SISTEMATIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM (SAE)

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SISTEMATIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM (SAE)

DOMINGUES,Christiane Oliveira
Enfermeira graduada pela Universidade Federal de Pelotas, Especialista em Administração Hospitalar pela UCPel

AMESTOY, Simone Coelho
Enfermeira graduada pela Universidade Federal de Pelotas

SANTOS; Elodi dos
Professora da Universidade Federal de Pelotas, Mestre em Enfermagem

1. INTRODUÇÃO

A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), é um processo, um método sistematizado de prestação de cuidados que visa a obtenção de resultados desejados de uma maneira rentável. É sistemático por se constituir de etapas, durante as quais são dados passos deliberados para potencializar a eficiência e atingir resultados benéficos. Este processo sempre foi desenvolvido pelos enfermeiros como forma de prestar assistência ao paciente, sendo aperfeiçoado com o passar do tempo e atualizado a partir de estudos e bases científicas até os dias de hoje, onde foi introduzida esta nomenclatura (Sistematização da Assistência de Enfermagem) ao ser obrigatória sua implementação nas instituições de saúde desde agosto de 2002, através de uma resolução do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN).
A SAE é um assunto amplo e, está intimamente ligado ao trabalho diário do enfermeiro, mesmo por aqueles que desconhecem o assunto, pois diante de suas ações dentro do cuidado assistencial prestado ao paciente se desenvolvem vários pontos que fazem parte do processo da SAE, porém ainda tem um desenvolvimento precário e não sistematizado. Faz-se necessário esclarecer exatamente o que é, como surgiu e para que serve a sistematização, pois é um tema ainda pouco explorado. Para isto, achamos melhor começar por uma exposição dos principais fatos históricos até chegar a este processo atual da Sistematização da Assistência de Enfermagem, tendo assim uma idéia de quando e como se iniciou este processo.
Para isto, iniciamos a partir dos marcos temporais, através dos seus registros históricos, do surgimento e das etapas do desenvolvimento, abordando também a questão legal e as diferenças entre o diagnóstico médico e o diagnóstico de enfermagem, que é um dos pontos discutidos dentro do tema. Buscamos também os fundamentos através das bases teóricas e como proceder para melhor desenvolver o processo. Após, achamos relevante citar as vantagens proporcionadas pela SAE e correlacioná-la na prática profissional exemplificando através de sua implementação em uma instituição hospitalar que já utiliza a Sistematização da Assistência de Enfermagem.

2. METODOLOGIA

Este é um estudo bibliográfico, de caráter exploratório, documental e descritivo.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Durante muitas décadas na maioria das instituições de saúde, ou não havia ou não era utilizado um método para sistematizar a assistência de enfermagem. Mas com o tempo, as enfermeiras sentiram necessidade de criar uma forma para sistematização dos cuidados. No Brasil, iniciou na década de 70, com Wanda Horta de Aguiar, que formulou a teoria das necessidades humanas básicas e desenvolveu o processo de Enfermagem como forma de aplicação de sua teoria na prática. Segundo Possari (2005), Wanda define o processo de Enfermagem como sendo a dinâmica das ações sistematizadas e interrelacionadas, visando ao cuidado ao ser humano.
Então, a partir das experiências vivenciadas no campo de trabalho, Wanda Horta percebeu a necessidade de criar meios para desenvolver e definir o campo de atuação da enfermagem, com o histórico de enfermagem e o desenvolvimento do processo.
Este processo serve para elaborar o cuidado a ser prestado e melhor registrá-lo, mas quando realizado, muitas vezes não é feita a etapa do diagnóstico de enfermagem. A maioria dos profissionais (enfermeiros), apresenta grande dificuldade em desenvolver a fase do diagnóstico de enfermagem. De acordo com Nanda (2002), nos registros ao invés de encontramos diagnósticos de enfermagem, tinhamos o que chamávamos de lista de problemas de enfermagem, estas eram formadas de diagnósticos médicos, sinais e sintomas, medidas terapêuticas diversas e raramente, queixas, sentimentos e expectativas dos pacientes.
Alguns enfermeiros, tanto os que apresentam menor interesse pelo diagnóstico de enfermagem como também alguns daqueles interessados pelo tema, encontram-se confusos entre diferenciar diagnóstico médico e diagnóstico de enfermagem.
Conforme Brunner e Suddarth (2000), os diagnósticos de enfermagem são problemas atuais ou potenciais do paciente passíveis de resolução pelas ações independentes da enfermagem. Já o diagnóstico médico consiste em um produto que visa o oferecimento de informações que auxiliem na conduta clínica, como informar o paciente, requisitar exames complementares, prognosticar e indicar tratamento (LOPEZ, 2001).
Os enfermeiros devem ser comprometidos com sua profissão e saber o que cabe a eles enquanto profissionais, executando as atividades que é de direito. Buscando respaldar a enfermagem em questões legais da profissão, o COFEN (2002) criou a Resolução 272 referente à Sistematização da Assistência de Enfermagem que trata da aplicação do processo de enfermagem na prática dos enfermeiros integrantes de instituições de saúde públicas e privadas. A Sistematização da Assistência de Enfermagem consiste em uma atividade privativa do enfermeiro, através de métodos e estratégias de trabalho científico, visando identificar as situações de saúde e doença, subsidiando ações de assistência de enfermagem, que possam contribuir para a promoção, prevenção, recuperação e reabilitação da saúde do indivíduo, família e comunidade.
Para chegar ao processo de enfermagem foi preciso concentrar conhecimentos adquiridos mediante a prática profissional dos enfermeiros, assim como também as necessidades enfrentadas durante a assistência. Sendo a enfermagem, hoje, uma ciência aplicada, ela deixa a fase de empirismo histórico para trás e passa para uma fase científica, a qual necessita desenvolver suas teorias para aplicar métodos e instrumentos específicos de trabalho científico (FERRER, 2005).
É indispensável citar que a enfermagem possui um grande acervo de teorias que fazem parte da história da profissão, e este processo de enfermagem surgiu a partir de uma teoria, criada por Wanda Horta de Aguiar. Autora da teoria das necessidades humanas básicas, ela desenvolveu o processo como forma de aplicação de sua teoria na prática, pois as teorias podem ser utilizadas por profissionais como um guia e algo que aprimore sua prática. Aqui foi relatada a teoria das necessidades humanas básicas, porque foi através dela que se desenvolveu o processo de Enfermagem (assunto em questão), hoje implementado como Sistematização da Assistência de Enfermagem.
Para realizar o processo, além da enfermeira usar seus conhecimentos teóricos e práticos e sua capacidade de raciocínio clínico, ela deve para obter o resultado esperado utilizar indispensavelmente todas as etapas do processo, iniciando com o histórico de enfermagem, diagnóstico de enfermagem, planejamento, evolução.
Com a efetuação da SAE espera-se que seja desenvolvido este processo para melhorar a comunicação interprofissional, prevenir erros, omissões e repetições desnecessárias, obtendo-se com isso uma satisfação nos resultados esperados.
Os registros desenvolvidos pela sistematização servem de instrumento para pesquisa, proporcionam esta comunicação entre as equipes de saúde e também com outros setores da instituição, como o setor de faturamento e os serviços de auditorias, garantindo ao profissional de enfermagem e à instituição o respaldo ético-legal, o qual representa um importante meio para assegurar a qualidade da assistência prestada.
Através de um estudo desenvolvido por Backes (2005) realizado em um hospital filantrópico de grande porte, da cidade de Pelotas, visualizamos o processo de implementação da SAE nesta instituição, desenvolveu-se uma metodologia, que começou a partir da criação de um grupo para elaboração do projeto SAE, formado por enfermeiros dispostos a começar a difundir a sistematização entre os demais colegas. Demonstrou-se pelos enfermeiros que a SAE é um processo de qualificação do profissional e de valorização e reconhecimento, capaz de proporcionar maior qualidade e eficiência na assistência, autonomia e cientificidade à profissão. Mas também, segundo eles, há dificuldades para desenvolver a SAE, como a sobrecarga de trabalho, por desvios de função e número insuficiente de profissionais.

4. CONCLUSÕES

Vimos, ao longo deste estudo, que a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é parte de um processo que vem sendo desenvolvido ao longo do tempo por enfermeiros comprometidos em melhorar cada vez mais a assistência prestada aos pacientes e que buscam a valorização da profissão. Pois proporciona uma maior autonomia para o enfermeiro, um respaldo legal seguro através dos registros de enfermagem, além de promover uma melhor aproximação do enfermeiro em relação ao paciente e desenvolver uma enfermagem com característica científica.

5. REFERÊNCIAS

BACKES, D.S. et al. Sistematização da assistência de enfermagem: percepção dos enfermeiros de um hospital filantrópico. Acta Scientiarum-Health Science. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, v.27, n1, jan/jun. 2005.

BRUNNER, L. SUDDARTH, D. Enfermagem médico-cirúrgica. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 2000.

COFEN- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM- Legislação. Brasil, 2002.

FERRER, J. Resolução Cofen 272/2002: a sistematização da assistência de enfermagem em uma UTI geral. Trabalho Monográfico (Graduação em Enfermagem). Faculdade de enfermagem. Universidade Federal de Pelotas, 2005.

LOPEZ, M. O processo diagnóstico nas decisões clínicas: ciência-arte-ética. Rio de Janeiro: Revinter, 2001.

NANDA (NORTH AMERICAN NURSING ASSOCIANTION). Definições e classificações 2001-2002. 4 ed.Tradução de Jeanne Liliane Marlene Michel. Porto Alegre: Artmed, 2002.

POSSARI, João. SAE- Sistematização da Assitência de Enfermagem. Disponível em < www. Joaopossari. hpg. ig. com.br/ sae.htm>

TRUMAN STRECKFUS PERSONS – TRUMAN CAPOTE

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Truman Capote
30/09/1925, New Orleans
25/08/1984, Los Angeles

Truman Streckfus Persons, mais conhecido como Truman Capote, nasceu em Nova Orleans, Louisiana. Era filho de Archulus Persons, um comerciante vigarista, e sua jovem esposa Lillie Mae Faulk. Seus pais se divorciaram quando ele tinha quatro anos, e ele foi mandado para Monroeville, no Alabama, onde cresceu com seus parentes maternos. Uma criança solitária, Capote aprendeu sozinho a ler e escrever antes de entrar na primeira série. Era comum encontrá-lo, aos cinco anos, com um dicionário e um bloco de notas. Ele afirmou ter escrito um livro com nove anos de idade. Aos dez, ele submeteu seu conto Old Mr. Busybody a um concurso infantil patrocinado pela Mobile Press Register. Aos 11, começou a escrever durante três horas continuamente, todos os dias.

Em 1933, Truman mudou-se para Nova Iorque, para viver com sua mãe e seu padrasto Joseph “Joe” Capote, um cubano que trabalhava no ramo têxtil, e que o adotou e o rebatizou de Truman García Capote. Em 1935, ele entrou para a Escola Trinity. Em 1939, os Capote mudam-se para Greenwich, Connecticut, e Truman estuda na Greenwich High School, onde escreve para os dois jornais literários da escola, “The Green Witch” e o jornal da instituição. De volta a Nova Iorque em 1942, Truman se forma na Escola Dwight, uma instituição particular que hoje concede um prêmio anual que leva seu nome. Aos 17 anos, Truman finaliza sua educação formal e começa a trabalhar na The New Yorker.

Entre 1943 e 1946, Capote escreveu uma série de contos, incluindo A Mink of One’s Own, Miriam, My Side of the Matter, Preacher’s Legend, Shut a Final Door e The Walls are Cold. Essas histórias foram publicadas trimestralmente em revistas conhecidas como a Harper’s Bazaar, The Atlantic Monthly, Mademoiselle e The New Yorker.

O seu primeiro romance apresenta um mundo adolescente situado entre a realidade e a fantasia, e que literariamente pode incluir-se na tradição gótica do Sul dos Estados Unidos. Em 1958 obtém outro êxito com Breakfast at Tiffany’s (Ao começo do dia ou Bonequinha de Luxo).

O seu grande sucesso é A Sangue Frio(In Cold Blood) (1966), obra com que inicia um gênero por ele denominado non-fiction novel (ou seja, romance-documento ou romance de não-ficção). Nela reconstrói minuciosamente um fato real (um crime feroz), a personalidade das vítimas e dos jovens assassinos. O livro é um penetrante estudo dos Estados Unidos do momento, com os seus contrastes, a tentação do delito, etc. A história deste livro é relatada no filme Capote, indicado a 5 Oscar. Capote nunca foi premiado pela obra, no entanto, a premiação foi do público em geral, pois sua obra lhe rendeu por volta de dois milhões de dólares e o tornou rico. Mas a história desse assassinato brutal foi sua última obra relevante.


Posteriormente publica Música para Camaleões (Music for Chameleons).


Escreve também guiões para filmes, como Beat the Devil


E um musical para a Broadway, House of Flowers.

Truman Capote morreu por causa de seu vício por álcool e barbitúricos. Sua vida foi tão polêmica como grandes foram suas obras. Pai do romance de “não-ficção”, ele criou um novo gênero literário. Algumas de suas obras foram levadas para o cinema. Capote também possuía uma língua afiada e provocativa, além de uma imagem de escritor maldito.

Ele morreu em 25 de agosto de 1984, em Los Angeles, cidade dos EUA que detestava. O famoso escritor estava hospedado na casa de sua amiga, Joanne Carson, onde dormiu seu último sono, a um mês de seu 60º aniversário

A causa da morte foi ingestão de barbitúricos. Capote consumia álcool e drogas há muito tempo e isso o conduziu à morte. Ele criou até um “cocktail Capote”, o nome da mistura de álcool e barbitúricos que inventou.

Literatura e liberdade
Sua decadência começou depois da publicação do romance “A sangue frio“, lançado em 1965 e com o qual ganhou muito dinheiro e sucesso. Sua vida se tornou cada vez mais frívola, cheia de festas. A partir de então, passou a escrever menos livros.

Capote gostava de dizer que tinha muito dinheiro. Ele se cercou de luxo. Tinha três mansões: uma em Nova York, outra em Long Island e mais uma na Suíça. Soube se dar uma vida de prazer. O consumo de álcool o levou a ter muitos problemas pessoais, além de outros com a polícia, que o deteve várias vezes por dirigir bêbado.

Truman se tornou freqüentador assíduo da célebre boate Studio 54. Mas também foi um grande anfitrião. Famosas se tornarm suas disputadas e caríssimas festas freqüentadas pela alta sociedade nova-iorquina.

O escritor sempre quis ser famoso e adorava sair em capas de revistas e aparecer na televisão, meio que o ajudou a se tornar uma lenda. Além disso, ele sempre esteve acompanhado de belas mulheres. Uma de suas companhias favoritas era Marilyn Monroe, sobre quem, numa ocasião, disse: “É a bondade em pessoa”.

Mas nenhuma dessas mulheres, apesar da admiração que sempre teve por elas, ele chegou a namorar. A razão: não gostava de mulheres, mas de homens. O escritor nunca escondeu sua homossexualidade. Pelo contrário, defendeu sua orientação sexual na televisão e participou de várias manifestações em prol dos direitos dos gays. Seu companheiro sentimental foi Jack Dunphy, a quem enganou com outros amantes, mas com quem viveu por 25 anos.

Infância amarga
Os problemas de Capote com as drogas e o álcool podem estar relacionados com a triste infância que viveu. Truman Streckfus Persons nasceu em 30 de setembro de 1924, em Nova Orleans (Luisiana, EUA.). No entanto, logo teve que ir para o Alabama com suas tias, enviado por seus pais que viviam em um hotel. Uma vez, Truman disse que se sentia “órfão espiritualmente”, talvez por nunca ter recebido o afeto que gostaria de ter sentido de seus pais.

Sua mãe era alcoólatra e acabou cometendo suicídio. Seu pai era um viciado em sexo que colecionava amantes. Depois do divórcio de seus pais em 1931, sua mãe se casou com um industrial têxtil cubano, Joseph García Capote, de quem Truman tirou seu sobrenome, já que sempre achou seu padrasto uma pessoa maravilhosa, que o ensinou muito.

Seu novo pai o levou para Nova York e o matriculou nas melhores escolas. No entanto, ele repetiu a maioria das matérias, razão pela qual alguns professores disseram que era um pouco retardado. Quando sua mãe decidiu levá-lo ao psiquiatra, o especialista disse que Truman era um gênio. Sua inteligência era diferente e muitas vezes ele a utilizava para provocar.

Reportagem como arte


Truman Capote ficou famoso como o menino prodígio da literatura americana. Aos 17 anos, terminou os estudos, se emancipou, voltou para Nova Orleans e começou a escrever. Ele publica seu primeiro escrito em 1944, um conto intitulado “Miriam”. Em 1946, 1948 e 1951 ganha o prêmio O. Henry.


Em 1948, lança seu primeiro livro, “Other voices, other rooms”, no qual incorpora elementos autobiográficos e conta a história de um menino que procura desesperadamente seu pai.


Em 1964, publica seu romance “Breakfast at Tiffany?s”.


No ano seguinte em 1965, depois de seis anos de uma minuciosa pesquisa, publica o célebre “A sangue frio”, obra que o consagra como um escritor de fama internacional.


Outra das facetas de escritor foi sua capacidade de redigir crônicas da alta sociedade americana. Sua obra “Answered prayers” criou polêmica por se tratar de uma crônica social que descrevia as personalidades mais representativas dos Estados Unidos. Por causa do livro, passou a ser considerado o dono da língua mais ferina de Nova York.

“O mais importante é o estilo, não é o que estou dizendo, mas como o estou dizendo”, disse uma vez Truman Capote, que inventou um novo gênero literário, que misturava jornalismo e literatura.

O escritor escrevia relatos chamados de “não-ficção”, nos quais muitos personagens existiam de verdade e, outras vezes, eram produto de sua imaginação.

Capote é considerado por muitos o criador do chamado “livro-reportagem”, já que seu objetivo na hora de escrever era elevar a reportagem à categoria de arte.

Ele também se dedicou ao jornalismo de pesquisa, que consolidou em alguns de seus trabalhos, como no próprio “A sangue frio”, um livro sobre um crime rural ocorrido em Kansas que investigou por mais de seis anos, indo ao local do crime e falando com as pessoas envolvidas.

Frases famosas
O autor de “A sangue frio“, Capote foi autor de escandalosas e provocativas frases.

Sobre sua vida:
Não sou um santo. Sou um alcoólatra, um drogado, um homossexual e um gênio. Certamente, poderia ter sido todas essas quatro coisas e ter continuado sendo um santo”.

“Só direi que não sou uma pessoa feliz. Só os imbecis ou os idiotas são felizes”.

Sobre seu sucesso como escritor:
“Eu tinha que alcançar o sucesso o mais rápido possível, as pessoas como eu sabem sempre o que querem. A maioria das pessoas passa a metade de sua vida sem chegar a saber o que querem. Eu nunca pensei em trabalhar em um escritório nem nada parecido. Poderia ter sido bem-sucedido em qualquer coisa, mas sempre soube e quis ser escritor e me tornar rico e famoso”.

“O que Mãe West é para as tetas e King Kong para os pênis, eu sou para as letras norte-americanas”.

“Quando envio um manuscrito para o editor tenho certeza de cada palavra. As palavras sempre me salvaram da tristeza”.

Sobre os outros:
“A bondade era Marylin Monroe”.

O ARCADISMO

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O Arcadismo, Setecentismo (os anos 1700) ou Neoclassicismo é o período de caracteriza principalmente a segunda metade do século XVIII, tingindo as artes de uma nova tonalidade burguesa.

No século XVIII, as formas artísticas do Barroco já se encontram desgastadas e decadentes. O fortalecimento político da burguesia e o aparecimento dos filósofos iluministas formam um novo quadro sócio político-cultural, que necessita de outras fórmulas de expressão. Combate-se a mentalidade religiosa criada pela Contra-Reforma, nega-se a educação jesuítica praticada nas escolas, valoriza-se o estudo científico e as atividades humanas, num verdadeiro retorno à cultura renascentista. A literatura que surge para combater a arte barroca e sua mentalidade religiosa e contraditória é o Neoclassicismo, que objetiva restaurar o equilíbrio por meio da razão.

A influência neoclássica penetrou em todos os setores da vida artística européia, no século XVIII. Os artistas desse período compreendiam que o Barroco havia ultrapassado os limites do que se considerava arte de qualidade e procuravam recuperar e imitar os padrões artísticos do Renascimento, tomados então como modelo.

Na Itália essa influência assumiu feição particular. Conhecida como Arcadismo, inspirava-se na lendária região da Grécia antiga. Segundo a lenda, a Arcádia era dominada pelo deus Pari e habitada por pastores que, vivendo de modo simples e espontâneo, se divertiam cantando, fazendo disputas poéticas e celebrando o amor e o prazer.

Os italianos, procurando imitar a lenda grega, criaram a Arcádia em 1690 – uma academia literária que reunia os escritores com a finalidade de combater o Barroco e difundir os ideais neoclássicos. Para serem coerentes com certos princípios, como simplicidade e igualdade, os cultos literatos árcades usavam roupas e pseudônimos de pastores gregos e reuniam-se em parques e jardins para gozar a vida natural.

No Brasil e em Portugal, a experiência neoclássica na literatura se deu em torno dos modelos do Arcadismo italiano, com a fundação de academias literárias, simulação pastoral, ambiente campestre, etc.

Esses ideais de vida simples e natural vêm ao encontro dos anseios de um novo público consumidor em formação, a burguesia, que historicamente lutava pelo poder e denunciava a vida luxuosa da nobreza nas cortes.

A linguagem árcade

A linguagem árcade é a expressão das idéias e dos sentimentos do artista do século XVIII. Seus temas e sua construção procuram adequar-se à nova realidade social vivida pela classe que a produzia e a consumia: a burguesia.

Características

fugere urbem (fuga da cidade): influenciados pelo poeta latino Horácio, os árcades defendiam o bucolismo como ideal de vida, isto é, uma vida simples e natural, junto ao campo, distante dos centros urbanos. Tal princípio era reforçado pelo pensamento do filósofo francês Jean Jacques Rousseau, segundo o qual a civilização corrompe os costumes do homem, que nasce naturalmente bom.

áurea mediocritas (vida medíocre materialmente mas rica em realizações espirituais): outro traço presente advindo da poesia horaciana é a idealização de uma vida pobre e feliz no campo, em oposição à vida luxuosa e triste na cidade

idéias iluministas: como expressão artística da burguesia, o Arcadismo veicula também certos ideais políticos e ideológicos dessa classe, no caso, idéias do Iluminismo. Os iluministas foram pensadores que defenderam o uso da razão, em contraposição à fé cristã, e combateram o Absolutismo. Embora não sejam a preocupação central da maioria dos poetas árcades, idéias de liberdade, justiça e igualdade social estão presentes em alguns textos da época.

convencionalismo amoroso: na poesia árcade, as situações são artificiais; não é o próprio poeta quem fala de si e de seus reais sentimentos. No plano amoroso, por exemplo, quase sempre é um pastor que confessa o seu amor por uma pastora e a convida para aproveitar a vida junto à natureza. Porém, ao se lerem vários poemas, de poetas árcades diferentes, tem-se a impressão de que se trata sempre de um mesmo homem, de uma mesma mulher e de um mesmo tipo de amor. Não há variações emocionais. Isso ocorre devido ao convencionalismo amoroso, que impede a livre expressão dos sentimentos, levando o poeta a racionalizá-los. Ou seja, o que mais importava ao poeta árcade era seguir a convenção, fazer poemas de amor como faziam os poetas clássicos, e não expressar os sentimentos. Além disso mantém-se o distanciamento amoroso entre os amantes, que já se verificava na poesia clássica. A mulher é vista como um ser superior, inalcançável e imaterial.

carpe diem: o desejo de aproveitar o dia e a vida enquanto é possível tema já bastante explorado pelo Barroco – é retomado pelos árcades e faz parte do convite amoroso.

Características:

A palavra Arcádia, que dá origem a Arcadismo, é grega e designa uma sociedade literária típica da última fase do Classicismo, cujos membros adotam nomes poéticos pastoris, em homenagem à vida simples dos pastores, em comunhão com a natureza.

