A Imagem Cinematográfica no Contexto Cultural e Artístico

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Autoria: Marcelo Veroneze

A Imagem Cinematográfica no Contexto Cultural e Artístico Conte

INTRODUÇÃO

O presente trabalho se divide em quatro capítulos que focalizam o contexto cultural e artístico da imagem contemporânea.

O primeiro capítulo apresenta uma idéia da imagem como imagem da mídia, analisando o processo de comunicação interagindo com os meios.

O segundo capítulo apresenta um histórico sobre o cinema, numa perspectiva artística e social.

O terceiro capítulo apresenta a morte da vanguarda, um estudo sobre as artes na segunda metade do século XX, enfocando o começo da atuação do diretor do filme que constitui nosso corpus.

O ultimo capítulo enfoca o nosso corpus, o filme Sonhos de Akira Kurosawa, analisando todas as suas histórias e fazendo um breve comentário sobre o diretor do filme.

CAPÍTULO 1

A IMAGEM COMO IMAGEM DA MÍDIA

Partindo do sentido comum, das utilizações convencionais e repetidas do termo “imagem”, emprego contemporâneo do termo “imagem” remete, na maioria das vezes, a imagem da mídia. A imagem invasora, a imagem onipresente, aquela que se critica e que, ao mesmo tempo, faz parte da vida cotidiana de todos é a imagem da mídia. Anunciada, comentada, adulada ou vilipendiada pela própria mídia, a “imagem” torna-se então sinônimo de, televisão e publicidade.

Os termos não são, contudo, sinônimos. A publicidade encontra-se decerto na televisão, mas também nos jornais, revistas, nas paredes das cidades. Tampouco é unicamente visual. Existe, por exemplo, a publicidade radiofônica. Porém, a imagem da mídia é representada principalmente pela televisão e pela publicidade visual. Assim, uma coluna diária do jornal Le Monde, batizada “Imagens”, comenta as transmissões da televisão. O subtítulo de um colóquio recente consagrado à televisão era “Poder e ambigüidade da imagem”. Alguns semanários não especializados comentam com regularidade as publicidades sob a rubrica “Imagens”. As transmissões de televisão são reproduzidas pela imprensa escrita ou ainda pelo rádio na qualidade de “imagens”.

Isso se explica pela própria natureza de mídia da televisão e da publicidade, que se dirigem ao grande público. Todos as conhecem. Elas utilizam muito bem as imagens. No entanto, o amálgama imagem – televisão – publicidade mantém um certo número de confusões prejudiciais à própria imagem, à sua utilização e compreensão.

A primeira confusão é incorporar suporte a conteúdo. A televisão é um meio, a publicidade um conteúdo. A televisão é um meio particular capaz de transmitir a publicidade, entre outras coisas. A publicidade é uma mensagem particular capaz de se. materializar tanto na televisão quanto no cinema, tanto na imprensa escrita quanto no rádio. Com a repetição, contudo, a confusão, que não parece muito séria, nem de fato fundamentada. (afinal, sabe-se que a publicidade não constitui toda a televisão e vice-versa), torna-se perniciosa. Considerada como ferramenta de promoção e, antes de qualquer coisa, de promoção de si mesma, a televisão tende a estender o estilo publicitário a campos laterais, como a informação ou a ficção. Decerto existem outras causas para essa padronização dos gêneros televisuais: o contágio do fluxo televisual pode passar por outros processos como a: “espetacularização” ou a “ficcionalização”. A. publicidade, porém, em virtude de seu caráter repetitivo, ancora-se com maior facilidade nas memórias do que o desfile das imagens que a cercam.

Isso nos leva a segunda confusão, em nossa opinião mais grave. Trata-se da confusão entre imagem fixa e imagem animada De fato, considerar que a imagem contemporânea é a imagem da mídia – e que a imagem da mídia por excelência é a televisão ou o vídeo – é esquecer que coexistem, ainda hoje, nas próprias mídias, a fotografia, a pintura o desenho, a gravura, a litografia etc., todas as espécies de meios de expressão visual que se consideram “imagens”.

Considerar que, com a televisão, passou-se da “era da arte à da visualização” pretende excluir a experiência, real, da contemplação .das imagens. Contemplação das imagens fixas da mídia como cartazes, as publicidades impressas, mas também as fotografias de imprensa; contemplação da pintura, das obras e d.e todas as criações visuais possíveis, como retrospectivas de todos os tipos, permitidas precisamente pela tecnologia e pelas infra-estruturas contemporâneas. Essa contemplação descansa da animação permanente da tela de TV e permite uma abordagem mais refletida ou mais sensível de qualquer obra visual

Confundir imagem contemporânea e imagem da mídia, é não apenas negar a diversidade das imagens contemporâneas como também ativar uma amnésia e uma cegueira, tão prejudiciais quanto inúteis, para a compreensão da imagem.

Felizmente o senso comum sempre atenua e matiza essa simplificação. De um modo mais ou menos confuso, lembramos que “Deus criou o homem à sua imagem”. Esse termo, imagem, aqui fundador, deixa de evocar uma representação visual para evocar uma semelhança O homem-imagem de uma perfeição absoluta para a cultura judaico-cristã une o mundo visível de Platão, sombra, “imagem” do mundo ideal e inteligível, aos fundamentos da filosofia ocidental. Do mito da caverna à Bíblia, aprendemos que nós mesmos somos imagens, seres que se parecem com o Belo, o Bem e o Sagrado.

Dizia-se às crianças francesas que elas deviam ser “comportadas. como imagens”. Nesse caso, a imagem é precisamente o que não se mexe, Oca no lugar, não sala. Aqui, estamos bem longe da televisão, mas perto dos livros com imagens, os primeiros livros infantis, nos quais. aprende-se paralelamente a falar e reconhecer as formas, as cores e todos nomes de animais. A criança “comportada como urna imagem” ganhou muitas vezes como recompensa uma imagem (às vezes religiosas). Representações visuais e coloridas, essas imagens são de calma e de reconhecimento. Ainda que um tanto menosprezadas quando se tornam “historias em quadrinhos”, tais livros de imagens minaram nossa infância em seus momentos de repouso e sonho. “Para que serve um livro sem. Imagens?”, pergunta Alice. Imagens móveis, fixas, que podem ser um pouco mais congeladas em estereótipos e tornar-se então uma “imagem”.

No começo, havia a imagem. Para onde quer que nos voltemos, há imagem. “Por toda parte no mundo o homem deixou vestígios de suas faculdades imaginativas sob a forma de desenhos, nas pedras, dos tempos mais remotos do paleolíticos à época moderna.” Esses desenhos destinavam-se a comunicar mensagens, e muito deles constituíram o que se chamou “os precursores da escrita”, utilizando processos de descrição-representação que só se conservavam um desenvolvimento esquemático de representações de coisas reais. “Petrogramas”, se desenhadas ou pintadas, “petroglifos”, se gravadas ou talhadas – essas, figuras representam os primeiros meios de comunicação humana”. São consideradas imagens porque” imitam, esquematizando visualmente, as pessoas e os. objetos do mundo real. Acredita-se que essas primeiras imagens também se relacionavam com a magia e a religião.

Já as religiões judaico-cristãs têm a ver com as imagens. Não apenas, porque as representações religiosas estão presentes em massa em toda a história da arte ocidental, porem, mais profundamente, porque a noção de imagem, assim como sua condição, representa um problema-chave da questão religiosa. A proibição bíblica de se fabricar imagens e prosternar-se diante delas (3º mandamento) designava a imagem como estátua e como Deus. Uma religião monoteísta tinha como dever, portanto, combater as imagens, isto é, os outros deuses. A “querela das imagens”, que abalou o Ocidente do século IV ao século VII de nossa era, o ponto iconófilos e iconoclastas, é o exemplo mais manifesto desse questionamento sobre a natureza divina da imagem. Mais próximo de nós, no Renascimento, a questão da separação da representação religiosa e da representação profana estará na origem do surgimento dos gêneros pictóricos. Mesmo abolido, o iconoclasmo bizantino influenciou toda a história da pintura ocidental.

De fato, no campo da arte, noção de imagem vincula-se essencialmente à representação visual: afrescos, pinturas, mas também iluminuras, ilustrações decorativas, desenho, gravura, filmes, vídeo, fotografia e até imagens de síntese. A estatuária é mais raramente considerada “imagem”.

No entanto um dos sentidos de imago em latim, etimologia de nosso termo “imagem” designa a máscara mortuária usada nos funerais na Antigüidade romana. Essa acepção vincula a imagem, que pode também ser o espectro ou a alma do morto, não só à morte, mas também a toda história da arte e os ritos funerários.

Presente na origem da escrita, das religiões, da arte e do culto dos mortos, a imagem também é um núcleo da reflexão fisiológica da Antigüidade. Em especial Platão e Aristóteles vão defendê-la ou combatê-la pelos mesmos motivos. Imitadora, para um, ela engana, para o outro, educa. Desvia da verdade ou ao contrario, leva ao conhecimento. Para o primeiro, seduz as partes mais fracas de nossa alma, para o segundo, é eficaz pelo próprio prazer que se sente com isso. A única imagem válida aos olhos de Plantão é a imagem “natural” (reflexo ou sombra), que é a única possível de se tornar uma ferramenta filosófica.

Instrumento de comunicação, divindade, a imagem assemelha-se ou confunde-se com o que representa. Visualmente imitadora, pode enganar ou educar. Reflexo, pode levar ao conhecimento. A Sobrevivência, o Sagrado, a Morte, o Saber, a Verdade, a Arte, se tivermos um mínimo de memória nos constitui e nos convida a abordar a imagem de uma maneira complexa, a atribuir-lhe espontaneamente poderes mágicos, vinculados a todos os nossos, grandes mitos.

Podemos nos perguntar qual o ponto em comum entre uma imagem de filme ou uma imagem fotográfica e a representação mental que elas propõem de uma categoria social ou de uma pessoa, também chamada “imagem”. Esse ponto parece tão comum que não se hesita em empregar o mesmo termo para designá-las sem, com isso, provocar uma confusão interpretativa. Ausência de confusão é ainda mais surpreendente porque está diante de um ou outro tipo de imagem: uma imagem verbal, uma metáfora De fato, para ser mais bem compreendido ou para convencer, ainda é possível se exprimir por “imagens”.

Porte-se dizer que, na língua, a “imagem” é o nome comum, dado à metáfora. A. metáfora é a figura mais utilizada, mais conhecida e mais estudada da retórica, à qual o dicionário dá “imagem” como sinônimo. O que se sabe da metáfora verbal, ou da falar por “imagens”, e. que consiste em empregar uma palavra por outra, em virtude de sua relação analógica ou de comparação.

Todavia, a “imagem” ou a metáfora também pode ser um procedimento de expressão extremamente rico, inesperado, cativo e até cognitivo, quando a comparação de dois termos (explícita e implícita) solicita a imaginação e a descoberta de pontos comuns, insuspeitados entre eles. Esse, foi um dos princípios de funcionamento da “imagem surrealista” na literatura, é claro, mas também, por extensão, na pintura (Magritte, Dali) ou no cinema (Buñuel). Outras imagens…

Essa proliferação de empregos da palavra “imagem” não explica contudo, o que se designa, muitas vezes com temor, como “a proliferação das imagens”. Na vida cotidiana, a televisão propõe cada vez mais transmissões, oferece a oportunidade de empregar muitos videogames com imagens, mesmo rudimentares. Também o computador permite usar imagens graças a programas de criação de imagens ou de simulações visuais. Porém, que haja multiplicação de telas é uma coisa, que elas sejam sinônimos de imagem, e unicamente de imagem, é outra. O som e palavra escrita, por exemplo, também têm seu espaço, que não é pequeno, nas telas.

Um campo em que a imagem “prolifera” com certeza é o científico. Nele, a imagem oferece possibilidade de trabalho, de pesquisa, de exploração, de simulação e de antecipação consideráveis e, no entanto, ainda reduzidas com relação ao que seu desenvolvimento atual faz prever.

As “novas” imagens: assim são chamadas as imagens de síntese produzidas em computador que passaram nos últimos anos da representação em três dimensões a um padrão de cinema – o 35mm, as quais se pode ver atualmente nas grandes telas de alta definição.

Programas cada vez mais potentes e sofisticados permitem criar universos virtuais, que podem se apresentar como tais, mas também fazer trucagens com qualquer imagem aparentemente real. Qualquer imagem passou a ser manipulável e pode perturbar a distinção entre “real” e “virtual”.

Sem dúvida os videogames banalizaram imagens de síntese ainda. relativamente grosseiras,. Mas os simuladores de vôo herdados dos treinamentos de pilotos americanos já entraram na vida civil em instalações em que o espectador sente os movimentos ligados aos espaços que atravessa virtualmente, É o caso das cabines lúdicas de simulação de vôo e também de salas de cinema virtual, onde o movimento dos assentos, acompanha o relevo das, paisagens, visualizadas e virtualmente atravessadas.

Ainda mais ilusória, a instalação de imagens interativas permite imergir totalmente o espectador em um. universo virtual, com uma visão de 360 graus em relevo. Capacete e luvas permitem mover-se e apanhar objetos totalmente imaginários. Esqui no quarto, guerra nas estrelas em domicílio, tais projetos de vulgarização já existem no Japão. Alguns jogos permitem que um clone se mova por conta própria em um cenário totalmente virtual. Essas práticas predizem pesquisas mais complexas sobre o estímulo simultâneo dos diversos sentidos, com resistências ao esforço, feedbacks sensoriais múltiplos, destinados a se aproximar cada vez mais das situações reais.

A publicidade e os clips inauguraram procedimentos de trucagem e de efeitos, especiais, que são agora encontrados em filmes de ficção. O “truca numérico” é um computador que permite efeitos especiais detectáveis e outros imperceptíveis. O morphing, que, consiste em operar transformações, numéricas em imagens “reais” passadas por scanner, permite manipulações ilimitadas das imagens, que podem oferecer desenvolvimentos fantásticos: para a ficção, a publicidade ou os clips, mas que deixam perplexos quando se pensa na informação.

Alguns procedimentos sintéticos também, permitem a multiplicação das interfaces entre diferentes tipos de imagem, como a introdução de imagens de síntese em cenários “reais” e vice-versa. Além da brincadeira, esse tipo de procedimento consegue evitar despesas pesadas. na construção de protótipos experimentais.

O holograma – imagem a laser em três dimensões também faz parte dessas novas, imagens desconcertantes, por um lado, por- seu aspecto realista, mas também, por seu aspecto fantasmático de duplo perfeito, flutuante, como em suspensão.

Essas “novas” imagens também são chamadas de imagens “virtuais”, na medida em que propõem mundos simulados, imaginários, ilusórios. Ora, essa expressão, “imagem virtual”, não é nova e designa, em ótica, uma imagem produzida pelo prolongamento de raios luminosos: a imagem na fonte ou no espelho, por exemplo. São imagens fundadoras de um imaginário rico e produtivo.

Como toda forma de arte conhece épocas críticas, é necessário abordar o movimento dadaísta, que tentava atingir o objetivo de inviabilizar qualquer contemplação pela desvalorização sistemática. Com isso, teria favorecido o aparecimento de efeitos que o público procura no cinema.

CAPÍTULO 2

A ERA DO CINEMA

O “século XX” começa depois da Primeira Guerra Mundial, ou seja, na década de 20, assim como o “século XIX” só começou por volta de 1830. Mas a guerra marca um ponto de mutação no desenvolvimento somente na medida em que fornece ocasião para uma escolha entre as possibilidades existentes. As três principais correntes na arte do novo século têm predecessores no período imediatamente anterior: o cubismo em Cézanne e nos neoclássicos, o expressionismo em -Van Gogh e Striridberg, o surrealismo em Rimbaud e Lautréamont. A continuidade do desenvolvimento artístico corresponde a uma certa estabilidade na história econômica e social do mesmo período. Sombart limita o tempo de vidrado alto capitalismo a cento e cinqüenta anos e fá-lo terminar com a eclosão da guerra. Quer interpretar o próprio sistema de cartéis e trustes dos anos de 1895-1914 como um fenômeno de velhice e um prenúncio da crise iminente. No período anterior a 1914, entretanto, somente os socialistas falam do colapso do capitalismo; nos círculos burgueses as pessoas certamente têm consciência do perigo socialista, mas não acreditam nas “contradições internas” da economia capitalista, nem na impossibilidade de superar suas crises ocasionais. Nesses círculos não se pensa numa crise do próprio sistema. O estado de espírito geralmente confiante continua até nos primeiros anos após o final da guerra, e a atmosfera na burguesia não é, de maneira nenhuma, de desespero, a despeito da classe média baixa, que tem de lutar contra terríveis desigualdades. A verdadeira crise econômica principia em 1929 com o crash nos Estados Unidos, que põe fim ao boom da guerra e do pós-guerra e revela, de forma inconfundível, as conseqüências da falta de planejamento internacional da produção e distribuição. Agora, de súbito, as pessoas começam a discutir por toda a parte a crise do capitalismo, o fracasso da economia livre e da sociedade liberal, a iminência de uma catástrofe e a ameaça de revolução. A história dos anos 30 é a história de um período de crítica social, de realismo e ativismo, de radicalização de atitudes políticas e da convicção cada vez mais generalizada de que somente uma solução radical pode proporcionar algum remédio, por outras palavras, de que os partidos moderados tiveram sua vez. Mas em nenhum segmento da sociedade existe maior consciência da crise por que está passando o modo de vida burguês do que na própria burguesia, e em nenhum outro lugar se fala tanto do fim da época burguesa. Fascismo e bolchevismo são unânimes em considerar o burguês um morto-vivo e em voltar-se com a mesma intransigência contra o liberalismo e o parlamentarismo. De modo geral, a intelligentsia alinha-se do lado das formas autoritárias de governo, exige ordem, disciplina, ditadura, é inspirada com entusiasmo por uma nova Igreja, uma neo-escolástica e um neobizantinismo. A atração do fascismo para a deprimida camada literária, confundida pelo vitalismo de Nietzsche e Bérgson, consiste na ilusão de valores absolutos, sólidos e indiscutíveis, e na esperança de se livrar da responsabilidade que está vinculada a todo o racionalismo e individualismo; Do comunismo, a intelligentsia promete a si mesma estabelecer um contato direto com as grandes massas populares e redimir-se de seu isolamento na sociedade.

Nessa situação precária, os porta-vozes da burguesia liberal não podem pensar em nada melhor do que sublinhar as. características que o fascismo e o bolchevismo têm em comum, desacreditando um pelo outro. Assinalam o inescrupuloso realismo peculiar a ambos e encontra numa tecnocracia desumana e implacável o denominador comum a que podem ser reduzidas suas formas de organização e governo. Desprezam, deliberadamente as diferenças ideológicas entre as várias formas autoritárias de governo e representam-nas como meras “técnicas”, ou seja, como a província do expert do partido, do administrador político, do engenheiro da máquina social, numa palavra, dos “gerentes”. Existe, sem dúvida, uma certa analogia entre as diferentes formas de regulamentação social, e se partirmos do mero fato do tecnicismo e da padronização a ele relacionada podem até discernir uma semelhança entre Rússia e América. Nenhuma maquinaria estatal pode hoje dispensar totalmente os “gerentes”. Estes exercem o poder político em nome de massas mais ou menos numerosas, tal como os técnicos administram suas fábricas e os artistas pintam e escrevem para elas. A questão resume-se sempre em saber no interesse de quem o poder é exercido. Nenhum governante no mundo se atreve a admitir nos dias de hoje que sua conduta não é exclusivamente ditada pelos interesses do povo. Desse ponto de vista, estamos, de fato, vivendo numa sociedade de massa e numa democracia de massa. De qualquer modo, as grandes massas têm participação na vida política, na medida em que os poderes vigentes são obrigados a esmerar-se para desencaminhá-las.

Nada é mais típico da filosofia cultural dominante no período do que a tentativa de tornar essa “rebelião das massas” responsável pela alienação e degradação da cultura moderna e o ataque desencadeado contra ela em nome do espírito e da mente. A maioria dos extremistas professa a crença na crítica cultural usualmente confusa que sublinha essa filosofia. É verdade que as duas partes lhe atribuem significados absolutamente diferentes e travam guerra contra a “desalmada” cosmovisão científica tendo o positivismo em mente, por um lado, e o capitalismo, por outro. Mas o modo como a intelligentsia está dividida em dois campos é muito desigual até os anos 30. A maioria é consciente ou inconscientemente reacionária preparam o caminho para o fascismo sob a influência fascinante das idéias de Bérgson, Barrès, Charles Maurras, Ortega y Gasset, Chesterton, Spengler, Keyserling, Klages e outros. A “nova Idade Média”, a “nova cristandade”, a “nova Europa”, todas são cultivadas na antiga e romântica terra da contra-revolução, e a “revolução na ciência”, a mobilização do “espírito” contra o mecanicismo e o determinismo das ciências naturais nada mais é do que “o começo da grande reação mundial contra o iluminismo democrático e social”.

Nesse período de “democracia de massa” há uma tentativa de articular reivindicações e exigências em nome de grupos cada vez maiores, de modo que, por último, Hitler não teve dificuldades em nobilitar a esmagadora maioria de seu povo. O novo processo “deinocrático” de aristocratização começa por opor o Ocidente contra o Oriente, contra a Ásia e a Rússia. Ocidente e Oriente são contrastados, respectivamente, como representantes da ordem e do caos, da autoridade e da anarquia, da estabilidade e da revolução, do racionalismo disciplinado e do misticismo desenfreado, e a Europa do pós-guerra, seduzida pela literatura russa, é enfaticamente advertida de que, com seu culto de Dostoiévski e do karamazovismo, está trilhando o caminho para o caos. Na época de Vogue, a Rússia e a literatura russa não eram, de maneira nenhuma, “asiáticas” ; ao contrário, representavam o autêntico cristianismo, o qual era proposto como modelo para o Ocidente pagão. Nessa época, entretanto, ainda havia um czar na Rússia. Aliás, os novos cruzados não acreditam realmente que o Ocidente possa ser salvo e encobrem a desesperança de suas perspectivas políticas num manto geral de pessimismo. Estão decididos a sepultar toda a civilização ocidental junto com suas esperanças políticas e, como genuínos herdeiros da decadência, aceitam o “declínio do Ocidente”.

O grande movimento reacionário do século ocorre no domínio da arte como rejeição do impressionismo – uma mudança que, em alguns aspectos, forma uma incisão na história da arte mais profunda do que todas as mudanças de estilo desde a Renascença, deixando a tradição artística do naturalismo fundamentalmente incólume. É verdade que sempre existiu um vaivém entre formalismo e antiformalismo, mas a função da arte como retrato fiel da vida e da natureza jamais fora questionada, em princípio, desde a Idade Média. A esse respeito, o impressionismo foi o clímax e o término de um desenvolvimento que tinha durado mais de 400 anos. A arte pós-impressionista é a primeira a renunciar a toda ilusão de realidade por princípio e a expressar sua visão geral da vida através da deformação deliberada de objetos naturais. O cubismo, o construtivismo, o futurismo, o expressionismo, o dadaísmo e o. surrealismo afastam-se com igual determinação do impressionismo; vinculado à natureza e ratificado da realidade, Mas o próprio impressionismo prepara o terreno para esse desenvolvimento, na medida em que não aspira a ser uma descrição integrativa da realidade, uma confrontação do sujeito com o mundo objetivo como um todo, assinalando, antes, o início daquele processo que foi denominado a “anexação” da realidade pela arte. A arte pós-impressionista não pode mais ser considerada, em qualquer sentido, uma reprodução da natureza; sua relação com a natureza é de violação. Podemos falar, no máximo, de uma espécie de naturalismo mágico, da produção de objetos que existem a par da realidade mas não desejam tomar o lugar desta. Diante das obras de Braque, Chagall; Rouault, Picasso, Henri Rousseau, Salvador Dalí, sentimos sempre que, apesar de todas as diferenças, estamos num segundo mundo, num supermundo que, por muitas características de realidade ordinária que possa ainda exibir, representa uma forma de existência que ultrapassa e é incompatível com essa realidade.

A arte moderna é, porém, antiimpressionista ainda num outro aspecto: é fundamentalmente uma arte “feia”, renunciando à eufonia, às formas, tons e cores fascinantes do impressionismo. Destrói os valores pictóricos na pintura, as imagens cuidadosa e sistematicamente executadas na poesia, a melodia e a tona1idade na música. Subentende uma fuga ansiosa a tudo o que é deleitoso e agradável, a tudo o que é puramente decorativo e cativante. Debussy já opõe a frieza de tom e uma estrutura harmônica pura à sentimentalidade do romantismo alemão, e esse: anti-romantismo é intensificado em Stravinsky, Schoenberg e Hindemith, convertendo-o num antiexpressivo que repudia toda conexão com a música do sensível: século XIX. A intenção é escrever, pintar e compor com base no intelecto, não nas emoções; enfatiza-se, por vezes, a pureza da estrutura, outras vezes o êxtase de uma visão metafísica, mas há um desejo de escapar a todo o custo do complacente esteticismo sensual :da época :impressionista. O próprio impressionismo já tinha, sem dúvida, perfeita consciência da situação crítica em que se encontra a moderna cultura estética, mas a arte pós-impressionista é a primeira a sublinhar o que essa cultura tem de grotesco e de falso. Daí a luta contra todos os sentimentos voluptuosos e hedonistas, daí a melancolia, a depressão e o tormento nas obras de Picasso, Kafka e Joyce. A aversão ao sensualismo da arte mais antiga, o desejo de destruir-lhe as ilusões, chega a ponto dos artistas se recusarem agora a usar os mesmos meios de expressão e preferirem, como Rimbaud, criar uma linguagem artificial própria. Schoenberg inventa o sistema decafônico, e diz-se corretamente de Picasso que pinta cada uma de suas telas como se estivesse sempre tentando descobrir a arte de pintar.

A luta sistemática contra o uso dos meios convencionais de expressão e a conseqüente desintegração da tradição artística oitocentista começa em 1916 com o dadaísmo, um fenômeno do tempo de guerra, um protesto contra a civilização que levara o mundo à guerra e, portanto, uma forma de derrotismo. A finalidade do movimento consiste em resistir à sedução das formas prontas, sem originalidade, e aos convenientes mas imprestáveis, porque desgastados, clichês lingüísticos, que falsificam o objeto a ser descrito e destroem a espontaneidade de expressão. O dadaísmo, tal como o surrealismo, com o qual concorda totalmente a esse respeito, é uma luta pela expressão direta, espontânea, ou seja, é um movimento essencialmente romântico. A batalha é travada contra a falsificação da experiência pelas formas, da qual Goethe, como sabemos, já tivera consciência e que foi o impulso decisivo para o deflagrar da revolução romântica. Desde o romantismo, todo o desenvolvimento na literatura consistira numa controvérsia com as formas tradicionais e convencionais da linguagem, pelo que a história literária do último século é, em certa medida, a história de uma renovação da própria linguagem. Mas enquanto o século XIX limitou-se sempre a procurar um equilíbrio entre o velho e o novo, entre as formas tradicionais e a espontaneidade do indivíduo, o dadaísmo exige a completa destruição dos meios correntes e exaustos de expressão. Exige a expressão inteiramente espontânea e, assim, baseia sua teoria da arte numa contradição. Pois como poderá alguém se fazer entender – e é isso, em todo caso, o que o surrealismo pretende – e, ao mesmo tempo, negar e destruir todos os meios de comunicação? O crítico francês Jean Paulhan estabelece uma distinção entre duas categorias de escritores, de acordo com suas relações com a linguagem. Chamam “terroristas” aos destruidores da linguagem, ou seja, aos românticos, simbolistas e surrealistas, que querem eliminar por completo da linguagem as formas triviais e convencionais, os lugares-comuns, e se refugiam dos perigos da linguagem na inspiração pura, virginal e original. Lutam contra toda consolidação e coagulação da estimulante, fluida e profunda vida do espírito, contra toda exteriorização e institucionalização, por outras palavras, contra toda “cultura”. Paulhan liga-os a Rergson e estabelece a influência do intuicionismo e da teoria do élan vital na tentativa deles de preservar a qualidade direta e original da experiência espiritual. O outro campo, ou seja, os escritores que sabem muito bem que lugares-comuns e chavões são o preço do entendimento mútuo, e que literatura é comunicação, ou seja, linguagem, tradição, forma “gasta” e, precisamente por isso, não-problemática e imediatamente inteligível, recebeu de Paulhan o rótulo de “retóricos”, os artistas oradores. Considera a atitude deles a única possível, uma vez que a administração consistente do “terror” em literatura significaria silêncio absoluto, isto é, suicídio intelectual, ao qual os surrealistas só podem furtar-se através da constante auto-sugestão. Pois não existe, na realidade, convenção mais rígida e tacanha do que a doutrina do surrealismo, nem arte mais insípida e monótona do que a dos surrealistas confessos. O “método automático de escrita” é muito menos elástico do que o estilo racional e esteticamente controlado, e o inconsciente – ou, pelo menos, tudo o que dele é trazido para a luz – muito mais pobre e mais simples do que a mente consciente. A importância histórica do dadaísmo e do surrealismo não consiste, entretanto, nas obras de seus representantes oficiais, mas no fato de que chamam a atenção para o impasse em que se encontrava a literatura no final do movimento simbolista, para a esterilidade de uma convenção literária que já não tinha qualquer conexão com a vida real. Mallarmé e os Simbolistas pensavam que todas as idéias que lhes ocorriam eram expressão de sua natureza mais íntima; foi uma crença mística na “magia da palavra” que fez deles poetas. Os dadaístas e surrealistas duvidam agora de que alguma coisa objetiva, externa, formal, racionalmente organizada seja capaz de expressar o homem, e também duvidam do valor de tal expressão. É realmente “inadmissível” – pensam eles – que um homem deixe vestígios de sua passagem pelo mundo. O dadaísmo substitui, portanto, o niilismo da cultura estética por um novo niilismo, que não só questiona o valor da arte mas a situação humana como um todo. Pois, como se afirma num de seus manifestos, “aferida pelo padrão da eternidade, toda ação humana é fútil”.

