Gestantes HIV positivas e sua não-adesão à profilaxia no pré

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RESUMO

Este é um estudo exploratório descritivo com abordagem qualitativa. Investigamos a não-adesão de gestantes portadoras do vírus HIV/AIDS ao tratamento preconizado pelo Ministério da Saúde no período pré-natal. Os sujeitos desta pesquisa foram sete mulheres soropositivos, que, durante a gestação, não aderiram ao tratamento profilático recomendado. Os dados foram coletados por uma entrevista semi-estruturada. Para a análise dos dados, elaboramos categorias com base nas falas destes sujeitos. Com os resultados, observamos que existe a vulnerabilidade da mulher em realizar a negociação do sexo seguro com o seu parceiro e que associado às baixas condições socioeconômicas, desemprego e falta de afeto, faz com que as mulheres se tornem vítimas doHIV/AIDS.

Descritores: Gestantes; Saúde da mulher; Sorodiagnóstico da AIDS; Cuidado pré-natal.


ABSTRACT

This is an exploratory study based on a qualitative approach. The objective was to investigate why HIV positive pregnant women do not follow the treatment which is recommended by the Health Ministry during the prenatal period. The individuals participating of this investigation were seven HIV positive women who, during their pregnancy, did not follow the prophylaxis treatment currently recommended. The data were collected by means of semi-structured interviews. Categories based on what these individuals reported were then stipulated and the results showed that women are in a vulnerable position regarding the negotiation of safe sex with their partners. Moreover, low social and economical conditions and lack of affection lead women to become victims of HIV/AIDS.

Descriptors: Pregnant women; Women’s health; AIDS serodiagnosis; Prenatal care.


RESUMEN

Este es un estudio exploratorio descriptivo con abordaje cualitativo. Se buscó investigar a la no adhesión de las gestantes portadoras del vírus HIV/SIDA al tratamiento preconizado por el Ministério de la Salud en el periodo prenatal. Los sujetos de esta encuesta fueron siete mujeres seropositivas, que durante la gestación, no se adhirieron al tratamiento profiláctico recomendado por el Ministerio de la Salud. Los datos fueron colectados por las autoras del estudio, a través de una entrevista semiestructurada. Para el análisis de los datos, elaboramos categorías desde lo que expresaron estos sujetos. Con los resultados observamos que existe la vulnerabilidad de la mujer en realizar negociación del sexo seguro con su compañero y que asociado a las bajas condiciones socioeconómicas, desempleo y falta de afecto, hace con que las mujeres se conviertan en víctimas del HIV/SIDA.

Descriptores: Mujeres embarazadas; Salud de la mujer; Serodiagnostico del SIDA; Atención prenatal.


1. INTRODUÇÃO

No início dos anos 1980, surge para a humanidade uma doença que não fora previsto pela ciência. Situa-se no campo da saúde, mas logo depois da sua notoriedade, constata-se que ultrapassa os limites do processo saúde doença, ocasionando um dos maiores problemas no contexto da saúde pública. Surge a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida AIDS – e o seu agente causador, o Vírus da Imunodeficiência Humana HIV(1).

Passadas mais de duas décadas do aparecimento da AIDS, podemos afirmar que sua trajetória ainda está marcada pelo desconhecimento em relação à doença, pelo preconceito e pela discriminação aos portadores. Isso ocorre porque se trata de uma doença altamente letal, principalmente no início de sua descoberta. Atualmente, encontra-se como uma doença crônica, mas que avança drasticamente pela população feminina e especialmente em mulheres em idade reprodutiva.

No Rio Grande do Sul, em 1987 tínhamos quatorze homens infectados para uma mulher, e esta diferença está diminuindo, chegando já a um para um, o que demonstra o significativo aumento de casos entre mulheres em nosso Estado(2). A grande parte de mulheres infectadas, encontra-se em idade reprodutiva, resultando em um aumento de crianças nascendo portadoras do vírus HIV através da transmissão vertical.

Tendo em vista esta realidade, em outubro de 2003, o Programa de Nacional de DST e AIDS revisaram as Recomendações de Terapia Anti-Retroviral (TARV) para gestantes, considerando que essas intervenções (aconselhamento + TARV) estejam disponíveis para toda a população de gestantes infectadas pelo HIV e seus filhos, uma vez que estudos mostram que a taxa de transmissão vertical do HIV, sem intervenção, situa-se em torno de 20%, e, com as medidas tomadas, reduz para zero e 2%(3). O acesso às ações de aconselhamento é um direito de toda a gestante/parturiente, possibilitando o conhecimento e, conseqüentemente, a correta adesão ao tratamento proposto.

Mesmo possuindo acesso aos programas de saúde, observamos nos serviços onde atualmente trabalhamos, um grande número de gestantes portadoras do vírus HIV que não realizaram um pré-natal adequado. Enfrentando, portanto, dificuldades para seguir o tratamento proposto.

Sendo assim, esta pesquisa tem como objetivo investigar o processo de não-adesão das gestantes portadoras do vírus HIV à profilaxia no pré-natal, recomendada pelo Ministério da Saúde durante o pré-natal.

2. TRAJETÓRIA METODOLÓGICA

Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa. Esta metodologia foi escolhida como mais adequada, pois há interação com a realidade estudada. A pesquisa qualitativa corresponde às informações mais profundas dos processos estudados, questões particulares: trabalha-se com sentimentos, crenças e atitudes do sujeito(4).

Os sujeitos deste estudo foram sete mulheres portadoras do vírus HIV que, durante a gestação, não aderiram ao tratamento profilático recomendado pelo Ministério da Saúde. Elas residem na grande Porto Alegre, buscaram o serviço Obstétrico do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, por ocasião da internação para ganharem seus filhos e foram submetidas ao teste rápido, no período de março a maio de 2005.

Escolhemos este hospital por ser referência para 29 postos de saúde da capital, ser de grande porte, universitário, de natureza filantrópica, realiza 300 partos/mês, incluindo o SUS e convênios. Sua maternidade também está cadastrada no Projeto Nascer e trabalha em consonância com o Programa de Humanização do pré-natal, parto e puerpério em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de Porto Alegre.

Todos os sujeitos foram convidados a participar desta pesquisa, cujos objetivos foram esclarecidos para eles de forma simples e clara. Também lhes foi garantida a confidencialidade de todos os dados, deixando, contudo, liberdade de escolha em participar, tendo sido assegurado que, se desistissem da pesquisa, não haveria nenhum prejuízo no seu tratamento(5). Foi solicitado aos que concordaram em participar deste estudo que assinassem o termo de consentimento livre e esclarecido, do qual cada participante recebeu uma cópia, atendendo às diretrizes e normas da Resolução nº. 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Para determinar o número de participantes, baseou-se na saturação de dados que, conforme(6) “refere-se à sensação de fechamento, vivenciada pelo pesquisador, quando a coleta de dados pára de produzir novas informações”.

Os critérios de inclusão foram estar no Alojamento Conjunto, em estágio puerperal e com o recém-nascido vivo, ser maior de idade, independente de escolaridade, paridade, atividade ocupacional, credo, raça, estado civil ou classe social. Já os critérios de exclusão foram mulheres em estágio puerperal, HIV positivas, menores de 18 anos e as maiores de idade que aderiram ao tratamento preconizado pelo Ministério da Saúde, durante sua gestação.

O instrumento de pesquisa apresentou questões norteadoras, que serviram como um roteiro previamente elaborado, abordando questões sobre a não-adesão da cliente ao tratamento preventivo da transmissão vertical.

Os dados foram coletados pelas autoras do estudo, na instituição anteriormente referida, mais especificamente na maternidade, com mulheres durante o puerpério imediato, ou seja, nos primeiros 10 dias pós-parto. O contato para a efetivação da entrevista ocorreu no período que antecedeu a alta da paciente, somente após a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido.

Para a análise, seguiremos a proposta sugerida pela autora(7), na qual se organiza o material a ser analisado. Assim, definimos dados que se destacam e, após uma exaustiva leitura, identificamos o que surgiu como relevante nesses dados e elaboramos as categorias específicas.

O projeto de pesquisa foi encaminhado em novembro de 2004 para a Comissão Científica e posteriormente ao CEP (Comitê de Ética e Pesquisa) do Hospital São Lucas da PUCRS, que avaliou e autorizou a realização da pesquisa.

3. RESULTADOS

Para proceder uma análise mais contextualizada, apresentamos o perfil demográfico dos sujeitos participantes. De acordo com a raça, quatro sujeitos são da raça branca e três da parda. Todos com baixo índice escolar, possuindo apenas o primeiro grau incompleto. São cinco moradoras da cidade de Porto Alegre e duas oriundas da Grande Porto Alegre. E em sua totalidade são multíparas, com uma média de seis gestações cada uma. Entre os sujeitos entrevistados, o número de consultas de pré-natal ficou na média de duas consultas ao longo da gestação.

Desta pesquisa emergiram as seguintes categorias:

– Ausência de planejamento familiar;
– Dificuldade em realizar o pré-natal de alto risco;
– Negação da doença;
– Falta de autocuidado.

Para a análise dos dados qualitativos, buscamos estabelecer uma compreensão de todas as informações obtidas. Os dados obtidos nos deram uma visão mais realista sobre o motivo da não-adesão das gestantes ao tratamento adequado durante o pré-natal, permitindo articular essas informações no nosso cotidiano profissional.

Tivemos como finalidade ampliar nossos conhecimentos sobre o motivo da não-adesão das gestantes ao tratamento adequado durante o pré-natal e articular essas informações com o contexto atual.

3.1 Ausência de Planejamento Familiar

As participantes da pesquisa, ao serem questionadas sobre a realização do pré-natal informaram que não se sabiam grávidas, portanto, procuraram os serviços de saúde tardiamente, reforçando que não houve planejamento nas gestações. Visto que essas mulheres se descobriram grávidas quando alguns sinais já estavam evidentes, como o atraso menstrual por vários meses como refere esta paciente:

“Não fiz o pré-natal completo, pois demorei para ter certeza que estava grávida” (A1).

Realizei pré-natal só no final da gestação, nem sei quantos meses eu estava, acho que uns cinco meses. (…) Eu poderia ter feito corretamente, né? Mas eu não sabia que estava grávida, pois eu ficava dois, três meses sem menstruar e depois descia. Desta vez aconteceu a mesma coisa, então eu não dei bola (A2).

Estas afirmações nos levam a observar a falta de percepção dos sujeitos desta pesquisa, sobre o seu corpo e sexualidade, como se a decisão de gerar um novo ser não fosse um ato de sua responsabilidade, algo que possa ser prevenido, controlado. Uma constante ambigüidade entre querer ou não engravidar, gerando um conflito interno, que as mobiliza, mas nenhuma ação em prol da prevenção é realizada. Uma das questões mais difíceis de resolver no campo da psicologia é a relação que existe entre o que se sente e o que se faz, sendo, no âmbito da gravidez não-desejada, esta relação evidente(8).

Existem múltiplas respostas para esta ambivalência, que poderemos classificar em dois grupos. Por um lado, questões objetivas, como a falta de informações sobre os métodos contraceptivos e a dificuldade de acesso aos mesmos. Por outro, razões subjetivas que estão ligadas à sexualidade humana, sexualidade como diversão, comunicação, prazer e troca de afeto(8).

Importante frisarmos que o planejamento familiar tem por objetivo principal proporcionar aos casais informações necessárias e meios apropriados, para que possam decidir de forma livre e consciente sobre o número de filhos desejados(9). Portanto, tendo como fundamento que o conhecimento e a informação não são fins, mas meios para uma postura mais responsável perante a vida, devemos buscar mais espaços de elaboração e construção da educação sexual da população, seja em escolas, hospitais, postos de saúde, mesmo no cotidiano público e privado, com atividades dirigidas à prevenção e promoção da saúde. Somente homens e mulheres bem informados sobre o assunto podem discutir o maior agravante da vulnerabilidade da mulher que se dá pelas limitações no espaço de suas relações pessoais, principalmente no que se refere às relações conjugais.

3.2 Dificuldade em Realizar o Pré-Natal de Alto Risco

Essa categoria tem por objetivo discutir alguns aspectos que emergiram na análise do testemunho dos sujeitos, como sua posição de submissão econômica e social, desigualdades decorrentes da maneira como se organizam as relações de gênero em nossa sociedade atual, dificultando, assim, o acesso à saúde e conseqüentemente à adesão ao tratamento proposto para a prevenção da transmissão vertical do HIV.

O termo adesão ao tratamento deve ser visto como uma atividade conjunta na qual o paciente não apenas obedece às orientações médicas, mas entende, concorda e segue a prescrição estabelecida pelo seu médico. Significa que deve existir uma aliança terapêutica entre médico e paciente, na qual são reconhecidas não apenas a responsabilidade específica de cada um no processo, mas também de todos que estão envolvidos (direta ou indiretamente) no tratamento(10).

Os depoimentos dos sete sujeitos entrevistados revelaram que, além de iniciar tardiamente o pré-natal, outros fatores contribuíram para a não-realização das consultas periódicas e, por conseguinte, à não-adesão ao protocolo proposto pelo Ministério da Saúde. São elas:

– Deficiência financeira para transporte até o atendimento de alto risco;
– Demora na entrega dos resultados laboratoriais (ELISA e WESTERN BLOT);
– Falta de rede de apoio para cuidar dos demais filhos enquanto estivesse ausente para consultas e exames;
– Falha na comunicação do profissional de saúde com a gestante;
– Falta de interesse da gestante (negação).

Como observamos em algumas falas concedidas:

“a primeira consulta que foi marcada, no pré-natal de alto risco, eu perdi, eu não tinha passagem” (A2).

No Brasil, em 1998, a média de consultas de pré-natal foi de três por gestante, correspondendo à média dos sujeitos deste estudo, estando aquém da meta do Ministério da Saúde que são seis consultas. Ciente desta constatação, o Ministério, entre os anos de 1998 e 1999, promoveu várias medidas de incentivo ao pré-natal e melhoria da qualidade da assistência às gestantes. O estímulo maior ocorreu devido à inclusão do acompanhamento pré-natal nas ações básicas que devem ser desenvolvidas pelos municípios para que eles possam receber recursos diretamente do Governo Federal(11).

3.3 Negação da Doença

Outra categoria que surgiu foi a negação da doença. Muitas dos sujeitos entrevistados negaram o fato de que a doença pudesse estar presente no ambiente familiar. A desconfiança do parceiro em ser ou não HIV positivo, estar ou não tendo relacionamentos extraconjugais, ser drogadito, eram hipóteses pouco comentadas no seu âmbito familiar como refere:

Ele disse que adquiriu a doença com 18 anos pois usava droga injetável, mas que foi para a Igreja e foi curado. Ele me falou isso, mas eu não acreditei. Agora ele tem 25 anos, nós nunca usamos camisinhas, ele não gosta (A3).

Em um estudo realizado no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, SP com gestantes que descobriram serem soropositivas durante o pré-natal, muitas banalizavam a definição da doença AIDS. Isso devido à falta de sintomas, o que ocasionou a dúvida da infecção(12).

Em nossa pesquisa, após o diagnóstico de portadora do vírus, também encontramos a desinformação a respeito da doença. Poucos dos sujeitos entrevistados sabiam dos problemas que o vírus poderia ocasionar. Além disso, a falta de sintomatologia também tornava remota para elas a possibilidade de ficarem doentes, com se vê neste depoimento:

Como eu estava pensando, nós temos comida, temos verdura, frutas, vitaminas. As outras morrem porque não têm boa alimentação. Isso não é o nosso caso. Na hora da comida, tem verdura, no café tem leite… Isso é sagrado. Eu cuido muito da alimentação (A4).

Mesmo com o diagnóstico de serem soropositivas, a grande maioria das mulheres segue mantendo ativa sua vida sexual e afetiva. Em contrapartida, enfrentam dificuldades na comunicação do diagnóstico, medo de rejeição no ambiente familiar. Segundo elas, mudar atitudes e comportamentos pode desestruturar sua família(13).

E a preocupação não se restringe apenas ao ambiente familiar, mas existe uma preocupação constante com a comunidade. O medo de que os vizinhos comentem que na sua família existe alguém com HIV implica assim, em manter os comportamentos diários para não deixar transparecer a doença, principalmente por causa do preconceito, que atualmente mantém-se muito intenso, conforme:

“Acho que o pior da doença é não poder falar. Muitos têm preconceito, nós falamos pra uns e eles falam pra outros…”(A5).

3.4 Falta do Autocuidado

Identificamos esta categoria, pela constante fala dos sujeitos dizendo já saberem ou terem suspeitas de que o seu parceiro é HIV positivo e mesmo assim, mantinham relações sexuais com seus companheiros e em nenhum momento questionavam ao menos o uso de preservativo feminino. Embora fossem cientes desta informação, talvez pela baixa auto-estima, falta do cuidado com seu próprio corpo, condições sociais e econômicas baixas, a negociação do uso do preservativo era muitas vezes inviável. Conforme relato sujeito:

Ele brigava comigo e não queria usar camisinha. Coisa que eu sempre quis usar com ele foi camisinha, mas ele não usava, foram raras às vezes. Ele dizia que não gostava, para ele não era bom, não sentia nada (A4).

Uma das questões mais importantes no contexto atual é a falta da negociação do uso do preservativo pela mulher, já que este método é controlado pelos homens. Em um estudo realizado em 2003 com agentes comunitárias de saúde do Programa de Saúde da Família de Porto Alegre, elas apontaram em suas falas que a negociação para o uso da camisinha masculina solicitada pela mulher é muito complicada devido à submissão, fraqueza, passividade, dependência e sentimentalismo(14). Em contrapartida, os homens se encaixam no padrão de masculinidade, força, atividade, dominação e racionalidade.

Embora seja constante a luta feminista pelos seus direitos e igualdades na sociedade atual, o homem ainda mantém a força e a dominação da família. Este fato permanece mais presente quando falamos na população de baixa renda das cidades, porque o contexto em que estão inseridos não é apenas pobre, mas também violento.

O perfil socioeconômico das mulheres portadoras do HIV mantém-se entre aquelas com baixa ou nenhuma escolaridade, o que o acesso e a compreensão necessária para as informações(15). Os aspectos sociais, econômicos, culturais e emocionais influenciam no momento em que a mulher tem que tomar alguma decisão que implique iniciar desafios e talvez confrontar a autoridade do parceiro(16), podendo, assim, criar conflitos e situações indesejáveis. Quanto mais idade tiverem as mulheres, mais difícil se torna impor tal decisão:

“O meu primeiro marido não admite que eu tenha ido embora com as crianças. Fui embora porque ele usava drogas e me batia” (A3).

Atualmente, há propagandas veiculadas pela televisão e pelo rádio, dirigidas às mulheres para que utilizem algum tipo de preservativo para a prevenção do vírus HIV. Entretanto, ao contrário do que se espera, muitas ainda não têm o poder de negociação com o seu parceiro e são poucas as que usam os preservativos femininos.

Entre tantas dificuldades nas relações conjugais com seus parceiros, muitas dos sujeitos entrevistados conviviam também em seu cotidiano com a violência doméstica. Sabiam do contexto de violência em que seus companheiros estavam inseridos: alguns eram assaltantes, outros estavam presos por diversos delitos e outros faziam uso de drogas. Embora soubessem do risco que corriam em contrair a doença, mantinham seu relacionamento subordinado a tal violência:

“Ele foi preso, pena de 22 anos. Ele ganhou semi-aberto e fugia também. Eu sempre ia visitá-lo, meus filhos todos foram feitos dentro da cadeia” (A6).

A falta de negociação e a convivência com a violência doméstica levam a mulher a poucas opções de segurança contra a contaminação pelo vírus HIV. Estas condições de vida estão diretamente relacionadas com as questões de autocuidado e de valores que cada mulher possui. A consciência da transmissão da doença está relacionada com a disposição e o investimento que cada uma está disposta a fazer a favor do autocuidado(16).

As escolhas de novos caminhos poderão influenciar na mudança de seu cotidiano: risco de perder o parceiro, interferência no relacionamento com seus outros filhos e sua relação com a comunidade em que está inserida. Normalmente é muito difícil realizar tal mudança.

Com o objetivo de mudar estes comportamentos, os aconselhamentos sobre DST/HIV/AIDS são inseridos para alcançar o autocuidado da mulher. Num processo de consolidação da auto-estima, bem-estar dos filhos e da família, o aconselhamento vem para mudar o comportamento de risco para um comportamento seguro onde se tenha informações adequadas sobre sexo seguro e disponibilidade para o diálogo entre casais.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo vislumbra compreender as razões pelas quais muitas mulheres soropositivas têm enfrentado dificuldades para realizar o acompanhamento proposto pelo Ministério da Saúde para a prevenção da transmissão vertical do HIV/AIDS.

Por meio da análise das falas dos sujeitos participantes desta pesquisa, evidenciamos não apenas um, porém múltiplos fatores que afetam a não-adesão ao tratamento. Fatores estes que estão interligados ao seu dia-a-dia, no que diz respeito às dificuldades e enfrentamentos do seu cotidiano.

Mulheres que, devido ao acúmulo de funções, dentro e fora do lar, associadas à drogadição, à violência, ao abandono, à carência, à imaturidade afetiva e, principalmente à falta de perspectiva, têm se submetido à vulnerabilidade de infecção pelo vírus HIV. Essas questões estão relacionadas à identidade de gênero, à sexualidade, ao comportamento dos parceiros e à situação socioeconômica que reforça a sua condição de opressão, principalmente num país como o nosso, de tanta exclusão social.

A assistência às gestantes vem sofrendo mudanças importantes com o passar dos anos, com objetivo de propiciar-lhes, benefícios no atendimento do binômio mãe-bebê, por meio de tecnologia e equipe multiprofissional para detecção de problemas precocemente. No entanto, a falta de consciência das mulheres sobre o seu verdadeiro papel social, e não os que lhe é atribuído socialmente, juntamente com as dificuldades econômicas, levam-nas a não buscar o acesso ou até mesmo a não usufruir um atendimento como o pré-natal.

REFERÊNCIAS

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16. Lisboa MES. Vulnerabilidade da mulher frente às DST/HIV/AIDS. In: 4º HIV-Aids Virtual Congress; 2003 out 12-13. Lisboa (POR). Disponível em:URL:http://www.aidscongress.net/comunicacao.php?num=184. Lisboa (POR): Associação Lusófona; 2003. [ Links ]

"Pegar", "ficar" e "namorar":

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RESUMO

Este estudo objetiva descrever e analisar as diferentes formas de relacionamentos interpessoais entre adolescentes Adotou-se como referencial teórico-metodológico a Teoria das Representações Sociais. Os sujeitos foram 130 adolescentes e a coleta de dados realizada através do grupo focal com 19 encontros entre março a junho de 2004. A análise foi realizada pelo software Alceste. Os resultados revelaram a distribuição dos conteúdos em seis categorias, sendo a temática agrupada na classe 1, onde as diferentes formas de relacionamentos podem ser reconhecidas: o pegar, o ficar e o namorar. Conclui-se que os adolescentes apresentam-se tensionados entre a atração exercida pela liberdade (pegar e ficar) e pela afetividade (namoro). Destaca-se a fluidez social dos adolescentes, modificando periodicamente a intensidade/modalidade de relacionamentos.

