Estágio Supervisionado

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INTRODUÇÃO

1 Objetivo Geral
1.1 Objetivo Específico
1.2 Justificativa
1.3 Metodologia
1.4 Fundamentação Teórica
2 Função do Departamento de Pessoal
2.1 Admissão
2.2 Carteira Profissional
2.2.1 Das Anotações1
2.3 Livro de Registro de Empregados
2.4 Atestado Médico Admissional
2.5 Contratos de Trabalho
2.7 Jornada de Trabalho
2.8 Salário4
2.9 Horas Extras
3 Folha de Pagamento
3.1 IRRF
3.2 Adicional de Insalubridade
3.2.1 Adicional de Periculosidade
3.4 13ª Salário9
3.5 Convenção Coletiva do Trabalho
3.6 Contribuição Sindical
3.7 CAGED Cadastro Geral de Empregados e Desempregados
3.8 FGTS
3.9 GPS
3.10 RAIS
3.11 PIS
4 Rescisão
4.1 Aviso Prévio
4.2 Homologação da Rescisão
4.3 Seguro Desemprego
4.4 Prazo de Pagamento
4.5 Pagamento
CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS

INTRODUÇÃO

Este Relatório de Estágio Supervisionado Módulo II, que faz parte da grade curricular para a obtenção do título de Bacharel em Ciências Contábeis, tem o objetivo principal de demonstrar a Rotina no Departamento de Pessoal, no que se refere ao funcionamento desse departamento tão importante numa empresa; mostrar-se-á seus procedimentos adotados referente à admissão ou demissão de funcionários; os deveres da empresa no que se refere às guias ou documentos a serem preenchidos e pagos pela empresa; os direitos trabalhistas dos funcionários; entre outros.
Para que este objetivo seja alcançado, far-se-á pesquisas bibliográficas em livros contábeis; em sites de órgãos contábeis já publicados; e principalmente em documentos e entrevistas no Departamento de Pessoal na empresa estagiada Cooperativa dos Fruticultores da Região de Vacaria Ltda.
Estas pesquisas serão de grande valia para a acadêmica no que diz respeito ao seu conhecimento dentro desse departamento que é o Departamento de Pessoal, para que se torne uma competente profissional de Ciências Contábeis.

1 Objetivo Geral

O objetivo geral deste relatório é mostrar através de pesquisas realizadas, o funcionamento do Departamento de Pessoal dentro da Cooperativa dos Fruticultores da Região de Vacaria Ltda. Frutival.

1.1 Objetivo Específico

O objetivo específico deste relatório é conhecer como funciona o Departamento de Pessoal; mostrar quais os métodos utilizados por esse departamento dentro da cooperativa; conhecer a estrutura do Departamento de Pessoal; demonstrar alguns procedimentos utilizados.

1.2 Justificativa

A justificativa deste relatório é conhecer os procedimentos realizados no Departamento de Pessoal para o aprofundamento do conhecimento dessa área tão importante numa empresa.

1.3 Metodologia

A metodologia utilizada para fazer este relatório foi através de pesquisas bibliográficas, informativos, pesquisas na internet e principalmente no próprio dia a dia do Departamento de Pessoal, através de observação dos procedimentos realizados na Cooperativa de Fruticultores da Região de Vacaria Ltda.

1.4 Fundamentação Teórica

A fundamentação teórica foi elaborada através de pesquisa bibliográfica, subsidiadas em livros de contabilidade e sites de órgãos contábeis já publicados, para apresentar termos técnicos e teóricos que facilitem a compreensão da funcionalidade do departamento de pessoal.

2 Função do Departamento de Pessoal

Para desenvolver suas atividades a empresa precisa de pessoas, as quais constituem os seus recursos humanos. Elas são fundamentais para que a empresa possa atingir seus objetivos, ou seja, os resultados. Mas, para que isso aconteça, as pessoas que compõem a organização precisam ser eficientes. Quanto mais eficientes, melhores resultados serão alcançados pela empresa. De nada adianta dispor de ótimos recursos materiais como máquinas, equipamentos, dinheiro, etc. e de excelentes recursos técnico-administrativos como formulários, documentos, etc., se ela não possuir recursos humanos capacitados e motivados a utilizá-los.
Para conseguir bons recursos humanos, a empresa deve:
-recrutar e selecionar pessoas com aptidões desejadas; desenvolver essas aptidões individuais mediante programas de treinamento; e
-motivar os empregados por meio de incentivos.
-O setor responsável por essas atividades pode ter as seguintes denominações:
-Departamento de Pessoal;
-Departamento de Recursos Humanos; ou
-Seção ou Setor de Pessoal.
A opção pelos nomes acima apresentados fica a critério da empresa, combinando com a sua dimensão e sistema de divisão interna.
Na Cooperativa dos Fruticultores da Região de Vacaria Ltda., há um Departamento de Pessoal responsável por todo o processo de análise de fichas cadastrais de pretendentes a funcionário, aprovação de currículos, e até mesmo responsável pelas entrevistas aos candidatos as vagas de trabalho. Com 115 funcionários no packing house e 9 funcionários na administração, a necessidade de se ter um Departamento de Pessoal eficiente e capacitado é fundamental para se obter bons resultados para a empresa estagiada.

2.1 Admissão

Após o candidato ter passado pela fase de seleção, responsabilidade esta do departamento de recrutamento e seleção ou eventualmente quando a empresa for pequena pelo supervisor de Recursos Humanos e ou supervisor da área de Departamento de Pessoal, dará início ao procedimento para contratação do candidato.
Nessa fase iremos iniciar pela solicitação dos devidos documentos:
a) Carteira de Trabalho;
b) Cédula de identidade;
c) Título de eleitor (obrigatório para os candidatos a partir de 18 anos);
d) Certificado de reservista (para os candidatos do sexo masculino com 18 anos ou mais);
e) C.P.F;
f) Atestado de Saúde Ocupacional (Admissional);
h) Fotos 3 x 4;
i) Certidão de Casamento;
j) Certidão de Nascimento dos filhos até de 21 anos ou inválidos de qualquer idade, necessária para o pagamento do salário família e dedução do Imposto de Renda;

Observação: Para continuidade do recebimento do Salário Família, todos os anos, nos meses de Maio e Novembro, devem ser apresentados novamente os seguintes documentos:
a) Mês de Maio: Xerocópia da Caderneta de Vacinação dos filhos menores de 7 anos ;
b) Meses de Maio e Novembro: Comprovante de Freqüência Escolar dos filhos a partir de 7 anos.
É proibida a adoção de qualquer prática discriminatória para efeito de admissão de empregado, manutenção do contrato de trabalho, por motivo de sexo, origem, raça, cor, estado civil, situação familiar ou idade (Artigo 7º, XXXIII-CF)

Desta forma constitui crime, a empresa que:
a) Exigir das mulheres teste, exame, perícia, laudo, atestado, declaração ou qualquer outro procedimento relativo à esterilização ou o estado de gravidez para a admissão;
b) Exigir do candidato atestado de antecedente;
c) Induzir ou instigar à esterilização genética;
d) Promover controle de natalidade, salvo o oferecimento de serviços e de aconselhamentos ou planejamento familiar, realizadas através de instituições públicas ou privadas, submetidas às normas do Sistema Único de Saúde SUS.
A não observação do disposto supracitado acarretará a detenção de dois anos, multa do empregador, de seu representante legal, bem como multa administrativa de dez vezes o valor do maior salário pago pelo empregador, elevado em 50% em caso de reincidência, e a proibição de obter empréstimos com financiamentos junto a instituições financeiras.
A rescisão contratual por ato discriminatório faculta o empregado optar pela:
a) Readmissão com ressarcimento integral de todo o período de afastamento, mediante pagamento das remunerações devidas, corrigidas monetariamente, acrescidos de juros legais;
b) Percepção em dobro da remuneração do período de afastamento, corrigida monetariamente e acrescida dos juros legais (Lei nº 9.029, de 13.04/1995).
Na Cooperativa, depois que o candidato é selecionado e entrevistado pelo responsável pelo Departamento de Pessoal; ele é imediatamente contratado e exigido dele todos os documentos listados acima, os quais são imprescindíveis para sua efetivação na empresa.

2.2 Carteira Profissional

A Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) é um documento obrigatório para quem venha a prestar algum tipo de serviço profissional.
A carteira de trabalho é um dos únicos documentos a reproduzir, esclarecer e comprovar dados sobre a vida funcional do trabalhador.
Instituída pelo decreto nº 21.175, de 21 de março de 1932, e posteriormente regulamentada pelo decreto 22.035, de 29 de outubro de 1932, o documento garante o acesso a alguns dos principais direitos trabalhistas, como seguro-desemprego, benefícios previdenciários e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), Programa de Integração Social (PIS).
Em 1934, o governo do presidente Getúlio Vargas tornou a carteira de trabalho obrigatória para fins de consolidação dos direitos trabalhistas.
As responsáveis pela emissão de carteiras de trabalho são as Delegacias Regionais do Trabalho (DRT) e as respectivas subdelegacias regionais, bem como os Pontos de Atendimento ao Trabalhador (PAT), algumas prefeituras do interior e sindicatos.
Na empresa estagiada, o preenchimento da carteira de trabalho é feita pelo responsável pelo departamento de pessoal e pelo seu auxiliar. Com certeza, o preenchimento desse documento é um dos principais requisitos na admissão dos funcionários.

2.2.1 Das Anotações

Para registrar o empregado, serão necessárias as seguintes anotações na carteira de trabalho, que deverá ser devolvida no prazo máximo de 48 horas:
Preencher na página contrato de trabalho.
Anotar os dados da empresa, cargo, data de admissão e remuneração específica.
Preencher a parte da opção pelo FGTS.
As anotações gerais devem ser preenchias nas seguintes hipóteses:
Cadastro do PIS (se for o 1º emprego);
Termo de contrato de experiência;
Promoções;
Alterações de dados do empregador, como Razão Social ou mudança de endereço.
Na Cooperativa, as anotações na carteira de trabalho dos funcionários novos, é feita pelo responsável pelo departamento de pessoal ou pelo seu auxiliar já na sua admissão e na carteira dos demais funcionários que trabalham na empresa há algum tempo, são feitas conforme a necessidade de alguma alteração posterior como promoção, férias, entre outros.

2.3 Livro de Registro de Empregados

O empregado deverá ser registrado no momento em que passar a prestar serviço à empresa. Não existe prazo de tolerância para o registro. Não se deve confundir a ausência de prazo para registro, com o prazo de devolução da CTPS.
O registro pode ser feito em livros, fichas, sistema eletrônico ou informatizado que utilize meio magnético ou ótico (neste caso necessário fazer um memorial descritivo e protocolado junto a DRT).
O registro deve conter obrigatoriamente as seguintes informações:
Identificação do empregado, com número, série e UF da Carteira de Trabalho e
Previdência Social CTPS;
Data de admissão, e quando o funcionário for desligado a data da demissão;
Remuneração e forma de pagamento;
Local e horário de trabalho
Concessão de férias;
Identificação da conta vinculada ao FGTS e da conta do PIS/ PASEP;
Acidente de trabalho e doença profissional, quando tiverem ocorrido.
O registro de empregado deverá estar sempre atualizado e numerado seqüencialmente por estabelecimento.
Art. 41 CLT – Em todas as atividades será obrigatório para o empregador o registro dos respectivos trabalhadores, podendo ser adotados livros, fichas ou sistema eletrônico, conforme instruções a serem expedidas pelo Ministério do Trabalho. (Redação dada pela Lei n.º 7.855-, de 24-10-89, DOU 25-10-89)
Parágrafo único – Além da qualificação civil ou profissional de cada trabalhador, deverão ser anotados todos os dados relativos à sua admissão no emprego, duração e efetividade do trabalho, a férias, acidentes e demais circunstâncias que interessem à proteção do trabalhador. (Redação dada pela Lei n.º 7.855-, de 24- 10- 89, DOU 25-10-89).
O livro de registro de empregados, na empresa estagiada é preenchido pelo responsável pelo Departamento de Pessoal ou pelo seu auxiliar dentro do que rege a lei a respeito desse assunto.

2.4 Atestado Médico Admissional

O Exame Admissional é um exame médico simples e obrigatório solicitado pelas empresas antes de firmar a contratação de um funcionário com carteira assinada (CLT). O exame médico admissional está previsto no artigo 168 da CLT.
O Exame Admissional é necessário para comprovar o bom estado de saúde físico e mental do novo funcionário para exercer a função a que será destinado. Imprescindível para evitar transtornos com funcionários que tenham problemas de saúde seja adquirido em empresas anteriores ou pré- existentes. É realizado por um médico com especialização em medicina do trabalho, pois é ele quem identifica doenças ocupacionais. Após a realização do exame médico, é emitido um Atestado Médico de Capacidade Funcional.
O exame é recomendado para evitar futuros aborrecimentos e prejuízos para o empregador, pois o mesmo poderá contratar um empregado que já tenha problemas de saúde com origem do serviço anterior e poderá reclamar na justiça que adquiriu a doença no trabalho atual, pleiteando estabilidade no emprego. Sem este exame, a empregadora poderá ser considerada culpada por todas as doenças contraídas pelo trabalhador durante o contrato de trabalho, respondendo inclusive por eventuais ações indenizatórias por acidente de trabalho ou doença do trabalho.
Na Cooperativa de Fruticultores da Região de Vacaria Ltda., é obrigatória a apresentação do atestado médico admissional pelos novos funcionários para a efetivação dos mesmos.

2.5 Contratos de Trabalho

Um contrato de trabalho tem por finalidade, o conhecimento recíproco, ou seja, durante o período experimental. Durante o período de vigência desse contrato, o empregador observará o desempenho funcional do empregado na execução das respectivas atribuições, disciplina, subordinação, etc. E o empregado por sua vez verificará sua aptidão, integração, relacionamento com superiores hierárquicos, condições de trabalho etc.
Um contrato de trabalho é elaborado da seguinte forma:
Contrato de experiência: é um contrato de trabalho normal, porém com um período de vigência preestabelecido, sendo o máximo previsto em lei por 90 (noventa) dias, podendo haver somente uma prorrogação.
Contrato por prazo indeterminado: é um contrato normal, em que não existe período de vigência preestabelecido.
Na Cooperativa (empresa estagiada), é feito um contrato de trabalho de trinta dias normalmente. Podendo ser prorrogado por mais sessenta dias.

2.6 Salário Família

Salário-família é o benefício pago pela Previdência Social aos trabalhadores com salário mensal na faixa de baixa renda, para auxiliar no sustento de filhos (assemelham-se ao conceito de filhos: o enteado, o tutelado ou o que está sob a guarda do empregado) de até 14 anos de idade. O segurado recebe uma quota por filho e por emprego e ambos os pais recebem. O valor do salário família é pago pelo empregador, mas deduzido da GPS (guia da previdência social) da empresa, mensal. O valor atual do salário-família é determinado pela Portaria Interministerial MPS/MF nº 48, de 12 de fevereiro de 2009. Corresponde a 24 reais para quem ganha menos de 500 reais e 18 reais para quem ganha entre 500 e 752 reais (valores arredondados e de 2009).
Na empresa estagiada ( Cooperativa dos Fruticultores da Região de Vacaria Ltda.) é pago esse benefício a todos os funcionários que tiverem direito a esse auxílio.

2.7 Jornada de Trabalho

Jornada de trabalho é o período diário durante o qual o trabalhador está a disposição do empregador. a jornada de trabalho é regulamentada pela Constituição Federal em seu art. 7º XIII e a CLT art. 58, não pode ultrapassar 8 horas diárias: “Art. 4º Considera-se como de serviço efetivo o período em que o empregado esteja à disposição do empregador, aguardando ou executando suas ordens, salvo disposição especial expressamente consignda.” É, também, considerada como jornada o período em que o empregado está a disposição do empregador, mesmo que em sua residência. Não é computada na jornada de trabalho o período de repouso e refeição (art. 71 §2º da CLT) e o tempo despendido pelo empregado até o local de trabalho, salvo local de dificil acesso ou não servido de por transporte público e o empregador fornecer a condução. A doutrina diverge quanto a distinção entre jornada de trabalho e horário de trabalho, porém ambas carregam o mesmo conceito em si. A CLT trata apenas como duração do trabalho diário e semanal.
Na Cooperativa Frutival, o horário estipulado para todos os funcionários é o de 44 horas semanais. Sendo 8 horas diárias de segunda a sexta-feira e 4 horas aos sábados pela manhã.

2.8 Salário

Salário ou remuneração é o conjunto de vantagens habitualmente atribuídas aos empregados, em contrapartida de serviços ao empregador, em quantia suficiente para satisfazer as necessidades próprias e da família.
Segundo alguns juristas, a diferença entre os termos salário e remuneração, está no fato do primeiro dizer respeito apenas ao pagamento em dinheiro, e o segundo engloba também as utilidades, como alimentação, moradia, vestuário, e outras prestações in natura. Segundo legislação brasileira, salário é o valor pago como contraprestação dos serviços prestados pelo empregado, enquanto remuneração engloba este, mais outras vantagens a título de gratificação ou adicionais.
É a contraprestação dos serviços prestados pelo empregado, devida e paga pelo empregador. De uma forma concisa, salário é todo valor pago ao empregado, pelo empregador, por exemplo: salário básico, percentagens, comissões, gratificações, abonos, etc. (Gilson Gonçalves, 2007, editora Juruá, p.123).
O salário dos funcionários da Cooperativa Frutival é de acordo a sua função dentro da empresa; pago regiamente no quinto dia útil de cada mês.

2.9 Horas Extras

A hora extra é o tempo de trabalho que o funcionário realiza além de sua jornada diária – estabelecida pela legislação ou pelo contrato de trabalho. Todo empregado que trabalha em jornada ampliada tem direito a receber um adicional de no mínimo 50% sobre o valor da hora normal, caso o trabalho seja feito em dias da semana (de segunda a sábado), e de 100%, se a hora extra for aos domingos e aos feriados. No Brasil, a prestação de trabalho não pode exceder duas horas por dia. Ultrapassar esse limite só é permitido quando o empregador está sujeito a situação de força maior, serviço inadiável ou prejuízos iminentes, segundo informações do Ministério do Trabalho.
Quando é o caso, na empresa estagiada Cooperativa Frutival, as horas extras são pagas aos funcionários na folha de pagamento, junto com o salário do mês; de acordo com as horas trabalhadas a mais que as pré estabelecidas no ato da contratação.

3 Folha de Pagamento

A folha de pagamento é um documento de emissão obrigatória para efeito de fiscalização trabalhista e previdenciária. A empresa é obrigada a preparar a folha de pagamento da remuneração paga, devida ou creditada a todos os empregados a seu serviço.
Para sua elaboração não existe modelo oficial, ou seja, podem ser adotados critérios que melhor atendam as necessidades de cada empresa. Uma folha de pagamento, por mais simples que seja, apresenta pelo menos os seguintes elementos:
Discriminação do nome dos empregados (segurados), indicando cargo, função ou serviço prestado;
Valor bruto dos salários;
Valor da contribuição de Previdência, descontado dos salários;
Valor liquido que os empregados receberão.
Da folha de pagamento origina-se o recibo de pagamento, que indica os dados que constaram da folha relativamente a cada um dos empregados e a estes é entregue.
A remuneração paga ao empregado deverá discriminar todas as verbas que a compõem, ou seja, salário, horas extras, adicional noturno, adicional de periculosidade, insalubridade, considerando que a legislação trabalhista proíbe o chamado salário compressivo, isto é, aquele que engloba vários direitos legais ou contratuais do empregado. Nesse sentido, manifestou-se o Tribunal Superior do Trabalho, através do Enunciado nº 91: “Nula é a cláusula contratual que fixa determinada importância ou percentagem para atender englobada mente vários direitos legais ou contratuais do trabalhador.”
Assim, ao elaborar a folha de pagamento, devem-se destacar as verbas pagas, discriminando-as uma a uma.
Na Cooperativa Frutival as folhas de pagamento são feitas discriminando todas as verbas que a compõem como salário, horas extras, salário família, entre outros.

3.1 IRRF Imposto de Renda Retido na Fonte

O Imposto de Renda Retido na Fonte é a tributação devida sobre os rendimentos do trabalho assalariado, tais como: salários, horas extras, adicionais e outras receitas admitidas em lei pela RECEITA FEDERAL.
Para cálculo do Imposto de Renda é importante verificar as verbas que sofrem incidências, além das mencionadas acima, podemos verificar outras verbas na Instrução Normativa SRF nº 15 de 6 de fevereiro de 2001.
Observação: O cálculo do Imposto de Renda será efetuado sobre o valor recebido pelo funcionário. O cálculo será efetuado sempre pela data de pagamento, ainda que o mês de referência seja outro.
O Imposto de Renda Retido na Fonte é um imposto variável de acordo com o valor do salário.

Na Cooperativa dos Fruticultores da Região de Vacaria Ltda., esse imposto é descontado na folha de pagamento dos funcionários de acordo com o que rege a lei a respeito dos valores; e repassado ao governo.

3.2 Adicional de Insalubridade

Segundo a CLT, é considerada atividade insalubre aquela em que o trabalhador é exposto a agentes nocivos à saúde acima dos limites tolerados pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
O adicional de insalubridade é um direito concedido a trabalhadores que são expostos a agentes nocivos à saúde. Há três graus: mínimo, que dá adicional de 10%, médio (20%) e máximo (40%).
A Norma Regulamentadora 15, do Ministério do Trabalho, é que define o que é atividade insalubre. A definição da base de cálculo é polêmica. Há diferentes decisões judiciais, que determinam o cálculo sobre o salário mínimo, sobre o salário base do trabalhador, sobre o piso da categoria ou sobre a remuneração total do empregado.
Na Cooperativa Frutival, o adicional de insalubridade é pago para os funcionários do packing house por se tratar de um trabalho onde se manuseia produtos químicos constituindo assim um trabalho insalubre.

3.2.1 Adicional de Periculosidade

É considerada atividade perigosa aquela em que o trabalhador não está diretamente exposto a agentes nocivos, mas corre risco de sofrer ferimentos ou de morrer. Nesse caso, o adicional de periculosidade é calculado sobre 30% do salário-base. Os adicionais de periculosidade e de insalubridade não são cumulativos: ou o trabalhador recebe um ou recebe outro. O art. 195 da CLT trata da periculosidade e ela da mesma forma da insalubridade deve ser atestada por Engenheiro ou Médico do Trabalho. O adicional de periculosidade só gera direito ao recebimento enquanto o empregado estiver exposto ao agente periculoso, caso ele cesse, acabe, ou o empregado seja transferido de função, por exemplo, ele deixa de receber, este não incorpora ao salário.
Dependendo da função realizada nas dependências do packing house na Cooperativa de Fruticultores da Região de Vacaria Ltda.; é necessário que se pague ao funcionário o adicional de insalubridade.

3.3 Férias

Todo empregado tem direito a um período anual de férias, sem prejuízo de sua remuneração, concedidas em período que melhor atenda aos interesses do empregador.
Esse período, contudo, não poderá ultrapassar o limite de 12 meses subseqüentes à aquisição do direito pelo empregado, sob pena de pagamento em dobro daquilo que exceder o referido período.
Férias é o período de descanso anual, que deve ser concedido ao empregado após o exercício de atividades por um ano, ou seja, por um período de 12 meses, período este denominado “aquisitivo”.
As férias devem ser concedidas dentro dos 12 meses subseqüentes à aquisição do direito, período este chamado de “concessivo”.
O empregado terá que receber de acordo com seu salário, acrescido de mais um terço desta remuneração.
São férias coletivas as concedidas, de forma simultânea, a todos os empregados de uma empresa, ou apenas aos empregados de determinados estabelecimentos ou setores de uma empresa, independentemente de terem sido completados ou não os respectivos períodos aquisitivos. As férias coletivas podem ser gozadas em 2 (dois) períodos anuais desde que nenhum deles seja inferior a 10 (dez) dias corridos. As empresas, para concederem férias coletivas deverão observar as determinações da legislação trabalhista. O empregado só fará jus às férias após cada período completo de 12 meses de vigência do contrato de trabalho. Quando se tratar de férias coletivas, que acarrete paralisação das atividades da empresa ou de determinados estabelecimentos ou setores da mesma, os empregados que não completaram ainda o período aquisitivo ficam impedidos de prestar serviços. Os empregados com mais de um ano de serviço não têm seu período aquisitivo alterado. No momento da concessão das férias coletivas, o empregador deverá proceder às anotações devidas na Carteira de Trabalho e Previdência Social e no Livro ou Ficha de Registro de Empregados.
Na Cooperativa Frutival são feitas férias coletivas em virtude da sazonalidade das frutas.

3.4 13º Salário

O 13º salário deve ser pago ao empregado em duas parcelas até o final do ano, no valor corresponde a 1/12 (um doze avos) da remuneração para cada mês trabalhado.
A base de cálculo da remuneração é a devida no mês de dezembro do ano em curso ou a do mês do acerto rescisório, se ocorrido antes desta data e deverá ser considerado o valor bruto sem dedução ou adiantamento. Ao contrário do cálculo feito para férias proporcionais, o Décimo Terceiro é devido por mês trabalhado, ou fração do mês igual ou superior a 15 dias.
A Lei 4.749, de 12/08/1965, que dispõe sobre o pagamento do Décimo Terceiro, determina que o adiantamento da 1ª parcela, correspondente a metade da remuneração devida ao empregado no mês anterior, seja paga entre os meses de fevereiro até o último dia do mês de novembro (30 de novembro). Já a 2ª parcela deve ser quitada até o dia 20 de dezembro, tendo como base de cálculo a remuneração deste mês, descontado o adiantamento da 1a. parcela.
O empregado tem o direito de receber o adiantamento da 1ª parcela junto com suas férias, desde que o requeira no mês de janeiro do ano correspondente.
O empregador não está obrigado a pagar o adiantamento do Décimo Terceiro a todos os empregados no mesmo mês, desde que respeite o prazo legal para o pagamento, entre os meses de fevereiro a novembro. O pagamento de parcela única usualmente feito no mês de dezembro é ilegal, e está sujeito a pena administrativa.
A Cooperativa, empresa onde ocorre este estágio, respeita e obedece a lei regiamente a respeito das parcelas do 13º salário.

3.5 Convenção Coletiva do Trabalho

Convenção Coletiva de Trabalho é um instrumento normativo pactuado entre sindicatos representantes de empregadores (categoria econômica) e empregados (categoria profissional). Uma Convenção Coletiva de Trabalho cria lei entre as partes, que devem ser respeitadas durante sua vigência. Ressalta-se que suas cláusulas não podem ferir direitos previstos na legislação, sob pena de nulidade. A Convenção Coletiva de Trabalho é fruto de negociação entre as partes, através de respectivas comissões de negociação, que são escolhidas e tem o poder de negociação outorgados em assembléias convocadas para esta finalidade.
De acordo com Gilson Gonçalves (2007), a Convenção Coletiva do Trabalho é o acordo de caráter normativo, pelo qual dois ou mais sindicatos representativos e categorias econômica e profissional estipulam condições de trabalho aplicáveis no âmbito das respectivas representações, as relações individuais de trabalho.
A Cooperativa dos Fruticultores da Região de Vacaria Ltda., acata todas as resoluções pactuadas pela convenção coletiva do trabalho.

3.6 Contribuição Sindical

A Contribuição Sindical dos empregados será recolhida de uma só vez e corresponderá à remuneração de um dia de trabalho, qualquer que seja a forma de pagamento. O desconto da contribuição sindical corresponde a um dia normal de trabalho, ou seja, vai ser composta da remuneração que corresponda à jornada diária normal do empregado. Os empregadores são obrigados a descontar da folha de pagamento de seus empregados, relativa ao mês de março de cada ano, a Contribuição Sindical por estes devida aos respectivos sindicatos. Deve-se verificar se o empregado não sofreu o desconto respectivo na empresa anterior, caso em que este não poderá sofrer outro desconto. Referida hipótese deverá ser anotada na ficha de Registro de Empregados. Caso não tenha ocorrido qualquer desconto, o mesmo deverá ocorrer no próprio mês de março, para recolhimento em abril. Os funcionários que forem admitidos após o mês de março sofrerão o desconto no mês seguinte ao da admissão.
Na Cooperativa Frutival, empresa onde ocorre este estágio, a contribuição sindical é descontada em folha de pagamento dos trabalhadores e repassada aos órgãos competentes.

3.7 CAGED Cadastro Geral de Empregados e Desempregados

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – CAGED foi criado pelo Governo Federal, através da Lei nº 4.923/65, que instituiu o registro permanente de admissões e dispensa de empregados, sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT.
Este Cadastro Geral serve como base para a elaboração de estudos, pesquisas, projetos e programas ligados ao mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que subsidia a tomada de decisões para ações governamentais.
É utilizado, ainda, pelo Programa de Seguro-Desemprego, para conferir os dados referentes aos vínculos trabalhistas, além de outros programas sociais.
O CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) é um recurso de grande importância ao trabalhador brasileiro, consistindo num registro que será utilizado pelos órgãos trabalhistas para entender a situação de cada cidadão no mercado. O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) usa as informações do CAGED para compor seus arquivos.
O cadastro pode ser feito através da internet, usando o ACI, um aplicativo apropriado fornecido pelo MTE. As empresas verificam os dados para levantar a ficha de cada funcionário e também devem seguir adequadamente as normas trabalhistas para não ter prejuízos.
Ao elaborar o arquivo CAGED, é necessário que o encaminhamento para o MTE aconteça no período de sete meses.
Cumprindo as determinações da Lei nº 4.923-65, os estabelecimentos que registrarem movimento de empregados (admissão e desligamento) deverá informar ao Ministério do Trabalho até o dia 07 (sete) do mês seguinte os movimentos havidos.
Na Cooperativa de Fruticultores da Região de Vacaria Ltda., todas as determinações da Lei são cumpridas referentes ao CAGED Cadastro Geral de Empregados e Desempregados.

3.8 FGTS Fundo de Garantia por Tempo de Serviço

O FGTS é formado por depósitos mensais, efetuados pelo empregador, em contas individuais e vinculadas (com regras específicas para movimentação), em nome de cada trabalhador. O valor depositado corresponde a 8% (8,5%, a partir de 2001) da remuneração mensal. Incide sobre o 13º salário e o adicional de 1/3 das férias.
A Caixa Econômica Federal (CEF) é a gestora do FGTS. Administra todas as contas dos trabalhadores vinculadas ao Fundo.
As normas e diretrizes do FGTS são estabelecidas pelo Conselho Curador,
Entre outras atribuições, o Conselho Curador estabelece as normas para a movimentação dos recursos do FGTS. As possibilidades de saque das contas individuais do FGTS só são autorizadas mediante as seguintes situações:
” Demissão sem justa causa;
” Rescisão antecipada de contrato de trabalho por tempo determinado;
” Extinção da empresa;
” Aposentadoria concedida pela Previdência Social;
” Falecimento do trabalhador;
” Pagamento de parte das prestações, liquidação ou amortização extraordinária do saldo devedor, decorrentes de financiamento habitacional, no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação;
” Pagamento total ou parcial do preço de aquisição de moradia própria;
” Falta de movimentação (depósito) da conta vinculada por três anos ininterruptos (contas inativas);
” Suspensão total do trabalho avulso por período igual ou superior a 90 dias;
” Tratamento de AIDS;
” Aplicações em cotas de Fundos Mútuos de Privatizações.
Na Empresa Estagiada Cooperativa Frutival, todos os direitos dos trabalhadores são respeitados e as normas seguidas de acordo com a CLT ( consolidação das leis trabalhistas).

3.9 GPS Guia de Previdência Social

O GPS Guia de Previdência Social serve para que o INSS Instituto Nacional do Seguro Social possa liberar benefícios caso o empregado necessite, podendo ver através desta guia se o sistema esta computando o pagamento dela em dia ou não, para que com isso o empregado tenha direito a benefícios.
Toda empresa deverá efetuar estes pagamentos referentes aos funcionários dela; deve compreender a GPS Guia da Previdência Social e recolher os encargos sociais incidentes sobre a folha de pagamento, ou seja, em cima de salários, pró-labores, rescisões, etc.
Esta contribuição é calculada conforme alíquota do período. Em caso de acidente de trabalho, benefício, licença maternidade.
Na Cooperativa de Fruticultores da Região de Vacaria Ltda., é efetuado o pagamento do GPS Guia de Previdência Social referente aos funcionários da mesma, e recolhido os encargos sociais incidentes sobre a folha de pagamento.

3.10 RAIS Relação Anual de Informações Sociais

A RAIS, sigla para Relação Anual de Informações Sociais, é um relatório de informações sócio-econômicas solicitado pelo Ministério do Trabalho e Emprego brasileiro às pessoas jurídicas e outros empregadores anualmente. Foi instituída pelo Decreto nº 76.900, de 23/12/75.
A RAIS trata dos vínculos empregatícios da administração pública e privada (CNPJ), e empregadores cadastrados no INSS (CEI). Fornece informações estatísticas para as decisões governamentais. Gera dados para os sistemas CAGED, Seguro Desemprego, Abono Salarial, PIS (Programa de integração social), PASEP (Programa de formação do patrimônio do servidor público) , FGTS (Fundo de garantia do tempo de serviço) e para sistemas do IBGE e do INSS.
Na Cooperativa de Fruticultores da Região de Vacaria Ltda., esse relatório (RAIS) é preenchido e enviado ao Ministério do Trabalho.

3.11 PIS Programa de Integração Social

O Programa de Integração Social, mais conhecido como PIS/PASEP ou PIS, é uma contribuição social de natureza tributária, devida pelas pessoas jurídicas, com objetivo de financiar o pagamento do seguro-desemprego e do abono para os trabalhadores que ganham até dois salários mínimos.
O PIS foi instituído com a justificativa de promover a integração do empregado na vida e no desenvolvimento das empresas. Na prática consiste num programa de transferência de renda, possibilitando melhor distribuição da renda nacional.
O cadastro no PIS Programa de Integração Social, é obrigatório, a empresa deve preencher um formulário chamado DCT Distribuição de Carga de Trabalho e enviar para a Caixa Econômica Federal para que seja ativado seu cadastro e ele tenha participação neste fundo através de depósitos feitos pela empresa. O preenchimento deste cadastro só correrá caso o empregado ainda não possua cadastro, se ele já for cadastrado já terá um número de PIS Programa de Integração Social e só será feito os depósitos neste número.
Na Cooperativa, onde realizo este estágio, todos os depósitos são feitos referente ao Programa de Integração Social, mais conhecido como PIS/PASEP.

4 Rescisão

A demissão significa rescisão de contrato de trabalho entre o empregador e o empregado. A rescisão de contrato de trabalho pode ocorrer nos seguintes casos:
” por pedido de dispensa;
” por acordo (para empregados não optantes pelo FGTS, anteriores à CF-88);
” por dispensa sem justa causa;
” por dispensa por justa causa;
” por término de contrato.
A rescisão de contrato de trabalho deve ser efetivada mediante o TRCT, documento padronizado e obrigatório, de acordo com a legislação em vigor.
Dada a rescisão pelo empregador sem justa causa, o empregado terá direito a todos os benefícios que lhe são cabidos, como férias proporcionais aos dias trabalhados, 13º salário proporcional, 1/3 salário sobre férias, multa FGTS Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, além de seu saldo de salário no mês da rescisão.
Para ter direito ao seguro desemprego, o empregado tem que ter vínculo empregatício por no mínimo seis meses, para poder retirar as parcelas referentes há esses meses.
Caso o empregado tenha mais de 12 (doze) meses de serviço prestados na empresa, a rescisão deverá ser homologada na sede do Sindicato de sua categoria ou caso não existir Sindicato em sua cidade, sua rescisão deverá ser homologada no Ministério do Trabalho.
O aviso prévio deve ser feito com antecedência de 30(trinta) dias, independente de como acontecer o rescendimento do contrato. Antes de o empregado sair da empresa ele terá que fazer o exame médico demissional, onde conste que ele não teve problema algum até o último momento que estava dentro da empresa, é obrigação do empregador pagar por esse exame.
A empresa também deverá entregar ao empregado alguns documentos entre eles: Termo de rescisão contrato de trabalho em 4(quatro) vias;
CPTS Carteira de Trabalho e Previdência Social, com todas as anotações necessárias;
Formulário CD – Comunicação de dispensa de Seguro Desemprego;
GRRF – Guia de Recolhimento da Multa Rescisória;
Uma via do aviso prévio;
Demonstrativo de multa do FGTS Fundo de Garantia do Tempo de Serviço.
Extrato do saldo FGTS Fundo de Garantia do Tempo de Serviço.
Na Cooperativa de Fruticultores da Região de Vacaria Ltda., todos os documentos referente à rescisão do contrato de trabalho são preenchidos pelo responsável pelo Departamento de Pessoal ou pelo seu auxiliar.

4.1 Aviso Prévio

De acordo com a CLT Consolidação das Leis do Trabalho e a Constituição de 1988, a parte que, sem justo motivo, quiser rescindir o contrato de trabalho deverá avisar a outra de sua resolução com antecedência mínima de 30 (trinta) dias.
A falta de aviso prévio dá ao empregado o direito de perceber o salário relativo a esse período, bem como a integração deste o seu tempo de serviço. Já a falta de aviso prévio por parte do empregado, dá ao empregador o direito de descontar-lhe o referido período.
O aviso prévio tem a finalidade de deixar que o empregado procure outro emprego e que o empregador encontre um substituto.
Na Cooperativa Frutival, todos os acordos com a CLT Consolidação das Leis Trabalhistas são respeitados e cumpridos. O documento referente ao aviso prévio é preenchido pelo responsável pelo Departamento de Pessoal.

4.2 Homologação da Rescisão

O empregador deverá homologar a rescisão do empregado, com mais de um ano de empresa, sendo que o prazo do aviso prévio indenizado deve ser computado como tempo de serviço. A falta de homologação considera o pagamento da rescisão não feito e, conseqüentemente, obrigará a empresa a novo pagamento.
No ato da rescisão contratual, é necessária a presença do empregador e empregado.
O empregado, excepcionalmente, pode ser representado por um procurador legalmente constituído, com poderes para dar e receber quitação, enquanto que o empregador pode ser representado por preposto.
A homologação é obrigatória, e não se confunde com a conciliação previa.
O menor de 18 anos deve estar acompanhado de seu representante legal, que assinará conjuntamente a homologação.
Os documentos necessários para a homologação são:
a) Termo de Rescisão do contrato de Trabalho em 4 vias, com a seguinte observação inscrita em letras maiúsculas no rodapé. ASSISTÊNCIA NA RESCISÃO CONTRATUAL É GRATUITA;
b) Carteira de Trabalho e Previdência Social CTPS, com anotações devidamente atualizadas;
c) Registro de empregados e livro, ficha ou cópia dos dados obrigatórios de registro, quando informatizado;
d) Comprovante de aviso prévio, se tiver sido um pedido de demissão quando for o caso;
e) Cópia do acordo ou convenção Coletiva do Trabalho ou sentença Normativa; 55
f) As duas últimas GRE Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de
Serviço FGTS, ou estado atualizado da conta vinculada;
g) Comunicação de Dispensa CD, para fins de habilitação do seguro-desemprego na hipótese de rescisão do contrato de trabalho sem justa causa, por parte do empregador;
Exame médico demissional das verbas rescisórias.
A homologação é obrigatória no caso de empregados com mais de 12 (doze) meses de serviços prestados quando de sua rescisão de contrato de trabalho.
A homologação compreende a assistência, por parte do sindicato de classe do empregado ou órgão do Ministério do Trabalho, no ato rescisório.
O pedido de demissão de empregado com mais de 1 (um) ano na mesma empresa também é obrigatória a assistência (art. 477, § 1º, da CLT).
Na Cooperativa de Fruticultores da Região de Vacaria Ltda., a homologação da rescisão de contrato de trabalho é feita conforme os procedimentos descritos acima.

4.3 Seguro Desemprego

O empregado demitido sem justa causa, que permanecer desempregado após o saque do FGTS, encaminhará a sua CD Comunicação de Dispensa ao órgão do SINE Sistema Nacional de Emprego ou ao Ministério do Trabalho.
O seguro-desemprego poderá ser recebido em até 5 (cinco) parcelas mensais, caso o trabalhador permaneça desempregado por todo esse período, podendo ser estendido até 6 (seis) parcelas em casos especiais.
Não terá direito ao seguro-desemprego o trabalhador que estiver aposentado ou que não tiver vínculo empregatício no mínimo por seis meses, com a contratante, bem como aquele que tiver sido demitido por justa causa.
Assegura ao trabalhador desempregado, dispensado sem justa causa, um auxílio financeiro cujo valor não poderá ser inferior ao salário mínimo por um período variável de 3(três) a 5(cinco) meses.
Terá direito ao Seguro Desemprego, o trabalhador que recebeu salários durante 6(seis) meses anteriores ao da rescisão e não tenha fonte de renda para o sustento.
Poderá ser apresentado para a comprovação do direito ao Seguro Desemprego:
As anotações na Carteira de Trabalho e Previdência Social;
TRCT – Termo de Rescisão do Contrato de Trabalho, homologado quando o período trabalhado for superior a 1(um) ano;
Extrato comprobatório dos depósitos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, entre outros.
O trabalhador terá um prazo de 07(sete) a 120(cento vinte) dias para requerer o benefício do Seguro-desemprego.
Na Cooperativa onde ocorre este estágio, o formulário do seguro-desemprego é preenchido e entregue ao funcionário no ato da homologação da rescisão do contrato de trabalho.

4.4 Prazo de Pagamento

A formalização da rescisão assistida não poderá exceder:
O primeiro dia útil imediato ao término do contrato, quando o aviso prévio for trabalhado;
O décimo dia, subseqüente à data da comunicação da demissão, no caso de ausência de aviso prévio, indenização deste ou dispensa do seu cumprimento.

Os prazos são computados em dias corridos, excluindo-se o dia do começo e incluindo-se o do vencimento. Se o dia do vencimento recair em sábado, domingo ou feriado, o termo final será antecipado para o dia útil imediatamente anterior.
A inobservância dos prazos previstos neste artigo sujeitará o empregador à autuação administrativa e ao pagamento, em favor do empregado, do valor equivalente ao seu salário, corrigido monetariamente, salvo quando, comprovadamente, o trabalhador tiver dado causa à mora.
O pagamento das verbas rescisórias em valores inferiores aos previstos na legislação ou nos instrumentos coletivos constitui mora do empregador, salvo se houver quitação das diferenças no prazo legal.
O pagamento complementar de valores rescisórios, quando decorrente de reajuste coletivo de salários (data-base) determinado no curso do aviso prévio, ainda que indenizado, não configura mora do empregador, nos termos do art. 487, § 6º, da CLT.
Na Cooperativa Frutival, o prazo de pagamento da rescisão de contrato é feito sempre respeitando as normas da CLT Consolidação das Leis Trabalhistas.

4.5 Pagamento

O pagamento das verbas salariais e indenizatórias constantes do TRCT (Termo de Rescisão do Contrato de Trabalho) será efetuado no ato da assistência, em moeda corrente ou em cheque visado.
É facultada a comprovação do pagamento por meio de transferência eletrônica disponível, depósito bancário em conta corrente do empregado, ordem bancária de pagamento ou ordem bancária de crédito, desde que o estabelecimento bancário esteja situado na mesma cidade do local de trabalho, o trabalhador tenha sido informado do fato e os valores tenham sido efetivamente disponibilizados para saque nos prazos do § 6º do art. 477 da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas).
Na assistência à rescisão contratual de empregado adolescente ou analfabeto, ou na realizada pelo Grupo Móvel de Fiscalização, instituído pela Portaria MT nº 550, de 14 de junho de 1995, o pagamento das verbas rescisórias somente será realizado em dinheiro.
Na Cooperativa de Fruticultores da Região de Vacaria Ltda., o pagamento das verbas salariais e indenizatórias constantes do TRCT (Termo de Rescisão do Contrato de Trabalho) é efetuado no ato da assistência sempre em moeda corrente.

CONCLUSÃO

Através deste relatório de estágio supervisionado foi possível demonstrar um pouco de como funciona a rotina do Departamento de Pessoal da empresa estagiada Cooperativa dos Fruticultores da Região de Vacaria Ltda.; através de pesquisas bibliográficas em livros contábeis; em sites de órgãos contábeis já publicados; e principalmente em documentos e entrevistas na empresa estagiada.
Através deste relatório pode-se também mostrar seus procedimentos adotados referente à admissão ou demissão de funcionários; os deveres da empresa no que se refere às guias ou documentos a serem preenchidos e pagos pela empresa; os direitos trabalhistas dos funcionários; entre outros.
Finalizando, acrescenta-se ainda que foi muito gratificante a realização deste relatório de estágio, pois constituiu uma experiência muito positiva no que tange ao crescimento e enriquecimento pessoal e profissional da acadêmica.

REFERÊNCIAS

GONÇALVES, Gilson, Editora Juruá. Rotinas Trabalhistas de A a Z, 4ª Edição, 2007
GONÇALVES, Gilson, Editora Juruá. Rescisões Trabalhistas 4ª Edição, 2007
NEVES, A. F. Sistemas de apuração de custo industrial. São Paulo. ATLAS. 1981.
OLIVEIRA, Rita de Cássia A – Desvendando o Departamento de Pessoal 2ª edição/Editora Viena.
RASMUSSEN, U.W. Estratégia mercadológica, 2. ed, São Paulo, Aduaneiras. 1987.
VACARIA, Cooperativa dos Fruticultores da Região de Vacaria Ltda. Disponível em:
http://www.frutival.com.br/frutival.php
Acesso em: 25/11/2009

Talento Desportivo

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
1. TALENTO ESPORTIVO
1.1Atletas talentosos: Um processo de seleção e desenvolvimento
1.1.2 Desempenho e Talento Esportivos
1.2.3 Talento esportivo II: determinação de talentos esportivos
2. Detecção, seleção e promoção de talentos esportivos Em ginástica rítmica desportiva: um estudo de revisão
CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS

INTRODUÇÃO

Esta resenha critica tem por objetivo apresentar alguns aspectos referentes à determinação de talento esportivo, a partir das definições e das determinações de seleção e promoção de talento esportivo, será descrito a seguir aspectos a serem considerados na determinação de talento esportivo, respectivamente, o problema dos critérios de desempenho esportivo e o problema do prognóstico de desempenho do talento esportivo, pois muito se fala segundo alguns nomes contidos nos presentes artigos de leitura sobre se herdar geneticamente o talento para o esporte.
Com a tentativa de contribuir com a discussão e com a pretensão de ampliar os conhecimentos sobre o tema, talento esportivo, na visão de determinados autores, que buscam esclarecer sobre o assunto e interpretando o mesmo em uma perspectiva da fenomenologia do contexto.

1.TALENTO ESPORTIVO

1.1 Atletas talentosos: Um processo de seleção e desenvolvimento

O atleta com aptidão para o esporte não precisa necessariamente nascer com o talento, mas sim desenvolve-lo com um trabalho bem elaborado explorando o potencial físico e psicológico, o importante é que o individuo tenha vontade de trabalhar no sentido de ser um atleta.
Na adolescência é muito importante que o jovem com alguma demonstração de vontade praticar esporte seja incentivado a procurar uma escola ou um professor de educação física que possa orientá-lo da maneira correta de desenvolver seu potencial, pois nessa faze o individuo tem mais capacidade de absolvição do aprendizado que lhes é aplicado.
Quando se fala em detectar um talento esportivo normalmente se esquece que esse talento pode estar em sua genética e não no seu comportamento atual, sendo assim se torna difícil identificar um talento para poder fazer com que o mesmo se desenvolva aproveitando sua herança genética, parte dessas teorias tem afirmação segundo Moskatova (1998).
A analise genética é muito importante, mas existe também outro fator que pode influenciar na descoberta de uma criança ou um jovem de que ele tem um talento esportivo em alguma modalidade, é o ambiente onde ele convive, pois a convivência neste ambiente pode estar apenas ajudando a despertar o talento que havia dentro desse individuo uma vez que o mesmo possa ter também um condicionamento físico apropriado para a modalidade esportiva na qual ele se identifica.
Uma questão primordial deve ser levantada para que se dê início às discussões sobre o tema: Talento esportivo,quando se pretende ocupar-se em discutir sobre o ser talento, espera-se que se defina, antecipadamente, o que é o ser talento. Para isso, encontra-se uma dificuldade ontológica da explicação do ser em geral e do ser do homem e, mais ainda, segue-se com a problemática ótica de sua resposta ao enfocá-lo como um ser ou não ser talento.
De acordo com Morente (1967, p.58) o conceito mais vasto de todos, o conceito do Ser, não tem, na realidade, notas que o definam.