A tradição de Mallarmé, entretanto, não chegou ao fim, em absoluto. Os “retóricos” André Gide, Paul Valéry, T. S. Eliot e o Rilke da última fase dão continuidade à corrente simbolista, apesar de suas afinidades com o surrealismo. São os representantes de uma arte difícil e requintada, acreditam na “magia da palavra”, sua poesia baseia-se no espírito da linguagem, da literatura e da tradição. O Ulisses de Joych e A terra devastada de T. S. Eliot vêm a lume simultaneamente, no ano de 1922, e ditam a tônica da nova literatura; um encaminha-se na direção expressionista e surrealista, o outro segue rumo simbolista e formalista. O enfoque intelectualista é comum a ambos, mas a arte de Eliot promana da “experiência de cultura”, enquanto a de Joyce resulta da “experiência de pura e primitiva existência”, tal como foram definidas por Friedrich Gundolf, que apresenta esses conceitos no prefácio de seu livro sobre Goethe e expressa desse modo um padrão típico do pensamento do período. Num caso, a cultura histórica, a tradição intelectual e o legado de idéias e formas são as fontes de inspiração, no outro, os fatos diretos da vida e os problemas da existência humana. Com T. S. Eliot e Paul Valéry, o alicerce primordial é sempre uma idéia, um pensamento, um problema; com Joyce e Kafka, uma experiência irracional, uma visão, uma imagem metafísica ou mitológica. A distinção conceitual de Gundolf é o registro de uma dicotomia que está sendo levada a cabo em todos os campos da arte moderna. Cubismo e construtivismo, por um lado, expressionismo e surrealismo, por outro, consubstanciam, respectivamente, tendências estritamente formais e tendências destruidoras de forma, as quais se apresentam agora pela primeira vez lado a lado em tão nítida contradição. A situação é tanto mais peculiar na medida cm que os dois estilos opostos exibem as mais estáveis combinações e formas híbridas, de modo que, com freqüência, tem-se mais a impressão de uma consciência dividida do que de duas correntes antagônicas. Picasso, que muda abruptamente de uma das diferentes tendências estilísticas para outra, é, ao mesmo tempo, o artista mais representativo da .era presente. Denominá-lo, porém, de eclético e de “:mestre do pasticho” , afirmar que ele só quer. mostrar em que medida domina as regras da arte contra as quais se rebela, compará-lo como Stravinsky e lembrar como também este muda seus modelos e “faz uso de” Bach, depois Pergalesi, depois Tchaikovsky, para os fins da música moderna, não é contar a história toda. O ecletismo :de Picasso significa a deliberada destruição da unidade da personalidade; suas imitações são protestos contra o culto da originalidade; sua deformação da realidade, a qual se reveste sempre de novas formas a fim de demonstrar de maneira mais convincente a arbitrariedade destas, pretende confirmar, sobretudo, a tese de que. “natureza e arte são dois fenômenos inteiramente dessemelhantes”. Picasso converte-se num conspirador, prestidigitador, parodista, por oposição ao romântico:.com sua “voz interior”, seu “é pegar ou largar”, sua auto-estima e egolatria. E repudia não só o romantismo mas até a Renascença, a qual, com seu conceito de gênio e sua idéia da unidade de trabalho e estilo, antecipa em certa medida o romantismo. Ele representa. uma completa ruptura com o individualismo e o subjetivismo, a negação absoluta da arte como expressão de uma personalidade inconfundível. Suas obras são anotações e comentários sobre a realidade; não pretendem ser vistas como descrição ou ilustração de um mundo e de uma totalidade, como síntese e epítome da existência. Picasso desacredita os meios artísticos de expressão pelo uso indiscriminado dos diferentes estilos artísticos, e fá-la de modo tão completo e deliberado quanto os surrealistas por meio de sua renúncia às formas tradicionais.

O novo século está repleto desses profundos antagonismos; a unidade de sua concepção de vida está tão profundamente ameaçada que a combinação dos extremos mais distantes, a unificação das maiores contradições, torna-se o tema principal, freqüentemente o único tema, de sua arte. O surrealismo, que no começo, como observa André Breton, gravitava inteiramente em torno do problema da linguagem, isto é, da expressão poética, e que, como diria Paulhan, procurou ser entendido sem os meios de entendimento, converteu-se numa arte que fez do paradoxo de todas as formas, e do absurdo de toda a existência humana, a base de seus pontos de vista. O dadaísmo ainda pleiteava, por desespero em face da inadequação das formas culturais, a destruição da arte e um retorno ao caos, ou seja, o rousseauísmo romântico no mais extremo significado do termo. O surrealismo, que suplementa o seu método do dadaísmo com o “método automático de escrita”, já expressa meio a essa crença em que um novo conhecimento, uma nova verdade e uma nova arte surgirão do caos, do inconsciente e do irracional, dos sonhos e das regiões incontroladas da mente. Os surrealistas esperam a salvação da arte, que repudiam como tal, tanto quanto os dadaístas, e se estão preparados para aceitá-la como veículo de conhecimento irracional, de um mergulho no inconsciente, no pré-racional e no caótico, e recorrem ao método psicanalítico de livre associação, ou seja, ao desenvolvimento automático de idéias e sua reprodução sem qualquer censura racional, moral e estética, pois imaginam ter descoberto aí uma receita para a restauração do velho e bom tipo romântico de inspiração. Assim, no fim de contas, ainda se refugiam na racionalização do irracional e na reprodução metódica do espontâneo; a única diferença está em que o seu método é incomparavelmente mais pedante, dogmático e rígido do que o modo de criação em que o irracional e o intuitivo são controlados por julgamento estético, gosto e crítica, e que faz da reflexão, e não da indiscriminação, seu princípio orientador. Muito mais fecundo do que a receita dos surrealistas foi o procedimento de Proust, que se colocou também numa espécie de estado sonambúlico e se abandonou à corrente de lembranças e associações com a passividade de um médium hipnótico”, mas se manteve, ao mesmo tempo, um pensador disciplinado e, num grau superlativo, um artista conscientemente criativo. O próprio Freud parece não se ter deixado iludir pelo ardil perpetrado pelo surrealismo. Diz-se que quando Salvador Dalí o visitou em Londres, pouco antes de sua morte, Freud comentou: “O que me interessa em sua arte não é o inconsciente, mas o consciente. Não terá ele querido dizer que não estava interessado na paranóia simulada do pintor, mas no método de sua simulação?

A experiência básica dos surrealistas consiste na descoberta de uma “segunda realidade”, a qual, embora inseparavelmente fundida com a realidade comum, empírica, é, não obstante, tão diferente desta que, como provas de sua existência, apenas somos capazes de formular enunciados negativos e de apontar hiatos e cavidades em nossa experiência. Esse dualismo expressa-se nas obras de Kafka e Joyce de modo mais agudo do que em qualquer outro escritor; embora nada tenham a ver com o surrealismo como doutrina, ambos são surrealistas na mais ampla acepção do termo, como a maioria dos artistas progressistas do século. É também essa experiência da duplicidade da existência, com seu hábitat em duas esferas diferentes, o que torna os surrealistas conscientes da peculiaridade dos sonhos e os induz a reconhecer na realidade mista dos sonhos seu próprio ideal estilístico. O sonho passa a ser o paradigma da representação total do mundo, na qual real e irreal, lógica e fantasia, a banalidade e sublimação da existência formam uma indissolúvel e inexplicável unidade. O meticuloso naturalismo dos detalhes e a combinação arbitrária de suas relações, que o surrealismo copia dos sonhos, não só expressam o sentimento de que vivemos em dois níveis diferentes, em duas esferas diferentes, mas também que essas regiões do ser se interpenetram a tal ponto que uma não pode subordinai-se à outra nem se opor a ela como antítese.

O dualismo do ser não é, por certo, uma concepção nova, e a idéia da coincidentia oppositorum nos é muito familiar através da filosofia de Nicolau de Cusa e de Giordano Bruno, mas o duplo significado e a duplicidade da existência, a cilada e a sedução para o entendimento humano que se ocultam em todo e qualquer fenômeno da realidade, nunca foram vivenciados de maneira tão intensa quanto agora. Só o maneirismo tinha, visto o contraste entre o concreto e o abstrato, o sensual e o espiritual, o sonho e a vigília:, numa luz igualmente ofuscante. A ênfase que a arte moderna Confere não tanto à coincidência dos próprios opostos quanto ao que há de imaginário, de fantasioso, nessa coincidência também é uma reminiscência do maneirismo. O nítido contraste, na obra de Dalí, entre a reprodução fotograficamente fiel dos detalhes e a extravagante desordem do arranjo corresponde, num nível muito humilde, à predileção pelo paradoxo no teatro elisabetano e na poesia lírica dos “poetas metafísicos” seiscentistas. Mas a diferença de nível entre o estilo de Kafka e Joyce, no qual uma prosa sóbria e freqüentemente trivial combina-se com a mais frágil transparência de idéias, e o dos poetas maneiristas dos séculos XVI e XVII já não é tão grande. Em ambos os casos, o verdadeiro tema da representação é o absurdo da vida, a qual parece tanto mais surpreendente e chocante quanto mais realistas são os elementos que constituem o todo fantástico. A máquina de costura e o guarda-chuva sobre a mesa de dissecação, o cadáver de um burro sobre o piano e o corpo de mulher nua que se abre como uma cômoda, em suma, todas as formas de justaposição e simultaneidade em que se comprimem o não-simultâneo e o incompatível são apenas expressões de um desejo de dar unidade e coerência, por certo de um modo muito paradoxal, ao mundo pulverizado em que vivemos. A arte é tomada de uma verdadeira mania de totalidade. Parece possível relacionar cada coisa com todas as demais, tudo parece incluir em si a lei do todo. A depreciação do homem, a chamada “desumanização” da arte, está ligada, sobretudo, a esse sentimento. Num mundo em que tudo é significativo ou de igual significação, o homem perde a preeminência e a psicologia sua autoridade.

A crise do romance psicológico talvez seja o fenômeno mais impressionante da nova literatura. As obras de Kafka e Joyce já não são romances psicológicos na mesma acepção em que o eram os grandes romances do século XIX. Em Kafka, a psicologia é substituída por uma espécie de mitologia, e em Joyce, embora as análises psicológicas sejam perfeitamente corretas, do mesmo modo que os detalhes de uma tela surrealista são absolutamente fiéis à natureza, não existem protagonistas, no sentido de um centro psicológico, mas tampouco uma esfera psicológica na totalidade do ser. A despsicologização do romance já começa com Proust, que, como o mestre supremo da análise de sentimentos e pensamentos, marca o apogeu do romance psicológico mas também representa o.deslocamento incipiente da alma no equilíbrio da fidelidade. Com efeito, desde que a totalidade da existência passou a ser apenas o conteúdo da consciência e as coisas adquiriram significação pura e simplesmente através do meio espiritual pelo qual são experimentadas, já não se pode continuar falando de psicologia tal como foi entendida por Stendhal, Balzac, Flaubert, George Eliot, Tolstoi ou Dostoievski. Na novelística do século XIX, a alma e o caráter do homem são vistos como o pólo oposto do mundo da realidade física, e a psicologia como o conflito entre o sujeito e o objeto, o eu e o não eu, o espírito humano e o mundo externo. Essa psicologia deixa de ser predominante em Proust, que está menos interessado na caracterização da personalidade. individual, embora seja um retratista e caricaturista candente, do que na análise do mecanismo espiritual como fenômeno ontológico. Sua obra é uma “Suma”, não só na acepção familiar de conter um quadro total da sociedade moderna, mas também porque descreve a totalidade do aparelho espiritual do homem moderno com todas as inclinações, instintos, talentos, automatismos, racianalismos e irracionalismos. O Ulisses de Joyce é, portanto, a continuação direta do romance proustiano; encontramo-nos aqui diante de, literalmente, uma enciclopédia da civilização moderna, tal como se reflete no tecido de motivos que compõem o conteúdo de um dia na vida de uma grande cidade. Esse dia é o protagonista do romance. Ao abandono do enredo segue-se o abandono do herói. Em vez de um caudal de eventos, Joyce descreve um fluxo de idéias e associações, em vez de um protagonista, uma corrente de consciência e um interminável, ininterrupto monólogo interior. A ênfase recai por toda a parte na ininterrupção do movimento, no “continuum heterogêneo”, no quadro caleidoscópico de um mundo desintegrado. O conceito bergsoniano de tempo sofre uma nova interpretação, uma intensificação e um desvio. O acento recai agora na simultaneidade dos conteúdos da consciência, na imanência do passado no presente, na convergência constante dos diferentes períodos de tempo, na fluidez amorfa da experiência interior, na imensidade sem limite da corrente de tempo onde a alma singra, na relatividade de espaço e tempo, ou seja, na impossibilidade de diferençar e definir os meios através dos quais a mente se move. Nessa nova concepção de tempo quase todos os elementos da tessitura que formam a substância da arte moderna convergem: o abandono do enredo, a eliminação do protagonista, a renúncia à psicologia, o “método automático de escrita” e, sobretudo, a montagem técnica e a combinação de formas temporais e espaciais do filme. O novo conceito de tempo, cujo elemento básico é a simultaneidade e cuja natureza consiste na espacialização do elemento temporal, em nenhum gênero se expressa de forma tão impressionante quanto na mais jovem de todas as artes, a qual data do mesmo período que a filosofia do tempo de Bérgson. A concordância entre os métodos técnicos do cinema e as características do novo conceito de tempo é tão completa que se tem a. sensação de que as categorias temporais da arte moderna, como um todo, devem ter surgido do espírito de forma cinematográfica, e fica-se propenso a considerar o próprio cinema como o gênero estilisticamente mais representativo da arte contemporânea, embora qualitativamente talvez não o mais fértil.

O teatro é, em muitos aspectos, o veículo artístico mais semelhante ao cinema; particularmente em virtude de sua com binação de formas espaciais e temporais, representa a única analogia verdadeira cora o cinema. Mas o que acontece no palco é parcialmente espacial, parcialmente temporal; via de regra, espacial e temporal, mas nunca uma mistura do espacial e do temporal, como são os acontecimentos num filme. A diferença mais fundamental entre o cinema e as outras artes é que, em sua representação do mundo, as fronteiras de espaço e tempo são fluidas – o espaço tem um caráter quase temporal, o tempo, em certa medida, um caráter espacial. Nas artes plásticas, como também no palco, o espaço permanece estático, imóvel, imutável, sem uma meta e sem uma direção; movimentamo-nos nele com muita liberdade, porque é homogêneo em todas as partes e porque nenhuma das partes pressupõe a outra temporalmente. As fases do movimento não são etapas, não são degraus num desenvolvimento gradual; sua seqüência não está sujeita a qualquer coerção. O tempo em literatura – sobretudo no teatro –, por outro lado, tem uma direção definida, uma tendência de desenvolvimento, uma meta objetiva, independente da experiência de tempo do espectador; não é um mero reservatório mas uma sucessão ordenada. Ora, essas categorias dramatúrgicas de espaço e tempo têm caráter e funções completamente alterados no cinema. O espaço perde a qualidade estática, a passividade serena, e torna-se agora dinâmico; adquire existência diante de nossos olhos, por assim dizer. É fluido, ilimitado, inacabado, um elemento com história própria, com seu próprio esquema e processo de desenvolvimento. O espaço físico homogêneo adota aqui as características de tempo histórico heterogeneamente composto. Nesse meio de expressão, as etapas individuais deixam de ser da mesma espécie, as partes individuais do espaço não são mais de igual valor; as posições são especialmente qualificadas, algumas com certa prioridade no desenvolvimento e outras significando a culminação da experiência espacial. O uso do close-up, por exemplo, não s6 tem critérios espaciais como também representa uma fase a ser atingida ou a ser suplantada no desenvolvimento temporal do filme. Num bom filme, os close-ups não são distribuídos de maneira arbitrária e caprichosa. Não são intercalados independentemente do desenvolvimento interior da cena, nem em qualquer momento e lugar, mas apenas onde sua energia potencial pode e deve fazer-se sentir. Pois um close-up não é uma imagem destacada de um contexto e emoldurada; é sempre e meramente parte de um quadro, como, por exemplo, as figuras em repoussoir da pintura barroca, que introduzem uma qualidade dinâmica no quadro semelhante à criada pelos close-ups na estrutura espacial de um filme.

Mas, como se espaço e tempo no filme se inter-relacionassem pelo fato de serem permutáveis, as relações temperais adquirem um caráter quase espacial, assim como o espaço adquire um interesse tópico e assume características temporal; por outras palavras, introduz-se um certo elemento de liberdade na sucessão de seus momentos. No meio temporal de um filme, movimentamo-nos de um modo que, sob outros aspectos, é característico do espaço, temos completa liberdade para escolher nossa direção, passar de uma fase do tempo para outra – da mesma forma que se transita de uma sala para outra –, separar as várias etapas individuais no desenvolvimento de eventos e agrupá-las, em termos gerais, de acordo com os princípios da ordem espacial. Resumindo: o tempo perde aqui, por um lado, sua continuidade ininterrupta e, por outro, sua direção irreversível. Pode ser detido, em close-ups; revertido, em flash-backs; repetido, em recordações; e avançado, em visões do futuro. Acontecimentos concorrentes, simultâneos, podem ser mostrados em sucessão; e acontecimentos temporalmente distintas em simultaneidade – por dupla exposição e alternação; o que ocorreu antes pode aparecer mais tarde, o que é ulterior ocorrer antes do tempo. Essa concepção cinematográfica de tempo tem um caráter inteiramente subjetivo e evidentemente irregular, comparado com a concepção empírica e dramática do mesmo meio. O tempo da realidade empírica é uma ordem uniformemente progressiva, ininterruptamente contínua e absolutamente irreversível, na qual os eventos seguem-se uns aos outros como “numa correia de transmissão”. É verdade que o tempo dramático não é idêntico ao tempo empírico – a confusão causada por um relógio mostrando a hora correta no palco resulta dessa discrepância –, e a unidade de tempo prescrita pela dramaturgia clássica pode ser até interpretada como a fundamental eliminação do tempo ordinário; e, no entanto, as relações temporais no teatro têm mais pontos de contato com a ordem cronológica da experiência ordinária do que a ordem de tempo num filme. Assim, no drama, ou pelo menos num mesmo ato de um drama, a continuidade temporal da realidade empírica é preservada intacta. Também aqui, tal como na vida real, os acontecimentos sucedem-se de acordo com a lei de uma progressão que não permite interrupções e saltos nem repetições e inversões, e obedecem a um padrão de tempo que é absolutamente constante, ou seja, não sofre aceleração, retardamento ou suspensão de qualquer espécie dentro de numerosas seções (atos: ou cenas). No filme, por outro lado, não só a velocidade de eventos sucessivos mas também o próprio padrão cronométrico são; com freqüência, diferentes de tomada para tomada, conforme se faz uso de câmara lenta ou acelerada, de cortes mais ou menos extensos, de muitos ou poucos closes.

O teatrólogo é proibido pela lógica do arranjo cênico de repetir momentos e fases do tempo, um expediente que, com freqüência, constituí a fonte dos mais intensos efeitos estéticos no cinema. É verdade que uma parte da história é muitas vezes tratada em retrospectiva no teatro; e os antecedentes são acompanhados de trás para diante no tempo, mas o usual é que sejam representados indiretamente – na forma de uma narrativa coerente ou de uma narrativa limitada a alusões dispersas. A técnica teatral não permite que o teatrólogo, no decorrer de um enredo que se desenvolve progressivamente, recue para etapas passadas e as insira diretamente na seqüência de eventos, no presente dramático – isto é, só há pouco começou a permiti-1o, talvez sob a influência imediata do cinema, ou sob a influ6ncia da nova concepção de tempo, familiar também através do romance moderno. A viabilidade técnica de interromper qualquer tomada sem maiores conseqüências sugere as possibilidades de um tratamento descontínuo do tempo, desde o começo, e dota o filme com os meios de intensificar a tensão de uma cena pela interpolação de incidentes heterogêneos ou pela atribuição das fases isoladas da cena a diferentes seções da obra. Assim, o filme gera muitas vezes o efeito de alguém tocando num teclado e ferindo as teclas ad libitum, para cima e para baixo, para a direita e para a esquerda. Num filme, vemos freqüentemente o protagonista primeiro no começo de carreira como um homem jovem, depois, recuando para o passado, como criança; vemos então, no desenvolvimento do enredo, como um homem maduro e, tendo acompanhado sua carreira por algum tempo, podemos enfim vê-la vivendo ainda após sua morte, na lembrança de um dos familiares ou amigos. Em conseqüência da descontinuidade do tempo, o desenvolvimento retrospectivo do enredo combina-se com o progressivo em completa liberdade, sem qualquer espécie de vínculo cronológico, e através das repetidas voltas e reviravoltas na seqüência temporal a mobilidade, que constitui a própria essência da experiência cinematográfica, é levada a limites extremos. A autêntica espacialização do tempo no filme só acontece, entretanto, quando se retrata a simultaneidade de enredos paralelos. É a experiência da simultaneidade de diferentes acontecimentos, espacialmente separados, que coloca o público naquela condição de suspense que se move entre espaço e tempo e reivindicam para si as categorias de ambas as ordens. É a simultânea proximidade e distância das coisas – a proximidade mútua no tempo e a distância umas das outras no espaço – que forma esse elemento espaço-temporal, essa bidimensionalidade do tempo, a qual constitui o verdadeiro veículo do cinema e a categoria básica de sua representação do mundo.

Num período relativamente inicial da história do cinema descobriu-se que a representação de duas seqüências simultâneas de acontecimentos é parte do estoque original de formas cinematográficas. Primeiro, essa simultaneidade foi simplesmente registrada e levada ao conhecimento do público por relógios mostrando a mesma hora ou por indicações diretas similares; a técnica artística do tratamento intermitente de um duplo enredo e a montagem alternante das fases isoladas de tal enredo só se desenvolveram passo a passo. Mais tarde, entretanto, deparamos a todo instante com exemplos dessa técnica. E quer nos coloquemos entre dois partidos rivais, dois competidores ou dois duplos, a estrutura de um filme é dominada, em todos os casos, pelo cruzamento e interseção das duas diferentes linhas, pelo caráter bilateral do desenvolvimento e a simultaneidade das ações apostas. O famoso desfecho dos primeiros e já clássicos filmes de Griffith, em que o final de um excitante enredo fica na dependência de quem alcança primeiro o objetivo – se um trem ou um automóvel, se o conspirador ou “o mensageiro do rei a cavalo”, se o assassino ou o salvador –, usando a então revolucionária técnica de quadros continuamente mudando, em flashes que surgem e desaparecem como relâmpagos, tornou-se o modelo que passou a ser seguido pela maioria dos filmes em situações semelhantes.

A experiência de tempo na era atual consiste, sobretudo, numa consciência do momento em que nos encontramos: numa consciência do presente. Tudo o que é tópico, contemporâneo, tudo o que está estreitamente unido no momento presente é de especial significação e valor para o homem de hoje, e, imbuído dessa idéia, o mero fato da simultaneidade adquire a seus olhos um novo significado. Seu mundo intelectual está saturado da atmosfera do presente imediato, assim como o da Idade Média se caracterizava por uma atmosfera sobrenatural e o do Iluminismo por uma atitude de esperança no futuro. Ele vivência a grandeza de suas cidades, os milagres de suas técnicas, a riqueza de suas idéias, as profundezas ocultas de sua psicologia na contigüidade, nas interligações e na concatenação de coisas e processos. O fascínio da “simultaneidade”, a descoberta de que, por um lado, o mesmo homem vivencia tantas coisas diferentes, desconexas, e homens em diferentes lugares experimentam freqüentemente as mesmas coisas, de que as mesmas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo em lugares completamente isolados uns dos outros, esse universalismo, do qual as técnicas modernas tornaram consciente o homem contemporâneo, talvez seja a verdadeira fonte da nova concepção de tempo e de toda a rudeza com que a arte moderna descreve a vida. Essa qualidade rapsódica, que distingue com extrema nitidez o romance moderno da novelística de outros tempos, é, simultaneamente, a característica responsável por seus efeitos mais cinematográficos. A descontinuidade do enredo e do desenvolvimento cênico, a súbita emersão dos pensamentos e estados de ânimo, a relatividade e a inconsistência dos padrões de tempo são o que nos lembra, nas obras de Proust e Joyce, Dos Passos e Virgínia Woolf, dos cortes, dissolvências e interpolações dos filmes, e é simplesmente magia de filme o que se nos oferece quando Proust coloca dois incidentes, que podem estar a trinta anos de distância um do outro, tão juntos como se houvesse apenas duas horas entre eles. A maneira como, em Proust, passado e presente, sonhos e especulação se unem através dos intervalos de espaço e tempo, como a sensibilidade, sempre farejando novos caminhos, vagueia pelo espaço e pelo tempo, e como as fronteiras de espaço e tempo dissipam-se nessa corrente interminável e ilimitada de inter-relações: tudo isso corresponde exatamente àquela mistura de espaço e tempo em que o filme se movimenta. Proust nunca menciona datas e idades; nunca sabemos exatamente que idade tem o protagonista do romance, e mesmo as relações cronológicas dos fatos mantêm-se, com freqüência, bastante vagas. As experiências e acontecimentos não se coadunam em conseqüência de sua proximidade no tempo, e a tentativa de os delimitar e organizar cronologicamente seria tanto mais absurda, do ponto de vista dele, porquanto todos os homens, em sua opinião, têm experiências típicas que se repetem periodicamente. O rapaz, o homem jovem e o homem maduro vivenciam sempre, fundamentalmente, as mesmas coisas; o significado de um incidente só se lhe revela, com freqüência, anos depois de o ter experimentado e suportado; dificilmente, porém, pode distinguir o sedimento depositado por todos os anos que passaram da experiência do momento presente em que está vivendo. Não é ele, em cada momento de sua vida, a mesma criança, ou o mesmo inválido, ou o mesmo forasteiro solitário, com os mesmos nervos sensíveis, tensos e vigilantes? Não é, em todas as situações da vida, a pessoa capaz de vivenciar isto e aquilo, que possui nas características repetidas de sua experiência a única proteção contra a passagem do tempo? Todas as nossas experiências não ocorrem, por assim dizer, ao mesmo tempo? E essa simultaneidade não é, realmente, a negação do tempo? E não constitui essa negação uma luta pela recuperação daquela interioridade de que nos privam o espaço e o tempo físicos?

Joyce luta pela mesma interioridade, pelo mesmo imediatismo da experiência, quando, à semelhança de Proust, dissolve e dilui o tempo bem articulado e cronologicamente organizado. Também em sua obra é a permutabilidade dos conteúdos da consciência que triunfa sobre o arranjo cronológico das experiências; para ele, o tempo também é uma estrada sem direção, na qual o homem se movimenta em ambos os sentidos. Mas Joyce levou a espacialização do tempo ainda mais longe do que. Proust, e mostra os acontecimentos interiores em segmentos não só longitudinais mas também transversais. As imagens, idéias, ondas cerebrais e lembranças situam-se lado a lado, com súbita e absoluta falta de cerimônia; dificilmente se manifesta qualquer consideração por suas origens, recaindo toda a ênfase em sua contigüidade e simultaneidade. A espacialização do tempo chega a tal ponto em Joyce que se pode começar a leitura de Ulisses onde se queira, com apenas um conhecimento superficial do contexto – não necessariamente só após uma primeira leitura, como tem sido dito, e quase que em qualquer seqüência que se escolha. O meio na qual o leitor se encontra é, de fato, inteiramente espacial, pois o romance descreve não só o retrato de uma grande cidade, mas também adota, em certa medida, sua estrutura, a rede de ruas e praças nas quais as pessoas perambulam, num incessante vaivém, parando quando e onde lhes apetece. É sumamente característico da qualidade cinematográfica dessa técnica que Joyce tenha escrito seu romance não na sucessão final dos capítulos, mas – como é costume na produção de filmes – mantendo-se independente da seqüência do enredo e trabalhando em numerosos capítulos ao mesmo tempo.