Descritores: Adolescente; Psicologia social; Relações interpessoais.


ABSTRACT

This study aimed at describing and analyzing the different forms of interpersonal relationships among adolescents. Social representations approach was adopted as the theoretical-methodological reference. Subjects were 130 adolescent and data collection was accomplished with focal groups, in 19 encounters, from March to June 2004. A analysis was accomplished with software Alceste. Results revealed the distribution of the contents in six categories and the different forms of relationships were identified in class 1, by recognizing three types: “touching”, “staying” and “dating”. It is concluded that adolescents experiment a tension between the attractions exercised by freedom (touching/staying) and by affectivity (dating). It was also highlighted the social fluidity both adolescence, so that those, modifying the intensity/modality of relationships along short periods of time.

Descriptors: Adolescent; Social psychology; Interpersonal relations.


RESUMEN

Este estudio objetivó describir y analisar los modos de relacionamientos afectivos entre adolescentes. Fue adoptado el referencial de las Representaciones sociales. La amuestra fue composta por 130 adolescentes, la recogida de datos fue realizada a través de grupos focales, de marzo a junio de 2004. El análisis fue construida por el software Alceste. Los resultados muestraron la distribución de los contenidos en seis categorías, sendo la temática agrupada en la clase uno, donde los diferentes relacionamientos pueden ser reconocidas: besar, salir y enamorar. Se puede concluir que los adolescentes se presentan tensionados entre la atracción ejercida por la liberdad (besar y salir) y la afectividad (enamorar) y se subraya la fluidez social característica de ese grupo, cambiando periódicamiente la intensidad/modalidad de relacionamientos.

Descriptores: Adolescente; Psicología social; Relaciones interpersonales.


1. INTRODUÇÃO

O mundo moderno, e mais especificamente o pós-moderno, configura-se em um quadro de rápidas transformações sociais, culturais e comportamentais para os diversos grupos humanos. Dentre esses agrupamentos, um dos que mais sofrem as conseqüências dessas transformações é o dos adolescentes, tanto em função de vulnerabilidade, quanto devido à sua abertura ao novo e à sua necessidade de romper barreiras e padrões estabelecidos(1).

Na atualidade, uma grande parte dos adolescentes brasileiros tem sobrevivido a um cotidiano permeado por inúmeras atividades, especialmente pela necessidade de conciliar a escola com o trabalho, em que eles saem de casa entre 6-7 horas da manhã e retornam por volta da meia noite. Alguns desses adolescentes possuem, ainda, uma rotina de trabalho que inclui o final de semana, ficando sem tempo para atividades que até então eram consideradas próprias da idade, como o lazer, os relacionamentos afetivos e um certo grau de ociosidade(2).

A outra parte dos adolescentes possuem um cotidiano com horários mais flexíveis, não desenvolvendo nenhuma atividade laborativa, embora um número considerável exerça atividades sistemáticas em suas residências. Essas atividades normalmente estão relacionadas ao cuidado de familiares adoentados, irmãos mais novos ou simplesmente das respectivas casas enquanto os genitores trabalham(2).

Permeando esses diferentes cotidianos e até mesmo apesar do dia a dia estressante dos trabalhadores, os adolescentes têm apresentado um comportamento específico da atualidade, qual seja, uma fluidez ou uma navegação social, ausentes nas gerações anteriores. Essa fluidez/navegação possui, como característica, a combinação de comportamentos pautados no grau de liberdade pessoal frente aos padrões estabelecidos pelas pessoas com as quais convive e aos protocolos sociais.

Um exemplo dessa situação é a variedade que esse grupo possui de se relacionar afetiva e socialmente, bem como os intercâmbios estabelecidos entre essas duas modalidades de relacionamento. Essas modalidades incluem tanto relações pautadas na fidelidade mútua e no sentimento, quanto aquelas basicamente instantâneas, momentâneas, correspondendo a necessidades físicas e fisiológicas, sem continuidade ou aprofundamento na vida dos adolescentes.

Em função disso, objetiva-se com este estudo descrever e analisar a representação social das diferentes formas de relacionamentos afetivos entre adolescentes.

2. METODOLOGIA

Neste estudo utilizou-se a Teoria das Representações Sociais(3,4), no contexto da psicologia social. As representações sociais são consideradas ciências coletivas “sui generis, destinadas à interpretação e à elaboração do real”(3). Também podem ser definidas como uma “forma de conhecimento socialmente elaborada e partilhada, tendo uma orientação prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”(4).

Para a coleta de dados foram realizados 19 grupos focais, com um total de 130 adolescentes em dois colégios públicos e estaduais na cidade do Rio de Janeiro. Os grupos foram realizados durante os meses de março a junho de 2004, nos turnos escolares tarde e noite, com dois subgrupos de adolescentes, um relacionado à ocupação (trabalhadores e não-trabalhadores) e outro ao turno escolar (tarde e noite). Os grupos foram gravados e as fitas posteriormente transcritas.

A análise de dados foi realizada através da análise lexical pelo software Alceste 4.5, que recorre à co-ocorrências das palavras nos enunciados que constituem o texto, de forma a organizar e sumariar informações consideradas mais relevantes, e possui como referência em sua base metodológica, a abordagem conceitual lógica e dos mundos lexicais(5,6).

Este software foi criado na França em 1979 por Max Reinert para ser utilizado no sistema operacional windows. Ele apresenta uma organização possível dos dados através de análises estatísticas e matemáticas, fornecendo o número de classe, as relações existentes entre as mesmas, as divisões realizadas no material analisado até a formação das classes, as formas radicais e palavras associadas com seus respectivos valores de qui-quadrado (x2), além do contexto semântico de cada classe. O software, apesar de originalmente trabalhar com a língua francesa, possui dicionários em outros idiomas, fato que permite sua utilização com materiais em português.

Cabe destacar, ainda, que o Alceste segmenta o material a ser analisado em grandes unidades denominadas de Unidades de Contextos Iniciais (UCI), que podem ser entrevistas de diferentes sujeitos reunidas em um mesmo corpus, respostas a perguntas específicas, normalmente abertas, de questionários e textos de jornais e revistas.

O texto completo é reformatado e dividido em segmentos de algumas linhas respeitando, se possível, os cortes propostos pela pontuação. Esses segmentos são denominados de unidades de contextos elementares (UCE) e correspondem ao material discursivo ou escrito relevantes à formação das classes.

O programa fornece, então, o número de classes resultantes da análise, assim como as formas reduzidas, o contexto semântico e as UCE características de cada classe consolidada. De posse desse material, os autores explicitam o conteúdo presente no mesmo, denominando e interpretando cada classe a partir de todas as informações fornecidas pelo software.

Foram obedecidas, nesta pesquisa, as orientações contidas na Resolução 196/96 do Ministério da Saúde, tanto no que concerne aos aspectos éticos com a instituição que autorizou a realização da pesquisa, quanto com os sujeitos que cederam as entrevistas após leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados observados na análise mecanizada dos 19 grupos focais, revelaram a distribuição do conteúdo em 6 categorias discursivas (classes). Essas classes (figura 1) apontam para os seguintes temas: Classe 1: Formas e Expressões dos Relacionamentos Afetivos: as facetas do pegar, ficar e namorar; Classe 2: Pensando e Falando sobre Sexualidade e Sexo: dilemas e posicionamentos; Classe 3: O Mundo do Trabalho e o Universo da Escola e suas inter-relações; Classe 4: Falando de Futuro: os adolescentes entre planos e sonhos; Classe 5: Descrevendo o Cotidiano: com a palavra adolescentes trabalhadores e não trabalhadores; Classe 6: Sobre Amigos e Colegas: os relacionamentos interpessoais na adolescência. Essa divisão pode ser melhor visualizada no dendograma ao lado (Figura 1).

Observa-se que a distribuição das UCE entre as classes apresenta-se relativamente eqüitativa, com predomínio das classes 1 e 3, representando 45,38% daquelas analisadas. As classes 2 e 6 são constituídas pelas menores quantidades de UCE, totalizando 19,44% das mesmas, enquanto as classes 4 e 5 são as responsáveis pelos 35,18% das restantes.

Buscando melhor compreender o processo de divisão do conteúdo textual (representado pelas UCE) e a constituição das classes, o dendograma de distribuição das UCE permite visualizar os sucessivos agrupamentos realizados a partir da análise hierárquica descendente (análise de cluster). Observa-se que, a partir do corpus submetido à análise, o software dividiu as UCE em dois grandes blocos; cada um desses blocos foi submetido a duas novas divisões; e finalmente a duas últimas. Assim, as classes 1, 2 e 6 são resultantes primariamente de um bloco textual comum, o que permite inferir que elas possuem significados complementares; assim como as classes 3, 4 e 5 são resultantes de um segundo bloco textual comum, permitindo afirmar também a existência de conteúdos comuns às mesmas.

Da mesma forma, esse processo se repete internamente em cada um dos dois sub-grupos, determinando que entre as classes existam sentidos e idéias que as separam em classes distintas (uma vez que se dividiram nas etapas subseqüentes da classificação hierárquica), mas também sentidos complementares (uma vez que em momento anterior da classificação hierárquica elas fizeram parte de um mesmo universo lexical). Dessa maneira, a classe 6 possui um sentido de oposição às classes 1 e 2; da mesma forma que a classe 4 estabelece relação de diferenciação das classes 5 e 3. Seguindo a mesma lógica de análise, as classes 1 e 2 possuem um sentido comum quando comparadas à classe 6, mas também possuem diferenças suficientes para que fossem divididas em duas classes. O mesmo fenômeno ocorreu com as classes 5 e 3.

A temática discutida neste artigo, apesar de sua presença nas demais classes analíticas apresentadas pelo Alceste, encontra-se expressa e reunida na classe 1. Em função disso, apresentaremos inicialmente a referida classe, bem como a sua discussão e, posteriormente, realizaremos uma análise transversal do tema no conjunto dos resultados. A classe 1 caracteriza-se pela presença de uma variável associada à sua formação, qual seja, à de alunos pertencentes ao turno da tarde. Esse aspecto indica, dentre outras coisas, que esses sujeitos não possuem um trabalho em tempo integral e nem estão diretamente responsáveis pelo sustento da casa, embora vários deles contribuam com a renda familiar ou desenvolvam atividades sistemáticas tanto em âmbito domiciliar (como arrumar a casa, preparar comida e cuidar de familiares mais novos ou adoentados) quanto externo à residência (atividades profissionais esportivas, cursos diversos e estágios). Destacam-se, abaixo, as formas reduzidas com maior grau de associação à classe.

O Quadro 1 apresenta formas que se referem a modalidades diferenciadas de relacionamento destacadas pelos sujeitos, como namor+, fic+ e peg+. Destaca ainda questão relacionada à gênero, através de radicais como garot+, men+, mulher+, garot+, homem+ e homens+. Outro aspecto que ainda merece ser ressaltado é a descrição dos atos/ações que podem acontecer nos contextos dessas diferentes formas de relacionamento, como trans+, beij+ e abraç+.

Um aspecto interessante a ser ressaltado, além dos comentados acima, é que, nas formas reduzidas indicativas de gêneros dos sujeitos, a maioria era indicativa do sexo feminino, como pode ser observado em garot+ (freqüência de 63 para garotas e 16 para garotos) e em men+ (em que menina(s) aparecem 34 vezes, ao passo que menino(s) somente 14).

Os resultados indicam as diversas formas de relacionamentos destacadas pelos adolescentes e vivenciadas em seus cotidianos. Essas formas são classificadas em um continuum que vai da liberdade absoluta à responsabilidade formalizada. Liberdade e responsabilidade essas que não possuem relação somente com a outra pessoa envolvida (parceira/parceiro), mas incluem suas famílias e os grupos sociais nas quais esses adolescentes se inserem.

Ao compreender os relacionamentos tendo como referência a tensão liberdade-responsabilidade, os adolescentes também apresentam a interrelação que porventura possa ocorrer entre essas modalidades, a utilização de métodos contraceptivos e de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e AIDS e as diferenças atribuídas por eles mesmos aos papéis que são ou que devem ser exercidos pelos jovens de ambos os sexos.

O continuum destacado anteriormente possui dois extremos, quais sejam, o de liberdade completa, que é designado pelos adolescentes como pegar e o de responsabilidade formalizada que é denominado de namorar. Entre esses dois extremos aparece o conceito de ficar, que comporta em si uma liberdade e uma responsabilidade relativas, tanto com relação à pessoa envolvida no relacionamento, quanto ao grupo em que ambos os jovens se inserem.

Os adolescentes se referem a pegar como um ato espontâneo, não repetível, sem compromisso e no qual o interessa físico predomina, quer pela beleza ou pela sensualidade. Nas falas abaixo, os adolescentes destacam o não compromisso nessa forma particular de se relacionar:

Sair é sem compromisso, é pegar. Conhece uma garota, rola uns beijos e acaba ali.
Pegar é uma vez só e você nunca mais sabe.

Contudo, os sujeitos não são unânimes ao relatar o que acontece dentro desse pegar, podendo incluir desde beijo até o ato sexual, como pode ser observado na UCE abaixo:

Tem uns que falam que pegar é levar para a cama

Por outro lado, na primeira UCE citada, um adolescente caracteriza o pegar como relacionado basicamente à “rolar uns beijos”, não citando, ao menos explicitamente, a situação do “levar para a cama”.

O ficar, por sua vez, é descrito como um relacionamento em que os atores sociais possuem uma intimidade e uma proximidade maiores, se vêem em uma freqüência que pode adquirir uma regularidade e até desembocar em um namoro. Observa-se esse fenômeno nas UCE seguintes:

Ficar você já tem intimidade. Já tem o telefone e liga.
Tem pessoas que vão ficando, ficando e depois acabam não querendo nada. (Outras) acabam namorando.
Um exemplo, você sai hoje, conhece a pessoa e fica com ela, se você sai outro dia encontra ela mesma, acaba ficando com ela de novo
Quando eu comecei a namorar (…), primeiro eu fiquei com ele.
Agora, no ficar você já tem algo certo, mas não tem compromisso.

À medida que o ficar encontra-se em uma região definitória mediana entre a liberdade e a responsabilidade, também não possui as formalidades presentes em um namoro, nem a visibilidade social deste, como descrito abaixo.

…Ela quer ficar. Não tem nada a ver. Não tem nada a ver, o compromisso é assim sábado e domingo, bota alguém sentadinho no sofá. O ficar é tipo assim, segunda a sexta, sábado e domingo ele encontra com outra.
Ficar não tem a sogra, sair se encontra lá na praça, no ficar a pessoa não fica muito de mãos dadas.

Quadro 2

Quando os sujeitos se referem a alguma evidência social do ficar parecem relacioná-la muito mais à uma não preocupação com a opinião alheia ou com as regras da sociedade, do que a um possível aprofundamento do relacionamento, como pode ser observado na UCE seguinte:

Às vezes até a pessoa fica [de mãos dadas na rua], porque eles não levam muito a sério e nem se importam com o que as pessoas vão ver.

Por ser uma zona intermediária, os adolescentes estabelecem relação entre o ficar e os dois extremos do continuum. Isto significa dizer que, em algumas situações, o ficar possui características do pegar, como observado na fala abaixo:

Ficar tipo, você fica hoje e não sabe quando mais. No ficar tem mais ou menos um compromisso maior que no pegar.

Por outro lado, também apresenta características de namoro, como conhecimento e uma freqüência maior de encontro, como presente nas falas:

O ficar é conhecer. Namorar é firme.
Agora, no ficar você já tem alguém certo, mas não tem compromisso.

Outro aspecto interessante destacado no material discursivo é a descrição do que está contido no ato do ficar, observado nas UCE descritas a seguir:

No ficar, muitas vezes, só rola uns beijinhos e pronto, em outras pode rolar uma transa. Isso depende muito dos ficantes.
Quando está ficando com alguém rola de tudo, do beijo à transa, depende muito.

Os adolescentes do sexo masculino apresentam falas caracterizando o papel do sexo oposto nas relações desenvolvidas com os mesmos. Esse papel varia desde o perfil de responsável e de provedora pelo uso do condón e, conseqüentemente, da prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e de gravidez, até o significado atribuído a elas em função do comportamento de disponibilidade à relações com vários parceiros ou de julgadora do comportamento masculino socialmente aceito.

A garota que transa sem camisinha é sem juízo porque ela não sabe se eu sou garanhão ou caseiro.
A menina vai e fica e sem compromisso nenhum transa. Esse cara que ficou com essa menina vai e fala: fiquei com ela aquela ali, é fácil.
Se você respeita a menina ela vai ficar falando para as colegas que a gente é fraco. Por isso tem que pegar e esculachar mesmo.

Outro destaque importante a ser dado é a confirmação, por parte de um dos sujeitos, da necessidade de utilização do condón nas relações sexuais, ao mesmo tempo em que explicita que a prática dos adolescentes em geral não condiz com esta necessidade. Esta situação é revelada por um dos participantes:

E rola uma coisa muito ardente e é só aquele momento ali e acabou. Não tem namoro, transou e pronto. E deveria rolar caminha, mas nem sempre rola. Depende do lugar.

O namorar tende a ser representado para esses sujeitos como decorrente de um ato contínuo e repetitivo do ficar, que possui início em um relacionamento caracterizado pela liberdade de ação e que, com o tempo e a permissão de ambos, ganha contornos de maior compromisso e de oficialidade frente à família e o grupo social. O modo como os próprios sujeitos apreendem namoro é explicitado a seguir:

Tem pessoas que vão ficando, ficando e depois… (…) E acabam namorando. Um exemplo, você sai hoje, conhece a pessoa e fica com ela, se você sai um outro dia, encontra ela mesma, acaba ficando com ela de novo.
Eu agora estou namorando, mas às vezes é melhor ficar do que namorar. Porque namorando, você perde muita liberdade.

Realizando uma análise transversal do tema em todas as classes da análise Alceste, percebe-se a sua presença nas classes 2, 4 e 6. Ou seja, do total de 6 classes, mais de 50% contemplam a questão, sendo que, como já discutida, a classe 1 aprofunda especificamente o assunto.

A classe 2, pensando e falando sobre sexualidade e sexo: dilemas e posicionamentos, apresenta variadas formas de expressão e de conceito de sexualidade para os sujeitos. Essas expressões/conceitos variam de um extremo em que sexualidade e ato sexual são sinônimos, perpassando um alargamento progressivo até que, não excluindo o ato sexual em si, também compreenda outras dimensões da vida humana, como a afetividade, a beleza física, a sensualidade e o respeito.

As diferentes abordagens de sexualidade, no entanto, são correlacionadas pelos sujeitos às modalidades de relacionamentos afetivos anteriormente descritos. Ou seja, sexualidade enquanto ato sexual está mais relacionado ao pegar; ao mesmo tempo em que a sexualidade enquanto instância que engloba várias dimensões da vida do adolescente está mais presente no namoro(7). O ficar por sua característica intermediária apresenta, explicitamente, a tensão da sexualidade entre os dois pólos. As UCE abaixo representam essa idéia:

Eu acho que o sexo engloba bem mais coisas do que uma simples satisfação corpórea. Há três tipos de sexo: do prazer, do interesse e do amor. Você vai transar por prazer, muitas vezes.
No ficar é só sexo; no namoro é algo mais, é conquista, é respeito.

Na classe 4, falando de futuro: os adolescentes entre planos e sonhos, é apontado pelos adolescentes, dentre os planos futuros, a formação familiar à partir de um relacionamento estável representado pelo namoro. As UCE abaixo demonstram esse planejamento:

Eu pretendo formar uma família muito boa!
Formar uma família bem estruturada e ter filhos futuramente.
(eu pretendo) constituir uma família e ser feliz!

O fato de planejarem um relacionamento estável condiz com a faixa etária final da adolescência, quando este ator social começa a desenvolver relacionamentos mais íntimos e estáveis e, ao mesmo tempo, iniciam o planejamento futuro para esses relacionamentos. Parece existir, dessa maneira, uma passagem pelo pegar e ficar, mas a experiência e a idade tendem a levá-los à execução e a desempenho de papéis sociais mais aceitáveis e esperados(1).

Com relação à classe 6, Sobre amigos e colegas: os relacionamentos interpessoais na adolescência, os sujeitos destacaram os relacionamentos sociais tensionados entre amizade e coleguismo. Contudo, referiram igualmente a possibilidade de mutação entre os relacionamentos sociais e os afetivos, de modo que existem “colegas ficantes”, amigos(as) que se tornaram namorados(as) ou vice-versa(8). Ainda segundo os sujeitos, não existe necessária correlação entre a intensidade do relacionamento social e o afetivo. As UCE a seguir abordam a questão:

As vezes começamos a ficar com pessoas já conhecidas, nossas colegas…
Nem sempre amizade gera namoro e colegas ficantes… pode ser o inverso…

Percebe-se que os adolescentes abordaram as formas pelas quais desenvolvem seus relacionamentos, bem como as representações associadas ao papel masculino e feminino na interioridade destes relacionamentos. Parece, contudo, que no cotidiano desses indivíduos essas modalidades de relacionamento não se apresentam definitivamente separadas, mas acontece uma navegação social deles nos três tipos, inclusive evoluindo de um para o outro em um mesmo relacionamento. O estudo desenvolvido por Benitez(9) apresenta um quadro semelhante no tocante às modalidades de relacionamento e o modo como os adolescentes as desenvolvem.

Essas modalidades de relacionamento também possuem relação com a descoberta do corpo do outro e a intensidade que esse corpo produz no adolescente, o que influencia, junto a outras questões, no posicionamento do indivíduo no continuum já referido. Azevedo(10) considera que a sexualidade se expressa na adolescência através da descoberta do corpo do outro, pela sedução, normalmente através de novos sentimentos e emoções, que acontece em contextos de relacionamento com graus variáveis de liberdade/responsabilidade.

Um ponto a ser destacado, e que vem ao encontro de estudos da área(1,11), é o papel ativo atribuído ao homem e a necessidade de manter essa imagem, fenômeno esse reforçado pelos adolescentes do sexo feminino. Assim, a representação imagética de fácil ainda se encontra presente na cartografia mental feminina, assim como o encargo de se responsabilizar por medidas e tecnologias para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e de gravidez. Esse fato deixa transparecer uma representação masculina de que a mulher é responsável pela preparação da cena em que o homem é convidado a atuar.

O não uso regular de condón destacado pelos sujeitos é outro fenômeno que precisa ser analisado e isso em função de várias razões, dentre as quais citaremos duas. A primeira delas apresenta-se em função do aumento da incidência e da prevalência de doenças sexualmente transmissíveis e de gravidezes nesta faixa etária, especialmente entre 15 e 25 anos(12). A segunda é a dissociação existente (e explicitada pela classe) entre o conhecimento sabem da necessidade do uso – e a prática – mas mesmo assim não utilizam(13). Esse fenômeno merece uma investigação mais aprofundada e estudos devem ser desenvolvidos para dar conta dessa lacuna.

