As Variedades Linguísticas no Gênero Textual

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SUMÁRIO

1.0 Justificativa /Apresentação
2.0 Objetivos
2.1 Objetivo geral
2.2 Objetivos específicos
3.0 Metodologia
4.0 Fundamentação Teórica
5.0 Cronograma de Atividades
6.0 Bibliografia Utilizada

1.0 APRESENTAÇÃO/JUSTIFICATIVA

A língua está sempre em evolução no processo de interação verbal. Os avanços tecnológicos estão criando novas formas de comunicação, em especial a internet, por ser prática e ágil em transmitir informação. Surgem novas modalidades de comunicação entre elas o e-mail. Por ser uma nova forma de interação verbal entre as pessoas e grupos sociais, com isso fica inevitável o surgimento de uma variação lingüística entre emissor e receptor das mensagens.

Escrever não significa apenas preencher o papel com frases, assim como não constitui um martírio. Hoje existem várias formas de comunicação, a oralidade tem o seu espaço, mas os textos escritos estão cada vez mais presentes na vida das pessoas, muitas vezes a oralidade é levada para escrita e prejudica no processo de interação verbal.

A escola tem um papel importante na vida do aluno, cabe a ela despertá-lo, expor e ampliar a diversidade de gêneros textuais. A língua materna deve ter como meta primordial o desenvolvimento no aluno em habilidades que façam com que ele tenha cada vez mais capacidade de usar um número maior de recursos da língua para produzir efeitos de sentido de forma adequada a cada situação específica no processo de interação verbal.

O texto e-mail é usado por pessoas de diversas classes sociais, apresenta recursos como: abreviações de palavras, excessos de sinais de pontuação e espontaneidade. Esse tipo de gênero textual faz surgir uma nova forma de linguagem que vem provocando mudanças no código alfabético e na escrita oficial do português, são novos códigos, vocabulários e uma e até uma nova sintaxe.

O foco desse trabalho será compreender como é trabalhado esse novo gênero textual em sala de aula pelo docente e sua contribuição no contexto social do discente, em especial os alunos do 3º ano do ensino médio da escola GEO localizada em Petrolina – PE.

É preciso aprofundar a discussão com relação ao gênero e-mail, visto que estamos diante de uma comunicação moderna, são novas tecnologias cada vez mais ao alcance de um numero maior de usuário os chamados internautas, que antes de receber esse título são alunos de um sistema de ensino ainda evolução no Brasil. Esperamos trazer contribuições para uma melhor compreensão da comunidade discursiva virtual ampliando os níveis de linguagem e o processo de interação verbal

O ensino-apredizagem da leitura, compreensão e produção de texto passa pela perspectiva dos gêneros e coloca o professor de Língua Portuguesa como o principal responsável pelo ensino dos diversos gêneros textuais que circulam na sociedade e na escola, procurando dar ênfase de acordo com cada modalidade e momento. Na tentativa de uma investigação reflexiva e teórico-metodológia do processo de ensino da variação lingüística e gêneros textuais na escola GEO, localizada em Petrolina-PE, busca-se desvelar resultados emanados da seguinte problemática: Será que o gênero e-mail é trabalhado na sala de aula de forma atrativa visando despertar no aluno a importância desse como forma de comunicação, levando em consideração o momento e as condições em que o diálogo está inserido?

2.0 OBJETIVO GERAL

Analisar como o professor do 3º ano do EM da Escola GEO, em Petrolina/PE, trabalha a variação lingüística no gênero textual e-mail, e qual a importância desta no contexto social do aluno.

2.1 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

2.1.1 Analisar a linguagem utilizada no gênero textual e-mail, observando o uso das variações lingüísticas.

2.1.2 Investigar a prática docente utilizada em sala de aula.

2.1.3 Observar quais recursos são utilizados pelo o docente como ferramenta de ensino-aprendizagem.

3.0 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

Todas as línguas variam, isto é, não existe sociedade ou comunidade na qual todos falem da mesma forma. A variedade lingüística é o reflexo da variedade social e, como em todas as sociedades existe alguma diferença de status ou de papel, essas diferenças se refletem na linguagem. (GERALDI, 1995, p.35)

É por meio da linguagem que o homem expressa suas idéias, interage com o outro; transmite de geração para geração seus costumes, suas tradições. Devido o fato de estarmos, enquanto falantes, inseridos em contextos sociais diversificados é que a língua se apresenta de várias maneiras, dependendo dos fatores sócio-históricos de cada comunidade de falantes. Assim é correto dizer que como não existe sociedade humana na qual a linguagem oral não seja o principal instrumento de comunicação, também inexistente alguma em que haja uma única forma de falar como afirma Geraldi (1995).

A língua é uma única atividade social, um trabalho coletivo, empreendido por todos os seus falantes, cada vez que eles se põem a interagir por meio da fala ou da escrita. (BAGNO, 2007, p. 36)

Sabe-se que uma das funções da linguagem é a comunicação. Contudo, as pessoas não falam simplesmente para se comunicarem, muitas vezes, esse ato está ligado ao poder que as palavras possuem diante das pessoas. A partir dos atos de comunicação, foram criadas regras que propõem o uso correto da fala e da escrita. A importância dessas regras dão uma espécie de antecipação da produção lingüística do falante, assim, percebe-se que nem todos os integrantes de uma sociedade tem acesso a variedade, principalmente àquela que é considerada “culta”, “padrão”.

A Língua “padrão” é uma variedade lingüística que está diretamente atrelada ao nível econômico de uma comunidade, ou seja, é a partir dos usos de língua que se reflete o poder de um grupo sobre outro. Entende-se com esse pressuposto, que a língua está atrelada a escrita e, a explicação de muitos acharem que a grafia “correta” é aquela encontrada em gramáticas normativas e dicionários. Dessa premissa, nasce a discriminação social a partir da Língua, onde, as pessoas que não têm acesso, ou possuem acesso limitado a essa norma, são excluídos por não se enquadrarem nos padrões exigidos.

O preconceito lingüístico é tanto mais poderoso porque, em grande medida, ele é “invisível”, no sentido de que quase ninguém se apercebe dele, quase ninguém fala dele, com exceção dos raros cientistas sociais que se dedicam a estudá-lo. Pouquíssimas pessoas reconhecem a existência do preconceito lingüístico, que dirá a sua gravidade como um sério problema social, e quando não se reconhece sequer a existência de um problema, nada se faz para resolvê-lo. (BAGNO, 1999, p. 24)

Assim, percebemos que o preconceito diante das atitudes de fala e escrita, não é lingüístico, mas social. A respeito disso Bortoni-Ricardo (2004) afirma:

Essas crenças sobre a superioridade de uma variedade ou falar sobre os demais é um dos mitos que se arraigaram na cultura brasileira. Toda variedade regional ou falar é, antes de tudo, um instrumento identitário, isto é, um recurso que confere identidade a um grupo social. Ser nordestino, ser mineiro, ser carioca etc. é um motivo de orgulho para quem o é, e a forma de alimentar esse orgulho é usar o linguajar de sua região e praticar seus hábitos culturais.

Através dos conceitos da Sociolingüística, a língua passa a ser vista de outra forma, o que em muitos casos era considerado como “erro” passa a ser entendido apenas como uma variação, seja ela regional, de sexo, de idade; são tratadas apenas como simples diversidades. A Língua é um instrumento de ascensão e poder das classes sociais, sendo assim, a norma considerada “padrão” é a que é usada pela a classe alta. A linguagem usada pela classe baixa é tida como “feia” e “errada”, essa é uma das maiores visões preconceituosas em relação à linguagem, a noção de que há “erro” lingüístico.

A sociolingüística vem nos mostrar que existem várias maneiras de dizer a mesma coisa, mas infelizmente, nem sempre somos julgados com base nisso. Dentro dessa perspectiva, Clavet (2000, p.69) afirma:

O que interessa a sociolingüística é o comportamento social que a norma pode provocar. De fato, ela pode desenvolver dois tipos de conseqüência sobre os comportamentos lingüísticos: uns se referem ao modo como os falantes encaram sua própria fala, outros se referem às reações dos falantes ao falar dos outros. Em um caso, se valorizará sua prática lingüística ou se tentará, ao invés, modificá-la para conformá-la a um modelo prestigioso; no outro, as pessoas serão julgadas segundo seu modo de falar.

Sobre o assunto Bortoni-Ricardo (2004), diz:

O objeto de estudo da Sociolingüística passa assim a ser a diversidade lingüística, que se relaciona com: a identidade social do emissor, que envolve dialetos de classes sociais, falas femininas e masculinas, a identidade social do receptor, o contexto social, os estilos formal e informal, bem como o julgamento distinto que os falantes fazem do próprio comportamento lingüístico e dos outros, as atitudes lingüísticas.

Toda língua é adequada à comunidade que a utiliza; é um sistema completo que permite a um povo exprimir o mundo físico e simbólico em que vive. Até mesmo nas comunidades virtuais podemos perceber que a escrita virtual é altamente diferenciada da língua “padrão” e por isso, muitas discussões são geradas. Essa linguagem e encontrada, principalmente, nos sítios de relacionamentos da internet, os chamados “internetês”.

A internet, diferente da Gramática Normativa, não exclui nada nem ninguém e supera todas as noções de boa grafia já vistas até então, ela promove uma escrita de forma horizontal transformando também a maneira formal de leitura. Possibilitando mais liberdade de pensamento e ação em todos os sentidos aos seus usuários. Essa proposição é afirmada por Silva (2003, p.20)

A internet tem nos últimos anos, inaugurado novos modos de gerir a informação, de produzir conhecimentos, de estabelecer relações sócio-culturais… Certamente nem tudo é totalmente inovador… Não há história da humanidade nada que se faça sem recorrer ao que foi vivido, visto, experimentado, usado produtivamente. No entanto, o impacto da internet nos diversos segmentos de nossa sociedade traz consigo uma aura de novidade/modernidade.

Umas das funções da internet é a interação. Seja para unir pessoas diante do seu amplo mundo de possibilidades ou para interar pessoas e conhecimentos, já que em muitos sítios da internet tudo é mostrado em tempo real. E assim, todo tipo de relacionamento é feito através da utilização dessa ferramenta.

Além do ensino da “norma culta” cabe a escola promover a interação desse novo conhecimento que é a escrita da internet, mostrando que existem maneiras diferentes de escrever que se opõem ao que mostra a Gramática Normativa. Silva (2003, p.30), diante do caráter transformador da linguagem, diz:

A comunicação medida por computadores traz, no seu bojo, uma série de transformações sociais e, portanto lingüísticas. É no fluxo histórico da linguagem que a máquina virtual-digital colocada no meio – feito ponte – de múltiplos diálogos humanos mostra os seus efeitos mais visíveis, a sua manifestação mais concreta.

Podemos perceber que a grande influência da internet na sociedade, e o quanto ela promove a união de manifestações, culturas, diálogos, pessoas.

A escrita da internet exige, antes de tudo, habilidade de técnicas que possibilitem um acesso de leitura e escrita rápida, e ao contrário que muitos pensam, essa forma de comunicação não tem promovido uma banalização da escrita, ela nos mostra apenas uma nova forma de escrever, deixando de lado normas pré-estabelecidas. A internet é uma ferramenta de comunicação que exige objetividade, habilidade e rapidez.

Porém é preciso saber que há ocasiões onde exige um certo modo de escrever e de falar segundo a Norma. Sobre esse assunto Bortoni-Ricardo diz:

Aprende-se a falar na convivência. Mas, mais do que isso, aprendemos quando devemos falar de um certo modo e quando devemos falar de outro. Os indivíduos que integram uma comunidade precisam saber quando devem mudar de uma variedade para outra. Os membros de qualquer comunidade adquirem lenta e inconscientemente as competências comunicativa e sociolingüística, com respeito ao uso apropriado da língua.

Todavia, cabe a escola apontar isso, enfatizando que a variação padrão de uma comunidade também chamada norma culta ou língua culta não é a língua por excelência.

Apesar de a internet trazer informações e uma velocidade de comunicação incontestável, vimos que o que tem acontecido é a não aceitação de muitos diante dessas novas formas de escrita trazida pela internet. Essas mudanças ainda são vistas com certa estranheza.

O que não podemos negar é que a internet tem promovido uma nova maneira de unir oralidade e escrita; e nós não podemos agir de forma negativista, não devemos desacreditar das possibilidades de mudança altamente significativa na comunicação humana que podem surgir a partir dessa união. Ela não é apenas um instrumento. Ela propõe a criação de muitos gêneros ligados à interação e a criatividade. Exemplo disso é o gênero e-mail, correio eletrônico.

O e-mail, ou correio eletrônico, é atualmente um dos gêneros textuais mais produzidos em todo o mundo, já que agrega a rapidez do meio eletrônico à praticidade. Por ser tão utilizada, essa nova forma de comunicação acaba por adquirir características próprias, diferenciando­se dos demais gêneros encontrados na internet. A grande expansão do e-mail gerou a necessidade de padronização do texto nele desenvolvido, para que as pessoas pudessem se entender melhor dentro desse novo contexto. Buscando essa padronização, foi criada a Netiqueta, regras de comportamento na internet.

Embora haja um esforço para se criar um padrão de mensagens eletrônicas, como no caso da Netiqueta, ainda há grande variedade dentro do “gênero” e-mail. Por exemplo, em relação ao registro, há um cuidado muito maior quando direcionamos um e-mail para um superior no trabalho do que quando o mandamos para um amigo de infância, apesar de, como afirma Paiva (2004 in MARCUSCHI, 2004, p. 77),

Uma das vantagens do sistema de mensagens em relação à carta é que, em uma mensagem ARPANET [(primórdio do e-mail)], você pode escrever concisamente e digitar com imperfeições, mesmo se dirigindo a alguém mais velho ou em posição superior, e, até mesmo, para uma pessoa que você não conhece, e o destinatário não vai se sentir ofendido. Logo, a informalidade, a inobservância de algumas regras ortográficas, a objetividade, e a ausência de pré-sequências são algumas características do gênero.

O e-mail, ou mensagem eletrônica, segundo Gannon-Leary (1989:2) in s.n,

É um meio de comunicação cada vez mais poderoso e eficiente com o potencial de tornar-se um dos principais meios de comunicação para a maioria das pessoas. É pessoal e informal e tem o poder de transformar alguém de receptor passivo em um participante ativo de discussões on-line.

Bronckart (1999:73) in s.n. afirma que qualquer espécie de texto pode atualmente ser designada em termos de gênero e que, portanto, todo exemplar de texto observável pode ser considerado como pertencente a um determinado gênero.

4.0 METODOLOGIA

Escolher um método a ser trabalhado em uma pesquisa requer muito cuidado, até porque surgem várias dúvidas e mesmo recorrendo a vários teóricos, a insegurança ainda é visível.

O estudo realizado nesta pesquisa será de caráter descritivo com o propósito de investigar observando, registrando e analisando os dados coletados ao decorrer da pesquisa, a cerca da importância da Variação Linguística e sua relação com o gênero textual e-mail.

A pesquisa se realizará na escola GEO, em Petrolina/PE, será uma pesquisa de campo, porque se caracterizará como observação participante em sala de aula, no sentido de realizar uma coleta de dados através de questionários, para análise de resultados posteriores. Será desenvolvida uma abordagem qualitativa, caracterizando-se como do tipo exploratória, envolvendo levantamento bibliográfico proporcionando assim uma visão geral acerca do tema pesquisado.

Na pesquisa, primeira para elaboração deste projeto e mais a frente do relatório do mesmo fez-se necessário uma revisão bibliográfica, ancorado nos pressupostos teóricos para condução dos estudos literários, fator essencial para realização da pesquisa.

O universo pesquisado será um docente que atue no 3º ano do ensino médio, pertencente à rede privada ou particular que se disponibilizará de livre e espontânea vontade a fazer parte da pesquisa. A didática, a metodologia, o material utilizado, o hábito, as dificuldades e as experiências, serão detectados nesta pesquisa. Além desse investigado, antes de qualquer coisa, será estabelecido um contato com o diretor (a) e/ou coordenador (a) da instituição, onde exporaremos o projeto.

O projeto que norteia a pesquisa prever encontros e aplicações de questionários abertos afim de que a partir destes possamos adquirir um conhecimento claro e preciso. A utilização desses instrumentos permitirá uma busca qualitativa dos dados impedindo que ela se perca do seu objetivo principal que é analisar como o professor do 3º ano do EM da Escola GEO, em Petrolina/PE, trabalha a variação lingüística no gênero textual e-mail, e qual a importância dessa no contexto social do aluno.

Utilizaremos o método indutivo, que parte do particular, devidamente constatado, para o geral não contido nas partes examinadas, deixando assim a generalização com o produto posterior da coleta de dados (LOPES, 2006, p.173).

Usaremos também o método da observação não-participante, em que nós observadores, permanecemos fora da realidade estudada, sendo apenas espectadores, não interferindo ou envolvendo-se na situação. Para aquisição dos objetos de estudo da pesquisa será necessária quatro visitas a instituição de ensino: a primeira visita será para apresentação dos pesquisadores e do projeto de pesquisa para a diretoria.

Na segunda visita, a direção já sabida do propósito, nos encaminhará até ao docente que atua na área de Língua Portuguesa no 3º ano do ensino médio, no mesmo dia apresentaremos nosso projeto, suas etapas e objetivos, por conseguinte combinando o dia que será possível o meu retorno para aplicação do questionário.

Na terceira visita, conforme combinado com o docente será realizado a apresentação e discussão do projeto e a entrega dos questionários com data marcada para recolhimento.

Na quarta e última visita, conforme combinado com o docente, iremos recolher os questionários do investigado.

Para dar embasamento teórico necessário à realização da pesquisa foi feito leituras de alguns livros e/ou capítulos apoiado nas considerações de vários autores, entre eles: Marcos Bagno, Stella Maris Bortoni-Ricardo, Jean Louis Clavet, Fernanda M. P. Freire; Rubens Queiroz de Almeida, Sergio Ferreira do Amaral, Ezequiel Theodoro da Silva, João Wanderley Geraldi, entre outros.

Assim, todas as etapas apresentadas nesse estudo servirão como instrumento norteador para elaboração de uma proposta que possa incorporar a variação linguística de forma mais eficaz no cotidiano escolar.

5.0 CRONOGRAMA

tabela

6.0 REFERÊNCIAS

BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso – por uma pedagogia da variação lingüística, 2ª ed. São Paulo, Parábola editorial, 2007.

_______________ Preconceito lingüístico: O que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999.

BORTONI – RICARDO, Stella Maris. Educação em língua materna: a sociolingüística na sala de aula. São Paulo: Parábola. 2004.

CLAVET, Louis – Jean. Sociolingüística: uma introdução critica. São Paulo: Parábola, 2002.

FREIRE, Fernanda M.P; ALMEIDA. Rubens Queiroz de; Amaral, Sergio Ferreira do; SILVA, Ezequiel Theodoro da. A leitura nos oceanos da internet. São Paulo: Cortez, 2003.

GERALDI, João Wanderley (org), et al. O texto na sala de aula. São Paulo: Ática, 1997.

QUESTIONÁRIO APLICADO AO PROFESSOR

1. Sabemos que há uma grande distancia entre a fala do aluno e a linguagem da Gramática Normativa. Visto isso, como você acha que o professor deve agir quando o aluno comete um “erro”, ou seja, quando ele utiliza uma variação do português não-padrão?

2. Você costuma corrigir as variações na fala do aluno? Se o faz, em que se baseia para essa avaliação?

3. Você acredita que a escrita utilizada no sites de comunicação virtual como o MSN e o E-mail podem vir a transformar as regras da língua escrita? Por quê?

4. Sabemos que o e-mail é considerado um tipo de gênero textual. Visto isso como é trabalhado esse gênero em sala de aula e quais recursos metodológicos são utilizados?

5. Qual o seu objetivo ao utilizar o e-mail como forma de gênero textual aliado à variação lingüística?

6. Você utiliza o computador em sala de aula? E o que tem a dizer sobre essa ferramenta de ensino-aprendizagem?

7. Você considera a escrita utilizada nos e-mails, chat, blogs, etc., como um meio de empobrecimento da Língua Portuguesa?

Estágio do Curso em Agrimensura

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SUMÁRIO:

INTRODUÇÃO
RELATÓRIO DE ESTÁGIO
OBJETIVOS
CARACTERIZAÇÃO DA EMPRESA
SUGESTÕES
AGRADECIMENTOS
CONCLUSÃO
ASSINATURAS

INTRODUÇÃO

Irei estagiar em uma empresa de Belo Horizonte, será uma nova experiência para mim, penso que a empresa cobrará muito mais de mim, pois agora já me tornei uma profissional e preciso me posicionar.

Fico meio preocupada pensando o que as pessoas da empresa irão pensar de mim me perguntando se darei conta de cumprir com meus deveres na empresa, mas logo me vem um pensamento de auto-estima. Esse pensamento me mostra que sou capaz e que não posso desistir.

Também me vem à idéia de que é preciso dar o melhor de mim me esforçar ao máximo e fazer valer todo esforço e uma luta de 3 (três) anos.

Busco neste estágio um conhecimento amplo e maior experiência para me tornar de fato uma profissional qualificada pronta para entrar no mercado de trabalho.

Espero ser uma excelente estagiária e cumprir com todas as obrigações que me confiarem. Sou uma pessoa curiosa e aproveitarei cada minuto de conhecimento que a empresa me concederá.

Neste relatório está presente um pouco da experiência que eu tive durante o período de estágio.

RELATÓRIO DE ESTÁGIO

ENDEREÇO: Comunidade Bom Jesus do Setúbal s/nº Araçuaí-MG
CURSO: Técnico em Agrimensura 2005/2008
ESCOLA: HAGROGEMITO – Habilitação de Técnicos em Agropecuária, Geologia, Mineração e Agrimensura – Araçuaí/MG
EMPRESA: TGX engenharia topografia e georeferenciamento Belo Horizonte/MG.
ÀREA E ATIVIDADES DESENVOLVIDAS: Cadastramento e Levantamentos de fazendas.
EQUIPAMENTOS E APARELHOS UTILIZADOS: GPS topográfico da marca Trimble.
PERÍODO: 16/04/2009 á 02/06/2009
CARGA HORÁRIA: 200 horas
LOCALIDADES: Araçuaí-MG

OBJETIVOS

Expor os meus conhecimentos e buscar os conhecimentos dos profissionais da empresa a favor do meu aperfeiçoamento. Interagir com as pessoas do ambiente de trabalho, vendo o que eu posso passar para elas e o que eu posso aprender com elas.

Mostrar as técnicas aprendidas durante período do curso.

Valorizar o que tenho e o que as pessoas da empresa têm de melhor.

Buscar um melhor aperfeiçoamento de tudo ou pelo menos parte de tudo o que aprendi.

Isso tudo porque quero ser uma profissional com competência e valores éticos.

Também quero crescer cada dia mais profissionalmente e como pessoa.

Enfim dar o melhor de mim, me esforçando muito, fazendo valer tudo o que eu aprendi no decorrer dos anos.

CARACTERIZAÇÃO DA EMPRESA

A TGX engenharia é conhecida pela desenvoltura de atividades de consultoria em agrimensura, geoprocessamento, topografia e projetos, utilizando-se dos mais avançados recursos de novas tecnologias e equipe técnica qualificada, com grande infra-estrutura em cadastramento urbano de sistema viário e georeferenciamento, e ainda conta com a infra-estrutura para: Levantamentos topográficos em geral, levantamentos para projetos viários, levantamentos de redes de saneamento básico, cadastros de propriedades rurais, coordenação de serviços de topografia, locação de lotes e áreas, nivelamentos, locação de sondagens, medição com GPS, transporte de coordenadas e assessoria técnica em agrimensura.