Encontramos a concepção bergsoniana de tempo, tal como é usado no cinema e no romance moderno – embora nem sempre de forma tão inconfundível quanto em Ulisses –, em todos os gêneros e correntes da arte contemporânea. A “simultaneidade dos estados de alma” é, sobretudo, a experiência básica que liga as várias tendências da pintura moderna, o futurismo dos italianos com o expressionismo de Chagall, e o cubismo de Picasso com o surrealismo de Giorgio de Chirico ou Salvador Dalí. Bérgson descobriu o contraponto dos processos espirituais e a estrutura musical de suas inter-relações. Assim como quando ouvimos corretamente uma peça musical temos em nossos ouvidos a conexão mútua de cada nota com todas aquelas que já soaram antes, também possuímos sempre em nossas mais profundas e vitais experiências tudo o que vivenciamos e se tornou nosso próprio patrimônio na vida. Entendemos a nós mesmos, lemos em nossas almas como se estivéssemos lendo uma partitura musical, resolvemos o caos dos sons emaranhados e os transformamos numa polifonia de diferentes partes. Toda arte é um jogo com o caos e uma luta contra ele; está sempre avançando cada vez mais perigosamente para o caos e resgatando de suas garras províncias cada vez mais extensas do espírito. Se existe qualquer progresso na história da arte, então este consiste no crescimento constante dessas províncias arrancadas ao caos. Com sua análise do tempo, o filme situa-se na linha direta desse desenvolvimento: tornou possível representar visualmente experiências que antes só se expressavam em formas musicais. Ainda não surgiu, porém, o artista capaz de concretizar essa nova possibilidade, de preencher essa forma ainda vazia.

A crise cinematográfica, que parece estar redundando numa doença crônica, deve-se sobretudo ao fato de que o cinema não está encontrando o caminho para o cinema. Habituados a proceder à vontade dentro de suas próprias quatro paredes, são agora solicitados a levar em conta produtores, diretores, roteiristas, câmeraman, diretores de arte e técnicos de todos os gêneros, embora não reconheçam a autoridade desse espírito de cooperação ou, na verdade, a própria idéia: de colaboração artística. Seus sentimentos revoltam-se contra a idéia de a produção de obras de arte ser entregue a uma organização coletiva, a uma “empresa”, e consideram ser um rebaixamento da arte que uma ordem alheia ou, na melhor das hipóteses., uma maioria estranha deva dizer a última palavra em decisões cujos motivos, com freqüência, são incapazes de explicar. Do, ponto de vista do século XIX, a situação com a qual o escritor é solicitado a concordar é deveras incomum e anormal. Os esforços artísticos pulverizados e incontrolados do presente deparam-se agora, pela primeira vez, com um princípio oposto a sua anarquia. Pois o mero fato de um empreendimento artístico basear-se na cooperação é prova evidente de uma tendência para a integração, da qual se pusermos de lado o teatro, onde se trata mais, em todo caso, de uma questão de reprodução do que de produção de obras de arte – não tinha havido realmente nenhum exemplo perfeito desde a Idade Média e, em particular, desde a corporação de pedreiros. Até que ponto a produção de filmes ainda está longe, porém, do princípio geralmente aceito de um grupo de cooperação artística é evidenciado não só pela incapacidade da maioria dos escritores de estabelecer uma conexão com o cinema mas também por fenômenos como Chaplin, que acredita dever fazer sozinho o máximo possível e

A Industria do Cinema no Brasil

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Autoria: Aparecida Martins

O Cinema no Brasil

1 – Tentativa de Implantação de Industria Cinematográfica no Brasil

O cinema brasileiro é marcado pelo declínio, pelo sucesso, pelo deslumbre capitalístico e pela falta de recursos. Contrastes que fazem do mesmo cinema um grande processo de estudo já que as histórias existentes entre as produtoras são inúmeras e de grande valor para a construção social do indivíduo brasileiro.

Entre as inúmeras produtoras, destaca-se a Atlântida no Rio de Janeiro, fundada em 18/09/1941 com o objetivo de promover o desenvolvimento do cinema brasileiro a partir da união entre o cinema popular e o nível artístico. Porém sua trajetória iníciou-se com as produções de cinejornais e o seu declínio pelas produções das chanchadas brasileiras. Outros focam a Companhia Cinematográfica Vera Cruz em São Paulo, fundada em 03/11/1949 resultante de uma grande empreitada do cinema brasileiro reunindo afortunados da elite paulistana que desejavam implantar uma produtora para a elite contendo um padrão totalmente hollywoodiano, mas que fracassou devido ao altíssimo investimento na própria produção e que pecou no investimento de distribuição. A Maristela que foi uma pequena produtora fundada em 1950, também em São Paulo, provavelmente uma seqüência do boom praticado pela Vera Cruz. E por último temos a PAM – Produções Amacio Mazzaropi- uma pequeníssima produtora em relação às outras três primeiras, que deteve de poucos recursos nas produções. Nascida dos traços regionais de Amacio Mazzaropi, a PAM devido a evidencias só não teve continuidade devido à morte de seu maior acionista, o Mazzaropi.

Cada uma destas produtoras teve suas distintas características de atuação sobre as produções. Uma valorizava os filmes de receita extensa; outros documentários e filmes populares e, ainda, outra se dedicou a filmes baratos, regionais e originais.

Dentro do contexto social as produções foram abusadas e inteligentes, já que iniciaram suas atividades junto com a II Guerra Mundial, sendo que a mesma não contribuiu negativamente, mas sim criativamente, pois deu idéias de produções que satirizavam ou contavam histórias da visão brasileira sobre o acontecimento.

1.1 – Rio de Janeiro e a Atlântida

Até os primeiros anos da década de 1940 o cinema brasileiro era constituído por produções cinematográficas pequenas. A infra-estrutura até então era regional e pequena para a produção de grandes filmes.

A partir de 1943 este quadro mudaria pois dois anos antes, em 18/09/1941 era inaugurada a Atlântida Cinematográfica. Sua trajetória, liderada de início, pelos fundadores Moacir Fenelon e José Carlos Burle seria marcada pelo objetivo de promover o desenvolvimento industrial do cinema brasileiro, o que proporcionaria a mudança do quadro cinematográfico no Brasil.

Os contribuidores adicionados por cinema e que trabalhavam na Atlântida como Alinor Azevedo, Edgar Brasil e Arnaldo Farias fizeram da produtora a mais importância da época em relação à produção cinematográfica.

Com o início de suas atividades o que predominava eram os cinejornais. Após essa experiência a Atlântida dedicara-se a documentários-reportagens que retratavam o cotidiano da sociedade carioca.

Seus primeiros filmes ficcionais iniciaram em 1943 tendo temas brasileiros com nível artístico e com um relativo cuidado em relação às faturas dos trabalhos produzidos. Tendo artistas de nome como, Grande Otelo, Oscarito, Mesquitinha, Ankito, Zezé Trindade, Dercy Gonçalves entre outros, a Atlântida consolidou-se a maior produtora de filmes no Brasil no período de 1943 a 1947 tendo produzido 12 filmes, entre eles Gente Honesta e Tristezas não pagam dívidas.

Com a direção assumida em 1945, por Watson Macedo, em pleno início da II Guerra Mundial, a produtora dedicou-se a produção de novos filmes com uma temática de paródias, comédias que dariam início ao que seria a produção de maior importância para a própria produtora, as chanchadas. Estas últimas não teriam uma aceitação positiva junto aos críticos de cinema e à elite capitalista, alegando a falta de conteúdo destas produções. Seu caráter crítico só seria descoberto 25 anos mais tarde, na década de 70.

Até então, a penetração dos filmes junto ao grande público era deficitária. Mas com a chegada de Luiz Severiano Jr., dono de uma rede de distribuição e com o cargo de acionista majoritário em 1947, monta-se um esquema muito moderno para a época tendo em suas mãos a produção, a distribuição e a exibição dos filmes que tendenciavam para o mercado interno. Desta forma, os filmes comédias iniciados por Watson estariam consolidados com Severiano através da chanchada brasileira, caracterizando a própria Atlântida como a produtora de chanchadas e que conseqüentemente ao seu clímax de produções, atravessa a década de 50 produzindo chanchadas sendo que a crítica detestava estes filmes e estudiosos repugnavam-as. Durante este período a vida nacional fora sacudida por episódio políticos dramático como golpe comunista, golpe integralista, golpe de Getúlio Vargas para se tonar presidente do Brasil e golpe contra Getúlio que o derruba. Desta primeira fase da companhia existem somente alguns filmes para concretizar a sua história, pois um grande incêndio queimou a maior parte dos longas metragens.

Apesar da dedicação intensa sobre estes temas, de 1950 a 1952 a Atlântida acaba tachada pela produção das comédias musicais como Luz dos Meus Olhos, A Sombra da Outra, Aviso aos Navegantes, Aí vem o Barão e até mesmo, rompendo com as chanchadas foi canalizado o filme dramático, Amei um Bicheiro, tendo Grande Otelo no Elenco. Este último marca o principio de uma nova fase da produtora. Em 1953, Carlos Manga é promovido a diretor e conhecendo muito bem o esquema da produtora, assume a direção de filmes identificados com o cinema norte-americano.

Até 1954 são produzidos vários filmes durante um único ano. Mas entre 1955 e 1959, as produções caem devido à falta de recursos. Neste tempo, Oscarito já não trabalha com Grande Otelo e Carlos Manga ainda é o principal diretor da produtora. Em 1962 é produzido seu último filme, Os Apavorados. A produtora encerra suas atividades com a produção de 66 filmes, sendo marcada pela II Guerra Mundial e pelo Golpe Militar de 64. De 1941 a 1962, a Atlântida deteve os principais atores da época e durante seus primeiros 8 anos de vida, foi a principal produtora de filmes, dada a inexistência de outras no mercado nacional.

Doze anos depois, Carlos Manga realiza Assim era a Atlântida, sendo uma coletânea de trechos dos principais filmes produzidos, fechando de vez o ciclo de suas produções.

1.2 – São Paulo e a Vera Cruz

A mais ambiciosa investida industrial do cinema brasileiro nesta época foi à criação liderada pelos industriais da colônia italiana Franco Zampari e Francisco Matarazzo Sobrinho. Os grandes empresários, cansados da realidade carioca em predominar as chanchadas em suas produções, ambicionaram a criação de uma Hollywood brasileira na tentativa de trazer para o Brasil filmes que possuíssem conteúdo.

Em 03/11/1949 é fundada então a Companhia Vera Cruz, renegando a chanchada e valorizando as enormes e muito bem faturadas produções que necessitavam de bastante dinheiro para serem realizadas. Seus idealistas acreditavam que a necessidade de uma grande produtora brasileira era associada com gastos enormes, desde a contratação de estrangeiros para a técnica – foram chamados italianos e ingleses para esta função -, e sua direção – Alberto Cavalcanti, um patrício que se ilustrara no cinema francês e inglês.

Estimulados pelo reerguimento do cinema internacional, após a II Guerra Mundial e com o crescimento industrial em São Paulo e sua revitalização cultural, os fundadores da Vera Cruz almejavam um sistema de produção semelhante ao de Hollywood, com equipamentos importados e grande esquema publicitário. O seu bom acabamento e a fatura clássica dos filmes desta produtora, trouxeram para o Brasil os primeiros grandes prêmios internacionais. O cangaceiro, em 1953, de Lima Barreto, trouxe o prêmio de cinema internacional de aventura no Festival de Cannes, e Sinhá Moça, em 1953, de Tom Payne, trouxe o Leão de Bronze de Veneza.

A idéia de se construir uma Cia Cinematográfica com os moldes da Vera Cruz partiu sobre tudo da burguesia e da intelectualidade dos paulistas. Os clubes de cinema e as revistas que tratavam do assunto despertaram o interesse de Ciccilo Matarazzo, Franco Zampari e todo um grupo de pessoas que haviam participado da criação do Museu de Arte Moderna e do Teatro Brasileiro de Comédia, os quais discutiam animadamente sobre a organização de uma companhia produtora de filmes.

A primeira fase da Vera Cruz que conta com a direção de Alberto Cavalcanti teve como principais produções, Caiçara e Painel que com seu grande sucesso inspiraram os projetos que estariam por vir. Esta fase também levou a Companhia a fazer seu primeiro balanço e constatar que com os custos elevadíssimos das produções Tico-Tico no Fubá, Sai da Frente e Ângela, seria necessário um empréstimo, solicitado ao Banco do Estado e demonstrando a falta de administração e planejamento do capital aplicado em seu início de atividade.

Embora suas produções fizessem um grande sucesso junto ao público e a crítica especializada, a Companhia Vera Cruz sempre trabalhou com recursos financeiros escassos. Outra dificuldade era a lentidão da comercialização dos filmes e o desinteresse das distribuidoras norte-americanas, ou melhor a Columbia Tristar em patrocinar a produção nacional.

Esta companhia vislumbrava a possibilidade de um cinema verdadeiro distanciado da indigência em que se havia transformado o cinema brasileiro visto do Rio de Janeiro, mais precisamente, produzido pela Atlântida. A Vera Cruz ambicionava realizar filmes de classe e em muito maior número, tornando-se uma verdadeira produtora da expressão cultural. Porém, mesmo com passagem de grandes técnicos e diretores por sua história, assim como grandes artistas como o Mazzaropi, a Vera Cruz não conseguiu completar seu objetivo. Até que alguns de seus filmes, sendo sucesso nacional e internacional cumpriram em parte aquilo que a mesma almejava, mas de qualquer forma, não fora uma passagem marcada pelas produções em alto escala e com grande conteúdo, mas sim, pela ambição de seus maiores acionistas acreditando que a união de grandes “entendidos” do cinema transformariam São Bernardo do Campo-SP, onde se instalava a produtora, em um pólo da indústria do cinema.

Os noticiários dos jornais da época, 1953, começavam a denunciar os problemas de produção e comercialização que a própria companhia enfrentava. Ou seja, empréstimos bancários, altos custos, desorganização da produção, dificuldade de colocação dos filmes no mercado exterior foram alguns ápices que levaram a companhia a se desestabilizar e culminar em sua paralisação de atividades.

Mesmo ignorando o que o mercado afirmava com sua “assessoria” informando que a empresa caminhava de “vento em popa”, com um brilhante futuro, cumprindo um período certo de 4 anos, a Companhia Vera Cruz, surpreendeu a todos encerrando suas atividades em novembro de 1953, acabando com o sonho de um empreendimento de padrão internacional dar certo em um terreno nacional. De certa forma e sutil expressão, a presença de técnicos internacionais proporcionou a melhoria técnica na fotografia cinematográfica, na montagem, na cenografia, no som e em outros processos de concretização das produções.

A quem diga que seu desabamento foi provocado pela falta de administração, outros afirmam que a ambição de seguir padrões internacionais (Hollywood), levou a Cia a ter caráter artificial ao tratar da realidade brasileira, conduzindo um cinema que não era para os brasileiros.

Com certeza a Vera Cruz foi um grande marco na história das produtoras de cinema brasileiro. Seja pela idealização, pelo objetivo, pelas produções, a produtora trouxe uma nova característica ao mercado de cinema nacional e que proporcionou o surgimento de outras produtoras. A Vera Cruz teve 18 filmes produzidos, entre melodramas (Caiçara-1950, Floradas na Serra-1954), comédias (Nadando em dinheiro-1952 com Mazzaropi, Uma pulga na balança- 1953) e a super produção (Tico-Tico no Fubá-1952 que fora a biografia do compositor Zequinha de Abreu) trouxeram ao Brasil, não só os padrões internacionais de produção,mas prêmios de reconhecimento sobre a produção cinematográfica brasileira.

1.2.1 – Maristela e sua Nova Visão

Os ares cinematográficos no Brasil estavam indo de vento em popa no início da década de 1950. Existiam produtoras nas duas principais cidades brasileiras; a Atlântida no Rio de Janeiro em seu cume de atividades e a Vera Cruz em São Paulo, o enorme projeto burguês que iniciava suas produções. Mas apesar da existência destas produtoras, outros caminhos paralelos foram almejados por novos empresários e de forma processual, nova produtoras foram surgindo, aumentando o conglomerado de produções cinematográficas.

A mais importante em São Paulo logicamente atrás da Vera Cruz fora a Maristela, uma produtora que procurou seguir um caminho paralelo ao da “grandiosa empreitada” em relação à sua temática direcionada para o neo-realismo, mas que teve o diretor Alberto Cavalcanti como atuante e um elenco estrangeiro na técnica, copiando os traços da grandiosa.

Sem cerimônias a Maristela iniciou suas atividades em 1950. Sua idéia inicial veio de Mário Audrá Jr., pertencente a uma rica família da sociedade paulista com o intuito de produzir no Brasil, um cinema de boa qualidade, porém com simplicidade a exemplo do cinema neo-realista, dando-se prioridade às filmagens em ambientes naturais, com a mínima utilização de estúdios e evitando-se a criação de grandes parques industriais. O mesmo unido a Ruggero Jacobbi iniciou a Maristela no mercado produzindo espetáculos teatrais, enquanto que sua 1ª produção estaria sendo projetada para mais tarde. Seria Presença de Anita, uma adaptação do livro de Mário Donato.

A Maristela possui três fases. A 1ª marcada pela reunião de idéias neo-realistas de seu fundador e pela reunião de capital para a produção dos filmes, tendo como acionistas, além de Mário e Ruggero, Carlos Alberto Porto e Mário Civelli. O rumo tomado pela companhia, nesta fase fora se desvirtuando de seu ideal. Civelli queria seguir os passos da santuosidade da Vera Cruz, o que levaria a Maristela para o insucesso. Seu objetivo era que a produtora obtivesse uma projeção social rápida. Assim, foram construídos modernos estúdios no bairro paulista do Jaçanã, com 40 mil metros quadrados e a contratação de um quadro fixo de 150 funcionários. A modesta companhia fora transformada na Cinematográfica Maristela, que virou ponto de encontro da sociedade, passando entre artistas Antonieta Morineau, Hélio Souto, Orlando Villar, Vera Nunes e Procópio Ferreira, além da internacional Silvana Mangano.

Mario Audrá havia perdido as rédeas de seu próprio empreendimento, recuperando as mesmas somente depois do fracasso destas idealizações, pois os 5 filmes que foram produzidos, não obtiveram um retorno compensador levando a demissão de centenas de funcionários. Recolocando os pés na administração, e deixando de lado as influências como a de Civelli. Iniciava então a 2ª fase que fora mais simples mas que carregava o déficit da primeira. Fora produzido somente um filme, Simão, o Caolho de Alberto Cavalcanti que largara a Vera Cruz e viera para a Maristela. Mas a família Audrá resolvera vender a Maristela já que vinha alugando seus estúdios na tentativa de pagar as dívidas. Vendera para a Kino filmes, companhia de Alberto Cavalcanti que estava nascendo, mas a mesma não consegui pagar as dívidas e teve que devolver os equipamentos e estúdios para Mário Audrá.

Esse retorno marcou o início da 3ª fase da companhia. Em 1954, Mário Audrá conseguiu finalmente administrar a Companhia sem interferência familiar ou de terceiros. Entre 1954 e 1956, a Maristela produziu 7 filmes, entre eles Mão Sangrenta, Quem Matou Anabela, Getúlio Glória e Drama de um povo. Construindo uma aliança junto à distribuidora Columbia, a distribuição dos filmes foi positiva e o entendimento da produtora com a distribuidora resultou nas co-produções Casei-me com Xavante e Vou te Contá.

Mas as dívidas ainda eram existentes e na tentativa de continuar produzindo e pagando as contas, os equipamentos foram sendo alugados. Mário Audrá teve seu último trabalho participando da produção do filme O grande Momento.

A Maristela fora uma produtora que percorreu um caminho turbulento mas extenso junto aos acontecimentos do cinema no Brasil. O seu início teve ideal neo-realista italiano e seu final também. O prejuízo desta companhia fora bem menos que o da Vera Cruz, já que Audrá vendeu os valorizados terrenos no Jaçanã e aproveitou os equipamentos de som para montar uma empresa de dublagem.

De qualquer forma, a companhia marcou sua existência e produziu filmes com uma nova corrente de pensamento, sem deslumbre, dinheiro. Apenas com o intuito de produzir filmes simples para a sociedade brasileira.

1.3 – PAM – Produções Amácio Mazzaropi

Cansado de trabalhar como contratado, Mazzaropi idealizava uma produtora só sua em que seria empregado um gênero cinematográfico que agradaria não uma parcela da sociedade, mas a massa em si. Depois de atuar durante 5 anos entre produtoras como a Vera Cruz, a Cineditri e a Cine Filmes, em 1958, após a venda de bens, e de muita energia para reunir um capital empreendedor, Amácio Mazzaropi a sua produtora, PAM-Produções Amácio Mazzaropi. Era a realização de um sonho tanto de ter a possibilidade de impor nssuas próprias idéias nos filmes, como de deixar de ser empregado. Em seus filmes, atuando, direcionando e produzindo, o “jeca” não se importava em distribuí-los também. O que era mais caro, ou seja, a reprodução das películas Mazzaropi fazia com a maior animação e tudo isso pelo Cinema.

A PAM foi um empreendimento marcado pela simplicidade, pela honestidade e pelo paradigma de seu fundador que era fazer cinema para os brasileiros. Sua trajetória marcada pela falta de recursos para grandes produções e por conter um elenco sempre igual com locações sempre na mesma região fizeram com que a produtora tivesse um conteúdo original. Mazzaropi anos depois da criação da PAM deixou de ter os estúdios da Vera Cruz como locação de seus filmes, pois teria como empréstimo uma Fazenda em Taubaté que mais tarde passaria a ser sua propriedade sendo o lugar a desenvolver todos os filmes posteriores. Fazendo um filme por ano, a produtora os lançava todo 25 de janeiro no cine Art- Palácio, onde o dono era amigo de Mazzaropi e o apoiara no início das atividades da PAM.

Não existe possibilidade de falar sobre a PAM sem falar em seu produtor, pois uma só existiu enquanto o outro fora vivo. Com o intuito de produzir, dirigir e distribuir seus filmes dentro dos seus parâmetros, Mazzaropi tem o primeiro filme formado em 1958, Chofer de Praça, no qual empregou todas as suas economias. Sem dinheiro para a distribuição, o mesmo teve que sair pelo interior de São Paulo para arrecadar dinheiro e poder fazer cópias do filme que obteve muito sucesso.

Quase todos os seus filmes tinha como “pano de fundo” uma fazenda em Taubaté, primeiro sendo emprestada e posteriormente pertencendo à produtora, onde monta seus estúdios. É é neste lugar que a PAM irá atravessar seu período mais fértil, com a produção de seus melhores filmes, como Tristeza do Jeca – 1961 e Meu Japão Brasileiro – 1964. Mazzaropi passará a ser ícone para o Cinema Brasileiro bem como a sua produtora. O primeiro pela força de vontade, carisma e coragem de passar por cima de críticos que o “detonavam” toda vez que era lançado mais um filme. A segunda por provar que cinema não precisa de muitos recursos para ser feito, não é a quantidade que prova a qualidade, pois a PAM superou grandes empreendimentos em termos capitais como Vera Cruz, Atlântida pois produziu muito mais filmes e com muito mais telespectadores e que até hoje perduram pelas Tv´s no Brasil.

No início dos anos 70, novos estúdios são adquiridos que seriam palco das 23 produções que a PAM produz por completo, pois sua 24ª , Jeca e Maria Tromba Homem iniciou suas montagens, mas Amácio Mazzaropi morreu em seu início, em 13 de junho de 1981, vítima de câncer de medula. Com o tipo “Jeca”, a produtora leva até os brasileiros o jeito simples de fazer cinema. A maior parte de seus filmes teve um caipira de fala arrastada, tímido mas cheio de malícia.

A PAM fora respeitada e é respeitada até hoje devido ao seu produtor. Homem respeitado, desconfiado sendo um grande empresário e comediante, Mazzaropi conduziu a produtora a ser destaque no cinema brasileiro e a ter penetrado sua história até os dias de hoje. Com originalidade e sem grandes recursos financeiros é a produtora que venceu em termos de produções todas as companhias cinematográficas antes dela, existentes.

A PAM foi uma produtora de grande sucesso de crítica e de distribuição, alcançado todos os “brasileiros de plantão” ligados no cinema feitos para brasileiros. Seu término só aconteceu devido à morte de seu idealizador. Os herdeiros de Mazzaropi não deram continuidade ao seu trabalho, vendendo a “fazenda-estúdio” para empresários e trantando somente da revenda dos direitos cinematográficos dos filmes. Deve-se ressaltar que com certeza a PAM estaria ainda em atividade se o mesmo estivesse vivo, pois suas obras foram e são copiadas, mas nunca foram superadas por nenhuma companhia cinematográfica.

3 – Conclusão

Qual foi o problema de nossas produtoras que não conseguiram perdurar por mais de 20 anos? Uns possuíam grandes técnicos e aficionados por cinema; outra detinha os temas do Brasil de carnaval; outra tinha dinheiro mas não soube administrá-lo; uma outra surgiu com um pensamento novo e com um intuito de fazer um cinema atual; mas somente a que não tinha dinheiro, nem técnico especializados e muito menos uma temática nova, frente ao mercado externo pode contabilizar quase 24 produções em seu currículo, colocando no mercado um número várias vezes acima do que produtoras endinheiradas e fortes para a sua época alcançaram.

Realmente, a história das produtoras do cinema brasileiro é marcada pelo contraste, pois enquanto umas possuíam muito, outras não possuíam nada. Isso pode ser decorrente de seus acionistas. A produção de cinema é muito onerosa e remete a uma união de pessoas com um grande capital a investir. O problema acontece é que quando este capital é reunido, a falta de administração e a ansiedade por grandes produções e o sucesso da companhia cinematográfica impede que um grande cinema surja e que uma película seja vista e entendida por vários receptores.

Tendo em vista um mercado grandioso na década de 40, já que não existiam centros de produções e os cinemas eram dispersos, o investimento poderia ter sido contabilizado de uma maneira racional e menos social. O que se queria era produzir além de uma indústria cinematográfica, uma sociedade cinematográfica. O que importava não era a cultura aplicada nas produções, mas a repercussão que estas dariam às suas produtoras em termos de capital.

O problema principal de produtoras como Atlântida, Vera Cruz e Maristela não conseguirem atravessar décadas deve ter sido a falta de adaptabilidade ao que a Cultura Brasileira necessitava e ao que cativava os indivíduos brasileiros. Fora uma indústria concentrada na ambição do mercado exterior esquecendo do mercado interno, introduzindo entre os receptores de película um cinema mastigado, crítico e principalmente entediante para a massa. Somente alguns conseguiam entender as mensagens passadas e estes eram os críticos de cinema. Quem teve a coragem de se lembrar do mercado interno foi a PAM que pode capitalizar um grande emaranhado de receptores, já que produzia filmes para eles mesmos sem qualquer tipo de linguagem e signos dificeis do entendimento. Pode-se descrever a PAM como a comoanhia cinematográfica do povo que fazia filmes para estes e alcançava o entendimento de todos. Essa ideologia levou a única produtora brasileira a produzir na época quase 24 filmes. Esta última produziu filmes para o Brasil, sem se importar com os rendimentos, mas principalmente com o entendimento das histórias contidas neles. Logicamente que a necessidade de capital para as produções e investimentos em equipamentos e atores era real, porém era levada como uma conseqüência. Pode ser esta a razão que levou a PAM a vencer o mercado e só deixar de produzir devido à morte de seu maior acionista. As outras produtoras esqueceram de pensar no que os brasileiros queriam ver, e foram superada por uma simples idéia de levar para o Brasil, o Brasil através das telas.

A crítica cinematográfica da época não aceitava os filmes da PAM e durante sua existência, nos jornais, os artigos impressos eram de negação a este tipo de cinema. Mazzaropi como produtor e diretor não se importava, tinha em mente que posteriormente os filmes seriam aceitos pelos críticos e que a qualidade deles seria reconhecida. E foi isso realmente que aconteceu. Grandes críticos como Paulo Emílio puderam afirmar que Mazzaropi soube ser diretor, ator, produtor e distribuidor como ninguém e que foi um marco no cinema por ter feito tudo isso sem qualquer tipo de apoio do Instituto de Apoio ao Cinema.

Hoje, o cinema brasileiro possui outra linguagem. Ele é critico, possui mensagens que necessitam de conhecimento para serem entendidas. Mas hoje a população está um pouco modificada e os críticos também. Pode ser que se hoje, os filmes que eram produzidos pela Vera Cruz, pela Maristela não seriam repugnados como foram. Pode ser que estas produtoras teriam um pouco mais de sucesso do que tiveram durante suas existencias entre as décadas de 50 e 60. Mas podemos afirmar que a PAM não precisou perdurar até hoje para continuar a existir. Com certeza, quando se fala em história do cinema brasileiro, depois dos clássicos, dos empreendimentos desastrosos, vem em mente a fantástica história da PAM.

A conclusão que se chega aqui não é devido ao roteiro documental desenvolvido sobre a vida de Mazzaropi. Com certeza, a vida dele inflênciou na definição do tema de pesquisa, mas não foi predominante para se entender que os filmes da PAM atravessaram obstáculos que os filmes das outras produtoras não conseguiram, a aprovação do público. A pesquisa foi totalmente inerente ao que se queria provar. Como o documentário, a pesquisa foi imparcial, mas os dados por si mesmos provaram a positividade da produtora de Mazzaropi.

