministério da Saúde (BRASIL, 1985, p. 19-20), o pré-natal na sua essência se constitui como “um conjunto de procedimentos clínicos e educativos com o objetivo de promover a saúde e identificar precocemente os problemas que possam resultar em risco para a saúde da gestante e o concepto”.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que durante a gestação a mulher tenha no mínimo seis consultas de pré-natal. Nas regiões com menor desenvolvimento socioeconômico a adesão ao pré-natal é menor e, isso repercute nos índices de mortalidade infantil.
Sendo um dos objetivos da assistência pré-natal a redução de riscos durante a gestação, Barbosa (1981, p. 135) afirma que “a boa qualidade, eficiência, freqüência e assistência pré-natal revelam, sem dúvida, o desenvolvimento de uma nação. A assistência pré-natal é, por si, capaz de reduzir, drasticamente as complicações da gestação e do parto e minimizar a mortalidade perinatal”.
Neme (2000) confirma que o caráter preventivo do pré-natal é fundamental para diminuir os índices de mortalidade materna e perinatal, pois quando bem feito previne patologias, como anemias, doenças hipertensivas gestacional, favorece o preparo psicológico materno para o parto, além de garantir a perfeita estruturação do organismo fetal, prevenção do abortamento e o risco de parto prematuro e até o óbito perinatal.
Nas ações preconizadas para a assistência pré-natal, após confirmação da gravidez em consulta médica ou de enfermagem, dá-se o início do acompanhamento da gestante, a qual deverá receber as orientações necessárias referentes ao acompanhamento pré-natal, como a seqüência das consultas (médica e de enfermagem), onde intervalo entre as consultas deve ser de aproximadamente quatro semanas. Após a 36a semana, a gestante deverá ser acompanhada semanalmente, visando à avaliação da pressão arterial, da presença de edemas, da altura uterina, dos movimentos do feto e dos batimentos cárdio-fetais. No acompanhamento pré-natal deve haver também as visitas domiciliares e as reuniões educativas (BRASIL, 2000).
Dessa maneira, faz-se necessário o acompanhamento periódico e contínuo das gestantes, em nível de pré-natal que pode ser realizada em Unidades Básicas de Saúde, instituições hospitalares e maternidades.
Nas Unidades Básicas de Saúde quem faz o acompanhamento do Pré-Natal é o profissional de Enfermagem, desde que esta gestante não apresente gravidez de risco. Esta prerrogativa é confirmada na Lei do Exercício Profissional da Enfermagem – Decreto nº 94.406/87 apontando que “o pré-natal de baixo risco pode ser inteiramente acompanhado pela enfermeira”. Já nas instituições privadas, as gestantes normalmente são acompanhadas pelo seu médico obstetra.
Oba (1996) expõe que a consulta de Enfermagem e as outras atividades educativas desenvolvidas pelo Enfermeiro parecem ser preenchedoras das lacunas deixadas pela consulta médica, que na maioria das vezes enfatiza unicamente os aspectos biológicos. Assim, a consulta de enfermagem associada a atividades educativas torna-se um espaço importante de discussão e orientação para as gestantes.
O acesso à informação durante a gestação também foi bastante diferenciado nos dois setores (público e privado). As mulheres do setor público relataram se sentirem mais informadas sobre as vantagens e desvantagens dos diferentes tipos de parto (60%) em comparação às mulheres do setor privado (40%).
Pelos depoimentos a seguir, pode-se observar que durante as consultas no pré-natal muitas duvidas não foram esclarecidas.
O médico falou que ainda não é hora para eu escolher o parto … que ainda não é o momento para eu saber (G6 particular).

Eu quero normal agora, porque antes eu queria cesárea, tinha medo de sentir dor, mas o médico me disse que tenho tudo pra ser normal e que eu não iria fazer cesárea, de jeito nenhum… (G8 particular).