Fonte: www.tgxengenharia.com.br

SUGESTÕES

Mais tempo para fazer estágio, uma vez que as empresas não estão muito interessadas em receber estagiários para trabalhar somente por 15(quinze) dias.

A escola investir em aparelhos modernos.

Aulas específicas em AUTOCAD e TOPOGRAPH.

CONCLUSÃO

O estágio foi proveitoso, uma experiência de muito valor para o meu conhecimento pessoal e profissional, uma vez em que me interagi com uma grande comunidade de pessoas, pessoas nas quais são de sabedoria e competência incrível.

Isso me fez crescer não só como técnica em agrimensura, mas como pessoa. Eu pensei que não daria conta de cumprir com meu trabalho, uma vez que as pessoas ficavam falando que eu era mulher e não seria capaz. Mas eles se enganaram, pois eu demonstrei o contrário. Bastou o interesse a boa vontade e a dedicação.

Aprendi muito com o estágio como, por exemplo: utilizar o aparelho GPS.

Tive algumas dificuldades com o aparelho uma vez que não tinha um completo domínio do mesmo, mas nada que uma boa explicação do supervisor não pode resolver afinal eu estava em busca de aprendizado.

Aproveitei cada minuto de estágio em benefício de um conhecimento amplo que me desse conhecimento para ingressar em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo em busca de competência

Enfim dei o melhor de mim, tive um melhor aperfeiçoamento e muito conhecimento.

Análise Ambiental

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1. Referência Bibliográfica

ALMEIDA, M. I. R. de; OLIVA, F. L. Análise ambiental nas grandes organizações. Ensaio Adm. Geral – VI SEMEAD, 12 páginas.

2. Credenciais dos Autores

Martinho Isnard Ribeiro de Almeida

Doutor pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA-USP); Função/Instituição: Professor e consultor da Fundação Instituto de Administração (FIA-USP) e consultor de empresas – Coordenador de Planejamento Estratégico – Johnson & Johnson – Chefe do Grupo de Planejamento a Longo Prazo no Unibanco – Gerente da Assessoria de Planejamento e Controle do Banco Safra.

Publicações do autor:

– ESTRATÉGIA: Direcionando Negócios e Organizações;
– ESTRATÉGIA: Perspectivas e Aplicações;
– MANUAL DE PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO;
– PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO NA PRÁTICA.

Fábio Lotti Oliva

Possui graduação em Ciência da Computação pela Universidade de São Paulo (1986), mestrado em Administração pela Universidade de São Paulo (2003), doutorado em Administração pela Universidade de São Paulo (2005) e pós-doutorado em Administração pela Université Pierre-Mendès-France (2010). Atuando em docência e pesquisa desde 2003 na Fundação Instituto de Administração – FIA e em 2008 como professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Administração da FIA. Atuou em 2006 e 2007 como professor permanente da pós-graduação na Universidade Municipal de São Caetano do Sul – IMES. E, desde 2003 como professor da Universidade de São Paulo e desde 2007 na Université Pierre Mendès France.

3. Resumo

Os autores iniciam o artigo comentando de forma resumida sobre a elaboração da analise ambiental nas grandes organizações, com estudo de caso, trabalho de campo e sugestões técnicas sobre as formas de elaboração e monitoramento das variáveis de ambiente.

Assim, Almeida e Oliva descrevem que quanto maior o porte da organização, as influências externas e internas tornam-se mais preponderantes na definição do seu destino. E o envolvimento da organização como um todo é importante para que os objetivos sejam atendidos, onde os processos se tornam complexos e interdependentes.

A pesquisa do referido estudo foi realizada em duas grandes organizações: Secretaria de Estado dos Negócios da Fazenda do Estado de São Paulo (SEFAZ) e Voith Siemens Hydro do Brasil (Voith).

Após a apresentação das empresas do estudo, os autores continuam como uma revisão literária que descreve algumas classificações de ambiente com referências de Kotler (1974) e Baterman e Snell (1998), e a classificação utilizada no estudo, teve como base os autores Fischmann e Almeida (1991) representada em Macroambiente Clima, Macroambiente Solo, Ambiente Operacional e Ambiente Interno.

Logo após a classificação de ambiente também foi identificado as técnicas de análise ambiental utilizadas, delimitadas em: – Técnicas Quantitativas, que englobam as técnicas de previsão de relações causais e as técnicas de previsão de séries temporais; – Técnicas Qualitativas, envolvendo brainstorming, brainwriting, delphi e cenários.

No que diz respeito ao problema de pesquisa, foram colocados em pauta várias formas de estudo, e o métodos escolhidos foram o descritivo e o estudo de caso no campo realizados e descritos no artigo.

Dessa forma, a coleta de dados nas empresas ocorreu através de um questionário com 16 questões nas duas organizações, onde eram relacionadas com a estrutura de planejamento, a análise SWOT, segmentação ambiental, técnicas, variáveis de controle, monitoramento, planejamento estratégico, perfil organizacional, entre outros. Diante disso, Martinho e Fabio elaboraram uma análise e discussão sobre os resultados obtidos com o questionário.

Dentre as analises das 16 questões apresentadas no questionário, confirmou-se que o processo de Análise Ambiental é parte fundamental do processo de Planejamento Estratégico nestas duas organizações, mas que ainda não é realizado de uma forma que evite as ameaças. Os autores observaram e destacaram uma seqüência de atividades para execução da Análise Ambiental que abordou a identificação de variáveis que mais influenciam na administração da organização através da análise de situações passadas de sucesso e fracasso, e cenários futuros. Logo, também a previsão das variáveis ambientais com a aplicação de técnicas qualitativas e quantitativas para definição de ações futuras e, finalizando a seqüência, o monitoramento das variáveis ambientais para melhoramento e reavaliação das estratégias vigentes e futuras.

Almeida e Oliva citaram o exemplo da arrecadação do ICMS pela SEFAZ, que consiste numa estratégia clássica de decomposição da série temporal, onde busca-se identificar tendência, sazonalidade, ciclos e irregularidades. Pôr fim, o modelo econométrico auto-regressivo que busca uma relação estatística através dos dados da arrecadação passada do ICMS ao longo de um intervalo de tempo. Para isso, foram estudados outros modelos para a previsão que resultaram no que foi apresentado acima, enfim os autores focaram na importância da utilização de indicadores, citando o Balance Scorecard de Kaplan e Norton (1996) e também colocam o lembrete de que o comportamento das variáveis depende do segmento ambiental, proposto por Fischmann e Almeida (1991).

Finalizando, os autores concluem que o modelo apresentado por Almeida (2001) tem grande utilidade ao acrescentar ao modelo de segmentação apresentado por Fischmann e Almeida (1991), e descrevem sobre a importância do planejamento estratégico, e comentam que as organizações muitas vezes não desenvolvem uma análise ambiental que antecipe efetivamente as oportunidades e ameaças. Os mesmos destacam que é muito importante o monitoramento das variáveis, que na maioria das empresas é relegado a segundo plano ou se quer é aplicado.

4. Quadro de Referências do Artigo

Dentre as referências utilizadas, podemos identificar as seguintes: Becker e Snell (1998), Bethlem (1996), Fischmann e Almeida (1991), Kaplan e Norton (1996), Lakatos e Marconi (1988), Kotler (1974), entre outros que favoreceram para a elaboração do artigo.



5. Crítica do Resenhista

O conteúdo é claro e objetivo, apresentando resultados que transmitem ao leitor a realidade das empresas pesquisadas com relação a análise ambiental das grandes organizações e vale destacar que o texto favorece para a melhor compreensão do gerenciamento das estratégias nas empresas.

Os autores estão corretos ao afirmarem sobre a dificuldade na implementação do planejamento da organização, um assunto comprovado pelas pesquisas apresentadas. Também nota-se que para obtenção de resultados concretos é necessário o envolvimento de toda a organização e empenho dos participantes do processo.

No entanto, sugere-se uma atualização dos estudos apresentados e de uma tentativa de maiores aprofundamentos do tema com a elaboração de novas pesquisas e outros modelos de classificação e técnicas de elaboração de uma análise ambiental organizacional. Devemos considerar que as ameaças não podem ser “evitadas”, mas sim trabalhadas de forma que não sejam prejudiciais, e acabem comprometendo o planejamento das organizações.

6. Indicações da Obra

O artigo é indicado aos administradores e acadêmicos do curso de Administração de Empresas. Também aos empresários e gerentes da área de Planejamento Estratégico, dentro das organizações.

Crime Organizado

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INTRODUÇÃO

No mundo moderno, em termos de criminalidade a maior preocupação reside na figura criminológica do “crime organizado”. Tanto as Organizações das Nações Unidas, como as demais Ciências que tem o fato-crime como objeto de estudo, mostram-se atordoadas no tratamento desta questão, porque constatam a inoperância dos mecanismos estatais de reação anticriminal no combate à delinqüência organizada.

O crime organizado cresce assustadoramente, alastrando o medo e a insegurança entre os cidadãos. Por outro lado não se sabe como criar um corpo legislativo que permitindo eficiência ao sistema repressivo, atue como controlador do crime a níveis suportáveis e respeite os direitos e garantias dos indivíduos, assegurados nas constituições e Convenções de Direitos Humanos.

Neste trabalho será abordada a complexa problemática do crime organizado, iniciando seu estudo a partir de sua origem e desenvolvimento, analisando suas características principais, que se constituem em acumulação de poder econômico, pouca visibilidade dos danos, alto poder de corrupção, alto poder de intimidação, mutação constante, criminalidade difusa e conexões locais e internacionais.

Ainda, atende-se à dificuldade em se conceituar crime organizado. É de verificar que a Lei n° 9.034/95 foi omissa quanto à conceituação de crime organizado, comparando-o aos crimes de associação criminosa e quadrilha ou bandos já tipificados no ordenamento jurídico brasileiro. O artigo 1° do mencionado dispositivo legal foi revogado pela Lei n° 10.217/01, contudo esta não solucionou o problema apontado, apenas declarando a distinção entre os crimes de quadrilha ou bando e de associação criminosa do crime organizado.

Também será abordado seu alcance, sua vitimologia, seus fatores condicionantes, assim como a obtenção de provas para se apurar o crime organizado.

Será verificada a atuação das organizações criminosas no contexto internacional e das organizações criminosas no Brasil. Ainda será discutida a importância do Terrorismo como ameaça a comunidade e sua correlação com o crime organizado, o crime de tráfico de entorpecentes que se configura como objeto de ação de inúmeras organizações criminosas, a questão da “lavagem de dinheiro”, relevante crime econômico de profunda conexão com o crime organizado e as organizações criminosas.

Ademais, serão apontadas propostas para o seu controle, a fim de se combater um dos maiores desafios da atualidade, onde a formação destas organizações ilícitas reside em pessoas sem escrúpulos, cobiçadoras em potencial do ganho fácil e rápido, que unindo com outras de certas habilidades, passaram a investir na delinqüência, devido a alta lucratividade dos crimes desta natureza.

2. ORIGEM E DESENVOLVIMENTO

Estudando a História da humanidade, verifica-se dentro do contexto de desenvolvimento de cada época, que o crime organizado não é fruto gerado nos dias de hoje. Em clima de medo, o povo brasileiro assiste cada vez mais estarrecido, o crime organizado agir com crescente audácia, desafiando e enfrentando ostensivamente as Forças Policiais. Recentemente, até mesmo atentados com bombas e granadas tendo como alvos Órgãos Policiais, foram perpetrados por integrantes de organizações criminosas, visando a intimidá-los para que não cumpram suas obrigações de proporcionar segurança à população.

Cumpre examinar, preliminarmente, a complexidade existente quanto à origem das organizações criminosas, face às diferenças circunstanciais apresentadas por cada país. Eduardo Araújo da Silva (2003, p. 20):

[…] No Reino Unido e na Espanha, por exemplo, a existência de uma regulamentação sobre o consumo de drogas, o jogo e a prostituição fazem com que os grupos organizados sejam de caráter distinto dos existentes no Japão, onde as organizações que se dedicam ao controle do vício e da extorsão têm uma grande proeminência. Em muitos países do Terceiro Mundo, além da exploração da droga, o crime organizado se dedica à corrupção de funcionários públicos e políticos.

Algumas organizações, como as Máfias italianas, a Yakuza japonesa e as Tríades chinesas apresentam traços comuns, uma vez que surgiram no início do século XVI como uma maneira de defesa contra os abusos cometidos por aqueles que detinham o poder.

No Brasil a associação criminosa derivou do movimento conhecido como cangaço, cuja atuação deu-se no sertão do Nordeste, durante os séculos XIX e XX (1897 -1938).

“Os cangaceiros passaram a atuar dedicando-se a saquear fazendas, pequenas cidades, extorquindo dinheiro mediante ameaças e contavam com a colaboração de pessoas importantes que lhes forneciam armas e munições.” (Ibid. 2003, p. 20).

Para entender a situação por que passamos e identificar a origem dessa real falta de vontade política, há necessidade de voltar-se a um passado não muito distante – final da década de 60 e grande parte da década de 70 – de triste memória para todos os homens de bem deste País, quando a prática de atentados a bomba, assaltos a bancos, assassinatos, seqüestros de autoridades e de aviões comerciais era prática comum em quase todas as organizações que, naquele período, tentavam implantar o comunismo em nosso País. Muitos daqueles terroristas foram presos. Na prisão, repassaram para seus companheiros de celas, criminosos de toda ordem, os procedimentos e técnicas que haviam aprendido em cursos de guerrilha urbana e rural, realizados principalmente em Cuba e na China. Aqueles criminosos fizeram “escola” e hoje temos o crime organizado empregando aqueles ensinamentos.

Cumpre assinalar que nas décadas de 70 e 80 organizações criminosas surgiram nas penitenciárias da cidade do Rio de Janeiro, como a “Falange Vermelha” formada por quadrilhas especializadas em roubos a bancos e o “Comando Vermelho” comandado por líderes do tráfico de entorpecentes. “Em meados da década de 90 surgiu a organização criminosa denominada PCC – Primeiro Comando da Capital.”( SILVA, op.cit., p. 26).

O PCC patrocina rebeliões e resgates de presos, rouba bancos e carros de transporte de valores, pratica extorsão mediante seqüestro e tráfico de entorpecentes, possui conexões internacionais e assassinam membros de facções rivais, tanto dentro como fora dos presídios. Ademais, dois grandes fatores contribuíram para o surgimento e desenvolvimento do crime organizado: a abertura da economia brasileira e a globalização. Estes fatores facilitaram o contrabando de armas, drogas, produtos piratas e, principalmente, a movimentação de recursos financeiros.

2.1. CONCEITO DE CRIME ORGANIZADO

A construção do conceito do que é crime organizado não é fácil. Inexiste no Brasil uma definição legal que dê limites precisos ao termo. Aspectos econômicos e institucionais devem ser levados em consideração. Inicialmente, é de vital importância tentar descobrir quais são as características – que estão no âmbito econômico e institucional – que permitem que um grupo de indivíduos que pratica atos ilícitos possa ser classificado como organização criminosa. Dentre essas características deve ser observado o modus operandi dos atores na operacionalização dos atos criminosos, as estruturas de sustentação e ramificações do grupo, as divisões de funções no interior do grupo e o seu tempo de existência, suas dimensões de atuação e os poderes econômicos e políticos.

Na busca de um conceito de Crime Organizado, torna-se necessária breve análise da Lei n° 9.034/95. Sendo tal legislação pertinente aos casos em comento, seria salutar que trouxesse, ao menos, o conceito de Crime Organizado, mas não o faz. Nesse diapasão, o artigo 1° da mencionada Lei n° 9.034/95 diz:

Art. 1°. […]: Esta Lei define e regula meios de prova e procedimentos investigatórios que versem sobre ilícitos decorrentes de ações praticadas por quadrilha ou bando ou organizações ou associações criminosas de qualquer tipo.

O mencionado dispositivo equipara a atividade criminosa organizada àquela do artigo 288 do Código Penal Brasileiro, qual seja, quadrilha ou bando, equiparação esta que não reputo seja aconselhável, até porque não existe identidade entre a figura da quadrilha ou bando e a atividade criminosa organizada, salvo a pluralidade de agentes, o que é muito pouco para se atribuir um conceito.

Tenha-se presente que a Lei n° 9.034/95 procurou tutelar o crime organizado, não partindo de uma noção de organização criminosa, não definindo crime organizado por seus elementos essenciais, não arrolando as condutas que constituiriam criminalidade organizada nem procurou aglutinar essas orientações para delimitar a matéria. Optou somente, num primeiro momento, por equiparar a organização criminosa às ações resultantes de quadrilhas ou bandos. Posteriormente, a Lei n°10.217/2001 alterou a redação do artigo 1° da Lei n° 9.034/95, contudo não solucionou o problema da conceituação de crime organizado.

Pelo texto atual a lei incide nos ilícitos decorrentes de quadrilha ou bando, organização criminosa e associação criminosa. Como se percebe, com o advento da Lei 10.217/01, está perfeitamente delineado três conteúdos diversos. Quadrilha ou bando (Código Penal, artigo 288) Associações criminosas (ex.: Lei de Tóxicos, artigo 14 e Lei 2.889/56, artigo 2° : associação para prática de genocídio). Em relação à organização criminosa sujeita-se ao intérprete a definição do que seja Crime Organizado.

De acordo com o professor de Direito Penal da Universidade de Frankfurt, Winfried Hassemer (1994, p. 41) com vasto conhecimento no estudo, opina no sentido que:

[…] essa criminalidade organizada não é apenas uma organização bem feita, não é somente uma organização internacional, mas é, em ultima análise, a corrupção da legislatura, da Magistratura, do Ministério Público, da Polícia, ou seja, a paralisação estatal no combate a criminalidade, é uma forma de criminalidade difusa que se caracteriza pela ausência de vítimas individuais, agindo, pela pouca visibilidade dos danos causados bem como um novo modus operandis.

Guaracy Mingardi (1994, p. 143), afirma que a criminalidade organizada notabiliza-se pela previsão de lucros, comando hierárquico, planejamento empresarial meticuloso, divisão de trabalhos, estreita ligação com o Estado, pauta de conduta estabelecida em código, procedimentos rígidos e divisão territorial. Alberto Silva Franco (1994, p. 34), com a sua sobriedade de costume, manifesta-se:

[…] o crime organizado possui uma textura diversa: tem caráter transnacional na medida em que não respeita as fronteiras de cada país e apresenta características assemelhadas em várias nações; detém um imenso poder com base numa estratégia global e numa estrutura organizativa que lhe permite aproveitar as fraquezas estruturais do sistema penal; provoca danosidade social de alto vulto; tem grande força de expansão, compreendendo uma gama de condutas infracionais sem vítimas ou com vítimas difusas; dispõe de meios instrumentais de moderna tecnologia; apresenta um intrincado esquema de conexões com outros grupos delinqüentes e uma rede subterrânea de ligações com os quadros oficiais da vida social, econômica e política da comunidade; origina atos de extrema violência; exibe um poder de corrupção de difícil visibilidade; urde mil disfarces e simulações e, em resumo, é capaz de fragilizar os poderes do próprio Estado.

Luiz Flávio Gomes, o mais destacado entre nós no estudo da questão, em minuciosa definição, sugere que se atenda por crime organizado, aquele que abrange a quadrilha ou bando, associações criminosas e todos os ilícitos delas decorrentes, reunindo ao menos três das seguintes características: previsão de acumulação de riqueza indevida; hierarquia estrutural, planejamento empresarial; uso de meios tecnológicos sofisticados; recrutamento de pessoas; divisão funcional das atividades; conexão estrutural ou funcional com o poder público ou com agentes do poder público; ampla oferta de prestações sociais; divisão territorial das atividades ilícitas; alto poder de intimidação; real capacidade para a fraude difusa; conexão local, regional, nacional ou internacional com outras organizações criminosas.

O crime organizado é uma forma de atividade que obedece fielmente às leis de mercado, funcionando nos moldes empresariais, explora o crime na busca do lucro como se fosse uma atividade lícita, comercializando o que é proibido. É o comércio de produtos que geram lucros exorbitantes, enriquecendo as organizações.

2.1.1 Alcance

Verifica-se uma criminalidade cada vez mais organizada, especializando no planejamento e profissionalismo de seus integrantes. Mais rica, violenta, ameaçadora e com estrutura empresarial. Na criminalidade organizada tudo é muito diferente quanto à ocorrência do fato delituoso. A polícia sequer é comunicada da ocorrência do fato, e quando é, depara com um sujeito ativo, que age via empresa criminosa estruturalmente edificada, encontrando-se no topo da pirâmide os todo-poderosos mandantes que dificilmente serão alcançados pela repressão, simplesmente porque desconhecidos.

A atuação do crime organizado expande-se na esfera interna graças à redução das distâncias e na esfera externa, seja pêlos meios de transportes, seja pêlos meios de comunicação e fazendo uso do que há de mais moderno e sofisticado em termos de tecnologia. A expansão geográfica passou a ser um dos objetivos principais. As organizações criminosas vêm ganhando caráter de multinacionais do crime, estendendo-se por todo o mundo e aprofundando o processo de cooperação entre as organizações ilícitas, de modo a maximizar os lucros.

Essas organizações cada vez mais buscam infiltrar na estrutura do poder estatal, deixando a simples corrupção num segundo plano e tentando colocar seus homens na estrutura do Estado, de modo a influenciar nas decisões políticas administrativas e, assim, ampliar suas possibilidades de lucro e ao mesmo tempo reduzir a repressão de suas atividades.

2.1.2 Vitimologia e Crime Organizado

Na criminalidade organizada a grande vítima é a sociedade desorganizada. A harmonia social é atingida diretamente de forma imediata, porém, quase sempre sem a sua percepção. Percebe-se que a sociedade é duplamente agredida. Em primeiro lugar é ofendida pela ação da organização criminosa e, em segundo lugar, passa a ser vítima do próprio agir do Estado.

A delinqüência organizada é também um crime sem notitia criminis, pois, formalmente, ninguém vai a uma delegacia de polícia comunicar a ocorrência de crimes cujas vitimas são: a Saúde Pública, a Fazenda Pública, o Meio Ambiente, a Administração Pública, isto é, o que Luiz Vicente Cernicchiario chama de criminalidade difusa, a contabilidade do prejuízo estende a toda sociedade.

Hoje em dia, pessoas envolvidas com a administração de justiça estão sendo cada vez mais vítimas de ataques por parte do crime organizado e do narcotráfico, que têm como propósito gerar impunidade. Somente até março deste ano, três advogados foram executados. No entanto, recentemente a Corte Suprema de Justiça confirmou a aprovação de um plano de emergência para dar proteção a dezenas de operadores judiciais que enfrentam ameaças de morte em seus trabalhos. Dezenove juízes e seis magistrados que foram intimidados serão protegidos por agentes de segurança.

Tudo isso ocorre ao passado que o Estado é incapaz de enfrentar essa situação. Impotente e inoperante para prevenir e punir ilude a sociedade com leis sem eficácia e soluções enganosas.

2.2 CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS

Esta nova modalidade criminosa, organizada, possui algumas características marcantes, aspectos tais que lhe proporcionam grande mobilidade, alto poder de ação e intimidação, bem como resultados espantosos em termos financeiros.

