Controle dos Microorganismos

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Autoria: Fernanda Ap. de C. Teixeira

Controle dos microorganismos

O controle dos microorganismos é um assunto abrangente e de inúmeras aplicações práticas envolvendo toda a microbiologia e não só aquela aplicada à medicina.

Métodos Físicos de controle:

O método mais empregado para matar microorganismos é o calor, por ser eficaz, barato e prático. Os microorganismos são considerados mortos quando perdem a capacidade de multiplicar.

• Calor úmido: A esterilização empregando calor úmido requer temperaturas acima de fervura da água (120º). Estas são conseguidas nas autoclaves, e este é o método preferencial de esterilização desde que o material ou substância a ser esterilizado não sofra mudanças pelo calor ou umidade. A esterilização é mais facilmente alcançada quando os organismos estão em contato direto como vapor, nestas condições o calor úmido matará todos os organismos.
• Calor seco: A forma mais simples de esterilização empregando o calor seco é a flambagem. A incineração também é uma forma de esterilizar, empregando o calor seco. Outra forma de esterilização empregando o calor seco é feita em fornos, e este binômio tempo e temperatura deve ser observado atentamente. A maior parte da vidraria empregada em laboratório é esterilizada deste modo.
• Pasteurização: consiste em aquecer o produto a uma dada temperatura, num dado tempo e a seguir, resfria-lo bruscamente, porém a pasteurização reduz o numero de microorganismos presentes mas não assegura uma esterilização.
• Radiações: As radiações têm seus efeitos dependentes do comprimento da onda, da intensidade, da duração e da distância da fonte. Há pelo menos dois tipos deradiações empregadas no controle dos microorganismos: ionizantes e não-ionizantes.
• Indicadores biológicos: São suspensões-padrão de esporos bacterianos submetidos a esterilização juntamente com os materiais a serem processados em autoclave, estufas e câmera de radiação. Terminado o ciclo, são colocados em meio de cultura adequada para o crescimento de esporos, se não houver crescimento, significa que o processo está validado.
• Microondas: Os fornos de microondas são cada vez mais utilizados em laboratórios e as radiações emitidas não afetam o microorganismo, mas geram calor. O calor gerado é responsável pela morte dos microorganismos.
• Filtração: A passagem de soluções ou gases através de filtros, retêm os microorganismos, então pode ser empregada na remoção de bactérias e fungos, entretanto, passar a maioria dos vírus.
• Pressão Osmótica: A alta concentração de sais ou açúcares cria um ambiente hipertônico que provoca a saída de água do interior da célula microbiana. Nessas condições os microorganismos deixam de crescer e isto tem permitido a preservação de alimentos.
• Dessecação: Na falta total de água, os microorganismos não são capazes de crescer, multiplicar, embora possam permanecer viáveis por vários anos. Quando a água é novamente reposta, o microorganismo readquirem a capacidade de crescimento. Esta peculiaridade tem sido muito explorada pelos microbiologistas para preservar microorganismos e o método mais empregado é a liofilização.

Métodos Químicos de controle

Os agentes químicos são apresentados em grupos que tenham em comum, ou as funções químicas, ou elementos químicos, ou mecanismo de ação.
• Álcoois: A desnaturação de proteínas é explicação mais aceita para a ação antimicrobiana. Na ausência de água, as proteínas não são desnaturadas tão rapidamente quanto na sua presença. Alguns glicóis podem ser usados, dependendo das circunstâncias, como desinfetantes do ar.
• Aldeídos e derivados: Pode ser facilmente solúvel em água, é empregado sob a forma de solução aquosa em concentrações que variam de 3 a 8% . A metenamina é um anti-séptico urinário que deve sua atividade à liberação de aldeído fórmico. Em algumas preparações, a metenamina é misturada ao ácido mandélico, o que aumentaseu poder bactericida.
• Fenóis e derivados: O fenol é um desinfetante fraco, tendo interesse apenas histórico, pois foi o primeiro agente a ser utilizado como tal na prática médica e cirúrgica, os fenóis atuam sobre qualquer proteína, mesmo aquelas que não fazem parte da estrutura ou protoplasma do microorganismo, significando que, em meio orgânico protéico, os fenóis perdem sua eficiência por redução da concentração atuante.
• Halogênios e derivados: Entre os alogênios, o iodo sob forma de tintura é um dos anti-sépticos mais utilizados na práticas cirúrgicas. O mecanismo de ação é combinação irreversível com proteínas, provavelmente através dainteração com os aminoácidos aromáticos, fenilalanina e tirosina.
• Ácidos inorgânicos e orgânicos: Um dos ácidos inorgânicos mais populares é o acido bórico; porém, em vista dos numerosos casos de intoxicação, seu emprego é desaconselhado. Desde a muito tempo tem sido usados alguns ácidos orgânicos, como o ácido acético e o ácido láctico, não como anti-sépticos mas sim na preservação de alimentos hospitalares.
• Agentes de superfície: Embora os sabões se encaixem nessa categoria são compostos aniônicos que possuem limitada ação quando comparada com a de substância catiônicas. Dentre os detergentes catiônicos os derivados de amônia tem grande utilidade nas desinfecções e anti-sepsias. O modo preciso de ação dos catiônicos não esta totalmente esclarecido, sabendo-se, porém, que alteram a permeabilidade da membrana, inibem a respiração e a glicólise de formas vegetativas das bactérias, tendo também ação sobre fungos, vírus e esporos bacterianos.
• Metais pesados e derivados: O baixo índice terapêutico dos mercuriais e o perigo de intoxicação por absorção fizeram com que aos poucos deixassem de serem usados, curiosamente alguns derivados mercuriais tiveram grande aceitação, embora dotados de fraca atividade bactericida e bacteriostática in vivo, como o merbromino.
• Agentes oxidantes: A propriedade comum destes agentes é a liberação de oxigênio nascente, que é extremamente reativo e oxida, entre outras substâncias o sistemas enzimáticos indispensáveis para a sobrevivência dos microorganismos.
• Esterilizantes gasosos: Embora tenha atividade esterilizante lenta o óxido de etileno tem sido empregado com sucesso na esterilização de instrumentos cirúrgicos, fios de agulhas para suturas e plásticos.

Terminologias

• Esterilização: Processo de destruição de todos as formas de vida de um objeto ou material. É um processo absoluto, não havendo grau de esterilização.
• Desinfecção: Destruição de microorganismos capazes de transmitir infecção. São usadas substâncias químicas que são aplicadas em objetou os materiais . reduzem ou inibem o crescimento, mas não esterilizam necessariamente.
• Anti-sepsia: Desinfecção química da pele, mucosas e tecidos vivos, é um caso da desinfecção.
• Germicida: Agente químico genérico que mata germes.
• Bacteriostase: A condição na qual o crescimento bacteriano está inibido, mas a bactéria não está morta. Se o agente for retirado o crescimento pode recomeçar
• Assepsia: Ausência de microorganismos em uma área. Técnicas assépticas previnem a entrada de microorganismos.
• Degermação: Remoção de microorganismos da pele por meio de remoção mecânica ou pelo uso de anti-sépticos.

Controle de Natalidade

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Autoria: Hélder de Salles Cardin

INTRODUÇÃO

Controle de natalidade, diversos procedimentos empregados para evitar a gravidez. Atualmente, os métodos disponíveis variam dos permanentes, tal como a esterilização cirúrgica, aos temporários, que devem ser utilizados durante o coito.

2.MÉTODOS DE BARREIRA

Consistem no bloqueio físico do útero para impedir a entrada do esperma. A camisinha, ou preservativo, é o mais usado pelos homens e, quando é empregada corretamente em cada coito, mostra-se eficaz em cerca de 97% dos casos. Para as mulheres, o método de barreira mais empregado é o diafragma, uma cobertura de borracha ajustada ao cérvix (colo do útero), contendo um creme ou geléia espermicida (destruidor de esperma), que imobiliza os espermatozóides.

3.DIU

O dispositivo intrauterino, ou DIU, é um anel ou espiral de plástico ou metal que se coloca no útero e que interfere com a implantação do óvulo.

4.MÉTODOS QUÍMICOS

Os anticoncepcionais orais, conhecidos pelo nome de pílula, são substâncias químicas, que funcionam alterando o modelo hormonal normal, para que não ocorra a ovulação. Outra forma de controle de natalidade por procedimentos químicos é o creme, espuma ou geléia espermicida que deve ser utilizado em cada coito.