As manifestações da estética arcádica começam a ocorrer no Brasil na segunda metade do século XVIII, mais precisamente em 1768, quando Cláudio Manuel da Costa publica Obras. A atividade mineradora – já intensa desde 1700 – determina mudanças na organização e na dinâmica da vida brasileira. Há um aumento considerável na circulação de mercadorias e uma dinamização das regiões que abasteciam de gado as Minas Gerais (Sul e Nordeste). Com o crescimento das cidades, surgia no Brasil o trabalho não-escravo, desvinculado das atividades agrícolas e da mineração. Eram artesãos, burocratas, profissionais liberais, literatos.

Arcadismo – O espírito iluminista

Era o esboço de uma classe mediana que, disposta a defender seus próprios interesses, adotou a ideologia liberal burguesa vinda da França: o Iluminismo. A difusão do pensamento iluminista que apregoava a liberdade de propriedade e a igualdade de poderes, criticando o estado absolutista, tinha as suas palavras de ordem: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Em 1789, esse espírito culminou na Revolução Francesa, que modificou o conceito de classe social trazendo ao topo do poder os burgueses.

Árcades ilustrados

Em Vila Rica, atual Ouro Preto, a antiga capital da Capitania das Minas Gerais, um grupo teve especial importância na divulgação do Iluminismo – o “grupo mineiro” -, composto por intelectuais que se reuniam em torno de ideais semelhantes, pelo menos quanto ao pensamento de que a Metrópole Portuguesa era tirânica em relação à Colônia, que se encontrava usurpada em relação às suas riquezas.

“Escola Mineira”

Seis poetas constituem a chamada “Escola Mineira”: Frei José de Santa Rita Durão, José Basílio da Gama, Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Inácio José de Alvarenga Peixoto e Manuel Inácio da Silva Alvarenga. Com os olhos voltados para a terra natal, esses poetas árcades iniciaram o período de transformação da literatura brasileira, que se vai efetivar, realmente, no século XIX, com os românticos.

Arcadismo em Portugal (1756-1825)

Com a fundação da Arcádia Lusitana, em 1756, iniciou-se uma nova etapa literária em Portugal, caracterizada pela rebeldia contra o Barroco. Sua divisa – inutilia truncar – atestava o desejo de repúdio às coisas inúteis, característica marcante da poesia barroca.

Simplicidade da arte renascentista

A Arcádia Lusitana teve por base a Arcádia Romana, fundada na Itália em 1690, cuja tentativa foi restabelecer a simplicidade da arte renascentista e antiga. A Arcádia Lusitana estiveram ligados, entre outros, os poetas Antônio Dinis da Cruz e Silva (um de seus fundadores), Pedro Antônio Correia Garção, também doutrinador do movimento.

Nova Arcádia

Em 1790, foi fundada a Academia de Belas Artes, logo após denominada Nova Arcádia que, três anos mais tarde, publicava algumas obras poéticas de seus sócios, sob o título Almanaque das Musas. Os membros mais importantes dessa associação foram o brasileiro Domingos Caldas Barbosa, famoso nos ambientes aristocráticos por sua obra lírica, o poeta satírico Padre Agostinho de Macedo e o poeta lírico e satírico Manuel Maria Barbosa du Bocage.

Arcadismo no Brasil (1768-1836)

O rompimento com a estética cultista barroca começou no Brasil com a publicação das Obras, de Cláudio Manuel da Costa, em 1768. O movimento árcade permaneceu como tendência literária até 1836, quando se inicia o Romantismo.

A descoberta do ouro na região de Minas Gerais, em fins do século XVII, significa o início de grandes mudanças na sociedade colonial brasileira. A corrida em busca do metal precioso desloca para serras, até então desertas, uma multidão de aventureiros paulistas, baianos e, em seguida, portugueses. A abundância do ouro gera extraordinária riqueza e os primeiros acampamentos de mineiros transformam-se rapidamente em cidades.

Um esquema de abastecimento para as minas é organizado por tropeiros paulistas. Sorocaba, no interior de São Paulo, torna-se o maior centro de transporte das tropas de gado vacum e muar para Minas Gerais. Ali realiza-se uma grande feira, entre maio e agosto, onde se encontram vendedores e compradores de animais e mantimentos. São paulistas ainda os que avançam cada vez mais para o Sul. Primeiro, desenvolvem roças e fazendas de criação bovina na região de Curitiba. Depois, irrompem nos campos da serra e no pampa rio-grandense para capturar o gado que vivia em liberdade (milhões e milhões de cabeças).

Este sistema de abastecimento das cidades mineiras – já que nada se produzia nelas – integra e unifica as várias regiões do Brasil, criando a noção de que poderíamos constituir um país. Por outro lado, a leva de habitantes do reino, que aqui chega, impõe a língua portuguesa como a língua básica, desalojando a “língua geral”, baseada no tupi, e que imperava nos sertões e entre os paulistas. Desta forma, adquire-se também uma unidade linguística.

O ouro parece ser suficiente para todos. Enriquece os mineiros, os comerciantes, os tropeiros e, acima de tudo, o reino português. Centenas de toneladas do precioso metal são levadas para o luxo, o desperdício e a ostentação da Corte. Parte considerável deste ouro vai parar na Inglaterra, financiando a Revolução Industrial, na medida em que o domínio comercial dos ingleses sobre a economia portuguesa era absoluto. Contudo, a partir da segunda metade do século XVIII, a produção aurífera começa a cair e as minas dão sinais de esgotamento.

Árcades mineiros

Não existiu, no Brasil, uma Arcádia, como em Portugal. Um vigoroso grupo intelectual – o “grupo mineiro” – destacou-se na arte literária e na prática política, participando ativamente da Inconfidência Mineira. Esse grupo, constituído por Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Inácio José de Alvarenga Peixoto, Manuel Inácio da Silva Alvarenga e outros intelectuais, foi desfeito de forma violenta, com a prisão, desterro ou morte de alguns poetas, à época da repressão política em torno do episódio da Inconfidência.

Bucolismo e poesia política

Cláudio Manuel da Costa foi o primeiro modelo e o mais forte de todos para os poetas mineiros. Influenciou significativamente Tomás Antônio Gonzaga, de quem era o “amigo mais velho”. Cláudio, considerado o mais árcade dos poetas do grupo, teve uma formação rigorosamente clássica. A sua poesia bucólica focaliza, sobretudo, a paisagem montanhosa de Minas Gerais. Alvarenga Peixoto, um dos poetas “ilustrados”, construiu uma obra bem marcada pelo seu aspecto político, em defesa da República, contra a guerra e em prol dos escravos. Silva Alvarenga, por sua vez, tem uma obra lírica plena de musicalidade.

Características do Arcadismo brasileiro

A tentativa de imitar o Arcadismo português, para dar à Colônia uma literatura tão sofisticada quanto aquela que se produzia na Metrópole, resultou na poesia refinada dos árcades mineiros.

Apego aos valores da terra

A simplicidade na poesia e a idéia de abolir as inutilidades (inutilia truncat) foram, também, objetivos dos árcades brasileiros. O ambiente peculiar oferecido pela localização geográfica do “grupo mineiro” fez brotar um nativismo que incorporou os valores da terra ao ideário da estética bucólica, em voga no Arcadismo. Emerge a natureza brasileira como pano de fundo para a poesia dos “pastores”.

Incorporação do elemento indígena

A valorização do índio foi importante no Arcadismo brasileiro: ele reflete o ideal do “bom selvagem”, tão caro aos iluministas (o pensamento de Rousseau baseado na premissa de que a natureza fez o homem feliz e bom, mas a sociedade o corrompe e o transforma). A incorporação do índio como elemento literário dará um colorido diferente do europeu ao Arcadismo brasileiro.

Sátira política

A redação e a circulação de manuscritos anônimos (as Cartas Chilenas) de nítida sátira política aos tempos difíceis da exploração portuguesa e à corrupção dos governos coloniais, foi elemento bem distinto do Arcadismo brasileiro. A tomada de consciência política do “grupo mineiro” foi sem precedentes na história do Brasil. Impulsionados pelo exemplo da independência norte-americana e da Revolução Francesa, todos os elementos componentes do grupo participaram da Conjuração Mineira, que acabou em 1789.

RESUMO: LIVRO A SANGUE FRIO

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A Sangue Frio (In Cold Blood, no original) é um livro escrito por Truman Capote e publicado em 1966. Relata o brutal assassinato de uma família na cidade de Holcomb, localizada no no interior do estado do Kansas, nos Estados Unidos da América, da idéia inicial do crime até a execução dos assassinos.

Enredo
Em 15 de novembro de 1959, quatro membros de uma respeitada família da pequena cidade de Holcomb, oeste do Kansas, foram assassinados. Herb Clutter, o patriarca da família, tinha 48 anos e era um fazendeiro muito estimado na comunidade. Bonnie Clutter, sua esposa, era três anos mais nova e sofria de “problemas psicológicos”. O casal vivia com os dois filhos mais novos, Kenyon e Nancy, ainda adolescentes. Os quatro foram amarrados e amordaçados (Herb também teve a garganta cortada); depois, foram mortos a tiros de espingarda.

O crime abalou a até então pacata cidade de apenas 270 habitantes. A polícia passou a procurar incansavelmente os criminosos, que haviam levado da casa apenas um rádio da marca Zenith, um par de binóculos e 40 dólares.

O livro descreve minuciosamente a reação dos moradores da cidade, a investigação policial e os passos dos criminosos durante a fuga, bem como a história pregressa dos mesmos. Poucos meses depois do crime, Richard Hickock e Perry Smith são presos pela chacina. Condenados à morte, em 14 de abril de 1965 eles são enforcados.

O trabalho de Capote
Truman Capote chegou a Holcomb um mês após o crime. Ele entrevistou familiares das vítimas e dos assassinos, recolheu documentos oficiais, leu cartas e diários, observou, assistiu ao enforcamento dos criminosos. O autor tornou-se bastante próximo de Perry Smith, com quem teria tido um relacionamento amoroso. Com as informações coletadas, o autor escreveu um “romance não-ficcional”, considerado a primeira obra do New Journalism.

Em 25 de setembro de 1965, a revista The New Yorker publicou o último dos quatro capítulos escritos por Capote sobre o assassinato da família Clutter. Batendo recordes de vendas da revista, em janeiro de 1966 o romance saiu em formato de livro.

Em 2005, o filme Capote, com Philip Seymour Hoffman (Vencedor do Oscar de melhor ator pela interpretação de Truman Capote) conta o desenvolvimento do livro como foco principal do filme.

Comentários

Milton Ayres
artista plástico

Quando li pela primeira vez “A Sangue Frio”, de Truman Capote, uns 25 anos atrás, não sabia muito bem do que se tratava. Era adolescente e gostava de ler livros policiais. Mesmo assim, lembro-me que fiquei bastante chocado ao saber que o crime descrito por Capote tinha realmente acontecido nos Estados Unidos duas décadas antes. Só isso.

Hoje, depois de assistir ao filme “Capote”, que retrata muito bem a personalidade e o estilo jornalístico-literário do escritor, e de reler sua obra-prima, consigo enxergar o livro de outra maneira. Confesso que no começo da leitura achei-o muito prolixo. Suas descrições beiravam o exagero. Mas todas as características da personalidade de Capote juntas (vaidade, inteligência, egocentrismo) fizeram com que seu livro pretensamente inaugurasse uma nova categoria literária, o romance jornalístico, e se tornasse um best-seller nos EUA.

Não podemos negar seu virtuosismo literário nem a maneira como ele descreve cada situação, cada personagem e cada cenário. O autor passa mais da metade do livro descrevendo os assassinos, as vítimas, as pessoas mais próximas a eles e as situações presentes e passadas relacionadas ao caso, antes de finalmente revelar como foi a tal execução a sangue frio. E após descrever o crime brutal, ele ainda passa mais um quarto do livro falando sobre a prisão e o processo criminal até finalmente chegar ao cumprimento da pena capital.

Há também um quê de análise psicológica e sociológica na obra. A descrição da personalidade dos criminosos, a análise do ambiente social em que foram criados e a influência negativa que receberam na prisão em contraponto com a vida pacata, regrada e honesta das vítimas cria a tensão psicológica necessária e a disputa entre o bem e o mal, imprescindíveis a um bom romance. Por fim, não menos importante que a documentação da história, é a questão da pena de morte, que, em função do tal relato detalhado, nos parece ser a única pena cabível.

Pesquisando posteriormente a vida do escritor, descobri nela similaridades com a vida do criminoso Perry Smith – família ausente, alcoolismo etc. Soube também do envolvimento que tiveram. Isso me fez tirar outras conclusões. É como se Truman Capote se identificasse com o bandido e tentasse expurgar todo seu lado ruim (o homossexualismo não aceito, a vaidade excessiva e o egocentrismo) através da danação do personagem criminoso. É como se ele próprio trilhasse os mesmos passos de Perry até o cadafalso para obter a redenção de seus pecados. Dizem que ele estava presente nas execuções e que chorou. E sabe-se também que depois deste livro ele não produziu mais nada de valor, entregou-se ao álcool e morreu. O que me leva a crer que, depois de vivenciar tudo isso tão intensamente, talvez tenha lhe faltado sangue frio suficiente para continuar vivendo.

Niara de Oliveira
Jornalista

Em torno de 80% dos livros que li na vida foram não ficção. O problema é entre todos escolher o melhor, o favorito. Mas posso apontar um que marcou especialmente.

Como já disse, sou muito óbvia e isso está ficando cada dia mais evidente no meu gosto literário. São poucos os jornalistas que tem gosto pela leitura e escrita que não tem A Sangue Frio de Truman Capote em suas estantes e memórias.

Me refiro não só ao novo estilo literário inaugurado, mas ao estímulo que essa obra de Capote é a todos os jornalistas que sonham (mesmo que secretamente) em se tornarem escritores. Ele provou que é possível escrever um romance não ficcional, baseado em fatos reais — precisamente e minuciosamente baseado em fatos reais.

Em 1959 o casal Herb e Bonnie Clutter vivia com os dois filhos mais novos, Kenyon e Nancy, ainda adolescentes, na pequena cidade de Helcomb no interior do estado do Kansas, EUA. Os quatro foram amarrados e amordaçados (Herb também teve a garganta cortada) e mortos a tiros de espingarda.

A brutalidade do crime impressiou tanto Capote que ele imediatamente começou a tentar convencer a revista The New Yorker a lhe enviar ao local para cobrir o impacto do crime sobre a pequena cidade e sua população. Para investigar e colher as informações e depoimentos que precisaria, levou junto sua amiga de infância Harper Lee. Eles chegaram a cidade um mês após o crime.

Quando os assassinos são capturados, julgados e condenados à morte, Capote passou a visitá-los na prisão e o que começou como um artigo de revista transforma-se no projeto de um livro que consumiu cinco anos e meio da vida de Capote. Ele chegou a pagar um advogado de defesa para recorrer das acusações e manter os réus vivos apenas para continuar escrevendo sua história.

Richard Hickock e Perry Smith (os criminosos) foram enforcados em 14 de abril de 1965 e em setembro o quarto capítulo In Cold Blood (título original) foi publicado e fez a The New Yorker bater recorde de vendas. Só em janeiro de 1966 o romance foi publicado em formato de livro.

O resultado não é apenas a obra-prima de Capote mas um dos melhores livros que já li, que, além de criar um gênero de literatura inteiramente novo fez dele o mais famoso escritor dos Estados Unidos.

Só li A Sangue Frio depois de formada, bem no finalzinho do século passado. Me achava incapaz de escrever uma crônica e colocar meus sentimentos num texto ou de contar qualquer outra história de uma forma que emocionasse as pessoas. Me resumia a relatos, reportagens de fatos onde tentava me manter o mais invisível possível atrás das palavras. Foi Truman Capote quem começou a mudar isso em mim.

FILME CAPOTE

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Capote é um filme estadunidense de 2005, do gênero drama biográfico, dirigido por Bennett Miller com Philip Seymour Hoffman no papel-título.

Sinopse

Em novembro de 1959, Truman Capote (Philip Seymour Hoffman) lê um artigo no jornal New York Times sobre o assassinato de quatro integrantes de uma conhecida família de fazendeiros em Holcomb, no Kansas. O assunto chama a atenção de Capote, que estava em ascensão nos Estados Unidos. Capote acredita ser esta a oportunidade perfeita de provar sua teoria de que, nas mãos do escritor certo, histórias de não-ficção podem ser tão emocionantes quanto as de ficção. Usando como argumento o impacto que o assassinato teve na pequena cidade, Capote convence a revista The New Yorker a lhe dar uma matéria sobre o assunto e, com isso, parte para o Kansas. Acompanhado por Harper Lee (Catherine Keener), sua amiga de infância, Capote surpreende a sociedade local com sua voz infantil, seus maneirismos femininos e roupas não–convencionais. Logo ele ganha a confiança de Alvin Dewey (Chris Cooper), o agente que lidera a investigação pelo assassinato. Pouco depois os assassinos, Perry Smith (Clifton Collins Jr.) e Dick Hickock (Mark Pellegrino), são capturados em Las Vegas e devolvidos ao Kansas, onde são julgados e condenados à morte. Capote os visita na prisão e logo nota que o artigo de revista que havia imaginado rendia material suficiente para um livro, que poderia revolucionar a literatura moderna.

Elenco

Philip Seymour Hoffman …. Truman Capote
Catherine Keener …. Nelle Harper Lee
Clifton Collins Jr. …. Perry Smith
Chris Cooper …. Alvin Dewey
Bruce Greenwood …. Jack Dunphy

Principais prêmios e indicações

Oscar 2006 (EUA)

Venceu na categoria de melhor ator (Philip Seymour Hoffman).
Indicado nas categorias de melhor filme, melhor diretor, atriz coadjuvante (Catherine Keener) e melhor roteiro adaptado.
BAFTA 2006 (Reino Unido)

Venceu na categoria de melhor ator (Philip Seymour Hoffman).
Indicado nas categorias de melhor filme, melhor roteiro adaptado e melhor atriz coadjuvante (Catherine Keener).
Bennett Miller foi indicado ao Prêmio David Lean pela direção.
Globo de Ouro 2006 (EUA)

Venceu na categoria de melhor filme estrangeiro.
Festival de Berlim (Alemanha)

Indicado ao Urso de Ouro.
Grande Prêmio Cinema Brasil 2007 (Brasil)

Indicado na categoria de melhor ator (Philip Seymour Hoffman).
Independent Spirit Awards 2006 (EUA)

Venceu na categoria de melhor ator (Philip Seymour Hoffman) e melhor roteiro.
Indicado na categoria de melhor fotografia e melhor produção.

Curiosidades

– Philip Seymour Hoffman perdeu cerca de 18 quilos para interpretar Truman Capote.
– Foi rodado em apenas 36 dias.
– Alguns dos guardas da prisão que são vistos em Capote trabalhavam realmente nesta função, no Headingley Correctional Center.
– Estreou nos cinemas americanos em 30 de setembro, data de nascimento de Truman Capote.
– O orçamento de Capote foi de US$ 7 milhões.

Ficha Técnica

título original:Capote
gênero:Drama
duração:1 hr 38 min
ano de lançamento: 2005
site oficial: http://www.capoteofilme.com.br
estúdio: United Artists / A-Line Pictures / Eagle Vision Inc. / Infinity Media / Cooper’s Town Productions
distribuidora: Sony Pictures Classics / United Artists / MGM / Buena Vista International
direção: Bennett Miller
roteiro: Dan Futterman, baseado em livro de Gerald Clarke
produção: Caroline Baron, Michael Ohoven e William Vince
música: Mychael Danna
fotografia: Adam Kimmel
figurino: Kasia Walicka-Maimone
edição: Christopher Tellefsen

O CULTIVO DO CACAU

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O CULTIVO DO CACAU

Resumo

O cacaueiro (Theobroma cacao L.) é uma espécie nativa americana que possui o seu centro de origem nas margens dos rios Amazonas e Orinoco. Foi introduzido na Bahia em 1746, no município de Canavieiras, e se tornou uma das principais culturas do estado, chegando a responder por cerca de 40% do PIB baiano, mas no fim da década de 80 a região foi atacada pelo fungo Crinipellis perniciosa, causador da doença Vassoura-de-Bruxa. O fungo encontrou na região condições ideais para o seu desenvolvimento e rapidamente se alastrou, conseguindo reduzir a produção, que chegou a 380.000 t/ano, para menos de 100.000 t/ano. A queda de produção fez com que o Brasil passasse de país exportador para país importador de cacau.

As instituições de pesquisa, principalmente a CEPLAC (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira), tiveram de buscar soluções para aumentar a produção das lavouras, e gerar plantas tolerantes à vassoura de bruxa. Os trabalhos de pesquisa realizados indicaram que a forma mais viável de combater a doença e elevar a produção das áreas era trabalhar a genética das plantas através de melhoramento, de cruzamentos e até mesmo em nível molecular (projeto genoma). Atualmente existem 10 clones lançados pela CEPLAC, para a substituição das áreas infectadas, que apresentam tolerância à vassoura de bruxa e produção superior aos cacaueiros convencionais. Estas plantas contribuíram para elevar a produção da região para cerca de 200.000 t no ano de 2001 e vêm apresentando sementes de características superiores àquelas que eram obtidas anteriormente.

CARACTERÍSTICAS GERAIS DO CACAU

O cacaueiro é uma planta estimulante, tropical, pertencente a família das Esterculiáceas, encontrada em seu habitat, nas Américas, tanto nas terras baixas, dentro dos bosques escuros e úmidos sob a proteção de grandes árvores, como em florestas menos exuberantes e relativamente menos úmidas, em altitudes variáveis, entre 0 e 1.000 m do nível do mar. Do fruto do cacaueiro se extraem sementes que, após sofrerem fermentação, transformam-se em amêndoas, das quais são produzidos o cacau em pó e a manteiga de cacau. Em fase posterior do processamento, obtém-se o chocolate, produto alimentício de alto valor energético. Envolvendo as sementes, encontra-se grande volume de polpa mucilaginosa, branca e açucarada, com a qual se produzem sucos, refrescos e geleias. Da casca extrai-se a pectina, que após simples processamento mecânico, se transformam em ração animal, ou ainda, por transformações biológicas, pode ser usada como fertilizante orgânico.

Introdução

A região sul da Bahia, região cacaueira, chegou a responder por 81% da produção nacional de cacau e a possuir mais de 700.000ha plantados, mas a partir do fim dos anos 80 a cultura entrou em declínio, pois houve a introdução da doença vassoura de bruxa, causada pelo fungo Crinipellis perniciosa, que associada a outros fatores como estiagens e o ataque severo da podridão parda acabaram por gerar a maior crise que a região conheceu. A crise trouxe diversas conseqüências, em sua grande maioria negativas, como o desemprego, a descapitalização da região, o êxodo rural, favelização, mas também trouxe conseqüências favoráveis como a diversificação da lavoura.

As instituições de pesquisa assumiram o desafio de criar soluções para reverter a atual situação da cacauicultura baiana, e atualmente existem os planos de recuperação da lavoura cacaueira que consistem na recuperação de todas as áreas de cacau a partir da “clonagem” dos cacaueiros, ou melhor através dos processos de enxertia e plantio de mudas enxertadas que apresentam tolerância a vassoura de bruxa e maior produtividade que os cacaueiros convencionais.

A CEPLAC (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira) através de suas estações experimentais como a ESARM (Estação Experimental Arnaldo Medeiros) avaliaram centenas de materiais quanto a características de tolerância a vassoura de bruxa e quanto à produtividade, atualmente existem 10 clones lançados (CEPEC 42, EET 397, TSA 654, TSA 656, TSH 774, TSH 516, TSH 565, TSA 792, TSH 1188 e VB 900). Esses materiais são mais exigentes quanto às condições de implantação e de manejo, e são essas condições que proporcionam ao material demonstrar todo o seu vigor e seu potencial produtivo. O objetivo deste trabalho é esclarecer quais os procedimentos ideais para a implantação e qual o manejo adequado que se deve dar às áreas “clonadas” para garantir uma boa produção.

Revisão de Literatura

“O cacaueiro (Theobroma cacao L.) é uma espécie nativa da floresta tropical úmida americana, sendo o seu centro de origem, provavelmente, as nascentes dos rios Amazonas e Orinoco” (Gramacho, 1992). Da região de origem o cacaueiro se expandiu por grande parte dos continentes e “atualmente, as principais regiões produtoras de cacau concentram-se na América, África e Ásia” (Dias,2001).