2.2.1 Acumulação de Poder Econômico

Em primeiro plano, atente-se à questão da acumulação de poder econômico dos integrantes das organizações criminosas, já que estas atuam no vácuo de alguma proibição estatal, o que lhes possibilita auferir extraordinários lucros. “As Máfias italianas são consideradas verdadeiras potências financeiras do mundo: o volume anual de seus negócios alcança US$50 bilhões e estima-se que seu patrimônio seja superior a US$100 milhões.” (Silva, 2003, p. 28)

2.2.2 Pouca Visibilidade dos Danos

Necessário salientar que o prejuízo financeiro causado por tais organizações criminosas é altíssimo, ressaltando-se, por oportuno, que não obstante serem elevados os danos, estes não são visualizados em um primeiro momento, ou seja, apesar de enormes os danos, permanecem invisíveis por considerável período.

Isto em face de que a atuação criminosa ocorre em áreas específicas, contando com alto grau de operacionalidade e cobertura necessária para “maquiar” a atividade criminosa e, quando é descoberta, o prejuízo já se faz monstruoso e a reparação se torna quase sempre impossível.

Exemplos da dificuldade de visualizar os danos causados são os casos de organizações voltadas à sonegação fiscal, de organizações voltadas a lesar a previdência social, onde se desvia muito dinheiro, sem que ninguém perceba, e quando se descobre o prejuízo é enorme. E, diga-se, prejuízo não somente financeiro, mas também decorrente do desgaste institucional, da desconfiança e descrédito da sociedade nos órgãos estatais, que deveriam combater tais crimes.

2.2.3 Alto Poder de Corrupção

Em derradeiro, o alto poder de corrupção configura-se como fator relevante no incentivo ao crime organizado, uma vez que é direcionado a várias autoridades das três esferas estatais, na medida em que são compostas pelas instâncias formais de controle do Direito (Polícia Judiciária, Ministério Público e Poder Judiciário), pelas altas esferas do Poder Executivo, além de integrantes do Poder Legislativo. Assim, a participação de agentes estatais cria uma sensação de “segurança nos criminosos”, na medida em que contribui para a continuidade das ações delituosas e para o agravamento do problema da impunibilidade.

2.2.4 Alto Poder de Intimidação

O alto poder de intimidação também é um fator considerável, já que a “lei do silêncio” imposta aos membros do crime organizado, assim como às pessoas estranhas à organização é mantida devido ao emprego de meios cruéis de violência. Assim sendo, os membros de tais facções podem atuar na clandestinidade, a fim de evitar a responsabilização penal.

2.2.5 Mutação Constante

Diante das várias dificuldades que se enfrentam ao lidar com organizações criminosas, são necessários vários meses de investigação para que se consiga mapear e levantar as ações destes grupos, o que implica em alto custo de investigação, verba de que o Estado não dispõe.

Com efeito, outra grande dificuldade se afigura ao constatar que as organizações criminosas possuem uma característica mutante, ou seja, trabalham utilizando-se de empresas de “fachada”, de pessoas de frente “laranjas”, de contas bancárias específicas. De tempos em tempos, altera toda sua estrutura administrativa, mudando as empresas, removendo as pessoas para outros postos em outros lugares e criando outras contas bancárias.

Assim, uma investigação que caminhava há alguns meses e já tinha um custo considerável para o Estado, de hora para outra toma-se prejudicada em face da alteração do modus operandi da organização, fato que muito contribui para dificultar o fiel levantamento da estrutura criminosa.

2.2.6 Criminalidade Difusa

A criminalidade difusa caracteriza-se pela ausência de vítimas individuais, ou seja, é aquela indivisível, em que as vítimas são pessoas indeterminadas e indetermináveis, ligadas entre si por circunstâncias de fato.

Esse aspecto é muito importante em razão de que, em não havendo vítimas diretas, os prejuízos não são visíveis imediatamente e sequer a médio prazo. Assim, quando se descobre à ocorrência criminosa o dano é imenso e quase sempre irreparável, até porque ao Poder Público somente resta a busca do valor apropriado pela organização, tarefa esta muito lenta, difícil e de pálidos resultados.

Certo é que a criminalidade organizada vem atuando em áreas nas quais o controle estatal é precário, como no sistema de Previdência Social, onde já foram detectadas várias fraudes (ações que contaram com a participação de agentes estatais), com relevantes prejuízos à coletividade (vítimas difusas) e com índice mínimo de recuperação do produto desviado.

2.2.7 Conexões Locais e Internacionais

Outro fator consiste nas conexões locais e internacionais. Como exemplos, a máfia japonesa, além de comercializar entorpecentes, passou a atuar no mercado de ações e na exploração de atividades ligadas à pornografia. A Máfia russa explora o tráfico de componentes nucleares, além de armas, entorpecentes e mulheres. A Máfia Colombiana expandiu seus negócios de comércio de cocaína para o cultivo do ópio e a comercialização da heroína. Os grupos brasileiros também diversificaram suas atividades, as quais constituem em roubo a bancos, extorsão mediante seqüestro, resgate de presos e tráfico de armas e entorpecentes, com conotações internacionais.

3. O CRIME ORGANIZADO NO CONTEXTO INTERNACIONAL

O crime organizado internacional vem sendo comparado a um câncer que se espalha pelo mundo. Estudos científicos, estatísticos e observações, são unânimes quanto ao franco crescimento do crime organizado no contexto internacional.

Organizações criminosas, fortemente institucionalizadas, consolidadas geograficamente e de existência permanente, pactuam entre si objetivando a formação de uma organização criminosa a abranger todo o planeta. Neste sentido, Luiz Flavio Gomes e Raul Cervini (1997, p. 76) afirmam que:

[…] talvez seja a internacionalização (globalização) a marca mais saliente do crime organizado, nas duas últimas décadas. Já não é mais correto apontar a conexão norte-americano-italiana (Máfia siciliana e Cosa Nostra) como uma singular manifestação dessa modalidade criminosa. Inúmeras são as organizações criminais já mundialmente conhecidas. Podemos citar, dentre tantas outras ainda não tão destacadas, a camorra italiana, a sacra corona pugliesa, a boryokudan e a yakuza japonesas, as tríades chinesas, os jovens turcos de Cingapura, os novos bandos no Leste Europeu, o PCC – Primeiro Comando da Capital entre nós e outras.

As organizações criminosas beneficiam-se da globalização da economia, do livre comércio, do desenvolvimento das telecomunicações, do sistema financeiro internacional, etc. Alguns já chegaram a formar um verdadeiro “antiestado”, isto é, um “estado” dentro do Estado, com uma economia incrível, até porque existe muita facilidade na “lavagem do dinheiro” sujo.

Alguns exemplos representam a nova face do crime organizado. A droga êxtase, fabricada principalmente na Holanda, é traficada para os Estados Unidos por grupos de crime organizado de Israel, dentre outros. Um vírus de computador projetado e enviado nas Filipinas fez com que os computadores de muitas agências governamentais dos Estados Unidos fossem desligados, alguns por até uma semana. Importante banco norte-americano descobriu que estava sendo utilizado pelo crime organizado da Rússia para lavagem de dinheiro. Há relatos de que grupos criminosos colombianos verificam por computador as contas bancárias de motoristas parados em bloqueios nas estradas para selecionar vítimas ricas para seqüestro.

A extensão dessas atividades ilegais aumentou enormemente devido à globalização. E os envolvidos não têm nenhum respeito, nem lealdade, pelas nações, fronteiras ou soberania. Certos tipos de crimes internacionais (terrorismo, tráfico de pessoas, tráfico de drogas e contrabando) envolvem violência séria e danos físicos. Outras formas (fraude, extorsão, lavagem de dinheiro, suborno, espionagem econômica, roubo de propriedade) não exigem armas para causar danos importantes. Além disso, a difusão da tecnologia da informação criou novas categorias de cíbercrime.

Os Estados Unidos, enquanto nação livre e maior economia do mundo possuem imenso interesse no estabelecimento de consenso internacional para ações contra o crime globalizado. À medida que emergem novos riscos, necessitamos ser dinâmicos e flexíveis em nossa abordagem. Somente podemos ter sucesso através de ações unidas, prolongadas e determinadas. Dados da ONU (Organização das Nações Unidas) mostram que o poder econômico das máfias pode chegar à quantia de 500 bilhões de dólares por ano.

4. O CRIME ORGANIZADO NO BRASIL

Seguindo o posicionamento do ilustre Dr. Luiz Flávio Gomes(1997, p. 78), comungamos com o raciocínio de que o Brasil ainda não seria matriz de nenhuma organização criminosa em nível internacional, o que não implica na prematura conclusão de que o crime organizado não esteja presente em território nacional. Está presente e com força assustadora.

O Brasil é hoje um refúgio ideal para mafiosos “alienígenas” de alto nível, vez que o país conta com uma estrutura precária de investigação internacional, bem como de acompanhamento interno de pessoas e de movimentação financeira suspeita. Tal fato atrai o criminoso estrangeiro que, ao vir para o país, traz consigo parte de sua estrutura criminosa, passando a operar aqui mesmo no Brasil.

O país é uma interessante praça para a “lavagem do dinheiro” de origem ilícita, vez que qualquer pessoa abre uma firma nas Juntas Comerciais, há a falta de controle das transações financeiras, movimentação da empresa e declaração de imposto de renda, fazendo do país verdadeiro território livre para a “lavagem do dinheiro” proveniente do crime. Isto sem sequer comentarmos a livre atuação das casas de câmbio nas regiões de fronteira, por onde se despacham quaisquer quantias para o exterior.

Outra realidade brasileira a ser considerada é o fato de ser o Brasil o maior fornecedor e produtor de matérias químicas utilizadas pêlos laboratórios na produção dos entorpecentes. Produtos químicos que tomam rumo dos países vizinhos produtores, de forma ilegal, em face da precária fiscalização nas estradas fronteiriças ou em face do chamado golpe do seguro, em que se forja um assalto a uma carga de produtos químicos (obviamente segurada), quando na realidade a carga já está no país vizinho ou apenas aguarda um tempo para ser transferida.

O Brasil transformou-se, ainda, em ponto estratégico de trânsito para o tráfico de entorpecentes produzidos nos países vizinhos (principalmente Bolívia e Colômbia), porque o nosso país conta com boa e movimentada infra-estrutura aeroportuária, com imensa rede fluvial e rodoviária com pouquíssima fiscalização e, ainda, forte comércio com o exterior, o que facilita a criação de empresas exportadoras de fachada para transportar o entorpecente até o seu destino final.

Diante desse quadro, outra realidade vem causando muita preocupação, qual seja, o fato de o Brasil está se tornando local ideal para a instalação de pequenos laboratórios que se destinam a misturar a droga, aumentando o seu volume, bem como servindo de depósitos de drogas.

Em muitos países do Terceiro Mundo, além da exploração da droga, o crime organizado se dedica à corrupção de funcionários públicos e políticos. A ilustre professora Ada Pellegrini Grinover em bem sucedido artigo sobre o objeto que tratamos, afirma categoricamente ser grave a situação da criminalidade organizada no Brasil.

4.1 ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS

Cabe consignar a existência de uma série de organizações criminosas atuantes no território brasileiro, configurando numa situação alarmante e preocupante a todos os setores da sociedade.

Uma das organizações mais conhecidas e temidas denomina-se “Comando Vermelho”, cuja criação deu-se em razão da união de alguns reincidentes da facção “Falange Vermelha”, no final dos anos 70 no Rio de Janeiro, objetivando lutar contra o grupo de poderio da época e dominar o tráfico de entorpecentes no Estado.

Ao longo dos anos, novos adeptos juntaram-se ao Comando Vermelho, ampliando seu poder e possibilitando o investimento em armamentos pesados e a distribuição de substâncias entorpecentes. Atualmente, essa organização domina cerca de 70% do tráfico no Rio de Janeiro e atua em outras áreas, como tráfico de armamentos, crime organizado, roubos, seqüestros e homicídios, conforme esclarece GRINOVER (1997, p. 59).

Os líderes atuais dividem-se por regiões e morros. Embora a maioria esteja na prisão, às ordens são repassadas de dentro das celas e as principais decisões são discutidas por uma espécie de colegiado do comando da organização. Devido aos conflitos internos e às constantes discórdias, muitos integrantes afastaram-se do “Comando Vermelho” e fundou uma nova facção, denominada “Terceiro Comando”. A partir de sua criação, muitos conflitos com o Comando Vermelho foram registrados, em decorrência da disputa pelo controle de morros e favelas. Ainda no Estado do Rio de Janeiro, formou-se, no final dos anos 90, outra organização, “Amigos dos Amigos (ADA)”, cujo objetivo era o de controlar “bocas de fumo” e fugir do domínio do Comando Vermelho. Diferentemente dos outros grupos, a “ADA” não repassa o dinheiro obtido pelo comércio ilegal de entorpecentes e não sustenta as famílias dos traficantes presos.

No Estado de São Paulo, no ano de 1.993, surgiu o PCC – Primeiro Comando da Capital, organização criminosa que tinha como objetivo inicial extorquir presos e seus familiares, assassinar presos a fim de dominar o sistema carcerário e traficar substâncias entorpecentes dentro dos presídios. Com o passar dos anos, o PCC passou a cometer outros tipos de infrações penais fora do aludido sistema. Ressalte-se que o Primeiro Comando da Capital possui uma estrutura piramidal, cujo topo é formado por líderes conhecidos como “fundadores” e por aqueles que alcançaram posição de prestígio, denominados “batizados”. Ainda, tal organização ganhou a atenção da mídia, principalmente com a maior rebelião já registrada no mundo, a chamada “Megarebelião”. De feito, em vários presídios foram realizadas rebeliões simultâneas sendo que os detentos gravaram, no chão do pátio do presídio Carandiru, o símbolo da organização.

Além disso, há sérios indícios de que as organizações Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital uniram-se a fim de destituir o Estado de Direito, realizando uma série de ações coordenadas. Também apura-se a ligação dessas organizações com outras de nível internacional, formando uma rede de conexão do crime organizado.

5. CRIMES QUE ALIMENTAM E FORTALECEM O CRIME ORGANIZADO

A seguir veremos características de vários tipos de crimes que alimentam, mantém e fortalecem o crime organizado no país e no mundo. São tipos de crimes que fazem parte do nosso cotidiano, e que muitas vezes, a população não tem conhecimento da sua ligação com o crime organizado.

5.1 “O JOGO DO BICHO”

É de verificar-se que a primeira infração penal organizada no Brasil consistiu na prática do “jogo do bicho”, iniciada no século XX. Consta que, na década de 80, o jogo do bicho movimentou cerca de R$500.000,00 por dia com as apostas realizadas.

A organização do jogo do bicho, enraizada social e institucionalmente, pode servir como alerta. O Estado, ao definir o jogo como ilegal, criou o estímulo para organizações ilícitas. Ao defini-lo como contravenção e não como crime, portanto um ilícito de menor poder ofensivo e com a menor pena, facilitou o seu desenvolvimento. Observa-se no jogo do bicho uma estrutura hierárquica, ligações estreitas com outras modalidades criminosas, relações com atividades comerciais para a legislação do dinheiro sujo e uso da violência para a proteção do território, corrompe sistematicamente as forças policiais e tem representante e influência em diversos setores do Estado, nas cúpulas da Policia e no Congresso Nacional.

5.2. FURTO E ROUBO DE VEÍCULOS E CARGAS

Não há estatísticas disponíveis que registrem o número de carros roubados e furtados no Brasil. Todavia, sabe-se que a quantidade é elevada e que existe uma ampla e complexa indústria lucrando no imenso mercado.

Quando o veículo chega nas mãos dos que são chamados de receptores, e que lhe darão o destino, estabelecem-se diferenças na forma de organização do modo e local onde será comercializado. Há os casos em que o veículo não se destina á comercialização, sendo usado apenas como meio para outro crime (assalto, seqüestro) e logo depois abandonado.

Quando o destino é a venda do carro inteiro no país, há toda uma técnica própria de adulteração das numerações ou características do veículo e troca de placas. Este trabalho é feito normalmente em oficinas mecânicas ou locais ocultos. Outros veículos têm como destino a exportação para países vizinhos e para consecução de tal plano criminoso, requer-se contatos internacionais, documentação para o transporte e pessoas encarregadas de transportá-los ao país receptor.

Miguel Reale Jr.(1996, p. 182) vê no furto e no roubo de veículo um exemplo da prática organizada de crimes e assim comenta tal questão:

[…] o furto de automóveis, em combinação com oficiais de ‘desmanche’, que alteram o número de chassi e de outros dados identificadores do veículo, com a obtenção de certificados falsos de propriedade, que permitem a venda e o ocultamento de toda a operação. Há sem dúvida uma organização delituosa, com ramificações e lastreada na eficaz participação de agentes do Estado, que cooperam no fornecimento de meios para a emissão de documentos falsos de propriedade.

A subtração de cargas é uma das modalidades de delitos que mais cresceram na última década. É um típico crime urbano que se concentra nas capitais e zonas metropolitanas. A preferência pêlos grandes centros, reside na circunstância de o veículo passar geralmente desapercebido entre milhares de veículos, a grande quantidade de galpão para esconder a mercadoria e a facilidade de negociar no amplo mercado consumidor.

Às vezes a atividade é terceirizada, para estancar as informações acerca da organização. Os assaltantes apenas entregam o caminhão a terceiros, que irá então levá-lo ao depósito desconhecido pêlos primeiros. A cobertura da operação geralmente é feita por policiais associados à organização, que em caso de perigo, tentarão dissimular os colegas policiais ou dissuadi-los de agir. A chefia da organização comumente é exercida por alguém que possui empresa legal, associada à rede de varejistas (supermercados, lojas de confecções, lojas de calçados, farmácias, camelos etc.). Para dar a cobertura legal há conivência de escritórios de contabilidade e de advocacia.

5.3. FALSIFICAÇÃO DE REMÉDIOS

O Brasil é um dos campeões mundiais da falsificação de remédios. A existência desta forma de crime organizado adquiriu destaque no ano de 1998 como uma atividade criminosa de amplitude e de grande dano social.

Comercializam-se aqui falsos medicamentos para câncer, aids, doenças do coração, dentre outras. Todos nós corremos riscos de consumirmos comprimidos, injeções e xaropes que podem ter sido fabricados com outros componentes sem nenhuma eficácia terapêutica. Karina Pastore (1998, p. 40):

[…] é um dos piores crimes que de podem cometer. As vítimas são homens, mulheres e crianças doentes – presas fáceis, capturadas na esperança de recuperar a saúde perdida. A máfia dos medicamentos falsos é mais cruel do que as quadrilhas de narcotraficantes. Quando alguém decide cheirar a cocaína, tem absoluta consciência do que coloca corpo adentro. As vítimas dos que falsificam remédios não é dada oportunidade de escolha. Para o doente, o remédio é compulsório. Ou ele toma o que o médico lhe receitou ou passará a correr risco de piorar ou até morrer.

5.4. ADULTERAÇÃO DE COMBUSTÍVEL

Diante do crescente preço do petróleo no mercado mundial, o consumidor brasileiro, também é vítima da mais recente modalidade de criminalidade organizada: a “adulteração de combustível”. Diversas são as formas de adulteração: adição de água no álcool anidro, adição de álcool anidro na gasolina acima do limite previsto na legislação, composição de combustível à base de solventes, que misturado ao álcool anidro é vendido como gasolina.

O combustível adulterado pode conter apenas 10% de “gasolina de verdade”. Os outros 90% são compostos por solvente e querosene de aviação. Essa mistura recebe ainda álcool anidro (para que sua octonagem seja semelhante à de um combustível não adulterado) e corante (para garantir a coloração perfeita). Com a indústria do crime organizado atuando sorrateiramente no mercado dos derivados do petróleo, o simples ato de abastecer o veículo transformou-se em uma grande dor de cabeça a lesionar o público consumidor.

5.5. TRÁFICO DE ANIMAIS E MADEIRA

O crime organizado, incluindo a máfia russa, está adentrando no tráfico ilícito de animais, devido ao seu caráter lucrativo (de até 800%), ao baixo risco de detenção e à falta de punição. Estima-se que, no Brasil, 40% dos carregamentos ilegais de drogas estejam relacionados com o tráfico de animais. Nos Estados Unidos, mais de 1/3 (um terço) da cocaína apreendida em 1993 provém da importação de animais selvagens. Em alguns casos, os animais são levados juntamente com as drogas e em outros são usados como moeda de troca e “lavagem de dinheiro”.

Pesquisas biológicas clandestinas, o comércio irregular de madeiras nobres da região amazônica e da mata atlântica, em especial o mogno, extraído dos Estados do Pará e sul da Bahia, com a suposta conivência de funcionários do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), são consideradas relevantes áreas de atuação do crime organizado no território nacional, com conotações transnacionais. Segundo relatório divulgado em 03/02/2004, o comércio ilegal de animais movimenta aproximadamente R$2 bilhões por ano e, a comercialização ilegal de madeira, R$4 bilhões.

5.6. TRÁFICO DE SUBSTÂNCIAS ENTORPECENTES

Cabe salientar que um dos seguimentos mais lucrativos do crime organizado é o tráfico de drogas, sobretudo cocaína, heroína e anfetamina. Estima-se que esse negócio movimenta cerca de US$300 bilhões a US$500 bilhões por ano. Grupos que traficam drogas freqüentemente vinculam-se a outros responsáveis pelo tráfico de armas, na medida em que o negócio não envolve somente dinheiro, mas também mercadorias. Assim, consegue-se armas em troca de substâncias entorpecentes e vice-versa.

Criou-se no Brasil um mercado interessante para os traficantes, porque eles não precisam pagar com dinheiro os serviços que prestam aos seus colegas na Europa e nos EUA. Em um carregamento de 100 kg de cocaína que entra no Brasil, os brasileiros se encarregam de despachar 80 kg para fora e ficam com 20 para distribuir aqui. A droga no Brasil é barata.

O traficante é temido pela população. A comunidade ajuda porque tem medo de vingança. Não dá só para fazer força-tarefa, entrar, comandar operação e sair, porque você não consegue apoio da população. Vale lembrar que tráfico ilícito de substâncias entorpecentes está tipificado na Lei 6368/76 e especificado no artigo 1° (primeiro), inciso l, da Lei 9613/98 que trata da “lavagem de dinheiro”. Calcula-se que as vendas de heroína, cocaína e maconha rendem, aproximadamente, US$ 122 bilhões por ano. Deste total, avalia-se que, em torno de 50 a 70% do valor destina-se à de “lavagem de dinheiro”.

Igualmente, a crescente utilização de complexas estruturas corporativas e transações que negociam envolvendo bancos , empresas imobiliárias e outras instituições financeiras, por traficantes e seus associados, trouxe dificuldade adicional à apreensão de ativos originados pelo tráfico de drogas. Em razão das variações nacionais existentes na legislação bancária, fiscal e financeira, traficantes e seus cúmplices encontram brechas legais, conseguindo, de maneira rápida, adaptar seus esquemas de lavagem e técnicas para esconder seus ganhos ilícitos.

5.7. CRIME ORGANIZADO E “LAVAGEM DE DINHEIRO”

Cumpre examinar, preliminarmente, que característica mais marcante e comum ao crime organizado é a “lavagem de dinheiro”. Nenhuma organização criminosa destina-se a ideologias políticas ou sociais, mas especificamente à obtenção de dinheiro e de poder.

É de se dizer que nem sempre a criminalidade organizada vincula-se à criminalidade econômica, contudo os grandes delitos econômicos requerem uma estrutura para sua organização. Assim sendo, o crime organizado e o crime de lavagem de dinheiro possuem uma estreita ligação, já que as características deste delito requerem a presença de requisitos identificáveis na estrutura das organizações criminosas.