5.ESTERILIZAÇÃO CIRÚRGICA

Na mulher, realiza-se cortando e ligando as trompas de Falópio, os condutos que levam o óvulo do ovário ao útero. Essa operação se chama ligadura de trompas. No homem, a esterilização é feita cortando os dois ductos que levam o esperma dos testículos ao pênis. Esse procedimento é denominado vasectomia.

6.PLANEJAMENTO FAMILIAR NATURAL

Baseia-se na abstinência de contato sexual durante os dias férteis. A identificação se dá controlando as mudanças na temperatura corporal ou observando as variações da mucosidade cervical, para conhecer o momento da ovulação.

Métodos Contraceptivos

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Autoria: Alessandra Coelho

Existem vários métodos para evitar a gravidez. Alguns dizem respeito a precauções que são tomadas pelo homem, outros dizem respeito às mulheres e também há os métodos nos quais participam o homem e a mulher. Os principais métodos anticoncepcionais são realizados através de contraceptivos injetáveis, diafragmas, DIUs, espermicidas, esponjas, esterilização feminina, método do coito interrompido (coitus interruptus), método do muco, método do ritmo, métodos pós-relação, pílulas anticoncepcionais, vasectomia masculina e preservativos. Os anticoncepcionais injetáveis são baseados em hormônios. O diafragma é uma barreira colocada no cerviz O DIU é inserido no útero , tratando-se de um dispositivo permanente. Os espermicidas são produtos químicos injetados na vagina antes das relações sexuais. A esponja espermicida é inserida na vagina após a relação sexual. A esterilização feminina envolve intervenção cirúrgica, com a amarração das trompas de Falópio. O método do coito interrompido é o mais antigo, não se tratando de um método que sempre garante a anticoncepção. O método do muco utiliza o conhecimento das mudanças do muco cervical durante o ciclo menstrual. O método do ritmo evita relações sexuais no dias férteis. Os métodos pós-relação, tais como a inserção do DIU quatro dias após a relação sexual não são recomendáveis. A pílula do dia seguinte liquida com o óvulo fertilizado. De modo geral, devido à sua composição hormonal, as pílulas anticoncepcionais podem provocar muitos efeitos colaterais. A vasectomia é o método em que há intervenção cirúrgica no homem, para fins de obstrução do canal de transporte dos espermatozóides ao sêmen: portanto, tal método impede que o sêmen contenha espermatozóides, não havendo assim a possibilidade de concepção. Os preservativos são proteções masculinas feitas de látex, sendo também utilizados na prevenção de doenças adquiridas por contato sexual.

Conceitos de Biologia

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Autoria: André do Canto Silva

BIOTÓPO – Área física na qual os biótipos adaptados a ela e as condições ambientais se apresentam praticamente uniformes.

BIOSFERA – Toda vida, seja ela animal ou vegetal, ocorre numa faixa denominada biosfera, que inclui a superfície da Terra, os rios, os lagos, mares e oceanos e parte da atmosfera. E a vida é só possível nessa faixa porque aí se encontram os gases necessários para as espécies terrestre e aquáticas: oxigênio e nitrogênio.

HABITAT – É um lugar de vida de um organismo. Total de característica ecológica do lugar especifico habitado por um organismo ou população.

NICHO ECOLÓGICO – Pequena habitação ecológica que estuda as relações entre os seres vivos e o meio ambiente em que vivem bem como as suas recíprocas influencia, mesologia num espaço ocupado por uma espécie ou um organismo vivo.

ECOSSISTEMA – Conjunto dos relacionamentos mútuos que o meio ambiente e a flora, fauna e os micros organismo que nele habitam, e que incluem fatores de equilíbrio geológico, atmosférico, meteorológico e biológico.

POPULAÇÃO – Comunidade de seres vivos que se entrecruzam livremente, graças ao quê trocam, entre si material genético.

ESPÉCIE – Conjunto de indivíduos muito semelhante entre si e aos ancestrais, e que se, entrecruzam. A espécie é unidade biológica fundamental. Varias espécies constituem um gênero: espécie vegetal; espécie animal e a espécie humana (gênero humano).

Complexo de Golgi

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Autoria: Alanderson de Freitas Marron

Este orgânulo foi descoberto em células nervosas, no fim do século passado, por Camilo Golgi. No entanto, sua estrutura só foi bem compreendida quando estudada com o microscópio eletrônico, na segunda metade do século XX.
O complexo de Golgi de uma célula é constituído por várias unidades menores, os dictiossomos. Cada dictiossomo é composto por uma pilha de cinco ou mais sacos achatados, feitos de mebrana dupla lipoprotéica, e dispostos de forma regular. Nas bordas dos sacos podem ser observadas vesículas em processo de brotamento.
Nunca há ribossomos associados ao complexo de Golgi. Isso faz com que ele se pareça bastante com o retículo endoplasmático liso; no entanto, o empilhamento regular dos sacos achatados é característico do Golgi, enquanto os componentes do retículo se distribuem geralmente de forma irregular na célula.
Os papéis do complexo de Golgi
a) Secreção da célula de ácino pancreático
Os ácinos são pequenas estruturas glandulares que secretam as enzimas do suco pancreático. O núcleo fica na região basal da célula (oposta à luz); existe bastante ergastoplasma, indicando que a célula é eficiente produtora de proteínas. Ainda no complexo de Golgi, que ocupa uma posição intermediária entre o núcleo e a luz do ácino. Surgindo do complexo de Golgi vemos numerosas vesículas, os grãos de zimógeno. Nestas estruturas ficam as enzimas secretadas pela célula. Um interessante experimento demonstrou claramente que as enzimas secretadas pela célula, sendo proteínas, são realmente produzidas pelo retículo rugoso e posteriormente encaminhadas para o complexo de Golgi através de pequenas vesículas do próprio retículo endoplasmático. As enzimas são em seguida “empacotadas” em vesículas (os grãos de zimógeno) e “exportadas” para fora da célula. Conclui-se que, no caso de proteínas, o complexo de Golgi armazena a secreção, “empacotada-a” e finalmente a exporta da célula.
b) Secreção de muco nas células caliciformes do intestino
Na mucosa intestinal, existem células especiais em forma de cálice que produzem um líquido lubrificante e protetor, chamado muco. O muco é um material complexo, constituído principalmente por glicoproteínas (proteínas associadas a polissacarídeos).
Outras funções do complexo de Golgi
• Sabe-se que o Golgi é o responsável pela secreção da primeira parede que separa duas células vegetias em divisão, a lamela média, feita de um polissacarídeo, a pectina.
• O acrossomo do espermatozóide de mamíferos é secretado pelo complexo de Golgi. Trata-se de uma estrutura que existe na região dianteira do espermatozóide, repleta de enzimas digestivas, responsáveis pela perfuração dos invólucros do óvulo na hora da fecundação.
• O complexo de Golgi origina os lisossomos, vesículas cheias de enzimas digestivas.

COMO SURGIU O PRIMEIRO SER VIVO?

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COMO SURGIU O PRIMEIRO SER VIVO

Ao longo dos séculos, várias hipóteses foram formuladas por filósofos e cientistas na tentativa de explicar como teria surgido a vida em nosso planeta. Até o século XIX, imaginava-se que os seres vivos poderiam surgir não só a partir do cruzamento entre si, mas também a partir da matéria bruta, de uma forma espontânea. Essa idéia, proposta há mais de 2 000 anos por Aristóteles, era conhecida pôr geração espontânea ou abiogênese. Os defensores dessa hipótese supunham que determinados materiais brutos conteriam um “princípio ativo”, isto é, uma “força” capaz de comandar uma série de reações que culminariam com a súbita transformação do material inanimado em seres vivos.

O grande poeta romano Virgílio (70 a.C.-19 a.C.), autor das Écoglas e da Eneida, garantia que moscas e abelhas nasciam de cadáveres em putrefação. Já na Idade Média, Aldovandro afirmava que, o lodo do fundo das lagoas, poderiam, poderiam nascer patos e morcegos. O padre Anastásio Kircher (1627-1680), professor de Ciência do Colégio Romano, explicava a seus alunos que do pó de cobra, espalhado pelo chão, nasceriam muitas cobras.

