Adolescência

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O presente trabalho monográfico traz uma reflexão sobre a adolescência, analisando essa fase do desenvolvimento humano, em seus aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Buscamos, a princípio, abordar as mudanças por que passou o termo adolescência ao longo dos tempos, as concepções difundidas historicamente e seu significado social. Num segundo momento, discutiremos as mudanças biofisiológicas na adolescência, na perspectiva de entender as transformações físicas que ocorrem no corpo do adolescente menino e menina durante a puberdade. Além de analisarmos ainda os efeitos psicossociais decorrentes das mudanças biológicas. Num terceiro momento do trabalho trouxemos a reflexão e a compreensão da adolescência não apenas em suas transformações biológicas, mas também destacamos a influência do meio social para o desenvolvimento dos mesmos, levando em consideração a importância de instituições sociais como: família, escola e sociedade, para a constituição do indivíduo adolescente e sua inserção no meio social.

Através de estudo bibliográfico nos embasamos em autores como: Carvajal(2001), Campos(1985), Gallantin(1978), Palácios(1995), dentre outros, para melhor compreensão do estudo. O trabalho busca demonstrar que essa fase do desenvolvimento humano não é afetada apenas por fatores biológicos, mas que o meio em que está inserido tem uma enorme influência na formação da personalidade dos mesmos. Enfim, que a adolescência deve ser compreendida como um processo de transição biopisicossocial da infância para a idade adulta, onde estão presentes fortes influências do meio social, e que os aspectos biológicos desenvolvidos na adolescência são apenas fenômenos universais para todos os membros da espécie por englobar as transformações físicas pelas quais todos os indivíduos passarão.

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO
1.1 ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS
2. UM RESGATE HISTÓRICO SOBRE A ADOLESCÊNCIA
2.1 CONCEITO DE ADOLESCÊNCIA
2.1.1 Adolescência Amputada
2.1.2 Adolescência em Condensação Simbólica
2.1.3 Adolescência Exuberante
3. AS MUDANÇAS BIOFISIOLÓGICAS NA ADOLESCÊNCIA
3.1 ADOLESCÊNCIA E PUBERDADE: As Mudanças Biológicas
3.1.1 A Puberdade para Eles
3.1.2 A Puberdade para Elas
3.2. OS EFEITOS PSICOSSOCIAIS DECORRENTES DAS MUDANÇAS BIOLÓGICAS
3.3 AS CRISES PRÓPRIAS DA ADOLESÊNCIA
3.3.1 A Crise de Identidade
3.3.2 A Crise de Autoridade
3.3.3 A Crise Sexual
4. A ADOLESCÊNCIA E A INFLUÊNCIAS DAS INSTITUIÇÕES SOCIAIS
4.1 A FAMÍLIA COMO PRIMEIRA EXPRESSÃO DE SOCIEDADE
4.2 O PAPEL SOCIAL DA ESCOLA NA FORMAÇÃO DO ADOLESCENTE
4.3 ADOLESCÊNCIA E SOCIEDADE
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
BIBLIOGRAFIA
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho monográfico faz uma discussão sobre a adolescência como um processo de construção biológico, psicológico e social. Buscamos como objetivo principal entender a influência do meio social, especialmente de instituições família, escola e sociedade no desenvolvimento e na formação desses indivíduos durante todo o processo de transição de criança à fase adulta.

Para escolha do objeto de estudo foram utilizados critérios que seguiram os seguintes aspectos: enquanto estudante de pedagogia e conhecedora de algumas teorias nas quais fazem analogia a adolescência como uma fase difícil apenas por conta das transformações biológicas, e segundo essas teorias o adolescente é o único culpado de esse período ser tão conflitivo, e, sobretudo abranger o estudo na área, já que quando diz respeito à adolescência como um processo biopsicossocial as pesquisas nunca serão demais.

Sabemos que devido a tantas transformações biológicas, conseqüentemente acontecem uma série de transformações que acabam abalando o psicológico desses indivíduos. Sendo assim, torna-se imprescindível o apoio de instituições que possam contribuir para o bom desenvolvimento dos adolescentes.

Outro aspecto da temática, que despertou-me o interesse, constituiu na minha experiência profissional, enquanto funcionária de uma instituição escolar onde o número de adolescente é bastante expressivo. Nessa instituição presenciei por diversas vezes situações conflitivas de adolescentes, que por sua vez não tem uma influência positiva da sociedade, levando-os a apresentar nenhuma perspectiva de vida. E como boa parte não possuem uma boa estrutura familiar, acabam por apresentar esses comportamentos conflituosos.

Pretendemos analisar a adolescência como uma das fases de desenvolvimento humano, focalizando seus aspectos biopsicossociais compreender ainda as mudanças pelas quais passou o conceito de adolescência ao longo dos tempos; analisar os efeitos psicossociais decorrentes das transformações biológicas; e por fim, identificar como as instituições sociais podem influenciar no desenvolvimento dos mesmos e qual a função da família e da escola para a adaptação desses indivíduos à sociedade.

Partindo desse pressuposto, fez-se necessário o levantamento de uma problemática séria e relevante: Qual a importância da adolescência ser analisada não só pelos seus aspectos biológicos, mas também psicossociais? Para responder a esta indagação que norteia o nosso trabalho, abordamos conceitos como: adolescência, mudanças biofisiológicas, valores sociais dentre outros afins, no intento de compreender os caminhos construídos, que venham dar corpo ao assunto em questão.

1.1 ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS

Apresentaremos as estratégias metodológicas deste estudo, explicitando os percursos metodológicos, como se deu todo processo de desenvolvimento do trabalho, os caminhos percorridos para que pudéssemos chegar aos nossos objetivos e a possíveis conclusões.

A metodologia utilizada para o aprofundamento da problemática a ser investigada pressupõe uma abordagem de natureza qualitativa. Por ser possível através da mesma compreender os aspectos objetivos e subjetivos nas causas que levam à analisar a adolescência no seu processo de construção biopsicosocial. Conforme MINAYO (1994, p. 21):

A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. (…) Ela se preocupa com o nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.

Para desenvolver uma análise crítica que nos proporcione um melhor embasamento da temática trabalhamos com a pesquisa bibliográfica, analisamos as teorias que amparam o tema em questão a partir das leituras e fichas analíticas dos seguintes teóricos: CARVAJAL (2001), CAMPOS (1985), GALLANTIN (1978), PALÁCIOS (1995) dentre outros afins, além de artigos e textos pesquisados na Internet e Jornais.

E para dar corpo ao estudo é que nos propomos em abordar o tema adolescência, suas modificações biopisicológicas e as influências das instituições sociais na formação do indivíduo adolescente – utilizamo-nos da seleção de algumas categorias analíticas como: adolescência, aspectos do desenvolvimento biológico e psicológico, relações sociais, identidade e valores, instituições sociais: escola, família e sociedade, no sentido de compreender com maior rigor e profundidade elementos que estruturassem o processo de investigação, conferindo-lhe o caráter científico.

A estrutura desse trabalho está dividida da seguinte forma. No primeiro capítulo fizemos um regaste histórico da adolescência, tornando perceptíveis as mudanças por que passou o significado dessa fase do desenvolvimento humano ao longo dos tempos. Explicitamos ainda o conceito de adolescência segundo alguns teóricos e como esta fase passou a ser vista dentro da sociedade.

No segundo capítulo falamos a respeito das mudanças biofisiológicas na adolescência, dando ênfase a uma etapa do crescimento humano marcado por grandes transformações físicas, a puberdade. Ressaltamos como se desenvolve a puberdade para eles/meninos e para elas/meninas, e quais os efeitos psicossociais decorrentes dessas mudanças biológicas. Destacamos ainda as crises que são próprias da adolescência, falando um pouco de cada uma e como essas se desenvolvem no indivíduo adolescente.

No terceiro capitulo apresentaremos a adolescência e a influência das instituições sociais, já que ao longo do nosso estudo sempre procuramos abordar a adolescência como um processo de construção social. Falamos da importância da família como primeira expressão de sociedade, do papel social da escola na formação do adolescente, já que é na instituição escola que esse indivíduo passa a ter contanto com figuras de adultos que não são pessoas da família. E por fim apresentamos uma relação da adolescência e sociedade, como essa instituição pode contribuir para que o adolescente possa chegar a ser um adulto seguro e de boa personalidade.

Nesse sentido, pretendemos com esse trabalho apresentar uma visão diferente sobre a adolescência, desmistificar essa visão de que o adolescente é um ser difícil, e que todos esses conflitos pelos quais passam os adolescentes englobam uma série de fatores que não são apenas as mudanças biológicas. E ainda questionar que a adolescência é sem dúvida um processo de construção social, que é através das instituições que englobam toda a sociedade que se dá todo o processo de direcionamento da adolescência.

Não pretendemos que esse estudo seja um ponto final, mas uma abertura a estudos posteriores, cada vez mais aprofundados a fim de ajudar a entender o papel da sociedade como um todo, no desenvolvimento do adolescente. Que este estudo possa apontar alternativas a serem seguidas como exemplo de atuação, para que possamos multiplicar nossos saberes e olhares socialmente, principalmente para o desenvolvimento da adolescência.

2. UM RESGATE HISTÓRICO DA ADOLESCÊNCIA

O presente capítulo tem como objetivo tornar perceptíveis as mudanças por que passou o significado da adolescência ao longo dos tempos. As concepções de alguns pensadores sobre o tema estudado, mostrar também alguns tipos de adolescência dentro de cada cultura. Também defini-la dentro dos estudos e compreensões feitos e contextualizá-la a partir da organização social da época em que se desenvolve o estudo.

No decurso do estudo de teorias psicológicas sobre a adolescência, observamos que essa fase da vida humana nem sempre existiu como um período específico de desenvolvimento como um estágio intermediário entre a infância e a idade adulta. Para reforçar essa afirmação, GALLATIN (1978, p. 10), nos diz que:

O conceito de adolescência é relativamente novo para o mundo ocidental, apesar de ser tido como um período de tempestade e tormenta, como um período mais complexo que a infância, não aparece antes do século dezoito e não se difunde amplamente antes do século vinte.

Há evidências de que há três ou quatro séculos a cultura ocidental não fazia uma distinção particular entre infância, adolescência e maturidade. Pois já na infância as crianças começavam a serem tratadas como adultas, fazer o trabalho adulto, enfim, um exemplo disso são as pinturas anteriores ao Renascimento que retratavam as crianças como adultos em miniaturas, ao invés das figuras angelicais às quais estamos acostumados a ver. ÁRIES apud GALLATIN (1978, p. 32) escreve que:

…Era prática comum entre todos, a não ser entre as classes mais privilegiadas, colocar seus filhos para trabalhar desde a tenra idade de sete anos. (…) A este ponto, elas começavam a aprender um ofício, ou seja, ajudar seus pais nos trabalhos no campo, mas elas não eram protegidas das asperezas da vida como são as crianças.

Nesse sentido, a criança já passava direto para o estágio adulto, sem passar pelo processo de desenvolvimento psicológico que hoje é concebido de adolescência.

Na Grécia Antiga as crianças cresciam no gineceu , escutando as canções, as fábulas moralizantes e as histórias da mitologia. A responsabilidade familiar com relação à criança e o adolescente era deixada de lado, passando para instituições, como a escola, por exemplo, encarregadas de tal missão, formar a moral e a personalidade das crianças e jovens.

No Império Romano, tanto o menino como a menina tinham seus destinos separados, até poder abandonar suas vestes infantis e se tornar adultos. Para melhor compreensão dessa afirmativa GROSSMAN [online] (1998, p. 02) afirma que:

No Império Romano aos doze anos, os destinos de meninas e meninos se separavam, assim como dos ricos e dos pobres. Os romanos de boa família, aos doze anos, deixavam o ensino elementar; sob os cuidados de um “gramático” ou professor de literatura, e estudavam os autores clássicos e a mitologia, com o objetivo de enfeitar o espírito. Aos catorze anos, abandonavam as vestes infantis, tendo o direito de fazer tudo o que o jovem gostasse de fazer.

Assim não existia uma distinção entre a maior e a menor idade. Esses indivíduos, ao completarem uma idade especifica, através de um ritual (em algumas culturas) já se tornavam adultos. Especialmente os meninos, podiam optar por uma carreira pública, as meninas já estavam preparadas para o casamento, enfim, automaticamente o ser humano já passava de criança à fase adulta. Ainda conforme GROSSMAN [online] (1998, p. 02)

Especificamente os meninos, aos dezesseis ou dezessete anos, podiam optar pela carreira pública, entrar no exército. Não existia “maioridade”, não havia menores, e sim impúberes, que não mais o seriam quando o pai ou o tutor considerasse que estavam na idade de tomar as vestes de homem e cortar o primeiro bigode.

Nesta época a palavra adolescente era muito difícil de ser pronunciada, pelo fato de que não havia nenhuma alusão ao termo adolescência. Conforme GALLATIN (1978, p. 06): “Bastante longe daquilo que o pensamento ocidental consideraria como acreditável, há evidências de que há três ou quatro séculos a cultural ocidental não fazia uma distinção particular entre infância, adolescência e maturidade”. A partir da Idade Média com a influência de Aristóteles foi que as “idades da vida” passaram a ocupar um lugar nas enciclopédias e o termo adolescência passou a estar presente em alguns discursos.

A partir do século XIX, a revolução industrial provoca muitas mudanças de maneira notável. Com a industrialização, o estudo e a capacitação tornaram-se fatores imprescindíveis ao desenvolvimento. Ainda sim, a classe operária não tinha as mesmas oportunidades de uma escolarização prolongada como a classe média, sendo submetido ao mundo do trabalho muito cedo. Mas, com o passar do tempo essa classe operária também foi tendo a oportunidade de ingressar na escola e retardar seu ingresso na vida profissional. PALÁCIOS (1995, p. 38) nos afirma que:

Embora os filhos dos operários continuassem se incorporando ao mundo do trabalho em idades precoces, os filhos das classes médias e altas tenderam a permanecer nas escolas que aumentaram em número(…). Finalmente, os filhos dos operários também passaram a adotar o mesmo estilo de vida, quando, conforme avançava o século , foi sendo introduzido, nos diversos países ocidentais, o conceito de escolaridade obrigatória, o que foi se ampliando até chegar na atualidade…

Conforme GROSSMAN [online] (1998, p. 04) “este é um período marcado pelo fortalecimento dos Estados Nacionais, pela redefinição dos papéis sociais de mulheres e crianças, pelo avanço acelerado da industrialização e da técnica e pela organização dos trabalhadores”.

Assim, as mudanças com relação ao conceito de adolescência vieram se dar com o prolongamento da escolaridade até os dezoito ou vinte anos apenas para os jovens mais privilegiados, essas transformações ajudaram a diferenciar a infância da idade adulta, mas mesmo depois que tal prática tornou-se amplamente estabelecida à infância e a adolescência continuaram a ser confundidas. ARIÉS apud GALLATIN (1978, p.11) afirma que: “… Dentro do mundo escolar, o adolescente era separado do adulto e confundido com a criança, com a qual compartilhava a humilhação do castigo corporal…”.

Para tanto GALLATIN (1978, p.11), continua dizendo que:

Apenas quando os exércitos do século dezoito começaram a tentar atrair os ‘jovens gloriosos’ para suas fileiras é que algo semelhante ao moderno conceito de adolescência começou a emergir e, mesmo assim, numa forma rudimentar.

A partir de então, com a permanência do adolescente na escola retardou a incorporação ao status adulto, formou-se uma nova fase de desenvolvimento humano com características próprias, tendo como particularidade o adiamento de assumir responsabilidades adultas. Para GROSSMAN [online] (1998, p. 05 )

Neste momento a figura do adolescente é delineada com precisão. Este período é delimitado, no menino entre a primeira comunhão e o bacharelado, e na menina, da primeira comunhão ao casamento. Ao longo do século XIX, a adolescência passa a ser reconhecida como um ‘momento crítico’ da existência humana. A adolescência é temida como uma fase de potenciais riscos para o próprio indivíduo e para a sociedade como um todo.

Sendo assim, este período tornou-se solidamente institucionalizado como um período de mudanças, de conflitos, onde não se é mais criança, mas ainda não se é adulto, tendo sido representado, na nossa cultura, na nossa sociedade como adolescência.

Como podemos ver ao longo desse tópico a obrigatoriedade da escolarização teve uma importante influência para o surgimento da adolescência, pelo fato de que o indivíduo tinha como dever, permanecer na escola no período que intermediava a infância e a idade adulta tendo assim que retardar o ingresso no mundo do trabalho. A partir de então houve também a necessidade de criar um conceito para esse período, surgindo assim o termo adolescência, no qual, o conceito, falaremos no tópico seguinte.

2.1 O CONCEITO DE ADOLESCÊNCIA

A adolescência é um estágio intermediário entre a infância e a idade adulta, onde o ser humano passa por uma série de mudanças e crises. Inicia-se por volta dos doze e estende-se até mais ou menos os vinte anos. Esse período é sem dúvida a mais turbulenta de todas as fases, pois o indivíduo entra numa preparação para ingressar na vida adulta. Para melhor compreensão PALÁCIOS (1995, p. 37) nos afirma que: “Costumamos entender por adolescência a etapa que se estende, a grosso modo, dos 12-13 anos até aproximadamente o final da segunda década da vida. Trata-se de uma transição, na qual não se é mais criança, mas ainda não se tem o status de adulto”.

Para tanto, a adolescência é acima de tudo uma fase da vida do ser humano pela qual o indivíduo perpassa por muitas transformações, turbulências, aceitação, metamorfose. HORROKCS apud GALLATIN (1978, p. 14) afirma que:

A adolescência é tanto um modo de vida quanto um segmento do desenvolvimento físico, psicológico e social de um indivíduo. Ela representa um período de crescimento e mudanças em quase todos os aspectos da vida física, mental, social e emocional da criança. É uma época de novas experiências, novas responsabilidades e novos relacionamentos com os adultos e companheiros.

Conforme afirma o referido autor, constitui reconhecer que a adolescência começa na biologia e termina na cultura. O ser humano não se define apenas por seu desenvolvimento individual, mas também por todo um conjunto de suas relações específicas com as figuras importantes na sua vida.

Para pensar a adolescência, é preciso considerar, de modo especial, além dos aspectos psicológicos, aspectos fisiológicos e sócio-culturais. Outrossim, é preciso pensar no contexto, ou seja, refletir sobre o mundo, o cenário em que esse jovens estão inseridos. PALÁCIOS (1995, p. 65) diz que “as características da idade adolescente, são em grande parte, determinadas pela cultura”.

A partir dessas observações, pode-se afirmar que vinculada à idéia adolescente encontramos o estilo adolescente, que pode ser resumido em: preparação, vir a ser, crescimento e dor.

A adolescência deve ser abordada do ponto de vista de suas condutas e de suas manifestações. Trata-se, em última instância, de um grupo de fenômenos que eclode num momento da vida, para dar lugar a comportamentos, condutas fenômenos característicos da idade adulta.

Ao perpassar essa “idade difícil” o adolescente enfrenta muitas adversidades em busca de uma identidade, identidade essa que pode ser achada em um instante e que pode ser mudada mais rápido ainda, causando assim uma controvérsia na cabeça de cada indivíduo, transformando essa fase de transição da vida do ser humano, em uma fase de turbulências, podendo caracterizar a adolescência como uma fase de crises. Conforme apresenta CARVAJAL (2001, p. 23):

Utilizamos à palavra crise porque na adolescência há uma mudança em ebulição, há algo que está em processo, em situação de ruptura, de caos, de transformação abrupta, aguda, quase cega, intensa, com freqüência angustiante, dolorosa e enormemente móvel.

Mesmo sendo a adolescência, como vimos anteriormente, um processo complexo de metamorfose entre a criança e o adulto, com certas regras do jogo às quais nenhum ser humano pode escapar, suas manifestações comportamentais variam de forma dramática, dependendo do modelo padronizado por cada cultura.

Como vimos no tópico anterior, à adolescência não era especificamente caracterizada em outros momentos de nossa história, assim como ainda hoje em algumas culturas esse processo do desenvolvimento humano não se dá mesma forma que se constitui na nossa cultura ocidental.

Conforme CARVAJAL (2001, p. 29), apresentamos a seguir a classificação de alguns tipos de adolescência de acordo com cada cultura, na tentativa de distinguir alguns tipos de adolescência: são eles.

2.1.1 Adolescência Amputada

É comum observarmos esse tipo de adolescência, especialmente nas famílias de nível sócio-econômico e cultural baixo, adolescentes provenientes dessa realidade tendem a ter essa fase amputada, pelo fato dos pais não terem um nível educacional razoável que os torne capazes de compreender as mudanças ocorridas nessa época tão dramática e também por não terem tido a oportunidade de caracterizar essa fase na sua época, devido aos mesmos fatores. Para CARVAJAL (2001, p. 29):

A carência de capacidade egóicas, decorrente da falta de oportunidades educativas e de desenvolvimento de suas potencialidades (dada a inclemência do ambiente que o rodeia), anula as manifestações do processo da adolescência a que está submetido inexoravelmente, tornando este inconsciente ou oculto, ou seja, guardado nos mais recônditos de seu ser e não podendo ser manifestado a não ser em situação-limite como a embriaguez, o ato delinqüente ou a loucura em alto grau.

É o caso da adolescência de nosso camponês mais primitivo. Obrigado a abandonar o jogo infantil, substituí-lo por uma enxada. Num processo contínuo e sem fim transcorre a infância, puberdade, adolescência e idade adulta, tornando-se um ancião aos quarenta anos de idade, com morte prematura. Passa sua vida encurvado sobre a terra, fazendo sempre o mesmo, sem um mínimo de desenvolvimento das funções psíquicas, sem ir além de uma motricidade automática. É um ser submetido por uma cultura injusta que o obriga a sacrificar tudo, por uma empobrecida subsistência.

Devido a tantas obrigações que já lhes são cabidas desde tão novos, esses indivíduos pagam um preço, o de abandonar um pedaço de sua vida, são obrigados, pelas circunstâncias, a negar manifestações externas de sua metamorfose devido a sua condição sócio-econômica absurda e desumana.

2.1.2 Adolescência Em Condensação Simbólica

Este é um modelo extinto da cultura ocidental moderna, devido aos avanços ocorridos com a modernidade e a concomitante perda do mito, do rito e da religião, entre outras coisas. Segundo CARVAJAL, (2001, p. 31).

A adolescência em condensação simbólica é um fenômeno cultural que consiste em condensar a situação da adolescência num fato ou ritual simbólico, que ao ser executado, permite a descarga total da tensão contida, produzida pela não realização, no nível da conduta, de seu estado crítico adolescente em outro tipo de atividades. O mito, o rito e o simbolismo substituem a ação direta do desejo ou da necessidade.

Um exemplo disso é que há três ou quatro séculos na cultura ocidental a aquisição ritual da maioridade pela púbere, ao se converter magicamente em mulher depois de completar quinze anos. Em outras palavras podemos dizer que em época remotas a adolescência era castrada, pois ao completar quinze anos, a menina deixava de brincar de boneca e de ser tratada como menina, passando a usar vestidos compridos, cosméticos, saltos altos; transformando-se assim numa jovem casadoira. Tudo isso num só dia.

A adolescente-menina esperava pacientemente o advento dessa maravilhosa data, que viria com toda certeza. Sua energia de adolescente estava voltada para a preparação do momento. Era menina ate os quatorze anos, onze meses e trinta dias, e mulher aos quinze anos. Nesse dia, esquecia-se de suas atividades infantis e das amizades que pertenciam a essa etapa e passava automaticamente a engrossar as fileiras das mulheres casadoiras, com todas as exigências e responsabilidades inerentes a essa condição.

O mesmo podia ser dito do adolescente-menino-homem, com suas calças curtas e sua proibição de entrar nos salões destinados apenas aos adultos. De um dia para outro transformava-se em homem, situação que também esperava pacientemente com a certeza de que a cultura em que estava imerso não falharia com ele. A expectativa era possível devido à absoluta certeza interna e vivencial de que o acontecimento era inexorável. Era menino até os dezessete anos, onze meses e trinta dias. Aos dezoito anos começava sua vida adulta com padrões também definidos, dos quais não podia se afastar sem graves conseqüências de marginalização social. Para que assim compreendamos melhor essa questão CARVAJAL (2001, p. 31) explica que:

O preço interno desse comportamento, de acordo com as regras do jogo social, era a ‘neurose vitoriana’, tão genialmente descrita por Sigmund Freud. Rito e rigidez dos padrões estruturais, avalizados por uma concepção religiosa e moral, permitiam condensar num ato simbólico toda a problemática da adolescência, que só era vivenciada em pequenas manifestações de rebeldia e exaltação, recalcadas superegoicamente desde dentro e desde fora do individuo em processo de mudança. A esperança de que uma chave abriria tudo isso algum dia permitiria calar a voz da crise. Este instante justificava deter toda a efervescência interna.

Assim as mudanças eram intrapsíquicas e não eclodiam, exceto no momento do rito e de maneira simbólica. Havia tempo para tudo, e um “modelo de espera”, continha as manifestações comportamentais da crise de identidade, de autoridade e de sexualidade.

A adolescência em condensação simbólica era uma fase muito difícil para esses indivíduos, pois eles eram privados de suas manifestações adolescentes no momento em que passavam da fase infantil automaticamente para uma fase adulta. Sendo assim existia um enorme conflito de personalidade já que eles não passavam pela fase de auto-afirmação, ou seja, de busca por identidade.

2.1.3 Adolescência Exuberante

O adolescente exuberante apresenta um perfil de comportamento decorrente da ação direta de suas necessidades, borbulhantes, sem a presença de simbolismos ou amputações.

Ou seja, ele tende a atuar diretamente no que é conflitivo em sua mente. Não poupa comportamentos, modas ou expressões que permitam dar a conhecer sua inconformidade ou seu desejo. Converte-se no paradigma do socialmente conflitivo quando se excede em sua apresentação, é popularmente chamado por adolescente rebelde, que gosta de enfrentar todas as barreiras. Para esses os modelos tradicionais são caretas e ultrapassados, não condizem com o seu estilo de vida.

Segundo CARVAJAL, (2001, p.33), “a adolescência exuberante é próprio do modelo cultural ocidental. O mundo se destribalizou”. Funciona como uma grande aldeia onde os modelos e valores, tradicionais são postos em xeque e substituídos por outros novos, produzidos pelos questionamentos, contraposições e contradições dos meios de comunicação. Ainda segundo CARVAJAL (2001, p. 33):

…O adolescente pode manifestar de forma ampla e direta sua situação crítica de desenvolvimento, tendo a certeza de que seu meio vai recebê-lo, contê-lo, compreendê-lo e respeitá-lo, assim como vai permitir um desenvolvimento harmônico de suas potencialidades intelectuais e afetivas. É um ambiente que vai tender mais para o pensar do que para o atuar.

Para resumir, a adolescência exuberante é o abandono dos modelos tradicionais míticos, tribais, ritualísticos e religiosos. Esse abandono acaba exigindo um alto custo de racionalidade e um profundo conhecimento dos processos que virão a se desencadear no adolescente. A ignorância desses conceitos é absolutamente catastrófica.

Olhando por um ponto de vista da psicologia do desenvolvimento e buscando embasamento também no nosso cotidiano, percebemos que a adolescência é realmente uma fase que merece um estudo amplo e profundamente relevante, por ser uma fase de muitas transformações como já foi citado várias vezes anteriormente.

Para o adolescente, as coisas são “eternas enquanto duram”, embora tudo possa durar um mês ou mesmo um minuto. A sensação que têm é, por um lado, de uma imobilidade do tempo e do espaço, mas, por outro lado, na prática, demonstram uma mobilidade enorme de apetites, desejos e, também de ações.

Esta visão panorâmica e inicial tenta demonstrar a complexidade do processo da adolescência. Trazem à tona as profundas repercussões que tem esse período da vida, não apenas para o desenvolvimento e bem-estar individual, mas também para o tipo de convivência em sociedade. Na verdade, a adolescência deve ser compreendida em vários aspectos.

Além de considerado o desenvolvimento biológico do indivíduo deve ser valorizado ainda os aspectos psicológicos e sociais. A seguir nos deteremos a falar das mudanças biofisiológicas da adolescência, onde abordaremos questões referentes à puberdade e as alterações psicológicas decorrentes das mudanças biológicas.

3. AS MUDANÇAS BIOFISIOLÓGICAS NA ADOLESCÊNCIA

3.1 ADOLESCÊNCIA E PUBERDADE: As Mudanças Biológicas

Costumamos entender que adolescência é uma etapa de transição, na qual não se é mais criança, mas ainda não se tem o status de adulto. Segundo PALÁCIOS (1995, p. 37): “É aquilo que Erikson (1968) chamou de uma “moratória social”, um compasso de espera que a sociedade oferece a seus membros jovens, enquanto se preparam para exercer seus papéis adultos”.

Todavia a adolescência trata-se de uma etapa de crescimento e desenvolvimento do ser humano marcado por grandes transformações físicas, psíquicas e sociais, mais precisamente o período de desenvolvimento situado entre a infância e a idade adulta. A este período de desenvolvimento humano alguns organismos ou leis, estabelecem uma determinada faixa etária correspondente, sendo que essa faixa etária nem sempre é a mesma para todos os organismos.

A Organização Mundial de Saúde delimita cronologicamente a adolescência como sendo a faixa dos 10 a 19 anos de idade, esta também adotada no Brasil, pelo Ministério da Saúde. Já o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) considera adolescente o indivíduo de 12 a 18 anos. Segundo PALÁCIOS (1995, p. 40), há também uma distinção do inicio da adolescência entre os meninos e as meninas, conforme este autor: “Em média nos meninos começam pelos 12-13 e terminam pelos 16-18 anos. Nas meninas começam em média, pelos 10-11 anos e terminam pelos 14-16 anos”.

Sendo assim, a adolescência é considerada uma fase do desenvolvimento humano em que o indivíduo passa por algumas etapas. A puberdade é a primeira delas, é a fase de desenvolvimento biológico na qual o indivíduo passa por algumas transformações físicas.

Mas, para que se possamos compreender melhor as peculiaridades desta etapa torna-se importante discutirmos algumas diferenças entre os conceitos de puberdade e adolescência. Conforme PALÁCIOS (1995, p. 39):

Chamamos de puberdade ao conjunto de modificações físicas que transformam o corpo infantil, durante a segunda década de vida, em corpo adulto, capacitado para a reprodução. Chamamos de adolescência um período psicossociológico que se prolonga por vários anos, caracterizado pela transição entre a infância e a adultez.

A puberdade é um fenômeno universal para todos os membros de nossa espécie, como fato biológico que é, por englobar as transformações físicas, ou seja, são transformações externas pelas quais todos os indivíduos passarão.

Já a adolescência é um fato psico-sociológico que os adolescentes passarão internamente, não é necessariamente universal e não adota os mesmos padrões comportamentais em todas as culturas. Cada cultura estabelece seus valores morais, éticos, religiosos, entre outros que são construídos na coletividade, socialmente para os adolescentes.

Ressaltamos o conceito de adolescência e puberdade, mas o objetivo desse tópico será fixado no desenvolvimento biológico dos adolescentes, sendo assim, nos aprofundaremos mais no conceito de puberdade e suas conseqüências à vida desses indivíduos.

A puberdade engloba o conjunto de modificações biológicas que transformam o corpo infantil em adulto constituindo-se em um dos elementos da adolescência. É constituída pelos seguintes componentes: crescimento físico; aceleração, desaceleração, até a parada do crescimento; mudanças na composição corporal e outros. Segundo CARVAJAL (2001, p.71): “… O corpo da criança começa a se modificar rumo a um modelo adulto, impulsionado pelas mudanças hormonais e pelo mandato genético…”.

De acordo com o autor, é na puberdade que ocorrem as mudanças biológicas e fisiológicas. É nesta etapa do desenvolvimento do indivíduo que o corpo do adolescente começa a torna-se maduro.

Distinguido pelas modificações visíveis no corpo do individuo, as mudanças ocorridas na puberdade costumam se caracterizar como um ato biológico e da natureza. Conforme CARVAJAL (2001, p. 68): “A puberdade é que dá início ao processo da adolescência e se caracteriza fundamentalmente por um rompimento maciço com os fenômenos infantis e um isolamento do mundo externo em geral”.

Nesse sentido podemos afirmar que a partir do início da puberdade a criança já não será mais a mesma. Ela vai começar a participar avidamente do mundo dos adultos e se transformará nos novos convidados da realidade onde aquela personalidade infantil vai dar lugar a um novo mundo, a novas experiências.

Essas mudanças são características dessa etapa de desenvolvimento em que o adolescente terá de enfrentá-las, experimentando-as em maior ou menor medida, e que farão parte de sua vida, de sua pessoa, da maravilha de se transformar em adulto.

O processo de transformação física é posto em evidência por uma série de mecanismos hormonais, que desencadeiam um longo processo de modificações que, como veremos a seguir, apresenta um padrão diferente em ambos os sexos . Tantos para os meninos como para as meninas as mudanças físicas na puberdade aparecem de maneira diversa, apresentando características especificas para cada sexo.

3.1.1 A Puberdade Para Eles

Conforme PALÁCIOS (1995, p. 40), “A puberdade para os homens normalmente inicia entre 12 e 13 anos”. Esta mudança acontece quando nos testículos começa a ser produzida a testosterona (hormônio masculino).

Este hormônio é o responsável pelo aparecimento das características sexuais secundárias que são: aceleração do crescimento e aumento de peso; aumento do tamanho dos genitais, seguido por um discreto aparecimento de pêlos púbicos não-pigmentados, pêlos no rosto, nas axilas e em outros lugares (pernas, braços, etc.); aumenta o tamanho da laringe e a voz fica mais grossa.

A puberdade se caracteriza também no homem pela primeira ejaculação ou polução, podendo esta ocorrer espontaneamente durante o sono ou até mesmo induzida, resultante da masturbação. Segundo CARVAJAL (2001, p. 71):

A polução é um fenômeno normal que se produz no processo de desenvolvimento dos homens. Trata-se da evidência externa do início da produção e liberação de sêmen (esperma). É denominado assim porque acontece quando está dormindo, é involuntário e deixa uma pequena mancha na roupa de baixo. A idade média para a primeira polução noturna é aos 13 ou 14 anos, mas pode variar muito já que é possível acontecer desde os 10 até os 16 anos.

Todas estas mudanças são totalmente normais à essa etapa do desenvolvimento humano. Com certeza os indivíduos levarão certo tempo para se adaptar, mas, na medida em que o adolescente for se familiarizando com isso, poderá perceber que este fenômeno lhe permite crescer e se desenvolver mais e melhor como pessoa.

3.1.2 A Puberdade Para Elas

Para as mulheres não é diferente. Estas mudanças também não deixam de acontecer. Geralmente começa entre 11 e 13 anos de idade, quando os ovários começam a produzir mês após mês, um óvulo, o qual produz um hormônio chamado estrógeno que faz com que aconteça por primeira vez a menstruação ou menarca .

O útero, a vagina, os lábios e o clitóris aumentam de tamanho posteriormente. Os pêlos púbicos passam a crescer mais depressa e a ser pigmentados. Desenvolvem-se as mamas, com pigmentação das aréolas e mamilos.

Os estrógenos são os hormônios responsáveis pelo desenvolvimento das características sexuais secundárias femininas . Essas características são as alterações citadas anteriormente que ocorrem no corpo dos adolescentes de ambos os sexos no período da puberdade.

Os processos antes descritos são produzidos de maneira relativamente lenta, devemos destacar que algumas das manifestações de mudanças mais evidentes são apenas a parte final de um processo já iniciado há bastante tempo. CARVAJAL (2001, p. 71) diz que: “As mudanças físicas imperceptíveis vêm acompanhadas de mudanças psíquicas que anunciam o início psicológico da adolescência. O físico, por assim dizer, ‘demarca’ o psíquico”.

Portanto, a puberdade é marcada por significativas mudanças biológicas e psicossociais. Decorre daí uma visão de que com todas essas mudanças fisiobiológicas o indivíduo será diretamente atingido no seu psicológico, onde a partir de então começam a gerar conflitos e crises decorrentes dessas mudanças físicas que apareceram.

Vimos até aqui que as mudanças biológicas na adolescência são acontecimentos existentes em todos os indivíduos que perpassam essa fase da vida humana, independente de classe social, cultura ou religião.

Ressaltamos o início da puberdade as transformações físicas ocorridas no corpo do menino e da menina adolescente. Para termos um melhor aprofundamento do assunto em questão no próximo tópico abordaremos as questões psicológicas, mostrando como essas mudanças físicas interferem na forma de pensar dos adolescentes.

3.2 OS EFEITOS PSICOSSOCIAIS DECORRENTES DAS MUDANÇAS BIOLÓGICAS

Por acontecer várias mudanças biológicas, ou seja, mudanças físicas no corpo dos adolescentes, essas acabam atingindo diretamente o psicológico desses indivíduos.

Os sintomas psíquicos são resultantes do aparecimento das mudanças corporais, onde os adolescentes não estão preparados psicologicamente para receber tantas transformações ao mesmo tempo. Assim CARRETERO (1995, p. 47) nos diz que:

Como já se sabe, a adolescência abre a porta para um mundo novo, que traz consigo importantes e profundas mudanças, não apenas na própria imagem do indivíduo e na maneira de interagir com seus iguais e com o resto das pessoas, mas se estende a novas formas de pensamento.

