GESTÃO ESTRATÉGICA DA INFORMAÇÃO

0

GESTÃO ESTRATÉGICA DA INFORMAÇÃO DO AMBIENTE EMPRESARIAL:

Um estudo de caso sobre o processo de monitoramento do ambiente externo em uma empresa brasileira de grande porte

Kristiane Cera Carvalho
Mestranda -Escola de Engenharia de São Carlos – USP
[email protected]

José Henrique de Andrade
Graduando -Escola de Engenharia de São Carlos – USP
[email protected]

Edmundo Escrivão Filho
Professor Doutor -Escola de Engenharia de São Carlos – USP
[email protected]

ABSTRACT

The changes in the external environment can influence in an important way the competitiveness and the affects of the organizations development. The activities related to strategic process make that the administrators accomplish a better adjustment between the organization and its environment. Among these activities, the environmental scanning has the purpose to observe the varieties and collect information of the company’s environment.

The objective of this article is to confront the theory of environmental scanning with its practice in a big Brazilian company. As results, it was verified that this company doesn’t possess a internal structured system to analyze the external environment. However, its main partners participate in an association that
monitored continuously important varieties for the company.

key-words: information management, strategic plan, environmental scanning.

GESTÃO ESTRATÉGICA DA INFORMAÇÃO DO AMBIENTE EMPRESARIAL:

Um estudo de caso sobre o processo de monitoramento do ambiente externo em uma empresa brasileira de grande porte

1. INTRODUÇÃO

O funcionamento organizacional pode ser representado por um modelo de cinco variáveis -Tecnologia, Comportamento, Estrutura, Decisão e Estratégia (ESCRIVÃO FILHO, 1995). Destas variáveis, relevantes à compreensão da dinâmica organizacional, este artigo abordará somente a questão da Estratégia, vista pelo lado da prática do monitoramento do ambiente organizacional como etapa do planejamento estratégico empresarial.

Segundo Pereira (1999) a empresa é um sistema aberto e dinâmico, isto é, um conjunto de elementos interdependentes que interagem entre si para a consecução de um fim comum, em constante inter-relação com seu ambiente. Os adeptos da abordagem dos sistemas fechados se concentram apenas no ambiente interno da empresa que, embora importante, tem valor limitado no que se refere ao processo estratégico.

Assim, as empresas necessitam conhecimento de sua realidade ambiental a partir de informações encontradas em seu ambiente externo. Estas informações podem ser consideradas estratégicas pois contribuem para a ação estratégica dos dirigentes das organizações.

2. PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO E AMBIENTE EXTERNO

De que forma as dimensões do ambiente direto (também chamado ambiente operacional ou de tarefa) e o ambiente indireto (ou macroambiente) estão afetando as organizações e as pessoas?

Segundo Motta (1982), o primeiro resultado da constatação de que as organizações vivem em um ambiente de turbulência e constantes mutações foi a necessidade sentida por elas de aperfeiçoar seus processos de planejamento e manter-se alertas para possíveis modificações futuras. Assim, surgiu a técnica administrativa denominada planejamento estratégico, substituindo técnicas de projeção do futuro baseadas no crescimento histórico, que não conseguiam lidar com um ambiente em constante modificação.

É consenso entre os estudiosos que o planejamento é considerado estratégico quando tem como principal característica a ênfase no ambiente da empresa e que essa técnica visa, portanto, ajustar a organização às variáveis ambientais. Estas são as colocações de Hax e Majluf (1984), Vasconcellos Filho (1985), Fischmann e Almeida (1991), Certo e Peter (1993), Bethlem (1999), Oliveira (1999), Thompson Jr. e Strickland (2000) e Almeida (2001).

Assim, autores como Fischmann e Almeida (1991) relacionam essa técnica intimamente à análise do ambiente da organização, que objetiva, justamente, estabelecer o propósito de direção que a organização deverá seguir para aproveitar oportunidades e evitar riscos do ambiente em que se insere. Certo e Peter (1993) chegam a afirmar que o relacionamento com o ambiente externo condiciona a vida ou a morte de uma empresa. Hax e Majluf (1984) também colocam que a manutenção de uma atitude vigilante em relação às mudanças nas variáveis ambientais é a maior força que indica a capacidade da organização de sobreviver em seu ambiente.

Planejamento estratégico é, portanto, um sistema de levantamento e avaliação de situações, que pretende não ponderar o futuro ou eliminar a incerteza, mas preparar a organização para as modificações neste futuro (VASCONCELLOS FILHO, 1985). E se, de acordo com Thompson Jr. e Strickland (2000), a elaboração da estratégia é um exercício de empreendimento e uma maneira de pensar de fora para dentro, o grande desafio dos gerentes consiste em manterem suas estratégias muito próximas dos acontecimentos externos.

Para lidar com a incerteza, as estratégias precisam adquirir flexibilidade para ampliar o escopo de possíveis respostas às imposições de um ambiente em constante mutação. O aumento da incerteza e a intensificação da concorrência significam privilegiar soluções que aumentem a agilidade de resposta às novas condições mais incertas e mutáveis (SOUZA, 1995).

Para Meyer (1997) é através do planejamento estratégico que as empresas podem adotar um comportamento que procure minimizar o crescente grau de incerteza ambiental. Fischmann e Santos (1982) dizem que, para isso, surge a necessidade de capacitar a administração para antecipar estados futuros do ambiente em que a empresa atua ou pretende atuar, mediante a avaliação do comportamento das múltiplas variáveis que compõem a realidade da organização.

Assim, a organização deve se preocupar com fatores do ambiente externo porque ele cria incertezas e é preciso responder a elas projetando a organização para se adaptar a este ambiente e influenciá-lo. A incerteza aparece quando os gerentes não têm informação suficiente sobre os fatores ambientais para compreender e antecipar as necessidades e mudanças do ambiente (DAFT, 1999).

Para Oliveira (1999), o executivo deve atentar para as falhas mais freqüentes na consideração do ambiente de uma empresa. Segundo ele, a primeira é não considerar fatores ambientais que exerçam influência sobre a empresa. A segunda é não considerar o grau de influência da empresa sobre os fatores considerados do ambiente e a terceira é não atuar de forma adequada sobre os fatores identificados no ambiente. Em contraposição à segunda falha exposta pelo autor e a posição de Daft (1999) sobre a influência da empresa em seu ambiente, Fischmann & Almeida (1991), Bethlem (2002) e Almeida (2001) afirmam que as ocorrências no exterior da empresa sofrem pouca ou nenhuma influência dela.

Davenport e Prusak (2002) dizem que há pelo menos três tipos de respostas básicas a partir das quais a empresa pode reagir ao ambiente externo. A empresa pode: 1-se adaptar ao mundo exterior; 2-investigar esse mundo em busca de transformações a que deve responder; 3-ou moldar as condições exteriores, por meio de serviços e produtos da informação.

Daft (1999) diz existirem duas estratégias básicas para conviver com incertezas ambientais relevantes. Uma é adaptar a organização às mudanças ambientais e a outra é influenciar o ambiente para torná-lo mais compatível com as necessidades da organização. A primeira estratégia deve ser baseada em previsões, ou seja, no esforço para antecipar as tendências que permitirão prever eventos futuros. O planejamento, segundo ele, pode atenuar os efeitos contrários originados por rápidas mudanças do ambiente. A segunda estratégia, a de influenciar o ambiente, pode ser realizada, segundo o autor, através de propaganda e relações públicas, da atividade política e de associações de classe.

Assim, considerando que os acontecimentos no ambiente externo da organização podem influenciar de maneira relevante sua competitividade e afetar seu desenvolvimento, uma gestão estratégica que vise um melhor ajustamento entre ela e seu ambiente pode significar o sucesso desta organização.

3. GESTÃO ESTRATÉGICA E MONITORAMENTO DO AMBIENTE
A atividade de monitoramento, entendida como a observação sistemática das variáveis que podem influenciar o desempenho da organização, é uma maneira de coletar informações para o processo estratégico, seja na fase de elaboração da estratégia, seja na implementação dos planos e nas mudanças necessárias para adequar organização e ambiente. Monitorar o ambiente externo da empresa pode significar a diferença de uma gestão estratégica de outra não estratégica.

3.1 MONITORAMENTO AMBIENTAL

O enfoque tradicional do planejamento empresarial, bastante em voga até meados da década de 1960, recomendava avaliação ocasional e reformulação de objetivos para adaptação estrutural da empresa aos fatores do ambiente. O enfoque moderno parte da premissa de um ambiente em constante mutação e turbulência, que exige um processo contínuo de formulação e avaliação de objetivos baseado em um fluxo de informações sistemáticas sobre as transações entre ambiente e organização (MOTTA, 1982).

Portanto, devido ao fato de as mudanças ocorridas no ambiente de negócio serem dinâmicas, elas precisam ser continuamente monitoradas (SANTOS & PEREIRA, 1995).

Autores como Certo e Peter (1993) acreditam que a atividade de análise do ambiente é a principal etapa do processo estratégico, indicando que as variáveis ambientais devem ser constantemente examinadas pela empresa. Esses autores dizem que a análise do ambiente consiste, exatamente, em “monitorar o ambiente organizacional para identificar os riscos e as oportunidades presentes e futuras, que possam influenciar na capacidade da empresa em atingir objetivos” (p.35). Assim, a etapa de monitoramento do ambiente deve fornecer aos administradores informações adequadas para reflexão, sendo que elas devem ser obtidas de todos os níveis do ambiente organizacional e a análise dessas informações deve estabelecer a relevância destes níveis ambientais e das várias questões estratégicas para a organização.

Para Aguilar (1965), com o monitoramento ambiental os administradores obtêm informações relevantes sobre eventos que ocorrem fora da empresa a fim de guiar o seu curso de ação futuro. Segundo o autor, os administradores são chamados a considerar e inter-relacionar de maneira significativa uma grande quantidade de fatores externos, onde a quantidade de dados disponíveis é imensa e a confiança neles é freqüentemente questionável, além de sua coleta e processamento poderem ser caros e muita informação desejável não estar disponível.

De acordo com Kotler (1998), uma unidade de negócio precisa monitorar as forças macroambientais, ou seja, as forças demográficas, econômicas, tecnológicas, políticas, legais, sociais e culturais, e também os atores microambientais importantes, como os consumidores, concorrentes, canais de distribuição e fornecedores.

