O Sistema de Previdência Complementar Fechado Desafios e Perspectiva

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O presente trabalho tem por objetivo avaliar a previdência complementar fechada no Brasil, mais precisamente, o regime jurídico adotado e suas implicações. Trata da tutela constitucional e legal vigente com ênfase na lei complementar 109/01, que regulamenta o regime de previdência complementar no país. Considera a importância do regime de capitalização diante da influência negativa do atual perfil demográfico no Regime Geral de Previdência Social. Realça os princípios adotados pelo regime de previdência complementar que trazem segurança e estabilidade ao sistema, como o da transparência e o da independência patrimonial dos planos de benefícios. Comenta sobre a atuação indispensável do Estado através do poder de polícia e fomento no fortalecimento da previdência complementar. Expõe os institutos próprios do regime que propiciam maior proteção aos participantes e associados. Descreve a responsabilidade civil das pessoas físicas e jurídicas que causarem danos à EFPC ou a seus planos de benefícios.

O subtema abordado, portanto, é o 6, combinado com os orientadores 1.6 e 2.5, conforme previsão do art. 3º, caput, do regulamento do concurso.

INTRODUÇÃO

O propósito deste trabalho consiste na análise da estrutura da Previdência Complementar Fechada no Brasil como forma de complementação segura e confiável aos Regimes Públicos de Previdência (Regime Geral de Previdência Social e Regimes Próprios de Previdência).

Em linhas gerais as questões sociológicas são as principais causas das constantes reformas previdenciárias no país. O binômio, aumento da expectativa de vida e diminuição da taxa de natalidade, representa um alargamento na população inativa e encolhimento da população ativa. Vale dizer, aumento na concessão dos benefícios previdenciários e diminuição de contribuintes ao longo dos anos.

Se, de um lado, as pessoas estão vivendo mais e usufruindo do benefício por mais tempo, de outro, os empregados da ativa arcam com ônus maior, visto que são eles que sustentam os benefícios dos inativos.

Em outras palavras, a previdência social conta com o sistema de repartição simples, em que o dinheiro recolhido das contribuições previdenciárias é imediatamente utilizado no pagamento dos benefícios. É o chamado “pacto entre as gerações”.

Outro aspecto considerável é o avanço do trabalho informal, principal responsável pela evasão fiscal previdenciária. Diante dos elevados índices de desemprego, as pessoas se sujeitam a trabalhar sem registro na Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) e, por conseguinte, sem proteção previdenciária.

Deste modo, constantemente é reduzido o teto dos benefícios dos regimes públicos de previdência (RGPS e Regimes Próprios), assim como majorado o tempo de contribuição e idade mínima para aposentadoria.

O círculo vicioso não termina. Com a redução do teto dos benefícios previdenciários concedidos, os aposentados têm retornado ao mercado de trabalho para aumentar a renda, ou têm permanecido nele, em virtude elevação da idade mínima para aposentadoria, e a conseqüência imediata é o desemprego dos jovens, que têm cada vez mais de adiar o ingresso no mundo do trabalho, bem como ampliar a qualificação e o tempo de estudos. É o chamado “conflito de gerações”.

Neste contexto, a solução está no fortalecimento da previdência complementar como forma de acréscimo ao benefício previdenciário estatal, constituída de recursos dos trabalhadores na fase laborativa que, capitalizados, garantirão a complementação de sua renda durante a aposentadoria ou invalidez.

A previdência complementar oferece uma opção para aqueles que querem manter o mesmo padrão de vida ao se aposentar e também minimiza a disputa por empregos entre os jovens e os pensionistas do INSS ou de entidade gestora.

E ainda representa um suporte sem o qual o RGPS dificilmente sustentaria o encargo social e econômico de manter todos aposentados do Brasil.