1.1.2 Desempenho e Talento Esportivos

Análise que reflete é a conduta motora ou um comportamento motor, como objeto prático e teórico de estudo, terá maior vislumbre se tiver um significado de motricidade humana diferente dos demais seres. Desta forma, faz-se uma classificação como um ser ou deve ser na particularidade do movimento ou conduta ou comportamento físico motor. Constituir uma compreensão fenomenológica, portanto, provisória, mutável e relativa, acerca de indivíduos com talentos esportivos e sua relação com a genética. Estabelecer uma compreensão axiológica acerca de indivíduos com talentos esportivos.
Apresentar uma discussão teórica fenomenológica, sendo assim, de postura ou atitude, sobre o talento esportivo, a partir de uma perspectiva existencial de vida. Todo este contexto com o propósito de tentar acrescentar conhecimentos à área da detecção e orientação de talentos.
A área relativa aos estudos de talentos esportivos tem sido apontada como uma das principais áreas de pesquisa em Educação Física e Esportes e tem despertado o interesse de pesquisadores, professores, acadêmicos e treinadores esportivos.
De acordo com Hoffmann & Schneider (1985) citado por Weineck (1990), a aptidão do ser humano demonstrada em determinado momento não é estabelecida desde o seu nascimento; desenvolve-se fundamentada e condicionada em predisposições anatomo-fisiológicas, através das atividades realizadas (e pode ser reconhecida através destas atividades) no processo de desenvolvimento do indivíduo.
É muito importante que se realizem pesquisas sobre talentos esportivos de um modo geral, pois poucos são os trabalhos realizados com o objetivo de se estabelecer padrões de referência para a seleção de talentos esportivos, sendo que esta seleção tem sido espontânea, empírica e subjetiva, com alguns acertos, mas também com muitos erros, e muito longe de qualquer critério científico, só a partir das definições de determinação, detecção, seleção e promoção de talentos esportivos, que serão apresentados os problemas concernentes à determinação de (talento esportivo)T.E., respectivamente o dos critérios de desempenho, e, o do prognóstico de desempenho de(talento esportivo) T.E. A insuficiência metodológica das pesquisas relacionadas a talentos esportivos, infere que o perito na seleção e o metodólogo, têm a pretensão acima de tudo, de predizer com a maior precisão possível o futuro sucesso do atleta, explicar o que foi predito e como foi, de forma que a generalização empírica se transforme em princípios teóricos gerais. Colaborando com a idéia de que o talento esportivo é selecionado sem critérios definidos e se utiliza da subjetividade de um olheiro.
Todos estes aspectos, e suas inter-relações e a suas influências no desempenho esportivo nas diferentes fases do treinamento esportivo a longo prazo, devem ser levadas em consideração na determinação de um (talento esportivo)T.E., tanto na prática esportiva, assim como na pesquisa que tenha por objetivo fornecer subsídios científicos para esta importante área das Ciências do Esporte.
Portanto, apesar do(talento esportivo) T.E,ser apontada como uma das importantes e principais áreas de pesquisa em Educação Física,há um grande distanciamento entre o empírico/positivista ou etnográfico, e a aplicação no meio técnico.
O desempenho esportivo é a conseqüência de vários processos internos em diferentes níveis, não apenas de elaboração e de decisão do movimento, mas de inúmeras regulações autonômicas tais como da freqüência cardíaca, freqüência respiratória, substratos energéticos, temperatura, equilíbrio hidroeletrolítico e hormonal, as quais sofrem influências motivacionais e emocionais; todos esses processos adaptados às interferências de fatores ambientais, com especial ênfase ao Treinamento Físico, sendo assim independente de qualquer herança genética ou aptidão o individuo precisa também de saúde clinica.
O processo de seleção natural, baseado na experiência e na intuição dos técnicos, é o mais comumente verificado, em detrimento do processo de seleção prognostica, que vem a ser alicerçado em critérios de uma equipe multidisciplinar, de conteúdo e formação científica.
Para explicar o exposto acima, procede-se a uma explanação do funcionamento do Sistema Esportivo, levando ao entendimento dos processos estabelecidos entre os técnicos/treinadores, atletas e prováveis talentos esportivos.
Conforme analisado em 1999 por KISS e BÖHME, as questões relacionadas aos fatores físicos da condição geral do atleta pressuposto um talento esportivo continuam sendo estudadas em trabalhos da linha de pesquisa e avaliação de desempenho.

1.2.3 Talento esportivo II: determinação de talentos esportivos

Quando se investe no talento de uma criança não se deve crias expectativas muito fora da realidade, pois em fase de transformação pode ocorrer muitas mudanças no comportamento do individuo, inclusive começar a gostar de um determinado esporte e depois mudar totalmente o rumo, uma vez que nem todos os que demonstram algum talento em determinada idade tenha herança genética ou realmente um talento a ser desenvolvido, em alguns casos isso pode ser apenas influencias dos pais ou um momento pelo qual a criança esta passando.
Sabe-se que já existe autonomia e liberdade para a planificação dos programas esportivos com base na sua especialização, que tem por finalidade respectivamente detectar o talento esportivo e maximizar o rendimento esportivo de atletas e equipes.
Em uma análise de muitas pesquisas já realizadas sobre talento esportivo, Maia (1996) reconhece que o prognóstico do desempenho motor e esportivo apresenta insuficiências conceituais e metodológicas jamais abordadas de forma esclarecedora em qualquer estudo preditivo, especialmente por parte dos metodólogo e peritos na seleção em desporto.
Destacam, entre algumas características, o trabalho individual, a especificidade do conhecimento em suas modalidades esportivas e a responsabilidade de elaborar, aplicar e avaliar o treinamento desportivo com eficácia, autoridade e disciplina, priorizando o triunfo na competição.
Evidencia-se que muitos têm sido os estudos realizados por pesquisadores de diferentes países e continentes propondo modelos e metodologias para a identificação e desenvolvimento de talentos esportivos No entanto permanecem inúmeras dúvidas sobre a melhor forma de diagnosticar e prognosticar as possibilidades de alto desempenho das crianças e jovens atletas, significando que esse campo de pesquisa permanece aberto aos interessados.
as investigações realizadas no contexto esportivo competitivo apresentam uma diversidade de propriedades individuais que devem ser consideradas de fundamental importância para que indivíduos sejam categorizados como talentos esportivos.
Essa afirmação nos remete ao fato de que os estudos sobre os talentos esportivos têm sido de grande importância por motivos variados (predição, seleção, orientação, desenvolvimento, entre outros) e vêm exercendo grande influência para comunidade acadêmica, profissional e científica, no sentido de dar entendimento à realidade brasileira relativa ao talento esportivo.
Compreender o ser talento esportivo em sua mais completa abrangência não significa reduzi-lo às especulações sobre causas e conseqüências que o tornam um ente do Ser, supostamente possuidor de um diferencial genético privilegiado, acoplado a um também diferencial processo de detecção o qual foi submetido. Dessa maneira seria possível explicá-lo nas observações e nas aferições do empirismo analítico ou do positivismo lógico.
Para compreender este ser, talento esportivo deveria ser confrontado frente ao seu universo fenomenológico, interpretando-o pela compreensão dos nexos causais ou de decorrência de natureza biofísica.
Qual será o método mais adequado a ser empregado para determinar a existência de elevado potencial nesses indivíduos com o objetivo de oportunizá-los ao desenvolvimento à obtenção de alto nível de desempenho.
Na identificação do talento esportivo deve-se levar em consideração a composição corporal, biomecânica aplicada ao esporte, capacidades físicas básicas e flexibilidade no esporte. A influência do meio ambiente, família e particularmente a capacidade de desenvolvimento e aprendizagem na formação do atleta deve ser levada em consideração na indicação do talento esportivo, sendo que, o treinamento dos parâmetros psicológicos associados com jogos esportivos, na infância, melhoram a performance e o desempenho do atleta no futuro.
A revelação do talento esportivo por sua facticidade é, provavelmente fruto dessa interpretação da existência no mundo, revelando-o dentro dos limites de uma determinada realidade.
Para Sobral (1993) o termo seleção tem um significado muito preciso na biologia que difere substancialmente do significado que lhe podemos atribuir ao esporte.
Sempre é bom lembrar a carência de ídolos de qualquer segmento em qualquer sociedade, os quais surgem exatamente dessa necessidade de transcendência coletiva, a qual o individuo está inserido. Entendendo o ídolo como a junção de pessoa e atleta, formado pela valorização de suas qualidades tidas como acima da média considerada normal, pode-se considerar sua existência se não houvesse a necessidade e até a vacuidade de o inconsciente ou consciente coletivo de transcender as dimensões do imaginário e ir além de seus limites físicos, na forma mais surpreendente da expressão metafísica

2. Detecção, seleção e promoção de talentos esportivos Em ginástica rítmica desportiva: um estudo de revisão.

Questiona-se ainda sobre todo o complexo mercadológico de consumismo, e conseqüentemente de propaganda, atual que envolve algumas modalidades nas quais os talentos esportivos se expressam.
Alguns atletas brasileiros de alto rendimento atualmente são tidos e considerados talentos esportivos nas modalidades esportivas a qual pertencem, como por exemplo, na ginástica olímpica. Durante as suas atuações/apresentações percebe-se a expressão de excelência do Ser refletidas em sua energia, em seus rostos e corpos. Sendo assim, é possível perceber que as suas ações são carregadas de intenções na tentativa de superação dos seus próprios limites e resultados. Nestes momentos pode-se entender a intensa, longa e, por muitas vezes, desanimadora história de vida do desportista perante o seu empenho na luta corajosa de suas limitações.
Em alguns paises começa cedo o incentivo ao esporte e busca de talento esportivo deixando a criança se movimentar, andar, engatinhar pela casa toda, cair, machucar, conhecer e ter experiência com outras pessoas. Dessa forma a criança está vendo e experimentando o mundo em sua volta. A Flexibilidade é uma qualidade física muito importante que deve ser trabalhada desde cedo.
Porém nunca se deve deixar a criança sozinha, pois ela desenvolverá uma insegurança muito grande que lhe tolherá, psicologicamente. Então, ao se pensar em desenvolver talento desportivo, devem-se orientar os pais a como tratar essa criança.
Por fim, cabe uma pergunta: onde se encontra o talento esportivo, se não no princípio da substância, da essência, do acidente e, ainda, na percepção do seu espaço e do seu tempo.
Sobre a determinação de talentos esportivos residem ainda os seguintes questionamentos: o que caracteriza de fato, de um ponto de vista essencial, um talento esportivo? Isto é, para além do grau de dotação elevado para a prática de um desporto que se traduz na obtenção de elevadas performances, que características substantivas, e não necessariamente objetivas, deve possuir um talento esportivo?

CONCLUSÃO

O talento do individuo surge ligado à manifestação e afirmação da individualidade. Em visões gerais, o talento esportivo, no sentido amplo do termo, é a denominação atribuída a uma pessoa, que em determinada fase de desenvolvimento apresenta determinados pressupostos, com condições corporais e psicológicas acima da média normal, as quais com grande probabilidade podem atingir posteriormente um alto desempenho esportivo.

REFERÊNCIAS

HOFMANN, S. Zu einigen Grundfragen der Eignungsbeurteilung im Sport. Theorie und Praxis de Körperkultur, v.39, n.1, p.15-21, 1990.
KISS, M.A.P.D.M.; BÖHME, M.T.S.; REGAZZINI, M. Cineantropometria. In:GORAYHEB, N.; BARROS NETO, T.L. O exercício: preparação fisiológica,
avaliação médica, aspectos especiais e preventivos. São Paulo, Atheneu, 1999.
MAIA, J.A.R. O prognóstico de desempenho do talento esportivo: uma análise crítica. Revista Paulista de Educação Física, São Paulo, v.10, n.2, p.179-93, 1996.
MOSKATOVA, A.K. (1998). Aspectos genéticos e fisiológicos no esporte seleção de talentos na infância e adolescência. Rio de Janeiro: Grupo Palestra Sport.
MORENTE, M. G. (1980).Fundamentos de filosofia física (8a ed.).São Paulo: Mestre Jou.
WEINECK, J. Biologia do esporte. São Paulo: Manole, 1991.
SOBRAL, F. O estado de prontidão desportiva uma questão crucial do desporto infantojuvenil. Revista Horizonte, Lisboa, v. 10, n. 58, p. 133-137, 1993.

Orgulho e Preconceito

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Jane Austen (1775-1817), autora do livro Orgulho e Preconceito o livro, de 1813, conta a trajetória da inteligente jovem de 20 anos Elizabeth Bennet, que vive com suas quatro irmãs em uma cidade do interior. É quando chega a notícia que os Bingley alugaram um terreno disponível há algum tempo. Logo, em um baile tipo provinciano, as meninas são apresentadas ao novo morador da região, o Sr. Bingley. Com ele, vem um outro jovem, de aparência recrudecida e irritada, o velho amigo de infância: Sr. Darcy. Logo de cara, a aguda inteligência de Elizabeth choca-se com o caráter estrito e orgulhoso do Sr. Darcy.

O romance passa então a rodar entre as duas personagens. O livro pode ser apreciado de diversas maneiras, duas delas as mais indicadas: como romance histórico, com o panorama, a sociedade e a língua dos séculos XVIII-XIX; e como romance de costumes, devido à caricaturização genial de Jane Austen nos tipos personagens da época, como também a crítica aos casamentos interessados muito comuns na época. Orgulho e Preconceito tem sido traduzida para várias línguas estrangeiras e adaptada para o teatro, para a ópera e para vários filmes e televisão. A mais recente adaptação cinematográfica produzida foi lançada em 2005, e recebeu indicações para o Oscar para as categorias de atriz, figurino, direção de arte e trilha sonora. Que merece destaque no romance de Jane Austen é o fato de a autora conseguir contar essa história sem jamais descer o degrau da leveza. Há um tom delicado em sua narrativa que, se lido de outra forma, pode ser considerado arrogante e elitista.

Trata-se, na verdade, de uma leitura equivocada, visto que a escritora propõe uma narração sóbria e bastante detalhada para que o leitor possa entender com argúcia o que cada trecho, cada gesto das personagens possa ser decifrada.

SUMÁRIO

CAPITULO I – LIVRO ORGULHO E PRECONCEITO AUTORAANE AUSTEN
Personagens
O livro – Orgulho e Preconceito
A literatura
CAPITULO II ORGULHO E PRECONCEITO INDEPENDENTE DO LIVRO DE JANE AUSTEN
Orgulho
Preconceito
Resumo da Obra
Informações sobre as traduções do livro Orgulho e Preconceito de Jane Austen
CAPITULO III A MULHER E O CASAMENTO NO SECULO XVIII
O pensamento iluminista, século XVIII
A situação das mulheres no século XIX
Ironia
Ironia na visão de Sócrates
Tipos de ironia
Definição de Ironia
CONCLUSÃO
REFERENCIAS

CAPITULO I: LIVRO-ORGULHO E PRECONCEITO

Biografía de Jane Austen

Jane Austen nasceu em 16 de dezembro de 1775, em Steventon, Hampshire, Inglaterra, sendo a sétima filha do reverendo George Austen, o pároco anglicano local, e de sua esposa Cassandra (cujo nome de soltera era Leigh). O reverendo Austen era uma espécie de tutor, e suplementava os ganhos familiares dando aulas particulares a alunos que residiam em sua casa. A família era formada por oito irmãos, sendo Jane e sua irmã mais velha, Cassandra, as únicas mulheres. Cassandra e Jane eram confidentes, e hoje se conhece uma série de cartas de sua correspondência.

Em 1783, Jane e Cassandra foram para a casa da Sra. Cawley, em Southampton, para prosseguir a educação sob sua tutela, porém tiveram que regressar para casa, devido a uma enfermidade infecciosa em Southampton. Entre 1785 e 1786, ambas foram alunas de um internato em Reading, lugar que pode ter inspirado Jane para descrever o internato da Sra. Goddard, que aparece no romance Emma. A educação que Austen recebeu ali foi a única recebida fora do âmbito familiar. Por outro lado, sabemos que o reverendo Austen tinha uma ampla biblioteca e, segundo ela mesma conta em suas cartas, tanto ela quanto sua família eram “ávidos leitores de romances, e não se envergonhavam disso”. Assim como lia romances de Fielding e de Richardson, lia também Frances Burney. O título de Orgulho e Preconceito, por exemplo, foi retirado de uma frase dessa autora, no romance Cecilia.

Entre 1782 e 1784, os Austen fizera representações teatrais na reitoria de Steventon, que entre 1787-1788 foram mais elaboradas graças à colaboração de sua prima, Eliza de Feuillide, (a quem dedicou Love and Freindship). Nos anos posteriores a 1787, Jane Austen escreveu, para o divertimento de sua familia, Juvenilia, que inclui diversas paródias da literatura da época. Entre 1795 e 1799 começou a redigir as primeiras versões dos romances que se publicariam sob os nomes Sense and Sensibility, Pride and Prejudice e Northanger Abbey (que antes se intitulavam Elinor and Marianne, First Impressions, e Susan, respectivamente). Provavelmente, também escreveu Lady Susan nesta época. Em 1797, seu pai quis publicar Pride and Prejudice, mas o editor recusou.

Não há provas de que Jane foi cortejada por ninguém, apesar de um breve amor juvenil com Thomas Lefroy (parente irlandês de uma amiga de Austen), aos 20 anos. Em janeiro do ano seguinte, 1796, escreveu a sua irmã dizendo que tudo havia terminado, pois ele não podia casar por motivos econômicos. Pouco depois, uma tia de Lefroy tentou aproximar Jane do reverendo Samuel Blackall, mas ela não estava interessada.

Em 1800, seu pai decidiu mudar-se para Bath, cidade que Jane não apreciava muito, e nessa época a família costumava ir à costa todos os verões, e foi em uma dessas viagens que Jane conheceu um homem que se enamorou dela. Quando partiu, decidiram voltar a se ver, porém ele morreu. Tal fato não aparece, porém, em nenhuma de suas cartas, mas foi escrito muitos anos depois, e não se sabe o quanto esse namoro possa ter afetado Austen, ainda que alguns o considerem inspiração para a obra Persuasion.

Em dezembro de 1802, estando Jane e Cassandra com a família Bigg, perto de Steventon, Harris Bigg-Wither pediu Jane em casamento, e ela consentiu. Provavelmente, rompeu o compromisso no dia seguinte, e foi com Cassandra para Bath. Cassandra se havia comprometido com Thomas Fowle, que morreu de febre amarela no Caribe em 1797. Thomas Fowle não tinha condições financeiras para se casar, e o compromisso vinha sendo adiado desde 1794; havia ido ao Caribe como militar, justamente para conseguir dinheiro. Nem Jane, nem Cassandra Austen se casaram.

Residência da família Austen em Chawton, onde Jane passou os últimos oito anos de sua vida (hoje um museu).

Em 1803, Jane Austen conseguiu vender seu romance Northanger Abbey (então intitulado Susan) por 10 libras esterlinas, apesar de o livro ter sido publicado somente 14 anos depois. É possível, também, que nessa ocasião tenha começado a escrever The Watsons, logo abandonando a ideia.

Em janeiro de 1805, morreu seu pai, deixando a esposa e as filhas em situação economicamente precária, e elas passaram a depender de seus irmãos e da pequena quantia que Cassandra herdara de seu prometido.

En 1806 os Austen se mudaram para Southampton, perto da marina de Portsmouth, o que permitia a elas visitar frequentemente seus irmãos Frank e Charles, que serviam na marinha, chegando a almirantes.

Em 1809 se mudaram para Chawton, perto de Alton e Winchester, onde seu irmão Edward podia abrigá-las em uma pequena casa dentro de uma de suas propriedades. Esta casa tinha a vantagem de ser em Hampshire, o mesmo condado de sua infância. Uma vez instaladas, Jane retomou suas atividades literárias revisando Sense and Sensibility, que foi aceita por um editor em 1810 ou 1811, apesar de a autora assunir os riscos da publicação. Foi publicado de forma anônima, en outubro, como pseudônimo: “By a Lady”. Segundo o diário de Fanny Knight, sobrinha de Austen, esta recebeu uma “carta da tia Cass pedindo que não fosse mencionado que a tia Jane era a autora de Sense and Sensibility”. Teve algumas críticas favoráveis, e se sabe que os lucros para Austen foram de 140 libras esterlinas.

O livro – Orgulho e Preconceito

Orgulho e Preconceito é antes de tudo antes mesmo de pensarmos que se trata do tema de um livro famoso que virou filme estas palavras sendo distintas trata nada mais nada menos do comportamento humano em meio as famílias conservadoras e uma sociedade que ainda nos dias de hoje mantêm alguns costumes de certa forma frio e conservador.

Orgulho e Preconceito (ou, na versão original, Pride and Prejudice) é um romance da escritora britânica Jane Austen, publicado em 1813. O livro foi escrito antes dela completar vinte e um anos, em 1797,e era inicialmente chamado First Impressions, mas nunca foi publicado com esse título.A história do livro Orgulho e Preconceito da autora Jane Austen lida com os problemas relacionados à educação, cultura, moral e casamento na sociedade aristocrática do início do século XIX, na Inglaterra. Apesar de a história se ambientar no século XIX, tem exercido fascínio mesmo nos leitores modernos, continuando no topo da lista dos livros preferidos e sob a consideração da crítica literária. O interesse atual é resultado de um grande número de adaptações e até de pretensas imitações dos temas e personagens abordados por Austen.A literatura atrai os leitores pelo fato de se tratar de um tema polémico,mas também por ser um romance que envolve esse tema, isso desperta a curiosidade do desfecho da história.

Segundo alguns críticos literário, Jane Austen criou o estilo que conquistou o gosto de todo mundo, a comédia romântica, Orgulho e Preconceito é sua obra prima, uma história deliciosa em que o par romântico vive se desencontrando por vários mal entendidos.

A mocinha, valente, à frente do seu tempo, que acredita no amor sem interesses e se recusa a viver de conveniência, e o mocinho… Galante, bonitão e convenientemente rico

O livro fala do alvoroço que um jovem rico causa em uma sociedade rural, onde os namoros eram bem comportados, restringiam-se a olhares e rodadas de dança nos bailes… A partir daí, a história se desenvolve, vívida e divertida.

Personagens:

A trama se desenvolve com os seguintes personagem:

• Elizabeth Bennet é a personagem principal, o leitor observa os acontecimentos, na verdade, sob o ponto de vista dela.
• Fitzwilliam Darcy é o protagonista masculino. Com 28 anos, solteiro, Darcy é o proprietário da famosa Pemberley, em Derbyshire. Bonito, alto e inteligente, mas socialmente mais reservado, seu decoro e retidão morais são vistos por muitos como um excessivo orgulho devido ao seu status social.
• Mr Bennet tem uma esposa e 5 filhas. Um culto e inteligente cavalheiro que não aprova a frivolidade da esposa e das 3 filhas mais novas. Tem um bom relacionamento com as duas filhas mais velhas, Jane e Elizabeth, as quais parece preferir em comparação às outras filhas e à esposa.
• Mrs Bennet é a esposa de Mr Bennet e mãe de Elizabeth e suas irmãs. Frívola, ansiosa, inadequada e pouco inteligente, é sucetível a ataques, tremores e palpitações. Suas maneiras em público causam embaraço em Jane e Elizabeth. Sua filha favorita é a mais jovem, Lydia, a quem tudo permite.
• Jane Bennet é a mais velha das irmãs Bennet. Tem 22 anos quando a história começa, e é considerada a mais bela jovem do local. Seu caráter contrasta com Elizabeth, pois é doce, reservada, sensível, mas não tem muita malícia, prefere ver apenas o lado bom das pessoas.
• Mary Bennet é a mais franca das irmãs Bennet e prefere, ao invés de costura, a leitura; esforça-se para se instruir, mas não tem nem genialidade, nem gosto. No baile em Netherfield, ela embaraça sua família ao cantar muito mal.
• Catherine “Kitty” Bennet é a 4ª irmã Bennet, tem 17 anos, é teimosa e tão tola quanto sua irmã Lydia, e vive à sombra dela.
• Lydia Bennet é a mais jovem das irmãs Bennet, tem 15 anos, e é descrita como frívola e teimosa. Socialmente, gosta de flertar com os militares que estão alojados em Meryton. Domina sua irmã Kitty e é defendida, sempre, pela mãe. Após sua fuga e casamento com Wickham, ela não demonstra remorso pelo embaraço que suas ações causaram para a família, mas age como se tivesse feito algo maravilhoso, e como se suas irmãs tivessem inveja de sua situação.
• Charles Bingley é um jovem cavalheiro que aluga uma propriedade em Netherfield, perto de Longbourn, no início da história. Tem 22 anos, é bonito, generoso, forte e contrasta com seu amigo Darcy por ser mais alegre, brincalhão e charmoso, ficando muito popular em Meryton. Bingley é, porém, facilmente influenciável pela opinião das outras pessoas.
• Caroline Bingley é a irmã snob de Charles Bingley. Com intenções de se relacionar com Darcy, ela observa Elizabeth Bennet com muita inveja, e frequentemente dirige sutis ofensas à Elizabeth e sua sociedade.
• George Wickham é um antigo conhecido de Darcy, de infância, e um oficial que está alojado perto de Meryton. Superficialmente charmoso, faz amizade rapidamente com Elizabeth Bennet, e comenta vários fatos sobre Darcy, incentivando a impopularidade dele na sociedade local; posteriormente, os fatos verdadeiros são revelados, mostrando ser Darcy a ter razão nas questões entre os dois.
• William Collins, tem 25 anos, é clérigo e primo de Mr. Bennet, que não tem filhos homens, portanto, tem Collins como seu herdeiro. Austen o descreve como insensível e interesseiro, que se humilha e submete sob as ordens de Lady Catherine de Bourgh, a quem serve e venera. Considerado pomposo por Mr Bennet, Jane e Elizabeth, há rejeição de seu pedido de casamento com Elizabeth, porém essa se entristece quando sabe que sua amiga íntima, Charlotte Lucas, aceitou casar com ele, por interesse no status social.
• Lady Catherine de Bourgh é uma aristocrata dominadora, ponderosa e orgulhosa, que humilha e é servida pelos que a rodeiam, entre eles Mr. Collins, que faz todos os seus desejos. Elizabeth, porém, não é intimidada por ela, que a ofende na tentativa de que Elizabeth não case com Darcy.
• Mr Gardiner é irmão de Mrs Bennet, é um homem de negócios sensível e cavalheiro, que tenta ajudar Lydia quando ela foge com Wickham. Sua esposa tem bom relacionamento e amizade com Elizabeth e Jane. Jane fica em casa deles quando vai a Londres, e Elizabeth viaja com eles para Derbyshire, quando reencontra Darcy.

Os personagens genuinamente românticas vão se construindo ao longo da história, no meio de situações que os predispõem a julgar uns aos outros, segundo suas próprias reações psicológicas e aparentes atitudes alheias – as quais nem sempre demonstram a verdade dos fatos, ao invés de se permitirem uma comunicação direta e simples (talvez por causa dos costumes da época em que a trama se passa, e também da cultura local).

No centro da história está Elizabeth Bennet, segunda mais velha numa família de cinco irmãs, que vive com seus pais e um relativo conforto no ano de 1797, na Inglaterra. A heroína do livro não se encaixa nos padrões que as moças da época deveriam seguir e recusa-se a correr atrás de pretendentes, como desejava a matriarca da família, a Sra. Bennet, que queria à todo custo, ver suas filhas casadas e de preferência, com um marido de alto poder aquisitivo.

Mr. Darcy no começo do livro, ele é uma figura soturna que prefere ficar quieto a dizer alguma coisa, por vezes é tido com uma pessoa mal educada, além de muito inteligente ele é um bom manipulador. No começo do livro Darcy é o próprio “Orgulho e Preconceito”, mas ao se descobrir apaixonado por Elizabeth aos poucos vai se moldando até ganhar a admiração de Lyzzie.

A literatura

Um retrato fiel, divertido e inteligente da sociedade inglesa do início do séc. XIX. Os costumes, o amor, a condição da mulher, os preconceitos e o casamento são abordados de maneira simples e engenhosa neste livro, considerado uma das primeiras comédias românticas da história e uma obra-prima da literatura universal.

A leitura do livro é bastante lenta, e a narrativa é cheia de detalhes: cenários, emoções e pensamentos são esmiuçados de forma incisiva e também espirituosa. Jane Austen é irônica, firme, mas sensível e é difícil não adorar a protagonista do livro e não torcer pelo casal.

“Orgulho e Preconceito”, dito assim, parece ser um romance comum, no melhor estilo “Sabrina”, mas engana-se quem pensa assim! Jane Austen criou uma fórmula que muitos autores posteriores tentariam seguir. A maioria deles não teve êxito, pois, talvez não captaram a essência do livro: além do embate amoroso central, existe também uma forte crítica aos costumes da época, coisa que pouquíssimos escritores desenvolviam naquele tempo. A personagem Elizabeth não é uma versão “fictícia” da autora, mas possui muito em comum com ela. As duas, na vida e na ficção, buscavam lutar contra a realidade “acomodada” que vivenciavam, reclamando das futilidades que eram tão freqüentes e dos hábitos opressores.

O livro pode ser considerado como o apontar de um dedo acusador ao caráter abusivamente discriminatório de uma lei que impede as mulheres de herdarem os bens ou as propriedades da família, os quais, na falta de um herdeiro direto varão, passariam para o parente masculino mais próximo – um primo, por exemplo – colocando as descendentes diretas numa situação financeira bastante complicada quando não bem próximo da indigência.

O amor na obra de Jane Austen possui conotações românticas, não é interpretado como uma ilusão de mocinha; ainda não há nela a irreverência incondicional e a crueza de um romance plenamente realista.

Entretanto, também podemos observar aspectos do Realismo na obra: a abordagem crítica repleta de ironia refinada dos costumes, preconceitos e convenções de setores da sociedade, dos valores mesquinhos e da arrogância; os jogos de interesses estão explícitos, sobretudo quando o assunto é casamento como fonte de ascensão social ou implicando outros “dotes” materiais como a expansão de relações sociais, levando até mesmo para conquistá-lo a manipulações e auto-negação.

Longe de causar desilusão ou indiferença, esta obra revelou-se capaz de satisfazer tudo o que a sua reputação fazia crer, ao transportando-nos para o seio da família Bennet, da qual faz parte a protagonista desta história deparamo-nos com uma Inglaterra rural, nos finais do século XVIII, na qual os dogmas e preconceitos sociais regem uma sociedade rígida e mesquinha, na qual nem tudo é o que parece.

Os preconceitos de cada uma delas fá-las pensar e agir sem o uso racional da consciência, levando-as a atos absurdos ou conceitos precipitados.

No entanto, quebrando muitas das regras até então impostas pelo orgulho, os protagonistas desta história amadurecem e aprendem com os seus erros, passando a encarar o futuro e a realidade a partir de uma nova perspectiva, na qual só o mais irracional sentimento importa.

Assim, dentre as várias escritoras inglesas, Jane Austen (1775- 1817) traz inovação no seu trabalho e recebe lugar de destaque na literatura a partir século XVIII por descrever um mundo doméstico em suas obras.

Segundo Burgess (2006) a reputação de Jane Austen (1775-1817) nunca foi tão alta na historiografia literária inlgesa. Ela não é datada: seus romances têm frescor, humor e uma delicadeza apreciável. Austen foi a primeira mulher que se tornou importante, está acima dos movimentos clássico e romântico e não pode ser enquadrada em nenhuma escola literária específica.

Sua obra literária impulsionou o romance inglês para a modernidade. Posteriormente, a crítica veio a considerá-la a primeira romancista moderna da literatura inglesa.

Orgulho e Preconceito têm sido traduzidos para várias línguas estrangeiras e adaptada para o teatro, para a ópera e para vários filmes e televisão. A mais recente adaptação cinematográfica produzida foi lançada em 2005, e recebeu indicações para o Oscar para as categorias de atriz, figurino, direção de arte e trilha sonora. Há dois séculos inteiros, leitores e espectadores continuam sofrendo com a trama vivida por Elizabeth e Mr. Darcy, os quais parecem impossibilitados por uma série de fatores sociais de se entregar ao amor que sentem um pelo outro.

CAPITULO II: ORGULHO E PRECONCEITO INDEPENDENTE DO LIVRO DE JANE AUSTEN

Orgulho

Há dois graus no orgulho: um, em que nos aprovamos a nós próprios, o outro, em que não podemos aceitar-nos, este provavelmente seja o requintado, pensava o filósofo (Henri Frédéric Amiel).

O orgulho de certa forma divide os homens, mas também os une pois já vimos por diversas vezes movimentos, passeatas tentando mostrar ao mundo o orgulho que sente por alguma coisa, como por exemplo o movimento dos gays, neste sentido se pode dizer que trata-se do orgulho no bom sentido da palavra, mas nem sempre o orgulho e visto desta forma,pois existe uma forma muito comum de se ouvir dizer (como tal pessoa é orgulhosa), quando vimos o orgulho por este prisma estamos falando que uma pessoa orgulhosa é aquela que se acha imbatível, nunca abaixa a cabeça para nada e nem ninguém e nunca dá o braço a torcer.

Não sabemos na verdade a definição tens de orgulho e orgulhoso. No dicionário, fala de arrogância, presunção e vaidade excessiva. Digamos que a definição de orgulho vem do Inglês Pride e do Francês Orgueil, que tem a ver com um grande sentido de dignidade pessoal, por esse e outros motivos as vezes definomos uma pessoa orgulhosa assim:

Arrogante, antipática e ignorante porque faz tudo sozinha e nunca pede ajuda porque não quer dar o braço a torcer.

Preconceito

• Preconceito segundo o dicionário;

Conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério,superstição,prejuízo,Erro

• Tipos de preconceito

Existe preconceito racial (racismo), sexual (machismo), contra gays (homofobia), religioso, contra idosos, contra os pobres, contra deficientes físicos e mentais, contra tipo de comportamento (emos, punks,etc…), contra estrangeiros (esse acontece mais no exterior do que no Brasil), contra pessoas ora do padrão de beleza da sociedade, etc…

Todos temos algum tipo de preconceito, pela educação, pelo meio em que vivemos, pela influência recebida desde criança.

A palavra pre-conceito separando a palavra com hífen se percebe o que quer dizer, algo que se pensa antes de saber exatamente o significado.

Conceito tem origem no latim, conceber (concipâre). E refere-se a uma noção ou definição abstrata de algo real ou hipotético. Então cada vez que somos preconceituosos estamos emitindo um juízo de valor a algo que ainda não foi concebido, mas que eu a priori já temos uma idéia formada do mesmo sem necessariamente comprovada a verdade ou não.

O preconceito por ignorância, vem quase sempre da falta de diálogo ou informação com a aprendizagem, com a partilha de conhecimento/informação e graças fantásticas novas tecnologias e liberdade de expressão hoje em dia podem ser solucionado sem grandes esforços.

A complexidade da real origem dos preconceitos é uma das grandes dificuldades que o ser humano enfrenta para entender como respeitar e amar o próximo de forma objetiva e sensata.

Voltando deste trabalho que (orgulho e preconceito) baseado no livro Orgulho e Preconceito, lembrando que, Orgulho e Preconceito é a obra mais conhecida de Jane Austen. A autora mostrou como o amor entre os protagonistas era capaz de superar barreiras de orgulho e preconceito, a diferença social entre eles e o escasso poder de decisão concedido à mulher na sociedade da época.

O romance retrata a relação entre Elizabeth Bennet (Lizzy) e Fitzwilliam Darcy. Lizzy possui outras quatro irmãs, nenhuma delas casadas, o que a Sra. Bennet, mãe de Lizzy, considera um absurdo. Quando o Sr. Bingley, jovem bem sucedido, aluga uma mansão próxima da casa dos Bennet, a Sra. Bennet vê nele um possível marido para uma de suas filhas.

Enquanto o Sr. Bingley é visto com bons olhos por todos, o Sr. Darcy, por seu jeito frio, é mal falado. Lizzy, em particular, desgosta imensamente dele, por ele ter ferido seu orgulho na primeira vez em que se encontram. A recíproca não é verdadeira. Mesmo com uma má primeira impressão, Darcy realmente se encanta por Lizzy, sem que ela saiba do fato. A partir daí o livro mostra a evolução do relacionamento entre eles e os que os rodeiam, mostrando também, desse modo, a sociedade do final do século XVIII.

A obra literária de Jane Austen deu ao romance inglês o primeiro impulso para a modernidade, ao tratar do cotidiano de pessoas comuns.

Elizabeth Bennet a personagem principal do livro apesar de bem humorada demonstra sem sombra de duvidas certa arrogância e orgulho além do preconceito bem claro contra o Sr. Darcy, pois como foi descrito anteriormente quando se falava aqui sobre orgulho e preconceito, Elizabeth Bennet ela claramente pré-julgava suas atitudes sem se quer procurar saber se seus pré-julgamentos tinham algum sentido, pois percebe-se que era o orgulho que mantinha a Srtª. Elizabeth Bennet usando um linguajar popular “com o nariz empinando”.

Já em se tratando do personagem principal Sr. Darcy, o orgulho que se descreve no inicio da trama mais se assemelhava a certa arrogância e imponência devido à forma e convívio em que foi criado, com relação a preconceito o Sr. Darcy colocava em questão às vezes o comportamento da família Bennet de um modo geral, pois em se tratando de uma família provinciana e do interior tinham costumes meio extravagantes para os modos tão refinados do Sr. Darcy e principalmente de sua tia Lady Catherine que era o próprio preconceito em pessoa.

Resumo da Obra

Este apreciado romance de Jane Austen aborda de uma forma maravilhosamente agradável os temas casamento, riqueza, posição social e costumes no período regencial, e que consegue tocar de forma bastante apropriada na sociedade sem classe de hoje. A família Bennet: Sr. e Sra. Bennet e suas cinco filhas em idade núbil são lançados num entusiasmo antecipado quando ficam sabendo que o Netherfield Park (Local de grandes mansões perto dali) está para ser deixado ao muito rico e solteiro Sr. Bingley. Em particular, a Sra. Bennet é extremamente ansiosa para que uma de suas filhas consiga um temperado marido de família afortunada e quer ter certeza que ela o conheça o mais cedo possível. As coisas começam a sair conforma o plano, pois o Sr. Bingley mostrou ter preferência pela filha mais velha, Jane. Seu amigo, Sr. Darcy (Que é mais bonito e mais rico do que Bingley), é pouco popular, por causa da sua extrema indiferença e orgulhosa atitude, e é geralmente tido como muito desagradável.

Ele, particularmente não é aprovado por Elizabeth Bennet, que o escutou dizer a Bingley que ela não era bonita bastante para dançar com ele. Embora Darcy comece a desenvolver admiração por Elizabeth, a atitude dela em relação a ele é de bastante desprezo. Elizabeth é uma mulher inteligente, mas ela torna-se parcial com ele porque acredita que ele seja arrogante e desaprova sua própria família. Estes sentimentos foram assimilados por ela num encontro com o encantador Sr. Wickham, que lhe disse que ele havia sido promovido pelo pai de Darcy e Darcy ficou com ciúmes desta relação e acabou impedindo-o de receber a promoção que lhe dera o falecido Sr. Darcy (Pai). Enquanto isso, o relacionamento de Jane e Bingley parece se desenvolver positivamente, mas as esperanças de Jane são abaladas quando Bingley deixa Netherfild para retornar a Londres sem se despedir e dar qualquer explicação.

Elizabeth rejeita a proposta de casamento de seu obsequioso primo, Sr. Collins, muito pela desaprovação de sua mãe, que tem esperança de vê-la casada com alguém de dinheiro. Então o Sr. Collins acaba casando-se com sua amiga, Charlotte, e logo depois disso Elizabeth vai visitá-los e lá encontra a formidável tia de Darcy, Lady Catherine de Bourgh. Na oportunidade Elizabeth fica sabendo por um amigo comum que foi Darcy o mentor da mudança de Bringley para Londres a fim de salvá-lo de um casamento imprudente. Elizabeth entendeu que isto foi uma interferência entre Bringley e sua irmã Jane e ficou furiosa. Quando Darcy, para sua surpresa, declara seu amor por ela e lhe faz a proposta, ela recusa furiosamente e o indaga a respeito das informações sobre Bringley e Wickhan. Eles discutem e partem cada um pro seu lado com hostilidades. No dia seguinte ela recebe uma carta dele que explica suas razões para separar Bringley de Jane e pede desculpa por ter lhe ferido o sentimento.

Ele também lhe esclarece a respeito da história de Wickham, cujo caráter é realmente da pior espécie, que ele levou vantagem sobre seu pai Darcy, usando o dinheiro que lhe foi dado para uma vida de “inatividade e dissipação” e planejando fugir com a irmã de Darcy. Então Elizabeth percebe que ela foi preconceituosa contra Darcy, mas acredita que é muito tarde para eles reavivarem sua amizade. Retornando para casa, ela se comporta com frieza em relação a Wickham, que parte com seu regimento para Brighton, lugar que a irmã mais nova de Elizabeth, Lydia, planeja também visitar. Elizabeth, crendo que as informações recebidas são confidenciais, não diz nada a sua irmã do que ficou sabendo a respeito de Wickham, e espera que ela nunca mais o veja novamente. Agora Elizabeth vai visitar sua tia e seu tio em Derbyshire, e lá eles estão organizando uma viagem para visitar a grande casa de Darcy, Pembereley. Acreditando que Darcy não está lá, Elizabeth concorda em ir.

A casa é muito impressionante, mas, quando olhando a casa eles começam a caminhar pelo extenso jardim, Elizabeth fica estarrecida ao ver Darcy chegando e vindo para falar-lhes e ela fica muito embaraçada, pensando que ele poderia ter uma má interpretação sobre a razão dela estar ali. Entretanto ele foi muito cortês com sua tia e seu tio, os quais ficaram agradavelmente surpresos após a descrição prévia de seu caráter por Elizabeth. Durante sua estadia em Derbyshire, Elizabeth recebe uma carta de Jane informando terrível notícia, que Lygia tinha fugido com Wickham. Imediatamente Elizabeth foi depressa para casa, após transmitir a notícia para Darcy, e acreditando que a notícia faria com que ela e sua família se tornassem mais desagradável a ele. Um terrível período de temor e confusão sucedeu, mas eventualmente os dois foram encontrados e Wickham foi forçado a casar com Lydia, com a promessa de uma larga renda. Os Bennets ficaram confusos a respeito da origem do dinheiro.

Mas logo ficou revelado para Elizabeth que foi Darcy quem achou os dois e providenciou o dinheiro, o que fez aumentar mais a sua admiração por ele. Outra notícia interessante foi que Bringley retornou à Netherfield e propôs casar com Jane, para o deleite de todos.Então Darcy e Elizabeth tiveram que admitir para eles mesmos que foram orgulhosos e preconceituosos, e, num dos mais emocionantes finais de romance que se pode ler, o casal veio finalmente declarar seu amor um pelo o outro.

Por mais que o livro orgulho e preconceito tenha sido escrito há muito tempo, dá para notar como a história se adapta aos dias de hoje. A obra literária de Jane Austen deu ao romance inglês o primeiro impulso para a modernidade, ao tratar do cotidiano de pessoas comuns.

Citado pela autora;

“Como bom cristão, tendes de perdoá-los, mas jamais deveis admiti-los na vossa presença, ou permitir que os seus nomes sejam mencionados diante de vós.” Jane Austen (Orgulho e Preconceito).

Segundo ao escritor Lúcio Cardoso (1913-1968), foi minuciosamente estudada a sociedade daquele tempo, a mediocridade dos seus tipos, o ridículo dos seus hábitos, a vaidade e a tolice de burgueses e nobres que o preconceito separava.

Mesmo em se tratando de uma época em que as mulheres eram submissa aos homens exceto a Sra. Bennet que extrapolando os costumes tinha um comportamento diferente, uma parte do livro de Jane Austen (Orgulho e Preconceito) que chamou a atenção de muitos criticos e leitores foi a parte que ela expos o fato de as mulheres não poderem receber heranças deixada pela família, mas mesmo sabendo que para herdar os bens que seus pais poderiam deixar Elizabeth recusa-se a aceitar um arranjo baseado exclusivamente na conveniência, ela vê Mr Darcy, considerado um ‘bom partido’, como pessoa orgulhosa e inflexível; no decorrer da história ela perceberá seu próprio preconceito, a verdadeira natureza dele e, mais importante, de si mesma.

Informações sobre as traduções do livro Orgulho e Preconceito de Jane Austen

O que poderia ser uma típica história de amor é, nas mãos de uma das escritoras de língua inglesa mais difundidas pelo mundo, um espetáculo de grandes personagens e diálogos sagazes, com um tom perfeito para a ironia.

Ivo Barroso, poeta e tradutor, fez uma ótima apresentação abrangendo todos os aspectos da obra de Jane Austen, inclusive os atuais como se lê neste trecho,

Com base em suas narrativas, tem sido feitas inúmeras adaptações cinematográficas, algumas bem recentes até, daí falar-se num revival de Jane Austen – mas a expressão é inadequada, pois a autora de Razão e sentimento (1811), Orgulho e preconceito (1813), Mansfield Park (1814) e Emma (1816) nunca esteve literariamente morta, embora tenha falecido para o mundo há quase dois séculos. Seus leitores – e não só de língua inglesa – têm sido fiéis, constantes e crescentes em todos estes anos que viram a obra literária, atingiu fabulosas tiragens, comparáveis apenas com as da Bíblia e de Shakespeare.

Continuando na visão de Ivo Barroso, o nome do romance, apropriadíssimo, descreve a maneira em que seus protagonistas se conheceram; Elizabeth e seu amado Fitzwilliam Darcy tiveram uma péssima primeira impressão mútua, mas ao superarem não só os próprios orgulhos e preconceitos, como também o da própria sociedade, passaram a enxergar como ambos realmente são, e se apaixonaram. O feminismo é um tema constante na obra, pois as personagens femininas são independentes e a submissão feminina é tratada com muito desprezo – algo incomum e revolucionário na época.

CAPITULO III: A MULHER E O CASAMENTO NO SECULO XVIII

Nas famílias burguesas, do século XVIII, a “nuclearização” e a interdição a masturbação assumiram progressivamente o centro do discurso e da visibilidade e, conseqüentemente, das preocupações.

As mulheres das classes superiores tinham que entender cedo que a única porta aberta para uma vida que fosse, ao mesmo tempo, fácil e respeitável era a do casamento. “Logo, ela dependia de sua boa aparência, nos conformes do gosto masculino daqueles dias.

“Permanecer solteira era considerado uma desgraça e aos trinta anos uma mulher que não fosse casada era chamada de velha solteirona. Depois que seus pais morriam o que elas podiam fazer, para onde poderiam ir? Se tivessem um irmão, poderiam viver em sua casa, como hóspedes permanentes e indesejados. Algumas tinham que se manter e, então, as dificuldades apareciam. A única ocupação paga aberta a essas senhoras era a de governantas, em condições desprezadas e com salários miseráveis. Nenhumas das profissões eram abertas as mulheres; não havia mulheres nos gabinetes governamentais; nem mesmo trabalho de secretaria era feito por elas.Segundo, Louisa Garrett Anderson, (1860)

“…os pais acreditavam que uma educação séria para suas filhas era algo supérfluo: modos, música e um pouco de francês seria o suficiente para elas. Aprender aritmética não ajudará minha filha a encontrar um marido, esse era um pensamento comum. Uma governanta em casa, por um breve período, era o destino habitual das meninas. Seus irmãos deviam ir para escolas públicas e universidades, mas a casa era considerada o lugar certo para suas irmãs. Alguns pais mandavam suas filhas para escolas, mas boas escolas para garotas não existiam. Os professores não tinham boa formação e não eram bem educados. Nenhum exame público (para escolas) aceitava candidatas mulheres”,Louisa Garrett Anderson, (1839).