“Na Bahia, o cacaueiro foi introduzido em 1746, pelo colono francês Luiz Frederico Warneaux, que trouxe as sementes do Pará doando-as a Antonio Dias Ribeiro. Estas sementes foram plantadas por Antonio Dias Ribeiro na fazenda Cubículo, situada à margem direita do Rio Pardo, na época pertencente à Capitania de São Jorge dos Ilhéus, atualmente município de Canavieiras” (Gramacho, 1992).

Na região sul da Bahia o cacaueiro encontrou as condições ideais para o seu desenvolvimento, pois é uma planta típica de regiões quentes e úmidas. A Bahia, segundo Gramacho (1992), participou com cerca de 81% da produção nacional, já tendo possuído cerca de 700 mil hectares plantados com cacau, o que atualmente estima-se estar reduzido para cerca de 300 a 400 mil hectares. O cacau já respondeu por cerca de 40% das exportações e 50% das receitas do estado, constituindo-se como a principal cultura de exportação do estado, e uma das principais do país. Atualmente, “o Brasil é o quarto produtor mundial e tem o quinto maior parque chocolateiro do mundo” (Dias, 2001), já tendo chegado a segunda posição em termos de produção com 380 mil toneladas anuais, “sendo que nos dias de hoje, devido aos problemas causados principalmente pela vassoura de bruxa, não chega a 200 mil toneladas” (Sodré,2000).

“Desde 1987, o setor cacaueiro vem passando pela mais profunda crise de sua história. Os principais fatores que desencadearam foram os baixos preços recebidos pelo produto, o monocultivo, a presença da doença vassoura de bruxa na região sulbaiana” (Dias, 2001). Além disto “a ocorrência da podridão parda nos anos agrícolas 91/92 e 92/93, e o período de estiagem de 93-97 foram fatores que reduziram substancialmente a produtividade (…), resultaram na descapitalização dos produtores e conseqüentemente, na aplicação insuficiente de recursos para a manutenção da lavoura em padrões desejáveis” (Pinto, 1999).

“Dos fatores considerados, a vassoura de bruxa requer maior atenção por parte dos técnicos e produtores, pois o fungo Crinipellis perniciosa, agente causal da doença, encontrou na região sul da Bahia condições ideais para o seu desenvolvimento, provocando danos irreparáveis à lavoura” (Pinto, 1999).

Além das condições ambientais o fungo encontrou na região, uma gama de cacaueiros “comuns” e híbridos altamente suscetíveis, “salvo alguns híbridos que envolveram o clone Scavina ou aqueles derivados destes” (Pinto, 1999).

Como o controle cultural e químico não vem trazendo resultados econômicos satisfatórios, devido ao alto custo destas práticas e devido às baixas respostas em termos de produtividade, tem se buscado outros meios para garantir uma boa produtividade e a redução nos prejuízos causados por doenças, principalmente a Vassoura de Bruxa.

“Entende-se, pois que a resistência genética dos cacaueiros ao fungo Crinipellis perniciosa seja a forma mais desejável para o controle desta doença considerando que o melhoramento genético de qualquer cultivo é o modo mais econômico e eficiente para aumentar a produtividade, reduzir custos de controle de doenças e pragas, melhorar a qualidade do produto e por fim reduzir a relação custo/benefício do empreendimento. Dentre os procedimentos de melhoramento genético, o desenvolvimento de variedades “clonais” de cacau é o mais recomendado para respostas a curto prazo pois a propagação vegetativa permite a manutenção do valor reprodutivo integral do indivíduo, não ocorrendo meiose segregação ou recombinação gênica” (Pinto, 1999).

Materiais e Métodos

Este trabalho foi realizado na ESARM (Estação Experimental Arnaldo Medeiros), que se localiza no Centro de Pesquisas do Cacau (CEPEC), unidades pertencentes a CEPLAC (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira), localizado na Rodovia Ilhéus-Itabuna, Km 22, no município de Ilhéus.

A ESARM possui uma área de 344ha dedicados a trabalhos de “clonagem”, produção de mudas de cacau, produção de sementes com melhoramento genético e áreas destinadas à produção de hastes para enxertia (jardins clonais). Além do trabalho de pesquisa, esta é uma área de produção, de demonstração para aulas e cursos práticos, e área onde são plantados e testados os novos materiais (clones) que poderão ser lançados para os produtores. Um exemplo de materiais lançados pela a ESARM são os clones TSH 1188 e TSH 516 que apresentam frutos maiores, produção precoce e frutos de coloração avermelhada.

Implantação e Manejo de Áreas Clonadas

1. Obtenção de Mudas para a produção de porta-enxertos

As mudas utilizadas como porta-enxerto para a produção, futura, de material tolerante à Vassoura de Bruxa ou até mesmo de material mais produtivo foram obtidas a partir de sementes provenientes de frutos selecionados. Os frutos foram selecionados de variedades que possuam características desejáveis e, também, de acordo com as suas características, como: tamanho, número e peso das sementes.

Os frutos coletados foram quebrados, e a mucilagem das sementes retirada a partir da adição de serragem e, pelo atrito das sementes a uma mesa telada. Após esse processo às sementes foram plantadas em primeira instância num substrato de serragem, logo após a germinação foram transplantadas em saco de polietileno contendo um substrato adequado (terriço adubado) e mantidas num viveiro por cerca de 4 meses.

2. Obtenção de hastes para enxertia

As hastes foram obtidas no jardim clonal da própria ESARM, este material foi recolhido no início da manhã, quando encontrava-se ainda bastante túrgido, estas hastes foram levadas para o local de preparo, onde são desfolhadas, embaladas em jornais umedecidos para melhor conservação e levadas para o local de enxertia (viveiro ou campo). As hastes têm que ser identificadas de acordo com a procedência para que o enxerto seja feito de maneira correta.

3. Enxertia

A enxertia de cacaueiros pode ser realizada a partir de 2 processos, o primeiro consiste na enxertia de mudas em viveiro para posterior plantio a campo, a segunda consiste na enxertia de cacaueiros a campo (em brotos basais), ou seja, cacaueiros já formados que são utilizados para a recuperação da área.

A enxertia é um processo constituído de várias etapas, como:

3.1. Tipo de enxertia

Foram realizados 2 tipos de enxertia neste período, enxertia por borbulhia e enxertia por fenda cheia.

Pelo método de borbulhia foi retirada uma placa em forma de U do material a ser enxertado e adicionado no porta enxerto que já havia sido preparado, também retirando-se, com o canivete, uma placa em forma de U de aproximadamente mesmo tamanho, esta borbulha retirada do material a ser enxertado tem de conter uma gema foliar, viável, de onde surgirá a nova brotação (Fig. 02), a borbulha é amarrada à muda por um fitilho. Este método tem apresentado índices de pegamento de cerca de 80%.

Pelo método de fenda cheia outros detalhes têm de ser observados, como a compatibilidade do tamanho, em diâmetro, entre a muda e o porta enxerto para que haja a soldadura perfeita entre porta-enxerto/enxerto. Neste processo foi feito o corte de 15-20cm de altura na muda e até 25cm em brotos utilizando uma tesoura de poda e com o canivete abre-se uma fenda de aproximadamente 5cm no porta enxerto onde insere-se a haste já cortada sob forma de cunha (Fig. 03) amarrando-os com um fitilho, além disso deve-se fazer a proteção do enxerto com um saco plástico para conservar a água perdida por transpiração, formando assim uma câmara úmida (Fig. 04) que só deve ser retirada de 15 a 30 dias após o enxerto quando este apresentar sinais de cicatrização. O índice de pegamento deste método é de 80-90%.

4. Preparo da área para plantio

4.1. Preparo de área para o plantio de mudas enxertadas

Para que fossem plantadas as mudas “clonadas” a área teve de sofrer algumas modificações de modo que as mudas tivessem um desenvolvimento ideal, os processos realizados foram:

4.1.1. Raleamento de sombra

A área apresentava excesso de árvores de grande porte que causavam um sombreamento excessivo para o desenvolvimento das plantas, logo foi necessário à retirada de algumas dessas árvores com a finalidade de que houvesse maior penetração de luz solar.

4.1.2. Limpeza da área

A limpeza foi feita para a retirada dos restos das árvores cortadas, retirada de mato e ervas daninhas através de roçagem e destoca para a retirada de tocos e raízes das árvores.

4.1.3. Drenagem

Foram abertas valetas para a drenagem do excesso de água pluvial, evitando-se assim alagamento e possíveis comprometimentos da cultura.

4.1.4. Balizamento

Foi realizado o balizamento da área, utilizando-se cordas, piquetes de madeira e fita métrica, para fazer a marcação do terreno com a finalidade de que as plantas fossem dispostas de maneira correta facilitando o desenvolvimento e o manejo das plantas. O balizamento foi realizado tomando-se por base o espaçamento 3,0 x 3,0m, que segundo estudos da CEPLAC é o que apresenta melhor resultado quanto ao desenvolvimento e produção, o “stand” formado ao fim do processo é de 1.111 plantas/ha.

4.1.5. Abertura de covas

As covas foram abertas nas dimensões 0,40 x 0,40 x 0,40 m, com inversão do solo, da camada inferior para a superfície. Foi realizada adubação com 200g por cova da formula A – 11 – 30 –17 porcento de N, P2O5 e K2O respectivamente. Este procedimento é o que vem apresentando melhores resultados, pois aumenta a área a ser explorada pelo sistema radicular e permite um melhor desenvolvimento das plantas.

5. Preparo de área para enxertia em cacaueiros adultos

Para a formação de áreas “clonadas” a partir de uma área já estabelecida, não há grandes diferenças em relação à formação de áreas para plantios de mudas. Para a formação de uma área “clonada” a partir de uma área já existente foram realizados os seguintes processos:

•Raleamento de sombra
•Limpeza da área
•Limpeza das plantas- para a retirada de ramos, frutos e folhas atacados por vassoura de bruxa e outras doenças.
•Aplicação de uréia-100g/planta 60 dias antes da enxertia, para dar maior vigor à planta
•Enxertia- principalmente por fenda cheia
•Recepa- corte da planta velha, deixando-se apenas a planta enxertada, após 4 a 6 meses da realização da enxertia quando o enxerto já apresenta um bom desenvolvimento (Fig. 05).
6. Manejo de cacaueiros clonados

Os cacaueiros “clonados” são altamente exigentes em relação a manejo, exigindo cuidados especiais em todos os estágios de seu desenvolvimento.

6.1. Retirada da câmara úmida

A câmara úmida foi retirada entre 15 e 30 dias após a realização da enxertia, para retirar a câmara úmida fez-se primeiro a retirada do fitilho que a amarrava e só após 24 horas fez-se à retirada do saco plástico.

6.2. Retirada do Amarrio

O amarrio utilizado foi retirado quando os tecidos apresentaram sinais de soldadura, pois caso não seja retirado pode causar o estrangulamento dos tecidos devido à ausência de circulação de seiva.

6.3. Controle de pragas e doenças

O controle de pragas e doenças é de fundamental importância para garantir o desenvolvimento adequado das plantas. O cacau é altamente susceptível ao ataque de doenças e de determinadas pragas, principalmente quando se apresentam jovens e tenros. As principais pragas que atacam os cacauais nesta região são formigas, monalonium, tripes, vaquinhas que foram controladas pela utilização de inseticidas como o Decis (0,13%), Thiodam (0,2%) de forma manual com o auxílio do pulverizador costal, além da utilização de formicidas.

Quanto às doenças as que mais atacam são a vassoura de bruxa, podridão parda e a antracnose, para o controle destas doenças foram utilizados, além da catação e retirada manual das partes infectadas, produtos como o Dithane (0,6%), Benlat (0,2%), Manzat e Peprosan que são aplicados com uso de pulverizadores costais manuais.

6.4. Controle de plantas invasoras

Para o controle das plantas invasoras foram usados o Round up (glifosate), na concentração de 50ml para cada 10 litros de água, e o Gramocil (diuron + paraquat), na mesma concentração, de maneira alternada. A depender da espécie invasora pode-se utilizar estes produtos em concentrações maiores como 100ml para cada 10 litros de água . Este procedimento foi utilizado para o combate da espécie Zebrina pendula que estava atacando os cacauais recém enxertados daquela área.

6.5. Podas

As podas são práticas simples que podem ser realizadas apenas com a utilização de tesoura de poda, serrote de poda. Foi realizada a poda em cacaueiros de diversas idades, desde aqueles recém enxertados até aqueles já em fase produtiva.

6.5.1 Poda de formação

A poda de formação foi realizada no intuito de dar a planta já os primeiros sinais de como deve ser sua conformação, pois os cacaueiros “clonados” têm a característica de possuir um porte menor que os cacaueiros convencionais, devendo portanto possuir uma boa conformação. As podas de formação foram realizadas logo quando as plantas começam brotar, ou seja, faz-se à disposição correta dos ramos desde o início da sua formação, devendo-se tomar o cuidado de não retirar demais as folhas e ramos, pois isso pode retardar o desenvolvimento. Normalmente os cacaueiros clonados devem ser conduzidos de maneira a ficar sob forma de meia-taça (Fig. 06).

6.5.2. Poda de limpeza

A poda de limpeza foi realizada em cacaueiros enxertados que já apresentavam uma determinada altura, esta poda foi realizada no intuito de retirar ramos mal formados, ramos “piolhos” (sem função produtiva), ramos que se apresentam voltados para o centro da planta ou aqueles que estivessem, indo ao encontro do outro ou a ramos de plantas vizinhas.

6.5.3. Poda de frutificação

A poda de frutificação é uma poda de limpeza que foi realizada próxima a época de floração para garantir que a planta estivesse direcionando todo o seu potencial para a produção de flores que se traduzirão em maior produtividade.

6.6. Polinização Artificial

A polinização artificial é realizada para garantir uma boa produtividade, pois além da tolerância a doenças os “clones” apresentam alto potencial produtivo, contudo há problemas quanto à compatibilidade sexual entre alguns desses (ANEXO I). Para realizar a polinização artificial foram utilizados os seguintes materiais:

•Tubos plásticos de aproximadamente 5cm de altura com uma das extremidades vedadas com gaze e um pedaço de câmara de ar que foi utilizado para fixar o tubo à planta com o auxílio de alfinetes.
•Alfinetes- para fixar o tubo a planta.
•Pinça- para retirar o pólen da flor masculina e depositar na flor feminina.
•Fitas – para identificar o cruzamento realizado
•Isopor- para o transporte das flores
O processo de polinização, começa na véspera, quando devem ser identificadas as flores que serão fecundadas no dia seguinte. Essas flores apresentam-se ainda fechadas, mas já entumescidas indicando que irão abrir no dia seguinte. Após a identificação as flores foram protegidas com tubo plástico .

No dia seguinte foi realizada a coleta das flores que serviram como doadoras de pólen, e estas foram acondicionadas em isopor. As flores doadoras de pólen foram levadas até a flor receptora, retirou-se a proteção plástica desta, foi feito o corte dos estames e dos estaminóides com a pinça e com a mesma retirou-se à antera da flor doadora e fez-se o contato da antera com o estigma da flor receptora. Esta flor foi identificada, com alfinetes, para caracterizar a polinização e qual o cruzamento realizado.

Resultados e Discussão

Os clones são materiais de grande potencial econômico e vêm apresentando resultados importantes , não só em relação à redução do ataque da vassoura por unidade de área, mas sim diversas outras características como o aumento de produtividade, melhoria das características dos frutos e principalmente das sementes.

Os resultados obtidos na ESARM quanto à redução da incidência da Vassoura de bruxa são: redução do número de lançamentos na área, ou seja, as plantas selecionadas (clones) devem ser tolerantes ao ataque da vassoura de bruxa, sendo pouco infectadas, o que vem garantindo uma redução na pressão de inóculo sobre as áreas, já que os frutos ainda não apresentam tolerância ao ataque desta doença.

Quanto à produtividade os resultados alcançados dependem fundamentalmente das condições de implantação e manejo que é dada a área, pois as plantas clonadas são altamente exigentes em manejo para que possam expressar o seu potencial. As produtividades que vêm sendo alcançadas nas áreas clonadas (Quadro 1).

Quadro 1 – Produtividade alcançada em áreas clonadas (@/ha/ano)


As áreas implantadas a partir de brotos basais apresentam resultados mais rápido devido à utilização de todo o sistema radicular da planta adulta enxertada.

A ESARM já chegou a alcançar uma produção de, aproximadamente, 20.000@, antes do ataque da vassoura de bruxa. No ano de 2000 a produção alcançada foi de pouco mais de 600@ e este ano, quando parte da área clonada começou a aumentar sua produção, a estação alcançou uma produção de cerca de 2.800@, o que indica que com o passar dos anos e aumento da área clonada a produção tenderá a subir.

Além das características de tolerância à vassoura de bruxa e aumento de produtividade os cacaueiros clonados vêm apresentando resultados importantes quanto ao aumento de qualidade e da quantidade dos frutos e de sementes. Os principais resultados obtidos na ESARM , atualmente, quanto ao aumento destas características, são:

•Número de frutos: depende do porte da planta (Fig. 08)
•plantas de porte pequeno: > 50 frutos por planta
•plantas de porte médio: > 80 frutos por planta
•plantas de porte grande: > 130 frutos por planta (Fig. 09)
•Número de sementes por fruto: > 40
•Peso seco de uma semente: > 1 grama
•Tamanho do fruto: médio a grande
•Espessura da casca: quanto mais fina melhor
Todas essas características são de fundamental importância para o produtor, pois atualmente com a utilização dos cacaueiros “clonados”, os custos de produção aumentaram cerca de 30%, pois os custos de implantação e manejo são mais elevados, o que obriga os produtores a obterem um produto final de melhor qualidade, principalmente quando este produto é destinado à exportação.

Cultivares

Clones

Selecionados em regiões cacaueiras do Estado da Bahia, introduzidos de outras regiões cacaueiras, nacionais ou estrangeiras, adaptados às condições de solo e clima baianos.

Híbridos

Provenientes de cruzamentos interclonais entre cacaueiros dos grupos Amazônico e Trinitário.

Clima

Latitude entre 22° N e 22° S. Adapta-se bem regiões com temperaturas médias superiores a 21°C. Tolera por curto espaço de tempo, temperaturas mínimas próximas a 7°C, durante os meses mais frios do ano, porém pode ocorrer injúria nas sementes, resultando em um produto final de qualidade inferior. Exige precipitações pluviométricas superiores a 1.300 mm anuais, bem distribuídos ao longo do ano, como na região litorânea e Vale do Ribeira e grande parte do planalto paulista. Regiões com deficiência hídrica superior a 100 mm anuais não são indicadas à exploração econômica da cacauicultura.

Solos

Devem ser profundos e bem drenados. Na região litorânea, os mais indicados são os latossolos vermelho-escuro, o prodizólico vermelho-amarelado e solos aluviais de boa fertilidade natural. No planalto paulista, os prodizolizados de Lins e Marília var. Marília, e os latossolos roxos.

Época de plantio

Sementes em viveiro – setembro a abril.
Mudas no campo – praticamente o ano todo, na região litorânea e vale do Ribeira. No planalto paulista, de outubro a março.

Espaçamentos

Diversos, em função da fertilidade do solo e dos objetivos da exploração econômica, podendo variar entre 1.000 a 2.000 plantas/hectare.

Controle da erosão

Plantio em nível, nas encostas.

Mudas necessárias

Entre 1.000 e 2.000, em função dos espaçamentos adotados.

Calagem

De acordo com a análise de solo, elevar o índice de saturação por bases para 50%.

Adubação de plantio

60 dias antes do plantio, incorporar por cova, 2 a 4 litros de esterco de galinha ou 10 a 20 litros de esterco de curral curtido, 1 Kg de calcário dolomítico ou magnesiano, 100 g de P2O5, 02 a 60 Kg/ha de K2O e até 4 Kg/ha de Zn. Acrescentar, em cobertura, 4 aplicações de 10 g de N/planta, de dois em dois meses.

Adubação de formação

Aplicar em cobertura ao redor das plantas, em três parcelas no período das chuvas, de acordo com a idade das plantas e a análise de P e K no solo em gramas por planta: no 1º ano,40 g de N, 20 a 60 g de P2O5 e 20 a 60 g de K2O; no 2º ano, 80 g de N, 30 a 90 g de P2O5 e 30 a 90 g de K2O; no 3º ano, 120 g de N, 40 a 120 g de P2O5 e 40 a 120 g de K2O.

Adubação de produção

Aplicar de acordo com a análise de solo, 50 Kg/ha de N, 30 a 90 Kg/ha de P2O5, 20 a 60 Kg/ha de K2O e até 4 Kg/ha de Zn, parcelados em três vezes, e aplicados em cobertura, nos meses de outubro, dezembro e março.

Outros tratos culturais

Roçadas, para manter a cultura limpa; desbrotas, para eliminar ramos ladrões; podas, para dar forma a planta e facilitar os tratos culturais e as colheitas.

Arborização

Em matas virgens, proceder ao raleamento parcial da área deixando as espécies arbóreas desejáveis para apropriar 40% de sombra à plantação. Em terrenos desbravados, arborear com as seguintes espécies de utilização temporária própria como bananeira-prata, bananeira-nanicão, Thephrosia candida DC ou Leucaena glauca Benth., em associação com as espécies permanentes, com farinha-seca (Ptecellobium edwallii), para sombreamento, e Grevillea robusta A. Cunn. ou jaqueira (Artocarpus integrifolia L. f. Moraceae) para quebra vento.

Controle de pragas e doenças

Efetuar controle sistemático às formigas quenquém e saúva, com produtos específicos. No controle a outros insetos, principalmente tripes, vaquinhas, percevejos e lagartas, empregar deltamethrin, malathion, trichlorfon ou carbaryl. Controle preventivo das doenças fúngicas: podridão-parda (Phytophthora spp.) – acefato de trifenil estanho, hidróxido de trifenil e estanho e fungicidas cúpricos; podridão-morena (Botryodiplodina theobromae) – fungicidas cúpricos; e antracnose (Colletotrichum gloeosporioides) – mancozeb e cúpricos.

Colheita

Inicia-se a partir do 2º ano. Do 2º ao 4º ano, os frutos podem ser colhidos praticamente durante o ano todo. A partir do 5º ano, as colheitas são feitas em dois períodos: safra (novembro a fevereiro) e temporão (abril a agosto).

Produtividade normal

A partir do 7º ano, 1.200 a 1.500 Kg/ha

CACAU E CHOCOLATE

O mundo civilizado só tomou conhecimento da existência do cacau e de chocolate depois que Cristóvão Colombo descobriu a América. Até então, eram privilégio dos Índios que viviam no Sul do México, América Central e bacia amazônica, onde o cacau se desenvolvia naturalmente em meio à floresta. Hoje, quase 5 séculos depois, derivados do cacau são consumidos em muitas formas, em quase todos os países, e fazem parte da vida do homem moderno. Estão presentes em todos os lugares: nas mochilas dos soldados e nas bolsas dos estudantes, em barras de chocolate de alto valor nutritivo; nos salões de beleza mais sofisticados, nas formas mais variadas de cosméticos; e nas reuniões sociais, através de vinhos e licores. Seus resíduos são utilizados como adubo e ração para os animais.

Saindo da floresta amazônica para conquistar o mundo, o cacau percorreu um longo caminho. Sua história cercada de lenda, está marcada por episódios curiosos, foi usado pelos Astecas, como moeda, provocou discussão entre os religiosos sobre o seu uso nos conventos devido às suas supostas propriedades afrodisíacas e, por muito tempo, foi uma bebida exclusiva das mais faustosas cortes da Europa. Suas sementes, levadas para outras regiões e continentes, formaram grandes plantações que, hoje, representam importante fonte de trabalho e renda para milhões de pessoas.

Valor Energético do Chocolate

O chocolate é o alimento melhor balanceado que existe, contendo uma associação bem equilibrada de cacau, leite e açúcar. Devido ao seu alto índice de carboidratos e gordura, o chocolate apresenta taxas de proteínas bastante apreciável. Um tablete de 100 gramas corresponde a 6 ovos ou 3 copos de leite ou 220 gramas de pão branco ou 750 gramas de peixe ou 450 gramas de carne bovina.