Ninguém me disse nada no consultório, eu fui atrás para saber na internet. Porque eu perguntava para meu ginecologista e ele dizia que era cedo para eu saber que parto escolher, que eu tinha que me preocupar com minha saúde e do bebê, porque o parto depende disso […] (G10 particular).

A Enfermeira falou que parto normal é melhor porque não fica muito deitada, é mais rápido, é melhor para gente e para o bebê […] (G3 público).

Na consulta ele (o médico) não conversa com a gente sobre os tipos de parto, ele conversa sobre de como está o bebê, como eu estou, se sente dor, mais voltado para o bebê (G4 público).

[…] a Enfermeira me falou que é melhor o parto normal porque o bebê não tem sequela, e é mais rápido, é só àquela hora e pronto… (G9 público).

Os dados permitem concluir que o parto normal era o tipo de parto esperado pela maioria das mulheres do setor público (60%), sendo que essa expectativa diminui dentre aquelas do setor particular (30%) que preferiram o parto normal. A principal justificativa para preferir a via vaginal para o parto foi a recuperação mais rápida e para a escolha da cesárea, o medo da dor. Com isso, fica claro a importância da assistência pré-natal como dimensão educativa para contribuir com o acréscimo de informações que as mulheres possuem sobre seu corpo e valorizar suas experiências de vida. No entanto, infelizmente, essa dimensão educativa foi, na maior parte, observada através das falas das gestantes do setor público.
Rios et al., (2007) acreditam que o processo educativo (educação em saúde) é fundamental não só para a aquisição de conhecimentos sobre o processo de gestar e parir, mas também para o fortalecimento da gestante como ser e cidadã. Desta forma, o pré-natal um espaço adequado para que a mulher se prepare para viver o parto de forma positiva, integradora, enriquecedora e feliz.

4CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa mostrou que há divergencias entre a percepção dos médicos a respeito da opinião das mulheres e a real opinião/preferência das mesmas sobre a via do parto. Isso nos leva a concluir de que a percepção do profissional nem sempre é a mesma das preferências das mulheres. Buscar uma melhor comunicação e orientação às gestantes poderia diminuir os altos índices de cesárea e evitar mortes desnecessárias relacionadas às suas complicações como, por exemplo, maior risco de hemorragia e infecção.
Conforme ressalta o Ministério da Saúde (BRASIL, 2001), na orientação sobre o melhor tipo de parto estão implicados necessidades, riscos e benefícios, complicações e repercussões futuras, sendo importante à informação e formação de opinião entre as mulheres, para que elas possam reivindicar aquilo que é melhor para a sua saúde e a de seus filhos, pois, embora profissionais e mulheres façam a opção antecipada do tipo de parto, esse fato não pode ser visto como uma simples questão de preferência (OLIVEIRA et al., 2002).
Balan (1996) aponta que a assistência pré-natal adequada durante a gestação realizada por uma equipe multiprofissional é medida essencial para preservar a saúde da gestante e do feto. Pelos resultados de nosso estudo concordamos com este mesmo autor quando ele cita que a participação da Enfermeira no atendimento às gestantes de baixo risco é de fundamental importância para a orientação das queixas comuns destas mulheres, educação à saúde, discussão dos temores próprios desta fase e de atitudes que favoreçam a evolução fisiológica do período gestacional e do parto. Salientamos que, nossa vivencia na área da obstetrícia nos mostrou que a ausência de um atendimento pré-natal que prepare a gestante para o parto vaginal está entre um dos fatores agravantes dos índices de cesarianas.
Com relação às expectativas encontradas para o tipo de parto junto às gestantes entrevistadas, o medo de sentir dor foi o mais referido. Nesse caso, as colocações foram feitas de diferentes formas, a maioria referindo o medo do próprio trabalho de parto, outras com relação ao pós-parto, devido a histórias pregressas e familiares de vivência de dor nessa fase. Esses dados são corroborados por outras pesquisas como a de Lopes et al., (2005), nas quais visualizaram a mesma preocupação por parte de gestantes entrevistadas.
Com os resultados de nosso estudo, sentimos a necessidade de mudança nas filosofias institucionais (tanto no serviço público como no privado), para que recebam a gestante com respeito, ética e dignidade, além de serem incentivadas para o exercício de sua autonomia no resgate do papel ativo da mulher no processo parturitivo, para que esta tenha o direito de escolha sobre a preferência do tipo de parto, bem como ser ouvida e esclarecida de suas dúvidas e temores.