O pensamento iluminista, século XVIII

O pensamento iluminista foi responsável por uma profunda mudança no modo de pensar do homem europeu do século XVIII. Em torno de um pensamento abstrato e teológico ele contrapõe um pensamento baseado na razão. A resposta sobre a problemática humana deve ser buscada na razão, não em Deus.

Os pensadores iluministas teorizavam, debatiam e concluíam que somente a partir do uso da razão, os homens atingiriam o progresso político, social, material E etc.

“Para a maior parte dos filósofos iluministas á mulher faltava a razão ou, na melhor das hipóteses, possuíam um raciocínio inferior. Segundo eles, não existem mulheres capazes de invenção, elas estão excluídas da genialidade, ainda que possam ter acesso e algum sucesso no campo da literatura e em certas ciências menores.

Essa incapacidade é baseada numa psicologia “natural”. A mulher é um ser da paixão e da imaginação, não do conceito.

Alguns deles até acreditava que a mulher não fosse totalmente desprovida de razão, mas essa faculdade é, na mulher, mais simples e elementar do que nos homens e devem cultivá-la apenas para assegurar o cumprimento de seus deveres naturais (obedecer ao marido, ser-lhe fiel, cuidar da casa e dos filhos, etc.).

Segundo o Jean-Jacques Rousseau um dos grandes filósofos do Iluminismo, a mulher mantém-se perpetuamente na infância; ela é incapaz de ver tudo que é exterior ao mundo fechado da domesticidade que a natureza lhe legou, e daí resulta que ela não pode praticar as “ciências exatas”.

A única ciência, para além dos seus deveres domésticos, que ela deve conhecer é a dos homens que a rodeiam e, essencialmente, a do seu marido, e que é baseada no sentimento. O mundo doméstico, afirma Rosseau, é o livro das mulheres, e não há necessidade de qualquer outra leitura. A incapacidade de raciocinar como o homem gera na mulher a impossibilidade de compreenderem assuntos de ordem religiosa: é por essa razão que a filha deve ter a religião do pai e toda a mulher a do seu marido.

A procura das verdades abstratas e especulativas, os estudos filosóficos e matemáticos não estão ao alcance do raciocínio das mulheres.

Os seus estudos devem estar relacionados á prática; a elas cabe aplicar as soluções e propostas que o homem, com sua mente privilegiada, descobriu.

Uma das preocupações do “século das luzes” é pensar a diferença feminina, diferença sempre marcada pela inferioridade. Trata-se de conferir ás mulheres apenas papéis sociais: esposa, mãe, dona de casa. É por essa função doméstica que a mulher pode, de algum modo, ser cidadã. Mas cidadã sem a competência para se envolver em política, cuja análise só poderia estar ao alcance dos homens. Podemos dizer que a ideologia mais representativa do século XVIII consiste em considerar que o homem é a causa final da mulher. Jean-Jacques Rousseau (século XVIII).

A situação das mulheres no século XIX

A educação da mulher durante a época de Jane Austen não existia um sistema de educação propriamente dito, e a educação das crianças era feita nas escolas dominicais, ou, no caso das famílias mais abastadas, através de tutores. Por outro lado, existiam algumas “escolas para damas”, que tinham má reputação, pois ofereciam uma educação deficiente. Também era comum mandar os filhos homens para viver na casa de um tutor, como o era o pai de Jane Austen. Crescendo nessa casa, pode-se supor que a autora foi uma mulher bastante instruída para seu tempo.

O tratado de educação mais relevante para a época era o Emilio de Rousseau, que tem suas bases no Iluminismo. Rousseau propunha que todos os males de sua época se originavam na própria sociedade, e que a única alternativa era provocar uma transformação no homem através da educação; uma educação que o permitisse libertar-se da corrupção que provoca a sociedade. A influência do Iluminismo fez com que se começasse a criar um sistema educativo fundamentado na razão. Sem dúvida, tanto em Rousseau, como em muitos outros pensadores do Iluminismo, a mulher estava excluída dessa necessidade educativa.

Como exemplo, em Emilio se faz referência à educação da mulher através da sugestão para Sofía, a mulher destinada a casar-se com Emilio: a mulher deve ser educada para cumprir suas funções de esposa e mãe, e obedecer a seu marido.[8] Sendo assim, não é de se estranhar que numerosos tratados de conduta para mulheres jovens se popularizaram no século XVIII, ensinando doutrinas morais e enfocando a educação em aspectos domésticos, religião e “talentos”, e separando-as de outros conhecimentos, que a tornariam pouco desejável aos olhos masculinos.

Há muitas passagens na obra de Jane Austen dedicadas aos “talentos”, porém se há algo que todas as obras têm en comum é que nenhuma de suas heroínas está muito interessada por eles. Por talentos, então, se pode entender as diferentes habilidades que uma mulher que busca marido deve cultivar para atrair a atenção dele.

“Acho incrível”, diz Bingley, “como todas as jovens têm tanta paciência para cultivar todos esses talentos”. (…) “Todas pintam, forram biombos e fazem bolsas. Não conheci uma que não saiba fazer tudo isso, e estou seguro de que jamais me falaram de uma jovem pela primeira vez sem referir-se a quão talentosa ela era”. (…) “Uma mulher deve ter um amplo conhecimento de música, canto, desenho, dança, e línguas modernas para merecer essa palavra (talentosa); e, aparte de tudo isso, deve haver algo em seu ar e em sua maneira de andar, no tom de sua voz, em sua forma de relacionar-se com as pessoas, e em sua expressão que, se não for assim, não merecerá completamente a palavra”.(Jane Austen, Pride and Prejudice)

Jane Austen advoga, em seus romances, por uma educação liberal para a mulher, independente de todos esses “talentos”, pois considera a falta de sensatez um grande risco para a vida social, para a escolha de um futuro favorável, e para a convivência conjugal.

A educação da aristocracia no século XVIII foi detestável. A mulher não tinha infância; a sua primeira educação consistia em fazer da criança uma pequena grande dama, maneirosa e de graças artificiais. Antes de saber ler, à pequenina nobre ensinava-se fazer reverências. Quando a mandavam às Tulherias,(palácios) recomendavam-se que não saltasse, que não corresse, que mantivesse um ar de grande senhora.Se ia a um baile infantil, punham lhes cabeleira postiça com grinalda de flores, e proibiam-lhe que se despenteasse. Muito cedo ia para o convento, onde lhe era dada uma educação meio mundana, meio ascética, uma educação que ia desde o catecismo à lição de reverências. Nos conventos amontoavam-se esposas divorciadas, amantes de príncipes, viúvas mais ou menos inconsoláveis e toda essa população dava ao convento um ar hipócrita e mundano, tão deletério para as jovens educadas. Nos claustros repercutiam os ecos mundanos de Versalhes e de Paris.

Nesse século a mulher não tinha mãe, como não tinha infância. Via o filho ao nascer e no dia em que voltava da casa da ama; durante os poucos anos que sua filhinha passava em casa, ficava sob os cuidados da mestra, num andar, à parte, donde descia para ver a mãe e com ela passar apenas cinco minutos. No convento poucas vezes era vista pela mãe; via-a no parloir, em um passeio ao boulevard, ou então quando lhe vinha anunciar, que lhe tinha destinado um marido e que era preciso começar o enxoval,era assim educada a mulher do século XVIII.

A defesa da igualdade de direitos que incendiou os séculos XVIII e depois o século XIX acabou por estimular as mulheres exigirem os mesmos direitos que os homens. Uma das primeiras mulheres a fazê-lo foi a inglesa Maria Wollstonecraft (1759-1797). Na sua conhecida obra Vindication of the Rights of Woman (Reinvindicação dos Direitos da Mulher), publicada em 1792, exige a igualdade de direitos políticos entre homens e mulheres.

Embora o liberalismo fizesse da igualdade dos direitos um dos seus princípios basilares, a verdade é que abria também muitas exceções para a atribuição dos direitos “universais”, mesmo para os homens: Os direitos políticos eram negados à maioria da população por não esta não tinha rendimentos suficientes, outros vezes porque não sabia ler, nem escrever, ou ainda porque não tinha a idade suficiente para votarem. Não admira que neste contexto, as próprias mulheres acabassem também por ser excluídas.

O lugar das mulheres, na mentalidade dominante do tempo, era no lar. A “rua” era para as prostitutas ou as pobres que eram obrigadas a trabalhar por não terem recursos suficientes para se dedicarem à sua nobre missão: procriarem e cuidarem do lar.

Ironia

É interessante atentarmos, também, para o fato de que a ironia, tanto na perspectiva da lingüística quanto na perspectiva filosófica, o elemento que está no centro da enunciação, segundo Beth Brait,( 1996) “é o processo de enunciação, embora concebido de forma inteiramente diversa”.

Devemos lembrar aqui o fato da ironia, a partir de uma visão lingüística, ser uma construção da linguagem, enquanto pelo viés da filosofia a ironia é uma atitude ou uma espécie de marca de personalidade. A cena da ironia é social e política, fazendo parte do processo comunicativo. “Ela não é um instrumento retórico estático a ser utilizado, mas nasce nas relações entre significados, e também entre as pessoas e emissões e, às vezes, entre intenções e interpretações” (HUTCHEON, 2000, p.30).

Partindo da distinção entre vários tipos de ironia a socrática que busca a sabedoria através do diálogo, dada a sua desconfiança relativamente às verdades conhecidas ou estabelecidas; a retórica, prática persuasiva que está sempre a serviço de um partido, de uma ideologia, de uma “verdade”; o humor, ou ironia humores que, modalidade na qual se privilegia a relativização para “ver o outro lado”, ou em que; e a ironia romântica, que destrói constantemente a ilusão ficcional, exibindo o caráter de produção do texto, ao usar explicitamente o fingimento, a representação, a máscara, o engano, através de espelhamentos, reduplicações, encaixes e distanciamentos de vozes, romântica, lembrando, por exemplo: Lizzy, protagonista do filme Orgulho e Preconceito da autora Jane Austen.

“É verdade universalmente admitida que um homem solteiro, possuidor de boa fortuna, deve estar precisando de uma esposa”. (JANE AUSTEN, 1997b, p. 19). Essa famosa frase de abertura do livro Orgulho e Preconceito de Jane Austen indica o tom irônico que a autora usará durante todo o romance. A ironia é uma das características mais importantes de Austen e ela faz uso de tal recurso para criticar a sua sociedade contemporânea. Através da narrativa, além da ironia, outros aspectos da obra são ressaltados, tais como, o senso de humor que permeia as descrições no romance, comentários ou atitudes das personagens e a constante preocupação com o bom senso, a conveniência e a moralidade. Por esta razão, para uma melhor interpretação do mundo que Jane Austen retrata, é fundamental entender o funcionamento deste recurso.

No essencial, entender o uso da ironia na obra de Jane Austen não é uma tarefa fácil, porque ela se apresenta de uma maneira sutil e delicada e, para a discussão e análise do material serão utilizados os pressupostos teóricos de Wayne Booth e D. C. Muecke. A definição de ironia não pode ser reduzida apenas ao seu antigo conceito de “dizer uma coisa significando outra”. (MARTA MATEO, 1995, p. 171-172). Ironia é algo mais complexo, mesmo porque existem vários tipos de ironia, tais como, ironia verbal, dramática, de situação, entre outras. De acordo com Mateo (1995, p. 172), “ironia depende do contexto desde que resulte da relação de uma palavra, expressão ou ação com todo o texto ou situação”. A exemplo disso, no primeiro capítulo da obra Orgulho e Preconceito, ao contrastarmos a frase de abertura acima citada com a frase que revela a preocupação da personagem Sra.

Bennet, mãe da personagem principal, com um rápido e próspero casamento para suas filhas, como aponta o narrador ao dizer que “ maior preocupação da sua vida era casar as filhas; seu consolo era fazer visitas e saber das novidades”, fica evidente que a ironia está empregada não somente nas palavras, mas no próprio contexto da história ou enredo. (JANE AUSTEN, 1997b, p. 21).

Dessa maneira, Jane Austen ressalta sua crítica ao casamento por conveniência e o faz de forma irônica e cômica. Conseqüentemente, durante o decorrer do romance, a autora faz com que a voz irônica de sua personagem principal Elizabeth Bennet, através de um mecanismo de controle do ponto de vista do leitor, provoque o significante efeito de direcionar tal olhar a um ponto ou característica específica da história, sobre o qual a autora queira evidenciar uma determinada falha da sociedade. Portanto, é possível dizer que as técnicas de Jane Austen produzem um resultado singular através do qual Orgulho e Preconceito exige, do começo ao fim, uma leitura atenciosa guiando seu leitor, de forma sutil, a perceber os objetivos dessa brilhante autora.

Considerada a escritora que criou o romance moderno, as obras literárias de Jane Austen ainda são um desafio aos críticos literários e, para entender a complexidade de Orgulho e Preconceito, este estudo propõe discutir a visão irônica que a autora utiliza para criticar a vida social e os costumes de sua época. Assim, não entender este recurso impede o leitor de alcançar o significado mais profundo do romance, prendendo-se apenas a uma leitura superficial da obra. O que a ironia nos propõe, no seu exercício retórico e argumentativo, é um novo enquadramento da racionalidade,vista à luz de uma perspectiva que a determina num contexto de problemas ?losó?cos, que já não se compadecem com a concepção geral e habitual de racionalidade.

Ironia na visão de Sócrates

Entre a ironia e o seu extremo, a comédia, olhemos de perto a célebre imagem iconoclasta de Sócrates, perorando em cima da nuvem. Sócrates e a nuvem, quer dizer, a ironia, visto que a ironia encontra-se ainda em estado nebuloso, como todos os momentos inaugurais, e resta saber se cada momento não é inaugural em si-,sendo, por isso, larvar e indistintamente interrogatividade, problematização, argumentatividade, retórica, dialética e…lógica da de?nição. Dentro desta nebulosa, nesta matéria plasmática, a ironia socrática é já o prenúncio tumultuoso de todas as concepções posteriores e, extasiadamente de todas as suas sobrevalorizações.

A ironia, desde a socrática, é a descoberta de uma negação que se instala na razão, que não é meramente ontológica ou lógica, mas aparece como uma probabilização de si própria, uma negação positiva, em que, simulando-se, se pode expor a novas possibilidades de pensamento, que não são estritamente racionais, e fomentar uma irradiação de problemas, num encadeamento de dúvidas e interrogações que têm, assim, um estatuto fundamental na própria lógica interna da racionalidade argumentativa.

Aristóteles acabará por ?car sempre hesitante na apreciação que faz da ironia, quer na Poética quer na Retórica, remetendo o ironista para um meio termo entre o inculto, inimigo de gracejos (agroikos- terreno não cultivado) e o bobo (bomolochos), que procura ter graça a todo o transe. O ironizador é o gracejador de bom gosto ou espirituoso (eutrapelos) e, por isso, mais virtuoso, pois é o meio termo (mesotes) entre ambos. Por outro lado, a ironia assenta na huponoia, na alusão indireta, numa contenção de linguagem que faz da ironia uma insolência não bárbara, mas civilizada, aferindo-se a civilização por esta capacidade de exprimir o humor ironicamente. No extremo, a ironia cataliza esse poder da linguagem que se substancializa na capacidade de dizer alusivamente, forma educada de dizer. O ironista é o sugestor, o que sugere e seduz, numa referenciação indireta do que diz e, num lance espirituoso, capaz de criar conivências, cumplicidades.

O ironista, ilusionista e alusionista, confere à sua atitude uma intenção de relações que se exprimem numa cumplicidade, que assenta numa inteligibilidade partilhada, já vista como uma das dimensões fortes da internacionalidade, numa sugestão de problematicidade, mas sem lesar a simpatia básica de quem conversa, o fator difuso que predispõe a uma conversação ou a um diálogo. Abrangendo tudo isto, a ironia passa a ser o fator de coesão entre os sujeitos, sem abdicar de citar as diferenças, e de fortalecimento das relações entre os sujeitos, ao permitir-lhes identi?cações e diferenciações, sem expor chagas virulentas, nesses ligeiros golpes da arte do ?orete, fomentando o diálogo e a perspectivarão dialética, como xadrez de hipóteses, como formas de construção de sociabilidades. Na verdade, a ironia é, para Aristóteles, e à boa maneira dos gregos, a manifestação de uma relação entre sujeitos, não como indivíduos, mas como polidamente habitantes da pólis.

O que a pólis não suporta não é a ironia, mas o bobo ou o bárbaro, os que, no seu limite, não revelam capacidade de internacionalidade, porque um desloca o humor para o absurdo e a pantomina, espécie de promiscuidade total, enquanto o outro coloca o humor na bestialidade e perversidade das relações, como se ambos acabassem por ser uma forma bruta de ininteligibilidade.

Atualmente, apesar de existir uma argumentação de que a ironia socrática está distanciada do que entendemos atualmente, ela pode ainda se encaixar na categoria, principalmente se ?zermos a comum valoração entre “ironia elegante” e “ironia canhesta”. Um exemplo da “elegância” da ironia socrática pode ser encontrada em uma passagem da Apologia de Sócrates citada na Arte Retórica como exemplo do uso retórico da interrogação. Nessa passagem, Aristóteles a?rma que:

Pretendia Meleto que Sócrates não acreditava na existência dos deuses; Sócrates fez-lhe esta pergunta: “Será que creio na existência de um demônio?” O outro concordou. – “Os demônios não são ?lhos dos deuses ou algo de divino?” Meleto conveio nisso. – “Será pois possível que se acredite haver ?lhos de deuses e ao mesmo tempo não haver deuses?” (ARISTÓTELES,2005, p. 218).

Aqui, o resultado da ironia não é uma agressão, nem uma construção de bufonaria ou de chiste. O que encontramos é uma aporia dentro do pensamento de Meleto que foi indicada pelas indagações irônicas de Sócrates. Dessa forma, a ironia, dentro de um discurso de persuasão, é uma ?gura de retórica que não ridiculariza o autor, mantendo um ethos de respeitabilidade daquele que busca convencer.

Tipos de ironia

A maior parte das teorias de retórica distingue três tipos de ironia: oral, dramática e de situação.

• A ironia oral é a disparidade entre a expressão e a intenção: quando um locutor diz uma coisa mas pretende expressar outra, ou então quando um significado literal é contrário para atingir o efeito desejado.
• A ironia dramática (ou sátira) é a disparidade entre a expressão e a compreensão/cognição: quando uma palavra ou uma ação põe uma questão em jogo e a plateia entende o significado da situação, mas a personagem não.
• A ironia de situação é a disparidade existente entre a intenção e o resultado: quando o resultado de uma acção é contrário ao desejo ou efeito esperado. Da mesma maneira, a ironia infinita (cosmic irony) é a disparidade entre o desejo humano e as duras realidades do mundo externo. Certas doutrinas afirmam que a ironia de situação e a ironia infinita, não são ironias de todo

Exemplos:

• Moça linda, bem tratada, três séculos de família, burra como uma porta: um amor! (Mário de Andrade)
• Você está intolerante hoje!
• Não diga, meu amor!

É também um estilo de linguagem caracterizado por subverter o símbolo que, a princípio, representa. A ironia utiliza-se como uma forma de linguagem pré-estabelecida para, a partir e de dentro dela, contestá-la.

Foi utilizada por Sócrates, na Grécia Antiga, como ferramenta para fazer os seus interlocutures entrarem em contradição, no seu método Socrático.

Definição de Ironia

A ironia é um instrumento de literatura ou de retórica que consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, deixando entender uma distância intencional entre aquilo que dizemos e aquilo que realmente pensamos.

Na Literatura, a ironia é a arte de gozar com alguém ou de alguma coisa, com vista a obter uma reação do leitor, ouvinte ou interlocutor.

Ela pode ser utilizada, entre outras formas, com o objetivo de denunciar, de criticar ou de censurar algo. Para tal, o locutor descreve a realidade com termos aparentemente valorizastes, mas com a finalidade de desvalorizar. A ironia convida o leitor ou o ouvinte, a ser ativo durante a leitura, para refletir sobre o tema e escolher uma determinada posição.

É preciso um caminho indireto, como a ironia (método de ensino de Sócrates), porque o caminho para o conhecimento interior é individual a cada um.

A Ironia possui duplo aspecto: a refutação e a maiêutica. Através da refutação, Sócrates faz uma cadeia de raciocínio para provar que a base do que o outro está pensando está errado. Levava ao ridículo homens considerados sábios. O emprego da refutação para libertação do espírito é de origem eleática. Sócrates tira-a de Zenão, que é o criador. Procurava na filosofia o melhor caminho da libertação das almas do erro, do pecado e da condenação ao ciclo de nascimento.

“A sabedoria plena é buscada através do auto-conhecimento, que tem como método indireto a ironia.”

A ironia de Sócrates é uma expressão de revolta? De ressentimento da plebe? Ele goza enquanto oprimido de sua própria ferocidade nas estocadas do silogismo? Ele vinga-se dos nobres que fascina? À medida que se é um dialético, tem-se um instrumento impiedoso nas mãos. Com ele podemos cunhar tiranos e ridicularizar aqueles que vencemos. O dialético lega ao seu adversário a necessidade de demonstrar que não é um idiota: ele o deixa furioso, mas ao mesmo tempo desamparado. O dialético despotencializa o intelecto de seu adversário. Como? A dialética é apenas uma forma de vingança em Sócrates? (Nietzsche, 2001, p.20-21).

Seria mesmo a dialética apenas uma forma de vingança socrática? Se, por um lado, o exagero irônico de Nietzsche tem o mérito de iluminar as faces “obscuras” do afeto que potencializa a construção do jogo dialógico-irônico socrático e, neste sentido, pode-se identificar uma teoria da ironia nos escritos Nietzschianos.

O jogo irônico-dialético socrático, enquanto produção do conhecimento humano não pode se “cristalizar”, ou seja, se encapsular a ponto de se dirimir as cargas afetivas que lhe são imanentes. Quando isto acontece, então predomina a carga afetiva sarcástica que dilacera os argumentos alheios por meio da soberba intelectual daquele que não admite se equivocar no domínio dos conceitos discutidos.

Na esfera educacional/formativa, tal “mestre” poderia ser caracterizado como um anti-Zaratustra. Diferentemente daquele que se aferra com todas as forças ao pedestal que julga ser-lhe de direito, Zaratustra “provocou” seus discípulos da seguinte maneira: “Retribui-se mal um mestre quando se permanece sempre e somente discípulo. E porque não quereis arrancar folhas da minha coroa?”(Nietzsche, 2005, p.105).

A ironia é uma das formas mais poderosas de lidarmos com as questões cruciais do ser humano. Não é a toa que esta estranha maneira de dizer as coisas, por vezes por via do seu contrário, era a ferramenta utilizada por Sócrates quando queria desconstruir o discurso dos sofistas, mostrando que desconheciam aquilo de que falavam, ou quando queria ridicularizar o fato de cobrarem muito dinheiro por seus supostos ensinamentos.

A ironia é, no dizer de Esteves (1997), o “exercício de uma racionalidade multiforme, que se multiplica em associações e relações”. Trata-se de uma inteligibilidade precária uma vez que não afirma mas duvida sempre, filosófica por excelência.

A ironia também tem um componente imprescindível à sua inteligibilidade: o contexto. É talvez a mais ambígua das figuras de linguagens, uma vez que, se mal interpretada, pode levar o interlocutor a ter a impressão rigorosamente oposta a que se queria dar. ESTEVES,( 1997).

CONCLUSÃO

Para o desenvolvimento desta monografia sobre o tema Orgulho e Preconceito, fez-se necessário a leitura minuciosa e a análise do romance, além de tal material, foram pesquisados textos teóricos de autores que escreveram a respeito da historia que envolve o livro inclusive sobre a ironia que envolveu a obra, citações de alguns dos críticos mais importantes de Jane Austen e de elementos históricos e sócio-culturais da época.

Orgulho e Preconceito é um romance da escritora britânica Jane Austen. Publicado pela primeira vez em 1813, na verdade havia sido terminado em 1797, antes de ela completar 21 anos, em Steventon, Hampshire, onde Jane morava com os pais. Originalmente denominado First Impressions, nunca foi publicado sob aquele título; ao fazer a revisão dos escritos, Jane intitulou a obra e a publicou como Pride and Prejudice. Austen pode ter tido em mente o capítulo final do romance de Fanny Burney, Cecilia, chamado “Pride and Prejudice”.

A história mostra a maneira com que a personagem Elizabeth Bennet lida com os problemas relacionados à educação, cultura, moral e casamento na sociedade aristocrática do início do século XIX, na Inglaterra. Elizabeth é a segunda de 5 filhas de um proprietário rural na cidade fictícia de Meryton, em Hertfordshire, não muito longe de Londres.

Apesar de a história se ambientar no século XIX, tem exercido fascínio mesmo nos leitores modernos, continuando no topo da lista dos livros preferidos e sob a consideração da crítica literária. O interesse atual é resultado de um grande número de adaptações e até de pretensas imitações dos temas e personagens abordados por Austen.

Jane Austen descreve os pensamentos e reações de Elizabeth com mestria e não assume uma postura do narrador que sabe de tudo. O que o narrador diz aos leitores é o que a personagem principal não é infalível e comete erros. Nós podemos ver isso em Orgulho e Preconceito, onde Elizabeth não é perfeita mesmo. Conseqüentemente, o romance do qual Jane Austen tanto se orgulhava tirou-a do anonimato e transformou-a numa das mais conhecidas escritoras da literatura inglesa.

Através de comparações entre as obras estudadas, a biografia e sociedade muitos aspectos da vida fictícia se parecem com a vida da autora Jane Austen.

Atualmente, acredita-se que o livro tenha cerca de 20 milhões de cópias ao redor do mundo.

REFERENCIAS

AUSTEN, Jane,Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice) 1813, Tradução de Celina Portocarrero ,Apresentação de Ivo Barroso Edição n.o: 151034/ó472

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2 ed., Rio de Janeiro: LTC, 1981.

ARISTÓTELES (2005) (17. ed.) Arte retórica e arte poética. Tr.: A. P. de Carvalho. Rio de Janeiro:

ALBERT, Georgia. “Understanding Irony: three essais on Friedrich Schlegel”. In: MLN, Vol. 108, N.º 5. Comparative Literature. (Dec., 1993), p. 825-848.

BOOTH, Wayne C. The Rhetoric of Fiction. Chicago: The University of Chicago Press, 1973.

ESTEVES, José Manuel Vasconcelos Ironia e argumentação, Tese de Mestrado em Filosofia, Universidade Nova de Lisboa, 1997, acessado em http://bocc.ubi.pt/pag/esteves-jose-manuel-ironia-argumentacao.html

GUTHRIE, William K. C.. Socrates. Cambridge: University Press, 1994;

MUECKE, D. C. Ironia e o Irônico. Translation of Geraldo Gerson de Souza. São Paulo: Perspectiva, 1995.

MATEO, Marta. “The Translation of Irony”. In: Meta: Journal des Traducteurs, Vol. 40, N.º 1, 1995. p.171-177. Disponível em: http://www/erudit.org/revue/meta/1995/v40/n1/003595ar.pdf

NIETZSCHE, Friedrich, (1992). O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo. São Paulo: editora Companhia das Letras. Tradução de J. Guinsburg.

A Resistência à Opressão

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Desde a Idade Média o tema resistência à opressão já era discutido com seriedade, porém, era tratado com um enfoque eminentemente religioso. Neste contexto, os homens procuravam justificativas para que não fossem oprimidos por aqueles que detinham o poder, e caso fossem, poderiam resistir a tal ingerência para salvaguardar seus direitos. Este assunto foi trabalhado principalmente pelos jusnaturalistas, mesmo porque a resistência era a única forma do homem se proteger quando os códigos morais não valiam. Atualmente a resistência também é assunto tratado, tendo como exemplo a garantia constitucional à revolução e à contestação, por se considerar o pensamento livre.

Os pontos principais, tratados sob o prisma da teoria polílica, se concentram nas questões de como o poder é adquirido, conservado e perdido, exercido, defendido e como é possível defender-se contra ele. O primeiro ponto de vista fala em nome do Estado presente, na teoria da razão de Estado, tendo sua premissa no dever da obediência. O segundo se manifesta como defensor da massa, em nome do anti-Estado, com base na teoria dos direitos naturais e no constitucionalismo, tendo sua premissa no direito à resistência.

Tanto a resistência quanto a contestação são consideradas formas de oposição extralegal e deslegitimadora, porém, em síntese, “a resistência compreende todo comportamento de ruptura contra a ordem constituída, que ponha em crise (…) mas não necessariamente em questão” (BOBBIO, p.144, 1992). Já a contestação é compreendida como “um comportamento de ruptura, a uma atitude de crítica que põe em questão a ordem constituída sem necessariamente pô-la em crise” (BOBBIO, p.144, 1992). Além das diferenças já apontadas, é necessário destacar que a resistência culmina essencialmente em um ato prático, em uma ação, podendo se chegar até mesmo ao uso da violência, enquanto a contestação se expressa através de um discurso, em um protesto verbal, no qual a violência do contestador é sempre apenas ideológica.

A máxima concentração do poder ocorre quando os detentores do poder coercitivo, isto é, o poder político propriamente dito, detém ao mesmo tempo o monopólio do poder econômico e ideológico, forçando obediência de seus súditos não somente por forças de sanções terrenas, mas também sobrenaturais. No século XIX, a partir da Reforma e das revoluções Científica e Industrial, a crença de que o Estado seria extinto naturalmente voltou a tomar força através de dois processos iniciados paralelamente, com o objetivo de desconcentração do poder.

Ocorreu a desmonopolização do poder ideológico-religioso, que encontrou sua garantia jurídica nos princípios da liberdade religiosa e da liberdade de pensamento, ao mesmo passo em que ocorreu a desmonopolização do poder econômico, que por sua vez encontrou sua expressão formal no reconhecimento da liberdade de iniciativa econômica, restando ao Estado apenas o monopólio do poder coercitivo, a ser usado, em última instância, em defesa do antagonismo das idéias e da concorrência dos interesses.

Em nome do direito à resistência ou à revolução, a burguesia em ascensão apresentou várias exigências na tentativa de conter e delimitar o poder tradicional. Os institutos através dos quais se obteve a degeneração do poder foram o abuso no exercício do poder e o déficit de legitimação. Contra o abuso do poder, ocorreu a constitucionalização através de dois institutos, por separação dos poderes, indo da descentralização político-administrativa até o federalismo; e pelo surgimento da figura do Estado de Direito, no qual todo poder é exercido no âmbito das regras jurídicas, que delimitam sua competência e orientam suas decisões, fundado num poder legal e racional, essencialmente impessoal.

Com relação às exigências que visavam a deslegitimação, podem ser compreendidos a constitucionalização da oposição, que torna lícita a formação de um poder alternativo, configurando uma forma de usurpação legalizada; e o instituto do sufrágio universal, meio através do qual ocorre a constitucionalização do poder dos cidadãos de derrubar os governantes nos limites de regras preestabelecidas. Segundo o modelo jusnaturalista, trata-se de um direito natural que se torna direito positivo.

Entretanto, o que se verificou não foi o enfraquecimento, mas sim o fortalecimento do Estado. Do ponto de vista institucional, a situação de nosso tempo caracteriza-se pela desmonopolização do poder econômico e ideológico, que se expressa através da progressiva concentração das empresas e dos bancos, pela formação de grandes partidos de massa que detém o direito de estabelecer o que é bom ou mau para seus súditos e pelo controle que os detentores de poder econômico exercem sobre os meios de formação da opinião pública.

No século passado, havia a ilusão jurídico-institucional de que o sistema político fosse auto-suficiente, sendo ele mesmo o sistema dominante, porém nos dias de hoje, estamos cada vez mais conscientes de que o sistema político é um subsistema do sistema global, sabendo inclusive que o controle do primeiro não implica no controle do segundo.

As formas mais recentes e mais insistentes de contestação defendem um Estado baseado no consenso, como controle a partir de baixo, o poder de todos e a democracia participativa. Porém, quando comparada à democracia de inspiração rousseauística, a participação popular nos Estados democráticos está em crise, uma vez que esta não é nem eficiente, nem direta e nem livre como deveria ser, surgindo então a apatia política, razão mais grave da crise.

Existem algumas diferenças entre as velhas e as novas teorias sobre o direito de resistência, dentre as quais podemos ressaltar que o problema da resistência é visto hoje como fenômeno coletivo, e não individual como em tempos anteriores; o que se tende a derrubar, nos dias de hoje, não é uma determinada forma de Estado, mas uma determinada forma de sociedade da qual as instituições políticas são apenas um aspecto; enquanto as velhas teorias discutiam sobre o caráter lícito ou ilícito da resistência, ou seja, enquanto o problema era colocado em termos jurídicos, hoje se discute sobre resistência ou revolução em termos essencialmente políticos, isto é, não se pergunta se é justa, mas sim adequada à finalidade; nos velhos tratados sobre as várias formas de resistência, o que diferenciava a resistência ativa da passiva era o uso da violência, todavia hoje a diferença se resume no tipo de argumentação com o qual esse uso é justificado.

As várias formas de obediência civil podem ser diferenciadas conforme consistam em abstenções ou em ações, porém tendo em comum a sua finalidade principal, que é não contrapor ao poder um outro poder, mas torná-lo impotente.

É preciso, portanto, resistir a essa progressiva invasão à liberdade de cada um, vista como processo interior de afirmação da própria individualidade. Num mundo cada vez mais conturbado por ideologias truculentas atualizadas sob o signo do avanço tecnológico, a salvaguarda dos direitos do indivíduo torna-se impositiva na construção de sociedades verdadeiramente democráticas e modernas.

Referência Bibliografica:

– BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos: tradução de Carlos Nelson Coutinho – Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1992.

Formação de Professores para o Uso dos Núcleos de Tecnologia

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Este trabalho de monografia tem como foco um estudo de caso relacionado ás dinâmicas envolvidas nos processos de capacitação dos professores para utilizarem as TIC, através dos NTE. Com a realização das atividades de pesquisa e análise, buscamos compreender e perceber as dinâmicas que envolvem a formação dos professores nestes núcleos. Para alcançar os objetivos propostos foram realizadas pesquisas e estudos sobre o ProInfo, tendo em vista ser esse o protagonista das ações nos NTE, além de entrevistas semi-estruturadas com os coordenadores estaduais e municipais. Nesse contexto, percebemos a falta de articulação entre as atribuições dos núcleos e a prática, os objetivos propostos acontecem de forma vaga e sem fundamentação teórica.

O formato dos cursos é modular, com pouca variação na programação, carga horária curta e sem posterior continuidade, além de uma metodologia voltada para a técnica, no manuseio dos hardwares e softwares, sem uma discussão sobre as dinâmicas que envolvem a inserção das TIC na sociedade. Nesse sentido, foi possível entender que para formar professores, na dinâmica de sujeitos críticos- reflexivos esses núcleos têm um longo caminho a percorrer, tendo como caminho fundamental para essa mudança a minimização das ações tecnicistas que envolvem esses espaços.

Palavras-chave: Formação de professor, Núcleo de Tecnologia Educacional (NTE), Políticas públicas, Tecnologia da Informação e comunicação (TIC)

LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS

AbraEAD – Anuário Brasileiro Estatístico de Educação Aberta e a Distância
ABED – Associação Brasileira de Educação a Distância
CAPES– Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
CONSED – Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Educação
EAD– Educação a Distância
FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação
FUST– Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicação
GEC – Grupo de Pesquisa em Educação, Comunicação e Tecnologias
ISE– Instituto Superior de Educação
LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação
MEC – Ministério da Educação
NTE – Núcleo de Tecnologia Educacional
PDE– Plano de Desenvolvimento da Educação
PIBIC – Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica
PNE – Plano Nacional de Educação
PROINFO – Programa Nacional de Informática na Educação
SEE – Secretária de Educação
SEED – Secretaria de Educação a Distância
TCU– Tribunal de Contas da União
TIC – Tecnologias de Informação e Comunicação
UFBA – Universidade Federal da Bahia
UNDIME– União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação
ISA – Instituto Superior de Educação

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Estrutura operacional do ProInfo
Figura 2 – Site do e-proinfo
Figura 3 – Site do Webduc
Figura 4 – Sistema de informação do ProInfo Integrado “PLUS”
Figura 5 – Coleção Aprender construindo, incentivo ao software proprietário

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Quantitativo de recursos orçamentários executados pelo proInfo
Tabela 2 – Distribuição dos NTE no Brasil
Tabela 3 – Crescimento do número de instituições autorizadas pelo sistema de ensino a praticar EAD e de seus alunos, de acordo com o levantamento da ABRAED 2004-2006
Tabela 4 – Matriz Curricular do Curso de Tecnologias da Educação: ensinando e aprendendo com as TIC

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO
2. O Programa Nacional de Tecnologia Educacional – ProInfo
2.1 Estrutura operacional
2.2 O “Novo” ProInfo
2.3 Os Núcleos de Tecnologia Educacional – NTE
3. FORMAÇÃO DE PROFESSOR
3.1 As políticas para formação do profissional da educação
3.2 EAD como modalidade de ensino na formação de professores
3.3 Formação dos professores para as TIC
4. FORMAÇÃO DOS PROFESSORES NOS NTE
4.1 Concepção dos cursos nos NTE
4.2 Formato dos cursos nos NTE
4.3 Metodologia dos cursos nos NTE
4.4 Dificuldades para realização das formações
5. CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS

1. INTRODUÇÃO

Nas últimas cinco décadas, o computador passou de uma máquina enorme e desajeitada, criada para ser usada no campo militar, para uma entidade presente de maneira ativa no cotidiano da nossa sociedade. Essa rápida evolução teve seus reflexos na sociedade contemporânea, que nos últimos anos tem passado por grandes transformações sociais, políticas, econômicas e culturais influenciadas pela enorme utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) nas mais diversas áreas, inclusive na educação. A inserção dessas tecnologias no cotidiano dos indivíduos desencadeou uma série de mudanças, por exemplo, no funcionamento e na organização do sistema econômico, onde as TIC têm tido um papel importante para o desenvolvimento do setor produtivo, assim como uma vertiginosa expansão do setor de serviços, contribuindo para o aumento da competitividade entre as empresas e países.

As TIC têm se constituído como um instrumento facilitador deste novo cenário globalizado onde a informação e o conhecimento são tidos como elementos fundamentais da nossa sociedade, se tornando uma marca dos interesses econômicos globais, tendo uma grande e importante participação nas mudanças do mundo contemporâneo e consequentemente na constituição do novo cenário que vivenciamos, conforme afirma Castells:

No fim do segundo milênio da Era Cristã, vários acontecimentos de importância histórica têm transformado o cenário social da vida humana. Uma revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação está remodelando a base material da sociedade em ritmo acelerado. Economias por todo o mundo passaram a manter interdependência global, apresentando uma nova forma de relação entre a economia, o Estado e a sociedade em um sistema de geometria variável. (Castells, 2003, p. 21)

Além das mudanças no setor econômico, mudou os processos de trabalho, os quais requerem alterações nos processos de formação dos sujeitos sociais e por consequecia nos processos educativos. A rápida velocidade como as informações chegam aos indivíduos, os diálogos, as relações e os entretenimentos se adaptaram a uma nova forma, totalmente digital. É quase impossível apontar um só campo de atuação em que as TIC não estejam presentes, influenciando comportamentos, atitudes, redefinindo conceitos sociais, possibilitando novas formas de aprendizado e de construção do conhecimento. No entanto, para abraçar todas as possibilidades e potencialidades que estão atreladas às TIC, se faz necessário a apropriação dessas tecnologias, por parte dos sujeitos, dando sentido e significados às mesmas, para atuarem no contexto em que vivem.

Nesse contexto, as escolas se tornam espaços estratégicos para inserção e apropriação das TIC no cotidiano da nossa sociedade, tendo em vista sua importância no desenvolvimento intelectual e social dos educandos. Para Bonilla, a contemporaneidade exige que a escola proponha dinâmicas pedagógicas que não se limitem à transmissão ou disponibilização de informações, inserindo nessas dinâmicas as TIC, de forma a reestruturar a organização curricular fechada e as perspectivas conteudistas que vêm caracterizando-a. (BONILLA, 2005, p.91)

Assim, a incorporação das TIC ao ambiente escolar pode possibilitar o acesso e a inclusão digital dos alunos ao mundo das tecnologias e das redes, entendendo inclusão digital conforme o conceito de Lemos, que compreende a “habilidade cognitiva para dominar, mudar, desconstruir discursos e alterar as rotas dos produtos prêt-à-porter das fábricas de ilusões” (LEMOS, 2003), onde o individuo, para estar incluído no mundo digital, não só esteja apto para interagir com a máquina, utilizando os hardwares e alguns softwares, mas que se apropriem destas tecnologias conduzindo intervenções e mudanças no seu cotidiano. Nesse sentido, as tecnologias também têm proporcionado a criação de comunidades de aprendizagem, que privilegiam a construção do conhecimento e que podem contribuir para uma ruptura com as práticas tradicionais que estão atreladas às escolas, onde os alunos são considerados meros repositórios de informações, onde o professor ensina e o aluno aprende.

Conforme traz Freitas: para a professora, a criança vai à sala de aula para receber (via percepção) os conhecimentos prontos e acabados que ela vai lhe dar, e aquele que não reproduzir com exatidão esses conhecimentos é porque não aprendeu. (FREITAS, 1991, p.89)

Se faz necessário pensar sobre os modos de apropriação dessas tecnologias e conceber a educação como prática de emancipação dos indivíduos afim de viabilizar propostas de trabalho com as TIC, oferecendo novos sentidos ao trabalho docente e aos processos de formação. As práticas de ensino e aprendizagem devem ser reformuladas para acompanhar a sociedade contemporânea, as escolas precisam se abrir para as novas relações com o saber, vivenciando a comunicação compartilhada e a troca de informações com outros espaços que possuem os mesmos interesses. Os recursos tecnológicos, à disposição do professor e do aluno, podem se constituir em um valioso agente de mudanças para a melhoria da qualidade do processo de ensino-aprendizagem em nossas escolas. Contudo, isoladas, as TIC não podem proporcionar mudanças, é necessário a formação dos profissionais que vão trabalhar com essas tecnologias.

Com a inserção das TIC no ambiente escolar, junto com a necessidade de formação do corpo docente para utilizarem essas tecnologias, o governo vem criando e reformulando leis voltadas para a educação, além de políticas públicas para inclusão das TIC no espaço educacional, procurando garantir às comunidades escolares recursos e formação que venham proporcionar melhorias do ensino público. Belloni afirma a necessidade dessa intervenção do Estado na área da educação e de se implementar políticas públicas com o propósito de democratização do acesso às TIC:

São imensos os desafios que estas constatações colocam para o campo da educação, tanto do ponto de vista da intervenção, isto é, da definição e implementação das políticas públicas, quanto do ponto de vista da reflexão, ou seja, da construção de conhecimento apropriado à utilização adequada daquelas máquinas com fins educativos. (Belloni, 2001, p. 8)

Contudo, é importante destacar que essas leis e políticas públicas vêm atreladas a grandes influências dos organismos internacionais, que através de empréstimos financeiros impõem suas regras para os países considerados em desenvolvimento, dentre eles o Brasil, sendo estas regras direcionadas aos padrões neoliberais que enxergam na educação um importante locus para disseminação e articulação dos seus ideais capitalistas.

Assim, através da criação de diversas políticas para inserção das TIC no ambiente escolar, o governo federal, em regime de colaboração entre o MEC e os governos estaduais, representados por suas respectivas Secretarias de Educação, lança o Programa Nacional de Informática na Educação, ProInfo, com a “finalidade de disseminar o uso pedagógico das tecnologias de informática e telecomunicações nas escolas públicas de ensino fundamental e médio pertencentes às redes estadual e municipal” ( Ministério da Educação, 1997) através da implantação de laboratórios de informática nas escolas públicas e capacitação dos professores, gestores e agentes educacionais para a utilização pedagógica das tecnologias, sendo que esta estratégia deu destaque ao programa entre as demais políticas públicas instituídas pelo governo:

O sucesso deste Programa depende fundamentalmente da capacitação dos recursos humanos envolvidos com sua operacionalização. Capacitar para o trabalho com novas tecnologias de informática e telecomunicações não significa apenas preparar o indivíduo para um novo trabalho docente. Significa, de fato, prepará-lo para ingresso em uma nova cultura, apoiada em tecnologia que suporta e integra processos de interação e comunicação (SEED/MEC, 1997).

Essas capacitações são realizadas através dos NTE- Núcleo de Tecnologia Educacional, estruturas descentralizadas, que têm como função dar apoio permanente ao processo de introdução das tecnologias nas escolas públicas, através de ambientes tecnológicos equipados com computadores e recursos tecnológicos (impressora, faz, scanner). Os NTE são responsáveis pelos suporte, acompanhamento pedagógico e técnico no uso das diferentes tecnologias educacionais nas escolas. Segundo a cartilha para preparação dos NTE (SEED/MEC, 1997), documento ligado ao ProInfo, cada Núcleo dispõem de uma equipe de educadores chamados de multiplicadores que realizam as formações d os professores que estão atuando em sala de aula.

Nesse contexto, as dinâmicas envolvidas nos processos de capacitação dos professores, para utilizarem as TIC, através dos NTE nos despertou algumas inquietações, relacionadas à concepção de uso das tecnologias que está presente nos processos de formação dos professores e, principalmente, das concepções de formação destinadas a esses profissionais da educação e o formato a ser adotado para que essas formações ocorram, em prol do desenvolvimento crítico-reflexivo desses profissionais, tendo em vista a necessidade que se presenciou durante anos de formação dos professores para o uso das TIC em sala de aula e o formato essas capacitações, quando se tornam presente no processo educacional.

Com base nesse contexto, proponho o desenvolvimento deste trabalho de monografia. As questões e objetivos desse trabalho, nasceram durante minha vivência enquanto bolsista em iniciação cientifica (PIBIC), cujo tema de pesquisa foi Inclusão digital nas escolas: as políticas do MEC, tendo como objetivo compreender os interesses, as articulações e os desdobramentos do Proinfo e do Programa Banda Larga nas escolas, ambos desenvolvidos pelo MEC, para a promoção da inclusão digital dentro do espaço escolar. O aprofundamento teórico durante o período da pesquisa sobre inclusão digital, políticas públicas, formação de professores, entre outros, veio aflorar os questionamentos e inquietações sobre a relação dos NTE com a formação dos professores, influenciando na escolha do tema que aqui me disponho a estudar.

É importante também ressaltar que a minha inserção no Grupo de Pesquisa em Educação, Comunicação e Tecnologia (GEC), como monitora do Tabuleiro Digital e depois como pesquisadora PIBIC foi de grande relevância para a escolha deste estudo, tendo em vista as discussões e troca de informações com outros pesquisadores sobre o tema, dentro do espaço do GEC.

Buscando traçar esse estudo, apresento como objeto de investigação a constituição do NTE enquanto espaço para formação docente através da política pública de inclusão digital desenvolvida pelo ProInfo. Afim de entender as dinâmicas que envolve este trabalho tenho como questões geradoras das minhas indagações:

1. Como está prevista a proposta de formação dos professores para o uso das TIC nos documentos ligados ao PROINFO?
2. Qual a concepção de uso das TIC que está presente nos processos de formação dos professores?
3. Quais as dificuldades enfrentadas pelos NTE para a formação docente?
4. Qual a relevância dessas capacitações para a formação dos professores?

Para responder essas questões, busquei mapear as falas dos diversos pesquisadores na área de políticas públicas e formação de professores, assim como dos documentos que norteiam as ações dos NTE, além de aprofundar os estudos sobre as dinâmicas e dificuldades que envolvem estes temas. Este percurso foi de grande importância para atingir o objetivo deste trabalho que é compreender as propostas teóricas e desenvolvidas no contexto dos NTE e perceber as dinâmicas e dificuldades que circulam estes espaços para a formação dos professores no uso das TIC.