Um tablete de 100 gramas de chocolate ao leite contém:

USO MÚLTIPLO DO CACAU

Muito além do Chocolate

Cacau lembra chocolate. Sempre foi assim, desde os astecas, que em suas cerimônias religiosas incluíam o Chocolate. Agora, do fruto do cacaueiro começa a se industrializar também o suco de cacau, a partir da extração da sua polpa. Com a polpa de cacau pode se fazer ainda geléias, destilados finos, fermentados – a exemplo do vinho e do vinagre – e xaropes para confeito, além de néctares, sorvetes, doces e uso para iogurtes. Existe mercado amplo e imediato, principalmente para o suco de cacau, tanto no país como no exterior.

Pesquisa dá Lucro

Pesquisas desenvolvidas pelo MA/CEPLAC começam a gerar, recentemente, tecnologias capazes de otimizar a produção cacaueira, através do aproveitamento integral dos subprodutos e resíduos da pós-colheita. Este programa, além de contribuir para diversificar a receita das propriedades rurais, pode resultar em incremento significativo da renda líquida do produtor de cacau, tornando-o menos dependente das flutuações do mercado externo, que regula o preço do produto.

Semente Vale Ouro

O cacaueiro sempre foi cultivado para dele aproveitar-se apenas as sementes de seus frutos, que são a matéria-prima da indústria chocolateira. As sementes secas representam no máximo 10% do peso do fruto do cacaueiro. Apenas recentemente é que os 90% restantes começaram a despertar o interesse dos produtores, a partir de estudos desenvolvidos por técnicos do MA/CEPLAC. Uma tonelada de cacau seco, por exemplo, representa 400 a 425 Kg de polpa integral.

A casca também tem uso

A casca do fruto do cacaueiro, também pode ter aproveitamento econômico, conforme atestam pesquisas de técnicos do MA/CEPLAC. Ela serve para alimentar bovinos, tanto in natura como na forma de farinha de casca seca ou de silagem, como também para suínos, aves e até peixes. A casca do fruto do cacaueiro pode ainda ser utilizada na produção de biogás e biofertilizante, no processo de compostagem ou vermicompostagem, na obtenção de proteína microbiana ou unicelular, na produção de álcool e na extração de pectina. Uma tonelada de cacau seco produz 8 toneladas de casca fresca.

Um sabor exótico

O suco de cacau possui sabor bem característico, considerado exótico e muito agradável ao paladar, assemelhando-se ao suco de outras frutas tropicais, como o bacuri, cupuaçu, graviola, acerola e taperebá. É fibroso e rico em açúcares (glicose, frutose e sacarose) e também em pectina. Em termos de proteína e de algumas vitaminas, é equivalente aos sucos de acerola, goiaba e umbu. Algumas das substâncias que compõem o suco de cacau lhe conferem uma alta viscosidade e aspecto pastoso.

Literatura Citada:

DIAS, L.A.S. 2001. Cacau- Melhoramento genético. FUNAPE-UFG. Viçosa, MG. 578p.

GRAMACHO, I da C.P, Et al, 1992. Cultivo e beneficiamento do cacau na Bahia. CEPLAC, Ilhéus, Ba, 124p.

PINTO, L.R.M.; PIRES, J.L., 1998. Seleção de plantas de cacau resistentes à Vassoura-deBruxa. CEPLAC/CEPEC. Boletim Técnico 181. Ilhéus, Ba, 35p.

PINTO, L.R.M. Et al, 1999. Manejo de cacaueiros clonados. CEPLAC/CENEX. Ilhéus, Ba, 60p.

ROSA, I de S. 1998. Enxertia de cacaueiro. CEPLAC/SUBES/CEPEC. Ilhéus, Ba, 42p.

SODRÉ, G.A. Cultivo do cacaueiro. (No prelo)

CERRADO BRASILEIRO

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INTRODUÇÃO

O CERRADO brasileiro era desconhecido e pouco explorado há trinta anos. Estando presente em 13 Estados brasileiros e no Distrito Federal. É o segundo maior bioma brasileiro, tendo a maior biodiversidade da América do Sul, superado apenas pela Amazônia.

Como se não bastasse, no cerrado encontram–se nascente de cinco grandes bacias hidrográficas brasileiras: Amazônica, Tocantins-Araguaia, Atlântico Norte-Nordeste, São Francisco, Atlântico-Leste e Paraná-Paraguai. Na Estação Ecológica de Águas Emendadas, situada no Distrito Federal, dá-se o encontro da bacia do Tocantins-Araguaia com a do Paraná-Paraguai, duas grandes bacias hidrográficas da América Latina. Todo este rico Patrimônio é recurso natural.

Localizado basicamente no Planalto Central do Brasil e uma pequena porção representada no Sul do Brasil, estado do Paraná, município de Jaguariaíva. O bioma é caracterizado por tipos específicos de vegetação, como a caatinga, o cerrado entre outros. É cortado por três das maiores bacias hidrográficas da América do Sul, com índices pluviométricos regulares que lhe propiciam biodiversidade Ocupa uma área superior a 2milhões de km², cerca de 24% do território brasileiro, abrangendo os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Piauí, o Distrito Federal, Tocantins e parte dos estados da Bahia, Ceará, Maranhão, São Paulo, Paraná e Rondônia.

Ocorre também em outras áreas nos estados de Roraima, ocorre também em outras áreas nos estados de Roraima, Pará, Amapá e Amazonas.

A Ocupação do Cerrado

O precursor do processo de ocupação do Brasil central, no século XVII, foi o interesse por ouro e pedras preciosas. Pequenos povoados, de importância inexpressiva, foram sendo formados na região que vai de Cuiabá a oeste do triângulo mineiro, e ao norte da região dos cerrados, nos estados de Tocantins e Maranhão. Contudo, foi somente a partir da década de 50, com o surgimento de Brasília e de uma política de expansão agrícola, por parte do Governo Federal, que iniciou uma acelerada e desordenada ocupação da região do cerrado, baseada em um modelo de exploração feita de forma fundamentalmente extrativista e predatória. A explosão agrícola sobre o cerrado deparou-se com uma região de solos,

caracteristicamente, com baixos teores nutricionais e ácidos.Estes, na maioria dos casos, não submetidos a qualquer trato cultural e ainda expostos a ciclos periódicos de queimadas, em poucos anos tornavam-se inviáveis para a produção a nível comercial. Esta situação iniciava um processo migratório das lavouras em busca de novas áreas de plantio. Comportamentos como estes podem ainda ser observados entre os pequenos produtores na região do cerrado. O desmatamento, para a retirada de madeira e produção de carvão vegetal, foi, e ainda são atividades que antecederam e “viabilizaram” a ocupação agropecuária do cerrado. Juntamente com o aumento das atividades agropastoris, o acelerado ritmo do processo de urbanização na região, no período de 1970-1991 houve um incremento demográfico de 93% na região dos cerrado, também tem contribuído para o aumento da pressão sobre as áreas ainda não ocupadas do cerrado. Estima-se que atualmente cerca de 40% da área do cerrado já perderam a cobertura original, dando lugar a diferentes paisagens antrópicas.

AREA DE DISTRIBUIÇÀO:

Estima-se que a área do Domínio do Cerrado tenha aproximadamente 1,5 milhões de km2. Se adicionarmos as áreas periféricas, que se acham encravadas em outros domínios vizinhos e nas faixas de transição, aquele valor poderá chegar a 1,8 ou 2,0 milhões de km2.

O cerrado brasileiro é reconhecido como a savana mais rica do mundo em biodiversidade com a presença de diversos ecossistemas, riquíssima na flora com mais de 10.000 espécies de plantas, como a aroeira, o buriti, a peroba, o pau-de-tucano e o pequi. Mais de 233 espécies de orquídeas florescem apenas no Distrito federal.

Vegetação

Extensos chapadões, cobertos por uma vegetação de pequenas árvores retorcidas, dispersas em meio a um tapete de gramíneas – o cerrado. Durante os meses quentes de verão, quando as chuvas se concentram e os dias são mais longos, tudo ali é muito verde. No inverno, ao contrário, o capim amarelece e seca; quase todas as árvores e arbustos, por sua vez, trocam à folhagem por outra totalmente nova. Mas não o fazem todos os indivíduos a um só tempo, como nas caatingas nordestinas. Enquanto algum ainda mantém suas folhas verdes, outros já as apresentam amarelas ou pardas, e outros já se despiram totalmente delas. Assim, o cerrado não se comporta como uma vegetação caducifólia, embora cada um de seus indivíduos arbóreos e arbustivos o sejam, porém independentemente uns dos outros. Mesmo no auge da seca, o cerrado apresenta algum verde no seu estrato arbóreo – arbustivo. Suas espécies lenhosas são caducifólias, mas a vegetação como um todo não.


Ipê-amarelo-cascudo (Tabebuia chrysotricha), árvore típica do cerrado.

Com uma extensão de mais de 8,5 milhões de km2, distribuídos por latitudes que vão desde aproximadamente 5º N até quase 34º S, o espaço geográfico brasileiro apresenta uma grande diversidade de clima, de fisiografia, de solo, de vegetação e de fauna.Sem dúvida, a existência daquela grande diversidade de condições ambientais, as quais criaram isolamentos geográficos e/ou ecológicos possibilitaram assim o surgimento de taxa distinto ao longo da evolução.Assim, no espaço do Domínio do Cerrado, nem tudo que ali se encontra é Bioma de Cerrado. Veredas, Matas Galeria, Matas Mesófilas de Interfluvio, são alguns exemplos de representantes de outros tipos de Bioma, distintos do Cerrado, que ocorrem em meio àquele mesmo espaço.

O Cerrado apresenta-se como um mosaico de formas fisionômicas, ora manifestando-se como campo sujo, ora como cerradão, ora como campo cerrado, ora como cerrado senso stricto ou campo limpo. Quando percorremos áreas de cerrado, em poucos km podemos encontrar todas estas diferentes fisionomias. Este mosaico é determinado pelo mosaico de manchas de solo pouco mais pobres ou pouco menos pobres, pela irregularidade dos regimes e características das queimadas de cada local (freqüência, época, intensidade) e pela ação humana. Assim, embora o Bioma do Cerrado distribua-se predominantemente em áreas de clima tropical sazonal, os fatores que aí limitam a vegetação são outros: a fertilidade do solo e o fogo.De um modo geral, podemos distinguir dois estratos na vegetação dos Cerrados: o estrato lenhoso, constituído por árvores e arbustos, e o estrato herbáceo, formado por ervas e subarbustos. A vegetação arbórea e arbustiva impressiona, pois possuem troncos e ramos tortuosos cobertos com uma cortiça grossa, as folhas são geralmente grandes e rígidas. O sistema subterrâneo, dotado de longas raízes, permite a estas plantas atingir 10, 15 ou mais metros de profundidade, abastecendo-se de água em camadas permanentemente úmidas do solo, até mesmo na época seca.Já a vegetação herbácea e subarbustiva, formada também por espécies predominantemente perenes, possui órgãos subterrâneos de resistência, como bulbos, xilopódios, sóboles, etc., capazes de armazenar água e nutrientes, possuem estruturas que podem ser interpretadas como algumas das adaptações dessa vegetação que lhes garantem sobreviver à seca e ao fogo, protegendo-as da destruição e capacitando-as para rebrotar após o fogo. Suas raízes são geralmente superficiais, indo até pouco mais de 30cm. Os ramos aéreos são anuais, secando e morrendo durante a estação seca.As savanas do Brasil destacam-se como unidades fitofisionômicas pela sua grande expressividade quanto ao percentual de áreas ocupadas. Dependendo do seu adensamento e condições edáficas, podem apresentar mudanças diferenciadas denominadas de Cerradão, Campo Limpo e Cerrado, entremeadas por formações de florestas, várzeas, campos rupestres e outros.

CLIMA e HIDROGRAFIA

O clima predominante no Domínio do Cerrado é o Tropical sazonal, de inverno seco. A temperatura média anual fica em torno de 22-23ºC, sendo que as médias mensais apresentam pequena estacionalidade. As máximas absolutas mensais não variam muito ao longo dos meses do ano, podendo chegar a mais de 40ºC.Já as mínimas absolutas mensais variam bastante, atingindo valores próximos ou até abaixo de zero, nos meses de maio, junho e julho. A ocorrência de geadas no Domínio do Cerrado não é fato incomum, ao menos em sua porção astral. Em geral, a precipitação média anual fica entre 1200 e 1800 mm. Ao contrário da temperatura, a precipitação média mensal apresenta uma grande estacionalidade, concentrando-se nos meses de primavera e verão (outubro a março), que é a estação chuvosa.

Curtos períodos de seca, chamados de veranicos, podem ocorrer em meio a esta estação, criando sérios problemas para a agricultura. No período de maio a setembro os índices pluviométricos mensais reduzemse bastante, podendo chegar a zero.Disto resulta uma estação seca de 3 a 5 meses de duração. No início deste período a ocorrência de nevoeiros é comum nas primeiras horas das manhãs, formando-se grande quantidade de orvalho sobre as plantas e umidecendo o solo. Já no período da tarde os índices de umidade relativa do ar caem bastante, podendo baixar a valores próximos a 15%, principalmente nos meses de julho e agosto.Água parece não ser um fator limitante para a vegetação do cerrado, particularmente para o seu estrato arbóreo-arbustivo.Como estas plantas possuem raízes profundas, atingindo camadas de solo permanentemente úmidas, mesmo na seca, elas dispõem sempre de algum abastecimento hídrico. No período de estiagem, o solo se desseca realmente, mas apenas em sua parte superficial ( 1,5 a 2 metros de profundidade).Conseqüência disto é a deficiência hídrica apresentada pelo estrato herbáceo-subarbustivo, cuja parte epigéia se desseca e morre, embora suas partes hipogéias se mantenham vivas, resistindo sob a terra às agruras da seca. Vários experimentos já demonstraram que, mesmo durante a seca, as folhas das árvores perdem razoáveis quantidades de água por transpiração, evidenciando sua disponibilidade nas camadas profundas do solo. Muitas espécies arbóreas de cerrado florescem em plena estação seca como o ipê-amarelo, demonstrando o mesmo fato.

A maior evidência de que água não é o fator limitante do crescimento e produção do estrato arbóreo-arbustivo do cerrado é o fato de aí encontrarmos extensas plantações de Eucalyptus, crescendo e produzindo plenamente, sem necessidade de irrigação. Outras espécies cultivadas em cerrado, como mangueiras, abacateiros, cana-de-açúcar, laranjeiras etc, fazem o mesmo.Geadas, todavia, prejudicam bastante as plantas matando suas folhas, que logo secam e caem, aumentando em muito a serapilheira e o risco de incêndios. Ventos fortes e constantes não são uma característica geral do Domínio do Cerrado. Normalmente a atmosfera é calma e o ar fica muitas vezes quase parado.Em agosto costumam ocorrer algumas ventanias, levantando poeira e cinzas de queimadas a grandes alturas, através de redemoinhos que se podem ver de longe. Às vezes elas podem ser tão fortes que até mesmo grossos galhos são arrancados das árvores e atirados à distância.A radiação solar no Domínio do Cerrado é geralmente bastante intensa, podendo reduzir-se devido à alta nebulosidade, nos meses excessivamente chuvosos do verão. Por esta possível razão, em certos anos, outubro costuma ser mais quente do que dezembro ou janeiro. Como o inverno é seco, quase sem nuvens, e as latitudes são relativamente pequenas, a radiação solar nesta época também é intensa, aquecendo bem as horas do meio do dia. Em agosto-setembro esta intensidade pode reduzir-se um pouco em virtude da abundância de névoa seca produzida pelos incêndios e queimadas da vegetação, tão freqüentes neste período do ano.Situado a 19º 40′ de latitude sul, o cerrado está a apenas 835 metros acima do nível do mar. Apesar de abranger uma extensa área, a região de cerrado apresenta clima bastante regular, classificado como continental tropical semi-úmido. A temperatura média é de 25ºC, registrando máximas de 40ºC no verão. A estação seca começa em abril e continua até setembro.

Nesta estação os ventos predominantes são de leste ou de sudeste e as tempestades são muito raras. Os meses mais frios são junho e julho, com temperaturas que variam de 20 a 10ºC. Em agosto a temperatura é mais alta. Os meses mais chuvosos são: novembro, dezembro e janeiro. As precipitações em mm variam para diversas localidades: Formosa (GO), 1.592mm; em Cuiabá, 1.425mm, em Corumbá, 1.114mm. Ocorre vegetação de cerrado na Amazônia, no Nordeste, no Brasil Central, onde há uma estação seca que pode perdurar de 4 a 5 meses, ocorrendo chuvas nos meses restantes, num total que oscila em torno dos 1.400 – 1.500mm, mas ocorre também no Sudeste e no Sul, com precipitações um pouco menores, embora com temperaturas médias muito inferiores, havendo mesmo possibilidades de geadas freqüentes e rigorosas. Um dos fatores limitantes no Cerrado é a deficiência hídrica, que ocorre devido à má distribuição das chuvas, à intensa evapotranspiração e às características dos solos que apresentam baixa capacidade de retenção de água e alta velocidade de infiltração. O regime de precipitação da região apresenta uma oscilação unimodal com a época chuvosa concentrada no período de dezembro a março e a mais seca de junho a agosto. Esta diferença físico-climática da Região dos Cerrados tem forte influência na distribuição dos recursos hídricos. Zonas hidrológicas homogêneas estão estreitamente associadas a regiões físico-climáticas também homogêneas. O escoamento superficial em uma bacia hidrográfica é influenciado pelo clima, relevo, vegetação e pela natureza e estado de saturação do solo e subsolo. A rede hidrográfica dos Cerrados apresenta características bastante diferenciadas, em função da sua localização, extensão territorial e diversidade fisiográfica. Situada sobre o grande arqueamento transversal que atravessa o Brasil Sudeste e Central, a região abrange um grande divisor de águas, que separa os maiores sistemas hidrográficos do território brasileiro. Ao sul, abrange parte da bacia do Paraná; a sudeste, o Paraguai; ao norte, a Bacia Amazônica; a nordeste, Parnaíba e a leste, o São Francisco. O regime fluvial dos rios da região encerra, nestas condições, notáveis diferenças nas características físicas de suas bacias de drenagem e nas diversas influências climáticas que estão submetidas. Com relação às águas subterrâneas, os mesmos fatores físicos.

GEOGRAFIA, RELEVOS e SOLO.

Os pontos mais elevados do Cerrado estão na cadeia que passa por Goiás em direção sudestenordeste: o Pico Alto da Serra dos Pirineus, com 1.600metros de altitude, a Chapada dos Veadeiros, com 1.250metros de altitude, e outros pontos com elevações consideradas que se estendem em direção noroeste; a Serra do Jerônimo e outras serras menores, com altitudes entre 500 e 800metros de altitude.Seus terrenos são um tanto que acidentados, com poucas áreas planas. Nos morros mais altos são encontrados muitos pedregulhos, argila com inclusões de pedras e camadas de areia.

Outra formação é constituída por aflorações de rochas cacarias, com fendas, grutas e cavernas em diferentes tamanhos. Por cima das rochas, há uma vegetação silvestre. Possui campos e vales com vegetação bem característica, e há ainda uma mata ciliar rodeando riachos e lagoas. Os solos apresentam-se intemperizados, devido à alta lixiviação e possuem baixa fertilidade natural. Possuem grandes áreas, com a seguinte classificação: lato solo (escuro, vermelho-amarelo, roxo), areias, cambissolos, solos (concrecionários, litólicos) e lateritas hidromórficas. Em pequenas áreas ocorrem grupos de solos: podzólico (vermelho-amarelo), glei- húmico, solos orgânicos e terras roxas estruturadas (distrófico e estrófico).O solo do cerrado apresenta pH ácido, variando de 4,3 a 6,2.

Possui elevado conteúdo de alumínio, baixa disponibilidade de nutrientes, como o fósforo, o cálcio, o magnésio, o potássio, matéria orgânica, zinco, argila, compondo-se de caulinita, goetita ou gibsita. O solo é bem drenado, profundo e com camadas de húmus.As estruturas do solo do cerrado são em algumas partes bem degradadas devido às atividades agrícolas e pastagens, sendo recuperado com reflorestamento de espécies de Eucalyptus, associado com plantio de milho e feijão, além de café, freijó, maniçoba e palma.E a regeneração artificial é feito com espécies de Acácia, Agathis, Araucaria, Cássia, Cedrela, Cupressus, Pinus, Podocarpus, Terminalia, entre outras.A cobertura vegetal do Cerrado é a segunda mais importante do Brasil. Abrange aproximadamente 1.750.000 km², que corresponde a cerca de 20% do território nacional. Apresenta as mais diversas formas de vegetação, desde campos sem árvores, ou arbustos, até o cerrado lenhoso denso com matas ciliares. O Cerrado brasileiro é reconhecido como a savana mais rica do mundo em biodiversidade com a presença de diversos ecossistemas, riquíssima flora com mais de 10.000 epécies de plantas, com 4.400 endêmicas desse bioma.

É classificado como tendo formações vegetativas primitivas, com quatro divisões: matas, campos, brejos e ambientes úmidos com plantas aquáticas. As matas ocupam as depressões, vales e cursos de águas e possuem poucas epífitas.Os campos cobrem a maior parte do território, denominada campestre. É essencialmente coberto por gramíneas, com árvores e arbustos. É também subdividido em campo de cerrado, campo de limpo, que se diferenciam na formação do terreno e na composição do solo, com declives ou planos.A vegetação de brejos é composta por gramíneas, ciperáceas, arbustos, pequenas árvores isoladas, algumas ervas, entre outras diversidades de espécies.As árvores mais altas do cerrado chegam a 15metros de altura e formam estruturas irregulares. Apenas nas matas ciliares as árvores ultrapassam 25metros e possuem normalmente folhas pequenas e decíduas.

Nos chapadões arenosos e nos quentes campos rupestres do Cerrado, estão as mais exuberantes e exóticas bromeliáceas, cactos e orquídeas, contando com centenas de espécies endêmicas. E ainda existem espécies desconhecidas, que devido à ação antrópica do homem podem ser destruídas antes mesmo de serem catalogadas.As próprias queimadas, freqüentes neste tipo de bioma, são mal interpretadas. Na verdade, as queimadas periódicas (com intervalos maiores do que 5-7 anos) já aconteciam no Cerrado antes da chegada do ser humano. A maioria das plantas do Cerrado está adaptada ao fogo, possuindo cascas grossas e brotos subterrâneos. Há, inclusive, várias espécies de plantas que só germinam após as queimadas. Mas as queimadas intensas, feitas a cada um ou dois anos pelos pecuaristas, são extremamente nocivas ao Cerrado.

TIPOS DE CERRADO

A vegetação do bioma do cerrado, não possui uma fisionomia única em toda sua extensão. Muito ao contrário ela é bastante diversificada, apresentando desde formas campestres bem abertas, como os campos limpos de cerrado, até formas relativamente densas, florestais, como os cerrados. Entre esses dois extremos, vamos encontrar diversas formas intermediárias, com fisionomia de savana, como os campos sujos, os campos cerrados, o cerrado senso stricto.

CAMPO LIMPO

Campo Limpo é essencialmente herbáceo, com poucos arbustos distribuídos de forma bastante esparsa e um outro indivíduo arbóreo. Nesta fita fisionomia, muitas vezes, surge inclusões de cerrado típico, compondo uma feição de mosaico. Também onde há nivelamento de água a composição florística se torna muito distinta pela predominância de espécies de Cyperaceae entre as quais se destacam as conhecidas como capim estrela (Dichromena), que embelezam os campos com suas inflorescências brancacentas.

CAMPO SUJO

No Campo Sujo, a vegetação de feição herbáceo-arbustiva, apresenta indivíduos arbóreos distribuídos muito esparsamente, sendo as espécies lenhosas, em sua maioria, compostas de exemplares menos desenvolvidos de algumas espécies comuns nas formações savânicas. A composição florística do campo limpo e do campo sujo é quase idêntica, havendo, entretanto uma acentuada redução dos componentes lenhosos no campo limpo, que apresenta também menor diversidade específica. O aspecto graminoso é aparentemente uniforme da vegetação, encobre à primeira vista, uma grande riqueza de espécies, com formas de crescimento aspectos morfológicos muito especiais. São freqüentes as que pertencem a diferentes tipos de táxon distintos, que por convergência adaptativa adquiriram a aparência graminosa.