A pesquisa não teve sérias dificuldades em encontrar dados sobre as companhias como Atlântida, Vera Cruz e Maristela, mas em relação a PAM, o trabalho foi triplicado. Não existem informações sobre a produtora e quando existem elas sempre estão ligadas a Mazzaropi. Por isso fora afirmado na própria pesquisa sobre a ineficácia de se falar em Produções Amácio Mazzaropi sem falar do cidadão Amácio Mazzaropi. Foi negativamente aceito a falta de informações sobre a PAM. Em busca de tantos críticos e autores renomados no mercado sobre cinema nacional, o que pode ser encontrado é o que temos declarado na pesquisa e essa limitação é contraditória ao que a própria produtora representou para a história do cinema nacional.

De acordo com as definições de tantos entendidos do cinema aqui pesquisados como Jean-Claude Bernadet, Paulo Emílio e Fernão Ramos, o que se entende por indústria cinematográfica são as produtoras existentes a introduzir no mercado filmes a serem exibidos. E o Brasil vive a tentar implantar uma indústria cinematográfica. Desde de 1995, as produções sofreram reformulações positivas quanto à qualidade das películas. Hoje, 2002, temos filmes brasileiros nas redes nacionais de cinemas. Mas são totalmente diferentes da ideologia passadas pelas companhias cinematográficas aqui pesquisadas.

Pode-se afirmar que naquela época, o Brasil, ou melhor a elite brasileira concentrada nos pólos industriais, São Paulo e Rio de Janeiro, desejavam um cinema nacional equiparado com a indústria hollywodiana e mesmo tentando implantar este sistema, sofreu a repugnância do público apesar de ser elogiado pelos críticos. E estes mesmos críticos hoje, elogiam a única produtora que não quis ser modelo ou ser fruto de um paradigma internacional.

Assim como todos os campos de atuação profissional, intelectual, científico sofrem transformações, as opiniões sobre estes campos também se transformam. Hoje fora concluído uma pesquisa sobre as principais produtoras cinematográficas durante as décadas de 40, 50, 60 e 70. E nesta mesma pesquisa chegou-se a conclusão de que qualidade de cinema está indiretamente proporcional à quantidade de dinheiro aplicado. O que prevalece é a idéia. De qualquer forma, esta conclusão pode sofrer mutações daqui dois meses, dois anos, duas décadas e pode ser até conflitante com as conclusões a surgirem.

Mas por hoje, podemos concluir que em termos de luta pelo cinema nacional, pela sua implantação e divulgação, assim como pelo seu entendimento o destaque fica para as Produções Amacio Mazzaropi. Pela época, Mazzaropi não só tentou, mas conseguiu implantar uma indústria cinematográfica. Ele por si só colocou em atuação 23 filmes por completo em quase 24 anos de existência. É exemplo a ser seguido por quem hoje exerce o trabalho produzir filmes.

Biografia de Walter Salles Jr.

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Autoria: Ricardo de França

Biografia de Walter Salles Jr.

Filho do falecido embaixador e banqueiro Moreira Salles e Elizinha Moreira Salles, irmão do também cineasta João Moreira Salles, Walter Moreira Salles Jr. nasceu no dia 12 de abril de 1956 no Rio de Janeiro. Morou em Washington dos 3 aos 6 anos de idade, estudou na França até os 13, voltou ao Brasil para graduar-se em economia na PUC-RJ e novamente retornou aos Estados Unidos para fazer mestrado em comunicação audiovisual na Universidade da Califórnia. Atualmente, ele é o maior e melhor diretor do cinema brasileiro em atividade.

Herdeiro de um grupo de empresas lideradas pelo Unibanco, em parceria com seu irmão e outro sócio, fundou em 1985 a produtora Vídeo Filmes, no qual contabiliza em seu currículo uma dezena de produções entre curtas, longas e documentários sob sua direção, incluindo uma overdose de prêmios arrecadados por suas obras, sem falar em sua carreira na publicidade, na qual realizou mais de 250 filmes.

O cineasta fluminense, partir de 1983, passa a produzir para a televisão. Dirigiu a série de entrevistas “Conexão Internacional” apresentado por Roberto D’Ávila, produziu documentários (em 1985 fez o “Krajcberg – O Poeta dos Vestígios”) e programas musicais sobre cantores e compositores da MPB, entre eles Chico Buarque, Marisa Monte, Caetano Veloso e Antônio Carlos Jobim. No ano de 1986, realizou um documentário de cinco horas de duração, “Japão, Uma Viagem no Tempo”, sobre o conflito entre a modernidade e a tradição no Japão, com participação de Akira Kurosawa, Riuychi Sakamoto, Isozaki Arata, Yoji Yamamoto e Issey Miyake.

Tentou fazer seu primeiro longa em vídeo, estrelado por Edson Cellulari, mas, insatisfeito, arquivou o resultado. Em 1991, freqüentemente trabalhando com Daniela Thomas na co-direção e Walter Carvalho na fotografia de seus filmes, ele lança seu primeiro longa-metragem, que acabou sendo uma produção americana falada em inglês, “A Grande Arte”, baseado no romance de Rubem Fonseca. No ano de 1994 cria um dos curtas mais premiados no Brasil, “Veja esta Canção”, logo em seguida, em 1995, fez o documentário “Socorro Nobre” (que serviu de inspiração para “Central do Brasil”) e dirige também, o elogiado, e preto-e-branco, “Terra Estrangeira” co-realizado com Daniela Thomas e premiado no Brasil, França, Itália, Bélgica, Macedônia, Estados Unidos e Uruguai.

Depois de três anos longe das câmeras, Salles voltaria para fazer história no mundo e no Brasil, dando o pontapé inicial para o processo de evolução do cinema brasileiro com o premiadíssimo “Central do Brasil” em 1998, a produção brasileira mais premiada no exterior estrelada por Fernanda Montenegro e pelo menino Vinicius de Oliveira (que ele encontrou como engraxate no Aeroporto do Rio e que é muito expressivo e natural). Exibido em 22 países, a produção brazuca conquista o Urso de Ouro de Melhor Filme e o Urso de Prata de Melhor Atriz (Montenegro) no Festival de Berlim, o maior prêmio internacional para o Brasil desde “O Pagador de Promessas”, em 1962. Acumulou mais de 50 prêmios internacionais incluindo o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e indicações ao Oscar na categoria Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz.

Em 1999, lança o filme “O Primeiro Dia”, em duas versões, como média-metragem para TV e como longa para os cinemas, e o curta-metragem “Adão ou Somos todos filhos da terra”. Em 2001, lança “Abril Despedaçado”, produção que confirma seu amadurecimento como diretor com belíssimas imagens do Brasil nordeste, indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Em 2002, dirige “A Saga de Castanha e Caju contra o Encouraçado Titanic”, e é chamado para participar do júri do Festival de Cannes.

Recentemente, produziu “Madame Satã” (2002), do estreante Karim Ainouz, e “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles. Em 2003, outro passo importantíssimo em sua carreira foi dado. Ele filma “Diários de Motocicleta”, seu primeiro filme dirigido cuja língua predominante não é a portuguesa, com belas locações na Argentina, no Chile e no Peru, onde reconstituí as viagens do jovem Ernesto Guevara, antes de se tornar o revolucionário Che. Com esta realização, Salles entrou na lista dos 40 melhores diretores do mundo elaborada pelos críticos do jornal inglês The Guardian. “Diários de Motocicleta” foi considerado a mais importante produção latino-americana e merecidamente elogiado pela família do líder revolucionário argentino Ernesto “Che” Guevara após o Festival de Cinema de Sundance, nos Estados Unidos em 2004.

Ainda em 2004, Walter Salles finaliza um projeto, aparentemente, dissonante em relação ao restante de sua obra: o remake de um terror japonês: “Dark Water”. Rodado no Canadá, o longa novamente, tem elenco internacional: Jennifer Connelly, John C. Reilly e Tim Roth. No ano de 2005, está cotado, juntamente com outros diretores famosos, para o projeto “Paris, Je T’Aime”, um filme que expõe mensagens honrosas à França.

A cada novo título, há um aprimoramento da linguagem e da cristalização de uma temática que tem origem na admiração pelo mestre italiano Michelangelo Antonioni: a busca da identidade no cinema. Salles é uma pessoa que não teme desafios e tenta trazer sempre com humildade, um olhar humanista em suas produções. Com este talento, não é à-toa que Walter Salles Jr. é o cineasta brasileiro de maior sucesso de sua geração e promete ser apenas o começo de uma bem-sucedida carreira internacional.

Filmografia:

1985 – KRAJCBERG – O POETA DOS VESTÍGIOS: Documentário sobre o artista polonês, naturalizado brasileiro, Frans Krajcberg.

1986 – JAPÃO, UMA VIAJEM NO TEMPO: Documentário que analisa conflitos entre a modernidade e a tradição do Japão antigo. Com Akira Kurosawa, Riuychi Sakamoto, Isozaki Arata, Yoji Yamamoto e Issey Miyake. 300 minutos.

1991 – A GRANDE ARTE: Adaptação do romance homônimo de Rubem Fonseca. Fotógrafo americano (no livro, ele é brasileiro) vem ao País a trabalho e acaba mergulhando no submundo carioca, onde se vê envolvido numa série de misteriosos atentados: uma amiga prostituta é assassinada, a namorada dele e estuprada e ele próprio é esfaqueado. Atormentado, resolve partir para a vingança. Com Peter Coyote, Tchéky Karyo, Giulia Gam, Tonico Pereira, Raul Cortez e Amanda Pays. 104 minutos.

1995 – TERRA ESTRANGEIRA: O plano econômico do governo Collor projeta o Brasil e a vida de Paco, estudante paulista no caos. Com a morte da mãe e o fim do sonho de se tornar ator, o rapaz decide deixar o País. Para isso, aceita levar um objeto contrabandeado para Lisboa. Lá, conhece Alex, que namora o trambiqueiro Miguel. Com Fernando Alves Pinto, Fernanda Torres, Alexandre Borges, Laura Cardoso e Tchéky Karyo. 100 minutos.

1995 – SOCORRO NOBRE: Narra a estória de uma presidiária que, comovida com a descoberta da obra de Frans Kracjberg, um escultor que transforma a madeira queimada em obra de arte, resolve lhe escrever cartas da prisão. Socorro Nobre é um relato humano e emocionado, um filme sobre a possibilidade das pessoas rescreverem suas vidas e se outorgarem uma segunda chance. 23 minutos.

1998 – CENTRAL DO BRASIL: Mulher que escreve cartas para analfabetos na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro, ajuda menino, após sua mãe ser atropelada, a tentar encontrar o pai que nunca conheceu, no interior do Nordeste. Com Fernanda Montenegro, Vinícius de Oliveira, Marília Pêra, Soya Lira e Matheus Nachtergaele. 112 minutos.

1999 – O PRIMEIRO DIA: Rio de Janeiro, 31 de dezembro de 1999. João foge da prisão no mesmo momento em que Maria, abandonada pelo namorado, vaga pelas ruas da cidade. O encontro dos dois na virada do ano é envolto na utopia de um recomeço para ambos. O filme foi produzido a convite de uma televisão francesa, que com a série ”2000 visto por…” queria mostrar a visão de dez países sobre a virada do milênio. Com Fernanda Torres, Luiz Carlos Vasconcelos, Matheus Nachtergaele, Nélson Sargento e Tonico Pereira. 76 minutos.

1999 – ADÃO OU SOMOS TODOS FILHOS DA TERRA: Salles quando foi filmar no morro carioca do Cantagalo encontrou por acaso um compositor profícuo e inédito, que o impressionou com seu enorme talento em estado bruto. Desse encontro nasceria este curta, um tocante retrato de um brasileiro preto, pobre e preso a uma cadeira de rodas após sobreviver aos 12 tiros com que a bandidagem carioca o presenteou. Artista que mistura autodidatismo com intuitividade, Adão Dãxalerabadã é autor de mais de 500 composições, com temas que vão desde o orgulho negro até questões ecológicas e sociais. É evidente seu talento em vários níveis poéticos e lingüísticos. Com Adão Dãxalerabadã.

2002 – ABRIL DESPEDAÇADO: Em abril de 1910, na geografia desértica do sertão brasileiro vivem Tonho e sua família. O rapaz vive atormentado pela perspectiva da morte, pois é impelido por seu pai a vingar a morte de seu irmão mais velho, assassinado por um clã rival. Mas Tonho sabe que, uma vez consumada a vingança, passará a ser o alvo dos rivais. Com Rodrigo Santoro, José Dumont, Ravi Ramos Lacerda, Rita Assemany e Flávia Marco Antônio. 105 minutos.

2002 – A SAGA DE CASTANHA E CAJU CONTRA O ENCOURAÇADO TITANIC: Estrelado pela dupla de emboladores pernambucanos Caju e Castanha, o curta-metragem fala de globalização e mostra os dois cantando em vários pontos turísticos do Rio de Janeiro.

2004 – DIÁRIOS DE MOTOCICLETA: Em 1952, dois jovens argentinos, Alberto Granado e Ernesto Guevara, decidem se aventurar numa viagem de motocicleta por um continente praticamente desconhecido: a América Latina. A travessia vai mudar, definitivamente, o rumo de suas vidas. Com Gael Garcia Bernal, Rodrigo de La Serna e Mía Maestro. 130 minutos.

2004 – DARK WATER: Suspense baseado no livro homônimo de Kôji Suzuki, mesmo autor de O Chamado. Uma mãe que briga na Justiça pela custódia da filha muda-se para um velho apartamento abandonado. Lá, elas são assombradas pelo fantasma de uma outra garota, antiga moradora do local. Com Jennifer Connelly, Ariel Gade, Shelley Duvall, Perla Haney-Jardine, Camryn Manheim, Pete Postlethwaite, John C. Reilly e Tim Roth. Lançamento nos cinemas: 26/11/04

2005 – PARIS, JE T’AIME: Um filme que será feito por cineastas de diversas nacionalidades, declarando o seu amor à França e ao cinema francês. Entre os diretores estão Fanny Ardant, Tim Roth, Alejandro González Iñárritu, Johnny Deep e os brasileiros Walter Salles e Daniela Thomas. Lançamento 2005 nos cinemas.

Prêmios conquistados pelo diretor ao longo de sua carreira:

Ganhou o Urso de Ouro, no Festival de Berlim, por Central do Brasil (1998).
Ganhou o Prêmio do Júri Ecumênico, no Festival de Berlim, por Central do Brasil (1998).
Ganhou o BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro, por Central do Brasil (1998).
Ganhou o Grande Prêmio Cinema Brasil de Melhor Direção, por O Primeiro Dia (1998).
Ganhou o Grande Prêmio Cinema Brasil de Melhor Roteiro, por O Primeiro Dia (1998).
Recebeu indicação ao Grande Prêmio Cinema Brasil de Melhor Lançamento de Cinema, por O Primeiro Dia (1998).
Recebeu indicação ao Prêmio Independent Spirit de Melhor Filme Estrangeiro, por Central do Brasil (1998).
Recebeu indicação ao César de Melhor Filme Estrangeiro, por Central do Brasil (1998).
Ganhou o Prêmio Golden Satellite de Melhor Filme Estrangeiro, por Central do Brasil (1998).
Ganhou em 1998, no Festival de Havana, o Prêmio da Universidade de Havana, o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio Gláuber Rocha de Menção Especial, por Central do Brasil (1998).
Ganhou em 1998, no Festival de San Sebastián, o Prêmio do Público e o Prêmio do Júri Jovem por Central do Brasil (1998).
Ganhou o Prêmio Ariel de Prata de Melhor Filme Latino-Americano, no México Academy Awards, por O Primeiro Dia (1998).
Ganhou o FIPA de Ouro de Melhor Documentário do ano, França 1996 por Socorro Nobre.
Ganhou o Prêmio Rosa Camuna de Ouro, no Encontro de Filmes de Bergamo, por Terra Estrangeira (1995).
Ganhou o Prêmio de Melhor Documentário de Pesquisa e Prêmio do Público no Festival Del Popoli (Florênça, Itália) e Menção Honrosa do Juri no Festival de Montbéliard, na França, por Krajcberg – O Poeta dos Vestígios.

O filme do momento:

CHE GUEVARA E SUA DIVERTIDA JORNADA PELA AMÉRICA DO SUL.

DIÁRIOS DE MOTOCICLETA

(The Motorcycle Diaries/ARG/BRA/CHI/ING/PER/2004) * * * * 24/05/04

Quando falamos em Che Guevara sempre lembramos de suas idéias políticas e da Revolução Cubana. No entanto é comum ver sua imagem em torcidas de futebol, bandas de rock e em comunistas. Pois é, quem acha que o novo filme de Walter Salles aborda essas tais concepções está completamente enganado. “Diários de Motocicleta” é um “road movie” que conta a agradável e divertida aventura de Ernesto Guevara e seu amigo Alberto Granado que, juntos, andaram por mais de 10 mil quilômetros na América do Sul nos anos 50.

Em 1952, o futuro líder Che Guevara (Gael García Bernal) era um jovem estudante de Medicina. Ele e seu amigo Granado (Rodrigo de la Serna) viajam pela América do Sul em uma velha moto, que acaba quebrando depois de oito meses. Mas eles seguem em frente, arranjando caronas e fazendo longas caminhadas. Depois de passar por Machu Pichu, chegam a uma colônia de leprosos na Amazônia Peruana, onde começam a questionar o valor do progresso econômico, que privilegia apenas uma parte da população, deixando muitos em situação precária. A experiência na colônia foi decisiva para o surgimento das personalidades históricas que se tornariam alguns anos depois.

O brasileiro Walter Salles (“Central do Brasil” e “Abril Despedaçado”) surpreende a cada filme que faz. Em “Diários de Motocicleta”, Salles demonstra maturidade e carisma. Preservou a beleza estética numa fotografia que exibe imagens belíssimas principalmente do Chile e Peru, uma trilha sonora amena e gostosa, e, constantemente mantém o interesse do espectador por sua direção sensível.

A história não traz debates nem reflexões políticas, exceto em dois diálogos (uma rápida conversa com Alberto em Machu Pichu e o discurso em seu aniversário). O excelente roteiro escrito por Jose Rivero, baseado no “diário de bordo” de Ernesto e Granado, evitou polêmicas e mostra a vida de Guevara antes de se tornar um revolucionário por sua ideologia. Ele é um jovem de 23 anos como qualquer outro, inteligente, sentimental e encantador, atuado com uma impressionante naturalidade e talento por Gael García Bernal (“Amores Brutos” e “E Sua Mãe Também”).

O enredo procura mostrar as situações que a dupla enfrentou ao longo da viagem. Sempre humano e com bom humor. A primeira metade é divertida (bons diálogos e os tombos da motocicleta), harmonizando personagens bacanas com a amizade contagiante dos protagonistas, principalmente de Guevara, todos os lugares que passa, torna-se adorado por sua simpatia e pelo seu jeito de ser. Já a segunda parte aborda o sentimentalismo e o trabalho humanitário das figuras principais.

Os acontecimentos ou, a história da vida das pessoas, na maioria das vezes, o final se torna mais marcante que o início. Mas aqui, o legal é que o começo é a parte mais fascinante.

É um filme para todos os gostos. Sem dúvida, o melhor de Salles e talvez, é a produção latina americana mais importante já feita. Imperdível.

PS: Che Guevara foi assassinado por soldados bolivianos treinados pela CIA em 1967.

Referências Bibliográficas:

EWALD FILHO, Rubens. Os 100 Maiores Cineastas. São Paulo: Vimarc Editora, 2001.

MORGAN, Ricardo. Crítica N.º 219 sobre o filme Diários de Motocicleta. 2004. Disponível em:

Enciclopédia Digital Abril 2004.

Acesso: 11/08/04.

Acesso: 11/08/04.

Chanchada

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Autoria: Louise

Chanchadas

Introdução

” Rio de Janeiro, anos 40 e 50.

Não era mais o Arraial da Penha que servia então de trampolim para o carnaval. Já havia, então, para esse fim, emissoras de rádio, em cujos estúdios e auditórios a folia de Momo corria solta com alguns meses de antecedência. Às telas de cinema ela também chegava – com menos antecedência, é verdade, mas pela primeira vez os rincões mais afastados do país passaram a ter acesso à imagem dos ídolos da música popular versados em sambas e marchinhas, através de filmusicais carnavalescos.

Nada de dramas atravessando o ritmo. Na passarela cinematográfica, só a alegria comandava o espetáculo. Atraindo filas e mais filas de espectadores religiosamente fiéis ao seu humor quase sempre ingênuo, às vezes malicioso e até picante, o filmusical carnavalesco impôs-se como um entretenimento de massa de singular expressividade. (…) em nenhum outro momento de sua trajetória o cinema brasileiro se relacionou tão bem e carinhosamente com o grande público como nos tempos em que Oscarito e Grande Otelo formavam uma dupla do barulho e os estúdios da Atlântida, apesar de suas notórias precariedades, eram mitificados como uma versão tropical da Metro. Seu humor mais ingênuo encantava as crianças, seu humor mais malicioso divertia os adultos, e seus interlúdios românticos e musicais fechavam o ciclo da sedução familiar”.

É assim que Sérgio Augusto introduz seu livro “O Mundo é Um Pandeiro”, no qual ele trata da época em que o cinema brasileiro foi mais assistido pelos próprios brasileiros. Época em que formavam-se filas enormes nas portas dos cinemas, cantavam-se as músicas que seriam sucesso no carnaval, prestigiava-se o cinema nacional. Época de grandes astros e estrelas, grandes diretores e muitas produções. Época em que a entrada do cinema era barato, e os filmes brasileiros ocupavam mais salas de cinema. Época em que parodiávamos filmes americanos e ríamos de nós mesmos. Época em que víamos nas telas um pouco da realidade social brasileira, sempre com muito bom humor. Época das chanchadas.

Este trabalho fala um pouco deste estilo cinematográfico que tanto agradou ao público e assumiu o papel de grande impulsionador do cinema nacional, do espetáculo de massas, da transformação de pessoas normais em astros internacionais e sustentáculo da indústria cinematográfica durante as décadas de quarenta e cinqüenta.

Por isso, Assim era a Atlântida, a Cinédia, a Brasil Vita Filmes, a Vera Cruz…

Conjuntura Brasileira

No início da década de 50, Vargas volta ao Poder, eleito, agora, pelo voto direto. Tentando despedir-se de sua vocação agrária, o Brasil começa a percorrer os caminhos da industrialização. Observa-se o crescimento das grandes cidades brasileiras em função desse estímulo à industrialização, provocado, também, pelo êxodo rural. Marcado pelo contexto do populismo, o Brasil da época teve certa abertura política, o que facilitou o sucesso das chanchadas, que também tiveram apoio nos decretos sancionados pelo governo brasileiro, exemplificando:

O primeiro decreto feito pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda – no Estado Novo), que obrigava as salas de exibição a programarem pelo menos um filme nacional por ano (1939);

Criação do Conselho Nacional de Cinema, que tinha como objetivo estabelecer normas para os produtores, importadores, distribuidores, propagandistas e exibidores de filmes cinematográficos, regulando as relações entre os mesmos, além de promover, regular e fiscalizar a produção, o aprimoramento, a circulação, a propaganda e a exibição das películas cinematográficas brasileiras em todo território nacional (1942);

A concessão de isenções de direitos e taxas aduaneiras para importação de material destinado à indústria cinematográfica; lei aprovada no Congresso por pressão do nascente Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica (1949);

A obrigatoriedade de uma proporção mínima de um filme nacional para cada oito estrangeiros para a programação das salas de exibição (1951).

Grandes personalidades do cenário político nacional foram por muitas vezes imitados e até criticados. Como bom exemplo podemos citar a famosa imitação feita por Oscarito de um discurso de Getúlio Vargas, no filme “Nem Sansão nem Dalila” (de Carlos Manga), o qual satiriza as manobras para um golpe populista e as tentativas de neutralizá-lo.

“Considerado pela crítica como o mais inteligente dos roteiros já escritos para uma chanchaada, o filme além de ser uma paródiia bem estruturada ao épico de Cecil B. Dde Mille “SANSÃO E DALILA” revela-se também uma sátira à condição do nosso cinema e do país. Realizado em 1953, durante o governo de Getúlio Vargas, “NEM SANSÃO NEM DALILA” é uma grande crítica ao populismo, suas alianças, ao autoritarismo e a demagogia reinante”

Mas as chanchadas também percorreram a época de outros nomes como JK, Jânio Quadros e João Goulart (já em seu final), num momento que pode ser caracterizado como de turbulência política.

A industrialização nascente estimulou o surgimento das grandes cidades, provocado também pelo forte êxodo rural. Estas cidades são retratadas nos enredos das chanchadas, que mostravam com vivacidade e humor os problemas urbanos que se formavam, principalmente aqueles relacionados às classes mais baixas.

De um modo geral, podemos dizer que as chanchadas formam o retrato de um país em transição, abdicando dos valores de uma sociedade pré-industrial e ingressando na vertiginosa ciranda da sociedade de consumo, cujo modelo teria num novo meio, a TV, o seu grande sustentáculo.

O que eram as chanchadas

“Nome geral que se dá a todas as comédias, inclusive musicais, de “apelo” popular”, disse Jean Claude Bernardet. “Comédia popular com interpolações musicais”, segundo Alex Viany, ou ainda “Peça teatral sem valor, destinada apenas a produzir gargalhadas; qualquer espetáculo teatral de pouco ou nenhum valor”, define o Grande Dicionário Enciclopédico Ilustrado Solar. Inúmeras são as definições para os “filmusicais” feitos no Brasil entre 1930 e 1960, mas seja qual for a adotada, o incontestável é que as chanchadas constituíram um momento único da cinematografia brasileira, quando multidões eram atraídas pelo nosso cinema, garantindo a sobrevivência industrial desta arte no país.

O primeiro estúdio de cinema brasileiro foi a Cinédia. Nascida em 1930, espelhava-se no modelo hollywoodiano. Adhemar Gonzaga, fundador da companhia, chegou a viajar para Hollywood para pesquisar as técnicas do cinema falado. Já em 1933 utilizou a câmara na mão, primeiros planos e escurecimento da imagem no clímax de algumas cenas, linguagem totalmente nova na época e que rendeu muitas críticas ao filme “Ganga Bruta”, de Humberto Mauro. No mesmo ano “A Voz Do Carnaval”, de Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro, abriu para o cinema brasileiro o caminho do filme musical, originalmente americano, que permaneceria em nossas telas durante trinta anos. Junto com a comédia de costumes, daria origem à chanchada, com a marca registrada da irreverência. A Cinédia começou a declinar na metade da década de quarenta, e no início dos anos 50 estava praticamente falida.

Foi a Atlântida, fundada em 1941 por Moacyr Fenelon, Alinor Azevedo e José Carlos Burle que tornou-se a maior produtora e uma verdadeira especialista em chanchadas, ao descobrir a forma de explorar o mercado: voltar-se quase exclusivamente para um público popular, apoiando-se no teatro ligeiro e nos nomes conhecidos dos meios de comunicação da época, formados pelos ídolos do rádio. O primeiro longa produzido pela companhia foi “Moleque Tião” (1943), trazendo um Grande Otelo ainda pouco popular no papel principal. Foi uma decisão ousada: colocar um ator negro e desconhecido como protagonista de um filme era novidade na época. Apesar disso, “Moleque Tião” fez enorme sucesso, e até o final dos anos 40 as melhores produções eram as da Atlântida. É importante frisar que a companhia raramente incursionou por temas mais sérios. Seu forte estava nas chanchadas, sendo que a primeira delas foi “Tristezas Não Pagam Dívidas” (1943), de Rui Sá e José Carlos Burle. Embora não tenha sido a primeira, o crítico Sérgio Augusto, diz que “A chanchada propriamente dita nasceu, sem dúvida, com Carnaval no Fogo (1948)”, fato que Alex Viany explica:

“Este filme revoluciona o modo de realização dessas comédias. Reunindo pela primeira vez Oscarito, Grande Otelo e José Lewgoy, Watson Macedo cria uma nova fórmula: conta uma história, uma intriga policial, com brigas, correrias, um par romântico e o galã de herói contra os bandidos, em filme de melhor acabamento, os artistas bem orientados e os números musicais encenados com um certo bom gosto”.

Criada com a finalidade não apenas de fazer cinema, mas de criar uma experiência cinematográfica brasileira, ou, pelo menos, carioca (uma vez que sua sede era no Rio de Janeiro, principal cenário e mercado consumidor desses filmes), a Companhia Atlântida Cinematográfica também pretendia abordar problemas sociais até então ausentes no cinema nacional, e alcançar um padrão de produção comparável ao dos filmes americanos. A partir dela, foram produzidos, em vinte anos, sessenta e dois filmes de ficção e dois documentários, além de inúmeros cine-jornais, apresentados antes do longa-metragem.

Depois da Atlântida, surgiram outras produtoras, como a Herbert Richers, a Cinedistri, as produções independentes de Watson Macedo e Oswaldo Massaini. Graças às chanchadas que o cinema nacional conseguiu produzir 300 obras entre 1950 e 1960, com público garantido. A euforia estava lançada: embora ainda se exibissem mais filmes americanos do que brasileiros, as chanchadas agora competiam em condições de igualdade com o cinema americano.