A partir de então podemos constatar que um fator importantíssimo que acaba influenciando os conflitos psicológicos é o aparecimento das mudanças corporais sem as correspondentes mudanças psíquicas. Nesse momento o adolescente ainda está tentado entender o que de fato está acontecendo com seu corpo, ou seja, qual o real sentido dessas mudanças. E sem encontrar a devida resposta vão se formando um turbilhão de questionamentos em seu psicológico.

Sobre esta desconexão, ou atraso do desenvolvimento psicológico em relação ao desenvolvimento biofisiológico CARVAJAL (2001, p. 73) afirma que “o puberal não aceita o ingresso numa etapa definitiva e metamorfose”. Partindo daí o adolescente começa a formar uma série de questionamento, uma série de dúvidas e anseios por respostas.

O psicológico desses adolescentes está invadido por mudanças que afetam o comportamento, as ações, e suas manifestações perante a família, escola e grupos sociais. Conforme CARVAJAL (2001, p. 74):

Os pais, professores ou adultos que convivem com adolescentes púberes acreditam que eles estão cheios de conflitos interiores que não querem expor, que tem traumas e conflitos conscientes que, por capricho ou agressão, não querem contar.

Não é simplesmente assim. Segundo o autor, não se trata de um conflito consciente, mas de conflitos decorrentes das mudanças que lhes foram acontecendo no decorrer do seu desenvolvimento físico e biológico.

Esses conflitos fazem com que o indivíduo mude sua maneira de se apresentar perante aqueles que até então os tinham como crianças, que a tudo aceitava, que a tudo se deixava permitir. O adolescente púbere está invadido por novas vivências e novos desejos. Vive uma grande ambivalência. O novo lhe agrada e ao mesmo tempo lhe inspira temor. Segundo CARVAJAL (2001, p. 76): “A mudança estrutural é ostensiva. O modelo infantil que consiste em uma concreta simbolização fora da mente, é abandonado, instalando-se em seu lugar uma abstrata simbolização intrapsíquica…”

É a partir dessa mudança ostensiva que o adolescente começa uma incessante busca para entender o que realmente está lhe acontecendo. Até então os conflitos não vão desaparecer, pelo contrário, ele vai entrar em uma nova etapa de busca onde começam a surgir outros sintomas freqüentes na vida dos adolescentes, são os sintomas conhecidos como crises. Essas são as Crises de Identidade, de Autoridade e Sexual nas quais será o assunto de nosso próximo tópico, onde buscaremos entender o que acontece aos adolescentes quando entram na complexa etapa das crises.

3.3 AS CRISES PRÓPRIAS DA ADOLESCÊNCIA

Na fase adolescente, a personalidade se consolida a partir de um processo que se denomina crise de identidade. As transformações físicas e psicológicas próprias da idade geram muitas inseguranças.

Coloca-se um conflito crucial entre deixar de ser criança e tornar-se um adulto. Por um lado, o jovem deseja conquistar sua autonomia, ser diferente dos seus pais, adquirir novas visões de mundo, mas por outro, sabe que ainda não está preparado para viver sem o apoio familiar. Por isto, mostra-se tão contraditório em algumas situações.

Partindo desse pressuposto é que abordaremos a seguir a questão das crises próprias dessa fase, onde falaremos da crise de identidade, autoridade e sexual.

3.3.1 A Crise de Identidade

O termo “crise” origina-se do grego “krisis” e significa ato ou faculdade de distinguir, escolher, decidir ou resolver. O vocabulário é usado, pois como parte integrante no processo de desenvolvimento do adolescente. Tanto no menino como na menina que entra na adolescência inicia uma caminhada onde se dá lentamente o adeus à infância. O brinquedo, até então algo inseparável começa a ser deixado de lado. Surge na memória um tempo que foi passando e não voltará mais. Começa brotar um sentimento de perda que ocasiona a crise.

A identidade é a consciência que a pessoa tem de si mesma como alguém que integra o mundo real existente. A crise de identidade está centrada na necessidade que o adolescente tem de ser ele mesmo na procura de uma definição de seu self , para assim romper com sua infância e conseguir se firmar como pessoa.

Conforme CARVAJAL (2001. p. 103) “a crise de identidade é a crise central da adolescência, pilar das mudanças, essência da metamorfose”. O período da adolescência é marcado por diversos fatores, mas, sem dúvida, o mais importante é a tomada de consciência de um novo espaço no mundo, a entrada em uma nova realidade que produz confusão de conceitos e perda de certas referências. ERIKSON, (1976, p. 132), diz que “a expressão ‘Crise de identidade’ foi apresentada para explicar o momento de incerteza quanto às mudanças que se fazem presentes na adolescência, tornado-se reconhecida como um momento catastrófico do desenvolvimento humano”.

Devido às mudanças ocorridas durante seu desenvolvimento biológico e psicológico os quais citamos no tópico anterior o adolescente anseia pela necessidade de encontrar o seu “eu”. Essa busca do “eu” significa a procura, a tentativa em obter uma identidade para seu ego. É o que lhe acarreta mais angústias, passividade ou revolta, dificuldades de relacionamento inter e intrapessoal, além de conflitos de valores. CARVAJAL (2001, p. 70), define:

A crise de identidade consiste na necessidade de o adolescente ser ele mesmo, de procurar definir seu self e seus objetos e de adquirir algo que o diferencie da criança e do adulto, para desta forma romper a dependência infantil e conseguir a auto-sustentação própria do ser maduro que dê continuidade à espécie.

Esse é um dos motivos que, conforme Carvajal faz com que o adolescente sinta a necessidade de romper com a dependência para formar uma identidade estável, ou à necessidade de finalizar uma confusão de papéis. Nesse momento, o comportamento oscila entre as ações impulsivas impensadas, esporádicas e repressão compulsiva.

Todavia, durante este tempo difícil o jovem procura um conhecimento interno e um entendimento de si, e busca formular um conjunto de valores. FIGUEIRA, et all (2007, p. 26) diz que “a identidade baseia-se na necessidade humana inata de sentir que se pertence a algum gênero particular ou espécie”. É preciso saber que se pertence a um grupo com o qual se compartilhe costumes, ideologias, enfim. A vitória desta etapa é a realização do sentimento básico de que “eu sou”.

O que realmente implica na crise de identidade é a perda das características infantis e a ruptura com figuras de dependências para encontrar uma nova característica corporal e entrar na busca por uma independência psicossocial.

É nesse momento que os adolescentes começam a luta pelo rompimento com as figuras parentais, especialmente a figura dos pais. Eles passam a se achar os heróis do pedaço, sem necessidade alguma do acompanhamento daquelas figuras que até pouco tempo eram o seu porto seguro. A partir daí torna-se mais violenta a luta contra seus representantes externos, os pais. Conforme CARVAJAL (2001, p. 112):

A desobediência, a prepotência, o denegrimento, a zombaria ante a autoridade dos pais serão maiores. O corporal começa a ganhar grande importância interna. O mundo externo se opacifica. Isso toma muito tempo do púbere e o afasta cada vez mais do contato familiar.

Entra aí, no entanto, a busca por novas relações. Àquelas que possam compreender o momento e compartilhar o que estão passando. Essa busca agora é pela identificação em algum grupo. Segundo CARVAJAL (2001, p. 113):

Agora o grupo é tão importante quanto cada indivíduo e está narcisicamente investido como o centro da atividade psíquica em cada membro do grupo. Por isso a intimidade é do grupo, já que tudo é compartilhado e todos ficam sabendo de tudo.

A partir daí o adolescente começa um novo investimento, o amigo íntimo e o grupo da mesma maneira ou até mais forte do que antes era investido na figura dos pais.

Estes investimentos não vão minimizando a crise de identidade, nem tão pouco levando-a rumo ao final, ao contrário, vai desencadeando em um novo tipo de crise. Agora existe a necessidade de enfrentamento a tudo que proíba a sua maneira de se manifestar: é a Crise de Autoridade, a qual falaremos no tópico seguinte.

3.3.2 A Crise de Autoridade

A crise de autoridade, na adolescência, é algo bastante forte e se caracteriza pelo confronto. Há uma atitude de rebeldia e muitas vezes até de desrespeito para com o adulto, especialmente para com os pais e outras pessoas que têm autoridade ou exercem determinada função.

Como o adolescente está mudando sua forma de ser, agir e pensar, e principalmente sua interação grupal, então ele está também absorvendo outros valores, outras condutas, diferentes daquelas que os pais lhe “impunham” antes de ele entrar nesse modelo. Para melhor fundamentar CARVAJAL (2001, p. 70) diz que “a crise de autoridade consiste num enfrentamento com tudo o que signifique norma ou imposição de modelos e que seja gerado pela vivência com o adulto de tudo de superegóico que não pôde ser internalizado no self durante a infância”.

Embora a crise central da metamorfose da adolescência seja a crise de identidade, em paralelo e inter-relacionada com aquela existe a crise de autoridade. É a mais ostensiva e incômoda para os adultos que convivem com os adolescentes e consiste numa atitude de oposição, de rebeldia e de confronto, às vezes dramático, com tudo o que implique autoridade.

É importante considerar que a adolescência consiste na passagem da inserção familiar para a absorção dos valores de uma cultura mais ampla, e um dos motivos que acarreta essa crise de autoridade é a busca intensa por uma identidade que o diferencie do resto do mundo, com ruptura do infantil e com um mandato interno de independência que implica necessariamente em se opor de maneira ativa ou passiva a qualquer coisa que possa inibir essa independência ou a qualquer coisa que lhe dê a sensação de continuidade com o objeto parental abandonado.

É nessa hora que se exige um delicado acompanhamento dos pais, não querendo impor algo, pois esse já é o motivo da crise de autoridade, mas na tentativa de prevenção, pois nesse momento o adolescente só aceita como normas, suas próprias internalizações e tende a rejeitar por princípio tudo o que considere alheio.

E o que passa a ser referência nesse momento são as figuras grupais, onde começam a associar naquele momento a imagem de líderes que merecem serem seguidos por apresentar comportamentos compatíveis com o deles. É também nesse momento que merece ainda mais a atenção dos pais, pois esses algumas vezes acabam se colocando em situação de riscos. De acordo com essa concepção CARVAJAL (2001, p. 129) diz que:

É importante esclarecer que por esta facilidade de identificar projetivamente em outras coisas não internalizadas, o adolescente é propenso a seguir ao líder. É bucha de canhão de personagens carismáticos que com freqüência podem conduzi-lo ao desvio de um desenvolvimento harmonioso e a viver situações de alto risco de vida.

Por todas essas razões, encaixam-se como uma luva todas aquelas estruturas de confronto e violência contra todas as figuras de autoridade. Os pais passam a ser chatos, caretas e incompreensivos.

Essa forma de pensar dos adolescentes vai distanciando-os cada vez mais do seio familiar, representando este um dos principais momentos em que a família deve se munir de muita paciência diante da tentativa do adolescente de se apropriar de espaços e objetos específicos só para ele. O egoísmo, gerado pelo excesso de narcisismo, faz com que compartilhar as coisas com pessoas diferentes de seus pares grupais seja quase impossível para ele.

A crise de autoridade que parece ser tão preocupante quanto à crise de identidade ainda não é a última turbulência por que passam os adolescentes até chegarem à reta final da sua evolução. Existe ainda uma outra crise que também é considerada muito importante para a adolescência a qual falaremos a seguir.

3.3.3 A Crise Sexual

A crise sexual é considerada também uma crise complexa. Há, nesta fase, uma re-elaboração total do mundo sexual que transforma a estrutura infantil em uma estrutura adulta. Em meio a esta nova fase de transição, o adolescente se desenvolve lentamente, o que acontece em diversas etapas. Há inicialmente a maturidade das gônadas e a mudança genital. Conforme CARVAJAL (2001, p. 70):

A crise sexual está centrada no aparecimento de um novo modelo psicológico para o manejo dos impulsos libidinais em eclosão e em aumento qualitativo, com vistas a instalar uma procriação eficiente e defensora da prole. (…) De maneira sucinta podemos pensar que está baseada na organização do erotismo sob novas leis estruturais. Trata-se de transformar uma estrutura infantil de funcionamento erótico em uma estrutura adulta.

Sendo assim, a crise sexual se instala a partir das transformações do corpo, o que exige uma adaptação à nova realidade. De um momento para o outro o corpo do menino e da menina começa a se transformar em um corpo de homem e de mulher, tudo isto os torna impacientes e descontentes, pois a imagem que o adolescente tem de si mesmo não corresponde ao seu lado ideal estético.

Braços, pernas, pés e mãos tornam-se longos. Emagrecem e espicham, ultrapassando, muitas vezes, os pais. O nariz parece ao adolescente pouco estético. Surgem às espinhas, e o suor passa a exalar um forte cheiro. A voz se modifica e é motivo para brincadeiras maldosas por parte de amigos e colegas de escola .Toda essa insatisfação leva os adolescentes a crises de desespero que são ainda mais fortes porque, nessa época, o adolescente tem necessidade de agradar ao sexo oposto.

Esse desenvolvimento lento e firme, que conta com algumas mudanças físicas de características muito definidas acaba desencadeando um conflito muito maior para o adolescente. Aquela criança que até então existia dentro de si agora mais do que nunca está dando lugar a um corpo com características adultas. E essas tais mudanças vão causar um desequilíbrio muito maior ao adolescente, pois é a partir de então que esse indivíduo começa também a descobrir um novo erotismo que vem acompanhado de uma grande ambivalência, altos níveis de excitação contida e concomitante angústia. Segundo CARVAJAL (2001, p. 136):

O púbere precisa se defender deste ‘ataque’ e o faz regredindo, recalcando, negando, dissociando, isolando-se, todas estas, manobras que se traduzem em condutas psíquicas e comportamentais: angústia, ensinamento, infantilização, passividade motora, indisciplina, irritabilidade, agressão, afetos desencontrados, fantasias invasivas e ambivalentes de procura e rejeição do gozo erótico.

A partir daí começa a se desencadear um novo conflito psicológico na vida

do adolescente, pois para fugir da situação ele encontra uma nova “saída” e acaba de forma indireta demonstrando outras manifestações. Esse pode ser definido de “masturbação na adolescência”.

Pouco a pouco a masturbação vai se convertendo normalmente em interesse maior na vida do adolescente. Pois esse procura investigá-la, colocá-la à prova e divertir-se com ela, manipulando-a até obter prazeres cada vez mais controlados e também mais intensos. Um primeiro orgasmo voluntariamente alcançado introduzem-os vertiginosamente e angustiadamente na masturbação.

Segundo CARVAJAL (2001, p. 137), “começa então a luta em relação a que lugar dar a esta nova experiência. Em geral não está suficientemente preparado para isso, por maior que seja a informação teórica que tenha a respeito”.

Como não está devidamente preparado para tal experiência essa acaba se tornando compulsiva e angustiante acompanhada ainda por uma sensação de culpa, essa última como tradução equivocada da angústia e ansiedades confusionais.

Com muita freqüência, o adolescente não consegue registrar adequadamente suas sensações e afetos, que acabam traduzindo equivocadamente o medo pela raiva, à angústia pela irritabilidade, a inveja pela perseguição, enfim, acabam confundindo uma série de sentimentos, transformando-os em conflitos e problemas.

Partindo de todos esses pressupostos a crise sexual é realmente uma das mais, senão a mais complexa, pois acaba desencadeando uma série de conflitos, que vão desde o descobrimento do erotismo, passando pelo sentimento de culpa causado pela masturbação até os conflitos de aceitação do próprio corpo, onde o adolescente precisa aceitá-lo e viver em paz com ele para alcançar um bom nível de relações com os outros.

Diante de tantas transformações físicas e psicológicas pelas quais passam os adolescentes, desde a entrada na puberdade até chegar a um período mais adulto, podemos perceber que essa é sem dúvidas uma fase muito delicada que merece muita atenção, não só por parte da família como também por parte da sociedade como um todo.

Sendo assim, tanto família, escola e sociedade tem papel fundamental no desenvolvimento biopsicossocial desse indivíduo. Conforme MOSQUERA (1977, p. 32) “o jovem é um ser humano com problemas e interesses, preocupado na busca de valores e significações”. As instituições sociais devem se encarregar de ajudar esses indivíduos a encontrar essas significações.

Os adolescentes mesmo com a necessidade de se tornarem autônomos precisam de um referencial, e o próximo capítulo se encarregará de trabalhar sobre a importância de instituições que o rodeiam, especialmente a família, escola e a sociedade. Como essas instituições devem lidar com esses indivíduos sem os alienar a seus padrões já moldados e como conviver com suas necessidades sem causar conflitos maiores.

4. A ADOLESCÊNCIA E A INFLUÊNCIA DAS INSTITUIÇÕES SOCIAIS

Abordamos no capítulo anterior a adolescência e suas transformações biológicas, a seguir nos propomos a falar da influência das instituições sociais para o desenvolvimento dos mesmos, levando em consideração a importância de instituições como família, escola e sociedade.

4.1 A FAMÍLIA COMO PRIMEIRA EXPRESSÃO DE SOCIEDADE

A adolescência é sem dúvida uma fase de vida da existência humana situada entre a infância e a idade adulta, na qual se verificam comportamentos típicos que identificam esse momento de transição. Entretanto, como já foi citado nos capítulos anteriores, a caracterização da adolescência não constitui tarefa muito fácil, porque os fatores biológicos específicos, atuantes na faixa-etária, se somam aos determinantes sócio-culturais, advindas do ambiente onde o fenômeno da adolescência ocorre. Para tanto CAMPOS (1985, p. 28) diz que:

No desenrolar da adolescência, o indivíduo é particularmente vulnerável não só aos efeitos decorrentes das transformações biológicas ocorridas em seu corpo, mas também das mudanças sem precedentes, provocadas, no mundo moderno, pelo impacto das explosões demográficas, do progresso científico, da tecnologia, das comunicações, das novas aspirações humanas e da rápida transformação social.

Assim, a autora nos demonstra que além dos fatores biológicos, os adolescentes são influenciados pelo ambiente familiar, social e cultural onde os mesmos se desenvolvem. Desta forma, iniciaremos nossa discussão pelo papel da família, já que esta representa a primeira instituição no sistema social em que o ser humano é inserido desde o seu nascimento.

A família, desde os tempos mais antigos, corresponde a um grupo social que exerce marcada influência sobre a vida das pessoas, sendo encarada como um grupo inserido em um contexto social mais amplo com o qual mantém constante interação.

O grupo familiar tem um papel fundamental na constituição dos indivíduos, sendo importante na determinação e na organização da personalidade, além de influenciar significativamente no comportamento individual através das ações e medidas educativas tomadas no âmbito familiar.

Sendo assim, SCHENKER (2003, p. 35), diz que “esta instituição é responsável pelo processo de socialização primária das crianças e dos adolescentes”. Nessa perspectiva, a família tem como finalidade estabelecer normas e limites para as relações estabelecidas entre as gerações mais novas e mais velhas, propiciando a adaptação dos indivíduos às exigências do conviver em sociedade, levando em consideração as normas e valores que a sociedade impõe a cada indivíduo.

Assim nem todos os processos da adolescência dependem apenas do indivíduo como unidade isolada em um mundo impessoal inexistente, ou seja, não depende somente das transformações biofisiológicas, mas também da influência social, do meio em que está inserido.

Conforme KNOBEL et all (1981, p.18) “não há dúvida que a constelação familiar é a primeira expressão da sociedade que influi e determina grande parte da conduta e comportamento dos adolescentes”. A partir daí torna-se perceptível que é nessa instituição que esses indivíduos começam a conhecer e ter noção de valores, de conduta e de moral. A família é como uma rede de apoio social para as diversas transições que o adolescente sofrerá até chegar ao estágio adulto.

É fato que a estrutura familiar sofreu mudanças ao longo dos tempos. Aliás, estranho seria não ter sofrido, uma vez que está acompanha as mudanças da sociedade. Entretanto, as funções básicas desempenhadas por esta instituição no decorrer do processo de desenvolvimento psicológico de seus membros permanecem as mesmas. Ou seja, mesmo sofrendo tantas transformações ao longo dos tempos, a família ainda traz em sua estrutura a consciência de que é seu o papel de educar e instruir os adolescentes para enfrentar os desafios que a vida adulta oferecer.

Todos os conflitos, transformações e mudanças vividas no processo adolescente por cada individuo, é também vivido pela família. Segundo KNOBEL et all, (1981, p.19) “muitos pais sentem grande ansiedade e temor frente ao crescimento de seus filhos”. E isso causa certa instabilidade por parte dos pais, talvez por não estarem preparados e não saberem lidar com tais transformações na vida dos filhos que até então eram crianças e agora estão se transformando em adolescentes.

Conforme CAMPOS (1985, p. 121) ”muitos pais se angustiam e atemorizam diante do advento da genitalidade dos filhos, revivendo suas próprias situações edipianas e originando situações conflitivas complexas”. Mesmo tendo passado por todas essas transformações que os filhos estão passando no momento, ainda sim, ao lidar com eles os pais se sentem um pouco perdidos até pelo fato que a família atual já não tem mais a estrutura que tinha antigamente, o modelo familiar que antes era tido como tradicional, hoje já não é mais igual.

Diante de todas as transformações da adolescência, é necessário que os pais encontrem uma maneira de lidar com as situações de mudanças ocorridas na adolescência, para que não causem conflitos maiores com os filhos. Sobre esse ponto, KNOBEL et all (1981, p. 39) diz que:

Pais ajustados psicologicamente são aqueles que proporcionam ao ser em desenvolvimento condições satisfatórias para que não surjam situações traumáticas, isto é, situações que surgem as capacidades do ego para se defender e sublimar. (…) Pais ajustados são aqueles que se comportam de forma a não violentar a intimidade dos filhos, permitindo que se realizem normalmente os processos biopsicológicos do desenvolvimento, o que possibilitará a aquisição da ‘identidade sexual’ e da identidade do self sem fixações nem dependências estressantes e conflitivas.

Sendo assim, por a adolescência se tratar de uma fase naturalmente conflitiva e por a família ser a primeira instituição na qual esses indivíduos tem contato, é necessário que seja um ambiente tranqüilo e que os pais possam estar preparados para lidar com os conflitos e transformações ocorridos nesse processo de transformação.

A família possui um papel primordial no amadurecimento e desenvolvimento biopsicossocial dos indivíduos, apresentando algumas funções primordiais, as quais podem ser agrupadas em três categorias que estão intimamente relacionadas: funções biológicas (sobrevivência do indivíduo), psicológicas e sociais. Conforme Osório (1996, p. 38):

A função biológica principal da família é garantir a sobrevivência da espécie humana, fornecendo os cuidados necessários para que o bebê humano possa se desenvolver adequadamente. Em relação às funções psicológicas, podem-se citar três grupos centrais: proporcionar afeto ao adolescente, aspecto fundamental para garantir a sobrevivência emocional do indivíduo; servir de suporte e continência para as ansiedades existenciais dos seres humanos durante o seu desenvolvimento, auxiliando-os na superação das “crises vitais” pelas quais todos os seres humanos passam no decorrer do seu ciclo vital (um exemplo de crise que pode ser mencionado aqui é a adolescência); e criar um ambiente adequado que permita a aprendizagem empírica que sustenta o processo de desenvolvimento cognitivo dos seres humanos. No que tange à função social da família, o cerne está na transmissão da cultura de uma dada sociedade aos indivíduos, bem como na preparação dos mesmos para o exercício da cidadania.

Para melhor explicar à citação acima, podemos dizer que no que diz respeito às funções biológicas da família, caracteriza-se uma instituição capaz de prover a subsistência dos seus membros, capaz, sobretudo, de servir ao homem como espaço propiciador de desenvolvimento e de adequação do seu ser ao mundo.

No que se refere às funções psicológicas, a família tem a possibilidade de mostrar, com sua presença e atenção constante, os caminhos da verdadeira humanização, os valores individuais e sociais, por sua vez, pode-se considerá-la como um espaço em que se educa, estimulando os seus membros a serem eles mesmos, a desenvolverem suas qualidades, a potencializarem sua alto estima sem precisar transgredir a vida em sociedade.

Para concluir de forma sucinta, ao falarmos das funções sociais da família, podemos dizer também, que é a partir do processo socializador que o indivíduo elabora sua identidade e sua subjetividade, adquirindo, no interior da família, os valores, as normas, as crenças, as idéias, os modelos e os padrões de comportamento necessários para a sua atuação na sociedade. PRADO (1995, p. 40), nos afirma que “é através da própria família que o adolescente se integra no mundo adulto. É nesse meio que ele aprende a canalizar seus afetos, a avaliar e selecionar suas relações”.

A família deve, portanto, estar presente em todos os momentos da vida de seus filhos. Deve ser presença que implica envolvimento, comprometimento e colaboração. Deve estar atenta a todas as dificuldades encontradas por eles e estar pronta para intervir da melhor maneira possível, visando sempre o bem estar dos mesmos.

Em outros termos a instituição familiar deve ser o espaço indispensável para garantir um bom desenvolvimento bio-psico-social do adolescente. Por conseguinte, entende-se por família, o espaço gerado pelo dinamismo social do homem, que unido a um outro semelhante, projetam uma história que foram socialmente partilhadas.

Para não tornarmos esta discussão por demais simplista, é importante abordamos que quando se trata da preparação do individuo adolescente para a inserção no mundo adulto e na sociedade, a família não é uma instituição isolada que trata desse processo de formação. A escola assim como a família é uma instituição de extrema importância à formação e preparação do adolescente para a sociedade.

Baseado neste pressuposto que desenvolveremos a seguir o próximo tópico que fala sobre a escola. Falaremos da função social e dos conflitos que os adolescentes se deparam dentro dessa instituição, e o que esta pode fazer para que esse indivíduo possa superá-los de maneira positiva.

4.2 O PAPEL SOCIAL DA ESCOLA NA FORMAÇÃO DO ADOLESCENTE

Vimos no tópico anterior à importância da família para a vida dos adolescentes, já que esta é a primeira instituição na qual o indivíduo mantém contanto socialmente, a partir daí, consequentemente esse individuo expandirá suas relações com outros meios e instituições.

Dessa forma iniciamos o presente tópico apontando a importância da instituição escola para a vida dos adolescentes, visto que esta é uma instituição também socializadora, onde prepara o indivíduo para o mundo adulto.

É fato que a etapa do ciclo vital que começa na puberdade e desemboca na adolescência é um período difícil para todos os membros que nela estão envolvidos direta, ou indiretamente. Sejam os indivíduos adolescentes, sejam as instituições nas quais eles compõem: família, escola ou sociedade.

Essa etapa traz mudanças que implicam em comportamentos novos e conseqüentemente necessidade de modificações na estrutura, funcionamento, regras, limites tanto na família e especialmente na escola.

Assim, a escola tem como missão educar o adolescente à vida adulta e socializada, possibilitar o conhecimento de valores e ajudar o adolescente no seu aperfeiçoamento de vida, na sua capacidade de desenvolvimento da eficiência. Esta instituição constitui um referencial estruturante nesta fase importante da formação da personalidade que é a adolescência e, por este motivo, deve contemplar, em sua filosofia de ensino, atividades que promovam o amadurecimento do jovem.

Cabe, pois, à escola, além das ações específicas da escolarização, assumir também seu papel de instância formadora dando oportunidade aos adolescentes de manifestarem seus desejos de transformação e mudança, sem castrar seus valores adquiridos ao longo de todo esse processo de transição. Segundo MACEDO (1998, p.164):

O jovem é, talvez, o membro que tem maior mobilidade entre o dentro e o fora dos sistemas dos quais é membro, podendo trazer, com grande ímpeto e muita rapidez, estímulos novos, questionamentos, expressões, comportamentos e valores…

Assim, o individuo adolescente traz à escola uma capacidade de mudança dos padrões estabelecidos, causando até uma série de conflitos, mas a escola precisa compreender que esse individuo está passando por um momento onde tudo é transformação, e que, aceitar normas e padrões impostos, pode não ser tarefa tão fácil para ele.

Sabemos que quando o indivíduo começa a transição entre a infância e a adolescência algumas normas e padrões dentro da escola precisam ser revistos, porque estes estão ganhando mais autonomia, necessitam então que suas opiniões sejam levadas em consideração. Ao contrário, surge daí vários conflitos, onde nasce a analogia em que rotula o jovem adolescente como um ser difícil de lidar, e que este é apenas o único culpado por seu comportamento. Para reforçar essa afirmação, MACEDO (1998, p. 161) nos diz que “na escola, a rigidificação das regras produz grandes confrontos que culminam em geral com a identificação e punição dos alunos-problemas, via de regra sua expulsão do sistema”.

Todo sistema escolar aberto, tem a capacidade de mudar, assim como na família, na escola o jovem precisa encontrar espaço para exercer seus questionamentos, sem que estes representem a destruição dos valores já elaborados por ambas as partes. Ou seja, o jovem adolescente deve respeitar assim como precisa ser respeitado também.

De certa forma, o confronto entre os limites impostos pela sociedade e pelas leis de convivência social é necessário para que o adolescente aprenda a negociar ao invés de apenas submeter-se ou impor-se. Nesse aspecto, a escola tem como função oportunizar contextos de expressão para que o jovem também possa manifestar seus desejos de transformação, sem que haja conflitos maiores. Para melhor compreensão desse tópico, MACEDO (1998, p. 165), diz o seguinte:

Compreender o jovem implica em perceber o grau de flexibilidade com o que podemos aceitar, absorver e nos enriquecer com suas contribuições. Tolerar e poder lidar com os altos e baixos das próprias decisões e atitudes do jovem: ora muito ‘maduras’, ora completamente ‘absurdas’ segundos os critérios em vigor. Dar suporte para a experimentação necessária às suas idéias, potencialidade.

Essa forma de poder compreender os comportamentos manifestados pelos adolescentes, implica, sem dúvidas, no estabelecimento de novas formas de relacionamento, onde o adolescente vai ser mais bem compreendido não apenas dentro da escola, mas também dentro da família e da sociedade em que está inserido.

Sabemos que a escola traz uma série de padrões já estabelecidos a serem cumpridos pelos indivíduos que lá freqüentam, mas essa instituição precisa rever suas relações com a realidade que gira em torno, dando assim maior oportunidade para que não haja conflitos rancorosos entre a instituição e o individuo adolescente. Sabemos que é muito difícil mudar, ainda mais quando quem nos aponta essas necessidades de mudanças são pessoas que estão passando por um momento de transição e que para todos os efeitos ainda não tem uma “personalidade definida”, mais ainda sim é possível, basta à escola aprender a ter maior flexibilidade. Conforme MACEDO (1998, p. 166):

A questão toda está na maior habilidade para lidar com os conflitos, com o impacto da inadequação das regras estabelecidas e enfrentar as crises com criatividade e coragem para mudar. É muito difícil reconhecer que é preciso mudar e, sobretudo o que é preciso mudar e como, principalmente quando quem nos aponta as falhas são os filhos/alunos.

Tendo em vista que a escola é um espaço de reflexão, é possível acreditarmos na sua plena influência para a vida dos adolescentes já que estes estão no processo de transição à fase adulta, precisando encontrar bases fundamentais para formação de um indivíduo conscientes dos direitos e deveres. Sendo assim, a escola é o lugar ideal para que ocorra a busca por essa consciência, pois é através dela que podemos conservar ou superar modelos e valores.

Ainda nessa linha de raciocínio é função do meio escolar equilibrar os vários elementos do meio social, e providenciar para que cada indivíduo tenha a oportunidade de se libertar das limitações do grupo social em que nasceu e entrar em contato ativo com um meio mais amplo. Neste sentido é interessante observamos a reflexão desenvolvida por RODRIGUES (2001, p. 21):

A escola tem como função desenvolver, organizar, e ampliar a consciência política dos educandos a partir da própria prática pedagógica, enquanto atividade específica da vida da escola, desde os seus níveis mais elementares até os níveis superiores de educação escolar.

Desse modo, a escola como mediadora do conhecimento, tem como função principal estimular o adolescente enquanto sujeito transformador é também na escola que o adolescente precisa encontrar seu espaço para assumir o protagonismo de sua história e de seu futuro na sociedade.

Assim como na família, na escola o adolescente precisa encontrar espaço para exercer seus questionamentos e mostrar o seu momento de ascensão à fase adulta. A escola precisa oportunizar contextos de expressão para que o jovem possa mostrar seu potencial e desmistificar esse paradigma tão forte que diz ser a adolescência uma fase de tormenta e que o adolescente é um ser difícil de lidar.

Conforme GANDIN (1997, p. 108) ”educar é dotar a população de instrumentos básicos para a participação na sociedade”. O desenvolvimento emocional e cognitivo na adolescência se realiza no decorrer das diversas atividades oferecidas no espaço educativo da escola. Além disso, é importante que o mesmo possa exercitar na escola seu desenvolvimento social, do ponto de vista de sua participação no coletivo, enquanto cidadão de direitos e deveres.

Vimos, pois, como a escola assume função importante na aquisição das habilidades para o desempenho da vida societária. Destacamos, aqui, a noção de alteridade, ou seja, de reconhecimento e respeito às necessidades do outro, a ética das relações, a convivência com as diferenças. Destacamos como a escola pode influenciar para que estes indivíduos possam se tornar adultos responsáveis e donos de sua história.

Dessa forma reconhecemos que escola e família são dois sistemas interligados na busca de uma boa formação de seus membros. Para que possamos melhor entender isso, MACEDO (1998, p. 171) nos revela que:

A situação é complexa e se cada qual resolver agir à sua maneira, reagindo às adaptações, tornando-se rígidos demais em suas exigências, não considerando as peculiaridades e novidades apresentadas por esses membros e, o que é pior, ignorando-se um ao outro, os resultados a esperar são os piores possíveis na direção de conflitos, confrontos, rebeldia, omissão, agressividade de todas as partes.

Pensando nisso é que a escola assim como a família, precisa preparar bem o adolescente, para que ao se deparar com as normas e valores exigidos pela sociedade não haja mais tantos conflitos. Sendo assim, no próximo tópico abordaremos como se relaciona sociedade e adolescência, diante de tantas transformações e mudanças ocorridas no decorrer de todo esse processo de transição pelo qual passa o adolescente até chegar à fase adulta.

4.3 ADOLESCENCÊNCIA E SOCIEDADE

No tópico anterior vimos à importância da instituição escola para a vida dos adolescentes. Sendo a adolescência também um fenômeno social, almejamos nesse tópico entender como se dá a relação do adolescente com a sociedade como um todo, já que os conflitos existenciais na adolescência normalmente aparecem como problemas entre o sujeito e a sociedade.

Quando estudamos o sujeito adolescente estamos estudando também todo o social que o envolve. Pois todas as transformações ocorridas ao longo do processo de mudanças implicarão justamente no meio social, onde esses indivíduos se orientam e organizam suas condutas.

A sociedade traz um conjunto de regras e valores aos quais o indivíduo adolescente precisa adaptar-se, isso demonstra a poderosa influência da sociedade no estabelecimento da personalidade desse indivíduo, bem como as diferentes possibilidades de patologia onde a família, as subculturas adolescentes e as variáveis culturais intervém de forma evidentemente determinantes. Para compreendermos melhor KNOBEL (1981, p. 19) nos diz que:

Se agregarmos a isto os típicos mecanismos projetivos do adolescente e de toda a sociedade na qual se desenvolve, observa-se que a sociedade intervém, muito ativamente, na situação conflitiva do adolescente. A sociedade estabelece as normas de conduta e determina a maioria das possibilidades e tipos de identificações, assim como o esquema final de estruturação da personalidade em determinada cultura.

Nossa sociedade é muito complexa e padronizada, onde exige que todas as pessoas mantenham um padrão uniforme, especialmente no que diz respeito a moral e os costumes. Como o adolescente está saindo da infância, ele ainda não tem estrutura suficiente para absorver todas essas exigências com a qual se depara, daí começa a surgir os conflitos.

Partindo desse pressuposto, seria um grave erro atribuir todas as características do adolescente, sejam elas conflitivas ou não, às suas mudanças biológicas, subestimando o contexto social. As primeiras identificações do adolescente com o meio social começam com a família, mas ao longo do processo de transformações os outros meios em que o adolescente vive vão determinando novas identificações e incorporando uma quantidade de normas sócio-culturais que se tornam impossíveis de recusar ou minimizar.

A sociedade de certa forma caracteriza o adolescente como um ser difícil de lidar, este fato ocorre devido as incontroláveis mudanças físicas que acontecem nesta fase e às exigências feitas pelo meio social acabam formando um turbilhão de conflitos na personalidade dos mesmos.

A sociedade também apresenta uma série de mudanças, é regulada e dirigida de diferentes maneiras, de acordo com cada cultura, limitando assim o adolescente, fazendo com que o mesmo reaja de forma a querer adaptar esse meio aos seus anseios. Essas mudanças acabam causando instabilidade na vida dos adultos que já tem uma personalidade formada, imagine para os adolescentes que estão em fase de transição. Para justificar esse parágrafo KNOBEL (1981, p. 20) diz que:

A sociedade, por outro lado, atravessa intensas reestruturações em todos os momentos, especialmente em nossa época. Portanto, adquire significado diferente para os adultos que devem enfrentar estas modificações com maior responsabilidade (e, sem dúvida, com maior ansiedade). Essas mudanças geram sentimentos de insegurança, desacomodação e reações paranóides facilmente detectáveis. O mundo adulto se vê ameaçado não apenas pelas mudanças sócio-culturais, como também sente ameaçada sua intimidade, além de seus próprios conflitos, obrigando-o a recorrer a um mecanismo paranóide por meio do qual projeta e desloca toda ameaça na juventude. Assim, por efeito desse mecanismo psicodinâmico, os jovens são, muitas vezes, marginalizados e rejeitados.