4. CONCLUSÃO

O artigo demonstra as vivências complexas, multifacetadas e, na maioria das vezes, tensionadas entre comportamentos/opções opostos presentes no cotidiano dos adolescentes. Ao mesmo tempo em que se sentem atraídos pela liberdade possibilitada pelo pegar ou ficar, necessitam da afetividade que normalmente é melhor explicitada em relacionamentos mais estáveis e, conseqüente, com menor liberdade.

Dessa maneira, os adolescentes classificam as modalidades de relacionamentos afetivos tendo a liberdade como padrão delineador. Simultaneamente, sexualidade se relaciona às diversas gradações desses relacionamentos, em função das diferentes formas de sua vivência. Apesar de ser esperado que o namoro possua uma noção de sexualidade mais abrangente do que o ato sexual em si, os resultados do estudo não permitem afirmar, claramente ou de forma precisa, que o ficar, pelo menos, seja destituído de sentimentos de respeito ou de uma afetividade mais profunda.

Ao mesmo tempo, as possíveis transmutações de situações de amizade e coleguismo em relacionamentos afetivos (independente dos tipos anteriormente descritos) e destes para aqueles, parecem demonstrar uma característica do mundo pós-moderno, onde as coisas e as situações são mais fluidas e menos estanques. Ao mesmo tempo, o estudo não permite correlacionar que relacionamentos íntimos e afetivos nascidos de relações sociais mais intensas, como a amizade, sejam mais sérios ou duradouros, em detrimento de outros que nasceram de relações mais superficiais como o coleguismo.

Cabe destacar que, apesar das mutações sofridas na definição tradicional de família e nas variações de relacionamentos já vivenciados pelos adolescentes, a constituição de uma família aparece como plano de futuro, ao lado de carreiras profissionais e cursos universitários.

REFERÊNCIAS

1. Santrock JW. Adolescência. Rio de Janeiro (RJ): LTC; 2003. [ Links ]

2. Oliveira DC, SáCP, Gomes AMT, Thiengo MA. A Enfermagem e a promoção da saúde do adolescente: condições de vida, saúde e trabalho de estudantes do ensino médio no município do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro (RJ): FAPERJ/Faculdade de Enfermagem, Universidade de Estado do Rio de Janeiro; 2005. [ Links ]

3. Moscovici S. A representação social da psicanálise. Rio de Janeiro (RJ): Zahar Editores; 1978. [ Links ]

4. Jodelet D, organizadora.As representações sociais. Rio de Janeiro (RJ): EDUERJ; 2001. [ Links ]

5. Catão MFM. Excluídos Sociais em Espaços de Reclusão: as representações na construção do projeto de vida (tese). São Paulo (SP): Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo; 2001. [ Links ]

6. Oliveira DC, Gomes AMT, Marques SC. Análise Estatística de Dados Textuais na Pesquisa das representações sociais: alguns princípios e uma aplicação ao campo da saúde. In: Menin MSS, Shimizu AM, organizadoras. Experiência e Representação Social questões teóricas e metodológicas. São Paulo (SP): Casa do Psicólogo; 2005. p. 157-200. [ Links ]

7. Fisher FM, Martins IS, Oliveira DC. Saúde, educação e trabalho no município de Monteiro Lobato e Santo Antônio do Pinhal, SP. São Paulo (SP): FAPESP/Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo; 2000. [ Links ]

8. Osório LC. Adolescente hoje. Porto Alegre (RS): Artes Médicas; 1992. [ Links ]

9. Benitez AM. A percepção de estudantes adolescentes sobre sexualidade:uma análise de representações sociais (dissertação). Rio de Janeiro (RJ): Faculdade de Enfermagem, Universidade do Estado do Rio de Janeiro; 2004. [ Links ]

10. Azevedo MRD. Educação sexual: uma questão em aberto. In: Saito MI, Silva LEV, organizadoras. Adolescência: prevenção e risco. São Paulo (SP): Atheneu; 2002. p. 129-43. [ Links ]

11. Egypto MM. Papéis sexuais. In: Barroso C, Brushini C, organizadores. Sexo e juventude:como discutir sexualidade em casa e na escola. São Paulo (SP): Cortez; 1995. [ Links ]

12. Ministério da Saúde (BR). Coordenação Nacional de DST/AIDS. Resposta. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2002. [ Links ]

13. Reis AT. Práticas e Representações Sociais de saúde e trabalho na adolescência (dissertação de Mestrado). Rio de Janeiro (RJ): Universidade do Estado do Rio de Janeiro; 2004. [ Links ]

"Pegar", "ficar" e "namorar":

0

RESUMO

Este estudo objetiva descrever e analisar as diferentes formas de relacionamentos interpessoais entre adolescentes Adotou-se como referencial teórico-metodológico a Teoria das Representações Sociais. Os sujeitos foram 130 adolescentes e a coleta de dados realizada através do grupo focal com 19 encontros entre março a junho de 2004. A análise foi realizada pelo software Alceste. Os resultados revelaram a distribuição dos conteúdos em seis categorias, sendo a temática agrupada na classe 1, onde as diferentes formas de relacionamentos podem ser reconhecidas: o pegar, o ficar e o namorar. Conclui-se que os adolescentes apresentam-se tensionados entre a atração exercida pela liberdade (pegar e ficar) e pela afetividade (namoro). Destaca-se a fluidez social dos adolescentes, modificando periodicamente a intensidade/modalidade de relacionamentos.

Descritores: Adolescente; Psicologia social; Relações interpessoais.


ABSTRACT

This study aimed at describing and analyzing the different forms of interpersonal relationships among adolescents. Social representations approach was adopted as the theoretical-methodological reference. Subjects were 130 adolescent and data collection was accomplished with focal groups, in 19 encounters, from March to June 2004. A analysis was accomplished with software Alceste. Results revealed the distribution of the contents in six categories and the different forms of relationships were identified in class 1, by recognizing three types: “touching”, “staying” and “dating”. It is concluded that adolescents experiment a tension between the attractions exercised by freedom (touching/staying) and by affectivity (dating). It was also highlighted the social fluidity both adolescence, so that those, modifying the intensity/modality of relationships along short periods of time.

Descriptors: Adolescent; Social psychology; Interpersonal relations.


RESUMEN

Este estudio objetivó describir y analisar los modos de relacionamientos afectivos entre adolescentes. Fue adoptado el referencial de las Representaciones sociales. La amuestra fue composta por 130 adolescentes, la recogida de datos fue realizada a través de grupos focales, de marzo a junio de 2004. El análisis fue construida por el software Alceste. Los resultados muestraron la distribución de los contenidos en seis categorías, sendo la temática agrupada en la clase uno, donde los diferentes relacionamientos pueden ser reconocidas: besar, salir y enamorar. Se puede concluir que los adolescentes se presentan tensionados entre la atracción ejercida por la liberdad (besar y salir) y la afectividad (enamorar) y se subraya la fluidez social característica de ese grupo, cambiando periódicamiente la intensidad/modalidad de relacionamientos.

Descriptores: Adolescente; Psicología social; Relaciones interpersonales.


1. INTRODUÇÃO

O mundo moderno, e mais especificamente o pós-moderno, configura-se em um quadro de rápidas transformações sociais, culturais e comportamentais para os diversos grupos humanos. Dentre esses agrupamentos, um dos que mais sofrem as conseqüências dessas transformações é o dos adolescentes, tanto em função de vulnerabilidade, quanto devido à sua abertura ao novo e à sua necessidade de romper barreiras e padrões estabelecidos(1).

Na atualidade, uma grande parte dos adolescentes brasileiros tem sobrevivido a um cotidiano permeado por inúmeras atividades, especialmente pela necessidade de conciliar a escola com o trabalho, em que eles saem de casa entre 6-7 horas da manhã e retornam por volta da meia noite. Alguns desses adolescentes possuem, ainda, uma rotina de trabalho que inclui o final de semana, ficando sem tempo para atividades que até então eram consideradas próprias da idade, como o lazer, os relacionamentos afetivos e um certo grau de ociosidade(2).

A outra parte dos adolescentes possuem um cotidiano com horários mais flexíveis, não desenvolvendo nenhuma atividade laborativa, embora um número considerável exerça atividades sistemáticas em suas residências. Essas atividades normalmente estão relacionadas ao cuidado de familiares adoentados, irmãos mais novos ou simplesmente das respectivas casas enquanto os genitores trabalham(2).

Permeando esses diferentes cotidianos e até mesmo apesar do dia a dia estressante dos trabalhadores, os adolescentes têm apresentado um comportamento específico da atualidade, qual seja, uma fluidez ou uma navegação social, ausentes nas gerações anteriores. Essa fluidez/navegação possui, como característica, a combinação de comportamentos pautados no grau de liberdade pessoal frente aos padrões estabelecidos pelas pessoas com as quais convive e aos protocolos sociais.

Um exemplo dessa situação é a variedade que esse grupo possui de se relacionar afetiva e socialmente, bem como os intercâmbios estabelecidos entre essas duas modalidades de relacionamento. Essas modalidades incluem tanto relações pautadas na fidelidade mútua e no sentimento, quanto aquelas basicamente instantâneas, momentâneas, correspondendo a necessidades físicas e fisiológicas, sem continuidade ou aprofundamento na vida dos adolescentes.

Em função disso, objetiva-se com este estudo descrever e analisar a representação social das diferentes formas de relacionamentos afetivos entre adolescentes.

2. METODOLOGIA

Neste estudo utilizou-se a Teoria das Representações Sociais(3,4), no contexto da psicologia social. As representações sociais são consideradas ciências coletivas “sui generis, destinadas à interpretação e à elaboração do real”(3). Também podem ser definidas como uma “forma de conhecimento socialmente elaborada e partilhada, tendo uma orientação prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”(4).

Para a coleta de dados foram realizados 19 grupos focais, com um total de 130 adolescentes em dois colégios públicos e estaduais na cidade do Rio de Janeiro. Os grupos foram realizados durante os meses de março a junho de 2004, nos turnos escolares tarde e noite, com dois subgrupos de adolescentes, um relacionado à ocupação (trabalhadores e não-trabalhadores) e outro ao turno escolar (tarde e noite). Os grupos foram gravados e as fitas posteriormente transcritas.

A análise de dados foi realizada através da análise lexical pelo software Alceste 4.5, que recorre à co-ocorrências das palavras nos enunciados que constituem o texto, de forma a organizar e sumariar informações consideradas mais relevantes, e possui como referência em sua base metodológica, a abordagem conceitual lógica e dos mundos lexicais(5,6).

Este software foi criado na França em 1979 por Max Reinert para ser utilizado no sistema operacional windows. Ele apresenta uma organização possível dos dados através de análises estatísticas e matemáticas, fornecendo o número de classe, as relações existentes entre as mesmas, as divisões realizadas no material analisado até a formação das classes, as formas radicais e palavras associadas com seus respectivos valores de qui-quadrado (x2), além do contexto semântico de cada classe. O software, apesar de originalmente trabalhar com a língua francesa, possui dicionários em outros idiomas, fato que permite sua utilização com materiais em português.

Cabe destacar, ainda, que o Alceste segmenta o material a ser analisado em grandes unidades denominadas de Unidades de Contextos Iniciais (UCI), que podem ser entrevistas de diferentes sujeitos reunidas em um mesmo corpus, respostas a perguntas específicas, normalmente abertas, de questionários e textos de jornais e revistas.

O texto completo é reformatado e dividido em segmentos de algumas linhas respeitando, se possível, os cortes propostos pela pontuação. Esses segmentos são denominados de unidades de contextos elementares (UCE) e correspondem ao material discursivo ou escrito relevantes à formação das classes.

O programa fornece, então, o número de classes resultantes da análise, assim como as formas reduzidas, o contexto semântico e as UCE características de cada classe consolidada. De posse desse material, os autores explicitam o conteúdo presente no mesmo, denominando e interpretando cada classe a partir de todas as informações fornecidas pelo software.

Foram obedecidas, nesta pesquisa, as orientações contidas na Resolução 196/96 do Ministério da Saúde, tanto no que concerne aos aspectos éticos com a instituição que autorizou a realização da pesquisa, quanto com os sujeitos que cederam as entrevistas após leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados observados na análise mecanizada dos 19 grupos focais, revelaram a distribuição do conteúdo em 6 categorias discursivas (classes). Essas classes (figura 1) apontam para os seguintes temas: Classe 1: Formas e Expressões dos Relacionamentos Afetivos: as facetas do pegar, ficar e namorar; Classe 2: Pensando e Falando sobre Sexualidade e Sexo: dilemas e posicionamentos; Classe 3: O Mundo do Trabalho e o Universo da Escola e suas inter-relações; Classe 4: Falando de Futuro: os adolescentes entre planos e sonhos; Classe 5: Descrevendo o Cotidiano: com a palavra adolescentes trabalhadores e não trabalhadores; Classe 6: Sobre Amigos e Colegas: os relacionamentos interpessoais na adolescência. Essa divisão pode ser melhor visualizada no dendograma ao lado (Figura 1).

Observa-se que a distribuição das UCE entre as classes apresenta-se relativamente eqüitativa, com predomínio das classes 1 e 3, representando 45,38% daquelas analisadas. As classes 2 e 6 são constituídas pelas menores quantidades de UCE, totalizando 19,44% das mesmas, enquanto as classes 4 e 5 são as responsáveis pelos 35,18% das restantes.

Buscando melhor compreender o processo de divisão do conteúdo textual (representado pelas UCE) e a constituição das classes, o dendograma de distribuição das UCE permite visualizar os sucessivos agrupamentos realizados a partir da análise hierárquica descendente (análise de cluster). Observa-se que, a partir do corpus submetido à análise, o software dividiu as UCE em dois grandes blocos; cada um desses blocos foi submetido a duas novas divisões; e finalmente a duas últimas. Assim, as classes 1, 2 e 6 são resultantes primariamente de um bloco textual comum, o que permite inferir que elas possuem significados complementares; assim como as classes 3, 4 e 5 são resultantes de um segundo bloco textual comum, permitindo afirmar também a existência de conteúdos comuns às mesmas.

Da mesma forma, esse processo se repete internamente em cada um dos dois sub-grupos, determinando que entre as classes existam sentidos e idéias que as separam em classes distintas (uma vez que se dividiram nas etapas subseqüentes da classificação hierárquica), mas também sentidos complementares (uma vez que em momento anterior da classificação hierárquica elas fizeram parte de um mesmo universo lexical). Dessa maneira, a classe 6 possui um sentido de oposição às classes 1 e 2; da mesma forma que a classe 4 estabelece relação de diferenciação das classes 5 e 3. Seguindo a mesma lógica de análise, as classes 1 e 2 possuem um sentido comum quando comparadas à classe 6, mas também possuem diferenças suficientes para que fossem divididas em duas classes. O mesmo fenômeno ocorreu com as classes 5 e 3.

A temática discutida neste artigo, apesar de sua presença nas demais classes analíticas apresentadas pelo Alceste, encontra-se expressa e reunida na classe 1. Em função disso, apresentaremos inicialmente a referida classe, bem como a sua discussão e, posteriormente, realizaremos uma análise transversal do tema no conjunto dos resultados. A classe 1 caracteriza-se pela presença de uma variável associada à sua formação, qual seja, à de alunos pertencentes ao turno da tarde. Esse aspecto indica, dentre outras coisas, que esses sujeitos não possuem um trabalho em tempo integral e nem estão diretamente responsáveis pelo sustento da casa, embora vários deles contribuam com a renda familiar ou desenvolvam atividades sistemáticas tanto em âmbito domiciliar (como arrumar a casa, preparar comida e cuidar de familiares mais novos ou adoentados) quanto externo à residência (atividades profissionais esportivas, cursos diversos e estágios). Destacam-se, abaixo, as formas reduzidas com maior grau de associação à classe.

O Quadro 1 apresenta formas que se referem a modalidades diferenciadas de relacionamento destacadas pelos sujeitos, como namor+, fic+ e peg+. Destaca ainda questão relacionada à gênero, através de radicais como garot+, men+, mulher+, garot+, homem+ e homens+. Outro aspecto que ainda merece ser ressaltado é a descrição dos atos/ações que podem acontecer nos contextos dessas diferentes formas de relacionamento, como trans+, beij+ e abraç+.

Um aspecto interessante a ser ressaltado, além dos comentados acima, é que, nas formas reduzidas indicativas de gêneros dos sujeitos, a maioria era indicativa do sexo feminino, como pode ser observado em garot+ (freqüência de 63 para garotas e 16 para garotos) e em men+ (em que menina(s) aparecem 34 vezes, ao passo que menino(s) somente 14).

Os resultados indicam as diversas formas de relacionamentos destacadas pelos adolescentes e vivenciadas em seus cotidianos. Essas formas são classificadas em um continuum que vai da liberdade absoluta à responsabilidade formalizada. Liberdade e responsabilidade essas que não possuem relação somente com a outra pessoa envolvida (parceira/parceiro), mas incluem suas famílias e os grupos sociais nas quais esses adolescentes se inserem.

Ao compreender os relacionamentos tendo como referência a tensão liberdade-responsabilidade, os adolescentes também apresentam a interrelação que porventura possa ocorrer entre essas modalidades, a utilização de métodos contraceptivos e de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e AIDS e as diferenças atribuídas por eles mesmos aos papéis que são ou que devem ser exercidos pelos jovens de ambos os sexos.

O continuum destacado anteriormente possui dois extremos, quais sejam, o de liberdade completa, que é designado pelos adolescentes como pegar e o de responsabilidade formalizada que é denominado de namorar. Entre esses dois extremos aparece o conceito de ficar, que comporta em si uma liberdade e uma responsabilidade relativas, tanto com relação à pessoa envolvida no relacionamento, quanto ao grupo em que ambos os jovens se inserem.

Os adolescentes se referem a pegar como um ato espontâneo, não repetível, sem compromisso e no qual o interessa físico predomina, quer pela beleza ou pela sensualidade. Nas falas abaixo, os adolescentes destacam o não compromisso nessa forma particular de se relacionar:

Sair é sem compromisso, é pegar. Conhece uma garota, rola uns beijos e acaba ali.
Pegar é uma vez só e você nunca mais sabe.

Contudo, os sujeitos não são unânimes ao relatar o que acontece dentro desse pegar, podendo incluir desde beijo até o ato sexual, como pode ser observado na UCE abaixo:

Tem uns que falam que pegar é levar para a cama

Por outro lado, na primeira UCE citada, um adolescente caracteriza o pegar como relacionado basicamente à “rolar uns beijos”, não citando, ao menos explicitamente, a situação do “levar para a cama”.

O ficar, por sua vez, é descrito como um relacionamento em que os atores sociais possuem uma intimidade e uma proximidade maiores, se vêem em uma freqüência que pode adquirir uma regularidade e até desembocar em um namoro. Observa-se esse fenômeno nas UCE seguintes:

Ficar você já tem intimidade. Já tem o telefone e liga.
Tem pessoas que vão ficando, ficando e depois acabam não querendo nada. (Outras) acabam namorando.
Um exemplo, você sai hoje, conhece a pessoa e fica com ela, se você sai outro dia encontra ela mesma, acaba ficando com ela de novo
Quando eu comecei a namorar (…), primeiro eu fiquei com ele.
Agora, no ficar você já tem algo certo, mas não tem compromisso.

À medida que o ficar encontra-se em uma região definitória mediana entre a liberdade e a responsabilidade, também não possui as formalidades presentes em um namoro, nem a visibilidade social deste, como descrito abaixo.

…Ela quer ficar. Não tem nada a ver. Não tem nada a ver, o compromisso é assim sábado e domingo, bota alguém sentadinho no sofá. O ficar é tipo assim, segunda a sexta, sábado e domingo ele encontra com outra.
Ficar não tem a sogra, sair se encontra lá na praça, no ficar a pessoa não fica muito de mãos dadas.

Quadro 2

Quando os sujeitos se referem a alguma evidência social do ficar parecem relacioná-la muito mais à uma não preocupação com a opinião alheia ou com as regras da sociedade, do que a um possível aprofundamento do relacionamento, como pode ser observado na UCE seguinte:

Às vezes até a pessoa fica [de mãos dadas na rua], porque eles não levam muito a sério e nem se importam com o que as pessoas vão ver.

Por ser uma zona intermediária, os adolescentes estabelecem relação entre o ficar e os dois extremos do continuum. Isto significa dizer que, em algumas situações, o ficar possui características do pegar, como observado na fala abaixo:

Ficar tipo, você fica hoje e não sabe quando mais. No ficar tem mais ou menos um compromisso maior que no pegar.

Por outro lado, também apresenta características de namoro, como conhecimento e uma freqüência maior de encontro, como presente nas falas:

O ficar é conhecer. Namorar é firme.
Agora, no ficar você já tem alguém certo, mas não tem compromisso.

Outro aspecto interessante destacado no material discursivo é a descrição do que está contido no ato do ficar, observado nas UCE descritas a seguir:

No ficar, muitas vezes, só rola uns beijinhos e pronto, em outras pode rolar uma transa. Isso depende muito dos ficantes.
Quando está ficando com alguém rola de tudo, do beijo à transa, depende muito.

Os adolescentes do sexo masculino apresentam falas caracterizando o papel do sexo oposto nas relações desenvolvidas com os mesmos. Esse papel varia desde o perfil de responsável e de provedora pelo uso do condón e, conseqüentemente, da prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e de gravidez, até o significado atribuído a elas em função do comportamento de disponibilidade à relações com vários parceiros ou de julgadora do comportamento masculino socialmente aceito.

A garota que transa sem camisinha é sem juízo porque ela não sabe se eu sou garanhão ou caseiro.
A menina vai e fica e sem compromisso nenhum transa. Esse cara que ficou com essa menina vai e fala: fiquei com ela aquela ali, é fácil.
Se você respeita a menina ela vai ficar falando para as colegas que a gente é fraco. Por isso tem que pegar e esculachar mesmo.

Outro destaque importante a ser dado é a confirmação, por parte de um dos sujeitos, da necessidade de utilização do condón nas relações sexuais, ao mesmo tempo em que explicita que a prática dos adolescentes em geral não condiz com esta necessidade. Esta situação é revelada por um dos participantes:

E rola uma coisa muito ardente e é só aquele momento ali e acabou. Não tem namoro, transou e pronto. E deveria rolar caminha, mas nem sempre rola. Depende do lugar.

O namorar tende a ser representado para esses sujeitos como decorrente de um ato contínuo e repetitivo do ficar, que possui início em um relacionamento caracterizado pela liberdade de ação e que, com o tempo e a permissão de ambos, ganha contornos de maior compromisso e de oficialidade frente à família e o grupo social. O modo como os próprios sujeitos apreendem namoro é explicitado a seguir:

Tem pessoas que vão ficando, ficando e depois… (…) E acabam namorando. Um exemplo, você sai hoje, conhece a pessoa e fica com ela, se você sai um outro dia, encontra ela mesma, acaba ficando com ela de novo.
Eu agora estou namorando, mas às vezes é melhor ficar do que namorar. Porque namorando, você perde muita liberdade.

Realizando uma análise transversal do tema em todas as classes da análise Alceste, percebe-se a sua presença nas classes 2, 4 e 6. Ou seja, do total de 6 classes, mais de 50% contemplam a questão, sendo que, como já discutida, a classe 1 aprofunda especificamente o assunto.