Segundo Bethlem (1999), é importante que os dirigentes de empresa se mantenham informados sobre as variáveis externas que vão influenciar a atuação da empresa e quando possível procurar interferir no comportamento e evolução dessas variáveis.

Sobre a necessidade de estruturação do processo de monitoramento do ambiente, os autores têm opiniões diferentes. Zaccarelli et al. (1980) dizem que a alta administração, de um modo ou de outro, sempre tem analisado os fatores ambientais mas quase sempre de modo informal, correndo o risco de fazer uma análise incompleta ou insuficiente. Stewart et al. (2000) defendem que o desenvolvimento e a organização de um processo de monitoramento ambiental formal é importante, pois esse processo fornece qualidade às informações obtidas. Em contraposição, Debortoli (2001) diz que o planejamento estratégico tem como base processos formais, ou processos informais, de monitoramento das informações do ambiente.

De outro modo, Fahey e King (1982) colocam a existência de três modelos de investigação ambiental: modelo irregular, modelo regular e modelo contínuo de
investigação. O modelo irregular é um processo de estudo ambiental casuístico, provavelmente criado por alguma ocorrência inesperada no ambiente; o modelo regular é realizado a partir de uma revisão regular do ambiente, ou pelo menos daqueles componentes considerados importantes; e o modelo contínuo propõe uma observação constante de vários sistemas ambientais, ao invés de eventos específicos.

É preciso considerar que, em muitos casos, as empresas não necessitam de sistemas complexos para monitorar informações ambientais. Assim, é necessário identificar formas adequadas às necessidades particulares de cada empresa, até mesmo no que diz respeito a necessidade de estruturação do processo.

Portanto, o monitoramento do ambiente externo, através da busca contínua de informações nas variáveis encontradas fora da organização, é um instrumento útil para conhecimento do ambiente em que a organização se insere e fundamental para uma gestão estratégica.

3.2 IDENTIFICANDO O AMBIENTE EXTERNO

O ambiente é entendido de maneiras diferentes pelos autores. A segmentação e o entendimento de cada segmento são questões que não apresentam consenso na literatura sobre processo estratégico. Muitos deles deixam de definir ambiente, o que provoca muitas confusões e interpretações ambíguas.

Vasconcellos Filho (1983) divide o ambiente externo em dois: Macroambiente e Ambiente Operacional. O Macroambiente é composto pelas variáveis de nível macro, como as econômicas, sociais, culturais, demográficas, políticas, tecnológicas, legais e ecológicas. O Ambiente Operacional é composto pelos Públicos Relevantes Externos com os quais a organização mantém vários tipos de relacionamentos, como pessoas, grupos de pessoas, entidades, empresas, órgãos do Governo. Segundo esse autor, são as características de cada organização – como tamanho, autonomia, âmbito de atuação e grau de participação – que irão estabelecer o grau de relevância das variáveis de cada segmento ambiental.

Certo e Peter (1993) segmentam o ambiente em Ambiente Geral e Ambiente Operacional. O Ambiente Geral é o nível do ambiente externo à organização, composto de componentes que normalmente têm amplo escopo e pouca aplicação imediata para administrar uma organização. O Ambiente Operacional é composto por setores que normalmente têm implicações específicas e relativamente mais imediatas na administração da organização. Os principais componentes do Ambiente Operacional são os clientes, a concorrência e os fornecedores. O ambiente organizacional é definido como o conjunto de todos os fatores que possam afetar seu progresso de atingir metas.

Para Daft (1999), o ambiente organizacional externo inclui todos os elementos existentes fora das fronteiras da organização que têm potencial para afetá-la; o ambiente externo da organização pode ser mais bem conceituado como tendo duas camadas: Ambiente Geral e Ambiente Tarefa. O Ambiente Geral corresponde às camadas externas que afetam a organização indiretamente; inclui fatores internacionais, tecnológicos, sócio-culturais, econômicos e político-legais que influenciam, igualmente, todas as organizações inseridas nesse ambiente. Estes eventos não afetam as operações do dia-a-dia, mas acabam
por afetar toda a organização. O Ambiente Tarefa é mais próximo da organização e inclui os setores que transacionam diretamente suas operações básicas e seu desempenho; é geralmente constituído de concorrentes, fornecedores e clientes.

Oliveira (1999) divide o ambiente da empresa em duas partes: em Ambiente Direto e Ambiente Indireto. O Ambiente Direto representa o conjunto de fatores através dos quais a empresa tem condições não só de identificar, mas também de avaliar ou medir, de forma mais efetiva e adequada, o grau de influência recebido e/ou proporcionado. O Ambiente Indireto, por sua vez, representa o conjunto de fatores através dos quais a empresa identificou, mas não tem condições no momento de avaliar ou medir o grau de influência entre as partes. Pode ser o caso de algumas variáveis culturais, demográficas ou sociais. Para o autor, dividir o ambiente em dois é útil, pois facilita a manipulação das variáveis externas que apresentam, em determinado momento, maior facilidade de mensuração da relação de influências entre a empresa e seu ambiente. É possível predizer que empresas de um mesmo ramo econômico, área geográfica, amplitude de atuação (nacional e multinacional) e de aproximadamente mesmo porte terão diferentes graus de receptividade ou repulsão aos fatores ambientais, dependendo da amplitude relativa de seus insumos e resultados.

Almeida (2001) define ambiente como um conjunto de variáveis que influenciam o desempenho da empresa e esta pouco ou nada pode fazer para alterá-lo. O autor segmenta o ambiente externo em três: Macroambiente Clima, Macroambiente Solo e Ambiente Operacional. Para o autor, essa divisão é útil pois os diferentes segmentos têm características e formas de análise diferentes. O segmento ambiental denominado Macroambiente Clima tem como variáveis as decorrentes do poder político, como por exemplo a inflação, o crescimento do PIB e a legislação. Fazem parte do Macroambiente Solo as variáveis do futuro da população e suas características, como por exemplo crescimento por região, por faixa de renda e por sexo. O Ambiente Operacional é constituído por variáveis decorrentes das operações da empresa com concorrentes, fornecedores e clientes diretos.

Considerando os cinco autores examinados e suas diferentes maneiras de conceituar o ambiente externo à organização e seus segmentos, optou-se pela classificação que segmenta o ambiente em Macroambiente e Ambiente Operacional. Deve-se considerar, também, que não serão feitas, em princípio, afirmações quanto à relevância de determinados segmentos para determinadas empresas, como fizeram Daft e Certo & Peter. Como sugeriu Vasconcellos Filho, o grau de relevância das variáveis de cada segmento ambiental depende das características de cada organização que podem ser consideradas, no
momento, resultantes do tamanho, da autonomia, do âmbito de atuação e do grau de participação da empresa em seu ambiente. Assim, não se pode, num primeiro momento, relacionar determinados segmentos com determinados graus de importância para a empresa.

3.3 RELEVÂNCIA DO MONITORAMENTO AMBIENTAL

A importância do monitoramento ambiental está no fato de a organização impreterivelmente interagir com o seu ambiente, podendo seu desempenho ser
influenciado por ele de maneira relevante. Considerando isso, pode-se dizer que o processo estratégico tem como objetivo melhorar essa interação, pois pode fornecer informações necessárias para a empresa se relacionar de maneira mais coerente com seu ambiente. No entanto, o processo estratégico precisa ser realizado de tal modo que considere atividades contínuas de observação das variáveis ambientais no tocante às suas modificações.

Para Tregoe e Zimmerman (1984), o exame do ambiente é um aspecto importante do pensamento estratégico. Os autores dizem que os dirigentes devem identificar, organizar e usar dados sobre o ambiente para definir e testar possíveis forças motrizes futuras. Assim, segundo os autores, é necessário melhorar a qualidade e a precisão das informações sobre economia, tecnologia, fatores sócio-políticos e concorrentes, e trabalhar para que tais informações sejam usadas pela diretoria na formulação da estratégia.

Por outro lado, Thompson Jr. e Strickland (2000) afirmam que “a estratégia é mais do que os gerentes planejam cuidadosamente e pretendem realizar como parte de um grande projeto estratégico. Novas circunstâncias estão sempre emergindo, sejam elas importantes desenvolvimentos tecnológicos, introdução de novos produtos pelos rivais, novos regulamentos e políticas governamentais ou aumento do interesse do consumidor… O futuro contém tantas incertezas que os gerentes não podem planejar cada ação estratégica com antecedência e perseguir sua estratégia pretendida sem necessidade de alteração” (p.18).

Assim, segundo esses autores, são necessárias alterações nas estratégias deliberadas, por meio de respostas estratégicas não planejadas (estratégias emergentes). Para isso, a empresa deve possuir comportamentos ao mesmo tempo pró-ativos, mediante a estratégia pretendida, e reativos, mediante estratégias emergentes, a fim de se adaptar às mudanças ambientais. O monitoramento ambiental, sem dúvida, ajuda na identificação das
mudanças necessárias.

De modo semelhante, Zaccarelli et al. (1980), a partir de estudos sobre ecologia de empresas, afirmam que a existência de uma empresa em determinado ambiente depende do atendimento às condições impostas por este ambiente à empresa. Assim, se faz necessário um contínuo acompanhamento das variáveis ambientais.

4. EXPLORANDO O TRABALHO DE CAMPO

Acredita-se na importância de não apenas prescrever sistemas para o exame da informação ambiental, mas também na necessidade de descrever como é de fato realizado o gerenciamento das informações externas nas empresas. Assim, considerando a necessidade de compreender a prática, foi feito um estudo de caso a fim de investigar como é, realmente, realizado o monitoramento do ambiente em uma empresa. Desta forma, o enfoque da pesquisa pautou-se na seguinte questão: Como é realizado o monitoramento do ambiente externo por uma empresa brasileira de grande porte?

Portanto, o objetivo principal deste trabalho é, a partir de pesquisa bibliográfica preliminar e do trabalho de campo, compreender a prática do monitoramento ambiental como forma de obtenção contínua de informações relevantes para o processo estratégico de uma empresa de grande porte.