Para tanto, este estudo tem um caráter qualitativo, tendo como base os aportes teóricos da pesquisa bibliográfica, que fundamentam os pressupostos que foram anunciados, a análise documental e as entrevistas semi-estruturadas para compreender as dinâmicas que envolvem os núcleos através do olhar dos profissionais que estão nesses espaços no seu cotidiano. Entendemos a pesquisa qualitativa, conforme traz Oliveira:

As pesquisas que se utilizam da abordagem qualitativa possuem a facilidade de poder descrever a complexidade de uma determinada hipótese ou problema, analisar a interação de certas variáveis, compreender e classificar processos dinâmicos experimentados por grupos sociais, apresentar contribuições no processo de mudança, criação ou formação de opiniões de determinado grupo e permitir, em maior grau de profundidade, a interpretação das particularidades dos comportamentos ou atitudes dos indivíduos. (OLIVEIRA,1997, p. 117).

Assim, o pesquisador entende que a pesquisa qualitativa possui seu foco na realidade de forma contextualizada, procurando compreender os fenômenos, através da perspectiva dos participantes das ações estudadas, para que, a partir desses levantamentos, possa realizar as devidas interpretações dos fenômenos analisados conforme as descrições, comparações e interpretações.

Dentre as abordagens qualitativas, a forma assumida por esta pesquisa foi estudo de caso, tendo em vista que este representa uma investigação empírica e compreende um método abrangente, com a lógica do planejamento, da coleta e da análise de dados. Na posição de Lüdke e André, o estudo de caso como estratégia de pesquisa, é o estudo de um caso, simples e específico ou complexo e abstrato e deve ser sempre bem delimitado. Pode ser semelhante a outros, mas é também distinto, pois tem um interesse próprio, único, particular e representa um potencial na educação. Destacam em seus estudos as características de casos naturalísticos, ricos em dados descritivos, com um plano aberto e flexível que focaliza a realidade de modo complexo e contextualizado. (LUDKE, 1986, p.48)

Assim, para realização deste trabalho demos continuidade aos estudos iniciados durante a pesquisa PIBIC, com a coleta e análise dos documentos que descreve oficialmente o programa Proinfo , disponibilizado via Internet, além de sites do governo, das instituições envolvidas, das escolas participantes dos projetos e em páginas pessoais de políticos, pesquisadores e professores envolvidos e/ou interessados nos Programas. Logo após foi feita a comparação entre os materiais coletados e as ações realizadas nos NTE. Além desses dados, tomamos como fonte de informação para a pesquisa, entrevistas semi-estruturadas realizadas online (via e-mail e/ou chat) durante o PIBIC (2008-2009) com os coordenadores Estaduais e Municipais dos NTE que participam ou participaram da concepção dos mesmos.

É importante pontuar que as entrevistas foram on-line em virtude da dispersão dos sujeitos (localizados em todo o território nacional), e também por considerarmos que, na contemporaneidade, a comunicação pela internet satisfaz todos os requisitos de uma pesquisa científica.

Este trabalho apresenta três capítulos e as considerações finais. No capítulo inicial delineamos o ProInfo, tendo em vista ser esse o protagonista das ações nos NTE. Buscamos pontuar e articular os documentos que norteiam o programa, diretrizes, cartilha, estrutura operacional entre outros, de forma a trazer os principais elementos que articulam e dão significado ao ProInfo e por consequencia aos NTE, tendo em vista ser através da compreensão das ações deste programa que teremos as bases para a discussão sobre as formações nos núcleos.

No segundo capítulo traço o papel do professor e a importância da sua formação para o desenvolvimento de uma educação de qualidade, tendo como base as leis que dão inicio ao processo de valorização da formação docente, através do conjunto de reformas educacionais. Essas vêm entrelaçadas com um forte diálogo com as instituições internacionais através de empréstimos financeiros em troca de uma “assessoria” delineada por exigências de ajuste da educação para os interesses capitalista que norteiam essas instituições. Junto com essa discussão, trago a EAD como modalidade de ensino utilizada na formação dos professores e os processos que estão atrelados à formação dos profissionais da educação para o uso das TIC.

O terceiro capítulo trata da análise desse Estudo de Caso, momento em que buscamos identificar a concepção de uso das TIC nos NTE, a metodologia, o formato e a vivência dessas formações para os professores nas atividades em sala de aula, além das dificuldades que estão inseridas nessas formações. Na busca por compreender as propostas que estão nos documentos e o que realmente é desenvolvido nos NTE, trago as falas dos coordenadores estaduais e Municipais e um diálogo entre a proposta inicial e o que temos hoje, através do ProInfo Integrado, afim de perceber as dinâmicas e dificuldades que estão no cotidiano destes espaços.

Para finalizar trago as considerações finais onde buscamos articular os dados coletados e analisados, com a nossa compreensão das dinâmicas que envolvem as formações no espaço dos NTE, tendo como alicerces para nossas colocações os diversos pesquisadores da área. Concluindo com as referências bibliográficas utilizadas durante a construção dos textos, os anexos com os roteiros para as entrevistas, que foram utilizadas como dados da pesquisa e análise para este estudo.

2. O Programa Nacional de Tecnologia Educacional – ProInfo

A necessidade de formação dos professores para trabalharem com as TIC na educação sempre esteve no centro das discussões relacionadas à implantação e uso dos recursos tecnológicos no ambiente educacional como apoio à prática pedagógica. No auge dessas discussões, a capacitação de recursos humanos, em especial dos professores, se tornou uma das condições de sucesso do Programa Nacional de Tecnologia Educacional-ProInfo, criado pelo governo como política pública para inserção dos alunos no mundo das tecnologias de informação e comunicação.

Criado em 9 de abril de 1997, através da Portaria n° 522/MEC, o ProInfo tem por finalidade, disseminar o uso pedagógico das tecnologias de informática e telecomunicações (TIC) nas escolas públicas de ensino fundamental e médio através da: implantação de laboratórios de informática equipados com computadores e recursos digitais nas escolas públicas de educação básica; capacitação dos professores, gestores e outros agentes educacionais para a utilização pedagógica das tecnologias nas escolas e oferta de conteúdos educacionais multimídia e digitais.

Em suas Diretrizes (1997), o programa apresenta como principais objetivos subordinar a introdução da informática nas escolas através da montagem de laboratórios e recursos de informática conforme a capacidade das escolas para utilizá-los. Antes de receber os equipamentos tecnológicos, as escolas transitam por um processo burocrático, afim de comprovar a existência de infra-estrutura física e recursos humanos à altura das exigências de funcionamento do conjunto hardware/software que será fornecido. O MEC e a SEED criaram duas cartilhas (uma destinada à montagem dos laboratórios de informática nas escolas urbana e outra para zona rural) com recomendações que as escolas devem seguir, para instalação dos computadores, como sistema de iluminação, ventilação, segurança, conectividade e cuidados com os equipamentos.

Além de atender esses pré-requisitos, a escola deve ter um projeto pedagógico aprovado pelo Estado e MEC, direcionado à inserção das TIC na educação, no qual o computador seja considerado um potencializador no processo de aprendizado dos alunos, seguindo um roteiro aprovado pelo CONSED e a presença de professores capacitados para implementar o projeto.

O ProInfo, ainda, apresenta em suas Diretrizes (1997): incentivar a articulação entre os atores envolvidos no processo de informatização da educação brasileira (professores e demais agentes educacionais); institucionalizar um adequado sistema de acompanhamento e avaliação do Programa em todos os seus níveis e instâncias e por fim fomentar a mudança de cultura no sistema público de ensino de 1º e 2º grau (na época esta era a forma usada para classificar os níveis de Ensino Fundamental e Médio) de forma a torná-lo apto a preparar cidadãos capazes de interagir numa sociedade cada vez mais tecnologicamente desenvolvida. Neste último, o programa visa estimular o uso das tecnologias de informação e comunicação, dentro do espaço escolar, como apoio às diversas disciplinas no processo ensino-aprendizagem, de forma a oportunizar a igualdade de acesso aos instrumentos tecnológicos que estão cada vez mais presentes no cotidiano da nossa sociedade.

Assim, o governo tenta utilizar as TIC para formar o cidadão que deverá colaborar na criação de um novo modelo de sociedade baseado no conhecimento, nas transformações sócio-econômicas e culturais, conforme os subsídios para fundamentação do ProInfo:

Dessa forma, quando falamos sobre a necessidade de desenvolvimento da aprendizagem e de acumulação de conhecimentos voltados para o desenvolvimento humano e para a preservação da dignidade humana, estamos preocupados com a formação integral do indivíduo no sentido de capacitá-lo para viver numa sociedade pluralista em permanente processo de transformação. (MORAES, 1997, p.08)

Em seus documentos, o ProInfo aponta para a necessidade que vem surgindo ao longo dos anos, de mão de obra cada vez mais qualificada. No entanto, em análise ao Relatório de monitoramento do ProInfo pelo Tribunal de Contas da União, o mesmo recomenda que o programa implemente providências para que as escolas dêem prioridade aos alunos das séries mais adiantadas na utilização dos laboratórios, de modo a permitir que todos os alunos tenham acesso aos computadores e a estimular progresso estudantil. (TCU, 2002, p.10)

A SEED informa que esta decisão sobre quais alunos devem, prioritariamente, ser atendidos, compete aos sistemas estaduais de ensino, devido à forma como o programa está articulado, de maneira descentralizada. No entanto, fica evidente a intenção dos setores administrativos em dar prioridade, do acesso às TIC, aos alunos em processo de conclusão do ensino fundamental, tendo em vista a saída desses das escolas e a inserção no mercado de trabalho, que progressivamente exige competências tecnológicas básicas desses jovens.

Assim, percebemos a preocupação do governo em promover e apoiar a formação dos jovens, para além do ambiente escolar, ofertando meios que venham a contribuir na capacitação dos mesmos, para acompanhar os novos padrões de produtividade e competitividade, exigido pelo mercado de trabalho, em função dos avanços tecnológicos. No entanto, não cabe às escolas trabalhar apenas com a formação dos indivíduos para atuarem no mercado de trabalho, mas sim a formação ampla para o convívio e mudanças no meio em que vive, utilizando as TIC, tendo em vista que essas vêm se tornando cada vez mais presentes no nosso cotidiano.

2.1 Estrutura operacional

Implementado através de uma parceria entre o Ministério da Educação (MEC), a Secretaria de Educação a Distância – SEED, além das secretarias de educação do Distrito Federal, dos Estados e dos Municípios, o ProInfo possui sua estrutura operacional.

A SEED, por meio de sua Coordenação de Capacitação, relaciona-se diretamente com as Coordenações Estaduais, formadas por representantes da Secretaria Estadual de Educação e das Secretarias Municipais de Educação (eleito pela UNDIME), que, por sua vez, relacionam-se com as Coordenações Municipais e com os Núcleos de Tecnologia Educacional (NTE).

Cabe ao MEC:

• Implantar ambientes tecnológicos equipados com computadores e recursos digitais nas escolas, em parceria com Estados, Municípios e o Distrito Federal;
• Prover capacitações para os formadores dos NTE municipais e estaduais e outras agências de formação, professores e outros agentes educacionais envolvidos no Programa; (SEED, Adesão ao ProInfo1997)

Aos Estados, Distrito Federal e Municípios cabe:

• Prover a infra-estrutura adequada, serviços de manutenção e segurança para os ambientes tecnológicos destinados às escolas e Núcleos de Tecnologia Educacional;
• Viabilizar e incentivar as capacitações dos professores e outros agentes educacionais para utilização pedagógica das tecnologias da Informação e Comunicação;
• Assegurar recursos humanos e condições necessárias ao trabalho dos Núcleos de Tecnologia Educacional no desenvolvimento e acompanhamento das ações de capacitação nas escolas;
• Assegurar suporte técnico e manutenção dos equipamentos dos laboratórios ProInfo, findo o prazo de garantia da empresa fornecedora;
• A parceria é firmada por meio da assinatura de um Termo, onde estão detalhadas as responsabilidades de cada instância.

(SEED, Adesão ao ProInfo1997)

Com base nas atribuições, citadas acima, o ProInfo, encontrou nos Núcleo de Tecnologia Educacional (NTE) um meio para ofertar a formação necessária aos professores que iriam utilizar as TIC nas aulas, no ensino das disciplinas, de maneira que envolvesse a proposta metodológica com a utilização das tecnologias. O objetivo geral desses núcleos é promover o acesso dos professores da Rede Municipal e Estadual de Educação às TIC, afim de contribuir para o desenvolvimento de uma educação de qualidade. Sua principal ação é desenvolver um programa de formação continuada, organizado no formato de cursos, oficinas e eventos para os professores, procurando sensibilizá-los e prepará-los para o uso pedagógico das TIC.

Para tanto, o ProInfo recebe financiamento do FNDE para a capacitação de recursos humanos e aquisição de equipamentos. O programa deveria receber financiamento do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST), que arrecada por ano cerca de R$ 800 milhões, e 18% destes deveriam ser destinados à educação, no entanto, estão retidos nos cofres dos tesouro nacional devido a falta de objetividade e de definições de metas para o uso da verba.

Durante a pesquisa PIBIC, da qual fui bolsista, fizemos uma análise sobre os fatores econômicos que norteiam o programa e notamos que a verba dedicada ao mesmo sofreu oscilações no decorrer dos anos.

Criado em 1997, até o final de 2006 o programa instalou computadores em cerca de 16 mil escolas públicas. Em 1997 atendeu apenas 125 escolas, em 1998 passou para 3.100 escolas, ficou praticamente paralisado entre 2001 e 2003, sendo retomado com intensidade em 2006. Assim, notamos que a liberação das verbas oscilou drasticamente no decorrer desses mais de 10 anos, fato que, por sua vez, implica na demora para aquisição das máquinas, atrasando cada vez mais a execução do programa. Em 2008, o Ministério da Educação dobrou a compra de equipamentos tecnológicos, para montar os laboratórios de informática, segundo dados do MEC , mais 20 mil escolas de ensino médio foram atendidas. Essa licitação representou a duplicação do total de computadores adquiridos em toda a história do programa, afim de suprir o número de escolas que estavam à margem do programa,no entanto o número de escolas com laboratórios ainda é pequeno diante da realidade das redes públicas.

2.2 O “Novo” ProInfo

Em 2007, a Secretaria de Educação a Distância/MEC, no contexto do Plano de Desenvolvimento da Educação – PDE, que tem como objetivo auxiliar as escolas a se organizarem de maneira eficaz, com a melhor concentração de esforços e recursos para reverter os índices de repetência, abandono escolar e má qualidade da aprendizagem, desenvolveu a reformulação do Programa Nacional de Informática na Educação que passou a se chamar Programa Nacional de Tecnologia Educacional. Essa reformulação não alterou em nada as diretrizes do programa, no entanto foram investidos cerca de R$ 650 milhões na informatização das 130 mil escolas de educação básica, da rede estadual e municipal. Além da troca do nome, o programa adotou a proposta de integração de mídias na educação, tendo como objetivo contribuir com a inclusão digital através do aumento do acesso às TIC.

Neste contexto, foi criado o ProInfo Integrado, com o intuito de integrar e articular os vários programas, projetos e ações da SEED/MEC na área de formação de professores e gestores escolares, afim de promover o uso pedagógico das TIC nas redes públicas de educação básica, em parceria com os Estados, Municípios e instituições de ensino superior, conforme traz a série Educação digital e tecnologias da informação e da comunicação:

TV Escola, Mídias na Educação, ProInfo, ProInfantil, Formação pela Escola e outras ações fundamentam as bases do ProInfo Integrado e, ao mesmo tempo, articulam-se a esse programa num grande mosaico de possibilidades frente aos desafios da construção de uma educação pública eficiente, eficaz e com efetividade social (SEED/MEC, 2008, p.63).

O “novo ProInfo”, como ficou conhecido o programa após a reformulação, não sofreu grandes alterações nas suas diretrizes, mas a troca do termo “Inormática na Educação” por “Tecnologia Educacional” acabou por limitar a perspectiva tecnológica do programa, dando a impressão de que determinadas tecnologias são adequadas a esse espaço ao invés de todas, conforme aponta Bonilla:

Considero que o termo Tecnologia na Educação carrega um sentido mais amplo, inferindo que é possível, na educação, utilizarmos toda e qualquer tecnologia que esteja disponível na sociedade. Já o termo “Tecnologia Educacional” carrega um sentido mais restrito, inferindo que existe uma tecnologia própria para a educação, uma vez que o “educacional” está posto como marca de um determinado tipo de tecnologia. (BONILLA, 2009).

Com a reformulação, o programa inclui o termo inclusão digital, antes não visto em seus documentos. O entendimento sobre Inclusão digital relacionado ao ProInfo está em possibilitar a inclusão digital dos alunos, das escolas públicas, através da montagem de laboratórios de informática, onde serão realizadas atividades, com auxílio de professores capacitados, para possibilitarem a compreensão dos conhecimentos nas diferentes disciplinas, com o auxílio das TIC. Ou seja, o programa carrega a perspectiva de inclusão digital como complemento ao currículo, quando deveria ser parte integrante da proposta pedagógica. Acredita-se que o programa proporcionará a inclusão digital via acesso às máquinas, como complemento às aulas. No entanto, entendemos inclusão digital além do simples acesso ao hardware:

Incluir não deve ser apenas uma simples ação de formação técnica dos aplicativos, como acontece na maioria dos projetos, mas um trabalho de desenvolvimento das habilidades cognitivas, transformando informação em conhecimento, transformando utilização em apropriação. (LEMOS, 2005, p.09)

A universalização do acesso às TIC, através da montagem de laboratórios, como forma de apoio às aulas, nas diversas disciplinas, é de grande importância, mas não o suficiente para o processo de Inclusão Digital. É preciso promover a democratização do uso dessas tecnologias, de forma efetiva, onde os indivíduos não só saibam manejá-las, mas participar das dinâmicas que envolvem as mesmas, “produzindo e provendo serviços, informações e conhecimentos, articulando redes de produção que permitirão e potencializarão a emergência do novo, a proposição, a efervescência da diversidade” (BONILLA, 2001).

Nesta perspectiva, à inclusão digital é atribuída a função de resgatar os indivíduos que estão à margem dos processos decisórios da sociedade, movida pelos processos de criação, produção e transformação da informação em conhecimentos. Para tanto, se faz necessário utilizar como estratégia o uso do software livre, levando em conta que uma de suas características principais é a de possuir os itens necessários a uma apropriação autônoma, colaborativa e democrática dos meios digitais.

Os softwares denominado livres constituem-se de programas de computador de código aberto, que permitem ao usuário conhecer todos os seus mecanismos e desenvolver ferramentas para adequar o sistema às suas necessidades. Em contrapartida, o software proprietário é aquele que não permite cópia, redistribuição ou modificação, sem a autorização do detentor dos direitos autorais. Ainda, para termos o direito de usar um software proprietário, temos que comprar uma licença.

Silveira (2003) aponta algumas justificativas para o sucesso na estratégia de uso do software livre nas políticas públicas de inclusão digital:

– Redução de custos para o Estado – segundo o autor este argumento possibilitaria a redução de royalties enviados ao exterior como pagamento pelo uso de software proprietário. O uso do software livre proporcionaria uma economia, pelo fato de não ser necessário o pagamento de licenças de uso, podendo assim, aplicar os recursos economizados em outros projetos.

– O software livre necessita suporte e manutenção, tal como o software proprietário – isto possibilitaria o surgimento de empresas especializadas em atender a estas necessidades.

– O dinheiro público não deveria ser utilizado para sustentar o monopólio privado transnacional – o autor defende a idéia de que o dinheiro público deva ser utilizado no incentivo a proliferação de linguagens e softwares essenciais de domínio público.

Assim, sabendo-se que uma das poucas formas de desenvolvimento real do cidadão pode ser alcançada através de uma boa educação, pode-se atribuir ao software livre um papel fundamental neste processo. No entanto, após uma larga discussão sobre a escolha do sistema operacional que deveria ser instalado nos computadores do ProInfo, ficou estabelecido a entrega das máquinas às escolas com o sistema operacional Linux Educacional , sistema operacional responsável pelo funcionamento do computador com código fonte aberto, permitindo que qualquer pessoa veja como o sistema funciona, corrigindo, quando necessário, algum problema. Porém, segundo o site do MEC, referente às perguntas relacionadas ao ProInfo, o mesmo afirma que o “MEC não proíbe a troca do sistema operacional por outros livres ou proprietários”, ou seja as escolas têm a opção de fazer a escolha do software que melhor se enquadra as suas necessidades.

A aquisição apenas do software proprietário faria com que o MEC gastasse muito mais dinheiro, que poderia ser investido em um número maior de máquinas, além de não fazer sentido, pois vários países, universidades públicas e grandes empresas vêm migrando do software proprietário para o livre a fim de reduzir custos, e aumentar o nível de segurança. Contudo, veremos posteriormente, que o governo incentiva o uso do software proprietário através dos materiais destinados aos professores, com informação sobre uso de softwares para serem trabalhados em sala de aula, sendo estes, pertencente ao sistema operacional Windows, um sistema proprietário. Em uma das séries criadas pela SEED, intitulada, Aprender construindo: a informática se transformando com os professores, com o intuito de ajudar os professores a se apropriarem das TIC, traz uma espécie de passo a passo sobre como utilizar alguns softwares proprietários nas atividades dentro da sala de aula.

2.3 Os Núcleos de Tecnologia Educacional – NTE

O ProInfo está organizado por meio dos Núcleos de Tecnologia Educacional – NTE estaduais e municipais, que são “estruturas descentralizadas de apoio ao processo de informatização das escolas, auxiliando tanto no processo de incorporação e planejamento da nova tecnologia, quanto no suporte técnico e capacitação dos professores e das equipes administrativas das escolas” (BRASIL/MEC/SEED/ProInfo, Capacitação, p. 2, 1997).

Os NTE têm a função de capacitar os professores e agentes educacionais para o uso das TIC no processo de ensino-aprendizagem, além de auxiliá-los na montagem de projetos de aprendizagem envolvendo a informática nas escolas. Sua função é adaptada conforme as políticas educacionais das suas respectivas instancias administrativas (programas, projetos, diretrizes, entre outros). Essa dependência faz com que cada NTE tenha sua trajetória definida conforme o contexto da sua administração. São ações de responsabilidade dos núcleos:

– sensibilização e motivação das escolas;
– apoio ao processo de planejamento tecnológico das escolas na adesão ao ProInfo;
– capacitação dos professores e das equipes administrativas das escolas;
– realização de cursos para as equipes de suporte técnico;
– apoio à resolução de problemas técnicos no uso das tecnologias de informação e comunicação-TIC nas escolas;
– assessoria pedagógica para uso da tecnologia no processo de ensino aprendizagem;
– acompanhamento e avaliação local do processo de informatização das escolas.

As instalações dos núcleos devem ser feitas nas dependências escolares já existentes, conforme definido pelos estados nos seus respectivos Programas de Informática Educativa. Em média, cada NTE deve atender até 50 escolas, dependendo de condições específicas como o número de alunos, dispersão geográfica das escolas, estrutura de telecomunicações e facilidade de acesso. Cada núcleo deve dispor de:

– laboratórios semelhantes aos que são instalados nas escolas, de forma a reproduzir o ambiente tecnológico que está disponível para professores e alunos;
– equipamentos servidores Internet, para que os NTE sejam provedores de acesso para as escolas de sua área de atendimento;
– equipamentos para teste e avaliação de programas educativos;
– linhas telefônicas para a conexão computacional das escolas e para o sistema 0800 de atendimento de suporte às escolas.

De acordo com os dados encontrado no site do ProInfo, atualmente existem 450 NTE em todo Brasil, conforme a figura 2, superando nesses mais de 10 anos sua meta inicial de 200 núcleos em todo o país.

Tabela 2. Distribuição dos NTE no Brasil

tabela

Fonte: http://www.proinfo.mec.gov.br/site/mapaNte_sozinho.php

Cada Núcleo possui uma equipe composta por professores (multiplicadores) e especialistas em informática. Os professores são preparados em dois níveis: como professores multiplicadores e de escolas. Os professores, chamados de multiplicadores, têm como função formar os demais professores da rede pública de ensino. Os que participaram da primeira formação, em 1997, fizeram um curso de especialização latu sensu, com carga horária de 720 horas realizada pelo MEC. A partir daí os multiplicadores passaram a qualificar os demais professores da rede pública de ensino.

A estrutura dos NTE tornou “real” as formações destinadas aos professores, tão cogitada por esses profissionais. Contudo, se faz necessário compreender as dinâmicas que envolvem estas ações relacionadas a formação, assim como as leis e instituições que têm como função delinear esta trajetória.

3.FORMAÇÃO DE PROFESSOR

Nas últimas décadas, as mudanças econômicas, sociais e culturais, instalaram novos padrões de vida e relações entre os indivíduos. Essas transformações deram destaque ao sistema escolar, tendo em vista que entre as diversas instituições que ocupam lugar em nossa sociedade, esta “Instituição se propõe a contribuir para a formação do educando como pessoa e como membro da sociedade, mediante a criação de condições e de oportunidades de ampliação e de sistematização de conhecimentos.” (DUARTE,S.G. DBE, 1986) conforme traz o INEP. Assim, a escola contribui para a transformação da sociedade na medida em que fomenta as capacidades intelectuais, as atitudes e o comportamento crítico em relação à sociedade em que está inserida.

Nesta perspectiva, o espaço escolar tornou-se motivo de grandes discussões por parte dos governantes, pesquisadores além de congressos e seminários relacionados ao tema, resultando em reformas na educação e em especial na atuação e formação dos professores, devido a importância destes profissionais como “agentes promotores de processo educativos capazes de dar a população a oportunidade de participação na dinâmica contemporânea como sujeitos críticos, éticos, autônomos e com poder de decisão e produção” (BONILLA, 2002).

Nesse contexto, entendemos o professor não apenas como um mero repetidor de conteúdos, e sim um questionador que ultrapassa o simples ato de transmissão e manuseio das informações, que põe em suspensão a antiga teoria da tábula rasa , onde os educandos eram tidos como simples repositório de informações. O professor é um profissional comprometido com sua função, com suas responsabilidades no processo ensino-aprendizagem e com sua formação, esta voltada para o desenvolvimento de uma ação educativa capaz de preparar seus alunos para a compreensão e transformação da sociedade em que vive. Para tanto, sabemos que os saberes necessários à docência é que dão os alicerces ao trabalho dos professores. Esses resultam da estreita articulação entre formação, profissão e as condições materiais em que estas ações se realizam, conforme traz Almeida:

Essa articulação valoriza o professor como sujeito das transformações que precisam se processar continuamente na escola e na sociedade. E sugere, também, uma associação radical entre formação, condições de trabalho, salário, jornada, gestão, currículo, pressupondo uma política de valorização e de desenvolvimento pessoal e profissional (ALMEIDA, 2008).

Esta forma de compreender a prática docente remete a um processo de formação que se dá ao longo de toda a carreira e requer a mobilização dos saberes teóricos e práticos capazes de propiciar o desenvolvimento das bases para atuação destes profissionais, articulados à infra-estrutura do ambiente de trabalho, assim como ao piso salarial e ao plano de carreira. Para tanto, o governo e as demais instituições responsáveis pelas condições de atuação e formação dos professores tentam articular leis e programas em torno das necessidades de redefinição do seu ambiente de trabalho assim como às competências necessárias à formação profissional.

Necessidades estas geradas, segundo Gatti, por, de um lado, o crescimento do número de alunos e sua heterogeneidade sociocultural, a demanda de uma certa qualidade da escolarização pela população e o impacto de novas formas metodológicas de tratar os conhecimentos e o ensino; por outro, a ausência de uma priorização político-econômica concreta da educação básica e o caráter hierárquico e burocrático, muitas vezes centralizador e pouco operante, das estruturas responsáveis pelos sistemas educacionais (GATTI, 1996).

Essa discussão, relacionada às demandas que norteiam a atuação do professor traz, segundo diversos autores, o discurso sobre o papel e o tratamento concedido a esses profissionais, tanto pelos estudiosos, quanto pelas políticas a ele destinadas. Políticas estas que vêm sendo implementadas ao longo de várias reformas educacionais.

Contudo, é importante pontuar que todo processo de reformas educacionais que o Brasil passou, durante a década de 90, foram fortemente direcionadas, tanto na definição de suas prioridades quanto de suas estratégias, pelas orientações dos organismos internacionais financiadores, principalmente pelo Banco Mundial , que tem por objetivo financiar projetos de infra-estrutura, especialmente em países pobres. Este oferece suas vantagens comparativas (recursos, concepções, conhecimentos e assessorias), propondo, inclusive, adequações jurídicas necessárias para a montagem integrada do sistema educacional. Para tanto, o Banco Mundial só empresta dinheiro para projetos que estejam de acordo com certas exigências, como adesão a suas políticas e aceitação de suas orientações na elaboração e execução de projetos. Castro, em análise às políticas públicas do Banco Mundial para a educação afirma que:

Essa assessoria não se dá de forma inocente ou mecânica. Ela é executada por um processo sutil e, atualmente, esse processo vem revestido de aparência de “atualização” e “ modernização” das políticas públicas educacionais. No entanto, o que fica em evidência é a necessidade de adequação das políticas educacionais às necessidades econômicas do modelo de acumulação capitalista em vigor (CASTRO, 2004, p.77).

“Estes projetos devem obedecer à Lei de custo e benefício – cortar gastos para aumentar a eficiência do investimento” (MIOTTO, 2005). Assim, a ênfase dos projetos educacionais do Banco Mundial está na regulação do custo X benefício, quando deveria ser sobre a qualidade do ensino. O banco entende a educação não apenas como um meio capaz de reduzir a pobreza, mas como fator essencial à formação do “capital humano” para que possa servir aos novos padrões de acumulação capitalista. Diminui-se os custos e amplia-se a abrangência da educação afim de atender a um maior número de pessoas, tendo em vista que esses projetos são delineados por economistas.

O modelo educativo que nos propõe o Banco Mundial é um modelo essencialmente escolar com duas grandes ausências: os professores e a pedagogia. Um modelo escolar configurado em torno de variáveis e observáveis e quantificáveis, e que não comporta os aspectos especificamente qualitativos, ou seja, aqueles que não podem ser medidos, mas que constituem a essência da educação. (TORRES, 1996, p.139)

Assim, o banco atribui a qualidade da educação a nove fatores ligados à escola fundamental que são: bibliotecas, tempo de instrução, dever de casa, livros didáticos, conhecimentos do professor, experiências do professor, laboratórios, salário do professor e número de alunos por turma. As propostas do Banco Mundial para a formação de professores prevê o uso das TIC na educação a distância, a supremacia da formação continuada sobre a formação inicial, a ênfase nos livros e nos textos em vez de uma sólida qualificação do professor, privilegiando mais os meios do que os agentes do processo educacional. Como já foi dito, a hierarquia de investimento proposto pela política do banco baseia-se fundamentalmente na lógica econômica.

3.1 As políticas para formação do profissional da educação

Segundo Cunha (2007), o conjunto de reformas educacionais empreendidas pelo governo brasileiro nos anos de 90, colocaram a ampliação das oportunidades educacionais e a melhoria do ensino como ligadas ao desempenho do profissional da educação. Nesse sentido, a constituição federal de 1988, no seu artigo 206, já trazia como princípio para o ensino no Brasil a valorização dos Profissionais do ensino, garantidos na forma da lei. No entanto, essas reformas educacionais tiveram início no quadro dos compromissos assumidos pelo governo e pelos organismos educacionais durante a conferência Mundial sobre Educação para todos (1990), realizada em Jomtien (Tailândia), visando prioritariamente à modernização da educação e sendo fortemente direcionada pelo Banco Mundial.

Assim, a reforma educacional dos anos 90 tem como característica um novo modelo de organização e gestão da educação pública, tanto do sistema como das suas instituições, baseados na focalização de programas, na descentralização, na privatização e na desregulamentação (CASTRO, 2004).

Os princípios que norteiam a reforma seguem as exigências que o mundo do capital solicita para a formação dos trabalhadores, visando superar os graves problemas da educação básica, entre eles: as baixas taxas de conclusão do ensino fundamental; a falta de eficiência na administração e gestão escolar; carência de livros didáticos, equipamentos e materiais educativos, baixa qualidade e pouca eficiência da educação pública.

Dentro das perspectivas das políticas neoliberais, a responsabilidade pela empregabilidade dos indivíduos, na nossa sociedade, está por conta do sistema educacional. Nesse contexto, a necessidade de implementação de programas de educação e capacitação dos profissionais da educação, que posteriormente vai formar esses indivíduos, torna-se uma estratégia utilizada para conquistar a empregabilidade. Assim, na LDB /96 as políticas de valorização do professor da educação básica estão descritas detalhadamente no artigo 61 ao 67, destacando questões como: Manutenção da formação de professores para Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental, em nível médio; recuperação da “formação em serviço” e do “aproveitamento de estudos” como fundamentos da formação do profissional da educação; exigências da formação de nível superior como requisito mínimo para o exercício do magistério na Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental.

Em relação à fundamentação para a formação, dá ênfase à associação teoria e prática, inclusive mediante a capacitação em serviço; estabelece prazos para as formações em serviço e propõe a criação de Institutos Superiores de Educação. Nessa legislação, a cidadania é colocada como referência fundamental e a visão conteudista dá lugar à valorização da produção da aprendizagem e da construção de competências nos alunos.

O documento da LDB foi aprovado no contexto da reforma educacional como uma maneira de implementar o novo modelo educacional. Esses “documentos estão em sintonia com as orientações neoliberais, baseadas em princípios minimalistas, em que se prevê a diminuição do Estado no setor educacional” (CASTRO, 2004) onde presenciamos a valorização dos mecanismos do mercado, o apelo à iniciativa privada e a consequente redução das ações e investimentos públicos.

A LDB também traz requesitos norteadores da formação do professor em diferentes aspectos, observando o tratamento dos conteúdos desenvolvidos e as ações realizadas durante a formação do futuro professor, formação esta que se dá durante todo período de atuação desses profissionais. O documento trata o profissional da educação como eixo central da qualidade da educação, tendo seus alicerces em novos parâmetros e em modernas teorias de aprendizagem. O destaque que a LDB dá à formação em serviço e através de “treinamento” demonstra como a política em vigor está mais preocupada com a prática e o imediatismo, ao invés de proporcionar mudanças no perfil do professor, tornando-o capaz de agir sobre a sua prática e a partir das suas próprias reflexões. O termo treinamento encontrado no documento da LDB, segundo o dicionário Aurélio (online), significa o ato de treinar.

Para Tocshi, a carga semântica desta palavra desfaz toda suposição de uma política que defende o professor prático-reflexivo, uma vez que embute em seu significado a concepção de atividade docente como algo que possibilita ensinar a alguém a cumprir determinada tarefa (TOCSHI, 1999, p.47).

O significado deste termo reflete a idéia de formação a curto prazo para assimilação de determinadas habilidades, competências ou conhecimento, relacionados ao ensino de habilidades práticas direcionadas à competências úteis e específicas. Assim, o treinamento dá ênfase à concepção da atividade docente como algo que possibilita ensinar a alguém uma determinada tarefa. Essa visão está muito distante da formação de qualidade que se espera para o profissional da educação, de forma que este seja capaz de enfrentar as constantes mudanças do mundo contemporâneo, com base em uma formação sólida pautada na pesquisa educacional. Esta base só é possível pela graduação em universidades, que articulem o ensino, a pesquisa e a extensão.

A formação dos professores é um dos pontos delineados pela LDB que aponta as instituições que têm por finalidade a formação dos profissionais da educação:

A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal (LDB/96, Art 62).

Com base nas atribuições das unidades de ensino superior, responsáveis pela formação dos futuros professores, as universidades organizam-se para repensar seu projeto institucional, relacionando a formação de professores com o objetivo geral dos cursos de graduação, afim de formarem profissionais competentes, socialmente críticos e responsáveis com os destinos de seus educandos. Através da articulação entre formação de professores e os objetivos gerais dos cursos de graduação, as universidades buscam cumprir a tarefa de formar os profissionais da educação com sólida fundamentação teórica e prática envolvendo o ensino, a pesquisa e extensão, contudo, essa não é uma tarefa fácil e traz aos docentes das universidades inúmeros questionamentos. Trata-se, como observa Gatti, de:

[…] preparar a universidade para desempenhar o papel que corresponde a suas características – o de realizar pesquisas educacionais e didáticas, estudar modelos alternativos de formação, preocupar-se com a formação dos formadores etc. – porém alterando substantivamente seu modo de operar, integrando em todas essas atividades, como parceiros efetivos, os professores e os técnicos que estão na prática escolar, não só trazendo-os para dentro do campus como indo às suas regiões e locais de trabalho (GATTI, 1992, p.72).

Já os Institutos superiores de Educação foram criados pela LDB como forma de inovar, tendo por base experiências de outros países, e pensados como locais específicos de formação de professores para a educação básica, fora das universidades. Nesses institutos a formação dos professores nega a idéia de ensino como pesquisa tendo em vista que nesses espaços o foco está apenas no ensino, sem formar um professor pesquisador, conforme traz Bazzo:

Pela nova lei e por toda a legislação complementar que a sucedeu, as atribuições dos Institutos Superiores de Educação são bastante amplas no que diz respeito à formação dos professores e claramente esvaziadoras das responsabilidades e tarefas das faculdades/centros de educação das universidades, indicando, mais uma vez, o risco de desprofissionalização ainda maior, além da desvalorização que uma formação fora da universidade e com exigências muito menores no nível de qualificação de seus mestres poderá acarretar. Assim, a criação dos Institutos Superiores de Educação, no contexto dessa lei, significa um rebaixamento na hierarquia universitária com tudo o que isto implica em perda de qualidade e mesmo de prestígio para a formação dos profissionais da educação (BAZZO, 2004, p.277).

Frente a esse quadro, podemos dizer que as estratégias de redução do conhecimento e da ação pedagógica do profissional da educação, acompanhada de baixos salários e pouca profissionalização, têm sido uma constante ao longo das reformas educacionais. Para marcar esta discriminação, a criação dos Institutos Superiores de Educação (ISE) descaracteriza profundamente o perfil profissional dos docentes. Os ISE, propostos pela LDB, representam uma preocupante preferência pela formação do professor fora da universidade, em locais onde a pesquisa e a produção de conhecimento poderão passar despercebidos ou até mesmo não existir, tendo em vista as baixas exigências de qualificação do corpo docente que a lei estabeleceu para a criação desses Institutos além de ser uma forma “aligeirada” de formação.

Pereira (2000) apresenta um estudo que aponta que os principais problemas encontrados nos cursos de licenciatura brasileiras são: “a separação entre disciplinas de conteúdo e disciplinas pedagógicas, a dicotomia bacharelado & licenciatura e a desarticulação entre formação acadêmica e realidade prática de escolas e professores”. Existem inúmeros “conteúdos” que precisam ser dominados pelos licenciandos durante sua formação inicial; esses futuros professores necessitam se apropriar de muitos conhecimentos sobre a realidade social e escolar em que vão atuar. Esses aspectos, segundo Sílva (2005), implicam domínio do conhecimento educacional – suas teorias, pesquisas e estudos, seus autores clássicos e contemporâneos, suas análises e interpretações, suas hipóteses e teses: enfim, conhecimento racionalmente construído, que permita interpretar os homens, suas sociedades e culturas, seu pensar e seu agir.

Contudo, as dificuldades envolvidas nessa empreitada, “o diálogo entre a universidade e os sistemas públicos de ensino básico, pode se constituir uma oportunidade de reflexão sobre as práticas educativas da própria Universidade” (AMBROSETTI e RIBEIRO, 2008). Assim, a escola básica se torna o campo principal de trabalho desses profissionais, através de um processo fertilizador do ensino, da pesquisa e da extensão na instituição, exigindo um esforço na preparação de projetos integrados a está área, em seus níveis fundamental e médio, articulado a uma permanente reformulação, avaliação e acompanhamento por parte das diversas faculdades e unidades que oferecem disciplinas para os cursos de Licenciatura, conforme traz Gatti:

A crise na área de formação dos professores não é só uma crise econômica, organizacional ou de estrutura curricular. É uma crise de finalidade formativa e de metodologia para desenvolver esta formação, restabelecendo a relação de comunicação e de trabalho com as instâncias externas nas quais os formandos vão atuar, ou seja, as escolas em sua cotidiana concretude. Isto exige uma mudança radical da inserção das licenciaturas na universidade e nas escolas superiores isoladas, bem como em seus modos de ação (Gatti,1992, p.73).

É importante ressaltar que muitos desses empecilhos, vinculados às dificuldades na formação docente, se devem ao fato de que os currículos dos cursos de formação, em sua maioria, são dissociados da realidade com a qual o futuro professor vai se deparar, além do fato de que as políticas públicas apresentam-se inconsistentes, e quando os programas são implementados, não existe o acompanhamento e avaliação dos resultados por parte do governo, desviando o foco principal que é o ensino de qualidade.

Nesse sentido, o governo instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica através da Resolução do CNE/CP nº 1, de18 de fevereiro de 2002. O Artigo 2º desta resolução apresenta como orientação para o preparo do professor, os seguintes compromissos:

(I)– o ensino visando à aprendizagem do aluno; (II) – o acolhimento e o trato da diversidade; (III) – o exercício de atividades de enriquecimento cultural; (IV) – o aprimoramento em práticas investigativas; (V) – a elaboração e a execução de projetos de desenvolvimento dos conteúdos curriculares; (VI) – o uso de tecnologias da informação e da comunicação e de metodologias, estratégias e materiais de apoio inovadores; (VII) – o desenvolvimento de hábitos de colaboração e de trabalho em equipe. (CNE/CP, 2002)

Nesta mesma resolução, no Artigo 6º, são mencionadas como competências a serem consideradas para a construção do projeto pedagógico dos cursos de formação dos docentes aquelas referentes:

(I) – ao comprometimento com os valores inspiradores da sociedade democrática; (II) – à compreensão do papel social da escola; (III) – ao domínio dos conteúdos a serem socializados, aos seus significados em diferentes contextos e sua articulação interdisciplinar; (IV) – ao domínio do conhecimento pedagógico; (V) – ao conhecimento de processos de investigação que possibilitem o aperfeiçoamento da prática pedagógica; (VI) – ao gerenciamento do próprio desenvolvimento profissional (CNE/CP, 2002).

Nesse contexto, as instituições formadoras têm por objetivo proporcionar oportunidade para que o futuro professor “articule a teoria com a prática e, desta forma ao realizar a aprendizagem de novos conceitos, também desenvolva competências que relacionam o conteúdo estudado com a sua efetiva prática” (BARROS e BRIGHNTI, 2004). Assim, além do domínio de conteúdos básicos que vai ensinar, o professor adquire compreensão de todas as questões referentes ao seu trabalho, refletindo criticamente sobre a sua atuação e o contexto em que atua, sendo a ele proporcionada a construção de competências necessárias a sua atuação docente.

O Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado pela Lei n. 10.172, de janeiro de 2001, assim como a LDB, também prioriza os profissionais da educação destacando a atenção que deve ser dada à formação inicial e continuada.

4.Valorização dos profissionais da educação. Particular atenção deverá ser dada à formação inicial e continuada, em especial dos professores. Faz parte dessa valorização a garantia das condições adequadas de trabalho, entre elas o tempo para estudo e preparação das aulas, salário digno, com piso salarial e carreira de magistério (BRASIL, 2001).

Assim, entendemos que a formação inicial deve se pautar em uma estreita relação entre as universidades e os institutos de formação. Já a formação continuada ocorre através de programas contínuos, na perspectiva de que os professores sintam necessidade de participar, utilizando-se deste processo de formação para adquirir as competências que surgem no decorrer das transformações e necessidades da nossa sociedade, para sua atuação no ambiente escolar a partir da compreensão de que a prática pedagógica e formação continuada estejam sempre caminhando de mãos dadas ao longo da vida profissional, em continuidade com a formação inicial. Entendo a formação continuada como:

o conjunto de atividades desenvolvidas pelos professores em exercício com objetivo formativo, realizadas individualmente ou em grupo, visando tanto ao desenvolvimento pessoal como ao profissional, na direção de prepará-los para a realização de suas atuais tarefas ou outras novas que se coloquem. (GARCIA, 1995)

Dentro da atual lógica das políticas neoliberais, a formação inicial e continuada são respostas a evolução do capitalismo tendo em vista o contexto econômico que vivenciamos, marcado pela volatização e desvalorização do conhecimento tradicional, proporcionado pelo surgimento do paradigma produtivo que tem como característica principal a terceirização, os novos processos organizacionais na produção e no trabalho interno. Assim, a educação tem o papel de possibilitar a adaptação flexível dos indivíduos a esses requisitos produtivos através da formação inicial e continuada. Na teoria, o MEC traz o discurso do professor reflexivo e a formação continuada como direito de todo sujeito e parte integrante da formação inicial, no entanto, segundo Castro:

– As políticas que são implementadas pelo governo caminham mais no sentido de atender às exigências dos organismos internacionais, com ênfase nos aspectos econômicos, utilizadas como estratégias para ajustar a educação aos interesses do capital do que realmente qualificar os professores para desenvolverem com competência o seu papel (CASTRO, 2004, p.56).

As orientações desse Banco caminham no sentido do aligeiramento da profissão, privilegiando a formação continuada e em serviço, na própria escola e, preferencialmente, realizada pela educação a distância. Alguns desses órgãos internacionais que dão assessoria ao nosso país no setor educacional, como a UNESCO, prevêm que os professores devem também trabalhar em outras áreas que não sejam as educacionais, como forma de ampliar as suas experiências. Nos dias atuais, são muitos os programas de formação continuada em todos os níveis de ensino que estão sendo disponibilizados para professores em exercício, pelo MEC.

Com a finalidade de organizar a formação inicial e continuada dos profissionais do magistério para a educação básica, o presidente Luis Inácio Lula da Silva assinou a Lei nº 11.502, de julho de 2007. Neste decreto foi instituídu a Política Nacional de Formação de Professores em regime de colaboração entre a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios. Com esta Lei, ficou atribuída à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) a responsabilidade pela atualização e especialização dos professores da educação básica, afim de assegurar a qualidade da formação desses profissionais que atuarão ou que já estejam em exercício nas escolas públicas, além de integrar a educação básica e superior visando à qualidade do ensino público conforme a redação desta Lei:

§ 2o No âmbito da educação básica, a Capes terá como finalidade induzir e fomentar, inclusive em regime de colaboração com os Estados, os Municípios e o Distrito Federal e exclusivamente mediante convênios com instituições de ensino superior públicas ou privadas, a formação inicial e continuada de profissionais de magistério, respeitada a liberdade acadêmica das instituições conveniadas, observado, ainda, o seguinte:

I – na formação inicial de profissionais do magistério, dar-se-á preferência ao ensino presencial, conjugado com o uso de recursos e tecnologias de educação a distância;
II – na formação continuada de profissionais do magistério, utilizar-se-ão, especialmente, recursos e tecnologias de educação a distância (BRASIL, 2007).

Nessa perspectiva, o ensino presencial tem destaque como modalidade na formação dos professores, no entanto os sistemas semi-presencial e a distância também são mencionados como fator relevante para o processo de formação. A formação docente para todas as etapas da educação básica como compromisso público de Estado, é também ponto de reconhecimento da lei Lei nº 11.502, assim como necessidade de articulação entre formações inicial e continuada, bem como entre diferentes níveis e modalidades de ensino.

3.2 EAD como modalidade de ensino na formação de professores

Com a publicação da LDB, que oficializou a EAD como modalidade válida e equivalente para todos os níveis de ensino, a expansão da internet, e o uso intensivo das tecnologias de informação e comunicação, a educação a distância começou a se expandir rapidamente. Esta modalidade de ensino passou a ocupar um lugar estratégico para as políticas neoliberais em vigor, tendo como objetivo diminuir os déficits do sistema, ampliar o acesso da população à educação, democratizar o ensino e reduzir os gastos nas áreas educacionais. Para viabilizar esses objetivos, ganha destaque o uso das tecnologias de informação e comunicação – TIC, tendo em vista a amplitude proporcionada por esses meios de comunicação.

O artigo 80 da LDB traz os princípios gerais para desenvolver a educação a distância no Brasil, como modalidade de ensino na formação dos profissionais. Está assim escrito:

Art. 80. O Poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada.