Foi em decorrência desta certeza que surgiu a Lei 9613/98, que estabeleceu em seu artigo 1°, inciso VII que “ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores direta ou indiretamente de crime: praticado por organização criminosa. De modo geral, qualquer conduta de ocultação de bens e valores obtidos, por meio de conduta criminosa anterior, praticada por Organização Criminosa, é classificada como crime de “lavagem”.

Nos últimos anos, registrou-se um eminente crescimento das atividades criminosas geradoras do crime de “lavagem de dinheiro” ou ocultação de bens, objetos e valores provenientes de crimes, em decorrência, primordialmente, do tráfico de entorpecentes. Os grandes impérios da droga fazem circular seus benefícios através dos mercados financeiros nacionais e internacionais, sendo prioridade dos criminosos retirar o montante do país onde foi produzido e misturá-lo com o imenso volume de dinheiro sem nacionalidade que circula eletronicamente ao redor do mundo, a fim de se obter maior segurança e rendimento. De acordo com André Luís Callegari (2003, p. 40):

[…] a fórmula essencial para obtenção de dinheiro é a mescla de atividades lícitas com atividades ilícitas. Quase toda organização criminosa vale-se dessa fórmula para lavar o dinheiro, utilizando-se de empresas e comércios lícitos dos mais diversos.

A saber, a lavagem de dinheiro exige um tratamento profissionalizado, com a utilização de técnicas e procedimentos sofisticados, a fim de dirimir os agentes dos riscos da persecução criminal e de expandir seus negócios. André Luiz Callegari (2003, p. 42) ainda afirma:

[…] as operações de “lavagem de dinheiro” dinheiro efetivam-se de forma massiva ou em grande escala, requerendo, desta maneira, uma organização profissional, uma estrutura, uma rede de colaboradores e de cúmplices nos mais variados escalões, além de um conjunto internacional de empresas e entidades em diversos países, incluindo as entidades financeiras próprias que operam sob aparência de legalidade. Como se observa, daí decorre a ligação entre o crime de lavagem de dinheiro e o crime organizado.

6. O TERRORISMO

Embora terrorismo e organização criminosa sejam, tecnicamente, distintos, uma vez que os grupos terroristas não participam, necessariamente, no comércio de produtos ilícitos, assim como as organizações criminosas não agem de acordo com motivações étnicas, religiosas ou políticas, é preciso encará-lo como uma ameaça a toda comunidade internacional.

O terrorismo pode ser dividido em dois grandes grupos: o primeiro refere-se àquelas organizações independentes, que agem por motivações políticas e ideológicas contra uma população específica ou um determinado governo; o segundo grupo está relacionado com o chamado terrorismo de Estado, que age patrocinado por governos interessados em desestabilizar e aniquilar nações rivais ou grupos populacionais específicos. Em ambos os casos, o terrorismo é considerado um crime político e uma afronta à humanidade, devendo ser combatido por toda comunidade internacional.

Registre-se que grupos de narcotraficantes estão associando-se a movimentos terroristas que, por sua vez, têm no comércio ilegal de drogas uma importante fonte de recursos para financiar suas operações. Constata-se, portanto, uma combinação literalmente explosiva, o que torna essa questão mais complexa e preocupante.

7. PROPOSTAS PARA O SEU CONTROLE

Diante deste contexto complexo, são necessárias algumas medidas de cunho político – judiciais de combate ao crime organizado, configurando uma resposta institucional a esse tipo tão lesivo de criminalidade. Impossível comentar propostas de combate ao crime organizado sem ressaltar a imperiosa necessidade de se especializar a força policial e, ainda, purificá-la, expulsando aqueles policiais já viciados e que integram organizações criminosas. Os policiais corrompidos fazem parte de um sistema que envolve pedágios, compra de liberdade, propinas regulares para não incomodar os pontos de venda de droga, jogo do bicho, lotações clandestinas, proteção de criminosos e extorsão. Além disso, o crime acaba compensando financeiramente, pois uma extorsão negociada em minutos pode significar uma quantia de dinheiro que somente anos de trabalho poderiam render.

A solução para a violência está na educação e na igualdade social. A pobreza no país não é a causa, mas fator de violência. Os excluídos socialmente têm uma propensão maior ao crime, pois vários direitos básicos lhes são negados, como moradia e alimentação. A impunidade, principalmente em relação à corrupção, tem sido um dos fatores responsáveis pela existência e ampliação do crime organizado. Luiz Flávio Gomes (1997, [s.p]) diz:

[…] é preciso equipar a polícia, proporcionar seu acesso à tecnologia de ponta, o que implica no treinamento constante de sua força. Necessária, ainda, a especialização do Ministério Público, como já vem acontecendo em vários estados, com a criação de núcleos especiais voltados ao combate a organizações criminosas. Outra medida de inestimável valor é aquela relativa à formação das denominadas forças tarefas, que seriam a união de vários órgãos, dentre os quais Polícias, Receitas Estaduais e Federal, Ministério Público Federal e Estadual, órgãos de inteligência, entre outros, conforme a necessidade do caso. Assim, a força tarefa teria uma ação ampla com imediata troca de informações e dados, bem como maior facilidade na investigação, quando esta se desenvolve em outros locais, no país ou fora dele.

Ainda, os presídios passam a atuar como “escolas de criminosos”, na medida em que o Estado não mais consegue suprir a demanda e combater a violência. Neste sentido, há propostas de criação de um sistema penitenciário federal, delegando aos Estados a missão de administrar as penas privativas de liberdade nos regimes semi – aberto e aberto. Assim, as penitenciárias federais, de segurança máxima, encarregar-se-iam, primordialmente, do regime prisional fechado, em que incidissem criminosos de alta periculosidade à sociedade.

São necessários também instrumentos eficazes de proteção às vítimas e testemunhas, bem como a seus familiares. A intimidação de testemunhas tem sido obstáculo importante ao processo bem sucedido do crime organizado. As vítimas que testemunharem contra grupos do crime organizado também são vulneráveis a retaliação ou intimidação, devendo haver o fornecimento de assistência e proteção quando necessário, bem como compensação e restituição, se apropriado.

O crime não é mais um problema que qualquer nação possa considerar isoladamente. Se quisermos compreendê-lo e combatê-lo, necessitamos examinar o crime em seu contexto global. Outra forma seria alianças estabelecidas entre as Nações.

CONCLUSÃO

Verdade seja a realidade brasileira enfrenta graves problemas quanto ao controle do crime organizado, sendo imprescindível a criação e a aplicação de medidas políticas, judiciais e institucionais eficazes, a fim de se combater a proliferação do crime organizado, assim como a criação de mecanismos capazes de combater a raiz do problema apontado.

A indústria do crime organizado representa um dos grandes desafios da humanidade. A sua atuação maléfica prejudica os direitos e garantias fundamentais, vitimiza a sociedade, ofende a democracia, afronta à soberania e viola a cidadania; enfrentá-la e vencê-la é uma responsabilidade de toda a sociedade.

Diante do quadro exposto, muitas são as soluções apontadas no tocante ao combate do crime organizado. No entanto, é preciso haver uma união de esforços da sociedade civil e dos Estados de Direito para concretizar o objetivo almejado. Dessa forma, agregando financiamento econômico, aplicação correta dos investimentos, vontade política, esforço e empenho daqueles que apuram, denunciam e julgam o crime organizado, criação de leis aplicáveis ao delito em questão, formação de cidadãos pensantes, inalienados, com a conseqüente formação de uma opinião pública ativa, faz-se possível controlar as ações das associações criminosas, dirimindo-se, assim, as conseqüências malévolas deixadas por elas.

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Estado de Sítio e de Defesa

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1. NOÇOES INTRODUTÓRIAS

Dentro do grande tema da defesa do Estado, a CF/88 estabeleceu dois grupos:

A: instrumentos (medidas excepcionais) para manter ou restabelecer a ordem nos momentos de anormalidades constitucionais, instituindo o sistema constitucional de crises, composto pelo estado de defesa e estado de sítio (legalidade extraordinária);

B: defesa do País ou sociedade, através das Forças Armadas e da segurança pública.

A defesa do Estado pode ser entendida como:

A: defesa do território nacional contra eventuais invasões estrangeiras (arts. 34 A União não intervirá nos Estados nem no Distrito Federal, exceto para: II – repelir invasão estrangeira ou de uma unidade da Federação em outra, e Art. 137. O Presidente da República pode ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, solicitar ao Congresso Nacional autorização para decretar o estado de sítio nos casos de: II – declaração de estado de guerra ou resposta a agressão armada estrangeira.

B: defesa da soberania nacional (Art. 91. O Conselho de Defesa Nacional é órgão de consulta do Presidente da República nos assuntos relacionados com a soberania nacional e a defesa do Estado democrático);

C: defesa da Pátria (Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem).

A defesa das instituições democráticas caracteriza-se como o equilíbrio da ordem constitucional, não havendo preponderância de um grupo sobre outro, mas, em realidade, o equilíbrio entre os grupos de poder. Se a competição entre os grupos sociais extrapola os limites constitucionais, teremos o que a doutrina denomina situação de crise.

Assim, ocorrendo qualquer violação da normalidade constitucional, surge o denominado sistema constitucional das crises, definido por Aricê Amaral Santos como “… o conjunto ordenado de normas constitucionais que, informadas pelos princípios da necessidade e da temporariedade, têm por objeto as situações de crises e por finalidade a mantença ou o restabelecimento da normalidade constitucional”.

Nesse sentido, José Afonso da Silva observa que o sistema constitucional das crises fixa “… normas que visam à estabilização e à defesa da Constituição contra processos violentos de mudança ou perturbação da ordem constitucional, mas também à defesa do Estado quando a situação crítica derive de guerra externa. Então, a legalidade normal é substituída por uma legalidade extraordinária, que define e rege o estado de exceção”.

Portanto, diante das crises, existem mecanismos constitucionais para o restabelecimento da normalidade, quais sejam, a possibilidade de decretação do estado de defesa, do estado de sítio e o papel das Forças Armadas e das forças de segurança pública (Título V da CF/88)

Referidos mecanismos devem, contudo, como apontou Aricê, respeitar o princípio da necessidade, sob pena de configurar arbítrio e verdadeiro golpe de estado, bem como o princípio da temporariedade, sob pena de configurar verdadeira ditadura.

Sistema Constitucional das Crises:

– Necessidade: Arbítrio e Golpe de Estado
– Temporariedade: Ditadura

Essas situações de abuso, arbítrio, golpe, ditadura podem ser verificados no constitucionalismo pátrio, por exemplo, durante o “Estado Novo” de Getúlio Vargas (carta de 1973), no governo da ditadura militar de 1964 até o seu fim com a nova Constituição de 1988 e, durante este período, pela utilização do AI-5, momentos em que se decretou estado de sítio e de guerra sem qualquer observância aos princípios da necessidade e temporariedade.

1.2. ESTADO DE DEFESA

1.2.1. Hipóteses de decretação do estado de defesa

As hipóteses em que se poderá decretar o estado de defesa estão, de forma taxativa, previstas no Art. 136. O Presidente da República pode, ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, decretar estado de defesa para preservar ou prontamente restabelecer, em locais restritos e determinados, a ordem pública ou a paz social ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional ou atingidas por calamidades de grandes proporções na natureza da CF/88.

1.2.2. Procedimento

Titularidade: o Presidente da República (art. 84, IX, c/c o art. 136), através de decreto, pode, ouvido o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, decretar estado de defesa.

Conselho da República e Defesa Nacional: como órgãos de consulta, são previamente ouvidos, porém suas opiniões não possuem caráter vinculativo, ou seja, o Presidente da República, mesmo diante de um parecer opinando pela desnecessidade de decretação, poderá decretar o estado de defesa.

O decreto que instituir o estado de defesa: deverá determinas: a) o tempo de duração; b) a área a ser abrangida (locais restritos e determinados); c) as medidas coercitivas a vigorar durante a sua vigência.

Tempo de duração: Maximo de 30 dias prorrogado por mais 30 dias, uma única vez.

Medidas coercitivas: a) restrições (não supressão) aos direitos de reunião, sigilo de correspondência, sigilo de comunicação telegráfica e telefonia e restrição à garantia prevista no art. 5º, LXI, ou seja, prisão somente em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judicial competente; b) ocupação e uso temporário de bens e serviços públicos, na hipótese de calamidade pública, respondendo a União pelos danos e custos decorrentes.

Prisão por crimes contra o Estado: como exceção ao art. 5º, LXI, poderá ser determinada pelo executor da medida (não pela autoridade judicial competente). O juiz competente, imediatamente comunicado, poderá relaxá-la. Tal comunicação deverá vir acompanhada do estado físico e mental do detido no momento de sua autuação. Referida ordem de prisão não poderá ser superior a 10 dias, facultando-se ao preso requerer o exame de corpo de delito à autoridade policial.

Incomunicabilidade do preso: é vedada.

1.2.3. Controle exercido sobre a decretação do estado de defesa ou sua prorrogação

Controle político imediato: nos termos do art. 136, §§ 4.º -7º, será realizado pelo Congresso Nacional. Decretado o estado de defesa pelo Presidente da República, após ouvir os Conselhos da República e Defesa Nacional, tal ato será apreciado pelo Congresso Nacional, que decidirá pela maioria absoluta de seus membros. Se o Congresso Nacional estiver em recesso, será convocado, extraordinariamente, no prazo de cinco dias, e deverá apreciar o decreto dentro de 10 dias contados de seu recebimento, devendo continuar funcionando enquanto vigorar o estado de defesa. Se o Congresso rejeitar o decreto, o estado de defesa cessará imediatamente.

Controle político concomitante: nos termos do art. 140, a mesa do Congresso Nacional, ouvidos os líderes partidários, designará Comissão composta de 5 de seus membros para acompanhar e fiscalizar a execução das medidas referentes ao estado de defesa.

Controle político sucessivo (ou a posteriori): nos termos do art. 141, parágrafo único, logo que cesse o estado de defesa, as medidas aplicadas em sua vigência serão relatadas pelo Presidente da República, em mensagem ao Congresso Nacional, com especificação e justificação das providências adotadas, com relação nominal dos atingidos e indicação das restrições aplicadas. Prestadas as informações e não aceitas pelo Congresso Nacional, José Afonso da Silva entende parecer ficar “… caracterizado algum crime de responsabilidade do presidente, especialmente o atentado a direitos individuais – pelo que pode ser ele submetido ao respectivo processo, previsto no Art. 86. (Admitida à acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara dos Deputados, será ele submetido a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, ou perante o Senado Federal, nos crimes de responsabilidade) e regulado na lei 1.079/50”.

Controle jurisdicional concomitante: durante a decretação do estado de defesa, nos termos do art. 136, § 3º, haverá controle pelo Judiciário da prisão efetiva pelo executor da medida. A prisão ou detenção de qualquer pessoa. Também, não poderá ser superior a 10 dias, salvo quando autorizada pelo Poder judiciário.

Entendemos, também, que qualquer lesão ou ameaça a direito não poderá deixar de ser apreciada pelo Poder Judiciário, claro, observados os limites constitucionais das permitidas restrições a direitos (art. 136, § 1º). Parece, assim, que o Judiciário poderá reprimir abusos e ilegalidades cometidos durante o estado de crise constitucional por meio, por exemplo, do mandado de segurança, do habeas corpus ou de qualquer outra medida jurisdicional cabível.

Contudo, como anota Alexandre de Moraes, lembrando Manoel Gonçalves Ferreira Filho, em relação “… à análise do mérito discricionário do Poder Executivo (no caso do Estado de Defesa), a doutrina dominante entende impossível, por parte do Poder Judiciário, a análise da conveniência e oportunidade política para a decretação”.

Controle jurisdicional sucessivo (ou a posterior): nos termos do art. 141, caput, cessado o estado de defesa, cessarão também seu efeitos, sem prejuízo da responsabilidade pelos ilícitos cometidos por seus executores ou agentes.

1.3 Estado de sitio

1.3.1 Hipóteses de decretação do estado de sítio

As hipóteses em que poderá ser decretado o estado de sítio estão, de forma taxativa, prevista no Art. 137. O Presidente da República pode, ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, solicitar ao Congresso Nacional autorização para decretar o estado de sítio nos casos de:

Comoção grave de repercussão nacional (se fosse de repercussão restrita e de defesa);

Ocorrência de fatos que comprovem a ineficácia de medida tomada durante o estado de defesa (portanto, pressupõe-se situação de maior gravidade);

Declaração de estado de guerra ou resposta a agressão armada estrangeira.

1.3.2 Procedimento

Assis como no estado de defesa, quem decreta o estado de sítio é o Presidente da República, após prévia oitiva do Conselho da República e de Defesa Nacional (pareceres não vinculativos).

No entanto, para a decretação do estado de sítio, ao contrário do que ocorre com o estado de defesa, deverá haver prévia solicitação pelo Presidente da República de autorização do Congresso Nacional, que se manifestará pela maioria absoluta de seus membros.

O decreto do estado de sítio indicará sua duração, as normas necessárias a sua execução e as garantias constitucionais que ficarão suspensas, e, depois de publicado, o Presidente da República designará o executor das medidas específicas e as áreas abrangidas (art. 138, caput).

A duração do estado de sítio, no caso de comoção grave de repercussão nacional ou da ineficácia das medidas tomadas durante o estado de defesa (art. 137, I), não poderá ser superior a 30 dias, podendo ser prorrogada, sucessivamente (não há limites), enquanto perdurar a situação de anormalidade, sendo que cada prorrogação também não poderá ser superior a 30 dias.

No caso de declaração de estado de guerra ou resposta a agressão armada estrangeira (art. 137, II), enquanto perdurar a guerra ou a agressão armada estrangeira.

1.3.3. Medidas coercitivas

Nas hipóteses do art. 137, I (comoção grave de repercussão nacional ou da ineficácia das medidas tomadas durante o estado de defesa):

– Obrigação de permanecia em localidade determinada;
– Detenção em edifício não destinado a acusados ou condenados por crimes comuns;
– Restrições (não supressões) relativas à inviolabilidade da correspondência, ao sigilo das comunicações, à prestação de informações e à liberdade de imprensa, radiodifusão e televisão, na forma da lei (desde que liberada pela respectiva Mesa, não se inclui a difusão de pronunciamentos de parlamentares efetuados em suas Casas Legislativas);
– Suspensão da liberdade de reunião;
– Busca e apreensão em domicílio;
– Intervenção nas empresas de serviços públicos;
– Requisição de bens.

Em relação à decretação de estado de sítio na hipótese do art. 137, II, qual seja, no caso de declaração de estado de guerra ou resposta a agressão armada estrangeira, em tese, qualquer garantia constitucional poderá ser suspensa, desde que: a) tenham sido observados os princípios da necessidade e da temporariedade (enquanto durar a guerra ou resposta a agressão armada, estrangeira); b) tenha havido prévia autorização por parte do Congresso Nacional; c) nos termos do art. 138, caput, tenha sido indicado no decreto do estado de sítio a sua duração, as normas necessárias a sua execução e as garantias constitucionais que ficarão suspensas.

1.3.4. Controle exercido sobre a decretação do estado de sítio

Controle político prévio: tendo em vista a sua maior gravidade, o controle realizado pelo Congresso Nacional é prévio, ou seja, o Presidente da República, para a sua decretação, depende de prévia e expressa autorização do Congresso Nacional. Se o Congresso rejeitar o pedido, o presidente da República, agora vinculado, ano poderá decretar o estado de sítio. Se o fizer, sem dúvida, cometerá crime de responsabilidade. Estando o Congresso Nacional em recesso, haverá convocação extraordinária. Decretado o estado de sítio, nos termos do art. 138, §3º, o Congresso Nacional permanecerá em funcionamento até o término das medidas coercitivas.

Controle político concomitante: nos termos do art. 140, a mesa do Congresso Nacional, ouvidos os líderes partidários, designará Comissão composta de 5 de seus membros para acompanhar e fiscalizar a execução das medidas referentes ao estado de sítio.

Controle político sucessivo (ou a posteriori): nos termos do art. 141, parágrafo único, logo que cesse o estado de sitio, as medidas aplicadas em sua vigência serão relatadas pelo Presidente da República, em mensagem ao Congresso Nacional, com especificações e justificação das providências adotadas, com relação nominal dos atingidos e indicação das restrições aplicadas.

Conforme visto para o estado de defesa, prestadas as informações e não aceitas pelo Congresso Nacional parece ficar caracterizada a prática de crime de responsabilidade.

Controle jurisdicional concomitante: qualquer lesão ou ameaça a direito, abuso ou excesso de poder durante a sua execução não poderão deixar de ser apreciados pelo Poder Judiciário, observados, é claro, os limites constitucionais da “legalidade extraordinária”, seja por via do mandado de segurança, do habeas corpus, ou de qualquer outro remédio.

Conforme anotado para o estado de defesa, o juízo de conveniência para a decretação do estado de sitio cabe ao Presidente da República.

Controle jurisdicional sucessivo (ou a posteriori): nos termos do art. 141, caput, cessado o estado de sítio, cessarão também seu efeitos, sem prejuízo da responsabilidade pelos ilícitos cometidos por seus executores ou agente.

1.4 DISPOSIÇÕES COMUNS AOS ESTADOS DE DEFESA E DE SÍTIO

Em se tratando de medidas excepcionais, somente poderão ser adotadas dentro dos limites constitucionais, nas hipóteses expressamente previstas, enfim, somente durante a chamada crise constitucional. “Em outras palavras (concluem Araujo e Nunes Júnior), se medidas de exceção forem aplicadas em tempos de normalidade democrática, a Constituição estará sendo violada, configurando-se autêntico golpe de estado”.

Decretado o estado de defesa ou estado de sítio, haverá o controle político concomitante (art.140 da CF/88).

Por razões óbvias, cessando o estado de defesa ou o estado de sítio, cessarão também os seus efeitos, sem prejuízo da responsabilidade pelos ilícitos cometidos por seus executores ou agentes.

Dada a gravidade das medidas (por restringirem direitos constitucionais), logo que cesse o estado de defesa ou o estado de sítio, o Presidente da República terá de prestar contas, respondendo por abusos e arbítrios.

1.5 FORÇAS ARMADAS

1.5.1 Regras gerais

A Marinha, o Exército e a Aeronáutica constituem as Forças Armadas, sendo consideradas instituições nacionais permanentes e regulares, destinadas à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.

As Forças Armadas organizam-se com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade e comando supremos do Presidente da República, que tem por atribuições nomear os comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, promover seu oficiais-generais e nomeá-los para os cargos que lhes são privativos (art. 84, XIII, na redação determinada pela EC n. 23, 02/09/1999). Assim, os superiores hierárquicos e o Presidente da República, como chefe maior, com base na hierarquia e na disciplina, poderão aplicar sanções disciplinares de natureza administrativa.

Os membros das Forças Armadas, conforme estabelece o art. 142, § 3º, são denominados militares, aplicando-se-lhes, além das regras que vierem previstas em lei, as diversas disposições dos incisos I a X, dentre as quais a proibição da sindicalização e da greve, etc.

Caracterizando-se exceção expressa ao art. 5º, LXVIII, com base no princípio da hierarquia, não caberá habeas corpus em relação a eventuais punições disciplinares militares (art. 142, § 2º), vedação esta permitida, visto que introduzida pelo poder constituinte originário, que, conforme já estudamos. Do ponto de vista jurídico, é incondicionado, ilimitado e soberano na tomada de suas decisões, podendo, inclusive, trazer exceções às regras gerais.