4.1 METODOLOGIA

Considerando a questão principal da pesquisa e o objetivo que ela apresenta, optou-se pelo método denominado estudo de caso. Segundo Yin (2001), o estudo de caso é uma estratégia de pesquisa que se baseia em questões do tipo “como” e “por que” sobre um conjunto contemporâneo de acontecimentos no qual o pesquisador tem pouco ou nenhum controle. O estudo de caso foi realizado de uma perspectiva qualitativa.

O instrumento de coleta de dados utilizado foi a entrevista como forma de interação entre o pesquisador e o objeto de pesquisa. A partir de uma revisão bibliográfica sobre o tema, foi desenvolvido um roteiro de entrevista que orientou os pesquisadores na coleta de informações sobre o processo de monitoramento do ambiente na empresa escolhida.

4.2 EMPRESA ESTUDADA
A empresa escolhida é uma organização nacional de grande porte que atua no mercado há 116 anos, possui 850 funcionários regulares e aproximadamente 350
vendedores e possui três unidades produtivas. A empresa possui três sócios com 25% de participação cada um, os outros 25% são propriedade de sócios minoritários, sendo uma empresa essencialmente familiar. A indústria trabalha com derivados de trigo, comercializa seus produtos em todo o Brasil e no Mercosul e está iniciando também comercialização no Japão. As entrevistas foram realizadas com um dos sócios da empresa.

5. RESULTADOS DO TRABALHO DE CAMPO

A empresa não possui atividades formais de planejamento estratégico. De acordo com o entrevistado, os três sócios principais têm suas visões de onde querem que a empresa chegue. Esses pontos de vista, mesmo que particulares de cada um dos sócios, se voltam para o mesmo foco, já definido na empresa: trabalhar com trigo e seus derivados. Tudo que foge deste foco, nem pode ser discutido como possibilidade de negócio. Entretanto, nenhuma estratégia, meta ou objetivo está escrito ou formalizado, exceto metas e objetivos funcionais. O empresário entrevistado sente necessidade de formalizar os planos da empresa, no que se refere a estratégias de longo prazo. O motivo de não ter um plano estratégico formalizado é a falta de um instrumento, uma planilha ou
um roteiro que guie seus passos, que seja acessível e atenda às suas necessidades. Uma outra grande dificuldade para a formalização de um plano estratégico é a falta de tempo disponível. Além de dirigir a empresa, ele e os dois outros sócios exercem atividades operacionais, na área comercial, no seu caso, e nas áreas administrativa e técnica, no caso dos outros sócios. Assim, acredita que uma metodologia que seja auto-explicativa possa orientar o planejamento.

Também não existe, na empresa, nenhuma metodologia que direcione os esforços de análise do ambiente. Porém, apesar do monitoramento do ambiente não ser realizado de maneira estruturada, as variáveis ambientais são observadas sistematicamente pela empresa pois os três sócios possuem cargos na direção executiva da ABIMA (Associação Brasileira das Indústrias de Massas Alimentícias) e utilizam os estudos de monitoramento ambiental desta Associação para aproveitar novas oportunidades e se preparar para os problemas futuros do setor. Assim, acreditam ter uma posição ativa em relação ao seu ambiente empresarial, e não se surpreendem com situações que para outras empresas podem parecer inesperadas. A falta de trigo devido à alta do dólar durante todo o ano de 2002, por exemplo, foi uma situação que não os pegou de surpresa.

As variáveis do Macroambiente são acompanhadas de modo sistemático e a principal fonte dessa informação é a Associação que tem estudos sobre a alta do dólar, a crise da Argentina, o preço do trigo e suas conseqüentes pressões no custo do setor e sua relação com o consumo de macarrão e sobre a ALCA. Têm, também, estatísticas de crescimento do consumo dos diversos produtos da indústria e do consumo destes produtos nas diferentes regiões do país.

As informações referentes ao Ambiente Operacional, isto é, o relacionamento da empresa com fornecedores, concorrentes e clientes, são utilizadas pelos três executivos da empresa para agir estrategicamente. O entrevistado afirmou ser uma questão de sobrevivência o monitoramento das variáveis deste segmento do ambiente externo. Segundo ele, é preciso saber o que os concorrentes estão fazendo, o que os clientes estão querendo e o que os fornecedores podem fazer pela empresa.

Além do monitoramento ambiental, a Associação realiza um trabalho de comunicação para o aumento do consumo per-capita de macarrão, que envolve programas de comunicação, eventos e campanhas publicitárias, além de um programa de auto-regulamentação do setor que consiste em um certificado de garantia do atendimento aos requisitos exigidos pela legislação do produto.

Outras fontes usadas pelos dirigentes para coletar informações estratégicas, além da Associação são: viagens ao exterior, presenças em feiras e congressos, consultorias nas áreas Comercial e de Marketing e amigos donos de empresas concorrentes.Segundo o entrevistado, o motivo de o processo de monitoramento do ambiente não ser mais estruturado dentro da empresa, assim como o processo estratégico não ser formalizado, ocorre devido à falta de uma metodologia adequada e acessível que facilite a atividade. No entanto, o empresário afirmou que a falta de pessoas com tempo para realizar essa atividade também é a causa de não existir na empresa uma análise mais estruturada das informações ambientais.

Estas duas questões são, talvez, os fatores que desmotivam uma formalização, mesmo que exista, entre os dirigentes, a consciência da importância dessa atividade. Segundo o entrevistado, os sócios consideram vital para o setor de atuação da empresa a atividade de monitoramento das variáveis ambientais para aproveitarem novas oportunidades e, principalmente, para se prepararem para enfrentar futuras ameaças. A mudança de governo, por exemplo, é vista por eles como uma oportunidade, pois pretendem se engajar no programa Fome Zero assim como participaram anteriormente do Programa do Betinho.

As variáveis do Macroambiente e do Ambiente Operacional consideradas relevantes para a empresa são monitoradas, principalmente através da Associação, para que a empresa colete dados e os transforme em informações que posteriormente serão analisadas com propósito estratégico.O empresário se referiu também à importância das fontes de informações serem confiáveis, pois as informações coletadas e monitoradas serão base de suas ações estratégicas. Isso indica, por parte dele, significativa preocupação com o uso informação na tomada de decisão estratégica.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar da necessidade de processos estruturados, a empresa estudada, conhecida por sua atuação expressiva na indústria nacional, não realiza atividades formais de planejamento estratégico e de monitoramento do seu ambiente. A explicação da empresa não possuir atividades estratégicas formais e mesmo assim possuir ótimo desempenho empresarial, talvez esteja no fato de seus sócios estarem ativamente envolvidos na direção de uma Associação que monitora de maneira sistemática as mudanças ambientais. Assim, os dirigentes da empresa, responsáveis pela tomada de decisões estratégicas, utilizam os
estudos da Associação para monitorar o ambiente.

Também o fato desta Associação possuir grande poder de influenciar as variáveis ambientais pode ser entendido como uma explicação para o sucesso da empresa estudada, que é uma das maiores do setor e uma das mais envolvidas com a Associação. Neste caso, fica claro o grande poder que a empresa e a Associação têm sobre o ambiente, descredenciando a definição de ambiente como um conjunto de variáveis não controladas pelas empresas.

Assim, apesar de não possuir, dentro da empresa, atividades de monitoramento e gestão estratégica, a empresa utiliza-se de uma equipe, dentro da Associação, que se mostra altamente atenta às variáveis ambientais e suas possíveis modificações e muitas vezes age para modificá-las.

Percebe-se que, na prática, a empresa estudada, que não possui sistema complexo nem informatizado de monitoramento ambiental, avalia somente um elenco de informações que considera relevante para seu negócio, o que é de grande validade. Talvez, em empresas com sistemas complexos e sofisticados de monitoramento das variáveis ambientais, essa seleção não seja feita de maneira tão lógica.

Devido ao fato de a empresa participar de um setor dinâmico da economia e precisar rapidamente de informações sobre as variáveis ambientais, o sistema de
monitoramento precisa ser flexível, como é atualmente. No entanto, a falta de estruturação de um sistema dentro da empresa pode impedir que se atinja um grau de conhecimento do ambiente requerido pela complexidade do negócio.

A análise do ambiente melhorou a partir do momento que a empresa se uniu à Associação que defende os interesses do setor, fornece informações importantes para o processo estratégico de cada organização integrante e, em alguns casos, modifica ou influencia o ambiente. A influência no consumo nacional de macarrão e o certificado de garantia dos produtos indicam uma variação nas imposições ao ambiente e um controle de algumas de suas variáveis.

A empresa parece ser bastante criteriosa e preocupada com a validade das informações coletadas. Esta preocupação indica que a organização valoriza um
direcionamento estratégico a partir da observação das variáveis do ambiente, as quais são selecionadas para criar um elenco de informações realmente relevantes para o seu processo estratégico. No entanto, o “pulo do gato” na gestão estratégica da informação, neste caso, está na posição privilegiada dos diretores da empresa nos postos da Associação que monitora e exerce grande influencia no ambiente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGUILAR, F. J. (1965) Formulating company strategy: scanning the environment. Thesis of Graduate School of Business Administration: Havard University

ALMEIDA, M.I.R. (2001) Manual de planejamento estratégico: desenvolvimento de um plano estratégico com a utilização de planilhas excel. São Paulo: Atlas.

BETHLEM, A.S. (1999) Gestão de negócios: uma abordagem brasileira. Rio de Janeiro: Campus.

BETHLEM, A.S. (2002) Estratégica empresarial: conceitos, processo e administração estratégica. São Paulo: Atlas.

CERTO, S.S. & PETER, J.P. (1993) Administração estratégica: planejamento e implementação da estratégia. São Paulo: Makron Books.

DAFT, R.L. (1999) Administração. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos.

DAVENPORT, T.H.; PRUSAK, L. (2002) Ecologia da informação: por que só a tecnologia não basta para o sucesso na era da informação. São Paulo: Editora Futura.

DEBORTOLI, G. (2001) Monitoramento ambiental: a informação revolucionando decisões. In: VIII SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO

ESCRIVÃO FILHO, E. (1995) A natureza do trabalho do executivo. (Tese de Doutorado). Florianópolis: Eng. Produção. UFSC.