A influência americana sobre o cinema brasileiro começou muito cedo, por volta de 1911. O cinema americano já era assunto principal e freqüente em qualquer conversa na década de 20, e havia inclusive concursos para eleger a estrela americana mais popular. Por aqui surgiam cópias brasileiras dos astros hollywoodianos e publicações nacionais tinham correspondentes em Hollywood. Ares californianos, a terra dos sonhos, invadiam os filmes nacionais. O cinema americano era uma obsessão no Brasil. Sérgio Augusto, em “Este Mundo é um Pandeiro”, comenta que a chanchada brasileira provavelmente nunca tivesse existido sem Hollywood. Veremos mais sobre isso adiante.

Até os críticos, de quem se poderia esperar uma opinião consciente, idolatravam o cinema americano, chegando a comparar as atrizes nacionais às stars hollywoodianas, tomadas como padrão de avaliação. Mas, apesar da dependência do modelo estrangeiro, a produção nacional conseguia parodiar sua fonte de inspiração. A paródia é um tipo de imitação irônica e deformante que inverte valores, repetindo o modelo com distanciamento crítico. Em outras palavras copiava-se descaradamente sim, mas sabia-se que se estava copiando e o cinema nacional conseguia divertir-se com essa situação paradoxal de dependência. A relação entre o elemento original e a paródia, porém, é de forças desiguais. O referencial é sempre o elemento mais forte, dominador, valor cultural incontestável. Por mais que se parodie, haverá sempre a relação de subordinação mostrando aquele que dita as regras. Nas chanchadas brasileiras ficava explícita a posição de quem era seguidor das regras hollywoodianas. Nosso cinema era visto como negócio de pessoas vigaristas em quem não se podia confiar. A produção nacional menosprezava a si própria como produto mal-acabado, de qualidade duvidosa e feito por amadores.

Seus assuntos foram sempre tipicamente nacionais e o enfoque ideológico correspondia ao da média burguesia, essa sim, de caráter bastante alienado. A única filosofia veiculada em seus roteiros é a do “lugar-comum”, do vulgar, do consumo e do chamado bom senso burguês.

Caricaturas dos heróis e estilos hollywoodianos; Oscarito, Grande Otelo e outros artistas “lavavam a alma” da população mais pobre ao tornarem-se verdadeiros heróis – ou seriam anti-heróis?

À esta fórmula ainda era empregado um tom humorístico vindo do rádio, notando–se algumas conotações circenses. Na verdade, a chanchada está intimamente ligada à trilha sonora, a ação nunca era levada pela música: as melodias eram simplesmente inseridas no enredo, de acordo com a conveniência.

A chanchada foi, se a resumirmos, apenas um tipo particular de cinema regional, predominantemente carioca, que, aproveitando a conjuntura favorável da época, representada pela melhoria técnica do equipamento e facilidades de distribuição, logrou agradar a boa parcela do público, que passou a encarar o gênero como uma diversão à altura das demais fitas estrangeiras. Assim, chamar nossos filmes de imitação caipira dos modelos hollywoodianos seria simplificar demais o problema. A chanchada tem suas raízes no teatro de comédia, algo de bastante brasileiro, apesar de suas origens no “vaudeville”.

Indústria Cultural e Chanchada

A produção durante a década de quarenta concentrou-se na cidade do Rio de Janeiro, essencialmente pela produtora Atlântida. Já na década de cinqüenta, entraram nesse circuito outras companhias, como por exemplo, a Vera Cruz, situada em São Paulo. O surgimento das chanchadas impulsionou como nunca antes visto o mercado cinematográfico brasileiro.

A Vera Cruz surgiu para fazer um cinema “sério”, seguindo os moldes americanos. Seu lema era “Produção brasileira de padrão internacional”. A crítica às chanchadas é percebida com clareza no texto retirado do site da companhia:

“As companhias Cinédia e Atlântida no Rio de Janeiro, apesar de terem produzido uma grande quantidade de filmes, foram rejeitadas pela elite por se tratarem de comédias carnavalescas (chanchadas) com um tom popularesco e vulgar.

O aparecimento da Cia. Cinematográfica Vera Cruz vislumbra a possibilidade de um cinema “verdadeiro”, distanciado da “indigência” em que se havia transformado o cinema brasileiro visto do Rio de Janeiro. A Vera Cruz ambicionava realizar filmes de classe e em muito maior número, uma verdadeira “expressão cultural””.

Entre as décadas de cinqüenta e sessenta, foram produzidos em torno de trezentas obras, havendo uma melhor divulgação e distribuição devido à associação entre a produtora Atlântida e o grupo Severiano Ribeiro (1947). Esta associação em primeira mão foi feita para Luiz Severiano Ribeiro se beneficiar de uma lei executada por Dutra, em 1946, que ampliava a reserva e mercado, aumentando a obrigatoriedade da exibição de um para três filmes brasileiros por ano em cada cinema. Posteriormente chegou-se a uma harmonia entre produção, distribuição e exibição que resultou na transformação do empreendimento em um negócio altamente lucrativo, sem sacrificar a qualidade técnica manteve, durante 15 anos, o estúdio funcionando sem interrupção – o caso mais bem sucedido de indústria cinematográfica no Brasil.

Exemplos são dados da ampliação da indústria cultural que se formou a partir do surgimento das chanchadas, que chegavam a competir com o cinema americano, visto como padrão de comparação e idealização dos diretores e produtores da época.

A indústria cultural da chanchada é explicitada principalmente pelo fato de conseguir reproduzir bens culturais e de abranger e concluir as quatro fases de um sistema de produção cultural citadas por Teixeira Coelho. A produção como já dito, foi conseguida graças ao surgimento de novas produtoras; a distribuição foi feita, principalmente, pelo grande número de salas de exibição (na década de cinqüenta existiam trezentas salas e hoje, apenas, oitenta e nove); a terceira é a troca entre o público e o bem cultural, feita através do comparecimento deste nas projeções e o pagamento mediante a compra do ingresso, sendo complementado pelo entendimento da obra, o uso, fechando assim, o ciclo de produção.

Como qualquer indústria capitalista, a indústria cultural da chanchada visava a ampliação do número de consumidores, diminuindo assim o custo unitário do produto. Isto é conseguido principalmente pela associação da idéias que se identificam com o público, como a circularidade existente entre as culturas, sendo elas populares ou eruditas, conseguindo assim uma aproximação com o espectador. Essa circularidade cultural, como será visto mais tarde, diz respeito às chanchadas veicularem em seus meios um conjunto de atitudes, crenças, códigos de comportamento próprios das classes subalternas e das dominantes, utilizando elementos das culturas eruditas, como óperas, peças de Shakespeare e socialites.

Vários costumes foram popularizados pela indústria das chanchadas. As revistas que abordavam esse assunto como Anhembi e Cinelândia, viraram um grande meio de difusão. A música também teve um papel de destaque nas chanchadas, e sua propagação chegava a grande parte da população devido ao rádio. Esta articulação entre os meios de produção (cinema-revista-rádio), gera uma interseção maior entre o público e a obra, resultando em costumes muito casuais da época, como o fato de todos saberem as marchinhas presentes nos filmes antes mesmo de sua estréia, ou o aumento do número de pessoas se inscrevendo nas produtoras buscando o estrelato que surgiria do acaso, por sorte de ser descoberto, como aconteceu com a maioria das estrelas da chanchada.

Uma prova mais do que contundente da circularidade das diversas formas de cultura, que se evidencia a cada cena filmada, é o grande sucesso das chanchadas. As chanchadas significariam a união da sátira com o naturalismo hollywoodiano, somada às expressões da cultura popular brasileira.

Um dos aspectos culturais mais marcantes destas comédias foi a divulgação do que se chamava “filosofia barata”, não podendo ser diferente, pois muitos espectadores eram ainda analfabetos e preferiam o cinema nacional por não entenderem as legendas das fitas importadas. A partir disto, este espectador estaria apto a compreender nada além de seu cotidiano identificando-se com um personagem típico, com os mesmos problemas de seu dia-a-dia.

O sonho com o Olimpo

É realmente notável para o cinema brasileiro o fascínio exercido pelas chanchadas sobre o público. Os personagens, com seu aspecto irreverente, caricatural e popular carregavam um diferencial, um signo do “jeito” brasileiro que se espelhava no próprio público. Além disso, o domínio da técnica corporal era o complemento essencial dos artistas que, em grande parte, tiveram o circo e o teatro de revista como escola.

A relação ator/espectador não poderia ser mais “íntima”. Os personagens, mesmo com toda a sua malícia, tinham uma expressiva carga de sentimentos, o que lhes conferia uma sincera humanidade que atingia em cheio as massas. Outro elemento que estreitava essa relação era o fato de alguns astros terem vindo de classes pobres, como Dercy Gonçalves, promovendo um certo nivelamento com o público. Isso só fazia aumentar o fascínio do brilho exibido no cinema, já que pessoas comuns, pobres e de pouca instrução, poderiam tornar-se, como por mágica, estrelas das grandes telas. A Atlântida chegou a receber, nessa época, 12615 candidatos à figuração.

A força das chanchadas influenciava, e até moldava, o imaginário coletivo de tal forma que os personagens eram vistos como figuras de contos de fadas, envolvidas por uma magia presente apenas nas telas. Edgar Morin, em seu livro “Cultura de massa no século XX”, chegou a comparar os grandes astros da mídia aos deuses olimpianos da mitologia grega.

Com o auxílio das revistas de cinema, que vasculhavam a vida pessoal dos artistas, acabava ocorrendo um misto ator/personagem, já que os astros e estrelas encarnavam um mesmo tipo de papel em todos os filmes que faziam.

Eliana era sempre a mocinha, enquanto José Lewgoy e Renato Restier passavam a imagem do vilão. Os mocinhos, galãs, eram representados por Cyll Farney e John Herbert e restava aos maravilhosos Grande Otelo, Oscarito e Colé a malandragem dos personagens mais populares das chanchadas, estereótipos maliciosos do cidadão brasileiro.

Dirigindo este verdadeiro espetáculo, dois grandes nomes, entre outros, destacaram-se: Watson Macedo, diretor do imortal “Este mundo é um pandeiro”, que abusou da paródia ao estrangeiro, criticando também as mazelas da sociedade em esquetes humorísticas com musicais carnavalescos e Carlos Manga, cuja marca era a ironia. Este deixou de lado os musicais e apostou nas paródias extremamente irônicas, como em “Nem Sansão nem Dalila”, uma paródia ao épico americano.

O sucesso das chanchadas

Diferente do que acontece atualmente, que, para lotar uma sala de exibição de um filme brasileiro é necessário que o mesmo tenha sido indicado para o Oscar americano, na década de 1950, ir ao cinema assistir aos filmes brasileiros era algo muito comum. Isso ocorria graças à ausência das TVs, aos preços populares cobrados pelos ingressos, ao grande número de salas de exibição e, principalmente, à popularidade das chanchadas.

Sem dúvida alguma, a cinematografia nacional nunca foi tão prestigiada quanto na época áurea das chanchadas, pois mesmo que os filmes americanos ocupassem maior número de salas e também tivessem um público alto, era para assistir às chanchadas que se faziam filas. Mas, porque esse tipo de filme conquistou o público? O que tinha de tão atraente nas chanchadas que não tinha em outros tipos de filmes nacionais ou até mesmo nos americanos?

Elas caíram no gosto popular por falarem a linguagem de seus espectadores: a população de renda média e baixa; além do que, as personagens e situações apresentadas eram de fácil aceitação e identificação com o público.

Importantes situações da realidade social eram tratadas num tom de sátira e deboche, agradando em cheio aos espectadores. Os heróis das fitas eram malandros e simpáticos, fazendo mil e uma trapalhadas para, no fim, vencer o mal. Carlos Manga fixa quatro situações básicas do modelo da chanchada: 1)mocinho e mocinha se metem em apuros; 2)cômico tenta proteger os dois; 3) vilão leva vantagem; 4)vilão perde vantagem e é vencido.

O sucesso popular e o direcionamento da chanchada devem-se em boa parte ao desempenho de vários dos atores e atrizes principais, capazes de dar sua parcela de contribuição efetiva na recuperação para as telas dos valores do homem simples brasileiro. Atores que guardam grandes heranças populares, acrescentando muitas vezes passagens de suas vidas modestas e cheias de dificuldades aos papéis que interpretavam.

Testemunhando a circularidade cultural existente entre as diferentes classes sociais, as chanchadas mostravam as diferenças e semelhanças entre os universos das classes alta e baixa da sociedade brasileira. Podemos observar em alguns filmes, provas dessa circularidade cultural. Rosângela Dias de Oliveira nos mostra exemplos claros disso em trechos retirados de seu livro O mundo como chanchada: cinema e imaginário das classes populares na década de 50:

“No mesmo filme (Carnaval no Fogo), há uma outra prova dessa circularidade cultural, quando Oscarito, interpretando um faxineiro do Hotel Copacabana Palace, finge reger uma obra erudita transmitida pelo rádio. O que demonstra que ouvir e gostar de obras clássicas não é privilégio de nenhuma classe, ainda que o acesso às salas de concerto o seja.

Já no filme Samba em Brasília, há uma cena demonstrando que a cultura das classes populares também penetra no high society. Heloísa Helena, patroa de Eliana, resolve despedi-la por ter estragado a recepção, fazendo bolinhos carregados na pimenta. No entanto, muda de idéia quando a outra diz que não há problema algum em ficar sem emprego: “Meu santo é forte!” Heloísa Helena, ao ouvir isso, exclama:

“Ela entende de macumba!”, e decide contratar os serviços da empregada para que a mesma lhe faça um “despacho”.

(…) A macumba, mesmo sendo uma religião oriunda das classes menos favorecidas, penetra em outras camadas da população, que a utilizam segundo seus interesses.

(…) O faxineiro regendo o concerto pelo rádio e a grã-fina que faz despachos de macumba são provas desse trânsito cultural. O fato de a cultura erudita ser parodiada pelas chanchadas demonstra que alguns de seus aspectos são comuns a grande parte da população (aí incluídas as classes subalternas).

(…) O grande sucesso das chanchadas seria uma prova mais do que contundente da sobreposição ou circularidade das diversas formas de cultura, que se evidencia a cada cena filmada. As chanchadas significariam a união, mais do que fortuita, da sátira com o naturalismo hollywoodiano, somada às expressões da cultura popular brasileira”. (DIAS, Rosângela de Oliveira, 1993, pp 19, 20).

Enfim, como escreveu Sérgio Augusto para o jornal O Estado De São Paulo, em 6 de fevereiro de 1999, as chanchadas deram certo “porque eram capazes de divertir uma ampla e diversificada camada de expectadores com sua esperta mistura de humor ingênuo e malicioso e seus cândidos esforços para emular os musicais de Hollywood”. E, assim, com uma linguagem extremamente popular, onde se achavam presentes elementos do carnaval, do rádio e do teatro de revista, as chanchadas foram sucesso absoluto de público.

Críticas

As chanchadas eram feitas para um público diferente: o povo. Como já dito, o preço dos ingressos era baixo e os filmes retratavam a realidade da população. Havia filas na porta e quase todos adoravam e se divertiam com os astros desse “novo” cinema.

Obviamente, alguns não gostavam e criticavam ferozmente, como esse crítico que diz:

“Em sã consciência, é possível chamar de cinema brasileiro a essas peças de aventura? Por que em caso afirmativo, se Carnaval em Marte ou Carnaval em Lá Maior for cinema brasileiro, então eu confesso que sou contra o cinema brasileiro…”

As chanchadas eram severamente criticadas pelos críticos cinematográficos da época, como Fred Lee, Pedro Lima, Moniz Vianna (encarado como o lobo mau do cinema nacional), sendo que não só os jornalistas intitulavam as chanchadas como amorais, como muitos diretores (como Paula Wanderley) atacavam também esses filmes, os quais, na sua concepção, eram totalmente diferentes das comédias (que seriam mais nobres, em geral feitas no estrangeiro). Os críticos, a cada novo lançamento carioca, soltavam o seu veneno e frases do tipo “mais um abacaxi nacional!” ou “descemos ao nível de cloaca!” eram corriqueiras. Em matéria sobre o cinema nacional da edição de 25 de maio de 1957 da revista O Cruzeiro, E. Pacote e Jorge Lyra escrevem:

“Câmbio negro de filme virgem, chanchadas, falsos diretores e produtores que só pensam em ganhar dinheiro fácil, eis os principais males que afligem o cinema nacional”.

“A eliminação da chanchada, o aspecto mais negativo do cinema brasileiro exigiria, em primeiro lugar, que a censura deixasse de ser cúmplice desse autêntico crime cometido contra o bom gosto e, freqüentemente, contra os bons costumes”.

A legenda de duas fotos diz:

“Duas concepções de movimento. Em cima, “O Gaúcho”, rodado na Vera Cruz, em São Paulo. Embaixo, mais uma calamidade de Watson Macedo” (grande diretor de chanchadas).

Entretanto, a ira dos críticos não influenciava o grande público, que praticamente não lia jornais e, quando lia, estava mais interessado nas páginas policiais ou nas manchetes políticas. Além disso, em filme nacional não se precisa ler letreiro, bastava ser todo ouvidos.

Após a renovação da crítica a partir de 1944, primeiramente no Rio e depois em São Paulo, com a primeira geração de críticos conscientes de uma arte cinematográfica autônoma – exaltou-se obras como: “O Dia é Nosso”, “Moleque Tião”, “Gente Honesta”, “Também Somos Irmãos”, ainda maldizendo as chanchadas, mas reconhecendo um cinema brasileiro de qualidade. Essa crítica fora em vão, pois, mesmo com a presença de atores famosos de chanchadas, estes filmes não foram sucesso entre o público, que continuou lotando mesmo as salas de exibição das chanchadas .

De forte apelo popular, a chanchada era claramente inspirada em grandes bilheterias americanas, o que rendia mais críticas e alienações, pois eram acusadas de alienar o povo afastando-se e afastando-o da crítica social e política, acabando com a possibilidade de uma identidade própria nos filmes. Não podemos negar a existência de pessoas que queriam transformar o cinema nacional, fazendo-o nos moldes do americano (a Vera Cruz prova isso, por ser uma empresa fundada para alcançar os “padrões americanos de qualidade” e fazer filmes sérios, como diziam seus donos), mas esta não é a única faceta do gênero. Temos que ressaltar a importância cultural e econômica das chanchadas para o Brasil, visto que era a forma cultural existente que mais atraía a população, lotando as salas de exibição.

Alguns enfatizam seu aspecto original e criativo, e, sem negar que a maioria parodiava o cinema americano, afirmam que não se pode considerar a chanchada apenas como um subfilme alienado, mas como um veículo de comunicação que traz, latente, uma resistência cultural definida, sobretudo quando se preocupa com a política nacional, criticando a estrutura do poder ou ressaltando necessidades básicas do povo. Por outro lado, ao ridicularizar os valores apresentados nos filmes americanos, ajudava a desmascarar o seu cunho ideológico. Eram filmes críticos que nunca desperdiçaram uma ponta de ironia aos problemas nacionais. A sátira, a farsa e a paródia eram freqüentes, mas sugeridas de maneira sutil, de forma a não criarem problemas com as autoridades.

Fim da Chanchada e Chanchada Hoje em Dia

A chanchada perdeu terreno quando a televisão cooptou de vez o seu humor e até mesmo alguns de seus luminares, no começo dos anos 60. Talvez o gênero ainda sobrevivesse por mais alguns anos, porém, mediante realizações de baixo nível (excetuando-se a filmografia de Mazzaropi, fiel a seu estilo até nossos dias). No Rio, as interpretações de Zé Trindade eram muito estimadas, mas a conjuntura já estava fazendo o rádio – grande sustentáculo da chanchada – perder terreno para a TV, que predominaria no cenário da diversão doméstica a partir de 1965/67.

Somente o despontar do Cinema Novo, com “Barravento”, de Glauber Rocha em 1961, acabou encerrando o ciclo, que mais tarde renasceria sob denominações várias, tais como, pornochanchadas, a comédia erótica e a neo-chanchada, mas nunca mais foi tão popular.

O ator e diretor Hugo Carvana sempre empenhou-se em manter vivo o espírito das comédias carnavalescas em seus filmes Vai Trabalhar Vagabundo (1973), Se Segura Malandro (1977). E agora em 2002 deve sair seu novo filme, “Tempestade Cerebral”, uma homenagem que ele faz ao gênero que lhe rendeu cerca de 30 papéis. Mais detalhes sobre a produção temos no trecho retirado de matéria do Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo de 20 de junho de 2001:

“A ligação veio quando optou por uma solução absurda, mas inteiramente pertinente à lógica das chanchadas: um cientista americano (José Lewgoy, who else?) decide vir ao Brasil capturar o cérebro de Apolônio e extrair, de seus neurônios, o gene da alegria para um lucrativo comércio internacional de clonagem humana. Coisas de globalização, of course.

Mas o cientista não será o único interessado na massa encefálica: antigos amigos, amantes, e até um filho que desconhecia, entrarão na briga pelas moléculas responsáveis pela alegria de viver do pianista. A tensão entre os que defendem e os que rejeitam a clonagem com fins comerciais criará algo como “o Apolônio é nosso”, brinca Carvana, referindo-se à antiga campanha em defesa do petróleo nacional.

Para alinhavar a trama rocambolesca, que começa no século 21 e retrocede a 1948, Apolônio (interpretado por Caio Junqueira na adolescência – e Marco Nanini quando adulto) brindará os espectadores com seu tremendo talento, em generosos flash-backs, reeditando o melhor da noite carioca dos anos 50 e 60″.

No ano de 1952 um grande incêndio destruiu quase tudo da Atlântida, alguns anos mais tarde uma inundação arrasou o que restava; apenas 27 filmes foram salvos e nunca mais viu-se um filme produzido pela Atlântida. Agora estes filmes estão sendo relançados em DVD.

Bibliografia

Augusto, Sérgio. “Este Mundo É Um Pandeiro – A Chanchada de Getúlio a JK”. São Paulo: Cinemateca Brasileira: Companhia das Letras, 1989.

Dias, Rosângela de Oliveira. “O mundo como chanchada: cinema e imaginário das classes populares na década de 50”. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993.

Coelho, Teixeira. “Indústria Cultural”. In: “Dicionário Crítico De Política Cultural”. São Paulo: Editora Iluminuras, 1997.

Catani, Afrânio M. e Souza, José I. de Melo. “A Chanchada no Cinema Brasileiro”. São Paulo: Brasiliense.

Lyra, Jorge e Pacote, E. “Cinema Nacional – Marco Zero”. In: Revista “O Cruzeiro”, 25 de maio de 1957.

Miranda, Luiz F. A. “Dicionário de Cineastas Brasileiros”. São Paulo: Art Editora, 1990.

Piper, Rudolf . “Filmusical Brasileira e Chanchada. Posters e Ilustrações”

Paiva, Salvyano Cavalcanti. “História Ilustrada dos Filmes Brasileiros”

Silva Neto, Antônio Leão da. “Astros e Estrelas do Cinema Brasileiro – Dicionário de Atrizes e Atores”. São Paulo: Edições Loyola, 1998.

Almanaque Abril 1998.

Grande Dicionário Enciclopédico Ilustrado Solar, Volume 2.

http://www.atlantida.art.br

http://veracruz.itgo.com/mainbr.htm

Fontes Consultadas

“Assim era a Atlântida”, Carlos Manga, 105min, preto e branco, 1974.

“Nem Sansão Nem Dalila”, Carlos Manga, 90 min, preto e branco, 1953.

Cinema 3D

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Autoria: Carlos

Cinema 3D

INTRODUÇÃO

O termo “3D” se origina da expressão “Três dimensões” que está relacionada à forma que podemos descrever um objeto. Todos os objetos reais são tridimensionais, isto é, possuem altura, largura e profundidade, por menor que seja qualquer uma destas dimensões.

O ser humano possui a capacidade de perceber a profundidade dos objetos e suas posições relativas no espaço devido a uma propriedade de sua visão chamada de Visão binocular. O Fato dos olhos serem separados por uma distancia média de 6,5 centímetros faz com que o cérebro receba duas imagens distintas da mesma cena, através da composição destas duas imagens ele é capaz de determinar a distância relativa entre os objetos e assim podemos dizer que enxergamos em três dimensões. Portanto, quando fechamos completamente um olho, de certa forma perdemos a noção de distância.

Desde o início dos tempos o homem tenta representar os objetos que estão a seu redor de forma pictográfica, as primeiras representações que se tem registro são as pinturas feitas nas paredes das cavernas. São pinturas que retratam o cotidiano de determinadas comunidades, seus hábitos e fatos importantes. Este tipo de pintura é o que podemos considerar como uma representação completamente feita em duas dimensões, pois possuem apenas uma altura e uma largura. Mesmo com o passar dos séculos e a grande evolução da pintura pouco se fez no sentido de se tentar representar a profundidade dos objetos. As primeiras pinturas que buscavam representar os objetos com todas as suas dimensões aparecem somente durante o renascimento. Estas pinturas embora representem as todas as dimensões dos objetos continuam a ser bidimensionais, pois todos os seus pontos estão dispostos no mesmo plano.

Com o surgimento da fotografia a representação do ambiente tornou-se totalmente precisa, pois neste tipo de representação “não há a interferência do homem”, sendo assim aspectos como proporções e profundidade não são alterados. Mas retornamos ao mesmo fato descrito para as pinturas, a fotografia continua sendo uma representação bidimensional, pois esta também é impressa em um único plano.

A única forma de representação completamente tridimensional existente (excluindo-se a escultura) é a holografia, que por sua vez é ainda muito pouco desenvolvida e divulgada. Somente através dela é possível se representar um objeto em planos separados.

Mas existem formas de simular as três dimensões de um objeto criando assim para os olhos a impressão de que ele está representado em vários planos.

Alguns programas de computador são capazes de gerar imagens que virtualmente possuem volume. Nestes programas é possível gerar objetos completos, que podem ser vistos de qualquer posição. Mas como falamos a pouco isto é apenas uma simulação uma vez que as imagens geradas pelos computadores são também bidimensionais.

Uma forma de representação tridimensional muito mais antiga que qualquer computador é uma técnica descoberta por Charles Wheatstone no ano de 1832 chamada estereoscopia.

A estereoscopia utiliza a visão binocular humana, descrita acima, para gerar imagens virtualmente tridimensionais. Ela funciona da seguinte maneira: Duas imagens semelhantes são geradas a partir de uma mesma cena. Uma imagem difere da outra somente pelo fato de ser gerada a uma distância horizontal média de 6,5 centímetros, que é a mesma distância média entre os olhos de uma pessoa. Quando estas imagens são impressas ou projetadas são utilizados mecanismos para que cada uma delas seja vista apenas por um dos olhos, desta forma o cérebro é “enganado”, e através das propriedades da visão binocular gera uma imagem tridimensional.

Imediatamente após a descoberta da estereoscopia, descobriu-se também que o processo, inicialmente demonstrado com a utilização de desenhos, poderia ser realizado com fotografias. Sendo que o cinema é uma série de fotografias, foi apenas uma questão de tempo e interesse econômico, para que se criasse uma forma para que filmes fossem rodados e exibidos usando técnicas de estereoscopia, são os chamados Filmes 3D.

Retomando um pouco, com o passar dos anos as técnicas de simulação em computador foram se aperfeiçoando e passaram a ser incorporadas ao cinema na forma de efeitos especiais. O primeiro filme a apresentar seqüências feitas inteiramente em computador foi “Tron, Uma odiséia eletrônica” dos Estúdios Disney no ano de 1982. No ano de 1995 foi lançado, também pelos Estúdios Disney “Toy Story” que entrou para a história como “o primeiro longa metragem feito totalmente em computador”, dando origem a uma linhagem de filmes chamados popularmente de “Filmes de animação 3D”.

Esta nova linhagem de filmes acabou por gerar um certo equivoco por parte de algumas pessoas, que confundem os filmes feitos com recursos de “Programas 3D” com os filmes feitos com técnicas de estereoscopia. É importante dizer que um filme como “Toy Story” é como um filme comum, isto é, que embora tenha sido gerado em um “Programa 3D” só pode ser visualizado em duas dimensões. Mas é importante ressaltarmos que um fato não exclui o outro, isto é, um filme que utiliza cenas geradas por computador poder ser normalmente transposto para projeções estereoscópicas.

Procuraremos discutir, a partir de agora, a história da estereoscopia, sua transposição para o cinema, a diversas técnicas de projeção e sua real importância para o cinema.

CAPÍTULO I

FOTOGRAFIA ESTEREOSCÓPICA

O FUNCIONAMENTO

A fotografia estereoscópica reproduz a visão binocular humana.

Cada olho humano vê uma imagem que é um pouco diferente do outro olho.

Se você tenta olhar um objeto através de um só olho e depois do outro, perceberá uma ligeira mudança de posição.

Baseada nisso, a câmera estereoscópica tem 2 lentes localizadas cerca de 2-1/2 polegadas (6.3 cm uma da outra), exatamente a distância entre uma pupila e a outra.

As imagens idênticas que a câmera gera devem ser vistas por um estereoscópio, que garante que a imagem da direita seja visualizada p/ olho direito e a imagem da esquerda p/ olho esquerdo, é a fusão dessas duas imagens que cria a visão binocular normal e permite ao cérebro entender profundidade e distância.

Hoje em dia, os trabalhos em três dimensões contemporâneos usam quase as mesmas técnicas usadas no surgimento da fotografia estéreo.