Estes fatos implicam numa cuidadosa atenção às acusações feitas pela sociedade aos adolescentes, quando apontam este indivíduo como um ser difícil e complicado de lidar. É realmente uma fase difícil, mas é também um momento de transição, sendo assim a sociedade também apresenta falhas ao querer adotar um padrão de regras, na qual julga o adolescente.

Este julgamento pode deixar os indivíduos vulneráveis a prováveis desestruturações de personalidade, já que a subestimação dessas situações acarretará na predominância de uma adolescência ressentida, que dessa maneira irá projetar-se na idade adulta. Conforme KNOBEL (1981, p. 21) “o fato de o adolescente chegar a ser um adulto satisfeito, irá depender, em grande parte, das possibilidades que encontrar para expressar adequadamente sua personalidade”.

Partindo de todos esses pressupostos, torna-se importante ressaltar mais uma vez, que esse desenvolver gradual, do poder e da capacidade, não é simplesmente um fato universal condicionado biologicamente. Ainda que os processos biológicos básicos de maturação sejam, provavelmente, semelhantes em todas as sociedades humanas, o desenvolvimento social desse indivíduo é variável e influenciado de acordo com cada meio e cada cultura. Reforçando esse entendimento concordamos com SOLARI apud MOSQUERA (1977, p. 30), quando diz que “a adolescência, apesar de suas transformações biológicas, é, essencialmente, um fenômeno social e por isso é profundamente influenciada pelas considerações e mitos que a sociedade faz de si”.

Portanto, é conveniente considerar a adolescência tanto como um fenômeno específico de um ciclo vital do desenvolvimento, como também uma expressão circunstancial de natureza sócio-cultural.

O adolescente é um ser inseguro, essa insegurança é considerada intensa devido ao momento de metamorfose pelo qual está passando. Esse indivíduo não pode olhar à frente com facilidade e nem planejar seu futuro sem perigos. Sua área principal é crescer, desenvolver confiança, alcançar uma clara visão de si como homem/mulher que surge, do mundo circundante e talvez o mais significativo, preparar-se para as tarefas da vida adulta.

Sendo assim, tanto a família, a escola e a sociedade tem papel fundamental no desenvolvimento biopsicossocial desse indivíduo. Conforme MOSQUERA (1977, p. 32) “o jovem é um ser humano com problemas e interesses, preocupado na busca de valores e significações”. As instituições sociais devem se encarregar de ajudar esses indivíduos a encontrar essas significações.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao aprofundar essa discussão sobre o tema citado verificou-se através de um resgate histórico que o conceito de adolescência passou por um processo de transformação ao longo dos tempos. Através de estudos sobre psicologia da adolescência, percebemos ainda que só a partir do século XVIII, XIX, que surgiu a necessidade de elaborar um conceito para a fase da vida humana que intermediava entre a infância e a idade adulta.

Esse conceito caracterizou-se por adolescência, onde o individuo passa por uma série de transformações biológicas, psicológicas e sociais. Também podemos constatar que mesmo sendo a adolescência um processo de metamorfose entre a criança e o adulto, suas manifestações e comportamentos variam dependendo do modelo padronizado por cada cultura. Assim o adolescente manifestará seu comportamento de acordo com o meio em que está inserido, desencadeando assim vários tipos de adolescência, conforme as regras e padrões que cada cultura impõe.

As mudanças biológicas ocorridas na puberdade, durante esse processo, são fenômenos universais para todos os membros da espécie humana, pois englobam transformações físicas pelas quais todos os indivíduos passarão independente de qualquer cultura ou sociedade, porém os efeitos psicossociais que atingem o ser humano nessa fase da vida são efeitos dessas mudanças, por não estarem preparados para tantas transformações os adolescentes, acabam reagindo de forma à desencadear conflitos e crises.

Essas crises se dão pelo fato do individuo não saber quem é realmente, gerando muitas inseguranças, colocando-se um conflito crucial entre deixar de ser criança e torna-se adulto. Essas crises trazem perdas, encontros e dúvidas. Como na crise de identidade onde o adolescente está deixando seu corpo e mente de criança e adquirindo outras características físicas, outras maneiras de pensar e agir. Na crise de autoridade como o adolescente está mudando sua forma de agir e pensar, este também está absorvendo novos valores. E a crise sexual traz ao adolescente uma nova adaptação à realidade, pelo fato, das transformações do corpo, pela descoberta do erotismo, enfim, por todas as transformações que os envolvem nesse processo de mudança.

Podemos perceber ainda, que diante de todo esse processo de transformação, o ser adolescente mesmo com a necessidade de tornar autônomo, precisa de um apoio fundamental para o desenvolvimento de sua personalidade. Esse apoio vem de instituições que acompanham de perto todas as transformações ocorridas e todas as necessidades pelas quais os adolescentes perpassam. Assim a família, como primeira expressão de sociedade, a escola como segundo sistema em que o adolescente se insere e a sociedade com suas normas e valores impostos trazem uma importante influência para a vida dos mesmos. Porém, da mesma forma que estes podem trazer benefícios, podem também prejudicar causando traumas, medos etc, travando o processo criativo dos adolescentes.

A partir de todo o estudo desenvolvido, de todas as teorias estudadas, podemos constatar que a adolescência, portanto, deve ser compreendida como um processo de transição biopsicossocial da infância para a idade adulta, onde estão presentes influências históricas e culturais na constituição do psicológico internalizado, mas com uma enorme influência dos aspectos culturais e socais referentes ao “modelo” difundido na sociedade, além dos papeis atribuídos a cada gênero pela cultura. Sendo assim, torna-se errôneo ou equivocado falar-se da adolescência apenas como uma transformação biológica, onde o que marca essa fase são apenas mudanças físicas.

Ao longo de todo o processo da adolescência, o adolescente está envolvido diretamente com o biopsicossocial, pois desde que entra na etapa da puberdade, onde começam aflorar as transformações biológicas, ou seja, físicas, esse individuo já começa a passar também por um processo de transformação psicológica e social.

Portanto, torna-se necessário, como possibilidade de superar essa visão negativista sobre a adolescência, de que essa é uma fase isolada do desenvolvimento humano, reconhecer o adolescente como alguém que cresceu, que também deve ser tratado com respeito quanto ás suas opiniões e desejos.

Por fim, queremos apontar a importância que os sistemas sociais, especialmente, família, escola e sociedade, têm sobre o desenvolvimento dos adolescentes para que esse indivíduo possa se tornar um ser maduro e consciente de seus direitos e deveres. Sem medos ou traumas. Que possa encarar os processos sociais como sujeito histórico, como ser ativo no seu fazer social.

O objetivo desse estudo foi promover uma discussão maior sobre o tema abordado, fazendo com que se dê a devida importância sobre a adolescência como um processo de construção social. Depois, abrir novos caminhos a posteriores pesquisadores, já que as limitações de pesquisa se fizeram presentes durante todo o desenvolvimento do trabalho.

Entretanto, percebemos que a presente discussão é muito ampla e requer um maior aprofundamento. Então esperamos que esse estudo não seja um ponto final, mas uma abertura a estudos posteriores, cada vez mais aprofundados que possa promover uma reflexão maior a respeito dessa temática, fornecendo elementos para um debate não somente em nível acadêmico, mas também socialmente, estimulando nossos estudiosos um interesse maior sobre a questão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

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GEWANDSZNAJDER, Fernando. Ciências. São Paulo: Ática, 2002.

Os Sonhos

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Os sonhos são o assunto deste artigo, com este faremos uma analise de alguns autores como Freud que segundo ele os sonhos são realizações de desejos inconscientes, segundo Domhoff “o sonho é um processo imaginativo que reflete as concepções, interesses e preocupações emocionais do individuo”. Estes e outros irão falar sobre o que pensam sobre o assunto dos sonhos, mas que sempre voltam em Freud para tentar explicar suas teorias que foram desenvolvidas e vividas por ele e seus pacientes descritos em seu livro “a interpretação dos sonhos”.


Introdução

Os sonhos são fascinantes para os indivíduos e para a cultura. A evidência de tal interesse está na quantidade de publicações sobre o assunto sejam cientificas ou não e, principalmente nas manifestações culturais que utilizam os sonhos para muitas explicações da vida cotidiana e até previsões do futuro.

Neste artigo, o objetivo é focar o estudo dos sonhos no campo da Psicologia e as contribuições que aparecem entre alguns autores.

O conhecimento sobre os sonhos é uma questão antiga. De acordo com Nietzsche, na época inicial da cultura, o homem acreditava que estava descobrindo um segundo mundo real no sonho.

Para o povo antigo os sonhos eram efeitos de um trabalho desconexo, provocado por estímulos fisiológicos.

Com teoria psicanalítica de Freud, a interpretação dos sonhos, trouxe os sonhos para o campo da Psicologia, proporcionando uma análise mais aprofundada sobre o inconsciente, que se manifesta através dos sonhos, e que são realizações de desejos inconscientes. Esta teoria se baseia na idéia de desejo reprimido e Freud foca principalmente em desejos sexuais e simbolismo.

Para Freud “A interpretação dos sonhos é a via real que leva ao conhecimento das atividades inconscientes da mente”, e não apenas isso, mas também é o melhor caminho para o estudo da neurose. A razão disso está em que o sonho dos neuróticos não difere do sonho das pessoas normais, e Freud chega a dizer que a diferença entre a neurose e a saúde vigorosa apenas durante o dia, não se estende à vida onírica. Uma pessoa sadia é vigorosamente um neurótico, só que os únicos sintomas que ela consegue produzir são os seus sonhos. Assim, os sonhos não são apenas a via privilegiada de acesso ao inconsciente, eles são também o ponto de articulação entre o normal e o patológico (Garcia Rosa).

Em A Interpretação dos Sonhos, Freud formula as leis e as características do inconsciente. Com este conceito consegue juntar fenômenos distintos como o sonho e os sintomas histéricos.

A tese central do texto é a de que “O sonho é a realização de um desejo”. Estes desejos entendam, não é necessariamente um desejo que possamos aceitar em nossa vida vigil. Quando não se trata de um desejo aceitável, nos diz Freud, preferimos esquecê-lo. Este esquecimento será descrito como conseqüência de um mecanismo chamado ‘recalque’. O desejo recalcado, no entanto, permanece em algum lugar exercendo seus efeitos. Os sonhos são apenas um exemplo destes efeitos.

Na interpretação dos sonhos duas afirmações de Freud: a primeira é que os sonhos não são absurdos, mas possuem um sentido; e a segunda e a que os sonhos são realizações de desejos.

“Os sonhos são realizações inatingíveis de desejos não consumados.”

“A realidade dos desejos nos sonhos é geralmente de natureza sexual.”

Freud

Cada sonho possui um conteúdo manifesto, (parte do sonho que é lembrado conscientemente) é um conteúdo latente (parte do sonho que não é lembrado conscientemente antes da análise); Freud acreditava que muito do conteúdo do sonho se encontra disfarçado por meio de símbolos, e que a maior parte dos sonhos remontavam as experiências vividas pelo sujeito.

Freud (de 1856 a 1939) propôs que o sonho reflete conteúdos individuais da pessoa que sonha, geralmente tratando-se da satisfação de desejos ou expressões de pulsões reprimidas. Além disso, ele afirma que os sonhos são construídos a partir da experiência do sujeito. Sempre contêm referências ao dia passado e todas as falas significativas são provenientes de falas que a pessoa que sonhou ouviu ou leu durante o dia vivido por ela.

É através da análise do sonho que é possível assim sua interpretação.

Diferentemente, seu contemporâneo mais jovem, Jung (de 1875 a 1961), distinguiu entre sonhos insignificantes que trabalham problemas do cotidiano e sonhos significativos que são um caminho de transmissão da sabedoria milenar da humanidade. Esses últimos trazem símbolos que, independentes das narrativas tecidas ao redor deles pela pessoa que sonha, têm uma vida própria por serem produtos espontâneos do inconsciente coletivo. Enquanto o inconsciente pessoal é o resultado da vivência do indivíduo, os conteúdos do inconsciente coletivo não foram adquiridos durante a vida individual.

Quando a pessoa vivencia suas experiências cotidianas de forma excessivamente unilateral, seu sonho pode até criar, para compensar os déficits, um mundo completamente oposto. Além disso, há sonhos que predizem o futuro ou contêm uma advertência para um perigo futuro. Às vezes esses sonhos pretendem sinalizar para a pessoa que ela precisa mudar seu estilo de vida ou fazer uma determinada escolha para evitar uma catástrofe futura. Para interpretar os sonhos, não depende, como é o caso no método freudiano, das associações altamente pessoais do paciente, mas procuram-se referências nos mitos antigos, na arte e em outras fontes. Sonhar é um estado alterado de consciência no quais as imagens e fantasias lembradas são temporariamente confundidas com a realidade externa.

Ao contrário de Freud, as situações absurdas dos sonhos, para Jung, não seriam uma fachada, mas a forma própria do inconsciente de se expressar. Para Jung, há os sonhos comuns e os arquetípicos, revestidos de grande poder revelador para quem sonha. A interpretação de sonhos é uma ferramenta crucial para a psicologia analítica, desenvolvida por Jung.

Pesquisa empírica, citada por Domhoff (2003), mostrou que atos de fala em relatos de sonhos coletados em laboratórios de sono geralmente são construções originais (e não repetições de falas que ocorreram nas vivências acordadas do participante). Essas falas são reações ao contexto dinâmico dos acontecimentos no sonho. É exatamente essa natureza espontânea que torna importantes os atos do paciente no seu sonho. A qualidade espontânea e intuitiva (quer dizer, não governada por regras, mas modelada pelas contingências) do sonho o torna uma fonte particularmente rica em dicas sobre as contingências importantes na vida do paciente (Vandenberghe, 2004).

De acordo com Domhoff (2003), pesquisas empíricas documentaram que os sonhos relatados por clientes focalizam assuntos em destaque na relação terapêutica e não são, de forma alguma, uma amostra representativa dos seus sonhos. Esse dado mostra mais uma vez que os sonhos que o cliente traz para o consultório não podem ser mais do que uma fonte adicional de informação quando se trata do diagnóstico.

Sonhar é uma atividade cognitiva, como indicado pela continuidade entre o conteúdo dos sonhos os pensamentos e comportamentos vigies. O que as pessoas sonham é também o que elas pensam ou fazem quando estão despertas.

Na teoria da continuidade de Domhoff o sonhar, na qual o sonho é um processo imaginativo que reflete as concepções, interesses, e preocupações emocionais do individuo.

Com as teorias dos autores aqui sitados é possível concluir que todos falam dos sonhos mais que são concepções diferentes e técnicas de analise diferentes.

Freud trouxe o sonho para Psicologia para uma analise mais detalhada, pois os sonhos são um pouco do sujeito, e seu modo de viver, agir socialmente, interagir com o meio. Muitos sonhos são analisados e interpretados por ele e o que mais custou ao autor, foi o fato de que, devido ao sigilo com que deveria resguardar os sonhos de seus pacientes, Freud utiliza os próprios sonhos para dar seqüência à obra A interpretação dos sonhos.

Sonhar é natural do ser humano, todos nos sonhamos, e com a concepção de vários autores sobre os sonhos, espero que tenha entendido um pouco sobre algumas dessas dentre varias outras concepções, e que este artigo possa dar a possibilidade para uma pesquisa mais detalhada.

Referências

_ HILGARD, Ernest Rop. Introdução à Psicologia de hilgard, Porto Alegre: Artmed, 2002, 13ª Ed.cap. 6 págs. 224 a 227.

_ GARCIA ROSA, Luiz Alfredo, Freud e o inconsciente, Rio de Janeiro, 2004,20ªed. Cap. 3 págs61 a 86.

_ FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos. Vol. 1 e 2. São Paulo: Círculo do Livro. Tradução de Walderedo Ismael de Oliveira e revisão de Vera Ribeiro. Volume 1 (p. 141-43)

_ L. VANDENBERGUE. Universidade Católica de Goiás, Departamento de Psicologia. 5ª Avenida, Setor Universitário, Goiânia, GO, Brasil. E-mail: <[email protected]>. Estudos de Psicologia I Campinas I 24(2) I 239-246 I abril – junho 2007 1 Luc VANDENBERGHE Artur Vandré PITANGA A análise de sonhos nas terapias cognitivas e comportamentais

_ http://pt.wikipedia.org/wiki/Sonho

A Linguagem Falada na Zona Urbana de Luzilândia

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O presente trabalho buscou compreender e conhecer a linguagem utilizada na sociedade, em diferentes grupos sociais, pois quando se pensa em falar sobre linguagem, acaba-se por se realizar uma atividade profunda de análise linguística. A linguagem é um fato social, onde todo ser humano que vive incluso na sociedade, independente de qual seja ela, possui sua própria linguagem. E quando se passa a questionar a fala, é como se modificasse a língua no seu contexto social e cultural, pois se sabe que existe uma grande variedade linguística em todo mundo. Com isso este estudo tem como base as diversas opiniões sobre linguagem, buscando demonstrar como ela está sendo desenvolvida na sociedade. Pois, o grande problema que a fala enfrenta é o preconceito dialetal, que deve ser enfrentado e superado na sociedade. E para isso, buscou-se salientar as diferentes formas de linguagem, a padrão, a coloquial e as gírias, retratando a importância de cada uma no meio social.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
1 METODOLOGIA DA PESQUISA
1.1 O Campo Pesquisado
1.2 Dados dos Entrevistados
2 UM BREVE HISTÓRICO DA LINGUAGEM
2.1 A Lei de Grimm
2.2 Labov e a Linguagem
2.3 A Linguagem Falada no Brasil
2.4 A Linguagem Padrão
2.5 A Linguagem Coloquial
2.6 A Gíria
2.7 A Linguagem na Zona Urbana de Luzilândia
3 COLETA DE DADOS
3.1 A Análise de Dados
3.2 Dados Relativos à Entrevista aos Moradores
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS

INTRODUÇÃO

O ser humano sente necessidade de comunicar-se e viver em sociedade, para isso, ele utiliza a linguagem que é um fator natural de cada indivíduo, sendo que ao mesmo tempo partilha com estes, diversos saberes e conhecimentos sobre sua aprendizagem e o mundo.

Para o indivíduo a expressividade oral é algo que requer confiança em si mesmo. Isso se conquista mediante ambientes favoráveis à manifestação do que se pensa, do que se sente, do que se é. Produzir linguagem significa produzir discursos, ou seja, dizer alguma coisa para alguém, de uma determinada forma, num determinado contexto histórico.

A linguagem é uma forma de ação inter-individual que nasce com cada indivíduo, seja ela oral gestual, escrita etc. É por meio desta que a pessoa apresenta sua forma de comunicação, orientada por uma finalidade específica, um processo de interlocução que se realiza na prática social existente nos diferentes grupos de uma sociedade, nos distintos momentos da sua história.

O domínio da língua tem estreita relação com a possibilidade de plena participação social, é por meio dela que o homem tem acesso à informação, expressa e defende pontos de vista, partilha ou constrói visões de um mundo, produz conhecimento. A idéia é que a língua está programada de alguma forma em nossa mente, como uma parte de nosso conhecimento do mundo.

Toda língua é adequada à comunidade que a utiliza. O indivíduo aprende a variedade qual é exposto e sempre existirá um conjunto de variedades linguísticas circulando no meio social.

Portanto, tornou-se como objeto de estudo a pesquisa feita com moradores de dois bairros situados no município de Luzilândia (PI) que são Centro e Cajueirão, onde se observou a diferença linguística praticada por estes.

Dessa forma, partiu-se para a análise da comunicação falada com pessoas residentes dos bairros citados anteriormente, tendo como foco o conhecimento linguístico e as diferentes variações existentes.

O presente estudo é composto por três capítulos, sendo no primeiro capítulo a apresentação da metodologia utilizada para a realização deste. No segundo, fala-se da linguagem usada pelos brasileiros, marcada por uma heterogeneidade original. Relaciona-se também como parte dessa linguagem, a padrão, a coloquial e a gíria, em particular o linguajar Luzilandense que, assim como em qualquer outra comunidade, possui a sua variedade linguística. Além de relacionar algumas gírias populares ditas pelos indivíduos residentes em um dos bairros da cidade, e que se fala também em outros municípios nordestinos. O terceiro capítulo aponta para o resultado da pesquisa feita em alguns moradores do município de Luzilândia (PI) que promove algumas diferenças entre a língua falada (língua padrão, coloquial e gíria), mostrando as situações de produção oral entre emissor e receptor.

Para finalizar foram desenvolvidas as considerações finais às quais procuram comprovar, através do seguinte trabalho, que há uma grande variação linguística no município como em qualquer outro lugar. E que essa variação é uma forma de comunicação de fácil entendimento com os demais falantes da língua.



1 METODOLOGIA DA PESQUISA

Este estudo teve como campo de pesquisa dois bairros de Luzilândia, Centro e Cajueirão, com o propósito de observar as formas de linguagem que estão sendo feitas entre os moradores e tentar entender porque em uma única cidade pode existir diferentes formas de linguagens. E com base nisso, o presente trabalho divide-se em duas etapas.

A primeira baseia-se na realização da pesquisa bibliográfica, onde se faz toda uma busca de materiais adquiridos na biblioteca e em meio eletrônico. Com essa pesquisa passa-se a conhecer a opinião de vários autores sobre o tema em estudo, adquirindo informações importantes para a realização deste estudo. Depois da leitura e análises dos teóricos, prossegue-se para a segunda etapa, a pesquisa de campo exploratória, onde leva-nos a uma pesquisa mais empírica, por meio de uma observação não participativa.

A pesquisa consiste na realização de um conjunto de ações e técnicas muito bem planejadas em um projeto de pesquisa, apresentada sequencialmente para a construção de informação original de acordo com certas exigências e pedidos.

Os materiais utilizados para a realização deste trabalho foram: uma entrevista com perguntas estruturadas durante uma conversa informal. Esse estudo foi direcionado aos moradores de dois bairros de Luzilândia-Pi, com observação em dupla tendo com objetivo principal observar a linguagem que estão sendo feitas pelos os mesmos. Os dados foram colhidos no espaço natural dos entrevistados, analisando e observando que seria maior necessidade para o esclarecimento do tema deste trabalho.

1.1 O Campo Pesquisado

O referido trabalho foi realizado na cidade de Luzilândia do estado do Piauí, nos bairros: Centro e Cajueirão. Os bairros pesquisados encontram-se localizados em diferentes partes da cidade dando assim uma diferença grande na linguagem e comportamentos diários dos moradores do mesmo.

1.2 Dados dos Entrevistados

▪ Centro

Os entrevistados do Centro da cidade são pessoas mais letradas, onde na sua maioria têm os estudos mais avançados e onde os moradores têm seus filhos mais frequentes nas escolas. E percebe-se que seu linguajar é mais padrão, mais rico.

▪ Cajueirão

A entrevista foi destinada aos jovens de 18 a 25 anos de idade. E o que se pode observar é que na sua maioria falam do jeito de seus pais, e que muitos deles não chegaram a cursar o ensino fundamental e que grande parte dos jovens desse bairro participa de programa para jovens e adultos. Porque a maioria deles são obrigados a começar a trabalhar muito cedo, deixando de lado assim a escola. E apesar de muitos programas oferecidos pelo governo, alguns moradores não chegam a frequentar a escola.

2 UM BREVE HISTÓRICO DA LINGUAGEM

Sabe-se que ao longo da história, a linguagem vem ganhando espaço nos diversos campos de estudos. Todos com o mesmo objetivo, o de compreendê-la. Hoje a linguagem é estudada por vários profissionais: psicólogos, antropólogos etc. Ambos se interessam em observar e analisar os processos cognitivos, sociais, políticos, pragmáticos etc. Todos ligados ao nascimento e evolução da comunicação humana.

Segundo Mussalim e Bentes, (2006, p. 77) “a linguística histórica estuda os processos de mudanças de línguas no tempo”. Sendo assim, todas as mudanças que ocorrem na língua dentro de uma sociedade é estudada pela linguagem.

Os estudos históricos da linguagem foram desenvolvidos principalmente a partir do século XIX, onde foram traduzidos no latim, no grego e no sânscrito, pois a linguística só afirmou-se como ciência a partir desses três estudos.

Linguagem e sociedade estão ligadas entre si de modo inquestionável. Mais do que isso, podemos afirmar que essa relação é a base da constituição do ser humano. A história da humanidade é a história de seres organizadores em sociedade e detentores de um sistema de comunicação oral, ou seja, de uma língua. Efetivamente, a relação entre linguagem e sociedade não é posta em dúvida por ninguém, e não deveria estar ausente, portanto, das reflexões sobre o fenômeno lingüístico. (MUSSALIM; BENTES, 2006, p. 21)

Partindo deste ponto de vista, percebe-se que não se pode separar a linguagem das sociedades, pois à medida que a sociedade evolui e cresce, a linguagem se expande também, ambas estão ligadas por uma questão natural, a linguagem nasce e evolui à medida que a sociedade também evolui.

Ainda com relação à linguagem, sabe-se que há vários tipos, onde as pessoas utilizam como código ou como conjunto de signos que se combinam segundo regras e que transmite mensagens, informações de um emissor a um receptor. Nesse contexto, há necessidade de falantes dominarem esse código para que a comunicação seja efetiva, visto que o falante sempre tem em mente uma mensagem a ser transmitida a um ouvinte, ou melhor, informações que devem chegar ao outro.

Para outros, é visto apenas como instrumento de comunicação onde o indivíduo utiliza ao usar a língua, e não é somente transmitir informações a outrem, mas sim realizações, agir, atuar sobre o interlocutor ouvinte e leitor. Sendo assim, a linguagem é lugar de interação humana e comunicativa pela produção de efeitos e sentidos entre interlocutores.

No final do século XVIII Sir William Jones, sendo um juiz inglês na Índia, propôs que o latim, o grego e o sânscrito eram línguas que apresentavam semelhança entre si. No entanto, ele foi mais além, apesar de demonstrar a semelhança entre as línguas citadas, com seus métodos de correspondência de som, e mesmo buscou comprovar as suas teorias, como também hipotetizou que as três línguas eram derivadas de outra língua, possivelmente já existente, sendo “proto-indo-europeu”, segundo Mussalim e Bentes (2006, p. 77). Partindo deste contexto, percebe-se que era o início de estudos sistemáticos em Linguistica e Histórica e Comparativa, que, graças a variedade de registros históricos, se concentraram nas línguas indo-européias.

Vários estudiosos depois de Sir William Jones, como os Dinamarqueses Rasmus Rask e Karl Verner e o alemão Jacob Grimm se interessaram para o estudo e o entendimento das relações entre as línguas indo-européias.

2.1 A Lei de Grimm

Segundo Mussalim e Bentes (2006, p. 78), “Rask descobriu e um pouco mais tarde Grimm aperfeiçoou analiticamente as seguintes mudanças com relação à língua-mãe, o proto-indo-europeu (PIE)”:

1) as consoantes oclusivas surdas( p, t, k, kw ) do PIE mudaram em fricativas surdas correspondentes ( f, v, h, hw ) nas línguas germânicas. 2) as consoantes oclusivas sonoras ( b, d, e, gw ) do PIE mudaram em oclusivas surdas correspondentes ( p. t, k. kw ) nas línguas germânicas. 3) as consoantes aspiradas sonoras ( bh, dh, gh. Gwh ) do PIE, mudaram em oclusivas não aspiradas sonoras correspondentes ( b, d, g, gw ) nas línguas germânicas.

Percebe-se que a partir daí, começou o aperfeiçoamento e a evolução dos estudos sobre as línguas. Para a linguagem atingir o campo que se tem hoje, passou por vários processos.

2.2 Labov e a Linguagem

Não se pode falar da linguagem humana sem mencionar os nomes de William Labov, Chomsky, Bloomfield, Hjelmslev, Martinet, e Saussure.

A descrição linguística, assim como os fatores sociais que atuam na língua, somente passaram a ter êxito com os trabalhos de Labov, que logo se tornou o representante mais conhecido da chamada teoria da variação linguística.

Deve-se ter em mente que a língua não é simplesmente um veículo para se transmitir informações, mas é também um meio para se estabelecer e manter relacionamentos com outras pessoas.

A função da língua de estabelecer contatos sociais e o papel social, por ela desempenhado, de transmitir informações sobre o falante constitui uma prova cabal de que existe uma íntima relação entre língua e sociedade.

Tal relação é muito mais profunda do que se imagina. A língua como sistema acompanha de perto a evolução da sociedade e reflete de certo modo os padrões de comportamento, que variam de acordo com o tempo e o espaço.

O interesse principal dos trabalhos de Labov refere-se ao condicionamento social das línguas com relação aos fenômenos de variação e de mudanças linguísticas. É o que explica Labov (1968 apud MONTEIRO, 2000, p. 111):

A variação no comportamento linguístico em si mesmo não exerce uma decisiva influência no desenvolvimento social nem afeta as oportunidades de vida do individuo. De modo oposto, a forma de comportamento linguístico muda rapidamente quando muda a posição social do falante.

Percebe-se então que a própria fala dos indivíduos, se não tem o poder de influenciar os padrões, pode ao contrário ser afetada por estes.

A linguagem é uma forma simbólica de exprimir nossos pensamentos, ajudando a organizar nossas percepções e a formular conceitos a partir dessas percepções, além de servir de recursos indispensáveis para o ser humano em sociedade.

Em 1964, Labov fixa um modelo de descrição e interpretação do fenômeno linguístico no contexto social de comunidades urbanas conhecidas como Sociolinguistica Variacionista ou Teoria da Variação, onde teve um grande impacto na Linguistica contemporânea.

O objeto da Sociolinguistica é o estudo da língua falada, observada, descrita e analisada em seu contexto social, isto é, em situações reais de uso.

Uma comunidade de fala se caracteriza não pelo fato de se constituir por pessoas que falam do mesmo modo, mas por indivíduos que se relacionam, por meio de redes comunicativas diversas, e que orientam seu comportamento verbal por um mesmo conjunto de regras.

Segundo Orlandi (1986, p. 52):

O estudo da variação é essencial para W.Labov. Temos como um exemplo, em português, no caso da variável que é a marca de plural, a seguinte variação: os carros vermelhos/ os carros vermelho / os carro vermelho. A presença ou ausência de “S” é o que chama variante.

A linguagem não é só instrumento de pensamento ou instrumento de comunicação. Ela tem função decisiva na constituição da identidade.

Ainda não se conseguiu estabelecer um acordo sobre o que de fato constitui uma comunidade de fala.

Assim, para Labov (1972 apud MONTEIRO, 2000, p. 40):

A expressão não pode ser aplicada a um grupo de falantes que utilizam todas as mesmas formas, e, sim a um grupo que segue as mesmas normas relativas ao uso da língua. (…) numa cidade como Nova Iorque, os falantes mais idosos nãos pertencem à mesma comunidade dos mais jovens.

Sendo assim, numa comunidade de falantes, as pessoas não compartilham necessariamente a mesma língua, e sim compartilham um conjunto de normas e regras para o seu uso. Um exemplo, o português falado no Brasil e em Portugal, ou seja, embora tanto os brasileiros quanto os portugueses possam fazer parte de uma única comunidade linguística, distinguem-se quanto às regras e atitudes face ao uso do idioma.

Neste caso, de acordo com Labov, a variedade linguística é comum em qualquer comunidade de falantes.

Para Fishman (1972 apud MONTEIRO, 2000, p. 40), “o que vale é o fato de que todos os membros do agrupamento social tinham pelo menos em comum uma variedade linguistica, assim como as normas de seu emprego.”

Observou-se que Fishman quer dizer o mesmo que Labov, ou seja, que num grupo de falantes com apenas uma variedade em comum, compartilham regras, acordos ou normas para a realização dessa linguagem ou o seu emprego seja correto.

As idéias de William Labov modificam as atitudes dos educadores com relação a própria concepção de linguagem, contribuindo, através dos resultados de suas pesquisas, não só para as decisões educacionais e sim também para as decisões políticas exigidas através das questões relacionadas à diversidade linguística que vem se destacando gradativamente no mundo moderno.

Para se chegar a um entendimento do chamado português do Brasil e da sua realidade linguística é necessário cada vez uma leitura imprescindível a todos que se interessam pelos problemas de linguagem.

2.3 A Linguagem Falada no Brasil

Linguagem e sociedade estão ligadas entre si de modo inquestionável. Mais do que isso, pode-se afirmar que tal relação é a base da constituição do ser humano.

De acordo com Martin (2003, p. 55-56):

A linguagem é o conjunto das condições que tornam possíveis a construção da língua. Tais condições têm toda a chance de serem as mesmas. Qualquer que seja a língua. A linguagem é uma função humana, uma função ligada à espécie. Se uma língua é adquirida é por causa, ao menos em parte, do inatismo da linguagem: toda criança, salvo deficiência mental, é capaz de adquirir uma (ou várias) língua (s) – e não importa que língua.

De fato, as línguas só podem ser adquiridas pela aprendizagem. Como o pensamento e a linguagem estão estreitamente unidos em seus usuários, é preciso que se analisem as possíveis interferências que um deles pode ter sobre o outro, assim como o modo pelo qual eles se relacionam.

O homem procura denominar o mundo em que vive. Uma forma de ele ter esse domínio é o conhecimento. Esse é um dos motivos pelos quais ele procura explicar tudo o que existe. A linguagem é uma dessa maneiras. Ao procurar explicar a linguagem, o homem está procurando explicar algo que lhe é próprio e que é parte necessária de seu mundo e da sua convivência com os outros seres humanos.

Compreende-se, portanto, que a linguagem está incondicionalmente associada com a atividade mental humana, a qual só em virtude dela se pôde firmar a desenvolver.

Borba (1987, p. 09) escreve que

A atividade de comunicação é uma constante em qualquer escola da vida animal, todos os animais se comunicam de alguma forma e em algum período de sua vida seja por necessidade de sobrevivência seja por imperativos biológicos (…) só possíveis através de um mínimo de interação.

Muito aspecto da realidade linguística brasileira que até então haviam recebido uma importância menor por parte dos estudiosos da linguagem: incluindo-se as línguas indígenas, as línguas e os dialetos trazidos pelos africanos e pelos europeus e as inúmeras variedades regionais do português.

Geralmente, cada país tem a sua língua. É o que se chama língua comum ou língua nacional. Assim, na França, fala-se francês, no Japão, japonês. Há, porém, países com mais de uma língua nacional. A Suíça, por exemplo, tem três línguas nacionais. Por outro lado, uma língua pode ser comum a mais de um país, e, portanto, a língua nacional desses países. É o caso do Português, língua nacional de Portugal e do Brasil.

Saussure (apud CÂMARA JR,1980, p. 25) estabeleceu a diferença entre língua e fala, onde a primeira representa um fato social, e a segunda, um ato individual.

Na cidade de Brasília, existem brasileiros provenientes de todos os estados, onde os professores certamente são capazes de identificar os sotaques nordestino, gaúcho, mineiro etc. O mesmo acontece em outras grandes cidades brasileiras que são pólo de recepção no processo migratório e por isso recebem brasileiros de diversas proveniências.

Segundo Ricardo (2004, p. 30-32):

A principal marca dos falares nordestino é as vogais / e / é / o / pronunciadas abertas quando vêm na sílaba pretônica. Exemplo: o [ ó ] ração, R [ ó ] Berto, r [ é ] dendo, r [ é ] moto, v [ é ] rolade, pr [ ó ] curar. Mas há também outras marcas nesse sotaque, como o / t / pronunciado como uma consoante línguo dental diante de / i /. [ … ] No Centro – Sul do país, o fonema / t / diante da vogal / i / não tem pronuncia línguo dental e sim uma pronuncia palatal, que podemos representar assim: / tch /, como nas palavras Tiago, tijolo, tijuca e contigo.

No Brasil, a linguagem falada nas cidades litorâneas, foram sendo criadas ao longo do século XVI e XVII, como Salvador, Rio de Janeiro, Recife e Olinda, Fortaleza. São Luís, João Pessoa, entre outras, sempre tiveram mais prestígio que os falares das comunidades interioranas. Isso se explica porque as cidades brasileiras estão voltadas para a Europa e receberam um enorme contingente de portugueses nos três primeiros séculos de colonização e desenvolveram uma linguagem mais próxima dos falares lusitanos.

Hoje, no Brasil, os falares de maior prestígio são justamente os usados nas regiões economicamente mais ricas, influenciadas pelos fatores históricos, políticos e econômicos.

A aquisição da linguagem é uniforme na espécie humana. É também específica da espécie humana. Toda pessoa normal aprende uma língua humana. Mas nenhum outro animal mostrou-se capaz de um mínimo de progresso nesta direção, embora alguns animais possam aprender a resolver problemas, a usar instrumentos, etc.

Numa sociedade como a nossa, a linguagem precisa de ser ensinada e aprendida, se a quisermos em níveis mais abstratos e técnicos, principalmente porque a ascensão social está quase sempre ligada ao domínio determinados registros da língua padrão. Considerados mais importantes ou mais cultos. Por isso, a escola tem uma grande importância na aprendizagem da língua, visto que ela é a instituição social destinada a conter a desenfreada e desorganizada evolução de uma língua, como acontece com todas as línguas faladas por muitas pessoas, como o português o inglês, o espanhol, etc.

2.4 A Linguagem Padrão

Nas linguagens especiais encontram-se fatores psicológicos e sociais, entre outros, que agrupam as pessoas de acordo com a profissão, a religião, as atividades, etc. Esses grupos expressam-se através do sistema linguístico comum a todos, fazendo uso de certas particularidades expressivas e representativas desse sistema.

Como é de conhecimento, a língua varia, no tempo, no espaço geográfico, no espaço social de uma situação comunicativa para outra. Existem, portanto, várias “línguas portuguesas” cada uma das quais é uma variedade do português.