No século XVII, o naturalista Jan Baptiste van Helmont (1577-1644), de origem belga, ensinava como produzir ratos e escorpiões a partir de uma camisa suada, germe de trigo e queijo.

Nesse mesmo século, começaram a surgir sábios com novas ideias, que não aceitavam a abiogênese e procuravam desmascará-la, com suas experiências baseadas no método científico.

Abiogênose X biogênese

Em meados do século XVII, o biólogo italiano Francesco Redi (elaborou experiências que, na época, abalaram profundamente a teoria da geração espontânea. Colocou pedaços de carne no interior de frascos, deixando alguns abertos e fechando outros com uma tela. Observou que o material em decomposição atraía moscas, que entravam e saíam ativamente dos frascos abertos. Depois de algum tempo, notou o surgimento de inúmeros “vermes” deslocando-se sobre a carne e consumindo o alimento disponível. Nos frascos fechados, porém, onde as moscas não tinham acesso à carne em decomposição, esses “vermes” não apareciam . Redi, então, isolou alguns dos “vermes” que surgiram no interior dos frascos abertos, observando-lhes o comportamento; notou que, após consumirem avidamente o material orgânico em putrefação, tornavam-se imóveis, assumindo um aspecto ovalado, terminando por desenvolver cascas externas duras e resistentes. Após alguns dias, as cascas quebravam-se e, do interior de cada unidade, saía uma mosca semelhante àquelas que haviam pousado sobre a carne em putrefação.

A experiência de Redi favoreceu a biogênese, teoria segundo a qual a vida se origina somente de outra vida preexistente.

Quando Anton van Leeuwenhoek (1632-1723), na Holanda, construindo microscópios, observou pela primeira vez os micróbios, reavivou a polêmica sobre a geração espontânea, abalando seriamente as afirmações de Radi.

Foi na Segunda metade do século passado que a abiogênese sofreu seu golpe final. Louis Pasteur (1822-1895), grande cientista francês, preparou um caldo de carne, que é excelente meio de cultura para micróbios, e submeteu-o a uma cuidadosa técnica de esterilização, com aquecimento e resfriamento. Hoje, essa técnica é conhecida como “pasteurização”.

Uma vez esterilizado, o caldo de carne era conservado no interior de um balão “pescoço de cisne”.

Devido ao longo gargalo do balão de vidro, o ar penetrava no balão, mas as impurezas ficavam retidas na curva do gargalo. Nenhum microrganismo poderia chegar ao caldo de carne. Assim, a despeito de estar em contato com o ar, o caldo se mantinha estéril, provando a inexistência da geração espontânea. Muitos meses depois, Pasteur exibiu seu material na Academia de Ciências de Paris. O caldo de carne estava perfeitamente estéril. Era o ano de 1864. A geração espontânea estava completamente desacreditada.

Desmoralizada a teoria da abiogênese, confirmou-se a idéia de Prayer: Omne vivium ex vivo, que se traduz por “todo ser vivo é proveniente de outro ser vivo”. Isso criou a seguinte pergunta: se é preciso um ser vivo para originar outro ser vivo, de onde e como apareceu o primeiro ser vivo?
Tentou-se, então, explicar o aparecimento dos primeiros seres vivos na Terra a partir dos cosmozoários, que seriam microrganismos flutuantes no espaço cósmico. Mas existem provas concretas de que isso jamais poderia ter acontecido. Tais seres seriam destruidor pelos raios cósmicos e ultravioleta que varrem continuamente o espaço sideral.

Em 1936, Alexander Oparin propõe uma nova explicação para o origem da vida. Sua hipótese se resume nos seguintes fatos:
Na atmosfera primitiva do nosso planeta, existiriam metano, amônia, hidrogênio e vapor de água.
Sob altas temperaturas, em presença de centelhas elétricas e raios ultravioleta, tais gases teriam se combinado, originando aminoácidos, que ficavam flutuando na atmosfera.
Com a saturação de umidade da atmosfera, começaram a ocorrer as chuvas. Os aminoácidos eram arrastados para o solo.
Submetidos a aquecimento prolongado, os aminoácidos combinavam-se uns com os outros, formando proteínas.
As chuvas lavavam as rochas e conduziam as proteínas para os mares. Surgia uma “sopa de proteínas” nas águas mornas dos mares primitivos.
As proteínas dissolvidas em água formavam colóides. Os colóides se interpenetravam e originavam os coacervados.
Os coacervados englobavam moléculas de nucleoproteínas. Depois, organizavam-se em gotículas delimitadas por membrana lipoprotéica. Surgiam as primeiras células.
Essas células pioneiras eram muito simples e ainda não dispunham de um equipamento enzimático capaz de realizar a fotossíntese. Eram, portanto, heterótrofas. Só mais tarde, surgiram as células autótrofas, mais evoluídas. E isso permitiu o aparecimento dos seres de respiração aeróbia.

Atualmente, se discute a composição química da atmosfera primitiva do nosso planeta, preferindo alguns admitir que, em vez de metano, amônia, hidrogênio e vapor de água, existissem monóxido de carbono, dióxido de carbono, nitrogênio molecular e vapor de água.
Oparin não teve condições de provar sua hipótese. Mas, em 1953, Stanley Miller, na Universidade de Chigago, realizou em laboratório uma experiência. Colocou num balão de vidro: metano, amônia, hidrogênio e vapor de água. Submeteu-os a aquecimento prolongado. Uma centelha elétrica de alta tensão cortava continuamente o ambiente onde estavam contidos os gases. Ao fim de certo tempo, Miller comprovou o aparecimento de moléculas de aminoácido no interior do balão, que se acumulavam no tubo em U.

Pouco tempo depois, em 1957, Sidney Fox submeteu uma mistura de aminoácidos secos a aquecimento prolongado e demonstrou que eles reagiam entre si, formando cadeias peptídicas, com o aparecimento de moléculas protéicas pequenas.
As experiências de Miller e Fox comprovaram a veracidade da hipótese de Oparin

Como Funciona o Sistema Nervoso?

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Autoria: Tiago Ferreira de Souza

Como Funciona o Sistema Nervoso
O sistema nervoso detecta estímulos externos e internos, tanto físicos quanto químicos, e desencadeia as respostas musculares e glandulares. Assim, é responsável pela integração do organismo com o seu meio ambiente.
Ele é formado, basicamente, por células nervosas, que se interconectam de forma específica e precisa, formando os chamados circuitos neurais. Através desses circuitos, o organismo é capaz de produzir respostas estereotipadas que constituem os comportamentos fixos e invariantes (por exemplo, os reflexos), ou então, produzir comportamentos variáveis em maior ou menor grau.
Todo ser vivo dotado de um sistema nervoso é capaz de modificar o seu comportamento em função de experiências passadas. Essa modificação comportamental é chamada de aprendizado, e ocorre no sistema nervodo através da propriedade chamada plasticidade cerebral.
O Neurônio
A célula nervosa, ou, simplesmente, neurônio, é o principal componente do sistema nervoso. Considerada sua unidade anatomo-fisiológica, estima-se que no cérebro humano existam aproximadamente 15 bilhões destas células, responsável por todas as funções do sistema.
Existem diversos tipos de neurônios, com diferentes funções dependendo da sua localização e estrutura morfológica, mas em geral constituem-se dos mesmos componentes básicos:

• o corpo do neurônio (soma) constituído de núcleo e pericário, que dá suporte metabólico à toda célula;
• o axônio (fibra nervosa) prolongamento único e grande que aparece no soma. É responsável pela condução do impulso nervoso para o próximo neurônio, podendo ser revestido ou não por mielina (bainha axonial) , célula glial especializada, e;
• os dendritos que são prolongamentos menores em forma de ramificações (arborizações terminais) que emergem do pericário e do final do axônio, sendo, na maioria das vezes, responsáveis pela comunicação entre os neurônios através das sinapses. Basicamente, cada neurônio, possui uma região receptiva e outra efetora em relação a condução da sinalização.

A Sinapse
É a estrutura dos neurônios através da qual ocorrem os processos de comunicação entre os mesmos, ou seja, onde ocorre a passagem do sinal neural (transmissão sináptica) através de processos eletroquímicos específicos, isso graças a certas características particulares da sua constituição.