O SURGIMENTO

Desde 1833, várias pessoas (Euclid, Leonard Da Vici, etc) fizeram observações e estudos sobre a visão de nossos olhos, mas ninguém foi capaz de entender exatamente como tudo funcionava.

A invenção aconteceu em 1838, quando o cientista inglês Sr. Charles Wheastone, físico experimentalista e naquele tempo professor de Filosofia do Colégio dos Reis em Londres, expôs uma máquina espelhada que permitia que desenhos geométricos (naquele tempo a fotografia ainda não havia sido descoberta) fossem vistos em 3 dimensões. Sua invenção era baseada nas teorias de perspectiva do Renascimento e ele nomeou sua descoberta de estereoscópio, do grego “stereos”, indicando “a propriedade de representar figuras sólidas”. Construída com uma variedade de espelhos, em ângulos diferentes, o estereoscópio continha dois desenhos (imagens) diferentes – uma para o olho esquerdo e outra para o direito. Quando as imagens eram observadas ao mesmo tempo, o visor de Wheatstone magicamente produzia uma imagem estéreo.

Sr. Charles chama seu amigo William Henry Fox Talbot, precursor do sistema de fotografia do negativo-positivo, para fazer pares de fotos para o estereoscópio. O processo que eles iniciaram no mundo originou o tridimensionalismo atual.

Fotografias estéreos causaram grande surpresa e estranheza quando exibidas em 1841, na Academia Real de Ciências em Bruxelas. Em 1851, na Feira Mundial no Crystal Palace em Londres, a Rainha Victória da Inglaterra foi apresentada a um estereoscópio pelos expositores franceses Dubosq & Soleil, se divertiu com vários fotos estéreos e aprovou com entusiasmo a nova invenção e deu sua aprovação real. A partir daí os estereoscópios se tornaram uma febre mundial, alcançando grande popularidade. Milhares de máquinas foram vendidas, nenhum lugar nos dois lados do Atlântico ficou sem ter a famosa máquina da época e inúmeras fotos estéreo. Fotógrafos se aproveitaram do crescente mercado da fotografia e saíram clicando todos os lugares do mundo: os triunfos e horrores da Guerra Civil Americana, os oceanos e mares, o stress e a correria do trânsito de NY, o dia-a-dia das pessoas, as cataratas do Niágara.

A descoberta de Wheastone foi com o passar dos tempos cada vez mais pesquisada e estudada, os equipamentos foram se tornando mais desenvolvidos e sofisticados, permitindo até que a superfície da Lua fosse fotografada com uma máquina estereoscópica. Hoje, as câmeras são mais compactas e existem também adaptadores para que câmeras convencionais possam fotografar estéreo. Essas tecnologias permitiram closes de insetos a menos de 10 cm de distância e transparências para visão pelo estereoscópio ou projeção na tela.

CRONOGRAMA

1832

Charles Wheatstone inventa o estereoscópio, recriando com uma aparelhagem de espelhos o natural fenômeno da visão binocular. Wheatstone foi nomeado como o inventor da estereoscopia.

1841

Calotypes foram expressivamente produzidos pelo estereoscópio de Wheatstone por Fox Talbot, Alfred Rosling e Roger Fenton.

1849

Senhor David Brewster planeja as primeiras lentes estereoscópicas, modificando os aparelhos de espelhos de Wheatstone.

1850

Brewster inventa o mais compacto visor refrativo e defende a montagem de pares lado a lado. Ele convence a Paris Optician Jules Duboscq a produzir seu estereoscópio. Um deles, junto com o daguerreotypes de Claude Marie Ferrier é colocado em exibição na Great Exhibition no Cristal Place em Londres. A Rainha Vitória se entusiasma com a fotografia tridimensional e ajuda a estourar a primeira “bomba” estereoscópica.

1851

Estereoscópios são produzidos na Inglaterra. Perto de um quarto de um milhão de estereoscópios foram feitos em Londres e Paris em três meses.

O óptico inglês John Benjamin Dancer constrói o protótipo de uma câmera de lentes gêmeas adaptada para a fotografia estereoscópica. Equipada com duas lentes de pequeno comprimento

1854

O óptico inglês John Benjamin Dancer constrói o protótipo de uma câmera de lentes gêmeas adaptada para a fotografia estereoscópica. Equipada com duas lentes de pequeno comprimento focal, a câmera drasticamente reduzia o tempo de exposição para fotografias de painéis e permitiu as primeiras gravações p/ cinema. Antonie Claudet, um dos mais famosos daguerreotypists patenteou um estereoscópio prático e flexível.

1858

Este modelo foi fundado na Compania Estereoscópica de Londres por George Swan Nottage. Em 1856 esta empresa (com a propaganda: “Nenhuma lar sem um estereoscópio”), tinha cerca de 10.000 motivos estéreos a sua disposição; em 1858, este número subiu para 100.000. Esteresocópios tinham o preço de metade de uma coroa e mais de 500.000 estariam em circulação.

1861

O físico americano Oliver Wendell Holmes desenvolve um estereoscópio peso-leve e barato. O modelo de Holmes se tornou o mais popular do mundo.

1862

Exposição Internacional de Londres: nos últimos 6 meses no mínimo 300.00 estereoscópios foram vendidos.

1891

Louis Ducos du Hauron patenteia o processo anaglífico. Este processo produz uma imagem estereoscópica pela superposição de duas fotos iguais tingidas respectivamente de vermelho e azul. O efeito tridimensional da foto, com monocromia, resulta uma vez que o par de fotos é visto através de óculos com filtros cromados. Revisto e redefinido em 1940 por Edwin Land como o “Sistema Vectográfico”, este processo continua a achar aplicação científica e tecnológica até hoje.

1887

Um dos iniciadores da Segunda explosão estereoscópica foi o secretário da Sociedade de Fototografia de Manchester, W. I. Chadwick (1900). O “kaiserpanorama”, um aparato que permitia que mais de 25 pessoas vissem uma série de fotografias estéreo simultaneamente, agradou numerosas populações em diversas cidades (de 1884).

1925

Câmeras produzidas como as de Frank e Heidecke, Voigtlander e Zeiss-Ikon que antes eram só para estudo,voltaram como câmeras para se vender.

Finalmente, a mudança do cenário cultural, com o surgimento de filmes mudos e diálogos no cinema acabaram com a popularidade da estéreo fotografia.

CAPITULO II

AS TÉCNICAS E O DESENVOLVIMENTO

PROCESSOS E EVOLUÇÃO

Como já foi colocado anteriormente a fotografia esterescópica surgiu por volta do ano de 1830 e, até os dias de hoje, podemos dizer que evoluiu muito pouco. Seu processo básico é de tão simples que não há como ser alterado. Uma das poucas pesquisas realizadas na área visa colocar as duas imagens geradas na forma de uma única imagem, composta por meio da sobreposição.

Existem basicamente duas formas de se fazer à sobreposição destas imagens: A Primeira é o processo denominado Anaglífico. Neste processo as duas imagens são impressas uma sobre a outra com uma pequena diferença de posição, para que não coincidam perfeitamente. Além disso, as imagens devem ser impressas usando-se cores complementares (uma em vermelho a outra em azul ou verde), desta maneira forma-se uma única imagem, que vista a olhos nus é praticamente apenas um borrão. Mas quando estas imagens são vistas através de óculos especiais, que possuem uma lente vermelha e outra azul ou verde (Lentes azuis são mais indicadas para imagens impressas, lentes verdes são mais indicadas para imagens de vídeo), as imagens se fundem causando a impressão de tridimensionalidade. Isto acontece porque o filtro vermelho bloqueia a imagem impressa em vermelho e o azul a imagem impressa em azul, portanto cada olho só percebe a imagem que lhe é devida. O outro processo é o de polarização. Neste processo as imagens são impressas cada uma de um lado de um filme polarizado e com a utilização de óculos, também com lentes polarizadas, cada imagem só pode ser vista por um único olho. O Processo de polarização será explicado com mais profundidade em breve.

Para a fotografia esteroscópica o fato de mesclar duas imagens em uma não é muito significante, pois não altera em nada o efeito obtido. A grande importância da junção de duas fotografias é propiciar a existência do CINEMA 3D, isto é, filmes que podem ser vistos em três dimensões.

Os filmes 3D utilizam os mesmos princípios da fotografia estereoscópica, mas seria inviável a visualização se duas imagens separadas fossem projetadas em uma tela. No caso de fotografias a visualização é possível porque o observador está sempre na mesma posição em relação às imagens, o que não acontece em uma sala de cinema. Por este motivo é que se tornou imprescindível a fusão das duas imagens durante a projeção, mas, ao mesmo tempo, cada espectador, sentado em qualquer posição dentro da sala, deveria ser capaz de perceber a imagem separada e correta para cada olho. Diferentemente das técnicas aplicadas à fotografia as técnicas de projeção têm evoluído constantemente desde as primeiras exibições, mas como veremos também ainda são repletas de falhas.

Em setembro de 1922 foi exibido o primeiro filme comercial que utilizava técnicas de estereoscopia: ” The Power of Love” Dirigido por Nat G. Deverich e Harry K Fairall. Este filme utilizava o processo Anaglífico, portanto todos os espectadores tiveram que receber óculos especiais, o que na verdade acontece até hoje em todos os tipos de exibição 3D. Mas o processo Anaglífico tem algumas restrições, ele não pode ser usado em todos os tipos de filmes coloridos e também causava dor de cabeça nos espectadores, portando acabou ficando em segundo plano.

Durante década de 50 os cinemas experimentaram uma grande crise: o esvaziamento das salas de cinema devido à popularização da televisão. Para combater este problema os estúdios procuraram alternativas para tornar os filmes mais interessantes. Foi nesta época que surgiram os primeiro filme feitos para cinemascope e os demais formatos de projeção gigante. Também durante esta época ouve a grande popularização dos filmes 3D como outra alternativa para a crise, foi o que chamamos de “o grande Boom do cinema 3D”.

O Primeiro filme desta nova fase do cinema 3D foi “Bwana Devil” dirigido por Arch Oboler no ano de 1952. O filme teve tamanho sucesso que imensas filas se formaram na porta das salas de exibição. Vendo isto, a United Artists comprou seus direitos e distribuiu o filme por todo o país. Já o sucesso de “House of Wax”, lançado em 1953, dirigido por André De Toth e estrelando Vincent Price e Charles Bronson, causou uma verdadeira febre entre os grandes estúdios, todos queriam produzir os seus próprios filmes em 3D. Dentre os títulos produzidos na época o de maior relevância é “Disque M Para Matar” dirigido por Alfred Hitchcock.

Em “Disque M Para Matar” Hitchcock tenta explorar algumas das possibilidades dramáticas da técnica 3D, utilizando-se de câmeras muito altas e baixas e de cenas com grande profundidade. Mas mesmo para Hitchcock o fato do filme ser em 3D não é de muita relevância, Hitchcock declara sobre o filme:

“Sendo a impressão de relevo dada, sobretudo nas tomadas em Centre-plonée, mandei arrumar um fosso para que a câmera estivesse freqüentemente ao nível do chão. Fora isso, havia poucos efeitos diretamente baseados no relevo”.(Hitchcock, 1983:127).

Em uma das cenas criadas para ter maior impacto, quando Grace Kelly está sendo estrangulada e estende sua mão em direção a platéia, muitos críticos declaram que o impacto é bem maior quando o filme é visto em modo normal. Pois durante as projeções 3D os espectadores ficavam mais entretidos com a mão saindo da tela do que com a cena em si. “Disque M Para Matar” teve uma vida muito curta como filme 3D, pois os altos custos de projeção fizeram com que o estúdio optasse por lançar uma versão para salas de projeção comuns.

A febre dos filmes 3D não durou muito e logo os filmes 3d começaram a ser produzidos apenas esporadicamente. Atualmente nos Estados Unidos apenas 1% das salas de projeção são capazes de exibir os filmes mais antigos e raramente os estúdio liberam cópias destes filmes para exibição, isto é, eles estão se tornando artigos em extinção que só podem ser vistos raramente em festivais especiaalizados.

Como o processo Anaglífico tinha uma série de restrições, principalmente em relação à cores, para os filmes da década de 50 foi desenvolvido pela Polaroid um novo sistema de estereoscopia que se baseava em projeções polarizadas.

Os primeiros filmes com sistema de polarização utilizavam duas câmeras para capturar as duas imagens e dois projetores equipados com filtros polarizadores para a projeção, portanto eram utilizados dois rolos de negativo por vez. Mais tarde foram desenvolvidas lentes anamorficas especiais. Apenas uma destas lentes especiais era capaz de capturar as duas imagens necessárias para o processo de estereoscopia. Após passar por esta lente as imagens eram comprimidas no espaço de um frame de comum de uma película de 35mm, utilizando o mesmo processo das lentes de Cinemascope. Este processo e chamado de Arrivision

Para que o filme pudesse ser exibido, no projetor era colocada uma lente que fazia o processo reverso. Na verdade esta lente trabalhava com três processos, primeiro ela descomprime as imagens da película, devolvendo a elas o aspecto normal; depois disso ela polariza as imagens e por ultimo converge as duas imagens para que fiquem praticamente sobrepostas.. Polarizar as imagens significa fazer com que os raios de luz que compõe esta imagem sigam somente em uma direção, pois em uma imagem não polarizada os raios de luz são refletidos para todas as direções. Nas projeções 3D cada uma das imagens passa por um filtro polarizador diferente, que polariza a imagem que deve ser vista pelo olho direito em uma direção e a que deve ser vistas pelo olho esquerdo em outra. Neste caso os óculos dos espectadores são compostos de duas outras lentes polarizadoras, diferentes para cada um dos olhos, que assim bloqueiam as imagens indesejadas.

O processo Arrivision possuía algumas inconveniências, principalmente no que dizia respeito ao tamanho da janela. Como as duas imagens eram comprimidas no espaço de um único frame, o tamanho da projeção se tornava um pouco reduzido, e em uma época em que estavam surgindo as salas de projeção gigantes isto não era interessante. Mas este problema foi logo resolvido com a introdução de novas lentes, que ao invés de colocar uma imagem ao lado da outra colocava uma sobre a outra, dando um aspecto para a projeção de 2.35:1.

Seja no processo desenvolvido pela Polaroid ou no Arrivision o maior inconveniente é o alto custo, seja de se usar duas câmeras e dois projetores, seja o alto das lentes. Se isto não bastasse havia também o custo das telas, pois estas tinham que ser especiais para refletirem corretamente as imagens polarizadas, o que acabava tornando as projeções 3D muito caras.

Como falamos anteriormente a redução drástica na produção dos filmes 3D fez com que ao longo dos anos os títulos produzidos pelos grandes estúdios se tornassem cada vez mais raros, com menor valor artístico, como por exemplo: “Sexta Feira 13 parte 3” e também filmes de pequena duração. Começaram a se tornar mais freqüentes documentários cujos temas eram principalmente didáticos como, por exemplo, vida animal, o espaço e os planetas, lugares exóticos da Terra, etc.

Mas mesmo com a redução dos investimentos pelos grandes estúdios novas salas de exibição vêm se proliferando, principalmente pelos Estados Unidos e Japão. Atualmente a principal rede de exibição são os teatros equipados com tecnologia IMAX, que surgiram por volta dos anos 80. A Tecnologia IMAX que equipa algumas das salas de exibição é muito semelhante à tecnologia desenvolvida pela Polaroid, isto é, trabalha com dois projetores sincronizados projetando imagens polarizadas.

Atualmente os Teatros IMAX estão buscando cada vez mais fazer com que os espectadores fiquem imersos nos filmes, para tanto não economizam. Os números dos atuais teatros são o que podemos chamar de absurdos. Cada filme utiliza duas películas, sendo que cada frame é três vezes maior que frame de 70mm. Este tamanho acarreta uma série de “problemas”: Uma câmera para o formado IMAX deve ser carregada com dois rolos de negativo, estes rolos são suficientes apenas para três minutos de filmagem, enquanto que a recarga da câmera demora em média meia hora, sem contar que a câmera pesa em torno de 228 libras. Tanto na câmera quanto no projetor o filme é transportado horizontalmente. A projeção é feita por um projetor especial super preciso e equipado duas lâmpadas de 15.000 watts de potência cada, tudo isso para projetar em uma tela de 24 metros de altura por 30 de largura. Os óculos usados são diferentes dos convencionais, são feitos utilizando-se lentes de Cristal liquido que se abrem e fecham através de sinais infravermelhos, os óculos possuem também um sistema de som incorporado que utiliza seis canais de áudio de alta fidelidade. Embora com toda esta tecnologia os mais críticos ainda apontam uma série de defeitos, mas o defeito mais sério apresentado diz respeito ao conteúdo do filme que segundo críticos deveriam ser, no máximo, voltado para o público até a faixa etária de até dez anos de idade.

CONCLUSÃO

Como observamos em nosso estudo a tecnologia 3D está repleta de problemas. O processo de evolução da observação tridimensional vem evoluindo de maneira lenta, mas a tridimensionalidade traz tamanha interatividade com os personagens, cenários e tudo que é exposto ao olhar do ser humano que é impossível que este avanço possa parar.

É um sonho que se tornaria realidade.

O desenvolvimento das técnicas 3D fazem parte de vários estudos atualmente. Livros com ilustrações, histórias em quadrinhos e até produtos industriais com o processo simplificado são comercializados. Para este tipo de processo não são necessários óculos especiais. Basta que o leitor ou espectador deixe o foco dos olhos “flutuar” até encontrar e fixar os planos sucessivos do desenho ou do filme.

As experiências em três dimensões têm acontecido constantemente, mas muitos problemas ainda são encontrados, não apenas no seu desenvolvimento e produção, mas também no público interessado em ver. Muitas vezes, alguns indivíduos, não conseguem sentir o relevo das cenas, ou tem algum tipo de deficiência em um dos olhos o que dificulta a observação. Outro problema que é verificado é a dificuldade de “entender” como deixar solto o foco dos olhos a fim de que a visão se adapte ao processo estereoscópico.

No cinema estes problemas estão sendo resolvidos com a utilização de óculos especiais que possibilitam quaisquer individuo ter acesso a terceira dimensão.

É muito difícil prever um futuro para a estereoscopia e para o cinema 3D, mas com a velocidade do avanço tecnológico atual podemos imaginar que em breve poderemos ter em nossas Televisões, computadores e vídeos essa incrível tecnologia.

BIBLIOGRAFIA

TRUFFAUT, F. Hitchcock/Truffaut. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983
By The Editors of Time-Life Books, Frontiers of Photography, 1970.

INTERNET

http://www. stereoscopy.com

The Bad Fads Museum

http://www.badfads.com/pages/activities/3dmovie.html

How 3D movies Work

http://www.mindspring.com/~dmerriman/Imaxwrk.htm

Stereoscopic 3D Movies

http://www.hd3dmovies.com/3d2.html

The lowes IMAX theatre

http://www.theatres.sre.sony.com/imax/new-york/facts.html

History of the Stereoscope in 3D

http://www.bitwise.net/~ken-bill/stereo.htm

Rocky Moutain Memories 3D Encyclopedia

http://www.rmm3d.com/3d.encyclopedia/index.html

Tecnicas de estereoscopia

http://www.paralax.com.mx/09b_tecnicas.html

3D Movies

http://www.angelfire.com/ok2/3dmovies/

Friday the 13th, Part 3: 3D Cinematography

http://www.simplyweb.net/piranha/film.htm

Film Format

http://www.dvdaust.com/film_formats.htm

Cinema Americano no Pós Guerra

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Autoria: Daniela Haerter

Cinema Americano no Pós Guerra – Análise dos Filmes ‘Matar ou Morrer’ e ‘Imperdoavéis’

Salvador / 2002

Introdução

Muitos historiadores e estudiosos de cinema concordam que o western é um gênero típico do cinema norte-americano. Coube ao cinema transformar o gênero em lenda tendo como cenário a conquista do Velho Oeste. Cowboys, xerifes, bandidos e índios escreveram, com enorme sucesso, seus nomes na história, tendo sempre como tema a eterna luta do bem contra o mal.

Esse trabalho tem como objetivo ilustrar características importantes do gênero para a história do cinema, principalmente em seu período pós-guerra, além de analisar o mito do cowboy associado a dois filmes: “Matar ou morrer” e “Os Imperdoáveis”.

O gênero western

O western nasceu como uma representação mítica de um fato histórico: a conquista dos territórios do Oeste e o nascimento da nação americana. Pode-se dizer que o western é um gênero de caráter épico, inspirado nos episódios da grande marcha colonizadora em direção ao Oeste. São comuns temas como a Guerra de Secessão, lutas com os índios, a corrida do ouro, banditismos e outros.

O Gênero traz em si uma mitologia baseada nas raízes da história americana, no folclore e nas canções populares. Muito antes da invenção do cinema nomes como Wyatt Earp, Billy the Kid e Buffalo Bill eram cantados com a naturalidade simbólica do folclore.

Muitos historiadores reconhecem o filme “The great Train Robbery” (1903) de Edwin S. Porter, como o primeiro western da história. Os historiadores discutem se o grande sucesso do filme foi motivado pelo gênero ou pelo fato de Ter sido um filme de maior duração, narrado com uma linguagem cinematográfica mais elaborada que a habitual , e ainda por exibir, em seu final, um plano aproximado do cowboy dando tiros em direção à platéia.

O tom triunfal desses filmes prosseguiria no decorrer dos anos 30, após o advento do cinema sonoro. Em 1939, John Ford, que ficou conhecido como mestre do gênero, realiza o filme “Nos tempos das diligências”.

Nos anos 40 , durante o período do pós guerra Hollywood surge como uma indústria que alcança uma enorme prosperidade. A vitoria dos Aliados permite a conquista de novos mercado como Japão, Itália e a Alemanha Ocidental. Porém ,em 1947, o Comitê De Atividades Anti-Americanas começou uma investigação sobre o comunismo em Hollywood. Muitos homens foram julgados e condenados á prisão. A partir daí muitas pessoas foram cassadas e impedidas de trabalhar pelo Comitê por suspeita de comunismo. Durante esse período muitas personalidades de prestígio dentro da indústria da Sétima Arte tiveram que emigrar da América para outros países, principalmente na Europa.

A chamada “Caça as Bruxas” do senador McCarthy é um dos fenômenos mais escuros dos Estados Unidos durante o século XX. Esse foi um fenômeno típico da Guerra Fria, da divisão entre dois blocos ( o capitalista, liderado pelos Estados Unidos, e o comunista da União Soviética ). Em outubro de 1947 dez diretores ( os Dez de Hollywood) foram chamados para interrogatório e os que se recusaram a responder ás perguntas foram condenados á prisão por um ano. Em 1951 as investigações foram reavivadas e cerca de 214 pessoas perderam seus empregos no mundo do cinema e muitos outros foram condenados ao ostracismo.

Para o cinema americano a anterior prosperidade foi dando lugar a uma fase negra agravada pela popularização da televisão e uma perda progressiva de espectadores.

Mesmo assim o cinema continuou a produzir e em 1952, o também perseguido diretor Fred Zinneman faz do western um veículo para sua visão da sociedade americana e alcança grande êxito com o filme ” Matar ou morrer “.

Filme “Matar ou morrer” (1952)

Story-line – Figura de um xerife que personifica o ideal de herói ao enfrentar ,sozinho, bandidos que querem matá-lo.

Sinopse – Baseado em The Tim Star, de John Cunningham, o filme conta uma história de vingança onde um xerife, no dia de seu casamento, recebe a notícia de que um bandido que ele havia prendido anos atrás estava voltando para matá-lo.

Ao invés de ir embora com a esposa o xerife decide ficar e lutar com inimigo pela paz e ordem da cidade. Porém, devido ao medo e respeito da população pelo bandido, se vê sozinho nesse conflito, incorporando o papel do herói solitário e abandonado a própria sorte.

Características – Muito mais que um western, este filme, segundo Claude Baylie, ensaísta francês, pretende ser uma parábola sobre a coragem individual diante da covardia coletiva. Pode ser também, como já comentado acima, uma paráfrase ao horror macartista na sociedade americana.

O filme possui uma estrutura narrativa com um absoluto respeito à unidade de tempo, que serve para potencializar o suspense á medida que a hora fatal vai chegando. ” Matar ou morrer” é um filme sólido e que contraria características tradicionais do gênero pois não se apoia totalmente na ação física. Para sinalizar o avanço temporal, é mostrado sempre um plano de detalhe de algum relógio onde se encontre o personagem. A dimensão psicológica dos personagens adquire, nesse filme, uma grande importância: a descrição minuciosa da conduta de cada um, a crescente angústia do xerife situado entre a obrigação moral e o instinto de conservação. O diretor pretende refletir, através disso, uma época em que muitos setores do país ficaram paralisados pelo medo, ao contrário de outros poucos, que assumiram sozinhos suas graves responsabilidades morais.

“Matar ou morrer” tem uma iluminação bastante funcional, inserida nas situações dramáticas, assim como a música de Dimitri Tiomkin, cujo tema principal se torna um clássico da música para cinema e serve para narrar, no início e em partes do filme, o sentimento do xerife.

Filme ” Os imperdoáveis” (1992)

Story-line – O filme conta a estória de um homem atormentado pelo seu passado de crimes e pela morte da mulher que o salvou desse mundo cruel.

Sinopse – Bill Munny é um matador que abandonou a bebida e o crime ajudado pela esposa. Depois da morte dela Bill se vê sem dinheiro e precisando cuidar de seus filhos. Surge então a proposta de fazer um último serviço: matar dois homens que teriam, cruelmente, desfigurado a facadas uma prostituta. Atrás da recompensa oferecida pelas mesmas Bill parte em companhia de um jovem que não enxerga bem e de seu parceiro veterano para executar o serviço. Entretanto, eles terão também que enfrentar o autoritarismo do xerife Little Bill que não permite a entrada de armas em sua cidade.

Características – ‘Os imperdoáveis” é um filme que tem uma narrativa clássica e com todos os ingredientes clássicos do gênero, porém a diferença está no tratamento dado ao tema. Com diálogos simples mas eficientes, o roteiro foge dos clichês e consegue questionar mais do que o mito do cowboy; ele questiona o mito norte-americano. O drama psicológico e existencial do personagem principal é muito forte, assim como a figura do xerife que, superficialmente, representa um homem simples e determinado, mas que aos poucos vai se revelando um matador frio e vaidoso.

O filme é considerado um marco da produção moderna no gênero western e traz como características marcante do gênero os grandes planos gerais, a figura dos heróis solitários e uma trilha sonora bem marcada e concisa.

O mito do cowboy

Sobre a base da realidade histórica, o western, de fato, construiu uma mitologia .Nele, o “cowboy” é elevado à dignidade de mito: o mito do homem livre, próximo de suas raízes telúricas e captadas num estado nascentes da sociedade, à qual tem de impor, pela força, a ordem e a prosperidade.

De acordo com o crítico francês André Bazin, na origem do mito há uma ética da epopéia e da tragédia. Os heróis do “western”, forjados à medida do homem (medida essa que contrasta com a grandeza legendária de seus empreendimentos)são acompanhados de um estilo de encenação grandiloqüente, que traduz o espírito épico nas composições das imagens, na predileção pelos vastos horizontes; os próprios títulos dos filmes quase sempre propõem e recordam o confronto do homem com a natureza. A base mítica do “western” reforça-se, por exemplo, pela simplicidade elementar do caráter das personagens e pela carga simbólica de cada uma. Basta que se perceba a clara divisão dos mundos masculino e feminino: no primeiro reinam a sabedoria, a coragem, a prepotência; no segundo, a fragilidade, o espírito de sacrifício e não raramente a futilidade. Ainda segundo Bazin, a mulher é a “vestal das virtudes sociais”. Esposas, irmãs, noivas, têm funções autônomas a cumprir e objetivos distintos a atingir. Mas, de acordo com Robert Warshow, as prostitutas formam uma exceção, podendo dividir a visão de mundo do herói porque gozam de uma “independência quase masculina, não pertencem a ninguém e, diferentemente da mulher honesta, não constituem um valor que deva ser protegido”, assim como acontece no filme “Os imperdoáveis”.

Conclusão

O western representou um grande momento da história do cinema e, principalmente, da indústria hollywoodiana e da história dos Estados Unidos. A historiadora americana Eliza Franklin escreveu na década de 50 : ” O western foi o primeiro gênero cinematográfico a aparecer, o primeiro no coração do público cinematográfico de todas as idades por cerca de vinte anos, e o primeiro nos corações das crianças por quase cinqüenta anos. Possui ainda atração para os jovens e está agora recapturando a platéia adulta. Isto é um recorde de duração e execução que poucas vezes tem sido igualado por qualquer outro tipo de entretenimento”. Muitos avanços e créditos devem ser dados ao gênero western que, assim como os outros gêneros e elementos da história do cinema, nos fazem aprender, compreender e apreciar a arte que é fazer um filme.

Bibliografia

MACHADO, Arlindo. Pré-cinemas e pós-cinemas. Ed. Papirus, Campinas,1987

BAZIN, André. O cinema. Ed. Brasiliense, São Paulo, 1991

XAVIER, Ismail. O cinema no século. Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1996

SADOUL, Georges. História do Cinema Mundial. Ed. Martins

COSTA, Antônio. Compreender o cinema. Ed. Globo, São Paulo, 1989

INTERNET

Cinema e Ideologia

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Autoria: Patrícia Wanderley

CINEMA E IDEOLOGIA

“Ideologia: um mascaramento da realidade social que permite a legitimação da exploração e da dominação. Por intermédio dela, tomamos o falso por verdadeiro, o injusto por justo(…)”

CHAUÍ, Marilena. O que é Ideologia?