O carioca e o paraense, embora não usem o mesmo código, falam a mesma língua, porque se consideram membros da mesma comunidade linguística e, supondo-se que tinham certo grau de escolaridade, utilizam, na comunicação escrita formal, a mesma variedade dessa língua, que é a sua forma padrão. Portanto, embora existam várias “línguas” portuguesas como códigos, há um e somente um português como instituição social.

A língua padrão é a variedade culta formal do idioma. O termo norma culta não é sinônimo de língua padrão. Ocorre que a língua culta, isto é, a das pessoas com nível elevado de instrução, pode ser formal ou informal. A língua padrão é a culta, mas limitada à sua vertente formal.

A variedade padrão é a variedade linguística socialmente mais valorizada, de reconhecido prestígio dentro de uma comunidade, cujo uso é normalmente requerido em situação de interação definidas pelas comunidades como próprias. Em função da formalidade da situação, do assunto tratado da relação entre os interlocutores, etc.

Oliveira (1999, p. 65) relata que:

A gramática normativa funciona até certo ponto como padrão linguístico ideal, termo que em sociolingüística se refere a maneira como os falantes gostariam de falar (ou de escrever) em circunstâncias formais, em oposição ao padrão lingüístico real, que é a forma como eles realmente falam e escrevem nessas circunstancias.

A variedade padrão de uma comunidade, não é a língua por excelência, a língua original, da qual os falantes se apropriam como podem ou são capazes. É o resultado de uma atitude social ante a língua, estabelecida mediante um conjunto de normas que definem o modo “correto” de falar.

2.5 A Linguagem Coloquial

Cientificamente não há nada que possa fundamentar a superioridade ou inferioridade de uma forma de falar em relação a outra. Se o falar do campo é visto como errado ou inferior face à norma dita culta ou língua-padrão, isto é apenas um julgamento social, motivado por puros preconceitos contra a linguagem rural.

O modo de falar revela o que o ser humano é. Luft (1985, p. 01) diz que: “toda língua (…) é questão de uso”, ou seja, toda mudança linguística ocorre a partir do usuário da língua, do falante. É o costume que vai determinar as normas da língua e não o contrário.

A autonomia e a liberdade do indivíduo passam pela linguagem que ele utiliza. É a sua maneira de mostrar seu pensamento sobre o mundo. A língua está viva, não é algo que se esquece tão logo se saia da sala de aula.

A fala coloquial é uma fonte inesgotável de invenções vocabulares.

Um dos preconceitos mais fortes numa sociedade de classes é o que se instaura nos usos da linguagem. Se o falante é um camponês ou mora numa favela, se é analfabeto ou de baixo nível de escolaridade, é lógico que sua maneira de falar não será a mesma que a das pessoas que se situam no ápice da pirâmide social. Este falante provavelmente usará formas como rida, pranta, expilicar e musga ou construções do tipo nós veve, ele viu eu, eu vi ele etc. E, com isso, é mais discriminado ainda pela sociedade.

Com isso, Labov (1972 apud MONTEIRO, 2000, p. 65) diz que:

A variedade das classes dominadas tende a se desestruturar, quando em contato com a variedade de classe dominante, gerando inúmeros sentimentos de culpabilidade ou de inferioridade linguísticas, que cevam muitos falantes a se envergonharem de seus próprios dialetos.

2.6 A Gíria

A intolerância linguística é um dos componentes sociais mais facilmente observáveis, seja na mídia, nas relações sociais cotidianas, nos espaços institucionais etc. Na realidade, existe sempre um conjunto de variedades linguísticas em circulação no meio social.

A gíria é um vocabulário informal e peculiar usada por um determinado grupo social. A gíria dá um novo significado às formas já existentes ou que tenham sido alteradas nesse sistema linguístico comum. O objetivo da gíria é não se fazer entender por quem não pertence a um determinado grupo. Logo, ela pretende manter a identidade e a consciência de um determinado grupo social.

A criação de termos e expressões pode servir ao desejo de não se fazer entender por estranhos ao grupo. A comunidade geral tende a receber essas inovações na linguagem de forma antagônica, opondo os sentimentos de conservadorismo e de curiosidade. Assim, estamos diante de um dos mecanismos mais interessantes no que diz respeito à evolução da língua.

Cunha (2004, p. 244) aborda a transformação da linguagem especial em gíria:

[…] desde o momento em que deixe de ser uma proteção involuntária do grupo, mas no instante em que este, tomando consciência do caráter enigmático de sua linguagem, passe a usá-la voluntariamente, em ocasião oportuna, como arma não só de defesa, mas também de ataque aos profanos.

Pode-se dizer que toda gíria é uma linguagem especial, mas nem toda linguagem especial é obrigatoriamente uma gíria. Também se pode entender gíria como uma linguagem particular de um grupo caracterizado por deformações intencionais, criações anômalas, transformações semânticas, de caráter burlesco, jogos ou depreciativo. Ela é falada para excluir da comunicação as pessoas estranhas e para reforçar o sentimento de identidade dos que pertencem ao grupo.

A gíria é, portanto, derivada de contribuições variadas da língua comum, incorporando arcaísmos, neologismos, aspectos estilísticos, mudanças sintáticas e outros recursos que, a princípio, teriam o objetivo de tomar uma linguagem irreconhecível.

Embora inicialmente restrita a um pequeno grupo, muitas vezes ela passa a fazer parte da língua cotidiana.

A língua do adolescente não deve ser considerada como gíria, porque pretende atingir de forma original as pessoas de fora do seu grupo, a fim de incorporá-las a ele. No entanto, não deixa de ser gíria, porque, fora do universo do adolescente, seus falantes adotam a língua geral.

2.7 A Linguagem na Zona Urbana de Luzilândia

É sabido que em qualquer comunidade, seja ela qual for, há sempre variações linguísticas. Isso quer dizer que qualquer comunidade, seja pequena, como um distrito semi-rural pertencente a um município, ou grande, como uma capital, um estado ou um país, sempre apresentará variação linguística, que decorre de vários fatores.

O município de Luzilândia, como qualquer outro, também apresenta essa diversidade linguística.

Observa-se que nos grupos etários, os avós falam diferente dos filhos e dos netos etc. Pode-se dizer que o mesmo ocorre na sociedade como um todo.

Ricardo (2004, p. 47) relata um episódio com relação a isso:

Uma aluna de pedagogia que trabalha de dia em uma casa lotérica me relatou um episódio ilustrativo das diferenças lingüísticas associadas a grupos etários. Um cliente, já idoso, sempre a procurava para fazer o jogo e um dia ele disse: “moça, qual é a sua graça?”. Ela ficou sem entender e sem saber o que responder. Só mais tarde percebeu que a pergunta era: qual é o seu nome?

Nota-se também que a linguagem dos homens é fortemente marcada pelos chamados palavrões e gírias mais chulas, especialmente nos bairros afastados do centro da cidade, onde se pode citar o bairro Cajueirão.

Há um provérbio conhecido que diz: “Dize-me com quem andas e eu te direi quem és”. Essa sentença resume um conceito muito importante: cada um de nós adota comportamentos muito semelhantes aos das pessoas com quem convivemos em nossa rede social.

Neste bairro, de acordo com as pesquisas realizadas, há uma forte predominância de uma variedade da língua muito comum em bairros distantes do centro-local onde se concentra certas atividades comerciais, burocráticas e de serviços – é o que se denomina de gírias.

Observa-se que os falantes das gírias a desenvolver com a intenção de “impressionar” e “chamar a atenção” dos não iniciados, sobretudo por parte daqueles que residem no centro, que possuem um grau de escolarização mais elevada, além do nível social mais acentuado, por isso utilizam uma linguagem coloquial, porém com predominância da língua padrão, devido às atividades profissionais que desenvolvem, desempenhando assim, um fator condicionador de seu repertório sociolinguístico.

Utilizam-se a gíria com a finalidade de não ser compreendida pelas pessoas que não pertencem ao respectivo grupo. Além das gírias. Utilizam-se também a linguagem coloquial, porém, a primeira é a que predomina entre os falantes, sobretudo entre a juventude residente no bairro citado.

Portanto, mediante observações com relação à linguagem de alguns falantes moradores do bairro Cajueirão, pode-se destacar algumas palavras e frases consideradas como gírias:

3 COLETA DE DADOS

Qualquer língua é representada por um conjunto de variações. A linguagem não é simplesmente um meio de transmitir informações, mas é, sobretudo um símbolo de identificação do indivíduo com um determinado grupo social. Cada grupo social estabelece um contínuo de situações cujos pólos extremos e expostos são representados pela formalidade e informalidade.

A língua que uma criança aprende, aprende-a a partir dos modelos que tiver em seu convívio, qualquer que seja a situação. É durante a primeira infância que a língua materna se instala, segundo processos de aprendizagem particulares. A estrutura da linguagem humana é algo extremamente complexo. É lógico que, numa sociedade do tipo da nossa, a linguagem precisa ser ensinada e aprendida.

Segundo Lanchec (1977, p. 76)

A língua materna, bem fixada, permite-lhe organizar suas relações com o mundo exterior, segundo certas estruturas ligadas à sua língua de origem e exercer influencia permanentes sobre a segunda língua. Somente uma aprendizagem precoce, antes dos cinco anos pode permitir o domínio harmonioso e sem esforço de vários códigos lingüísticos.

Toda língua é adequada à comunidade que a utiliza, permite a um povo exprimir o mundo em que vive. Sempre existirá um conjunto de variedades linguísticas circulando no meio social. A linguagem não é, portanto meio neutro de transmitir ideias, mas sim constitutiva da realidade social, é sua parte presente e legitimadora.

3.1 Análise de Dados

Neste período de prática do estudo será apresentado o resultado encontrado da pesquisa a partir das observações e das respostas obtidas na entrevista dirigida aos moradores dos seguintes bairros: Cajueirão e Centro, situados no município de Luzilândia (PI). Sobre os aspectos: o linguajar utilizado, as diferentes variedades da língua.

3.2 Dados Relativos à Entrevista Aplicada aos Moradores

Dentre as pessoas entrevistadas foram jovens com idade entre 18 a 25 anos. Observou-se que a linguagem utilizada pelos moradores do Bairro Cajueirão é extremamente coloquial, ou seja, a gíria. Segundo eles, falam essa linguagem desde criança, pois cresceram ouvindo seus pais, amigos e a comunidade. O grau de escolaridade é muito precário, alguns estudaram até o 4º ano do ensino fundamental e outros nunca frequentaram a escola.

Já na segunda pesquisa feita no Centro da cidade o resultado é bem diferente. São pessoas onde o índice de escolaridade é mais alto. Algumas utilizam-se da linguagem coloquial, mas a que predomina é a padrão.

No decorrer da entrevista foram observadas algumas palavras e expressões utilizadas pelos moradores:

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Espera-se, com este estudo, mostrar para aqueles que se propõem a conhecer a heterogeneidade linguística dos brasileiros, em particular a linguagem do município, ou qualquer outro lugar, no qual o indivíduo está inserido. Tendo a consciência de que a língua é básica da inteligência humana, além de ter grande importância na organização da conduta da criança e no seu desenvolvimento.

As pesquisas relativas ao desenvolvimento da linguagem humana ainda estão longe de atingirem uma explicação adequada e eficiente com relação a sua organização, aquisição e evolução, visto que a cada dia surgem novos vocábulos na fala dos brasileiros de um modo em geral.

Os novos rumos tomados pela linguística, através dos estudiosos pesquisadores, sem dúvida têm relacionamento com os estudos relativos à linguagem.

Entende-se facilmente que há uma relação muito estreita entre o pensamento e a linguagem. Que há mesmo uma interdependência relativa entre eles, de tal forma que muitos pensamentos e muitos conceitos seriam irrealizáveis sem o auxílio da linguagem e que ela é, quando exteriorizada, a simbolização do pensamento, quando interiorizada, o elemento básico de sua organização.

Não é difícil compreender que todo ser humano possui uma competência linguística razoavelmente evoluída. A aquisição da linguagem é natural e espontânea em todos os seres humanos, desde que sejam colocados em contato com outras pessoas que usam alguma linguagem durante certo período.

O modo pelo qual cada indivíduo usa a sua competência linguística, não afetará em nada a sua organização, ou seja, a sua estrutura.

É fácil observar a diversidade da língua em todos os estados brasileiros, desde o norte até o sul. E que, a homogeneidade linguística é um grande mito, que pode ter consequências graves na vida social.

A língua é um dos componentes do sistema cultural. Assim como não existem línguas “inferiores”, não existem variedades linguísticas “inferiores”. Portanto, não se deve julgar “feia” a variedade dos falantes de origem rural, de classe social baixa, com pouca escolaridade, de regiões culturalmente desvalorizadas e que há línguas pobres em vocabulários.

As línguas diferem entre si em numerosos aspectos, e essas diferenças correspondem ao patrimônio expressivo da humanidade.

A escola deve mostrar aos alunos que a sociedade atribui valores sociais diferentes aos diferentes modos de falar da língua e que esses valores se baseiam em preconceitos e falsas interpretações do certo e errado linguístico, tendo consequências econômicas, políticas e sociais muito sérias para as pessoas.

REFERÊNCIAS

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BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Educação em língua materna: a sociolinguística na sala de aula. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.

CAMARA JR, J. Mattoso. Princípios de linguística geral. Rio de Janeiro: Padrão Livraria, 1980. p. 25.

CUNHA, Celso Ferreira da. Em torno dos conceitos de gírias e calão. In: PEREIRA, Cilene da Cunha. Sob a pele das palavras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: Academia Brasileira de Letras, 2004.

LANCHEC, Jean-Yvon. Psicolinguística e pedagogia das línguas. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.

LUFT, Celso Pedro. Língua e liberdade: por uma nova concepção da língua materna e o seu ensino. 4. ed. Porto Alegre: L e PM, 1985.

MARTIN, Robert. Para entender a linguistica: epistemologia elementar de uma disciplina: Tradução Marcos Bagno. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.

MONTEIRO, José Lemos. Para compreender Labov. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Ana Cristina. Introdução à linguistica: domínios e fronteiras. 5. ed. v. 2. São Paulo. Cortez, 2006.

OLIVEIRA, Helênio Fonseca de. Como e quando interferir no comportamento linguístico do aluno. In: JÚDICE, Norimar (Org.) et al. Português em debate. Niterói. Universidade Federal Fluminense, 1999.

ORLANDI, Eni Pulcinelli. O que é linguística. São Paulo: Editora Brasiliense,1986.

Sistema Osteomusculares em Auxiliares de Desenvolvimento Infantil

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Contextualização: A saúde do trabalhador vem despertando interesse dos pesquisadores, devido aos altos índices de patologias relacionadas com o trabalho, especialmente as osteomusculares. Objetivo: Identificar a ocorrência de sintomas osteomusculares em auxiliares de desenvolvimento infantil. Materiais e Métodos: Foi utilizado um questionário com um inventário sobre dados gerais e ocupacionais e o Questionário Nórdico. Para a análise estatística, foram comparados os sujeitos com e sem sintomas nos últimos 12 meses, independentemente da região corporal, considerando as mais afetadas. A associação entre as variáveis sexo e atividade física foi verificada através dos testes qui-quadrado e exato de Fisher. Foram calculadas também as razões de prevalência (RP) com seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC 95%). Em seguida foi realizada a estatística descritiva das variáveis quantitativas através de seu percentis e dados absolutos. O nível de significância adotado foi de 0,05%.

As áreas mais atingidas foram: lombar, torácica, cervical, ombros, punhos e mãos. A presença de dor associou-se significativamente com o sexo (p = 0,002). Quando comparados os sintomas osteomusculares entre pessoas que praticam atividade física e as que não praticam, não obtivemos significância estatística (p = 0,537). Na avaliação dos fatores de risco, os indivíduos foram randomizados pelo tempo de atuação profissional. Essa associação mostrou que quanto maior o tempo de serviço mais zonas corporais são afetadas. Conclusão: Os profissionais apresentaram elevada ocorrência de sintomas osteomusculares, confirmando a necessidade de novos estudos.

Introdução

Os distúrbios do sistema musculoesquelético têm despertado a atenção de pesquisadores preocupados com questões relativas à saúde e ao trabalho, devido o custo e o impacto na qualidade de vida. Nos anos 80, os sintomas osteomusculares começaram a se destacar no Brasil, tornando-se um grande problema de saúde pública1. Sendo responsáveis pela maior parte dos afastamentos do trabalho e pelos custos com pagamentos de indenizações, tanto no Brasil como na maior parte dos países industrializados2, esses sintomas decorrem das solicitações do aparelho locomotor durante a execução das atividades da vida diária e ocupacional e eventos traumáticos, podendo desencadear dor, incapacidade funcional e sofrimento físico e psicoafetivo3.

Os distúrbios do sistema locomotor são encontrados em ampla gama de ocupações e ocorrem em conexão com o trabalho físico pesado e monótono. As diferentes exposições produzem diferentes efeitos sobre os tecidos do sistema locomotor na forma de alterações morfológicas ou bioquímicas, que podem influenciar a função tecidual. Os fatores que demonstram induzir a deficiência funcional são considerados fatores de risco em potencial. A presença desses fatores, durante a realização do trabalho, implica em risco de desenvolvimento do distúrbio, e só é possível assegurar a prevenção deste através da eliminação ou minimização da exposição a esses fatores de risco, além da recuperação adequada após a exposição4. Jackson-Filho5, relata que as microlesões dos tendões, com o passar do tempo, e com a continuidade da atividade, vão se agravando, podendo levar à incapacidade permanente se não tratadas adequadamente a tempo.

O auxiliar de desenvolvimento infantil, dentre suas atribuições, tem a função de atuar junto às crianças nas diversas fases de educação infantil, auxiliando o professor no processo ensino-aprendizagem; auxiliando as crianças na execução de atividades pedagógicas e recreativas diárias; cuidando da higiene, alimentação, repouso e bem estar das crianças6. Essas atividades laborais necessitam de uma postura correta para executar as tarefas sem gasto energético excessivo e sem comprometer o sistema osteomuscular, visto que os distúrbios músculo-esqueléticos podem estar associados a posturas inadequadas, fadiga pela repetição de gestos e má postura durante a realização de tarefas laborais7. No ambiente de trabalho os processos de desgaste do corpo são determinados quase sempre pelo tipo de trabalho e pela forma como o mesmo está organizado8.

Apesar das altas taxas de prevalência de queixas osteomusculares descritas em outros países, muito pouco se conhece sobre esses sintomas entre os Auxiliares de Desenvolvimento Infantil no Brasil. O presente estudo visa investigar os sintomas osteomusculares e as características desses sintomas entre os Auxiliares de Desenvolvimento Infantil.

Materiais e Métodos

Trata-se de uma pesquisa com desenho de estudo descritivo de cunho transversal, onde foram estudados os sintomas osteomusculares, através da utilização do método epidemiológico analítico observacional para que fossem obtidos os dados de prevalência da sintomatologia na população em estudo e seus fatores associados. O projeto foi aprovado na reunião do dia 26/08/2009 pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Agamenon Magalhães, sob parecer do CAAE – 0074.0.236.096-09. Foi desenvolvido na Creche Municipal Casinha Azul na cidade do Recife, no período de setembro a novembro de 2009.

Os sujeitos do estudo foram intencionalmente compostos pela totalidade dos auxiliares de desenvolvimento infantil. Como critério de inclusão considerou-se todos os auxiliares de desenvolvimento infantil efetivos, ativos no período da coleta de dados e que trabalhavam diretamente com as crianças. Foram excluídos os auxiliares de desenvolvimento infantil gestante e os que apresentam afecções que acometem o sistema osteomuscular. Os participantes foram informados sobre a pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Foi solicitado autorização para a realização da pesquisa junto à rede municipal. Na creche, após a autorização os autores realizaram a coleta de dados, onde foram entregues os questionários aos auxiliares de desenvolvimento infantil durante o intervalo de trabalho, explicando os objetivos do estudo. Durante o período de preenchimento, a autora colocou-se à disposição para o esclarecimento de dúvidas que podiam surgir. A participação na pesquisa foi voluntária, de forma que o não preenchimento do questionário significou a não concordância em participar da pesquisa. Utilizou-se como instrumento, a aplicação de um questionário auto-aplicável com duas partes:

a) Dados gerais e ocupacionais

Baseado no questionário de Martarello9 foi notificado os dados de identificação do trabalhador, para obtenção das variáveis demográficas ocupacionais e hábitos de vida.

b) Questionário Nórdico

O Nordic Musculoskeletal Questionnaire (NMQ), é utilizado para identificar a prevalência de sintomas osteomusculares, sendo já validado no Brasil10, este consiste em escolhas quanto à ocorrência de sintomas nas diversas regiões anatômicas nas quais são mais comuns, devendo o respondente relatar a ocorrência dos mesmos, considerando os últimos doze meses e os sete dias anteriores à data da entrevista, bem como o afastamento das atividades rotineiras no último ano (trabalho, serviço doméstico ou atividades de lazer)11. Esse modelo foi desenvolvido com a proposta de padronizar a mensuração de relato de sintomas osteomusculares e, assim, facilitar a comparação dos resultados entre os estudos, sendo de fácil compreensão, com questões simples e diretas 12,13.

A associação entre as variáveis (sexo e atividade física) foi verificada através do teste Qui-quadrado e exato de Fisher. Foram calculadas também as razões de prevalência (RP) com seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC 95%). Em seguida foi realizado a estatística descritiva das variáveis quantitativas através de seu percentis e dados absolutos. O nível de significância adotado foi de 0,05%.

Resultados

A população deste estudo foi formada por auxiliares de desenvolvimento infantil. Participaram da pesquisa oito trabalhadores, com perda de quatro que se adequaram ao critério de exclusão (gravidez e afecções que acometem o sistema osteomuscular). Apresentando uma taxa de participação de 66,6%.

Dados gerais e ocupacionais

Entre os profissionais estudados, 7 (87,5%) eram do sexo feminino e 1 (12,5%) era do sexo masculino, tendo idade média de 29,37 anos. Em relação à escolaridade, 75% possuem ensino superior completo. Dos participantes, 25% exercem atividade física regularmente, tendo a caminhada como prática preferida. Em relação ao tempo de atividade no cargo de auxiliar de desenvolvimento infantil, 3 (37,5%) tem dois anos, 4 (50%) tem dois anos e onze meses e 1 (12,5%) tem três anos de serviço, com carga horária de oito horas por dia. Do total de participantes nenhum exerce outra atividade profissional com outra ocupação.

Sintomas osteomusculares

No que se refere aos sintomas osteomusculares no último ano, independente da região corporal afetada, constatamos que 100% dos profissionais avaliados apresentaram sintomas osteomusculares.

Para análise das associações da prevalência de dor nos últimos 12 meses, com freqüência em três ou mais regiões anatômicas, foi encontrada associação estatisticamente significante com relação ao tipo de sexo (p=0,002). Quando comparado os sintomas osteomusculares entre pessoas que praticavam atividade física e as que não praticavam, não obtivemos uma significância estática (p=0,537).


Em referência a ocorrência em 12 meses de sintomas osteomusculares, verificou-se que as zonas corporais que apresentaram mais prevalência de dor foram destacadas a parte inferior das costas (100%), parte superior das costas (87,5%), pescoço com (87,5%) e ombro com (75%). Em relação aos sintomas osteomusculares nos últimos 7 dias de acordo com a zona corporal, apresentaram maior ocorrência a parte superior das costas (50%), pescoço (50%) e ombros (37,5%). As queixas para esclarecer os sintomas osteomusculares nos últimos 12 meses em relação a incapacidade funcional foram pescoço (75%), parte superior das costas (62,5%), ombros (50%), parte inferior das costas e joelhos (37,5%).


Fatores de Risco

Para avaliar os fatores de risco, os auxiliares de desenvolvimento infantil foram randomizados pelo tempo de atuação na área. Essa associação mostrou que quanto maior o tempo de serviço mais zonas corporais foram afetadas.


Discussão

A média de idade entre a população estudada foi de 29,37 anos e o sexo feminino foi predominante. Quanto ao grau de escolaridade a maioria possui nível superior completo e a minoria está em fase de conclusão do nível superior. Para exercer o cargo de auxiliar de desenvolvimento infantil de acordo com a prefeitura da cidade do Recife, apenas é necessário que o candidato possua o ensino médio, mas a busca pela estabilidade que o cargo público oferece faz com que profissionais se habilitem a vagas de nível inferior em relação a sua qualificação.

Os sintomas osteomusculares no nosso estudo foram observados mais frequentemente nas mulheres em relação aos homens. O maior número de acometimento em mulheres pode relacionar-se mais ao tipo de atividade realizada do que ao gênero, já que as mulheres realizavam tarefas (de riscos) diferentes das realizadas pelos homens14. Porém a diferença de massa muscular, composição corporal e tamanho das mulheres em relação aos homens pode representar, para esse grupo, um fator de risco predisponente da sintomatologia dolorosa15.

Em relação à prática de atividades física, verificou-se que 25% realizavam atividade física regularmente, elegendo a caminhada como forma de atividade física preferida pelos sujeitos da pesquisa. No entanto, ganharam destaque 75% dos auxiliares de desenvolvimento infantil que não realizam atividade física regularmente. Quando comparados os sintomas osteomusculares com os trabalhadores que praticam atividade física com os que não praticam, não houve uma significância estatística, salientando que as oscilações da prevalência podem estar relacionadas à quantidade do número pequeno de trabalhadores. Em Pinheiro, Tróccoli & Carvalho16 verificamos que dentre as variáveis relativas a hábitos, as pessoas que praticavam exercícios físicos mostraram sistematicamente níveis de severidade de sintomas menores do que aqueles que não os realizavam, e essas diferenças foram significativas para diferentes regiões anatômicas.

O American College of Sports Medicine17 relata que para a diminuição dos sintomas físicos, os benefícios da atividade física proporcionam aumento da capacidade funcional, favorecendo o bem-estar da pessoa.

O resultado referente à prevalência da sintomatologia osteomuscular nos últimos 12 meses, quando foram investigadas as regiões corporais, foi de 100% entre os auxiliares de desenvolvimento infantil. As prevalências de sintomas de distúrbios osteomusculares encontradas nesta investigação foram bastante elevadas, mas próximas às descritas na literatura18,19,20,21. O instrumento utilizado foi capaz de padronizar a mensuração de relato de sintomas osteomusculares, facilitando a comparação entre estudos. Tais achados apóiam-se no fato de se ter utilizado um instrumento validado e referido por diversos estudos, principalmente em saúde do trabalhador22, 23 .

As regiões corporais em que se registraram maior prevalência dos sintomas osteomusculares nesse estudo foram a parte inferior das costas 100%, parte superior das costas e pescoço 87,5%. Em outro estudo, com profissionais da indústria têxtil, as maiores queixas estavam na cervical e torácica24. As análises demonstram que os elevados valores de prevalência apontados anteriormente podem ser considerados como conseqüência do novo paradigma do mundo do trabalho, que passou a obrigar o trabalhador a exercer suas atividades através de inadequados e intensos movimentos dos diversos segmentos corporais, provocando desordens músculo-tendinosas25. Estudos mostram a relação entre sintomas osteomusculares em regiões anatômicas centrais (pescoço, ombros e dorso) e fatores psicossociais, sendo que esses fatores tiveram maior influência na sintomatologia dessa região quando comparados com a carga física26.

Da totalidade estudada, 100% responderam que nos últimos 12 meses os sintomas osteomusculares impediram na realização de suas atividades normais. Dessa forma, esse grupo faria parte do quadro apresentado por Grunert,27 onde a dor crônica possui como uma de suas conseqüências a redução da socialização e da capacidade para lazer e trabalho, fazendo com que as pessoas acometidas apresentem incertezas com relação ao futuro. Representando um risco ocupacional para os auxiliares de desenvolvimento infantil. Esses dados representam para a empresa, uma redução no número de trabalhadores e horas de trabalhada, devido à ausência no trabalho por períodos de tempo consideráveis, o que provoca uma perda na produção e na qualidade do serviço; para o Estado, as despesas recaem sobre o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e decorrem do pagamento de benefícios previdenciários, tratamento e reabilitação28, 29.

Nos últimos 12 meses, averiguamos que 75% dos auxiliares de desenvolvimento infantil procuraram uma consulta a algum profissional de saúde. Esses resultados demonstram que é de primordial importância o enfoque na saúde do trabalhador, fazendo com que ele entenda a importância de questões que se referem a sua saúde. Nesse sentido, emerge o pressuposto do direito à informação e à recusa ao trabalho em condições de risco para a sua saúde ou para a vida30.

Observou-se que quanto maior o tempo de atuação profissional, maior a zonas corporais que apresentavam sintomas osteomusculares. Forde, Punnet & Wegman31 argumentam que, com o maior volume de exposição à atividade laboral, aumentam as possibilidades de queixas, com conseqüente necessidade de afastamento. Esses achados devem despertar as empresas tanto pública quanto privada, para implementação de planos de ações preventivas e terapêuticas específicas às causas, para amenizar os sintomas osteomusculares e contribuir com a qualidade de trabalho e de vida da população estudada.

Considerações finais

Os auxiliares de desenvolvimento infantil do presente estudo apresentaram elevada ocorrência de sintomas musculoesqueléticos, sendo que as regiões mais afetadas foram a coluna lombar, a torácica, a cervical, os ombros e os punhos e mãos. A grande procura por auxílio de algum profissional da área da saúde e a influência na execução das atividades cotidianas reforçam que os sintomas osteomusculares representam um problema para esta categoria profissional.

Os resultados também mostraram que vários fatores individuais e ocupacionais podem estar relacionados com sintomas musculoesqueléticos nas diferentes regiões corporais. Verificou-se que auxiliares de desenvolvimento infantil quanto maior o tempo de atuação profissional, maior a zonas corporais são afetadas pelos sintomas osteomusculares.

Os resultados da presente pesquisa confirmam a necessidade de novos estudos quanto aos aspectos psicossociais, ergonômicos, organizacionais do trabalho e com um número maior de auxiliares de desenvolvimento infantil para que possa abranger todas as creches da rede municipal do Recife.

Referências

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Sistema Constitucional Tributário

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A receita relativa a arrecadação de tributos (impostos, taxas e contribuições) tornou-se tão complexa que as normas que regulam suas imposição e arrecadação tiveram que ser separadas do Direito Financeiro para formar um novo ramo: o Direito Tributário.

O Direito Tributário é o ramo de Direito especificamente criado para reger o sistema de arrecadação de receita derivada de soberania, e não fazem parte dele as demais formas de recita do Estado.

Pode-se, portanto, definir Direito Tributário como o conjunto de princípios e normas jurídicas que regem as relações jurídicas entre Estado e Particular, relativas a instituição e arrecadação dos tributos.

O Sistema Constitucional Tributário é o conjunto dos tributos que compõem o ordenamento jurídico, e também as normas tributárias de um determinado país. É um conceito do Direito Civil.

PRINCIPIOS

O Sistema Constitucional Tributário está sujeito a uma série de Princípios constitucionais segue algubns deles:

Princípio da legalidade – significa que não pode ser exigido ou aumentado tributo sem que haja estipulação de lei. (Art.5°, II e Art.150, I da CF).

Princípio da Isonomia – todos os contribuintes são iguais perante o fisco. (Art.5° e Art.150, I da CF)

Princípio da anterioridade – proíbe a União, os estados e os municípios de cobrar tributos no mesmo exercício de sua instituição (ou seja, os impostos só podem ser cobrados no ano seguinte de sua aprovação em lei.

Princípio da Irretroatividade da lei – proíbe a lei de retroagir: ou seja, não podem ser exigidos tributos sobre fatos geradores ocorridos antes do início da vigência da lei que instituiu ou aumentou algum tributo. (Art.150, III a, da CF)

Princípio da capacidade tributária

Princípio da uniformidade

Princípio da inconstitucionalidade

Princípio de proteção fiscal

DEFINIÇÃO DE TRIBUTOS

Tributos são as receitas derivadas que o Estado recolhe do patrimônio dos indivíduos, baseado no seu poder fiscal (poder de tributar, às vezes consorciado com o poder de regular), mas disciplinado por normas de direito público que constituem o Direito Tributário. As outras receitas chamadas originárias e provenientes do próprio patrimônio do Estado, nada têm que ver com o Direito Tributário.

IMPOSTOS NO BRASIL

A legislação brasileira classifica os impostos nas seguintes categorias:

• pessoais ou reais;
• diretos ou indiretos;
• fixos ou proporcionais;
• progressivos ou regressivos;
• cumulativos ou não-cumulativos;
• ordinários ou extraordinários;
• residuais;
• federais, estaduais, distritais, municipais.

À União cabe a instituição do IR, IPI, II, IE, IOF, ITR, IGF; Aos Estados cabe a instituição do ICMS, IPVA, ITD; Aos Municípios cabe a instituição do ISS, IPTU, ITBI.

Impostos federais:

II – Imposto sobre a importação de produtos estrangeiros.

IE – Imposto sobre a exportação de produtos nacionais ou nacionalizados.

IR (IRPJ/ IRPF)- Imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza doze.

IPI – Imposto sobre Produtos Industrializados.

IOF – Imposto sobre Operações Financeiras.

ITR – Imposto Territorial Rural.

IGF – Imposto sobre Grandes Fortunas.

Impostos extraordinários – em caso de guerra.

Impostos estaduais:

ICMS – Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços.

IPVA – Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores.

ITCMD – Imposto sobre Transmissões Causa Mortis e Doações de Qualquer Bem ou Direito.

Aire – Adicional do Imposto da União sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza.

Impostos municipais:

IPTU – Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana.

ITBI – Imposto sobre Transmissão Inter Vivos de Bens e Imóveis e de Direitos Reais a Eles Relativos.

IVVC – Imposto sobre Vendas a Varejo de Combustíveis Líquidos e Gasosos (extinto).

ISS – Impostos sobre Serviços de Qualquer Natureza.

TEORIA DA TRIBUTAÇÃO

Pelo conceito da equidade, cada indivíduo deve contribuir com uma quantia “justa”; pelo conceito da progressividade, as alíquotas devem aumentar à medida que são maiores os níveis de renda dos contribuintes; pelo conceito da neutralidade, a tributação não deve desestimular o consumo, produção e investimento; e, por fim, pelo conceito da simplicidade, o cálculo, a cobrança e a fiscalização relativa aos tributos devem ser simplificados a fim de reduzir custos administrativos.

Impostos são tributos cobrados cujo valor arrecadado não tem um fim específico. As contribuições são tributos cujos recursos devem ser legalmente destinados a finalidades pré-estabelecidas. Taxas são tributos para manutenção do funcionamento de um serviço dirigido a uma comunidade de indivíduos.

CONTRIBUIÇÕES

Na legislação tributáriabrasileira, contribuição se refere a uma categoria de tributos que pode assumir algumas formas principais:

Contribuição especial

Na legislação tributária brasileira, contribuição especial é um tributo cuja instituição é destinada ao financiamento de planos de Previdência Social, de programas que impliquem intervenção no domínio econômico, ou ao atendimento de interesses de classes profissionais ou categorias de pessoas, servindo-os de benefícios econômicos ou assistenciais.

Contribuição de melhoria

Na legislação tributária brasileira, contribuição de melhoria são taxas que surgem quando um determinado imóvel ou propriedade são valorizados por conseqüência de obra pública. Também incide quando os imóveis que circundam a propriedade se valorizam.

Ocorre que nem sempre a obra pública provoca benefícios (valorização) aos imóveis por ela tangenciados. Dependendo da sua natureza, poderá até provocar uma depreciação dos referidos imóveis. Nestes casos, não terá ocorrido, evidentemente, o fato gerador da contribuição de melhoria, porque não houve benefício algum aos proprietários.

Empréstimo compulsório

Na doutrina tributária brasileira, empréstimo compulsório é considerado um tributo, e consiste na tomada compulsória de certa quantidade em dinheiro do contribuinte a título de “empréstimo”, para que este o resgate em certo prazo, conforme as determinações estabelecidas por lei.

Tratado Internacional

O constitucionalismo moderno tem, na promulgação de um texto escrito contendo uma declaração dos Direitos Humanos e de cidadania, um dos seus momentos centrais de desenvolvimento e de conquista, que consagra as vitórias do cidadão sobre o poder.

Usualmente, para determinar a origem da declaração no plano histórico, é costume remontar à Déclaration des droits de l’homme et du citoyen, votada pela Assembléia Nacional francesa em 1789, na qual se proclamava a liberdade e a igualdade nos direitos de todos os homens, reivindicavam-se os seus direitos naturais e imprescritíveis (a liberdade, a propriedade, a segurança, a resistência à opressão), em vista dos quais se constitui toda a associação política legítima. Na realidade, a Déclaration tinha dois grandes precedentes: os Bills of rights de muitas colônias americanas que se rebelaram em 1776 contra o domínio da Inglaterra e o Bill of right inglês, que consagrava a gloriosa Revolução de 1689.

Do ponto de vista conceptual, não existem diferenças substanciais entre a Déclaration francesa e os Bills americanos, dado que todos amadureceram no mesmo clima cultural dominado pelo jusnaturalismo e pelo contratualismo: os homens têm direitos naturais anteriores à formação da sociedade, direitos que o Estado deve reconhecer e garantir como direitos do cidadão. Bastante diverso é o Bill inglês, uma vez que nele não são reconhecidos os direitos do homem e sim os direitos tradicionais e consuetudinários do cidadão inglês, fundados na common law. Durante a Revolução Francesa foram proclamadas outras Déclarations (1793, 1795): interessante a de 1793 pelo seu caráter menos individualista e mais social em nome da fraternidade, e a de 1795, porque ao lado dos “direitos” são precisados também os “deveres”, antecipando assim uma tendência que tomará corpo no século XIX (podemos pensar nos Doveri delI’uomo, de Mazzini); a própria Constituição italiana tem como título da primeira parte “Direito e deveres do cidadão”.