Em uma sinapse os neurônios não se tocam, permanecendo um espaço entre eles denominado fenda sináptica, onde um neurônio pré-sináptico liga-se a um outro denominado neurônio pós-sináptico. O sinal nervoso (impulso), que vem através do axônio da célula pré-sináptica chega em sua extremidade e provoca na fenda a liberação de neurotransmissores depositados em bolsas chamadas de vesículas sinápticas. Este elemento químico se liga quimicamente a receptores específicos no neurônio pós-sináptico, dando continuidade à propagação do sinal.

Um neurônio pode receber ou enviar entre 1.000 a 100.000 conexões sinápticas em relação a outros neurônios, dependendo de seu tipo e localização no sistema nervoso. O número e a qualidade das sinapses em um neurônio pode variar, entre outros fatores, pela experiência e aprendizagem, demonstrando a capacidade plástica do SN.

Organização Funcional

Funcionalmente, pode-se afirmar que o SN é composto por neurônios sensoriais, motores e de associação. As informações provenientes dos receptores sensoriais aferem ao Sistema Nervoso Central (SNC), onde são integradas (codificação/comparação/armazenagem/decisão) por neurônios de associação ou interneurônios, e enviam uma resposta que efere a algum orgão efetor (músculo, glândula).
Kandel sugere que o “movimento voluntário é controlado por complexo circuito neural no cérebro interconectando os sistemas sensorial e motor. (…) o sistema motivacional”. As respostas desencadeadas pelo SNC são tão mais complexas quanto mais exigentes forem os estímulos ambientais (aferentes).
Para tanto o cérebro necessita de uma intrincada rede de circuitos neurais conectando suas principais áreas sensoriais e motoras, ou seja, grandes concentrações de neurônios capazes de armazenar, interpretar e emitir respostas eficientes a qualquer estímulo, tendo também a capacidade de, a todo instante, em decorrência de novas informações, provocar modificações e rearranjos em suas conexões sinápticas, possibilitando novas aprendizagens.

Áreas Associativas do Córtex
Todo o córtex cerebral é organizado em áreas funcionais que assumem tarefas receptivas, integrativas ou motoras no comportamento. São responsáveis por todos os nossos atos conscientes, nossos pensamentos e pela capacidade de respondermos a qualquer estímulo ambiental de forma voluntária.
Existe um verdadeiro mapa cortical com divisões precisas a nível anatomo-funcional, mas que todo ele está praticamente sempre mais ou menos ativado dependendo da atividade que o cérebro desempenha, visto a interdependência e a necessidade de integração constante de suas informações frente aos mais simples comportamentos.

Combate ao Mosquito da Malária

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Autoria: Tiago Ferreira de Souza

Carlos Chagas é, incontestavelmente, a figura mais fascinante entre os sábios brasileiros. Seus atributos de pesquisador eram profundos: curiosidade insaciável, percepção aguda, memória viva e técnica especializada, particularmente na Entomologia, Protozoologia e Clínica. Não só descobriu a Doença de Chagas ou Tripanosomose Americana, como foi o primeiro cientista a mostrar a importância dos mosquitos domésticos na transmissão da malária e a defender a teoria de ser o impaludismo moléstia domiciliar. Daí sempre propor a profilaxia desta doença na base da luta antianofélica, nas moradias. A justeza de seus estudos foi cabalmente provada com o emprêgo do DDT e de outros inseticidas residuais.

A saúde pública brasileira sofreu modificações fundamentais no início do século 20. A geração de médicos que comandou à época essas mudanças contava com nomes como Oswaldo Cruz e Adolpho Lutz, responsáveis pela grande reforma sanitária do Rio de Janeiro e de São Paulo, respectivamente. Ao lado de ambos, um discípulo de Oswaldo Cruz também é sempre lembrado: Carlos Chagas. Chagas é um caso à parte na história da ciência: ele foi o primeiro e único até hoje a identificar todo o ciclo de uma doença – que hoje leva seu nome. O médico descobriu e descreveu o vetor da moléstia, o agente causal, o reservatório doméstico e a manifestação em humanos. Esse foi seu maior feito, mas não o único. Ele teve também contribuição fundamental para o combate da malária, para o desenvolvimento da pesquisa e expansão das atividades do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), para uma reforma do sistema de saúde pública no Brasil e para a formação de pessoal especializado em higiene pública e medicina tropical.

Chagas nasceu em 9 de julho de 1879 em Oliveira (MG). Por influência de um tio, interessou-se pela medicina. Em 1897, ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde teria professores como Miguel Couto e Francisco Fajardo. A faculdade sofria então influência da revolução pasteuriana e começava a valorizar a medicina experimental e a pesquisa em laboratório. Esses procedimentos eram adotados também no IOC, conhecido à época como Instituto Manguinhos, onde Chagas fez sua tese de doutoramento, Estudos hematológicos no impaludismo, sob orientação de seu grande mestre: Oswaldo Cruz. Embora pretendesse se dedicar à clínica, Chagas foi cooptado por Cruz para a área de saúde pública. Participou de diversas expedições do instituto para combater a malária, e em uma delas, descobriu a doença de Chagas. Cruz tinha grande orgulho de seu discípulo, e disse certa vez de sua principal descoberta: “Nunca até agora, nos domínios das pesquisas biológicas, se tinha feito um descobrimento tão complexo e brilhante e, o que mais, por um só pesquisador” . Após a morte do mestre, Chagas sucedeu-o na direção do Instituto e na Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP). Assim como Cruz, Carlos Chagas enfrentou vários opositores a suas descobertas e ações.

Tendo em vista o trabalho realizado por Chagas em sua tese de doutoramento, Oswaldo Cruz o requisita, em março de 1905, para a missão de controlar a epidemia de malária que assolava o município de Itatinga, no estado de São Paulo. A doença atacava a maioria dos trabalhadores da Companhia Docas de Santos, que construía uma represa na região, causando a paralisação das obras. Entusiasmado pelo desafio, Chagas segue para Itatinga e lá realiza a primeira campanha bem-sucedida contra a malária no Brasil, introduzindo procedimentos que passariam a ser corriqueiros nas campanhas subseqüentes. Segundo ele, para se impedir a propagação da doença em regiões em que não havia ações sistemáticas de saneamento, fazia-se necessário concentrar as medidas preventivas nos locais onde viviam os homens e os mosquitos infectados com o parasito da malária. Seguindo tal orientação, em cinco meses Chagas consegue debelar o surto da doença. De volta ao Rio, continua a servir à Diretoria Geral de Saúde Pública e, em 19 de março de 1906, transfere-se para o Instituto de Manguinhos. No ano seguinte, Oswaldo Cruz é solicitado pela Inspetoria Geral de Obras Públicas a organizar o saneamento da Baixada Fluminense, onde estavam sendo realizadas obras de captação de água para o Rio de Janeiro. Juntamente com Arthur Neiva, também pesquisador de Manguinhos, Chagas parte para Xerém e o êxito das medidas ali adotadas confirma sua teoria da infecção domiciliar da malária.

Em 1906, Carlos Chagas iniciou as publicações sobre a profilaxia da malaria, defendendo a idéia da infecção domiciliar, o que o motivou a descrever varias espécies novas de mosquitos, destacando-se principalmente a “Célia brasiliensis”, que, pelos hábitos diurnos, pela primeira vez revelados em um “anofelino”, constituiu um campo do mais alto interesse, na profilaxia da moléstia. Durante esse trabalho de campo e laboratório, Chagas descobriu o “Tripanosoma minasensis” em 1908. Em 1909 descreve o “Tripanosoma cruzi”, que tão grande repercussão ia ter no mundo inteiro. Como protozoologista, alem de tripanozomas novos descritos, ele estudou, só ou com Hartmann e estabeleceu dados novos sobre amebas, hemogregarinas, coccideas e ciliados parasitos.

Diante do sucesso alcançado nestas duas campanhas, ainda em 1907 Chagas é incumbido por Oswaldo Cruz de organizar, com Belisário Penna, médico da Diretoria Geral de Saúde Pública, o controle da malária no norte de Minas Gerais. A doença prejudicava seriamente as obras de prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil na região do rio das Velhas, entre Corinto e Pirapora, comprometendo o projeto que pretendia unir o norte ao sul do país com a expansão da ferrovia do Rio de Janeiro a Belém do Pará. Na cidade de Lassance, Chagas realiza a profilaxia da malária, mas, no decorrer do ano seguinte, seus trabalhos tomam um rumo inesperado. Ali ele iria identificar uma nova doença humana, descoberta que marcaria decisivamente sua trajetória profissional.