1º A educação a distância, organizada com abertura e regimes especiais, será oferecida por instituições especificamente credenciadas pela União. 2º A União regulamentará os requisitos para a realização de exames e registro de diploma relativos a cursos de educação a distância.
3º As normas para produção, controle e avaliação de programas de educação a distância e a autorização para sua implementação caberão aos respectivos sistemas de ensino, podendo haver cooperação e integração entre os diferentes sistemas.
4º A educação a distância gozará de tratamentos diferenciados, que incluirá:

I – custos de transmissão reduzidos em canais comerciais de radiofusão sonora e de sons e imagens;
II – concessão de canais com finalidades exclusivamente educativas;
III – reserva de tempo mínimo, sem ônus para o Poder Público, pelos concessionários de canais comerciais. (LDB/96, Art. 80)

Assim, a LDB reconhece a modalidade de educação a distância como processo positivo de formação que pode ser aplicada em todos os níveis e modalidades educacionais. Também determina que a EAD no Brasil terá uma regulamentação própria e que o credenciamento das instituições que desejam trabalhar com essa modalidade será feito pela União.

Nesta lógica, Marília Fonseca, em analise às formações de professores, com o uso da educação a distância, através do viés das políticas públicas do Banco Mundial, ressalta que:

Nos documentos de política estratégica do Ministério da Educação, em 1995, a flexibilização já fazia parte de propostas que indicavam a necessidade de tornar as escolas mais flexíveis, oferecendo mais treinamento aos professores e menos formação stricto sensu. Identifica-se, assim, uma consonância com as orientações do Banco, no sentido de privilegiar a formação mais ligeira e mais barata, como a “capacitação” em serviço, a distância e em cursos mais rápidos.” Essa proposição tem por base as pesquisas internas do Banco, mostrando que o desempenho dos alunos não depende mais da formação do professor e sim do que chamam de “pacotes instrumentais”, ou seja, do livro didático, do material pedagógico etc. Cabe notar que a formação a distância, dentro do limite conceitual do Banco, fundamenta-se em bases restritivas, como o aligeiramento do processo de ensino. (Fonseca, 1999, p. 72-73)

Nesse sentido, a EAD tem como características a flexibilidade, responsabilização do trabalho, unidades de produção de menor porte e mercado segmentado de forma a atender as exigências do novo paradigma educacional, estabelecido pelos organismos internacionais, baseado na acumulação flexível. Assim, a EAD responde os anseios das organizações internacionais, e à imposição por uma atualização constante e um aprendizado que deverá ser desenvolvido ao longo da vida, através de uma formação ligeira, com menor custo e com duração menor em comparação aos cursos ofertados no presencial.

Como estratégia, os programas de educação a distância assumem sua amplitude atrelados aos meios de comunicação e informação, na tentativa de atingir os objetivos determinados para a educação. Visando a universalização, a equidade do acesso, além da melhoria na qualidade do ensino, os programas de EAD ganham destaque no nosso sistema de ensino, se apresentando, quando utilizados adequadamente, como uma solução eficaz para resolver problemas rotineiros no campo da educação, tais como: grandes distâncias geográficas, indisponibilidade de tempo das pessoas, deslocamento, falta de recursos financeiros, entre outros.

Segundo dados do Anuário Brasileiro Estatístico de Educação Aberta e a Distância (AbraEAD), o crescimento de alunos regularmente matriculados em cursos de EAD credenciados no Brasil entre 2004 e 2007 é de 150%. Houve um aumento de 309.957 estudantes para 778.458. Também cresceu em 30% o número de instituições autorizadas ou com cursos credenciados para oferecer esta modalidade de ensino no mesmo período. Um salto de 166 para 225 instituições. Segundo a AbraEAD, este aumento nos índices de alunos e de instituições credenciadas se dá devido ao também aumento do acesso da população à modernas tecnologias como computador e a Internet, facilitando seu ingresso em cursos a distância.

O processo de articulação entre a EAD, as redes e conexões, e as TIC, tornaram-se elementos estruturante desta modalidade de ensino, tendo em vista a gama de possibilidades que essas tecnologias oferecem. Assim, a EAD vem sendo realizada de diferentes maneiras, entre elas podemos citar: inteiramente a distância, com a utilização da Internet, teleconferências, vídeos, material impresso ou semi-presencial, utilizando materiais impressos especialmente preparados para os cursistas, diferentes mídias digitais como computador, CD Rom ou DVD e a Internet, materiais impressos e encontros presenciais sob a supervisão de um tutor ou formador. O uso da WEB em programas em educação a distância vem adotando tecnologias mais avançadas, que constituíram um grande facilitador do processo de implementação de tais programas, tendo em vista as possibilidades de reduzir a distância, que são características das tecnologias.

Contudo, não podemos nos deixar levar no sentido de que apenas as inovações tecnológicas podem trazer os benefícios da EAD, como traz Pretto:

Já é quase consensual a percepção de que o uso das TIC será um fracasso se insistirmos na sua introdução como ferramentas, apenas como meros auxiliares do processo educacional, de um processo caduco, que continua sendo imposto ao cotidiano das pessoas que vivem um outro movimento histórico. Em todas essas situações, a distância entre a educação presencial e a distância faz pouco sentido, pois estando essas tecnologias presentes, mudam as dimensões espaço-tempo e, com isso essa distinção presencial/a distância se esvazia (PRETTO, 2001, p.42).

As diferentes maneira que as TIC vêm sendo usadas na EAD assim como as diferentes mídias, pode proporcionar grandes vantagens para esta modalidade de ensino, no entanto, o desafio inovador em EAD é superar o “conteudismo” e criar ambientes ricos de aprendizagem (MORAN, 2003). Ambientes estes que as universidades possuem através da interação que acontece nas salas de aula entre os indivíduos, mas princialmente pelas inúmeras possibilidades de aprendizagem em grupos de pesquisa, eventos, congressos, laboratórios, bibliotecas, conversas ocasionais em espaços diferentes, que a EAD não oferece a seus alunos e que para o profissional que irá atuar em sala de aula como docente são de suma importância.

Segundo Moran (2003), “muitos dos cursos a distância estão focados no conteúdo, na informação, no professor, no aluno individualmente e na interação com o professor/tutor.” Nesse sentido, os cursos de EAD não deveriam estar focado nos conteúdos que devem ser trabalhados, mais sim na construção do conhecimento e na interação, no equilíbrio do individual e do grupal. O predomínio da interação virtual fria (formulários, rotinas, provas, e-mail) e alguma interação online (pessoas conectadas ao mesmo tempo, em lugares diferentes) é característica desta modalidade de ensino onde os cursos são empacotados, seguem fórmulas semelhantes e dão ênfase excessiva ao conteúdo e pouca à aprendizagem em pequenos grupos, à pesquisa significativa, à produção de conhecimento adaptado à realidade de cada aluno e grupo.

Existem muitas vantagens em se optar por um curso a distância, tendo em vista a flexibilidade no horário, no nível do curso, na metodologia utilizada, não se exigindo a presença física do professor e do aluno no mesmo espaço escolar. Essas vantagens permitem aos professores, que estejam exercendo suas atividades profissionais, realizarem seus estudos sem a rigidez de espaço, assistência e tempo. A possibilidade de moldar o tempo, o espaço e a rotina para aprender são pontos de destaque deste processo, além de atender a uma numerosa quantidade de indivíduos, mesmo que dispersos geograficamente, com a oferta de oportunidades de formação adequadas às exigências atuais de formação.

Contudo, não se pode desconsiderar o contexto regional histórico, social, político e econômico em que os sujeitos deste processo de formação estão inseridos, além das potencialidades da Educação a Distância, sem uma análise rigorosa da mesma, como afirma Arnaldo Niskier:

A escola tradicional e a educação à distância podem e devem coexistir com suas velocidades próprias e de acordo com a determinação de prioridades. O que não é admissível é condenar a educação, mas vê-la como capaz de propiciar o exercício da cidadania, melhorando em geral, dando liberdade para aquisição de conhecimentos (independentemente da modalidade adotada), formando e aprimorando os professores ou criando maiores oportunidades educacionais (NISKIER, 2000, p. 29).

Desta forma, é preciso que o planejamento, a organização, a metodologia, a estrutura e sistematização da educação a distância sejam concebidos numa prática libertadora (BENAKOUCHE, 2000), que tenha seu foco principal nos alunos em formação e não nas tecnologias.

É grande o leque de possibilidades que se abrem com a EAD. As políticas para essa área defendem a idéia de sua flexibilização para atender os anseios postos pelos paradigmas econômicos, afim de preparar a mão-de-obra necessária ao mercado de trabalho. Apesar do grande preconceito que estava vinculado a esta modalidade de ensino, a conjuntura econômica e política considera essa modalidade economicamente viável e eficiente para a superação dos problemas educacionais. Nesse contexto, as tecnologias favorecem a implantação da EAD devido a sua amplitude, contudo sabendo do grande potencial que está atrelado às TIC, não podemos deixar de mencionar suas limitações quando aplicadas sem as devidas bases teóricas, técnica, política e econômica.

3.3 Formação dos professores para as TIC

As práticas de formação dos professores se encontram profundamente marcadas pelos mais variados temas e processos midiáticos. As TIC provocam mudanças nos modos de ver e pensar dos indivíduos, de modo a influenciar diferentes práticas sociais. Para acompanhar essas transformações, o ambiente escolar necessita de um novo perfil de professor que possa compreender as mudanças ocorridas no mundo do trabalho e da inserção das TIC no seu cotidiano. Novas exigências são impostas ao profissional da educação, de forma que “não basta que tenha conhecimento em sua área, mas que seja capaz de transpor esse conhecimento para situações educativas de aprendizagem permitindo a interação entre os alunos e o conhecimento” (CASTRO, 2004, p.39). Estas exigências estão presentes no processo de interação dos professores com as TIC.

Várias iniciativas por parte das instituições não governamentais e do próprio governo são desenvolvidas com o intuito de aproximação e apropriação desses profissionais com as TIC, a exemplo do ProInfo, com as formações nos NTE, do ProInfo integrado, criado para articular e integrar os diversos programas do governo para formação dos professores, entre outros. Outras instituições também ofertam cursos para atender esta demanda, no entanto, muitos desses se limitam a “desenvolver competências minimas e o contato com o computador sem que haja uma abordagem epistemológica, política relacionada às características das tecnologias e linguagens, ao contexto contemporâneo” (Bonilla, 2005).

Nas orientações do Banco Mundial, existe uma grande esperança relacionada aos recursos tecnológicos, como instrumentos didáticos a serem utilizados pelos professores em sala de aula. Para esta instituição, as TIC podem aumentar a eficiência da educação através da utilização dos programas de computadores direcionados para o sistema educacional. No entanto, segundo Bonilla (2001), a formação oferecida aos profissionais da educação não lhes dá condições para utilizar as TIC em sua prática pedagógica, nem para compreender as transformações vivenciadas em todos os âmbitos da sociedade. Os programas e cursos direcionados a esta formação são aligeirados, no formato de treinamento, com baixo custo, seguindo a lógica da educação de massa, da transmissão de pacotes produzidos num centro e distribuídos a um grande número de participantes, com pouco ou nenhum uso das tecnologias digitais.

Entendemos que a formação e atuação de professores para o uso das TIC na educação é um processo que relaciona o domínio dos recursos tecnológicos com a ação pedagógica e com os conhecimentos teóricos necessários para refletir, compreender e transformar essa ação. As ações de formação dos professores devem ser compreendidas em um movimento que ultrapassa a formação de simples utilizadores das TIC, pois não basta saber manusear hardware e software, é necessário compreender as potencialidades destes recursos no processo ensino-aprendizagem, afim de provocar mudanças nas práticas pedagógicas. Bonilla (2005), em análise sobre a formação dos professores, afirma que:

É preciso perceber como as TIC abrem oportunidade para criação de novos espaços de aprendizagem, colaborativos, interativos. Para tanto, um componente importante no processo de formação de professores é o trabalho em equipe, a concepção de que a aprendizagem acontece socialmente, de forma cooperativa. Ou seja, é necessário uma reestruturação dos universos simbólicos, o que implica mudança de atividades, de concepções, novas aprendizagens e novos modos de aprender. (BONILLA, 2005, p. 201)

Na contemporaneidade, as tecnologias são de grande importância para o processo de formação do professor, assim como as demais disciplinas e práticas pedagógicas, bem como as demais áreas do currículo. As TIC devem estar presentes desde a formação inicial dos profissionais da educação e, consequentemente, durante a formação continuada, para que estes profissionais criem intimidade com as tecnologias durante a vida acadêmica e ao atuar no ambiente escolar. Assim, não basta apenas capacitar os professores para lidar com as máquinas, é preciso, segundo Kenski,

[…] preparo para a produção e manipulação das informações e para o posicionamento crítico diante desta nova realidade. Mas não é suficiente garantir o acesso de todos os alunos aos novos ambientes proporcionados pelas tecnologias. O professor precisa ter condições para utilizar o ambiente digital no sentido de transformar o isolamento, a indiferença e a alienação com que costumeiramente os alunos frequentam o ambiente de sala de aula…(KENSKI 2001, p.74)

Para Bonilla (2005), o envolvimento do professor com as TIC deve partir da perspectiva de um professor sujeito de sua ação e não mero executador de atividades ou técnicas, deve ser produtor de conhecimento, e não meramente consumidor. Nesse sentido, cursos aligeirados, receitas, palestras e treinamento não são suficientes para que os professores se apropriem das possibilidades e conhecimentos que estão atrelados a essas tecnologias, tão importantes no cotidiano da nossa sociedade. As ações de pesquisa, raciocínio, criatividade, capacidade de interagir com outras pessoas e as diferentes tecnologias são importantes para esta formação. São esses os princípios que as instituições formadoras devem incorporar aos processos, de forma a proporcionar ao futuro professor articulação entre teoria e prática.

Nesta perspectiva transformadora de uso das TIC na educação, a atuação do professor não se limita a fornecer informações aos alunos. Cabe ao professor assumir a mediação das interações professor, aluno e TIC, de modo que o aluno possa construir o seu conhecimento em um ambiente desafiador, onde as TIC auxiliem o professor a promover o desenvolvimento da autonomia, da criatividade, e da criticidade do aluno. O aluno deixa de ser o receptor de informações para tornar-se o responsável pela aquisição de seu conhecimento, usando o computador para buscar, selecionar e relacionar informações significativas na exploração, reflexão e representação de suas próprias idéias, produzindo meios para mudanças em suas relações na sociedade.

4. FORMAÇÃO DOS PROFESSORES NOS NTE

Durante um longo tempo, as inovações tecnológicas na educação foram atribuídas a equipes de especialistas, que tentavam estratégias de mudanças e inserção de novos recursos no processo ensino-aprendizagem. Não se questionava a utilização dessas tecnologias, as suas especificidades próprias e os profissionais que iriam lidar com as mesmas no seu dia a dia. Conforme trazem Pretto e Bonilla :

Podemos perceber desde as origens do processo de introdução da informática na educação, um fato que persiste até hoje, ou seja, os educadores e professores ficam quase à margem desses processos. Os projetos para o uso da tecnologia na educação envolvem técnicos e especialistas de áreas relacionadas com a tecnologia mas não envolvem os profissionais diretamente envolvidos com a educação – os professores de sala de aula (Pretto e Bonilla, 2000).

Com a criação do ProInfo e sua estratégia de formação dos profissionais da educação para utilizarem as TIC, desencadeou-se um novo processo de busca por uma formação adequada para os professores, afim de promover a autonomia desses profissionais numa perspectiva crítico-reflexiva, “onde os mesmos estivessem envolvidos com a implementação de projetos em que fossem atores e autores da construção de uma prática pedagógica transformadora” (ALMEIDA, 2000).

Nesse contexto, os NTE tornarem-se espaços importantes para a realização das formações dos professores, tendo em vista ser essa sua principal ação. Com intuito de tentar compreender e perceber a concepção, metodologia, o formato, além das dinâmicas e dificuldades que envolve as formações nos NTE, este capítulo parte das análises de todo material coletado no âmbito do ProInfo, do ponto de vista dos diversos pesquisadores na área de formação de professores, além das falas obtidas através de entrevistas com os coordenadores estaduais e Municipais do ProInfo afim de compreender a dinâmica destes núcleos, através do olhar dos profissionais que atuam nesses espaços.

É importante pontuar que entre 2008 e 2009 realizei atividades como bolsista PIBIC pesquisando sobre o ProInfo. Neste período foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com os coordenadores Estaduais e Municipais do ProInfo, que demonstraram disponibilidade. Na época, tentamos realizar essas entrevistas com os professores que já participaram das formações nos NTE. Foi feita a coleta dos contatos desses professores através dos blogs utilizados nas formações, disponíveis em rede. No entanto, dos mais de 20 professores selecionados, nenhum nos deu retorno. Dos 54 coordenadores (27 Estaduais e 27 Municipais), apenas 7 responderam as nossas questões. Um número considerável demonstrou disponibilidade, no entanto não deram retorno após o envio das questões. Apesar do pequeno número de coordenadores entrevistados, as informações fornecidas foram parecidas quanto às ações cotidianas e dificuldades enfrentadas nas realizações das atividades.

4.1 Concepção dos cursos nos NTE

Criado pelo ProInfo, o NTE tem como principal função “capacitar” professores das redes municipal e estadual para atuarem em sala de aula com as TIC nas diversas disciplinas. Quando da implantação do programa, o foco das ações dos núcleos era apenas os professores que atuavam em escolas que já tinham recebido laboratórios de informática. Nos dias atuais, no contexto da reformulação do ProInfo, através do PDE, são contemplados também os professores das escolas que ainda não receberam os laboratórios. Assim, os cursos ficam disponíveis aos professores que tenham interesse em participar, independente das escolas em que atuam já terem adquirido ou nãoos laboratórios, conforme a fala da coordenadora do do NTE do Estado do Amapá:

A princípio, eram capacitados somente professores que atuariam em ambientes como lied ou telessala, mas agora, montamos nossa grade de cursos ou oficinas e divulgamos, assim, os interessados nos procuram. As vezes fazemos documentos às escolas informando (Coordenadora Estadual Amapá, 2009).

Tendo em vista que nesses mais de 10 anos de execução são poucas as escolas que possuem laboratórios do ProInfo, como já falamos anteriormente, principalmente pela drástica oscilação na liberação das verbas destinada ao programa, com a abertura das formações não apenas para os professores das escolas com laboratórios, o programa aumenta sua abrangência na tentativa de universalização do acesso às TIC para esses profissionais. No entanto, o ideal de uso das TIC no ambiente escolar, pelos profissionais da educação, que está atrelado aos NTE, é apenas de apoio às diversas disciplinas, onde os maiores índices de uso dessas tecnologias é obtido como um sinal positivo. Contudo, não se leva em conta a forma como essas TIC são utilizadas, as metodologias e o reflexo desse uso nas práticas pedagógicas dos docentes. Não podemos utilizar as TIC apenas para enfeitar as aulas, tornando-as mais “bonitinhas”.

É necessário articular essas tecnologias com o cotidiano dos docentes e dos alunos, possibilitar a apropriação dessas de forma autônoma, aliadas ao enriquecimento do trabalho docente, em oposição às perspectivas reducionistas das políticas oficiais:

É preciso que os alunos ganhem autonomia em relação às suas próprias aprendizagens, que consigam administrar os seus tempos de estudo, que saibam selecionar os conteúdos que mais lhe interessam, que participem das atividades, independente do horário ou local em que estejam. A grande revolução no ensino não se dá apenas pelo uso mais intensivo do computador e da internet em sala de aula ou em atividades a distância. É preciso que se organizem novas experiências educacionais em que as tecnologias possam ser usadas em processos cooperativos de aprendizagem, em que se valoriza o diálogo e a participação permanente de todos os envolvidos no processo (KENSKI, 2005).

Segundo o MEC (MEC/SEED, 1997, p.8), as capacitações dos professores nos núcleos tem por objetivo: estruturar um sistema de formação continuada de professores no uso das novas tecnologias da informação, visando o máximo de qualidade e eficiência; desenvolver modelos de capacitação que privilegiem a aprendizagem cooperativa e autônoma, possibilitando aos professores de diferentes regiões geográficas do país oportunidades de intercomunicação e interação com especialistas, o que deverá gerar uma nova cultura de educação a distância; preparar professores para saberem usar as novas tecnologias da informação de forma autônoma e independente, possibilitando a incorporação das novas tecnologias à experiência profissional de cada um, visando a transformação de sua prática pedagógica;

Assim, percebemos que os objetivos delineados há dez anos atrás continuam em vigor na atualidade; apesar da reformulação do projeto, as práticas ainda são as mesmas. A ênfase dada à formação continuada, em detrimento da formação inicial, muitas vezes destacando a formação em serviço como promissora para a obtenção da qualidade e da eficiência que se espera obter, trazendo a tona características das orientações das instituições “internacionais que privilegiam a formação ligeira, mais barata e com cursos rápidos” (CASTRO, 2004, 57) também está evidenciada no “novo ProInfo”, conforme traz a coleção Salto para o Futuro, na contextualização do programa:

É importante destacar que, no ProInfo Integrado, a ESCOLA é o lócus por excelência da formação continuada do profissional da educação, pois, na medida em que trabalha e estuda ao mesmo tempo, ele tem mais oportunidades de receber orientação e acompanhamento da prática e, sobretudo, tem um material mais rico para completar o ciclo da ação – reflexão – ação aperfeiçoada (SEED/MEC, 2008).

A formação continuada é de suma importância durante a carreira do profissional da educação, tendo em vista a remodelagem das ações e conceitos dos docentes para acompanhar as mudanças que sucedem a sociedade contemporânea. Contudo não podemos conceber essas formações de forma aligeirada apenas como “capacitação” no sentido de treinamento para atender as demandas das instituições financeiras. É preciso uma formação continuada com alicerces nas teorias e práticas necessárias a formação desses profissionais.

A preferência pelo ensino a distância é outro ponto bastante evidente na atual formação destinada aos professores, tendo em vista a gama de cursos que são ofertados através do ProInfo Integrado, com maior carga horária de aulas a distância. A autonomia e independência que é atribuída aos professores no uso das TIC são pressupostas, ao se disponibilizar o montante de materiais pedagógicos que estão espalhados pelos sites educacionais criados pelo MEC, apenas com a oferta de conteúdo relacionado às diversas disciplinas sem enfatizar o tratamento desses conteúdos, as possibilidades destes materiais para formação plena dos docentes.

É preciso entender as TIC para além de meros veículos de informação, ferramentas ou instrumentos educacionais, e sim com os “múltiplos reflexos na área cognitiva e nas ações práticas, ao possibilitar novas formas de comunicação e produção de conhecimento, gerando transformações na consciência individual e na percepção de mundo, nos valores e nas formas de atuação social (Bonilla, 2005, p.181)

É importante pontuar que a oferta desses conteúdos em rede, direcionado aos professores não tem levado em consideração a autonomia destes profissionais para trabalhar com o mesmo. As redes de comunicação disponibilizam informação de forma não seqüencial permitindo o acesso a elas de forma aleatória. Nesse contexto o professor pode trilhar o caminho que deseja percorrer, seguindo uma seqüência não linear, podendo transitar de um ponto a outro de maneira rápida, sem uma trajetória definida. Em análise as dinâmicas da interativa, Bonilla (2005) traz a seguinte reflexão:

Essa dimensão criativa e libertária é possibilitada pelo fato de que essas tecnologias utilizam como estrutura básica a hipertextualidade, o que supõe potencialidade e permutabilidade, ou seja, grande quantidade de informações instantâneas e total liberdade para combiná-las, o que leva a produzir narrativas possíveis (Bonilla, 2005, p.144).

Contudo, sabemos que a velocidade como esses caminhos são concebidos nem sempre são acompanhados pela lógica dos navegadores. Muitos professores apresentam dificuldades para utilizar as TIC principalmente quando essas apresentam determinadas noções de interatividade. Mesmo os que já passaram por algum tipo de formação, a relação de intimidade com as tecnologias não acontecem de forma tão rápida e espontânea. Assim, nem todos professores tem autonomia para explorarem esses ambientes absorvendo as potencialidades que estes podem oferecer.

Os professores que atuam em salas de aula, segundo as diretrizes do ProInfo (MEC/SEED, 1997, p.7) devem ter um perfil que os leve a serem: autônomos, cooperativos, criativos e críticos; comprometidos com a aprendizagem permanente; mais envolvidos com uma nova ecologia cognitiva do que com preocupações de ordem meramente didática; engajados no processo de formação do indivíduo para lidar com a incerteza e a complexidade na tomada de decisões e a responsabilidade decorrente; capazes de manter uma relação prazerosa com a prática da intercomunicação.

Para tanto, entendemos que é preciso que os formadores de professores favoreçam a tomada de consciência dos professores em formação sobre como se aprende e como se ensina, levando-os a compreender a própria prática e transformá-la em prol de seu desenvolvimento pessoal e profissional, além dos benefícios do desenvolvimento de seus educandos.

Deve-se não apenas capacitar o professor para lidar com as novas exigências do mundo do trabalho mas, principalmente, para a produção e a manipulação das informações e para o posicionamento crítico diante desta nova realidade. O professor precisa ter condições para poder utilizar o ambiente digital no sentido de transformar o isolamento, a indiferença e a alienação com que costumeiramente os alunos freqüentam as salas de aula em interesse e colaboração, por meios dos quais eles aprendam a aprender, a respeitar, a aceitar, a serem melhores pessoas e cidadãos participativos (KENSKI, 2001, P. 74).

Nesse contexto, se faz necessário entender a metodologia e o formato dos cursos realizados nos NTE a fim de compreender como os mesmos podem contribuir para a formação docente que se almeja, tendo em vista as exigências que são impostas e que ao mesmo tempo trazem barreiras para a formação crítico-reflexivo que tanto se espera desses profissionais da educação.

4.2 Formato dos cursos nos NTE

A estrutura básica de organização do trabalho de formação dos professores nos NTE é a oferta de cursos modulares, com carga horária variável e programação básica comum. São cursos com níveis e formatos diferentes, no entanto a proposta, no que diz respeito à sua concepção e ao seu desenvolvimento, é a mesma. Os primeiros cursos são voltados para o funcionamento do computador, suas partes e recursos básicos, partindo do pressuposto que a maioria dos professores não possui nenhum conhecimento em informática, muito menos em informática na educação. Nesse sentido, a apresentação do funcionamento do computador, suas partes e recursos básicos se dá como uma porta de entrada para o professor no mundo das tecnologias contemporâneas. Espera-se que o professor, após o curso, possa pôr em prática no ambiente escolar em que trabalha, os conteúdos estudados nos cursos e procurar o NTE para posterior aprofundamento.

Assim, percebemos que há um predomínio de uma formação tecnicista (adaptativa, altas habilidades e pseudo-formação) em que a tecnologia é utilizada como fim e não meio educacional. Os cursos ofertados têm como ênfase o domínio no uso dos hardwares e softwares, sem levar em conta a formação do professor crítico reflexivo; o que se obtém são professores técnicos executores de pacotes de instruções. É fato que “setores ligados a órgãos oficiais imaginam que a utilização das novas tecnologias seria suficiente para formar ou capacitar professores, tornando-os técnicos executores de pacotes de instruções” (LIBÂNEO, 2004, p.14), contudo é preciso enxergar com olhos críticos a formação dos professores no atual contexto tecnológico e como essa implantação no sistema escolar tem sido realizada.

É importante ressaltar que conforme os documentos que norteiam o ProInfo, as propostas dos NTE é que esses atuem como instituições descentralizadas, realizando suas atividades conforme as necessidade e especificidades de cada região. No entanto, analisando as propostas de alguns NTE, percebemos que, basicamente, as propostas dos cursos para a formação dos professores para utilizarem as TIC, são as mesmas, e de maneira bastante técnica. A formação que é ofertada tem como foco apenas o funcionamento dos computadores e como utilizá-las em sala de aula, conforme traz o projeto do Núcleo de Tecnologias Educacionais de Nova Andradina , com o plano de atividades que nortearam as ações para o primeiro e segundo semestre de 2009:

Por meio de análise sistemática dos dados estatísticos de uso da STE no segundo semestre de 2008, duas vertentes da formação tecnológica dos profissionais da educação serão priorizadas no ano letivo de 2009. A primeira diz respeito à formação técnica, ou seja, será foco para o primeiro semestre de 2009 oferecermos curso básico de informática aos professores e gestores das escolas que não tem o manejo mínimo do computador e, por conseguinte não utilizaram as TICs no segundo semestre de 2008. A segunda vertente trata da formação para o uso de aparatos tecnológicos em atividades pedagógicas…(NTE Andradina, 2009, p.4).

Assim, percebemos na estrutura desses cursos a ausência de discussão sobre a função do computador nos dias atuais, sendo este tomado como algo natural do desenvolvimento da nossa sociedade, e que vem sendo disponibilizado para toda a população. Não são questionados os vieses que estão embutidos nessa disseminação do acesso às TIC, como o aumento do mercado consumidor dos meios eletrônicos, a “nova” economia da informação que está atrelada a disseminação das TIC, as mudanças no perfil do trabalhador e do emprego, entre outros. Passos (2006), em análise aos NTE, traz uma crítica sobre a estruturação inicial nos NTE, apenas para “cumprir formalidade na implantação do ProInfo e atender interesses de empresas privadas no ramo da informática (venda de equipamentos, software e treinamento)”, sem a intencionalidade de por em prática um processo de democratização das TIC na rede pública.

A justificativa utilizada pelo NTE de Andradina para a realização dos cursos oferecidos é outro ponto que nos chama atenção:

Focar as duas vertentes – técnica e pedagógica – acima citadas faz-se necessário por constatar que as escolas sob nossa jurisdição apresentaram discrepância em relação ao uso das TICs. Algumas disciplinas chegaram a fazer uso elevado das tecnologias e webtecnologias, enquanto outras não apresentaram uso. Isso é preocupante e merece atenção por parte de nossa equipe, tendo em vista que o ideal é que a escola desenvolva de forma integrada atividades docentes fazendo uso das tecnologias sempre que necessário e por todas as disciplinas e não por algumas. Uma problemática que constatamos e que procuraremos promover mudanças é o não uso das Tecnologias (NTE Andradina, 2009, p.4).

Nesse contexto, a ênfase que é dada ao uso das TIC nos núcleos é caracterizado exclusivamente pelo uso em massa dessas tecnologias pelos profissionais da educação, sem relacionar com o contexto em que essas tecnologias estão sendo utilizadas. “As TIC são apresentadas apenas como otimizadores da capacidade humana, em particular no que diz respeito à guarda e ao processamento de informações” (ABRANCHES, 2003), sem aprofundar a discussão sobre a diversidade de temas e questões que estão ligados às mesmas, fatos esses que podem ser confirmados na análise de Barreto:

É imperativa a análise dos modos pelos quais as TIC têm sido (im) postas pelas políticas oficiais. De um lado, são direcionadas principalmente a formação de professores a distância, provocando cisões no interior das instituições: formação inicial X formação continuada e presencial X a distância. De outro, são valorizadas de per si e via de regra, acompanhadas por recomendações técnicas de utilização, como pacotes dotados de instruções de uso. De qualquer modo, as ações governamentais têm feito tabula rasa, têm ignorado ações que os sujeitos praticam e podem vir a praticar com as TIC e os sentidos atribuídos a sua incorporação educacional. (BARRETO, 2005, p. 145).

4.3 Metodologia dos cursos nos NTE

As formações dos professores executadas pelos NTE são realizados pelos professores multiplicadores seguindo a filosofia de “professor capacitando professor”. Os Cursos são desenvolvido na modalidade a distância, com realização de encontros presenciais, acompanhados pelos multiplicadores. As formações podem ser realizadas nas escolas que possuem laboratórios ou no próprio espaço dos NTE, tendo em vista que esses são equipados com infra-estrutura adequada para as necessidades dos cursos e dos cursistas. Conforme a fala dos coordenadores Estaduais de Rondônia e do Rio Grande do Sul:

Em temos de recursos humano desses Núcleos há professores formadores, ou multiplicadores, que dominam conhecimentos teórico-práticos em informática pedagógica, os quais multiplicam esse conhecimento para os Coordenadores de Laboratórios de Informática Educativa – LIE ou diretamente para os professores lotados nas escolas públicas. Essas capacitações são realizadas diretamente na escola ou no próprio NTE (Coordenador Estadual de Rondônia, 2008)

Através de ambientes tecnológicos nas escolas, disponibilização de conteúdos e recursos educacionais multimídia e digitais e a formação continuada de professores e gestores para o uso pedagógico das TIC (Coordenador Estadual do Rio Grande do Sul, 2008).

Grande parte dos cursos são organizados em alguns programas de edição de texto, imagem e som do pacote Office e do BrOffice ou em algum tipo de software educativo de programação em linguagem, como por exemplo o Logo (Micromundos) . A Internet é utilizada nos cursos como fonte de pesquisa, ambiente de aprendizagem e comunicação (e-mail, chat, blog, lista de discussão e comunicadores instantâneos). As formações também são organizadas através de cursos, oficinas, e eventos de maior amplitude como seminários, entre outros.

Tendo como principal método para as suas formações a EAD, A SEED/MEC, em parceria com algumas instituições de ensino, desenvolveu o e-proinfo, um Ambiente Colaborativo de Aprendizagem que utiliza a Internet e permite a concepção, administração e desenvolvimento de diversos tipos de ações, como cursos a distância, complemento a cursos presenciais, projetos de pesquisa, projetos colaborativos e diversas outras formas de apoio a distância e ao processo ensino-aprendizagem. No Ambiente Colaborativo do e-ProInfo há um conjunto de recursos disponíveis para apoio às atividades dos participantes, entre eles, Tira-dúvidas, Notícias, Avisos, Agenda, Diário e Biblioteca. Há ainda um conjunto de ferramentas disponíveis para apoio a interação entre os participantes, entre eles, e-mail, chat e fórum de discussões e banco de projetos; e um outro conjunto de ferramentas para avaliação de desempenho, como questionários e estatísticas de atividades.

O site disponibiliza uma gama de materiais pedagógicos, conforme a oferta desses conteúdos pelo MEC, após a reformulação do ProInfo, e possibilidades de interação aos usuários cadastrados. Em análise à proposta do ProInfo, relacionada a oferta de conteúdos digitais pelo MEC, como forma de apoio aos professores nas diversas disciplinas, encontramos alguns sites com a oferta desses conteúdos, dentre eles o WebEduc – O Portal de Conteúdos Educacionais do MEC.

Este site disponibiliza material de pesquisa, objetos de aprendizagem e outros conteúdos educacionais, sendo todos de livre acesso. Navegando pelo site, encontramos um sistema de informação do ProInfo Integrado.

Neste, estão disponibilizados alguns módulos e vídeos. Esses materiais estão divididos em editor de texto (Writer), Editor de planilha (Calc) e editor de slide (Impress), sendo que o último não abre, dando erro na página. Todos são em Software livre. Os vídeos que deveriam estar disponíveis, não encontramos, também apresentado erro na página, o que demonstra desatualização do site. Também está disponível um material de apoio com uma linha do tempo mostrando a evolução dos computadores e um material em PDF com os cursos: Educação Digital e Informática e Educação, além de um guia do formador direcionado aos professores multiplicadores e uma apostila de IPD com o histórico e o conceito de cada item que forma um computador, alguns softwares proprietários, inclusive ensinando a configurar rede e impressora nesses softwares.

Nesse contexto, o material de apoio destinado aos professores retrocede, voltando às formações que utilizavam software proprietário ao invés do livre, conforme a figura abaixo, que mostra uma coleção denominada coleção Informática para a mudança na educação composta por alguns livros do ProInfo para auxiliar os professores.

O Portal do professor (figura 4), também possui uma enorme gama de objetos educacionais que podem ser utilizado pelos professores, além de alguns itens de interação e colaboração – como chats e fóruns. Os conteúdos podem ser baixados e foram avaliados por universidades brasileiras. Todos são licenciados em Creative Commons . O acesso a esse material é livre e não exige inscrição no Portal. Dentro do “Espaço da Aula”, o usuário navega por um menu de seleção (no qual ele escolhe o nível de ensino, modalidade, componente curricular e tema desejado) tendo acesso a planos de aula já postados por outros professores. O usuário que for cadastrado como professor no portal pode criar uma aula e deixar disponível para os outros usuários. A aula criada traz indicações do que o aluno deverá aprender na aula, conhecimentos prévios, tempo necessário para realização das atividades, sugestão de avaliação e um espaço de edição livre no qual o usuário deve colocar a aula, propriamente dita.

A aula contida neste espaço pode ser acompanhada de texto, imagens, sons e vídeos disponíveis no próprio portal.

O espaço Recursos Educacionais contém um acervo multimídia também disponível sob a licença de domínio público, como imagem, som, vídeo, experimento e aplicativos de animação e simulação que podem ser usados em aulas. Esses recursos aceitam inserir comentários e notas pelos visitantes de forma anônima. O item Cursos e Materiais traz duas seções: a seção de cursos com links para os diversos cursos oferecidos pelo sistema público de educação, como o Pró-Letramento, o ProInfantil, o site Mídia na Educação do MEC, entre outros e a seção Materiais com vários artigos de apoio sobre a legislações, vídeos, etc.

Percebemos que, apesar de não ser completamente um Ambiente Virtual de Aprendizagem , pois apenas apresenta o conteúdo, o portal é de grande importância por se tratar de um portal do governo com acesso livre e de grande visibilidade. Entendo Ambientes virtual de aprendizagem como:

“… sistemas computacionais disponíveis na Internet, destinados ao suporte de atividades mediadas pelas tecnologias de informação e comunicação. Permitem integrar múltiplas mídias, linguagens e recursos, apresentar informações de maneira organizada, desenvolver interações entre pessoas e objetos de conhecimento, elaborar e socializar produções tendo em vista atingir determinados objetivos. As atividades se desenvolvem no tempo, ritmo de trabalho e espaço em que cada participante se localiza, de acordo com uma intencionalidade explícita (ALMEIDA, 2003)”.

Estes espaços virtuais devem proporcionar uma aprendizagem colaborativa, interação e autonomia por parte dos indivíduos que se apropriam dos mesmos. O uso criativo das tecnologias pode auxiliar os professores a “transformar o isolamento, a indiferença e a alienação com que costumeiramente os alunos frequentam as salas de aula, em interesse e colaboração, por meio do qual eles aprendam a respeitar, a aceitar, a serem melhores pessoas e cidadãos participativos”(NISKIR, 2005).

Entendemos que na era da informação o acesso a um volume gigantesco de dados não garante a passagem automática de “informação” para “conhecimento” e, conseqüentemente, desta para “compreensão” e aprendizagem (Wurman, 1995, p 58). A gama de informações que está sendo direcionada aos professores em rede, não garante as competências necessárias à formação do professor, a fim de atender a necessidade de uso pedagógico das novas tecnologias, de forma a significar os conhecimentos e relacioná-los com o mundo, em uma perspectiva capaz de ampliar a capacidade crítica dos educandos. Ao utilizar as TIC, o professor deve saber com qual finalidade estas ferramentas serão incorporadas ao processo ensino aprendizagem, caso contrário, estaremos trabalhando com novas tecnologias num paradigma tradicional de ensino. De acordo com o autor Manuel Castells, “a internet é de fato uma tecnologia da liberdade.

Mas pode libertar os poderosos para oprimir os desinformados, pode levar à exclusão dos desvalorizados pelos conquistadores do valor” (Castells, 2003, p.225). Assim, entendemos que a oferta de conteúdos midiáticos, assim como de uma gama de cursos a distância, como vem sendo disponibilizado pelos sites do MEC, não garantem a formação que se espera dos professores, com um posicionamento crítico perante a diversidade que acompanha a sociedade contemporânea, mas só vem a fortalecer o ideal neoliberal que vem sendo difundido no ambiente educacional.

Analisando os principais cursos que vêm sendo ofertados para formação dos professores, temos o Curso de Introdução à Educação Digital (40h), o Curso Tecnologias na Educação: ensinando e aprendendo com as TIC (100h) e Complementação Local: projetos educacionais (40h). Segundo a SEED/MEC (2008), os objetivos gerais destes cursos são: a inclusão digital de professores e gestores de escolas públicas da educação básica e a comunidade escolar em geral; a dinamização e a qualificação dos processos de ensino e de aprendizagem, para melhorar a aprendizagem dos alunos, promovendo o desenvolvimento de competências, habilidades e conhecimentos.

O Curso de Introdução à Educação Digital tem por objetivo familiarizar professores e gestores escolares para utilizar os computadores, aplicativos e os recursos tecnológicos disponíveis na internet. Segundo a SEED/MEC este curso pretende contribuir para: “a inclusão digital desses profissionais da educação, não apenas instrumentalizando-os para a utilização significativa de recursos de computadores (sistema operacional Linux Educacional e softwares livres) e da internet, mas também refletindo sobre o impacto dessas tecnologias nos diversos aspectos da vida, da sociedade e de sua prática pedagógica.” (SEED/MEC, 2008, p. 68)

São objetivos do curso: refletir sobre o impacto da tecnologia e suas contribuições na vida cotidiana e na atuação profissional; conhecer e utilizar o sistema operacional Linux Educacional e outros softwares livres; desenvolver habilidades necessárias ao manejo do computador e de programas, de edição de textos, apresentações multimídia, interatividade, navegação e pesquisa de informações, produção, cooperação e publicação de textos na Internet; refletir sobre propostas de dinamização da prática pedagógica com os recursos tecnológicos disponibilizados no computador e na Internet.

Para tanto, o curso está dividido em nove unidades de estudo e prática, que são: Unidade 1- Tecnologias no cotidiano: desafios à inclusão digital e social; Unidade 2- Navegação, pesquisa na internet e segurança; Unidade 3- Comunicação mediada pelo computador: correio eletrônico; Unidade 4- Debate na rede: bate-papo, lista e fórum de discussão, netiqueta; Unidade 5- Elaboração e edição de textos; Unidade 6- Apresentações para as aulas; Unidade 7- Criação de blogs; Unidade; 8- Cooperação e interação em rede; Unidade 9- Solução de Problemas com planilhas eletrônicas. Cada unidade prevê atividades de aprendizagem, envolvendo conceitos, procedimentos, reflexões e práticas para 4 horas semanais, que podem ser totalmente presenciais ou distribuídas em: encontros presenciais semanais de, no mínimo, 2h; e estudo a distância de, no máximo, 2h por semana. As atividades devem ser realizadas utilizando os laboratórios de informática, de acordo com as condições específicas de cada escola, a disponibilidade do laboratório, a demanda dos cursistas etc. Cabe aos formadores dos NTE (multiplicadores) fazer as adaptações necessárias ao plano de trabalho específico a cada turma e ao perfil dos cursistas.

Como atividade durante a realização dos cursos, a criação de blogs é constante, em todos os módulos. Navegando em rede encontramos um imensurável número de blogs criados pelos professores durante os cursos nos NTE. Com base nas análises destes blogs, percebemos que os mesmos foram estruturados com o intuito de promover a interação entre os professores, em rede, que participam dos cursos. Esses por sua vez utilizam os blogs apenas durante a capacitação, tendo em vista estarem desatualizados com data de publicação apenas coerente com a data de realização dos cursos. Os blogs são utilizados como diário de bordo para relatar o que acontece durante as formações e suas experiências, sucessos e dificuldades durante o percurso, de forma bastante breve. Não há uma apropriação destes ambientes por parte dos professores, que muitas vezes não conseguem trilhar os caminhos da interatividade que esses espaços apresentam.

Esses espaços podem apresentar uma enorme gama de possibilidades para o profissional da educação, desde que se adaptem aos ambientes, incorporando-os ao seu cotidiano, e produzindo uma maneira própria de utilização desses espaços digitais, em sintonia com as diversas tecnologias e possibilidades de interação, passando a fazer parte de seu ambiente cultural e intelectual, conforme trazem Bonilla e Pretto: nessa perspectiva, a incorporação das TIC está se dando com o sentido de abrir possibilidades para fazer, pensar e conviver que não poderiam ser pensadas sem a presença dessas tecnologias. Como elas introduzem um novo sistema simbólico para ser processado, (re) organizam a visão de mundo de seus usuários, modificam hábitos cotidianos, valores e crenças, constituindo-se em elementos estruturantes das relações sociais, os processos evidenciam um movimento ininterrupto de construção de cultura e conhecimento. (BONILLA; PRETTO, 2005)

O curso Tecnologias na Educação: Ensinando e Aprendendo com as TIC, tem como objetivo principal planejar estratégias de ensino e aprendizagem que integrem os recursos tecnológicos disponíveis, criando situações de aprendizagem que levem os alunos à construção de conhecimento, à criatividade, ao trabalho colaborativo e resultem efetivamente no desenvolvimento dos conhecimentos e habilidades esperados em cada série. Ou seja, formar o profissional da educação para utilizarem as TIC na prática pedagógica tendo como foco a aprendizagem do aluno. O curso está dividido em quatro unidades que se articulam, conforme a tabela abaixo, que mostra “como a integração teoria e prática se faz continuamente, no cotidiano dos cursistas, por meio de projetos ligados aos temas em estudo, desenvolvidos por eles com os respectivos alunos” (SEED/MEC, 2008, p. 73).

Na unidade 1, são apresentados e discutidos os objetivos e a estratégia do curso, nas demais, o tempo será ocupado pela discussão e análise coletiva do que foi produzido pelos professores/cursistas durante as semanas, fazendo-se uma síntese na unidade que encerra o curso. O curso é formado por momentos presenciais e de estudo a distância. Na programação dos trabalhos presenciais há oficinas, trabalhos em grupo, apresentação em fóruns de discussão no ambiente e-Proinfo. Esses encontros presenciais também são realizados nas próprias escolas em que atuam os cursistas.

A Complementação Local: Elaboração de Projetos consiste na etapa do ProInfo Integrado, na qual estados e municípios definem, a partir das necessidades e demandas locais, formação específica. Em geral, projetos de intervenção voltados ao uso das tecnologias da informação e da comunicação – TIC no cotidiano escolar.

Tendo em vista a forma descentralizada de atuação, os NTE realizam suas atividades conforme os pressupostos de cada região. Nesse sentido, os cursos ofertados não são trabalhados por todos os núcleos, conforme fala do coordenador do Paraná:

Os outros cursos que estão sendo divulgados pelo PROINFO (Ensinando e Aprendendo com as TICs e Elaboração de Projetos), não estão sendo desenvolvidos no estado, pois não trabalhamos com a concepção de trabalho por projetos (coordenador Estadual do Paraná, 2009).

O coordenador também aponta a falta de articulação dos cursos com as propostas dos NTE, tendo em vista que alguns cursos oferecidos não são contemplados em alguns estados, devido á concepção de formação que é destinada a cada espaço, fato este que pode ser evidenciado na fala do coordenador:

criam-nos situações complexas de resolução e encaminhamentos. Um exemplo de ordem pedagógica, são os cursos: Educação Digital, Ensinando e Aprendendo com as TICs, Elaboração e projetos propostos pelo PROINFO. Não fomos consultados e não participamos da elaboração dos materiais e portanto as concepções e metodologias não são adequadas a nossa realidade, motivo este pelo qual não estamos executando dois dos cursos (coordenador Estadual do Paraná, 2009).

4.4 Dificuldades para realização das formações

Nesses mais de 10 anos de implantação do ProInfo, uma das dificuldades na realização das atividades nos NTE é principalmente de ordem operacional das verbas destinada ao programa. A ausência de um montante financeiro para realização das atividades destinadas ao ProInfo vem causando atraso em grande parte das ações que deveriam ser realizadas nos NTE.

Os coordenadores nos relataram a ausência de material humano para atender as escolas, falta de veículos para atender os multiplicadores, além de diárias que são pagas com muito atraso. Alguns NTE possuem apenas um veículo para atender uma demanda grande de escolas. Muitos professores são formados para atuarem como multiplicadores, no entanto são chamados para retornarem às salas de aula ou atenderem outros projetos; com isso notamos a falta de articulação entre as ações do Programa com as Secretarias de educação.