A classe 2, pensando e falando sobre sexualidade e sexo: dilemas e posicionamentos, apresenta variadas formas de expressão e de conceito de sexualidade para os sujeitos. Essas expressões/conceitos variam de um extremo em que sexualidade e ato sexual são sinônimos, perpassando um alargamento progressivo até que, não excluindo o ato sexual em si, também compreenda outras dimensões da vida humana, como a afetividade, a beleza física, a sensualidade e o respeito.

As diferentes abordagens de sexualidade, no entanto, são correlacionadas pelos sujeitos às modalidades de relacionamentos afetivos anteriormente descritos. Ou seja, sexualidade enquanto ato sexual está mais relacionado ao pegar; ao mesmo tempo em que a sexualidade enquanto instância que engloba várias dimensões da vida do adolescente está mais presente no namoro(7). O ficar por sua característica intermediária apresenta, explicitamente, a tensão da sexualidade entre os dois pólos. As UCE abaixo representam essa idéia:

Eu acho que o sexo engloba bem mais coisas do que uma simples satisfação corpórea. Há três tipos de sexo: do prazer, do interesse e do amor. Você vai transar por prazer, muitas vezes.
No ficar é só sexo; no namoro é algo mais, é conquista, é respeito.

Na classe 4, falando de futuro: os adolescentes entre planos e sonhos, é apontado pelos adolescentes, dentre os planos futuros, a formação familiar à partir de um relacionamento estável representado pelo namoro. As UCE abaixo demonstram esse planejamento:

Eu pretendo formar uma família muito boa!
Formar uma família bem estruturada e ter filhos futuramente.
(eu pretendo) constituir uma família e ser feliz!

O fato de planejarem um relacionamento estável condiz com a faixa etária final da adolescência, quando este ator social começa a desenvolver relacionamentos mais íntimos e estáveis e, ao mesmo tempo, iniciam o planejamento futuro para esses relacionamentos. Parece existir, dessa maneira, uma passagem pelo pegar e ficar, mas a experiência e a idade tendem a levá-los à execução e a desempenho de papéis sociais mais aceitáveis e esperados(1).

Com relação à classe 6, Sobre amigos e colegas: os relacionamentos interpessoais na adolescência, os sujeitos destacaram os relacionamentos sociais tensionados entre amizade e coleguismo. Contudo, referiram igualmente a possibilidade de mutação entre os relacionamentos sociais e os afetivos, de modo que existem “colegas ficantes”, amigos(as) que se tornaram namorados(as) ou vice-versa(8). Ainda segundo os sujeitos, não existe necessária correlação entre a intensidade do relacionamento social e o afetivo. As UCE a seguir abordam a questão:

As vezes começamos a ficar com pessoas já conhecidas, nossas colegas…
Nem sempre amizade gera namoro e colegas ficantes… pode ser o inverso…

Percebe-se que os adolescentes abordaram as formas pelas quais desenvolvem seus relacionamentos, bem como as representações associadas ao papel masculino e feminino na interioridade destes relacionamentos. Parece, contudo, que no cotidiano desses indivíduos essas modalidades de relacionamento não se apresentam definitivamente separadas, mas acontece uma navegação social deles nos três tipos, inclusive evoluindo de um para o outro em um mesmo relacionamento. O estudo desenvolvido por Benitez(9) apresenta um quadro semelhante no tocante às modalidades de relacionamento e o modo como os adolescentes as desenvolvem.

Essas modalidades de relacionamento também possuem relação com a descoberta do corpo do outro e a intensidade que esse corpo produz no adolescente, o que influencia, junto a outras questões, no posicionamento do indivíduo no continuum já referido. Azevedo(10) considera que a sexualidade se expressa na adolescência através da descoberta do corpo do outro, pela sedução, normalmente através de novos sentimentos e emoções, que acontece em contextos de relacionamento com graus variáveis de liberdade/responsabilidade.

Um ponto a ser destacado, e que vem ao encontro de estudos da área(1,11), é o papel ativo atribuído ao homem e a necessidade de manter essa imagem, fenômeno esse reforçado pelos adolescentes do sexo feminino. Assim, a representação imagética de fácil ainda se encontra presente na cartografia mental feminina, assim como o encargo de se responsabilizar por medidas e tecnologias para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e de gravidez. Esse fato deixa transparecer uma representação masculina de que a mulher é responsável pela preparação da cena em que o homem é convidado a atuar.

O não uso regular de condón destacado pelos sujeitos é outro fenômeno que precisa ser analisado e isso em função de várias razões, dentre as quais citaremos duas. A primeira delas apresenta-se em função do aumento da incidência e da prevalência de doenças sexualmente transmissíveis e de gravidezes nesta faixa etária, especialmente entre 15 e 25 anos(12). A segunda é a dissociação existente (e explicitada pela classe) entre o conhecimento sabem da necessidade do uso – e a prática – mas mesmo assim não utilizam(13). Esse fenômeno merece uma investigação mais aprofundada e estudos devem ser desenvolvidos para dar conta dessa lacuna.

4. CONCLUSÃO

O artigo demonstra as vivências complexas, multifacetadas e, na maioria das vezes, tensionadas entre comportamentos/opções opostos presentes no cotidiano dos adolescentes. Ao mesmo tempo em que se sentem atraídos pela liberdade possibilitada pelo pegar ou ficar, necessitam da afetividade que normalmente é melhor explicitada em relacionamentos mais estáveis e, conseqüente, com menor liberdade.

Dessa maneira, os adolescentes classificam as modalidades de relacionamentos afetivos tendo a liberdade como padrão delineador. Simultaneamente, sexualidade se relaciona às diversas gradações desses relacionamentos, em função das diferentes formas de sua vivência. Apesar de ser esperado que o namoro possua uma noção de sexualidade mais abrangente do que o ato sexual em si, os resultados do estudo não permitem afirmar, claramente ou de forma precisa, que o ficar, pelo menos, seja destituído de sentimentos de respeito ou de uma afetividade mais profunda.

Ao mesmo tempo, as possíveis transmutações de situações de amizade e coleguismo em relacionamentos afetivos (independente dos tipos anteriormente descritos) e destes para aqueles, parecem demonstrar uma característica do mundo pós-moderno, onde as coisas e as situações são mais fluidas e menos estanques. Ao mesmo tempo, o estudo não permite correlacionar que relacionamentos íntimos e afetivos nascidos de relações sociais mais intensas, como a amizade, sejam mais sérios ou duradouros, em detrimento de outros que nasceram de relações mais superficiais como o coleguismo.

Cabe destacar que, apesar das mutações sofridas na definição tradicional de família e nas variações de relacionamentos já vivenciados pelos adolescentes, a constituição de uma família aparece como plano de futuro, ao lado de carreiras profissionais e cursos universitários.

REFERÊNCIAS

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2. Oliveira DC, SáCP, Gomes AMT, Thiengo MA. A Enfermagem e a promoção da saúde do adolescente: condições de vida, saúde e trabalho de estudantes do ensino médio no município do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro (RJ): FAPERJ/Faculdade de Enfermagem, Universidade de Estado do Rio de Janeiro; 2005. [ Links ]

3. Moscovici S. A representação social da psicanálise. Rio de Janeiro (RJ): Zahar Editores; 1978. [ Links ]

4. Jodelet D, organizadora.As representações sociais. Rio de Janeiro (RJ): EDUERJ; 2001. [ Links ]

5. Catão MFM. Excluídos Sociais em Espaços de Reclusão: as representações na construção do projeto de vida (tese). São Paulo (SP): Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo; 2001. [ Links ]

6. Oliveira DC, Gomes AMT, Marques SC. Análise Estatística de Dados Textuais na Pesquisa das representações sociais: alguns princípios e uma aplicação ao campo da saúde. In: Menin MSS, Shimizu AM, organizadoras. Experiência e Representação Social questões teóricas e metodológicas. São Paulo (SP): Casa do Psicólogo; 2005. p. 157-200. [ Links ]

7. Fisher FM, Martins IS, Oliveira DC. Saúde, educação e trabalho no município de Monteiro Lobato e Santo Antônio do Pinhal, SP. São Paulo (SP): FAPESP/Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo; 2000. [ Links ]

8. Osório LC. Adolescente hoje. Porto Alegre (RS): Artes Médicas; 1992. [ Links ]

9. Benitez AM. A percepção de estudantes adolescentes sobre sexualidade:uma análise de representações sociais (dissertação). Rio de Janeiro (RJ): Faculdade de Enfermagem, Universidade do Estado do Rio de Janeiro; 2004. [ Links ]

10. Azevedo MRD. Educação sexual: uma questão em aberto. In: Saito MI, Silva LEV, organizadoras. Adolescência: prevenção e risco. São Paulo (SP): Atheneu; 2002. p. 129-43. [ Links ]

11. Egypto MM. Papéis sexuais. In: Barroso C, Brushini C, organizadores. Sexo e juventude:como discutir sexualidade em casa e na escola. São Paulo (SP): Cortez; 1995. [ Links ]

12. Ministério da Saúde (BR). Coordenação Nacional de DST/AIDS. Resposta. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2002. [ Links ]

13. Reis AT. Práticas e Representações Sociais de saúde e trabalho na adolescência (dissertação de Mestrado). Rio de Janeiro (RJ): Universidade do Estado do Rio de Janeiro; 2004. [ Links ]

A VIDA DO TRABALHADOR ANTES E APÓS A LER E DORT

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A vida do trabalhador antes e após a Lesão por Esforço Repetitivo (LER) e Doença Osteomuscular Relacionada ao Trabalho (DORT)

RESUMO

O objeto deste estudo qualitativo foi a vida do trabalhador antes e após o diagnóstico da LER/DORT. Seus objetivos foram verificar se suas vidas sofreram alteração após o diagnóstico da LER/DORT e analisá-las após este diagnóstico. O cenário foram setores do Tribunal Regional do Trabalho da 19ª Região de Maceió. Produzimos informações através de entrevistas semi-estruturadas e as analisamos a partir dos seguintes temas: a vida antes da LER/DORT, o trabalho que faz LER/DORT, o calvário do diagnóstico, uma resposta ao trabalho repetitivo e um novo olhar para o horizonte. Os resultados permitiram sugerir medidas preventivas encaminhadas ao TRT/19ª/AL, como contribuição para minimizar os danos de um trabalho repetitivo, de alta pressão sobre o trabalhador.

Descritores: Enfermagem do trabalho; Doenças profissionais; Saúde do trabalhador.


ABSTRACT

This is a qualitative work, which focused on workers routine before and after being affected by RCT/OWRD. The study aimed at verifying and analyzing if workers’ lives had changed after the disease diagnostic. The research took place at sections of the TRT-AL a Court responsible for labor conciliations in Maceió Alagoas. The information was collected based on semi-structured interviews and data were analyzed based on the following tematics: life before RCT/OWRD; the activity that caused it; the diagnosis; an answer to the repetitive work and a new perspective to the horizon. Results enabled researchers to suggest preventive care, as well as to contribute for reducing damages caused by repetitive activities and high pressure on workers.

Descriptors: Occupational health nursing; Professional diseases; Health of the worker.


RESUMEN

El objeto de este estudio cualitativo fue la vida del trabajador antes y después del diagnóstico de la LER/EORT. Los objetivos fueron verificar si sus vidas sufrieron alteración después del diagnóstico de la LER/EORT y analizarlas después de este diagnóstico. El sitio seleccionado como escenario de investigación fue los sectores del Tribunal Regional del Trabajo de la 19ª Região de Maceió. Fueran reecogidas las informaciones a través de encuestas semi-estructuradas que fueran analizados a partir de los siguientes temas: la vida antes de la LER/DORT, el trabajo que provoca LER/DORT, el sufrimiento del diagnóstico, una respuesta al trabajo repetido e un Nuevo enfoque para el futuro. Los resultados permitieron sugerir medidas preventivas que fueron encaminadas al TRT/19ª/AL, como la contribución para disminuir los daños de un trabajo repetido, de alta presión sobre el trabajador.

Descriptores: Enfermería del trabajo; Enfermedades professionales; Salud del trabajador.


1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho teve como objeto de estudo a vida do trabalhador antes e após o diagnóstico das lesões por esforço repetitivo e da doença osteomuscular relacionada ao trabalho (LER/DORT). O que nos suscitou a vontade de nos aprofundar neste assunto, foi o aumento gradativo e freqüente de pacientes com o diagnóstico supra citado em nosso ambiente de trabalho, pois na realidade desse ambiente os trabalhadores ao serem diagnosticados com esta patologia ficam deprimidos, angustiados, sentindo-se inferiores, impotentes, muitos iniciam o uso de uma gama de medicamentos diários, que muitas vezes não têm o resultado esperado e vão à procura de exaustivos tratamentos, culminando com longos períodos de afastamentos do trabalho.

Sobre este assunto a literatura mostra que a LER/DORT tem representado importante fração do conjunto dos adoecimentos relacionados com o trabalhador. Acomete homens e mulheres, inclusive adolescentes, em plena fase produtiva da vida(1). Além disso, ainda contamos com uma diferença quanto a denominação da patologia, que não é homogênea em todos os países, muito menos no Brasil. Porém, o que se vê de homogêneo são as possíveis causas da mesma: organização do trabalho e fatores psicológicos(2). E pudemos confirmar isto em nosso ambiente de trabalho, onde identificamos ambientes desorganizados, design inespecífico de sala, execução de tarefas repetitivas e os fatores psicológicos tais como: pressões internas e dificuldades de relacionamentos.

Toda esta situação quanto às manifestações patológicas não é recente. A literatura relata que desde 1717, Ramazini já escrevia que os movimentos violentos e irregulares, bem como posturas inadequadas durante o trabalho provocavam sérios danos à máquina vital(3). Apesar de ultrapassado, esse paradigma mecanicista do homem é bastante forte principalmente no que diz respeito ao trabalho repetitivo. Do mesmo modo, em 1891, Fritz De Quervain associou a tenossinovite do polegar à atividade de lavar roupas e denominou essa patologia como “entorse das lavadeiras”(3) .

Percebemos assim que a organização do trabalho interfere na vida do trabalhador, assim como o tempo que este trabalhador passa no ambiente de trabalho, pois quanto maior a jornada, menor será o tempo possível para o convívio familiar e quanto maior o cansaço, mais será afetada a qualidade do relacionamento do trabalhador com seus familiares. Pois, como já vimos, a irritabilidade e o desânimo prejudicam os contatos interpessoais(4).

Diante de toda a literatura consultada, entendemos que são várias causas e fatores que interferem no aparecimento das lesões por esforços repetitivos e com base nestas informações perguntamos: A vida do trabalhador maceioense também muda após o diagnóstico da LER/DORT? Para responder tal questão pretendemos atingir os seguintes objetivos: Verificar se a vida dos trabalhadores sofre alguma alteração após o diagnóstico da LER/DORT, seja na área do lazer, nas atividades inerentes ao seu trabalho e nas relações familiares; analisar como se apresenta a vida desse trabalhador após o diagnóstico da ler/dort sobre os mesmos aspectos referidos acima.

Este foi um estudo relevante porque desnuda uma situação presente nas empresas e nos serviços públicos e privados, principalmente no Tribunal Regional do Trabalho em Alagoas, particularizando uma situação que, embora abordado por muitos autores, nem está esgotada teoricamente nem deixa de surpreender pela forma como modifica a vida dos trabalhadores acometidos.

2. METODOLOGIA

Esta pesquisa teve uma abordagem qualitativa porque quisemos descrever a imersão do pesquisador nas circunstâncias e contextos da pesquisa, a saber, o mergulho nos sentidos e emoções(5);o reconhecimento e práticas; os resultados como fruto de um trabalho coletivo resultante de dinâmica entre pesquisador e pesquisado; a aceitação de todos os fenômenos como igualmente importantes e preciosos: a continuidade e a ruptura, o significado manifesto e o que permanece oculto(6) .Os sujeitos pesquisados foram trabalhadores da Justiça do Trabalho, das varas do trabalho de Maceió, que estão diagnosticados como portadores de LER/DORT ou que apresentam sintomas sugestivos de LER/DORT. Esses sujeitos foram escolhidos a partir dos seguintes critérios: estarem conscientes, lúcidos, capazes de relatarem suas experiências e se posicionarem sobre suas vidas antes e depois de serem diagnosticados com LER/DORT. O ambiente da pesquisa se deu dentro do próprio local de trabalho, onde o trabalhador está entre birôs, computadores e mesas, vivendo o momento de ser entrevistado e ao mesmo tempo mostrando como acontece e se dá o seu dia a dia de trabalho.

As informações foram produzidas a partir de uma entrevista semi-estruturada a qual foi realizada com os portadores da referida patologia dentro das dependências do Tribunal Regional do Trabalho de Alagoas. A aproximação dos sujeitos se deu através de visitas aos setores onde os pesquisados trabalham. Identificamos os portadores de LER/DORT com antecedência, uma vez que trabalhamos no Serviço de Saúde do Tribunal e temos contato com todos os funcionários, por “dever de ofício”. Antes de começar, detalhamos os aspectos relativos às condições de sua participação, assegurando-lhes que não haveria riscos para eles, que suas conversas seriam mantidas em sigilo, falamos sobre os benefícios da pesquisa, os quais dizem respeito ao entendimento do que acontece na vida de uma pessoa quando ela sofre de LER/DORT, sendo este trabalho uma contribuição para uma visão/ação da instituição empregadora mais humana para com esses funcionários. Enfim, todas as informações contidas no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foram formalmente colocadas e eles havendo concordado em participar do estudo, assinaram o documento, atendendo assim ao que preconiza a Resolução CNS 196/96.

Entrevistar esses trabalhadores foi uma experiência muito interessante. Os seus relatos nos reportavam seguramente para os nossos próprios trabalhos e nos sensibilizamos com cada um deles. Pudemos verificar como as pessoas reagem diferentemente diante da dor, da perda da capacidade laborativa, tenha sido ela total ou parcial. Em alguns momentos nos surpreendemos com a vontade de alguns de superarem suas dificuldades e como outros preferem recolher-se, buscando preservar seus empregos.

Algumas entrevistas foram curtas, com pessoas muitas fechadas ou donas de um discurso por demais objetivo. Outras foram mais expansivas, produzindo um documento mais rico. Entrevistamos homens e mulheres, de idades mais ou menos aproximadas e cada um foi uma fonte rara de aprendizado. O quadro 1 apresenta as principais características desse grupo de sujeitos.

3. RESULTADOS

Os dados desta pesquisa registrados nas entrevistas transcritas nos permitiram extrair temas, que aglutinaram os depoimentos. Foram eles: a vida do trabalhador antes da LER/DORT, o trabalho que faz LER/DORT, vivendo o calvário em busca do diagnóstico, uma resposta ao trabalho repetitivo, olhos em um novo horizonte.

A vida antes da LER / DORT: percebemos nas entrevistas que as pessoas pesquisadas relatam que tinham uma vida tranqüila, como pode ser verificado nos discursos que se seguem:

Trabalhava em casa fazia todos os serviços domésticos e ainda trabalhava numa Vara na função de protocolo (Trabalhador 1).

…Praticava luta livre, jogava bola, fazia exercícios físicos, e hoje não aço mais…(Trabalhador 5).

…Estudava música no teclado eletrônico e hoje não posso mais fazer isto….(Trabalhador 4).

…Antes das dores pratica voley ball, fazia ginástica e todos os serviços domésticos, o que já não consigo pois me poupo de tudo para render no trabalho (trabalhador 8).

Percebemos assim que os entrevistados viviam suas vidas de forma comum conforme seus hábitos de atividades diárias, cuidavam de seus lares e de seus familiares, pegando peso, exercitando-se, praticando instrumentos musicais enfim, um modo de viver bem, sem dor. Uma vez a doença instalada, este desconforto aumentava, formando aquele jeito de viver numa péssima qualidade de vida.

O presente trabalho apresentou dados de grande importância, pois, demonstraram que o trabalhador acometido por LER/DORT tem sua vida modificada conforme apresentam essas falas:

“Pois não sou a mesma de antes, já não consigo lavar uma calcinha, pôr meu filhinho no colo, escovar os dentes entre outras coisas, tive depressão, fiquei impressionada com a doença e achava que a vida não teria graça, sentindo-me como um vaso quebrado”. (trabalhador 1).

…Hoje passei a usar diariamente no trabalho uma tala de proteção para evitar a dor. (Trabalhador 3)

…Não faço nenhum trabalho doméstico para render no trabalho, depois dessa doença, meu sono não é mais o mesmo, uso remédio antidepressivo, pois passei a ter depressão, passei a ter insônia. (Trabalhador 8)

Estas falas refletem o comportamento dos pacientes acometidos por LER/ DORT, por esta razão Barreto já falava que o apoio psicológico tornou-se bastante necessário no tratamento da LER / DORT principalmente para aqueles pacientes que muitas vezes apresentam componentes ansiosos depressivos, e que são portadores de LER / DORT(7).

Outro tema encontrado foi o trabalho que faz LER/DORT, ou seja a repetição dos movimentos é visível em todas as tarefas desenvolvidas na vara do trabalho tais como: digitar, carimbar, grampear e perfurar.Encontramos este depoimento que sintetiza o pensamento dos trabalhadores:

Depois que vim para trabalhar na Vara é que passei a usar o computador, pois tenho que notificar todos os processos, grampeio, pego e guardo os processos.Sei que o serviço é constante pois todos os processos tem tempo definido par se cumprir os prazos. (Trabalhador 4).

Trabalho no TRT há mais ou menos 6 anos, após o 1° ano comecei a sentir estas dores pois digitava em media ate 25 audiências por dia. (Trabalhador 5).

Este tipo de trabalho é estudado nas ciências da Ergonomia, a qual relata que as melhorias ergonômicas podem se referir a vários aspectos do trabalho: o planejamento e localização de dispositivos e materiais de trabalho: as características do posto, tais como cadeiras, mesas, bancadas; o planejamento e localização de dispositivos e materiais de trabalhos, a quantidade , qualidade e localização da iluminação, indicadores sobre melhoria nas condições de ruído e seu controle, indicações sobre melhoria na organização da atividade, incluído o planejamento de novos dispositivos de trabalho ou modificações nos existentes e alterações no ritmo e conseqüentemente das varias tarefas desempenhadas ´pelo operador(2).

Queremos dizer com isto que a LER/DORT de hoje não é simplesmente uma lesão causada por um esforço repetitivo qualquer, as causas vão além dos sintomas físicos, passam pela organização do trabalho, dificuldades interpessoais bem como os fatores ergonômicos. Não podemos deixar de considerar aqui o lado patronal, pois este também sofre pelo aparecimento exagerado da doença e por também não entender e não aceita-la bem como não aceitar que precisa adotar medidas preventivas capazes de minimizar o problema.