Até a campanha antipalúdica de Itatinga, a profilaxia da malária consistia basicamente em tratar os doentes com quinina e combater as larvas do mosquito transmissor lançando substâncias tóxicas nos lagos, represas e demais reservas de água estagnada. Carlos Chagas inaugura nova concepção para a prevenção da doença, segundo a qual é preciso impedir que o homem doente passe o parasito para o mosquito e que este, contaminado, infecte o homem são. Chagas formula o seguinte raciocínio: o mosquito transmissor se contamina ao sugar o sangue parasitado do homem doente, no leito, e em seguida perde grande parte de sua capacidade de vôo, pousando nas paredes e móveis da casa enquanto digere o sangue sugado. Portanto, esse seria o melhor momento para se fazer o combate ao mosquito e assim romper o ciclo de propagação da doença. Para isso, as casas deveriam ser desinfetadas mediante a queima de piretro, produto com base em enxofre e que elimina o mosquito alado (também utilizado por Oswaldo Cruz contra o transmissor da febre amarela). Posteriormente, a generalização do uso de inseticidas na fumigação das casas conferiria maior eficácia ao método, que passa a ser amplamente utilizado para a profilaxia da malária em várias regiões do mundo. A teoria da infecção domiciliária da malária é divulgada por Chagas no trabalho Prophylaxia do impaludismo , publicado em 1907, mas sua importância seria reconhecida bem mais tarde, no Congresso Internacional de Malariologia, realizado em 1925 em Roma. As vantagens do método preventivo por ele formulado e a importância social do combate à doença, que representava um dos principais problemas de saúde pública do país, sobretudo em suas regiões rurais, são analisadas por Chagas na conferência Lucta contra a malaria , pronunciada em 1933.

O Decreto n. 1812, publicado em 14 de dezembro de 1907 inaugura o Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos, destinando-o prioritariamente, no que se refere as suas atividades cientificas, ao estudo das moléstias infecciosas e parasitarias do homem, dos animais e plantas, alem do estudo das questões referentes a higiene e a zoologia. A descoberta de Chagas, renderia ao Instituto um credito de 500:000, liberado pelo Ministério da Justiça e Negócios Interiores pelo Decreto n. 9346 de 24 de janeiro de 1912, sendo 300:000 destinados a construção de um hospital apropriado ao tratamento da moléstia de Chagas e 200:000 para a realização de experiências no campo da profilaxia e da assistência medica nas zonas flageladas pela doença. Este fato iria consolidar o domínio da Medicina Tropical e por conseqüência iria desencadear o estimulo de recursos destinados as moléstias tropicais, possibilitando a expansão do patrimônio físico e cientifico do Instituto Oswaldo Cruz.

Uma das grandes preocupações do sanitarismo na época era permitir o desenvolvimento comercial e a integração do país, e a doença estava prejudicando a expansão da estrada de ferro Central do Brasil. Na cidade de Lassance, Chagas montou um ambulatório no alpendre de uma casa, além de um alojamento e um laboratório em um vagão de trem. Ele e Penna já estavam na cidade há mais de um ano quando o chefe dos engenheiros, Cantarino Mota, mostrou-lhes um inseto hematófago conhecido como barbeiro, por ter o hábito de morder o rosto. Chagas decidiu investigar a possibilidade de esse inseto transmitir algum parasita ao homem ou outro vertebrado, e encontrou formas parasitárias no intestino do barbeiro. Desconfiado de que se tratasse de um estágio evolutivo do Trypanosoma minasense, protozoário recém-descoberto por ele no sangue de um macaco sagüi, ele enviou barbeiros contaminados a Oswaldo Cruz, para que ele os alimentasse no sangue de sagüis criados no laboratório de Manguinhos. Um mês depois, Cruz constatou a presença de tripanossomos no sangue dos macacos doentes. Chagas voltou ao Rio de Janeiro e logo constatou que não se tratava do T. minasense ou de qualquer outra espécie conhecida do mesmo gênero. “Em homenagem ao mestre” , ele batizou o parasita de Trypanosoma cruzi.

O médico retornou a Lassance em busca de casos de humanos infectados pelo parasita. Visitou em vão casas infestadas pelo inseto, até que encontrou um gato que sofria do mal. Ele não desistiu da busca em humanos e, após algum tempo, voltou à casa onde encontrou o gato. Nessa visita, encontrou Berenice, uma criança da casa, em estado febril. No sangue da menina, que estava na fase aguda da doença (primeiras 4 a 8 semanas), ele descobriu o parasita. Chagas desvelou assim a última etapa do mal, tornando-se o único pesquisador até hoje a descrever todo o ciclo de uma doença. Chagas seria ainda o primeiro a descortinar a importância da moléstia, afirmando que onde houvesse o barbeiro contaminado, haveria pessoas infectadas. A descoberta repercutiu tanto no Brasil como no exterior, e a Academia de Medicina fez de Chagas membro extraordinário, por não haver vaga disponível naquele momento. No entanto, como geralmente ocorre com novos achados, Chagas teve sua descoberta contestada, primeiro na Argentina e em seguida no Brasil, envolvendo a Academia em um debate em que se percebia mais vaidade que fundamentos conceituais. Embora erros pequenos tenham sido apontados, muitas vezes por ele mesmo, as pesquisas comprovariam suas descobertas e, a partir dos anos 1940, muitas das dúvidas sobre a doença seriam esclarecidas.

Em setembro de 1916, durante o Primeiro Congresso Médico Panamericano realizado na capital argentina, a doença de Chagas é questionada pelo pesquisador alemão Rudolf Kraus, diretor do Instituto de Bacteriologia de Buenos Aires. Kraus alega que em suas pesquisas na região do Chaco argentino encontrara inúmeros barbeiros infectados com o Trypanosoma cruzi mas, a despeito disso, nenhum caso da doença fora observado. Com base nesse argumento, já havia divulgado em várias ocasiões trabalhos em que punha em dúvida a existência da tripanossomíase americana. A defesa de Chagas é apresentada em sessão especial do congresso no dia 20 de setembro. Em seu pronunciamento, argumenta que se tratava de uma doença ainda em fase de adaptação ao gênero humano e, por isso, os dados negativos de Kraus poderiam indicar que não se havia completado o ciclo biológico na referida região. Sua conferência é muito bem recebida pelos participantes do encontro, mas a polêmica sobre a doença de Chagas estava apenas começando.

Na verdade, o debate no Congresso de Buenos Aires é o preâmbulo da controvérsia que teria lugar no Rio de Janeiro na Academia Nacional de Medicina em 1923. Em 23 de novembro de 1923, o parecer final da comissão é apresentado aos membros da Academia e seus termos são, na maior parte, favoráveis a Chagas. A comissão reconhece que a autoria da descoberta pertence efetivamente a Chagas, mas mantém a dúvida quanto à tese por este defendida de que a tripanossomíase americana era uma enfermidade que grassava por vastas regiões do país. Embora o resultado formal da controvérsia seja favorável a Chagas, as suspeitas lançadas na polêmica permaneceriam até os anos 30, gerando dificuldades ao estudo e à difusão dos conhecimentos sobre a enfermidade no país. Logo após a morte de Chagas, ocorrida em 8 de novembro de 1934, essa situação começa a ser revertida, em conseqüência dos estudos realizados na Argentina, por Salvador Mazza e Cecílio Romaña, e no Brasil, pelos trabalhos desenvolvidos sob a liderança de Evandro Chagas e Emmanuel Dias, pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz. Em 1959, o Primeiro Congresso Internacional de Doença de Chagas, realizado no Rio de Janeiro, torna evidente que a doença descoberta há cinqüenta anos achava-se finalmente reconhecida como assunto de grande importância social e que a trilha científica aberta por Carlos Chagas deveria ser ampliada e aprofundada na busca de novos caminhos e soluções.