Conforme o documento sobre a Estrutura operacional do ProInfo, deve existir uma articulação entre ações do NTE e as secretarias, no entanto percebemos que as ações ocorrem isoladas. A comunidade escolar que deveria incentivar seus profissionais para atuarem com as TIC em sala de aula, com embasamento nas capacitações, demonstram pouco interesse pelo uso dessas nas escolas. Entre outras dificuldades apontadas, podemos destacar as do NTE do Paraná:

“As nossas maiores dificuldades são: manter o quadro de multiplicadores, pois a cada ano, temos casos de retorno para sala de aula, falta de comprometimento com a proposta e o retorno automático para sala de aula, programas da Secretaria que acabam por realocar profissionais em outras ações. Um dos fatores de maior dificuldade, está ainda nos gestores das regionais de educação, que são responsáveis locais pelas formações e os gestores das escolas (diretores/equipe pedagógica) que não incentiva, acompanha e organiza a escola para que durante a visita do multiplicador, mais professores sejam atendidos. Alguns não utilizam e não conhecem o potencial das tecnologias e não somam com a proposta de formação continuada in loco nas escolas. Falta de transporte (carro) para deslocamento a localidades de difícil acesso. (coordenador Estadual do Paraná, 2009)

Nesse contexto percebemos as reais dificuldades encontradas pelo programa, assim como pelos profissionais que dão sua parcela de contribuição neste processo de inserção das TIC no espaço escolar, onde a teoria exposta nos documentos andam descoladas das condições operacionais e da prática.

5. CONCLUSÃO

Com base nos estudos, pesquisas e entrevistas que fizemos em torno do ProInfo, buscamos neste capítulo amarrar as colocações que anunciamos ao longo deste trabalho. Inicialmente é importante destacar que apesar dos problemas que encontramos no processo de formação dos professores nos NTE, este ainda é o principal locus para formação docente, tendo em vista que entre as inúmeras políticas públicas voltada para inserção das TIC no ambiente escolar, o ProInfo foi a que teve maior destaque entre as ações do governo voltadas para formação desses profissionais.

Sabemos que um dos grandes desafios que nossos professores enfrentam nos dias atuais está na necessidade de saber lidar pedagogicamente com alunos e situações tecnológicas extremas: dos alunos que já possuem conhecimentos avançados e acesso pleno às últimas inovações tecnológicas aos que não possuem nenhum acesso às tecnologias, em estado de plena exclusão tecnológica; das instituições de ensino equipadas com as mais modernas tecnologias aos espaços educacionais precários e com recursos mínimos para o exercício da função docente. Assim, com todas as tensões e diversidades enfrentadas no cotidiano desses profissionais, o desafio maior ainda se encontra na formação profissional para enfrentar esses e tantos outros problemas.

Comparando o ProInfo com as demais políticas para inserção das TIC nas escolas, o que se observa é uma preocupação excessiva com a aquisição de equipamentos como se isso pudesse garantir uma utilização eficaz das TIC nos diferentes níveis de ensino. A preparação dos professores para utilizar essas tecnologias não são prioridades educacionais na mesma proporção que a aquisição das máquinas, deixando transparecer a ideia equivocada de que o computador resolverá os problemas da educação. A concepção de uso das TIC, no programa, é apenas como “ferramenta” de apoio às aulas, trazendo uma visão reducionista do potencial que essas tecnologias carregam. Com a reformulação do ProInfo no contexto do PDE, poucas foram as alterações que pudemos destacar, além do montante financeiro que foi direcionado ao programa. O termo inclusão digital foi inserido em sua proposta após a reformulação, sendo que antes este não aparecia em seus documentos, mas foi vinculado ao simples acesso às máquinas.

Entendemos que essa é uma perspectiva reducionista de inclusão digital, pois, para além do simples acesso, o indivíduo, para atuar em sociedade, necessita participar dos processos de criação, produção e transformação da informação em conhecimentos, a fim de provocar mudanças nas suas relações sociais. Nesse movimento, o uso do software livre é fundamental, levando em conta que uma de suas características principais é a de possuir como característica básica a apropriação autônoma, colaborativa e democrática dos meios digitais e dos conhecimentos, fato que influenciou o ProInfo a trocar os sistemas proprietários pelo livre. É importante destacar que mesmo após a reformulação do ProInfo, os documentos básicos continuam os mesmos. Muitas das mudanças que foram anunciadas não encontramos documentada, principalmente as que são relacionadas com as formações dos professores. Os documentos datam da criação do ProInfo, em 2007, sem acompanhar as mudanças feita no mesmo, o que dificulta o trabalho dos pesquisadores.

No âmbito do ProInfo, não podemos levar em conta apenas o número de máquinas que são adquiridas, mas a maneira como essas TIC vêm sendo utilizadas no espaço escolar para a promoção da inclusão digital. É necessário que esses programas concebidos pelas políticas públicas ofereçam subsídios para que as escolas atendam aos desafios impostos pela sociedade contemporânea.

No contexto das mudanças ocorridas na sociedade contemporânea devido a inserção das TIC, percebemos como o ambiente escolar se tornou espaço estratégico para inserção dos indivíduos no mundo das tecnologias. Assim, o professor, como principal agente neste processo, ganhou destaque, necessitando de formação adequada para trabalhar em prol das novas demandas exigida pela sociedade. O governo vem criando e reformulando leis e políticas voltadas para valorização destes profissionais, no entanto estas são fortemente manipuladas pelos organismos internacionais que entendem a educação como fator indispensável à formação do “capital humano” servindo aos padrões de acumulação do capital.

Seguindo as “assessorias” do Banco Mundial, entre outras organizações internacionais, o governo reformulou leis voltadas à formação dos professores, dando ênfase ao “treinamento” e demonstrando, com isso, maior preocupação com a prática e o imediatismo, ao invés de proporcionar mudanças significativas no perfil do professor, tornando-o capaz de agir sobre a sua prática e a partir das suas próprias reflexões. A criação dos IES, destinados à formação dos professores, descaracteriza os espaços que podem oferecer a formação necessária à prática docente, que são as universidades, locais estes que enfatizam a pesquisa e a produção de conhecimento, ao contrário dos IES, onde não há as mesmas exigências de qualificação do corpo docente. Assim, entendemos que as instituições formadoras dos profissionais da educação, têm a função de proporcionar oportunidade para que o futuro professor possa articular a teoria com a prática, a fim de realizar a aprendizagem dos novos conceitos que lhes são necessários, além de desenvol
ver as competências pertinentes a sua atuação em sala de aula.

Na atual lógica das políticas neoliberais, percebemos o ideal totalmente capitalista que norteia essas instituições, que investem no aligeiramento da formação, privilegiando a formação continuada e em serviço, preferencialmente, realizada pela modalidade de ensino a distância e tendo por objetivo aumentar o acesso da população à educação, e democratizar o ensino reduzindo os gastos nas áreas educacionais. Nesse contexto, a EAD surge como estratégia na formação docente atendendo aos anseios do Banco Mundial: atualização constante, aprendizado desenvolvido ao longo da vida, formação aligeirada, econômica e com cursos rápidos.

A formação dos professores para uso das TIC é outro ponto destacado das reformas educacionais, onde entendemos que a incorporação das tecnologias no espaço educacional não deve buscar só o desenvolvimento econômico, mas, e principalmente, o bem-estar social. Na educação, o principal papel das TIC está em possibilitar a formação de professores e alunos com habilidades para utilizar as tecnologias de modo a inserir esses indivíduos no contexto social. As TIC possibilitam novos espaços de aprendizagem e podem contribuir para melhoria da qualidade de ensino, mas a introdução de recursos tecnológicos em si não garante tal melhoria, “pois a aparente modernidade pode mascarar um ensino tradicional baseado na recepção e na memorização de informações” (Passos, 2006, p. 140).

Assim, se faz necessária a formação dos profissionais da educação, não apenas para lidar com as novas exigências do mundo do trabalho mas, principalmente, para a produção e manipulação das informações e para o posicionamento crítico diante desta nova realidade motivada pelas TIC.

Ao analisar e compreender as dinâmicas e tensões que envolvem o ProInfo,entendemos que a concepção de uso das TIC que está presente nos processos de formação dos professores é apenas de apoio às aulas nas diversas disciplinas, sem levar em conta a forma como essas TIC são utilizadas. Os NTE ofertam cursos para todos os professores que demonstrem interesse, e após esses cursos, de cunho essencialmente tecnicista, enfocando principalmente o uso dos softwares, acredita-se que esses profissionais estão aptos a trabalharem com as TIC de forma autônoma e independente. Não são questionados os avanços individuais por parte de cada profissional, tendo em vista que muitos desses, no início dos cursos, não apresentam nenhum domínio dessas tecnologias, muito menos a forma como vão trabalhar em sala de aula, possibilitando a formação crítico reflexiva por parte de seus educandos.

Para tanto, o desenvolvimento de uma cultura digital é essencial na reestruturação da maneira como se dá a gestão da educação, assim como a reformulação dos processos pedagógicos, a flexibilização das estruturas de ensino, a interdisciplinaridade dos conteúdos e o relacionamento dessas instituições com outras esferas sociais. As oportunidades criadas com o aparato tecnológico exigem transformações não apenas das teorias educacionais, mas na própria ação educativa e na forma como a própria escola e toda a sociedade percebe a sua função na atualidade.

Conforme nossas análises, percebemos que as atribuições dos NTE estão apenas nas suas diretrizes, na prática o que acontece é totalmente diferente, os objetivos propostos acontecem de forma vaga, sem fundamentação teórica, com uma formação apoiada em cursos que pouco contribuem para formação dos educadores. A estrutura básica de organização do trabalho de formação dos professores é a oferta de cursos modulares com uma programação que praticamente não sofre modificação nos diferentes contextos em que são desenvolvidos. Nesse sentido, identificamos a ausência de uma continuidade nos cursos, o que atrapalha a capacitação, pois as atividades ficam desarticuladas; os núcleos são entendidos mais como espaço com computadores disponíveis do que como um espaço relevante na formação docente.

No contexto na reformulação do Proinfo, houve uma disseminação muito grande de conteúdos digitais disponíveis em rede. Esses conteúdos são direcionados aos professores para as diversas disciplinas, no entanto a oferta destes não garante a competência necessária à formação do professor, muito menos o uso eficaz em sala de aula, tendo em vista que muitos professores não possuem autonomia, mesmo após os cursos, para utilizarem esses conteúdos atendendo as necessidades de uso pedagógico. Ao utilizar as tecnologias, o professor deve ter capacidade para saber com qual finalidade elas serão incorporadas ao processo ensino aprendizagem, caso contrário, estaremos trabalhando com novas tecnologias num paradigma tradicional de ensino.

No tocante às principais dificuldades relacionadas as formações no NTE, percebemos que o principal empecilho para realização das atividades de formação é de ordem operacional, por conta da falta de verbas. Os coordenadores nos relataram a ausência de professores multiplicadores para atender as escolas, falta de veículos para atender os multiplicadores, dificuldade para aquisição de material impresso aos cursistas, entre outros.

Assim, tendo em vista que o objetivo deste trabalho foi compreender e perceber as dinâmicas envolvidas nos processos de capacitação dos professores, para utilizarem as TIC, através dos NTE, é importante pontuar que para estar em consonância com algumas das concepção que estão atrelada aos seus documentos, ainda existem vários desafios a serem superados. É necessário direcionar melhor as formações para os profissionais da educação, de forma que oportunizem uma plena vivência da cultura digital, onde esses sejam ativos e conscientes do seu processo de participação no cotidiano da sociedade. A visão reducionista que vem sendo atrelada à prática das políticas públicas, dentro do espaço escolar, minimiza as ações realizadas neste ambiente, fragmentando as formações, tanto dos educadores, quanto dos educandos.

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Thomas Hobbes

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Filósofo e cientista político inglês, Thomas Hobbes nasceu em Westport, hoje parte de Malmesbury, em 5 de abril de 1588, e veio a falecer em 4 de dezembro de 1679. Sua vida está vinculada à monarquia inglesa, uma vez que a política e as intrigas da corte afetaram sua existência e seu pensamento filosófico. Ele é hoje considerado um dos grandes pensadores políticos da Inglaterra.

Sob a visão de Thomas Hobbes, o homem é uma máquina natural submetida a um encadeamento de causas e efeitos, o qual envolve apetites e aversões. Seus desejos têm objetos distintos, variam de intensidade e são sujeitos a mudanças, podendo inclusive perder a sua importância, e devido à possibilidade de variação na intensidade dos seus desejos, uns almejam porções maiores que os outros, o que não interfere no propósito comum a todos, que é a busca do poder.

Em Leviatã, sua obra principal, Thomas Hobbes reflete sobre a impossibilidade do retorno dos homens ao estado de natureza, uma vez que sua natureza leva à discórdia, o que ocorre em não havendo um poder comum que os ordene, resumindo sua idéia de que sempre que não houver a paz, necessariamente se travará a guerra.

Para Hobbes, as leis surgem no momento em que os homens renunciam aos seus direitos em troca de estabilidade e boas condições de vida, e, uma vez feita essa troca em forma de pacto, não podem voltar ao estado no qual primeiramente se encontravam, já que, em uma sociedade, não se mostrará capaz de renunciar a todas as regalias adquiridas e voltar a um Estado primitivo de vida, repleto de inseguranças. Na visão dele, Lei Natural é a regra geral, ditada pela razão, que obriga cada um a preservar sua própria vida e o proíbe de destruí-la. A primeira lei da natureza dizia que todo homem deve se esforçar para que a paz exista e seja mantida, desde que haja expectativas reais de conseguir-lo. Diz ainda que, Direito Natural é o direito e a liberdade de cada um para usar todo o seu poder, inclusive a força, para preservar a sua natureza e satisfazer os seus desejos.

Com a finalidade de estabelecer a paz e a segurança, Hobbes diz que os homens devem renunciar ao direito de natureza (uso individual e privado da força), transferindo-o a alguém externo ao pacto, e o meio encontrado para concentrar esse poder central foi o estabelecimento do Estado Político, cujos interesses são defendidos pelo soberano, que é considerado um ser artificial, de categoria divina e que não age de acordo com sua vontade, tendo, inclusive, sua autoridade consentida pelos membros de seu governo. Portanto, todos os seus atos constituem, necessariamente, os desejos da coletividade, ou seja, contestar a ele seria o mesmo que se opor a si mesmo. Diz ainda que se um monarca renunciar à soberania, tanto para si mesmo quanto para seus herdeiros, os súditos voltam à absoluta liberdade de natureza.

Na Filosofia Política de Hobbes, exposta em sua obra supracitada “O Leviatã”, defende-se a indivisibilidade do poder de um corpo político, e tem-se como modelo de Estado pretendido o Modelo de Estado Absoluto e soberano, adotando ainda teorias do Estado moderno e permitindo institucionalizar um Estado que não prega nenhuma religião (laico), alterando as concepções de legitimidade e enfraquecendo qualquer possibilidade de reivindicação do poder divino por parte dos governantes.

Em suma, Thomas Hobbes evidencia a infinidade de vantagens em relação às desvantagens da vida em sociedade, dizendo que renunciar a essa convivência pacífica com os outros indivíduos seria como renunciar à liberdade e à segurança, voltando a um mundo primitivo, no qual o nascer de um novo dia constitui sempre em um novo desafio.

A Efetividade da Lei Maria da Penha

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O presente trabalho tem como objeto de estudo a efetividade da Lei Maria da Penha na defesa dos direitos da mulher vítima de violência doméstica e familiar, tendo como objetivo alimentar reflexões e análises acerca da temática. Para tanto, primeiramente discute-se as representações sociais, entendidas como os valores, normas, códigos e culturas produzidos socialmente, os quais delinearam construções sociais baseadas na diferença de corpos. É nessa acepção que se sustenta a idéia de que seres de corpos diferentes deve ser tratado de formas diferentes, atreladas a sistemas interdependentes, sendo eles: o patriarcalismo e o capitalismo, a fim de garantir o controle e a ordem social centrada na supremacia masculina. Dessa forma, tal economia política provocou o surgimento das manifestações sociais, especialmente femininas tidas como crítica teórica, bem como movimento social para romper com o pensamento hegemônico em prol da emancipação da mulher.

No segundo momento, busca-se apresentar um dos resultados da luta do movimento feminista brasileiro relacionado à problemática da violência doméstica e familiar contra a mulher, conquistando a Lei 11.340/2006, intitulada Lei Maria da Penha, para estabelecer uma cultura baseada na cidadania feminina e, sobretudo na igualdade de gênero.

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO
2 AS REPRESENTAÇÕES E POSICIONAMENTO DA MULHER NA SOCIEDADE
2.1 HISTORICAMENTE, A DIFERENÇA ENTRE OS SEXOS VEM SE TRANSFORMANDO EM DESIGUALDADE?
2.2 O FEMINISMO BRASILEIRO E A SUA ARTICULAÇÃO COM OUTROS MOVIMENTOS SOCIAIS NA LUTA POR DIREITOS
3 O ADVENTO DA LEI MARIA DA PENHA PARA A DEFESA DAS MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR E A SUA EFETIVIDADE EM SALVADOR
3.1 A LEI 9.099/1995 E OS AVANÇOS DA LEI MARIA DA PENHA
3.2 MARIA DA PENHA: A REALIDADE DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER EM SALVADOR

1 INTRODUÇÃO

O confronto com a realidade da violência doméstica e familiar contra a mulher, atuando como estagiária curricular do Serviço Social inserido na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM) em Salvador contribuiu, substancialmente, com momentos de especulações e descobertas acerca dessa problemática, sobretudo referente à efetividade da Lei 11.340/2006, denominada “Lei Maria da Penha para a defesa dos diretos da mulher vítima de violência doméstica e familiar”, escolhido como tema deste estudo com o intuito de apreender as mudanças ocorridas na legislação brasileira, incorporando direitos significativos a esta categoria, ou seja, medidas para a redução dos índices de tais crimes, a saber: medidas preventivas, medidas assistenciais, atendimento especial pelas autoridades policiais e medidas protetivas de urgência, tendo como objetivo assegurar à mulher o direito de viver sem violência, além de contribuir para socialização baseada na igualdade de gênero.

Nessa órbita, torna-se proeminente destacar a efetividade da Lei Maria da Penha, bem como os principais fatores que dificultam a sua operacionalização.

Subjacente a este, soma-se a experiência, enquanto mulher, que em contato direto com a complexa e triste realidade das mulheres vítimas de violência atendidas na instituição supramencionada, proporcionou, um pouco mais, a aproximação com a temática, o que permitiu formular a problema central desta pesquisa, sendo ela: A Lei Maria da Penha vem diminuído os índices de violência doméstica e familiar contra a mulher em Salvador?

Mediante a esta problemática, a discussão do presente estudo apresenta-se divida em dois capítulos. O primeiro refere-se às representações e posicionamentos da mulher na sociedade, em que as determinações do processo histórico que envolvem um conjunto de idéias, valores, sentimentos, códigos, culturas e símbolos existentes na construção/desconstrução/reconstrução das relações sociais muitas vezes em detrimento das mulheres, articulado ao sistema patriarcal, entendido como um conjunto dinâmico em que prevalece exercício do poder do sexo masculino sobre o feminino, assumindo particularidades na medida em que se funde ao sistema capitalista e assim, tornam-se face de uma mesma moeda para se instituírem legítimos e garantir o funcionamento uniforme da sociedade.

E a última categoria analítica desse capítulo, concerne sobre as lutas e conquistas dos movimentos sociais, em especial do movimento feminista brasileiro pelo exercício da cidadania, pela participação social e política, além de pontuar o papel do Estado enquanto elemento normatizador que ora afirma o comportamento de sexo, o que tende a reforçar a sujeição de mulheres, ora cria possibilidades para a luta, além de apreender a questão da violência contra a mulher como foco atualmente.

O segundo capítulo pontua o advento da Lei Maria da Penha para a defesa das mulheres vítimas de violência doméstica e familiar e a sua efetividade em Salvador, discutindo os avanços da lei mencionada – articulada à leitura jurídica -, como reconhecimento da luta do movimento feminista e de mulheres, comparando-a com a distorcida Lei 9.099/1995 que criou os Juizados Especiais Criminais (JECRIMs). Considera também a história de Maria da Penha Fernandes, a qual intitulou a Lei, bem como conversões internacionais, plano e tratada.

Ainda neste capítulo, expõe-se a metodologia de análise, a qual utiliza a pesquisa documental (fonte primária e secundária), sendo examinados relatórios e publicações de instituições relacionadas à temática; a bibliográfica; a descritiva; e a pesquisa de campo, sendo a última demandar a elaboração de instrumentos para a coleta de dados, como entrevistas semi-estruturada, estruturada. Os dados coletados serão considerados a luz da pesquisa qualitativa, em que as respostas discursivas serão categorizadas, e pesquisa quantitativa, fazendo uso de tabelas e gráficos, isto é, elaboração de indicadores sociais de caráter referencial para ilustrar a investigação da realidade.

Torna-se valido salientar os mecanismos de captação dos discursos verbalizados e não verbalizados que são imbuídos de processos sociais, ou seja, elementos correlacionados ao universo simbólico, as experiências humanas; as representações apreendidas na convivência em sociedade que são postas de forma fragmentada, durante a entrevista, devendo ser observados e sistematizados para posterior construção.

O desenvolvimento das categorias de análise baseia-se em autores como Saffioti, (2004, 1976), Muraro (2004), Lins (1997), Scott (1991, 1989), Costa (2005, 2008), dentro outros que propiciaram a apreensão das diversas determinações do processo histórico de subordinação da mulher, enumerando equívocos e indicando obstáculos.

A nível de consideração final, são levantados alguns desafios que envolvem esta problemática, com o desejo de ampliar a discussão e politizar as práticas sociais.

Embora exista inegável aumento na produção intelectual acerca do tema, estes ainda são embrionários, pois as abordagens, por vezes, são de caráter secundário, implicando na apreensão do fenômeno de forma acabada, não considerando os fatores históricos, isto é, processo dinâmico, o qual contribui para o desvelamento e a sistematização do mesmo em sua totalidade.

Portanto, o presente trabalho pretende-se resgatar uma leitura histórica, relevando a dinamicidade da sociedade e a construção coletiva de conhecimentos acerca do papel da mulher, bem como os avanços imprimidos pelo movimento feminista, assuntos que estão na ordem da atualidade, ilustrando a importância e a necessidade de se continua aprofundando estudos sobre a violência doméstica e familiar contra a mulher, principalmente, na órbita da construção da igualdade de gênero, sem exploração ou dominação de qualquer espécie.

2 REPRESENTAÇÕES E POSICONAMENTO DA MULHER NA SOCIEDADE

No primeiro momento deste estudo são realizadas algumas considerações acerca das atribuições direcionadas à mulher na sociedade, abordando a dinâmica societária e sua articulação com os processos, político, econômico, social e cultural.

Nesta perspectiva, destacam-se eixos que balizam esta compreensão relativa à assimilação de normas, valores e comportamentos que preconizam o estabelecimento da diferença entre seres humanos, implicando na supremacia de um sobre o outro, tecida no cotidiano de suas vidas, como afirma Dias (2003, p. 17)

“Isto significa dizer que se trata de um fenômeno concretizado nas suas ações e relações diárias dos seres humanos nas suas investidas para da conta da sobrevivência e da construção da sociedade. E, nesse intento, revela crenças e valores que, subjacentes, direcionam o teor, a importância e a magnitude, daquilo que é simbolizado, assimilado e reproduzido nas relações sociais de determinada cultura, em determinada sociedade, num determinado tempo”.

Primeiramente pontua-se a sociedade da coleta e da caça, em que as mulheres ocupavam um lugar central na comunidade, uma vez que se imaginava que esta era uma Deusa, já obtendo o papel de preservar e cuidar dos filhos e de todo o grupo.

Outro fato importante a ser alencado nessa premissa é que o homem, neste período não tinha o conhecimento da sua participação na fecundidade, que ao ser descoberto se tornou motivo de discriminação e desigualdade.

Com o advento da razão moderna, o homem desenvolveu o poder cultural, tendo em vista que o poder biológico era uma característica feminina. Assim, a mitologia cristã da criação do mundo por um Deus masculino concretiza a construção eminentemente soberba para proporcionar a plena dominação do macho, fundando-se por meio de um sistema chamado de patriarcal baseada na figura do pai autoritário, provedor do lar e chefe da família e, sobretudo, tendo como aliado o sistema econômico capitalista que contribuiu, oferecendo as condições necessárias para que este perdure até os tempos atuais.

O segundo eixo, mencionar o mundo regido pela ordem capitalista, em meio ao século XX, passando por um período de crise que provocou as duas grandes guerras, recrutando os homens para participar. Dessa maneira, as mulheres para se manterem e sustentarem a família iniciou a jornada dupla de trabalho, onde encontraram uma vida menos submissa.

De tal modo, surge o movimento feminista com a finalidade de se organizar politicamente em prol da lutas para obter participação política e atualmente defendem diversas bandeiras, sendo que todas com um objetivo único: a igualdade de gênero, assunto que será compreendido mais a frente.

A abordagem histórica sobre humanidade possui um peso importante no estudo especifico sobre a mulher, uma vez que possibilita ama análise da mesma na contemporaneidade, principalmente a narrativa cristianiza que inaugurou o sistema patriarcal, definindo concepções de mulher que permanece direcionando a vida atualmente.

2.1 HISTORICAMENTE, A DIFERENÇA ENTRE OS SEXOS VEM SE TRANSFORMANDO EM DESIGUALDADE?

Para compreender o papel da mulher na sociedade aborda-se a origem da espécie humana por meio de vestígios como a arte e os mitos produzidos pelos povos antigos, considerando que nessa época não havia registros de documentos escritos.

Os primeiros tempos foram divididos em dois períodos, denominados de antiga idade da pedra e idade dos metais. A primeira subdivide-se em período paleolítico que data de 500000 a 10000 a C. e período neolítico que iniciou por volta do ano 3000 a. C., e o último é conhecido como a história das nações civilizadas que se inicia no final do período neolítico . (LINS, 2000)

Em consonância com Lins (2000), no período paleolítico, os primeiros homo sapiens, eram considerados povos nômades, isto é, para sobreviverem migravam de um lugar a outro em busca de regiões férteis que lhes proporcionassem alimentos para a subsistência de todo o grupo, tendo o auxílio da caça, da pesca e da coleta. Nessas sociedades homens e mulheres realizavam tais atividades em parceria e ciclicamente.

De acordo com Muraro (2002), nesse período as mulheres trabalhavam mais que os homens, pois na medida em que ficavam grávidas desenvolviam o desejo de proteger e alimentar os seus filhos, então, partiam em busca de alimentos para sustentá-los.

Dessa maneira, além das funções de caça e pescar, a mulher incorporou as atividades da casa e das crianças, bem como da comunidade. Quanto aos homens a prática de caça e pesca era apenas para si, gastando menos tempo. O que implica em pensar que a divisão sexual do trabalho, que será visto nas sociedades mais avanças, tenha iniciado, nesse período devido à aspiração do homem em definir suas funções como as mulheres possuíam através da maternidade.

Assim, as atividades femininas eram mais valorizadas, uma vez que além de caçar, pescar e coletar alimentos preparava-os para todo o grupo. Logo, trabalhavam mais que os homens que não desenvolviam atividades para o coletivo, obtendo mais tempo livre do que as mulheres. Contudo, enfatiza-se que nessa ordem social, não existia vestígios de dominação entre ambos.

Nessa organização político-social o matrimônio entre homem e mulher era desconhecido, sendo executado por grupo em que cada mulher pertencia igualmente a todos os homens e cada homem a todas as mulheres, e as crianças possuíam vários pais e mães. A participação na procriação de outros seres humanos também era ignorada pelos homens, ou seja, para eles a fertilidade era algo exclusivo da mulher e devido a isso passaram a cultua – lá, acreditando que possuíam poderes de governar a vida e a morte.

Os homens não tinham motivo para se sentir superior ou exercer qualquer tipo de opressão sobre as mulheres. Continuavam ignorando sua participação na procriação e supunham que a vida pré-natal das crianças começava nas águas, nas pedras, nas árvores ou nas grutas, no coração da terra-mãe, antes de serem introduzidas por um sopro no ventre de sua mãe humana. (LINS, 2000, p.20)

Dessa forma, a autora acrescenta, afirmando que estatuetas femininas encontradas na Europa demonstraram uma forma de religião em que a mulher ocupava um lugar privilegiado, “(…) manifestações do culto a uma deusa-mãe como fonte regeneradora de todas as formas de vida”, como exemplo o mito grego Gaia. Gaia é a Terra e teria surgido do vazio ou do caos a partir do qual gerou o céu e o mar. Depois gerou os poderosos titãs. Acreditava-se que a mulher era uma divindade que governava a vida dos povos.

Segundo Muraro (2002) nas sociedades primitivas, pode-se teorizar que não havia chefia, liderança tampouco matriarcado. Ou seja, não existia uma sociedade governada por mulheres, mas sim uma valorização da linhagem materna (matrilinear), o que posteriormente se transformara em patriarcal, onde prevalece a linhagem masculina, exercendo um poder e opressão de modo autoritário. No entanto, mesmo as mulheres apresentando um poder superior aos dos homens, não se encontrou nenhum sinal de dominação e submissão nas relações dos mesmos.

No final do período paleolítico, em virtude das transformações climáticas e conseqüentemente vegetais, as populações formaram as primeiras aldeias, utilizando o plantio como um novo meio de sobrevivência, uma vez que se tornava cada vez mais difícil transportar alimentos na forma de vida anterior. Dessa maneira, deu-se início a revolução neolítica, marcada pela mudança dos povos de seres nômades para seres sedentários, em outras palavras passaram a habitar locais fixos, se distanciando progressivamente das atividades de caça, pesca e coleta, estabelecendo sociedades agrícola e pastoril .

Nessa passagem as mulheres tiveram papel crucial, pois atribui a elas o desenvolvimento das primeiras atividades horticultoras, o qual utilizava instrumentos simples e com métodos primitivos, como plantar os grãos com as mãos, a fim de que pudesse alimentar uma quantidade maior de pessoa, já que a coleta, embora admitisse um território maior à alimentação era para poucos indivíduos. Após algum tempo os homens passaram a adotar e aprimorar essa forma de atividade.

Este nível de produtividade evoluiu, dando origem a comunidades mais amplas, contribuindo para o aparecimento das primeiras cidades, as cidades-estados, os primeiros estados e, por conseguinte os grandes impérios da antiguidade, tais como: Babilônia, Egito, Grécia, Roma e China. Assim, nasce a chamada idade dos metais, caracterizada pela revolução agrícola que proporcionou o aprimoramento das técnicas do cultivo de alimentos, gerando os excedentes que consiste nos alimentos trocados após o atendimento das necessidades de sobrevivências dos grupos, sendo a classe dominante que vivia da venda dos mesmos extraídos da terra e os escravizados que era população, tida como a classe camponesa, evidenciando que este tipo de sociedade baseou-se em uma estrutura desigual que mais tarde se transformaria em uma sociedade de classes.

A relação com a natureza nesse dado momento, contribuiu para o surgimento do sentimento de transcendência/superioridade, isto é, o descobrimento do homem sobre o seu papel na procriação. Na medida em que se tornaram povos sedentários, os homens passaram a participar ativamente das atividades realizadas pelas mulheres. Parafraseando Lins, a domesticação dos animais articulada ao novo modo de sobrevivência colaborou para a seguinte associação dos homens:

[…] as ovelhas segregadas não geravam cordeiros nem produziam leite, porém, num intervalo de tempo constante, após o carneiro cobrir a ovelha, nasciam filhotes. A contribuição do macho para a procriação foi enfim descoberta, mas não apenas isso. Os homens perceberam que o carneiro podia emprenhar mais de cinqüenta ovelhas! Com o poder similar a esse, o que o homem não conseguiria fazer? (2000, p.22)

Lins (2000) destaca também o princípio fálico, isto é, o culto ao pênis estimulado através do paralelo entre o “(…) arado com a força de arar a terra e prepará-la para a semeadura (…)” e o próprio pênis. Dessa maneira o homem passa a se considerar um ser preponderante, o fertilizador da terra, pois o sêmen implantado no útero da mulher é que gera a vida e a mulher, apenas, tinha o papel de propiciar a germinação e o crescimento da vida até o momento de vir ao mundo.

Após essa descoberta a relação entre homens e mulheres se transformou, pois os homens ao acreditarem que a fertilidade e a fecundidade eram privilégio exclusivamente das mulheres e que esta era fruto da sagrada natureza, comprovaram que para fertilizar a mesma devia-se implantar uma substância contida em si, isto é, o sêmen. A partir de então, os homens passaram a adquirir comportamento autoritário, discriminatório e arrogante com as mulheres, em virtude do símbolo do poder e da dominação que carrega, provocando mudanças na estrutura social, bem como construindo novos sistemas religiosos, morais e legais.

Concomitante ao aumento de riquezas o homem foi se tornando cada vez mais importante que a mulher e o seu poder sobre ela aumentavam na mesma proporção, ampliando o seu poder para o ambiente doméstico. “As colônias agrícolas foram se expandindo e era necessário mais gente para trabalhar. Quanto mais filhos, melhor. As mulheres, fornecedoras da futura mão de obra, passaram a ser encaradas como objetos e tornaram-se mercadorias preciosas.” (Id., 2000, p.23)

A idéia de casal surge vinculada a procriação, uma vez que requer a participação de ambos os sexos no mesmo, sendo a mulheres reduzidas ao âmbito privado a fim de fornecer filhos para contribuir na expansão econômica. Assim, no que tange a liberdade sexual, a mulher sofreu várias restrições, instalando-se dessa maneira, o controle sobre a fecundidade da mesma ao passo que o homem se assemelha, incorporando a concepção de que se o carneiro emprenha cinqüenta ovelhas, logo ele também pode perpetrar o mesmo ato.

Dessa forma, a relação entre mãe e filho não apresentava a mesma ligação como na estrutura social paleolítica e a Deusa-Mãe, aos poucos foi sendo substituída por divindades masculinas, como expõe Lins (2000, p. 24-25)

As novas lendas mitológicas acompanham as novas estruturas mentais dessa época de transição. Entre os celtas, o Sol, antes uma potência feminina, torna-se Deus-Sol, substituindo a deusa primitiva, relegada à categoria de astro frio e estéril, a Lua. Com a Deusa-Porca ou com a Deusa- Javali, lendas celtas, se dá o mesmo.

As transformações sociais, ao logo dessas civilizações, criaram códigos, culturas, formas de sobrevivência, religião, economia, bem como a diferença entre os sexos que são condições sine quo non para que os indivíduos possam desenvolver ações e relações diárias para sobreviver e construir a sociedade.

Portanto, Dias (2003, p. 17) afirma que para “(…) cada cultura, cada etnia, cada comunidade, cada grupo estabeleceu normas para lidar com os seres humanos do sexo masculino e do sexo feminino destinando-lhes atribuições às quais considerava próprias à natureza de cada um”.

A conquista do homem pelo excedente, pela construção de superioridade sobre a mulher e pela propriedade foi pouco a pouco transparecendo à supremacia masculina e uma competitividade, que pode ser visto nos mitos da criação do mundo pelas religiões monoteístas (cristianismo, islamismo, budismo, judaísmo) que ao mesmo tempo reflete a situação social e econômica do momento. Sendo assim, o patriarcado se estabelece baseado na crença judaico-cristã, que de acordo com Lins (2000) passar a existir primeiramente na democracia ateniense em 3100 a. C. e num processo gradual alcança a civilização ocidental, perdurando até 600 a. C.

Sob essa perspectiva Saffioti (2004) conceitua a dominação patriarcal em uma organização social fundamentada no poder do pai, sendo a descendência e o parentesco nesta ordem social seguir a linhagem masculina, apoiando-se no controle da fecundidade da mulher por meio de sujeições físicas e mentais, restringindo a sexualidade e assim dirigindo-as a tarefas específicas. Esta ideologia separou a humanidade em duas metades, ou melhor, separou o homem e a mulher, provocando conseqüências irreparáveis que influenciaram na relação dos mesmos e em seguida transformaram valores, instituições, culturas e etc.

A fidelidade feminina nesta ordem social, em relação à mulher, passou a ser vigiada, abrindo espaço para a construção de estratégias para garantir a legitimidade dos filhos e conseqüentemente a herança, a exemplo dos confinamentos em que a mulher era mantida, sem contato, principalmente com outros homens, a extirpação do clitóris para exaurir os desejos sexuais ou como já houve no Brasil, em que as mulheres eram espancadas e/ou mortas por maridos ciumentos, tendo por base leis penais. Aos homens foi concedido o direito a infidelidade, tendo em vista que não acarretaria em problemas na linhagem. Segundo Lins (2000, p. 26) “Para garantir a fidelidade da mulher e, por conseguinte, a paternidade dos filhos, ela passa a ser propriedade do homem. Puni-la severamente ou mesmo matá-la é considerado simplesmente o exercício de um direito.”

Respectivamente a religião, o cristianismo em seu princípio histórico enfatiza a crença em um Deus masculino que cria um homem, denominado Adão e ao retirar uma de suas costelas molda Eva, a mulher, como pode ser encontrado na bíblia, um documento literário da cultura religiosa cristã.

Então Javé Deus modelou o homem com argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro e o homem tornou-se um ser vivente. Javé Deus tomou o homem e o colocou no Jardim de Éden (…) Mas o homem não encontrou uma auxiliar que lhe fosse semelhante. Então Javé Deus fez cair um torpor sobre o homem, e ele dormiu. Tomou então uma costela do homem e no lugar fez crescer carne (…) modelou uma mulher, e apresentou-a para o homem. (Gn 2,1)

Entende-se, portanto, que Adão é pai e mãe de Eva, a qual, nessa cultura, se encontra distante do divino, enquanto Adão torna-se superior, criado a imagem e semelhança do Deus criador, decretando assim a inferioridade da mulher sob o homem e sua subserviência ao mesmo. “Desse momento em diante, é muito claro o papel que a mulher deverá cumprir na sua relação com o homem: agradecida, por ele ter lhe dado a vida; dependente, por ter nascido dele; submissa, por ser inferir.” (Passin, 2000, p. 30).

Eva, no mito da origem do mundo é culpada por todos os males que aconteceu no paraíso – Jardim de Éden -, uma vez que teria sido sua fraqueza que provocou a expulsão de ambos do local, considerado pelo cristianismo o caminho do pecado original e mortal e da degradação, o qual levou a condição humana ao sofrimento.

A mulher representava a porta do inferno, a mãe de todos os males humanos. Devia envergonhar-se da própria idéia de ser mulher. Devia viver em penitência continua, por causa das maldições que havia atraído sobre o mundo. Devia envergonhar-se de sua roupa, por ser a recordação de sua queda. Devia envergonhar-se especialmente de sua beleza, porquanto é o instrumento mais potente do demônio. (Passin, 2000, p. 55)

Dando continuidade, as diversas doutrinas desenvolvidas pelo cristianismo, como o princípio da ressurreição, o qual aborda sobre os corpos dos justos que seriam ressuscitados por Deus numa nova criação, a criação de um mundo hierarquizado, existindo rivais de bons e maus poderes (anjos e demônios), fundamentando-se na crença em outro mundo, que abarca a idéia de juízo final, além de realçar que os indivíduos ressuscitados são superiores àqueles que, por ventura permanecem sob o domínio do corpo. Logo, venera-se a superioridade da alma sobre o corpo, pois, Deus era um ser ressuscitado e invisível (não era permitida a reprodução de sua imagem).

Na medida em que Deus se desprende de uma forma humana e se torna invisível, denota o afastamento também da sexualidade e isso passa a ser considerado o ideal de perfeição ética da religião. A restrição a liberdade sexual é, então, instituída.

Nos séculos seguintes a uma intensa condenação da Igreja pelo sexo, produzindo ideologias com o intuito de superar a “prática carnal”, reforçado nos escritos bíblicos do cristianismo em que a mulher deveria ser subordinada ao marido e dar à luz na dor, pois Deus tinha iluminado o primeiro homem e a primeira mulher com o inocente instinto físico, como propósito de continuar a espécie, mas a luxuria o transformou em algo vergonhoso. Sobretudo a esperança de salvação para a humanidade é a rejeição ao sexo – celibato – para alcançar o estado de graça que existiu no Jardim de Éden e então se eximir da culpa herdada de Adão e Eva. (LINS, 2000)

Nesse ponto de vista a Igreja anunciou horror aos prazeres do corpo, transformando o sexo em pecado. As relações sexuais dentro do matrimônio também se tornaram pecado, vista como à fraqueza humana, se por um acaso não houvesse a perspectiva de gerar gravidez, uma vez que na interpretação cristã a sexualidade inserida entre o casal era exclusivamente para a procriação; um bem que estava vinculado a um mal, o prazer. Sendo assim, foram elaboradas diversas proibições, como a interdição de copular nas vésperas dos dias santos, antes da comunhão, durante o período de mestruação, etc. (RUFFIÉ, apud, LINS, 2000)

A figura da mãe ressurge no cristianismo com o culto a Virgem Maria cuja característica se manifesta através do sofrimento, sacrifício e da subserviência ao filho, não alterado a imagem da mulher, apesar de Maria simbolizar a bondade, a representação difundida continuou a ser reprimida, humilhada e violentada.

Todos estes mitos que pouco a pouco vão degradando a mulher são muito importantes politicamente, pois não só introduzem a dominação masculina como a tornam benéfica e necessária para todos. Além disso, tornando a mulher um ser fraco ou venenoso, impõem-lhe um caráter estrutural malévolo que ideologicamente torna também benéfica para todos a sua submissão. E assim as novas relações sociais, políticas e econômicas passam a ser sacralizadas, e sua transgressão passa ser considerada a origem de todo pecado e de todo mal. (MURARO, 2002, p. 37)

Segundo Muraro (2002), as ideologias relacionadas ao mito de Adão e Eva e a ética cristã fundada na privação ao sexo contribuíram para degradar e escravizar a posição da mulher na sociedade, modelando e aterrorizando as gerações seguintes.

Cumpre elucidar, de acordo com Castells (2000) que o patriarcado não pode ser compreendido independente do sistema capitalista; os dois são duas faces de um mesmo sistema produtivo, portanto, devem ser analisados como formas integradas já que o fenômeno da opressão e discriminação contra a mulher foi sendo construído no decorrer da história dos seres humanos. E, nesse intento, revela crenças e valores que configuram uma importância nas relações sociais, sendo assimilado e reproduzido em determinadas sociedades, culturas e tempos.

[…] o capitalismo (e os sistemas que o antecederam) necessita da ordem e do controle estabelecidos pela supremacia masculina, resultante do sistema hierárquico sexual, como forma de garantir o funcionamento uniforme da sociedade […] para o controle político, enquanto sistema político, não pode reduzir-se à sua estrutura econômica; enquanto que o capitalismo como sistema econômico de classe, impulsionado pela busca de riquezas, alimenta a ordem patriarcal. Juntos formam a economia político da sociedade”. (EINSENSTEIN apud CASTELLS, 2000, p.36)

Esse sistema inter-relacional tem seu início histórico a partir do século XIII na Inglaterra e no século XIX nos Estados Unidos, com o novo capitalismo industrial regido pela força imperativa do acúmulo de capital, as relações sociais assumem características influenciadas pelo mesmo, que as torna necessária ao desenvolvimento do sistema, a exemplo disso destaca-se as relações familiares, tidas como a primeira instituição social em que o ser humano se insere em que passa a refletir, nitidamente, as transformações na estrutura social, perdendo seu caráter inicial de unidade produtora dos meios necessários de subsistência para seus membros, atendo-se agora, para a produtividade das fábricas. O homem que representava o chefe da família passa a vender sua força de trabalho no mercado, enquanto a mulher começa a ser requisitada para trabalhar também na produção fabril.

Apesar das mudanças ocorridas na família, a magnitude deste se constituiu um reforço na opressão da mulher por meio dos seus papéis, os quais se destacam a reprodução, sexualidade e socialização das crianças. No que tange a reprodução, a mulher completou o papel do homem na produção na medida em que a maternidade se converteu em necessidade para a reprodução da força de trabalho, disseminando que a função da mãe é essência da vocação natural da mulher e assim a mesma foi sendo excluída da produção social. Em relação à sexualidade, por meio do qual a mulher foi mais oprimida, atuava como propriedade do homem na relação familiar. E, por fim, à socialização das crianças, nesse aspecto que se gestou a divisão dos papéis entre homens e mulheres, haja vista que a aptidão para a socialização considerava a condição fisiológica da mulher (produção do leite materno). “O destino biológico da mulher se converte em vocação cultural no papel como socializadora”. (CASTELLS, 2000)

A condição de inferioridade, a qual a mulher já era submetida ao longo da história humana se tornou um importante instrumento nas mãos da burguesia, em prol de um único fim, o acúmulo de riqueza. Assim passou a utilizar o discurso competente da submissão e a passividade relacionada ao âmbito doméstico para definir pagamento de salários inferiores aos dos homens, além de jornadas de trabalho excessivas e insalubridade, negando-lhes o direito a sindicalização, a proteção das leis trabalhistas e o direito a cidadania. Sobre esse aspecto Saffioti considera:

O caráter submisso que há milênios as sociedades vinham moldando nas mulheres facilitava enormemente a elevação do montante de seu trabalho excedente. A consciência que os homens da burguesia tinham de situação da mulher representava também um dado importante da colocação em prática de tal sistema de exploração. […] em seus teares mecânicos empregava exclusivamente mulheres, dando preferência às casadas e, sobretudo, as mulheres casadas que tinham em casa uma família que vivia ou dependia de seu salário, pois estas eram muito mais ativas e cuidadosas que as mulheres solteiras; ademais, a necessidade de garantir o sustento de sua família as obrigava a trabalhar com mais afinco. (…) é obvio, portanto que a mulher sofre mais diretamente do que o homem os efeitos da apropriação privada dos frutos do trabalho social. (SAFFIOTI, 1976, p. 40-41)

A partir do surgimento das primeiras mobilizações feministas, passando a lutar por causas específicas, pouco a pouco a questão feminina tomou corpo, enfrentando obstáculos muitas vezes tortuosos, dilemas, enfrentamentos, mudanças, derrotas e também vitórias. Este assunto será mais discutido a seguir.

2.2 O FEMINISMO BRASILEIRO E A SUA ARTICULAÇÃO COM OUTROS MOVIMENTOS SOCIAIS NA LUTA POR DIREITOS

Para mencionar acerca da organização do movimento feminista no Brasil torna-se pertinente realizar, primeiramente, uma breve retrospectiva sobre o movimento feminista internacional, pois este se constitui congênere do primeiro, que não atuou de forma isolada e nem tampouco alheia ao contexto mundial, possibilitando uma reflexão sobre as lutas, enfrentamentos, contradições vivenciadas, os desafios, as vinculações e as novas dinâmicas postas ao mesmo a partir dos anos 70.

Nesse sentido Costa e Sardenberg (2008, p. 02), enfatiza que para iniciar essa abordagem:

[…] é preciso lembrar que, pese sua universalidade, a subordinação da mulher não se manifesta da mesma forma, ou no mesmo grau de intensidade, em sociedades, épocas ou classes sócias diferentes. E tampouco é vivenciada, ou percebida, da mesma maneira ou grau de intensidade, mesmo por mulheres em condições histórico-sociais semelhantes.Com uma impressão digital, a vida de cada mulher é sempre única e traz sua marca. Contudo, seu esboço geral é traçado por circunstâncias muito mais globalizantes e historicamente determinadas […]

Dias (2003) compartilha do mesmo pensamento ao considerar que as mulheres são múltiplas, plurais cuja identidade é produzida em contextos históricos e institucionais diversificados, perpassando por questões de sexo, de gênero, de geração, de etnia, de classe social, dentre outras tecidos de acordo com as diferentes práticas sociais, que se encontram subjacentes ao poder.

As primeiras manifestações políticas e reflexões feministas acerca da descriminação e opressão dirigidas à mulher originaram-se na Inglaterra, França e nos Estados Unidos, a partir do século XVIII, com a perpetuação de um “novo” sistema econômico: o capitalismo, introduzido pela Revolução Francesa em 1789, apresentando ideais como igualdade, fraternidade e liberdade.

Atreladas a tais idéias, sobretudo a de igualdade, o movimento feminista passou a exprimir insatisfações acentuadas na desigualdade estabelecida entre os sexos e o papel da mulher na sociedade. Destacaram-se como líderes desses movimentos Rose Lacombe, Loison Chabry e Theroig de Mericourt que em companhia de outras mulheres exigiram na Assembléia Constituinte em Versalhes, a igualdade de direitos entre os sexos, a liberdade de trabalho, dentre outros. O movimento ganhou formato mais consistente no século XIX na maioria dos países europeus e nos Estados Unidos.