A importância da previdência complementar se reflete, portanto, em diferentes âmbitos. No individual, assegura ao pensionista de regime de previdência público um complemento à renda auferida. No social, representa um alívio para o Estado ao mitigar o fardo social e econômico de manter todo conjunto de aposentados do país. E, por fim, no econômico, por se tratar de investimento (poupança interna e de longo prazo).

Note-se, assim, que a previdência complementar, embora tenha como a sua atividade fim o pagamento de benefícios de caráter previdenciário, apresenta também relevante atividade meio, que consiste no investimento dos recursos acumulados com o objetivo de multiplicar o capital destinado a suportar o pagamento do benefício.

Contudo, a previdência complementar, facultativa e autônoma em relação com a Previdência Social, visa completá-la, e não resolver todas as suas falhas.

Insiste-se, a previdência complementar não tem como fim substituir a previdência social, mas tão somente suprir lacunas do sistema de previdência. A coexistência das duas, previdência pública e complementar, se faz necessária na atualidade.

Aliás, não se pode desprezar que concorre para o bem-estar social a integração harmônica entre amparo familiar, previdência social e complementar.

O estímulo à natalidade dentro de uma estrutura familiar adequada, ao trabalho formal e à previdência complementar é decisivo na criação de um círculo virtuoso.

1 DA PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR FECHADA

1.1 Histórico

Em 1904, antes de haver regulamentação legal sobre a matéria, nasceu a PREVI/BB (CAPRE na época), primeira entidade com o fim de oferecer benefícios que hoje seriam próprios da previdência complementar. Fora criada por um grupo de cinqüenta e dois (52) empregados do Banco da República do Brasil, sob a forma de associação.

Surgiram mais tarde outros fundos de pensão pioneiros como a Fundação Petrobrás de Seguridade Social (PETROS), em 1970, e a Fundação CESP, em 1974.

Em 1977, adveio a primeira lei sobre Previdência Complementar no país (lei 6.435/77). O período foi marcado pelo estímulo ao mercado de capitais e os patrocinadores eram grandes empresas estatais e multinacionais.

Mais tarde, a Constituição Federal de 1988 tratou da previdência privada que, por força das emendas constitucionais 20/98 e 40/03, foi suprimida do capítulo da “Ordem Econômica” e inserida no da “Ordem Social”.

Para regulamentar a matéria, foram sancionadas duas leis complementares: a nº 109/01, que estabelece as regras gerais, e a nº 108/01, que contém regras especiais para entidades patrocinadas pela administração pública.

Antes, os planos de previdência complementar fechada no país, se davam somente por iniciativa patronal. As grandes empresas que patrocinavam os planos. Hoje, os sindicatos, as cooperativas, as associações, os órgãos de classe ou as entidades de caráter classista, profissional e setorial, passaram a criar sua própria entidade de previdência complementar ou a criar planos de benefícios em entidades já existentes. Nasceram, assim, os planos instituidores, que não possuem a figura da empresa patrocinadora e criam uma relação direta com os participantes.

1.2 Definição da Previdência Complementar e suas características.

A Constituição usou a expressão “previdência privada”, enquanto a lei complementar a abandonou e trouxe uma nova expressão “previdência complementar”. Ambas se equivalem.

A palavra previdência provém do latim praevidentia e significa prever, antever. E o termo privada também proveniente do latim privatu, privus no sentido de não ser público. Maria Helena Diniz completa:

Previdência privada: Direito Previdenciário. 1. Instituição de plano de benefícios similares ou complementares às atividades da previdência social, que se dá mediante contribuição de interessados, de empregadores ou de ambos. Sua execução se dá por entidades fechadas ou abertas. (Othon Sidou). 2. Complexo de vantagens sociais suplementares, garantidas aos assalariados por instituições que estão fora do esquema oficial do seguro social (Dupeyroux).

Nem a Constituição Federal, nem a legislação infraconstitucional definiram a previdência complementar. No entanto, o art. 202 da CF, abaixo transcrito, trouxe as principais características deste regime.