FAHEY, L.; KING, W.R. (1982) A investigação ambiental para o planejamento empresarial. In: VASCONCELLOS FILHO, P. Planejamento Estratégico: teoria e
prática. Rio de Janeiro. Livros técnicos e Científicos Editora S.A

FISCHMANN, A. A.; ALMEIDA, M. I. R. (1991) Planejamento estratégico na prática. São Paulo, Atlas, 2° ed.

FISCHMANN, A. A.; SANTOS, S. A. (1982) Uma aplicação de UEN´s na formulação do planejamento estratégico. Revista de Administração do IA-USP, vol.17, n.3, jul-set, p.5-20.

HAX, A.C.; MAJLUF, N. S. (1984) Strategic management: an integrative pespective. Prentice-Hall, Inc. Englewood Cliffs, New Jersey.

KOTLER, P. (1998) Administração de Marketing: análise, planejamento, implementação e controle. São Paulo: Atlas.

MEYER, C. A. (1997) Planejamento formal e seus resultados: um estudo de caso. Caderno de Pesquisas em Administração, S.P. v.2, n°5, 2°sem. FEA-USP.

MOTTA, P.R. (1982) Dimensões gerenciais do planejamento organizacional estratégico. In: VASCONCELLOS FILHO, P. Planejamento Estratégico: teoria e prática.. Rio de Janeiro. Livros técnicos e Científicos Editora S.A.

OLIVEIRA, D.P.R. (1999) Planejamento estratégico: conceitos, metodologias e práticas. São Paulo: Atlas, 13ed.

PEREIRA, C. A. (1999) Ambiente, empresa, gestão e eficácia. In: CATELLI, A. (coord.) Controladoria: uma abordagem da gestão econômica – GECON. São Paulo: Atlas.

SANTOS, S.A. & PEREIRA, H.J. (1995) Criando seu próprio negócio: como desenvolver o potencial empreendedor. Brasília: Editora Sebrae.

SOUZA, M.C.A.F. (1995) Pequenas e médias empresas na reestruturação industrial. Brasília: Editora Sebrae.

STEWART, W.H.; MAY, R.C.; KALIA, A. (2000) An exploratory comparison of entrepreneurial and managerial scanning in two divergent environments.
Entrepreneurial Strategies and Creating Wealth in the 21st Century.

THOMPSON JR. A.A. ; STRICKLAND III, A. J. (2000) Planejamento estratégico: elaboração, implementação e execução. São Paulo: Pioneira.

TREGOE, B. B., ZIMMERMAN, J. W. (1984) A estratégia da alta gerência: o que é e como fazê-la funcionar. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 2 ed.

VASCONCELLOS FILHO, P. (1983) Planejamento e controle: uma proposição brasileira. Rio de Janeiro. Livros técnicos e científicos editora S.A.

VASCONCELLOS FILHO, P. (1985) Planejamento estratégico para a retomada do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora S.A.

YIN, R. K.(2001) Estudo de caso: planejamento e métodos. Porto Alegre: Bookman, 2 ed.

ZACARELLI, S.B.; FISHMANN, A.A. LEME, R. (1980) Ecologia de empresas. São Paulo, Atlas.

CURRÍCULO E DESENVOLVIMENTO HUMANO POR ELVIRA SOUZA LIMA

0

Currículo e Desenvolvimento Humano

Seres humanos vão à escola com vários objetivos. Mas a existência da escola cumpre um objetivo antropológico muito importante: garantir a continuidade
da espécie, socializando para as novas gerações as aquisições e invenções resultantes do desenvolvimento cultural da humanidade.
Em nossa espécie, o adulto detém um papel importante, culturalmente determinado, de garantir esta continuidade. A espécie humana subsiste, exatamente, pela transmissão que seus membros mais velhos fazem aos bebês, às crianças pequenas e aos jovens das ações humanas, dos conhecimentos, dos valores, da cultura. Na escola, esta ação do adulto se revela como a função pedagógica que o professor tem de possibilitar a apropriação do conhecimento sistematizado (que comumente chamamos de conhecimento formal), que caracteriza as ciências e as artes.
Em um dado momento da evolução cultural da humanidade, marcado pela invenção de sistemas simbólicos registrados, foi necessário introduzir novas formas de atividade humana para garantir a transmissão das novas formas de saberes que estavam sendo criadas. Percebeu-se a necessidade de criar um espaço e um tempo separado da vida cotidiana para que as gerações se encontrassem com este objetivo.
A escola foi criada, assim, há cerca de 4.500 anos, no momento histórico da invenção da escrita e da matemática, do desenvolvimento da geometria e da
expansão de certas práticas artísticas.
Podemos dizer que ambas – a escrita e a escola – são criações recentes da humanidade, principalmente se considerarmos que a fala surgiu há cerca de 200 mil anos e que os primeiros registros de imagens em suportes como parede das cavernas datam de 25 mil anos no continente europeu. Antes mesmo disto, há 32 mil anos, na África surgiram registros, hoje chamados de protolinguagem.
A escrita é, assim, bem mais recente, tendo surgido há aproximadamente cinco milênios. Depois da criação da escrita, o desenvolvimento cultural da humanidade se acelera chegando à invenção da imprensa no século XV.
Daí para frente, há uma aceleração acentuada no desenvolvimento das ciências e das técnicas artísticas, na invenção de equipamentos, na produção literária e desenvolvimento tecnológico.
A aceleração é tal que hoje testemunhamos em uma mesma geração mudanças enormes nas formas de comunicação dos seres humanos, no fluxo de informação entre países e na inovação instrumental e tecnológica. Isto reflete na escola: educar crianças hoje exige dos professores saberes muito distintos do que se exigia dos professores que os ensinaram, há 20 ou 30 anos.
Testemunhamos nas últimas duas décadas mudanças extraordinárias no desenvolvimento cultural da espécie humana. Como resultado, os processos de desenvolvimento das novas gerações apresentam peculiaridades absolutamente novas, mesmo para educadores jovens.
Considerando que o desenvolvimento humano é resultante, como veremos mais adiante, da dialética entre biologia e cultura, mudanças na cultura levarão certamente a novas formas de pensamento e de comportamento.
A relação da criança com o adulto na escola é uma relação específica, porque o professor não é, simplesmente, mais um adulto com quem a criança interage – ele é um adulto com a tarefa específica de utilizar o tempo de interação com o aluno para promover seu processo de humanização.

O que é processo de humanização?

Na antropologia, humanizar é o processo pelo qual todo ser humano passa para se apropriar das formas humanas de comunicação, para adquirir e desenvolver
os sistemas simbólicos, para aprender a utilizar os instrumentos culturais necessários para as práticas mais comuns da vida cotidiana até para a invenção de novos instrumentos, para se apropriar do conhecimento historicamente constituído e das técnicas para a criação nas artes e criação nas ciências. Processo de humanização implica, igualmente, em desenvolver os movimentos do corpo para a realização de ações complexas como as necessárias para a preservação da saúde, para as práticas culturais, para realizar os vários sistemas de registro, como o desenho e a escrita.
A humanização se refere, assim, ao desenvolvimento cultural da espécie. O desenvolvimento cultural é função do momento histórico pelo qual passa a humanidade e do quanto cada país participa do acervo de cultura, tecnologia, ciências e bens disponíveis a um momento dado. Dentro de um mesmo país, a participação é definida também em termos de classes sociais, etnias, gênero e diversidade biológica.
Um currículo que se pretende democrático deve visar à humanização de todos e ser desenhado a partir do que não está acessível às pessoas. Por exemplo, no caso brasileiro, é clara a exclusão do acesso a bens culturais mais básicos como a literatura, os livros, os livros técnicos, atualização científica, os
conhecimentos teóricos, a produção artística. Além disso, existe a exclusão do acesso aos equipamentos tais como o computador, aos instrumentos básicos
das ciências (como da biologia, física e química), aos instrumentos e materiais das artes.
É função da escola prover e facilitar este acesso. A vinda da criança para a instituição tem, entre outros, um objetivo claro e preciso: aprender determinados conhecimentos e dominar instrumentos específicos que lhe possibilitem a aprendizagem. E aprender, sobretudo, a utilizar estas aquisições não só para o seu desenvolvimento pessoal, como para o do coletivo. Ou seja, o conhecimento colocado a serviço do bem comum.
A relação da criança com o adulto, na escola, é mediada, então, pelo conhecimento formal. O professor já se apropriou do conhecimento formal que o educando deverá adquirir e a interação entre ambos deve ser tal que permita e promova a aprendizagem deste conhecimento.
A ação pedagógica implica, portanto, numa relação especial em que o conhecimento é apropriado. Para tanto, o educador necessita adequar sua prática pedagógica às possibilidades de desenvolvimento e de aprendizagem de seus educandos. O aluno, por sua vez, depende, também, de formar atividades que levem à formulação do conhecimento. Chamamos estas atividades de Atividades de Estudo, que serão discutidas no item IV.
A instituição escolar, como vimos, foi constituída na história da humanidade como o espaço de socialização do conhecimento formal historicamente construído. O processo de educação formal possibilita novas formas de pensamento e de comportamento: por meio das artes e das ciências o ser humano transforma sua vida e de seus descendentes.
A escola é um espaço de ampliação da experiência humana, devendo, para tanto, não se limitar às experiências cotidianas da criança e trazendo, cessariamente, conhecimentos novos, metodologias e as áreas de conhecimento contemporâneas. O currículo se torna, assim, um instrumento de formação humana.

Trecho do Livro INDAGAÇÕES SOBRE CURRÍCULO que você encontra no site da autora em: http://elvirasouzalima.blogspot.com

Elvira Souza Lima é pesquisadora em desenvolvimento humano, com formação em neurociências, psicologia, antropologia e música. Trabalha com pesquisa aplicada às áreas de educação, mídia e cultura. Tem várias publicações, entre elas “A criança pequena e suas linguagens”, “Quando a criança não aprende a ler e a escrever”, “Práticas culturais e aprendizagem”, “Brincar para quê?” e “Conhecendo o adolescente”.
Email: [email protected]
Site: http://www.elvirasouzalima.net

CURDOS: BATALHAS, GENOCÍDIOS E UMA LUTA QUE NÃO TEM FIM

0

Introdução:

O povo Curdo é constituído por um agrupamento de famílias que vivem em forma de tribos, sua atividade econômica é baseada no pastoreio e fabricação artesanal de tapetes.