Contudo, apesar dos ideais capitalistas consentirem no discurso a igualdade, a prática não se apresentou como na teoria, uma vez que estes somente eram garantidos para a classe dominante. E a classe operária e, sobretudo a de mulheres? Sobre as mulheres as autoras Costa e Sardenberg (2008, p. 02) destacam que “para as filhas e esposas dessa burguesia ascendente, igualdade e fraternidade só entre sí. Liberdade, só entre os muros do espaço doméstico e, mesmo assim, vigiada. Direito? Os de boa filha, boa esposa, boa mãe.”

Desse modo, a forjada participação social proferida através do ideal liberal de igualdade, provocou, gradativamente, à subversão, isto é, as mulheres, principalmente as de classe média, despertaram para a situação de exploração, inferioridade e opressão a que estavam submetidas, tornando-se alavanca para o aparecimento do movimento feminista. (COSTA e SARDENBEG, 2008)

Assim, as manifestações emergem acopladas as contradições do capitalismo, ou seja, às ideologias que sustentam esse sistema, as quais se fizeram presentes em toda a história do movimento feminista, uma vez que foram realizadas interpretações sobre a participação da mulher nas relações de produção e as condições necessárias para a sua emancipação a luz do mesmo, provocando a divisão do feminismo em duas tendências, sendo a primeira denominada de feminismo burguês ou sufragista e a segunda nomeada como feminismo socialista.

A corrente do movimento feminista internacional sufragista que se desenvolveu nos países avançados, Inglaterra e Estados Unidos, caracterizou-se pela moderação e reformismo, porém incorporando algumas vezes práticas violentas. Limitava-se a reivindicar reformas jurídicas em prol do status da mulher, tendo em vista que a igualdade legislativa solucionaria os problemas de cunho discriminatório sobre as mulheres.

Esta corrente sufragista não conseguiu analisar os dois limiares do mecanismo capitalista na inclusão das mulheres nas relações de produção. Em outras palavras, isso significa que as contradições entre a inserção da mulher no mercado de trabalho e as conseqüências da dupla jornada de trabalho (se tornou condições reais para a manifestação) não foram bem interpretadas pelas mesmas, implicando na ausência de idéias transformistas para a estrutura e superestrutura da sociedade e, em específico para o papel da mulher, pois ao alcançarem o direito ao voto, à falta de analise das contradições ocasionaram à retomada das mulheres as antigas atividades impostas pela sociedade.

A corrente das feministas socialistas desenvolveu-se em diversos países, porém com mais intensidade na Alemanha, tendo como atuante Clara Zetkn e Rosa de Luxemburgo. Emergiu após a publicação do “Manifesto Comunista” dos autores Marx e Engels que faziam parte do movimento proletariado, de onde o feminismo atuava. A partir deste momento começaram a se desenvolver correntes de teorias, não só pelas feministas, mas também por historiadores, antropólogos, sociólogos, dentre eles tais autores que tentaram explicar as causas da subalternidade da mulher nas sociedades modernas, com a concepção de que a condição de dependência da mulher é fruto de um processo histórico que se encontra relacionado ao desenvolvimento das forças produtivas e como conseqüência deste a evolução da família. (CASTELLS, 2000)

É na perspectiva da propriedade privada e do papel que se desenvolve de reprodução da família para garantir a paternidade dos filhos e assim transmitir riquezas aos seus descendentes que se fundamenta o marxismo clássico.

Entretanto, esta concepção se deparou com uma série de críticas realizadas pelas teóricas feministas e por aqueles que utilizavam a teoria marxista para análise social. Dentre elas destaca-se: a) a afirmação sobre a existência de um matriarcado, o que não foi encontrado nenhuma pesquisa que indicasse uma organização familiar desse nível, sendo o que se apresentava era uma matrilinearidade. a) a divisão natural do trabalho apresentado por Marx e Engels, os quais assinalam que a primeira divisão do trabalho na família ocorre através do ato sexual e da procriação, considerando como uma divisão “natural” “[…] como se o trabalho doméstico fosse algo inerente à condição feminina, como se fosse um fato da “natureza” e não como o resultado das relações sociais de produção, o qual desvaloriza, esquecendo que através do trabalho doméstico, a mulher é responsável pela reprodução diária da força de trabalho que abrange a conservação e transformação dos alimentos que não se encontram prontas para serem consumidas ou tro
cadas pelo salário do trabalhador, bem como pela manutenção do vestuário e do lar. Para Marx a reposição da força de trabalho era competia à mulher. (CASTELLS, 2000)

A última premissa contrapõe-se com o próprio materialismo histórico, o qual apreende que o homem é resultado do processo de produção de bens matérias, ou seja, considera que não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência.

Esta corrente acreditava que a opressão feminina era conseqüência do surgimento da propriedade privada e ao lutarem por uma sociedade sem classes sociais, estaria garantindo uma sociedade sem desigualdades, inclusive para outras categorias como o sexo, a raça etc.

Isto é, acreditavam que com o surgimento da sociedade socialista, com a socialização dos meios de produção e a erradicação da exploração do trabalhador, surgiria, automaticamente, uma sociedade mais igualitária, em todos os sentidos. (COSTA e SARDENBRG, 2008, p.05)

Assim, defendiam a incorporação da mulher na produção social, pois acreditavam que dessa forma promoveriam as bases para a libertação, a independência econômica e principalmente, o rompimento com os laços de dominação do homem e da família, e então inserem a mulher na luta do proletariado. Mas, as feministas socialistas enfrentaram preconceitos do próprio partido devido ao medo da concorrência, negando a participação feminina nos sindicatos. Esse acontecimento induziu a organização das mulheres em sindicatos independentes. (COSTA E SARDENBERG, 2008)

A consciência de que o marxismo não podia responder a todas as demandas e questionamentos da problemática feminina vieram à tona na medida em que as feministas requeriam mais que mudanças nas relações de produção. Assim, foram em busca de outras concepções que pudessem suprir essa carência, sendo a teoria do patriarcado mais um passo nessa busca.

A primeira teórica feminista que buscou conceitos sobre o poder e dominação patriarcal foi Kate Millett, defendendo a concepção de que na relação estabelecida entre homens e mulheres são relações cuja política se encontra engendrada. É “[…] uma instituição revestida de aspectos ideológicos e biológicos que têm a ver com a divisão social, os mitos, a religião, a educação e a economia”. (LUMA apud CASTELLS, 2000, p. 29)

As feministas que defendiam essa linha eram tidas como radicais, definiam o patriarcado como um sistema sexual do poder, como a organização hierárquica masculina da sociedade que se perpetua através do matrimônio, da família e da divisão sexual do trabalho, fundamentando-se mais na biologia que na economia ou na história.

Para Shulamith Firestone a função reprodutiva da mulher é à base da opressão “(…) o desequilíbrio sexual do poder esta fundamentado biologicamente”, portanto, somente com a libertação da mulher das cadeias da maternidade, através dos progressos na tecnologia da reprodução, deixaria de existir esse desequilíbrio (FIRESTONE apud CASTELLS, 2000)

Apesar da contribuição realizada pelas feministas radicais na construção da teoria do patriarcado, estas passaram por uma série de críticas, sendo presidida por Scott (1999), pontuando que o patriarcalismo não explica a relação das desigualdades de gênero e outras desigualdades e que a sua análise se baseia apenas nas diferenças físicas, o que impede uma análise histórica.

Embora existam importantes críticas dirigidas às teorias do patriarcado, é inegável sua contribuição para a construção do pensamento feminista, não só no sentido de trazer para a cena novos elementos de análise que possibilitaram às feministas socialistas avançar nos parâmetros da concepção materialista da opressão feminina, incorporando outras dimensões da vida humana e, posteriormente na construção do conceito de gênero, o qual será tratado mais adiante.

As duas tendências feministas internacionais dominaram por um século, passando por momentos turbulentos, de efervescência e uma quase desarticulação – na conquista do direito ao voto -, quando emergiu, nos anos 60 movimentos de contestação de padrões, comportamentos e práticas da sociedade, emergiu também um ”novo” feminismo, que reaparece influenciado pelo movimento negro, movimento hippie e por todos os movimentos de contestação social, motivados pelos acontecimentos em 1986 – crise econômica-, contribuindo para uma nova face e história do movimento, bem como luta e a busca por uma identidade coletiva. Referente à aglutinação dos movimentos sociais salienta-se:

O feminismo tanto como crítica teórica quanto como movimento social, associado aos grandes movimentos sociais identificados com o ‘1968’ buscava visibilizar novas identidades racionais, étnicas, sexuais, etc., e, nesse intento, contribuiu substantivamente para negar as desigualdades sociais e reconhecê-las como pluralidade. (HALL, apud, DIAS, 2003, p. 27)

Vale lembrar que os movimentos sociais possuem determinação concreta advindas das relações de exploração e dominação capitalista, gerando relações antagônicas entre capital e trabalho, expressão das desigualdades sociais, sendo a mola propulsora dos movimentos sociais que ao se unirem formam vozes coletivas com identidade que lutam contra a barbárie capitalista, especificamente pelas demandas sócio-culturais impostas pelo sistema. Se diferenciam da luta entre as classes sociais na medida em que luta por mudanças culturais, por direitos, desigualdade, preconceito e por um Estado legitimador, enquanto a classe operária possui um objetivo único, a tomada de poder.

Como referido acima à denominação “novo feminismo” foi estimulada em virtude da proposta de uma atuação diferente do movimento feminista anterior.

Trata-se, hoje, de um movimento que questiona o papel da mulher na família, no trabalho e na sociedade, luta por uma transformação nas relações humanas e pela extinção das relações baseadas na discriminação social (…) a partir do questionamento tanto das relações sociais da produção material, quanto das relações efetivas e sexuais entre os seres humanos, propõe-se a luta por mudanças históricas. (COSTA E SARDENBERG, 2008, p 07)

Essa é uma característica peculiar, desenvolvida por feministas americanas contemporâneas, ganhando um sentido revolucionário que utiliza estrategicamente a troca de experiências das mulheres, além da reflexão coletiva para constatar que os problemas vivenciados enquanto sujeito do seu cotidiano, obtém relação o social que requer soluções coletivas. Desse pensamento que passa a existir a conotação “o pessoal é político” para se referir que não existe separação entre a esfera privada e a esfera pública, pois, as relações familiares são relações sociais de poder entre os sexos e não biologicamente determinada como difunde a ideologia dominante – patriarcal. “São construídas socialmente e, portanto, são historicamente determinadas” (COSTA E SARDENBERG, 2008, p 08)

Portanto, nota-se que o intuito de construção histórica do feminismo é:

(…) clarificar a divisão social, cognitiva, afetiva e política que se dá na relação entre homens e mulheres, problematizada a partir de uma diferença, que é biológica, centrada na anatomia do aparelho reprodutor, ou seja, no corpo. E seu grande mérito está em deslocar o foco da discussão para a esfera subjetiva e portanto simbólica, na compreensão de como os processos de dominaçãp e subordinação, baseados nessa diferença, se dão. (DIAS, 2003, p. 28)

Entrelaçado a história e a conjuntura universal da sociedade, o movimento feminista brasileiro teve sua estréia no século XIX, liderada por Nísia Floresta Brasileiro Augusta , que publicou diversas obras literaturas, as quais despertaram a sociedade para uma consciência crítica sobre as condições femininas, a exemplo da “A mulher” (1856), “Conselhos a minha filha” (1842), e em seguida pela Imprensa Feminina: O Jornal das “Senhoras” (1852), “A Mensageira” (1889), O Sexo Feminino.

Enquanto nos Estados Unidos e na Europa vivia uma revolução ligada ao modo de produção que ali se instalava, atingindo toda amplitude da vida social, em contrapartida, no Brasil e nos demais países da America Latina ainda se atenuava o regime colonial (advindo de Portugal), escravista e patriarcal. Uma sociedade agrária, em que a maior parte da população se encontrava concentrada na zona-rural, fundada na Casa Grande de onde o “Senhor de Engenho”, que também imperavam nas cidades (burguesia), ordenava um exército de escravos, bem como toda a família.

Entretanto, na Casa Grande ou nos sobrados burgueses, a situação da mulher brasileira era bastante precária, conforme Costa e Sardenberg (2008, p. 11) salientam:

[…] a família patriarcal se estabelecia segundo as ‘Ordenações de Portugal’, dando ao marido não só amplos poderes, mas ainda o cruel direito de castigar fisicamente sua mulher. Ademais, nas classes dominantes, a mulher era confinada no interior da casa sob as ordens de um marido (ou pai) distante e autoritário, rodeado de escravos e concubinas. Seu papel principal era o de reprodutora. Casava-se relativamente jovem e gerava muitos filhos […]

Nessa época não se encontrou nenhum registro de manifestações, questionamentos ou insubordinação, nem ao menos em pequenos grupos. Mas, houve mulheres com o comportamento considerado atípico, porém individualizado como Joana Angélica, Maria Quitéria, etc. Assim, nota-se que o sistema patriarcal na colônia permaneceu indubitável.

Em meados do século XIX uma série de mudanças de ordem econômica, política, social e ideológica do Brasil, passando de um regime colonial, a caminho do processo de industrialização, tornara mais evidente as desigualdades entre machos e fêmeas.

Esse processo foi marcado por mudanças significativas, que em sumo destaca-se a vinda da família real ao Brasil em 1808, a abertura dos postos ao comércio estrangeiro, a construção de ferrovias, o desenvolvimento do sistema bancário-financeiro, o crescente sentimento de identidade nacional da população, concentrada agora nas cidades, aliada às idéias liberais que promoveu a nova ordem econômica, jurídica e política no país através da Independência do Império (1822). E na segunda metade desse século, as campanhas abolicionistas, culminando no fim do regime escravista em 1888, a Proclamação da República e a promulgação de uma nova Constituição de 1891. (COSTA E SARDENBERG, 2008)

É importante enfatizar que tal Constituição não realizava referências aos direitos da mulher, e sim assegurava aos cidadãos brasileiros que todos eram iguais perante a lei, mesmo excluindo a classe trabalhadora não alfabetizada. Tal declaração suscitou inúmeras interpretações em que uma delas salienta a questão dos direitos políticos estarem na esfera legal com a afirmação “igualdade de todos”, mas na esfera real esse discurso não se fazia presente. Sendo assim, as primeiras manifestações feministas voltaram-se para a conquista do direito a educação e profissionalização da mulher.

Na primeira metade do século XX as feministas se dedicaram a conquista do voto feminino, já como luta organizada, tendo em vista que a Proclamação da Republica em 15 de novembro de 1889 demonstrava uma possibilidade de uma estrutura política mais fluída e aberta, o que impulsionou as feministas a favor do sufrágio.

Em 1910 algo significativo para luta feminista ocorreu, a fundação do Partido Republicano Feminista, tendo à frente Leolinda Dalto, criando campanhas de pressão mais próximas do político e passeatas de mulheres em 1917, no Rio de Janeiro, incorporando um estilo violento semelhante às sufragistas inglesas.

Embora esse partido tenha se dedicado, o surgimento da Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, em 1919, que depois modificou para Federação Brasileira para Progresso Feminino (FBPF) em 1922, se dedicou a lutar pelo sufrágio, ganhando mais vigor e estimulando a abertura de outras associações de mulheres no Brasil. Tendo sido caracterizada como a primeira entidade de mulheres e a principal responsável pela luta sufragista no Brasil.

Dessa forma, no ano de 1927 com o apoio do governador do Estado do Rio Grande do Norte, a FBPF alcançou sua primeira vitória, sendo ela o direito ao voto por meio de uma resolução aprovado pela Assembléia Legislativa desse Estado, mas tal resolução foi negada a nível Federal.

No entanto a luta pelo sufrágio feminino prosseguiu, até que em 1932 as reivindicações pelo direito ao voto foram concedidas pelo novo governo constituído com a chamada Revolução de 30 sobre o governo de Getúlio Vargas. Esta concessão estava engendrada em uma estratégia da dominação, sendo o atual presidente representante da burguesia industrial, que buscava apoio popular para empoderar o seu projeto classista, em luta com a burguesia agrária que se demonstrava a única força controladora da economia e do aparelho do Estado. Essa busca de apoio popular se consolidou por meio de uma série de medidas sociais tomadas por Vargas, a exemplo da criação do Ministério do Trabalho, o salário mínimo, o sufrágio universal e então o direito ao voto pelas mulheres.

Todavia as feministas brasileiras repetiram o mesmo ato das feministas inglesas, isto é, se sustentaram nas ideologias liberais e no reformismo como estratégia política, cujas defesas se limitavam ao combate às leis discriminatórias, preconceitos e tradições. Mas, é importante destacar a contribuição da FBPF para a construção atual da situação legal da mulher no Brasil e, sobretudo a emancipação do movimento feminista.

Paralelo ao movimento feminista burguês desenvolveu-se, no Brasil o Partido Comunista (PCB) que em particular apoiava a mobilização de mulheres das classes populares que lutavam pelas causas gerais da sociedade, atuando na perspectiva do partido, além de manter um vínculo com feministas socialistas da Europa, recaindo sobre tais o aspecto conservador. Pode-se dizer que se preocupavam mais com a política e a conjuntura para interesse da política mundial stalinista do que para interesse das mulheres. Logo, não assumiu características de um movimento feminista socialista, ao passo que não conseguindo romper com os limites ideológicos e políticos da sociedade classista, não demandaram transformações no social. Reforçava estereótipos tradicionais como: a mulher dona de casa e mãe, e o incentivo a continuidade desses papéis.

Somente após alguns anos o PCB reconheceria o erro em que se gestava a sua concepção. Em relação à questão feminina, compreende que a opressão do capitalismo sobre o trabalho culminou na divisão de classes, tal qual é o divisor de águas na medida em que englobam outras formas de opressão como a da mulher, do negro, dos homossexuais, etc, que não se encontram diretamente determinadas por esta estrutura econômica, portanto não serão aniquiladas com mudanças na estrutura.

A partir do golpe militar na década de 60, tanto o movimento feminista burguês quanto o movimento feminista lideradas pelas organizações de esquerda, foram silenciadas igualmente a todos os outros movimentos populares do país.

Após a passagem da ditadura militar o movimento feminista ressurge no contexto dos novos movimentos sociais contestatórios dos anos 70, em torno da afirmação de que ‘o pessoal é político’, como usaram as feministas internacionais, mas segundo Costa (2005) não era mais uma bandeira de luta mobilizadora e sim questionamento acerca dos conceituais imbuídos na palavra “político”.

Ao afirmar que “o pessoal é político” as feministas trazem para o espaço da discussão política a questão tratadas como específicas do privado, rompendo com a dicotomia público-privado fruto de um pensamento liberal, o qual tenta separar as especificidades da política e do poder político (as formas em que é exercida) das relações sociais.

Os novos movimentos sociais, incluindo o movimento feminista, cumpriram um importante papel no processo de construção de novas concepções e no questionamento sobre os paradigmas ditados pela tradição liberal que, no período, impedia o exercício da plena autonomia nas esferas individuais e sociais. Juntos perceberam que as reivindicações de um movimento se associava a demanda de outros movimentos, assim desenvolveram uma política pautada na transformação do cotidiano, com estratégias de luta e superação da participação e da cidadania, contribuindo para melhores condições no nível micro-social e na busca pelo bem-estar coletivo. (CHRISTO, 1998)

De acordo com Costa (2005), esta interação entre as organizações coletivas seguiu ampliando em que novos movimentos se uniram as feministas para proclamar seus direitos específicos dentro da luta geral, a exemplo dos negros, os homossexuais, os grupos comunitários, os sindicatos, clubes de mães e partidos políticos começaram a enfocar temas referentes à questão de gênero. Este último causou polêmica, principalmente com os de esquerda, pois as feministas que pregavam o princípio da autonomia não aceitam a tutela dessas organizações, tampouco a divergência na condução das lutas das mulheres.

Para Christo (1998) as vinculações entre os partidos políticos e movimentos sociais não deve negligenciar a autonomia, considerando que os novos movimentos sociais consiste em formas de luta e de cidadania sem os limites impostos pelas organizações partidárias, na perspectiva de romper com as práticas autoritárias.

Costa (2005) prossegue afirmando que a defesa da autonomia pelo feminismo não significou uma prática isolacionista que impedisse a articulação com outros movimentos sociais, apenas a definição de um espaço autônomo para articulação, troca, reflexão, definição de estratégias.

No ano de 1975, em comemoração ao Ano Internacional da Mulher, promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU) foram realizadas várias atividades públicas em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, reunindo mulheres interessadas em discutir a condição feminina em nossa sociedade, partindo da afirmação de que “o pessoal é político” precedido pelo “novo” movimento feminista que neste momento se desenvolvia na Europa e Estados Unidos. Após esse encontro o movimento feminista passou a se proliferar através de novos grupos em todas as grandes cidades brasileiras, assumindo novas bandeiras como os direitos reprodutivos, a sexualidade e o combate à violência contra a mulher. (COSTA E SARDENBERG, 2008, p. 10)

No entanto, a violência contra as mulheres se tornou prioridade do movimento feminista, particularmente a violência domestica e familiar contra a mulher, sendo sistematizada, problematizada e questionada a fim de possibilitar a passagem desta da esfera privada para a esfera pública, uma vez que tal prática era considerada como um assunto privado e até normal.

E em 1985, o III Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, realizado em Bertioga (SP) que contou com a participação de mulheres de diversos Estados e países, bem como representantes de outros movimentos, evidenciando que os encontros feministas passaram permitir a participação de outros movimentos, o que segundo Costa (2005) as diferenciou do feminismo europeu, tendo em vista que o interesse era promover um projeto mais amplo de reforma social e subseqüente a este se realizavam os direitos da mulher em meios a formas organizativas que possibilitavam o envolvimento de setores populares. Durante os anos 80 buscou-se um conceito que pudesse abarcar, numa visão histórico-analítica, a relação desigual entre homens e mulheres e que ao mesmo tempo extinguisse o determinismo biológico implícito nas expressões “sexo” ou “diferença sexual”. Assim, expõe-se o melhor conceito de gênero construído por Joan Scott (1989, p. 04):

O gênero se torna, aliás, uma maneira de indicar as construções sociais – a criação inteiramente social das idéias sobre os papéis próprios aos homens e às mulheres. É uma maneira de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens a das mulheres. O gênero é, segundo essa definição, uma categoria social imposta sobre o corpo sexuado.

Numa perspectiva pós-estruturalista, Scott (1998) acrescenta a valorização aos símbolos culturais, como a linguagem que constitui um sistema de sentidos pelo qual as pessoas representam e compreendem o seu mundo e explicitam o sentido subjetivo de pertencer a uma classe de gênero, bem como conceitos normativos, a religião, político, jurídico.

Desde então a palavra gênero consiste num elemento constituído de relações sociais baseadas nas representações sobre os sexos, isto é, trata o indivíduo como um ser inserido nas múltiplas relações, o que é crucial para entender como é elaborado o gênero e como ocorre à mudança e assim poder concluir que as definições sobre o sexo são construídas socialmente. Aborda Silva (2005, p. 70):

[…] a forma como vivemos nossa identidade sexual é mediada por significados culturais sobre sexualidade que são produzidos por meio de sistemas dominantes de representação. A diferença é construída negativamente por meio da exclusão e da marginalização e não como proposta de heterogeneidade e diversidade.

Um passo importante foi dado em 1988 com a promulgação da Nova Constituição Federal, pois através dela as mulheres passaram a ser reconhecidas com o respaldo de uma legislação mais progressista, menos discriminatória e que valoriza especificidades da condição feminina, demonstrado na elaboração de políticas públicas, a criação dos Conselhos dos Direitos da Mulher, das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, de programas específicos de Saúde integral e de prevenção e atendimento às vítimas de Violência Sexual e Doméstica para o enfrentamento e superação das privações, discriminações e opressões vivenciadas pelas mulheres.

Mas, para que esse reconhecimento jurídico do direito da mulher à cidadania se torne efetivo é fundamental que na prática uma coletividade se mobilize, tendo posse de uma consciência crítica no que tange os avanços e significados da questão de gênero para assim exigirem o comprimento e a punição para os que violarem a mesma. Nesse sentido Christo (1998, p.05) destaca que:

Ter consciência sobre as desigualdades, sobre a concentração de poder e privilégios, sobre todas as formas de injustiças e seu fundamento, por si só não transforma a realidade. (…) Se a informação e a consciência estão acompanhadas de apatia e resignação não há perspectivas de mudanças, uma vez que, nestas condições, o indivíduo não influi na dinâmica social, nada de novo realiza e, por isso, permanece na mesma condição de objeto daquele que nenhuma consciência possui.

Cumpre assinalar que a luta feminista não se resume na conquista dos direitos constitucionais ou na denúncia das discriminações de gênero. Essa luta é muito mais ampla, assumindo formas variadas dentro das raízes sociais e culturais da sociedade e, portanto, para extinguí-las é necessária, além de uma transformação social, uma revolução nos costumes e práticas – uma revolução cultura.

3 O ADVENTO DA LEI MARIA DA PENHA PARA A DEFESA DAS MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR E A SUA EFETIVIDADE NA REGIÃO METROPOLITANA DE SALVADOR

Neste capítulo pretende-se discutir as modificações ocorridas no trato a violência contra a mulher, comparando a Lei 9.099/1995, que criou os Juizados Especiais Criminais (Jecrims), com os avanços da Lei 11.340/2006 intitulada Lei Maria da Penha, apresentando mecanismos para assegurar o cumprimento dessas, tais como: medidas preventivas, medidas assistenciais, atendimento especial pela autoridade policial e medidas protetivas de urgência, o que requer uma ação continua e articulada dos órgãos União, Estados, Distrito Federal e Municípios para assegurar a aplicabilidade da lei e, conseqüentemente o exercício da cidadania pelas mulheres.

Em seguida, cumpre salientar que são realizadas análises de indicadores sociais extraídos na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher de Salvador com o objetivo de ponderar os principais fatores que dificultam a efetividade da Lei 11.340/2006.

Ao iniciar, colocam-se algumas questões para reflexão que devem nortear a leitura do presente trabalho: em que a lei avançou? Quais são os fatores externos e internos à Lei 11.340/2006 que têm dificultado a sua efetivação?

3.1 A LEI 9.099/1995 E OS AVANÇOS DA LEI MARIA DA PENHA

Na década de 1990 os atos de violência contra a mulher passaram a ser respaldados pela Lei 9.099/1995 que criou o Juizado Especial Cível e Criminal (Jecrim) previsto na Constituição Federal e denominado pelo Código Penal Brasileiro. Estes foram idealizados para substituir penas repressivas por penas alternativas (serviços comunitários, conciliações, etc) em infrações consideradas de menor potencial ofensivo, isto é, crimes que causam um dano menor a indivíduos, como as lesões corporais (de natureza) e as agressões físicas (surras, socos, pontapés, ameaça, constrangimento ilegal, dentre outro), sendo as mais registradas nas Delegacias cujas penas são inferiores a um ano, além de priorizar a informalidade e o efetivo acesso a justiça pelas vítimas de violência.

Segundo Libardoni (2002) os juízes privilegiavam as conversas informais, a economia de documentos, audiências e papéis e, sobretudo a agilidade na decisão a fim de reparar os danos sofridos pela vítima por meio de penas que não correspondia à prisão e sim penas educativas ou a conciliação, tendo como propósito, em certa medida, desafogar a Justiça.

Os JECRIMs provocaram uma serie de mudanças nos atendimentos das Delegacias Policiais extraindo destas o papel de investigação e de mediação dos conflitos que compõem as queixas e, sobretudo nos registro de denúncias em que antes eram realizados os Inquéritos Policiais e após a lei 9.099/1995 foi substituído pelos chamados Termos Circunstanciados, os quais exigiam detalhes do ocorrido, a identificação do autor, da vítima, as possíveis testemunhas, e em seguida, se necessário, dava-se inicio as requisições de exames periciais e ao final o encaminhamento para o Juizado, com o autor do fato e a vítima para realização de audiência de conciliação e julgamento, dando um novo sentido à criminalização da violência contra a mulher.

De acordo com Libardoni (2002, p. 88) o último procedimento a ser realizado apresentava uma incompatibilidade, a saber:

Aqui há um descompasso entre a lei e a realidade, pois, na verdade, os Jecrims não funcionavam vinte e quatro horas, como funciona as Delegacias de Policia. Além disso, as próprias Delegacias não tinham viaturas e policiais para imediatamente encaminhar o termo circunstanciado, a vítima e o agente ao Juizado.

As audiências preliminares realizadas pelos juízes para ouvir a vítima e o agressor, tendo a presença do Ministério Público, valorizavam a conciliação, isto é, um acordo para decidir como reparar os agravos civis com uma indenização. Se caso houvesse um acordo, o processo, em dado momento, era considerado encerrado e a mulher não poderia mais apresentar a representação. Em outras palavras: a aceitação do acordo obtinha um significado peculiar de desistência. Quanto ao registro do agressor nada constaria, melhor dizendo “a sua ficha permanecia limpa” (grifos nossos).

O modelo de justiça conciliatória, como um fim em si mesmo, remetendo-se, simplesmente, as relações familiares não garantia segurança às mulheres em situações de desigualdade, como aborda Santos (2008, p. 18):

A conciliação é utilizada como um fim, não como um meio de solução do litígio. Através da promoção de um acordo com renúncia do direito de representação, ou da aplicação de penas alternativas, que resultam em geral na distribuição de cestas básicas ou prestação de trabalhos comunitários não relacionados à violência contra as mulheres, tal violência passa a ser banalizada e a justiça se torna questionável, dando azo à impunidade.

Nessa perspectiva, Aquino apud Gomes (2008) complementa o pensamento, afirmando que tal lei obtinha, com a conciliação entre as partes, aplicação de penas que não apresentavam nenhuma relação com o fenômeno da violência contra a mulher, iniciando pela “limpeza” da ficha do acusado, permanecendo como réu primário, a possibilidade do pagamento de multa – geralmente uma cesta básica a entidades assistenciais –, as limitações aos direitos que consistiam em prestação de serviços à comunidade, a restrição da liberdade nos fim de semana, como não sair de casa, voltar em certos horários etc, ou ainda limitações temporárias de certos direitos.

Esses elementos tiveram uma repercussão exacerbada no movimento feminista e de mulheres, pois para estas as punições não eram adequadas aos casos de violência doméstica, tendo em vista que tais possibilidades de acordo poderiam transformar a violência em algo rotineiro, ou seja, o agressor poderia continuar agredindo livremente a sua companheira, desde que pagasse o preço e as penas fixadas pelo Estado.

Dessa forma, a lei 9.099/95 contribuiu para uma reprodução da histórica banalização da violência contra a mulher, uma vez que tratou deste como algo de menor importância, resignificando as penas e por ventura ocasionando a recriminalização com efeitos de trivialização do problema. Tal abordagem da violência contra mulheres despertou a insatisfação das militantes feministas, pesquisadores e movimentos de mulheres que passaram a refletir, debater e produzir conhecimento sobre essa lei com o intuito de formular uma proposta de lei que pudesse substituir a competência dos Jecrims, abarcando os casos de violência doméstica e familiar contra a mulher. Passada uma década de críticas e protestos feministas, surge assim a Lei 11.340/2006, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha.

Antes de examinar o teor da Lei Maria da Penha, torna-se pertinente inseri-la nos contextos políticos internacional e nacional que permitiram a sua promulgação propostas por feministas brasileiras. No âmbito internacional, a Conferência dos Direitos Humanos promovida pela Organização das Nações Unidas em 1993, em Viena, se configurou com um importante instrumento para o reconhecimento internacional da violência contra mulheres como uma violação dos “direitos humanos das mulheres”, sendo, posteriormente, aprovada pela Assembléia Geral da ONU. Em 1994, a Organização dos Estados Americanos aprovou a Convenção para a Eliminação, Prevenção, Punição e Erradicação da Violência contra a Mulher, conhecida como Convenção de Belém de Pará, que define a violência contra mulheres como uma violência baseada no gênero e como uma violação dos direitos humanos. (SANTOS, 2008)

No âmbito nacional, em meados da década de 1990, o governo de Fernando Henrique Cardoso ratificou e incorporou as seguintes convenções, protocolos e planos internacionais relativos aos direitos das mulheres ao sistema jurídico-normativo nacional. Dentre eles destacam-se: a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW), assinada pelo governo brasileiro em 1983, tendo sido adotada pela ONU em 1979; a Plataforma de Ação da IV Conferência Mundial sobre as Mulheres, em 1995 e assinada pelo Brasil no mesmo ano; a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, ratificada pelo Brasil em 1995; a Convenção Americana dos Direitos Humanos, em 1992, o que contribuiu para o maior número de denúncias de violação de direitos humanos no Brasil e por fim o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres, assinado em 2001. (SANTOS, 2008)

Embora a adoção destes instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos das mulheres ter possibilitado as mobilizações jurídicas transnacionais por parte das organizações feministas no Brasil, o governo Cardoso, como mencionado anteriormente, obstruiu pouca atenção às demandas feministas. No entanto, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, criou condições favoráveis para que os movimentos feministas e de mulheres lograssem a aprovação de duas leis: a primeira sancionada em 2004 (Lei 10.886/2004), que alterou o Código Penal e introduziu o crime de violência doméstica, com pena de detenção de seis meses a um ano; a segunda refere-se à Lei Maria da Penha, sancionada dois anos depois, que criou mecanismos amplos para coibir, punir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher.

Assim, nota-se que a conquista pela Le 11. 340/2006 foi fruto de um conjunto de acordos internacionais, em que o Brasil esteve presente, propagando campanhas internacionais a fim de que o governo nacional passasse a adotar medidas efetivas para o enfrentamento à violência doméstica e familiar e assim reconheceu como violação dos direitos humanos e a luta do movimento feminista que atuaram para que a problemática fosse adotada pelo âmbito público e social e conseqüentemente político e jurídicos, ampliando, portanto, o papel do Estado e alcançando transformações nas relações sociais. (GOMES et al, 2009)

A Lei n° 11.340/2006, denominada Lei Maria da Penha foi sancionada em 7 de agosto de 2006, representando um marco histórico frente aos processos de luta das mulheres, tendo como objetivo o reconhecimento da violência contra a mulher pelo Poder Público como violação dos direitos humanos; e um problema social, político e jurídico do país. Além de ser classificada como uma ação afirmativa, uma vez que se insere em um conjunto de políticas que compreende que, na prática, as pessoas não são tratadas igualmente, logo, não possuem as mesmas oportunidades, passando por um processo discriminatório marcadas por estereótipos que as consolidam socialmente como inferiores, incapazes, etc., alocando-as em situações de sub-cidadania e precariedade civil.

A referida lei obteve esta nomenclatura – Lei Maria da Penha – devido aos vinte anos de luta de Maria da Penha Maia Fernandes, a qual foi ameaçada e agredida com tentativa de homicídio pelo marido, Marco Antônio Heredia Viveiros, atirando nas costas, deixando- a paraplégica. No primeiro julgamento, após nove anos do ocorrido, Viveros foi condenado a uma pena de 15 anos de reclusão, reduzida a 10 anos por se tratar de réu primário. Em 1996, a decisão do júri foi anulada e o réu, sendo submetido a novo julgamento, foi condenado a 10 anos e 6 meses de reclusão. Recorrendo da sentença diversas vezes o réu permaneceu em liberdade por dezenove anos, sendo preso em outubro de 2002, devido à pressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que recebera denuncias do caso em 1998.

Esta luta ganhou dimensões em 1983. O reconhecimento da CIDH somente foi possível após a articulação de Maria da Penha com as Organizações CEJIL-Brasil (Centro para a Justiça e o Direito Internacional) e CLADEM-Brasil (Comitê Latino-americano do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher), que encaminharam à CIDH uma petição contra este Estado com base na Convenção de Belém do Pará, o que implicou, em 2001, a publicação da condenação do estado brasileiro por negligência e omissão no que tange a violência doméstica sofrida por Maria da Penha através da ineficácia do Judiciário. (CFEMEA, 2008)

O caso Maria da Penha Fernandes revelou o descaso do governo brasileiro diante das denúncias internacionais de violência doméstica contra mulheres, que apesar da criação das delegacias da mulher, havia a necessidade de se transformar o sistema de justiça criminal brasileiro e criar mecanismos mais eficazes de prevenção e coibição da violência doméstica contra mulheres. Assim, este “tornou-se um caso emblemático por reconhecer um padrão sistemático de violência doméstica contra as mulheres e por estabelecer a responsabilidade do Estado ao nível internacional em função da ineficácia do sistema judicial ao nível nacional”. (SANTOS, 2008, p. 25)

A Lei 11. 340/2006 com o enfoque para o tratamento dos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher foi elaborada com a finalidade de criar “mecanismos para coibir e prevenir” (Art. 1°) tal violência, garantindo os direitos humanos das mesmas e o acesso à justiça como estratégia para que se geste uma igualdade entre homens e mulheres.

Para tanto a Lei 11.340/2006 incorporou, além de medidas punitivas aos agressores, medidas de proteção à integridade física e assistência integral à mulher em situação de violência doméstica e familiar, através de uma rede de atendimento jurídico, social e psicológico e, ainda, medidas de prevenção e de educação, a fim de que possa contribuir na luta contra a reprodução social baseada no comportamento de violência contra o gênero. (GOMES et al, 2008)

Em seu artigo 2 afiançar às mulheres uma vida com segurança, livre de violência, independente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião, demonstrando assim, a preocupação com a diferença entre as mulheres. Relacionado a esse direito o artigo 3 § 1º compreende ao poder público desenvolver “políticas que visem garantir os direitos humanos das mulheres no âmbito das relações domésticas e familiares no sentido de resguardá-las de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

Ao adotar a categoria “violência doméstica e familiar contra a mulher” que configura “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial” (Art. 5º), a Lei Maria da Penha demonstra avanços, visto que ao apreender a questão da violência contra a mulher inserida nessa categoria permite o tratamento em sua abrangência e significância, pois anteriormente se utilizavam diversos termos – violência conjugal, violência doméstica, violência de gênero, violência contra a mulher – e um emaranhado de interpretações, provocando complicações no tratamento pela esfera política e legal. Ao denominar “violência doméstica e familiar contra a mulher” a Lei situa tanto o espaço social (“âmbito da unidade doméstica” – Art. 5, Inciso I -, ou no “âmbito da família” – Art. 5, Inciso II) quanto os sujeitos que podem estar envolvidos na ação de violência, (“em qualquer relação íntima de afeto” – Art. 5, Inciso III) (GOMES, 2008).

“Esta definição é importante por considerar ‘violência doméstica e familiar’ situações de violência que ocorrem não apenas no espaço doméstico, desde que a violência tenha por base as relações de gênero.” (SANTOS, 2008, p. 27)

Nesse intento, a Lei Maria da Penha amplia o conceito de família, compreendendo como “a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa” (Art. 5º, inciso II) e no parágrafo único do artigo 5°, reconhece também as relações homoafetivas ao passo que anuncia que as relações pessoais tratadas neste artigo independem de orientação sexual, a Lei, segundo Gomes et al (2008) rompe com o conceito restrito de família como instituição jurídica constituída pelo casamento ou pela união estável entre um homem e uma mulher. E completa reconhecendo também como violência doméstica e familiar contra a mulher aquela ocorrida entre pessoas que mantêm ou tenham mantido uma relação de afeto, independentemente de coabitação (Art. 5º, inciso III).

Resta acentuar que a Lei Maria da Penha contempla e define as formas de violência doméstica e familiar contra a mulher descrita no artigo 7º, como “a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal”; “a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento (…)”; “a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada (…)”; “a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades”; e “a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria”.

Dessa forma, Gomes et al (2008) comenta que a lei proporciona o esclarecimento, tanto para os setores envolvidos, quanto para o público alvo e a sociedade civil, as várias faces que envolvem a complexa questão da violência contra a mulher, ao tempo que inclui a violência sexual, psicológica, moral e patrimonial como formas de violência doméstica e familiar, explicitando, respectivamente, os danos à saúde psíquica, emocional, à honra, à imagem, aos bens materiais e imateriais que esse tipo de violência imprime à mulher decorrendo para algo além das evidências físicas.

Torna-se pertinente destacar que a Lei 11.340/2006 reúne três eixos de ação, tais como: punição, proteção e prevenção e educação. O primeiro eixo, criado na tentativa de reverter à situação criada pela aplicação da lei 9.099/1995 aos casos de violência doméstica, denúncia como discriminatória a violência baseada no gênero, empregando procedimentos como a retomada do inquérito policial; aplicação de medidas de prisão em flagrante; a proibição da aplicação de penas alternativas e a restrição da representação criminal para determinados delitos, isto é, a restrição a manifestação própria juntamente com provas para a denúncia.

No segundo eixo encontram-se medidas de proteção da integridade física e dos direitos da mulher que se executam através de um conjunto de medidas de urgência para a mulher aliado a um conjunto de medidas que se voltam para o agressor. Integram-se também esse eixo as medidas de assistência, ou seja, a atenção à mulher vítima de forma integral, contemplando o atendimento psicológico, jurídico e social.

E por fim, o terceiro eixo, que são as medidas de prevenção e de educação, compreendidas como estratégias possíveis e necessárias para coibir a reprodução social do comportamento violento e a discriminação baseada no gênero.

A articulação desses três eixos induz, em certa medida, mudanças no campo político, jurídico e cultural, constituindo-se um desafio para o Estado brasileiro, pois para a efetivação de tais eixos é necessário que as políticas públicas atuem de modo articulado e integrado. Em outras palavras: torna-se proeminente o desenvolvimento de ações tanto na esfera governamental – União, Estados, Distrito Federal e Municípios – e não-governamental, bem como na esfera operacional, ou seja, aqueles que estão diretamente envolvidas na execução da Lei – Poder Judiciário, Defensoria Pública, Ministério Público, além dos setores de Segurança Pública, Assistência Social, Saúde, Educação, Trabalho e Habitação.

Desse modo, faz-se necessário enfatizar as medidas de prevenção, proteção e assistência e de punição dispostas na Lei Maria da Penha com o propósito de proporcionar às mulheres acesso aos direitos, o exercício da cidadania e autonomia para superar a situação de violência vivenciada.

a) Medidas de prevenção

Dentre as medidas de prevenção previstas na Lei Maria da Penha pontua-se: a promoção de pesquisas, a fim avaliar a eficácia das medidas adotadas; a implementação de programas visando à erradicação da violência doméstica e familiar contra a mulher; campanhas educativas relacionadas à temática, bem como aos direitos humanos, à equidade de gênero e de raça e etnia, “o respeito, nos meios de comunicação social, dos valores éticos e sociais da pessoa e da família, de forma a coibir os papéis estereotipados que legitimam ou exarcebam a violência doméstica e familiar”, dentre outras. Além desses, compreende outros mais específicos, como “a implementação de atendimento policial especializado para as mulheres, em particular nas Delegacias de Atendimento à Mulher” e “a capacitação permanente das Polícias Civil e Militar, da Guarda Municipal, do Corpo de Bombeiros e dos profissionais pertencentes aos órgãos e às áreas enunciados no inciso I quanto às questões de gênero e de raça ou etnia ”. (Art. 8°, incisos IV e VII)

A delineação dessas ações torna evidente a importância da participação articulada dos setores citados acima, além de considerar necessário que os profissionais diretamente envolvidos compreendam as questões que envolvem as relações de gênero, raça e etnia, para que o processo de prevenção e combate à violência contra as mulheres obtenha êxito. (GOMES, 2008)

b) Medidas de proteção e assistência

As medidas de proteção e assistência requerem a ação na área social, de saúde, jurídica e de segurança para oferecer um serviço à mulher vítima de violência de modo integral, como explanado no Artigo 9°:

A assistência à mulher em situação de violência doméstica e familiar será prestada de forma articulada e conforme os princípios e as diretrizes previstos na Lei Orgânica da Assistência Social, no Sistema Único de Saúde, no Sistema Único de Segurança Pública, entre outras normas e políticas públicas de proteção, e emergencialmente quando for o caso.

De acordo com esse pressuposto, a Lei contempla aspectos de fundamental importância para assegurar a integridade física e psicológica, e a sobrevivência da mulher em situação de violência, assinalando as medidas protetivas de urgência que garantem à mulher o direito fundamental de ir e vir, de continuar trabalhando, de permanência no lar, a inclusão da mulher em situação de violência nos programas assistenciais do governo federal, estadual e municipal – Bolsa Família, Fome Zero, Inclusão Produtiva, dentre outros, atendendo especialmente aquelas mulheres que dependem financeiramente do agressor, a garantia da manutenção do vínculo trabalhista por até seis meses, quando for necessário seu afastamento do trabalho ou a remoção para outra repartição, se for funcionária pública.

No campo da justiça, vale ressaltar a assistência judiciária que garante à mulher em situação de violência doméstica e familiar “o acesso aos serviços de Defensoria Pública ou de Assistência Judiciária Gratuita, nos termos da lei, em sede policial e judicial, mediante atendimento específico e humanizado” (Art. 28).

No que se refere aos procedimentos e atendimento da vítima pelas autoridades policiais, disposto no Capítulo III da Lei Maria da Penha – Lei 11.340/2006 -, descreve as providências que devem ser tomadas pela autoridade policial para garantir de imediato a segurança e o acesso à justiça da mulher que procura a unidade policial, especialmente, as Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher – DEAMs -, as quais mantêm uma estreita relação com o Poder Judiciário e o Ministério Público, mas não prescindem de outros serviços que devem fazer parte desta rede de atendimento à mulher, tais como: Defensoria Pública, Instituto Médico Legal, serviços de saúde e assistência social, e ainda dos serviços previstos no artigo 35, como centros de atendimento integral e multidisciplinar e casas-abrigos. Esta medida também engloba a assistência ao agressor, propondo a criação de centros de educação e de reabilitação para os mesmos.

Um elemento importante assinalado pela Lei Maria da Penha foi à proibição da “retirada das queixas”, o que era objeto de preocupação das feministas durante a permanência da Lei 0.099/1995. A partir da apreensão da noção de gênero como uma relação de poder, proposta por Joan Scott e o debate acerca do vitimismo versus a culpabilização das mulheres que exercitam o seu poder na apresentação e negociação da retirada das queixas, as feministas puseram em cena tal inquietação, sendo atendidas com a lei acima referida. (SANTOS, 2008)

Outra questão que merece destaque diz respeito à criação de Juizados específicos (Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher) para a retirada da competência dos JECRIMs, com competência cível e criminal , independentemente da pena que lhe for atribuída que “poderão ser criados pela União, no Distrito Federal e nos Territórios, e pelos Estados, para o processo, o julgamento e a execução das causas decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a mulher” (Artigo 14).

Desse modo, cria um espaço especializado no Poder Judiciário para atender especificamente os casos decorrentes de violência doméstica e familiar contra a mulher, bem como cria novas regras e procedimentos específicos para julgar tais casos, podendo ser aplicadas, as normas dos Códigos de Processo Penal e Processo Civil, do Estatuto da Criança e do Adolescente, assim como o Estatuto do Idoso que não conflitarem com o estabelecido dessa Lei (Artigo 13).