Art. 202. O regime de previdenciária privada, de caráter complementar e organizado de forma autônoma em relação ao regime geral de previdência social, será facultativo, baseado na constituição de reservas que garantam o benefício contratado, e regulado por lei complementar.

A primeira peculiaridade do regime de previdência complementar fechado e aberto é a natureza jurídica privada, contratual, em que prevalece a autonomia da vontade.

As entidades de previdência complementar se constituem por meio de fundações de direito privado, em relação às entidades fechadas (EFPCs) e de sociedades anônimas, relativamente às abertas (nas EAPCs).

Tem caráter complementar e organizado de maneira autônoma em relação ao regime oficial de previdência (RGPS ou regime próprio). Complementar, porque o participante de plano de previdência complementar tem necessariamente que estar inscrito como segurado obrigatório do regime de previdência público. Autônomo, porque a concessão de benefício pela previdência complementar não depende da concessão de benefício pelo regime geral de previdência. (art. 68, §2º da lei 109/01), salvo disposição expressa em contrário no contrato.

A vinculação do participante ao plano de previdência é facultativa. São constituídas reservas, em regime de capitalização, para pagamento dos benefícios contratados, mormente, das aposentadorias. No entanto, o regime de repartição simples pode ser estabelecido em contrato para custear os benefícios acessórios, como auxílio-doença, pensão por morte, etc.

A regulamentação do regime de previdência privado a que se refere o art. 202, caput da CF ficou a cargo da lei complementar nº 109/01.

Importante definir aqueles que estão envolvidos no sistema de previdência complementar fechada.

As Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC) são sempre pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, constituídas por patrocinador ou instituidor, sob a forma de fundação e têm por fim a instituição e execução de planos de benefício de caráter previdenciário voltados a seus empregados ou associados. Mantêm estrutura mínima composta por conselho deliberativo, conselho fiscal e diretoria-executiva (art. 35 da mesma lei). Podem ser de: plano comum, quando administram plano ou conjunto de planos acessíveis ao universo de participantes; multiplano, quando administram plano ou conjunto de planos de benefícios para diversos grupos de participantes, com independência patrimonial; singulares, quando estiverem vinculados a apenas um patrocinador ou instituidor e multipatrocinadas, quando congregarem mais de um patrocinador ou instituidor (art. 34).

Participante é a pessoa física que aderir aos planos de benefício. Assistido é o participante ou seu beneficiário em gozo de benefício de prestação continuada (art. 8º, I e II da lei complementar 109/01).

Patrocinador é a União, o Estado-Membro, o Distrito Federal, o Município, a autarquia, a fundação, a empresa pública, a sociedade de economia mista e a empresa ou grupo de empresas que institua, para os seus servidores ou empregados, planos de benefícios de caráter previdenciário, por intermédio de EFPC .

Instituidor é a entidade de classe, sindicato, associação, conselho profissional, cooperativa, que oferece aos seus associados planos de benefício de caráter previdenciário administrado por um EFPC.

2 DO REGIME JURÍDICO DA PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR FECHADA

2.1 O sistema previdenciário

O sistema previdenciário existe para proteger os membros da sociedade que estão impedidos de prover o próprio sustento, seja por doença, invalidez, ou idade avançada.

Num primeiro momento, os idosos ou inválidos encontravam proteção e amparo somente no seio familiar durante o período de inatividade.

Com o tempo, o Estado, contando ainda com o apoio familiar, passou a exercer a função de guardião dos cidadãos inativos, de duas maneiras: proporcionando o benefício contributivo, em que o direito à aposentadoria dependeria da contribuição ao sistema; e o benefício universal não contributivo, de caráter assistencial.

Hoje, esta estrutura tem previsão constitucional no capítulo dos Direitos Sociais, no título dos Direitos e Garantias Fundamentais (art. 6º, caput e inciso XXIV da CF) e no título da Ordem Social, no capítulo da Seguridade Social, que abarca a saúde (art. 196 CF); a previdência social (art. 201 da CF) e a assistência social (art. 203 da CF).