Cabe observar, contudo, seguindo a jurisprudência do STF, a possibilidade de impetração de habeas corpus para a análise, pelo Judiciário, dos pressupostos de legalidade (hierarquia, poder disciplinar, ato ligado à função e pena suscetível de ser aplicada disciplinarmente – HC 70.648, Moreira Alves), excluídas as questões do mérito da sanção administrativa (cf., por exemplo, RE 338.840-RS, rel. Min. Ellen Gracie, 19/08/2003).

Nesse sentido: “A legalidade da imposição de punição constritiva da liberdade, em procedimento administrativo castrense, pode ser discutida por meios de habeas corpus. Precedentes” (RHC 88.543, rel. Min. Ricardo Lewandowski, j. 03/04/2007, DJ, 27/04/2007).

A prestação do serviço militar é obrigatória, ficando as mulheres e os eclesiásticos isentos de tal compulsoriedade em tempos de paz, sujeitando-se, porém, a outros encargos que a lei lhes atribuir.

Apesar de obrigatória, alegando-se imperativo de consciência, decorrente de crença religiosa, convicção filosófica ou política (direito de escusa de consciência), às Forças Armadas competirá, na forma da lei, atribuir serviço alternativo em tempo de paz (art. 5º,VIII, c/c o art. 143, §§ 1 e 2).

Havendo recusa da prestação alternativa nos termos da lei (Lei n. 8.239/91), ter-se-á por sanção a declaração da perda dos direitos políticos (art. 15, IV, da CF/88).

Por fim, lembramos que as leis que fixem ou modifiquem os efeitos das Forças Armadas, bem como as que disponham sobre os seus militares, seu regime jurídico, provimento para reserva, serão de iniciativa privativa (exclusiva) do Presidente da República.

1.6 SEGURANÇA PÚBLICA

1.6.1 Aspectos gerais

Para Maria Sylvia Zanela Di Pietro, adotando um conceito moderno, “o poder de polícia é a atividade do Estado consistente em limitar o exercício dos direitos individuais em beneficio do interesse público.

Assim, podemos distinguir a) polícia administrativa lato sensu; b) policia de segurança, sendo esta dividida em polícia administrativa (preventiva, que não deve confundir-se com a idéia de poder de polícia lato sensu do Estado) e polícia judiciária. Concentraremos a análise na polícia de segurança.

O objetivo fundamental da segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio (art. 144 da CF/88).

A atividade policial divide-se, então, em suas grandes áreas: administrativa e judiciária. A polícia administrativa (policia preventiva, ou ostensiva) atua preventivamente, evitando que o crime aconteça, na área do ilícito administrativo. Já a policia judiciária (polícia de investigação) atua repressivamente, depois de ocorrido o ilícito penal.

1.6.2 Cooperação entre a União e os Estados-membros e o DF e a Forca Nacional de Segurança Pública

Com o objetivo de minimizar os efeitos danosos à população causados, por exemplo, pelas “greves” em setores essenciais, como o da polícia militar, o Presidente da República adotou a MP n 2.205, de 10/08/2001, convertida em lei n 10.277 de 10/09/2001, e que, posteriormente, veio a ser revogada, passando a matéria a ser disciplinada pela Lei n. 11.473, de 10/05/2007.

De acordo com o novo dispositivo legal, a União poderá firmar convênios com os Estados-membros e o Distrito Federal para executar atividades e serviços imprescindíveis à preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio.

Referida cooperação federativa compreende operações conjuntas, transferências de recursos e desenvolvimento de atividade de capacitação e qualificação de profissionais, no âmbito da Força Nacional de Segurança Pública, sendo que as atividades terão caráter consensual e serão desenvolvidas sob a coordenação conjunta da União e do ente federativo que firmar o convenio.

Adesão é voluntaria por parte dos Estados, a Força Pública, somente atuara em policiamento ostensivo (preventivo).

1.6.3 Polícias da União

Os órgãos que compõem a polícia no âmbito federal são: polícia federal, polícia rodoviária federal e polícia ferroviária federal.

A policia federal será instituída por lei como órgão permanente, organizado e mantido pela União. Estruturada em carreira, exercendo a função de polícia judiciária (art. 144, §1, IV).

A polícia rodoviária federal, órgão permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se na forma da lei, ao patrulhamento ostensivo da rodovias federais.

1.6.4 Polícias dos Estados

A segurança pública em nível estadual foi atribuída às polícias civis, às polícias militares e ao corpo de bombeiros.

A polícia civil, como policia judiciária, a polícia militar como polícia administrativa e corpo de bombeiros militares, considerados forças auxiliares.

1.6.5 Polícias dos Municípios

Na forma da lei, os Municípios poderão constituir guardas municipais destinadas à proteção de seu bens, serviços e instalações (art. 144, § 8), o que, segundo bulos, corresponde ao policiamento administrativo da cidade, para a proteção do patrimônio público contra a depredação dos demolidores da coisa alheia.

Muito se discute sobre a ampliação dos poderes das guardas municipais, atualmente destituídas de competência para realização do policiamento ostensivo e preventivo. Destaque-se , nessa linha, proposta de emenda à Constituição (PEC) permitindo aos Municípios, por meios de convênios com os Estados, executar serviços de policiamento ostensivo e preventivo.

2. Intervenção federal

2.1 Hipóteses de intervenção federal

As hipóteses de intervenção federal (e quando dizemos intervenção federal significa intervenção realizada pela União) nos Estados e Distrito Federal estão taxativamente previstas no art. 34, sendo cabíveis para:

• Manter a integridade nacional;
• Repelir invasão estrangeira ou de uma unidade da Federação em outra;
• Pôr termo a grave comprometimento da ordem pública;
• Garantir o livre exercício de qualquer dos Poderes nas unidades da Federação;
• Reorganizar as finanças da unidade da federação que: a) suspender o pagamento da dívida fundada por mais de dois anos consecutivos, salvo motivo de força maior; b) deixar de entregar aos Municípios receitas tributárias fixadas na Constituição, dentro dos prazos estabelecidos em lei;
• Prover a execução de lei federal, ordem ou decisão judicial;
• Assegurar a observância dos seguintes princípios constitucionais: a) forma republicana, sistema representativo e regime democrático; b) direitos da pessoa humana; c) autonomia municipal; d) prestação de contas da administração pública, direta e indireta; e) aplicação do mínimo exigido da receita resultante de impostos estaduais, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino e nas ações e serviços públicos de saúde.

As hipóteses de intervenção federal nos Municípios localizados em Territórios Federais serão estudadas quando tratarmos da intervenção estadual, prevista no art. 35.

2.2 Espécies de intervenção federal

• Espontânea: neste caso o Presidente da República age de ofício art. 34, I, II, III e V;
• Provocada por solicitação: art. 34, IV, combinado com o art. 36, I, primeira parte – quando coação ou impedimento recaírem sobre o Poder Legislativo ou o Poder Executivo, impedindo o livre exercício dos aludidos Poderes nas unidade da Federação, a decretação da intervenção federal, pelo Presidente da República, dependerá de solicitação do Poder Legislativo ou do Poder Executivo coacto ou impedindo;
• Provocada por requisição: a) art. 34, V?I, combinado com o art. 26, I, segunda parte – se a coação for exercida contra o Poder Judiciário, a decretação da intervenção federal dependerá de requisição do Supremo Tribunal Federal; b) art. 34, VI, segunda parte, combinado com o art. 36, II – no caso de desobediência a ordem ou decisão judicial, a decretação dependerá de requisição do STF, STJ ou do TSE, de acordo com a matéria;
• Provocada, dependendo de provimento de representação: a) art. 34, VII, combinado com o art. 36, III, primeira parte – no caso de ofensa aos princípios constitucionais sensíveis, previstos no art. 34, VII, da CF/88, a intervenção federal dependerá de provimento, pelo STF, de representação do Procurador Geral da República (ADI interventiva); b) art. 34, VI, primeira parte, combinado com o art. 36, III, segunda parte – para prover a execução de lei federal (pressupondo ter havido recusa à execução de lei federal), a intervenção dependerá de provimento de representação do Procurador-Geral da República pelo STF (EC n. 45/2004).

Nesta última hipótese, Humberto Peña de Moraes observa: “insista-se, por oportuno, que a actio vertente não busca a alcançar oportuna declaração de inconstitucionalidade – fim a que se propõe a ação direta de inconstitucionalidade interventiva – com vista à possível intervenção, mas sim a garantir, ocorrendo recusa por parte de Estado ou do Distrito Federal e julgada procedente a pretensão pela Excelsa Corte, a execução de lei federal, sob pena, é óbvio, da prática interventiva. A intervenção para execução de lei federal só deve ser havida por lícita, insta observar, quando não existir outro tipo de ação aparelhada para a solução da quaestio juris”.

Na hipótese de solicitação pelo Executivo ou Legislativo, o Presidente da República não estará obrigado a intervir, possuindo discricionariedade para convencer-se da conveniência e oportunidade. Por outro lado, havendo requisição do Judiciário, não sendo o caso de suspensão da execução do ato impugnado (art. 36, § 3.º), o Presidente da República estará vinculado e deverá decretar a intervenção federal.

2.3 Decretação e execução da intervenção federal

Como vimos, a decretação e execução da intervenção federal é de competência privativa do Presidente da República (art. 84, X), dando-se de forma espontânea ou provocada. Lembramos, ainda, a provisão da oitiva de dois órgãos superiores de consulta, quais sejam, o conselho da República (art. 90, I), e o Conselho Nacional de Defesa (art. 91, § 1º, II), sem haver qualquer vinculação do Chefe do Executivo aos aludidos pareceres.

A decretação materializar-se-á através de decreto presidencial de intervenção que especificará a amplitude, o prazo e as condições de execução, e, quando couber, nomeará o interventor.

2.4 Controle exercido pelo Congresso Nacional

Nos termos dos §§ 1 e 2 do art. 36, o Congresso Nacional (legislativo) realizará controle político sobre o decreto de intervenção expedido pelo Executivo no prazo de 24 horas, devendo ser feita a convocação extraordinária, também no prazo de 24 horas, caso a Casa Legislativa esteja em recesso parlamentar. Assim, nos termos do art. 49, IV, o Congresso Nacional ou aprovará a intervenção federal ou a rejeitará, sempre por meio de decreto legislativo, suspendendo a execução do decreto interventivo nesta última hipótese.

Na última hipótese, ou seja, em caso de rejeição pelo Congresso Nacional do decreto interventivo, o Presidente da república deverá cessá-lo imediatamente, sob pena de cometer crime de responsabilidade (art. 85, II – atentado contra os Poderes constitucionais do Estado), passado o ato a ser inconstitucional.

2.4.1 hipótese em que o controle exercido pelo Congresso Nacional é dispensado

Como regra geral, o decreto interventivo deverá ser apreciado pelo Congresso Nacional (controle político). Excepcionalmente, a CF (art.36, §3º) dispensa a aludida apreciação, sendo que o decreto se limitará a suspender a execução do ato impugnado, se essa medida bastar ao restabelecimento da normalidade. As hipóteses em que o controle político é dispensado são as seguintes:

• Art. 34, VII – para prover a execução de lei federal, ordem ou decisão judicial;
• Art. 34, VII – quando houver afronta aos princípios sensíveis da CF.

No entanto, nesses casos, se o decreto que suspendeu a execução do ato impugnado não foi suficiente para o restabelecimento da normalidade, o Presidente da República decretará a intervenção federal, nomeando, se couber, interventor, devendo submeter o seu ato ao exame do Congresso Nacional (controle político), no prazo de 24 horas, nos termos do art. 36, §1º, conforme visto.

2.5. Afastamento das autoridades envolvidas

Por meio do decreto interventivo, que especificará a amplitude, prazo e condições de execução, o Presidente da República nomeará (quando necessário) interventor, afastando as autoridades envolvidas.

Cessados os motivos da intervenção, as autoridades afastadas de seus cargos a estes voltarão, salvo impedimento legal (art. 36, § 4º).

2.6. Intervenção estadual

2.6.1. Hipóteses de intervenção estadual e intervenção federal nos Municípios localizados em territórios federais

As hipóteses de intervenção estadual e federal (nos Municípios localizados em Territórios Federais) estão taxativamente previstas no art. 35, sendo cabíveis quando:

• Deixar de ser paga, sem motivo de força maior, por 2 anos consecutivos, a dívida fundada;
• Não forem prestadas contas devidas, na forma da lei;
• Não tiver sido aplicado o mínimo exigido da receita municipal na manutenção e desenvolvimento do ensino e nas ações e serviços públicos de saúde;
• O Tribunal de Justiça der provimento à representação para assegurar a observância de princípios indicados na Constituição Estadual, ou para prover a execução de lei, de ordem ou de decisão judicial.

2.6.2. Decretação e execução da intervenção estadual

A decretação e execução da intervenção estadual é de competência privativa do Governador de Estado, através de decreto de intervenção que especificará a amplitude, o prazo e as condições da execução e, quando couber, nomeará o interventor.

2.6.3. Controle exercido pelo Legislativo

A Constituição estabeleceu a realização de controle político a ser exercido pelo Legislativo, no prazo de 24 horas. Na hipótese de não estar funcionando haverá convocação extraordinária, também no prazo de 24 horas.

2.6.3.1 hipóteses em que o controle exercido pela Assembléia Legislativa é dispensado

Como regra geral, o decreto interventivo deverá ser apreciado pela Assembléia Legislativa (intervenção estadual). Excepcionalmente, porém, a CF (art. 36, §3º) dispensa a aludida apreciação pelo Congresso Nacional (hipóteses acima descritas), ou pela Assembléia Legislativa estadual, sendo que o decreto, nestes casos, limitar-se-á a suspender a execução do ato impugnado, se essa medida bastar ao restabelecimento da normalidade. A hipótese em que o controle político é dispensado é a seguinte:

• Art. 35, IV – o Tribunal de Justiça der provimento à representação para segurar a observância de princípios indicados na Constituição Estadual, ou para prover a execução de lei, de ordem ou de decisão judicial.

No entanto, se a suspensão da execução do ato impugnado não for suficiente para o restabelecimento da normalidade, o Governador de Estado decretará a intervenção no Município (hipótese de intervenção estadual em Município), submetendo este ato (decreto interventivo) à Assembléia Legislativa, que, estando em recesso, será convocada extraordinariamente.

2.6.4. Afastamento das autoridade envolvidas

No decreto interventivo que especificará a amplitude, prazo e condições de execução, o Governador de Estado nomeará (quando necessário) interventor, afastando as autoridades envolvidas.

Cessados os motivos da intervenção, as autoridades afastadas de seus cargos a estes voltarão, salvo impedimento legal (art. 36, § 4º).

2.6.5 Súmulas 637 do STF

Nos termos da S. 637/STF, “não cabe recurso extraordinário contra acórdão de tribunal de justiça que defere pedido de intervenção estadual em município”.

3. ADI interventiva

3.1. Conceito

O art. 18, caput, da CF/88 estabelece que a organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende a União, os Estados, o Distrito federa e os Municípios, todos autônomos. Vale dizer, como regra geral, nenhum ente federativo deverá intervir em qualquer outro.

No entanto, excepcionalmente, a CF estabelece situações (de anormalidade) em que haverá intervenção:

• União ? nos Estados, Distrito Federal (hipóteses do art. 34) e nos Municípios localizados em Território Federal (hipóteses do art. 35);
• Estados ? em seu Municípios (art. 35).

A adi interventiva apresenta-se como um dos pressupostos para a decretação da intervenção federal, ou estadual, pelos Chefes do Executivo, nas hipótese previstas na CF/88.

Clèmerson Clève, ao analisar o instituto, conclui tratar-se de “…procedimento fincado a meio caminho entre a fiscalização da lei in thesi e aquela realizada in casu. Trata-se, pois, de uma variante da fiscalização concreta realizada por meio de ação direta”.

O Judiciário exerce, assim, um controle da ordem constitucional tendo em vista o caso concreto que lhe é submetido à análise.

O judiciário não nulifica o ato, mas apenas verifica se estão presentes os pressupostos para a futura decretação da intervenção pelo Chefe do Executivo.

3.2. Objeto, competência, legitimidade e procedimento

3.2.1 ADI interventiva federal

O art. 36, III, da CF/88, primeira parte, estabelece que a decretação da intervenção dependerá de provimento, pelo STF, de representação do Procurador-Geral da República, na hipótese do art. 34, VII. Deste dispositivo encontramos:

• Objeto: lei ou ato normativo, ou omissão, ou ato governamental estaduais que desrespeitem os princípios sensíveis da CF. Inclua-se, também, a lei ou ato normativo, omissão ou ato governamental distrital (sendo o ato normativo de natureza estadual – cf. art. 32, § 1º, da CF/88);
• Princípios sensíveis: as situações previstas no art. 34, VII, ou seja, quando a lei de natureza estadual (ou distrital de natureza estadual) contrariar: 1) forma republicana, sistema representativo e regime democrático; 2) direitos da pessoa humana; 3) autonomia municipal; 4) prestação de contas da administração pública, direta e indireta; 5) aplicação do mínimo exigido da receita resultante de impostos estaduais, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino e nas ações e serviços públicos de saúde;
• Competência: STF;
• Legitimidade ativa: Procurador-Geral da República;
• Procedimento: proposta a ação pelo Procurador-Geral da República, no STF. Quando a lei ou ato normativo de natureza estadual (ou distrital de natureza estadual), ou omissão, ou ato governamental contrariarem os princípios sensíveis da CF, previstos no art. 34, VII, julgada procedente a ação (quorum do art. 97, maioria absoluta), o STF requisitará ao Presidente da República que decrete a intervenção. O Presidente da República, nos termos do art. 36, § 3º, através de decreto, limitar-se-á a suspender a execução do ato impugnando. Caso essa medida não seja suficiente para o restabelecimento da normalidade, aí, sim, o Presidente da República decretará a intervenção federal, executando-a através da nomeação de interventor e afastando as autoridades responsáveis de seus cargos (art. 84, X da CF/88). O § 4º do art. 36 estabelece que, cessados os motivos da intervenção, as autoridades afastadas de seus cargos a estes voltarão salvo impedimento legal.

3.2.2 ADI interventiva estadual

O art. 35, IV, da CF/88 estabelece que a intervenção estadual, a ser decretada pelo Governador de Estado, dependerá de provimento pelo TJ local de representação para assegurar a observância de princípios indicados na CE, ou para prover a execução de lei, de ordem ou de decisão judicial. As regras vêm previstas no art. 149. Da Constituição do Estado de São Paulo e nos arts. 639 a 643 do Regimento Interno do TJSP:

• Objeto: Lei ou ato normativo, ou ato governamental municipais que desrespeitam os princípios sensíveis indicados na CE;
• Competência: Tribunal de Justiça, através de seu órgão especial (art. 641 do RITJSP0;
• Legitimidade ativa: Procurador-Geral de Justiça, conforme o art. 129, IV, da CF/88;
• Procedimento: proposta a ação pelo Procurador-Geral de Justiça, no TJ, quando a lei ou ato normativo, ou omissão, ou ato governamental de natureza municipal contrariarem os princípios sensíveis previstos na CE, julgada procedente a ação, o Presidente do TJ comunicará a decisão ao Governador do Estado, para que a concretize (art. 643 do RITJSP). O Governador de Estado, nos termos do art. 149, § 3, da CESP, através de decreto, limitar-se-á a suspender a execução do ato impugnado, comunicando seu efeitos ao Presidente do TJ. Caso essa medida não seja suficiente para o restabelecimento da normalidade, aí, sim, o Chefe do Executivo estadual decretará a intervenção estadual no Município, através da nomeação de interventor, afastando as autoridades responsáveis de seus cargos.

REFERÊNCIA

Direito constitucional esquematizado, Pedro Lenza, 13ª Edição, editora Saraiva

Lei de Parkinson

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A Lei de Parkinson diz que “o trabalho se expande para preencher o tempo disponível para ser concluído”.

Essa lei foi publicada por Cyril Northcote Parkinson, pela primeira vez, em um artigo publicado pela revista The Economist em 1955, sendo depois reimpresso junto com outros artigos no livro Parkinson’s Law: The Pursuit of Progress, (Londres, John Murray, 1958) baseado na extensa experiência no Serviço Civil Britânico.

De acordo com Parkinson, isso é motivado por duas forças: (1) “Um oficial quer multiplicar subordinados, não rivais” e (2) “Oficiais trabalham para cada um entre si.” Ele também apontou que o total de empregados dentro de uma burocracia aumentou de 5% a 7% ao ano “invariável ao tanto de trabalho (caso haja) a ser feito”.

A “Lei de Parkinson” é também usada para referir-se a uma derivativa da original, relacionada à computação: “Os dados se expandem para preencher o espaço disponível para armazenamento”; comprar mais memória, encoraja o uso de técnicas que requerem mais memória. Foi observado nos últimos 10 anos que o uso de memória envolvendo sistemas tende a dobrar a cada 18 meses, em média. Felizmente, a capacidade de memória disponível por um preço constante tende a dobrar a cada 24 meses (ver Lei de Moore); infelizmente, as leis da física garantem que isto não poderá continuar para sempre.

A “Lei de Parkinson” pode ser melhor generalizada como: “A demanda sob um recurso sempre expande para adequar-se à oferta daquele recurso.” Geralmente uma extensão é adicionada a essa frase, notando que “o inverso não é verdade”.

É interessante notar que essa generalização tornou-se muito similar à lei econômica da oferta e da procura; que quanto mais baixo o custo de um serviço, maior a demanda deste.

Parkinson também propôs uma regra sobre a eficiência de conselhos administrativos. Ele definiu um coeficiente de ineficiência sendo, o número de membros do conselho, a principal variável.

Aplicações da Lei de Parkinson

A Lei de Parkinson é aplicada em muitas áreas do conhecimento humano.

• Em Gerência de Projetos, tarefas individuais com datas-limite raramente terminam antes pois, as pessoas fazendo o trabalho tendem a expandí-lo para terminá-lo próximo à data de entrega. Junto com a síndrome do estudante, tarefas individuais quase sempre tem a garantia de que irão atrasar.
• As pessoas vêem a lei aparecer em suas atividades diárias. Não importa quantas coisas tenham sob responsabilidade de uma pessoa, ela tende a concluí-las. Isso leva à frase, “se você quer que algo seja feito, dê para alguém ocupado” pois parece que as pessoas ocupadas são melhores em “gerenciamento de tempo.” Enquanto isso até pode ser verdade, é justo afirmar que, como eles estão fazendo mais, seu trabalho não está expandindo indefinidamente para preencher tempo não-ocupado.

Referências

• Parkinson’s Law, or The Pursuit of Progress, C. Northcote Parkinson, 1957. Citação completa da Lei de Parkinson
• Parkinson’s Law, no The Economist (November 1955) – texto com fórmula

Ligações externas

• Parkinson’s Law by Prof. Cyril Northcote Parkinson – The Heretical Press
• “How Do You Cure Injelitance?”

O Projeto Político-Pedagógico

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Toda escola deve ter definida para si mesma e para sua comunidade escolar uma identidade e um conjunto orientador de princípios e de normas que norteiem o fazer pedagógico diário. O Projeto Político-Pedagógico inicia-se a partir de um ideal e caminha paulatinamente com objetivos e metas definidos coletivamente, considerando a escola que se tem, com princípios e características projetados diante de uma visão de futuro que leva a escola que se deseja ter. Nesse contexto o Projeto Político-Pedagógico deve assemelhar-se a uma construção coletiva que radiografe as ações que devem ser realizadas nos domínios da escola, fornecendo subsídios favoráveis a ação pedagógica, de modo a propiciar mais autonomia a toda organização escolar. Entendemos ser essa autonomia a liberdade de escolher as alternativas mais adequadas para cada realidade escolar, apontando a necessidade de analise e reflexões de situações cotidianas da escola no âmbito administrativo, pedagógico e financeiro.