É certo que pacientes com LER/DORT apresentam evidências de depressão, ansiedade e angústia, porém, em geral, trata-se de quadros decorrentes de situações concretas de perda da identidade no trabalho, na família e no círculo social, além da penosidade de se submeter aos tratamentos longos, de resultados lentos e incertos, e perícias nas quais estão sendo constantemente questionados como se estivessem querendo “estar doentes”. Observa-se que pessoas com o problema eram consideradas no trabalho como rápidas, eficientes e às vezes competitivas; porém, acreditamos que essas características são determinadas e/ou reforçadas pela organização do trabalho, o que identificamos com estas falas dos trabalhadores abaixo:

…Minha vida pessoal mudou como um todo completamente inclusive passei a ter depressão…(Trabalhador 5).

…Há muita pressão na sala de audiência, não posso sair nem para ir ao banheiro nem pra tomar água, preciso trabalhar par sobreviver, como também da gratificação, se começo a tirar licença fico sem ela… (Trabalhador 6).

Apesar do reconhecimento dos inúmeros fatores que, combinados, podem refletir no adoecimento por parte do trabalhador, algumas questões individuais, podem facilitar ou predispor o trabalhador ao desenvolvimento de LER / DORT. Isso não quer dizer que é possível descartar a relação entre a doença e o trabalho, significa apenas que alguns fatores podem se somar ao desgaste provocado pelo trabalho, resultando em LER/DORT. Entre estes fatores estão algumas condições patológicas sistêmicas, como o diabetes, situações reumáticas, hipotireoidismo, colagenoses vasculares, tuberculose e infecções(8). A complexa combinação dos fatores contributivos para potencialização de uma determinada atividade de risco, não são raras em muitas situações de trabalho e vão além das linhas de produção e dos setores onde predomina a mão de obra feminina(8).

Vemos assim que o trabalhador já tem dois tipos de situação laboral predisponente, quais sejam: problemas de doenças crônicas degenerativas anteriores e o tipo de trabalho que desenvolvem como tarefas repetitivas, algumas monótonas, muitas vezes exercidas sob pressão ou que exigem esforço físico do braço. Os sujeitos deste estudo se enquadram perfeitamente nesta descrição. Como demonstra o seguinte depoimento:

Trabalho na Vara do Trabalho há mais ou menos 8 anos, só que antes eu trabalhava com máquina de datilografia. Depois que vim para o TRT é que passei a usar o computador, pois tenho que notificar todos os processos da Vara, onde digito, escrevo, grampeio, perfuro, pego e guardo o processo. Sei que o serviço é constante, pois todos os processos têm tempo definido para serem cumprido os prazos (Trabalhador 2).

Considerando a LER / DORT como um fenômeno multifatorial, variam só os fatores que contribuem para sua manifestação na realidade laboral. Utilizamos assim a divisão de grupos, usada por Miranda e Dias(9) em três grandes grupos:

Fatores de Natureza ergonômica – encontramos mesas e cadeiras antiergonômicas, layout inadequado para o tipo de trabalho, inadequação postural frente aos equipamentos do posto de trabalho, manoplas antiergonômicas, exigência física demasiada. Isto se confirma neste discurso:

Trabalho no TRT há 6 anos, após o 1º ano, comecei a sentir estas dores pois digitava em média até 25 audiências por dia, saí da sala de audiência pois fui convidada para ser assistente de diretor, passei a digitar mais, pois continuo pegando muito mais processos. Pego em média,100 processos por dia para digitar, todos os recursos necessários, sei que o trabalho na Vara é como enxugar gelo (Trabalhador 8)”.

Fatores de natureza organizacional e psicossocial – percebemos nesta pesquisa que os fatores do grupo incluem: ausências de pausas, ritmo muito intenso de trabalho, gratificação atrelada ao trabalho, cobrança excessiva na produção e no cumprimento dos prazos, problemas nas relações e interações pessoais, ambientes de trabalho estressante, privação das necessidades fisiológicas. Confirmando as nossas observações nos postos de trabalho, a trabalhadora relata:

Há muita pressão na sala de audiência, não posso sair nem para ir ao banheiro e nem para tomar água, preciso do trabalho para sobreviver, como também da gratificação, pois se começo a tirar licença fico sem ela, e, me programei contando com a gratificação, porém me pergunto até quando vou agüentar?” (Trabalhador 6).

Trabalho numa vara no setor de notificação, pego e recebo processos, digito muito, grampeio,perfuro e tenho que obedecer todos os prazos dos processos que trabalho.( Trabalhador 5).

Trabalho no serviço de digitação do TRT, tenho que atender aos usuários internos e realizar os programas internos também, tudo é pra ontem.(Trabalhador 4).

Fatores de natureza sócio-econômica e cultural: medo de perder a gratificação e prejudicar a coordenação motora, falta de reconhecimento social da doença no ambiente de trabalho, ausência de solidariedade humana. Comprovando estes fatores, a trabalhadora informou:

Fui discriminada no trabalho, ninguém acreditava em mim, passei a ser vista pelas chefias, como se não quisesse trabalhar. (Trabalhador 1).

…Em casa o problema também traz conseqüências chatas, pois não posso colocar meu filho no colo ( Trabalhador 4).

Hoje vivo cheia de remédios e já não posso fazer o que gosto, não posso praticar luta livre como esporte, pois não agüento, fico preocupada porque tenho que cumprir as exigências do trabalho …(Trabalhador 5)

Procuro não fazer nenhum trabalho doméstico para render no trabalho, não jogo vôlei, meu lazer ficou prejudicado não faço musculação minha vida mudou completamente…(Trabalhador 8)

De fato as LER / DORT consistem em distúrbios funcionais ou orgânicos resultantes de fadiga de origem ocupacional resultante de fadiga localizada e afecções dos fatores ocasionados pelas pressões internas ao trabalho, pelas desorganizações internas e externas e pelos fatores psicossociais. Com isso percebemos também que algumas pessoas que nunca tinham trabalhado com tarefas repetitivas ao passarem a realizar essas tarefas começaram a sentir dores.

O reconhecimento público da LER / DORT como patologia associada às condições do trabalho, traz à tona a ponta de um iceberg de dimensões incalculáveis: o de doenças associadas as condições auto agressivas do trabalho, no mundo; o da qualidade de vida humana no trabalho, o dos significados e valores do trabalho na vida humana hoje(9). É bem verdade que no ambiente pesquisado temos de um lado o avanço tecnológico, com a modernização da informática, mas contamos com um agravante que é a pressão exercida pelo cumprimento legal dos prazos jurídicos, sendo este um forte agravante nas mentes dos trabalhadores. Isso implica no reconhecimento de como o trabalho modifica o trabalhador e como é importante a ação do Serviço de Saúde Ocupacional que atua de acordo com a legislação tão duramente conquistada pelos trabalhadores, destinando-se a avaliar situações de risco ou de alteração da saúde no trabalho (embora) atuando prioritariamente na saúde individual a partir da solicitação do trabalhador(10).

Fazendo um retrocesso histórico, podemos dizer que se houve expansão nas tecnologias utilizadas nos trabalhos e oportunidades múltiplas para o ser humano, com o surgimento de novos empregos, bem como oportunidades e uma produção mais acelerada dos bens de consumo, por outro lado trouxe também uma gama de problemas altamente significativos, dentre estes a LER / DORT.

É importante ressaltar que não apenas o trabalho determina a LER/DORT, mas as características individuais dos trabalhadores, como suas posturas inadequadas, pré-disposição genética, peso, a relação com o trabalho entre outras. Percebemos também que algumas características como: perfeccionismo e inadequação de falhar, necessidade de ultrapassar limites, necessidade de reconhecimento, preocupação com produção e prazos a serem cumpridos. Devido a essas características surge o sentimento de culpa de alguns trabalhadores que até não chegam a dizer que estão com dores, por medo de serem taxados de preguiçosos(2).

Quero ser o máximo não gosto de acumular serviço, fico muito ansiosa por todo o trabalho para fica em dia e ficava com vergonha de reclamar no trabalho sobre minhas dores. (Trabalhador 8).

A sintomatização é um recurso usado pelo trabalhador como forma deste externar sua dor, no entanto nem sempre onde ele aponta que esta doendo é realmente o que esta doendo(2). Percebemos isto nesta fala:

Minhas dores começaram nos braços em direção ao pescoço e depois por todo membro. A mão doe sem parar. Todas as articulações das mãos estão inflamadas (Trabalhador 5).

Devido a tudo isto muitos ficam em silencio e não recamam da sua dor.

O outro tema extraído foi o calvário do diagnóstico conforme se vê nos discursos que se seguem:

Fui a vários médicos e o diagnóstico ainda não foi confirmado a única coisa que dizem é que é uma fibromialgia e continuo com as dores e sem dormir (Trabalhador 5).

Só com os agravos dos sintomas é que comecei a procurar um médico e percebi que tudo estava ligado ao trabalho, porém ainda não fui orientada o suficiente sobre a doença, nem o diagnóstico final confirmado (Trabalhador 6).

…Depois de uma não de sintomas fui a um ortopedista que garantiu que iria fica bom depois da cirurgia falto que não aconteceu pois as dores diminuíram mas não fui curado (Trabalhador 4).

Os sintomas apresentados são os mais diversos possíveis tais como: dores musculares, lombares, no ombro, punho, região cervical enfim todos os membros superiores. Como chegam ao diagnóstico afinal? O caminho até este estágio é longo e incerto pois os profissionais ainda não têm muito domínio no diagnostico precoce e rápido.

As patologias músculo-esqueléticas que podem provocar sintomas dolorosos são inúmeras, mas o que ocorre na pratica clinica diária é que dentro do conhecimento cientifico atual, não se consegui ainda diagnosticar a razão etiológica do quadro doloroso na maioria dos pacientes. Apesar dos avanços tecnológicos descobrir a causa da dor pode esta ligada a condição psicossocial enfrentada pelo trabalhador. Encontramos na fala do Entrevistado 6, o reflexo da condição psicossocial que passa o trabalhador:

…Há muita pressão na sala de audiência, não posso sai nem para ir ao banheiro nem para tomar água, preciso do trabalho pra sobreviver, Omo também da gratificação, pois se começo a tirar licenças fico sem ela, e me programei contanto com a gratificação porém me pergunto ate quando vou agüentar? (Trabalhador 6).

Um outro tema encontrado foi uma resposta ao trabalho repetitivo, oque se confirma nesta fala:

No meu setor não senti rejeição pois as pessoas entenderam o problema pelo qual estava passando, em casa o problema também traz conseqüências chatas pois já não posso carregar meu filho no colo, não toco mais órgão, pois este era meu lazer preferido e hoje tenho uma vida limitada devido a doença aparecendo também depressão pois existe a frustração de não poder realizar certas atividades, tive que para a musica, as com uma acentuada queda na digitação no Maximo uma folha posso digitar (Ttrabalhador 4).

Percebe-se assim que o trabalho realizado nas Varas do Trabalho de Maceió associado a todas as condições favoráveis para o aparecimento desta doença provoca Ler//DORT. Uma vez que todos os trabalhadores estão submetidos tanto aos movimentos repetitivos como também aos fatores intrínsecos à organização do trabalho.

Como fez o Trabalhador 4, uma forma de responder ao trabalho repetitivo é respeitar o ritmo que o corpo suporta. Mudar de função poupar-se das atividades repetitivas que puderem ser evitadas, evitar carregar peso e buscar novas atividades compatíveis com suas limitações é uma resposta possível, se associadas a uma revisão dos conceitos pessoais, que lhe permita compreender que a pessoa pode ser útil, necessária e produtiva, mesmo em uma função diferente do que estava habituado. Como já foi dito, o apoio psicológico e o envolvimento terapêutico neste momento são importantes tanto para a pessoa, como para a família, como para a própria empresa que não perde a capacidade produtiva do trabalhador, ao encaminhá-lo para o reconhecimento dos seus outros talentos que ainda estavam ocultos, devolvendo-lhe algum sentido para a vida.

Outro tema encontrado foi “um novo olhar no horizonte”. Com isto queremos dizer que apesar da doença instalada estes trabalhadores podem ser reaproveitados em seus ambientes de trabalho sem nenhum prejuízo financeiro ou de trabalho, pois mudaram suas vida em favor da atividade laboral. Os diversos atores sociais envolvidos neste tema fazem que seja necessário um novo olhar, contando com a participação dos empregadores na busca de solução. É necessário que empregador planeje e desenvolva ações promotoras da melhoria da qualidade de vida do trabalhador, com a participação de seus empregados, sindicatos e profissionais da área da saúde e segurança no trabalho. E não podemos esquecer que a doença foi adquirida nas dependências do ambiente de trabalho:

Agora estou melhor mudei de setor e percebo que as coisas estão melhorando, voltei a estudar, minha coordenação motora está diminuída, pão posso escrever muito, mas vou conseguir superar, quem confia no Senhor vence (Trabalhador 1).

Hoje procurei a yoga e a homeoterapia para estimular e aumentar as minhas defesas porem procurei desenvolver uma melhor qualidade de vida investindo na minha vida fora do trabalho para render cada vez mais dentro dele, pois acredito se estou bem lá fora aqui dentro rendo melhor (Trabalhador 7).

É importante aproveitarmos o conhecimento desses trabalhadores sobre a funcionabilidade do trabalho e com isto evitaremos os treinamentos desnecessários que tanto encarece os cofres das instituições como um todo seja ela pública ou privada. Entendemos assim que a melhor forma de lidar com as LER/DORTs é a prevenção e se detectada precocemente as mudanças na vida do paciente serão menores. Além de criar condições no ambiente para o retorno do paciente o mais breve possível. Existem novos tratamentos , tanto na medicina clássica como a Mesoterapia, utilizada em lesionados sem múltiplas lesões. Em nível de Terapias complementares também existem tratamentos como Do-in, Shiatsu, Acupuntura. Nesta pesquisa aprendemos a não só entender o comportamento apresentado pelos portadores como também a conviver com a uma realidade: o tratamento da LER/DORT é multidisciplinar. Há que se ter vontade de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores diagnosticados e com isto, resgatar sua cidadania, sendo atingida pelas adversas condições de trabalho oferecidas pelas Varas do Trabalho deste regional.

4. CONCLUSÃO

Este trabalho resultou de uma pergunta nascida nas nossas reflexões sobre o ambiente e as pessoas que estão diariamente conosco no trabalho. Objetivamos analisar se há mudanças na vida do trabalhador quando ele adquire LER/DORT. Para alcançar esse objetivo delineamos um estudo qualitativo e os depoimentos tomados nos permitiram concluir que há mudanças significativas na vida do trabalhador ante e depois do diagnostico da LER/DORT, demonstrando assim o alcance do nosso objetivo.

A mudança na vida dessas pessoas parece estar descritas nos temas que foram extraídos de suas falas e que nos levam a presumir o intenso sofrimento porque passam num processo que os fazem recordar como era sua vida antes da LER/DORT, vidas comuns, preenchidas pelas coisas do cotidiano, participativas, divididas entre o espaço doméstico, o trabalho e o lazer.

As instalações insidiosas da doença ocasionadas pelo trabalho que faz LER/DORT as fizeram mudar o jeito de viver e as levaram a percorrer um calvário, ate a definição do diagnóstico, sendo este calvário representado pelos sintomas, pelo preconceito, pelo medo de perder a função ou gratificação. No entanto, a constatação do estado da doença e da perda da qualidade de vida levou as pessoas a buscarem uma resposta a esse trabalho repetitivo, mudando de função, aprendendo outras formas de viver, retomando os estudos e antigos prazeres abandonados, levando-as a olhar para o futuro em busca de novos horizontes.

A leitura repetida das entrevistas provocou nas pesquisadoras emoções fortes e um alento a mais para enfrentar os desafio de promover na instituição discursos sobre as mudanças que o trabalho impõe ao trabalhador tão bem descritas por Albornoz(11) e Dejours(12), em busca de formas de minimizar os efeitos de um trabalho tão estressante e de efeitos tão insidiosos.

Diante de todos os fatos vividos e mencionados concluímos que, como já se explicou, as causas de LER/DORT são múltiplas e complexas originadas de fatores isolados e conjuntos, mas que exercem seus efeitos de forma simultânea e interligada.

As LER/DORT resultam da superutilização do sistema osteomuscular, instalando-se progressivamente no trabalhador sujeito a fatores de risco técnico-organizacionais. Ao se compreender os mecanismos dessa multicausalidade, percebe-se a necessidade da abordagem global para se prevenir as LER/DORT.

Por fim, as vidas dos trabalhadores acometidas por LER/DORT nas varas do Tribunal Regional do Trabalho de Maceió mudaram consideravelmente. Após o diagnostico da doença, estes passaram a viver de forma que mudaram suas vidas extra trabalho para render mais no ambiente do trabalho. Estas constatações confirmaram nossas advertências de que o tratamento dos doentes acometidos pela LER/DORT deve objetivar, portanto, a exploração dos potenciais remanescentes, a melhora da qualidade de vida e não apenas o controle da dor, pois, apesar do seu alívio permitir melhora da qualidade de vida em significativa parcela dos indivíduos, nem sempre há correlação entre ambas as condições. Componentes biológicos, emocionais e sociais podem estar tão comprometidos devido à prolongada duração da dor que é preciso ter uma avaliação além da dor, considerando todos os fatores mencionados anteriormente. Por fim concluímos que a vida dos portadores da doença nas varas do Tribunal Regional do Trabalho de Maceió mudou significativamente após o diagnóstico da LER/DORT.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS – CONTRIBUIÇÕES PARA A ENFERMAGEM DO TRABALHO

Após toda a revisão de literatura e a análise dos depoimentos tomados consideramos o seguinte: que as autoridades locais, os médicos, enfermeiros e demais profissionais envolvidos no cuidar destes trabalhadores acometidos pela LER/DORT sejam sensíveis e encontrem formas de minimizar as inadequações dos ambientes de trabalhos para que a prevenção da LER/DORT seja proclamada em todos os ambientes deste Regional. Assim sendo os resultados do estudo propõem:

– Que o Tribunal Regional do Trabalho melhore as instalações físicas, elétricas e ergonômicas dos ambientes das Varas de trabalho;

– Conceda a prática da ginástica laboral orientada voltada exclusivamente para prevenção da LER/DORT;

– Que estude e identifique os trabalhadores acometidos pela referida doença juntamente com o setor de saúde local , para que possam ser transferidos sem que haja perda salarial;

– Que nos setores de maiores agravos sejam instalados temporizadores nos microcomputadores para que se dê pausa necessária para o descanso do operador deste;

– Política de sensibilização: dirigida aos chefes, diretores e gerentes, com o objetivo de comprometê-los com a implantação de um programa de prevenção da LER/DORT;

– Política de conscientização: conjunto de tarefas informativas e orientadas visando conscientizar-se o conjunto dos trabalhadores sobre a gravidade das LER, levando-os a desenvolver atitudes prevencionistas. Nesse aspecto, o Programa contém sugestões e orientações sobre mudanças na organização do trabalho, no mobiliário e nos equipamentos, para que sejam atingidas as transformações pretendidas;

– Que sejam dados treinamento internos para melhorar as relações interpessoais;

– Que seja estimulada a criação de grupos da referida patologia para ajudarem na convivência com a doença.

REFERÊNCIAS

1. Codo FT. LER – Diagnóstico tratamento e prevenção: uma abordagem interdisciplinar. Petrópolis (RJ) : Vozes; 1998. [ Links ]

2. Codo FT, Almeida MC. LER Lesões por esforço repetitivo. 3ª ed. Petrópolis (RJ): Vozes; 1997. [ Links ]

3. Magalhães KTN. Manual de perícias médicas. Maceió (AL): Gráfica do TRT da 19ª Vara; 2004. [ Links ]

4. Silva ES. Desgaste mental no trabalho dominado. Rio de Janeiro (RJ): Editora da UFRJ; 1994. [ Links ]

5. Chizzotti A. Pesquisa em ciências humanas e sociais. 5ª ed. São Paulo (SP): Cortez; 1998. [ Links ]

6. Paulilo JR. LER: educação e pesquisa. Rev Fac Educ USP 2004; 30(1). [ Links ]

7. Carvalho PJ. LER. In: Magalhães KTN. Manual de perícias médicas. Maceió (AL): Gráfica do TRT da 19ª Vara; 2004. [ Links ]

8. Logen RS. DORT. In: Magalhães KTN. Manual de perícias médicas. Maceió (RJ): Gráfica do TRT da 19ª, 2004. [ Links ]

9. Miranda CR. Introdução à saúde no trabalho. 3ª ed. São Paulo (SP): Atheneu; 1998 [ Links ]

10. Rocha AM, Felli VEA. A saúde do trabalhador de enfermagem sob a ótica da gerência. Rev Bras Enferm 2004; 57(4): 453-58. [ Links ]

11. Albornoz S. O que é trabalho. Rio de Janeiro (RJ): Brasiliense; 1993. [ Links ]

12. Dejours C. A Loucura do trabalho. 3ª ed. São Paulo (SP): Cortez, 1988. [ Links ]

COMO EVITAR ARTIGOS DA INTERNET EM TRABALHOS ESCOLARES

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A receita é perigosa: pegue um bom site de busca, uma proposta de trabalho escolar e uma preguiça adolescente que entende que alguns cliques podem economizar horas de esforço intelectual.

Tentador para alunos, o resultado é desastroso para o processo pedagógico e ainda dá calafrios em muitos professores, que olham ressabiados para iniciativas como a enciclopédia online Wikipedia e o Google Scholar, serviço do gigante de buscas que cataloga trabalhos escolares.

A explosão no número de plágios em trabalhos escolares levou tanto colégios como professores a reagir não apenas com a punição, mas desenvolvendo adaptações pedagógicas para coibir a cópia de trabalhos encontrados online.

Mais que motor de uma adaptação, o uso da internet na educação vem sendo encarado também como uma potencial mudança na tradicional decoreba, estimulando a construção de conhecimento pelo aluno.

A opinião é de Mário Abbondati, coordenador pedagógico do Bandeirantes, que afirma que o plágio online segue a mesma linha de gerações anteriores que entregavam cópias na íntegra de enciclopédias como projetos escolares.

“Não vamos nos enganar. Minha geração copiou muito trabalho das enciclopédias. Na época, eu não sabia que não estava aprendendo. Para mim, o que fazia era correto”, rememora Abbondati.

“É provável que estejamos incorrendo nos mesmos erros que passamos quando éramos alunos. A tecnologia pode ter apenas amplificado o problema”, reitera Valdenice Minatel, coordenadora de tecnologia educacional do colégio Dante Alighieri.

O esforço físico do aluno para reproduzir trechos da enciclopédia Barsa foi substituído pela materialização de um trabalho completo, retirado pelo aluno da enciclopéida online Wikipedia em questão de minutos.

O que fazer?

Veja o exemplo de Álex Fogaça, de 10 anos. Nas aulas, o estudante pode levar citações encontradas pela internet sem qualquer tipo de repreensão.

O colégio Eduardo Gomes, onde estuda, porém, exige que o material seja referenciado e pede que o aluno, após pesquisar, transcreva as informações mais importantes sobre o assunto.

Outra maneira de avaliar o conhecimento obtido online é pedir que o aluno traga referência extras ao material estudado em sala de aula para que seja feito um debate com seus colegas.

Segundo o pai de Álex, Adonis, a iniciativa é uma maneira tanto de fazer com que as crianças desenvolvam um senso crítico em vez de simplesmente decorar o assunto, como também de conscientizá-las sobre o que pode ou não ser confiado na internet.