A declaração dos direitos colocou diversos problemas, que são a um tempo políticos e conceptuais. Antes de tudo, a relação entre a declaração e a Constituição, entre a enunciação de grandes princípios de direito natural, evidentes à razão, e à concreta organização do poder por meio do direito positivo, que impõe aos órgãos do Estado ordens e proibições precisas: na verdade, ou estes direitos ficam como meros princípios abstratos (mas os direitos podem ser tutelados só no âmbito do ordenamento estatal para se tornarem direitos juridicamente exigíveis), ou são princípios ideológicos que servem para subverter o ordenamento constitucional. Sobre este tema chocaram nos fins do século XVIII, de um lado, o racionalismo jusnaturalista e, de outro, o utilitarismo e o historicismo, ambos hostis à temática dos direitos do homem. Era possível o conflito entre os abstratos direitos e os concretos direitos do cidadão e, portanto, um contraste sobre o valor das duas cartas.

Assim, embora inicialmente, tanto na América quanto na França, a declaração estivesse contida em documento separado, a Constituição Federal dos Estados Unidos alterou esta tendência, na medida em que hoje os direitos dos cidadãos estão enumerados no texto constitucional.

Um segundo problema deriva da natureza destes direitos: os que defendem que tais direitos são naturais, no que respeita ao homem enquanto homem, defendem também que o Estado possa e deva reconhecê-los, admitindo assim um limite preexistente à sua soberania. Para os que não seguem o jusnaturalismo, trata-se de direitos subjetivos concedidos pelo Estado ao indivíduo, com base na autônoma soberania do Estado, que desta forma não se autolimita. Uma via intermediária foi seguida por aqueles que aceitam o contratualismo, os quais fundam estes direitos sobre o contrato, expresso pela Constituição, entre as diversas forças políticas e sociais. Variam as teorias mas varia também a eficácia da defesa destes direitos, que atinge seu ponto máximo nos fundamentos jusnaturalísticos por torná-los indisponíveis.

A atual Constituição da República Federal alemã, por exemplo, prevê a não possibilidade de revisão constitucional para os direitos do cidadão, revolucionando assim toda a tradição juspublicista alemã, fundada sobre a teoria da autolimitação do Estado.

O terceiro problema refere-se ao modo de tutelar estes direitos: enquanto a tradição francesa se cingia à separação dos poderes, e sobretudo à autonomia do poder judiciário, e à participação dos cidadãos através dos próprios representantes, na formação da lei, a tradição americana, desconfiada da classe governante, quis uma Constituição rígida, que não pudesse ser modificada a não ser por um poder constituinte e um controle de constitucionalidade das leis aprovadas pelo legislativo. Isto garante os direitos do cidadão frente ao despotismo legal da maioria. Os Países que a experiência do totalitarismo, como a Itália e a Alemanha, inspiraram-se mais na tradição americana do que na francesa para a sua Constituição.

Finalmente, estes direitos podem ser classificados em civis, políticos e sociais. Os primeiros são aqueles que dizem respeito à personalidade do indivíduo (liberdade pessoal, de pensamento, religião, de reunião e liberdade econômica), através da qual é garantida a ele uma esfera de arbítrio e de liceidade, desde que seu comportamento não viole o direito dos outros. Os direitos civis obrigam o Estado a uma atitude de impedimento, a uma abstenção. Os direitos políticos (liberdade de associação nos partidos, direitos eleitorais) estão ligados à formação do Estado democrático representativo e implicam uma liberdade ativa, uma participação dos cidadãos na determinação dos objetivos políticos do Estado Os direitos sociais (direito ao trabalho, à assistência, ao estudo, à tutela da saúde, liberdade da miséria e do medo), maturados pelas novas exigências da sociedade industrial, implicam, por seu lado, um comportamento ativo por parte do Estado ao garantir aos cidadãos uma situação de certeza.

O teor individualista original da declaração, que exprimia a desconfiança do cidadão contra o Estado e contra todas as formas do poder organizado, o orgulho do indivíduo que queria construir seu mundo por si próprio, entrando em relação com os outros num plano meramente contratual, foi superado: pôs-se em evidência que o indivíduo não é uma mônada mas um ser social que vive num contexto preciso e para o qual a cidadania é um fato meramente formal em relação à substância da sua existência real; viu-se que o indivíduo não é tão livre e autônomo como o iluminismo pensava que fosse, mas é um ser frágil, indefeso e inseguro. Assim, do Estado absenteísta, passamos ao Estado assistencial, garante ativo de novas liberdades. O individualismo, por sua vez, foi superado pelo reconhecimento dos direitos dos grupos sociais: particularmente significativo quando se trata de minorias (étnicas, lingüísticas e religiosas), de marginalizados (doentes, encarcerados, velhos e mulheres).

Tudo isto são conseqüências lógicas do princípio de igualdade, que foi o motor das transformações nos conteúdos da declaração, abrindo sempre novas dimensões aos Direitos Humanos e confirmando por isso a validade e atualidade do texto setecentista.

A atualidade é demonstrada pelo fato de hoje se lutar, em todo o mundo, de uma forma diversa pelos direitos civis, pelos direitos políticos e pelas direitos sociais: fatalmente, eles podem não coexistir, mas, em vias de princípio, são três espécies de direitos, que para serem verdadeiramente garantidos devem existir solidários. Luta-se ainda por estes direitos, porque após as grandes transformações sociais não se chegou a uma situação garantida definitivamente, como sonhou o otimismo iluminista. As ameaças podem vir do Estado, como no passado, mas podem vir também da sociedade de massa, com seus conformismos, ou da sociedade industrial, com sua desumanização. É significativo tudo isso, na medida em que a tendência do século atual e do século passado parecia dominada pela luta em prol dos direitos sociais, e agora se assiste a uma inversão de tendências e se retoma a batalha pelos direitos civis.”

TRATADOS INTERNACIONAIS

Os Tratados Internacionais sobre Direitos Humanos representam imprescindíveis instrumentos normativos, portanto, devem ser observados atentamente e com bons olhos, pois emanam normas que visam acima de tudo o respeito à dignidade da pessoa humana. Há de se lembrar ainda que a dignidade humana é o valor supremo que norteia nosso Ordenamento Jurídico.

Estes instrumentos Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos não podem ser ignorados, aliás, ignorá-los é ignorar a própria importância da dignidade da pessoa humana.

Os Tratados Internacionais sobre Direitos humanos, detém status de norma constitucional, conforme o art. 5º, §2º da Constituição Federal que dispõe:

“Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.”

Verificando que a própria Magna Carta confere valor constitucional aos referidos Tratados, indaga-se: Como fica este panorama após a Emenda Constitucional nº 45 de 2004?

A referida emenda constitucional acrescentou o §3º ao art. 5º que dispõe:

“Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais.”

A norma insculpida no §3º do art. 5º visa a atribuir status formalmente constitucional aos Tratados Internacionais Sobre Direitos Humanos que forem aprovados em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, ou seja, se obedecerem ao procedimento do §3º serão equivalentes a Emendas Constitucionais.

O status constitucional dos referidos Tratados remanesce incólume, pois, ainda que não sejam aprovados pelo procedimento previsto no §3º do art.5º, estes instrumentos de proteção dos direitos humanos são materialmente constitucionais, integrando assim o chamado bloco de constitucionalidade.

Tratados no Ordenamento Jurídico Brasileiro

A inaplicabilidade da prisão civil do depositário infiel, que mesmo tendo amparo na Constituição Federal, encontra vedação no art. 7º, 7, da Convenção Americana sobre Direitos Humanos que dispõe: “Ninguém deve ser detido por dívidas. Este princípio não limita os mandados de autoridade judiciária competente expedidos em virtude de inadimplemento de obrigação alimentar”. Assim, toda e qualquer norma que permita a prisão do depositário, ainda que tenha fulcro na Carta Magna, não é aplicável, não é válida, pois conflita manifestamente com o Pacto de São José da Costa Rica que só permite a prisão civil em razão do inadimplemento de obrigação alimentar.

Mas como fica o conflito entre o dispositivo da Constituição Federal e o do Pacto de São José da Costa Rica?O conflito é resolvido pela aplicação do princípio pro homine, que em linhas gerais significa que se aplica a norma mais favorável à pessoa humana, sendo que no caso em comento, a mais favorável é a norma do Pacto de São José da Costa Rica.

O segundo exemplo é o do caso hoje já superado pela revogação do arcaico dispositivo do Código de Processo Penal (art.594) que vedava a apelação ao réu que condenado não se recolhesse a prisão. Ainda que não houvesse a revogação do perverso dispositivo pela lei 11.719/08; ou ainda que não existisse a súmula nº 347 do Superior Tribunal de Justiça (lembrando que esta é anterior a Lei revogadora) que assegura o direito de apelar em liberdade independentemente do recolhimento do réu a prisão, tudo isso se resolveria favoravelmente ao réu em razão de previsão na Convenção Americana sobre Direitos Humanos de norma que assegura “direito de recorrer da sentença a juiz ou tribunal superior” (art.8º, 2, h).

Diante do art. 8º, 2, h, da Convenção Americana Sobre Direitos Humanos, nenhum juiz ou Tribunal pode condicionar o direito de recorrer do réu ao seu recolhimento à prisão, pois, agindo assim estar-se-ia violando manifesta e arbitrariamente norma de status constitucional. Ademais, por força do princípio da presunção de inocência, a prisão antes do trânsito em julgado de sentença condenatória somente se justifica quando presente efetivamente os requisitos da prisão preventiva (o que deve ser demonstrado fundamentadamente pelo juiz), pois, estando a decisão condenatória sujeita a recurso, o réu pode revertê-la, portanto, seu status de presumivelmente inocente remanesce incólume, o que reforça a necessidade da presença dos requisitos da preventiva para o encarceramento cautelar.

Necessário lembrar que o princípio da não auto-incriminação, assegurado pela Constituição Federal, também encontra-se no Pacto de São José da Costa Rica, no art. 8º, 2, g, que dispõe ser direito da pessoa acusada “não ser obrigada a depor contra si mesma, nem a confessar-se culpada”, e no Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, no art. 14, 3, g, que também dispõe ser um direito da pessoa acusada “não ser obrigada a depor contra si mesma, nem a confessar-se culpada”. Exemplo de violação do referido princípio assegurado pela Constituição Federal e pelos referidos Tratados Internacionais, vem ocorrendo após o advento da “Lei Seca”(Lei 11.705/08 que alterou o Código de Trânsito Brasileiro), em que motoristas flagrados embriagados ou não, em razão da negativa de sujeição ao exame do bafômetro, são conduzidos a delegacias pelo crime de desobediência.

Aquele que exerce um direito autorizado por uma norma, não pode ser “enquadrado” num tipo legal. Por força da tipicidade conglobante (ZAFFARONI), aquilo que é autorizado ou fomentado por uma norma não pode ser proibido por outra, logo, se a alteração do Código de Trânsito Brasileiro, instituída pela lei 11.705/08 permite interpretação equivocada no sentido de que comete infração administrativa ou infração penal o motorista que se nega a realizar o exame de sangue ou o bafômetro, o dispositivo deve ser interpretado conforme a Constituição (e os referidos Tratados Internacionais) sob pena de inconstitucionalidade, pois, é um direito de todos a não auto-incriminação.

Assim, aquele que se negar a submeter-se ao exame do bafômetro ou exame de sangue não pode ser conduzido à delegacia por crime de desobediência, pois, o que é autorizado por uma norma não pode ser proibido por outra, logo, não há crime.

Destarte, qualquer dispositivo que obrigue indivíduo a se auto-incriminar, não é válido, pois, ofende a Constituição Federal, o Pacto de São José da Costa Rica e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, logo, é inconstitucional.

Cumpre lembrar que jurisprudência de um modo geral, sempre negou o status de norma constitucional aos referidos instrumentos de proteção aos direitos humanos.

Recentemente, o Supremo Tribunal Federal analisando a prisão do depositário infiel, modificou radicalmente seu entendimento que era o de que os referidos tratados gozavam de valor de lei ordinária, para reconhecer a superioridade destes louváveis instrumentos, adotando a tese do ministro Gilmar Mendes (RE 466.343/SP), conferindo aos tratados sobre direito humanos valor supralegal (informativo 531), ou seja, os Tratados Internacionais sobre Direitos Humanos estão acima da legislação ordinária, mas abaixo da Constituição Federal.

No Supremo Tribunal Federal, o debate acerca do efetivo status dos Tratados Internacionais sobre Direitos Humanos (Convenção Americana Sobre Direitos Humanos) consolidou duas correntes: uma defendida pelo Ministro Gilmar Mendes (RE 466.343/SP), que conferia status supralegal aos tratados; e uma segunda corrente, defendida pelo Ministro Celso de Mello (HC.87.585/TO) que conferia status constitucional aos tratados.

Como dito anteriormente, venceu por cinco votos a quatro (informativo 531), a tese da supralegalidade dos Tratados Internacionais sobre Direitos Humanos. Assim, com esta decisão extraordinária foi rechaçada de uma vez por todas a atroz prisão do depositário infiel.

Em que pese a tese da supralegalidade representar um inegável avanço para nosso Estado Democrático de Direito, continuaremos defendendo que os Tratados Internacionais Sobre Direitos Humanos, uma vez subscritos pelo Brasil, tem incorporação automática em nosso Ordenamento Jurídico e status CONSTITUCIONAL, lembrando que o fundamento para o valor constitucional dos referidos Tratados encontra-se no art. 5º, § 2º da Constituição Federal que dispõe: os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”.

Destarte, para nós, o dispositivo constitucional demonstra claramente o valor constitucional dos Tratados Internacionais sobre Direitos Humanos. Lembrando ainda que a norma insculpida no §3º do mesmo art. 5º visa a atribuir status formalmente constitucional, assim, todo Tratado Internacional sobre Direitos Humanos, uma vez subscritos pelo Brasil, tem incorporação automática em nosso Ordenamento e status materialmente constitucional. Se passarem pelo procedimento previsto no §3º do art.5º da Magna Carta, passam a contar também com status formalmente constitucional, sendo equivalentes a emendas constitucionais.

Ongs: Organizações Não-Governamentais

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A presente pesquisa tem como objetivo abordar o trabalho das ONGs – Organizações Não-Governamentais, em seus aspectos social, cultural e educacional.

Buscamos resgatar a trajetória dessas instituições que enfrentaram muitos desafios para conquistarem seus objetivos, que era em defesa de uma população pobre, que não tinha acesso aos seus direitos.

Ao longo do caminho, somaram esforços com parceiros para realizar um trabalho mais forte e sólido, em atendimento de crianças, adolescentes e suas famílias.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
1. CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DA ONG
1.1.ONG e sua função
1.2. Os profissionais das ONGS
1.3. A Consolidação das ONGs
2. PARCERIA DA ONG COM O ESTADO
2.1. Parceria das ONGS com financiamentos Internacionais
2.2. Parceria da ONG com a familia
2.3. Parceria entre a ONG e a escola
2.4. Parceria com empresas
3. AS PRÁTICAS EDUCATIVAS DA ONG
3.1. Parâmetros Sócio-educativos para Organizações conveniadas com a Prefeitura de São Paulo
3.2. Apresentação das Organizações pesquisadas.
CONCLUSÃO
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA

INTRODUÇÃO

Esse trabalho tem por objetivo apresentar informações para uma compreensão do que significa esse fenômeno “ONG”., uma categoria que vem sendo socialmente construída, usada para identificar um conjunto de entidades com características peculiares.

Durante os estudos, percebemos a luta das ONGs que nasceram no período de um governo autoritário, onde a realidade da sociedade era marcada por falta de participação. Diante dessa situação essas organizações embora não reconhecidas, começavam a construir sua trajetória e já com seus objetivos definidos, conseguir um espaço para ajudar os grupos menos favorecidos da sociedade em busca da melhoria da qualidade de vida. Esse governo então, convivia com a mobilização de uma nova sociedade civil, com muitos movimentos em busca de seu espaço, com iniciativas comprometidas com a reconstrução da vida social após a Segunda Guerra Mundial. Nesse momento as ONGs tendem a se confundir com esses movimentos, mas é a partir daí que começa a luta pela conquista de sua identidade.

Identidades se (re)constroem no processo histórico pelas relações que se estabelecem, pela dinâmica social, por objetivos em comum e também por conflitos e diferenças, em conjunturas determinadas. Identidades são afirmativas, datadas e marcadas pelas relações, pelo tempo e pelo espaço.

A ONG busca ajudar os que são excluídos da escola e que não conseguem aprender, os excluídos do mercado de trabalho que não tem capacidade técnica porque antes não aprenderam a ler escrever e contar, e os excluídos, finalmente, do exercício da cidadania porque não conhecem os valores morais e políticos que fundam a vida de uma sociedade livre, democrática e participativa.

A solidariedade social e política de que precisamos para construir a sociedade menos feia e menos arestosa, em que podemos ser mais nós mesmos, tem na formação democrática, uma prática de real importância.

O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros.

Sou a favor da democracia, contra a ditadura de direita ou de esquerda. Sou a favor da luta constante contra qualquer forma de discriminação econômica dos indivíduos ou das classes sociais.

As organizações, associações, enfim, os grupos organizados da sociedade lutavam pela democracia, porém mesmo o governo da época passava por crises. Com a posse do presidente João Goulart, que teria ações voltadas a população, e aí um governo democrático, enfrentaria lutas contra os militares que não eram a favor de suas ações, até que fosse tirado do poder.

Com o passar do tempo, começaram a ser criadas campanhas de aspecto educacional, com o objetivo de acabar com o analfabetismo, porém essas campanhas embora destinadas a população, teriam interesses próprios do governo, que por não serem contemplados, essas campanhas foram interrompidas e após encerradas sem que seu objetivo fosse alcançado e dessa forma não atendendo a população.

O desafio de pensar o papel social das ONGs, seus desafios e perspectivas, inclui como se dá sua forma de atuação e organização, quais suas fontes de recursos, sua profissão e as funções exercidas por seu quadro de profissionais, o que é fundamental para que se desenvolva um trabalho em busca de seus resultados.

As ONGs constroem-se e se consolidam na medida em que se constrói e fortalece um amplo e diversificado campo de associações civis. Durante sua trajetória, vão se tornando reconhecidas e aos poucos conquistando espaço, confiança e chamando a atenção de outros agentes, que em parceria podem tornar o trabalho muito mais forte, cada um com seu olhar e área de atuação especifica, porém com objetivos em comum, e particularmente acreditando no trabalho das Organizações Não-Governamentais.

Essa luta durou muito tempo e acreditamos que até hoje, embora tenha conseguido parcerias com vários segmentos e redes de apoio, até conquistar sua legitimidade e ser reconhecida como protagonista. Seu objetivo em atender esses grupos, inclui os aspectos: cultural, social e educacional.

Para que essa definição de ONG seja claramente entendida é preciso conhecer sua historicidade, contextualização, construção, consolidação, seus objetivos e suas práticas, com foco no aspecto educacional, que é o que iremos apresentar a seguir.

1. CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DA ONG

As ONGs são marcadas pelo sentido público de sua atuação e pelo papel de agentes democráticos do desenvolvimento social, econômico e político, contribuindo para a construção de alternativas de desenvolvimento humano, social e ambientalmente sustentáveis.

Os anos da Ditadura militar foram marcados pelo afastamento e falta de participação da sociedade em qualquer ação política. O mundo passou por muitas transformações em sua história desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Nesse período houve um aumento da produtividade industrial e agrícola. Esse desenvolvimento também trouxe o aumento da pobreza, da violência, de doenças e da poluição ambiental.

Em pouco tempo, o mundo enfrentaria vários problemas que dependeria da articulação de muitos agentes sociais. E a grande participação e intervenção da sociedade civil foram de forma organizada ocupando espaços e propondo que os aspectos sociais ficassem em primeiro plano. Nesse momento, nasceria as ONGs com interesses e objetivos, sendo necessário muita luta para alcançá-los.

No inicio dos anos 60, o presidente João Goulart implantou as reformas de base, que tinha como objetivo no setor agrário, garantir aos trabalhadores rurais o acesso à propriedade e à assistência técnica e financeira. Outra proposta de reforma seria a urbana, que controlaria o aumento dos alugueis o que daria condições para que as pessoas comprassem sua casa própria; a reforma eleitoral permitiria que os analfabetos votassem, e na reforma universitária facilitaria o acesso e o aumento de vagas no nível superior. Dentre outras reformas e iniciativas, o preço dos remédios também seria diminuído. Mas para que esses projetos fossem aprovados, beneficiando grande parte da população e nesse caso os mais necessitados, o presidente precisava de apoio das Forças Armadas, o que não obteve sucesso. Dessa forma, a estratégia que encontrou foi de pressionar o Congresso Nacional, mobilizando a população através de manifestações públicas em todo o país.

Porém, mais tarde isso só dificultaria seu governo e serviria de estímulo para o avanço dos militares. Em 1964, a sociedade brasileira, a classe operária organizada, a burguesia industrial, grandes proprietários rurais, entre outros, ficaram contra o governo e como conseqüência abriram caminho para o golpe militar que tiraria João Goulart do poder, dando espaço à um governo de ditadura militar que restringia o exercício da cidadania.

Nesse período os comunistas desenvolveram um trabalho de mobilização popular, através de sindicatos, grupos legais e clandestinos para conscientizar os trabalhadores e o povo em defesa de seus direitos.

Um dos motivos de o governo de João Goulart perder o apoio da população foi à alta taxa de inflação de 73%, e o que incomodava às Forças Armadas seria o desrespeito à hierarquia militar que o governo da época fomentava.

Apesar de muitos grupos organizados fracassarem em suas lutas contra a ditadura, mesmo assim, vários grupos e movimentos cresceram para reivindicar melhores condições e redução do custo de vida.

Os anos 70 enriqueceu grupos de empresários urbanos e rurais e empobreceu a maioria da população, que enfrentou o desemprego e o alto custo de vida. Sem muito sucesso e sendo reprimidos, criaram o “Movimento custo de vida” e para exigir que o governo diminuísse o custo de vida, com manifestações contra a ditadura militar.

Os sindicatos, os camponeses, os estudantes, as associações de bairro, só queriam viver com um mínimo de dignidade e alimentar seus filhos. Queriam que as oportunidades melhores deixassem de ser só privilégio da elite e essa por sua vez acreditava que a democracia ameaçava o destino de suas vidas.

Os anos 80 fez parte da história como a década perdida, nos índices de crescimento, produtividade da agricultura, qualidade de vida, aumento de índices de criminalidade, doenças infantis, o declínio da taxa de analfabetismo, aumento do número de desempregados, também assassinatos de crianças e adolescentes.

A sociedade porém, se organizou para reivindicar e protestar contra o regime político vigente, com manifestações de várias categorias profissionais, sindicatos e associações, em protestos para pedir “Diretas Já” e aumento de salários mínimo. Esses movimentos da sociedade foram a expressão das forças sociais que se juntaram e que passaram a se manifestar.

Segundo Farah , no final da década de 70 e início de 80 o Estado passa por uma crise e define uma agenda para reformar sua ação na área social. No período pós-guerra, os países periféricos mostram sinais claros de que a democracia passava por dificuldades.

Nos anos 80 as demandas educativas foram grandes. A educação para cidadania foi a demanda que predominou na época, englobando a educação contra discriminações, educação para o trânsito, respeito às minorias étnicas e educação infantil. Ser cidadão é ser respeitado, ter consciência social, direitos e deveres. A educação popular também como demanda dos movimentos sociais nos anos 80 se manifestou com reivindicações pelo ensino noturno e por escolas profissionalizantes. Porém sua manifestação se deu através de educação não-formal como clube de mães, movimentos sociais, equipamentos e serviços públicos, igrejas e organizações não-governamentais.

Os movimentos populares lutavam por uma educação melhor para todos e trabalhavam para a extensão da alfabetização de jovens e adultos e de um modo geral. Depois da Segunda Guerra Mundial, a educação de adultos passou a ser do campo de ação do Estado, e a educação não-formal a Organizações Não-Governamentais.

Esses jovens e adultos enfrentavam dificuldades e eram obrigados a deixar a escola, muitas vezes devido à situação precária de vida e sobrevivência e precisavam ir em busca de trabalho, porém ao chegarem no mercado de trabalho sentiam a necessidade de voltar aos estudos.

Muitos programas oficiais foram criados para erradicar o analfabetismo, sendo eles:

o Em 1947 – Campanha de Educação de adolescentes e adultos de objetivo político e econômico.
o Em 1952 – Campanha Nacional de Educação Rural, para que fossem resolvidos os problemas do homem no campo.
o Em 1958 – Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo, resultado de buscas e soluções para o desenvolvimento econômico, já que para isso dependeria da formação do homem.
o Em 1962 – Programa da Mobilização Nacional, contra o Analfabetismo, com objetivo de incorporar os serviços das campanhas federais.
o Em 1963 – Programa de Emergência, criado para a melhoria do ensino primário e educação popular adulta. Porém em março de 1963, nenhuma dessas campanhas atingiu seus objetivos sendo extinta por vários motivos, pouco investimento financeiro, falta de professor qualificado, material didático e pedagógico impróprio.

Na época da posse de João Goulart, foi implantado o Plano Nacional de Alfabetização , porém apesar de o plano ter obtido sucesso e ser implantado em três Estados: Brasília, Sergipe e no Rio de Janeiro, acabou em 1964 dias depois do Golpe Militar.

Várias iniciativas dos governos para alfabetização dos adultos foram reelaborados a partir da década de 70, onde iniciava o MOBRAL . A Lei que instituiu o MOBRAL foi revista em 1970 e teria o objetivo de promover a alfabetização funcional e a educação continuada de adultos. Mas, tudo indica que o MOBRAL foi criado segundo os interesses da ditadura militar, totalmente desligado da realidade da população e as pessoas eram impedidas de desenvolver trabalhos que fizesse o povo discutir questões que colocassem em risco a ditadura.

Enquanto durou o MOBRAL, foi investido uma quantia de 2% do imposto de renda e em 1985 encerra suas atividades sem que alguém tivesse entendido os motivos, mas um deles foi o jogo político.

Paulo Freire elaborou uma proposta de alfabetização de adultos, explicada em uma frase, “A leitura de mundo procede à leitura da palavra”.

De acordo com o objetivo da criação do MOBRAL enquanto funcionou, a teoria era boa, mas com interesses próprios, o que poderia ter levado o cidadão a se encontrar com sua cultura.

1.1. ONG e sua função

Diante dessa realidade nasceram as ONGs, que demonstravam claramente resistência às ações políticas da época, e eram frutos de movimentos sociais reprimidos. Sua característica era a busca pela construção e fortalecimento da Democracia, uma vez que trabalhavam em prol dos setores excluídos ou menos favorecidos da população.

Organização não-governamental é um grupo de cidadãos sem ligação com o Governo que se juntam para trabalhar por diversos fins como: crianças e adolescentes de rua, idosos, questões de meio ambiente, direitos humanos e outros.

Francisco Oliveira descreve as ONGs como:

ONGs são um tipo particular de organizações que não dependem nem econômica nem institucionalmente do Estado, que se dedicam a tarefas de promoção social, educação, comunicação e investigação/ experimentação, sem fins de lucro, e cujo objetivo final é a melhoria da qualidade de vida dos setores mais oprimidos.

Jorge Eduardo define também como especificidade das ONGs:

[…] Servem à comunidade, realizam um trabalho de promoção da cidadania e defesa dos direitos coletivos, lutam contra a exclusão, contribuem para o fortalecimento dos movimentos sociais e para a formação de suas lideranças visando à Constituição e ao pleno exercício de novos direitos sociais, incentivam e subsidiam a participação popular na formulação de políticas públicas.

Baseado nesta afirmativa, não-governamental significa não pertencer ao Estado, porém não significa dizer que façam oposição ao Estado ou não existir sem a colaboração de verbas estatais.

Existem ONGs mundiais, nacionais, municipais, todas lutam por vários objetivos, porém sem fins lucrativos.

A expressão “sem fins lucrativos” que é uma definição das ONGs não significa que não cobrem pelos serviços prestados ou que não tenham despesas com funcionários e investimentos em equipamentos.

Vários grupos organizados foram surgindo em países altamente industrializados, em cantos e esquinas que administravam diretamente a vida da comunidade.

Essas ONGs foram estabelecidas por volta dos anos 70 nos países desenvolvidos e rapidamente se espalharam por todo mundo e embora tenham-se iniciado pelo interesse de poucas pessoas, sua atuação se da diretamente ao desenvolvimento de grupos sociais. Essa década foi marcada por lutas em busca de resgatar os direitos de cidadania e contra o autoritarismo da época.

Diante desses problemas, as ONGs que tinham caráter assistencialista, passaram a adotar estrategicamente ações localizadas em proporções pequenas com resultados a mais longo prazo e que inclua a participação da cidadania no processo de democratização e rediscussão do papel de atores da sociedade.

Segundo Sandoval , essa estratégia de transformação foi caracterizada por sua redemocratização dos países, tanto por suas ações serem para uma política social de desenvolvimento comunitário, quanto para atividades de auto-ajuda, assistência e serviços nos campos da educação, saúde, entre outros.

As ONGs atendiam também uma pequena parte dos estudantes que freqüentavam a escola. A partir de 1994 em uma conferência na Tailândia, um grupo de educadoras que fundaram o CENPEC , começaram apontar algumas críticas ao ensino público à escola excludente e seletiva. Outra questão discutida foi às ações complementares as da escola, as ONGs, que contratavam professores e montavam uma sala de reforço escolar, bastante centradas nos conteúdos escolares. Por outro lado, as atividades complementares, despertariam o gosto pela leitura, proporcionando um trabalho e garantindo o acesso desse jovem não apenas transmitindo conhecimentos escolares elaborados pela Secretaria da Educação, mas dar aos jovens pobres, dos bairros de periferias alguma noção de cidadania, atividades culturais esportivas, noção de direitos da criança e do adolescente.

A organização de pessoas em ONGs é entendida como um ato de solidariedade e necessidade. Esforços são somados em organizações, pois as desigualdades sociais e as difíceis situações de muitos indivíduos chegaram a um ponto em que é difícil não ter vontade de intervir de alguma forma. E como muitos setores da população acreditam que o governo não resolve, já que convivemos com situações limites (como a das crianças e dos adolescentes nas ruas) acabam fazendo por “conta própria”.

Uma característica comum as ONGs é sua atuação política e social com o objetivo de influenciar políticas públicas.

Já nos anos 90, ainda existiam pessoas em condições extremamente precárias, em favelas, cortiços, loteamentos clandestinos, embaixo de viadutos, em ruas e praças, sem condições nenhuma de saneamento e sem a mínima infra-estrutura.

As condições de miséria em que as pessoas vivem, sem água nem esgoto tratados, provocam muitas doenças como desnutrição, diarréia, pneumonia e quando essas pessoas sentem a necessidade de procurar um médico, percebe-se o quadro precário que é o sistema de saúde.

De acordo com Hebert de Souza:

O papel das ONGs no Brasil, na década de 90, é propor à sociedade brasileira, a partir da sociedade civil, uma sociedade democrática, dos pontos de vista político, social, econômico e cultural.

Durante as décadas, vários grupos se organizaram para lutar por suas necessidades. Uma dessas lutas foi em relação à mulher e sua luta por igualdade de direitos e sua participação ativa na sociedade. E foi à partir da década de 70 que esse movimento tornou-se intenso no Brasil. Como resultado dessas lutas, o próprio Poder Público teve a iniciativa de criar a Delegacia da Mulher e incorporou o artigo 5º., inciso I na Constituição de 1988 dizendo que “ homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”.

As propostas e desafios que as ONGs fazem para a sociedade é que todos estejam na condição de direito, de cidadão, sujeitos políticos com direitos e deveres que sejam influentes nos rumos da população, pois acredita que a política se faz com atores que em articulação fortaleçam o espaço público.

As ONGs têm um papel político muito importante, pois já se ouve dizer que seu trabalho tem atendimento de qualidade e com baixo custo.

Á partir de tudo que vimos desde o início desse capítulo, em relação a construção e luta das ONGs, segundo os autores do CENPEC:

Ainda é pequeno o número de entidades sociais que observam em seus estatutos a possibilidade de se manifestar contra o Estado para garantir os direitos das crianças e adolescentes e o governo diz :

“Nós já fizemos o nosso papel, mas a sociedade civil não assume o seu”.

Quando a sociedade civil se omite em relação, por exemplo, a defesa da criança e do adolescente pode ser fatal, porque o Estado e o Ministério Público só age se for provocado, embora deva vigiar que a lei se cumpra.

1.2. Os profissionais das ONGS

As pessoas que trabalham nas ONGs prestam atividade voluntária ou semivoluntária (remuneração abaixo do mercado).

O fato de muitas destas organizações manterem um salário bem abaixo do mercado seria por si só um fator suficiente para que empregassem profissionais malsucedidos ou malformados. Entretanto, alguns fatores contribuem para que isso não se torne uma regra: a flexibilidade institucional dessas organizações, que possibilita que seus funcionários tenham mais de um emprego.

Como uma espécie de compensação aos baixos salários, o trabalho nas ONGs possibilita aos profissionais, principalmente aqueles que exercem funções que requerem maior qualificação, o contato com entidades estrangeiras, por meio de viagens a congressos e seminários internacionais.

1.3. A Consolidação das ONGs

É a partir dos anos 1990 que a expressão “ONG” se tornou visível em cena pública. Em 1991 é fundada a ABONG (Associação Brasileira de Organizações não-governamentais). As raízes dessa associação são as mesmas das ONGs dos anos 1960 e 1970, a luta por democracia e direitos sociais.

A ABONG tem por objetivos, promover o intercâmbio entre entidades que buscam a ampliação da cidadania, e expansão de direitos, a justiça social e a consolidação de uma democracia participativa; firmar a identidade das ONGs brasileiras e afirmar sua autonomia; defender o interesse comum das suas associadas e estimular diferentes formas de intercâmbio entre elas e com instituições de mesmo segmento de outros países; informar sobre a atuação de agências governamentais, internacionais e de cooperação para o desenvolvimento; acabar com as formas de discriminação, frente aos desafios do desenvolvimento e da superação da pobreza.

A constituição da ABONG é resultado da trajetória de um segmento pioneiro de organizações não-governamentais que têm seu perfil político caracterizado por resistência ao autoritarismo; contribuição à consolidação de novos movimentos sociais; busca de alternativas de desenvolvimento ambientalmente sustentáveis e socialmente justas; luta contra a exclusão, a miséria e as desigualdades sociais; promoção de direitos e construção da cidadania .

Considerando a sua origem e o atual contexto histórico, a ABONG, junto com suas associadas, defendem e se propõem a vivenciar alguns princípios como aqueles que afirmam a sua identidade.

Aplicar à sua prática os princípios da ética, impessoalidade, moralidade, publicidade e solidariedade, buscando defender alternativas de desenvolvimento humano e sustentável que considerem a equidade, a justiça social e o equilíbrio ambiental para as presentes e futuras gerações; lutar pelo fim da miséria e da pobreza, se colocando contra políticas que contribuam para reproduzir desigualdades de gênero, sociais, étnicas e geracionais. Lutando pelos direitos humanos, que são uma conquista fundamental da humanidade, que tem o direito, coletiva e individualmente de exercê-los e ampliá-los, também afirmam o compromisso com o fortalecimento da sociedade civil, defendendo a soberania popular, a cidadania e o pluralismo político, étnico, racial, de gênero e de orientação sexual, sua autonomia perante o Estado e a sua independência diante dos organismos governamentais, condicionando possíveis parcerias ao seu direito e capacidade de intervir na discussão, formulação e monitoramento de políticas, defendem uma relação com a cooperação internacional baseada na autonomia, solidariedade, respeito e transparência, contribuem para o fortalecimento de um “pacto de cooperação” baseado nos valores explicitados nesta Carta de Princípios , bem como na solidariedade Norte-Sul, Sul-Norte e Sul-Sul, reafirmam e vivenciam o seu compromisso com a transparência, o primado do interesse público e a participação democrática interna, reconhecendo-os como componentes essenciais da gestão das organizações a ela filiadas;

Estimular a parceria entre suas associadas e co, outras organizações da sociedade civil, de modo a racionalizar recursos e fortalecer ações conjuntas, defendendo e lutando pela harmonia e respeito entre elas, de modo a fazer dessa prática, referência exemplar na sociedade.

O termo ONG foi assumido, no Brasil, por organizações que surgiram a partir dos anos 1960 e 1970, no período do regime militar. Contudo, elas não eram conhecidas por esse nome, mas por centros de educação popular, de programação social ou de assessoria e apoio.

O não reconhecimento social e a clandestinidade dessas organizações eram suas características, não só pelo autoritarismo do período pós-64, mas porque os protagonistas nesse momento eram os movimentos sindicais, rurais e populares.

O processo de desenvolvimento de uma nova sociedade civil organizada, se deu à partir de resistência ao regime da ditadura militar, através de mobilização e lutas sociais por democratização. Esse processo de resistência ao regime autoritário, instigou o surgimento de várias organizações civis, operários, estudantis, populares, entre elas as ONGs.

Essas ONGs assumiram um papel significativo, formando e liderando inúmeros movimentos sociais, operários, trabalhadores rurais, contribuindo com a rearticulação da sociedade civil.