Segundo Marilena, “(…) os homens produzem idéias ou representações pelas quais procuram explicar e compreender sua própria vida individual, social, suas relações com a natureza e com o sobrenatural. Essas idéias ou representações no entanto, tenderão a esconder dos homens o modo real como suas relações sociais foram produzidas e a origem das formas sociais de exploração econômica e de dominação política.”. Para ela, é justamente esse ocultamento da realidade social que podemos chamar de Ideologia. Através dela, “os homens legitimam as condições sociais de exploração e de dominação fazendo com que pareçam verdadeiras e justas”.

O cinema como meio propagador de idéias políticas, econômicas e sociais, torna-se então, um veículo eficaz no “doutrinamento” das massas e consolidação de ideologias. Graeme Turner nos diz que nós “nos identificamos com” ou vemos a nós mesmos na tela. Para Metz, “a natureza do ato de ir a uma sala de projeção é tal que o próprio aparato do cinema nos convida à identificação. (…)Quando é recebida como perspectiva de visão numa série de imagens projetadas, a câmera torna-se um substituto dos olhos”. Segundo ele, mesmo que a câmera mostre uma série de imagens do ponto de vista da personagem do filme, ela geralmente toma a perspectiva da autoridade narradora, que identificamos como sendo o do público, ou seja, o de nós mesmos. Graeme Turner ainda nos diz que, nos identificamos com todos os personagens em vários pontos da narrativa, uma consequência de vermos a tela do cinema como se fosse uma extensão de nossas vidas reais, ou seja um “espelho de nós mesmos e do nosso mundo”.

Citaremos aqui suscintamente três exemplos de uso do cinema como propagador de ideologias. Falaremos sobre o caso da Rússia e o cinema de Eisenstein, sobre o cinema Nazista de Leni Riefenstahl, e sobre os pequenos documentários produzidos por Jean Manzon para o IPÊS (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais), patrocinados por capital americano e que apesar de curtos (eles tinham entre 8 e 10,30 minutos de duração, segundo constatou José Louseiro em análise dos mesmos), conseguiram passar muito bem sua mensagem, contribuindo para a queda de Jango e para a subida dos militares ao poder. Os filmes exaltavam abertamente a defesa da família, propriedade (privada) e religião, ao mesmo tempo em que atacavam os “baderneiros” e “agitadores”comunistas, ateus inimigos da Igreja e defensores da estatização.

A RÚSSIA E O CINEMA DE EISENSTEIN

Após a Revolução de 1917, o cinema Russo passou a ser financiado pelo Estado e tinha como objetivo divulgar a ideologia do Partido para a população Russa que era formada na sua maioria esmagadora por agricultores, gente humilde do campo e sem muito estudo. O cineasta escolhido pelo partido para realizar tais filmes foi então Sergei Eisenstein. Trataremos aqui mais especificamente de “Outubro”.

O filme foi encomendado a Eisenstein pelo Comitê Central do Partido em vistas às comemorações do 10º Aniversário da Revolução de Outubro. A versão oficial de “Outubro” é introduzida por uma narrativa afirmando ser este “um testemunho honesto e preciso do começo do Estado socialista”, tendo sido tudo retratado fielmente aos acontecimentos. Porém, cabe aqui uma reflexão, pois, o filme original foi praticamente multilado – à época do filme existia uma censura feroz – sendo assim a versão oficial deve ser vista no mínimo com ressalvas, pois, talvez a obra em sua totalidade trouxesse elementos significativos, sem os quais procurou-se limitar a visão dos fatos, direcionando-os para as novas diretrizes do partido. Notadamente a versão oficial foi suprimida pela censura em mais de uma hora de filme, principalmente nas cenas em que Trótsky, e outros dirigentes do partido, apareciam, exaltando assim a figura de Lênin, o que seria feito novamente em outros filmes de Eisenstein, como “Ivan, O Terrível” e “Alexandre Nevski”. Contudo, o filme não é meramente propagandístico como assim era o desejo dos burocratas do partido. No filme, o partido bolchevique é destacado, mas não é exaltado, e a presença do povo é muito forte, as massas são apresentadas como elemento essencial para o processo revolucionário.

Para a produção do filme, Eisenstein contou com todo apoio governamental, o palácio de inverno chegou a ficar meses a sua disposição, chegando ao ponto de deixar Leningrado sem luz para fornecer energia ao filme. Na produção do filme participaram operários, soldados, e marinheiros, que realmente lutaram na revolução de 17.

Apesar de manter características dos filmes anteriores, outubro é um filme que apresenta transformações, Eisenstein utiliza-se do que ele denominava de montagem intelectual, a imagem de objetos tomados em sua função metafórica criando conceitos na cabeça do espectador, o cinema deveria “pensar por imagens em vez de narrar por imagens”. O resultado foi a utilização de uma linguagem mais complexa, talvez pelo fato de o diretor não mais contar com a liberdade de antes.

O CINEMA NAZISTA DE LENI RIEFENSTAHL

Leni, a escolhida de Hitler para realizar os filmes de propaganda do Partido Nacional Socialista Alemão, prepara e dirige “O Triunfo da Vontade”, filme que acabou se tornando um símbolo do III Reich. O filme retrata o congresso do Partido Nazista em Nuremberg.

“Pode-se dizer que a mis-en-scène do Congresso foi desenhada em conjunto com a produção do filme, tal a perfeição com que se desenrolam as cenas captadas por 36 câmeras. Desde que, como um Deus, Hitler desce dos céus, passando pelas grandiosas cenas de impressionante demonstração de unidade e disciplinas dos membros do Partido Nazista, até cada mínimo detalhe das cenas mais próximas do Führer e seus colaboradores, das crianças perfiladas, das mulheres saudando das janelas.
Tudo..com..um..mínimo..de..narração.

(…) “O triunfo da vontade” é a demonstração e a síntese do que pode um documentário fazer como propaganda (entendida no seu sentido mais amplo) de um homem, um regime, um ideário”.

No filme podemos destacar as imagens da chegada de Hitler, onde a população o saúda numa espécie de desfile, há várias imagens em “close” da população onde observamos uma maioria de mulheres e crianças, ficando a imagem dos homens praticamente restrita apenas aos soldados nazistas que desfilavam junto a Hitler, dando a idéia de que todos os homens estavam alistados no exército e que esse era seu dever, servir para proteger suas mulheres e crianças, seu país. Podemos destacar também as panorâmicas do congresso no campo de pouso em Nuremberg, onde vemos todos os soldados enfileirados – que de longe nem parecem gente, mas sim um formigueiro – , o que nos remete à idéia de ordem e disciplina, imagens indiscutivelmente belas do ponto de vista estético, porém, que chegam até a causar calafrios de tão assustadoras, quando lembramos todo o poder que elas representam, o que poderia ter acontecido ao mundo caso Hitler não fosse derrotado na guerra, e também tudo o que aconteceu enquanto ele estava no poder. As imagens dos Diretores do Partido discursando também nos passam forte idéia de poder, força, deles são mostrados trechos selecionados de seus discursos, onde instigam os soldados a confiar no partido – tudo para a Alemanha e pelo povo alemão! – , como se este fosse a única salvação para a Alemanha da época.

Contudo podemos concluir que é uma obra de arte belíssima, porém no mínimo macabra.

OS CURTAS DE JEAN MANZON PARA O IPÊS

Oficializado em 2 de fevereiro de 1962, o IPÊS, Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais, uma “sociedade civil sem fins lucrativos com tempo indeterminado, de caráter filantrópico e intuito educacional, e tendo por finalidade a educação cultural, moral e cívica dos indivíduos”, tinha como objetivo real, influenciar a burguesia e a classe média, para que não houvesse resistência ao golpe militar. O IPÊS utilizava-se de documentos, seminários e filmes que eram disseminados em empresas sindicatos e grêmios estudantis, principalmente o de Universidades como a Mackenzie e a Faculdade de Medicina de São Paulo. “A propaganda massiva e cientificamente preparada por aquele Instituto durante dois anos, hoje se sabe, pavimentou a queda do governo de Jango, que segundo a idéia do empresariado, alterariam as relações econômicas e sociais do país, ameaçando as tradições, a família e a propriedade. Foi a reação da direita conservadora à mobilização da classe trabalhadora em torno das chamadas reformas de base”. Denise Assis cita “A Conquista do Estado – Ação Política, Poder e Golpe de Classe”, de René Dreifuss , no qual ele explicita que o que aconteceu em 1964 não foi puramente um golpe militar conspirativo, mas sim o resultado de uma campanha política, ideológica e militar que vinha sendo encabeçada pelo IPÊS e pelo IBAD.

O escolhido para dirigir os filmes do IPÊS foi o Francês Jean Manzon, repórter fotográfico da extinta revista “O Cruzeiro” e colaborador do DIP durante a ditadura Vargas. Através da Jean Manzon Films S.A. foram produzidos 15 filmes p&b, 16 mm, que faziam apologia ao golpe de 64. O roteirista, muito cuidadoso, nunca deixou seu nome aparecer nos créditos, porém especula-se que este seria José Rubem Fonseca, pois ele era o chefe dos redatores responsáveis pela confecção de todo o material de propaganda do IPÊS.

Para a produção dos filmes, Manzon contava com dinheiro, bom material e técnicos de primeira, o que levava a uma boa aceitação por parte do público, que chegava muitas vezes a vaiar os curtas nacionais devido a péssima projeção e ao som ruim. Os filmes de Manzon eram exibidos antes dos filmes estrangeiros, em cinemas lotados, onde chegava a levantar aplausos. O conteúdo dos roteiros era permeado de mensagens que pregavam o anticomunismo, a modernização das empresas e o engajamento do empresariado, e que o desenvolvimento só seria alcançado com segurança, liberdade e a livre-iniciativa das empresas privadas. “O autor se esmerava em convencer a burguesia e a classe média, sem a qual não haveria apoio ao golpe”. Embora Estes segmentos fossem o público alvo dos filmes, estes também eram exibidos em favelas e bairros de periferia, onde se montavam verdadeiros “cinemas ambulantes”, estes não passavam de caminhões com projetores, doados pela Mesbla. Segundo Denise Assis, a exibição dos filmes em tais locais tinha o propósito de despolitizar os mais humildes e induzi-los a idéia de que se é muito simples passar do “estado de miséria” para um “estado de riquezas”, para isso bastando apenas ter a sorte de ganhar na loteria ou de arrumar um bom casamento. Segundo ela, a mesma fórmula (apelo à sorte) seria utilizada nas novelas televisivas logo após a instauração da ditadura.

Os curtas obedeciam a uma idéia geral e foram planejados de maneira a não deixar nenhum setor de atividade de fora, de maneira a avaliar todos ao longo dos filmes. Em linhas gerais, eles passavam que a nação estava impedida de evoluir devido a ação dos “baderneiros”, que seriam os comunistas. Evitando a ação deles,

“(…)tudo de bom aconteceria e a Nação como que num passe de mágica, passaria do plano da mambembice econômica para o sonhado estágio do enriquecimento galopante (…) Segundo a ótica fantasiosa dos ipenianos e do seu cineasta, trabalhadores e patrões atuariam irmanados, pois se uns contabilizariam grandes lucros, outros teriam a certeza de poder viver com um mínimo de dignidade, na sociedade quase perfeita, católica e temente à Deus e a Igreja”.

As fitas eram espalhadas por cinemas em todo o Brasil, para serem exibidas em sessões regulares ou especiais, a partir de um acerto feito com as empresas distribuidoras e com os exibidores. O Sesi e o Senac exibiam os filmes para seus alunos e funcionários, sempre seguido de uma fita americana, com o propósito de tornar a “propaganda anti-comunista menos indigesta”. Num dos filmes, Jean Manzon chega a colocar lado-a-lado Fidel Castro, Stálin e Hitler, com o objetivo de mostrá-los como “figuras ameaçadoras que poderiam estender suas práticas comunistas até o Brasil”.

Fica claro a influência e importância que os filmes produzidos pelo IPÊS tiveram à época, contribuindo enormemente para a “formação” de opiniões que consentissem com a ideologia proposta pela “classe burguesa dominante” e que abriria o caminho para a derrubada do poder em vigência pelos militares.

Podemos concluir dessa forma que, a partir dos três exemplos acima citados, entendemos o quão importante é o cinema como meio de comunicação e como ele pode se tornar uma “arma ideológica” eficiente e perigosa quando a serviço de pessoas inescrupulosas ou de uma classe dominante, que objetivam tomar o poder ou nele se manter.

“Segundo Ferro, o filme seria uma importante fonte para revelar tanto aquilo que o autor busca expressar – que está contido na narrativa, as idéias sobre determinados personagens, fatos, práticas ou ideologias – como para se perceber o que não se queria mostrar, como os modos de narrar uma história, a maneira utilizada para marcar as passagens do tempo, os planos de câmera. A partir destes seria possível penetrar, de acordo com Ferro, em “zonas ideológicas não-visíveis” da sociedade”.

BIBLIOGRAFIA:

– CHAUÍ, Marilena. O Que é Ideologia. 38ª edição, são Paulo, Brasiliense, 1994.

– TURNER, Graeme. Cinema como Prática Social. São Paulo Summus, 1997.

– ASSIS, Denise. Propaganda e Cinema a Serviço do Golpe, Rio de Janeiro, FAPERJ/MAUAD, 2001.

FILMOGRAFIA:

– Outubro, Sergei Eisenstein (1927).

– O Triunfo da Vontade, Leni Riefenstahl (1934).

Construtivismo no Cinema Russo – Eisenstein

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Autoria: Moacir Rener

CONSTRUTIVISMO RUSSO EISENSTEIN

CURITIBA

2005

Construtivismo e as vanguardas européias

Na Europa, no final da década de 1910 (e com mais intensidade nos anos 20) desenvolve-se uma interação entre cinema e vanguardas artístico-literárias, principalmente na França e Alemanha. Nos países nórdicos, a produção cinematográfica, desvinculada desses movimentos, é marcada por grande lirismo e beleza plástica. Na Rússia, o cinema é dirigido para as questões políticas e sociais.

Construtivismo – histórico

Para o construtivismo, a pintura e escultura são pensadas como construções (e não como representações), guardando proximidade com a arquitetura em termos de materiais, procedimentos e objetivos. O termo liga-se ao movimento de vanguarda russa e a um artigo do crítico N. Punin, de 1913, sobre os relevos tridimensionais de Vladimir Evgrafovic Tatlin (1885-1953). Os pressupostos construtivos se fazem presentes, de diferentes modos, no cubismo, no dadaísmo e no futurismo italiano.

A ideologia revolucionária e libertária que impregnou as vanguardas em geral, vai adquirir feições concretas na Rússia, diante da revolução de 1917. A nova sociedade projetada no contexto revolucionário mobiliza os artistas em torno de uma arte nova, que se coloca a serviço da revolução e de produções concretas para a vida do povo.

Das pesquisas iniciais, em estreito diálogo com as pinturas abstratas e geométricas de Malevitch, o artista passa às construções tridimensionais, encontrando na fotografia um meio privilegiado de expressão e registro pictórico da nova Rússia. Sua perspectiva fotográfica original influencia de perto o cinema de Eisenstein.

Construtivismo russo

O construtivismo russo buscava a investigação sistemática da lógica formal e material da arte, o mergulho nas possibilidades técnicas dos meios de expressão. Dentro da construção de uma nova sociedade, o artista era visto como um construtor, um engenheiro visual.

O movimento do construtivismo leva o cinema a retratar etapas da Revolução de 1917 e a difundir seus ideais. O teórico e cineasta Serguei Eisenstein (1898-1948), diretor de A Greve (1924) e Outubro (1928), é o principal expoente. Seus filmes pretendem apresentar idéias para discussão, em vez de contar histórias. A montagem das cenas explora o contraste das imagens. O Encouraçado Potemkin (1925), seu filme mais importante, é uma obra de propaganda realizada para comemorar os 20 anos do levante popular russo de 1905, precursor da revolução.

A fotomontagem transforma a experiência do “ver o familiar” para poder “enxergar o não-familiar”, encorajando as pessoas a ver o mundo sob novos pontos de vista.

Vertov e Eisenstein, magos do cinema, trouxeram o conceito de montagem cinematográfica explorando a multiplicidade de focos, a multiplicidade de sentidos ao se construir um discurso. Vertov fundou a revista Kino-Pravda (Cinema-Verdade) e o movimento Kino-eye (Cinema-Olho), cujo objetivo era descortinar a “fabricação” da imagem, revelando a interferência do diretor (e dos técnicos envolvidos na captação e edição da imagem) na documentação da realidade, contestando a noção de realidade única. A realidade do país também é tema dos novos cineastas como Aleksandr Dovjenko, Eduard Tissé e Lev Kuleshov.

Serguei Eisenstein (A greve) e Vsevolod Pudovkin (A mãe) retratam as principais etapas da Revolução de 1917, renovando as técnicas de angulação e movimentação da câmera, iluminação e montagem.

Serguei Eisenstein (1898-1948)

Sergei Mikhailovitch Eisenstein é o diretor russo de grande expressão mundial, é considerado o grande inovador da montagem cinematográfica. Cursa engenharia, quando é chamado a prestar serviço militar, em 1917. Ainda no Exército Vermelho, torna-se caricaturista e, a partir de 1921, trabalha como cenógrafo no teatro moscovita. No cinema, sua teoria da montagem (duas imagens sucessivas provocam uma significação) já está presente em seu primeiro filme, A greve, de 1924. Ganha força com a utilização simbólica do ritmo e de planos longos em O encouraçado Potemkin, de 1925, sua obra-prima, em homenagem à Revolução Russa. Outubro (1927) e Ivan, o terrível (1945) também são tidos como marcos do cinema mundial.

Na Rússia dos anos vinte, a regra era fugir de qualquer manifestação artística que lembrasse os tempos do Czarismo. Os teatros deixaram de exibir peças de inspiração romântica ou erudita, e urgia criar uma nova fórmula para os espetáculos, algo que servisse aos propósitos da revolução e fizesse sentido num cenário cultural onde o construtivismo agora reinava absoluto.

Com base em estudos sobre a teoria dos marionetes de Kleist, a ginástica expressiva de Bode, e o sistema fisionômico de Lavater, Eisenstein monta uma teoria priorizando a economia de gestos (poucos mas marcantes) e expressões (máscaras vivas): cada movimento do ator deve corresponder a uma necessidade específica da peça, todo o resto é supérfluo. Com a narrativa assim reduzida à sua essência, todos os momentos passam a ter suprema importância, provocando uma sucessão de estímulos muito fortes no espectador.

A montagem de atrações teve uma influência importante no futuro trabalho cinematográfico de Eisenstein. Depurada e adaptada a um novo meio, acabou sendo fundamental na criação de toda a sua técnica de montagem, que opunha cenas diferentes (atrações) para criar impacto significante (estímulo).

Eisenstein – obras

A Greve

Em 1924, o jovem Sergei Eisenstein, então com 26 anos, dirigiu o filme que mudaria a estética e a linguagem do Cinema Soviético, A Greve é uma visionária experimentação de manipulação de imagem. Recriando brilhantemente a greve que ocorreu em 1912 na Rússia Czarista, num conflito entre operários e polícia.

O Encouraçado Potemkin

Se os americanos celebram por terem “Cidadão Kane” o maior filme de todos os tempos, os russos também encabeçam esta lista com a grande obra-prima O Encouraçado Potemkin. Para quem quiser compreender o cinema atual, do roteiro a montagem, assistir Potemkin é obrigatório. Repleto de poderosas imagens e uma montagem muito avançada para a época. A seqüência da Escadaria de Odessa, em que as tropas do Czar massacram homens, mulheres e crianças, é a mais famosa e imitada da história do cinema. Em seu segundo longa-metragem, Eisenstein já era tido como um grande e revolucionário cineasta.

Outubro

Terceiro longa-metragem de Eisenstein, que ele fez para comemorar os dez dias de Revolução Soviética, em 1917, durante os quais os bolchevistas derrubaram o governo Kerensky. Outra obra máxima de Eisenstein. Aqui ele usa, de forma impressionante, métodos experimentais e sofisticados de montagem, baseada no choque entre imagens para comunicar idéias abstratas, e o conceito das massas como herói. Filme obrigatório aos amantes da sétima arte, pleno de criatividade e forte apelo político social.

Alexander Nevsky

Em 1924, a Rússia sofria constantes invasões pelos cavaleiros mongóis, o príncipe-pescador Alexander Nevsky (Nicolay Cherkassov) soube da invasão pelos teutônicos ao país. O povo se mobiliza e o escolhe seu comandante. Apesar da maioria das vitórias serem teutônicas, quando estes dominavam a cidade Pskov, são batidos por Nevsky na Batalha do Gelo. Paralelamente a este cenário em 1938, a Rússia estava na eminência de ser atacada por Hitler, situação que espelha o ocorrido em 1242. Ironicamente, o filme foi tirado de circulação quando da assinatura do pacto Germânico-Soviético em 1939.

Ivan o Terrível Parte 1

Ivan é coroado e depois, devido à oposição dos nobres da corte e a guerra contra os tártaros, é obrigado a abdicar. Extravagância é a definição correta para descrever esta magnífica obra de Eisenstein. Cada fotograma é um espetáculo visual. Com ângulos de câmera oblíquos, cenários gigantescos, vestuário riquíssimo em detalhes e ótimas interpretações, principalmente de Nicolai Cherkasov, como o Czar Ivan. Este épico de grandeza operística, teve uma forte influência da estética expressionista germânica.

Ivan o Terrível Parte 2

O Czar Ivan engana os nobres de sua corte enquanto cria um exército particular, que o ajudará a reinar novamente. Tendo como objetivo unificar os diversos territórios russos em um Império único. Alia-se a sua poderosa tia Eufrosinia, que trama colocar seu filho no trono. Nesta segunda parte, o espetáculo pictorial continua, agora acrescido de cores vistosas. Stalin fez objeções à forma como o Czar foi retratado, frágil e vacilante. Resultando na proibição do filme na URSS até 1958.

Construtivismo – princípios

O princípio construtivista está mais presente na idéia de uma construção. O próprio Vertov associou os fotogramas com tijolos, que, unidos, formam uma casa. O entusiasmo com a tecnologia está expresso na admiração dos construtivistas pelas máquinas, que representam a racionalidade do futuro: captada essencialmente pela força da câmera, de modo a construir uma nova sociedade.

A câmera filmaria os fatos cotidianos assim como eles se apresentam, sem qualquer intervenção externa aos elementos de seu estado natural, num sentido de urgência e especialmente de imprevisto. Para a teoria de Vertov, há uma necessidade do registro das imagens sem que o processo de filmagens interfira no comportamento natural dessa realidade, isto é, os fatos do cotidiano precisam ser filmados sem que haja a consciência da existência de uma filmagem, o que poderia destruir a espontaneidade do registro.

Sendo Vertov um documentarista, sua teoria guarda um profundo interesse pela noção de verdade. A verdade, para Vertov, não estaria imbuída nos fotogramas dos cine-fatos. Estes seriam apenas a primeira parte, a metéria-prima do legítimo processo de busca da verdade. A função do cineasta-engenheiro é exatamente reorganizar os cine-fatos, usando complexas associações rítmicas e espaciais, para construir uma verdade.

A montagem é fundamental para Vertov por meio da aplicação de sua teoria dos intervalos. Mais que o fotograma em si, o impacto na percepção do espectador é intensificado na relação de um fotograma com o próximo. Devido ao fenômeno da persistência da visão, o espectador permanece com a imagem de um fotograma em seu sistema cognitivo mesmo segundos depois que este já não mais está exposto na tela. Por isso, o efeito perceptivo está nos intervalos entre os fotogramas, possíveis em decorrência do corte. Através de um ilusão estroboscópica, haverá uma sobreimpressão da imagem anterior e o novo fotograma, que o sucede, agora exposto na tela. Essa impressão de súbita simultaneidade, passando uma idéia de movimento, é chamado de “efeito phi”, liberando uma energia cinestésica através de um efeito puramente ótico.

Através da montagem, Vertov utiliza esse efeito para diferentes funções. Seu cinema não se restringe ao aspecto interplano, mas também intraplano. Vertov utiliza movimentos no interior do plano para compor um balé rítmico de movimentos, assim como associações entre formas (esferas, cubos, linhas, etc.) e movimentos de câmera variados.

Construtivismo – cinema e comunicação

Lênin assinava, dia 27 de agosto de 1919, o decreto que enterrava o velho cinema czarista, dando origem a uma nova vaga. Na frente de batalha, em que os bolcheviques combatiam os exércitos apoiados por potências estrangeiras, estavam Tissé, Koulechov e Dziga Vertov rodando atualidades.

Para ensinar, como pretendiam os irmãos Lumière, a ver … a verdade das coisas. A União Soviética foi berço de algumas das melhores obras do cinema mundial. Um dos considerados 10 melhores filmes de sempre é o “Couraçado Potemkim” de Seguei Eisenstein. Desde os primeiros dias do poder dos sovietes que o cinema foi escolhido como ‘arte principal’.

O cinema era o principal meio de comunicação num país de vários milhões de analfabetos e com cultura visual riquíssima. O cinema era o mais poderoso meio de propaganda e informação. Tornava-se imperativo desenvolver o cinema e desenvolvê-lo do lado ‘da lei’.

O que Vertov introduz de novo é outra maneira de fazer ver a coisa, através de processos narrativos que desde sempre tinham sido hostis ao cinema. Serguei Eisenstein explicava a sua teoria da montagem de atrações no mesmo número da revista Lief em que Vertov expunha seus princípios.

Já na “Greve” surgia um novo conceito de protagonista: o povo!

Não é de admirar que numa época de socialização de tudo, numa época de massificação da arte, se massifiquem os astros. Estes passam a ser as cidades, o povo em geral, a revolução, os sonhos. E quando temos protagonista este representa toda uma classe ou um ideal.

Sem dramas pessoais ou intrigas amorosas – não há tempo para isso numa terra que sonha com o fim da fome e o aniquilamento do inimigo.

Uma das seqüências mais famosas da história do cinema, imitada posteriormente várias vezes, é a cena da escadaria de Odessa, no filme do “Couraçado Potemkin”. O ritmo (um dos grandes assuntos de estudo de Eisenstein) é impressionante. O espectador sente-se lá, nas escadas, agredido pelos soldados do Czar.

Talvez Eisenstein não tivesse sido tão importante para o cinema mundial, se não tivesse ‘explicado’ o porquê das coisas. O porquê da montagem rítmica, universalmente entendível a todos os seres humanos. Só assim o ocidente compreendeu, e acolheu, as teorias dele. Ele racionalizou o cinema. Associava Eisenstein às suas idéias, impregnadas de teorias vanguardistas assimiladas na literatura e no teatro, aos princípios de Vertov e Koulechov. Queria ele reproduzir a vida em toda a sua crueza e daí deduzir uma transcendência social e filosófica. Introduzia assim o cérebro – agente por excelência do homem que quer dominar o seu futuro – como protagonista do seu cinema.

Construtivismo e realismo

Embora a palavra “realismo” não seja muito freqüente na obra teórica de Serguei Eisenstein, parece consistente que seu objetivo era apontar para a capacidade do corte de neutralizar a visão ideológica e, assim, abrir caminho para a construção de um novo olhar.

Mediante a montagem, Eisenstein pretendeu conferir à imagem o mesmo estatuto da palavra e que, felizmente, foi a inviabilidade deste projeto que manteve quase intacta a força de seu talento em resgatar a realidade.

Ao longo de sua história, o cinema apresentará vários exemplos de reportagens e documentos naturais “dirigidos” parcial ou integralmente como as obras de Eisenstein (em Outubro, a cena dos conflitos de rua) e Tarkovski (a seqüência dos soldados de O espelho), se valem de documentos de arquivo, com graus diversos de integração à narrativa propriamente ficcional.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E SITES VISITADOS

Sites pesquisados

Obs.: todos os sites visitados em 16/05/2005

http://www.conhecimentosgerais.com.br/cinema/vanguardas-europeias.html

http://www.universidadefm.ufma.br/vernoticia.php?idNoticia=1353

http://www.itaucultural.org.br/AplicExternas/
Enciclopedia/artesvisuais2003/index.cfm?fuseaction=Detalhe&CD_Verbete=3256

http://www.2001video.com.br/detalhes_produto_extra_dvd.asp?produto=3419

http://www.burburinho.com/20030320.html

http://www.geocities.com/Hollywood/Agency/8041/vertov.html

http://semiosfera.incubadora.fapesp.br/portal/grupo/historico

http://www.iar.unicamp.br/disciplinas/am540_2003/conceito_site.htm

http://www.contracampo.com.br/63/ukamau.htm

http://www.feranet21.com.br/artes/cinema/historia_cinema.htm

http://publique.rdc.puc-rio.br/revistaalceu/media/alceu_n5_Deane.