Apesar de possuir características singulares, os Curdos foram reconhecidos somente a partir da década de 1920, por meio do Tratado de Sévres, em 1920, e Lausanne, em 1923, que propunha a instauração de um Estado Curdo nos lugares em que já habitavam.

No entanto, o governo não colocou em prática a determinação de criação de um novo Estado, além disso, os líderes dos territórios onde está localizado o povo curdo reprimiram essa etnia forçadamente, tal repressão impulsionou o surgimento de inúmeras revoltas com confrontos diretos.

Entre 1945 e 1946, houve a existência da República Democrática Curda, essa, em sua restrita existência, se encontrava localizada onde está atualmente o Irã.

Todos os impasses para a consolidação de um Estado autônomo para a nação curda conduziram esse povo a um conflito com os líderes do Iraque e Irã que durou quase uma década, entre 1961 e 1970. O confronto favoreceu o surgimento de acordos que deram autonomia ao povo, embora tais acordos nunca tenham sido executados.

Um conflito que não tem fim

Batalhas, genocídios, grupos terroristas e uma luta constante pela independência são parte da história desta etnia, que tem 27 milhões de despatriados

Em 1919, pouco antes do nascimento oficial do Estado Iraquiano (ainda sob o controle britânico), os curdos estavam a um passo de ter sua nação independente. O xeque Mahmoud Barzanji, o então líder curdo, se autoproclamou rei do Estado Independente Curdo, reclamando a Suleimânia (uma cidade do Curdistão, no Iraque) e áreas adjacentes. Menos de um ano depois, o excército britânico depôs Barzanji. Em 1920, foi assinado na França o Tratado de Sèvres. O texto delimitava as fronteiras do Curdistão e prometia a tão esperada autonomia. Mas isso não foi colocado em prática. Para complicar, em 1923 um novo acordo foi assinado na Suíça entre países participantes da I Guerra Mundial (1914-1919) e da Guerra da Independência da Turquia (1919-1922). O documento não só dividia o Curdistão entre Turquia, Iraque e Síria como também desobrigava o governo turco a garantir a autonomia curda. Em 1925, após a repressão a uma revolta curda, a Liga das Nações decidiu que o mandato britânico na região se estendesse por mais 25 anos. Como em toda a história curda, as coisas não aconteceram como o esperado. “Os ingleses ficaram menos de cinco anos. Quando, em 1930, o Iraque conseguiu sua independência dos britânicos, os curdos se rebelaram novamente”, diz Juan Cole, professor da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.

As rebeliões aconteceram em várias partes do Curdistão. A ocorrida na Turquia, na região do monte Ararat, foi apoiada pelas forças britânicas no Iraque – onde, em paralelo, vários focos rebeldes explodiram. Muitas das revoltas foram encabeçadas pelo líder nacionalista curdo Mustafá Barzani. Nenhuma lhes deu um país independente, e eles continuam lutando até hoje por isso.

Extermínio em massa

Para entender a obstinação desse povo – a maior etnia sem pátria da atualidade – em ter o Curdistão reconhecido, é preciso voltar a suas raízes. Os curdos sempre habitaram a região que ocupam hoje. Eles são uma etnia nativa das áreas montanhosas ao norte do Iraque e ao sul da Turquia. “As terras que querem ver reconhecidas como suas sempre estiveram em suas mãos”, fala Anna Olson, professora americana da Universidade de Washington. “Essa região, com cerca de 500 mil km2, que atualmente configura o Curdistão, fica em sua maior parte na Turquia, ocupando ainda partes de Iraque, Irã, Síria, Armênia e Azerbaijão. Como a área não é reconhecida como independente, os cerca de 25 a 27 milhões de curdos vivem hoje espalhados por essas seis nações, sem um núcleo oficial.” Em sua maioria, são muçulmanos sunitas, e a língua oficial é o curdo.

A história desse povo começa há cerca de 8 mil anos, na região da antiga Mesopotâmia, onde fica hoje parte de Iraque, Turquia e Síria. Sempre habitando as regiões montanhosas e acostumados ao frio intenso que acompanha a altitude, os curdos da Antigüidade se dividiam em clãs com nomes como gutis, kurti e mushku e viviam em cidades-estado. Com o passar dos séculos, outros povos indo-europeus – como os medas (cujo império, há 2,6 mil anos, englobava boa parte do que hoje é o Curdistão), cíntios, partos, mitanis, cassitas, hititas e guttis, entre outros – se fixaram na região. “Os curdos são, portanto, o produto da miscigenação de todos os povos invasores ou migrantes para a região, incluindo assírios, acádios, armênios, persas, gregos, romanos, bizantinos, árabes, mongóis e turcos”, diz Olso.

Da Antigüidade ao século 20, a mistura de cultura e a falta de unidade e de um país levaram os curdos a intermináveis batalhas, guerras civis e levantes (leia quadro Luta Milenar). Após as revoltas na época da independência do Iraque, na década de 1930, eles tentariam criar seu estado próprio ao fim da II Guerra Mundial. Quando terminou o conflito, as terras curdas no Azerbaijão foram ocupadas por forças soviéticas. Em 1946, os curdos criaram um estado independente na cidade de Mahabad, conhecido como República de Mahabad. Menos de um ano depois, porém, quando os soviéticos partiram, a república viu seu fim com a reanexação da região pelo Irã.

Durante os primeiros anos do regime imposto pelo partido Baath, que assumiu o poder no Iraque em 1968, os curdos viveram em relativa paz. O cenário mudou radicalmente a partir de 1971, quando começaram a entrar em vigor as primeiras medidas de uma campanha anticurda, oficializada em 1986 sob o nome de Anfal, no governo de Saddam Hussein, e que só terminou em 1989. O objetivo era eliminar as aspirações de criar uma nação independente ou mesmo de se organizar como uma etnia de cultura e linguagem próprias. As formas de repressão começavam com a expulsão dos curdos que viviam próximos às fronteiras iraquianas com as da Turquia e do Irã. A prisão com base em acusações de atividades oposicionistas complementava o processo. Os curdos sofreram todo tipo de violência no período. De alvos de armas químicas a destruição de cidades e vilas. Em novembro de 1987, cerca de 600 curdos presos foram mortos pelos iraquianos com o tálio, um metal pesado utilizado em veneno para ratos. Em junho de 1989, mais 2 mil curdos foram envenenados da mesma maneira em Mardim e, em janeiro de 1990, outros 400 morreram na cidade de Diyarbakir.

A repressão aos curdos não foi restrita apenas ao Iraque. Até 1991, eles estavam proibidos de falar o curdo na Turquia. Ali, atualmente, programas de rádio ou TV no idioma são vetados, assim como o aprendizado da língua nas escolas. No Irã e na Síria, o quadro é similar. Na Síria, muitos não conseguem tirar passaporte, votar, registrar seus filhos com nomes curdos, comprar terras ou se casar com sírios.

Entre 15 e 19 de março de 1988, durante a campanha Anfal e em meio à guerra entre Irã e Iraque, os curdos sofreram um dos piores ataques a sua etnia. Em represália às forças iranianas, que haviam fornecido suporte militar aos rebeldes curdos, o Iraque lançou um ataque de armas químicas à cidade curda de Halabja (a cerca de 240 km de Bagdá, no Iraque), na época com cerca de 80 mil habitantes. Liderado por Ali Hassan Al-Majid – mais conhecido como Ali Químico, integrante do governo de Saddam Hussein –, o ataque usou o gás sarin (que ataca o sistema nervoso) e o gás mostarda (que abre feridas quando em contato com a pele). Não há registros precisos sobre as baixas, estimadas em 10 mil.

Realidade atual

Já nos anos 1990, enquanto levantes promovidos por guerrilheiros rebeldes da PKK levavam a Turquia a um estado de guerra civil, os curdos ganharam a proteção dos Estados Unidos no Iraque. Sob o comando de George Bush, o pai, os EUA e as forças aliadas que lutaram contra o Iraque na Guerra do Golfo, em 1990 e 1991, apoiaram uma série de rebeliões e revoltas curdas. Isso estabeleceu uma área segura para a etnia no Iraque com um governo próprio. A questão curda, porém, só ganhou destaque no mundo em 2003, com a invasão do Iraque pelos EUA governados por George W. Bush, o filho. Apesar da oposição ferrenha da Turquia, que negou apoio à independência curda, a delegação da etnia no Comitê Constitucional conseguiu que as províncias curdas se reunissem numa região autônoma, com suas próprias forças armadas, taxas e leis, tornando o curdo a língua nacional, juntamente com o árabe. Os turcos chegaram a negar a abrir caminho para os americanos e seus aliados até o norte do Iraque. Tinham medo de que, com Saddam Husseim deposto, os curdos proclamassem um estado independente.

Hoje, apoiando o programa criado pelos EUA no Iraque, se destacam cerca de 100 mil peshmergas, que lutam para ganhar poder no futuro sistema político que está sendo criado na região, usufruindo da rede de proteção aliada. A situação, contudo, continua delicada, já que os EUA temem que o Iraque se torne uma terra instável, com uma eterna luta entre os vários grupos étnicos. Evitam um apoio explícito ao que continua sendo a meta única dos curdos: criar uma pátria.

É difícil mensurar com exatidão a quantidade de curdos vivendo no mundo hoje pela falta de um censo específico e por causa da miscigenação dos curdos nas várias regiões em que habitam. Os números aproximados são:

• Turquia: 14 milhões
• Irã: 6 milhões
• Iraque: 5 milhões
• Síria: 1 milhão
• Azerbaijão: 200 mil
• Líbano: 80 mil
• Armênia: 75 mil
• Geórgia: 40 mil

Cronologia:

6 000 a.C.
Primeiros registros arqueológicos dos povos de quem descendem os curdos, na antiga Mesopotâmia

Século 7 ao 13
Os curdos são conquistados pelos árabes e suas terras são ocupadas por mongóis, turcos, safávidas e, no século 13, por otomanos

1834
Os curdos tentam sua independência da Turquia, mas são reprimidos

1919
O xeque Mahmoud Barzanji se autoproclama rei na Suleimânia, mas é deposto

1920
Tratado de Sèvres cria as fronteiras do Curdistão, mas é rejeitado e nunca chega a entrar em vigor

1923
Tratado de Lausanne: Curdistão é dividido entre Turquia, Síria e Iraque

1961
Revolta de Barzani, que se estende até 1970

1986-1999
Grande genocídio curdo na campanha anticurdos, batizada de Anfal

1990
Levantes do PKK, um grupo separatista, ocorrem na Turquia

1991
Revoltas curdas recebem o apoio dos EUA após a Guerra do Golfo. Mas milhares morrem, e 2 milhões fogem para Turquia e Irã

1995
35 mil tropas turcas invadem bases da PKK no Iraque

2003
Invasão americana ao Iraque. Curdos se unem aos EUA e à Inglaterra para derrubar o regime de Saddam Hussein

O QUE É ESTEREÓTIPOS?