Movimentos sociais e ONGs não são concorrentes. São sujeitos políticos que somam esforços para construir uma nova cultura política, democrática e direitos de cidadania.

O Estado autoritário contribuiu para uma sociedade civil frágil, sem direito a voz e com pouca cultura organizada. À partir deste cenário que percebemos á iniciativa e intervenção desses movimentos sociais que enfrentaram o autoritarismo e reivindicaram melhores condições de vida.

A Constituição de 1988, expandiu os direitos de cidadania e estabeleceu princípios de descentralização e participação de instituições no controle das políticas públicas.

Teixeira, descreve:

Com o processo de democratização abriu-se a possibilidade de um maior diálogo do Estado com as organizações da sociedade civil, obrigando-se não apenas a criticar as orientações políticas dos governos, como também a se envolver na elaboração de políticas públicas.

Por outro lado, o aparelho estatal, se viu obrigado a justificar suas ações e abrir canais para incorporar cada vez mais demandas sociais. Ao mesmo tempo, governos, em várias instâncias, se desresponsabilizaram pela elaboração de políticas públicas mais universais, com a justificativa de que o país não possuía recursos para atender à totalidade da população e as organizações civis são capazes de atender, gastando menos e com mais eficiência, aos anseios dos grupos menos favorecidos.

O conceito de Landin para as ONGs

Como um conjunto de atores, que se articulam em redes e se situam dentro de um determinado pólo do espectro político e social brasileiro, com densidade sociológica e consistência política construídas nas três ultimas décadas.

Já no início da fundação da ABONG, iniciou-se uma discussão sobre a legalidade das ONGs e qual deveria ser seu formato institucional. A própria Abong participou de um movimento que incentiva a maior presença das ONGs na sociedade, seguindo os princípios previsto na Constituição de 1988 que estabelecia sua grande participação.

Nessa época, as ONGs enfrentaram um obstáculo e uma crescente burocracia, com relação ao marco jurídico existente, criado para segmentos associativos, mas com uma outra perspectiva de atuação para as organizações.

Durante a década de 90, as associações deixaram de ser consideradas simples prestadoras de serviço e seu papel foi ampliado para um leque maior de políticos públicas. Nesse ponto a Abong foi muito importante na defesa que uma mudança fosse possível no sentido de fortalecer a sociedade civil, ampliando os direitos e o controle social das políticas públicas.

O Conselho da Comunidade Solidária, ligado à Presidência da República, teve a iniciativa em 1997 de realizar uma rodada de Interlocução Política, onde a Abong foi convidada a participar para discussão sobre o marco legal, gerando muitos debates pertinentes ás organizações.

O principal objetivo era criar uma regulamentação flexível, menos burocrática, para que as associações sem fins lucrativos assumissem maiores responsabilidades na ação de políticas públicas.

Essas discussões e debates tiveram sucesso. Em 1999 foi promulgada a Lei 9790/99 que criou um sistema classificatório, diferenciando as associações e fundações de interesse público e de caráter comercial. O critério utilizado para qualificação, foi por meio da identificação da área de atuação dessas associações.

Esse sistema classificatório, foi um grande avanço quanto a identificação de iniciativas sociais de interesse público que são de ações de associações e fundações.

As associações que atuam nas áreas de educação, saúde e assistência social, promoção de direitos, construção de novos direitos, teriam uma relação diferenciada e privilegiada com o Estado.

Essa relação de privilégio com o Estado, foi a grande critica apresentada pela Abong, devido ao repasse de recursos públicos para trabalho dessas organizações. Porém pouco se avançou na construção de um marco legal que trouxesse o fortalecimento principalmente de grupos populares que trabalham no processo de diminuição das desigualdades e fortalecimento da cidadania.

Á parir dessa relação privilegiada com o Estado onde a ONG seria sua prestadora de serviços, surgiu uma preocupação que geraria um debate sobre o papel atribuído às ONGs. Esse processo de prestação de serviços poderia estimular e gerar uma dependência institucional com relação aos repasses de recursos públicos, que ameaçariam a autonomia da organização.

A grande questão era de como articular esse papel que a Constituição de 1988 definia às ONGs, na participação às políticas públicas, sem que desse modo, perdessem sua autonomia política.

Mais tarde, em 2001 a 2002 a Abong teria uma importante iniciativa no debate a essas questões junto a Assembléia Legislativa de São Paulo.

De acordo com Ana Claudia, o período da Constituição, foi um importante espaço de discussão e busca de uma nova relação do Estado com a sociedade civil.

Os atores que desencadearam as lutas sociais do período anterior buscavam romper com o autoritarismo do Estado e o acesso privilegiado das classes dominantes a ele.

Embora já houvesse associações civis mesmo sob o regime militar, foi somente no final da década de 80 que essas instituições ganharam visibilidade definitiva e começaram a se espalhar por todo o Brasil e o termo ONG passa a ser assumido.

Em meados da década de 80 surgiram novos desafios para as ONGs e todos os setores da sociedade civil. As lutas pela democracia, incentivou vários atores a apresentar suas propostas. As ONGs passaram a ser protagonistas e não apenas assessorar os movimentos sociais, embora várias delas continuam assessorando esses movimentos sociais.

Uma diferença entre ONGs e movimentos sociais é a forma como são representados. Os movimentos tem uma base social que atribui representatividade e são legítimos, as ONGs são protagonistas, e sua legitimidade foi construída por suas ações e propostas. Muitas ONGs tem origens semelhantes aos movimentos sociais, mas ao longo de suas ações vão se diferenciando.

Durante as crescentes mudanças políticas, novas organizações são criadas, sem fins lucrativos, no campo da questão social, com vários objetivos e diferentes práticas. Todas são organizações de ações solidárias e que disputam o termo ONG.

Diante dessa questão, bem diz Haddad:

Muitas vezes, elas são tomadas com tamanha diversidade de olhares que acabam sendo responsabilizadas por tantos aspectos de intervenção social que nem sempre correspondem ao que efetivamente fazem ou são capazes de fazer(…) Para alguns, são motores de transformação social, uma nova forma de fazer política. Para outros, um campo propício ás ações do neoliberalismo, que busca repassar suas responsabilidades sociais para o campo da sociedade civil.

Como dizia o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho:

Uma ONG se define por sua vocação política, por sua positividade política: uma entidade sem fins de lucro cujo objetivo fundamental é desenvolver uma sociedade democrática, isto é, uma sociedade fundada nos valores da democracia – liberdade, igualdade, diversidade, participação e solidariedade(…).

Os movimentos sociais tiveram um papel fundamental, contra o autoritarismo social, pela capacidade de gerar, na sociedade, a conscientização de que todos têm “direitos a ter direitos”.

Existe uma questão fundamental que precisamos entender. As ONGs são movimentos sociais ?

As ONGs faziam parte dos movimentos sociais e ao assessorar esses movimentos, as diferenças não apareciam. Apesar de elas existirem, esses grupos tinham uma luta importante em construir uma igualdade, porque os interesses eram iguais.

Existe uma corrente de ONGs que preferem atuar no aumento da participação dos cidadãos nos mais diferentes campos da vida social. E essas entendem que a educação para a cidadania é uma estratégia para que os indivíduos se reconheçam como sujeitos portadores de direitos. Essa estratégia utilizada não tem interesse de afetar a cultura política, mas fornecer conhecimentos aos grupos não privilegiados.

Essa mobilização por parte das ONGs à esses cidadãos tem por objetivo que o seu trabalho atinja essas pessoas, alcançando os resultados que ela propõe, que a sociedade se conscientize de seus direitos.

Algumas Organizações tem um trabalho em um campo específico: mulheres, índios, negros, entre outros. Em 1985, foi reconhecido o trabalho da ONG “Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, que tem atendimento específico à saúde da mulher, porém outro grande objetivo é tornar essa mulher “mais cidadã”. Como declara uma integrante da ONG:

É um pouco de cidadania no sentido de que você procura que essa mulher, que passa pelo serviço [de atendimento ginecológico e psicológico, oferecido pela ONG], seja uma pessoa com maior consciência tanto do corpo dela […] como a gente trabalha a questão do fortalecimento dela mesma enquanto cidadã, em casa, no trabalho, na rua, no sentido de que ela tem um papel na sociedade, de que ela não é um ser inferior. Isto é um trabalho que é feito lentamente. Ninguém faz um discurso. Qualquer uma, ela não vai ser discriminada por ela ser nem doente da AIDS, nem dela ser lésbica, nem dela ter feito aborto […]. A mulher que a gente procura estar atendendo – e criando também – ajudando a esta mulher a ter uma consciência de si própria, de que ela é uma pessoa, de que ela tem direitos, de que ela pode.

Em 1994, foi criado o ISA (Instituto Sócio Ambiental) com o objetivo de trabalhar para que os grupos indígenas fossem capazes de decidir seus rumos.

Conforme declaração de um integrante do Instituto:

O ISA não está nele [em um projeto global para as áreas indígenas] porque acha importante fazer plano de manejo, o ISA está nessa porque sabe que se agente conseguir, como estamos conseguindo, que um grupo indígena assuma o controle do seu recurso natural e estabeleça um processo de uso sustentável desses recursos sob seu controle em benefício da sua comunidade, nós vamos provocar uma mudança enorme na Amazônia. Quando a gente fala em ação global é isso: é um esforço local em uma parceria muito forte com os índios, que envolve dentro do ISA uma pessoa que fale a língua dos Índios, que tenha absoluta confiança do grupo, que consegue interagir numa relação igual, não numa relação de branco para índio; e aí numa perspectiva de que isto será um fator de revisão da forma como a exploração tem se dado em terras indígenas.

Conforme já vimos, as Organizações Não-Governamentais se caracterizam por histórias, trajetórias e sua identidade política e social, marcada por profundas lutas em busca de sua construção. Durante essa trajetória, encontraram parceiros que teriam os mesmos objetivos de atuação, onde juntos somariam esforços para alcançarem esses objetivos, como poderá ser visto a seguir.

2. PARCERIA DA ONG COM O ESTADO

Parceria implica aprender a trabalhar junto e valorizar o que cada parceiro traz para a relação. É necessário ter clareza de seu papel e do que quer ser feito. Cada parceiro tem de conhecer as habilidades especificas do outro.

A questão dessa parceria tem o interesse de apresentar como se dá a relação de proximidade das ONGs com o Estado, que ao mesmo tempo que estão envolvidas na formulação de políticas públicas, também são vistas como assumindo responsabilidades que o Estado estaria abandonando.

Algumas ONGs vinculadas à ABONG, recusam-se a ter qualquer vínculo com o Estado, por acreditar que isso signifique tornar-se um braço do Estado.

Essas mesmas ONGs questionam a atuação de algumas organizações quando contribuem com atividades que podem ser consideradas “substituição das atividades estatais” e nesse caso o Estado utiliza o conhecimento e trabalho dessas organizações como se fossem empresas terceirizadas contratadas.

De acordo com um entrevistado da ONG Centro Luiz Freire:

Quando uma ONG surge para desenvolver um trabalho na área de habitação ou na área de educação, ou da criança e do adolescente, na prática, isso já é uma ausência de política ou a presença de política que não contempla ou contempla de forma equivocada aquele segmento, aquele tema, problema, questão. Então, a ONG, direta ou indiretamente, tem a ver com política publica. E hoje as ONGs tem muito mais clareza de que o seu agir ou é no sentido de fazer surgir uma política que responda àquele problema ou corrigir rumos da política pública que trabalha com aquele problema. E aí tem várias formas ou formatos de ações das ONGs.

As relações de poder entre as ONGs e o órgão governamental, compromete a autonomia dessas organizações, ficando sujeitos às direções políticas dos governos.

No caso de efetiva parceria de ação do governo, só algumas ONGs são selecionadas, o que provoca a competição e divisão entre elas, ao invés de fortalecer as redes e articulação entre si.

Nas palavras do entrevistado de uma ONG:

As relações com órgãos governamentais sempre foram de “amor e ódio”, ou entre “tapas e beijos”, com momentos mais próximos de diálogo, e até uma certa cumplicidade, e momentos de discordância profunda. Como foi destacada, a década de 1990 significou maior proximidade entre organizações da sociedade civil e governos […]

Com a democracia, surgiu a possibilidade de negociações com o Estado. Porém os medos de perda de autonomia, da manipulação do governo, são comuns aos discursos das organizações, apesar de muitos se arriscarem nessa parceria. Outro interesse que impulsiona as ONGs para uma relação com o Estado é sua sobrevivência.

Os contatos entre as organizações não-governamentais e os órgãos governamentais, normalmente existem expectativas de ambas as partes. Por parte das ONGs, esperam que o governo seja transparente, aberto, formulem políticas públicas que incluam as perspectivas das organizações e tenham confiança ao repassarem recursos. Por parte do estado, espera-se que as ONGs sejam eficazes, com profissionais bem qualificados, que tenham uma relação de confiança com o governo e estejam em sintonia com os objetivos do programa a ser implantado.

Normalmente as ONGs dizem que nasceram em oposição ao Estado, realmente foi em um momento de grande luta contra o Estado, porém não contra o Estado democrático, que esse traria novos desafios e habilidades. Uma pergunta fundamental que deve fazer parte da prática das ONGs em relação ao trabalho junto ao Estado: “Fazemos como, e para que ?”

O nosso maior desafio é juntar, dividir, juntos criar novas políticas de intervenção social, em parceria também com os Conselhos Tutelares para que os órgãos governamentais e não-governamentais promovam e defendam os direitos das crianças e adolescentes.

Antônio Carlos Gomes diz que o Brasil se acostumou a ver o trabalho infantil como solução e quando o brasileiro vê uma criança trabalhando diz:

Que bom que está trabalhando, poderia estar matando, roubando, prostituindo-se e mendigando, mas está ali engraxando sapatos, vendendo seu limão, seu picolé, ou está ali no canavial cortando cana, colhendo algodão, colhendo sisal.

Precisamos fazer uma revolução cultural, transformar o trabalho infantil de solução em problema, precisamos desmistificar, desmascarar essa “solução” e mostrar que ela é um grave problema, um grave obstáculo ao desenvolvimento pessoal e social, à cidadania das crianças e adolescentes.

É preciso que todos os setores que trabalham no atendimento à crianças e adolescentes tenham como norma o Estatuto da criança e do adolescente. Sabemos que as crianças têm direitos e temos uma emergência em atender essa classe que hoje estão sem qualquer atenção de suas comunidades, de saúde, que estão nas ruas e sem escolas. Esse é um desafio de garantir a proteção integral desses sujeitos e que deve estar traduzido em todos os desenhos de políticas de intervenção à esse atendimento.

As práticas da ONG sendo sadias, devem se tornar uma regra e não apenas formas alternativas, quando compreende e percebe não só o que o menino não sabe, mas o que ele sabe e do que é capaz.

Segundo a coordenadora do Banco de Dados do CENPEC, existem alguns convênios entre organizações e o governo, porém não existem dados, nem no conselho Nacional dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes, nem no Conselho Nacional da Assistência Social, que comprovem como se dá essa rede de atendimento e qual a sua dimensão. Não existem ações de políticas públicas na tentativa de se estabelecer uma comunicação entre as propostas no sentido de valorizá-las, criando normas para melhoria dessas ações complementares. Os convênios existentes são realizados não por via da Secretaria da Educação, mas pela Secretaria de Assistência Social embora se digam que exista uma preocupação e importância da parceria com a escola.

Através do Banco de Dados do CENPEC, podem ser identificados organizações que são beneficiadas através do convênio com o governo. Por isso, são conhecidos fragmentos dessas organizações que existem, porém sabe-se que existe uma demanda da população que é atendida por essas instituições, mas não são visíveis. Existem aquelas que ganham visibilidade da mídia e dessa forma podem ser identificadas.

2.1. Parceria das ONGS com financiamentos Internacionais

As políticas públicas são de responsabilidade do Estado, mas as ONGs podem servir como serviços de parceria e terceirização.

Muitas ONGs tem um trabalho voluntário, mesmo que tenham funcionários remunerados. O trabalho para adquirir recursos para o investimento de seu financiamento é muito importante e mesmo quando não existe parceria com o Estado para esse sustento, algumas organizações contam com parcerias internacionais e agências de cooperação.

Existem algumas ONGs que tem relação com entidades internacionais (ECF – Entidades de co-financiamento) para financiarem seus projetos. Esta relação geralmente começa quando a organização interessada em receber fomentos de agência internacional envia um projeto em prazos pré-estabelecidos e aguarda o resultado da seleção. Apesar de as ECF privilegiarem as ONGs por sua flexibilidade, caso esta entidade seja tão informal que não demonstre capacidade para administrar o projeto, a dotação poderá não ocorrer ou não ser renovada, sendo exigido um mínimo de estrutura organizacional e ser reconhecida legalmente.

A busca de financiamento, a prestação de contas, a elaboração de projetos, apesar de serem atividades rotineiras para as ONGs, podem valorizar a sua função, dependendo de sua estrutura organizacional.

Os projetos são renovados com prazos que variam entre um ano e meio e dois anos. Durante esse tempo, a ONG geralmente se compromete a enviar relatórios periódicos, semestrais ou anuais, com prestação de contas financeiras e uma descrição do andamento do projeto em relação a objetivos anteriormente estabelecidos.

2.2. Parceria da ONG com a família.

A família, qualquer que seja sua estrutura nas diferentes sociedades ou mesmo no seio de uma mesma sociedade, é o primeiro núcleo de socialização. Mesmo a criança que não tem a possibilidade de conviver com uma estrutura familiar tradicional – pai, mãe, irmãos e demais parentes – encontrará em seu ambiente os elementos essenciais (adultos mais próximos, amigos mais velhos etc.) que permitirão que se torne uma pessoa por inteiro, suprindo, na medida do possível, suas necessidades físicas, intelectuais e afetivas. Por meio do núcleo familiar, aprendemos as regras de convivência social, o permitido e proibido, o espaço de si e o do outro.

As camadas mais pobres da população são atingidas pela ausência de oportunidades, fazendo com que muitos desses adolescentes escorreguem pela via da violência e do tráfico de drogas.

Esta população tem se apresentado como uma maioria silenciosa sem espaços para interlocução política, tendo em vista a precariedade do acesso aos serviços das políticas públicas de saúde e educação, não tendo possibilidade para o desenvolvimento de projetos de vida para sair do nível de pobreza. Através de uma rede efetiva de possibilidade de trocas culturais como: esporte e lazer é feita uma aliança entre famílias, escola e comunidade, sendo assim valorizados os serviços assistenciais complementares a escola.

As três instituições são importantes, a família, sendo o núcleo fundamental do desenvolvimento; a comunidade, por ser o espaço onde fluem as relações com o mundo e a escola, que é a conexão necessária para uma inserção no mundo que permita uma existência mais justa e apropriação de informações e conhecimentos.

A comunidade dá oportunidade à criança, de vivenciar relações e aprender novas identidades necessárias a formação de referências sobre o mundo da vida e o exercício da cidadania

Qualquer ação educativa tem de se apoiar nesses três segmentos: família, escola e comunidade.

A ONG tem seu atendimento à família vulnerabilizada a fim de promover sua comunicação com a escola. Uma das funções da ONG é em primeiro lugar lembrar a família à importância de matricular e incentivar seus filhos a freqüentar a escola, e mostrar que o sucesso escolar é fundamental para cada um.

Em segundo, tem uma função educadora dos pais que não conhecem os caminhos da instituição escolar, ensinando-os a questionar sobre seus direitos de conseguir vaga e uma educação de qualidade para seus filhos, de maneira a serem ouvidos, compreendidos e respeitados, é importante também junto dos professores, encontrar saídas construtivas para os desafios apresentados por seus filhos.

A parceria, articulação com outras entidades e serviços do bairro fortalece a escola e as instituições de assistência à criança e ao jovem em suas demandas com o Estado, e permite melhorar a qualidade do serviço, conhecem-se pessoas novas, renova-se e atualiza-se uma instituição.

A escola a ONG tem de investir na comunidade para conquistar sua legitimidade e força, tornando-se um espaço de pertencimento enraizando nesta comunidade.

O relacionamento com os pais fica mais fácil com uma escola firmemente ancorada em seu bairro.

Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, todas as organizações que atendem crianças e adolescentes devem se cadastrar junto ao Conselho de Direitos local, que permite conhecer outras entidades semelhantes na área em que atuam, e também articular-se com outros serviços e conselhos de defesa de direitos: Conselhos Tutelares, Delegacia de mulheres, Procon, Fóruns e Tribunais de pequenas causas.

Não se pode esquecer de recomendações óbvias, mas que freqüentemente passam despercebidas. A rede de serviços deve ser oferecida de forma descentralizada, perto da comunidade a que atende, deve existir com regularidade, para se tornarem conhecidos da população.

O processo de apoio à família deve visar o desenvolvimento da auto-estima, capacidade de auto-determinação, fortalecimento do grupo familiar para que possa, ele próprio, processar seu cotidiano de forma emancipatória, a tornar-se independente .

O clube de mães por exemplo, freqüente na década de 60/70 foi considerado positivo, no sentido de vincular as mulheres ás políticas públicas, ao trabalho, à convivência com outras mulheres de sua comunidade, esta era uma das saídas emancipatórias para muitas mulheres. Isso também ajudava ampliar seu universo de relações, informações e culturas, os ganhos se refletiram no desempenho escolar de seus filhos, e na participação dessas mulheres em outros movimentos de reivindicação e de melhoras para o bairro.

A melhor forma de fazer com que um conjunto de pessoas “caminhe com as próprias pernas” é fortalecer seus participantes como um grupo organizado, sem esquecer de articulá-lo à comunidade maior em que estão inseridos.

2.3. Parceria entre a ONG e a escola

Muitas organizações estão cada vez mais conscientes do que podem fazer como espaço educativo, contribuindo para a formação das crianças e jovens, com programas complementares à escola, proporcionando atividades culturais, de acompanhamento escolar, recreação, esporte, lazer, etc., o que proporciona seu desenvolvimento integral. Esse espaço em horários alternativos aos da escola auxiliam diversos pais e mães de família de baixa renda, que por necessidade financeira acabam se ausentando por longos períodos de tempos em seus lares pela luta por sobrevivência e são obrigados a deixar seus filhos sozinhos.

Esses espaços e programas que são oferecidos, é uma forma de garantir a essas crianças e adolescentes, as mesmas oportunidades que geralmente são privilégios das demais camadas sociais, oportunidades essas que são essenciais para sua formação como cidadãos.

As escolas públicas e as instituições de atendimento, ONGs, são parceiras na tarefa de formação integral de jovens de baixa renda. Essa parceria é muito importante, pois as duas lidam com a mesma criança visando os mesmos objetivos, também nos princípios que se baseiam: aprender, conhecer, fazer, conviver e ser. Desenvolvendo esses princípios as ONGs estarão ajudando a escola, que estimula, essas mesmas habilidades básicas a preparar a criança ou jovem a ser criativo.

Esses pilares também podem permitir que a ONG e a escola desenvolva um trabalho de parceria e complementação para ter sucesso no desenvolvimento da capacidade do educando.

Vamos apontar aqui as respectivas aprendizagens desses pilares destacando as capacidades e competências para que o indivíduo exerça sua cidadania: No pilar Aprender a conhecer, explica que o conhecimento produzido pela humanidade é patrimônio de todos. Não da para pensar em justiça social quando a distribuição de conhecimento é privilegiando uns e discriminando e excluindo os outros.

Uma das tarefas normalmente atribuídas á escola é ensinar a ler e a escrever, mas isso não impede que outros espaços educativos colaborem com a escola e incentivem os educandos a adquirir essas competências. As organizações tendo um acesso de livros, divulgando entre os educandos as atividades desenvolvidas pelas bibliotecas públicas, organizar visitas monitoradas á jornais, editoras e outros eventos que envolvam a divulgação de livros, entrevista com autores de livros, criar participação dos educandos com projetos de leitura entre outros é uma forma de incentivá-los ao domínio da leitura.

É preciso aprender a ler o mundo, a ler nas entrelinhas, a receber criticamente as mensagens veiculadas pelos meios de comunicação, analisando-as, essa é uma exigência democrática, na medida em que prepara o indivíduo para compreender melhor a realidade social em que vai atuar.

Para conquistar a autonomia, o educando precisa ter informações e conhecimentos de informática nesse caso se tornam indispensáveis. Não se pode negar que a informática abriu várias oportunidades que contribuiu para a conquista do homem à autonomia. Porém Mata, lembra nessa questão que ainda no Brasil:

Enquanto alguns dispõem de bancos de dados sofisticados que lhes possibilitem o acesso ao conhecimento produzido no mundo inteiro em curto espaço de tempo, a maioria dos brasileiros não conseguiu completar o 1º grau, o que significa a privação de um saber socialmente produzido e outros nem sequer puderam se alfabetizar. (…) Assim, á medida que avançam os efeitos dessa transformação tecnológica e não avança na mesma proporção a igualdade de oportunidades de acesso à informação e ao saber, torna-se mais ajuda a desigualdade social, e conseqüentemente, mais distante a concretização de uma sociedade mais justa e democrática.

Os espaços educativos contribuem no sentido de criarem condições para que os educandos conheçam o significado e a origem das tradições e costumes de sua comunidade, para vontade de homens.

A análise dos saberes presentes no cotidiano dos educandos e de suas famílias fornecerão a oportunidade de valorizá-los aos seus olhos, destacando a importância que têm na melhoria da qualidade de suas vidas.

É importante garantir a direção a ser impressa nesse processo de aprendizado de habilidades para a vida: não se quer a domesticação do jovem, mas a formação de um adulto que aprenda a gerir sua vida com maior autonomia e, ao mesmo tempo, que partilhe solidariamente com os outros o mundo da vida

Para que isso aconteça, é preciso que os cidadãos sejam capazes de compreender o entorno social, como a sociedade funciona, como são as articulações entre as instituições. Esse aprendizado pode acontecer através da participação dos educandos e seus pais em toda a discussão do projeto de trabalho da instituição. Isso promove por parte da instituição a formação política de sua clientela, quando cria condições começando pelo cotidiano vivenciado pelos educandos na família, na escola e nos diferentes espaços sociais.

Para compreender o mundo que nos rodeia, precisamos também da capacidade de resolver problemas e nesse caso, no sentido de resolver qualquer situação de dificuldade. É preciso que o educando, aprenda a perceber e analisar a situação, criando estratégias de ação.

E essa capacidade está ligada ao domínio da língua:

É preciso garantir que todos se expressem, que todos possam falar de si (seus sonhos, desejos, descobertas, angustias, dúvidas e experiências), de sua família e do mundo (…) para que aprendam a manifestar suas idéias e sentimentos de forma clara e organizada, defender seus pontos de vista e respeitar os dos outros, conviver com as diferenças.

O pilar aprender a fazer, está associado ao educando levar seus conhecimentos à prática, tratando de uma formação profissional. O mercado de trabalho tem estado cada vez mais exigente e para em igualdade de condições, não basta apenas investir na formação profissional. É preciso trabalhar para o desenvolvimento de comportamentos sociais, como aptidão de trabalhar em equipe, de decidir em grupo, espírito de iniciativa também em resolver conflitos, criatividade e autonomia.

No pilar aprender a conviver, a participação ativa dos cidadãos na vida do País, se dá através da democracia e se aprende a participar participando. A ação participativa precisa ser trabalhada para adquirir autonomia e são as nossas instituições que devem oferecer situações em que crianças e jovens possam, propor, concordar, recusar, produzir, tanto sozinhos como em grupo, por exemplo, aprender a aproximar-se dos outros utilizando hábitos de saudação e regras de conduta; aprender a lidar com as diferenças e que opositores não são inimigos, sendo possível a convivência com eles, fazendo acordos, lutando juntos por uma vida melhor.

É preciso ensinar que os alunos não devem agredir os outros física e psicologicamente, explicando as conseqüências no que se ganha ou se perde nessa atitude.

E são nos espaços educativos que atividades nesse sentido podem ser desenvolvidas, como atividades esportivas e culturais que são favoráveis ao desenvolvimento da solidariedade e cooperação e ainda com atividades sociais envolvendo, por exemplo, projetos de melhoria do bairro, participação em ações comunitárias.

O pilar aprender a ser, é um aprendizado que se desenvolve durante a vida. Trata-se, para o jovem e para a criança conhecer a realidade e aprender a lidar com seus talentos, potencialidades e limites. Aprender a ser significa respeitar a si mesmo e aos outros. O trabalho cotidiano oferece oportunidades para o aprofundamento do auto-conhecimento e respeito mútuo entre crianças e jovens, através de espaços como ouvir e se expressar na roda.

Além da escola, outros espaços sociais oferecem educação, como a família, grupos organizados da sociedade civil, apesar de cada um deles ter características próprias, porém com objetivos comuns, contribuir para a educação de crianças e jovens e prepará-los para a inserção social e para o desenvolvimento de suas potencialidades. Diante dessa questão, as organizações não-governamentais que trabalham nesse segmento educativo crescem na participação, buscando aprimorar o seu trabalho.

Um programa de ações educativas bem estruturado, com atividades ricas, pode representar um importante espaço que supram as necessidades de formação integral de crianças e jovens, vítimas de pobreza e exclusão social, além de contribuir para o sucesso da criança na escola.

A grande transformação social que se busca, não depende apenas de grandes planos e projetos, mas de um trabalho dedicado, com desafios, avanços e retrocessos.

Como já vimos no capítulo anterior, as ONGs nasceram com um caráter de luta e reivindicação pelo direito á educação ainda bastante assistencialista e seu atendimento se dava a criança e adolescentes em situação de desvantagem social, que precisam de proteção e serem retirados da rua. O objetivo das ONGs era principalmente além de dar essa proteção, realizar um tipo de trabalho que ocupasse o tempo ocioso delas.

Á partir de meados da década de 90, passaram a assumir outro foco de atendimento, pensar em condições para realizar uma aprendizagem com maior qualidade. Além de acolher, alimentar e proteger esses jovens, essa instituição passou a ter um propósito educativo.

Por volta da década de 70, surgiram os primeiros projetos, como por exemplo a Casa do Menor que atendiam meninos e meninas que ficavam nas ruas. Porém percebeu-se que os modelos desse projeto não foram eficazes. Então surgiu outro programa que deu origem a quase todas as outras experiências que surgiram posteriormente, como o OSEM (“Orientação Sócio- educativa do Menor”) que durou de 1975 até 1986, tendo como programação básica: reforço escolar, recreação e esportes, artes, artesanato e grupos de orientação e alimentação.

Quando começaram se espalhar essas ações, percebia-se o descaso do poder público, que não valorizava o atendimento prestado por essas organizações. Nessas condições, os recursos para investimento e remunerações são baixos, e que torna constante a rotatividade de profissionais e uma condição precária do atendimento.

O CENPEC como já citamos anteriormente, tem como objetivo atuar nessas duas estruturas, ONGs e Escolas e entende que:

As ações ou programas complementares à escola são os que, oferecidos a crianças e adolescentes, proporcionaram atividades culturais, de recreação, esporte, lazer etc., de modo a assegurar seu desenvolvimento integral. São chamadas complementares à escola para relembrar, no próprio nome, o mandato constitucional segundo o qual toda população de 7 a 14 anos deve estar freqüentando o ensino fundamental. Assim, a proposta de ações complementares reafirma a centralidade da ação educacional da escola, pretendendo enriquecê-la e completá-la por outras ações.

De acordo com o guia de ações do CENPEC é importante que a equipe que define essas ações complementares, sejam compostas por pessoas da mesma comunidade dessas crianças e adolescentes mais carentes, pois essa estratégia pode facilitar a aproximação entre o educador, o adolescente a criança o que propõe uma maior valorização desses membros da comunidade. Porém, não se descarta a necessidade de capacitação e formação dessa equipe e ainda, declara:

Sabemos que a escola freqüentemente não consegue motivar crianças e jovens das camadas pobres para uma aprendizagem efetiva, adequada a sua realidade, não consegue, assim, mobilizar seus recursos nem despertar expectativas.

De acordo com Lilia Martins, a clientela atendida por esses programas provém das camadas mais pobres da população, que raramente têm acesso aos recursos culturais e educacionais comuns ás camadas médias e alta. Assim, têm menores oportunidades de adquirir os conhecimentos tidos como pré-requisitos para os “saberes escolares”, o que é geralmente um fator determinante do “fracasso” e da exclusão da escola.

Por esse motivo ainda declara:

Os programas buscam desenvolver valores e atitudes, promover a sociabilidade e a capacidade criativa, estimular o potencial cognitivo, propiciar uma atitude positiva frente ao conhecimento e a vontade de aprender sempre mais, incentivar o desenvolvimento da autonomia, melhorar sua própria qualidade de vida, reconhecer-se como sujeito ativo e participante dentro de seu grupo social.

Os programas que são oferecidos à população infanto-juvenil pobre tem a preocupação de promover seu sucesso na escola. Alguns oferecem atividades de acompanhamento escolar, outras proporcionam um espaço para que esse grupo tenha a oportunidade que as suas dúvidas de aprendizagem sejam resolvidas. Essas atividades são voltadas para que a criança aprenda, seja desenvolvida sua capacidade de aprendizagem e não apenas ajudá-la em sua tarefa escolar.

O adolescente aprende a ler na escola, que é o local apropriado para essa tarefa. Porém, atividades complementares podem despertar o gosto pela leitura e escrita. Esse trabalho acontece fora do espaço escolar, mas com o olhar voltado para a escola e que além de garantir o acesso desses sujeitos á instituição, suas atividades são elaboradas para que os mesmos tenham alguma noção de cidadania.

A intenção desses programas não é de substituição ou competição com o sistema escolar e sim complementar o sistema de ensino. São propostas atividades com textos, clubes de leitura, “hora da história”, reforço escolar que favorecem aqueles que foram excluídos das escolas, esporte que trabalha o respeito coletivo, solidariedade, convivência com regras, recreação, resgate da cultura, saúde, sexualidade, iniciação ao trabalho, educação ambiental, que trabalha relação entre as pessoas e a natureza, qualidade de vida das populações.

Todos os programas com proposta pedagógica bem elaborada prevêem um modo de se relacionarem com a escola freqüentada pelos participantes. Vários condicionam a inscrição da criança á matrícula na escola. Outros, desenvolvidos em localidades com menos recursos, buscam, através de seus educadores, conseguir vagas nas escolas públicas para crianças e adolescentes desassistidos.[..] Em alguns programas, os educadores sociais freqüentam eles mesmos as reuniões da escola, para conhecer os conteúdos que vêm sendo trabalhados e buscar dados sobre a aproveitamento da criança.

O CENPEC se propôs a instituir um prêmio, com o objetivo de fortalecer as ações complementares á escola, tendo como alvo às ONGs. Os encontros que são promovidos para a entrega desses prêmios, tem a participação das escolas.

Em 1995, nesse encontro, foi identificado um problema na forma com que cada uma dessas organizações se viam. As ONGs criticavam a escola, como instituição defasada e falida, afirmando que as escolas não despertavam o interesse das crianças para que aprendam com alegria. De outro lado, a escola em geral, viam as ONGs como concorrentes, dificultando algum tipo de colaboração.

Hoje é bem maior a abertura que existe entre as ONGs e as escolas, que através de iniciativas puderam ter seus olhares diferenciados umas das outras, desenvolvendo atividades em parceria.

O prêmio fortalece as organizações, com auxílio financeiro e visibilidade.

A ação complementar não tem por objetivo mudar a escola, colocá-la em xeque, propor um sistema alternativo. O objetivo, o centro da ação, é o sujeito, criar espaços competentes de aprendizagem, em que ele transite, é a proposta capital desse tipo de ação. Cabe a instituição cumprir aquilo que se propôs, a questão não está no conteúdo escolar, mas nos princípios básicos de aprendizagem, é pensar seu sucesso na vida e na reflexão crítica sobre a realidade, pois caracterizar-se-ia demasiadamente limitado pensar apenas no sucesso na escola, o familiar, etc., o que se espera da boa formação é a própria tomada de consciência, tanto do educando como do educador: enfim, a noção de que é possível desenhar propostas melhores, desde que haja comprometimento com a aprendizagem.

O sujeito está no centro da ação educativa e não no sistema escolar, pois o aprendizado não acontece só na escola. O que pode ser aprendido e ensinado pode ser organizado também em outros espaços. Um desses espaços são as ONGs que atuam com ações complementares.

A parceria entre a escola e ação complementar, passou a ser freqüente com o incentivo à erradicação do trabalho infantil.

Não existe divisão entre o trabalho das ONGs e escola, o que existe é uma preocupação na formação de jovens e crianças em situação de desvantagem social e econômica.

Várias instituições oferecem programas de educação complementar, através de atividades assistenciais e beneficentes para comunidades pobres menos assistidas.

Segundo o CENPEC, foi realizado um estudo em Maio de 2001, sobre o perfil dos programas inscritos no prêmio Itaú-Unicef 1999.

Dos 700 projetos que existem, aproximadamente 20 acontecem nas escolas. Também acontecem em outros espaços, como Igrejas, clubes e em geral têm uma Sede e contam com algum subsídio.

Nesse estudo foi feita uma pesquisa em relação a área de atuação das instituições e constataram que de suas ações, 93% são voltadas para educação, 72% arte e cultura, profissionalizante 55%, esporte e saúde 44%, assistência social 42%, entre outras áreas.

Já com relação aos recursos recebidos, quase 70% vindos do governo,66% doações individuais, 40% de empresas ou fundações.

O governo diante desses dados apontado como a principal fonte de recursos, deixou de atuar somente na escola, passando dar mais atenção à questão social e à participação da população. Em algumas instituições, esse recurso do governo chega a representar 90% de seus recursos.