CAMPO CERRADO

É um tipo de vegetação sobre topos de serras e chapadas de altitudes superiores a 900m com afloramentos rochosos onde predominam ervas e arbustos, podendo ter arvoretas pouco desenvolvidas. Em geral, ocorre em mosaicos, não ocupando trechos contínuos. Apresenta topografia acidentada e grandes blocos de rochas com pouco solo, geralmente raso, ácido e pobre em nutrientes orgânicos. Em Campos Rupestres é alta a ocorrência de espécies vegetais restritas geograficamente àquelas condições ambientais (endêmicas), principalmente na camada herbáceo-subarbustiva.

Algumas espécies destacam-se nessa vegetação como: Wunderlichia spp (flor-do-pau), Bulbophyllum rupiculum (orquídea), Xyris paradisiaca (pirecão) e Paniculum chapadense (gramínea).

Cerrado Sentido Restrito (stricto senso)

Fita fisionomia característica do bioma Cerrado com árvores baixas e retorcido, arbustos, subarbustos e ervas. As plantas lenhosas em geral possuem casca corticeira, folhas grossas, coriáceas e pilosas.

Podem ocorrer variações fisionômicas devido à distribuição espacial diferenciada das plantas lenhosas e ao tipo de solo. Dentre algumas espécies encontradas nessas áreas: Kielmeyera spp (pau-santo), Magonia pubescens (tingui), Callistene spp (pau-jacaré) e Qualea parviflora (pau-terra-de-folha-miúda).

Cerrado Rupestre

É uma das formas de cerrado sentido restrito de constituição arbórea, arbustiva e herbácea, que ocorre em ambientes rupestres. Os solos são rasos, com afloramentos rochosos e pobres em nutrientes. No estrato arbóreo-arbustivo, estão presentes espécies como: Wunderlichia crulsiana (flordo-pau), Didymopanax spp (mandiocão), Tabebuia spp (ipês), Vellozia spp (canela-de-ema,candombá) e Mimosa Regina. No estrato herbáceo encontram-se: Rhynchospora globosa (amarelão), Paepalanthus acanthophylus (chuveirinho), Paepalanthus eriocauloides (mosquitinho), Echinolaena inflexa (capim-flexina), Loudeotiopsis chrysothryx (brinco-de-princesa), Xyris schizachne (pimentona), Xyris hymenachne (pimentinha-prateada), Lagenocarpus rigidus tenuifolius (capim-arroz).

Cerradão

É uma formação florestal que apresenta elementos xeromórficos (adaptações a ambientes secos) e caracteriza-se pela composição mista de espécies comuns ao Cerrado Sentido Restrito, à Mata de Galeria e à Mata Seca. Apesar de poder apresentar espécies que estão sempre com folhas (perenifólias), muitas espécies comuns ao Cerra dão apresentam queda de folhas (caducifólia ou deciduidade) em determinados períodos da estação seca, tais como Caryocar brasiliense (pequi), Kielmeyera coriacea (pau-santo) e Qualea grandiflora (pau-terra). São encontradas poucas espécies epífitas. Em geral, os solos são profundos, de média e baixa fertilidade, ligeiramente ácidos, bem drenados (lato solo vermelha-escuro). De acordo com a fertilidade do solo, podem ser classificados como distróficos, quando pobres, e mesotróficos, quando mais ricos em nutrientes. Como exemplo dessa fitofisionomia, na Chapada dos Veadeiros, onde são comumente encontradas as seguintes espécies lenhosas: Agonandra brasileense (pau-marfim), Callistene fasciculata (faveiro), Stryphnodendron adstringens (barbatimão), Copaifera langsdorfii (copaíba), Magonia pubescens (tingui), Xilopia aromática (pindaíba).
Quanto ao estrato herbáceo, são freqüentes os gêneros de gramíneas: Aristida, Axonopus, Paspalum e Trachypogon.

Mata Seca ou Mata Mesofítica

É um tipo de formação florestal que não está associada com cursos de água e apresenta diferentes índices de deciduidade durante a estação seca. Pode ser de três tipos: Mata Seca Sempre-verde, Mata Seca Semidecídua e Mata Seca Decídua. Os dois primeiros ocorrem sobre solos desenvolvidos em rochas básicas de alta fertilidade (terra roxa estruturada) e média fertilidade (lato solo vermelhoescuro).

A Mata Seca Decídua em geral ocorre sobre afloramentos de rochas calcárias. O estrato arbóreo apresenta altura que varia entre 15 e 25 metros. Entre suas árvores eretas destacam-se: Amburana cearensis (imburana), Anadenanthera colubrina (angico) e Tabebuia spp (ipês). Nas matas secas encontra-se uma variedade de espécies decíduas, semidecíduas e sempre-verdes, destacando-se as leguminosas Acácia poliphylla (angico-monjolo), Anadenanthera macro carpa (angico), Sclerobium paniculatum (carvoeiro), Hymenaea stilbocarpa (jatobá) e a voquisiácea Qualea parviflora (pau-terra-de-folha-pequena).

MATA MESÓFILA DE INTERFLÚVIOS

Subsistema de mata ocorre nos interflúvios em várias áreas da província dos cerrados, com solo de boa fertilidade natural, derivado de rochas alcalinas como basalto ou gabros e, às vezes, algumas formas de gnaisse ou mica xisto, como é o caso do antigo “Mato Grosso de Goiás”. São sempre verdes ou semidecíduas quando estão sobre solos mais profundos, do tipo latos solos vermelho-escuro, latos solo roxo e podzólicos. Em vários locais, como no sul de Minas, nordeste de Goiás, oeste da Bahia, entre outros. São completamente decíduas quando estão sobre solos rasos de afloramentos calcários.

Estruturalmente, compõe-se de espécies arbóreas que atingem até 30 metros de altura e um estrato inferior com espécies variando entre 1-12m. O percentual de dossel arbóreo é de 100% nas formações semidecíduas e 90% nas decíduas durante o período chuvoso. Apesar de se encontrar inserida na província central, as espécies vegetais que ocorrem nesse ambiente não apresentam nenhum aspecto de xeromorfismo ou escleromorfismo. Isso se deve, provavelmente, a fatores ambientais como tipo de solo, elevada quantidade de húmus e umidade, que influenciam no desenvolvimento das espécies. Por apresentar uma vegetação singular, umbrófila, as matas de cerrado servem de habitat a um tipo de fauna quase que exclusivo. Durante o processo adaptativo desenvolveram características fisionômicas e comportamentais, ligadas ao ambiente. O mais representativo, entre outros, pertence à ordem dos primatas, animais comuns em áreas florestadas.

Mata de Galeria

Floresta tropical sempre-verde (não perde as folhas durante a estação seca) que acompanha os córregos e riachos da região central do Brasil, com as copas das árvores se encontrando sobre o curso d’água. Apresentam árvores com altura entre 20 e 30 metros. Os solos variam em profundidade, fertilidade e umidade, as Matas de Galeria ocorrem desde sobre solos distróficos (pobres) do tipo latos solo até solos mais rasos e mais ricos em nutrientes, como podzólicos e litossolos (com afloramentos rochosos). Esta fisionomia é comumente associada a solos heteromórficos, com excesso de umidade na maior parte do ano devido ao lençol freático superficial e grande quantidade de material orgânico acumulado, propiciando e decomposição que confere a cor preta característica desses solos. Nas Matas de Galeria ocorrem espécies utilitárias como: Copaifera langsdorfii (copaíba), Virola sebifera (ucuúba), Cabralea canjerana (canjerana), Talauma ovata (pinha-do-brejo), Euterpe edulis (palmiteiro), Guadua paniculada (taquara), Epidendrum nocturnum (orquídea epífita).

Mata Ciliar

Formação florestal densa e alta que acompanha os rios de médio e grande porte, onde a copa das árvores não forma galerias sobre a água. Apresenta árvores eretas com altura predominante entre 20 e 25 metros. As espécies típicas desta fisionomia perdem as folhas na estação seca (deciduidade). Os solos variam de rasos (cambissolos, plintossolos ou litólicos) a profundos (latos solos e podzólicos) ou aluviais (com acúmulo de material carregado pelas águas). A camada de material orgânico é sempre mais rasa que a encontrada nas Matas de Galeria. Entre as espécies arbóreas, destacam-se algumas freqüentes: Anadenanthera spp (angicos), Apeiba tibourbou (pente-de-macaco), Aspidosperma spp (perobas), Celtis iguana (grão-de-galo), Ingá spp (ingás), Myracrodruon urundeuva (aroeira), Sterculia striata (chichá) e Tabebuia spp (ipês). São encontradas poucas espécies de orquídeas epífitas.

Vereda

É uma vegetação caracterizada pela presença do Buriti (Mauritia flexuosa), palmeira que ocorre em meio a agrupamentos de espécies arbustivo-herbáceas. As Veredas são encontradas sobre solos heteromórficos e circundadas por Campo Limpo, geralmente úmido. Nas Veredas, em função do solo úmido, são encontradas com freqüência espécies ornamentais de gramíneas, ciperáceas, xiridáceas, eriocauláceas e melastomatáceas.

Parque Cerrado

É uma formação caracterizada pela presença de ilhas ou elevações arredondadas conhecidas como MURUNDUNS, em meio a um campo úmido, com diâmetro em torno de 5,0 a 20,0 m e altura média de 50 cm. Estes montes são drenados e abrigam espécies da flora do Cerrado Senso Restrito, formando mosaicos de vegetação com o campo úmido. Alguns autores associam a origem dos Murunduns à atividade dos cupins. Entre as espécies arbóreas mais freqüentes, temos a Eriotheca gracilipes,Qualea grandiflora, Qualea parviflora e Dipteryx alata. No estrato arbustivo-herbáceo encontramos as bromélias e os gêneros Annona, Allagoptera e Vernonia, além de algumas espécies de herbáceas do campo úmido adjacente. O Cerrado é, na verdade, um mosaico de chapadas e vales, com várias formações vegetais distintas, que vão desde o campo úmido até o cerradão, passando pelas matas ciliares e as matas secas. Isto faz com que o Cerrado seja considerado hoje a savana de maior biodiversidade do mundo. Já foram catalogadas 774 espécies de árvores e arbustos no Cerrado, das quais 429 endêmicas. Há também um grande número de orquídeas. A região dos cerrados possui alta luminosidade, baixa densidade demográfica e intensa atividade pastoril, ao sul. Sua extensão territorial abrange mais de 1.200 km de leste para oeste e mais de 1.000 km de norte a sul. O Cerrado está ameaçado pela expansão desordenada da fronteira agrícola, que já ocupa quase 50% da região.

A destruição da cobertura vegetal já supera 70% da área original, e até agora menos de 2% do Cerrado está protegido por Parques Nacionais ou Reservas, separados entre si por grandes distâncias.

FAUNA E FLORA

FLORA E FAUNA COMUNS AO SUBSISTEMA CAMPESTRE

•Ozotocerus bezoarticos (veado campeiro)
•Tristachya leiostachya Nees. (capim-flexa)
•Myrmecophaga trydactyla (tamanduá bandeira)
•Panicum chapadense Swallewn. (capim agreste)
•Rhea americana (ema)
•Vellozia flavicans M. (canela-de-ema).
•Euphractus sexcintus (tatu-peba peludo)
•Byrsonima subterranea Brode (Mart). (murici)
•Cabassous hispidus (tatu-de-rabo-mole)
•Crhysophyllum saboliferum Rizz. (fruto-de-tatu)
•Nothura maculosa (codorna)
•Camponesia cambessedeana Berg. (gabiroba)
•Rhynchotus rufescens (perdiz)
•Eugenia clycina Camb. (pitanga vermelha)
•Athene cunicularia (coruja buraqueira)
•Anacardium humile Mart. (cajuí)
•Colapteres campestris (pica-pau-do-campo)
•Aspilia foliacea (Spreng) Baker. (margaridinha-do-campo)
•Crotalus durissus collilineatus (cascavel)

FLORA E FAUNA COMUNS DO CERRADO SENSU STRICTO:

•Cariocar brasiliense. Camb. (pequi)
•Chrysocyon brachyurus (lobo-guará)
•Dusicyon vetulus (raposa-do-mato)
•Hancornia speciosa. Gomez. (mangaba)
•Priodontis giganteos (tatu-canastra)
•Brasimum gaudichaudii. Treco. (mama-cadela)
•Kunsia tomentosus (rato-do-cerrado)
•Solanum lycocarpum. St. Hil. (lobeira)
•Cariama cristata (seriema)
•Hymenaea stigonocarta. Mart. (jatobá)
•Tupinambis teguixin (teiú)
•Pauteria ramiflora. Radlk. (curriola)
•Ameiva (calango-verde)
•Polyborus plancus (gavião carcará)
•Anacardium othonianum. Rizz. (caju-do-cerrado)
•Milvago chimachima (gavião carrapateiro)

ESPÉCIES DA FLORA E FAUNA COMUNS AO CERRADÃO


Ramphastos toco (tucano)

•Qualea grandifolia. Mart. (pau-terra)
•Cerdocyon thous. L. (cachorro-do-mato)
•Terminalia argentea. Mart (capitão-do-campo)
•Mazama gouazoubira. Fisch. (veado-catingueiro)
•Dimorphandra mollis. Benth. (faveiro)
•Tamanduá tetradactyla. L. (tamanduá mirim)
•Bowdichia virgilioides. H.B.K. (sucupira)
•Felis concolor. Linnaeus. (onça parda)
•Caryocar glabrum. Camb. (pequi-do-gerais) Galictis cuja. Schreber. (furão) Curatella americana. L. (lixeira) Falco femoralis (falcão-de-coleira)
•Tabebuia alba. Cham. (ipê-do-campo)
•Buteo magnirostris (gavião-carijó)
•Xylopia aromática. St, Hil. (pimenta-de-macaco)
•Falco sparverius (falcão quiri-quiri)
•Ramphastos toco (tucano)
•Pseudobombax longiflorum. Mart. (imburuçu)
•Columba cayennensis (pomba-galega)

ESPÉCIES DA FLORA E FAUNA COMUNS AO SUBSISTEMA DE MATA MESÓFILA

•Chorisia speciosa St. Hil. (paineira)
•Alouatta caraya. Humb. (guariba)
•Aspidosperma discolo R A.D.C. (peroba-de-gomo)
•Cebus opella Spix. (macaco-prego)
•Aspidosperma polyneuron M. Arg. (peroba-rosa)
•Callithrix penicillata Gumilla (mico)
•Myracrodruon urundeuva Fr. All. (aroeira)
•Nasua nasua Thévet. (quati)
•Tabebuia impetiginosa Mart. (ipê-roxo)
•Eira barbara Thévet. (irara)
•Jaracatia spinosa (Abl.) A.D.C. (jacaratiá)
•Dasyprocta oguti L. (cotia)
•Cariniana estrellensis Kuntze. (jequitibá)
•Sphiggurus villosus Spix. (ouriço-cacheiro)
•Copaifera langsdorffi Desf. (copaíba)
•Mazama americana Erxl. (veado-mateiro)
•Hymenaea courbaril. L. Var. 31 (jatobá)
•Felis pardalis Linnaeus. (jaguatirica)
•Enterolobium contortisiliquum Vell. (tamboril)
•Panthera onca Linnaeus. (onça-pintada)
•Anadenanthera colubrina Vell. (angico)
•Boa constrictor amarali (jibóia)
•Didymopanax morototonii. Aubl. (mandiocão)
•Ortalis aracuan (aracuan)
•Syagrus oleracea (Mart) Becc. (guariroba)
•Amazona aestiva (papagaio-verdadeiro)
•Albizia hasslerii (Chodot) Burr. (farinha seca)
•Tayassu tajacu L. (caitetu)
•Cordia glabrata (Mart) DC. (louro-branco)
•Kerodon rupestris Wied. (mocó)

ESPÉCIES DA FLORA /FAUNA COMUNS NA MATA CILIAR RIPÁRIA

•Xylopia emarginata. Mart. (pindaíba)
•Tapirus terrestris. L. (anta)
•Tabebuia roseo-alba. Sand. (ipê-branco)
•Pteronura brasiliensis. Zimm. (ariranha)
•Cecropia pachystachya. Trec. (imbaúba)
•Hydrochaerus hydrochaeris. L. (capivara)
•Croton urucurama. Baill. 34 (sangra d’água)
•Lutra longicandis. Waterh. (lontra)
•Talauma ovata. St. Hil. (pinha-do-brejo)
•Agouti paca. L. (paca)
•Rapanea guianensis. Aubl. (pororoca) Tayassu pecari. Link. (queixada) Pilocarpus jaborandi. Homes. (jaborandi) Felis geoffroyi. Souza. (gato-do-mato)
•Enterpe edulis. Mart. (palmito-juçara)
•Felis yagonaroundi. Geof. (gato-mourisco)
•Triplaris brasiliana. Cham. (pau-formiga)
•Cavia operea. Wied. (preá)
•Genipa americana. L. (jenipapo)
•Aramides cajanea (saracura)
•Pouteria torta. Radlk. (guapeva)
•Butoris striatus (socó)
•Bothrops moojeni (jararaca)

ESPÉCIES DA FLORA E FAUNA COMUNS AO SUBSISTEMA DE VEREDAS E AMBIENTES ALAGADIÇOS.

•Mauritia vinifera Mart. (buriti)
•Blastocerus dichotomas Illiger. (cervo)
•Mauritiella armata Mart. (buritirana)
•Eunectes murinus Linnaeus. (sucuri)
•Tibouchina frigidula Cogn. (quaresmeira)
•Chironectes minimus Zimm. (cuíca d’água)
•Macairea sericea Cogn. (quaresmeira-do-brejo)
•Nectomus squanipes amazonicus Thomas. (rato-d’água)
•Hebenaria nasuta L. (orquídea)
•Casmerodius albus (garça-branca)
•Sida spinosa (malva-do-brejo)
•Theristicus caudatus (curicaca)
•Axonopus brasiliensis Kuhlm. (capim-espiga)
•Dendrocygna viduata (pato-irerê)
•Thrasya pettrosa Chase. (macegão)
•Amazonetta brasiliensis (marreca-ananai)
•Paspalum dilatatum Ness. (capim-de-vereda)
•Gallinula chloropus (frango-d’água)
•Panicum densum Swartz (capim-de-vereda)
•Chloroceryle amazona (martin-pescador)

CAMPO LIMPO

Tamanduá Bandeira (Myrmecophaga tridactyla) é um representante característico dos desdentados, adaptado a utilizar a grande quantidade formigas e cupins como recurso alimentar. Suas garras fortemente desenvolvidas, a dentição simplificada ou ausente, língua comprida e pegajosa, focinho longo e tubular são as mudanças ocorridas no processo de evolução para facilitar a exploração desses insetos. Além de bons nadadores, conseguem se deslocar agilmente pelos capinzais dos campos e cerrados num galope ondulante e desajeitados.

CAMPO CERRADO

O Veado-Campeiro (Ozotoceros Bezoarticus) é talvez o mais elegante dos cervídeos da América do Sul.

Seu habitat preferido são as pradarias e savanas do campo cerrado. Seus rebanhos são formados por grupos de cinco ou seis indivíduos, entre os quais o macho adulto se movimenta livremente. Os chifres presentes apenas no macho, possuem três pontas e duas bifurcações, costumeiramente os chifres velhos caem no meio do ano e lentamente começam a crescer os novos no final do ano, completando o ciclo.As espécies vegetais nativas dos cerrados possuem diversas estratégias para sobreviverem em solos que apresentam diferentes níveis de estresse nutricional. De um modo geral, reagem diferentemente aos níveis de alumínio no substrato, sendo que a maioria delas contém em seus tecidos muito pouco desse elemento, por ser altamente tóxico. Há, entretanto, algumas plantas que são tolerantes, ou mesmo acumuladoras de alumínio em seus tecidos, sem que esse fato impeça a absorção, o transporte e metabolismo de outros nutrientes essenciais. O alumínio absorvido do solo, juntamente com os nutrientes, é em geral armazenado nas folhas e gradativamente eliminado pela queda das mesmas.

SENSU STRICTO

A fauna de cerrado sensu stricto é representada por animais que compartilham certas semelhanças com espécies campestres. A preferência por este tipo de habitat está na grande oferta de alimentos e na maior possibilidade de camuflagem. As espécies animais comuns a esta área necessitam de espaços abrangentes onde definem os territórios necessários para o seu ciclo vital. Nessa distribuição transitam pelos demais É uma formação vegetal muito visitada por animais de todo o sistema, em virtude da abundante oferta de frutos, flores, sementes e raízes em épocas intercaladas, mas durante todo o ano.O Lobo Guará (Chrysocyon Brachyurus) é uma das espécies que mais tem chamado a atenção entre os habitantes da região dos cerrados. A bonita cor avermelhada de sua pelagem, seu grande porte, esbelto e majestoso, o comportamento arisco e arredio. O lobo guará não é um animal sanguinário nem agressivo, apesar do mistério que o envolve se alimenta principalmente de ratos e pequenos mamíferos, bem como de pequenas aves e frutas. O Pequiá-bravo (Caryocar brasiliense camb), àrvore de até 10m de altura, com tronco tortuoso de casca áspera e rugosa. As folhas pilosas são formadas por três folíolos com bordas recortadas, flores grandes e amarelas que surgem de setembro a dezembro. Seu fruto, o “pequi” é constituído por uma polpa de coloração amarelo-. Intensa envolve um caroço duro formado por grande quantidade de pequenos espinhos, frutifica de janeiro a abril. Por azar, a madeira do pequizeiro, também produz um excelente carvão vegetal, motivo pelo qual a espécie tem sido largamente explorada e também se encontra com riscos de extinção.Por esta razão, unidades de conservação, com áreas significativas, deveriam ser criadas e mantidas nas mais diversas regiões do Domínio do Cerrado, a fim de garantir a preservação do maior número de espécies da flora deste Bioma, bem como da fauna a ela associada.

MATA CILIAR RIPÁRIA

Em virtude dessas qualidades ambientais, muitos animais adotaram as matas ripárias como habitat, distribuindo-se em nichos específicos, principalmente os de vida semiaquática. As espécies encontradas nesse ambiente desenvolveram formas de adaptações específicas em função das condições de vida local: a primeira delas corresponde a formas cuneiformes, resultantes da necessidade de se locomover com rapidez e violência para romper obstáculos.Outras características foram adquiridas, como focinho pontudo; testa e nuca em alinhamento crescente, decaindo lentamente nas costas; observados de frente, apresentam o corpo comprido lateralmente. Estas características podem ser visualizadas nas espécies; anta, ariranha e queixada. Existem outras formas desenvolvidas por pequenos animais como felinos: gato mourisco, gato do mato e aves: saracura e socó, cujos movimentos estão diretamente relacionados com o emaranhado do sub-bosque presente nessas formações. As pernas são curtas, lateralmente delgadas e possuem uma plumagem dura e bem acomodada, de modo que facilmente podem penetrar pelo ambiente.

A Anta (Tapirus terrestris. L.) é um animal de ampla distribuição geográfica na América do Sul, e que penetra também na região do cerrado, na mata ciliar. Para refugiar-se precisa de água e para comer, de vegetação herbácea arbustiva, frutas e plantas de baixo porte.É o maior mamífero brasileiro, chegando a pesar trezentos quilos. Desloca-se com bastante habilidade tanto na mata quanto na água, sendo um excelente mergulhador. Vive sozinha ou em pares e geralmente dão a luz a um só filhote com pelagem bem diferente do marron-cinzento uniforme do adulto.Para se confundir melhor entre a vegetação, o filhote tem o corpo desenhado por manchas e listras claras sobre o fundo escuro de sua pelagem.É considerada uma espécie ameaçada na região do cerrado, devido o desaparecimento da mata ciliar e a frequência da caça, tem diminuído consideravelmente.

VEREDAS

A paisagem constitui-se de palmeiras, principalmente a espécie Mauritia vinifera, e um estrato graminoso contínuo e perene, conservando-se verde o ano inteiro. Existem certos lugares onde o afloramento do lençol freático é intenso, formando pequenas lagoas entre os buritizais.Nas bordas das veredas é comum encontrar espécies vegetais das matas riparias como Xylopia emarginata e Euterpes edulis.As veredas e os ambientes alagadiços, em geral, formam longas faixas, com larguras variadas.