5REFERÊNCIAS
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5- AGRADECIMENTOS

Agradecemos às gestantes participantes deste estudo. À Secretaria Municipal de Saúde de Dourados e ao Hospital Evangélico por liberar o campo para a pesquisa. À Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – UEMS – pela disponibilização da bolsa de Iniciação Científica.

PRINCIPIOLOGIA AMBIENTAL

PRINCIPIOLOGIA AMBIENTAL

Princípios são os mandamentos básicos e fundamentais nos quais se alicerça uma ciência. São as diretrizes que orientam uma ciência e dão subsídios à aplicação das suas normas.
Os princípios são considerados como normas hierarquicamente superiores as demais normas que regem uma ciência.
Em uma interpretação entre a validade de duas normas, prevalece aquela que está de acordo com os princípios da ciência.
Apesar de ser uma ciência jurídica nova, o Direito Ambiental já conta com princípios específicos que o diferenciam dos demais ramos do direito, apesar dos autores divergirem um pouco na colocação dos princípios.
Para melhor entendermos a sistemática ambiental adotada pelo direito brasileiro necessário se faz uma breve análise da evolução da legislação sobre a matéria nas últimas décadas. Assim sendo, observamos que até a década de 70 o componente ambiental se apresentava inserido em diplomas legais por setores, como o Código de Águas e o Código Florestal, prevalecendo uma visão eminentemente economicista.
Entretanto, desde a reunião de Estocolmo em 1972 – que marcou a mobilização internacional em defesa ao meio ambiente – a questão ambiental vem recebendo um tratamento legislativo mais específico no Brasil. Vale destacar que, além da evolução legislativa verificada no tratamento do meio ambiente, também foram criados órgãos de controle ambiental no âmbito Federal IBDF/IBAMA; e Estadual FEEMA.
Com a edição da Lei 6.938/81, foi instituída a Política Nacional de Meio Ambiente com objetivo da preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia a vida. Esta lei representou considerável avanço, pois que além de ser o primeiro diploma legal brasileiro a reconhecer o meio ambiente com bem em si, consagrou a responsabilidade objetiva para apuração dos danos ambientais.
Posteriormente, com o advento da Constituição Federal de 1988 novos princípios foram introduzidos. Assim, além da garantia de meio ambiente ecologicamente equilibrado a todos, a Constituição efetuou a repartição das competências em matéria ambiental entre a União, os Estados e os Municípios, de forma a dar maior eficiência ao combate da poluição e a defesa do meio ambiente.
A Constituição sistematizou o tratamento jurídico da matéria, estabelecendo, além das competências privativas, competência comum para o combate à poluição (CF, art.23, VI); e concorrente para legislar sobre florestas, caça, pesca e fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição (CF, art.24, VI).
A repartição das competências ambientais, verificada na Constituição Federal de 1988, inaugurou a municipalização da questão ambiental, principalmente nas matérias de manifesto interesse local. Este fato representou sem azo a dúvidas, um avanço apreciável, posto que o tratamento local dos problemas ambientais constitua a forma mais adequada de garantir uma efetiva proteção ao meio ambiente.
Especificamente sobre a questão da poluição, observamos que além das disposições contidas na Lei 6.938/81, inúmeros outros dispositivos foram criados para dar maior efetividade a seu controle, por exemplo: a Lei 6.803/1980 que dispõe sobre as diretrizes básicas para o zoneamento ambiental nas áreas críticas de poluição; o Decreto-lei 1.413/1975 (controle da poluição do meio ambiente provocada por atividades industriais); a Lei 7.347 de 1985 (Ação Civil Pública); a Lei 7.365/1985 sobre a fabricação de detergentes não biodegradáveis; a Lei 9.605/98 que trata dos crimes ambientais, entre outras.
Vale lembrar que, a lei 9.605/98 introduziu importantes inovações no campo da criminalização das ações lesivas ao meio ambiente estabelecendo sanções penais e administrativas para punir o poluidor. É verdade que algumas disposições ainda encontram-se previstas em outras legislações criminais, como a Lei de Contravenções Penais, o Código Penal e o Código Florestal, mas a Lei 9.605/98 concentrou a maioria das infrações penais contra o meio ambiente e, relativamente aos danos causados pela poluição, o caput, de seu art. 54, estabeleceu que:
“Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à saúde humana, ou que provoque a mortandade de animais ou significativa da flora: Pena reclusão, de um a quatro anos, e multa”.
Abaixo seguem os princípios norteadores do Direito Ambiental, que entendemos ocorrer. São eles:

PRINCÍPIO DA LEGALIDADE
Necessidade de suporte legal para obrigar-se a algo. Obrigatoriedade de obediência às leis (art.5, II da Constituição Federal)

PRINCÍPIO DA SUPREMACIA DO INTERESSE PÚBLICO
A proteção ambiental é um direito de todos, ao mesmo tempo em que é uma obrigação de todos (art.225, CF). Isto demonstra a natureza pública deste bem, o que leva a sua proteção a obedecer o princípio de prevalência do interesse da coletividade, ou seja do interesse público sobre o privado na questão de proteção ambiental.

PRINCÍPIO DA INDISPONIBILIDADE DO INTERESSE PÚBLICO
Por ser o meio ambiente equilibrado um direito de todos (art.225, CF), e ser um bem de uso comum do povo, é um bem que tem caráter indisponível, já que não pertence a este ou aquele.

PRINCÍPIO DA OBRIGATORIEDADE DA PROTEÇÃO AMBIENTAL
Este princípio está estampado no art.225, caput, da Constituição Federal, que diz que o Poder Público e a coletividade devem assegurar a efetividade do direito ao meio ambiente sadio e equilibrado.

PRINCÍPIO DA PREVENÇÃO OU PRECAUÇÃO
Baseado no fundamento da dificuldade e/ou impossibilidade de reparação do dano ambiental.
Artigo 225, §1º, IV da Constituição Federal, que exige o EIA/RIMA; Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992, princípio 15 que diz: “De modo a proteger o meio ambiente, o princípio da precaução deve ser amplamente observado pelos Estados, de acordo com as suas necessidades. Quando houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis, a ausência de absoluta certeza científica não deve ser utilizada como razão para postergar medidas eficazes e economicamente viáveis par prevenir a degradação ambiental”.

PRINCÍPIO DA OBRIGATORIEDADE DA AVALIAÇÃO PRÉVIA EM OBRAS POTENCIALMENTE DANOSA AO MEIO AMBIENTE
– A obrigatoriedade da avaliação prévia dos danos ambientais em obras potencialmente danosas público está disciplina pelo art.225, da Constituição Federal que obriga o Estudo de Impacto Ambiental e o seu respectivo relatório (EIA , RIMA).

PRINCÍPIO DA PUBLICIDADE
– Os Estudos de Impacto Ambiental e o seus respectivos relatórios (EIA, RIMA) têm caráter público, por tratar de envolvimento elementos que compõe um bem de todos, ou seja o meio ambiente sadio e equilibrado (art.225, CF). Por esta razão deve haver publicidade ante sua natureza pública. A Resolução nº 9, de dezembro de 1987 do CONAMA que disciplina a audiência pública na análise da RIMA.