As diferentes dimensões da autonomia são interdependentes entre si, apesar de serem construídas coletivamente, de forma democrática. A construção do Projeto Político-Pedagógico constitui-se num dos mais importantes instrumentos da gestão democrática da escola pública.

Palavras-chave: Projeto Político-Pedagógico; autonomia; escola pública.

ABSTRACT

Every school must have defined for herself and for his/her school community an identity and a guiding group of beginnings and of norms that orientate doing pedagogic diary. The Political-pedagogic Project begins starting from an ideal and bed gradually with objectives and goals defined collectively, considering the school that is had, with beginnings and characteristics projected before a future vision that takes the school that one want to have. In that context the Political-pedagogic Project should resemble each other to a collective construction that it x-rays the actions that they should be accomplished in the domains of the school, supplying favorable subsidies the pedagogic action, in way to propitiate more autonomy to all school organization. We understood to be that autonomy the freedom of choosing the most appropriate alternatives for each school reality, pointing the need of it analyzes and reflections of daily situations of the school in the extent administrative, pedagogic and financial.

The different dimensions of the autonomy are interdependent amongst themselves, in spite of they be built collectively, in a democratic way. The construction of the Political-pedagogic Project is constituted in an of the most important instruments of the democratic administration of the public school.

INTRODUÇÃO

O ponto central de qualquer proposta para a escola pública deve ser a qualidade no ensino. Abordamos neste artigo, as questões relacionadas ao Projeto Político-Pedagógico, como um instrumento de gestão democrática que leva a autonomia da escola pública. Acreditamos que a escola pública é capaz de assegurar as condições necessárias para atingir a meta na formação do aluno como ser cidadão e político. Nesse sentido é debatido por Saviani em seu livro Escola e Democracia que “A educação é sempre um ato político” (1997, p.91). Sendo a educação um ato humanizador desenvolvido dentro de uma coletividade influenciada por ações diversas, estabelece relações formando um espaço social e democrático composto por alunos, seus familiares, professores, funcionários e membros da comunidade local. A autonomia e a gestão democrática da escola fazem parte da própria natureza do ato pedagógico. A gestão democrática da escola é, portanto, uma exigência de seu projeto político-pedagógico.

DESENVOLVIMENTO

Para que haja uma gestão democrática na escola pública é necessário o envolvimento político e organizado em suas diferentes instâncias colegiadas. Consideramos ser o Conselho Escolar, o Conselho de Classe, a Associação de Pais e Mestres e o Grêmio Estudantil como marcos primordiais para a autonomia a e gestão escolar da escola pública, seguido da construção participativa do Projeto Político-Pedagógico.

Segundo Gadotti, “Não se constrói um projeto sem uma direção política, um norte, um rumo. Por isso, todo projeto pedagógico da escola é também político.” (In MEC, 1998, p. 16). O Projeto Político-Pedagógico (PPP) inicia-se a partir de um ideal e caminha, passo a passo, até transformar-se em realidade. Nesse sentido, afirma PADILHA (2001): “planejar, em sentido amplo, é um processo que visa a dar respostas a um problema, através do estabelecimento de fins e meios que apontem para a sua superação, para atingir objetivos antes previstos, pensando e prevendo necessariamente o futuro, mas sem desconsiderar as condições do presente e as experiências do passado, levando-se em conta os contextos e os pressupostos filosófico, cultural, econômico e político de quem planeja e de com quem se planeja”.

O PPP diferencia-se do planejamento pedagógico. É um conjunto de princípios que norteiam a elaboração e execução dos planejamentos. Por isso, envolvem princípios que são mais permanentes. Eles mostram e definem a identidade da escola. É necessário repensar o fazer escolar, para direcionar o caminho da formação dos educadores e dos educandos, tendo como alvo uma educação humanizadora e libertadora. Citamos FREITAS, que enfatiza da seguinte maneira:

O projeto pedagógico não é uma peça burocrática e sim um instrumento de gestão e de compromisso político e pedagógico coletivo. Não é feito para ser mandado para alguém ou algum setor, mas sim para ser usado como referência para as lutas da escola. É um resumo das condições e funcionamento da escola e ao mesmo tempo um diagnóstico seguido de compromissos aceitos e firmados pela escola consigo mesma – sob o olhar atento do poder público. (FREITAS et al., 2004, p. 69)

O Projeto Político-Pedagógico, quando bem construído e administrado influência em toda dinâmica escolar para alcançar os seus objetivos. Nos dias atuais torna-se inconcebível a idéia de uma escola que não tenha ações bem planejadas e metas eficazes que garantam a qualidade do ensino.

O Projeto Político-Pedagógico envolve ações educacionais da escola, do planejamento pedagógico, da elaboração do currículo, das atividades internas e externas, e de todas as ações que culminem na “assimilação do saber historicamente construído e sistematizado pelos homens” (Saviani, 1997, p. 56).

1. AUTONOMIA

O sentido de autônomo, está diretamente relacionado a liberdade de escolha, ou seja, quem detém autonomia, tem a prerrogativa de escolher o que deve ou não fazer. Outra característica é o fato da autonomia não isentar as pessoas ou os grupos, possuírem regras e segui-las, apenas faculta a escolha das regras a serem seguidas.

A autonomia na escola encontra suporte na própria Constituição, promulgada em 1988, que estabelece como princípios básicos: o “pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas” e a “gestão democrática do ensino público” (Art.206). Esses princípios podem ser considerados como fundamentos constitucionais da autonomia da escola.

A LDB, em seus artigos 14 e 15, apresenta as seguintes determinações:

Art. 14 – Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios:

I. participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola;
II. participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes. (…)

Art. 15 – Os sistemas de ensino assegurarão às unidades escolares públicas de educação básica que os integram progressivos graus de autonomia pedagógica e administrativa e de gestão financeira, observadas as normas de direito financeiro público.



1.1 AUTONOMIA ADMINISTRATIVA

Entendemos que a autonomia administrativa possibilita a elaboração e o gerenciamento dos planos, programas e projetos desenvolvidos na escola. Refere-se a organização escolar, destacando o estilo de gestão, a direção como coordenadora de um processo que envolve relações internas e externas. É na verdade o envolvimento do sistema educativo com a comunidade na qual a escola está inserida. Possibilita a escola elaborar suas próprias normas e orientações escolares, no que diz respeito a matrícula, transferência de alunos, elaborações de provas e critérios para a avaliação da aprendizagem.

Portanto uma escola autônoma, não é uma escola sem regra ou sem controle do Estado, a escola autônoma que caminha para se tornar uma escola cidadã, necessita compreender que a sua autonomia se limita a estabelecer as regras pelas quais ela será gerida, de forma democrática, com a participação de todos os envolvidos em suas ações educacionais, porém, essas regras estarão sujeitas a uma lei maior, que em primeiro lugar é a Constituição Federal e a LDB vigente, seguido do Conselho Nacional de Educação – CNE do Conselho Estadual de Educação – CEE de seu Estado e CME – Conselho Municipal de Educação.

1.2 AUTONOMIA PEDAGÓGICA

A ação pedagógica de modo a dar liberdade de ensino e pesquisa a qual está ligada, a identidade, a função social, a clientela, a organização escolar, a avaliação e seus resultados e, portanto a essência do projeto pedagógico da escola, em consonância com as políticas públicas vigentes e as orientações dos sistemas de ensino.

1.3 AUTONOMIA FINANCEIRA

A autonomia financeira refere-se à existência de recursos financeiros capazes de dar à escola a condição necessária de funcionamento. Atualmente, a escola pública vem recebendo recursos financeiros que cabe a gestão escolar administrar. A autonomia financeira pode ser total ou parcial. É total quando a escola administra todos os recursos a ela destinados pelo poder público. É parcial quando a escola administra apenas parte dos recursos repassados.



1.4 A ESCOLA PÚBLICA PODE SER TOTALMENTE AUTÔNOMA

Para Barroso o conceito de autonomia está ligado à idéia de autogoverno, onde os sujeitos se regulam por regras próprias. Contudo, isto não é sinônimo de indivíduos independentes (1996B):

A autonomia é um conceito relacional (somos sempre autônomos de alguém ou de alguma coisa) pelo que a sua ação se exerce sempre num contexto de interdependência e num sistema de relações. A autonomia é também um conceito que exprime um certo grau de relatividade: somos mais, ou menos, autônomos; podemos ser autônomos em relação a umas coisas e não o ser em relação a outras. “A autonomia é, por isso, uma maneira de gerir, orientar, as diversas dependências em que os indivíduos e os grupos se encontram no seu meio biológico ou social, de acordo com as suas próprias leis.” (p. 17)

Gadotti acredita que “A autonomia e a gestão democrática da escola fazem parte da própria natureza do ato pedagógico. A gestão democrática da escola é, portanto, uma exigência de seu projeto político-pedagógico.” (In MEC, 1998, p. 17).

Quando falamos em autonomia da escola pública não podemos pressupor que a mesma isole esta da sociedade. A autonomia implica em liberdade conquistada e capaz de dirigir o seu destino através das decisões tomadas de forma participativa da equipe escolar. A gestão democrática da escola pública é o caminho mais rápido para conquista de sua autonomia. Costa (2001) afirma que:

[…] Um elemento importante a ser destacado aqui é que não há uma fórmula mágica de se democratizar a escola. É necessário, sim, investir no desassossego e numa conseqüente dose de transgressão, mudar, não porque é permitido, mas porque é necessário, diria até imprescindível (p. 75).

Nesse sentido, Padilha afirma, “A autonomia, na escola cidadã, pressupõe, pois, a alteridade, a participação, a liberdade de expressão, o trabalho coletivo na sala de aula, na sala de professores, na escola e fora dela.”(2001, p. 65).

O objetivo primordial da autonomia escolar, rumo a escola cidadã, deve ser a qualidade do ensino e da formação moral, intelectual, afetiva e social de todos os seus autores, os quais se tornam sujeitos ativos do fazer escolar.

Citamos ainda Padilha que diz: a escola projetada com base na referida autonomia tem a finalidade de formar seus educandos para a vida, para o trabalho, para a construção de relações humanas e sociais civilizadas, justas e éticas para o exercício e a prática da cidadania crítica e ativa e para resistir a toda forma de exclusão (ibidi., p. 65).

METODOLOGIA

Desenvolvemos o presente artigo com base em pesquisas bibliográficas sobre a importância do Projeto Político Pedagógico e sua relevância na construção da autonomia da escola pública.

CONCLUSÃO

Seguindo a linha de raciocínio dos autores citados, consideramos que o político e o pedagógico deverão andar sempre juntos, quando se tratar de uma ação intencional de educação escolar, priorizando políticas públicas bem definidas, visando novos paradigmas para democratização da gestão escolar.

É necessário que a escola crie mecanismos que lhe favoreçam a autonomia e trabalhe em cima dessa criação, reconstruindo continuamente o fazer coletivo e avaliando o desempenho das funções administrativa, financeira e pedagógica da mesma.

O Projeto Político Pedagógico nasce da necessidade de mudanças na prática escolar e de organizar a participação da comunidade e de todos os educadores, tendo uma direção a seguir, que proporcione maior interação entre aluno e professor, pais e comunidade escolar, com o objetivo de diminuir a repetência e evasão escolar e alcançar uma educação de qualidade para todos.

A escola autônoma é aquela que estabelece normas e regras para sua existência e funcionamento, bem como a gestão democrática dos recursos financeiros que a mantém. Torna-se relevante nesse processo de construção que os professores e demais funcionários tenham assegurados o tempo para se pensar e fazer o PPP. Com essa conquista, a escola estabelece o equilíbrio de forças de seus diferentes setores, implicando na mudança de atitudes de todos os atores envolvidos na tarefa de gerir.

A autonomia escolar advinda com a construção e implantação do PPP proporciona uma educação igualitária, com a participação coletiva de todos os envolvidos e a qualidade merecida e almejada por pais, alunos e educadores, contribuindo assim na construção de uma sociedade mais justa, qualificada e humanizada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia: teorias da educação, curvatura da vara, onze teses sobre educação e política. 31. ed. Campinas: Autores Associados, 1997.

MEC – Secretaria de Ensino a Distância. Salto para o futuro: construindo uma escola cidadã. Brasília: MEC/SEED, 1998.

PADILHA, Paulo Roberto. Planejamento Dialógico: como construir o projeto político-pedagógico da escola. São Paulo: Cortez; Instituto Paulo Freire, 2001.

______. Da nova LDB ao novo plano nacional de educação: por uma outra política educacional. Campinas: Autores Associados, 1998.

FREITAS, L. C. et al. Dialética da inclusão e da exclusão: por uma qualidade negociada e emancipadora nas escolas. In: Escola Viva: elementos para a construção de uma educação de qualidade social. GERALDI, C. M. G.; RIOLFI, C. R.; GARCIA, M. F. Campinas: Mercado de Letras Edições e Livraria Ltda., 2004.

BARROSO, J. (1996). O estudo da autonomia da escola: da autonomia decretada à autonomia construída. In J. Barroso (org). O estudo da escola. Porto: Porto Editora.

COSTA, D.M. Tempos de democracia e participação: o conselho escolar como possibilidade de desconcentração do poder. Educação UNISINOS/Centro de Ciências Humanas, São Leopoldo, Universidade Vale do Rio dos Sinos, v. 8, n. 15, 2001.

Descoberta do Átomo

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Introdução:

Esse trabalho fala sobre a descoberta do átomo,e seus principais descobridores.

Quero por meio dele deixar que o querido leitor venha entender e conhecer um pouco mais sobre esse elemento,tão pouco discutido em nosso meio principalmente pelos jovens.

As primeiras descobertas

No século V antes de cristo, o filósofo grego Leucipo ensinava aos seus seguidores que a matéria poderia ser formada por partículas muito pequenas ( ele utilizava como exemplo o fato da areia da praia parecer ser contínua quando vista de longe, porém, quando examinada de perto, era formada por inúmeros grãos).

Um de seus discípulos, Demócrito, aceitando a lógica dessa idéia, utilizou o nome átomo (do grego não divisível) as menores partículas constituintes da matéria. Esses conceitos amplamente conhecidos por Lucrécio, em Roma, porém, durante muitos séculos, estas idéias permaneceram esquecidas…

O modelo atômico atual deve-se principalmente a três cientistas: Faraday, Plucker e Geissler.



Geissler

Em 1685, Geissler, que era um cientista alemão, construiu um aparelho capaz de produzir uma espécie vácuo, a partir de um aparelho inicialmente concebido por Torriceli. Desta maneira, foi capaz de esvaziar uma câmara de ar de maneira mais eficientes do que fora possível antes, (esse tubo é chamado de tubo de Geissler). Ao lançar cargas elétricas em uma câmara de vácuo.

Faraday

Faraday observou certa fluorescência, que foi definitivamente descrita por Julius Plücker. A este cientista, deve-se também a observação de que esta fluorescência era desviada de sua posição, quando colocada sobre a ação de um campo eletromagnético. Este era o primeiro passo, que levaria a descoberta das partículas subatômicas.

Eugen

Na década de 1870, Eugen Goldstein introduziu o nome raios catódicos a luminescência observada anteriormente por Plücker. Observou também a existência de estranha radiação denominada raios canais, que seguia caminho contrário ao percorrido pelos raios catódicos.

William Crookes

William Crookes demonstrou que os raios catódicos caminhavam em linha reta. Mostrou também que estes eram capazes de por uma pequena roda em movimento, desviar sua trajetória na presença de um imã, e que pequenos objetos colocados no trajeto desses raios produziam sombra nítida. Com base nestas observações, concluiu estar lidando com partículas carregadas.

Perrin

Perrin, em 1895, provou que os raios catódicos poderiam conferir uma carga altamente negativa a um cilindro, sobre o qual incidisse. Os raios catódicos, deveriam, consistir em um material negativamente carregado e, por isso mesmo, deveriam obviamente ser constituídos de partículas, ao invés de ondas. Perrin demonstrou também que os raios canais eram constituídos por partículas de cargas positivas.

Thomson

Em 1897 Thomson trabalhando com tubos de alto vácuo, mostrou a deflexão dos raios catódicos pelo campo elétrico, tornando definitivamente aceita a teoria de que os raios catódicos eram de natureza corpuscular, sendo as partículas batizadas de elétrons, nome primeiramente utilizado por Stoney. Além disso, Thomson mediu a razão entre a carga e a massa das partículas dos raios catódicos, resultando que, se essa carga fosse igual à carga mínima de um íon conforme medida por Faraday, então a massa de tais partículas seria uma pequena fração da massa do átomo de hidrogênio. Com isto, abria-se uma nova área de estudo, para as partículas subatômicas. O modelo atômico concebido por Thomson.

Rutherford

No final do século XIX, Ernest Rutherford (que foi discípulo de Thomsom), juntamente com os Curie, denominou os raios emitidos por substâncias radioativas de alfa (quando positivamente carregada) e beta (quando negativamente carregada). Em 1900, demonstrou que as formas de radiação não afetadas por campo magnético eram constituídas por ondas eletromagnéticas, denominando-a raios gama. Entre 1906 e 1909, provou que os raios positivos descobertos por Goldstein eram como as partículas alfa (átomos de hélio, desprovidos de elétrons – descoberta de Rutherford e Geiger).

Em 1906, após a realização de elegante experimento, Ernest Rutherford elaborou o modelo atômico, no qual há um núcleo central positivamente carregado, e uma região pouco densa circundante, na qual se encontram os elétrons. Em 1914, propôs que os mais simples raios positivos deviam ser partículas obtidas a partir do átomo de hidrogênio, as quais denominou prótons.

Em 1920, pensava-se que o núcleo atômico era constituído por prótons e alguns elétrons, necessários para manter coeso o núcleo atômico. Por esta analogia, o átomo de hélio deveria conter 4 prótons e 2 elétrons, para ter uma carga +2.

Bothe e Joliot-Curie

Entre 1930 e 1932, Bothe e Joliot-Curie, notaram que alguns elementos leves, tal como o berílio, quando expostos a um bombardeio de partículas alfa, emitiam uma radiação cuja presença se manifestava através da expulsão de prótons da parafina.

James Chadwick

Em 1932, James Chadwick repetiu a experiência de Bothe e Joliot-Curie, e demonstrou que a melhor maneira de explicar o fenômeno era supor que partículas alfa expulsavam do núcleo do berílio partículas neutras e que essas (de massa parecida a do próton) expulsavam os prótons da parafina. Deste modo, descobriu-se o nêutron.

Heisenberg

Após isto, Heisenberg fez notar que o núcleo atômico era composto por prótons e nêutrons, estando os elétrons apenas na periferia do átomo.

Yukawa

Yukawa imaginou a existência de forças eletromagnéticas ordinárias, envolvendo a troca de fótons, e que no núcleo existiria uma força nuclear envolvendo a transferência de alguma outra entidade. Tal força nuclear, se existisse, deveria ter um raio de ação extremamente reduzido, isto é, a distância não maior que a dimensão dos núcleos (cerca de um décimo trilionésimo de milímetro), a força seria muito forte, o suficiente para superar a repulsão entre os prótons, mas, não deveria se fazer sentir mesmo nos elétrons mais próximos.

Esta hipotética força, que originar-se-ia da transferência de partículas entre nêutrons e prótons, e teria massa estimada em 200 vezes a massa do elétron.

Carl David

Em 1936, Carl David Anderson detectou a primeira partícula de massa intermediária, denominada méson mu, porém esta não satisfazia os preceitos de Yukawa, uma vez que interagia muito pouco com o núcleo atômico. Tempos depois constatou-se que o méson de Anderson era um elétron muito pesado.

Powell

Em 1947, Powell descreveu o méson pi, mais pesado e que se enquadrava perfeitamente na partícula descrita por Yukawa. Em 1950, Powell e Yukawa receberam o Nobel de Física.

Erwin Wilherlm

Em 1950, Erwin Wilherlm Mueller, utilizando o microscópio eletrônico (desenvolvido por ele mesmo), observa diretamente o átomo, pelo menos a ponto de determinar sua posição regular em certas substâncias. Comprova-se assim, a existência em definitivo do átomo de Leucipo-Demócrito.

Definição de Átomo

Todas as substâncias são formadas de pequenas partículas chamadas átomos. Para se ter uma idéia, eles são tão pequenos que uma cabeça de alfinete pode conter 60 milhões deles.

Os gregos antigos foram os primeiros a saber que a matéria é formada por tais partículas, as quais chamaram átomo, que significa indivisível. Os átomos porém são compostos de partículas menores: os prótons, os nêutrons e os elétrons. No átomo, os elétrons orbitam no núcleo, que contém prótons e nêutrons.

Elétrons são minúsculas partículas que vagueiam aleatoriamente ao redor do núcleo central do átomo, sua massa é cerca de 1840 vezes menor que a do Núcleo. Prótons e nêutrons são as partículas localizadas no interior do núcleo, elas contém a maior parte da massa do átomo.

O Interior do Átomo

No centro de um átomo está o seu núcleo, que apesar de pequeno, contém quase toda a massa do átomo. Os prótons e os nêutrons são as partículas nele encontradas, cada um com uma massa atômica unitária.

O Número de prótons no núcleo estabelece o número atômico do elemento químico e, o número de prótons somado ao número de nêutrons é o número de massa atômica. Os elétrons ficam fora do núcleo e tem pequena massa.

Há no máximo sete camadas em torno do núcleo e nelas estão os elétrons que orbitam o núcleo. Cada camada pode conter um número limitado de elétrons fixado em 8 elétrons por camada.

Características das Partículas:

Prótons: tem carga elétrica positiva e uma massa unitária.

Nêutrons: não tem carga elétrica mas tem massa unitária.

Elétrons: tem carga elétrica negativa e quase não possuem massa.

Número Atômico e Peso Atômico

• Número Atômico de um elemento é o número de prótons no núcleo de um átomo. Como os átomos são elétricamente neutros, o número de prótons é igual ao número de elétrons.
• Peso Atômico (ou massa atômica relativa) de um elemento é o número de vezes que um átomo daquele elemento é mais pesado que um átomo de hidrogênio. O peso atômico do hidrogênio é considerado como a unidade .
• Número de Massa de um elemento é a soma do número de prótons e nêutrons no núcleo de um átomo.

Conclusão:

A o longo de tempos vários cientistas foram fazendo novas descobertas para temos maior conhecimento sobre esse elemento denominado átomo, os que estão citados aqui nesse trabalho são conhecidos internacionalmente pelos seus feitos e pela sua entrega para a ciência,alguns receberam prêmios muitos almejados como o Nobel,talvez outros não,mais todos contribuíram para o nosso maior conhecimento.

O átomo foi muito discutido, e talvez ainda seja alvo de muitas discussões, porem tudo o que sabemos dele hoje é cientificamente confirmado.

Ou seja: Graças à ciência podemos conhecer melhor a propriedades dessa matéria denominada átomo.

Biografia:

http://br.syvum.com/cgi/online/serve.cgi/materia/quimica/atomic1.html

http://www.guia.heu.nom.br/atomos.htm

http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/ErwiWilh.htm

http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/JameChad.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81tomo

Livro:

A história do Átomo – de Demócrito aos Quarks – Jader Benuzzi Martins

A Era dos Direitos

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A obra aborda questões sobre o reconhecimento e a proteção dos direitos do homem, que estão na base das Constituições democráticas modernas. Parte do pressuposto de que a paz é o ponto de partida para o reconhecimento e a efetiva proteção dos direitos do homem em cada Estado e no sistema internacional.