Fogo no Cerrado

Um dos fatores ecológicos mais importantes do cerrado é o fogo. Ele pode ser gerado de diversas formas naturais, mas a principal delas são as descargas elétricas. Os incêndios diminuem a densidade do cerrado, prejudicando o incremento do material lenhoso e favorecendo a expansão das plantas herbáceas.Outra hipótese, de maior aceitação, considera o cerrado uma vegetação clímax, que não se torna uma floresta devido às condições de clima e solo existentes, tendo o fogo um papel secundário.

De acordo com a segunda hipótese, a falta de nutrientes essenciais e a grande presença de alumínio são as responsáveis pela fisionomia característica dos cerrados. Este fator é de extraordinária importância para o Bioma do Cerrado, seja pelos múltiplos e diversificados efeitos ecológicos que exerce, seja por ser ele uma excelente ferramenta para o manejo de áreas do Cerrado, com objetivos conservacionistas. O acúmulo anual de biomassa seca, de palha, acaba criando condições tão favoráveis à queima que qualquer descuido com o uso do fogo, ou a queda de raios no início da estação chuvosa, acabam por produzir incêndios tremendamente desastrosos para o ecossistema como um todo impossível de serem controlados pelo homem. Neste caso é preferível prevenir tais incêndios, realizando queimadas programadas, em áreas limitadas e sucessivas, cujos efeitos poderão ser até mesmo benéficos.Tudo depende de sabermos manejar o fogo adequadamente, levando em conta uma série de fatores, como os objetivos do manejo, a direção do vento, as condições de umidade e temperatura do ar, a umidade da palha combustível e do solo, a época do ano, a freqüência das queimadas etc. É assim que se faz em outros biomas savânicos, semelhantes aos nossos Cerrados, de países como África do Sul, Austrália, onde a cultura ecológica é mais científica e menos emocional do que a nossa. Antes da ocupação do homem, já havia incêndios desastrosos em função dos raios, porém não existiam cercas de arame farpado prendendo os animais. Eles podiam fugir livremente do fogo, para as regiões vizinhas. Por outro lado, áreas eventualmente dizimadas pelo fogo podiam ser repovoadas pelas populações adjacentes.Hoje é diferente. Além das cercas, a vizinhança de um Parque Nacional ou qualquer outra unidade de conservação, é formada por fazendas, onde a vegetação e a fauna natural já não mais existem. O Parque Nacional das Emas, no sudoeste de Goiás, por exemplo, é uma verdadeira ilha de Cerrado, em meio a um mar de soja. Se a sua fauna for dizimada por grandes incêndios, ele não terá como ser naturalmente repovoado, uma vez que essa fauna já não mais existe nas vizinhanças.Manejar o fogo em unidades de conservação como esta é uma necessidade urgente, sob pena de vermos perdida grande parte de sua biodiversidade. Outro efeito do fogo, porém de grande importância ecológica é a aceleração da remineralização da biomassa e a transferência de nutrientes minerais, ou seja, nutrientes que estavam imobilizados nas palhas secas e mortos, são devolvidos rapidamente ao solo e colocados a disposição das raízes.
A explicação do fogo ganha fundamentos quando se analisa algumas sementes que só germinam após terem sido queimadas, o que pode ser considerado uma proteção contra o fogo. É impressionante a rapidez e o vigor que as plantas do cerrado emitem novos brotos logo após a queimada, bastam poucas semanas para que o verde apareça e substitua o tom cinza deixado pelo fogo. Pouco tempo após a passagem do fogo, o cerrado transforma-se num verdadeiro jardim, onde as diferentes espécies vão florescendo em sequência.

OS EFEITOS DO FOGO NO CERRADO

a) Aceleração da remineralização da biomassa e a transferência dos nutrientes minerais nela existentes para a superfície do solo, sob a forma de cinzas. Desta forma, nutrientes que estavam imobilizados na palha seca e morta, inúteis portanto, são devolvidos rapidamente ao solo e colocados à disposição das raízes.

b) A tortuosidade dos troncos e ramos das árvores do Cerrado pode ser considerada como um efeito do fogo. Pelas mortes de sucessivas gemas terminais e brotamento de gemas laterais, o caule acaba tomando uma aparência tortuosa. A espessa camada de súber que envolve tronco e galhos no Cerrado é outra característica do estrato arbóreo/arbustivo interpretada como uma adaptação ao fogo. Agindo como isolante térmico, o súber impediria que as altas temperaturas das labaredas atingissem os tecidos vivos mais internos dos caules.

c) É impressionante a rapidez e o vigor com que as plantas do Cerrado emitem novos brotos logo após a queimada. Bastam poucas semanas para que o verde reapareça e substitua o tom cinza deixado pelo fogo.

d) Este estímulo ou indução floral não é necessariamente provocado pela elevação da temperatura, como se poderia esperar. Em muitos casos é a eliminação total das partes aéreas das plantas que as faz florescerem. Além de estimular ou induzir a floração, o fogo sincroniza este processo em todos os indivíduos da população, facilitando assim, a polinização cruzada.

e) O fogo não deve ser considerado sempre um desastre para a fauna. Ele também pode proporcionar-lhe certos benefícios. Após uma queimada, os insetos polinívoros e nectarívoros beneficiam-se da resposta floral das plantas, nas quais encontram grande disponibilidade de pólen e néctar. Algum tempo depois, essas flores produzirão frutos e sementes, que alimentarão outros animais.

f) O manejo adequado do fogo em nossas reservas de cerrado pode constituir-se em eficiente meio para a preservação da flora e da fauna. Queimadas em rodízio, em parcelas pequenas e com regimes próprios, reduziriam os riscos de grandes incêndios acidentais, permitiriam às plantas completar seus ciclos biológicos, acelerariam a ciclagem dos nutrientes minerais e aumentariam a produtividade dos ecossistemas, além de suprir os animais com alimentos durante os difíceis meses de seca. A mortalidade também se reduziria, uma vez que os animais disporiam de áreas não queimadas, onde poderiam se refugiar.

CURIOSIDADES

O Cerrado é o segundo maior bioma (conjunto de seres vivos) existente no Brasil só ficando atrás da floresta Amazônica;

Apenas 2% da área original do Cerrado está preservada em parques e reservas;

A riqueza biológica mínima estimada no Cerrado é da ordem de 320.000 espécies distribuídas por 35 filos e 89 classes;

São conhecidas até o momento, no Cerrado, 1575 espécies de animais, formando o segundo maior conjunto animal do planeta;

A flor do ipê (muito comum no Cerrado) foi declarada flor nacional brasileira por um decreto da presidência da República;

As raízes das plantas do Cerrado podem variar entre 15 e 18m de comprimento;

No Cerrado existem árvores que dão frutos azuis devido à alta concentração de alumínio no solo;

Os sauveiros (fomigueiros de saúvas) do Cerrado formam extensos murundus com até 10 metros de diâmetro e um metro de altura e com até dois milhões de formigas, vivendo por cerca de 15 anos.

CONSERVAÇÃO

Poucas são as nossas unidades de conservação, com áreas bem significativas, onde o Cerrado é o bioma dominante. Entre elas podemos mencionar o Parque Nacional das Emas (131.832 ha), o Parque Nacional Grande Sertão Veredas (84.000 ha), o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães (33.000 hs), o Parque Nacional da Serra da Canastra (71.525 ha), o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (60.000 ha), o Parque Nacional de Brasília (28.000 ha).Embora estas áreas possam, à primeira vista, parecem enormes, para a conservação de carnívoros de maior porte, como a onça-pintada e a onça-parda, por exemplo, o ideal seria que elas fossem ainda maiores.

DEGRADAÇÃO

Até a década de 1950, os Cerrados mantiveram-se quase inalterados. A partir da década de 1960, com a interiorização da capital e a abertura de uma nova rede rodoviária, largos ecossistemas deram lugar à pecuária e à agricultura extensiva, como a soja, arroz e ao trigo. Tais mudanças se apoiaram, sobretudo, na implantação de novas infra-estruturas viárias e energéticas, bem como na descoberta de novas vocações desses solos regionais, permitindo novas atividades agrárias rentáveis, em detrimento de uma biodiversidade até então pouco alterada.Durante as décadas de 1970 e 1980 houve um rápido deslocamento da fronteira agrícola, com base em desmatamentos, queimadas, uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos, que resultou em 67% de áreas do Cerrado “altamente modificadas”, com voçorocas, assoreamento e envenenamento dos ecossistemas. Resta apenas 20% de área em estado conservado. A partir da década de 1990, governos e diversos setores organizados da sociedade debatem como conservar o que restou do Cerrado, com a finalidade de buscar tecnologias embasadas no uso adequado dos recursos hídricos, na extração de produtos vegetais nativos, nos criadouros de animais silvestres, no ecoturismo e outras iniciativas que possibilitem um modelo de desenvolvimento sustentável e justo. Devastação do Cerrado compromete futuro do Bioma

Segundo estudos da organização não-governamental Conservação Internacional (CI-Brasil), o Bioma Cerrado poderá desaparecer até 2030, pois dos 204 milhões de hectares originais, 57% já foram completamente destruídos. A taxa anual de desmatamento no bioma é preocupante, com o índice de 3 milhões de hectares por ano. Tal devastação, segundo os estudos da CI-Brasil, está ligada principalmente à expansão da fronteira agrícola, às queimadas e ao crescimento não planejado das áreas urbanas. As regiões mais afetadas estão no Estado de Mato Grosso do Sul, Goiás e Mato Grosso, no Triângulo Mineiro e na região oeste da Bahia. Entre os problemas mais graves provocados pelo desmatamento no Cerrado, destacam-se a degradação de rios importantes como o rio São Francisco e o rio Tocantins, a destruição de habitat que compromete a sobrevivência de milhares de espécies, muitas delas endêmicas, ou seja, que só ocorrem ali e em nenhum outro lugar do planeta, como o papagaio-galego (Amazona xanthops) e a raposa-do-campo (Dusicyon vetulus). Os estudos da ONG revelaram também que junto com a biodiversidade estão desaparecendo ainda as possibilidades de uso sustentável de muitos recursos, como plantas medicinais e espécies frutíferas que são abundantes no Cerrado. Segundo a Embrapa, na área de Recursos Genéticos e Biotecnologia, já foram catalogadas mais de 330 espécies de uso na medicina popular no Cerrado, como a Arnica (Lychnophora ericoides), o Barbatimão (Stryphnodendron adstringens), a Sucupira (Bowdichia sp.), o Mentrasto (Ageratum conyzoide) e o Velame (Macrosiphonia velame).

Os Parques Nacionais

A proteção das espécies da fauna e da flora nativas de um país ou região onde ocorrem, só pode ser feira de forma efetiva pela preservação de porções significativas de seus ambientes naturais ou habitats. Assim, no Brasil, A exemplo de muitos países no mundo, foram criadas as Unidades de Conservação, abrangendo amostras destes ambientes naturais, tendo como finalidade sua preservação e/ou conservação e se constituindo num instrumento de proteção da biodiversidade do País.Os parques Nacionais, uma das modalidades de Unidades de Conservação são áreas especialmente criadas para preservar representantes da fauna e da flora, inclusive os ameaçados de extinção, para proteger os recursos hídricos, como rios, cachoeiras, nascentes e também para conservar as formações geológicas.

Além disso os Parques têm a função de proporcionar meios para a educação ambiental, pesquisa e recreação.

A Preservação dos Parques

Preservar um ecossistema é garantir, para uma região, vida em equilíbrio. A destruição de algumas espécies pode provocar o aumento populacional de outras, gerando, assim, desequilíbrios com conseqüências danosas a todos que habitam um determinado local. É também, através da proteção de um ambiente que se pode assegurar um maior volume e a melhoria da qualidade das águas, condições que hoje, se encontram ausentes em grande parte de nossos mananciais. Em ambientes preservados ganha a Natureza, portanto, todos ganham.

Parque Nacional da Serra da Canastra – MG

Abrigando a nascente do rio São Francisco, o Parque Nacional da Serra da Canastra foi criado através de Decreto n° 70.355, em 1972. Possui esse nome devido à semelhança apresentada pelo imenso chapadão que, ao ser avistado de longe, parece ter a forma de uma canastra ou de um baú. A Serra da Canastra atrai, anualmente, um grande número de pessoas interessadas em desfrutar momentos inesquecíveis em um ambiente de tranqüilidade e rara beleza.

Localização: Região Sudoeste do Estado de Minas Gerais

Municípios: São Roque de Minas, Sacramento e Delfinópolis

Superfície: 71.525 hectares.

Altitude: 900 a 1.496 metros.

Clima: Temperaturas médias no mês mais frio (julho) equivalente a 17°C e nos messes mais quentes (janeiro e fevereiro), 23°C. Verões chuvosos e invernos secos.

Vegetação: Campos, campos rupestres, cerrados e matas ciliares.

Principais espécies da fauna preservadas:

Lobo-guará, tamanduá bandeira, tatu-canastra, veadocampeiro, veado-catingueiro, cachorro-do-mato, lontra e guaxinim e ainda aves como o tucanuçu, perdiz, curicaca, ema, pato-mergulhão, siriema, coruja e gavião.

Hidrografia: O Parque situa-se no divisor de águas entre as grandes bacias do rio Paraná e do rio São Francisco.

Reservas do cerrado (Goiás)

Reserva Biológica Lagoa Grande criada em 1976 no município de São Miguel do Araguaia.

Reserva Florestal Nacional de Serra Dourada, ocupa 144ha. de área dos municípios de Goiás e Mossâmedes.

Parque Nacional da Chapada Dos Veadeiros, criado em 1961 com 65.515 ha nos municípios de Alto Paraíso e Cavalcante.

Parque Estadual de Terra Ronca, criado em 1989 com 14.493 ha. no município de São Domingos.

Parque Estadual dos Pirineus, criado em 1987 no município de Pirinópolis.

Parque Nacional das Emas, criado em 1961 com 131.868 ha. nos municípios de Aporé e Mineiros.

Reserva Biológica Estadual de Parúna, criada em 1979 com 2.812 ha. no município de Paraúna.

Parque Estadual da Serra de Caldas, criado em 1970 com 12.315 ha. no município de Caldas Novas.

Reservas indígenas de Goiás

Reserva Aruanã, com 37ha. localiza-se no município de Aruanã.

Reserva Avá-Canoeiro, com 38 mil ha. localiza-se nos municípios de Cavalcante, Minaçu e Colinas do Sul.

Reserva Carretão I, com 1.666 ha. localiza-se nos municípios de Nova América e Rubiataba.

Reserva Carretão II, com 78ha, localiza-se no município de Nova América

Distrito Federal

Reserva Ecológica do IBGE (RECOR) forma, juntamente com o Parque Nacional de Brasília, a Estação Ecológica de Águas Emendadas e a Estação Ecológica do Jardim Botânico de Brasília, o conjunto de unidades de conservação permanente do Distrito Federal.A RECOR é, também, parte da Área de Proteção Ambiental (APA) Distrital Gama- Cabeça de Veado que perfaz um total de 10.000ha de área protegida contínua. Além disto, a RECOR é uma das Áreas- Núcleo da Reserva da Biosfera do Cerrado, criada em 1993, pela UNESCO no Distrito Federal. Em 2002, o Governo Federal criou a Área de Proteção Ambiental – APA do Planalto Central que inclui a Reserva.

Legislação

A Constituição Federal promulgada em 1988 não atribuiu ao cerrado o “status” de patrimônio nacional, o que poderia assegurar sua utilização dentro de critérios para a manutenção de sua preservação. Ao contrário, desde o início da denominada política de expansão agrícola, na década de 50, a região do cerrado foi citada pelo Governo Federal como sendo a principal fronteira agrícola do país, ou seja, a vegetação “feia”, “vagabunda” e “desprezível” do cerrado, apesar de possuir uma fauna e flora riquíssima, foi sistematicamente, e legalmente, condenada ao desaparecimento. Uma série de ações por parte dos legisladores tem buscado amenizar os erros do passado cometidos para com este bioma, atitudes como a Proposta de Emenda à Constituição n° 141 de 1992, o código florestal brasileiro e uma série de decretos a nível municipal, estadual e federal, tem gerado subsídios para a implementação de ações que visem a conservação e recuperação da área do cerrado.O senador Demóstenes Torres de Goiás, também ingressou com Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 51/03, que altera o artigo 225 da lei, com a inchusão dos dois ecossistemas, cerrado e caatinga.

A finalidade da proposta é impedir o uso das áreas compreendidas na proteção constitucional de forma irracional e predatória.Artigo 225 da Constituição Federal: Parágrafo 4º A Floresta Amazônica Brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma de lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais.

2030: o ano final do Cerrado

Estudos da ONG ambientalista Conservação Internacional Brasil (CI-Brasil) indicam que o Cerrado deverá desaparecer até 2030. Dos 204 milhões de ha originais, 57% já foram completamente destruídos e a metade das áreas remanescentes estão bastante alteradas, podendo não mais servir à conservação da biodiversidade. A taxa anual de desmatamento no bioma é alarmante, chegando a 1,5%, ou 3 milhões de ha/ano. As principais pressões sobre o Cerrado são a expansões da fronteira agrícola, as queimadas e o crescimento não planejado das áreas urbanas. A degradação é maior em Mato Grosso do Sul, Goiás e Mato Grosso, no Triângulo Mineiro e no Oeste da Bahia.O estudo, feito a partir de imagens satélites, é resultado da parceria da CI-Brasil com a ONG Oréades, que tem sede em Mineiros (GO). “O Cerrado perde 2,6 campos de futebol por minuto de sua cobertura vegetal. Essa taxa de desmatamento é dez vezes maior que a da Mata Atlântica, que é de um campo a cada 4 minutos,” explica Ricardo Machado, diretor da CI-Brasil para o Cerrado e um dos autores do estudo. “Muitos líderes e tomadores de decisão defendem, equivocadamente, o desmatamento do Cerrado só porque não é coberto por densas florestas tropicais, como a Mata Atlântica ou a Amazônia. Essa posição ignora o fato de o bioma abrigar a mais rica savana do mundo, com grande biodiversidade, e recursos hídricos valiosos para o Brasil. Nas suas chapadas estão as nascentes dos principais rios das bacias Amazônica, da Prata e do São Francisco.”

Entre os problemas provocados pelo desmatamento no Cerrado estão a degradação de rios importantes como o São Francisco e o Tocantins, e a destruição de hábitat que compromete a sobrevivência de milhares de espécies, muitas delas endêmicas, ou seja, que só ocorrem ali e em nenhum outro lugar do Planeta, como o papagaio-galego (Amazona xanthops) e a raposa-do-campo (Dusicyon vetulus). Junto com a biodiversidade estão desaparecendo ainda as possibilidades de uso sustentável de muitos recursos, como plantas medicinais e espécies frutíferas que são abundantes no Cerrado.Segundo a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, já foram catalogadas mais de 330 espécies de uso na medicina popular no Cerrado. A Arnica (Lychnophora ericoides), o Barbatimão (Stryphnodendron adstringens), a Sucupira (Bowdichia sp.), o Mentrasto (Ageratum conyzoide) e o Velame (Macrosiphonia velame) são alguns exemplos. “Além de calcular a velocidade do desmatamento, o estudo da CI-Brasil também mapeou os principais remanescentes desse bioma, analisando a situação de sua cobertura vegetal”, explica Mário Barroso, gerente do programa do Cerrado da Conservação Internacional Brasil e co-autor do estudo. “Esses dados serão incorporados à nossa estratégia de conservação para o bioma, que está baseada na implementação de corredores de biodiversidade.” Os corredores de biodiversidade evitam o isolamento das áreas protegidas, garantindo o trânsito de espécies por um mosaico de unidades ambientalmente sustentáveis – parques, reservas públicas ou privadas, terras indígenas, além de propriedades rurais que desenvolvem atividades produtivas resguardando áreas naturais. Hoje, a CI-Brasil está implementando seis corredores de biodiversidade em regiões do Cerrado: Emas-Taquari, Araguaia, Paranã, Jalapão, Uruçuí-Mirador e Espinhaço. O IBAMA, a SEMARH – Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Estado de Goiás, a Universidade de Brasília e ONGs locais estão entre os parceiros da CI-Brasil nesses corredores.

Dados subsidiam ações de conservação

Os dados do desmatamento no Cerrado começam a ser apresentados pela CI-Brasil e seus parceiros a tomadores de decisão dos mais diversos níveis. Em reunião do Conselho Nacional de Biodiversidade – CONABIO, no início de Julho, o estudo foi apresentado ao Secretário de Biodiversidade e Florestas, João Paulo Capobianco. Depois da apresentação, o Secretário declarou que o Ministério do Meio Ambiente criará um grupo específico para discussão de medidas emergenciais para o Cerrado, como foi feito para a Amazônia e a Mata Atlântica.No Estado de Goiás, que possui muitos remanescentes nativos valiosos de Cerrado, a apresentação do estado de conservação do Vale no Paranã ao Conselho Estadual do Meio Ambiente resultou na criação de Câmara Técnica temporária que discutirá e proporá ações de controle sobre o desmatamento na área. O Vale do Paranã, localizado na divisa dos Estados de Goiás e Tocantins, é considerado um centro de endemismo de aves, tem a maior concentração no Cerrado de um tipo de formação vegetal conhecido como floresta seca, e é remanescente de um corredor natural que ligava a Caatinga ao Chaco paraguaio há cerca de 20 mil anos. O trabalho da CI-Brasil na área é feito em parceria com a Embrapa Recursos Genéticos, a Universidade de Brasília e as organizações nãogovernamentais Pequi e Funatura.No Corredor de Biodiversidade Emas-Taquari, que compreende áreas no Sudoeste de Goiás, Sudeste de Mato Grosso e Centro-Norte de Mato Grosso do Sul, os dados de desmatamento estão sendo compartilhados com as prefeituras municipais de 17municípios. Com o Projeto Municípios do Corredor de Biodiversidade, a CI-Brasil em parceria com as ONGs Oréades e Oikos está fortalecendo órgãos de meio ambiente municipais e estudais em cada cidade.Técnicos e gestores foram capacitados para o levantamento local de dados, confecção de mapas e aplicação da legislação ambiental. O projeto inclui ainda a criação de núcleos de educação ambiental e o envolvimento de outros atores locais, como lideranças comunitárias e promotores públicos. “Para frear a destruição do Cerrado, os investimentos do Governo Federal na próxima safra agrícola devem incluir ações de conservação, especialmente na proteção de mananciais hídricos, na recuperação de áreas degradadas e na manutenção de unidades de conservação”, defende Machado. “Se o Governo, as empresas e a sociedade civil se mobilizarem para a criação de um fundo para a conservação do Cerrado associado aos investimentos destinados à produção de grãos, aí sim estaremos implementando, de forma justa e efetiva, a transversalidade da política ambiental no Brasil”.

Artigo da Biodiversidade do Cerrado

A Editora Saraiva e a ONG Conservação Internacional (CI-Brasil) durante o V Fórum de Educação Ambiental, em Goiânia (GO), lançaram o livro “Vivendo no Cerrado e Aprendendo com Ele”,de Marcelo Bezerril.


A publicação tem o objetivo de facilitar o ensino e a pesquisa de professores e alunos sobre o Cerrado, que ocupa cerca de 22% do território nacional e é considerado um dos biomas mais ricos e ameaçados do planeta.

Marcelo Bezerril é biólogo, doutor em ecologia e professor do Centro Universitário de Brasília (Uniceub).

Na última década, vem desenvolvendo pesquisas sobre a ecologia do Cerrado e da educação ambiental local. O livro revela aspectos da paisagem, da fauna e da flora do bioma, que tem enorme potencial medicinal e alimentício. Além disso, os leitores contam com uma avaliação dos principais impactos sofridos pelo Cerrado e encontram sugestões para reverter o quadro de devastação, usando a educação formal e não-formal. Ilustrado por imagens representativas do Cerrado, o livro também possui seções para estimular a pesquisa, a reflexão e o debate (“Pesquise”, “Para refletir e debater”, “E ainda…”, “Saiba mais”), como formas de estimular ações concretas em favor da conservação. E aqueles que ainda quiserem se aprofundar no tema, encontram farta bibliografia e endereços úteis na Internet.

A região principal do Cerrado abrange especialmente estados das regiões Centro-Oeste e Sudeste: Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Ceará, Maranhão, Piauí e Distrito Federal. Manchas de Cerrado isoladas ainda podem ser encontradas em estados da região Norte, como Roraima, Amapá, Amazonas e Pará.