Ainda como resultado desse estudo do CENPEC, a maioria dos programas que concorriam ao prêmio Itaú-Unicef, 1999, apontaram:

Ter como objetivo oferecer ações complementares à escola, com foco na aprendizagem escolar, o que significa promover atividades de reforço escolar, valorizar a escola pública, buscar melhorias no desempenho escolar, promover o ingresso, o sucesso e a permanência do aluno na escola, e finalmente, buscar mudança de hábitos e atitudes, na educação formal e não formal.

Arte, reforço escolar e esportes são os gêneros mais comuns de atividades propostos, de maior incidência. Assim, é de se supor que este tripé- arte, reforço escolar e esporte- vem sendo considerado fundamental para o desenvolvimento do jovem e para seu sucesso na escola.

Discutimos até agora sobre programas complementares e ações complementares e o CENPEC faz uma distinção entre essas ações:

Considera-se programa o projeto que tem caráter de continuidade, ou seja, atende de segunda a sexta, ou às segundas, quartas e sextas, outros, embora dêem atendimento apenas às segundas e quintas, adotam periodicidade sistemática próprias para a ação que desenvolvem. A ação complementar caracteriza-se por desenvolver atividades apenas uma vez por semana, é esporádica, não se configura como projeto- considera-se que oito horas semanais é uma carga horária pouco expressiva. A maior parte dos programas oferece um atendimento de 16 a 25 horas- o que corresponde a meio período. Cerca da metade dos programas atendem nos cinco dias úteis da semana.

A ligação entre educação escolar e ações complementares é vista como possibilidades de inclusão social. Ainda segundo o CENPEC:

É no espaço das organizações da Sociedade Civil que muitas crianças e jovens encontram condições para acessar recursos que propiciam um patamar de dignidade, para reivindicar outros direitos, como é o caso das ações de complementação de renda, algumas delas associadas a projetos de educação complementar.

Os problemas sociais, resultado da desigualdade que convivemos, afetam o sistema escolar e as organizações não-governamentais têm condições e flexibilidade para que educação e necessidade sociais caminham na mesma direção.

Bernardo Toro enfatiza que o saber social são vários conceitos que constituem a sociedade e a articulação da educação ganha sentido diante dessa compreensão. Para Toro, o educador é um trabalhador da cultura, porém é justamente o saber cultural que nossas instituições educativas não valorizam: tradições, mitos, artes, enfim, todos esses saberes são transmitidos e produzidos em espaços de aprendizagem e socialização. Cada espaço cumpre o seu papel, sem que um substitua o outro, porém é importante saber como articular esses espaços.

Uma importante concepção de Toro é que:

Em cada espaço de aprendizagem, seja a escola, a família, os partidos, são todos criados e ambientados de forma que se estimule uma determinada aprendizagem – seja pela disposição dos móveis, imagens, pela rotina, pelas recompensas e punições etc. Esta ambientação gera todo um sistema de valores que se quer imprimir, o que nos faz pensar que se a escola fracassa enquanto instituição, na criação de bens coletivos, se ela não dá conta de fazer o que se propôs, outros espaços da sociedade começam a ser criados e articulados.

Para uma das coordenadoras do CENPEC:

As ações de educação voltadas para crianças e adolescentes que se dão no período contrário ao escolar têm como objetivo permitir que crianças e adolescentes possam ter outros aprendizados que não são os escolares. Nesse sentido, há uma abertura para outras possibilidades de aprendizagem que não se dariam no espaço de escolarização.[…] a ação complementar, nesta perspectiva romperia essa lógica inventando seqüências didáticas e metodologias diferenciadas. Seria uma possibilidade de aprendizado que não é o escolarizado e que tem um forte componente lúdico-aprender brincando, aprender no esporte, etc.

As ações complementares também tem relação com o desenvolvimento integral e essas ações são desenvolvidas através de atividade. As artísticas, acredita-se que esta linguagem pode desenvolver um potencial individual, a imaginação, a criatividade. Diante dessa definição reforça o CENPEC que a arte não deve esgotar-se em si mesma, mas buscar formar um indivíduo com capacidade de criticar e transformar a realidade.

Em atividades como o reforço escolar, são desenvolvidos assuntos de escrita, leitura, cálculo, raciocínio lógico, capacidade de decisão interação social, entre outros.

2.4. Parceria com empresas

De acordo com um estudo feito pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, o Banco Itaú é um parceiro das ONGs de maior sucesso no Brasil, esse financia a ONG CENPEC. O grande investimento do Banco, se dá na importância da área que, se cada instituição cumprir seu papel podem resultar em ações que contribuam para o desenvolvimento social do Brasil.

O maior objetivo do Banco é o investimento na área social. Educação e saúde também são prioridades da empresa.

O programa do Itaú Social existe desde 93, no início com interesses voltados as ensino fundamental das escolas públicas. Hoje com a visão mais ampliada sobre a educação, que acredita na possibilidade de desenvolvimento de várias habilidades também em outros espaços além do escolar.

O investimento acontece através de prêmio Itaú-Unicef, dirigidos às ONGs que tem atuação em educação de ações complementares à escola, acreditando ainda, que essa organização é o principal espaço que proporciona esse tipo de oferta à população necessitada.

Participam da fundação Itaú, quatro diretores do Banco e o presidente, que se reúnem mensalmente para traçar as linhas mestras e direcionar os recursos.

Segundo o gerente do Banco, a intenção do prêmio tem como objetivo de aumentar e incentivar o trabalho das ONGs que representavam uma força e auxiliava as escolas.

Neste momento, escolas e ONGs apresentam, pontos de conflito em relação à ação complementar que põe em discussão o espaço escolar. Nesse sentido, a complementaridade se daria em relação ao que falta na escola.

Acredita-se que a denominação ação complementar, dá a idéia de complemento no sentido de falta ou necessidade e que essas ações só teriam sentido se fosse pedida pelo sujeito, nesse caso a escola. Todas as ações praticadas e desenvolvidas para que aconteça o processo de aprendizagem fazem parte do ato de educar. Sendo assim, não teria sentido a separação entre ação complementar e ação escolar. Nesse contexto, a expressão “ações integradas” seria mais apropriada e apesar de parecer um problema de nomenclatura, existe uma discussão sobre esse conceito. A questão fundamental está na pergunta: O que é complementação? As ações geralmente consideradas complementares são voltadas para o esporte, artes, porém arte e esporte não são formação complementar, mas conhecimentos essenciais.

Outra discussão sobre a ação complementar é no campo da formação profissional que passa a ser alvo das ONGs. Nesse caso, existem propostas de além de tentar formar as “profissões”, investem numa discussão sobre o mundo de trabalho, com a intenção de discutir sobre sua subsistência.

Em 1995, nasceu o programa “Crer para Ver”, da Fundação Abrinq, como objetivo de contribuir com a qualidade de ensino das escolas públicas, o qual recebia projetos vindos da comunidade, de ONGs, da própria rede pública de ensino, das APMs e que tivessem iniciativas escolares de acordo com as necessidades da comunidade, para serem enraizados na escola.

O interesse desse programa é que essas propostas tenham impacto nas políticas públicas, criando vínculo com o poder público, até mesmo para que seja feita uma parceria com relação à parte do financiamento do projeto.

Percebeu-se que os projetos apresentados pelas ONGs eram mais apropriados, a metodologia adequada, porém são os que têm menor possibilidade de se enraizar no espaço escolar, tendo maior potencial de enraizamento os projetos da APM que já faz parte do interior da escola.

Diante do melhor desempenho dos projetos das ONGs, não é possível pensar em políticas públicas de educação sem considerar o papel dessas organizações.

As duas organizações CENPEC e a Abrinq, tem iniciativas na educação e buscam articulação entre diferentes espaços de aprendizagem.

A escola como também a família, não conseguem desenvolver o sujeito com ações isoladas. Por isso, entende-se como necessário desenvolver organizações não-governamentais, pelo fato de estas buscarem diminuir as condições de miséria e acesso precário da população mais pobre aos bens culturais.

Parceria é uma relação de trabalho com um propósito a ser compartilhado, respeito mútuo e disposição para negociar, trocar informações, responsabilidade, habilidades e tomada de decisão.



3. AS PRÁTICAS EDUCATIVAS DA ONG

Nesse capítulo, temos o objetivo de apresentar alguns estudos de caso, objetivos e atividades que são desenvolvidas por Organizações Não-Governamentais, onde poderá ser contemplada a prática educativa desenvolvida por cada uma delas.

De acordo com uma reportagem da revista Nova Escola, as ONGs são vistas como fonte de inspiração e estímulo e contribuem para a melhoria da aprendizagem dos alunos. Nascidas nas décadas de 70 e 80 sob grande influência de Paulo Freire.

O poder público, além de ser o responsável por garantir o acesso e qualidade ao ensino, também acompanha as iniciativas dessas organizações. Por esse motivo, a relação entre as ONGs e a escola vai depender das mudanças de governo que podem interromper ou não essa relação, sendo necessário existir um bom alicerce que sustente a parceria das duas instituições, para que o governo dê continuidade as idéias que foram construídas em gestões anteriores.

À seguir apresentaremos algumas parcerias entre ONGs e escolas que resultaram em práticas educativas.

As capacitações realizadas por ONGs com o objetivo de auxiliar as escolas é uma forma de atualizar profissionalmente os educadores.

Para Silvia Pereira de Carvalho, coordenadora executiva do “Instituto Avisa lá”, o professor ganhou um parceiro para discutir e avaliar sua prática:

Por estar fora da rotina, esse formador lança outro olhar sobre o processo de aprendizagem, provocando uma busca por intervenções mais interessantes.

Em Limeira, no interior de São Paulo, uma parceria entre a prefeitura, o CENPEC e a Fundação Volkswagen, desenvolveu uma capacitação com educadores para trabalhar a leitura e a produção de textos, onde os técnicos da prefeitura trabalham diretamente junto da ONG.

A iniciativa começou em 2005, á partir da participação de educadores em uma formação realizada pelo CENPEC. Nessa capacitação, que acontece em encontros bimestrais de um dia, os educadores aprendem e conhecem diferentes estratégias de ensino, o trabalho com a diversidade e aulas que consideram o contexto em que o aluno vive.

Para trabalhar a oralidade na turma, de 1ª série, Isabel Verzenhassi, da EMEIEF Pastor Ismael Pereira Lago, juntou duas das sugestões trazidas pelo CENPEC: o “Clube de Correspondência” e os “Desafios de Rima”, em declaração diz:

A mudança foi incrível: os alunos hoje se expressam muito melhor e se correspondem com todos que vêm visitar a escola, mandando charadas rimadas. Fomos incentivados a experimentar coisas novas, e isso acabou unindo o grupo.

Para Claudia Petri, que também participou da capacitação do CENPEC:

Essa apropriação das idéias propostas pela ONG é o melhor resultado que se pode esperar de um programa de capacitações. Queremos que o professor seja co-autor do projeto e que, em vez de simplesmente aplicar o que foi proposto, ele recrie e adapte às suas necessidades.

As ONGs por aparecer outros espaços e momentos para a aprendizagem, ampliam as possibilidades de ensino, como por exemplo, dar aulas pelas ruas bairro.

Por estarem fora dos sistema formal de ensino, elas tem uma flexibilidade maior em relação a tempos, espaço, métodos e conteúdos.

Em Lucena, no interior da Paraíba, a organização “Apoitchá” em parceria com as redes municipal e estadual de ensino, implantou o projeto Rede Participativa, vencedor do Prêmio Itaú-Unicef Educação e Participação 2005 com o objetivo de trabalhar questões como do lixo e do meio ambiente, porém estenderam o objetivo para trabalhar também questões como dificuldade de leitura e escrita, desenvolver capacidades de pensar, criar e dialogar dos alunos, a pedido das próprias escolas.

A Apoitchá oferece às crianças, atividades em áreas diversas, como música, grafite, horta, teatro, artesanato, jornalismo e dança.

Na escola, dificilmente temos tempo para esse tipo de atividade, pois estamos sempre preocupados em dar conta do programa

Em casos como o de Lucena, em que uma ONG é responsável por atividades educativas feito em horários alternados aos da escola, o interessante é que exista uma planejamento entre a ONG e a escola.

É importante que o professor saiba o que seus alunos estão aprendendo nesse outro espaço, e vice-versa, para criarmos um plano de trabalho juntos. É uma parceria em todos os sentidos, e as crianças são as que mais ganham com ela.

O resultado dessa parceria pôde ser traduzido em números. Os índices de repetência da 1ª série na escola Américo Falcão em 2001 eram de 31%, em 2006 ano que iniciou o projeto, esse número caiu para 7,7% e houve apenas um caso de abandono.

Na EMEF Presidente Castelo Branco, no interior do Rio Grande do Sul, os alunos puderam pesquisar e ser levados a reflexão sobre seus próprios hábitos relacionados a temas como lixo, consumo, doação de sangue, drogas, violência, gravidez na adolescência. No desenvolvimento desse projeto, os alunos se aproximaram da comunidade sobre a importância, por exemplo, de doar sangue, questionar hábitos de consumo. Ao analisar os dados resultantes desse trabalho, os estudantes acabam repensando também seus próprios hábitos e a questão ambiental.

O principal ganho da experiência foi trabalhar de forma diferenciada os conteúdos curriculares, aproximando-os da vida dos alunos e abrindo um canal de escuta com a comunidade. Ao se basear na opinião dos diversos grupos – alunos, pais e professores – envolvidos com as questões, em vez de considerar apenas dados científicos, pude ampliar a abordagem dos conteúdos, dando a eles uma conotação mais social e não apenas biológica. É nessa capacidade de dar novas dimensões ao trabalho de sala de aula que está a ausência da mobilização.

3.1. Parâmetros Sócio-educativos para Organizações conveniadas com a Prefeitura de São Paulo

Foi elaborado um documento conforme diretrizes do Plano de Assistência Social da cidade de São Paulo – PLASsp 2002 – 2003 e decreto nº 43.698 de 02 de Setembro de 2003, da Portaria 034/2003 SAS/GAB de 05 de Setembro de 2003.

Baseado nas diretrizes deste documento foi produzido um material com a descrição dos serviços a serem desenvolvidos mediante convênios com organizações, entidades e associações sem fins lucrativos, com parâmetros sócio-educativos de proteção social para crianças, adolescentes e jovens em uma parceria que uniu esforços e interesses da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo, da Fundação Itaú Social e do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária.

Esta publicação pretende ser fomentadora de práticas socioeducativas cada vez mais efetivas em garantir proteção às crianças e adolescentes de territórios vulnerabilizados do Município de São Paulo. Destacaremos o objetivo e as metas de aprendizagem que foram formuladas para as diferentes faixas etárias, que deverão ser contempladas no trabalho dos centros para crianças e adolescentes.

O Centro para crianças e adolescentes tem como objetivo oferecer espaço de estar, de convívio e de participação para crianças e adolescentes de ambos os sexos, em horários alternados ao da escola ou diversificados e flexíveis e oferecer proteção social, como serviço de ação continuada a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, assegurando espaços de referência e de participação, de relações de afetividade, de respeito e de autoridade que garantam a ampliação de seu universo de trocas culturais, o acesso à tecnologia e a experimentação da participação na vida pública.

Inserção de crianças e adolescentes com deficiência, de adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa em meio aberto e de outros serviços de proteção social especial. Garantir padrão de qualidade das ações; planejar as ações e replanejá-las sempre que necessário, de acordo com as diretrizes técnicas e operacionais definidas pela SMADS e com as propostas apresentadas pelos usuários e pela comunidade (termo de convênio), de modo que tenha no planejamento, ações com as famílias e planejamento de vivência para o primeiro emprego.

As ações socioeducativas destinam-se a um grupo etário bastante extenso. Na faixa etária de 6 a 12 anos, são considerandos interesses e particularidades próprios. Nas demais faixas etárias as divisões são mais definidas do ponto de vista de suas particularidades: 12 a 15 anos – adolescência; 15 a 18 anos – juventude.

O início da escolaridade formal marca uma mudança de olhar da criança em relação as experiências vividas na família, com seus laços afetivos, suas regras, sua rotina, seus saberes e o das experiências a se viver no espaço público, na escola.

O estímulo e o apoio à melhoria da aprendizagem escolar de todas as crianças devem estar associadas às aprendizagens socioeducativas.

A fase dos 6 a 12 anos comporta diferenças bastante significativas: no trabalho junto a esse público é importante conciliar a garantia do acesso, permanência e sucesso na escola e a da circulação e ampliação do universo relacional e cultural onde os serviços socioeducativos têm papel relevante. Em ambas, o respeito às regras, assim como a capacidade de ouvir e de se expressar são fundamentais para a convivência e devem ser exercitados e discutidos.

METAS DE APRENDIZAGEM PARA CRIANÇAS DE 6 A 12 ANOS

Estimular a criança a reconhecer seus direitos aos serviços básicos de saúde, educação, esporte, lazer, cultura, segundo suas necessidades e interesses, para que, futuramente, tenha possibilidade de exercitar sua cidadania. Ser consciente de suas potencialidades e limites, respeitando a si próprio e aos outros em suas diferenças. Reconhecer a importância de preservar a escola, a ONG e demais equipamentos públicos. Participar ativa e cooperativamente de jogos e brincadeiras. Interessar-se por fatos, notícias, conversas e situações que ocorrem nos diferentes espaços em que convive e aprende. Valorizar o processo educativo e esforçar-se por aprender, aceitar seus erros, pedir ajuda, tentar de novo, arriscar e evoluir em toda sua capacidade. Preocupar-se em cuidar dos ambientes em que vive e do próprio corpo. Obter e cuidar de seus documentos (certidão de nascimento, carteira de vacinação, carteira de identidade e carteira escolar).

Freqüentar assiduamente a escola. Utilizar as diferentes linguagens – artística, corporal e verbal. Desenvolver habilidades necessárias para a vida cotidiana em busca da autonomia e de uma vida saudável. Conhecer as heranças culturais e históricas da comunidade. Comparar a própria identidade cultural com outras identidades. Conhecer os propósitos da leitura, da escrita, comunicação oral e do cálculo para utilizá-los em contextos reais diversos. Entender as regras do trânsito e de circulação de pedestres. Saber os modos de funcionamento dos equipamentos públicos da região (Centros Culturais, Centros de Saúde, Bibliotecas, etc.).

A adolescência é reconhecida como um período de mutações físicas, emocionais e intelectuais e se revela também como um processo de construção sociocultural.

As significativas mudanças no desenvolvimento físico, emocional e psicológico repercutem fortemente no comportamento do adolescente e trazem expectativas novas relacionadas à afetividade, à sexualidade e à necessidade de liberdade. A intensidade dessas descobertas leva a uma extrema valorização do convívio entre pares, fazendo com que a sociabilidade ocupe posição central na vivência do adolescente. Grupos de amigos são espaços importantíssimos na busca de respostas para suas questões.

As peculiaridades desse momento de vida têm sido quase sempre ignoradas pela sociedade e suas instituições – particularmente quando se trata de adolescentes dos estratos populacionais de menor renda – reproduzindo a idéia de que é preciso acelerar a preparação dos adolescentes para a vida adulta e pouco se perguntando sobre o que eles necessitam agora, em termos de vivências e valores a serem privilegiados em sua formação.

A fluência comunicativa – leitura e escrita – são ferramentas fundamentais para assegurar um bom trânsito no mundo societário.

É uma fase rica para desenvolver valores e atitudes de convívio – a dignidade, a solidariedade, a justiça, a coragem, o cuidado com as pessoas, com o meio ambiente e com a comunidade. O debate sobre dilemas morais é uma modalidade bastante rica para que adolescentes dêem significado a valores e atitudes. Passeios e pesquisas em outros ambientes, dentro ou fora do bairro, são excelentes oportunidades para a exploração da cidade, para adensar o convívio e exercitar sua participação em grupos organizados em torno de causas comuns. Aproximadamente aos 15 anos se inicia propriamente a juventude, os jovens nesta faixa etária possuem uma relação de experimentação com o mundo do trabalho. O trabalho é reconhecido por eles como possibilidade de obter uma renda e conquistar assim certa autonomia; por isso mesmo, o interesse pelo “bico”, pelo trabalho temporário.

Aqueles que já assumem responsabilidades maiores de trabalho e mantêm-se estudando enfrentam uma jornada próxima a 12 horas de dedicação a essas duas atividades.

É preciso reconhecer e investir no aprimoramento profissional e na formação educacional do jovem, o que lhe permitirá, se bem formado, ter melhores condições de iniciar e permanecer trabalhando. Daí a importância das ações socioeducativas articuladas e integradas às escolares e de formação profissional.

É claro que a condição de vulnerabilidade pessoal e social é um dos fatores que pode levar o jovem a se envolver em situações de perigo, violência, e até infrações, como o tráfico. Temos que atentar para essas possibilidades e oferecer alternativas. Os jovens pedem trabalho, querem assumir o gasto com seus desejos, uma vez que as famílias, quando conseguem, ocupam-se das necessidades básicas. No entanto, além do dinheiro propriamente, esses jovens encontram, nessas atividades delituosas, figuras de identificação muito fortes, que relativizam seus valores e banalizam os caminhos inadmissíveis para o sucesso.

O serviço socioeducativo deixa de ser o único espaço de freqüência regular. O jovem precisa desenvolver seus talentos, interesses e necessidades. Assim, a dinâmica de oferta de aprendizagens socioeducativas se altera. O próprio jovem faz suas opções e escolhas em torno de aprendizagens que deseja ou percebe como necessárias. Daí a importância do próprio Centro estimular e facilitar o trânsito deste jovem por um leque de aprendizagens que possam ocorrer em seu próprio equipamento ou em outros espaços.

O acesso aos serviços das políticas sociais deve ser constantemente estimulado. O esporte, a cultura, o aprendizado das tecnologias digitais e multimídia e projetos de intervenção na comunidade ganham especial relevância.

METAS DE APRENDIZAGEM PARA ADOLESCENTES DE 12 A 18 ANOS

Valorizar a família e a comunidade como espaços de identidade e pertencimento. Reconhecer o processo de escolarização como valor para fortalecimento da cidadania e o processo socioeducativo para ampliação das possibilidades de escolha. Confiar na própria capacidade de aprender e de atuar. Compartilhar seus conhecimentos em diferentes contextos (família, amigos). Valorizar os saberes dos outros, o saber social e o conhecimento acumulado historicamente. Conviver com diferentes grupos, respeitando as diferenças (convicções, condição social, time de futebol, jeito de vestir, de pensar e de agir) e repudiando ações de discriminação. Respeitar regras estabelecidas, questionando-as quando for o caso. Reconhecer e respeitar autoridade. Saber escolher e tomar decisões individuais e coletivas. Valorizar a própria identidade cultural e as diferentes culturas, interessando-se por aprofundar cada vez mais seus conhecimentos sobre modos de vida, saberes e fazeres em tempos e espaços diversos.

Valorizar a escola, a ONG e os equipamentos sociais. Interessar-se por ações de mobilização pela preservação do meio ambiente e pela garantia dos serviços sociais básicos. Conquistar habilidades necessárias para a vida cotidiana em busca da autonomia e de uma vida saudável – organizar pertences, cuidar de ferimentos. Obter e utilizar documentos (carteira de identidade, carteira estudantil, carteira de passe escolar), zelando por eles. Participar da produção dos bens culturais locais. Utilizar as diferentes linguagens – artística, corporal, verbal e escrita – como forma de interação com diferentes tempos, lugares, pessoas e objetos das culturas. Sistematizar e comunicar suas próprias aprendizagens (exposição, mostras, diários, portfólios). Refletir e conhecer a noção de justiça, sua aplicação legal e no âmbito das relações sociais. Conhecer os diferentes Estatutos e leis que garantem direitos básicos aos cidadãos e os valores que os embasam.

Conhecer as instituições que trabalham para garantia de direitos dos cidadãos em geral. Identificar os serviços sociais básicos como conquista e direito de todos. Conhecer e identificar os diversos gêneros literários. Conhecer e saber usar processos de comunicação oral e escrita. Conhecer os conceitos de diversidade e identidade cultural. Lidar com sua saúde de forma preventiva e responsável. Agir com independência na vida cotidiana – cuidados corporais, alimentação, vestuário e orçamento. Planejar suas necessidades de consumo relacionando-as aos limites orçamentários. Planejar e gerir um projeto profissional. Conhecer a legislação trabalhista. Saber analisar as ofertas do mercado de trabalho relacionando-as com seus interesses. Conhecer as áreas de formação profissional e as carreiras correspondentes.

3.2 – Apresentação das Organizações pesquisadas.

Organização A:

ESPAÇO INFANTIL RECREATIVO EDUCACIONAL QUADRANGULAR PROJETO VIDA, localizada no Distrito e Subprefeitura de Campo Limpo, com atendimento destinado a faixa etária de 6 à 14 anos e 11 meses. O serviço é oferecido de segunda-feira à sexta-feira das 7 às 16 horas

3.2.1- Currículo da Organização

O Espaço Infantil Recreativo Educacional Quadrangular Projeto Vida, localiza-se no Distrito de Campo Limpo, onde nasceu através de ações sociais da Catedral das Nações – Igreja do Evangelho Quadrangular do Campo Limpo junto à comunidade há mais de 38 anos. Em função das demandas apresentadas pela comunidade e pelo contexto do território, o serviço foi se ampliando até ser formalmente legalizado e constituído em 05 de maio de 1995.

A organização está localizada no Distrito do Campo Limpo, divisa com o Distrito de Vila Andrade, um território que apresenta um bolsão de alta vulnerabilidade social. A organização atende moradores do Jd. Rebouças, Vila Praia, Jd. Olinda, Jd. Umarizal, Vila Nova Pirajussara e adjacências.

Em função dos altos índices de não-alfabetizados na região, juntamente com a presença dominante do trabalho informal, iniciaram-se os primeiros movimentos sociais – alfabetização de jovens e adultos e assistência social emergencial através da distribuição de cestas básicas e roupas.

Com o passar dos anos, em face do crescimento e adensamento populacional, com forte viés da migração nordestina, a organização passou a buscar outras possibilidades para atender também crianças e adolescentes. Por conta dessas necessidades foi preciso ampliar o leque de atuação da organização, com vistas ao fortalecimento da família, através da educação (alfabetização e educação infantil), assistência social (proteção social, relações familiares e comunitárias, cidadania, convivência, geração de renda, formação e qualificação para o mundo do trabalho), enfim, projetos que possibilitassem o acesso ao exercício da cidadania.

A partir da constituição legal e das demandas impostas pela questão social, em parceria com a sociedade civil e o Estado e visando a melhoria das condições de vida da periferia vai se construindo a missão da organização, objetivando principalmente o fortalecimento da cidadania com vistas à construção de uma sociedade mais justa e equânime.

O trabalho sempre foi desenvolvido a partir das demandas levadas pela comunidade e em parceria com a mesma. São atendidas atualmente por volta de 400 famílias em ações voltadas para a assistência social num trabalho que busca fortalecer a rede de serviços local. O foco do trabalho tem sido ações sócio-educativas e culturais que visam o fortalecimento da família, como núcleo fundamental do desenvolvimento humano e do exercício da cidadania.

Através de parceria com voluntários são desenvolvidos cursos de espanhol, artes marciais e dança-terapia (balé clássico, jazz, dance-street e hip hop) e formação e preparação de adolescentes para o mercado de trabalho.

Acontecem ainda ações sociais de intervenção direta através do Projeto Mãos à Obra com visitas domiciliares, distribuição de cestas básicas, roupas, fraldas descartáveis, produtos de higiene pessoal, também plantão social através do atendimento de uma assistente social e uma estagiária para as demandas da comunidade.

A organização recebe adolescentes para cumprimento de medida sócio-educativa em parceria com o NPE Campo Limpo, encaminhamentos do Conselho Tutelar e Fórum de Santo Amaro.

Essas características sociais, geram nesse território altos índices de crianças envolvidas em trabalho infantil, principalmente em atividades de coleta de material reciclável, vendas em faróis e trabalho em feira-livre. Essas famílias em sua maioria subsistem do trabalho informal principalmente a coleta e venda de materiais recicláveis. Esse se torna um negócio de família, ou que passa de pai para filho, ou mais freqüentemente de mãe pra filho, potencializado pela ausência da formação educacional e profissional adequada que possibilite a empregabilidade.

As questões relativas a infância e adolescência são acentuadas pelos graves problemas associados à formação educacional inadequada, que gera maior exposição aos riscos pessoais e sociais. Há uma grande demanda pelo PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, bem como pelos programas de distribuição de renda em geral. O número de famílias que sobrevivem graças a esses programas é muito grande, o que demonstra a fragilidade sócio-econômica, que dificulta o desenvolvimento humano, aumentado os índices de baixa auto-estima e falta de autonomia, gerando um sentimento de “humilhação social” ou frustração e revolta diante da falta de expectativas. Tais condições territoriais dificultam o desenvolvimento econômico e social e potencializam a exclusão dessa população, impossibilitando o acesso ao exercício da cidadania.

As condições de vida dificultadas por questões econômicas e sociais agravam ainda mais a fragilidade das relações familiares, uma característica presente em todas as classes sociais, mas que se mais cruel nas periferias. Nesse contexto a família é exposta a mais pressões que a tornam ainda mais instável e fragilizada, dificultando-lhe o exercício do papel fundamental na mediação das relações sociais.

Para lutar contra esse triste circulo vicioso, é necessário desenvolver ações que possibilitem o acesso a cidadania e ao protagonismo social da família em situação de vulnerabilidade. Para enfrentar os altos índices de exclusão e desigualdade social é preciso trabalhar para a construção de políticas públicas que respondam a pobreza e miséria, expressos através de altos índices de analfabetismo, graves problemas habitacionais, desqualificação para inserção no mundo do trabalho formal, problemas crônicos relacionados à saúde, sistema educacional precarizado, inexistência de equipamentos que garantam o acesso à cultura, aos esportes, ao lazer, enfim, a uma condição digna de vida.

É preciso ter clareza em relação aos graves problemas educacionais no Brasil para melhor compreender a fragilidade e vulnerabilidade expressa por esses grupos familiares. Segundo dados do INEP,dos 97% de alunos que tem acesso ao ensino fundamental, apenas 52% destes conseguem concluí-lo. Se analisarmos a situação pelos índices de alfabetização a questão é ainda mais grave. Dados do SAEB dão conta de que apenas 4,8% dos alunos da 4a.série do fundamental estão plenamente alfabetizados, 39,7% medianamente e 55,5% não estão corretamente alfabetizados, o que gera uma imensa população de brasileiros que não conseguem sequer ler e entender um texto simples.

Essa situação de caos na educação se expressa de forma contundente na impossibilidade de acesso ao mundo do trabalho, que exige cada vez mais formação adequada para competir com os mercados globalizados.

Sendo assim, as condições de fortalecimento da família ficam cada vez mais defasadas. Some-se a isso as graves condições do acesso à saúde integral, e temos um contexto social que exige cada vez mais da política de Assistência Social, foco central da nossa atuação.

Há poucas ofertas de áreas para lazer e recreação no território. Não há parques públicos, e o único equipamento público, o Balneário Municipal do Jardim Umarizal é muito pequeno e não consegue atender minimamente às necessidades da população.

As crianças e adolescentes ficam dessa forma sem acesso a condições mínimas de ocupação do tempo de forma agradável e segura no pós-escola. Para se garantir a proteção social preconizada no Estatuto da Criança e do Adolescente o espaço do Núcleo Sócio Educativo é um serviço público essencial. Por isso a procura por este espaço é muito grande nessa região. A demanda por vagas é muito expressiva, e a quantidade de vagas não cobre minimamente a demanda que é crescente. Há crianças que aguardam na fila de espera e que chegam a juventude sem nunca conseguirem o atendimento. O atendimento que deveria ser universal passa a ser priorizado a partir da emergência social, que é extremamente cruel, pois obriga a escolhas entre muitas necessidades sociais básicas. A maior demanda é de atendimento para garantia de proteção social à crianças que ficam sozinhas ou acompanhadas de outras crianças, enquanto a mãe faz “bicos” para garantir a sobrevivência.

O papel do NSE junto às famílias é fundamental nesse cenário, entendido como ferramenta para o seu fortalecimento e exercício da cidadania. Esses espaços que oferecem possibilidades de estar e convívio, alimentação, higiene, recepção, escuta, encaminhamentos e fortalecimento do núcleo familiar são imprescindíveis sob esse prisma. O espaço do NSE se constitui assim numa possibilidade real de acesso de enfrentamento a vulnerabilidade social, como serviço de referência para a comunidade e como uma das portas de entrada para a assistência social.

A organização tem como objetivo promover a garantia de proteção social à crianças e adolescentes em situação de vulnerabidade e risco, propiciar espaço de referência para conviver, estar e crescer na vida em comunidade, de forma participativa, estabelecendo relações de afetividade, respeito e dignidade. Desenvolver ações que possibilitem a ampliação do universo social, cultural, relacional e educacional através da participação na vida pública e do exercício da cidadania. Estimular a participação em fóruns, conselhos e afins, como espaço público de intervenção e controle social.Organizar o trabalho sócio-educativo a partir de eixos temáticos, levantados a partir das demandas dos usuários, como por exemplo: cidadania, meio-ambiente, saúde e sexualidade, habitação, empregabilidade, educação, esporte, lazer, recreação, cultura, participação popular, etc.

A organização oferece espaços adequados ao desenvolvimento das atividades contando com: 06 salas de aula, refeitório, biblioteca, brinquedoteca, sala de atendimento (psicóloga, psicopedagóga e assistente social), playground, piscina, cozinha industrial, 8 banheiros e pátio interno.

Os usuários atendidos são de 6 à 12 e de 7 à 14 anos, dos sexos feminino e masculino, cursando o ensino fundamental, respeitando-se as faixas etárias na formação dos grupos de trabalho. O convênio é para 80 usuários, e a média mensal de atendidos em 2007 foi de 97 usuários. O número de usuários indiretos (família e agregados) chega a 500 usuários/mensal. A capacidade instalada de atendimento ao NSE no equipamento é de 100 usuários.

Os grupos são sub-divididos por faixa etária, respeitando-se as características dos mesmos na escolha dos temas a serem abordados. A partir da escolha de um tema central as atividades são realizadas através de projetos e oficinas, utilizando-se dos seguintes recursos: leituras de textos, tais como: contos, fábulas, histórias infantis, poesias, reportagens de revistas e jornais; jogos educacionais; filmes, atividades culturais (visitas; saraus; mostras, etc), arte-educação (dobraduras, colagens, pinturas, desenhos, reciclagem de materiais roda de conversa, assembléia, recreação e lazer (aula de natação, recreio na piscina, caminhadas, futebol, brincadeiras de roda).

A escolha dos temas parte das demandas trazidas pelos usuários e são escolhidos de acordo com suas prioridades.

Para o desenvolvimento do trabalho são realizadas as atividades semanais onde se trabalha com artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente, com o objetivo de informar, orientar e motivar a conscientização sobre a importância da participação política na efetivação da cidadania e são desenvolvidas através de dinâmicas, dramatizações, colagens, e a partir delas, são promovidas discussões que reflitam sobre as questões contempladas.

Existe um trabalho de orientação e encaminhamentos para documentação (RG, Certidão Nascimento, Carteira de Trabalho) e programas de distribuição de renda (PETI, BPC, Agente Jovem, etc) em parceria com o CRAS Campo Limpo.

Promovem um espaço democrático, através do qual possam ser colocadas todas as questões pertinentes ao cotidiano do NSE relacionadas aos usuários, suas famílias, funcionários, comunidade, organização e estado. As questões são colocadas através de “bilhetes”, que não precisam ser identificados, onde se expressam elogios e críticas ao funcionamento do NSE. A partir daí são construídas propostas coletivas para a solução dos problemas apresentados e repassados os “bilhetes” de elogio e agradecimento.

Foi firmada uma parceria com NPE -Núcleo de Proteção Social do Campo Limpo para possibilitar o cumprimento da Medida Sócio Educativa, através de recepção, convívio, escuta, orientação, encaminhamentos, contatos com família e escola e espaço para realização de atividades que promovam a integração dos adolescentes à organização, comunidade.

Promovem também atendimento para famílias da comunidade através de parceria com a Faculdade de Psicologia da UNINOVE e Faculdade de Serviço Social da UNISA, com abertura de campo de estágio com 20 estudantes dos dois últimos semestres com supervisão de professores e profissionais específicos. Atendimento em grupo e individual. Seminários e palestras sobre questões relacionadas à família: sexualidade, saúde reprodutiva, DST/AIDSBAN, questões de gênero, educação de filhos, relações familiares, etc. O projeto é realizado aos sábados, com quatro horas de atendimento, das 9 às 13 horas. Sendo o atendimento em grupo e individual, com mães, familiares e crianças. A partir de entrevista social, são feitos encaminhamentos de acordo com as demandas apresentadas. Os usuários que apresentam demandas urgentes são encaminhadas para atendimento individual com duas psicólogas voluntárias. Existe ainda parceria com o Serviço Social do Hospital Darci Vargas, para encaminhamentos necessários de crianças e adolescentes, que
participam desse atendimento. Uma vez por mês há um encontro entre a equipe do NSE e das estagiárias para discussão do desenvolvimento do projeto.

Atendimento psicopedagógico através do acompanhamento das atividades de alfabetização e reforço escolar através dos educadores sociais. Treinamento dos educadores sociais para interagir no processo da formação educacional. Os casos são trazidos e discutidos pela equipe e são traçadas as estratégias para acompanhamento das necessidades das crianças através de atividades em grupo. Caso haja necessidade especial são agendadas sessões individuais com a psicopedagoga.