0

Definição de estereótipos

Os estereótipos são crenças socialmente compartilhadas a respeito dos membros de uma categoria social, que se referem a suposições sobre a homogeneidade grupal e aos padrões comuns de comportamento dos indivíduos que pertencem a um mesmo grupo social. Sustentam-se em teorias implícitas sobre os fatores que determinam os padrões de conduta dos indivíduos, cuja expressão mais evidente encontra-se na aplicação de julgamentos categóricos, que usualmente se fundamentam em suposições sobre a existência de essências ou traços psicológicos intercambiáveis entre os membros de uma mesma categoria social.

Conceitos fundamentais: preconceitos e discriminação

A noção de preconceito se refere a uma atitude injusta e negativa em relação a um grupo ou a uma pessoa que se supõe ser membro do grupo. O conceito de discriminação, apesar de literalmente significar ‘tratar alguém de uma forma diferente’, pode ser definido como um comportamento manifesto, geralmente apresentado por uma pessoa preconceituosa, que se exprime através da adoção de padrões de preferência em relação aos membros do próprio grupo e/ou de rejeição em relação aos membros dos grupos externos.

O preconceito é um atalho de pensamento que nos permite assimilar informações mais rapidamente. Porém, de forma menos eficaz.

Estereótipo ou estereótipos?

Dado que a vida social transcorre cotidianamente em ambientes sociais muito diversificados, é interessante notar que o conceito de estereótipo gramaticalmente é regido no plural. Pelo menos na nossa língua é mais usual a adoção do termo estereótipos, no plural, do que estereótipo, no singular. Um das principais contribuições do estudo de Katz e Braly (1933) foi a de circunscrever, de forma detalhada, os critérios requeridos para a delimitação e enumeração dos traços associados aos diversos grupos sociais. Mediante a aplicação estas estratégias foi possível caracterizar, à época, os americanos como trabalhadores, inteligentes, materialistas e ambiciosos, os alemães como cientificamente orientados, trabalhadores e estoicos, os irlandeses como brigões, explosivos e espirituosos, os italianos como artísticos, impulsivos e apaixonados, os judeus como astutos, mercenários e sovinas, os chineses como supersticiosos, sonsos e conservadores e os turcos como cruéis, muito religiosos e traiçoeiros. Esta enumeração deixa claro que os estereótipos se referem a uma constelação de atributos, usualmente traços de personalidade ou características psicológicas estáveis, diferencialmente aplicados pelos indivíduos que pertencem a um determinado meio social aos membros de uma ou várias categorias sociais.

Endo e exogrupo

A diferenciação entre endogrupo e exogrupo não apenas contribui para a promoção do preconceito, como também é um elemento decisivo na eclosão de comportamentos discriminatórios. As pessoas tendem a se identificar com os grupos aos quais pertencem, incorporando-os ao seu auto-conceito. Desta forma, elas geralmente avaliam o próprio grupo de uma forma mais positiva, aderindo a uma estratégia que favorece à preservação do auto-conceito. Esta avaliação positiva do próprio grupo é correlata à avaliação negativa dos grupos externos. Esse viés na avaliação do endogrupo e do exogrupo parece ser um componente fundamental na constituição da identidade social e tende a se manifestar quando ocorre qualquer diferenciação, por mínima que seja, entre o endogrupo e o exogrupo. A explicação para este fenômeno assenta-se na suposição de que as pessoas em geral mantém contatos bem mais intensos com os membros do próprio grupo, o que faz com que desenvolvam uma visão bem mais complexa a respeito dos que grupos em que transitam do que sobre os grupos externos. Assim, quando é requerido um julgamento de uma situação em que estejam envolvidos membros dos próprio grupo, ele tende a ser bem mais moderado, pois as informações novas porventura presentes são consideradas apenas após uma cuidadosa comparação com os aspectos positivos e negativos do comportamento inerentes aos membros do próprio grupo. No caso dos grupos externos, os contatos são bem mais reduzidos e, conseqüentemente, a representação disponível sobre o grupo ou sobre os membros do grupo tende a ser menos complexa, o que propicia a formulação de julgamentos mais extremados. Nesse caso, as informações novas exercem um efeito bem mais poderoso, uma vez que as informações anteriores a respeito do grupo externo são menos circunstanciadas e a avaliação tende a ser realizada de acordo com a representação estereotipada que se possui do exogrupo.

Crenças e estereótipos: critérios para a classificação

Os estereótipos são crenças. As crenças se organizam sob a forma de sistemas. Cada indivíduo adere a um número bastante substancial de crenças. Uma forma de impor uma organização a esta enorme diversidade é mediante a adoção de um esforço taxionômico, como o conduzido pelo professor Helmuth Krüger, que identifica as dimensões fundamentais a partir das quais é possível classificar e oferecer inteligibilidade a um conjunto heteróclito e disparado de crenças ordenadas sob a forma de sistemas:

      a) o nível de consciência, uma vez que algumas crenças são resultantes de um esforço apurado de reflexão e crítica, enquanto outras são adotadas sem que seja possível identificar qualquer esforço sistemático de reflexão; o grau de consciência da crença estereotipada é baixo, pois se trata de uma crença generalizada e não submetida a um esforço reflexivo sistemático;

b) o objeto da crença, pois as crenças podem ter por referente pessoas, o mundo objetivo, o si mesmo e entidades ideais ou abstratas; as crenças estereotipadas se referem a grupos e categorias sociais humanas. É inadmissível fazer alusões a estereótipos de animais, objetos, coisas e demais entes inanimados;

c) o modo, desde que algumas crenças podem ser afirmativas, enquanto outras tendem a ser negativas; usualmente as crenças estereotipadas são expressas sob forma afirmativa, embora seja possível a expressão dos estereótipos mediante o uso de asserções de caráter negativo;

d) a aceitação pessoal, pois algumas crenças são acompanhadas por um forte sentimento de certeza, enquanto outras são expressas sem qualquer convicção; os estereótipos são crenças a respeito de grupos sociais, cujo grau de certeza pode ser variável, a depender de quem crê e do conhecimento sobre o grupo alvo;

e) a importância atribuída, uma vez que os indivíduos não atribuem a mesma importância ou não aderem com o mesmo fervor a todas as classes de crenças;estereótipos são crenças a respeito de grupos sociais, cujo grau de importância é variável e depende daquele que crê;

f) a congruência entre crenças e ações, dado que algumas crenças são acompanhadas por ações congruentes, enquanto em outras circunstâncias não ocorre qualquer congruência entre a crença e a ação; O mais usual é que as crenças estereotipadas sejam acompanhadas por ações consistente com o que se acredita.

g) perspectiva temporal, pois umas crenças podem se referir ao passado, ao presente ou ao futuro;as crenças estereotipadas geralmente se referem ao presente, embora nada impeça que elas possam fazer alusão ao passado ou mesmo a uma certa perspectiva futura.

h) consenso ou concordância social, pois algumas crenças obtém um alto grau de concordância social, enquanto outras encontram apoio, quando o encontram, apenas em grupos minoritários; uma crença estereotipada depende de um forte grau de compartilhamento social, senão estaríamos a falar de crenças idiossincráticas e não de crenças estereotípicas;

i) a necessidade lógica, dado que é justificado estabelecer uma distinção entre as crenças que são capazes de se exprimir sob a forma de verdades necessárias e outras que exprimem apenas afirmações contingenciais.

As crenças estereotipadas devem ser entendidas como explicações ou teorias a respeito dos atributos ou das ações de outras pessoas.

Estereótipos e categorias sociais

Quase toda a tradição de trabalho na psicologia social sobre os estereótipos se limita a um tipo específico de referente, as categorias sociais, desconsiderando quase que completamente os outros tipos de entes sociais identificados na literatura (Lickel, Hamilton, Wieczorcowska, Lewis, Sherman e Uhles, 2000). A importância das categorias sociais no estudo dos estereótipos provavelmente é uma conseqüência da enorme influência exercida pela obra A natureza do preconceito, de Gordon Allport, na qual se analisa de forma minuciosa o processo de categorização e se discute as diferentes formas pelas quais a categorização pode influenciar a expressão dos estereótipos e dos preconceitos (Allport, 1962). É importante assinalar, no entanto, que a relação entre os estereótipos e as categorias sociais não é de simples simetria. Ainda que os estereótipos quase sempre se refiram às categorias sociais, é perfeitamente concebível que um indivíduo possa ser categorizado, sem que um estereótipo venha a ser ativado ou aplicado. Afinal, nem toda categoria social é alvo de estereótipos

O estudos dos estereótipos: algumas noções fundamentais

      – as crenças desempenham um importante papel na manifestação dos comportamentos sociais e coletivos;

– em toda cultura é possível identificar um conjunto de crenças compartilhadas por um número substancial de pessoas;

– uma crença é coletiva quando uma infinidade de exemplares da mesma encontra-se em circulação, embora cada um desses exemplares seja ligeiramente diferente dos demais;

– uma parte substancial dessas crenças coletivas se refere a outros grupos nacionais, regionais ou étnicos;

– a base cognitiva das crenças sobre os membros de outros grupos assenta-se sobre um conjunto de representações estereotipadas;

– os estereótipos étnicos e nacionais podem ser explicados a partir de uma série de fatores psicológicos, psicossociológicos ou sociais;

– fatores psicológicos como a atenção, a codificação e a busca da informação presente na memória, assim como os fatores vinculados à afetividade impelem a uma avaliação por demais genérica dos grupos externos;

– alguns mecanismos psicológicos trabalham no sentido de fixar a crença de que os membros do grupo externo são todos iguais;

– outros mecanismos psicológicos se encarregam de destituir a importância das informações capazes de levar à reavaliação dos grupos externos;

– se algo indesejado ou negativamente avaliado ocorre, as pessoas tendem a apontar os grupos externos como a causa destas dificuldades;

– as pessoas sempre encontram justificativas para os atos que perpetraram ou que tiveram a intenção de promover contra membros do grupo externo;

– as pessoas tendem a avaliar as pessoas de seu grupo de uma forma bem positiva do que àquelas que pertencem aos grupos externos;

– em decorrência desse viés na avaliação dos grupos, geralmente é difícil evitar a adoção de comportamentos ou ações estereotipadas.