“Não acredito na Wikipedia, já que não sei o que é verdadeiro ou não. Meus filhos usam (Álex tem um irmão, Lucas, de 15 anos) direto e já aconselhei ambos a ter cuidado. Já sentamos para analisar alguns argumentos encontrados online”, explica o pai de Álex.

A orientação que Adonis busca dar aos filhos, porém, não é um padrão entre os pais, reconhecem os educadores. As repreensões variam conforme o professor. Há, contudo, um consenso entre os educadores ouvidos pelo IDG Now!: cópias são punidas, no mínimo, com nota zero.

Em alguns casos, professores chamam o aluno para conversar separadamente ou expõem o problema para a classe de maneira geral sem apontar o responsável.

“Poucas pessoas se arriscam atualmente. Já houve vários casos, mas é arriscado”, confidencia Sophia Tarallo, que cursa o 1º ano do ensino médio, do colégio Visconde de Porto Seguro, em Valinhos.

Mesmo com a crescente consciência de educadores, a estudante de 14 anos afirma que os que ainda se arriscam “mudam algumas palavrinhas para que o professor não desconfie”.

Casos como os de amigos de Sophia, que foram instruídos sobre direitos autorais na internet e a correta utilização de conteúdo online, indicam que, por mais que haja campanhas de conscientização, ainda há espaço para a malícia.

“Chegar a taxa zero de trabalhos copiados é impossível e os professores sabem disto”, admite Cristiana Mattos Assumpção, coordenadora de tecnologia na educação do Bandeirantes.

Moisés Zylbersztajn, do Santa Cruz, afirma também ter “problemas constantes” de plágio, mas resume a nova postura de colégios frente à internet em uma frase: “Formular a pergunta inteligente, que pedirá trabalhos elaborados, evitará eventuais problemas”.

Ao juntar o combate ao plágio com o incentivo à conscientização do aluno, professores vêm apresentando novas formas de avaliar o conhecimento adquirido pelo aluno e assumindo que têm parte da responsabilidade pelas cópias.

“Propostas simplistas levam a soluções simplistas”, resume Minatel. Um trabalho que pede definição de um fenômeno histórico, por exemplo, é extremamente tentador para que adolescentes, mesmo os que têm orientação sobre plágio e referenciação, façam cópias.”

Como combater

A maneira mais urgente adotada por alguns colégios é proibir que alunos entreguem projetos impressos. São aceitos apenas os escritos em letra cursiva.

A medida é apenas paliativa. Mesmo que seja forçado a escrever o trabalho com sua própria letra, nada impede o aluno de plagiar o conteúdo sem que o professor descubra.

Apresentações e debates em classe sobre o assunto vem liderando as novas iniciativas para motivar alunos a investigar o material oferecido pelo professor.

“Trabalho escolar efetivo é aquele que leva o aluno a buscar diferentes fontes, sejam no livro ou na internet, e estabelecer ligações entre elas”, acredita Beth Almeida, professora de novas tecnologias na educação do departamento de computação da PUC de São Paulo.

A pesquisa de conteúdo, no entanto, tem que seguir certas regras para que o aluno não tome como correto qualquer informação encontrada nas milhões de referências online.

É aí que entra o papel da escola de orientar o estudante tanto na questão da referenciação de conteúdo, como na indicação das melhores fontes de pesquisa. “Crianças não têm orientação específica para interpretar informações adequadamente nem estabelecer conexões com outros dados”, explica Almeida.

O POPULISMO PERONISTA NA ARGENTINA

I – Introdução; origens e características gerais dos governos populistas:

O populismo surgiu nos EUA no início do séc. XIX e se tornou um dos fenômenos políticos mais marcantes na América Latina durante o séc. XX. Seu precursor foi o americano Andrew Jackson, primeiro presidente americano de origem plebéia, ele rompeu a sucessão de aristocratas rurais que governavam o país desde George Washington. Dono do rosto estampado na nota de $20, Jackson morreu na miséria e fez de tudo na vida: foi comerciante, agricultor, advogado auto didata, herói de guerra em 1812 contra a Inglaterra. Era um bruto com as mãos sujas pela participação na matança de índios e garantiu a expansão territorial dos EUA (também matou num duelo um sujeito que falou mal da sua mulher). Por tudo isso, encarnava melhor que ninguém o espírito do homem comum em seu tempo. Inimigo dos privilégios, aboliu as restrições ao exercício do voto, facilitou a compra de terras públicas pelos pioneiros do Oeste, reduziu a jornada de trabalho nos estaleiros de 12 para 10 horas e derrotou o segundo maior banco do país numa encarniçada queda de braço. Pelos padrões de hoje, seria chamado de protecionista (enviou tropas contra a Carolina do Sul, cujo governador se recusara a cobrar alíquotas de importação na União) foi também demagogo, pois seu primeiro ato ao assumir a Presidência em 1829, foi de abrir as portas da Casa Branca para o povaréu.

Na América Latina, os regimes populistas que se sucederam em meados do séc. XX, foram igualmente marcados por diversos pontos em comum: políticas econômicas voltadas para o incentivo à industrialização e a substituição de importações, desenvolvimento de ideologias nacionalistas que pregavam a união das diferentes classes sociais sobre a tutela do estado, seu líder muitas vezes era confundido ou se fazia confundir com o próprio estado, e o antagonismo com aqueles que fossem contrários ao governo era palco de repressões, torturas e censuras.

Carisma, os governos populistas se utilizavam das massas urbanas para apoiar seu poder e sua aceitação, criando políticas trabalhistas e controlando sindicatos através poder público, fato esse que possibilitava um maior controle das massas urbanas trabalhadoras. Outra forte característica eram as práticas antiimperialista onde se nacionalizava setores estratégicos do país como: petróleo, estradas de ferro, meios de transporte, telefones… Foi um movimento onde o fundador “dedicava a sua vida” a combater elites socioeconômicas, cuja grande contribuição foi a de incorporar as massas anônimas à sociedade. Sua força eleitoral sempre se baseou nas organizações sindicais sob tutela do estado, nas conquistas sociais e nos direitos trabalhistas. O populismo no entanto, sempre se opôs à idéia da luta de classes, destruindo partidos socialistas, industrializando o país por meio da propriedade privada e mantendo intactas as propriedades da oligarquia agrária (no caso do Brasil e da Argentina, já o México fez a reforma agrária). Os governos populistas davam muita ênfase à soberania política do país e aos direitos sociais permitindo que as nações latino-americanas construíssem sua soberania econômica e cultural, embora não demonstrassem muita compatibilidade com a democracia. O populismo, em geral, fincara raízes em situações onde a democracia era, no máximo, um simples adorno para os negócios do Estado.

Na Argentina, o golpe militar de 1943, abriu caminho à ascensão do peronismo, foi uma resposta à chamada “década infame”, de 1930, quando a oligarquia exportadora esvaziou o Congresso e transformou o Estado num escritório comercial a seu serviço. A fraude eleitoral reduziu a promissora democracia do início do século a uma caricatura, e as leis trabalhistas só existiam no papel. Nesse estado de selvageria social, compreende-se o entusiasmo das multidões de trabalhadores quando Perón entrou em cena oferecendo aos “descamisados” direitos como previdência social, férias, 13o salário, indenização em caso de dispensa, além de criar a justiça do trabalho e aumentar substancialmente as remunerações da classe operária (o salário real cresceu 53% entre 1946 e 1949).

II – Retrospectiva histórica, social e econômica da Argentina:

A Argentina é um país cuja população indígena é mínima e recebeu um grande contingente de europeus nos últimos 20 anos do século XIX e no princípio do séc. XX. Eles estabeleceram-se nos pampas como agricultores, nas cidades como colchoeiros, afiadores, sapateiros e similares, dedicaram-se ao pequeno comércio, transformaram-se muitas vezes em proprietários de manufaturas ou constituíram a classe operária. Outra forte característica da estrutura demográfica da Argentina é a maior parte da sua população (70%), concentrar-se numa área metropolitana que se desenvolveu ao redor de um porto, a grande Buenos Aires.

A Argentina experimentou até a crise de 1929 um período de grande prosperidade econômica, os cereais e as carnes que abasteciam os mercados europeus, em especial o inglês, durante a primeira guerra mundial, enchiam os cofres públicos com divisas favoráveis e o povo e seus dirigentes acreditavam estar na prosperidade eterna. O modelo agro exportador, no entanto, sofreu um profundo abalo em 1929, foi quando todas as contradições emergiram repercutidas na crise. A Argentina, privada de uma indústria pesada, não tinha fábricas próprias, mas instalações emprestadas, cuja renovação dependia da boa vontade de nações como a Inglaterra, e dos EUA que após a 2a guerra mundial através do FMI, organismo internacional financeiro sob seu controle, emprestava dinheiro ao governo argentino. (Após a 2a guerra, em 1949, o capital americano investido no país saltou de 14% do total de investimentos estrangeiros para 42% desse total em 1955).

Durante a crise de 29, o declínio do comércio exterior propiciou um incremento industrial interno, a industria cresceu nos ramos alimentares, têxteis e da metalurgia leve, sem o desenvolvimento da indústria de base. A agricultura exportadora era porém ainda o sustentáculo fundamental da economia. Esse incremento na indústria situada na metrópole, trouxe um enorme contingente de camponeses e trabalhadores rurais deslocados dos campos em conseqüência da criação extensiva de gado em detrimento da pequena agricultura. O número de pessoas que dependiam da indústria em 1934 passou de 380 mil para 1,04 milhão em 1944. Nesse contingente não se tratavam mais de imigrantes, mas de camponeses e trabalhadores rurais que se juntaram aos sub-ocupados das zonas manufatureiras do norte da Argentina em Buenos Aires.

A crise mundial dos anos 30 que impulsionou o desenvolvimento da indústria leve, absorveu o contingente migratório em proporções notáveis, entrando dessa forma em cena, a figura dos “cabecitas negras”, proletários industriais da primeira geração. Os “cabecitas negras” superaram numericamente os habitantes anteriores, em geral imigrantes europeus, cujos ideais estavam no socialismo, comunismo e anarquismo. Os “cabecitas negras” eram mais ligados à Igreja e à religião, acostumados a condições desumanas de exploração, desconheciam as leis sociais apesar de terem levado a cabo lutas ferrenhas, em geral mal sucedidas, por melhores condições de trabalho no campo. Serão eles, em princípio, o principal alvo de apoio popular a ser atingido pelo governo peronista.

O primeiro grande acontecimento na Argentina após a crise de 29 foi o golpe de Estado do Tenente General J. F. Uriburu, e em 1930, o governo de Hipolito Yrioyen, da União Cívica Radical (UCR), foi derrubado. A UCR ficou conhecida como representante dos interesses das classes médias, embora contasse em seus altos postos com elementos da classe dominante. O golpe contra o governo de Hipolito Yrioyen representou a volta ao poder dos tradicionais interesses exportadores, que descontentes com algumas medidas nacionalistas e antioligárquicas (nacionalização do petróleo), tomaram o poder à força.

Em 1933, o Pacto de Roca-Ruciman deixou claro os interesses agro-exportadores, expondo a Argentina a inúmeras concessões em relação a tarifas importadoras, transportes internos e câmbio, em troca da manutenção, rescindível, da quota de importação de carnes argentinas pela Grã-Bretanha. Houve críticas ferrenhas ao pacto utilizando o slogan “vende –pátria”. Esse pacto ilustrava, de certa forma, a década de 30, que fora chamada de década infame pelas constantes fraudes eleitorais, além das inúmeras arbitrariedades praticadas contra oposicionistas, em particular líderes operários, anarquistas, socialistas e comunistas.

Fruto dessa geração política fraudulenta, o General A. P. Justo é eleito em 1931, sendo sucedido por R. M Ortiz em 1937 que renunciou em 1942, foi substituído por R. Castillo. Um golpe militar em 4 de novembro de 1943, liderado pelo General A. Rawson, logo substituído pelo General P. P. Ramirez, em decorrência de lutas palacianas, declarava publicamente que o movimento se fazia pela restauração da democracia, mas no entanto, numa declaração secreta, os chefes militares se afirmavam antiliberais, nacionalistas e advogados da hegemonia argentina na América Latina, preocupados que estavam com o desempenho do Brasil no continente.

Ambos os golpes, o de 1930 e o de 1943, são conservadores, mas mantêm muitas diferenças; o de 1930 estava diretamente ligado aos grupos com interesses exportadores e procurava manter uma fachada legal e pautar-se em princípios liberais. Já o golpe de 1943, tinha pretensões nacionalistas, expansionistas, antiliberais e antidemocráticas e anunciava uma nova fase, mais moderna, ligada à industrialização.

III – Perón entra em cena

Após o rompimento das relações democráticas com o eixo, (2a guerra mundial) Ramirez renuncia e é substituído por E. J. Farrel. O governo de E. J. Farrel tinha Perón na “Secretária de Trabajo y Previsión”, ele também era vice-presidente e Ministro da Guerra.

Perón ganhara o apoio dos trabalhadores através da concretização do Estatuto do Peão, aumentando os salários reais dos trabalhadores e concretizando a obrigatoriedade do cumprimento das leis trabalhistas já existentes. Foi instituído o 13o salário, criado os tribunais do trabalho, a previdência social e a lei de dispensa. Perón desenvolvia uma política trabalhista com a finalidade de desarticular os sindicatos mais politizados (anarquistas, socialistas e comunistas) usando a persuasão ou até mesmo a força.

As medidas sociais sustentadas por Perón não agradaram às classes dominantes, e a repressão aos sindicatos desagradou socialistas e comunistas que começaram a qualifica-lo de fascista. As pressões dos setores dominantes sobre o exército se acentuaram e no dia 16 de setembro de 1945 foi realizada uma marcha pedindo a destituição de Perón. Participaram do ato estudantes, profissionais liberais, comerciantes, classes média em geral mas a classe operária não compareceu, demostrando, assim, de que lado eles estavam.

Perón foi destituído, preso e enviado à ilha de Martin Garcia, ele é transferido ao Hospital Militar de Buenos Aires a seu pedido e em 17 de outubro de 1945, acontece uma extraordinária manifestação popular na Plaza de Mayo onde exigiam sua libertação. Perón fala às massas demostrando sua força e sai candidato à presidência da Nação pelo Partido Laborista em 24 de outubro do mesmo ano.

Seu programa de governo incluía recuperação das indústrias fundamentais, a eliminação do latifúndio, a divisão das terras, reivindicações de previdência social, participação dos trabalhadores nos lucros das empresas, impostos sobre renda, etc. Esse programa pretendia unir a classe trabalhadora na sua totalidade, tanto profissionais, artistas e intelectuais, como pequenos comerciantes, agricultores e industriais. Seus opositores eram os latifundiários, grandes industriais, comerciantes, banqueiros, rentistas nacionais e estrangeiros. Perón apesar de ter sido acusado de ligações com o Nazismo, venceu a União Democrática, partido de oposição, por pequena margem de votos, e é eleito democraticamente em 24 de fevereiro de 1946.

Seu primeiro período presidencial vai de 1946 a 1952. Perón fora favorecido pela posição da Argentina no contexto internacional, pois durante a 2a grande guerra mundial, o país havia acumulado divisas no exterior além de não ter sido alvo do capital internacional durante a reconstrução da Europa do pós-guerra. As industrias nacionais viviam uma boa fase longe da concorrência estrangeira, a economia crescera, trabalhadores tiveram aumentos salariais substanciais e benefícios concedidos. Cresceram a indústria leve e naval e houveram obras de infra estrutura como diques e gasodutos, nacionalizou-se estradas de ferro, empresas de transporte, serviços telefônicos, criou-se a Aerolíneas Argentinas. Empresas de gás e todo comércio exterior estavam sob controle do estado, com exceção do petróleo. Embora positivas para a nação, sob o aspecto da soberania, essas nacionalizações consumiram boa parte das divisas externas, fato esse que se tornará um problema em seu segundo mandato.

Do ponto de vista político, a centralização do poder por parte do Executivo dissolveu o Partido Laborista, criando em seu lugar o Partido Único da Revolução e posteriormente o Partido peronista (PP). No PP havia a ala masculina, outra feminina, liderada por Eva Perón, e a CGT, ala sindical. Perón deixava claro em discurso que os interesses das classes sociais eram os interesses da nação, atrelando e subordinando os sindicatos ao Estado, política e juridicamente.

Perón afastara juízes que discutiram a constitucionalidade de seu governo e manteve um núcleo antiperonista, pela sua postura ditatorial e repressora em universidades argentinas. Perón estabeleceu no artigo 40 da constituição, que serviços públicos e bens do Estado não mais poderiam ser alienados ou concedidos à exploração internacional, legalizando também a reeleição para Presidente.

Perón montou um aparelho de propaganda e repressão à oposição. No decorrer de 1948 o governo adquirira as rádios difusoras impedindo às vozes dissidentes de divulgar suas críticas e até 1955 as estações de rádio não transmitiam uma só voz contrária ao governo por estarem elas veiculadas à Secretaria de Imprensa da Presidência da República. Assim, restringiu-se a circulação dos jornais La Prensa e La Nación e centenas de outros pequenos jornais oposicionistas foram liquidados sob pretextos irrelevantes.

O primeiro mandato peronista acaba sob forte tensão em função de um levante militar frustrado contra seu governo em 1951 e o Congresso decreta “estado de guerra interno”, sanção esta que permanece até a sua queda em 1955.

IV- Segundo mandato peronista e o desmantelamento de sua política populista:

Em 1951 Perón é reeleito democraticamente. Esse segundo mandato caracteriza-se por uma situação diversa do período anterior, as reservas monetárias haviam acabado, e o governo não mais poderia fazer investimentos produtivos na economia. Subvenções ao consumo começaram a pesar para o governo e os capitais externos não se sentiam seguros para investir no país principalmente pelo artigo 40 criado por Perón que restringia os bens nacionais à alienação e à exploração pelo capital internacional. Não havia poupança interna suficiente em decorrência da crescente inflação e duas más colheitas agravaram a situação da economia interna. O governo não mais conseguia atender às aspirações da CGT ordenando a produção e o crescimento da nação ao invés de greves reivindicativas.

A Igreja estava insatisfeita com o governo peronista pelo excesso de atenção dedicada à classe trabalhadora além de medidas contrarias a ela como a revogação da lei do ensino religioso obrigatório, a implantação do divórcio, a proposta de separação da Igreja do Estado. Pelo lado peronista houve um movimento anticlericalista generalizado, onde culpava-se a Igreja por todos os males ocorridos.

A situação econômica tinha se agravado, as classes médias não mais apoiavam o governo e o autoritarismo político já havia feito muitos inimigos. Os opositores tradicionais do peronismo eram a oligarquia agrarista, a poderosa burguesia industrial, o capital estrangeiro, além da Igreja. Começou a acontecer um rompimento entre o capital e o trabalho conquistados pelo populismo argentino a muito custo, a via nacionalista parecia esgotar-se.

A ruptura de Perón com as forças armadas se deu em virtude do medo que corria do perigo da instalação de uma milícia popular armada e diante disso, Perón perdera seu prestígio entre os militares. O apoio dos nacionalistas foi perdido em virtude de suas negociações com a Standard Oil Company, companhia americana que visava a exploração do petróleo em território argentino.

A procissão de Corpus Christi em 11 de junho de 1955 transformou-se num acontecimento político de oposicionistas e antiperonistas. Em 15 de junho, a aviação naval bombardeava a Casa Rosada e Perón, avisado, não estava mais lá, mas centenas de civis morreram no ataque. Peronistas responderam queimando Igrejas, e em meio à tensão política, Perón decidiu-se pela conciliação com os opositores mas como não houve mudanças substanciais e diante do boato de renúncia, ele chegou a incitar em praça pública resposta de seus aliados aos oposicionistas com mais violência.

Em 16 de setembro de 1955, um levante militar liderado pelo futuro presidente argentino, General Córdoba, avançou sobre Buenos Aires e a 22 de setembro, Perón renuncia encaminhando-se para o exílio na Espanha de Franco.

V – Conclusão:

Perón cai, morre, mas permanece até hoje como forte corrente política-ideológica abrigando homens da esquerda e da direita. A direita por acreditar na forte dose nacionalista conservadora constitutiva, e a esquerda por acreditar na aliança das massas e na possibilidade de um salto qualitativo revolucionário rumo ao socialismo. Perón não se valeu apenas do carisma nem conseguiu adesão das massas apenas pela demagogia na tentativa de engana-los, o governo peronista deixou de concreto medidas que de fato beneficiaram os assim chamados “descamisados”.

Do ponto de vista do capitalismo, a Argentina não modificou substancialmente sua estrutura socioeconômica tradicional nem a sua dependência no comércio com a Grã-Bretanha e Estados Unidos. O regime agrário latifundista continuou intacto, salvo algumas restrições na comercialização de cereais, as carnes continuaram a ser comercializadas por frigoríficos estrangeiros.

Na atualidade, o conceito de peronismo perdeu muito do seu significado, tendo a Argentina sido atacada por uma onda neo-liberal que levou seu Estado à mais completa falência, a esperança na política vai muito além de discursos enfáticos e demagógicos em nome do povo. Um povo politizado e informado colabora na construção de uma pátria mais justa. O rumo onde países periféricos latino-americanos estão sendo levados, vem sofrendo uma forte influência dos interesses internacionais já que a soberania das nações menos desenvolvida tende a enfraquecer face ao capital transnacional e à globalização.

VI – Bibliografia:

PRADO, Maria Ligia: O Populismo na América Latina, Ed. Brasiliense

GONÇALVES, Armando ORG.: História das Revoluções, Vol. III, Editora Três

IANNI, Octavio: A Formação do Estado Populista na América Latina

Sites Pesquisados:

http://www.danpnobre.jor.br/cap31.html

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/2002/06/11/000.htm

O POPULISMO PERONISTA NA ARGENTINA

Características gerais de um governo populista: Políticas sociais, oficialização dos direitos trabalhistas, mobilização das massas trabalhadoras através da retórica e da demagogia, nacionalizações, incentivos à indústria nacional, políticas antiimperialistas, repressão e perseguição aos opositores do governo, censura, manutenção de sindicatos e meios de comunicação sob a tutela e jurisdição do estado.

Pequeno resumo cronológico:

1914 até 1929 – 1a grande guerra, economia próspera baseada no modelo agro-exportador comercializando carne e cereais principalmente com a Inglaterra.

1929 – crise de 29, década de 30 (década infame) foi caracterizada pela queda do sistema agro exportador, incentivo às industrias nos ramos alimentares, têxteis e de metalurgia leve. Migrações do campo para a cidade em conseqüência da retração da agricultura de pequeno porte e da expansão da indústria, “cabecitas negras”, formação do proletariado.

1930 – Golpe de Estado UCR sai do poder, interesses oligárquicos. “Década infame”: fraudes eleitorais e arbitrariedades contra oposicionistas do governo. General A. P. Justo é eleito em 1931 e sucedido por R. M Ortiz em 1937 que renuncia em 1942 e é substituído por R. Castillo.