Apesar do trabalho desenvolvido em Lassance, Chagas foi combatido e desacreditado por pessoas como o higienista Afrânio Peixoto. Quando o Departamento de Saúde Pública foi criado, o poderoso Afrânio Peixoto tinha a pretensão de dirigi-lo. Com a nomeação de Chagas, Afrânio tornou-se o mais virulento inimigo do descobridor da tripanossomíase. O cientista Amílcar Vianna descreve esta fase: “Não se acreditava em doença de Chagas. Dizia-se que era uma doença que dava em pessoas desimportantes, que viviam em lugares sem muita importância e por isso ela não valia nada. O grande mérito das descoberta dos focos de Bambuí foi chamar a atenção para a doença, mostrar que ela não era tão de importante assim e que o problema não estava só localizado em Bambuí, mas no Brasil inteiro, ou pelo menos, em grande parte do território nacional”.

O médico faleceu subitamente em 8 de novembro de 1934, vítima de um ataque cardíaco. “Há muita controvérsia acerca desse assunto” , diz sua neta Maria da Glória. Segundo ela, especulou-se que o ataque teria sido conseqüência do tabagismo excessivo ou da doença que ele descobrira. “Minha avó guardava um canivete com sangue dele, e dizia que na hora em que meu avô teve o ataque, ele tentou fazer uma sangria”. Quatro vezes indicado para o prêmio Nobel de Medicina, Carlos Justiniano Ribeiro das Chagas (1878-1934) mereceria ter sido agraciado. Num caso único da Medicina de todos os tempos, Carlos Chagas descobriu um parasita (Trypanozoma cruzi), o inseto que o transmitia (“barbeiro” ou chupança), os animais que o mantinham na natureza (tatus e outros mamíferos silvestres) e a doença que esse parasita determinava no homem (Doença de Chagas). Segundo relato de Marilia Coutinho (Folha de São Paulo, caderno Mais, pág.11, 07/02/1999) não foi premiado, em 1921, porque “organismos brasileiros consultados pela Academia Sueca, teriam desaconselhado a indicação” . E pensar que naquele ano nem sequer houve premiação no quesito Medicina e Fisiologia. Em 1912 Carlos Chagas recebeu o prêmio Schaudin, o mais prestigiado na área de protozoologia, vencendo cinco candidatos europeus.

A descrição do fato se coloca a seguir, pela visão do historiador argentino Sierra-Iglesias “En 1921 era propuesto para el Premio Nobel de Medicina, y cuando todo presumía que le sería otorgado, inconfesables influencias se interpusieron. El Instituto sueco se había dirigido a organismos científicos del Brasil recabando datos sobre su personalidad, sobre su obra, pero algunos sus propios compatriotas (increíblemente, entre ellos algunos no médicos, por lo tanto primariamente inhabilitados para juzgar el descubrimiento de la tripanosomiasis), lo desaconsejaron, siendo este año declarado desierto este codiciado lauro mundial”. O arrazoado brasileiro que apresenta Chagas à Academia Sueca, se encontra na FIOCRUZ e contempla os méritos e a genialidade de Chagas, a par da enorme transcendência de sua descoberta para a humanidade, em especial para os povos latino-americanos. O andamento do processo e as razões para a não contemplação de Carlos Chagas constituem um mistério, não havendo outros registros em Manguinhos e junto à família de Carlos Chagas. Não obstante, é muito coerente a informação de Sierra Iglesias com a proposta /indicação de Chagas, sendo muito provável que esteja correta a informação argentina. É bastante possível, sem dúvida, que ao pedido sueco, autoridades brasileiras tenham desaconselhado o laureamento, na época, diretamente por ação dos detratores ou, por insegurança diante da pendência em curso.

As quatro indicações de Chagas ao Nobel foram confirmadas por Nils Ringertz, secretário da Comissão Nobel para Fisiologia e Medicina, do Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Suécia. A indicação de Chagas ao Nobel de 1921 foi examinada por Gunnar Hedén, que “aparentemente” fez um relatório oral à comissão. Nada consta quanto à indicação de 1913. Nesse ano, Charles R. Richet levou o prêmio em reconhecimento ao seu trabalho de descoberta da reação anafilática, em que um organismo reage à injeção na corrente sanguínea de uma determinada proteína. A primeira indicação oficial, datada de 1º de janeiro de 1913, foi de Pirajá da Silva. A segunda, de 21 de dezembro de 1920, foi feita por H. de Gouvêa. Foram feitas duas outras indicações não-oficiais, segundo Ringertz.

O principal feito da carreira de Chagas foi descobrir uma doença que tem pouca possibilidade de cura uma vez atingida sua fase crônica. Ela causa arritmia, enfraquece o coração, ataca o esôfago dificultando a deglutição, complica a evacuação e atinge o sistema nervoso, o que faz com que a vítima sinta calor e estresse contínuo. Hoje, a doença atinge pessoas em 2700 municípios brasileiros e pode ser encontrada em todo o continente americano. A tripanossomíase americana ou doença de Chagas é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi. O parasita pode penetrar no corpo humano por três caminhos: por meio das fezes do barbeiro, que são esfregadas sobre a picada; por transfusão de sangue ou de mãe para filho. “O caso da transmissão do barbeiro é mais comum em crianças pequenas, pois elas passam o dia no berço sem se movimentar”, afirma João Carlos Dias, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e representante da Organização Mundial de Saúde para a doença de Chagas. Cerca de 10% das crianças infectadas falecem na fase inicial da moléstia.

Uma vez passada a fase aguda da doença, o corpo desenvolve anticorpos e o mal entra em sua fase crônica, na qual é difícil encontrar o Trypanosoma cruzi no sangue. Na época de Carlos Chagas, o diagnóstico nessa fase tinha de ser por exame sorológico, que identificava os anticorpos produzidos. Também naquela época, muitos dos exames eram feitos com barbeiros não infectados que picavam a pessoa suspeita de estar contaminada e eram analisados em seguida. Essa técnica é conhecida como xenodiagnóstico e é muito pouco usada hoje em dia, servindo para isolar diferentes cepas do protozoário.

Algumas das afirmações de Chagas sobre a doença foram mais tarde contestadas cientificamente. Ele acreditava que o mal estava associado ao bócio, também muito comum na região de Lassance. O médico achava ainda que a doença causava cretinismo (distúrbio que ocorre na infância e é caracterizado por retardamento mental), pois muitos de seus pacientes sofriam do mal. “A região era de populações como de quilombos, e as crianças eram muitas vezes filhas de irmãos ou primos, por isso havia um alto índice de cretinismo”, explica Dias. Outra teoria de Chagas que mais tarde se mostrou equivocada foi a de que o barbeiro transmitia o parasita pela picada. Depois de verificar que o barbeiro dejetava durante ou após as suas refeições de sangue, Arthur Neiva formula a hipótese de que, ao se coçar, o indivíduo introduz estas fezes – que contêm as formas infectantes do tripanossomo – pela pele escarificada ou por uma mucosa, como a ocular. Em 1912, o parasitologista francês Emille Brumpt, que realizava pesquisas em São Paulo, demonstra experimentalmente esse modo de transmissão, definitivamente descrito e estabelecido por Emmanuel Dias na década de 1930. A doença de Chagas não mata, mas suas conseqüências podem ser fatais. “As pessoas geralmente morrem de problemas no coração em decorrência do mal”, afirma Dias. Ele desenvolve uma pesquisa na região de Lassance que visa identificar se os tripanossomos encontrados nos doentes têm as mesmas características daqueles encontrados em Berenice por Chagas.

Cocaína

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Autoria: Eliezer Pereira

Precursor do uso terapêutico da cocaína, Freud empregou a droga, em doses ínfimas, no tratamento de um morfinômano. O sucesso inicial da experiência viu-se comprometido pela gravidade do efeito colateral: livre da morfina, o paciente tornou-se dependente da cocaína.

Cocaína é um alcalóide de fórmula química C17H21NO4, extraído das folhas da coca (Erythroxylun coca), arbusto natural dos altiplanos andinos pertencente à família das eritroxiláceas. Suas folhas são ovaladas ou elípticas; as flores, pequenas e brancas e o fruto, vermelho e brilhante. Muitos povos ameríndios mascavam as folhas da coca para suportar a fome, a sede e o cansaço por longos períodos. O hábito ainda perdura entre as populações pobres de alguns dos países sul-americanos, principalmente a Bolívia.