As atividades diárias são de orientação sobre cuidados pessoais através da higiene pessoal, escovação de dentes, alimentação, cuidados com a aparência, etc. Fortalecimento da auto-estima e prevenção da saúde, encaminhamentos ao Posto de Saúde do Jardim Umarizal. Parceria com a UBS através de enfermeiras que realizam visitas periódicas para acompanhamento e orientação, marcação de consultas e acompanhamento de vacinação, palestras e seminários com agentes de saúde, enfermeiras e médicos da UBS Umarizal. Parceria com o Serviço Social do Hospital Darcy Vargas e com o serviço de acompanhamento do diabetes juvenil.

Atividades de artes marciais, duas vezes por semana. Atividades semanais de natação na primavera/verão. Atividades recreacionais na piscina da organização. Atividades recreacionais no campo de futebol comunitário da comunidade. Aulas de capoeira com professor de educação física e mestre de capoeira. Aulas para alunos do NSE I e II e para crianças e adolescentes que aguardam vaga nesses atendimentos, aulas de dança com professora de dança-terapia (estagiária da Faculdade de Psicologia): ballet clássico, street dance e funk.

Atividade Semanal. Oficinas de artesanato, dobraduras, colagens, pinturas, trabalhos com recicláveis, etc. Desenvolver e estimular talentos e aptidões artísticas e culturais através de terapia ocupacional.

Atividade diária. Apoio para o desenvolvimento do processo educacional. Acompanhamento, reforço e estimulo às atividades escolares com encaminhamentos e orientações específicas para crianças que apresentem demandas especificas. Acompanhamento psicológico e psicopedagógico. Trabalho em rede com as escolas do entorno para potencializar

Durante todo o ano os grupos realizam a leitura de livros de literatura infantil e juvenil em grupo. A leitura é realizada diariamente (30 minutos) pela educadora e usuários. A escolha dos livros é decidida pelo grupo, a partir das indicações do educador. Ampliação do universo cultural, estímulo à leitura e ao processo educacional. Esse projeto melhora o nível de atenção e concentração e facilita o processo de aprendizagem.

Parceria com a Secretaria Municipal de Cultura através da Oficina de Teatro Vocacional. A oficina é realizada por dois profissionais (artista-educador) encaminhado pela SMC que realiza atividades semanais de 3 horas semanais. A Oficina de Teatro Vocacional em parceria com o Centro para Crianças promove e participa de eventos culturais da região (atividades culturais do CÉU CAMPO LIMPO, visita ao Museu da Língua Portuguesa). Visitas a museus e espaços culturais (Museu da Língua Portuguesa, Museu da Casa Brasileira). Participação em mostras culturais da Secretaria Municipal da Cultura. Parceria para realização da Mostra Cultural do Projeto “MAIS CULTURA MAIS VIDA”.

A capacitação é realizada com toda a equipe, com carga horária de 8 horas, realizada pela assistente social e pedagoga/psicopedagoga. São promovidas também formações especiais de acordo com necessidades do grupo, em que são convidados profissionais das áreas estudadas. Em eventos especiais são convidados outros profissionais em função do tema estudado. Participação em cursos e palestras mensais promovidos pela Fundação Abrinq, com carga horária de 6 horas mensais, em sistema de rodízio. Participação em cursos e seminários promovidos por SMADS e parceiros (Secretaria Municipal de Cultura, Educação, Instituto Sou da Paz).

3.2.2 – Organização B:

Centro para criança de 06 anos a 12 anos e centro para adolescentes de 12 a 15 anos – Arrastão Movimento de Promoção Humana, localizado no Distrito e Subprefeitura de Campo Limpo.

3.2.3 – Currículo da Organização

Fundado em 1968, o Projeto Arrastão é uma organização sem fins lucrativos que trabalha o desenvolvimento comunitário por meio de ações de promoção social, educacional e cultural.

Nasceram de um clube de mães voluntárias que ensinavam trabalhos manuais às mulheres do Campo Limpo, com o objetivo de estimular a geração de renda. A iniciativa ganhou força e essas mães foram para o mercado de trabalho. Foi aí que uma outra questão se apresentou: como cuidar dos filhos durante o período de trabalho dessas mães?

O Projeto Arrastão deixou de atender somente mulheres e passou a trabalhar com a Educação Infantil, instituindo um programa de educação formal para crianças entre dois e cinco anos de idade, em período integral.

Atividades e linguagens extracurriculares são oferecidas aos adolescentes do Núcleo Sócio-Educativo, em horário alternativo ao ensino regular. São 240 alunos com acesso a aulas de cidadania, informática, educação ambiental, entre outros temas relevantes ao desenvolvimento infanto-juvenil, além dos 45 integrantes do Arrasta-lata, um grupo de crianças e adolescentes com idade entre 7 e 14 anos, que trabalha a música como meio de conscientização sobre a importância da preservação do meio ambiente, reutilização e reciclagem do lixo.

As ações se estendem com o Programa de Formação de Jovens, trabalhando a faixa etária entre quinze e vinte e um anos de idade. Cursos, oficinas e núcleos e trabalho proporcionam ao jovem formação em diversas áreas de interesse. Todo este trabalho é permeado pelo estímulo ao empreendedorismo e à construção de projetos de vida.

A Atenção especial é dedicada às mais de 700 famílias atendidas de forma direta. São diversos programas e projetos que atendem às necessidades básicas, que vão dos mutirões voluntários para esclarecimento de questões jurídicas à capacitação para recolocação profissional. Pais de alunos e a comunidade da área reconhecem na organização um trabalho sério, confiável e transformador da realidade local.

Para a sustentabilidade financeira conta com a parceria do poder público nas três esferas municipal, estadual e federal: Prefeitura Municipal de São Paulo, Secretaria de Assistência Social, Fundo Municipal da Criança e do Adolescente, Ministério da Cultura, Secretaria da Educação, além de apoio de várias empresas, institutos, fundações, como: Banco Indusval Multistock, Unesco Criança Esperança, Instituto HSBC Solidariedade, Mantecorp, BM&F, Universidade Presbiteriana Mackenzie e Partners of América, pessoas físicas, eventos e venda de produtos.

O público atendido é composto por moradores da região de Campo Limpo, zona sul de São Paulo, formado pelos distritos de Capão Redondo, Campo Limpo e Vila Andrade. Inclui também crianças e jovens moradores do distrito Jardim Ângela, que já foi considerado pela ONU como a região urbana mais violenta do mundo. (Ver ANEXO 1)

Os dados de escolaridade da população da região têm em média de um a sete anos de estudo que se dividem da seguinte maneira:

Distrito: Campo Limpo

Menos de 1 ano de estudo: 11.804
de 1 ano a 7 anos (1º Grau Incompleto): 79.683
de 8 anos a 10 anos (1º Grau Completo): 29.192
de 11 anos a 14 anos (2º Grau Completo): 22.306
15 anos ou mais: 5.091
Não determinado: 2.530

Distrito: Capão Redondo

Menos de 1 ano de estudo: 14.507
de 1 ano a 7 anos (1º Grau Incompleto): 103.307
de 8 anos a 10 anos (1º Grau Completo): 37.691
de 11 anos a 14 anos (2º Grau Completo): 23.009
15 anos ou mais: 3.474
Não determinado: 5.966

Os equipamentos de educação da região:

CENTRO EDUCACIONAL UNIFICADO/CEU CAMPO LIMPO

Distrito: Campo Limpo

Equipamento: 1

CENTROS DE JUVENTUDE: EQUIPAMENTOS E CAPACIDADE

Distrito: Campo Limpo
Equipamentos: 8
Capacidade: 885
Distrito: Capão Redondo
Equipamentos: 7
Capacidade: 638

Distrito: Vila Andrade

Equipamentos: 2
Capacidade: 430

ESCOLAS DE ENSINO FUNDAMENTAL

Distrito: Campo Limpo
Total: 36
Públicas: 27
Particulares: 9

Distrito: Capão Redondo

Total: 53
Públicas: 33
Particulares: 20

ESCOLAS DE ENSINO MÉDIO

Distrito: Campo Limpo
Total: 20
Públicas: 12
Particulares: 8

Distrito: Capão Redondo

Total: 22
Públicas:14
Particulares: 8

O PROJETO ARRASTÃO atende os casos de crianças e adolescentes em situação de trabalho, adolescente em cumprimento de medida sócio-educativa, adolescente em Liberdade Assistida (LA), vítimas de violência sexual e doméstica, crianças e adolescentes com rompimento do vínculo afetivo, 5% de crianças e adolescentes portadores de deficiência, casos atendidos no plantão social constatados caso de vulnerabilidade social, visita social domiciliar para casos que apresentam na ficha cadastral situação de vulnerabilidade social, crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e risco social, casos encaminhados pelos Centro de Referência da Assistência Social, casos encaminhados pelo Conselho Tutelar, casos encaminhados por escolas da rede pública, casos encaminhados pela Vara da Infância e da Juventude.

Tem como objetivo, desenvolver as potencialidades e capacidades das crianças e adolescentes, partindo dos seus próprios universos de conhecimento, estimulando a participação pro ativa das crianças e adolescentes no enfrentamento dos problemas concretos de sua comunidade, dando condições para que a criança e o adolescente possam situar-se diante de si e do mundo, exercitando sua autonomia. Articular ações com a escola formal, de maneira a garantir o desenvolvimento integral das crianças e adolescente, através de ações educativas envolvendo a comunidade, o que incentiva a participação dessa criança e adolescente no contexto a que pertencem e Incentivando a multiplicação do conhecimento.

Para desenvolver o trabalho e atender o público em questão, a organização trabalha com atividades diárias e também através de projetos, em áreas de formação que são as seguintes:

A área de FORMAÇÃO PESSOAL E SOCIAL visa possibilitar a construção de uma sociedade democrática e igualitária, para tal requer que as crianças e adolescentes recebam informações e formação que lhes permitam atuar como cidadãos, que lhes permitam ampliar o leque de escolhas. Sendo pessoas capazes de converter problemas em oportunidades, capazes de organizar-se para defender seus interesses e solucionar problemas, através do diálogo e da negociação, respeitando as regras, leis e normas estabelecidas.

A área de PROTAGONISMO INFANTIL estimula a participação pro ativa da criança e do adolescente no enfrentamento de problemas concretos de sua comunidade.

A área de EDUCAÇÃO PARA VALORES da subsídios para que a criança e adolescente possa situar-se diante de si e do mundo, capacitando-se para tomada de decisões fundamentadas em critérios sólidos e, portanto, preparando-se para o exercício da autonomia responsável.

As atividades propostas, são realizadas diariamente através de rodas de conversa, onde são discutidos e apresentados pertinentes a cada faixa etária, brinquedoteca, sala de leitura, esporte, educação ambiental, projeto de artes, informática, musicalização, biblioteca, projeto de leitura e escrita.

Dentre muitos projetos que são realizados estão, PROJETO FAMÍLIA CIDADÃ, que tem como proposta o acompanhamento social com as famílias atendidas, por meio de ações sócio-educativas que visam a prevenção da violência doméstica, o acesso à informação, o exercício da cidadania, além da integração comunitária, através de rodas de conversas com temas pertinentes à família. O PROJETO SAÚDE PREVENTIVA visa realizar ações de cunho educativo e com foco na prevenção. Terão como publico alvo: os educadores, crianças adolescentes e adultos que participarão de palestras com temas pertinentes e de interesses próprios. Além do público interno realizaremos capacitação com agentes de saúde (das UBS locais) que servirão como elementos multiplicadores na comunidade, por entenderem que a saúde é um dos problemas sociais mais graves no Brasil e especial nas periferias das grandes capitais. É, portanto um dos direitos básicos da população que mais atenção necessita dos órgãos governamentais.

Entende-se também que a sociedade civil organizada pode contribuir muito para a reversão deste quadro, principalmente através de ações educativas, tendo em vista seu poder de prevenção em saúde. O PROGRAMA DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO tem intervenção voltada para o trabalho do fortalecimento da comunidade através de ações que levam a comunidade para a busca do exercício pleno de sua cidadania. A mesma ocorrerá através de projetos de informação à comunidade para a questão de seus direitos, ação de cidadania e de mobilização social. Um grande foco será o trabalho em rede tanto regional como temáticas. O programa também buscará uma atuação intensa na região de Taboão da Serra através de um projeto de melhorias habitacionais. O grande objetivo deste programa será a intervenção nas políticas públicas, a mobilização comunitária e formação de lideranças que serão os grandes mecanismos de mudança do quadro de desigualdade social existente na região.

O projeto com SARAU, possibilita que pais, responsáveis e a comunidade apresentarem os seus produtos artísticos (poemas, cantos, demonstração dos trabalhos manuais) para apreciação da cultura, bem como para expor seus talentos.

3.2.4 – Condições de acesso ao serviço

Com base no PLAS (Plano de Assistência Social) a noção de vulnerabilidade social de pessoas, famílias ou comunidades são entendidas, como uma combinação de fatores que possam produzir uma deterioração de sua qualidade de vida, em conseqüência da exposição a riscos. A vulnerabilidade de um indivíduo, família ou grupos sociais refere-se à maior ou menor capacidade de controlar as forças que afetam seu bem-estar, ou seja, a posse ou controle de ativos que constituem os recursos requeridos para o aproveitamento das oportunidades propiciadas pelo Estado, mercado ou sociedade. Assim, a vulnerabilidade à pobreza não se limita em considerar a privação de renda, central nas medições baseadas em linhas de pobreza, mas também a composição familiar, as condições de saúde e o acesso a serviços médicos, o acesso e a qualidade do sistema educacional, a possibilidade de obter trabalho com qualidade e remuneração adequadas, a existência de garantias legais e políticas

As formas de acesso aos serviços oferecidos pelo Projeto Arrastão se constituem por meio de encaminhamentos do Centro de Referencia da Assistência Social, Conselho Tutelar, Vara da Infância, casos de vulnerabilidade social identificados no Plantão Social, casos encaminhados pela Coordenadoria da Educação, além das fichas cadastrais realizadas pelo Projeto Arrastão.

Nesse contexto de casos de vulnerabilidade social, falta de oportunidades para crianças e adolescentes, muitas vezes vivendo em condições subhumanas, as Organizações Não-Governamentais tem um papel importante e fundamental no desenvolvimento desses indivíduos. Como podemos ver, o foco dessas organizações é no trabalho social, porém acreditam que a base para alcançarem os objetivos propostos pelo trabalho, está na prática da educação. Isso se dá através das atividades que embora paralelas às escolares e sendo recreativas como: teatro, música, brincadeiras, só serão alcançados quando as crianças e adolescentes atendidos aprendem por exemplo o mínimo de noções e práticas de higiene que muitas vezes não existem, devido à condições que vivem, como por exemplo casas sem banheiro, também para participarem das atividades de teatro, minimamente devem ter domínio sobre a linguagem, interpretação, enfim, o trabalho social só terá sucesso se estiver baseado em práticas educativas.



CONCLUSÃO

Baseado em tudo o que vimos nesse trabalho, podemos concluir que as Organizações Não Governamentais nasceram em um momento em que existia um grupo de pessoas da sociedade, menos favorecido e pouco assistido pelo governo da época, autoritário e ditador.

Diante do contexto político e social em que vivia a sociedade, existiu uma grande luta com o governo, aparentemente que não teriam muitos resultados, mas que demandaria muita mobilização da população para que sobrevivesse em meio aquela situação.

Marcado pela resistência à ditadura e ao autoritarismo, pela presença ativa nas lutas democráticas, pelo compromisso de luta contra a exclusão e as desigualdades sociais, pela defesa de direitos e da construção da cidadania, pelo apoio aos movimentos sociais, pela busca de alternativas de desenvolvimento ambientalmente sustentáveis e socialmente justas e pela defesa e consolidação da democracia.

A crescente luta em conquistar espaços e ações que beneficiassem uma população pobre, era contra um governo ditador e forte comparado aos grupos que se organizavam, que talvez grande, mas não detinham nenhum poder. Esse era um grande desafio, uma luta de “fracos” contra “fortes”.

Qualquer discriminação é imoral e lutar contra ela é um dever por mais que se reconheça a força dos condicionamentos a enfrentar.

A trajetória dos vários agentes que participaram em ações para a sociedade que estamos falando, foi um grande desafio, pois além de enfrentarem tantos obstáculos, passaram por uma fase em que mesmo com objetivos em comum, sofriam conflitos de identidade. Daí deveriam lutar juntos pela sociedade, mas também para construir suas identidades, características e defender seus interesses próprios. Esse era um grande desafio, não se confundirem em meio a tantos grupos que surgiam, nem mesmo com o Estado, para que essa crise não atingisse a população que deveria ser assistida.

Mudar é difícil, mas é possível, que vamos programar nossa ação político-pedagógica, não importa se o projeto com o qual nos comprometemos é de alfabetização de adultos ou de crianças, se de ação sanitária, se de evangelização, se de formação de mão-de-obra técnica.

Ninguém pode estar no mundo, com o mundo e com os outros de forma neutra.

Durante essa construção de identidade, foram surgindo ONGs que trabalhavam em defesa de diversas áreas, indígenas, de mulheres, crianças, adolescentes, enfim, e para que pudessem atingir seus objetivos, buscaram somar esforços com outras instituições e agentes que teriam os mesmo objetivos, ou que passaram a ter quando reconheciam nas ONGs um trabalho sério e um objetivo social e humano.

Foi então que surgiram as parcerias em diversos âmbitos, social, econômico e educacional, através de empresas nacionais e internacionais, do Estado e também com as famílias.

Essas parcerias foram fundamentais para consolidar o trabalho dessas organizações e alcançar um resultado que com certeza beneficia o publico atendido por elas.

A função da ONG desde o seu nascimento era de aspecto social, com o objetivo de intervir em favor de uma classe pobre, para melhorar a qualidade de vida de qualquer cidadão. Mas ao longo de seu caminho, o aspecto educacional foi ganhando espaço, trazendo atividades complementares as da escola de ensino regular, com estratégias e metodologias que embora de cunho educacional, desenvolvidas de forma recreativa.

Mesmo que ainda essa parceria esteja em construção, hoje as escolas são grandes parceiras das ONGs, principalmente por trabalharem com o mesmo publico, crianças e adolescentes em vulnerabilidade e risco social, ambas trabalham para tirar essas crianças e adolescentes das ruas, dar alimentação, e principalmente proporcionar um espaço com atividades e programações que além de ocupar o tempo deles pra que não fiquem nas ruas, oferecem atividades que tem por meta o desenvolvimento integral desses indivíduos, na família e na sociedade.

São esses que a ONG acolhe, por acreditar que a educação é prioridade para nova qualidade de vida.

Quando falo em educação como intervenção, me refiro tanto á que aspira a mudanças radicais na sociedade, no campo da economia, das relações humanas, da propriedade, do direito ao trabalho, à terra, à educação, à saúde, quanto à que, pelo contrário, reacionariamente pretende imobilizar a História e manter a ordem injusta.

Toda prática educativa demanda a existência de sujeitos, um que, ensinando aprende, outro que, aprendendo ensina.

Outro saber de que não posso duvidar um momento sequer na minha prática educativo-critica é o de que, como experiência especificamente humana, a educação é uma forma de intervenção no mundo.

Concluímos então nosso trabalho com as palavras de Paulo Freire, “ A prática educativa é tudo isso: afetividade, alegria, capacidade cientifica, domínio técnico a serviço da mudança.

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PILETTI, Nelson, História do Brasil, Ática, São Paulo,1997.

Marketing Convencional x Marketing Social

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O conceito marketing surgiu por volta dos anos 70, serviu para poder descrever as técnicas do marketing usado para a promoção de uma causa, comportamento ou idéia. Antigamente já era possível verificar o marketing presente em questões voltadas para campanhas. Hoje em dia verificamos que essas campanhas são voltadas as questões relacionadas a educação, ambiental e saúde.

O Marketing social tem seus objetivos complexos, já o marketing convencional é mais voltado para estratégias, geralmente o publico voltado ao merketing social tem menos recursos que a media da população e isso faz com que os resultados de sua satisfação sejam mais demorados.

O marketing social tem como meta o bem estar da sociedade ou de um individuo e não somente a satisfação individual, envolve convencer o público-alvo a se envolver em trocas fazendo com que isso vire uma rede de distribuição de satisfação coletiva. Percebendo assim que há um foco em mudanças de comportamento desempenhado pelas organizações, e o marketing convencional é focado nas práticas empresariais.

Marketing de causas sociais é voltado à melhora da imagem de uma corporação, que diferencia seus produtos e isso faz com que elas realmente a fidelidade dos clientes realmente as vendas, esse esforço as empresas fazem que sejam vistos uma “empresa socialmente correta”

Essa união da empresa com a sociedade deve ser transparente com a intenção de assumir compromisso com as parcerias de longo prazo entre empresas e Organizações do Terceiro Setor.

A organização agrega uma causa, nos seus processos de promoção e venda de seus produtos e serviços ou sua imagem a uma determinada causa, seja ela social ou não, para que com isso consiga atingir seus objetivo de conquistar ou atrair os seus clientes.

No caso do marketing social, o principal impacto é a transformação da sociedade, na qual a empresa ou a instituição está inserida.

As práticas do marketing social assim como a do marketing convencional devem passar pela análise ética desde da sua aplicação até os impactos que ela criará.

Como Montar uma Rede VoIP

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Pode-se montar com muita facilidade, com a utilização de um pequeno roteador.

Com esse dispositivo você pode automaticamente compartilhar sua conexão com a Internet entre os computadores da sua rede, bem como compartilhar arquivos e impressoras. Já que os roteadores também funcionam como um firewall baseado em hardware, ele é também a maneira mais segura de conectar sua rede à Internet.

A instalação é muito rápida e pode montar sua própria rede em apenas alguns minutos.

O roteador é um dispositivo que integra várias outras características:

Roteador de banda larga: Compartilha automaticamente a conexão com a Internet entre todos os computadores ligados a ele. Pode ser configurado para limitar o acesso a Internet com base em vários critérios (por exemplo, hora do dia – você pode querer que seus funcionários acessem a Internet apenas durante o horário de almoço ou após o expediente).

Firewall baseado em hardware: Evita vários tipos de ataques em seu computador e também evita que pastas e impressoras compartilhadas em sua rede sejam acessadas por outros computadores de fora da sua casa ou escritório.

Switch: Quase todos os roteadores também integram um switch (geralmente um switch de 4 portas), permitindo conectar os computadores da sua rede diretamente no roteador sem a necessidade de qualquer periférico extra. Pode expandir o número de portas instalando um switch externo ao roteador. Portanto, para uma rede pequena com até quatro computadores não precisará de um hardware extra para montar sua rede.

Servidor DHCP: Este recurso centraliza todas as opções de configuração da rede no roteador e, portanto não precisará efetuar nenhum tipo de configuração nos computadores da sua rede. Este recurso permite a conexão em qualquer computador no roteador para ter acesso imediato à Internet e aos recursos compartilhados, como pastas e impressoras localizadas em sua rede, sem a necessidade de nenhum tipo de configuração adicional.

Wireless: Os roteadores mais modernos possuem rede wireless como opcional, permitindo a conexão entre computadores sem a utilização de cabos. No entanto, os computadores precisarão de placas de rede sem fio e a instalação desse tipo de placa em cada computador da sua rede pode sair cara. No entanto existem vários riscos de segurança e opções de configurações avançadas que devem ser feitas para usar o recurso de rede sem fio de forma segura. Leia nosso tutorial Habilitando Segurança em Redes Wireless para aprender mais sobre o assunto.

Servidor de Impressão: Alguns roteadores possuem uma porta paralela ou uma porta USB para você conectar sua impressora nele. Permite que qualquer computador da sua rede use a impressora sem qualquer configuração avançada. Se for preciso compartilhar uma impressora entre todos os computadores e o roteador não possui esta opção, o computador onde sua impressora está instalada precisará estar ligado quando se quiser imprimir algo.

Isto pode ser irritante, por exemplo, se a impressora estiver conectada a um computador de alguém que não está no escritório e que por sinal desligou o computador e colocou uma senha. Além disso, usar um roteador com opção de servidor de impressão pode economizar algum dinheiro em sua conta de luz, já que você não precisará de um outro computador ligado para usar a impressora. Se escolher comprar um roteador com este recurso, precisará comprar um como o mesmo tipo de conexão da sua impressora: paralela ou USB.

O Enfoque Sistêmico

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Os conceitos de sistema proporcionam uma série de raciocínios que levam a compreensão de complexidades da empresa moderna como um todo.

Os conceitos e aplicações de um sistema desenvolveram-se depois da Segunda Guerra Mundial; passa-se então a ouvir e falar de sistemas de defesa, sistemas hidráulicos, sistemas econômicos, etc.

Esse período foi apenas o de “análise”, hoje podemos perceber que estudos ainda existem mais, já possuímos inúmeros sistemas e, diferentes formas de serem operados.

Considerando os vários tipos de sistema existentes Kenneth Boulding preparou uma classificação:

1- O primeiro nível é o da estrutura estática.
2- Este é o nível é o do sistema dinâmico simples, com movimentos predominantes e necessários.
3- O sistema dos mecanismos de controle é auto-regulável na manutenção do equilíbrio.
4- Este nível é o da estrutura do “sistema aberto”, ou que se mantém sozinho, é o nível onde se diferencia a vida de não-vida.
5- Este nível é chamado de genético-social resume-se em plantas.
6- O nível animal caracteriza-se pela mobilidade.
7- Este nível pertence ao humano, isto é, aquele que vê o ser humano, individualmente capaz de utilizar a linguagem e símbolos.
8- Já o sistema social tem base na organização humana, no qual se sabe o que são valores, imagens, sentidos, etc.
9- Por fim os sistemas transcendentais são supremos e absolutos.

Percebemos que os três primeiros podem ser classificados como físicos ou mecânicos, o quarto, quinto e o sexto dizem respeito aos sistemas biológicos, botânicos e zoológicos; á os últimos três relacionam-se com os sistemas humanos e sociais.

Conceito de Sistema

Um sistema é uma rede de componentes interdependentes que trabalhem em conjunto para tentar realizar o objetivo do sistema. Um sistema deve ter um objetivo, sem um objetivo, não existe um sistema; o objetivo do sistema deve ser claro para qualquer pessoa entender. A administração de um sistema exige conhecimento de inter relação de todos os componentes e das pessoas que nele trabalham.

Componentes Básicos

Objetivos: referem-se tanto ao usuário como ao sistema, o objetivo é a razão e finalidade para qual ele foi criado.
Entradas: é tudo aquilo que o sistema necessita como material de operação e é obtido no ambiente no qual interage.
Processo de transformação: é definido como função, que possibilita a transformação de uma entrada em um produto, serviço ou resultado.
Saídas: são o resultado do processos de transformação das entradas é o produto final que, será colocado no meio do ambiente em que o sistema se insere.
Retroalimentação: pode ser considerada como a reintrodução de uma saída sob a forma de informação, ela é um instrumento de controle.
Ambiente: é onde o sistema está inserido, é onde provêm as entradas, é onde o sistema lança suas saídas.
Subsistemas: todo sistema possui partes menores denominadas subsistemas.

A empresa como um sistema

Concluímos após os fatos estudados, entendemos que caráter sistêmico e empresa sistêmica, são diferentes, mas uma afeta o outro.

Sistemas empresariais são complexos de recursos humanos e materiais.

O objetivo precede os sistema organizacional e aqueles que nele trabalham. Os trabalhadores podem não ser a origem do objetivo, pois como saber que tipo de trabalhadores escolher? É uma obrigação da liderança patrocinar e energizar a determinação da meta. O enfoque desta tarefa pode estar em uma pessoa ou em grupo. Qualquer que seja o ponto de origem deve haver, evitada organização, em sentido de concordância a respeito do objetivo.

Operações e Hierarquias dos sistemas

Operam por subsistemas: compras, estoques, suprimentos, produções, vendas, faturamento, cobrança, controle, e outros. Essa dependência recíproca faz-se caracterizar-se um sistema.

A articulação das atribuições é chamada de sistemas de gestões administrativas.

Entendemos como hierarquia um departamento (subsistema) depende de uma informação de mercado (super sistema) a satisfazer os desejos da empresas (sistema).

Administração de um sistema

Consiste em direcionar os esforços em prol de evitar o fracasso da instituição. É necessário imaginação e senso de direção. A administração e os líderes ainda têm outra tarefa, governar. A preparação para o futuro inclui a aprendizagem em longo prazo de funcionários, e inclui também um exame constante do ambiente (técnico, social e econômico) para perceber as necessidades de inovação. Questione-se sempre que puder:

Que tipo de empresa seremos dentro de cinco anos? Dentro de dez anos? Será que estaremos voltados para os mesmos produtos?

FILOSOFIA SISTÊMICA NA EMPRESA X ESTRATÉGIA SISTÊMICA DA EMPRESA.

Quando se diz que uma empresa tem uma determinada filosofia, indicamos um grupo de dirigentes, composto por superintendentes, proprietários, conselheiros e semelhantes estabelece determinadas diretivas à missão final da empresa em relação ao assunto enfocado sendo estável na sua forma e perante o seu conteúdo.

A diferença entre filosofia e a estratégia sistêmica é que esta ultima pode ser emitida pelos principais executivos, que determinam os princípios básicos da empresa.

As três principais definições que se enquadram e servem de base para este item são: sistema , empresa e organização.

Sistema é um conjunto de elementos que atuam de forma integrada e inter-relacionada, com função definida para que os objetivos, metas e projetos sejam alcançados.

Empresa é o conjunto de elementos atuando d forma orgânica para alcance dos objetivos, metas e projetos estabelecidos.

Organização é o conjunto de elementos ordenados por atividades, autoridades, responsabilidades e relações estruturadas organicamente para cumprir os objetivos, metas e projetos estabelecidos.

Empresa é o conjunto, uma estrutura, uma composição de elementos integrados por recursos humanos e materiais, que por processo interativos e integrados dentro de sistemas administrativos e empresariais, agem em atividades hierárquicas, com determinadas responsabilidades e autoridades compondo a organização.

Resultado de tudo isso é o encontro de dois fatores, o fator estrutural que é relacionado com os recursos humanos e materiais (atividades, responsabilidades, autoridades, etc.).

E o fator operacional ou funcional que está relacionado com o estabelecimento de padrões e parâmetros de comportamento e avaliação, e deve ser seguido ou obtido pela estrutura de recursos humanos e materiais estabelecidos.

ESTRATÉGIA EMPRESARIAL X ESTRATÉGIA DE INFORMAÇÃO

Estratégia empresarial é representada por:

Objetivos que é o sustentáculo necessário para a consecução da missão de uma empresa, devendo possuir total compatibilidade com esta. É um alvo especifico que a empresa pretende atingir em um determinado período de tempo.

Metas que está relacionada com as áreas funcionais, e deve ser atingias com a finalidade de alcançar os objetivos da empresa, tem que ser a curto prazo definido e mensurado que uma área de negocio deseja atingir.

E os fatores críticos de sucesso que devem, fundamentalmente, ocorrer em sua plenitude para atingir as metas do negocio.

Para representar a estratégia empresarial de modo organizado e lógico usamos o seguinte esquema:

Notamos que a missão esta suportada por um ou vários objetivos, um objetivo está suportado por uma ou várias metas e uma meta esta suportada por um fator critico de sucesso.

A estratégia de informação é representada por meios de necessidades de informação que é a informação necessária para monitorar ou atingir cada fator critico de sucesso ou pelos processos que é uma serie de ações repetitivas e bem definidas em termos de entrada, transformação e sidas de informações, e possui um inicio e um fim muito bem definido.

DIAGRAMA DE PROCESSOS

Um diagrama de processos tem por finalidade definir delimitar um conjunto de atividades que recebe as informações, trata essas informações e libera , atendendo aos fatores críticos de sucesso.

A partir de conjuntos de processos identificam-se sistemas de informação, que deveram suportar esses processos e atender aos fatores críticos de sucesso e suprir a estratégia empresarial com necessidades de informações.

Após definir e identificar sistemas de informações e banco de dados, estamos automaticamente associando aos processos e às necessidades de informações, garantindo suporte à Estratégia de Negócios com informações, garantindo o suporte a Informações automatizadas. Assim sabemos como assegurar que os sistemas de informações suportam a estratégia empresarial e como podemos identificar os impactos nos sistemas de informações quando ocorrem alterações na estratégia empresarial.



Sistemas de Informação

Processo pelo qual as informações percorrem a estruturar formal é um conjunto de normas e procedimentos que objetivam transmitir; através de um meio qualquer, informações entre pessoas ou órgãos; visa captar o que acontece na organização, apresentando de forma sucinta, a cada nível, o que lhe cabe, e tendo por objetivo dar subsídio ao processo decisório; é representado pelo conjunto de relatórios normalmente produzido por um departamento de informática eu administra os recursos de processamento de dados capazes de receber os dados capazes de receber os dados das várias áreas da empresa e transformá-los em informações úteis para gerência.

São relatórios de contabilidade, venda estatística, etc., distribuídos periodicamente na empresa, para que as pessoas que deles fazem uso tomem conhecimento dos fatos acontecidos ou que estão para acontecer.

A Era dos Sistemas de Informação

Na década de 1970, com os principais processos administrativos e contábeis já automatizados, o foco da informática se voltou para o desenho e para a montagem de sistemas de relatórios que atendessem às necessidades de informações dos diversos níveis gerenciais da empresa, mas esses esforços fracassaram por dois motivos limitações tecnológicas e a equiparação equivocada de informação com dados. Devemos distinguir dados de informação.

Dado: é qualquer elemento identificado em sua forma bruta que por si só não conduz a uma compreensão de determinado fato ou situação.

Portanto, o executivo deve obter o conhecimento a partir do dado transformado, o que lhe propicia um processo dinâmico ou elemento de ação.

Informação: é o dado trabalhado que permite ao executivo tomar decisões.

A informação seria o resultado da análise desses dados, ou seja, capacidade de produção, custo de venda de produto, produtividade de funcionários, etc. Essas informações, ao serem utilizadas pelos executivos, podem afetar ou modificar o comportamento existente na empresa, bem como o relacionamento entre as suas várias unidades organizacionais.

O propósito básico da informação é o de habilitar a empresa a alcançar seus objetivos pelo uso eficiente dos recursos disponíveis. Nesse sentido, a teoria da informação considera os problemas e as adequações do seu uso eficiente, eficaz e efetivo pelos executivos da empresa.

A eficiência na utilização do recurso informação é medida pela relação do custo para obtê-la e o valor do benefício derivado do seu uso. Os custos associados com a produção da informação são aqueles envolvidos na coleta, processamento e distribuição.

Nessa mesma década ainda continuava sendo a era do processamento de dados (anterior á dos sistemas de informação) – equipamentos grandes, caros e inflexíveis que geravam imensos volumes de dados tipicamente históricos, detalhados e baseados na contabilidade. Esses dados atendiam a poucas necessidades gerenciais; por exemplo, como os relatórios costumavam chegar atrasados, seu valor para a identificação de movimentos da concorrência ou problemas e oportunidades de mercado era diminuto, já que não permitiam reações imediatas. Pouco a pouco, as transformações tecnológicas passaram a abrir novas opções de movimentos para transformação de dados em informações, e para a adequação dos sistemas às necessidades efetivas do grupo gerencial e executivo das empresas.

Sistemas de informações nas organizações

Entendemos que mediante as observações de Vaz, a informação é papel determinante na administração de empresas e países, tendo como aliada, a informatização, possibilitando independência, e obtenção de lucros.

Antigamente as relações comerciais eram mais simples, dado ao fato de que a oferta–procura era substancial mente suprida, porém na medida em que os meios de transporte e comunicação foram se desenvolvendo, foi necessário a produção de produtos em maior escala, devido à abertura de mercado, dando origem a industrialização.

Em meados dos últimos anos as empresas deixavam de pensar só na produção e passaram a pensar nas expectativas do cliente.

O objetivo do sistema de informação é fazer com que os profissionais de uma empresa, obtenha sempre a informação correta, a fim de otimizar sempre em larga escala suas atividades.

Segundo Vieira existem 5 níveis informacionais, sendo eles:

Informação armazenada conforme complicada, definição dos padrões de informação que necessita através de relatório de tela.

Análise das informações, filtrando apenas a informação e conteúdos importantes, as simulações de informações, e gestão de pessoas fontes de informação e tecnologias.

Contrariamente a Taylor, o modelo atual de administração pensa que todos devem trabalhar usando inteligência, utilizando-se dos atributos de benefícios citados anteriormente.

Um fator preponderante para se trabalhar com a informação e como o tempo que demora a usá-la, pois com a freqüente mudança rápida e constante nas grandes empresas, essas informações acabam se tornando voláteis.

E necessário que a aplicação da informática seja feita com o dado correto a ser armazenado, bem como toda a sua operacionalidade. A informação e a informática só poderão ser usadas em benefício, caso hajam pessoas qualificadas para gerar um conhecimento que possa ser usado como conhecimento institucional.

A definição ou exemplo pode ser explanada pó um executivo com experiência que desliga-se de uma empresa. Se a empresa dispõe de informações eficazes deste profissional, elimina o risco de complicações, pois dispõe de informações informatizadas, o que demonstra o pensamento organizacional, e focado no individuo.

Mediante aos fatos expostos, podemos concluir que quanto mais eficaz e bem elaborado for um sistema de informação, maior será o sucesso da organização como estrutura administrativa, tratando e gerando informações em prol da instituição e trazendo excelência aos colaboradores envolvidos.