Norberto Bobbio. Formado em filosofia e em direito, foi professor universitário e jornalista – e um apaixonado pela teoria política e pelos direitos individuais. Na Itália dos anos 1940, mergulhada na Segunda Grande Guerra Mundial (1939-1945), Bobbio fez parte do movimento da Resistência: ligou-se a grupos liberais e socialistas que combatiam a ditadura do fascismo.

O primeiro capítulo aborda “A Era dos Direitos”. O reconhecimento e a proteção dos direitos do homem estão na base das Constituições democráticas modernas, pois antes de mais nada se faz necessário garantir os direitos humanos. O autor coloca que a paz é o pressuposto necessário para o reconhecimento e a efetiva proteção dos direitos do homem cada Estado e no sistema internacional. Então, sem os direitos do homem não existe a democriacia e sem a democracia não existem condições para a solução pacífica dos conflitos. Em outros termos, a democracia é a sociedade dos cidadãos, e os súditos se tornam cidadãos quando lhes são reconhecidos alguns direitos fundamentais; haverá paz estável, uma paz que não tenha a guerra como alternativa, somente quando existirem cidadãos não mais apenas deste ou daquele Estado, mas do mundo. O autor pretende apresentar na obra os direitos do homem, tanto os direitos históricos como os que surgiram na nossa nova era, como o direito de viver num lugar não poluído.

O autor esclarece que os direitos humanos sempre estiveram em constante evolução, pois quando evolui a sociedade deve evoluir também os direitos humanos.

Os fundamentos dos direitos do homem é o assunto do segundo capítulo. Primeiramente, o autor abre o tema sobre o sentido do problema que nos pusermos acerca do fundamento absoluto dos direitos do homem. O problema do fundamento do direito apresenta-se de maneira distinta quando buscamos um direito que temos ou um direitos que gostaríamos de ter. O autor abre então uma discussão sobre se um fundamento absoluto é possível. O fundamento absoluto é o fundamento irresistível no mundo de nossas idéias, do mesmo modo como o poder absoluto é o poder irresistível no mundo de nossas ações.

A primeira dificuldade deriva do fato da expressão “direitos do homem” ser uma expressão um tanto quanto vaga. Não existe uma conceituação aceitável de direitos do homem, a não ser definições tautológicas, como “direitos do homem são os que cabem ao homem enquanto homem”. Ou então “direitos do homem são aqueles cujo reconhecimento é condição necessária para o aperfeiçoamento da pessoa humana, ou para o desenvolvimento da civilização etc.”. Surge então uma nova dificuldade: os termos avaliativos são interpretados de modo diverso conforme a ideologia assumida pelo intérprete, é motivo de muitas polemicas, sobre o que se entende por aperfeiçoamento da pessoa humana ou por desenvolvimento da civilização. O autor abre a seguinte interrogativa: como é possível pôr o problema do fundamento, absoluto ou não, de direitos dos quais é impossível dar uma noção precisa.

Conclui o autor que o que parece fundamental numa época histórica e numa determinada civilização não é fundamental em outras épocas e em outras culturas.

A classe dos direitos do homem é também heterogênea. Entre os direitos compreendidos na própria Declaração, há pretensões muito diversas entre si e, o que é pior, até mesmo incompatíveis.

Então, não é próprio falar de fundamento, mas sim de fundamentos dos direitos dos homem, de diversos fundamentos conforme o direito cujas boas razões se deseja defender.

Neste ponto, o autor conclui que temos direitos que têm eficácia tão diversa não podem ter o mesmo fundamento e, sobretudo, que os direitos do segundo tipo – fundamentais, sim, mas sujeitos a restrições – não podem ter um fundamento absoluto, que não permitisse dar uma justificação válida para a sua restrição.

O autor demonstra que existe uma distinção entre o direito fundamental de uma categoria de pessoas e o direito igualmente fundamental de outra categoria. Quanto mais aumentam os poderes dos indivíduos, tanto mais diminuem as liberdades dos mesmos indivíduos.

O fundamento absoluto não é apenas uma ilusão; em alguns casos, é também um pretexto para defender posições conservadoras. Até este ponto o autor então coloca razoes pelas quais crê que não se possa propor a busca do fundamento absoluto dos direitos do homem.

O terceiro capítulo introduz ao tema do presente e futuro dos direitos do homem, O autor começa o capítulo afirmando que o problema que enfrentamos atualmente não é o de fundamentá-los e sim o de protegê-los. Sendo assim, afirma o autor que o problema não é filosófico e sim jurídico e, num sentido mais holístico, político.

A partir deste ponto de vista o autor apresenta os três modos de fundar os valores: deduzi-los de um dado objetivo constante; considerá-los como verdades evidentes em si mesmas; e, finalmente, a descoberta de que, num dado período histórico, eles são geralmente aceitos.

A Era dos Direitos é o assunto do quarto capítulo. Uma grande preocupação vem se despertando à respeito do futuro da humanidade. Vivemos numa era capitalista, caracterizada pela busca monstruosa pelo lucro, pelo aumento da população, da destruição do meio ambiente cada vez mais feroz, da poluição sendo elevados à índices que podem causar a extinção da raça humana, o avanço dos armamentos à níveis que podem destruir o planeta etc. O autor começa falando sobre Kant e termina o capítulo com Kant. O progresso, para ele, não era necessário. Apenas possível. Kant criticava os políticos, por não terem confiança na virtude e na força da motivação moral, bem como por viverem repetindo que “o mundo foi sempre assim como o vemos hoje”. Kant comentava que, com essa atitude, tais “políticos” faziam com que o objeto de sua previsão – ou seja, a imobilidade e a monótona repetitividade da história – se realizasse efetivamente. Desse modo, retardavam propositalmente os meios que poderiam assegurar o progresso para o melhor.

O quinto capítulo discute o direito do homem e a sociedade. o autor pretende deixar claro a distinção entre a teoria e prática dos direitos do homem, pois a teoria e a prática percorrem caminhos diversos e a velocidades muito desiguais.

O autor coloca ênfase no segundo processo, o da multiplicação, pois ele se presta melhor a algumas considerações sobre as relações entre direitos do homem e sociedade, sobre a origem social dos direitos do homem, sobre a estreita conexão existente entre mudança social e nascimento de novos direitos, sobre temas que, em minha opinião, podem ser mais interessantes para uma reunião de sociólogos do direito, de estudiosos cuja tarefa específica é reflitir sobre o direito como fenômeno social.

O autor considera que a multiplicação ocorreu de três modos:

a) pelo aumento da quantidade de vens considerados merecedores de tutela;
b) porque foi estendida a titularidade de alguns direitos típicos a sujeitos diversos do homem;
c) porque o próprio homem não é mais considerado como ente genérico, mas é visto na especificidade ou na concreticidade de suas diversas maneiras de ser em sociedade, como criança, adolescente, idoso etc.

Existiu então uma evolução da preocupação com os direitos de liberdade, como o direito de religião, de expressão, de imprensa etc., para os direitos sociais e políticos, que requerem uma intervenção direta do Estado.

No sexto capítulo, o autor discute a Revolução Francesa e os Direitos do Homem. Foi na Revolução Francesa que se estabeleceu com maior êxito a defesa aos direitos do homem, mesmo que atribuindo à ela mais direitos do que garantias.

A herança da grande revolução é o assunto do sétimo capítulo. Com a Revolução Francesa é marcada o fim de uma era e o início de uma nova época. A exatamente 26 de agosto de 1789, quando a aprovação da Declaração dos Direitos do Homem, marcando o início de uma nova era. A Declaração francesa foi fortemente influenciada pela americana, analisando os dois textos. De modo geral, a afirmação de que o homem enquanto tal, fora e antes da formação de qualquer grupo social, tem direitos originários representa uma verdadeira reviravolta tanto na teoria quanto na prática políticas, reviravolta que merece ser brevemente comentada.

A relação política, ou seja, a relação entre governantes e governados, entre Estados e cidadãos, é uma relação de poder que pode assumir três direções, conforme seja considerada como relação de poder recíproco, como poder do primeiro dos dois sujeitos sobre o segundo, ou como poder do segundo sobre o primeiro. O autor comenta que na Idade Média o relacionamento político era desigual, na qual um dos sujeitos está no topo e os outros na base.

Enquanto os indivíduos eram considerados como sendo originariamente membros de um grupo social natural, como a família (que era um grupo organizado hierarquicamente), não nasciam nem livres, já que eram submetidos à autoridade paterna, nem iguais, já que a relação entre pai e filho é a relação de um superior com um inferior.

A democracia moderna repousa na soberania não do povo, mas dos cidadãos. O povo é uma abstração, que foi freqüentemente utilizada para encobrir realidades muito diversas. Assim se eliminou a conepção individualista da sociedade, não será mais possível justificar a democracia como uma boa forma de governo.

Kant e a revolução francesa é o tema discutido no oitavo capítulo. O autor abre a discussão dizendo que nosso tempo é caracterizado pela luta pelo poder. Em outras palavras: trata-se de evitar tanto a fuga pura ética das boas intenções quanto o fechamento num explêndido isolamento. De acordo com a evolução da sociedade, a compreensão de quem somos e para onde vamos tornou-se cada vez mais difícil. Mas, com as ameaças que pesam sobre nossas cabeças, está compreensão é cada vez mais necessária.Diversa da história conjetural é, para Kant, a história profética, que tem talvez um fim mais ambicioso – o de descobrir a tendência de desenvolvimento da história humana, se essa é estacionária, ou se vai do mal ao pior, ou do bem ao melhor, mas não tem a menor pretensão de verdade, ao contrário do que ocorre com a história conjetural.

O autor chama a atenção ao ponto central da tese kantiana, é que tal disposição moral se manifesta na afirmação direito – um direito natural – que tem um povo a não ser impedido por outras forças de se dar a Constituição civil que creia ser boa. Para Kant, essa Constituição só pode ser republicana, ou seja, uma Constituição cuja bondade consiste em ser ela a única capaz de evitar por princípio a guerra.

Para Kant, a força e a moralidade da Revolução residem na afirmação desse direito do povo a se dar livremente uma Constituição em harmonia com os direitos naturais dos indivíduos singulares, de modo tal que aqueles que obedecem às leis devem também se reunir para legislar. Kant sabia muito bem que a mola do progresso não é a tranqüilidade, mas sim o conflito.

O nono capítulo discute a resistência à opressão hoje. O autor começa abordando o problema do poder, os pontos alfa e ômega, de como o poder é adquirido, como é conservado e perdido, como é exercido, como é defendido e como é possível defender-se contra ele. Essa premissa serve apenas para situar o nosso discurso: o ponto de vista no qual colocamos, quando abordamos o tema da resistência à opressão, não é o primeiro, mas o segundo. Graças ao movimento de contestação, o velho problema da resistência à opressão voltou a se tornar atual. O autor parte à uma distinção entre os dois fenômenos, afirmando que o contrário da resistência é a obediência, o contrário da contestação é a aceitação.

O polêmico tema conta a pena de morte, é o assunto do décimo capítulo. O autor defende o ponto de vista contra à pena de morte, considerando o assassinato legal como incomparavelmente mais horrendo do que o assassinato criminoso. O autor conclui que acredita no desaparecimento da pena de morte, mas não sabe quando isso acontecerá. Diz apenas que o seu cumprimento será um sinal indiscutível do progresso moral.

O debate atual sobre a pena de morte é discutido no décimo primeiro capítulo. O debate que o autor coloca em questão é o fato da pena de morte referir-se à questão de saber se é moral e/ou judicialmente lícito, por parte do Estado, matar para punir, ainda que respeitando todas as garantias processuais próprias do Estado de direito; em outras palavras, de saber se o direito que tem o Estado de punir, o qual em geral não é contestado, vai até o direito de infligir uma condenação à morte, ainda que nas formas de um processo legal.

As razões a tolerância é o assunto do último capítulo. O autor durante todo o capítulo faz uma abordagem da tolerância. Ele abre a polêmica de até que ponto tolerar, de onde vem a tolerância e quais são as razões de se tolerar alguma coisa. A tolerância é o fato de suportar uma situação, tendo ela como aceitável, até certo ponto.

Verifica-se que é longa e trágica a história do desrespeito aos direitos humanos. No decorrer dos séculos, impérios subjulgaram nações soberanas, brancos discriminaram índios, negros e amarelos; homens dominavam mulheres; presos foram torturados e mortos; hereges, queimados na fogueira; inimigos, fuzilados; deficientes físicos, marginalizados.

Toda pessoa tem direitos morais e direitos legais. Os direitos morais decorrem da dignidade de nossa própria natureza humana. Para os cristãos, o ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus. Portanto, toda pessoa é um ser sagrado e deve ter sua dignidade respeitada. Os direitos legais decorrem das leis vigentes na sociedade em que a pessoa vive e podem variar de um lugar para outro.

Biogeografia do Pantanal

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Pantanal: Aspectos geomorfológicos históricos

A necessidade de se fazer esclarecimentos a respeito da origem e evolução da depressão pantaneira levou alguns pesquisadores à busca da real gênese e à descrição geográfica desta vasta planície, e isto ainda tem motivado outros até os dias de hoje. Entretanto ainda não há um consenso sobre sua formação e a maioria dos dados obtidos se refere a apenas ao Pantanal Matogrossense. Depois de antigas idéias que fantasiaram a origem da depressão pantaneira, as questões referentes à sua formação passaram a ser estudadas por ciências específicas (Ab’Saber, 2006).

A depressão aluvial do Alto Paraguai, de acordo com Almeida (1956), foi identificada como a maior planície, de nível de base interna, do interior do país. Ou ainda na ótica geológica, Freitas (1951) a identifica como a única grande bacia tectônica quaternária do território brasileiro, período de formação das bacias sedimentares, dentre elas a do Pantanal.

Na busca em identificar o compartimento geomorfológico do Pantanal Matogrossense, Ab’Saber (1988) verificou que o mesmo se deu durante o Quaternário, e que em épocas remotas, o que hoje é uma extensa depressão era uma abóbada de escudo, que forneciam detritos para formação de outras bacias sedimentares do Grupo Bauru (Alto Paraná) e Parecis. De acordo com o mesmo autor, a grande abóbada crescida no centro teria se elevado até o Cretáceo e depois rachado em fendas no pós-cretácico, provocando um desmoronamento, seguindo em direção ao Sul, para dar origem a uma funda planície no centro do atual continente sul-americano. É nesse contexto que se forma o Pantanal Mato-grossense, como receptáculo de rios que transportam sedimentos para o seu interior.

Esse mesmo autor explica que em seguida, uma série de variações climáticas regionais colaborou para o rebaixamento geomorfológico da região, quando se instalava na região os climas úmido e quente e que tais variações propiciaram erosão das chapadas adjacentes, causando um espessamento da sedimentação e afundamento do substrato da bacia.

Em consonância com Ab’Saber, num dos primeiros trabalhos descritos sobre os dobramentos de fundo ocorridos no Brasil, Ruellan (1952) procurou entender as causas profundas dos arqueamentos de grande raio de curvatura que responderam pelo mosaico de áreas de depressões no dorso geral do escudo brasileiro. Este mesmo autor caracterizou a depressão pantaneira como um exemplo de grande boutonnière, (literalmente “casa de botão”) escavada em terrenos pré-cambrianos, na área de fronteiras do Brasil com a Bolívia e o Paraguai, à margem noroeste da bacia do Paraná. Nesse esforço de identificação, estava incluída a idéia de que, em algum tempo do passado, aquilo que hoje é uma depressão teria sido uma vasta abóbada de escudo, funcionando como área de fornecimento detrítico para as bacias sedimentares do Cretáceo Superior. Mas em conseqüência do surgimento dos Andes, a região foi afetada pela rede de falhamentos que lhe deram origem e tiveram o auge no Mioceno (Godoi-Filho, 1986).

Valverde (1972) diz que o Pantanal é um graben moldado no fim do Terciário. A subsidência fez deslocar blocos sob a planície e levantar a parte sul, próxima ao planalto de Bodoquena; nessa área, o rio Paraguai, encontrando um obstáculo ao seu escoamento para o sul, foi represado até o momento em que pôde ultrapassar a soleira de rochas em direção ao Chaco. Em conseqüência do abaixamento tectônico, depositaram-se os sedimentos quaternários da formação Pantanal (Silva, 1986). Os depósitos mais abundantes dessa formação são interpretados como resultantes da intensa erosão desencadeada nos planaltos marginais à depressão do Paraguai. No início do Pleistoceno, existiria um endorreísmo da drenagem; o rio Taquarí, oriundo do planalto da bacia sedimentar do Paraná, erodiu violentamente as fácies de materiais mais tenros, construindo na depressão um vasto leque aluvial.

Em contrapartida, Ussami (1999) descreve que a região do Pantanal está rodeada por cadeias montanhosas de formação antiga, como a Serra da Bodoquena, ao Sul, e a Chapada dos Guimarães, ao Norte. Alguns indícios apontados por Ussami provam que, assim como as serras que a rodeiam, a região do Pantanal também tem sua origem geológica a partir de grandes montanhas formadas numa antiga colisão entre duas placas tectônicas.

Essa mesma autora completou que a vasta planície alagada do Pantanal é resultado não de erosão, mas sim do soerguimento da placa tectônica onde está o Brasil. Essa placa está se curvando em direção ao centro da Terra e mergulhando no magma quente, processo conhecido por subducção, exatamente sob a região dos Andes.

O peso da Cordilheira exerce uma enorme pressão sobre a borda da placa, e causa uma deformação muito parecida com o que aconteceria se dobrássemos com a mão um pedaço de borracha. Enquanto uma extremidade aponta para baixo, forma-se uma pequena elevação na parte imediatamente anterior. É justamente nessa elevação da placa, chamada de ombreira, que está localizado o Pantanal.

Segundo os levantamentos da pesquisadora, o processo que levou à formação da planície alagada está relacionado à colisão de duas antigas placas, ocorrida na região há 500 milhões de anos, que deu origem inicialmente à Faixa Paraguai, uma cadeia montanhosa muito parecida com o que hoje são os Andes. A placa tectônica se desloca em direção aos Andes e a ombreira eleva a região sudoeste do Brasil.

Hoje o Pantanal Matogrossense se caracteriza por extensas planícies de acumulação, com cotas inferiores a 200 metros. Sua evolução pretérita, atual e futura está submetida às condições das áreas elevadas que o rodeiam, pois estas constituem sua fonte de água e sedimentos (Godói Filho, 1986). Este autor apresenta algumas características geológicas das formações que ocorrem nas planícies de acumulação e daquelas que constituem sua área de influência: Complexo Rio Apa, Complexo Xingu, Grupo Rio Branco, Suite Intrusiva Guapé, Grupo Cuiabá, Grupo Corumbá, Grupo Jacadigo, Grupo Alto Paraguai, Grupo Amoguijá, Suite Intrusiva Alumiador, Suite Intrusiva Rio Alegre e Grupo Aguapeí (Pré-Cambriano); Formações da Bacia Sedimentar do Paraná, Basalto de Tapirapuã, Formação Jauru e Intrusivas Ácidas (Paelozóico e Mesozóico); Cobertura Detrito-laterítica, depósitos detríticos, Formação Xaraiés e Formação Pantanal (Cenozóico). Esses depósitos sedimentares compõem a formação geológica mais recente da América do Sul (op. cit.).

Os solos do Pantanal desenvolveram-se a partir de sedimentos inconsolidados marcadamente arenosos com áreas restritas de materiais argilosos e orgânicos depositados ao longo do Quaternário (Santos et al., 1997). Segundo Del’Arco et al. (1982), a quase totalidade da área é formada por sedimentos depositados na Era Cenozóica, constituindo a Formação Pantanal; pelos Depósitos Detríticos na encosta dos Planaltos residuais e Circundantes da área, ocorridos no Pleistoceno, e pelos Aluviões Atuais encontrados nas várzeas de alguns rios da região, os quais aconteceram no Holoceno.

Flora

As primeiras tentativas de classificação de biomas no Brasil acabavam por não considerar componentes menores, como o Pantanal, em seus sistemas de classificação, devido à falta de conhecimento de todos os domínios florísticos brasileiros (Veloso et al., 1991). A própria designação do termo “Complexo do Pantanal” foi alvo de críticas por parte dos cientistas, pois o termo revelava a falta de conhecimento em relação à flora pantaneira (Pott & Pott, 2009). Segundo Adámoli (1986), não se justifica a utilização do termo “complexo” para caracterizar o Pantanal a luz dos conhecimentos já adquiridos hoje em dia, pois é possível definir claramente para a maior parte da região a sua vinculação fitogeográfica.

A vegetação do Pantanal incorpora diversos elementos das províncias fitogeográficas adjacentes, formando um mosaico de espécies dos biomas que o circundam. Tem como limite leste o cerrado do Brasil Central, na porção norte sofre influência da Amazônia e suas florestas semidecíduas e a sudoeste a floresta chaquenha seca originária da Bolívia e do Paraguai (Adámoli, 1982), resultando na alta biodiversidade característica do Pantanal.

Devido às características de sua formação, a flora pantaneira possui baixo endemismo por tratar-se de uma planície sedimentar recente do ponto de vista geológico e, portanto curto tempo para especiações e à falta de barreiras geográficas. Notam-se, entretanto, endemismos nos morros da região de entorno (Junk et al., 2006). Segundo Junk (2006), a razão para ausência de endemismos e a ocorrência de grande número de espécies com elevada amplitude ecológica está na instabilidade climática da região do Pantanal que sofreu grave seca durante os períodos glaciais.

A convergência e presença de distintos biomas, somadas ao variável regime de cheia e seca, conferem particular diversidade e variabilidade de espécies (Ricardo & Campanili, 2007), conferindo uma característica de mosaico de diferentes comunidades, em constante modificação (Prance & Schaller, 1982). Segundo Adámoli (1982), o Pantanal apresenta duas grandes unidades territoriais contrastantes: as terras elevadas da bacia, formadas por serras, chapadas, que se distribuem contornando a depressão e um conjunto formado por planícies deprimidas.

As primeiras informações sobre a vegetação do Pantanal datam de meados do século XIX porém as informações eram bastante limitadas. No início do século XX muitas coletas foram realizadas por Hoehne, no qual também descreveu as fitofisionomias da região. Os primeiros mapas de vegetação foram elaborados com o auxílio do sensoriamento remoto na década de 70 do século passado, porém com descrições sem muitos detalhes florísticos. A identificação das plantas ocorreu entre as décadas de 70 e 80, onde foram produzidas listas e manuais de identificação de plantas com 1.863 espécies fanerogâmicas (Pott et al., 2009)

A origem da flora do Pantanal vinha sendo atribuída à influência de Cerrado, Amazônia, Mata Atlântica e Chaco, sem o devido levantamento de espécies. Com base em coletas botânicas para herbário e listagem florística, as proporções fitogeográficas são de 50% de espécies de ampla distribuição, 30% de espécies do Cerrado, e 20% de outras origens (Pott et al., 2009). Exceto para as plantas exclusivas de Cerrado, Floresta Estacional, Chaco e Amazônia, a maioria das espécies lenhosas não é exclusiva de uma única província biogeográfica, mas tem distribuição em duas ou mais, o que significa que no Pantanal prevalece grande amplitude ecológica. Entre plantas de ampla distribuição há muitas gramíneas neotropicais, ciperáceas e outras espécies herbáceas e arbóreas. A distribuição das plantas, entretanto, não é homogênea, por exemplo, os elementos do Cerrado são mais prevalentes na parte leste, enquanto plantas amazônicas ocorrem junto aos rios e em partes baixas, principalmente no oeste.