Visa a previdência social, através da constituição de poupança compulsória, conceder benefícios quando da ocorrência de riscos sociais (idade avançada, invalidez, doença, etc), pressupondo sempre a contribuição prévia ao sistema. Trata-se do maior mecanismo de distribuição de renda do país.

Existem três regimes de previdência no Brasil; o Regime Geral de Previdência Social, os Regimes Próprios de Previdência Social e o Regime de Previdência Complementar (art. 40 da CF e art. 9º da lei 8.213/91).

Os dois primeiros são denominados regimes de base (ou públicos), instituídos por lei, de caráter contributivo e filiação obrigatória. Enquanto o último é de regime privado, de natureza contratual, organizado de forma autônoma em relação à previdência social, de filiação facultativa e pressupõe a constituição de reservas que serão capitalizadas.

O Regime Geral de Previdência Social é operado pelo INSS (autarquia federal), destinado aos trabalhadores da iniciativa privada, empregados públicos, servidores sem vínculo (cargos em comissão) e servidores de entes federativos que não têm regimes próprios de previdência (celetistas), previsto no art. 201 da CF, leis nº 8.212/91 (custeio) e nº 8.213/91 (benefícios).

Os Regimes Próprios de Previdência são operados por órgãos ou entidades da administração pública, destinados aos servidores estatutários da União, dos Estados, dos Municípios, bem como suas autarquias e fundações, previstos no art. 40 da CF e lei 9.717/98.

O Regime de Previdência Complementar é operado por entidades fechadas de previdência complementar (EFPCs), objeto do presente trabalho; e entidades abertas de previdência complementar (EAPCs); previsto no art. 202 da CF e lei complementar nº 109/01.

São entidades fechadas de previdência complementar, denominadas fundos de pensão, as de natureza contratual civil, sem fins lucrativos, acessíveis a grupos pré-definidos, constituídas por patrocinador ou instituidor, sob forma de fundação de direito privado , reguladas pelo Conselho de Gestão da Previdência Complementar (CGPC)/Ministério da Previdência e Assistência Social (MPS) e fiscalizadas pela Secretaria de Previdência Complementar (SPC)/MPS (art. 74 da lei complementar 109/01).

E entidades abertas de previdência complementar, as de natureza comercial, com finalidade lucrativa (após a LC 109/01), acessíveis a quaisquer pessoas físicas, constituídas sob a forma de sociedade anônima, reguladas Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP)/Ministério da Fazenda (MF) e fiscalizadas pela Superintendência de Seguros Privados (SUSEP)/MF (art. 74 da lei complementar 109/01).

Outra distinção entre o Regime da Previdência Social oficial e o da Previdência Complementar, é que esta, em regra, adota o regime de capitalização, enquanto aquele segue o regime previdenciário de repartição simples.

O regime de repartição simples está apoiado numa situação demográfica de reposição populacional, em que a base da pirâmide etária deverá ser mais larga do que o cume. Ou seja, pressupõe que quem trabalha sustente os benefícios dos aposentados e pensionistas atuais. Tem caráter democrático e solidário.

Já o regime de capitalização implica na constituição de um fundo onde o capital investido é destinado exclusivamente à aposentadoria. Característico do neoliberalismo.

É reservado ao regime de capitalização o benefício de pagamento em prestações programadas e continuadas (aposentadoria). Trata-se de obrigatoriedade legal prevista no art. 18, § 1º da lei complementar 109/01.

No entanto, há posicionamento no sentido de que deve ser reservado ao regime de repartição simples o benefício não programado (invalidez, morte, reclusão, etc).

Independente do regime, é essencial que o Estado assegure a proteção social, por meio da estabilidade e segurança jurídica.

2.2 O sistema previdenciário complementar fechado

O sistema de previdência complementar fechado constitui-se da contribuição conjunta do participante e da patrocinadora que deve ser capitalizada através de vários ativos do mercado de capitais, para proporcionar ao empregado, ou ao servidor futuramente inativo, uma renda que o ampare na velhice.