Conceitos fundamentais: estereótipos e racionalização

Jost e Banaji consideram duas possibilidades dos estereótipos servirem como instrumentos para a racionalização. Em um nível mais individual, os estereótipos servem como justificativas para o próprio eu, permitindo que o indivíduo lide melhor e de uma forma mais confortável com as suas próprias atitudes preconceituosas e excludentes. Em um nível mais contextual, os estereótipos também cumprem a função de justificar e racionalizar as ações grupais

RESUMO:

Estereótipo é a imagem preconcebida de determinada pessoa, coisa ou situação.
Estereótipos são fonte de inspiração de muitas piadas, algumas de conteúdo racista, como as piadas de judeu, que é retratado como ávaro, português (no Brasil), como pouco inteligente, etc. O estereótipo está freqüentemente atrelado ao preconceito.

Cliché, Estereótipo e Preconceito

Cliché

“Os futebolistas têm pouca cultura.”

Esta frase constitui um estereótipo baseado no conhecimento popular de que os futebolistas não investem na sua cultura nem na sua formação académica.

Cliché

“Este futebolista (que não conheço nem nunca vi) tem pouca cultura.”

Esta frase é um preconceito, uma vez que ao encontrar um futebolista que nos é desconhecido, automaticamente o enquadramos no estereótipo.

Cliché

“Alberto João Jardim”

Estereotipo – O Alberto João Jardim é um ditador.

Preconceito – O Alberto João Jardim é um democrata.

Alusão depreciativa aos estrangeiros: uma anedota étnica como exemplo

Há alguns anos atrás um informante português nos relatou uma curiosa anedota. A estrutura da piada é comum ao estilo de um sem número de outras anedotas étnicas e o humor se fundamenta no contraste entre as concepções estereotipadas a respeito de algumas categorias sociais. Uma das formas mais usuais de construção das anedotas étnicas é introduzir um contexto no qual personagens de duas ou mais etnias, nacionalidades, raças ou gênero etc são colocadas em uma mesma situação e a maneira pela qual cada um se defronta com a mesma sugere os estereótipos subjacentes ao grupo.

Num encontro entre Brejnev e Nixon, nos Estados Unidos, o presidente dos EUA mostra a Brejnev a sua coleção de automóveis. Uma enorme coleção com automóveis de todas as marcas famosas desde os mais antigos ate aos modernos. Brejnev fica impressionado.
– E o Sr. presidente, colecciona alguma coisa ? – pergunta-lhe Nixon.
– Ah, nada de especial, colecciono anedotas
– Anedotas ?
– Sim, anedotas que as pessoas contam sobre mim.
– Oh, interessante ! E quantas é que já coleccionou ?
– Dois campos de concentração.

Referencias Bibliográficas:

– Marcos E. Pereira. Psicologia Social dos Estereótipos. São Paulo: EPU, 2002
– Stephen, Walter (1985). Intergroup relations. Em G. Lindzey & E. Aronson. Handbook of social psychology. New York: Randon House.
– Krüger, Helmuth. Psicologia das Crenças: perspectivas teóricas. Tese de concurso para professor titular do Departamento de Psicologia Social e Institucional da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1995
– Pereira, Marcos E. Humor e estereótipos no ciberespaço. Tese de doutorado. Instituto de Psicologia. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1996

SUBSTANTIVOS

2

Substantivo é a classe gramatical, ou morfológica, de palavras que nomeiam os seres – reais ou imaginários, concretos ou abstratos. Além disso, inclui nomes de ações, estados, qualidades, sentimentos, etc.
Qualquer classe gramatical antecedida por artigo, pronome demonstrativo, pronome indefinido ou pronome possessivo vira substantivo: o amar, um amanhã, nosso sentir, um não sei quê, o sim, o não, algum talvez, este falar, um abrir-se, o querer, aquele claro-escuro.

CLASSIFICAÇÃO DO SUBSTANTIVO

CONCRETO

É aquele que indica a existência de seres reais ou imaginários.
Exemplos:

Reais imaginários
Brasil bruxa
Recife curupira

ABSTRATO

É aquele que indica sentimentos, qualidades, ações, estados e sensações.
Exemplo:

    • Sentimento: amor, ódio, paixão;
    • Qualidade: honestidade, fidelidade, perfeccionismo;
    • Ações: trabalho, doação;
    • Estado: vida, solidão, morte;
    Sensação: calor, frio.

COMUNS

É aquele que indica elementos de uma mesma espécie.
Exemplo:

Criança, cidade, livro.

PRÓPRIO

É aquele que indica um ser em particular.
Exemplo:

Roberto, Pernambuco, Capibaribe, Brasil.
Os nomes próprios são utilizados principalmente em:

    • Rios: Capibaribe, Amazonas;
    • Cidades: Recife, Porto Alegre;
    • Estados: Pernambuco, Rio Grande do Sul;
    • Países: Brasil, Austrália;
    • Pessoas: Rubem, Antônio;
    Empresas: Intel, Oracle.

Observação: o substantivo coletivo é um substantivo comum que, mesmo no singular indica um agrupamento, multiplicidade de seres de uma mesma espécie.

    • Constelação » estrelas;
    Cáfila » camelos.

Vejamos alguns substantivos coletivos:

    • Alcatéia » lobos;
    • Arquipélago » ilhas;
    • Banca » examinadores, advogados;
    • Boiada » bois;
    • Cacho » bananas, uvas;
    • Década » período de dez anos;
    • Discoteca » discos;
    • Enxame » abelha, insetos;
    • Esquadrilha » aviões;
    • Fauna » animais de uma região;
    • Frota » carros, ônibus;
    • Lustro » período de cinco anos;
    • Manada » bois, porcos;
    • Pinacoteca » quadros;
    • Quadrilha » ladrões;
    • Rebanho » gado, ovelhas;
    • Resma » quinhentas folhas de papel;
    • Século » período de cem anos;
    • Triênio » período de três anos;
    Vocabulário » palavras.

FORMAÇÃO DO SUBSTANTIVO

Quanto à formação o substantivo pode ser:

    • Primitivo;
    • Derivado;
    • Simples;
    Composto.

PRIMITIVO

Dá origem a outras palavras.
Exemplo:

Pedra, ferro, vidro.

DERIVADO

É originado através de outra palavra.
Exemplo:

Pedreira, ferreiro, vidraçaria.

SIMPLES

Apresenta apenas um radical na sua formação.
Exemplo:

Vidro, pedra.

COMPOSTO

Apresenta dois ou mais radicais na sua formação.
Exemplo:

Pernilongo, couve-flor.

FLEXÃO DO SUBSTANTIVO

Por ser uma palavra variável o substantivo sofre flexões para indicar:

    • Gênero: masculino ou feminino;
    • Número: singular ou plural;
    Grau: aumentativo ou diminutivo.

GÊNERO DO SUBSTANTIVO

Na língua portuguesa há dois gêneros: masculino e feminino. Será masculino o substantivo que admitir o artigo o e feminino aquele que admitir o artigo a.
Exemplo:

O avião o calçado o leão
A menina a camisa a cadeira

SUBSTANTIVO BIFORME

Na indicação de nomes de seres vivos o gênero da palavra está ligado, geralmente, ao sexo do ser, havendo, portanto, uma forma para o masculino e outra para o feminino.
Exemplo:

    • Garoto – substantivo masculino indicando pessoa do sexo masculino;
    Garota – substantivo feminino indicando pessoa do sexo feminino.

FORMAÇÃO DO FEMININO

O feminino pode ser formado das seguintes formas:

– trocando a terminação o por a:
exemplo:

    • moço moça
    menino menina

– trocando a terminação e por a:
exemplo:

    • gigante giganta
    mestre mestra

– acrescentando a letra a:
exemplo:

    • português portuguesa
    cantor cantora

– mudando-se ao final para ã, ao, ona:
exemplo:

    • catalão catalã
    • valentão valentona
    leão leoa

– com esa, essa, isa, ina, triz:
exemplo:

    • conde condessa
    • príncipe princesa
    • poeta poetisa
    • czar czarina
    ator atriz

por palavras diferentes:
exemplo:

    • cavaleiro amazona
    • padre madre
    homem mulher

SUBSTANTIVOS UNIFORMES
Há substantivos que possuem uma só forma para indicar tanto o masculino quanto o feminino. Podemos classificá-los em:

EPICENOS
SOBRECOMUNS
COMUNS DE DOIS GÊNEROS

EPICENOS

São substantivos que designam alguns animais e têm um só gênero. Para indicar o sexo são utilizadas as palavras macho ou fêmea.
Exemplo:

    • Cobra macho cobra fêmea
    • Peixe macho peixe fêmea
    Jacaré macho jacaré fêmea

SOBRECOMUNS

São substantivos que designam pessoas e tem um só gênero tanto para o masculino como para o feminino.
Exemplo:

    • A criança – masculino ou feminino
    • O indivíduo – masculino ou feminino
    A vítima – masculino ou feminino

COMUNS DE DOIS GÊNEROS

São substantivos que apresentam uma só forma para o masculino e para o feminino. A distinção se dá através do artigo, adjetivo ou pronome.
Exemplo:

    • O motorista a motorista
    • Meu colega minha colega
    Bom estudante boa estudante

CONCLUSÃO:

Os substantivos são classificados como: concreto – indica a existência de seres reais ou imaginários -, abstratos – indica sentimentos, qualidades, ações, estados e sensações -, comuns – indica elementos de mesma espécie – e próprios – indicam um ser em particular e são utilizados para nomear rios, cidades, estados, países, pessoas e empresas -. Quanto a sua formação o substantivo pode ser primitivo – dá origem a outras palavras – e derivado – é originado através de outras palavras.
Quanto a sua flexão ele indica o gênero – masculino ou feminino -, número – singular ou plural – e grau – aumentativo ou diminutivo.
Primeiramente vimos, apenas, a flexão do substantivo quanto ao gênero, onde o substantivo será masculino se admitir o artigo o e será feminino se admitir o artigo a.
Os substantivos biformes ligam o gênero da palavra ao sexo do ser, havendo, portanto, uma forma para o masculino e outra para o feminino. Já os substantivos uniformes possuem uma só forma tanto para o masculino como para o feminino, podendo ser classificados em epicenos – indicam o sexo através da utilização das palavras macho ou fêmea –, sobrecomuns – têm uma só forma tanto para o masculino como para o feminino – e o comum de dois gêneros – a distinção do substantivo se dá através do artigo, adjetivo ou pronome. Também apresentam uma só forma para o masculino e para o feminino.