A inclusão de uma equipe multidisciplinar atuando junto aos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher representa mais um avanço na tocante Lei Maria da Penha, na medida em que agrega outros profissionais especializados nas áreas psicossocial, jurídica e de saúde (Artigo 29) para oferecer atendimento qualificado na resolução dos casos, tendo como atribuição:

Fornecer subsídios por escrito ao juiz, ao Ministério Público e à Defensoria Pública, mediante laudos ou verbalmente em audiência, e desenvolver trabalhos de orientação, encaminhamento, prevenção e outras medidas, voltados para a ofendida, o agressor e os familiares, com especial atenção às crianças e aos adolescentes. (Artigo 30)

c) Medidas de Punição

As medidas de punição previstas na Lei Maria da Penha alteram o Código Penal, o Código de Processo Penal e a Lei de Execução Penal para que se tornassem compatíveis com os crimes de violência física, psicológica, sexual, moral e patrimonial das mulheres, como pode ser visto no artigo 42 da Lei que altera o artigo 313 do Código de Processo Penal, o qual trata da prisão preventiva, sendo acrescentado um inciso para os crimes que envolvem violência doméstica e familiar contra a mulher em que o Juiz pode decretar a prisão provisória do agressor para garantir o cumprimento das medidas protetivas de urgência. (GOMES et al, 2008)

O artigo 43 da Lei Maria da Penha modifica o artigo 61 do Código Penal, incluindo a violência contra a mulher como mais uma forma de agravamento da pena. O artigo 44 da Lei Maria da Penha altera o artigo 129 do Código Penal que trata de lesão corporal, passando a vigorar com as seguintes alterações:

§ 9° Se a lesão for praticada contra ascendente, descendente, irmão, cônjuge ou companheiro, ou com quem conviva ou tenha convivido, ou, ainda, prevalecendo-se o agente das relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade: Pena – detenção, de 3 (três) meses a 3 (três) anos. A pena será ainda aumentada em um terço, caso a lesão corporal na modalidade de violência doméstica for cometida contra pessoa portadora de deficiência (Art. 44 da LMP, alterando o § 11 ao artigo129, do Código Penal). (GOMES et al, 2008, p. 33)

A Lei ainda determina como medida punitiva, a obrigatoriedade do comparecimento do agressor a programas de recuperação e reeducação encaminhado pelo juiz (artigo 45, alterando o artigo 152 da Lei de Execução Penal), medida essa que pode contribuir para prevenção ou para diminuição da reincidência desse tipo de violência.

Torna-se pertinente ressaltar que a Lei Maria da Penha proíbe a aplicação de penas de cesta básica ou de prestação de serviço a comunidade, bem como a substituição de pena que implique o pagamento isolado de multa (artigo 17), o oposto da Lei 9.099/95 que permitia a prática continua dessas ações. Assim, no Artigo 41 a Lei Maria da Penha declara explicitamente a não aplicabilidade da lei 9099/1995 nos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher.

A necessidade de traçar os eixos e medidas propostos pela Lei Maria da Penha em comparação a Lei 9.099/1995, a priori, pretendeu-se pontuar as inovações legislativas, que propõem mecanismos que visam desde a prevenção dos crimes, às medidas protetivas de urgência e o desenvolvimento de atividades sócio-educativas dirigidas ao acusado, o que envolve a análise de aspectos culturais e sociais no que tange ao enfrentamento da violência, possibilitando, sobretudo a mudança de comportamento do agressor.

Mas, existem desafios que gira em torno de promover a efetiva implementação dessa lei, pois apenas uma “políticas de Estado” não garante, por si só, mudanças significativas nos recursos financeiros para a operacionalização da mesma, melhorias no funcionamento dos serviços em termos de infra-estrutura, capacitação continuada e, principalmente transformações na esfera social. É necessária a articulação do movimento feminista e movimento de mulheres junto a outros movimentos para pressionar o Estado no cumprimento das suas responsabilidades como representante da sociedade, bem como um diálogo, priorizando a participação popular na elaboração de políticas para as mulheres e na politização e materialização do discurso dos “direitos humanos das mulheres”, contribuindo para a promoção de algumas mudanças legais e políticas relativo à questão da violência doméstica contra as mulheres.

No entanto, o desafio maior que se apresenta para o movimento feminista e de mulheres é tornar a Lei Maria da Penha conhecida por todas as mulheres e por todos os homens, ou seja, é a construção coletiva de uma interpretação unificada da Lei e assim, garantir recursos para sua efetiva concretização para o cumprimento da cidadania pelas as mulheres vítimas de violência doméstica e familiar.

3.2 LEI MARIA DA PENHA: A REALIDADE DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER EM SALVADOR

O desenvolvimento do estágio supervisionado na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, no período de agosto de 2007 a agosto de 2009, foi o cenário que contribuiu para a elaboração da referida problemática, sendo iniciadas pesquisas em março de 2008 sob o subsídio da investigação documental, descritiva, bibliográfica e a coleta de dados com base nas pesquisas quantitativas e qualitativas.

Os dados coletados tiveram o intermédio de fontes primárias e secundárias. A primeira, correspondeu a um questionário aplicado com 15 mulheres vítimas de violência doméstica e familiar atendidas na DEAM e 1 entrevista desenvolvida com a representante da instituição, citada acima.

Os critérios de seleção da amostra documental, ou seja, os dados secundários basearam-se na existência de informações, tanto na DEAM quanto em outras instituições relacionadas com a questão, a exemplo de dados estatísticos sobre a violência contra a mulher ocorrida nos anos: 2005, 2008 e 2009 e sobre os processos judiciais da Vara de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, a fim de criar condições para que se possa refletir sobre o fenômeno, pois, como cita Amaral et al, (2001, p. 141) “(…) as estatísticas ajudam a vizibilizar ao máximo as reais dimensões do problema assim como se constituem em instrumentos de sensibilização e convencimento da população e do poder público quanto à gravidade e complexidade do fenômeno e necessidade de intervenção do Estado”.

Vale ressaltar que o intuito de incluir nesta pesquisa o ano de 2005, devido este ser o ano que antecede a promulgação da Lei Maria da Penha, e por apresentar dados da lei anterior que proporciona realizar comparações com os primeiros anos de desenvolvimento da Lei 11.340/2006.

Aproveitando o ensejo, expõe-se também a restrição do universo empírico, isto é, os dados coletados foram, apenas, de uma DEAM de Salvador, na qual existe duas. A segunda não foi inclusa devido ao período que foi inaugurada (18/11/2008), uma vez que já havia iniciado as investigações.

Os eixos que norteiam esta análise de dados dividem-se em quatro aspectos: I – Identificação da vítima; II – Condição socioeconômica e cultural da vitimizada e III – Indicadores sociais da violência em Salvador; IV – As inovações da Lei Maria da Penha e a participação da esfera estatal, com base na entrevista com a Delegada Titular da DEAM. Este destaque se faz presente pela necessidade de conhecer o perfil dos entrevistados, compreender como os fatores socioeconômicos e culturais interferem na aplicabilidade da Lei Maria da Penha que possui por objetivo assegurar assistência fundada pela Constituição Federal que preconiza igualdade e a defesa dos valores democráticos.

Cabe aqui, realizar uma breve identificação da DEAM de Salvador, sendo inaugurada em 1986, sediando primeiramente no Complexo de Delegacias, localizado nos Barris, o qual dividia-se o espaço fisco com outras duas delegacias. Atualmente possui sede própria, localizada no bairro Engenho Velho de Brotas – Rua Padre Luis Figueiras, s/ n°.

Os dados discutidos e analisados a seguir apresentam a interferência dos fatores externos à efetividade da Lei Maria da Penha, somado a fragilidade do Estado em atender eficazmente a necessidade da categoria feminina.

De acordo com a Superintendência de Políticas Para as Mulheres – SPM/Salvador -, segundo dados disponibilizados pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -, a população feminina estimada de Salvador atualmente consiste em 1.545.137 mulheres, das quais cerca de 1.273.193 são negras ou pardas.

Com base nessa estatística disponibilizada pelo órgão supramencionado, inicia-se esta analise, primeiramente discutindo a identificação da mulher vitimizada no período de 2005 e 2008, como pode ser visto no Gráfico 1 e 2, em que dentre as 15 mulheres entrevistadas 5% possuem o ensino fundamental e em 2008 (Gráfico 2) esse quantitativo aumenta para 8%, demonstrando um percentual significativo de mulheres que foram excluídas do sistema educacional no que tange ao ensino médio, em virtude de incorporar a idéia construída no imaginário social que considera a mesma um ser incapaz, passivo, delicado, devido ao poder da maternidade, atribuindo-lhes as atividades no âmbito privado, como esposa, mãe e educadora (ambiente doméstico) e exaurido-a das atividades públicas.

Como Funciona a Insuficiência Cardíaca Congestiva

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Introdução

A insuficiência cardíaca, ou insuficiência cardíaca congestiva (ICC), é uma doença muito comum, que atinge aproximadamente 4,8 milhões de pessoas. Enquanto outras doenças cardíacas se tornaram menos comuns nos últimos anos, a incidência de ICC está cada dia maior. A causa disso pode ser o fato de que pessoas com outras doenças cardíacas sobrevivem por mais tempo, mas seus corações ficam prejudicados e isso causa a ICC. Além disso, com o crescimento da população idosa, há mais pessoas com risco de desenvolver ICC. Aproximadamente 400 mil novos casos de ICC ocorrem a cada ano e essa doença é o diagnóstico mais comum em pacientes hospitalizados com mais de 65 anos.

A função do coração é bombear o sangue, que contém oxigênio e nutrientes, para todo o corpo. A ICC é simplesmente a falha do coração em desempenhar essa função corretamente. É claro que uma escassez do sangue bombeado para o corpo só será considerada ICC se o coração estiver recebendo o volume adequado de sangue dos vasos (ou seja, se a pressão arterial estiver normal). Quando não há sangue suficiente para o coração bombear, o problema não é ICC.

A ICC ocorre quando o fluxo do sangue saindo do coração (sístole cardíaca) reduz, ou então quando os fluidos se acumulam atrás do ventrículo que falha, ou ambos. Os médicos têm formas diferentes de classificar a insuficiência cardíaca.

De acordo com o ventrículo acometido: como o coração é formado por basicamente duas bombas (esquerda e direita) em uma, um lado pode falhar independentemente do outro.

• Insuficiência cardíaca ventricular esquerda: quando o ventrículo esquerdo não consegue bombear sangue suficiente, o sangue reflui para os pulmões (atrás do ventrículo esquerdo), causando edema pulmonar, uma acumulação de fluidos nos pulmões. Entre outras coisas, o edema faz com que a pessoa fique sem fôlego, isto é, sinta falta de ar. A falha cardíaca ventricular esquerda geralmente leva à falha cardíaca ventricular direita.
• Insuficiência cardíaca ventricular direita: o ventrículo direito não pode bombear sangue suficiente para o pulmão. Sendo assim, os fluidos recuam para as veias e capilares (a montante do ventrículo direito). Por causa desse acúmulo, o fluido vaza dos capilares e acumula-se nos tecidos. Essa condição é conhecida como edema sistêmico. O edema pode ser percebido principalmente nas pernas, por causa da força da gravidade. No paciente deitado, pode se acumular nas costas e outras partes do corpo em contato com a cama.



De acordo com a localização

• Insuficiência cardíaca anterógrada: a falha ocorre na contração do coração com dificuldades para ejeção do sangue e baixo débito.
• Insuficiência cardíaca retrógrada: a falha ocorre no retorno venoso do sangue ao coração com edema pulmonar ou sistêmico.

De acordo com a o tempo de evolução

• Insuficiência cardíaca aguda: essa é a falha cardíaca que ocorre de repente. Um infarto pode causar falha cardíaca aguda se grande parte do músculo cardíaco morrer. Quando isso acontece, o coração não consegue bombear sangue suficiente, causando edema pulmonar. Isso torna a respiração muito difícil e pode levar à morte. A falha cardíaca aguda também pode ocorrer quando uma válvula cardíaca pára de funcionar repentinamente ou quando a corda tendínea (o músculo e o tendão que ajudam a válvula mitral a funcionar corretamente) de repente se rompe.
• Insuficiência cardíaca crônica: essa é a falha cardíaca que se desenvolve gradualmente. Os sintomas são sutis no começo, mas se tornam mais graves com o passar do tempo.



De acordo com a fase do ciclo cardíaco: o coração pode falhar em qualquer fase do ciclo cardíaco – contração (sístole) ou distensão (diástole).

• Insuficiência cardíaca sistólica: o coração tem dificuldade para contrair e bombear sangue suficiente. Essa condição causa fraqueza, fadiga e diminui a capacidade de realizar exercícios físicos.
• Insuficiência cardíaca diastólica: o sangue não consegue retornar ao coração durante a diástole, geralmente devido à pressão elevada por uma dificuldade de relaxamento do coração durante a diástole. Essa condição causa edema sistêmico, pulmonar ou ambos.



De acordo com a relação oferta/demanda

• Falha cardíaca por excesso de bombeamento: o bombeamento cardíaco está normal ou um pouco superior, mas a demanda pelo fluxo sangüíneo é alta demais (hipertireoidismo, anemia, infecções graves). O coração não é capaz de distribuir o sangue necessário e falha.
• Falha cardíaca por redução de bombeamento: o bombeamento está baixo, mas a demanda de sangue está normal. O coração não é capaz de suprir essa demanda e falha. A falha por redução é mais comum que a por excesso.

Causas da ICC

A ICC não é um diagnóstico específico, mas sim o resultado de outras doenças ou fatores de risco. Descobrir essa condição é importante, pois o tratamento geralmente depende dela. Muitas condições podem causar a ICC, entre elas:

• pressão arterial elevada (hipertensão) aumenta o trabalho do coração. O órgão tem que bombear sangue contra uma resistência maior e, conseqüentemente, deve fazer mais força. O esforço excessivo do músculo cardíaco pode causar falha. Essa é uma das causas de ICC mais comum nos Estados Unidos e no Brasil;
• doença coronariana causa isquemia, ou seja, o músculo cardíaco recebe quantidade inadequada de oxigênio, o que pode prejudicar ou destruir o tecido cardíaco, levando à falha. A doença arterial coronariana é outra importante causa de ICC nos Estados Unidos e no Brasil;
• doença valvular cardíaca causa um fluxo inadequado de sangue através do coração, o que aumenta o trabalho do órgão. Há três tipos principais de válvulas cardíacas problemáticas:
• válvulas estreitas (estenóticas) restringem o fluxo do sangue. Para gerar pressão suficiente para bombear o sangue através de uma válvula estreita, o coração tem que fazer muito mais força;
• válvulas expulsoras (regurgitantes) permitem que o sangue reflua para o coração depois de ter sido expelido. O coração tem que bombear mais sangue a cada batida (o sangue que entra normalmente é aquele que refluiu), aumentando muito seu trabalho;
• endocardite é uma infecção das válvulas cardíacas que pode danificá-las.
• ritmos cardíacos alterados (arritmias) interrompem o ciclo normal de retorno venoso (enchimento) e bombeamento. Se o coração bate muito lentamente (bradicardia), então não é bombeado sangue suficiente. Se o coração bate muito rápido (taquicardia), então não há tempo suficiente para que o sangue retorne ao coração. É causa de ICC de alto débito. Em ambos os casos o bombeamento cardíaco é reduzido, o que causa a insuficiência cardíaca;
• atividade excessiva da glândula tireóide (hipertireoidismo) aumenta de modo geral as taxas do metabolismo do corpo. O coração deve circular sangue com mais rapidez para que os tecidos recebam quantidade adequada de oxigênio. Esse trabalho excessivo pode causar uma insuficiência cardíaca. É causa rara de IC chamada de alto débito;
• redução grave no número de células vermelhas do sangue (anemia) reduz o suprimento de oxigênio que circula no sangue (são as células sanguíneas que carregam o oxigênio). Para fornecer a quantidade necessária de oxigênio para os tecidos, o coração deve circular o sangue com mais freqüência. Esse trabalho excessivo pode causar a falha cardíaca;

Doenças que afetam o músculo cardíaco (cardiomiopatias) resultam na contração inadequada do coração. Isso reduz o bombeamento cardíaco, o que leva à ICC. Tecnicamente, a palavra cardiomiopatia representa somente as doenças que se originam e afetam o miocárdio. Contudo, muitos médicos também usam o termo para se referir à “cardiomiopatia isquêmica”, uma condição que resulta das cicatrizes causadas pela doença arterial coronariana. Fatores que causam a cardiomiopatia incluem:

• infecções (virais, bacterianas, Aids, doença de Lyme, febre reumática, etc.)
• toxinas (álcool, cocaína, radiação, quimioterapia, etc.)
• deficiências nutricionais
• problemas nos tecidos conjuntivos (lúpus, artrite reumatóide, etc.)
• doenças neuromusculares (distrofia muscular)
• infiltrações (amiloidose, sarcoidose, câncer)
• causas idiopáticas (desconhecidas)
• cardiomiopatia pré-natal
• causas familiares
• doenças que afetam o pericárdio (membrana que protege o coração) restringem a capacidade do coração de se estirar, permitindo que o sangue retorne ao coração. O enchimento é reduzido, o que diminui também o bombeamento cardíaco. Uma membrana mais fina ou com cicatrizes (pericardite constritiva) ou a presença de fluidos entre as duas partes da membrana (tamponamento cardíaco) podem reduzir a capacidade de enchimento do coração;
• defeitos na formação do coração (doença cardíaca congênita) fazem com que o coração tenha que trabalhar mais. Esses defeitos envolvem alterações anatômicas das paredes que ficam entre as câmaras cardíacas (comunicação intracardíaca), alterações das válvulas cardíacas, ou posições alteradas das veias e artérias que levam e trazem o sangue do coração.

Uma série de outros fatores, chamados fatores precipitantes, sobrecarregam o coração já danificado. Identificar o fator precipitante e a causa inicial da ICC é importante para descobrir qual é o melhor tratamento. Fatores precipitantes incluem:

• abandono de tratamento com medicação prescrita
• ingestão excessiva de sal e líquidos
• hipertensão descontrolada
• infecções
• infarto
• isquemia (falta de sangue no músculo cardíaco)
• arritmia cardíaca (ritmo cardíaco anormal)
• anemia
• embolia pulmonar (coágulo dentro dos vasos do pulmão)
• hipertireoidismo (tireóide hiperativa)
• hipóxia (baixo nível de oxigênio no sangue, geralmente causada por doenças pulmonares)
• mal funcionamento de válvula cardíaca

A ICC, em geral, se desenvolve lentamente com o passar dos anos. À medida que o coração começa a falhar, o corpo procura se adaptar para manter o bombeamento cardíaco e o fluxo sangüíneo para os órgãos. Apesar de esses mecanismos serem úteis, eles acabam causando ainda mais estragos no coração e piorando a ICC. Essa tentativa de adaptação agrava o quadro, gerando sintomas.

Quando o coração começa a falhar, a primeira coisa que o sangue faz é liberar adrenalina. O estímulo aos nervos simpáticos aumenta o ritmo cardíaco e a força das contrações e constringe os vasos. Esses fatores atuam juntos para aumentar o bombeamento do sangue. Contudo, o estímulo dos nervos simpáticos também constringe as artérias, o que aumenta a pressão arterial. O aumento da pressão força o coração a trabalhar mais e usar mais oxigênio. Os especialistas imaginam que isso cause danos ao coração com o passar do tempo.

O corpo, pela constrição dos vasos, reduz o fluxo do sangue para os rins. Isso ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona. O fluxo sangüíneo reduzido faz com que o rim produza uma enzima chamada renina. A renina converte uma proteína plasmática inativa, o angiotensinogênio, em um hormônio ativo chamado angiotensina II. A angiotensina II é um poderoso constritor de veias e artérias e estimula a glândula adrenal a secretar um hormônio chamado aldosterona. A aldosterona faz com que os rins retenham sal e água, o que gera aumento no volume sangüíneo. O volume sangüíneo aumentado ajuda a manter o bombeamento cardíaco, pois aumenta o retorno venoso do coração. Contudo, o maior volume sangüíneo, em conjunto com a vasoconstrição, também aumenta a pressão arterial. Essa pressão aumentada causa edema e um excesso de trabalho, o que pode, futuramente, enfraquecer o coração.

O corpo também aumenta a secreção de um hormônio da hipófise, chamado hormônio anti-diurético (ADH). Ele faz com que o rim retenha mais líquidos, o que aumenta o volume sangüíneo e ajuda no bombeamento cardíaco, mas também aumenta a pressão arterial. Isso faz com que o coração enfraquecido tenha que trabalhar ainda mais.

Também há mudanças no músculo cardíaco. A espessura da camada muscular aumenta (hipertrofia), permitindo que o coração se contraia com mais força para manter o bombeamento cardíaco. Isso, porém, aumenta a necessidade de oxigênio e, eventualmente, leva a mais deterioração. O coração também pode aumentar por dilatar suas paredes (dilatação). Inicialmente isso pode ajudar a aumentar o bombeamento, por aumentar a quantidade de sangue que o coração consegue receber, mas a dilatação acaba levando a uma piora da doença.

Sintomas da ICC

• Falta de fôlego ou dificuldade para respirar (dispnéia) – sintoma mais comum da ICC e é causado pelo edema pulmonar. Podem ser encontrados diferentes tipos de dispnéia:
• falta de fôlego em esforços (dispnéia de esforço) – à medida que a doença progride, a quantidade de esforço necessária para causar dispnéia fica menor;
• falta de fôlego em repouso;
• falta de fôlego quando deitado (ortopnéia) – na posição deitada, o sangue das pernas elevadas volta para o coração e causa edema pulmonar. O ato de sentar geralmente alivia esse sintoma. Muitas pessoas dormem apoiadas em almofadas para evitar esse efeito. Com a progressão da doença, algumas pessoas chegam a dormir sentadas;
• falta de fôlego intermitente noturna (dispnéia noturna paroxística) – é causada pelo edema pulmonar e pela redução da respiração durante o sono.

Tosse

Edema – ocorre com mais freqüência nas pernas. O edema nas pernas geralmente piora durante o dia. Isso acontece porque a gravidade aumenta a quantidade e a pressão do sangue nas veias da perna, o que elimina mais fluidos. Há uma melhora à noite, quando as pernas estão elevadas. O edema geralmente é tratado com diuréticos para eliminar o excesso de fluidos. Edemas podem ocorrer em vários outros lugares, incluindo a cavidade abdominal, o espaço entre os pulmões e a cavidade torácica, o pericárdio e o estômago e os intestinos (causando náusea e perda de apetite).

Aumento de peso – a retenção de líquidos geralmente causa aumento de peso em portadores da ICC.

Fadiga – é um sintoma comum e pode estar relacionado à redução do fluxo sangüíneo dos órgãos e músculos. Ocasionalmente, a ICC pode reduzir o fluxo sangüíneo no cérebro e causar confusão mental, principalmente em idosos.

Dor no peito – é um sintoma de angina e infarto, as principais causas da ICC.

Edema pulmonar agudo – é uma dispnéia grave. Junto com a hipertensão, leva a um nível perigosamente baixo de oxigênio no sangue, o que pode causar risco de morte. Sintomas do edema pulmonar agudo incluem intensa falta de fôlego, uma tosse que pode vir acompanhada de secreção rósea, suor intenso e ansiedade. O edema pulmonar agudo deve ser tratado imediatamente.

Quando um médico examina alguém com ICC, pode acabar descobrindo o seguinte:

• aumento no tamanho do coração (cardiomegalia);
• um terceiro som cardíaco (S3) – normalmente o coração faz dois sons (S1 e S2), geralmente descritos como “tum-ta, tum-ta”. Na ICC há um terceiro som, que é chamado de galope S3, já que lembra o galope de um cavalo (“tum-tum-tum”);
• som de fluidos nos pulmões durante a inspiração (estertores);
• distenção da vaia jugular do pescoço (distensão jugular) – isso acontece porque a ICC causa um represamento na entrada de sangue no coração;
• aumento do fígado (hepatomegalia) – é causado pelo refluxo do sangue do coração;
• reflexo hepatojugular – quando o fígado está comprimido, mais sangue flui para as veias jugulares, fazendo com que fiquem ainda mais dilatadas;
• edema – geralmente localizado nas pernas, calcanhares e pés. A expressão “edema depressível” costuma ser utilizada porque, ao pressionar o local com a ponta do dedo, se forma uma depressão temporária que se recupera rapidamente;
• ritmo cardíaco acelerado (taquicardia);
• ritmo respiratório aumentado (taquipnéia);
• aumento na pressão arterial (hipertensão);
• redução na pressão arterial (hipotensão) – quando o bombeamento cardíaco está seriamente reduzido, acontece uma redução na pressão arterial. Esse é um sinal bastante grave, conhecido também como choque cardiogênico;
• fluido na cavidade abdominal (ascite);
• fluido no espaço entre os pulmões e as costelas (efusão pleural).

Os testes a seguir são úteis no diagnóstico da ICC:

• radiografia de tórax é um teste bastante útil na ICC. Pode detectar edema pulmonar, aumento do coração e efusão pleural;
• o eletrocardiograma (ECG) também pode ser útil, pois pode detectar infartos antigos, isquemia cardíaca, anormalidades no ritmo cardíaco ou aumento do coração;
• o ecocardiograma pode determinar a quantidade de sangue bombeada do coração em cada batida (fração de ejeção). A fração de ejeção é uma maneira de quantificar a eficiência dos batimentos cardíacos e determinar a gravidade da ICC. Normalmente, a fração de ejeção fica entre 55 e 75%. Além disso, o ecocardiograma pode ajudar a determinar a causa da ICC, por detectar anormalidades nas válvulas cardíacas, anormalidades pericárdicas, doenças cardíacas congênitas ou um coração aumentado. Esse exame pode mostrar se o coração está se contraindo de maneira anormal (anormalidades na movimentação das paredes), o que é um sinal de doença coronariana.

Sintomas da ICC e associação com atividades físicas

• Nível 1: não há limitação para atividades físicas. Os sintomas são nulos ou leves.
• Nível 2: há uma pequena limitação às atividades físicas. Os sintomas são de leve a moderados com a atividade, mas atingem níveis confortáveis quando em repouso.
• Nível 3: atividades físicas são limitadas. Os sintomas são moderados a severos.
• Nível 4: qualquer atividade física causa desconforto. Os sintomas são severos e podem se apresentar mesmo quando em descanso.

Tratamento da ICC

O objetivo do tratamento da ICC é controlar os sintomas e tratar a condição-base e a causa que levou à precipitação. Antes de prescrever medicamentos, seu médico pode pedir que você perca peso e pare de fumar. Essas medidas podem reduzir o trabalho do coração e também controlar algumas causas da ICC (pressão alta, doença arterial coronária). Além disso, diminuir o consumo de sal e líquidos pode aliviar os sintomas e reduzir a necessidade de medicação. Exercícios também podem ser úteis para aumentar a forma física em geral. Contudo, quando a ICC é severa, a recomendação pode ser de repouso.

Medicamentos

• Diuréticos – são medicamentos usados para aumentar a quantidade de sódio (Na+) e água excretada pelos rins. Isso reduz o volume sangüíneo e a quantidade de sangue a ser bombeada pelo coração, reduzindo, conseqüentemente, o esforço. O objetivo é manter o peso ideal, eliminando edemas. Diuréticos incluem:
• hidroclorotiazida
• clortalidona
• furosemida
• bumetanida
• trianterene
• espironolactona

Um efeito colateral muito importante é a queda no nível de potássio (K+), que pode causar cãibras e anormalidade no ritmo cardíaco. Suplementos de potássio ou diuréticos poupadores de potássio podem ser usados sozinhos ou em conjunto com outros diuréticos.

Vasodilatadores – são grupos de medicamentos que aumentam ou dilatam os vasos sangüíneos. Durante a ICC, os vasos ficam geralmente constritos devido à ativação do sistema nervoso simpático e do sistema renina-angiotensina-aldosterona. Quando os vasodilatadores são usados, eles reduzem a resistência e a pressão arterial contra a qual o coração deve bater, aumentando, assim, o bombeamento cardíaco. Inibidores da enzima conversora da angiotensina (inibidores da ECA) são vasodilatadores bastante eficazes. Esse é um dos medicamentos que realmente se mostraram eficazes em aumentar a expectativa de vida de pacientes com ICC. Os inibidores da ECA reduzem a pressão arterial e a retenção de líquidos por prevenir a ação do sistema renina-angiotensina-aldosterona. Esses inibidores incluem:

• captopril
• enalapril
• lisinopril
• fosinopril
• quinapril

Efeitos colaterais incluem tosse e ocasionalmente erupções cutâneas.

Bloqueadores dos receptores do angiotensinogênio – bloqueiam os efeitos da angiotensina ao invés de bloquear sua produção. Bloqueadores dos receptores do angiotensinogênio incluem:

• losartan
• irbesartan
• valsartan

Esses medicamentos não apresentam a tosse como efeito colateral, como os inibidores da ECA.

Hidralazina – é um vasodilatador que age nas artérias. É usada com menor freqüência, já que os inibidores de ECA são considerados mais efetivos.

Medicamentos derivados da Digitalis lanata, como a digoxina, – aumentam a força da contração do músculo cardíaco e também controlam anormalidades nos ritmos cardíacos, especialmente a fibrilação atrial e a taquicardia atrial. Sendo assim, a digitalis têm mais utilidade quando uma pessoa com fibrilação ou taquicardia atrial tem ICC (um diagnóstico bastante comum). Ela melhora as funções cardíacas mas aumenta a mortalidade. Há vários efeitos colaterais, incluindo náusea, vômitos, muitos tipos de disritmias cardíacas, confusão e interações negativas com outros medicamentos. Só devem ser prescritos nos pacientes muito sintomáticos.

Bloqueadores beta – são considerados úteis para pacientes com ICC. Ao bloquear os receptores beta-adrenérgicos do sistema nervoso simpático, eles reduzem o ritmo cardíaco e a força das contrações. Evidentemente, isso deve ser feito com muito cuidado, pois essa redução pode piorar a ICC. Bloqueadores beta incluem:

• metoprolol
• atenolol
• carvedilol

Atualmente, junto com os inibidores da ECA, são fundamentais no tratamento da ICC moderada a grave.

Simpatomiméticos – são medicamentos que agem como o sistema nervoso simpático e são usados quando a ICC é grave, como no choque cardiogênico. Eles tratam a ICC aumentando a força das contrações cardíacas. Drogas simpatomiméticas incluem a dopamina e dobutamina. Como sua administração é intravenosa e são extremamente fortes, esses medicamentos são usados principalmente quando a ICC se tornou um risco de morte. Elas podem causar disritmias cardíacas e isquemia.

Ocasionalmente, há circunstâncias em que procedimentos cirúrgicos podem tratar a ICC. Os mais comuns são:

• implante de válvula cardíaca – quando uma válvula cardíaca não funciona bem, pode ser substituída para reduzir os sintomas. Em alguns casos, esse procedimento pode salvar a vida do paciente;
• correção de defeito cardíaco congênito – a correção cirúrgica de problemas cardíacos congênitos é usada freqüentemente para restaurar o máximo possível as funções normais;
• ponte de safena – se a causa da ICC é doença arterial coronariana (DC), corrigir a DC com uma ponte de safena pode ser útil;
• transplante de coração – quando a ICC persiste e piora, apesar dos tratamentos, um transplante de coração pode ser uma alternativa. Pacientes aptos para transplantes geralmente sofrem de sintomas graves, têm frações de ejeção de 15 a 20% e chances de sobrevivência de 50%. O aperfeiçoamento das drogas anti-rejeição (especialmente ciclosporina) aumentaram a sobrevivência para quem passa por esse procedimento. Também há outras técnicas que podem ser usadas para ajudar um coração danificado, como o uso de balão intra-aórtico e de um equipamento de assistência ao ventrículo esquerdo. Essas técnicas são utilizadas para manter o paciente vivo até que um doador compatível apareça.

Avaliação de Enfermagem

– Obter a historia de sintomas, limites de atividade e resposta ao repouso.
– Avaliar os pulsos arteriais periféricos; avaliar o coração, o ritmo e freqüência da pressão arterial.
– Inspecionar/ palpar o precórdio quanto ao deslocamento lateral do ponto de impulso Maximo.
– Identificar os padrões de sono e os dispositivos normalmente utilizados pelo paciente para dormir.

Diagnósticos de Enfermagem

• Debito cardíaco diminuído relacionado a contratilidade comprometida e a pré-carga/pós-carga aumentadas.
• Troca gasosa comprometida relacionada ao edema alveolar decorrente das pressões ventriculares elevadas.
• Excesso de volume hídrico ligado a retenção de sódio e água.
• Intolerância a atividade relacionada ao desequilíbrio entre o suprimento e demanda de oxigênio

Intervenções de enfermagem

Mantendo o debito cardíaco adequado

– Colocar o paciente em repouso físico e emocional para diminuir o trabalho cardíaco.

a. Prover repouso em posição semi-inclinada ou em uma cadeira de braços em ambiente com ar condicionado reduz o trabalho do coração, aumenta a reserva cardíaca, diminui a pressão arterial, diminui o trabalho dos músculos respiratórios e a utilização de oxigênio, melhora e eficácia de contração cardíaca; o reclinamento promove a diurese, por melhorar a perfusão renal.
b. Fornecer uma cadeira higiênica ao lado do leito para diminuir o trabalho de ir ao banho e evacuação.
c. Proporcionar repouso psicológico o estresse emocional produz vasoconstrição, eleva a pressão arterial e acelera o coração.

– Avaliar freqüentemente se há progressão de insuficiência ventricular esquerda
– Verificar, com freqüência, a pressão arterial.

a. Observar se há diminuição na pressão sistólica.
b. Observar o estreitamento da pressão de pulso.
c. Observar as alternâncias nas pulsações fortes e fracas (pulso alternante).

– Auscultar, com freqüência, os batimentos cardíacos.
– Observar se há sinais e sintomas de perfusão reduzida dos tecidos periféricos; a temperatura fria da ele, palidez facial, deficiência do enchimento capilar das unhas .
– Adm. a farmacoterapia de acordo com a prescrição.
– Monitorar a resposta clinica do paciente com relação ao alivio dos sintomas (dispnéia e ortopnéia decrescente, alivio do edema periférico).

Melhorando a oxigenação

– Levantar a cabeceira do leito em 20 a 30cm reduz o retorno venoso para o coração e pulmões; alivia a congestão pulmonar.

a. Apoiar os antebraços com travesseiros pra eliminar a tração de seu peso sobre os músculos dos ombros.

– Auscultar os campos pulmonares a cada quatro horas para estertores e sibilos nos campos pulmonares inferiores (o liquido acumula-se nas áreas afetadas pela gravidade).

a. Marcar com tinta hidrossolúvel o nível nas costas do paciente onde os ruídos adventícios são ouvidos.
b. Usar as marcas para avaliação comparativa durante as trocas de plantão coma equipe de enfermagem.

– Observar o aumento na freqüência respiratória
– Observar em busca de respirações de Cheyne-Stokes (podem ocorrer no idoso por causa de diminuição na perfusão celebral estimulado resposta neurogenica).
– Posicionar o paciente a cada duas horas (ou estimular o paciente a mudar freqüentemente de decúbito) para ajudar a evitar a atelectasia e pneumonia.
– Oferecer alimentação pequena e freqüente.
– Adm. oxigênio de acordo coma prescrição.

Restaurando o Equilíbrio Hídrico

– Adm. diurético conforme prescrito.
– Fornecer o diurético no inicio da manha (a diurese noturna conturba o sono).
– Realizar balanço hídrico o paciente pode perder grande volume de liquido após uma única dose de diurético.
– Pesar diariamente para determinar se o edema esta sendo controlado; a perda de peso não de vê exceder 0,45 a 0,9kg.
– Observar se há sintomas de depleção eletrolíticos fraqueza, apatia, confusão mental, anorexia, debito urinário decrescente azotemia.
– Limitar a administração de liquido IV
– Usar colchão do tipo “caixa de ovo” e pele de carneiro, para evitar as ulceras de pressão
– Observar se há complicações do repouso no leito ulceras de decúbito (principalmente em pacientes edemaciados)
– Monitorar a dieta do paciente. A dieta pode ser limitada em sódio para evitar, controlar ou eliminar o edema; também pode ser limitada em calorias.

Melhorando a Tolerância à Atividades

– Alterar ou modificar as atividades dele mantê-las dentro dos limites de sua reserva cardíaca.

a. Auxiliar o paciente nas atividades de cuidados pessoais no inicio do dia (a fadiga se estabelece, à medida que o dia avança).

– Aliviar a ansiedade noturna e proporcionar repouso e sono. Os pacientes com ICC tendem a ficar inquietos a noite, por causa da hipóxia celebral.
– Administração sedação apropriada para aliviar a insônia e a agitação.
– Indicar os sinais e sintomas de recidiva. Observar se há:

a. Ganho de peso relatar o ganho de peso de mais de 0,9 a 1,4kg em alguns dias. Pesar na mesma hora do dia, para detectar qualquer tendência de retenção de líquidos;
b. Cansaço, falta de apetite;
c. micção freqüente a noite.

– Rever o regime medicamentoso.
– Rever o programa de atividade. Instruir o paciente de seguinte maneira:
– Aumentar gradualmente a distancia da caminhada e outras atividades, desde que elas não provoquem fadiga e dispnéia;

O Budismo

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O Budismo é uma doutrina fundada por um dos príncipes da família Sákia, chamado Siddharta Gautama, que tem como característica a ausência de deuses e dogmas.

Siddharta, denominado também Sákia Muni, nasceu no século V a.C. em Lumbini, cerca de 160 quilômetros de Benares. Aos 29 anos abandonou a vida da corte, dirigindo-se para o deserto, entregando-se a meditação. Aos 36 anos começou a pregar para os pobres e ricos, proclamando-se muni, o profeta. Anunciava em nome de Deus a igualdade dos homens. Ao mesmo tempo negava as reencarnações ensinadas pelos brâmanes, atacava o orgulho, recomendava a serenidade, a pureza, a misericórdia, indicando o novo caminho da sabedoria e da virtude.

A sua virtude teve logo numerosos adeptos. Sákia Muni proclamou-se Buda, isto é, santificado como Deus, e promulgou os cinco mandamentos da nova religião que chamava budismo. São eles: não matar, não furtar, não tomar a mulher do próximo, não mentir, não tomar bebidas embriagadoras.

A ignorância segundo Buda, é a causa de todo o mal. Quatro verdades mostram o caminho do Nirvana, ou do estado da paz perfeita: 1- A vida é sofrimento; 2- A causa do sofrimento é o desejo; 3- O domínio de si mesmo liberta o homem da dor; As maneiras de livrar-se do sofrimento são: compreender, pensar, resolver, falar, agir, viver com tolerância e justiça. Seguindo esses preceitos, jejuando e meditando, qualquer homem pode purificar sua alma e chegar a transformar-se em Buda como ele.

Sákia Muni morreu com 80 anos em Gaya, divinizado por seus discípulos. Adotado com entusiasmo por intelectuais, o budismo triunfou em meados do século III a.C., quando o imperador Asoka tornou-se seu maior propagador. Esse monarca abandonou o bramanismo, tornado-se fervoroso adepto de Buda.

Sustentou sessenta mil sacerdotes, fundou mosteiros, ergueu templos, organizou missões para difundir o budismo além das fronteiras do país, convocou um concílio para codificar a doutrina búdica. Após sua morte, os brâmanes, vendo ameaça a organização social que eles, em seu proveito, havia estabelecido, passaram a perseguir os budistas.

Expulso da Índia, o budismo difundiu-se em toda a Ásia, contando com grande número de fiéis em Ceilão, na Birmânia, Sião, Camboja, China, Coréia, Japão, Vietname, Tibete, Tailândia, Laos, Nepal, Mongólia, Leste do Paquistão, Malásia e partes da Indonésia. Diversos paises acidentais, embora em pequeno número, têm templos budistas.

Essa propagação do budismo no tempo e no espaço nunca foi imposta por guerras ou cruzadas. A conversão através da compulsão era desconhecida e repugnante ao Buda e seus discípulos. Nesses paises vivem numerosos monges ou bonzos budistas entregues ao jejum e a contemplação, no afã de se converterem em budas.

Sais Minerais

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Cálcio

Tem um papel essencial a quase todas funções do organismo, como: Coagulação do sangue, oxigenação dos tecidos, transmissão dos impulsos nervosos, regularização dos batimentos cardíacos e equilíbrio de ferro no organismo. E principalmente na formação de ossos e dentes, indispensável na dieta de recém-nascidos, crianças e gestante. Previne a osteoporose. Trabalha em equilíbrio com o fósforo.

Fontes: Leite, queijo, iogurte, legumes verdes, cereais integrais, grãos, nozes (amendoim, castanha, etc), milho, soja, tufo (queijo soja), repolho chinês, couve, brócolis,

Carência: Causa deformação óssea; enfraquecimento dos dentes.

Excesso: Pode causar pedras nos Rins, hipercalcemia, síndrome alcalina do leite, e Insuficiência renal.

Cromo

Ajuda manter níveis de glicose do sangue normais.

Fontes: Alguns cereais, carnes vermelha, aves, peixe, cerveja.

Carência: causa raquitismos em crianças; osteomalácia (amolecimento dos ossos) em adultos; deformações na coluna e Osteoporose.

Excesso: Causa falência renal crônica.

Cobre

Componente de enzimas em metabolismo férreo. Age na formação da hemoglobina (pigmento vermelho do sangue) e da mielina (substância do sistema nervoso) e do colágeno, auxilia na luta contra infecções.

Fontes: fígado, rim, coração (bovino), ostra, vegetais verdes, soja, frutas secas, pêra, caranguejo, lagosta, frutos do mar, nozes, sementes, cereais de trigo, produtos de grão integrais, produtos de cacau.

Carência: dificulta a absorção de ferro pelo organismo.

Excesso: Pode causar Distúrbio Gastrointestinal, e danificar o fígado.

Flúor

Ajuda a formar e proteger os dentes, prevenido as cáries dentárias, e o desgaste dos ossos, prevenindo a osteoporose.

Fontes: Água com Flúor, chás, peixe marinho, produtos dentais com Flúor, agrião, alho, aveia, brócolis, beterraba, cebola, couve-flor, maçã, trigo integral.

Carência: Ajuda a desenvolver cáries dentárias.

Excesso: Esmalte e Fluorose do esqueleto.

Iodo

É indispensável ao bom funcionamento da tiróide. Componente dos hormônios tiróides; e previne papo e cretinismo (doença relacionada a tiróide).

Fontes: No Brasil com em outros países, o iodo é acrescentado ao sal de cozinha. Suprindo a maioria das necessidades. Sal iodado, produtos marinhos, alguns vegetais.

Carência: Causa o Bócio, doença relacionada a problemas na tiróide. Com o crescimento do papo.

Excesso: Elevada concentração de hormônio estimulante Tiróide (TSH).

Nota: Indivíduos com auto-imune doença da tiróide, deficiência de iodo prévia, ou papo nodular são distintamente suscetíveis ao efeito adverso de ingestão de iodo em excesso.

Então, indivíduos com estas condições podem não ser protegidos pelo limite máximo de ingestão de iodo para a população geral.

Ferro

É um componente da formação da hemoglobina e de numerosas enzimas, na oxigenação das células e no equilíbrio metabólico, no transporte de oxigênio dos pulmões para as células e na condução de gás carbônico das células para os pulmões; previne anemia de hipocromica microcítico ou anemia. Muito comum em mulheres. O ferro pode ser armazenado pelo organismo.

Fontes: fígado, rim, coração, gema de ovo, aspargo, leguminosas, cereais integrais, verduras, nozes, frutas secas, vegetais, azeitonas, carne bovina.

Carência: Causa Anemia.

Excesso: Provoca distúrbio Gastrintestinal.

Nota: Por falta de heme (pigmento vermelho do sangue) provocado por baixa absorção de Ferro, principalmente em pessoas com dietas vegetarianas. Então, foi sugerido que a exigência férrea para esses que consomem dieta vegetariana é aproximadamente o dobro a mais do que os não-vegetarianos.

Magnésio

Cofator para o sistema de enzimas. Regulas as células nervosas, ajuda na formação de anticorpos e no alívio do stress. Atua na formação dos tecidos, ossos e dentes; ajuda a metabolizar os carboidratos; controla a excitabilidade neuromuscular.

Fontes: Verduras folhas verdes escura (agrião, espinafre), grãos ásperos, nozes, carne, gomas, leite, frutas cítricas, leguminosas, gema de ovo, salsinha, cebola, tomate, mel.

Carência: provoca extrema sensibilidade ao frio e ao calor;

Excesso: Não há nenhuma evidência de efeitos adversos do consumo de magnésio naturalmente proveniente de alimentos. Os Efeitos adversos de magnésio que contém os suplementos podem incluir diarréia osmótica.

O Limite máximo para magnésio só representa a ingestão de um agente farmacológico (suplemento) e não inclui ingestão de alimento e água.

Manganês

Envolvido na formação de osso e tendões, como também em enzimas envolvidas em aminoácidos (proteínas), colesterol, e metabolismo de carboidrato.

Fontes: grãos integrais, nozes, legumes, frutas, chá, folhas de beterraba.

Carência: não determinada.

Excesso: Elevada concentração no sangue neurotoxicidade.

Nota: Por causo do manganês que é bebido da água e suplementos pode ser mais biodispónivel que manganês de alimentos, precaução deve ser levada em conta quando usando manganês. Especialmente para completar a dieta dessas pessoas que já consomem quantias grandes provenientes de plantas. Além disso, indivíduos com doença fígado podem ser distintamente suscetíveis aos efeitos adversos de entrada de manganês em excesso.

Molibdênio

Cofator para enzimas envolvidas em catabolismo de aminoácidos de enxofre, purinas e piridinas.

Fontes: Legumes, produtos de grão (arroz, trigo)e nozes.

Carência: em estudo;

Excesso: Indivíduos que são deficiente em uma dieta de ingestão de cobre ou têm alguma deficiência orgânica em metabolismo de cobre que os faz cobre-deficiente possa ter o risco aumentar de toxicidade de molibdênio.

Fósforo

Faz parte construção dos ossos e dentes, da estrutura das membranas celulares, permite a estocagem e a liberação rápida de energia, e participa de várias reações químicas em nosso corpo. O fósforo e o cálcio precisam estar equilibrados em suas quantidades, pois essa relação é que permite desempenharem suas funções. Mais a Vitamina D combate o raquitismo.

Fontes: Leite, iogurte, sorvete, queijo, ervilhas, carne, ovos, alguns cereais e pães.

Carência: Causa uma maior probabilidade de ocorrência de fraturas, músculos atrofiados; alterações nervosas; e o raquitismo.

Excesso: pode interferir com absorção de cálcio, Calcificação Metastático, porosidade de esqueleto (dos ossos).

Nota: Atletas e outros com despesa de energia alta freqüentemente consomem quantias de alimentos maior que o Limite Recomendado sem efeito aparente.

Selênio

Ajuda na defesa oxidação acentuada, auxiliando na luta contra os radicais livres; protege o coração; regula ação do hormônio da tiróide, e a redução e estado de oxidação (radicais livres) de vitamina C e outras moléculas.

Fontes: Miúdos bovinos (fígado, rim, etc), frutos do mar, cereais integrais, germe de trigo, e algumas plantas (dependendo de conteúdo de selênio da terra).

Carência: em estudo.

Excesso: Causa ao cabelo e a unha, fragilidade e perda.

Zinco

Componente de múltiplas enzimas e proteínas; participa no metabolismo das proteínas e carboidratos; atua no controle cerebral dos músculos; ajuda na respiração dos tecidos; Combate a acne, ajuda na cicatrização de feridas, estimula as defesas imunitárias.

Fontes: Carnes vermelhas, fígado, peixe, ostra, sardinha, ovo, leguminosas, nozes, aveia.

carência: Diminui a produção de hormônios masculinos, favorece o diabete e provoca alteração no paladar.

Excesso: Reduz a quantidade o Cobre no organismo.

Nota: Absorção de zinco é mais baixa para esses que consomem dietas vegetarianas, do que para essas dietas não-vegetarianas. Então, foi sugerido que a exigência de zinco para esses que consomem uma dieta vegetariana é aproximadamente o dobro a mais que para os que consomem uma dieta não-vegetariana.

Sódio

Regula os líquidos no organismo, a pressão sanguínea, influi nas contrações musculares e nos impulsos nervosos. impede o endurecimento do cálcio e do magnésio, o que pode formar cálculos biliares ou nefríticos; previne a coagulação sangüínea.

Fontes: Principalmente Sal de cozinha, peixes e carnes defumadas, embutidos (salame, frios, salsicha), vegetais (salsão, cenoura, agrião e cebolinha verde), ovos, queijo, nozes, aveia.

Carência: Pode causar cãinbras e retardamento na cicatrização das feridas.

Excesso: Causa a pressão alta, com risco de ataque cardíaco. Pode aumentar a quantidade de cálcio excretada pela urina.

Potássio

Atua associado com o sódio no equilíbrio de água, transmissão de impulsos nervosos, regulariza as batidas do coração e o sistema muscular, contribui para a formação da célula.

Fontes: frutas, leite, carnes, cereais, vegetais e legumes.

Carência: Diminuição da atividade muscular, inclusive a do coração.