A contribuição dos patrocinadores será, no máximo, igual à soma das contribuições dos segurados (participantes e assistidos). É a denominada paridade contributiva.

Se a contribuição dos patrocinadores não pode exceder a dos participantes, conclui-se que a contribuição dos primeiros deve ser de no máximo 50%.

Os instituidores foram inseridos no ordenamento jurídico mais recentemente, diferenciando-se da figura do patrocinador.

Nas Entidades fechadas de previdência complementar constituídas por instituidores, são terceirizadas a gestão dos recursos para instituição especializada autorizada a funcionar pelo Banco Central ou outro órgão competente e são oferecidos somente planos de benefício na modalidade contribuição definitiva (art. 31, § 2º, I e II).

2.3 Instrumentos Contratuais e relação entre os envolvidos no sistema de previdência complementar.

São instrumentos contratuais da previdência complementar fechada: o Estatuto da EFPC, o regulamento do plano previdenciário, o convênio de adesão e a inscrição do participante.

O Estatuto, através de suas regras, norteia a EFPC e estabelece diretrizes para os atos dos órgãos de administração, deliberação e fiscalização.

O regulamento, principal instrumento contratual, traz as normas disciplinadoras do plano de previdenciário, tais como, benefícios (aposentadorias, auxílios), condições de elegibilidade (idade mínima, tempo de serviço), custeio (contribuição).

A pessoa jurídica ao celebrar o convênio de adesão com entidade fechada de previdência complementar, previamente autorizado pelo órgão regulador e fiscalizador, formaliza a sua condição de patrocinador ou instituidor e oferece acesso a um plano de benefício aos seus empregados, servidores públicos, associados ou membros (art. 13 da lei 109/01).

Por sua vez, os empregados, os servidores públicos, os associados ou membros serão participantes somente se forem vinculados ao plano previdenciário, mediante inscrição voluntária.

Ou seja, o contrato de trabalho ou a posse em cargo público não implica na adesão automática do empregado, ou servidor ao plano previdenciário patrocinado pelo empregador, ente público ou instituidor. A adesão é sempre facultativa (art. 16, § 2º da lei 109/01).

3 MUDANÇAS DEMOGRÁFICAS E FUNDOS DE PENSÃO

Sem desprezar as peculiaridades de cada país, a influência do fator demográfico nos sistemas previdenciários, é ponto comum no mundo todo. É fato notoriamente global.

O desenvolvimento da medicina e de métodos contraceptivos possibilitou ao ser humano o aumento da longevidade e a redução do número de filhos, causando grande impacto na população brasileira.

Desde a década de 60, houve um decréscimo populacional, em virtude da queda de natalidade. Quando há um decréscimo populacional, um número menor de pessoas financia as aposentadorias dos idosos e provoca um desequilíbrio entre receita e despesa da previdência oficial.

O crescimento vegetativo baixo associado ao aumento da expectativa de vida, resulta na inexeqüível manutenção financeira dos inativos pelos ativos.

No entanto, é importante frisar que a crise no sistema da previdência social não decorre tão somente do fator demográfico, que desequilibra o regime de repartição simples. Mas também da má gestão de recursos auferidos ao longo dos anos, da informalidade do mercado de trabalho, do desemprego, entre outras causas. No caso do desemprego e do trabalho informal, vislumbra-se ainda o trabalhador que, apesar de não contribuir com o sistema, poderá futuramente usufruir dele.

Assim, os fundos de pensão se apresentam como forma de assegurar um futuro seguro a crescente população idosa do país.

Isto porque, enquanto o Regime da Previdência Social oficial segue o regime previdenciário de repartição simples, o da previdência complementar adota o regime de capitalização.