Conclusão

Considerando que aproximadamente 45% da área do Domínio do Cerrado já foram convertidos em pastagens cultivadas e lavouras diversas, é extremamente urgente que novas unidades de conservação dos cerrados sejam criadas. A criação destas unidades de conservação com áreas menos significativas não deve ser menosprezada. Quando adequadamente manejadas, elas também são de enorme importância para a preservação da biodiversidade. Só assim se conseguirá em tempo, conservar o maior número de espécies de sua variadíssima flora e fauna.Pesquisas a médio e longo prazo são essenciais para que possamos compreender o que acontece com as populações animais remanescentes nos cerrados. Paralelamente, várias espécies de gramíneas, principalmente como o capim-gordura, o capimjaraguá, a braquiária, estão invadindo estas unidades de conservação e substituindo rapidamente as espécies nativas do seu riquíssimo estrato herbáceo/subarbustivo.Dentro de alguns anos, ou décadas, estas unidades irão transformar-se em verdadeiros pastos de gordura, e terão perdido, assim, toda a sua enorme riqueza de espécies.Não se deve esquecer que o Cerrado, assim como a Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira, precisa ser considerado, de fato e de direito, “Patrimônio Nacional” .

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XILEMA E FLOEMA

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XILEMA E FLOEMA

1- INTRODUÇÃO

A água e os nutrientes inorgânicos absorvidos pela raiz deslocam-se ascendentemente pelo xilema, seguindo o fluxo de transpiração. Parte dessa solução migra lateralmente para os tecidos do sistema radicular e caulinar, enquanto o restante é enviado para os demais órgãos do vegetal. Nas folhas, uma parcela da solução xilemática é transferida para o floema a fim de ser exportada para os órgãos em crescimento. Tanto a água como os solutos que alcançam a raiz via floema podem ser transferidos para o xilema, tornando a circular pela planta.
Enquanto isso, os produtos derivados da fotossíntese, realizada primordialmente nas folhas maduras, são exportados para todas as regiões do organismo vegetal através do floema

Dessa forma, a planta possui um sistema vascular organizado que permite a circulação eficiente de compostos ao longo de todos os seus órgãos e tecidos.
Mas será que as plantas, em semelhança aos mamíferos, possuem um órgão especializado para bombear as soluções que trafegam no xilema e no floema? Para a decepção de alguns, sabemos que não existe tal órgão nos vegetais. Porém, os mecanismos envolvidos nesses sistemas de transporte são tão primordiais e fantásticos quanto aqueles que comandam o funcionamento do coração.

2 – DEFINIÇÃO:

Xilema: O xilema, ou lenho, transporta a seiva bruta (ou seiva inorgânica, por ser composta de nutrientes retirados do solo pela planta, água e sais minerais), e está localizado na camada mais interna do caule. Transporta a seiva das raízes até as folhas, onde farão fotossíntese. É formado por células mortas e ocas, reforçadas com lignina, que tem função de evitar a deformação causada pela pressão da seiva.

– Parênquima Lenhoso : células encarregadas de preenchimento e armazenamento
– Tilas : material citoplasmático que obstrui irreversivelmente os vasos.
– Cerne : parte mais dura e escura da madeira, localizado na parte mais interna e antiga da planta, com função de sustentação.
– Tecido xilemático : além de condução tem função de sustentação.

Floema: O floema, ou líber, transporta seiva elaborada (ou orgânica, produto da fotossíntese, onde os nutrientes são convertidos em glicose), e está localizado na camada mais externa do caule, abaixo do tecido da casca. Transporta seiva elaborada das partes clorofiladas, onde ocorreu a fotossíntese, para as partes vivas da planta, onde a glicose será quebrada e convertida em energia. É formada por células vivas, alongadas e anucleadas.

– Placas Crivadas : paredes perfuradas que separam os vasos liberianos (tubos crivados).
– Células Companheiras ou Anexas : Células que se comunicam com as células dos vasos liberianos através de plasmodesmos.
– Células Albuminosas : ricas em proteínas, atuam na distribuição lateral da seiva elaborada.
– O xilema e o floema são encontrados nas plantas vasculares ou traqueófitas – que possuem vasos condutores. São essas as pteridófitas, gimnospermas e angiospermas.
– São formados por longos tubos (vasos) constituídos por células especializadas por onde as seivas circulam.

Xilema e floema primários: formados pelo meristema primário ou pleroma. As plantas crescem apenas na altura.
Xilema e floema secundários: formados pela ação do câmbio. As plantas crescem apenas em espessura

3 – TRANSPORTE NO XILEMA

Características básicas do xilema

A função primária do xilema é o transporte de água e solutos inorgânicos dissolvidos, embora possa conter, eventualmente, moléculas orgânicas. O transporte caracteriza-se por ser ascendente, desde as raízes até as partes aéreas da planta .

O xilema consiste de:

•fibras xilemáticas: alongadas, com paredes celulares espessas, possuindo a sustentação como função principal.
•células parenquimáticas: contém reservas e permitem a translocação lateral de solutos.
•elementos traqueais: traqueídeos e elementos de vaso são células mortas, com paredes celulares espessas, que possuem como função principal o transporte.
Ascensão da água e nutrientes inorgânicos

A ascensão da água e dos solutos através do xilema é um processo que requer uma força motriz bastante elevada. Quanto mais alta for a planta, maior deverá ser a força que permite a chegada da solução xilemática até o ápice caulinar.

Na tentativa de elucidar qual o mecanismo envolvido nesse transporte, seja em uma planta herbácea de poucos centímetros ou em um eucalipto de 130 m, foram elaboradas três teorias: a teoria da pressão de raiz, a da capilaridade e da coesão e tensão.

Teoria da pressão de raiz

Caracteriza-se pelo desenvolvimento de uma pressão positiva no xilema, na região das raízes, que serve para impulsionar a solução xilemática para cima.

O desenvolvimento dessa pressão positiva se dá devido à deposição ativa de solutos absorvidos pela raiz nos vasos do xilema. Tal deposição ocasiona um potencial hídrico muito negativo, havendo grande entrada de água nesses vasos. Como o retorno da água à córtex é dificultado pela presença da endoderme, esta acumula-se nos vasos xilemáticos, gerando a pressão positiva que impulsiona a solução.

No entanto, a contribuição dessa pressão hidrostática para a ascensão da solução xilemática é válida apenas para plantas de pequeno porte (herbáceas), sendo praticamente nula para plantas maiores. Além disso, essa pressão não foi detectada em todas as plantas estudadas e só se manifesta em condições especiais. Em plantas que estão transpirando normalmente, o xilema encontra-se sob tensão, ou seja, sob pressão negativa.

Tais considerações descartam a teoria da pressão da raiz como sendo um mecanismo universal para explicar o transporte no xilema.

Teoria da capilaridade

A teoria da capilaridade é fundamentada nas forças de adesão e coesão das moléculas de água e pela força da gravidade.

Para entendê-la, basta imaginarmos um tubo capilar sendo colocado dentro de um recipiente com água. As moléculas de água são atraídas e se aderem às paredes do tubo. Elas continuam a subir pelo tubo graças a essa adesão e, devido à coesão, a coluna de água preenche todo o lúmen do capilar. A coluna de água continuará ascendendo até que ocorra um equilíbrio de forças, promovido pela ação da gravidade.


Demonstração da capilaridade.

A capilaridade depende, ainda, do diâmetro do tubo (ou do vaso xilemático). Quanto menor o diâmetro, maiores alturas são alcançadas pela coluna de água. No entanto, o menor diâmetro apresentado pelos vasos do xilema permite uma ascensão de apenas 75 cm aproximadamente.

Portanto, a teoria da capilaridade também não pode ser aceita como um mecanismo geral para explicar o transporte no xilema.

Teoria da coesão e tensão

Essa teoria é atribuída à H. H. Dixon (1914) e é a mais aceita como modelo universal de transporte no xilema.

Ela é regida, basicamente, por um gradiente de potencial hídrico (entre a atmosfera, a planta e o solo), pelas propriedades de coesão e adesão das moléculas de água e pela força de tensão nos vasos xilemáticos.


Potencial hídrico e ascensão de água e solutos pelo xilema. Considerar a seguinte ordem crescente de magnitude de potenciais hídricos: solo; xilema-raiz; xilema-caule; folha e atmosfera.

O ar que circunda as folhas possui, normalmente, menos água que as próprias folhas. Ou seja, o potencial hídrico é menor na atmosfera que nas folhas. Assim, a planta perde água das folhas para o ar durante a transpiração. A água perdida pelas células do mesofilo que delimitam a câmara subestomática é reposta pela água de células adjacentes, criando-se um gradiente de potencial hídrico que se propaga ao longo de toda a folha, atingindo as células do xilema. Como conseqüência, os vasos xilemáticos são submetidos a uma forte tensão (pressão negativa ) e sua água é, literalmente, puxada para cima. Como o potencial hídrico do xilema, na região das raízes, é menor que o do solo, a água está sendo continuamente absorvida pela planta.

Devido à coesão e à adesão, a coluna de água do xilema não é interrompida, evitando a formação de bolhas de ar, cujos efeitos seriam danosos.

É importante lembrar ainda que as células dos vasos xilemáticos possuem paredes muito espessas, permitindo que suportem grandes tensões sem ocorrer seu colapso.

4 – TRANSPORTE NO FLOEMA

Características básicas do floema

A função primária do floema é o transporte de fotoassimilados, embora sua solução contenha certa quantidade de solutos inorgânicos também. O transporte ocorre da folha em direção dos ápices caulinares e radiculares, suprindo também regiões de armazenamento, como frutos e sementes (e em alguns casos caules e raízes). Normalmente, o movimento dos fotoassimilados segue um padrão fonte-dreno .

O floema consiste de:

•células parenquimáticas: podem ser células comuns, que permitem a translocação lateral no floema, ou as chamadas células companheiras, derivadas da mesma célula mãe do elemento de tubo crivado ao qual encontram-se intimamente ligadas por comunicações citoplasmáticas
•elementos de tubo crivado: são células vivas, com protoplasto bastante diferenciado, especializadas no transporte dos assimilados. Cada elemento está conectado ao seguinte através de comunicações citoplasmáticas existentes na placa crivada terminal (na extremidade do elemento). Os crivos criam uma continuidade citoplasmática entre os elementos, permitindo um grande fluxo de solução através do floema.

Transporte dos fotoassimilados

Vários estudos têm mostrado que os fotoassimilados e outros compostos orgânicos (como os hormônios) são transportados através dos vasos do floema, salvo raras exceções.

As primeiras evidências indicando o papel do floema nesse transporte vieram das observações feitas em árvores aneladas .

Em seguida, foi a vez dos afídios darem sua contribuição para os estudos. Quando esses insetos introduzem seus aparelhos bucais em caules e folhas, eles atingem os vasos do floema. A pressão de turgor (pressão positiva) dos vasos força a entrada de seiva no trato digestivo do afídio, que sai através de sua extremidade posterior em forma de gotículas. Tal modelo permitiu elucidar grande parte da composição da solução floemática (proteínas, aminoácidos, ácidos orgânicos, hormônios, havendo o predomínio dos açúcares, principalmente sob a forma de sacarose), além de mostrar que a seiva é transportada sob pressão positiva (retirando todo o corpo do afídio, de forma a manter somente o aparelho bucal inserido, pode-se observar que a seiva permanece exudando por muito tempo).

Atualmente, muitos trabalhos têm sido conduzidos com a utilização de isótopos radioativos, como o CO2 marcado com 14C.

Várias hipóteses têm sido formuladas para explicar o mecanismo de transporte através do floema. No entanto, somente uma, a hipótese do fluxo de massa, é considerada satisfatória e recebe grande atenção.

Hipótese do fluxo de massa

A hipótese do fluxo de massa foi inicialmente proposta por Münch (1930) e sofreu algumas modificações ao longo do tempo.


Mecanismo de fluxo de massa.

O mecanismo baseia-se na transferência de massa de soluto da fonte para o dreno, seguindo um gradiente de pressão hidrostática (pressão positiva). Encontra-se intimamente ligado à transpiração e à constante circulação de água na planta.

Os fotoassimilados gerados na fonte (ex. sacarose) são depositados nos vasos do floema que estão nas proximidades. A presença abundante de solutos promove o abaixamento do potencial hídrico nesses vasos floemáticos da fonte, havendo uma grande entrada de água proveniente dos vasos xilemáticos da vizinhança. Assim, é gerada uma pressão hidrostática capaz de impulsionar os assimilados através do floema, no sentido fonte —> dreno. Na região do dreno, os fotoassimilados são descarregados do floema, promovendo um aumento do potencial hídrico nos vasos e a saída de água em direção ao xilema adjacente. A pressão hidrostática diminui nos vasos do floema devido à saída da água. Portanto, gradientes indiretamente proporcionais de potencial hídrico e pressão hidrostática são mantidos ao longo do floema, permitindo o movimento dos solutos presentes.

Algumas questões encontram-se ainda em discussão. Uma delas é com relação ao gasto de energia envolvido no processo. Sabe-se que a translocação ao longo dos vasos do floema é passiva, não havendo gasto de energia. Dúvidas existem no que diz respeito ao carregamento e descarregamento dos vasos.

Certos autores acreditam que quando as células do órgão fonte estão amplamente comunicadas por plasmodesmos, os fotoassimilados devam ser transportados até os vasos via simplasto, não havendo transporte ativo. De maneira oposta, quando as células do órgão fonte encontram-se mais isoladas umas das outras, os fotoassimilados devam ser transportados via apoplasto até os vasos, havendo transporte ativo (gasto de energia) para carregamento dos vasos.

O descarregamento dos vasos do floema, que ocorre quando da chegada da seiva no dreno, permanece cercado pela mesma dúvida.

IV- BIBLIOGRAFIA BÁSICA

1. HOPKINS, W. G. Introduction to plant physiology. New York, John Wiley & Sons, 1995. 464 p.
2. RAVEN, P. H.; EVERT, R. F. & EICHHORN, S. E. Biologia Vegetal. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1996. 728 p.
3. SALISBURY, F. B. & ROSS, C. W. Plant physiology. Belmont, Wadsworth Publ. Co, 1991. 682 p.

FEBRE MACULOSA

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Febre Maculosa

Também conhecida como febre das Montanhas Rochosas, febre do carrapato, febre negra ou doença azul, a febre Maculosa é causada pela bactéria Rickettsia rickettsii, transmitida ao homem, basicamente, pelo carrapato-estrela o carrapato-de-cavalo (espécie Amblyomma cajennense) infectado pela essa bactéria, que vive em roedores como capivara e em gambás, coelhos, cavalo, gado, cão, etc. que funcionam como hospedeiros da doença. Conhecida no Brasil há mais de 70 anos (década de 20), a febre maculosa se não for diagnosticada em tempo pode matar o paciente em duas semanas.


Rickettsia rickettsii é uma bactéria presente principalmente no carrapato-estrela , certos tipos de piolho e pulga. Ela é responsável pela febre maculosa, este microorganismo desenvolve e multiplica-se no corpo de vítima, e em poucos dias levando-a à morte. Não são visualizados claramente em esfregaços corados pelo método de Gram. Método imunológico de detecção. O carrapato Dermacentor é o reservatório. A picada do carrapato é a forma de transmissão da doença.

Por se tratar de enfermidade antiga, embora pouco conhecida e de diagnóstico sorológico difícil no meio rural, deve-se tomar algumas precauções, principalmente para as pessoas que vivem no campo ou eventualmente visitam essas áreas. Ao se alimentar do sangue desses animais, o carrapato adquire a riquétsia e a transmite os seus filhotes e, o homem, ao ser picado por um desses carrapatos adquirir a doença.

Desde a década de 30 os pesquisadores visavam obter uma vacina contra a febre maculosa. Ente os cientistas se encontrava José Lemos Monteiro da Silva, do Instituto Butantan, que acabou adquirindo a doença juntamente com o seu auxiliar técnico Edison Dias.

Os dois trabalhavam no laboratório triturando carrapatos quando foram picados por eles. O cientista do Instituto Butantan e o seu assistente morreram pois na época não havia medicamentos para a doença e a pessoa picada por essa espécie de carrapato infectado morria antes do décimo dia de evolução da enfermidade. Depois disso, as pesquisas que vinham sendo desenvolvidas pelo Instituto Butantan para conseguir uma vacina foram abandonadas. Somente no final da II Guerra Mundial é que surgiram os antibióticos do grupo tetraciclina e cloranfenicol, responsáveis pelo tratamento das pessoas atingidas pela doença.

DIAGNÓSTICO

Apesar de a febre maculosa ser uma doença antiga, é rara e o diagóstico é difícil, principalmente se tiver que ser feito no meio rural.

Somente por meio do teste sorológico é possível detectar a doença que se manifesta no homem depois de um período de incubação de dois a 14 dias. Logo que a enfermidade se manifesta, a pessoa sente forte mal-estar, acompanhado de gripe violenta com uma febre repentina de 39 a 40 graus. Abatida, a pessoa fica prostrada por causa do componente tóxico-infeccioso que se encontra em seu organismo. Paralelamente, aparecem máculas (manchas avermelhadas) nos pulsos, tornozelos, palmas das mãos e nas solas dos pés. Caso o diagnóstico não seja feito a tempo, o paciente pode morrer. No início, os sintomas parecem um estado gripal ou outras doenças febris de pequeno risco, o que pode confundir o diagnóstico. Se não tiver tratamento a doença evolui para um quadro de infecção generalizada, com complicações pulmonares, vasculares, desidratação, choques, coma e morte. Em casos de alguns desses sintomas, o médico deve ser procurado imediatamente, principalmente para quem vive na área de risco.

CUIDADOS

Trata-se de uma zoonose transmitida do animal para o homem, quando ele fica mais exposto a uma área endêmica. Por esse motivo é importante que as pessoas tomem alguns cuidados quando estiverem no meio rural. “É comum ver pessoas entrarem no mato de bermuda e tênis, correndo riscos, inclusive de serem picadas por carrapatos. As pessoas devem se vestir adequadamente quando forem a esses lugares. A calça e a camisa devem ser compridas e claras, para que se possa ver o carrapato que, quando adulto, atinge o tamanho de uma unha do dedo mindinho. Se acontecer de o carrapato picar, é importante retirá-lo o mais depressa possível, a fim de diminuir o risco de infecção. Ao retirar o carrapato, a pessoa deve fazê-lo bem junto à pele para não deixar as peças bucais do invertebrado no local onde ocorreu a picada.

O combate às diferentes espécies é feito por meio de carrapaticidas, que podem ser diluídos na água em que os animais são banhados. O estudo dos carrapatos tem revelado fatos curiosos, como a reprodução agâmica ou partenogenética, já verificada na espécie Amblyomma rotundatum, comum em sapos e cobras do Brasil.

ANIMAIS DOMÈSTICOS

A febre maculosa é uma zoonose que possibilita a circulação da riquétsia entre carrapatos e mamíferos silvestres. O cão, além de ser o reservatório dessa riquétsia, também atua como um verdadeiro vetor levando os carrapatos para dentro das casas. Os vetores são os carrapatos, mais especificamente os Amblyomas ( A. Cajeunense, carrapato estrela ou do cavalo, A. striatum, comum em cães, A. brasiliensis e A. cooperi).

Como dissemos antes os animais infectados pela essa bactéria, são os roedores como capivara e em gambás, coelhos, cavalo, gado, cão, etc Dos animais domésticos, apenas os cães podem apresentar alguma suscetibilidade à doença, geralmente de forma benigna e dificilmente detectada clinicamente. Uma vez infectados, os cães e demais animais domésticos apresentam baixa concentração de riquétsias circulantes, insuficientes para transformá-los em reservatórios.

Os carrapatos e seus hospedeiros também sofrem as conseqüências das mudanças bruscas introduzidas pelo homem em determinados ecossistemas. Alterações nas condições climáticas ambientais e variações na comunidade de inimigos naturais, entre outros fatores gerais, podem contribuir para a eliminação ou expansão de espécies de carrapatos.

A domesticação de animais para a produção de carne, leite, couro ou finalidade de transporte ou de companhia, permitiu a gradual adaptação de algumas espécies de carrapatos, e a restrição desses animais, outrora nômades e hoje em estábulos, piquetes e canis, houve multiplicação e a reinfestação por carrapatos. No Brasil, por exemplo, as capivaras, reconhecidas como reservatórios naturais do agente causal da febre maculosa, quando confinadas podem sofrer infestações maciças de carrapatos da espécie Amblyomma cajennense.

As capivaras, assim como outros grupos de mamíferos silvestres em condições naturais, são reservatórios transitórios das riquétsias, adquirindo resistência duradoura após período parasitêmico, variável entre alguns dias e algumas poucas semanas. Se os carrapatos não tiverem a possibilidade de se reinfectar periodicamente, a concentração de riquétsias nesses invertebrados previamente infectados tende ao desaparecimento após algumas gerações. É muito importante chamar a atenção para o potencial risco relacionado à domesticação de animais silvestres. E, também temos a obrigação de manter os cães livres dos carrapatos e ter muito cuidado para não trazê-los das regiões endêmicas.

A febre maculosa brasileira, também chamada febre maculosa de São Paulo, tem como agente etiológico a Rickettsia rickettsii, a mesma Rickettsia responsável pela febre maculosa das Montanhas Rochosas. Reconhecida pela primeira vez no Estado de São Paulo em 1929 e, aparentemente, circunscrita a áreas suburbanas da capital, foi identificada em outras regiões do estado e também em Minas Gerais e Rio de Janeiro.

A Rickettsia é transmitida para os animais e o homem por algumas espécies de carrapatos, no Brasil principalmente por Amblyomma cajennense. A R. rickettsii é um parasito celular obrigatório que multiplica-se nas células endoteliais e da musculatura lisa dos vasos sanguíneos. Durante sua multiplicação, este patógeno produz enzimas tóxico-celulares, provocando distúrbios vasculares e desordens de funções tissulares. A inexistência de sinais patognomônicos dificulta o diagnóstico diferencial com várias outras doenças (Del Guercio et al., 1997).

Recentes pesquisas comprovam que a febre maculosa também pode ser causada pelas fezes do piolho e seus principais sintomas são: estagio febril agudo e pele com vermelhidão em alguns casos a pele pode parecer uma lixa.

A febre maculosa continua a ser uma doença infecciosa grave e potencialmente fatal. Apesar da disponibilidade de tratamento eficaz e dos avanços nos cuidados médicos, aproximadamente 20% a 40% dos indivíduos que se tornam doentes ainda morrem por esta infecção. Entretanto, a terapia antibiótica eficaz reduziu dramaticamente o número das mortes. Antes da descoberta da tetraciclina e do cloranfenicol, no final dos anos 40, até 80% das pessoas infectadas com a R. rickettsii faleciam.

Bibliografia:

Del Guercio, V.M.F.; Rocha, M.M.M.; Melles, H.H.B.; Lima, V.C.L.L.; Pignatti, M.G. 1997. Febre maculosa no município de Pedreira, SP, Brasil. Inquérito sorológico. Rev. Soc. Bras. Med. Trop., 30: 47-52.

Lemos, E.R.S.; Machado, R.D.; Pires, F.D.A.; Machado, S.L.; Costa, L.M.C.; Coura, J.R. 1997. Rickettsiae-infected ticks in an endemic area of spotted fever in the state of Minas Gerais, Brazil. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, 92: 477-481.

Pereira, M.C.; Labruna, M.B. 1998. Febre maculosa: aspectos clínico-epidemiológicos. Clínica Veterinária, 12: 19-26.