A influência do Chaco é restrita ao sudoeste do Pantanal, em argilas pesadas alcalinas, exceto para Copernicia alba, a qual pode ser encontrada mais ao norte. Em contraste com o carandazal (Copernicietum) em solos pretos com horizonte calcário, há areias com nível de cálcio tão baixo que palmeiras são completamente ausentes, e consequentemente, não há araras. Já o buritizal (Mauritia flexuosa), cresce em solo ácido e está confinado à borda leste da planície, descendo um pouco à beira dos rios Aquidauana (até o Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro) e Taquari (Pott et al., 2009).

Muitas espécies lenhosas parecem agrupar-se no Pantanal de acordo com sua origem biogeográfica, por exemplo, alguns conjuntos relacionados à Amazônia tendem a crescer em vegetação ripária e em áreas inundáveis do Pantanal (Pott et al., 2009).

Num cenário de mudanças climáticas ou alteração hidrológica, em caso de aumento de inundação, pode-se prever a alteração de todo o ciclo hidrológico (cheia/seca), que é o principal mantenedor deste ecossistema (Gradella, 2008) com consequente perda de diversidade de vegetação e de espécies (Pott & Pott, 2009).

Formações florísticas e a Teoria dos Refúgios

Em relação ao revestimento fitogeográfico da depressão pantaneira observa-se a flora do Cerrado, do Chaco e da Pré-Amazônia (Adámoli, 1982). AB’Saber em seu livro” Brasil: Paisagens de Exceção. O litoral e o Pantanal Mato-Grossense” relata que o pantanal é um ambiente representado por composições florísticas oriundas das fortes penetrações de ecossistemas dos cerrados, inclusão de componentes amazônicos e pré-amazônicos e uma participação significativa de floras chaquenhas sendo também caracterizado por ecossistemas aquáticos e subaquáticos de grande extensão, nos “pantanais” de suas grandes planícies de inundação e da presença de pequenas manchas das serranias onde encontram-se também relictos de uma antiga flora, antes extensa e dominante, relacionada ao grande período de expansão das caatingas pelo território brasileiro, ao fim do Pleistoceno, fornecendo variados nichos e habitats capazes de abrigar grande diversidade faunística.

A Teoria dos Refúgios e Redutos foi importante no entendimento dos padrões de distribuição da fauna e da flora na América Tropical e diz respeito e diz respeito à identificação dos momentos de maior retração das florestas tropicais, por ocasião da desintegração de uma tropicalidade relativa preexistente (Ab’Saber, 2006). Para compreender as forças que geraram as condições de acentuação das secas, é também preciso esclarecer as situações paleoclimáticas que antecederam a progressão da semi-aridez e subsequentemente ás formas que recompuseram a situação de tropicalidade, ao longo dos espaços anteriormente dominados por clima muito seco (Ab’Saber, 2006).

Ab’Saber (2006) descreve em seu livro que no momento geológico em que o Nordeste Seco esteve amplamente distribuído nos territórios inter e subtropicais, entre 13 e 23 mil anos atrás, padrões de caatinga arbórea e arbustiva chegaram respectivamente, nos bordos e no centro de um grande bolsone, dominado por leques aluviais gigantescos, na área onde hoje se situam os pantanais. Segundo o autor, foram necessários 12 a 13 mil anos para recompor a tropicalidade na depressão pantaneira; a história dessa recomposição paisagística, através de uma retomada de exploração biológica dos espaços herdados dos climas secos, é um dos grandes episódios da dinâmica das floras e faunas, a partir de refúgios e redutos situados em diferentes sítios das terras altas circunvizinhas.

No caso do Pantanal – um território deprimido situado entre os domínios do Cerrado, do Chaco e da Pré-amazônia -, após a última crise de secura do Pleistoceno Terminal, houve uma reconquista do antigo espaço seco por diferentes tipos vegetacionais tropicais, a partir de refúgios e redutos acantonados nas chapadas, serranias e terras firmes adjacentes. A invasão dos cerrados em expansão comportou uma colonização descendente pelo corpo geral do grande leque do Taquari, envolvendo ainda, os trechos remanescentes das colinas pedimentadas do lado leste, sudeste e sul da depressão panataneira (Ab’Saber, 2006). Pelo norte entraram massas de vegetação periamazônica, comportando padrões de florestas tropicais descíduas e semidescíduas, além de grandes palmares adaptados a conviver com as condições climáticas e hidrogeomorfológicas atuais dos setores setentrionais do Pantanal Mato-grossense. Pelo extremo sudoeste e sul, a depressão pantaneira sofreu penetração de componentes florísticos do Chaco oriental.

Nessa área de extremo sul-sudeste, ocorre um complexo quadro distributivo de padrões de paisagem filiados ao domínio chaqueno, onde aparecem associações palmáceas, formações savanóides arbustivas, pontilhadas por componentes arbóreo baixo da flora chaquenha, mosaico de relictos de caatinga arbórea e componentes florísticos do Chaco (Ab’Saber, 2006).

As características geológicas, geomorfológicas e climáticas, juntamente às variações hidrológicas sazonais fazem do pantanal um mosaico de habitats, com diferentes fitofisionomias. Sua posição geográfica é peculiar, localizado entre os biomas da Amazônia, Cerrado, Chaco Boliviano e Paraguaio. Todos esses fatores associados são responsáveis pela alta biodiversidade do Pantanal (Brasil, 1997).

O ciclo anual de cheia e seca é o fenômeno ecológico mais importante da planície, desempenhando papel preponderante na ciclagem de nutrientes e disponibilidade de água. A área de abrangência da inundação e o tempo de permanência das águas nos campos regem a disponibilidade de habitats e alimentação para organismos aquáticos e semi-aquáticos, condicionando sua distribuição, abundância, modo de vida e comportamento reprodutivo (Calheiros & Ferreira 1997).

Fauna

Como ocorre para a vegetação, a fauna do Pantanal também é reflexo dos biomas que o circundam, sendo rara a existência de espécies endêmicas. Na planície pantaneira podem ser encontradas cerca de 95 espécies de mamíferos, 665 espécies de aves, 162 espécies de répteis, 40 anfíbios e cerca de 260 espécies de peixes (Coutinho et al., 1997).

Na planície do Pantanal, a estrutura do hábitat é fortemente afetada pela flutuação no nível de água e influencia na organização espacial de sua diversidade biológica. Os rigores do clima e a imprevisibilidade na duração da estiagem exercem fortes pressões sobre as populações de plantas e animais na planície do Pantanal, favorecendo espécies dispersivas e migratórias, capazes de aproveitar os recursos abundantes, sazonais e efêmeros (Brown Jr., 1986).

O conhecimento sobre a taxonomia, distribuição geográfica e ecologia dos artrópodes terrestres do Pantanal é pobre. Pesquisas recentes têm indicado que os pulsos de inundação influenciam a estrutura e ecologia das comunidades das planícies do Pantanal (Junk et al., 2006).

Os cupinzeiros, localmente chamados murundus, formam ilhas não alagáveis que são encobertas por galhos e vegetação herbácea e são importantes refúgios para os animais terrestres durante os períodos de cheia. (Junk et al., 2006)

Segundo Junk e colaboradores (1997), os impactos dos pulsos de cheia sobre os peixes nas planícies do Rio Amazonas é que há a seleção de estrategistas-r, com maior habilidade natatória e com adaptações para suportar a variação na qualidade da água. Estas afirmações também são aplicadas à fauna de peixes do Pantanal, embora a biologia e ecologia de muitas espécies seja limitado (Resende & Palmeira, 1999).

Em muitos ecossistemas onde há diversidade de habitats aquáticos, tempo e estabilidade ambiental levam a uma explosão de diversidade da herpetofauna (McCoy, 1984). No Pantanal, apesar da abundância e diversidade de habitats aquáticos, não há endemismo de anfíbios e répteis, indicando um cenário ambiental recente, colonizado por uma fauna invasora. Esta invasão ainda está em processo, principalmente vinda do Cerrado, Chaco e Amazônia.

A primeira listagem de espécies de aves da planície do Pantanal foi realizada por Brown em 1986, apontando 350 espécies, mostrando que sua avifauna é influenciada pela presença dos biomas vizinhos. Estudos mais recentes reconhecem 465 espécies baseadas em inventários das planícies. A planície atua como uma barreira à dispersão de uma parcela considerável de seus elementos, principalmente para os elementos amazônicos, assim como corredor de dispersão de espécies. Assim, a região abriga uma avifauna bastante diversificada, com elementos dos quatro biomas vizinhos sendo, porém, pobre em endemismos (Nunes & Tomas, 2004).

O Pantanal abriga uma extraordinária abundância de aves aquáticas (Sick, 1997) e atua como importante rota migratória de visitantes Meridionais e Setentrionais (Nunes & Tomas, 2004).

A semelhança entre Pantanal e Cerrado é esperada uma vez que mais de 2/3 do Pantanal é coberto por diversas fitofisionomias de cerrado (Nunes & Tomas, 2004). Tubelis & Tomas (2003) já haviam identificado este problema de separação entre ecossistemas, e afirmam que boa parte do Pantanal deveria ser considerado como pertencente ao bioma Cerrado, pelo menos em análises biogeográficas. Os autores basearam o questionamento ao encontrar várias espécies consideradas endêmicas do Cerrado ocorrendo no Pantanal, indicando que é preciso maior cuidado ao especificar que unidade biogeográfica está sendo considerada.

Nunes & Tomas (2004) mostram uma semelhança relativamente maior da avifauna do Pantanal com os biomas vizinhos do que os mesmos entre si. Isso ocorre mesmo entre biomas vizinhos, como a Floresta Chiquitana em relação ao Chaco e à área de Floresta Amazônica de transição demonstrando que este padrão reforça a noção de que o Pantanal atua como um corredor de dispersão de espécies, abrigando portanto, uma avifauna diversificada, com elementos dos quatro biomas vizinhos.

Como citado anteriormente, em período de inundações normais, as planícies apresentam-se como “ilhas” e servem de refúgio para os animais intolerantes à inundação. Assim, espera-se que as comunidades biológicas nestas áreas estejam organizadas segundo a teoria do equilíbrio da biogeografia de ilhas (Macarthur & Wilson, 1967), e assim fortemente em áreas sujeitas à inundação periódica. Em planícies com maior complexidade estrutural da vegetação podem ocorrer espécies animais mais especializadas como os de besouros carabídeos e portanto, a diversidade deve responder positivamente à complexidade da vegetação, pois a diversidade de nichos na serrapilheira depende da fonte principalmente de folhas e ramos do estrato arbustivo e arbóreo. A estrutura da vegetação e suas modificações derivadas em microclima é um dos fatores mais importantes na distribuição dos carabídeos (Vieira et al., 2008).

Igualmente aos pássaros, existem várias listas de espécies de mamíferos do Pantanal, mas falta um registro completo. Diferentemente das savanas africanas, o Pantanal não é caracterizado por grandes mamíferos herbívoros e a diversidade e abundância de ungulados nativos é relativamente baixa (Junk et al., 2006).

Conservação do Pantanal

Diferentes habitats, tipos de solos e regimes de inundação são responsáveis pela grande variedade de formações vegetais e pela heterogeneidade da paisagem, que abriga uma riquíssima biota terrestre e aquática (Pott & Adámoli, 1999). O fator ecológico que determina os padrões e processos no Pantanal é o pulso da inundação (Junk & Silva, 1999; Oliveira & Calheiros, 2000).

Levantamentos realizado por cinco ONGs (Organizações Não-Governamentais), que contou com a consultoria da Embrapa Pantanal, concluiu que 85% da vegetação nativa do Pantanal está intacta.

Embora a diversidade de espécies não seja alta (maior na porção sul do que no norte) e os endemismos estejam praticamente ausentes (provavelmente devido ao fato da planície ser geomorfologicamente recente era um deserto no Pleistoceno), a região é notável pela sua extraordinária concentração e abundância de vida selvagem (Heckman, 1999; Swartz, 2000). Cerca de 124 espécies de mamíferos ocorrem no Pantanal, que ainda apresenta as maiores populações conhecidas de diversas espécies ameaçadas como o veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus), o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus), a ariranha (Pteronura brasiliensis) e a onça pintada (Panthera onca) (Alho & Lacher Jr., 1991; Mourão et al., 2000; Tomas et al., 2000; Sanderson et al., 2002).

Mittermeier e colaboradores (2003) registraram 423 espécies de aves no Pantanal, mas uma revisão recente de Tubelis & Tomas (2003) resultou em uma lista de 463 espécies, fazendo do Pantanal a área úmida mais rica em aves no mundo. Desse total, 117 estão incluídas em pelo menos uma das listas estaduais, nacionais ou internacionais de espécies ameaçadas de extinção. Dentre elas, a espécie mais conhecida é a arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) (Tubelis & Tomas, 2003; Tomas et al., 2004).

O Pantanal é também uma importante rota migratória: mais de 130 espécies chegam à região provenientes do sul do continente (Pampas), do hemisfério norte e da Floresta Atlântica (Antas, 1994; Nunes & Tomas, 2004). Um grande número de espécies é sazonal (Cintra & Yamashita, 1990) e transitório e as espécies generalistas são favorecidas pela variabilidade temporal e pelo mosaico de habitats (Figueira et al.,2005). Quarenta e um anfíbios e 177 répteis (Médri & Mourão, 2004), e mais de 260 espécies de peixes foram registrados no Pantanal (Britski et al., 1999).

O Pantanal foi reconhecido como Patrimônio Nacional pela Constituição de 1988 e como Área Úmida de Importância Internacional pela Convenção Ramsar. Em 2000, foi designado como Reserva da Biosfera, pela Unesco, como Patrimônio Natural da Humanidade, oferecendo uma oportunidade única para a conservação da biodiversidade em conjunção com o desenvolvimento sustentável. Referindo-se ao seu valor biológico e ao seu estado e prioridade de conservação, Olson e colaboradores (1998) concluíram que o Pantanal é uma região de “grande significância global, vulnerável e com altíssima prioridade para a conservação em escala regional”. A despeito disso, os dados disponíveis sobre sua diversidade biológica são escassos e fragmentados (Silva et al., 2001; Silva, 2002).

O frágil equilíbrio dos ecossistemas do Pantanal, definido pela sua dinâmica periódica de inundação, está sendo ameaçado pelas recentes tendências de desenvolvimento. Dentre as diversas ameaças à conservação da biodiversidade no Pantanal destaca-se o desmatamento (Abdon et al. 2007) na sua bacia hidrográfica, resultando em processos erosivos severos que causam deposição de sedimentos nas depressões e alteram os padrões de fluxo de água e regimes hidrológicos (Abdon et al. 2005). São também consideradas ameaças à conservação dos ecossistemas e processos ecológicos no Pantanal, os projetos de infra-estrutura (hidrelétricas, hidrovias, mineradoras), a caça, a invasão de espécies exóticas e a poluição resultante do uso de pesticidas nas áreas agrícolas localizadas nas cabeceiras dos principais rios que drenam a planície (Alho et al. 1988 apud MMA 2007; Silva et al 2003).

Estado Atual de Conservação

Apenas 2,5% da BAP está oficialmente protegida sob a forma de unidades de conservação federais, estaduais e reservas privadas (Figura 1).

figura



FIGURA 1 – Mapa da Bacia do Alto Rio Paraguai, mostrando a área onde o regime de inundação do rio Taquari foi arrombada. Mostra também algumas das áreas protegidas federais, estaduais e privadas, como segue: 1 – Parque Estadual da Serra de Ricardo Franco; 2 – Parque Nacional da Chapada dos Guimarães; 3 – Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Serviço Social do Comércio (SESC); 4 – Parque Estadual Guira; 5 – Complexo do Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense e as RPPNs Acurizal e Doroche; 6 – RPPN Fazenda Poleiro Grande; 7 – Parque Estadual da Serra de Sonora; 8– Parque Estadual das Nascentes do Rio Taquari; 9 – RPPN Fazenda Nhumirim; 10 – Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro; 11 – RPPN Fazenda Rio Negro; 12 – RPPN Dona Aracy; 13 – Parque Nacional da Serra da Bodoquena; 14 – RPPN Fazenda Rancho Seguro e Tupaciara.

As primeiras áreas protegidas do Pantanal foram o Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense e a Estação Ecológica Taiamã, criados em 1981 (Tabela 1). A Estação Ecológica Serra das Araras foi criada em 1982, o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, em 1989 e, finalmente, o Parque Nacional da Serra da Bodoquena, no estado de Mato Grosso do Sul, em 2000, perfazendo um total de 264.300ha de áreas federais de proteção integral no Pantanal e Cerrado adjacentes. Existem, ainda, cinco parques estaduais, totalizando 245.320ha, e duas Áreas de Proteção Ambiental, somando 725.157ha. Além desses, cinco Estradas Parque cobrem uma distância de 294km (Tabela 1). No entanto, todas essas áreas protegidas foram estabelecidas de maneira oportunista e protegem apenas uma pequena fração da diversidade de fauna e flora da BAP. Algumas fisionomias únicas, como a de baías e salinas da Nhecolândia, estão protegidas de maneira deficiente.

TABELA 1 – Áreas protegidas federais e estaduais na região do Pantanal, nos estados de Mato Grosso (MT) e Mato do Grosso do Sul (MS).

tabela



Há mais de dois séculos a pecuária tem sido a atividade humana predominante no Pantanal e a rica e abundante fauna persiste, em grande parte, por conta da baixa densidade humana e da pequena pressão de caça (Alho & Lacher Jr., 1991). Até recentemente, a agricultura era limitada, na sua extensão, pela sazonalidade das cheias, proporcionando, dessa maneira, a preservação de vastas áreas de habitat natural (Alho & Lacher Jr., 1991). Entretanto, essa situação está mudando rapidamente, com a pecuária tornando-se cada vez mais competitiva e intensificada e com a rápida expansão da agricultura irrigada dentro da planície.

Principais Iniciativas em Conservação

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Embrapa – estabeleceu um centro de pesquisa no Pantanal em meados dos anos 1970 (Embrapa Pantanal), tendo como foco a promoção de alternativas e estratégias para promover o desenvolvimento sustentável da região. Além de apoiar a principal atividade econômica da região, ao longo dos últimos 30 anos a Embrapa tem prestado uma enorme contribuição para a compreensão da dinâmica e para a conservação da planície, além de contribuir com dados sobre monitoramento e manejo de peixes e outras espécies silvestres. Um exemplo disso é a pesquisa de longo prazo sobre a ecologia do jacaré-do-pantanal, que permitiu a exclusão desta espécie da U.S. Endangered Species Act (Mourão et al.,2000). Isso permitiu a exportação de peles do jacaré-do-pantanal legalmente produzidas em criadouros na BAP.

Em face das crescentes ameaças das indústrias e das prejudiciais modificações no uso da terra no Pantanal, em 1997 o Ministério do Meio Ambiente lançou o Programa para o Desenvolvimento Sustentável do Pantanal, conhecido como Programa Pantanal, para promover a sustentabilidade do uso dos recursos naturais na BAP, afetando direta e indiretamente aproximadamente 80 municípios e 39 comunidades indígenas (MMA, 1997). Embora ainda bastante incipiente, os componentes desse programa incluem pesquisas e medidas direcionadas às áreas protegidas, aos ambientes urbanos, ao desenvolvimento de alternativas econômicas e ao manejo de bacias hidrográficas. Visto como uma iniciativa inovadora de colaboração entre o governo federal e os governos estaduais do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, o programa conta com o financiamento do governo brasileiro, do Banco Interamericano para o Desenvolvimento (BID) e do Banco Japonês para Cooperação Internacional (JBIC).

Um Centro Governamental para Dados de Conservação, tendo como foco espécies e ecossistemas, foi instalado em Mato Grosso, no ano de 1989. Esse centro contou com o apoio do World Wildlife Fund (WWF) e da The Nature Conservancy (TNC), e tem como objetivo apoiar o planejamento da conservação no Pantanal (Brito et al., sem data).

Essa iniciativa resultou na Lei nº5.993, de 1992, que indicou 19 zonas prioritárias para conservação ambiental na região. Os incentivos para a implementação dessa lei vieram, em 1993, com o estabelecimento do Programa Estadual para o Desenvolvimento Ambiental de Mato Grosso e com a criação de 10 áreas protegidas estaduais na porção da BAP nesse estado (Tabela 1).Em 1998, o workshop Ações Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade do Cerrado e do Pantanal, financiado pelo governo brasileiro (Fundação Pró-Natureza et al., 2000), resultou no delineamento do desenho inicial de um corredor para o Pantanal, abordando a necessidade de um sistema de áreas protegidas mais extensas e conectadas.

Posteriormente, essa iniciativa levou à criação, no Mato Grosso do Sul, dos parques estaduais do Pantanal do Rio Negro e Nascentes do Rio Taquari e, ainda, do Parque Nacional da Serra da Bodoquena. Em colaboração com a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e em parceria com organizações locais, a Conservação Internacional (CI-Brasil) iniciou a implantação de um corredor de biodiversidade ligando o Pantanal ao Cerrado, cobrindo 800km, desde os brejos do Pantanal do Rio Negro até o Cerrado do Parque Nacional das Emas, em Goiás.

Dois projetos com espécies-bandeira no Pantanal merecem destaque. Desde 1991, o Projeto Arara-Azul tem monitorado populações dessa espécie e conduzido iniciativas em educação ambiental para as comunidades locais. A população da arara-azul começou a se recuperar desde o início do programa e, atualmente,está estimada em 5.000 indivíduos na natureza (Guedes, 2003). Outro projeto importante é o Fundo para a Conservação da Onça-Pintada, que promove campanhas de esclarecimento e sensibilização para a comunidade e oferece compensação aos proprietários rurais pelas perdas de gado por ataque de onça. Pela primeira vez os proprietários estão sendo levados a aceitar a recuperação da população da onça-pintada no Pantanal e, pelo menos aqueles que estão engajados em atividades de turismo, reconhecem o potencial dessa espécie como uma fonte de renda.

Em toda estratégia de conservação de biomas, a criação de unidades de conservação é fundamental para proteção de áreas naturais e conseqüente manutenção dos processos ecológicos. O Pantanal apresenta uma condição peculiar: 95% das terras pertencem a particulares.

Assim, os proprietários rurais com sua iniciativa voluntária de criar uma reserva particular desempenham importante papel na conservação do meio ambiente. O apoio e fomento à criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) é uma das principais estratégias para se conservar paisagens naturais do Pantanal, garantindo espaço e condições suficientes para a manutenção da biodiversidade. A criação de uma reserva particular é um ato voluntário. O proprietário precisa estar consciente de que está tomando uma decisão importante para o benefício do meio ambiente que se estende para as gerações futuras.

Beneficiando-se da legislação estadual e federal, inúmeros proprietários protegem, atualmente, uma área de 2.618 km² do Pantanal. A criação da Associação das Reservas Privadas do Pantanal (REPAMS), em 2002, irá estimular, ainda mais, o que tem sido visto como a mais importante ferramenta para a conservação da região. As perspectivas estão longe de serem otimistas, entretanto, o contínuo engajamento do setor privado aliado às ações governamentais mais efetivas e consistentes são medidas necessárias para assegurar a conservação e o uso econômico sustentável dos recursos no Pantanal.

O Programa Pantanal para Sempre do WWF-Brasil apoia ativamente a criação da Associação de Proprietários de RPPNs do Estado do Mato Grosso do Sul (Repams) e a Associação RPPN Mato Grosso, bem como as ações dessas instituições.

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