Depois de refinada, a cocaína se apresenta na forma de pó branco e cristalino. Em contato com as mucosas, é absorvida e passa a exercer ação tóxica sobre o sistema nervoso central; por isso, é mais freqüentemente consumida por inalação. Com o correr do tempo, a prática pode levar o usuário à perfuração do septo nasal. A droga é também consumida por injeção intravenosa, isolada ou associada à morfina.

EFEITOS E PROBLEMAS

Um dos principais efeitos da cocaína, como de outras substâncias tóxicas, é a euforia, estado de duração variável que combina sensações de poder, segurança e suficiência com eliminação do medo ou ansiedade. Como esses efeitos se dissipam em pouco tempo, apresenta-se a necessidade de usar novas doses.

De acordo com a freqüência do uso, a substância provoca quadros de toxicidade em diferentes graus. No quadro agudo, decorrente de múltiplas aspirações ou injeções em curto espaço de tempo, pode causar ao usuário disfunções importantes no sistema nervoso central e neurovegetativo, com sintomas como perda de apetite, taquicardia, elevação da pressão arterial, tremores, delírios, alucinações e convulsões. A morte pode ocorrer por colapso do aparelho respiratório.

O quadro crônico ocorre depois de semanas ou meses de uso moderado mas freqüente. Comporta uma atividade mental delirante, de tipo paranóide, com sintomas semelhantes aos da esquizofrenia. O usuário tem alucinações visuais e táteis nítidas e não raro descreve sensações como a de ser picado na pele, sofrer escoriações ou ter o corpo infestado de parasitas.

Uma característica que diferencia a cocaína de outras substâncias tóxicas de efeitos análogos é o fato de não suscitar tolerância do organismo. Após a primeira dose, as aplicações seguintes continuam a produzir o mesmo efeito, não sendo necessário o aumento de dosagem para que se produzam as mesmas sensações. Estudos feitos com usuários crônicos demonstram que, após interrupção das aplicações, eles podem retomar o uso da droga na quantidade e freqüência habituais sem entrar em quadro de intoxicação aguda.

É ainda discutível o fato de a cocaína causar dependência orgânica, quadro que se caracteriza por mudanças significativas das condições funcionais do organismo decorrentes da utilização prolongada de uma substância. A dependência exige continuidade no uso da droga e a suspensão desta acarreta a chamada síndrome de abstinência. Como ocorre com outras substâncias similares, a suspensão do uso da cocaína não provoca o quadro típico de abstinência, mas seus efeitos são mais ou menos equivalentes: o paciente que interrompe de súbito o uso da cocaína apresenta sonolência, fadiga e lassidão, além de aumento do apetite e distúrbios do sono. Tais sintomas desaparecem com a retomada do uso.

Uma variedade do mesmo entorpecente tornou-se popular entre consumidores de drogas nos últimos anos da década de 1980: o crack, derivado da cocaína mais potente que esta e potencialmente mais perigoso quanto aos efeitos imediatos sobre a conduta do usuário e sobre seu organismo. Extraído da mesma planta, o pó é prensado e consumido por aspiração através de um cachimbo.

O crack também leva muito mais rapidamente à condição de dependência. Há indícios de que seu consumo, como o de outras drogas, estimule o usuário a práticas anti-sociais ou criminosas.

O tráfico de cocaína tornou-se um dos negócios mais lucrativos do mundo, viga mestra do crime internacionalmente organizado. Até o final do século XX, a repressão exercida por governos de quase todas as nações e os altos preços da droga não foram eficazes para reduzir seu comércio e consumo.

CO2 na Atmosfera

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Autoria: Fabrício Fernandes Pinheiro

A demanda de energia – eletricidade, gás e combustíveis necessários para operar todas as ferramentas da civilização moderna – em países desenvolvidos é a maior causa da poluição a qual está agora aquecendo nosso planeta.
Dióxido de carbono, produzido na queima de combustíveis fósseis – carvão, óleo e gás natural – é responsável por cerca de 6% do efeito estufa. Os outros gases envolvidos nesse efeito são os CFCs (CloroFlúorCarbonos), metano, vapor de água, ozônio e óxido nitroso(1).
Bolin(2), coordenador do Intergovernamental Panel on Climate Change (IPCC) instituído em 1988, alertou, durante a Second World Climate Conference em Geneve realizada no final de 1990, sobre não haver mais tempo para usar as dúvidas remanescentes sobre o aquecimento global e a mudança climática como uma desculpa para a inatividade.
O planeta já está passando por estiagens regionais, tempestades, redução do suprimento de água, extinção de muitas espécies de plantas e animais, em função do aquecimento global que altera os padrões climáticos e perturba os ecossistemas naturais.
Previsões atuais do aquecimento global não levam em conta as reações e interações das massas de terra, oceânicas e de gelo em resposta à elevação da temperatura que já iniciou. Na avaliação das mudanças em desenvolvimento deve-se levar em conta os processos de “feedback” (re-alimentação) através dos quais o efeito estufa desencadearia reações que, por sua vez, exacerbariam o aquecimento global. Surge um problema em incluir reações de “feedback” em modelos computacionais de um clima futuro, porque esses processos não tem comportamento suficientemente previsível para dar resultados confiáveis. É impossível quantificar o efeito dos “feedbacks” quando eles mesmos são alimentados uns pelos outros. Quando as respostas de comunidades de plantas, massas de terra, oceanos e gelo começam a realimentar-se entre si, a incerteza de cada efeito individual é ampliada por todos os outros. Torna-se, então, impossível produzir previsões confiáveis sobre seus efeitos totais no sistema climático. O que se pode prever, no entanto, é que, se eles interagem de forma sinergética, seus efeitos combinados serão muito maiores do que a soma dos efeitos individuais considerados separadamente.
Além disso, nenhum dos cálculos das concentrações dos gases estufa e o respectivo aquecimento nos próximos cem anos leva em conta os “feedbacks” que virão da biosfera e das comunidades microbiológicas e de plantas em particular, enquanto a temperatura aumenta e o clima muda.
Muitos dos “feedbacks” biosféricos dependem das variações esperadas para o ciclo do carbono, durante o qual carbono é armazenado por massas de terra e oceanos, liberado para a atmosfera e, novamente, absorvido nas massas de terra e oceanos. O consenso científico é que podemos esperar significativas quantidades extras de CO2 a serem liberadas à atmosfera no futuro, pois as plantas e microorganismos mudam seu comportamento em reação ao aumento da temperatura.
Uma reação biosférica potencial resultará da morte esperada de florestas que não se adaptem, num tempo adequado, ao aumento da temperatura. Quando essas florestas morrerem haverá liberação de grandes quantidades de CO2 e CH4.
Pesquisas sugerem(2) que as áreas cobertas pelas florestas boreais diminuirão drasticamente dos atuais 23%, da área total florestada do mundo, para menos de 1%. Estima-se que haverá adição de 80 – 120 milhões de toneladas de CH4 à atmosfera e a temperatura local aumentará 10C. Prevê-se, também, um aquecimento global em torno de 3C para o ano 2100.
Deve-se considerar, também, um número de reações dentro dos oceanos e praticamente todas aumentarão o dióxido de carbono na atmosfera. A princípio, os oceanos não absorverão convenientemente o CO2 extra na atmosfera na mesma velocidade em que o mesmo será emitido. Se houver um aumento de 10%, os oceanos absorverão somente 1%. Além disso, como as águas superficiais do oceano se aquecem, elas não serão capazes de absorver tanto CO2 como o fazem no presente.
Pensa-se, também, que como os oceanos sofrerão aquecimento, carbono orgânico dissolvido sofrerá decomposição mais rapidamente, liberando novamente quantidades crescentes de CO2 à atmosfera.
A combinação de todos os fatores envolvidos no aquecimento e mudança climática levou à conclusão de que é necessária a redução imediata de 60 – 80% nas emissões de CO2 e de outros gases estufa. Um aumento maior que o dobro na concentração atual dos gases estufa seria um risco inaceitável e, no momento, tem-se que a concentração dobrará por volta do ano 2025(3).
Diversas ações, englobadas no que poderia se chamar de Revolução Industrial Verde, tais como desenvolvimento de novas tecnologias, maior eficiência no uso da energia disponível e utilização efetiva e com eficiência de biomassa (árvores, plantas, rejeitos, …) estão em curso. Nesse sentido tem especial interesse os microorganismos presentes na enorme massa de água da Terra. As algas microscópicas marinhas fazem a fotossíntese e produzem um ingrediente essencial (dimetilsulfeto – DMS) que mantem os níveis de enxofre constantes e ajuda na formação das nuvens.