Crime Delicado

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Autoria: Ana

Resenha de Filme – “Crime Delicado”

Este se trata de um filme daqueles que enchem de orgulho pela expressão múltipla da arte, combinada com um tempero essencial característico do ser humano – o desejo. Com essa concepção o filme consegue através de uma salada de cinema, teatro e pintura atingir o objetivo de causar uma sensação de alívio e temor ao mesmo tempo. Temor reconhecidamente por trazer questões cotidianas que nos afrontam, tais como: amor e morte. E alívio por saber que nós todos estamos no mesmo barco e que o vento que sopra é gostoso!

O filme conta a história de um crítico de teatro que se apaixona por uma moça que se mostra totalmente aberta a um relacionamento despretensioso. Essa moça interpretada por Lilian Taublib se chama Inês. E Marco Ricca interpreta Antônio Martins. Inês é personagem de um artista plástico, José Torres Campana interpretado por Felipe Ehrenberg. Antônio – o crítico de teatro – sente ciúmes de sua nova paixão, quando vê a moça retratada em um painel de pintura fazendo sexo. A partir daí o filme se desdobra para cenas intercaladas de peças teatrais que retratam o “ciúmes” da mais variadas formas, e a busca de Antônio por sua amada. No clímax do filme a moça sente-se confusa com aquilo que Antônio supõem da relação entre ela e o pintor, e acaba por denunciá-lo por estupro.

Obra do romance de Sérgio Sant’Anna, retrata em “carne viva” o desejo da obra perfeita! Eu diria que é uma forma de expressar o amor, sexo e arte, mostrando a imperfeição de forma perfeita!

Fugindo um pouco da proposta central do filme, podemos vislumbrar textos interessantes, vibrantes, e passagens simples que causam um estranhamento e encantamento. Tem uma cena que Antonio ao ler um texto de Inês circula com sua caneta palavras chaves que amarram um sentimento, muito curioso para os profissionais que lidam com texto. Se não bastasse essa curiosidade muitos integrantes do elenco de atores não são profissionais da área, o caso de Inês, por exemplo. Há ainda passagens, em que as encenações teatrais buscam um texto bem preparado e de sentido profundo. Em contraste há textos simples, coloquiais e às vezes chulos.

Por fim, o filme termina na frente de uma juíza que julga Antônio pelo estupro de Inês.

A direção do filme ficou a cargo de Beto Brant. Uma produção que contempla uma estética variante, ora um momento, tem uma fotografia com um ângulo bem elaborado, ora a cena é feita na base do “feijão com arroz”, – ângulos clichês do cinema. Para quem gosta de filme que sentimentaliza o ser humano, que gosta de língua portuguesa e principalmente produção nacional, no mínimo vai se orgulhar de nosso cinema! E quem gosta de fazer uma leitura mais rebuscada de filmes, vai encontrar muitos elementos artísticos.

Recomendo que o espectador assista primeiro os extras do dvd, num sentido de conhecer um pouco o processo de construção das cenas, assim ter contato com o universo criativo do filme.

Ficha Técnica

Título Original: Crime Delicado

Gênero: Drama

Tempo de Duração: 87 minutos

Ano de Lançamento (Brasil): 2005

Estúdio: Drama Filmes / MG Ricca / Lumière / Estúdios Mega / Locall

Distribuição: Videofilmes

Direção: Beto Brant

Roteiro: Marçal Aquino, Marco Ricca, Beto Brant, Maurício Paroni de Castro e Luís F. Carvalho Filho, baseado em livro de Sérgio Sant’anna

Produção: Bianca Villar, Renato Ciasca e Marco Ricca

Música: Caco Faria e Álvaro Fernando

Fotografia: Walter Carvalho

Desenho de Produção: André Montenegro

Direção de Arte: Marcos Pedroso

Figurino: Joana Porto

Edição: Willem Dias

Elenco

Marco Ricca (Antônio)
Lilian Taublib (Inês)
Felipe Ehrenberg (José Torres Campana)
Maria Manoela (Maria Luíza)
Zecarlos Machado
Matheus Nachtergaele
Marcélia Cartaxo
Lourdes Hernández-Fuentes
Mário Schonenberg
Denise Weinberg
Nélson Perez
Alberto Guzik
Tácito Rocha
Cláudio Assis
Suzan Damasceno
Renata Bastos
Kelly McQueen
Xico Sá
Ziza Brisola
Elisa Band
Cássio Santiago
Fernanda Moura
Diego Ruiz
Paulo Moreno
Roberta Youssef
Tibério Scardua
Cris Perón

História do Cinema e Comparação de Gêneros

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Autoria: Ana Cristina

História do Cinema e Comparação de Gêneros

Citação 1

E agora, escolha uma sala de cinema boa com preço justo. Sugiro que escolha uma poltrona no meio e se ajeite, haá!.. Não se esqueça de comprar: as pipocas, refrigerantes, etc. lembramos para desligar telemoveis, peges, etc. Em caso de emergência, este cinema esta equipado com duas saídas de emergência a direita e 2 extintores. Depois de verificar tudo, e hora de fazer silencio, pois o filme: “Cinema 1″, vai começar agora. Tenha um bom filme.

UM POUCO DA CRIAÇÃO DO CINEMA

Paris( Franca), 8 de outubro de 1895, parecia ser mais um dia normal, como tantos outros, mas na altura do numero 14 do ” Boulevard des Capucines”, um simples cartaz fixado na entrada do “Grand Café”, despertava a atenção de algumas pessoas que estavam passando na rua. Mas por que um simples cartaz, despertou essa curiosidade? Acontece, que aquilo não era um simples cartaz, naquele momento as pessoas estavam presenciando, um marco histórico.

” Cinematographe Lumiere”, essa era a palavra que estava escrita no cartaz, com letras grandes e coloridas. Era essa palavra que chamava a atenção das pessoas. Afinal era um novo vocabulário. Um curioso perguntou, para outra pessoa:

– O que esta acontecendo aqui?

– Dizem que vai haver, uma exibição de imagens em movimento!- Respondeu a outra pessoa.

– Imagens em movimento? Como é possível?

– Não faço a menor idéia. Olhe o guardião do café, ele esta nos chamando para entrar, vamos lá?

– Vamos. Quero ver, que historia é essa!

As duas pessoas, junto com outras entraram, no “Grand Café”. Um clima de surpresa atiçava as pessoas. O guardião do café os guiou até um grande salão, que se encontrava no subsolo. Nesse salão, havia aproximadamente 33 cadeira enfileiradas, diante de uma pequena tela de projeção, e ao fundo se encontrava a primeira câmera de cinema.

Com as luzes ainda acesas, as pessoas vão se acomodando nas cadeiras. Algum tempo depois, as luzes da sala se apagam. O publico emocionado, prende a respiração, um barulho de engrenagens que começa a funcionar, vem da câmera de cinema. Uma nuvem de luzes branca se espalham pelo local, em direção a tela de projeção.

Do nada começam a brotar na tela, uma imagem de uma locomotiva a vapor em movimento, que corre em direção a platéia. A platéia fica com os olhos pregados na tela, não conseguindo acreditar direito, no que estava acontecendo.

Essa platéia, estava presenciando, os primeiros passos do cinema.

Os filmes dos irmãos Lumiere, eram curtos e mostravam o cotidiano da cidade,e não havia enredo. Simplesmente eles filmavam, o que de mais natural acontecia.

UMA BREVE DO CINEMA NO BRASIL.

Em 1896, apenas sete meses depois da histórica exibição dos filmes dos irmãos Lumière em Paris, realiza-se no Rio de Janeiro a primeira sessão de cinema no país. Um ano depois, Paschoal Segreto e José Roberto Cunha Salles inauguram, na rua do Ouvidor, uma sala permanente.

Em 1898, Afonso Segreto roda o primeiro filme brasileiro: algumas cenas da Baía de Guanabara. Em seguida, são realizados pequenos filmes sobre o cotidiano carioca e filmagens de pontos importantes da cidade, como o Largo do Machado e a Igreja da Candelária, no estilo dos documentários franceses do início do século. Outras exibições e aparelhos de vários tipos, como os animatógraphos, cineógrafos e vitascópios, surgiram em outras cidades, além do Rio, como São Paulo, Salvador, Fortaleza.

Durante os primeiros dez anos, o cinema brasileiro enfrentou grandes problemas para realizar a exibição de fitas estrangeiras e a fabricação artesanal de filmes, devido à precariedade no fornecimento de energia elétrica no Rio de Janeiro. A partir de 1907, com a inauguração da usina hidrelétrica de Ribeirão das Lages, o mercado cinematográfico floresceu. Cerca de uma dezena de salas de exibição foram abertas no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Citação 2

GÊNEROS DO CINEMA

DOCUMENTÁRIO

O objetivo do filme documental é ser o reflexo mais ou menos fiel da vida real. Seus pioneiros foram os irmãos Lumière, com suas tomadas da vida cotidiana, e Charles Pathé, com noticiários.

O filme não-ficcional inclui o documentário propriamente dito, o filme factual, o de viagens, o educativo, de treinamento ou didático; os cinejornais ou noticiários em desuso desde o aparecimento dos telejornais e, para alguns, os desenhos animados.

Este foi o primeiro gênero do cinema.

ÉPICOS E AVENTURAS

O filme épico e de aventuras, revela um mundo heróico de conflitos e combates, de grandes cenários, nos quais predomina a ação. Os pioneiros do filme épico foram os italianos, no cinema mudo, que louvaram o passado de seu país, e os soviéticos lhe deram um impulso épico com temas revolucionários.

FILMES DE GUERRA

Em tom patriótico ou crítico, os filmes de guerra apelam à violência como espetáculo. As duas guerras mundiais inspiraram muitas produções, das quais são importantes The Big Parade (1925; O grande desfile). A guerra do Vietnam também inspirou bons filmes nos E.U.A.

FILMES DE TERROR

A fantasia e o medo, despertos por personagens monstruosos ou sobrenaturais, como fantasmas, bruxas, demônios e vampiros, são os sentimentos que apelam os filmes de terror. Foi o modelo perfeito que se tornou um clássico dos filmes feitos em Hollywood na década de 1930. O gênero se tornou mais descritivo e violento e alcançou o auge com séries seguidas de monstros ressuscitados dos cemitérios.

FICÇÃO CIENTÍFICA

As viagens interplanetárias, as experiências nucleares e as especulações sobre mundos futuros são os temas da ficção científica, gênero próximo ao terror e ao bélico. O maior nome no gênero é o americano Steven Spielberg (E.T., Contatos Imediatos em Terceiro Grau).

FILMES MUSICAIS

Chama-se musical o filme em que as seqüências cantadas ou dançadas predominam. Nasceu com o cinema sonoro e se firmou nos Estados Unidos, com imitações em vários países, segundo o modelo dos espetáculos da Broadway.

FILMES COMÉDIA

Baseia-se a comédia no enredo e nas situações bem-humoradas e visa, sobretudo ao riso. A mímica, que predominou no filme silencioso, cedeu lugar às piadas de duplo sentido que depois consagraram os Irmãos Marx, Stan Laurel e Oliver Hardy (“O Gordo e o Magro).

FILMES POLÍTICOS

A temática política explícita tem sido tratada com freqüência pelo cinema contemporâneo. Foram muitos os especialistas nesse tipo de abordagem, tanto no documentário quanto na dramatização de episódios autênticos. Nas primeiras décadas da história do cinema, seus principais cultores foram os soviéticos, especialmente Eisenstein, autor de O encouraçado Potemkim e Strachka.

FILMES POLICIAIS E DE GANGSTERISMO

Os argumentos tradicionais do gênero policial envolvem crimes e criminosos, policiais e detetives particulares, gângsteres e ladrões. O tema preferido tem sido o do submundo onde campeia a miséria econômica e moral. O diretor mais célebre desse tipo de filmes foi Alfred Hitchcock, que usou o suspense para criar atmosferas de tensão e medo.

MELODRAMA

Centrado nas paixões humanas, o melodrama realça o trágico e o dramático e desenvolve conflitos individuais. Nele sobressaíram W. F. Murnau, com Sunrise (1926).

FILMES DE PROPRAGANDA

Os filmes de propaganda divulgam idéias sociais e políticas em defesa de determinada ideologia. Os primeiros a usá-los foram os soviéticos.

FILMES DE ANIMAÇÃO

Os precursores do desenho animado foram os franceses Émile Reynaud e Émile Cohl. O maior impulso veio de Walt Disney e seus seguidores nos Estados Unidos.

GÊNERO: COMÉDIA.

Imagine o cinema só com o Gordo, sem o seu companheiro Magro!

O cinema seria a mesma Coisa?

Segundo o dicionário Aurélio, a palavra comédia pode significar:

Obra ou representação teatral em que predominam a sátira e a graça.
A arte do teatro; teatro drama.
Fato ridículo
Fingimento, dissimulação, simulação.
A comedia tornou-se um gênero clássico graças a contribuição de atores magistrais, e alcançou altíssimos níveis poéticos e interpretativos.

Esse gênero de filme é o preferido de muitas pessoas, pois você há um maior entretenimento.

Umas das subdivisões, para o gênero Comédia, são: Comédia Requintada e a Comédia Besteirol.

Comédia Requintada: É todo o filme, que usa a comédia para fazer criticas sócias, econômicas e comportamentos da sociedade. Esse tipo de comédia, abre a cabeça de muitos seres humanos, e tem a preocupação de passar uma mensagem muito importante. Exemplos de filmes: Tempos modernos, Auto da comparecida, etc

Comédia Besteirol: É todo o filme, que só tem a intenção de nos entreter, sem se preocupar com: o cotidiano, com o mundo, etc. Estes filmes, alienam bastante as pessoas. A mensagem que estes filmes passam é: ” fique tranqüilo. Continue sentado na poltrona comendo pipoca, afinal pra que filosofar sobre o mundo? Pois tudo é bonitinho e uma gracinha”.

FILMES DE COMÉDIA REQUINTADA.

Aqui, iremos analisar separadamente dois filmes( 1 Nacional e 1 Internacional) de Comédia Requintada, depois vamos fazer uma comparação entre eles.

” Tempos modernos”( 1936-CHARLES CHAPLIN) )

Na sala do 2º ano do ensino médio, de um determinado colégio de São Paulo. Eram 11h da manha. e estava acontecendo a aula de História. O Prof: João, passou para os alunos o seguinte dever: cada aluno , tinha que escolher um filme de comédia requintada, e analisá-lo. Antonio, que era um aluno esperto, foi logo escolhendo o filme: ” Tempos Modernos” de Charles Chaplin.

O sinal da saída tocou, Antonio logo arrumou a sua mochila, e estava louco para começar a fazer o trabalho. Entretanto, depois já em casa, se lembrou que nada sabia daquele filme, ele soube desse filme, através de um amigo. Desesperado, Antonio começa a procurar informações, sobre este filme. Mas a única coisa que achou, foi um pequeno texto que falava sobre Charles Chaplin:

Citação 3

Indignado com a pouca informação, Antonio resolve sair a rua para pesquisar. Guarda consigo o pequeno texto num lugar fácil de achar. E pega o seu gravador, e finalmente sai para a rua. O tempo está aberto e bonito, porém não esta nada bonito para Antonio que não sabe para onde vai.

Logo, se lembra de um professor de história, que dava aulas em um cursinho, e mora perto dali. Antonio começa a caminhar, em direção à casa do professor. E já tem uma pergunta pronta.

Alguns minutos depois, já se encontra, na porta da casa do professor. Uma casa praticamente térrea, construída toda em madeira e com um pequeno jardim . Antonio, com a mão tremula, consegue tocar a campainha, o sim da campainha ecoou por toda a casa. durante os segundos seguintes houve um silencio no interior da casa, quando se ouve passos vindo em direção a porta. Antonio é atendido gentilmente pelo Professor Jorge. Depois de Antonio ter explicado a razão pela qual, ele se encontra ali. O Professor Gentilmente aceitou em ajuda-lo, tanto que o convidou para entrar, e tomar um delicioso café com biscoitos.

Algum tempo depois, já dentro da casa do professor. Antonio estava sentado confortavelmente numa poltrona da sala de estar, o Professor havia ido até a cozinha. Pouco tempo depois, o Professor aparece na sala trazendo uma bandeja de cafés com biscoitos, logo que pos a bandeja numa mesinha pequena, ele se sentou numa outra poltrona, perto de Antonio.

– Qual é a primeira pergunta, que você tem para me fazer meu jovem?- O Professor perguntou, enquanto pegava a xícara de café, e tomava um gole.

– Bem…, Tempos Modernos, é considerado uma obra-prima na historia do cinema. Eu gostaria de saber qual a critica, que esse filme faz?- Perguntou apressado

– Uma pergunta interessante meu jovem. O filme usa o humor, para criticar a indústria capitalista que esmaga a personalidade das pessoas, tornando-as assim um boneco de fácil manipulação, que só vive em função da alta burguesia e das máquinas industriais. As técnicas industriais, criticadas nesse filme são: o Taylorismo e o Fordismo.- Respondeu calmamente, no momento em que comia um biscoto.

– Em que se baseiam o Taylorismo e o Fordismo ?

– Deixa eu ver como, eu vou te responder……. essa não é a minha área específica….. mas tentarei te ajudar !

Taylorismo é o estudo de tempos e movimentos dos operários e das máquinas na linha de produção, esse estudo visava aumentar a eficiência do trabalho.

Fordismo, É o seguinte: Essa é a técnica da produção em série, aonde cada operário deve ser altamente especializado, cabendo-lhe uma única e especifica tarefa.

– E como são mostradas essas criticas?

-Olha se prepare, vou falar bastante. Charles Charplim, usa a mímica, para passar a mensagem, Praticamente ele não fala nada, em: ” Tempos Modernos”. No início do filme, é exibido uma boiada e, logo após, os empregados entrando na fábrica, e isso demonstra a massificação do homem no advento da era industrial. A massificação também é mostrada através dos movimentos repetitivos da linha de montagem, a ponto de adquirir “tiques” nervosos pelos movimentos. A linha de montagem, cada vez mais veloz, faz Carlitos ser tragado pelas engrenagens. Carlitos acaba ficando louco, achando que tem que apertar, tudo o que se parece com parafuso.Carlitos perde o emprego, e é internado, por provocar um caos na fábrica.

-Curado da crise de nervos e desempregado, ele deixa o hospital para começar nova vida. Por acaso, quando esta caminhando na rua, uma bandeira sinalizadora cai de um caminhão. Na tentativa de devolvê-la, vê-se envolvido em uma passeata de empregados em greve. Estando à frente com a bandeira, sem saber do que vinha atrás, é preso como líder. E ele estava totalmente alheio. Esta também é uma crítica de como as pessoas são envolvidas em acontecimentos, sem sequer darem conta disto. É preso como comunista, uma vítima inocente, e vai para cumprir pena na prisão. Chaplin vale-se também do personagem para expressar a perseguição de que era alvo, sem razão.

-Na Cadeia, acaba recebendo uma cela especial, cheia de regalias. E ouve a notícia, por rádio, de que seria solto o preso número 7, Era ele. Mas não queria ser retirado da cadeia.

-Era feliz lá. Não obstante, sai levando consigo uma carta de recomendação, que virá a ser útil em várias ocasiões.

-As fábricas reabrem, ele é mister consertar os equipamentos, então é contratado. Na cena em que o colega fica preso nas engrenagens, e que a sineta indica a hora do almoço, há a crítica ao empregado comum que, não importa o que tenha que ser feito, por mais urgente que seja é sagrado o intervalo de sua alimentação. Há também uma crítica às greves. Nem bem os empregados voltam ao emprego, há greves deflagradas. Aliás, tema que se reveste da maior atualidade. Já antes da volta à fábrica, conheceu a moça por quem iria se apaixonar e tentar a felicidade. Um relacionamento cheio de fantasias, que retrata o mecanismo utilizado pelos sonhadores para enfrentar as adversidades da vida com alegria. O fundo musical, “Sorri”, empresta uma beleza enternecedora às cenas que compartilham.

-Em tese as críticas à industrialização, às trapalhadas policiais, a massificação do homem, em “Tempos Modernos” Chaplin nos deixa a fé de que a felicidade é possível, seja vivendo a realidade, seja vivendo o imaginário. Então é isso.

Antonio, não tem mais nenhuma pergunta, agradece o professor e vai para casa. Em casa faz o texto sobre o filme, se lembrando no que o professor falou.

No dia seguinte na escola, Antonio apresenta o trabalho para o Professor João. Que fica maravilhado com o trabalho, e lhe da um dez. Antonio fica contente, pois além da nota que ganhou, ganhou também conhecimentos sobre o mundo em que vivemos.

Auto da compadecida- (Guel Arraes).

O filme, de Guel Arraes, adaptado da obra de Ariano Suassuna, foi o primeiro longa metragem produzido pela Rede Globo.

O Auto da Compadecida se ambienta no vilarejo de Taperoá, no sertão da Paraíba, onde dois nordestinos chamados: João Grilo e Chicó, andam pelas ruas anunciando um o filme. A sessão é um sucesso, eles conseguem alguns trocados, mas a luta pela sobrevivência continua. Em busca de um novo emprego, João Grilo e Chicó acabam arrumando serviço na padaria e, dão a volta na sovinice do padeiro. O emprego apresenta ainda outros desafios.

Dora a mulher do patrão, trata muito melhor a sua cachorrinha do os dois empregados. Além disso, é a maior namoradeira de Taperoá. Um casal formado por um sovina e uma mulher infiel são um prato cheio para as artimanhas da dupla faminta.

Quando a cachorrinha de Dora morre, João Grilo tenta cair nas boas graças da patroa, e promete um enterro abençoado pelo Padre. Para convencê-lo a realizar a cerimônia, com a missa em latim, João Grilo inventa um testamento da cachorra, engana o padre e o bispo e ainda cria um confronto entre o manda-chuva da cidade, o major Antonio Moraes e a Igreja. Novos desafios vão surgindo, provocando mais confusões armadas pela esperteza de João Grilo, sempre em parceria com Chicó.

A chegada da bela Rosinha filha de Antonio Moraes, desperta a paixão de Chicó, e ciúmes do cabo Setenta, Os planos da dupla, que envolvem o casamento entre Chicó e Rosinha e a posse de uma porca de barro recheada de dinheiro, são interrompidos pela chegada do cangaceiro Severino que mata o padeiro e sua mulher, e também o padre e o bispo.

Todos os mortos reencontram-se no Juízo Final, onde serão julgados no Tribunal das Almas por um Jesus negro e também pelo diabo. O destino de cada um deles – o céu ou o inferno – será decidido pela aparição de Nossa Senhora, a Compadecida.

O filme retrata de forma humorística, o problema do sertanejo, que corre atrás da sobrevivência. A imaginação do povo, também é retratada de forma cômica. Também mostra como surgem os cangaceiros.

O Auto da Compadecida, é uma das grandes comédias já feitas no cinema.

FILMES DE COMEDIA BESTEIROL.

Aqui iremos, apresentar dois filmes de Comédia Besteirol ( 1 Nacional e 1 Internacional). Depois iremos fazer uma comparação entre eles. Iremos apresentar, uma pequena sinopse do filme, e a analise dos mesmos

AMERICAN PIE- A PRIMEIRA VEZ É INESQUECIVEL.

Um deles é American Pie, conhecido internacionalmente e que já teve duas continuações. O filme gira em torno de quatro amigos que resolvem fazer de tudo para perder a virgindade antes que o baile de formatura aconteça: enquanto um deles decide entrar para um coral a fim de bancar o ‘sentimental’ com as garotas que ainda não conhecem sua fama, outro se empenha em provar para a namorada que é digno de ir para a cama com ela.

Já o terceiro amigo arruma uma maneira de espalhar para todo o colégio o boato de que é ‘extremamente bem-dotado’, enquanto o quarto rapaz… bem… resolve descobrir a sensação do sexo através do auxílio de uma apetitosa… torta de maçã.

Por mais boba ou besta que essa história possa parecer, ela é algo por que todos nós passamos na vida fazendo com que nos enxerguemos nos personagens que se metem nas maiores enrascadas, levando o público à loucura.

Os NoRmAiS

O filme conta a historia de: Vani e Rui que estão prestes a se casar. Ela com Sérgio em uma cerimônia às 18h e ele com Marta às 20h. Os dois casamentos estão marcados na mesma igreja. É na sacristia que Rui e Vani se encontram e conversam pela primeira vez.

Como Vani esqueceu o arroz para comemorar o enlace, ela pede emprestado a Rui. Mas Martha, a noiva de Rui, se recusa a ceder o arroz. Vani fica furiosa. Depois do casamento, uma coincidência: os casais são vizinhos! Ao chegar no novo apartamento, Vani descobre que foi traída por Sérgio numa despedida de solteiro. Revoltada, ela vai para a rua, disposta a tudo. E dá de cara com Rui e Martha.

A noiva traída pede ajuda aos recém-casados. Primeiro, para telefonar. E depois para várias outras coisas. E, no meio da confusão que se segue, é Rui que fica sabendo quem é era a verdadeira Martha. Algumas horas depois, Rui e Vani voltam à igreja e, diante do padre, pedem a anulação dos casamentos. O padre se recusa. E eles buscam soluções que são absolutamente românticas, mas nada normais.

O filme, usa a comédia para, mostrar os problemas amoroso e de sexo, que os adultos normalmente tem.

AMRICAN PIE X OS NORMAIS

O gênero comédia nos últimos anos vem tomando um rumo extremamente comercial que aposta em apresentar situações extremamente embaraçosas e inusitadas fazendo com que os protagonistas levem a platéia à gargalhada inevitável.

Geralmente essas situações são baseadas em acontecimentos do cotidiano das pessoas, fazendo com que nos identifiquemos com o que vemos na tela. É comum você comentar ou escutar alguém comentando “Nossa, isso já aconteceu comigo antes…” quando você está assistindo a esse tipo de comédia. Essa interação entre público e personagem é o ponto mais forte desse crescente tipo comercial de comédia moderna que vem sido denominada como Besteirol afinal grande parte das situações acima mencionadas apelam de uma forma sutil para cenas um pouco picantes, personalidades extremamente caricaturadas, e o exagero elevado ao quadrado. Tudo isso é considerado um monte de besteiras para alguns mas esse conjunto de besteiras atrai um público extraordinário afinal não é necessário formação cultural alguma para aproveitar as piadas do filme.

Mais um trabalho, está se encerrando. Muitas coisas nós compreendemos neste trabalho sobre o cinema, mas algumas reflexões, surgiram na nossa mente. Convido você para refletir, sobre estas perguntas:

Citação 4

2) Os filmes do cinema e teve nos estimulam a refletir criticamente sobre o mundo? Ou essa não e função do cinema?

3) Os filmes levam a aceitação passiva da realidade, ou são apenas uma saudável forma de lazer?

CITAÇÕES

CITAÇÃO 1: Schmidt, Mario- Nova Historia critica moderna e contemporânea 2 Grau- 1996-Ed. Nova geração( Pág: 230)- São Paulo.

CITAÇÃO 2: O Estado de São Paulo, Jornal- Revista Semanal da lição de casa- 1999- Ed. Klick( Volume 30, Pág: 24)- São Paulo.

CITAÇÃO 3: O Estado de São Paulo, Jornal- Revista Semanal da lição de casa- 1999- Ed. Klick( Volume 30, Pág: 24)- São Paulo.

CITAÇÃO 4: Schmidt, Mario- Nova Historia critica 8 Serie-1999- Ed. Nova Geração( Pág: 35)- São Paulo.

CITAÇÃO 5: Schmidt, Mario- Nova Historia critica 8 Serie-1999- Ed. Nova Geração( Pág: 171)- São Paulo.

CRÉDITOS DAS IMAGENS

As imagens desse trabalho, foram copiadas:

Banco de imagens dos sites:

www.uol.com.br, www.altavista.com.br, www.bigbusca.com.br, www.sapo.pt.

Livros:

– Schmidt, Mario- Nova Historia critica 8 Serie-1999- Ed. Nova Geração-São Paulo.

– Barbosa Souza, Jesus- Literatura, Produção de textos e gramática- 2000- Ed. Saraiva- São Paulo.

Outros:

– Clip-Art do Microsolft Word.

BIBLIOGRAFIA

O Estado de São Paulo, Jornal- Revista Semanal da lição de casa- 1999- Ed. Klick- São Paulo.

Livro LTDA, Circulo do- Enciclopédia Ilustrada de Pesquisa Conhecer 2000-1994- Ed. Nova Cultural( Volume 13- Artes)- São Paulo.

Roberto Moraes, Paulo- Geografia geral e do Brasil 2 Edição- 2003- Ed. Harbra- São Paulo.

Duarte, Marcelo- O guia dos curiosos- 1996- Ed. Cia. das letras- São Paulo.

São Paulo, Jornal Folha de- Nova Enciclopédia Ilustrada Folha- 1996- Volume 1 – São Paulo.

Grande Enciclopédia Larousse Cultural- 1998- Ed. Nova Cultural- São Paulo.

SITE: http://www.webcine.com.br/historia1.htm

SITE: http://www.adorocinemabrasileiro.com.br/filmes/normais/normais.asp

SITE: http://adorocinemabrasileiro.com.br/filmes/auto-da-compadecida/auto-da-compadecida.asp

SITE: http://www.spacovideo.com.br/loca2/conteudo/detalhecritica.cfm?cod=24967&chave=1113.

Novo dicionário básico da língua portuguesa Folha/Aurélio- 1995- Ed. Nova Fronteira.