BIBLIA ONLINE EVANGELICA

0

A bíblia online evangélica está disponível na internet para que todos os fiéis possam ter contato com a palavra de Deus e descobrir o quanto os ensinamentos religiosos podem ser úteis para nossas vidas. Fé, Amor e Esperança são fatores presentes na trajetória de Jesus Cristo (narrada pela bíblia).

Quando se trata de uma leitura religiosa, as pessoas costumam ter um pouco de dificuldade para interpretar os textos bíblicos, isso porque a linguagem é repleta de rebuscamento e requer boas habilidades de interpretação para entender.

Bíblia Online Evangélica: a palavra de Deus na internet

A Bíblia é dividida em duas partes (velho e novo testamento), sendo que cada um deles apresenta capítulos e versículos diferentes para que as pessoas possam encontrar com mais facilidade o trecho que procuram. A versão virtual da bíblia supera a tradicional em muitos aspectos, em especial quando se trata da facilidade para achar o conteúdo bíblico desejado pela barra de pesquisa. Acesse Bíblia Online agora mesmo!

GANGRENA

0

A Gangrena é um grave processo de degenerescência que termina na necrose (morte) de tecidos orgânicos, como consequência da ação de variados factores (contusões, fracturas, geladura, arteriopatias, etc…) que comprometem gravemente o estado de vitalidade de uma zona do corpo, geralmente por insuficiência da irrigação sanguínea e, mais raramente, devido a lesões dos troncos nervosos.

São, pois, causas de gangrena todas as situações patológicas que provoquem uma interrupção ou uma redução acentuada do fluxo arterial numa zona do corpo (arteriopatias obliterantes de natureza diversa, tromboses ou embolias, oclusão ou ruptura traumática de troncos arteriais) ou uma profunda alteração da realização das funções vitais das células como resultado de uma regulação nervosa incongruente (nevrites, radiculites, doenças prolongadas da medula espinhal).

A gangrena dos tecidos é, desta forma, um fenómeno final de alterações progressivas que podem surgir, quer em órgãos internos (pulmões, apêndice, vesícula biliar, intestino), quer, mais frequentemente, nos membros e que, segundo a situação clínica e a eventual concomitância de infecção, pode assumir diferentes aspectos.

Com efeito, distinguem-se vários tipos de gangrena: a seca, a húmida e a gasosa, detectáveis a olho nu quando o processo se localiza num dos membros.

As formas seca e húmida estão relacionadas com a humidade presente no ar, que permite uma maior ou menor evaporação da serosidade produzida, mas também, e sobretudo, com a quantidade de líquido intersticial, dependente da circulação local.

Pelo contrário, para que ocorra a gangrena gasosa, é necessário a presença de determinados germes anaeróbios, que se desenvolveram na ausência do ar e que, nas suas funções vitais, produzem gases que detectam à palpação porque evidenciam uma crepitação característica.

A gangrena é, sem dúvida, uma situação grave em que é necessário intervir drasticamente, a maior parte das vezes mediante a extirpação cirúrgica imediata da parte lesada e terapêutica antibiótica controlada com o fim de limitar e circunscrever a acção bacteriana à região já irrecuperável.

FEBRE AMARELA

0

A Febre Amarela é uma hepatite causada pelo mosquito Aedes aegyti, que pica o Homem; portanto, o contágio não se dá de homem para homem, indirectamente através da picadela do mosquito (de pessoa doente para pessoa sã).

Do ponto de vista epidemiológico, existem dois tipos de febre amarela: a forma urbana, em que o reservatório de vírus é o homem e o vector o mosquito, e a forma da selva, em que o reservatório mais importante é o macaco e o vector o mosquito.

A incubação média a febre amarela é de 6 dias e durante esse período surge só mal-estar. Os sintomas agudos consistem em temperatura muito elevada, dores violentas na coluna vertebral, músculos, articulações e estômago. A pele apresenta-se muito congestionada, o que lhe confere um aspecto voluptuoso (fácies amarílica); além disso, há ansiedade, insónias, agitação ou prostração grave.

Por volta do 4º dia, surge a icterícia e o vómito. As hemorragias, além das do tubo gastrintestinal (vómito e emissão de sangue com as fezes), também aparecem na pele (equimoses). A temperatura baixa, mas depois volta a elevar-se. Manifestam-se então os sinais de comprometimento do coração (o pulso desce para 60 pulsações por minuto) e do rim, que se manifestam com fraqueza generalizada e acentuada.

A morte, consequência eventual mais frequente da doença, surge até ao 8º dia, mas podem ser observadas formas fulminantes, que evoluem em 48 horas. Em regra, pode dizer-se que o doente está fora de perigo depois de 10 / 15 dias. A cura surge com a atenuação de todos os sintomas e com a queda geral da temperatura.

FEBRE

0

A Febre é uma elevação da temperatura do corpo de origem interna, provocada por um aumento do metabolismo e, portanto, com maior produção de calor e com uma alteração do equilíbrio entre produção e dispersão, sendo esta inferior à produção.

Nesta definição estão excluídas as hipertermias não febris, como a o golpe de calor, que é causado por um defeito da termodispersão.

A causa mais frequente da febre é representada pelas doenças infecciosas que a provocam devido a uma alteração dos centros encefálicos que regulam a temperatura do corpo, induzida por produtos de origem bacteriana ou pelos tecidos destruídos. Acontece que o metabolismo é regulado de maneira que seja produzido mais calor, não sendo a produção compensada por maior eliminação.

Causas menos frequentes são as intoxicações alimentares, o hipertireoidismo, as substâncias químicas, a fadiga física, a distonia neurovegetativa (que, por norma, só conseguem produzir ligeiros aumentos de temperatura).

Durante a febre produzem-se uma série de alterações funcionais dos vários aparelhos orgânicos: com efeito, são alterados os aparelhos cardiocirculatório, respiratório, digestivo e urinário.

O indivíduo com febre apresenta um aumento do ritmo cardíaco proporcional à elevação febril (oito pulsações por cada grau de temperatura), um aumento dos movimentos respiratórios, alterações do aparelho digestivo (por exemplo, falta de apetite, náuseas, vómitos, obstipação, diminuição da diurese e emissão de urina de cor amarelo-escura). Além disso, existem várias alterações do metabolismo dos hidratos de carbono e das proteínas, com produção e eliminação de azoto pelo menos três vezes superior ao normal.

Segundo a elevação, as temperaturas podem ser:

    • •subfebris (37,5ºC – 38ºC)
    • •ligeiras (38ºC – 38,5ºC)
    • •moderadas (38,5ºC – 39ºC)
    •altas (superiores a 39ºC

)

Segundo a evolução, existem também vários tipos de febre. Estes são alguns exemplos mais comuns:

    • •intermitente: neste tipo, surgem acessos febris separados por períodos de temperatura normal;
    • •contínua: a temperatura mantém-se elevada, com abaixamentos diários que não ultrapassam o 1ºC (na pneumonia, febre tifóide, etc) ;
    • •remitente: nesta forma, a temperatura apresenta oscilações diárias superiores a 1ºC (típicas dos processos sépticos generalizados);
    •recorrente: consiste em períodos de quatro / cinco dias de febre contínua, alternando com períodos sem febre.

Na febre, há que ainda que observar se o período de subida é brusco (pneumonias, septicemias) ou lento (gripe, etc) e se o restabelecimento da temperatura normal se realiza por crise com abaixamento rápido da temperatura ou por lise, com remissão gradual (por crise na pneumonia, por lise na bronquite).

FARINGITE

0

A Faringite é o processo inflamatório, agudo ou crónico, da mucosa da faringe que pode ser causado por infecção bacteriana ou viral. Existem vários tipos de faringite:

1- Catarral aguda – o seu aparecimento é facilitado pelo abuso de nicotina e álcool e pela permanência prolongada em ambientes com pó. Além disso tem muita importância a obstrução nasal crónica que, ao obrigar o doente a respirar só pela boca, seca a mucosa da faringe, diminuindo as resistências. Começa em geral bruscamente, com dor na deglutição, sensação de secura e ardor. Objectivamente, observa-se uma mucosa vermelha com muco aderente e às vezes manchas mucopurulentas. O estado geral está pouco comprometido e pode haves um ligeiro aumento da temperatura; a terapêutica, de fácil e rápida execução, consiste na ministração de antibióticos, salicilatos, aplicações locais de colutórios e a abstinência mais ou menos prolongada de álcool e tabaco.

2- Catarral crónica – em regra, é secundária a uma rinite catarral crónica por propagação do processo inflamatório à faringe (mucosa) através das coanas. As lesões anatómicas estendem-se facilmente à mucosa da cavidade nasal, enquanto que mais dificilmente atingem a laringe. O tratamento das formas crónicas, além da aplicação local de medicamentos desinfectantes e instilações ou inalações de soluções sulfobalsâmicas, beneficia de terapêutica vitamínica e reconstituinte e da extirpação de eventuais vegetações adenóides.

3- pseudomembranosa – caracterizada pela presença, na mucosa da faringe, de falsas membranas formadas por placas esbranquiçadas cercadas por um bordo vermelho que, quando são de origem diftérica, estão fortemente aderentes aos tecidos subjacentes pelo que é difícil a extirpação. Se, pelo contrário, são causadas por germes comuns são cinzento-amareladas e não aderem aos planos subjacentes dos quais podem facilmente ser descoladas.