ATIVIDADE DE FUNGOS NEMATÓFAGOS NOS ESTÁGIOS PRÉ-PARASITÁRIO

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ATIVIDADE DE FUNGOS NEMATÓFAGOS NOS ESTÁGIOS PRÉ-PARASITÁRIOS DE NEMATÓDEOS TRICHOSTRONGILÍDEOS

PREDACIOUS ACTIVITY OF NEMATOPHAGOUS FUNGI ON FREE LIVING STAGES OF TRICHOSTRONGYLID NEMATODES

RESUMO

O controle dos nematódeos trichostrongilídeos é obtido através da aplicação de anti-helmínticos nos hospedeiros. Nas últimas décadas, estratégias de controle foram desenvolvidas visando a aplicação de anti-helmínticos em épocas em que as condições ambientais são desfavoráveis ao desenvolvimento dos estádios pré-parasitários. Estas estratégias apesar de serem bem sucedidas, apresentam inconveniências tais como o desenvolvimento de resistência aos princípios ativos mais comumente usados, a possibilidade de ocorrerem resíduos na carne e no leite e a ecotoxicidade de alguns compostos. Esses problemas reais e potenciais tem impulsionado estudos visando o desenvolvimento de alternativas que possam contribuir para redução ou substituição do uso desses compostos. Entre elas, o controle biológico dos estádios pré-parasitários através da ação de fungos nematófagos é uma alternativa promissora. Este artigo reúne as principais informações geradas nos estudos com estes microrganismos visando a redução do número de larvas de nematódeos trichostrongilídeos disponíveis nas pastagens.

Palavras-chave: Nematódeos trichostrongilídeos, controle biológico, fungos nematófagos.

SUMMARY

Nematophagous fungi are promising candidates for use as biological control agents to reduce the numbers of infective larvae of trichostrongylid on pasture. In the last five years research aimed at the use of nematophagous fungi to control trichostrongylid nematodes has been intensified. This paper presents a review of the current status of knowledge on the effect of this group of microorganism on the free living stages of these nematodes.

Key words: Trichostrongylid nematodes, biological control, nematophagous fungi.

INTRODUÇÃO

A redução do número de larvas infectantes de nematódeos nas pastagens é um dos objetivos do controle das verminoses. A redução da contaminação das pastagens é obtida através da aplicação de anti-helmínticos nos hospedeiros nas épocas em que as condições ambientais são desfavoráveis ao desenvolvimento dos estádios de vida livre. Essas aplicações visam a eliminação da grande maioria da população de adultos no hospedeiro. Assim, uma menor quantidade de ovos é passada ao exterior, onde as condições de desenvolvimento e sobrevivência são prejudiciais aos estádios pré-parasitários, ocorrendo portanto uma redução da população de larvas disponíveis.

A estratégia de redução das larvas infectantes nas pastagens utilizada nos esquemas de controle estratégicos é bem sucedida. Entretanto, o aparecimento de resistência aos princípios ativos anti-helmínticos, a existência de resíduos na carne e no leite e a ecotoxicidade de alguns compostos despertaram o interesse no desenvolvimento de alternativas que possam contribuir para minimizar o uso de anti-helmínticos no controle das verminoses (HERD et al., 1993; BJORN, 1994; DONALD, 1994; PRICHARD, 1994; WALLER, 1994).

Durante o desenvolvimento no meio ambiente, os estádios pré-parasitários dos nematódeos trichostrongilídeos são submetidos ao efeito de fatores abióticos, como temperatura, umidade, tensão de oxigênio, assim como fatores bióticos como ácaros, bactérias, fungos, vírus e outros agentes. Para que haja continuidade do ciclo biológico, os estádios de vida livre necessitam superar as barreiras causadas por esses fatores. A busca de alternativas para o controle da verminose dos ruminantes aponta para a necessidade de identificação de mecanismos que promovam o aumento ou a potencialização de fatores adversos ao ciclo biológico, como estratégia importante para a redução da contaminação das pastagens e conseqüentemente da população de helmintos nos animais em pastoreio.

A possibilidade de utilização do controle biológico na profilaxia das verminoses é uma alternativa promissora. Para isto, agentes biológicos com ação sobre ovos e larvas seriam aplicados nas pastagens ou administrados aos animais em épocas estratégicas a serem definidas de acordo com a epidemiologia das verminoses e a biologia dos agentes. Eles exerceriam sua ação sobre os ovo e larvas, promovendo a redução da contaminação através de mecanismos capazes de determinar a mortalidade dos ovos ou larvas ou interferir em funções vitais que ocasionem alterações no comportamento larvar.

A utilização de agentes biológicos com ação nos ovos e larvas de nematódeos trichostrongilídeos como alternativa para higienização das pastagens tem sido estudada em alguns laboratórios. Os fungos nematófagos são os microrganismos mais estudados com este objetivo. Esses fungos vivem na matéria orgânica do solo onde desenvolveram relações parasíticas ou predatórias com os nematódeos (BARRON, 1977). Este artigo reúne as principais informações disponíveis sobre estes microrganismos com o propósito de reduzir o número de larvas de nematódeos trichostrongilídeos disponíveis nas pastagens.

FUNGOS OVICIDAS

Os fungos nematófagos ovicidas produzem hifas que fixam-se nos ovos (Figura 1). O ataque de fungos em ovos de Ascaris lumbricoides foi estudado através da microscopia eletrônica (LÝSEK & KRAJSÍ, 1987). Inicialmente, é estabelecido um ponto de contato entre a hifa e a superfície do ovo. Em seguida, o fungo forma uma dilatação nesse ponto e danifica o complexo quitina-proteína da casca do ovo, provavelmente mediante a ação de enzimas, facilitando a penetração. Após a penetração, o fungo forma ramos micelares no interior do ovo consumindo o embrião, que pode sofrer o ataque em qualquer estágio de desenvolvimento. Nenhuma informação sobre a ação desses fungos em nematódeos trichostrongilídeos é ainda disponível. É importante notar que os ovos de trichostrongilídeos se desenvolvem e eclodem em cerca de 12-24 horas após a deposição dos bolos fecais nas pastagens. Logo, os fungos ovicidas provavelmente não tenham tempo de atuar sobre os ovos desses nematódeos.

FUNGOS ENDOPARASITAS

Os fungos endoparasitas desenvolvem-se no interior do corpo do nematódeo, sendo o esporo a forma infectante. A infecção inicia-se com a adesão do esporo à cutícula do nematódeo (esporo adesivo) ou através da ingestão. Em seguida, o esporo germina, penetra na cavidade do corpo onde produz o talo infeccioso que cresce e absorve o conteúdo corporal do nematódeo (BARRON, 1977; DIJKSTERHUIS et al., 1991). Os efeitos dos fungos endoparasitas nas formas de vida livre de nematódeos trichostrongilídeos não são extensivamente conhecidos. JANSSON et al. (1985) tentaram infectar, sem sucesso, larvas de Ostertagia ostertagi, Ostertagia circumcincta, Haemonchus contortus e Trichostrongyius colubriformis com Drechmeria coniospora. Contudo, quando a cutícula da larva de segundo estádio foi removida, o fungo foi capaz de infectar. Nas larvas de primeiro estádio de H. contortus, os conídios de D. coniospora aderem-se a região cefálica, nas proximidades da cápsula bucal (SANTOS & CHARLES, 1995a). Resultados dos testes sobre o efeito desse endoparasita no desenvolvimento de estádios de vida livre de H. contortus mostraram que ele é eficiente quando encontra-se em altas concentrações provavelmente devido a necessidade de haver um maior contato físico entre o nematódeo e o fungo, para que ocorra a infecção. Logo, quanto maior o número de conídios maior a chance de ocorrer a infecção (SANTOS & CHARLES, 1995a). Em um teste onde (10 à 5º), (10 à 6º) e (10 à 8º) conídios foram adicionados em cada grama de fezes de ovinos contendo ovos de H. contortus, apenas a concentração de (10 à 8º) conídios por grama apresentou redução significativa (88,4%) (SANTOS & CHARLES, 1995a).

O efeito de um outro fungo endoparasita foi recentemente estudado. No estudo, conídios de Harposporium anguillulae, um endoparasita que coloniza rapidamente os bolos fecais de bovinos depositados em pastagens de Brachiaria decumbens na Zona da Mata de Minas Gerais, foram adicionados a fezes ovinas contendo ovos de H. contortus. Nos cultivos que receberam conídios de H. anguillulae, o número médio de larvas recuperadas foi de três larvas em cada grama de fezes, enquanto nos cultivos não tratados o número médio de larvas encontrado foi de 594, representando uma redução de 99,5% (CHARLES et al., 1995).

Os fungos endoparasitas são eficientes e algumas espécies produzem grande quantidade de conídios e clamidosporos (BARRON, 1977), características importantes para que uma espécie possa ser utilizada no controle biológico. Entretanto, eles são parasitas obrigatórios, o que poderá limitar a sua utilização, já que grande quantidade de inócuo precisa ser produzida para uso em grande escala.

FUNGOS PREDADORES

Mecanismo de ação

Os fungos predadores produzem grande quantidade de hifas que se modificam em estruturas especializadas (armadilhas) com a finalidade de capturar e fixar nematódeos (BARRON, 1977). Essas estruturas podem ser aderentes ou não e serem produzidas espontaneamente ou em resposta a presença de nematódeos. Vários tipos de armadilhas podem ser desenvolvidos pelos fungos (Figuras 2 e 3). Nos que utilizam armadilhas aderentes, a substância adesiva pode cobrir toda a hifa ou apenas as estruturas especializadas e/ou as redes. As estruturas de captura não aderentes são os anéis constritores e os não constritores. Os anéis constritores tem ação ativa, geralmente têm três células e quando o nematódeo penetra no anel as células se expandem promovendo estrangulamento. Os anéis não constritores são estruturas passivas. Os nematódeos ao penetrarem nesses anéis, se enrolam e não conseguem sair.

A formação de armadilhas era atribuída apenas às hifas. Mais recentemente, DACKMAN & NORDBRING-HERTZ (1992) provaram que os esporos também podem produzir armadilhas. Eles mostraram que conídios de Arthrobotrys oligospora germinam diretamente em armadilhas aderentes quando adicionados em placas de ágar nas proximidades de fezes bovinas. Estas armadilhas são produzidas, possivelmente em resposta a substâncias estimulantes que se difundem das fezes. Segundo os autores, a possibilidade de formação de armadilhas a partir dos conídios é uma característica que permite ao fungo sobreviver à ação fungicida natural existente no meio ambiente.

Ação de fungos do gênero Arthrobotrys em estágios pré-parasitários de trichostrongilídeos

Os fungos do gênero Arthrobotrys, capturam as larvas nas armadilhas aderentes ou não aderentes (Figura 4) e produzem substâncias hidrolíticas que auxiliam na imobilização e infecção. Estudos bioquímicos e ultra-estruturais mostraram que a adesão entre o fungo e o nematódeo inicia-se com o contato físico entre a superfície do nematódeo e a do fungo. Este contato induz a vários eventos como a interação entre os receptores de lecitina, a modificação de polímeros da superfície e a ativação de enzimas específicas. Como resultado, ocorre uma ligação firme entre o nematódeo e o fungo. Após a captura, o fungo penetra na cutícula da larva, formando um bulbo de infecção onde inicia-se o crescimento da hifa, culminando com o preenchimento de todo o corpo do nematódeo (NORDBRING-HERTZ, 1988; TUNLID & JANSSON, 1991; TUNLID et al, 1992).

A ação do fungo A. oligospora nas larvas de nematódeos trichostrongilídeos é a mais estudada. Uma série de artigos publicados por autores dinamarqueses caracterizaram a ação desse fungo tanto em cultivos de fezes quanto em bolos fecais mantidos no meio ambiente. A maioria das informações foi obtida usando uma cepa isolada na Suécia e larvas dos nematódeos Cooperia oncophora e O. ostertagi. Primeiramente a capacidade do fungo em formar armadilhas na presença de larvas infectantes de nematódeos trichostrongilídeos foi observada em alguns experimentos usando-se o isolado sueco. NANSEN et al. (1986) demonstraram que larvas de primeiro e segundo estágio e larvas infectantes de C. oncophora estimulam a formação de armadilhas que inicia-se entre três a seis horas após o contato com o fungo. Em cerca de 12-15 horas a quase totalidade das larvas foi presa nas armadilhas produzidas pelo fungo. Em seguida, NANSEN et al. (1988) testaram o fungo na presença de larvas infectantes de nove espécies de nematódeos e verificaram que as larvas de maior motilidade, como as de C. oncophora, O. ostertagi, Cooperia curticei e H. contortus, incitam o fungo à formar armadilhas mais rapidamente que quando estimulados por larvas pouco ativas como as de Dictyocauius viviparus.

Assim que a larva é aprisionada nas armadilhas, o fungo inicia o processo de infecção. Um bulbo infeccioso é formado, por onde crescem as hifas que preenchem o corpo do nematódeo. Quando o fungo infecta as larvas de primeiro ou segundo estágio elas morrem rapidamente. Entretanto, as larvas infectantes permanecem se movimentando nas armadilhas por cerca de 20 horas, provavelmente devido a dificuldade de penetração na cutícula da larva que é recoberta pela cutícula morta externa oriunda da larva de segundo estágio (NANSEN et al., 1986).

Redução do número de larvas infectantes em cultivos de fezes, bolos fecais e pastagens

A adição de conídios de A. oligospora reduz significativamente a população de larvas nas fezes. Para Cooperia spp, a adição de conídios desse fungo em quantidades variáveis de 250 a 2500 conídios/g de fezes reduziu significativamente a quantidade das larvas (GRØNVOLD et al., 1985). Reduções de 86 a 96% no número de larvas infectantes de C. oncophora foram observadas em bolos fecais e na vegetação circunvizinha após o tratamento com micélio de A. oligospora (GRØNVOLD et al., 1987). Reduções marcantes também foram observadas quando fezes contendo ovos de O. ostertagi foram tratadas com o mesmo fungo (GRØNVOLD et al., 1988). Em um experimento subsequente, GRØNVOLD et al. (1989) mostraram que bezerros que pastaram piquetes onde adicionaram-se bolos fecais inoculados com micélio de A. oligospora, adquiriram 37% menos nematódeos e ganharam em média 16kg a mais que os que pastaram piquetes onde os bolos fecais não foram inoculados.

A atividade predatória de outros isolados de A. oligospora e fungos predadores de outras espécies do gênero Arthrobotrys, assim como espécies de outros gêneros, em cultivos, bolos fecais e pastagens foi demonstrada em vários experimentos (PANDEY, 1973; VIRAT & PELOILLE, 1977; PELOILLE, 1981; NUNES et al., 1982; FERNANDEZ et al., 1985; HASHMI & CONNAN, 1989; MENDOZA-DE GIVES et al., 1992, 1994; WALLER & FAEDO, 1993; ARAÚJO et al., 1993; CHARLES et al., 1993; MENDOZA-DE GIVES & VAZQUEZ-PRATZ, 1994). Mais recentemente ênfase tem sido dada a seleção de outras espécies e isolados de fungos predadores. Na Austrália, bioensaios utilizando 94 espécies de fungos nematófagos identificaram como promissoras seis espécies do gênero Arthrobotrys, duas do gênero Geniculifera e duas do gênero Monacrosporum (WALLER & FAEDO, 1993). No México, MENDOZA-DE GIVES & VAZQUEZ-PRATZ (1994) verificaram que a adição de conídios de Monacrosporum eudermatum e A. oligospora em cultivos de fezes ovinas contendo ovos de H. contortus promoveu reduções significativas no número de larvas infectantes. O mesmo foi observado no Brasil, para A. oligospora e Arthrobotrys flagrans (CHARLES et al., 1993).

Seleção de fungos capazes de resistir a passagem pelo trato digestivo

A resistência à passagem pelo trato gastrintestinal é uma característica importante em fungos a serem usados no controle biológico, já que formulações para uso oral poderão ser desenvolvidas. SUPRONOV (1958) usando um isolado russo de A. oligospora verificou que a cepa era capaz de crescer e exercer atividade predatória em larvas de nematódeos após a passagem pelo trato gastrintestinal de asininos. Resultados semelhantes foram observados por GRÜNER et al. (1985), PRYADKO & OSIPOV (1986) e PELOILLE (1991) para Dactylaria candida, Candelabrella (Arthrobotrys) musiformis, Arthrobotrys tortor, Arthrobotrys arthrobotryoides e A. flagrans que sobreviveram à passagem pelo trato gastrintestinal de ovinos. Já um isolado de A. oligospora e um de Dactylella bembicodes não sobreviveram à passagem pelo trato gastrintestinal de eqüinos e cobaias (DESCAZEAUX & CAPELLE, 1939). Mais recentemente, GRØNVOLD et al. (1993) verificaram que o isolado sueco de A. oligospora (ATCC24927), usado em uma série de experimentos na Dinamarca, não resistiu à passagem pelo trato gastrintestinal de bovinos, caprinos e suínos.

A existência de variação entre isolados de fungos nematófagos quanto a capacidade de sobreviver à passagem pelo trato gastrintestinal tem determinado o desenvolvimento de técnicas que permitam a seleção de fungos com esta característica. LARSEN et al. (1991) desenvolveram um bioensaio em que primeiramente os isolados são incubados em líquido ruminal diluído. As espécies que sobrevivem a esta seleção inicial são então testadas em saliva sintética, líquido ruminal simulando a atividade do rúmen, líquido ruminal após tratamento com pepsina e à solução de tripsina. Com o uso dessas técnicas LARSEN et al. (1991) selecionaram seis isolados de Arthrobotrys e sete de Duddingtonia. Esses isolados reduziram o desenvolvimento de larvas de O. ostertagi em 75-96%. Em seguida, LARSEN et al. (1992) submeteram esses isolados a testes in vivo através da administração oral diária dos fungos a bezerros. No quarto e quinto dia após o inicio da administração dos fungos, material fecal foi colhido das fezes desses bezerros e inoculado em placas de ágar-água. Em seguida, a atividade predatória dos fungos isolados do material fecal foi estudada através de bioensaios em bolos fecais e em cultivos de fezes. Dos fungos testados, dois do gênero Arthrobotrys e seis do gênero Duddingtonia reduziram o desenvolvimento de larvas de O. ostertagi em 61 a 93% quando adicionados aos bolos fecais. A redução das larvas desse nematódeo nos cultivos fecais variou de 76 a 99%.

Na Inglaterra, HASHMI & CONNAN (1989) administraram oito milhões de conídios de um isolado local de A. oligospora duas vezes por semana a bezerros infectados com C. oncophora e O. ostertagi e obtiveram reduções que variaram entre 51-62% no número de larvas disponíveis nas pastagens utilizadas pelos bezerros tratados com o fungo. Mais recentemente, WOLSTRUP et al. (1994), relataram um experimento onde uma cepa de Duddingtonia flagrans capaz de resistir à passagem pelo trato gastrintestinal foi administrada via oral a bezerros, diariamente, nos dois primeiros meses de pastoreio. Este grupo de bezerros e um outro grupo que não recebeu o fungo foram infectados experimentalmente com O. ostertagi. A pastagem utilizada pelos bezerros que receberam o fungo tinha menos larvas infectantes disponíveis assim como os bezerros eliminavam menos ovos nas fezes. Ao final do período de observação eles pesavam em média 23kg a mais que os que não receberam os fungos. A administração oral do mesmo isolado de fungo a bezerros mantidos em pastagens contaminadas por igual período, demonstrou que o fungo promoveu a diminuição da disponibilidade de larvas infectantes nas pastagens reduzindo a aquisição de Ostertagia sp. e Cooperia sp. no final da estação de pastoreio (LARSEN et al., 1995).

Na Austrália, WALLER et al. (1994), identificaram três espécies capazes de resistir à passagem pelo tubo gastrintestinal de ovinos: A. oligospora, Arthrobotrys oviformis e Geniculifera eudermata. Conídios dessas espécies diluídos em água foram administrados a ovinos dotados de cânulas no abomaso e íleo. Os conídios foram capazes de passar pelos diferentes compartimentos do tubo gastrintestinal dos ovinos e exercer atividade predatória após a passagem.

Fungos nematófagos foram isolados em fezes frescas colhidas diretamente do reto ou em bolsas fecais. PARNELL & GORDON (1963) relataram que o número de larvas infectantes em cultivos de fezes de ovinos infectados com H. contortus declinou a níveis insignificantes devido a ação de Acrostalagmus sp. que eles isolaram das fezes frescas colhidas em bolsas fecais presas a esses ovinos. Mais tarde, a possibilidade de ocorrer naturalmente a passagem de fungo nematófago pelo trato gastrintestinal de ruminantes foi sugerida por HASHMI & CONNAN (1989). LARSEN et al. (1993) em estudo desenvolvido na Austrália, efetuaram um levantamento que confirma a sugestão de HASHMI & CONNAN (1989). No estudo, fezes de ruminantes eram colhidas do reto dos animais e submetidas a um bioensaio para identificar a presença de fungos nematófagos. Quarenta e oito isolados foram encontrados entre as 1742 amostras submetidas ao bioensaio. Dessas, apenas um isolado de D. flagrans foi capaz de resistir à passagem pelo trato gastrintestinal de ovinos em um teste in vivo e promover reduções significativas no número de larvas infectantes em cultivos de fezes de ovinos tratados via oral com este fungo. No Brasil, um levantamento semelhante encontra-se em andamento na EMBRAPA-Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Leite. Até o momento, uma espécie foi identificada em fezes de um bovino colhidas diretamente do reto e uma em fezes colhidas em bolsas fecais fixadas em ovinos. A espécie isolada na fezes bovinas foi identificada como pertencente ao gênero Arthrobotrys enquanto a das fezes ovinas foi identificada como A. oligospora (SANTOS & CHARLES, 1995b).

CONCLUSÃO

Há mais de um século sabe-se que alguns fungos exercem atividade predatória em nematódeos. No final da década de 30 os danos causados pelos nematódeos e a baixa eficiência dos métodos de controle da verminose existentes naquela época, impulsionaram alguns pesquisadores a iniciar estudos visando o controle biológico das formas de vida livre dos nematódeos com o uso de fungos nematófagos. Vários artigos foram publicados por pesquisadores franceses mostrando existir atividade de algumas espécies de fungos sobre larvas de nematódeos parasitas de animais (revisados por PANDEY, 1973). Eles também estudaram métodos de cultivo de fungos e recuperação e secagem de esporos com vistas à aplicação prática do controle biológico. ROUBAUD & DESCHIENS (1941a; 1941 b), mostraram atividade de fungos predadores sobre larvas de Strongyloides papillosus e Bunostomum sp. Mais de 20 anos se passaram desde a observação de ROUBAUD & DESCHIENS até que PARNELL & GORDON (1963) demonstraram o efeito de um fungo predador do gênero Acrostalagmus em larvas de Haemonchus contortus. Dez anos após, PANDEY (1973) publicou os resultados de uma série de experimentos demonstrando o efeito de dez fungos nematófagos contra larvas de Trichostrongylus axei e Ostertagia ostertagi.

Nos últimos cinco anos, as pesquisas sobre a utilização de fungos nematófagos se intensificaram. Os estudos iniciais de seleção utilizam metodologias simples. Técnicas in vitro sem sofisticação são disponíveis para selecionar isolados capazes de atrair nematódeos, produzir substâncias nematicidas, resistir à passagem pelo trato gastrintestinal e reduzir o número de larvas infectantes em cultivos, bolos fecais e vegetação. Fungos que demonstrarem resultados promissores nos testes preliminares são então submetidos a estudos adicionais para verificar a capacidade dos isolados em colonizar o bolo fecal em velocidade compatível com o desenvolvimento das larvas. Fungos capazes de colonizar, persistir e agir no habitat dos ovos e larvas, fáceis de serem produzidos em larga escala e armazenados, sem efeito indesejável ao serem associados aos produtos químicos comumente usados nas propriedades, seguro para o ser humano e sem efeito negativo no ambiente precisam ser selecionados. Muitos estudos deverão ser conduzidos após o estágio inicial de seleção de microrganismos tais como ensaios ecológicos e de manipulação microbiana. Estes estudos necessitarão de programas de pesquisa de longa duração e de um grande intercâmbio entre equipes e especialistas de diferentes áreas para que soluções práticas de emprego de microrganismos na higienização das pastagens possam ser obtidas.

Não se pretende com o controle biológico substituir o controle com o uso de fármacos. Os agentes de controle biológico raramente promovem a erradicação dos alvos. Geralmente eles reduzem a população a níveis aceitáveis. No controle das verminoses de ruminantes espera-se que o controle biológico possa ser empregado nas épocas em que as larvas infectantes são abundantes, reduzindo o número e conseqüentemente a incidência de casos clínicos, além de promover a imunidade dos animais através do desafio com um pequeno número de larvas.

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Terezinha Padilha
Médico Veterinário, PhD, Pesquisadora da EMBRAPA
Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Leite, Rodovia MG 133 km 42, Coronel Pacheco MG 36.155-000, Bolsista do CNPq

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