PRINCÍPIO DA REPARABILIDADE DO DANO AMBIENTAL
– Este princípio vem estampado em vários dispositivos legais, iniciando-se na Constituição Federal, art.225, §3º, onde diz que “as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, as sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados. O art. 4º, VII, da Lei 6.938/85, também obriga ao poluidor e ao predador a obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados.

PRINCÍPIO DA PARTICIPAÇÃO
Princípio 10 da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992; art. 225, CF, quando fala que a coletividade deve preservar o meio ambiente. Participação na elaboração de leis; participação nas políticas públicas através de audiências públicas e participação no controle jurisdicional através de medidas judiciais como ação civil pública, mandado de segurança coletivo, mandado de injunção e ação popular.

PRINCÍPIO DA INFORMAÇÃO
Em se tratando do tema ambiental, a sonegação de informações pode gerar danos irreparáveis à sociedade, pois poderá prejudicar o meio ambiente que além de ser um bem de todos, deve ser sadio e protegido por todos, inclusive pelo Poder Público, nos termos do art.225, da Constituição Federal. Ademais, pelo inciso IV do citado artigo, o Poder Público, para garantir o meio ambiente equilibrado e sadio, deve exigir estudo prévio de impacto ambiental para obras ou atividades causadoras de significativa degradação do meio ambiente, ao que deverá dar publicidade; ou seja, tornar disponível e público o estudo e o resultado, o que implica na obrigação ao fornecimento de informação ambiental.
– Art. 216, § 2º, da CF: disciplina o patrimônio cultural, traz especificamente que “cabem à administração pública, na forma da lei, a gestão da documentação governamental e as providências para franquear a sua consulta a quantos dela necessitem.”
– Lei 6.938/81 (Política Nacional do Meio Ambiente): prevê a divulgação de dados e informações ambientais para a formação de consciência pública sobre a necessidade de preservação da qualidade ambiental e do equilíbrio ecológico (art. 4º, V). No art. 9º diz que entre os instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente está a garantia da prestação de informações relativas ao meio ambiente, obrigando-se o Poder Público produzi-la, quando inexistentes, inclusive.
– Decreto 98.161, de 21.9.89 (Fundo Nacional do Meio Ambiente): estipula em seu art. 6º que compete ao Comitê que administra o fundo a. “elaborar o relatório anual de atividades, promovendo sua divulgação”.
– Lei 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor): trás a obrigação de informação em vários de seus artigos.
– Lei Federal 8.159, de 8.1.1991 (Política Nacional de Arquivos Públicos e Privados): assegura o direito ao acesso aos documentos públicos (art. 22).
– Lei 8.974/95 (Lei da Biossegurança): está previsto que os órgãos responsáveis pela fiscalização dos Ministérios envolvidos na temática e ali citados, devem “encaminhar para publicação no Diário Oficial da União resultado dos processos que lhe forem submetidos a julgamento, bem como a conclusão do parecer técnico. (art. 7º VIII)
– Lei 9.433/97 (Política Nacional de Recursos Hídricos): estabelece como um de seus instrumentos o sistema de informações sobre os recursos hídricos (art. 5º).
– Lei 7.661/98 (Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro): determina em seu art.8º que “os dados e as informações resultantes do monitoramento exercido sob responsabilidade municipal, estadual ou federal na Zona Costeira, comporão o Subsistema Gerenciamento Costeiro, integrante do Sistema Nacional de Informação sobre o Meio Ambiente- SINIMA.
– Agenda 21, capítulo 40: determina, em suma, que no processo do desenvolvimento sustentável, tanto o usuário, quanto o provedor de informação devem melhorar a disponibilidade da informação.
– Decreto 2.519, de 16.3.98: a Convenção sobre Diversidade Biológica aderida pelo Brasil pelo citado decreto prevê (art. 17º) a obrigatoriedade do intercâmbio de informações disponibilizando-as ao público.
– Dec. 2.741, de 20.8.98: na Convenção Internacional de Combate à Desertificação, determina a divulgação da informação obtida nos trabalhos científicos sobre a temática (art. 18).