1933 – Pacto Comercial de Roca-Ruciman, descontentamento popular, “vende pátria” movimentos de oposição, repressão e tortura.

1943 –Outro golpe militar traz Perón na “Secretaria de trabajo y prevision”. Pretensões nacionalistas, expansionistas, antiliberais e antidemocráticas e anunciava uma nova fase, mais moderna, ligada à industrialização. Políticas sociais, trabalhistas e antiliberais.

1945 – O descontentamento das oligarquias, classes médias, intelectuais e estudantes e comerciantes trouxe a deposição de Perón sua prisão e posteriormente movimentos populares exigem sua libertação e candidatura à presidência. Plano de governo, apoio popular.

1946 – 1951– 1o mandato presidencial de Perón, final da grande guerra, divisas externas em alta, desenvolvimento da industria nacional, direitos trabalhistas assegurados, nacionalizações, obras de infra-estrutura, artigo 40, CGT, partido único, repressão, tortura e censura, ameaça de golpe militar, “estado interno de guerra”.

1951 – reeleição de Perón, denuncia de fascismo, vitória apertada, baixa das reservas externas, falta de capital para o investimento, baixo investimento externo, más colheitas, baixa poupança interna, insatisfação da CGT e da oligarquia.

1955 – Insatisfação da Igreja, ruptura de Perón com o exército e com nacionalistas, procissão de Corpus Christi, ataque a Casa Rosada, invasão de Buenos Aires, renúncia e exílio de Perón.

RAZÕES PARA EXPORTAR

O Que Exportar

O produto exportado é o mamão pois o mérito da conquista pode ser atribuído ao avanço das pesquisas desenvolvidas nos últimos 15 anos por técnicos do Centro Regional de Desenvolvimento do Instituto Capixaba de pesquisa, Assistência técnicos e Extensão Rural (INCAPER). A unidade, com sede em Linhares, se constituiu no principal ponto de referencial de cultura mamoeira do País

Para que exportar

Devido a eficiência do controle de mosca da fruta por exemplo que permite a exportação do mamão capixaba para os Estados Unidos.

Trabalhando com uma fruta cada vez mais saborosa e de aparência mais saudável, depois de conquista a Europa e os Estados Unidos, os produtos capixabas já namoram outros mercados, cobiçando, principalmente, um espaço na prateleira dos supermercados Japoneses.

Como exportar

O canal de vendas que está sendo utilizando para atingir o mercado, é o de venda para outras empresas (comercial exportadora) . Do qual a sede de Linhares optou a vender em terceiros, que no caso dos E.U.A que nos ano passado consumiu 3.100 toneladas do mamão capixaba. Já o Sunrise Solo, procedente do Havaí, mas adaptado para a Europa e Canadá que, juntos, compraram 9.840 tonelada no ano passado.

Registro de Exportador

Marca do Exportador

A marca é Papaya Brazil

Planejar as vendas para o exterior , Produção e Promoção

Produzido no Nordeste nas suas melhores condições Tropicais o mamão Papaya Brazil , é uma fruta muito saborosa , com condições exclusivas de plantio que possui no Brasil diversos certificados de qualidade.

Pôr suas características especiais o nosso produto tem uma ótima aceitação no mercado brasileiro, sendo mais vendido na região Sul (onde vai a maior parte de nossa produção) tem-se na Europa e alguns estados dos Estados Unidos.

Nossos produtos tem como característica ser tipo exportação, buscamos embalagens de caixa com material de plástico com papelote que protege contra alterações climáticas e transporte e sua exposição e sendo sempre exposto em lugares selecionados nas prateleira de horte frute e supermercados, atitude estas que favorecem a aceitação do cliente, pois vêem e comprovam a qualidade do produto, Não é necessário muitas mudanças para exportar somente.

Formação de Preço para a Exportação

Pesquisa de mercado

A Empresa Papaya decidiu entrar no mercado externo após uma série de pesquisas, buscamos primeiramente descobrir os hábitos alimentares de nossos clientes potenciais se o nosso produto seria realmente consumidos, descobrimos também como era a produção local se o mamão era plantado e em qual quantidade se o mercado absorveria em novos concorrentes, descobrimos então que em apenas 1 país da Europa era produzida em todo o país, era para a subsistência ou consumo local, descobrimos que neste mercado a Europa consome frutas bem vistosas e com embalagem que garante a higiene e qualidade do produto, viu-se aí também a necessidade de uma embalagem que favorecem o transporte e a conservação do produto, já que era um mercado muito amplo que possuía alguns tipos de exportações independentes (algumas empresas buscavam na África pequenas demandas), daí uma diferenciação poderá representar uma maior conquista do mercado a ser alcançado.

Incluímos todos os gastos bem como propaganda e anúncios em nossos custos, aproveitamos a imagem tropical do Brasil na cor e embalagem e definimos o preço de frutas em geral, ou seja descobrimos nos E.U.A

Quanto se gasta com frutas e com alimentos montamos o preço, buscamos primeiro em lucro de 50% sobre o produto, com o projeto de alcançar o nível de vendas desejados em 4 meses.

Negociação

Produto

Mamão popaya da espécie carica popaya, produzidos em solo capixaba com solo alterado e enriquecido com proteção de viroses.

Embalagem

Embalagem de papelão especial de frutas, contendo papel de seda para proteção com a parte superior de um secundário de plástico, sendo empilhado 20 mamões pôr caixa, com peso de 4kg sendo que cada um possui, com peso de 4kg sendo que cada um possui sua embalagem, com ariscas para entrada de oxigênio.

Tamanho 0,80 x 0,80cm

De acordo com a conexão do agente de exportação FOB preço pôr unidade de 0,70

Prazo de entrega = 15 dias

Documentos de Comércio Exterior

Preparação da Mercadoria para o Embarque
Contração do frete
Contratação do Seguro
Contratação de Câmbio
Nomenclatura e Classificação de Mercadorias

Feiras e Exposições no Exterior

A decisão de Participar
Como escolher a Feira Certa
Planejar os Gastos
Checando os Procedimentos
Avaliando os Resultados

O Dia seguinte…

Treinamento Fiscal nas exportações

PIS
Confins
Drawback
Drawback interno
IPI- Impostos sobre Produtos Industrializados
Imposto de Renda
Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro
Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços
Estratégia Exportadora

SECEX – SECRETARIA DE COMÉRCIO EXTERIOR

A secretaria de Comércio Exterior – SECEX, teoricamente é responsável por elaborar e divulgar informações sobre Comércio Exterior, tendo por objetivo analisar e propor políticas para o desenvolvimento do comércio exterior brasileiro. É responsável ainda por coordenar a política de defesa comercial contra práticas desleais de comércio e aumentar a participação das exportações brasileiras no comércio mundial.

A SECEX coordena a atividades desenvolvidas por quatro departamentos que compõe sua estrutura, são eles: DECEX (Departamento de Operações de Comércio Exterior), DECOM (Departamento de Defesa Comercial), DEINT (Departamento de negociações Internacionais) , DEPLA (Departamento de Planejamento e Desenvolvimento do Comércio exterior).

O DECEX tem por objetivo teórico, expandir as vendas do Brasil ao patamar coerente com o potencial brasileiro. Com o desafio de aperfeiçoar os mecanismos de comércio exterior e implementar ações direcionadas à simplificação e adequação a um ambiente de negócios cada vez mais competitivo, o DECEX, deixa muito a desejar, uma vez que coordena a administração do Sistema Integrado de Comércio Exterior, mais conhecido como SISCOMEX.

O SISCOMEX foi implementado em 1993 com o objetivo de excluir atividades que antigamente eram executadas com papel de forma burocrática, e desde então não foi aperfeiçoado ou modernizado, gerando um descontentamento dos usuários por ser um sistema arcaico. O SISCOMEX deveria diminuir a burocracia existente no comércio exterior brasileiro, mas não o faz. Integram as atividades do SISCOMEX os seguintes órgãos: SECEX; BACEN e Receita Federal. Para a Receita Federal, muitas vezes parece existir outro SISCOMEX, pois, muitas das alterações requisitadas nos processos, tanto de importação como de exportação, o usuário não consegue operar no SISCOMEX.

O Regulamento Aduaneiro está intrinsecamente determinando os modelos de processamento em todo SISCOMEX, e normalmente a interpretação não fica didática para o usuário, principalmente em aspectos legais como multas e impedimentos.

Podem ser emitidos os seguinte documentos via sistema SISCOMEX: RE (Registro de Exportação) muitas vezes o processo para averbação do RE é lento e com exigências que não condizem com a realidade; RES (Registro de Exportação Simplificada –até US$10.000,00); RV (Registro de venda –commodities); RC (Registro de Operações de Crédito – financiamentos acima de 180 dias); DSE (Declaração Simplificada de Exportação); DDE (Declaração de Exportação).

A maior dificuldade existente quando há necessidade de informações sobre alguma exigência no RE (Registro de Exportação) por exemplo, é a falta de interesse de órgãos como o DECEX em apoiar o exportador ou despachante com informações necessárias, e a demora da análise dos processos com algum tipo de exigência, dificultando o processo de exportação, e até mesmo desestimulando o exportador a manter relações comerciais internacionais. O SISCOMEX deveria estar preparado para quando houver casos de classificação duvidosa de mercadorias, a partir de uma descrição detalhada do produto, deveria sugerir a mais adequada e não faz.

No caso de Exportação Temporária que por algum motivo não retornará, o sistema não permite que seja feita alteração para Exportação definitiva, como determina a IN SRF 443 de 12/08/2004, sendo o exportador obrigado a pagar multa de 5% sobre o valor da mercadoria. Outra deficiência específica do SISCOMEX, quanto aos processos de exportação sem cobertura cambial, é que após o registro da DSE ( Declaração Simplificada de Exportação), não há possibilidades de alteração no processo, caso haja alguma modificação, tornando-se necessário o cancelamento do processo e a abertura de outro.

Na definição dos canais verde, amarelo, e vermelho, e agora o laranja, o sistema não deixa claro os critérios de parametrização, no sentido de possibilitar analises dos processos visando corrigir melhor os erros e preparar o usuário na busca da melhoria de desempenho operacional. Nos canais vermelho, amarelo ou laranja, existe uma autonomia quase judicial do fiscal de propor alterações e punições sem que o sistema esclareça melhor as razões técnicas ou jurídicas envolvidas.

Uma dificuldade burocrática do SECEX é quanto a análise de documentos como Certificados de Origem – FORM A. Existe muita burocracia, e um documento pode ser devolvido para modificações diversas vezes. Qualquer letra, ponto, numero que esteja divergente da Fatura – Comercial Invoice e do B/L (Bill of lading – Conhecimento Marítimo) ou AWB ( Air Way Bill – Conhecimento Aéreo), faz com que o Certificado de Origem – Form A não seja aceito pela SECEX.

A SECEX com o intuito de apoiar o exportador brasileiro, o DECEX com o intuito de desenvolver o comércio exterior brasileiro em articulação com entidades representativas do setor produtivo nacional, deveriam modernizar o sistema de Comércio Exterior, para estimular o comércio internacional, sem colocar barreiras burocráticas sem eficiência que dificultam não só as exportações como principalmente as importações. Sendo um dos principais motivos do Brasil continuar a ser um país em desenvolvimento, caminhando lentamente para seu progresso juntamente com o comércio exterior.

Ao se analisar a situação das exportações no país, vemos que realmente é necessário um órgão para regulamentar todas as transações, caso contrário seria impossível o controle. Nesse sentido não descartamos essa necessidade, mas precisa-se de uma estrutura bem diferente da apresentada pela SECEX, onde a burocracia acaba por atrapalhar negócios, porque ela impede o crescimento da exportação e favorece a importação em detrimento do emprego.
Não se está propondo que o governo abdique da sua prerrogativa de cobrar; quando devido, fiscalizar; quando necessário, e controlar; quando se impõe. Mas, tão somente, racionalizar o sistema como um todo, eliminando-se gravames marginais, trâmites, papéis, exigências e superposições de órgãos, sempre onerosos, supérfluos e irritantes. Enfim, substituir o papel, o carimbo e o exagerado contato pessoal de indução destorcida, pela lógica da racionalização, da informatização e da prévia confiança, com responsabilidade.

Bibliografia:

GRIECO, Francisco de Assis. O Brasil e o Comércio Internacional.São Paulo: Edições aduaneiras, 1994.

NICOLETTI, Antonio Maximiano. Conhecimentos Elementares de Comércio Exterior e Câmbio: Uma Abordagem Prática. São Paulo; Edições aduaneiras, 1995.

GARCIA, Luiz Martins. Roteiro Básico para exportação – rotinas e procedimentos. São Paulo: Edições Aduaneiras, 1997. 6ª edição.

CASTRO,José Augusto. Exportação – Aspectos Práticos e Operacionais. São Paulo. Edições aduaneiras, 1999.

GOYOS JUNIOR, Durval de Noronha. Et al. Tratado de Defesa Comercial:antidumping,compensatórias e salvaguardas. São Paulo: Observador Legal, 2003.

Internet: www.desenvolvimento.gov.br

TIMOR LESTE: COTIDIANO DE ATROCIDADES

Situação Geográfica: O Timor Leste é uma nação situado numa pequena ilha ao norte da Austrália. Seu território tem 18899 km2, pouco superior ao do Kwait com 17.818 km2 . A população atual é de cerca de 900.000 habitantes. A agricultura e a exploração florestal são as principais atividades econômicas. Existem ricas reservas de gás natural. Havendo também no Mar de Timor, situado entre o Timor Leste e a Austrália, reservas petroliferas consideradas entre as vinte maiores do mundo.

Breve Histórico: Aproximadamente em 1515, portugueses desembarcam em suas terras, habitadas até então por povos indigenas. No século XVII, a parte oeste da ilha foi ocupada por holandeses. Após a Segunda Guerra Mundial, a Indonésia reivindica e assume o controle do Timor Oeste. Até 1974, Portugal manteve seu domínio sob o leste. Com a Revolução dos Cravos, o governo de esquerda desmantela o que ainda existia do império colonial português. A independência, em 28 de novembro de 1975, foi declarada pela Frente Revolucionária pela Independência do Timor Leste (FRETILIN) que assume o controle do pais. Apenas 10 dias depois, a Indonésia invade o território maubolês O ataque teve o apoio tácito de Gerald Ford, presidente dos EUA. O presidente indonésio Suharto declarara que a FRETILIN era comunista e que ele não toleraria uma nova Cuba em sua área de influência.

Um País Massacrado: A presença de tropas indonésias no território timolés tem representado constantes desrespeitos aos direitos humanos. Assassinatos em massa – 200.000 pessoas foram mortas desde a chegada das forças indonésias, quase um terço da população – prisões arbitrárias, torturas e censura total á imprensa fazem parte do cotidiano do país. O desconhecimento desta realidade tem permitido que a brutalidade seja largamente desconsiderada pela opinião pública mundial.

A atenção para os fatos no Timor Leste cresceu em 1946 quando o lider exilado José Ramos-Horta e o bispo católico Carlos Ximenes Belo receberam o Prêmio Nobel da Paz por suas ações em defesa da liberdade e em apoio a população oprimida. Nos anos seguintes, a Comissão de Direitos Humanos da ONU apresentou 10 menções de censura à Indonésia que é considerado o pais que mais promove violações dos direito humanos no mundo.” A Comissão sensibilizou-se especialmente com as cenas de um vídeo contrabandeado por Ramos-Horta. Imagens de homens pregados pelos pulsos em tábuas na prisão, habitantes torturados com choques elétricos e adolescentes amarrados em árvores: surrados com pás; são algumas das atrocidades documentadas na fita.
O Prêmio Nobel disse procurar “ser a voz dos que não tem voz, dessa maioria silenciosa”.

Outros acontecimentos importantes citados pela organização foram: a indicação de um representante especial das Nações Unidas para o Timor Leste e a iniciativa do sul africano Nelson Mandela sobre o território. O documento descreveu como dramática a situação atual dos direitos humanos. Mencionou a constante perseguição de direitos políticos, problemas de trabalho e intimidação a organizações não governamentais. Testemunho de jornalistas e ativistas de direitos humanos, que entram no pais como turistas, expressam também a grave situação em Timor. A policia suspeita de todo visitante estrangeiro. Dizem: “Turismo é em Bali ou Flores, aqui não há nada para se ver”.

A permanência do regime de Suharto no poder após as eleições de maio de 97 tornaram a situação ainda mais tensa. A demonstração de força militar é freqüente. O aniversario do massacre de Santa Cruz, ocorrido em Dili, principal cidade de Timor Leste no dia 12 de novembro de 1991, quando 250 manifestantes pacíficos foram mortos pelas forças indonésias, é marcado por ações de resistência e por novos crimes. Em novembro passado, um ataque á universidade resultou em estudantes baleados e outros desaparecidos.

O desrespeito a vida e a liberdade em Timor Leste é um dos fatos mais lamentáveis do período Pôs Guerra Fria. Colaboram com esta vergonha para a humanidade o contínuo apoio dos EUA, que abastece com armas a Indonésia, e de outros paises ocidentais que não tem sido enérgicos para a mudança da situação. Basta de atrocidades: VIVA O TIMOR LIVRE E DEMOCRÁTICO!

Situacão Econômica: Hoje, menos de 5% da população humana ainda vive como os habitantes do Timor Oriental, que são auto-suficentes e sobrevivem fora do sistema global. Antes da invasão da Indonésia, em 1975, a maior parte da população morava em aldeias. As crianças cresciam em um ambiente seguro e protegido. O Timor Leste possui ricas reservas de petróleo. Os principais produtos de exportação são: café, o sândalo e outras madeiras, o cacau, o copra, o tabaco, a cera e o mel. A principal importação é de álcool, arroz, tecidos de algodão, tecidos de lã, vinhos portugueses e artigos de metal.

Propostas de Solucões e Atualidades: Com o enfraquecimento político de Suharto e com a opinião pública internacional voltada para a Indonésia, crescem as possibilidades de libertação e independência do Timor Leste. Atualmente Brasil e Portugal fazem coro na defesa da autodeterminação do povo timorense. Entre as inúmeras ONGs que defendem a liberdade do Timor Leste, temos o Movimento Unindo as Américas pelo Timor que está arrecadando assinaturas para enviar ao Primeiro-ministro do Canadá, pedindo que ele interceda junto ao G7 (Grupo dos Sete paises mais ricos do mundo) em favor do povo timorense.

Bibliografia:

MAGALHÂES, A. Barbedo de, Timor Leste _ Ocupação lnaonésia e Genocídio, Reitoria Universidade do Podo, Portugal, 1992.
Folha de São Paulo, 01/05/98, pp. 1-10; /17/05/98, pp.1-3; /13/06/98, pp. 1-9;/ 23/08/98, pp. 1-15 / 19/09/98, pp. 1-12; /
Jornal do Brasil, 06/08/98, pp. 13; /19/07/98, pp. 18;
Gazeta Mercantil, 21/05/98, pp. A-16; 24/05/98, pp. A-14; 29/05/98, pp. A-iS; / 08/06/98, pp.A-2; O Globo, 17/05/98, pp. 52
lnternet:
http: //cogeae. pucsp.br
http://www.min.nestrangeiros.pt
http://www.ornet.com.br http: //brnet.com.br
http://www2.amazonet.com.br

VALORAÇÃO ADUANEIRA

O governo coloca em funcionamento, o sistema – conhecido como valoração aduaneira – para combater fraudes no comércio exterior. Ele será aplicado com grande atraso em relação a economias desenvolvidas. O sistema permite comparar os preços das mercadorias importadas declarados pelos importadores com os preços das mesmas mercadorias ou similares negociadas no mercado internacional. Diferenças de preço a menor significam menos impostos pagos no Brasil ou mais dólares enviados ao exterior. As mudanças anunciadas serão relevantes se os órgãos incumbidos da sua aplicação mostrarem-se aparelhados. Em caso contrário, será um esforço a mais para restringir importações, depois do aumento do número de produtos sujeitos à licença prévia.

O sistema de valoração aduaneira combate o subfaturamento, o superfaturamento nas importações. No subfaturamento, os importadores pagam menos impostos e podem competir deslealmente pelo mercado interno. O superfaturamento é prática antiga entre empresas que remetem dólares para o exterior fora dos canais oficiais. Elas declaram, por exemplo, pagar 100 por uma mercadoria que, na verdade, vale 50. A diferença é devolvida pelo exportador, mediante um depósito bancário numa praça internacional, a favor do importador. Ou, então, é creditada na conta de resultados do exportador, quando o importador, no Brasil, é uma filial do exportador. Não se sabe quantas centenas de milhões de dólares saem do Brasil por esses dois caminhos, mas esses são práticas antigas, cuja fiscalização tem-se mostrado muito difícil. A norma que regulará o regime de valoração determina que toda mercadoria submetida a despacho de importação estará sujeita ao controle do valor aduaneiro. Nele estarão incluídos o custo do transporte até o porto ou local de importação, os gastos com carga, descarga e manuseio, além do seguro. A verificação do valor da importação será feita por amostragem, prevendo-se um exame preliminar e um exame conclusivo do valor declarado, no prazo de 60 dias. Se houver suspeita de superfaturamento, o importador terá de dar garantia de que pagará o imposto de importação efetivamente devido, sob a forma de depósito em moeda, fiança ou seguro, em favor da União. Para coibir, de fato, as fraudes, a alfândega brasileira poderá valer-se da experiência estrangeira. Isto seria feito, por exemplo, mediante a conexão com as alfândegas de outros países, no âmbito da Organização Mundial de Aduanas (OMA), que permitiria consultar preços de itens sob análise.
Dos elementos que integram o valor aduaneiro:

Art. 17. No valor aduaneiro, independentemente do método de valoração utilizado, serão incluídos (parágrafo 2 do artigo 8 do Acordo de Valoração Aduaneira):

o custo de transporte das mercadorias importadas até o porto ou local de importação; Il – os gastos relativos a carga, descarga e manuseio, associados ao transporte das mercadorias importadas até o porto ou local de importação; e III – o custo do seguro nas operações referidas nos incisos I e Il.
Art. 18. Na apuração do valor aduaneiro segundo o método do valor de transação não serão considerados os seguintes encargos ou custos, desde que estejam destacados do preço efetivamente pago ou a pagar pela mercadoria importada, na respectiva documentação comprobatória:

encargos relativos à construção, instalação, montagem, manutenção ou assistência técnica, executados após a importação, relacionados com a mercadoria importada; e II – o custo de transporte após a importação.
Art. 19. Os juros devidos em razão de contrato de financiamento firmado pelo importador e relativos à compra de mercadorias importadas não serão considerados como parte do valor aduaneiro, desde que (Decisão 3.1 do Comitê de Valoração Aduaneira):

o valor correspondente esteja destacado do preço efetivamente pago ou a pagar pelas mercadorias; II – o comprador possa comprovar que: a) o valor declarado como preço efetivamente pago ou a pagar corresponde de fato àquele praticado em operações de venda dessas mercadorias; e b) a taxa de juros negociada não excede o nível comumente praticado nesse tipo de transação no momento e no país em que tenha sido concedido o financiamento. Parágrafo único. O disposto neste artigo aplica-se: a) independentemente de o financiamento ter sido concedido pelo vendedor, por uma instituição bancária ou por outra pessoa jurídica; e b) ainda que as mercadorias sejam valoradas segundo um método diverso daquele baseado no valor de transação

ACORDO DE VALORAÇÃO ADUANEIRA

1. HISTÓRICO

1.1. Originou-se do artigo VII do ACORDO GERAL SOBRE TARIFAS ADUANEIRAS E COMÉRCIO (GATT), cujo objetivo foi o de estabelecer normas sobre tarifação no âmbito do comércio internacional.