PODERIAM AS ALGAS SER USADAS
PARA CONTROLAR O AQUECIMENTO GLOBAL?

O fitoplâncton compõe-se de plantas microscópicas unicelulares que povoam as camadas superficiais ( 80 metros) de todos os corpos de água, seja doce ou salgada. Utilizando a luz solar como fonte de energia, esses organismos vegetais transformam substâncias simples, que obtem do meio ambiente, na matéria orgânica necessária a seu crescimento e multiplicação. Trata-se de um dos mais importantes processos em curso no planeta, uma vez que constitui o primeiro elo do complexo sistema alimentar aquático. Todos os animais dos meios aquáticos devem sua subsistência, de forma direta ou indireta, à multiplicação celular dessas plantas microscópicas (diatomáceas, flagelados, dinoflagelados, ..)(4).
Além da luz que necessitam para se multiplicar, seu metabolismo não pode prescindir de determinadas substâncias biogênicas, como sais nutrientes (nitratos, fosfatos, silicatos), oligoelementos (como ferro, molibdênio, cobalto, vanádio, cobre, manganês e zinco) e de algumas substâncias orgânicas (vitaminas, ácidos húmicos, …).
As diferentes formas de vida competem entre si pela captura dos nutrientes disponíveis na camada superficial marinha. O resultado da competição não depende, apenas, do ritmo de reprodução celular ou da velocidade em assimilar os nutrientes. Depende também das condições ambientais, que variam muito conforme as regiões e a época do ano(5). Nos mares temperados, por exemplo, em que as mudanças de estação são muito marcadas, produzem-se períodos de rápidos crescimento e declínio da população fitoplanctônica. Pode-se dizer que no inverno, há forte mistura vertical no oceano, ou turbulência (pelo vento), há nutrientes, mas a baixa luminosidade limita seu crescimento. Na primavera, há maior luminosidade, menos ventos, a camada superficial se aquece. Assim, nessa camada, ocorre um crescimento exponencial do número de células de fitoplâncton (florescimento primaveral), por um dado tempo. Seu declínio também é rápido, pois a diminuição de nutrientes acarreta uma diminuição na divisão celular, a tal ponto que as perdas devido ao afundamento e ao consumo por animais planctônicos não são compensadas. Nesta condição, outro tipo de espécies se desenvolve mais rapidamente havendo uma sucessão de espécies até o outono.
Considerando a relação direta entre o CO2 e o efeito estufa, é de extrema importância o fato de esses microorganismos, durante o dia, processarem a fotossíntese, onde ocorre consumo de gás carbônico e geração de oxigênio. Deve-se considerar, também, que devido à migração vertical de alguns tipos de fitoplâncton, mesmo que os nutrientes tenham se esgotado durante o dia, aqueles permanecem na superfície, assimilando gás carbônico e, consequentemente, acumulando carboidratos(4). Entretanto, à noite, processo contrário ocorre; é a respiração de todos os tipos de fitoplâncton e a decomposição de alguns deles. Há consumo de oxigênio dissolvido na coluna de água e liberação de gás carbônico à água e à atmosfera.
A hipótese Gaia desenvolvida por Lovelock(6), um químico inglês, sugere que com o objetivo de manter a condição termostática da Terra, CO2 é contínua e progressivamente bombeado da atmosfera. Há uma entrada constante através de processos tectônicos, e a retirada a longo prazo são os depósitos de rochas calcáreas nos sedimentos. O consumo de CO2 ocorre quase que totalmente nos processos biológicos; na ausência de vida, CO2 aumentaria sua abundância além de 1% por volume. Lovelock e Whitfield observaram que, se a regulagem do clima ocorre por bombeamento de CO2, o mecanismo está relacionado ao limite de sua capacidade operacional. Sabendo que dióxido de carbono da atmosfera diminuiu de cerca de 30%, no início da vida, a 300 p.p.m.v. (um fator de 1000), os autores sugeriram que o decréscimo no CO2, através do respectivo declínio no efeito estufa, foi compensado pelo aumento da luminosidade solar e assim o clima permaneceu constante e adequado à vida.
A hipótese Gaia sugeriu também que o dimetilsulfeto (DMS) poderia ser o meio de retorno de enxofre (elemento bioquímico essencial) da terra para o mar(7). Em 1987, Charlson et al.(8) sugeriram também que a influência de DMS iria além de sua participação no ciclo do enxofre e, assim, as algas (emissoras de DMS) teriam papel vital na regulagem do clima da Terra.
Os ciclos biogeoquímicos do carbono e do enxofre estão intimamente ligados e aparecem conectados regulando os potenciais redox em ecossitemas óxicos e anóxicos. Emissão de DMS, através de seu efeito no albedo do planeta, juntamente com o bombeamento de CO2 levam à tendência ao esfriamento.
A idéia original de Charlson é que a água aquecida pelo efeito estufa poderia acentuar a produção de algas, produzindo mais DMS e assim mais nuvens. Isso faria com que mais energia solar fosse refletida e, conseqüentemente, a uma temperatura da Terra menor. Essa idéia sugere também que haveria maior retirada de CO2 da atmosfera pelo processo da fotossíntese.
Com a finalidade de verificar essas hipóteses, diversos estudos tem sido efetuados com relação ao crescimento e ao comportamento das algas. Entre esses estudos (controversos ainda) Martin propôs a teoria de que o crescimento das algas é limitado em muitas áreas não pela falta de nutrientes convencionais, como nitrogênio e fósforo, mas por ferro. Este pode alcançar os oceanos remotos por vários meios com origem na terra e isso explica porque águas remotas, ricas em nitrogênio e fósforo, como nos mares da Antártica, não são mais biologicamente ativas. Experimentos de Martin et al.(9,10) mostraram que quando ferro é adicionado a amostras de água tiradas de regiões ricas em nutrientes, a atividade biológica aumenta cerca de dez vezes.
Com base nos resultados obtidos, Martin sugeriu que é possível reagir ao aquecimento global adicionando ferro a partes de oceanos ricas em nutrientes mas com baixa atividade biológica. A proposta inicial foi que o aumento na produção de algas “fixaria” mais dióxido de carbono da atmosfera, da mesma maneira que o plantio de árvores.
O plano elaborado por Martin, que faleceu no princípio deste ano, será posto em prática por Johnson, Liss e Watson. Farão uma tentativa de fertilizar com ferro, em água marcada, uma parte do Oceano Pacífico, próxima às Ilhas Galapagos, talvez uma área de um km2. Será monitorado o volume e distribuição das espécies de algas e a emissão e absorção de gases tais como DMS e CO2.
Se tal experimento fosse aplicado em grande escala para controlar o aquecimento global, o ecossistema marinho seria fundamentalmente alterado. Mas não se sabe como. Tem-se, então, a pergunta: será que o aumento na concentração de ferro ou temperaturas mais altas favoreceriam a produção de diatomáceas, Coccolithophores ou phaeocystis? Diatomáceas fixam carbono, mas produzem pouco DMS. Coccolithophores produzem DMS, mas liberam CO2. Assim, torna-se duvidoso se o aumento de cada grupo reagiria ao aquecimento global. Phaeocystis absorve carbono e produz DMS.
Johnson(6) acredita serem remotas as chances de o método proposto controlarem o CO2 na atmosfera. Ele espera um deslocamento das diatomáceas pequenas para as grandes e com base nisso, usando modelos computacionais, uma redução de não mais que 2 gigatoneladas de CO2. Isso ainda é pouco comparado às 5 gigatons liberadas por ano, resultantes da atividade humana, e menos ainda se comparado ao previsto de 15 gigatons para os próximos 50 anos.
Torna-se claro, assim, que todos os estudos efetuados auxiliarão na previsão sobre os efeitos provocados nos ecossistemas marinhos em função do aquecimento global. Entretanto, enquanto a dinâmica das algas não for bem compreendida, qualquer tentativa para prever seu efeito no clima será em vão.

Referências Bibliográficas

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