PRINCÍPIO DA FUNÇÃO SOCIOAMBIENTAL DA PROPRIEDADE
Com o advento da Constituição Federal de 1988, a propriedade passou a ter seu uso condicionado ao bem-estar social e a ter assim uma função social e ambiental, conforme consta dos seus arts. 5º, XXIII, 170, III e 186, II.
Para o Direito Ambiental o uso da propriedade só pode ser concebido se respeitada sua função socioambiental, tornando-se assim mais um dos seus princípios orientadores.

PRINCÍPIO DO POLUIDOR-PAGADOR
Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992, princípio 16. Art. 4º, Lei 6.938/81 (Política Nacional do Meio Ambiente) e Lei 9.433/97 (Lei das Águas) e art.225, §3º Constituição Federal.

PRINCÍPIO DA COMPENSAÇÃO
Este princípio não está expressamente previsto na legislação, mas existe em virtude na necessidade de se encontrar uma forma de reparação do dano ambiental, principalmente quando irreversível.
O causador do dano irreversível pode fazer uma compensação com uma ação ambiental. Ex. o aterro irreversível de uma lagoa onde há vida selvagem, pode ser compensado com medidas de proteção efetiva em um lugar similar, ou mesmo a restauração de outra lagoa próxima.
O art. 8º, da Lei 6.938/81, diz que compete ao CONAMA, entre outras coisas, homologar acordos visando à transformação de penalidades pecuniárias na obrigação de executar medidas de interesse para a proteção ambiental. Estando aí uma possibilidade de se compensar o prejuízo com uma ação ambiental.

PRINCÍPIO DA RESPONSABILIDADE
Todo aquele que praticar um crime ambiental estará sujeito a responder, podendo sofre penas na área administrativa, penal e civil.
Lei 9.605/98, que trata dos crimes ambientais; Lei 6.938/81, art.14º que trata da responsabilidade objetiva do degradador.

PRINCÍPIO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992, Princípio 3, que definiu o desenvolvimento sustentável. Agenda 21;

PRINCÍPIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL
Art.225, § 1º da Constituição Federal, prevê o princípio da educação ambiental ao dizer que compete ao Poder Público promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente. A educação ambiental tornou-se um dos principais princípios norteadores do direito ambiental. Está previsto ainda na Agenda 21;