1.2. O Brasil, através do Decreto Legislativo n.º 9 de 08.05.1981 aprovou o Acordo sobre a Implementação do Artigo VII do Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio Exterior (Código de Valoração Aduaneira), assinado em Genebra a 12.04.79 e seu Protocolo Adicional de 1º de novembro de 1.979 e o introduziu no ordenamento jurídico pátrio mediante a promulgação do Decreto 92.930 de 16 de julho de 1.986.

2. CONCEITO

2.1 Com o Decreto acima citado o Brasil veio a regrar a valoração aduaneira, ou seja, fixar segundo métodos específicos o valor aduaneiro sobre o qual se verificaria a incidência dos tributos inerentes à importação de mercadorias.

3. FINALIDADE

3.1. O objetivo precípuo desta metodologia era o de inibir o subfaturamento e o superfaturamento na importação, este último constituindo-se num canal direto para a evasão de divisas. Caracterizava-se o CÓDIGO DE VALORAÇÃO ADUANEIRA quando corretamente utilizado, como forte instrumento regulador de mercado e podemos até dizer, da balança comercial brasileira.

3.1.1 Além disso, contava também com a ajuda dos impostos incidentes na importação (II e IPI), que por não obedecerem ao princípio da anualidade, podiam e ainda podem, ser majorados a qualquer tempo, inibindo desta forma o ingresso descontrolado de mercadorias estrangeiras, constituindo-se em verdadeiras salvaguardas tarifárias, além de outras medidas regulatórias à disposição das autoridades governamentais, tais como, por exemplo, cotas de importação, etc.

4. MÉTODOS

4.1. Aparentemente, os métodos são os mesmos utilizados pelo novo ACORDO DE VALORAÇÃO ADUANEIRA adiante comentados.

5. PRÁTICA

5.1. Na prática, o Código de Valoração Aduaneira resultante do GATT 86, introduzido em nosso ordenamento jurídico pelo Decreto 92.930/86, era aplicado na prática mais por amostragem, e algumas vezes baseando-se inclusive em critérios criados pelas próprias autoridades aduaneiras, produzindo poucos resultados efetivos.

5.2. A Receita Federal para aplicação deste Acordo de Valoração Aduaneira à época, utilizava valores compilados em listas de preços, tabelas, faturas comerciais, dados fornecidos pelo próprio importador, importações anteriores de mercadorias similares, muitos destes dados extraídos dos computadores da Receita Federal e da antiga CACEX, atualmente SECEX, fatos que implicavam em verdadeiras arbitrariedades, pois as autoridades aduaneiras esqueciam-se das variáveis que norteiam o comércio internacional, tais como, lei da oferta e da procura, vendas especiais, descontos incondicionais, compras governamentais, país de origem,importadores vinculados, etc.

5.3. Todo este método utilizado muitas vezes sem critérios e sem aplicação reiterada, obrigava o importador “selecionado” pelas autoridades aduaneiras a comprovar o valor da importação, sendo obrigado a liberar as mercadorias sob TERMO DE RESPONSABILIDADE, além de responder a Notificações com o fito de documentalmente comprovar as condições da importação e sua valoração, quando não sofria autuações. As empresas multinacionais com unidades espalhadas ao redor do globo foram sempre o alvo predileto das autoridades aduaneiras.

ACORDO DE VALORAÇÃO ADUANEIRA EM VIGOR

1. HISTÓRICO

1.1 Com o término das negociações da Rodada Uruguai do GATT, que se verificou em 1994, os países signatários foram obrigados a ratificar o ACORDO SOBRE IMPLEMENTAÇÃO DO ARTIGO VII DO ACORDO GERAL SOBRE TARIFAS ADUANEIRAS E COMÉRCIO DO GATT até o ano de 1º de janeiro do ano 2.000.

1.2. Sendo o Brasil signatário do GATT, através do Decreto 2.498 de 13.02.98, veio a implementar em seu ordenamento jurídico interno o ACORDO DE VALORAÇÃO ADUANEIRA em questão de modo que a legislação interna ficasse em perfeita consonância com as normas internacionais.

2. VIGÊNCIA

2.1. Além da concessão de um prazo até 1 de janeiro de 2000 para adequarem as respectivas legislações nacionais às disposições do Acordo, este prevê assistência técnica para os países em desenvolvimento visando auxiliá-los na estruturação de novos sistemas de valoração.

2.2 Apesar do prazo acima citado, nos pólos importadores, tais como São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo a implementação efetiva do ACORDO DE VALORAÇÃO ADUANEIRA se iniciou em 02.03.98 e nos demais estados a partir de abril de 1.998.

3. FINALIDADE

1. O referido Acordo tem agora por escopo estabelecer um sistema eqüitativo, uniforme e neutro para a definição e aferição do valor aduaneiro (valor para fins de incidência do Imposto de Importação) representadas por alíquotas “ad-valorem”, em outras palavras, constitui-se de uma metodologia única a ser adotada por todos os países signatários, de maneira tal a excluir a utilização de valores aduaneiros arbitrários e fictícios, os quais podem acarretar efeitos restritivos sobre o comércio internacional, como acontecia anteriormente no Brasil.

4. PRINCÍPIOS

1. Alguns princípios básicos norteiam os dispositivos do Acordo de Valoração Aduaneira. São eles:

NEUTRALIDADE – este princípio coíbe a utilização da valoração aduaneira como instrumento suplementar de proteção comercial, função esta que deve ser garantida pela correta fixação da tarifa aduaneira;
IMPARCIALIDADE – é resultante da própria neutralidade do acordo, que condena o seu uso para combater o dumping e outras práticas desleais de comércio, embora admita o questionamento dos preços influenciados por esses fatores através da sua comparação com preços de mercadorias idênticas ou similares. De se ressaltar que o BRASIL, bem como outros países signatários possuem legislação específica para coibir a prática do DUMPING, razão pela qual se explica a não utilização do ACORDO DE VALORAÇÃO ADUANEIRA para estes casos, via de regra;
DEFESA DA CONCORRÊNCIA – a valoração aduaneira deve evidenciar o combate a praticas desleais de comércio, incluindo-se o superfaturamento e o subfaturamento, com o objetivo de defender os interesses do Estado e dos agentes que atuam no comércio exterior de forma lícita;
NÃO DISCRIMINAÇÃO – a valoração aduaneira não pode discriminar pela origem, procedência das mercadorias e pela qualidade dos fornecedores;
SIMPLICIDADE – baseiado na utilização de critérios simples e transparentes de modo a não prejudicar a prática do comércio;
PRECISÃO – todas as disposições legais e administrativas referentes ao valor aduaneiro devem ser objetivas, claras, quantificáveis e acessíveis ao público e,
SIGILO – as autoridades aduaneiras devem preservar o sigilo relativo às informações que possam comprometer o segredo dos negócios.

5. ANEXOS

1. Complementam o Acordo três anexos:

a) notas interpretativas

b) Comitê Técnico de Valoração, e

c) tratamento especial e diferenciado aos países em desenvolvimento no que se refere à aplicação do Acordo.

6. REGRAS PARA APLICAÇÃO DOS MÉTODOS DE VALORAÇÃO.

6.1. São previstos seis métodos de valoração aduaneira, que devem ser observados pelas respectivas alfândegas dos países signatários, sendo obrigatória a seqüência de aplicação estabelecida pelo acordo.

6.2. Quando através do primeiro método não for possível a correta determinação do valor aduaneiro, então poderá ser utilizado o segundo método e assim sucessivamente, não sendo facultado a liberdade de escolha dos métodos pelos importadores.

6.3. Sempre, qualquer que venha a ser o método de valoração a ser utilizado, deverão ser incluídos os seguintes elementos:

a) custo do transporte ainda que gratuíto ou executado pelo próprio importador. Se gratuíto,deverá se tomar por base o valor que seria cobrado para o percurso na mesma modalidade de transporte.Se enviado pelo correio, o custo da tarifa postal;

b) gastos com a carga, manuseio e descarga das mercadorias;

c) o custo do seguro das operações acima descritas.

6.4 Por outro lado não deverão ser incluídos na apuração do valor aduaneiro ou custos ou encargos de transporte ou seguro tido após o desembaraço,bem como encargos relativos á construções, instalações, montagem, manutenção ou assistência técnica da mercadoria, executados após a importação. Cabe ressaltar que a IN/SRF N.º 16 (art 3º) um dos diplomas legais que regem o assunto,exclui estes encargos desde que estejam destacados do preço efetivamente pago ou a pagar pela mercadoria importada.

6.5. Também não deverão ser incluídos no calculo da valoração aduaneira os juros quando destacados do preço e forem os normalmente utilizados neste tipo de operação no âmbito do comércio internacional.

6.6. Se a mercadoria importada for financiada, os juros não deverão incluir o cálculo de apuração do valor aduaneiro quando estiverem destacados do preço efetivamente pago, quando o importador comprovar que o valor a pagar corresponde, de fato, ao devido nas operações de venda daquele tipo de mercadoria, ou quando a taxa de juros não ultrapassar o nível comumente praticado na transação, considerando-se a época e o país que tenha concedido o financiamento. Para estas disposições torna-se irrelevante o fato de o financiamento ser concedido pelo vendedor ou por instituição financeira, bem como o método para apuração do valor do financiamento não seguir o Acordo de Valoração.

7. MÉTODOS A SEREM APLICADOS NA VALORAÇÃO ADUANEIRA

7.1. Primeiro Método-Valor da Transação

7.1.1. O primeiro e principal método (artigo 1º) consiste em considerar como valor aduaneiro o valor da transação, normalmente indicado na fatura comercial, ou seja, o preço efetivamente pago ou a pagar pelas mercadorias importadas, ajustado, quando for o caso, para incluir certas despesas incorridas pelo comprador não consideradas no preço da fatura, conforme estabelecido no artigo 8 do Acordo de Valoração Aduaneira.

7.1.2. A inexistência de dados objetivos e quantificáveis determinará a impossibilidade de aplicação deste método, bem como quando o valor indicado pelo importador for influenciado por relações de interdependência entre comprador e vendedor. Também não é aplicável o primeiro método a determinadas operações que não constituam uma transação comercial, ou seja, de compra e venda de mercadorias como, por exemplo, as operações de aluguel de leasing.

7.2. Segundo e Terceiro Métodos-valor da transação e mercado idênticas e similares

7.2.1. No caso acima descrito, recorre-se, nesta ordem, aos segundo e terceiro métodos (artigos 2º e 3º) que se fundamentam, respectivamente, no valor da transação de mercadorias idênticas ou similares àquela sob valoração, exportadas e destinadas para o mesmo país e, tanto quanto possível, no mesmo período de realização da operação objeto de exame.

7.3. Quarto Método-Dedutivo

7.3.1. O quarto método (artigo 5º), conhecido como método dedutivo, busca determinar o valor aduaneiro a partir da decomposição do preço de revenda da mercadoria importada, ou da mercadoria idêntica ou similar àquela objeto da valoração aduaneira.

7.4 Quinto Método-custo de produção, mais lucros e despesas.

7.4.1. Baseia-se no valor aduaneiro computado a partir do custo de produção das mercadorias a serem valoradas, acrescido de um montante para lucro e despesas gerais, balizados em valores registrados em exportações de mercadorias da mesma classe ou espécie da mercadoria objeto da valoração, realizada por outros produtores do país exportador para o país importador, e outras despesas que envolvam o transporte carga/descarga e seguro da mercadoria até o local alfandegado do seu desembarque no país importador, caso a valoração considere o valor CIF.

7.5. Sexto Método-

7.5.1. Finalmente, o sexto método valorativo, consiste na determinação do valor aduaneiro através da utilização de critérios razoáveis, condizentes com os princípios e disposições gerais do Acordo e com o Artigo VII do GATT/94 e com base em informações disponíveis no país da importação.

7.5.2. É importante registrar que o Brasil fez uma ressalva ao Acordo de Valoração Aduaneira, não conferindo aos importadores a possibilidade de opção de inverter a ordem dos métodos quarto e quinto, ou seja, de poderem requerer a utilização do método do valor computado ao invés do método dedutivo, sem a aquiescência da autoridade aduaneira.

APLICAÇÃO DO ACORDO DE VALORAÇÃO ADUANEIRA NO ÂMBITO DO MERCOSUL

1. Podemos generalizar esta base de cálculo para todos os países membros do Mercosul, pois através da Decisão no. 17/94 do CMC, ou seja do CONSELHO DO MERCADO COMUM, os signatários do MERCOSUL aderiram a tal acordo do GATT. Vale dizer que por signatários do MERCOSUL entendem-se BRASIL,URUGUAI,ARGENTINA E PARAGUAI.

2. No Brasil a referida decisão entrou em vigor através do Decreto 1.765 de 28.12.95, regulamentando desta forma as normas de regulamentação aduaneira para o trânsito das mercadorias intra-MERCOSUL.

INCOTERMS

1. Como os INCOTERMS são regras de comércio internacional que fornecem os subsídios para uma correta valoração aduaneira e consequentemente mediante adições e subtrações a serem realizadas dependendo da modalidade da operação de importação, irão ao final destes cálculos constituir o valor sobre o qual incidirá o imposto de importação, entendemos de suma importância discorrer sobre os mesmos.

2. Os mais usuais e conhecidos, denominam-se claúsulas FOB, ou seja FREE ON BOARD, ou CIF- COST INSURANCE AND FREIGHT (custo, seguro e frete). O primeiro deles se verifica quando a mercadoria é entregue ao importador a bordo do navio, no porto de embarque. Transporte e outras despesas são realizadas ás expensas do importador.A cláusula CIF se verifica quando a entrega das mercadorias ao importador ocorre a bordo do navio no porto de embarque, sendo o transporte e o seguro contratados pelo vendedor.

3. Assim sendo, os denominados INCOTERMS têm por finalidade precípua fornecer um conjunto de regras internacionais para a interpretação dos termos mais comuns usados no comércio internacional, a fim de evitar as incertezas de interpretação, ou ao menos reduzi-las consideravelmente. Mormente para afastar a possibilidade de disputas e litígios é que a CÂMARA DE COMÉRCIO INTERNACIONAL-CCI, criou em 1.936, um conjunto de regras internacionais para interpretar os termos de mercados. Tais regras são hoje conhecidas como INCOTERMS tendo ao longo dos anos sofrido emendas e adições , sendo atualmente utilizadas as regras estabelecidas em 1.990. Diga-se de passagem que em 1.990 ocorreu uma revisão das regras de inconterms com o intuito de adaptá-los ao uso do intercâmbio eletrônico de processamento de dados.

5. Imperioso, portanto, estabelecer uma correlação entre a operação de importação que está sendo feita, com a modalidade de INCOTERM utilizado na operação, já que cada um deles inclui diferentes preços embutidos ao seu valor total. Dependendo do INCOTERM utilizado, será necessário a adição ou subtração de determinados valores, correspondentes ou não à base de cálculo do imposto de importação.

PROCEDIMENTOS DA RECEITA FEDERAL NA APLICAÇÃO DO CÓDIGO DE VALORAÇÃO ADUANEIRA.

1. O Decreto 2.498/98 e as demais disposições regulamentadoras expedidas pelo Ministério da Fazenda determinaram que a partir de março de 1998 teria início a efetiva aplicação do sistema de valoração aduaneira no Brasil, determinando que toda mercadoria importada estará sujeita à verificação prévia de preços.

2. Ressalte-se que estão também sujeitas à comprovação do valor declarado, as mercadorias objeto de investigação de dumping, subsídios e aquelas sob salvaguardas. Com isso, o governo, atendendo a pleito antigo de setores afetados, pretende evitar que as medidas compensatórias estabelecidas para eliminar os efeitos dessas práticas desleais e as medidas de salvaguardas adotadas em defesa do mercado doméstico, sejam diluídas ou até mesmo neutralizadas pelo subfaturamento do valor das importações.

3. Para tanto, a Receita Federal está elaborando uma base de dados com os preços de todos os produtos no mercado internacional. Para cada mercadoria serão indicados valores mínimo e máximo, que servirão de parâmetro para verificar se o valor declarado do produto importado está compatível com a média de preços praticada no mercado internacional.

4. O controle do valor aduaneiro se dará de forma aleatória e seletiva quando do despacho da importação da mercadoria ou em processo de revisão aduaneira. O importador que tiver a sua mercadoria selecionada será comunicado através do SISCOMEX, e deverá apresentar a Declaração do Valor Aduaneiro acompanhada dos respectivos documentos comprobatórios do valor declarado.

5. A Receita Federal examinará os documentos apresentados, comparando os dados neles contidos com os registrados na Declaração de Importação. Esta primeira fase constitui o exame preliminar do valor aduaneiro, que deverá ser realizado pela autoridade aduaneira em dois dias. Caso ainda persistam dúvidas quanto ao valor de importação declarado pelo importador, poderão ser requeridos documentos e informações adicionais, bem como determinada a realização de diligências, auditorias ou investigações para permitir o exame conclusivo do valor aduaneiro.

6. O importador terá um prazo de 15 dias, contados a partir da data da notificação, para atender às novas exigências, prorrogável pelo mesmo período, mediante apresentação de justificativas. O exame conclusivo do valor será realizado num prazo de 60

dias, podendo também ser estendido por igual período. Vale observar, no entanto, que neste prazo não será computado o tempo concedido ao importador para atendimento das exigências.

7. Nos casos em que se verifique a recusa por parte do importador em fornecer as informações requeridas, ou as informações prestadas sejam insuficientes para que o valor declarado seja considerado como o valor efetivamente pago ou a pagar pela mercadoria importada, ajustado conforme previsto no Acordo de Valoração Aduaneira, a autoridade aduaneira poderá decidir pela não aplicação do método do valor da transação. Em conseqüência, a apuração do valor aduaneiro será determinada com base em método substitutivo, observada a ordem seqüencial já mencionada anteriormente.

8. Independentemente da modalidade de venda pactuada entre o exportador e importador e do método de valoração empregado, serão considerados na apuração do valor aduaneiro os seguintes custos: de transportes de mercadoria até o local alfandegado (porto, aeroporto ou ponto de fronteira) onde será formalizada a internação da mercadoria no país, os referentes à carga/descarga e manuseio da mercadoria associados ao transporte e os gastos referentes ao seguro durante essas operações.

9. O desembaraço da mercadoria sob valoração poderá ocorrer antes de concluído o exame do valor declarado, condicionada à prestação de garantia, sob forma de depósito em moeda, fiança bancária ou seguro em favor da União. Seu valor será correspondente à diferença entre o montante em impostos já recolhidos e aquele a que a mercadoria poderá estar sujeita em casos específicos.

10. Observe-se que o valor aduaneiro de qualquer mercadoria, mesmo aquele já objeto de verificação, poderá ser reexaminado em procedimento de revisão aduaneira, até que sejam completados cinco anos da data de registro da respectiva declaração de importação. Uma vez notificado, o importador terá um prazo de 30 dias para apresentar a Declaração do Valor Aduaneiro (DVA), acompanhada dos respectivos documentos comprobatórios. A não apresentação da DVA neste prazo será interpretada como recusa por parte do importador no fornecimento das informações, podendo a alfândega determinar o valor aduaneiro com base em método substitutivo. Desta forma, todos os documentos comprobatórios do valor aduaneiro, dados, informações, bem como registros contábeis devem ser conservados pelo importador, à disposição da Receita Federal pelo período de cinco anos.

NORMAS INTERNAS QUE REGEM O ASSUNTO

1. São os seguintes os diplomas legais que atualmente regem o Acordo de Valoração Aduaneira:

Decreto nº 2.498 – D.O. U. 16/02/98 – Dispõe sobre a aplicação do Acordo sobre a Implementação do Artigo VII do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio – GATT 1994;
Portaria MF n.º 28 – D.O.U. 17/02/98 – Dispõe sobre a implementação do Disposto no Decreto nº 2.498/98;
Instrução Normativa SRF nº 16 – D.O.U. 17/02/98- Estabelece normas e procedimentos para o controle do valor aduaneiro de mercadoria importada.
Instrução Normativa SRF nº 17 – D.O.U. 17/02/98 – Divulga atos emanados do Comitê Técnico de Valoração Aduaneira;
Instrução Normativa SRF n.º 18 – D.O.U. 17/02/98 – Dispõe sobre a impressão dos formulários aprovados pela Instrução Normativa n. 16/98; e,
Decreto 1765, de 28.12.95 – D.O.U. – 29.12.95 – Ratifica a Decisão do Conselho Mercado Comum do Mercosul que aprova a Norma de Aplicação sobre Valoração Aduaneira de Mercadorias no âmbito do Mercosul.

CONSEQÜÊNCIAS TRIBUTÁRIAS

1. É importante uma correta valoração aduaneira, pois sobre o resultado de sua utilização pelas autoridades competentes, incidirá o imposto de importação. Deste resultado, ainda haverá via de regra a incidência do IPI e ao final também a incidência do ICMS, numa verdadeira progressão geométrica, vale dizer porcentagem em cima de porcentagem. A valoração aduaneira arbitrária e incorreta, posto que baseada em dados fictícios como vinha sendo praticada no Brasil, acarretava indubitavelmente majoração da carga tributária além de discussões administrativas e judiciais homéricas em prejuízo do importador, bem como do consumidor final que viria ao final suportar toda esta carga tributária, razão pela qual este conjunto de regras que está disciplinando o assunto se preocupa no momento em utilizar critérios de maneira correta e cuidadosa.

2 Esta preocupação já se fazia sentir em meados de 1.993 até o final de 1.994 quando a Receita Federal com a finalidade de colher dados relevantes a fim de estudar o assunto e promover os ajustes necessários, distribuiu inúmeros questionários para que importadores de peso viessem a se manifestar quanto aos critérios a serem utilizados em suas importações, envolvendo custos , locais de importação, etc.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A globalização fenômeno que se faz presente em quase todos os países, acirra a concorrência, obrigando as nações a se aprimorarem cada vez mais em todos os sentidos, mormente no âmbito comercial e tecnológico. O Brasil neste contexto não poderia deixar passar “in albis” esta nova revolução , razão pela qual está incessantemente procurando modernizar suas estruturas, principalmente a portuária, no sentido de diminuir o denominado “Custo Brasil” e assim tornar-se competitivo frente ás nações mais desenvolvidas. A utilização obrigatória e perene das normas internacionais tais como o ACORDO DE VALORAÇÃO ADUANEIRA objeto do presente trabalho, se constitui numa destas providências inadiáveis.

Sites:
http://www.overnet.com.br/~jmarcio/ad_div_valoracao.htm
http://www.estado.com.br/edicao/pano/98/02/03/NOT2QUA.HTM
http://www.noronhaadvogados.com.br/edu02.htm