PRINCÍPIO DA COOPERAÇÃO INTERNACIONAL
Como a poluição pode atingir mais de um país, além do que a questão ambiental tornou-se uma questão planetária, assim como a proteção do meio ambiente, a necessidade de cooperação entre as nações, o princípio da cooperação internacional, tornou-se uma regra a ser obedecida, estabelecendo-se assim mais um princípio norteador do Direito Ambiental.
O Direito Ambiental é a ciência que estuda os problemas ambientais e suas interligações com o homem, visando a proteção do meio ambiente para a melhoria das condições de vida como um todo.
Esta ciência teve origem nos primeiros estudos de ecologia, passou pelo surgimento da ciência educacional ambiental, até chegar a sua formação como mecanismo de proteção do meio ambiente.
O Direito Ambiental tem como base estudos complexo que envolvem várias ciências como biologia, antropologia, sistemas educacionais, ciências sociais, princípios de direito internacional entre outras, sendo fundamental que se tenha uma visão holística para o desenvolvimento de seu estudo, não se podendo ficar em conhecimentos fragmentados, sob pena de não conseguir atingir a finalidade principal que é a proteção do meio ambiente.
O direito ao meio ambiente, a definição e o regime jurídico do meio ambiente e os princípios e objetivos da Política Nacional do Meio Ambiente são os mais destacados fundamentos do Direito Ambiental, além das definições e conceitos de ecologia, biologia, antropologia, botânica e educação ambiental.
No Brasil surgiu a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6.938, de 31.8.81), um marco histórico no desenvolvimento do Direito Ambiental dando definições importantíssimas de meio ambiente, degradação da qualidade ambiental, poluição, poluidor e recursos ambientais, bem como instituiu um valioso mecanismo de proteção ambiental denominado estudo prévio de impacto ambiental (EIA) e seu respectivo relatório (RIMA ), instrumentos eficazes e modernos em termos ambientais mundiais.
Seguiu-se a Lei da Ação Civil Pública (Lei 7.347, de 24.7.85) que tutela os valores ambientais, disciplinando a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico.
Em 1988, a nossa Constituição Federal dedicou em seu título VIII- da Ordem Social, no capítulo VI, art. 225 normas direcionais da problemática ambiental, dando as diretrizes de preservação e proteção dos recursos naturais incluindo nelas a fauna e flora, bem como, entre outras medidas, normas de promoção da educação ambiental, definindo o meio ambiente como bem de uso comum do povo.
Por sua vez a Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, a Rio-92, como ficou conhecida, sacramentou em termos mundiais a preocupação com a problemática ambiental, reforçando os princípios e regras para o combate à degradação ambiental, elaborando a Agenda 21, instrumento diretriz do desenvolvimento sustentável.
Assim, o Direito Ambiental é importantíssimo para a garantia da qualidade de vida de nossa sociedade, sendo ao mesmo tempo uma garantia de preservação das demais formas de vida, bem como dos recursos florestais, hídricos e minerais de nosso país.
Portanto, seu estudo deve ser difundido em todos os cursos universitários de direito, fornecendo a todos os profissionais uma noção básica de preservação do ambiente em que vivem e a forma de sua proteção, sendo esta um dever de todos os cidadãos, conforme prevê a Constituição Federal em seu art.225 que a impõe ao Poder Público e à coletividade. Além disso, a participação da sociedade na problemática ambiental tem também respaldo legal e deve ser incentivada.
Devemos lembrar que o Brasil ainda possui grandes reservas florestais que guardam enorme potencial econômico e biológico, objeto de estudos no mundo todo, de forma que tem condições de projetar seu desenvolvimento em harmonia com a exploração de seus recursos naturais, preservando-os o melhor possível, nunca se esquecendo dos exemplos desastrosos de muitos países hoje chamados “desenvolvidos, que se encontra em lastimável situação de degradação natural. Seus tristes exemplos não nos servem, podendo apenas ser tomados como parâmetros para se evitar o mesmo caminho que seguiram.
Portanto, o Direito Ambiental é de suma importância e deve merecer atenção de todos nós.
Entendemos que o fortalecimento dos mecanismos administrativos, jurídicos, legislativos, morais, políticos, econômicos e sociais voltados à conservação das condições do meio ambiente, apresenta-se como a única alternativa para assegurar a própria sobrevivência do homem. Hoje, mais do que nunca, está patente a necessidade de buscar o equilíbrio entre as forças produtivas da economia e os recursos naturais, para proporcionar o máximo de bem estar ao ser humano.
Entretanto, apesar da crescente consciência ecológica, a qual tem contribuído para a mudança de alguns hábitos e a evolução dos mecanismos de controle da poluição e da respectiva degradação ambiental, a natureza ainda se encontra em situação de risco, o qual, apenas será superado com a adoção dos princípios próprios do desenvolvimento sustentável, ou seja, o respeito e cuidado com a comunidade e com os seres vivos, a melhoria da qualidade da vida humana, a conservação da vitalidade e a diversidade do Planeta Terra, a modificação de atitudes e práticas pessoais, a geração uma estrutura nacional para integração, desenvolvimento e conservação e a constituição de uma aliança global.
Portanto, o caminho que devemos seguir para a mudança deste cenário passa, necessariamente, pela valorização do meio ambiente, pela adoção dos princípios citados e, finalmente, pelo cuidado com a prevenção, reparação e repressão aos danos ambientais, exigindo-se de cada cidadão uma conduta condizente ao respeito que todos de vem ter a seus semelhantes e a qualidade do meio ambiente.