O regime de repartição simples, como já dito, está apoiado numa situação demográfica de reposição populacional, em que a base da pirâmide etária deverá ser mais larga do que o cume. Ou seja, pressupõe que quem trabalha sustente os benefícios dos aposentados e pensionistas atuais. Tem caráter democrático e solidário.

Já o regime de capitalização implica na constituição de um fundo onde o capital investido é destinado exclusivamente à aposentadoria. Característico do neoliberalismo.

As entidades fechadas de previdência complementar (ou fundos de pensão), que são constituídas por patrocinadores ou instituidores, obtêm rentabilidade de seus planos por meio dos recursos garantidores das reservas técnicas (RGRTs), recursos estes disponíveis em cada entidade para aplicação em vários segmentos financeiros e econômicos, tais como, segmento de renda fixa, renda variável, imóveis, empréstimos e financiamentos.

Na renda fixa, há investimentos nos títulos públicos federais, estaduais e municipais, depósitos em conta de poupança. Já na renda variável, são efetuadas aplicações em ações de sociedades listadas em bolsa de valores, debêntures, quotas de fundos de investimento em ativos de renda variável.

Quanto ao segmento de imóveis e financiamentos, observa-se pequena participação no total de investimentos.

4 O PRINCÍPIO DA TRANSPARÊNCIA E A INFLUÊNCIA DO PARTICIPANTE NA GESTÃO DOS PLANOS DE BENEFÍCIOS

O principal princípio em se tratando de previdência complementar é o da transparência. Nele, o participante, em sentido lato, tem direito de conhecer os investimentos e despesas relativas à administração do plano de previdência a que aderiu. É o único princípio previsto na Constituição Federal e reiterado na lei infraconstitucional que regulamenta a matéria (lei complementar 109/01, art. 10 e 24).

A transparência é imprescindível no sistema de previdência complementar tanto no ajuste contratual quanto na gestão dos recursos envolvidos.

No art. 3º, IV, da lei complementar 109/01, a ação do Estado tem entre os seus objetivos assegurar aos participantes e assistidos o pleno acesso às informações relativas à gestão de seus respectivos planos de benefícios.

E o art. 7º, caput, completa:

Os planos de benefícios atenderão a padrões mínimos fixados pelo órgão regulador e fiscalizador, com o objetivo de assegurar transparência, solvência, liquidez e equilíbrio econômico-financeiro e atuarial.

Assim, em observância ao princípio da transparência, determina a lei complementar que todo participante receberá, após a inscrição no plano de benefício, certificado com os requisitos para admissão, manutenção, elegibilidade, forma de cálculo dos benefícios, cópia do regulamento do plano de benefício atualizado e do contrato que permite a fiscalização e defesa de seus direitos.

Estes instrumentos contratuais serão disponibilizados a todo aquele que pretende se inscrever no plano de benefício (art. 10, § 1º da lei 109/01).

As entidades de previdência complementar estão sujeitas ao poder de fiscalização, exercido pelos órgãos regulador e fiscalizador, bem como à supervisão das atividades pelos patrocinadores ou instituidores.

Os servidores do órgão fiscalizador e regulador têm livre acesso às EFPC e podem requisitar e apreender livros, notas técnicas e demais documentos, sendo que qualquer oposição poderá ser penalizada.

E ao participante é dada a possibilidade de fiscalizar a organização e administração das entidades de previdência complementar, monitorando o destino de suas aplicações.

O art. 35, § 1º reza que o estatuto da EFPC deverá prever representação dos participantes e assistidos nos conselhos deliberativos e fiscais, assegurando a eles no mínimo 1/3 das vagas.

Para os participantes, patrocinadores, instituidores e sociedade, a transparência da situação econômico-financeira das entidades fechadas de previdência complementar (ou fundos de pensão), traduz-se na confiabilidade do sistema, que vem a estimular o número de adesões, tão importante para a manutenção dos planos de benefícios.

Além deste princípio, Leonardo André Paixão enumera outros princípios constitucionais e legais da previdência complementar fechada:

• Regulamentação reservada à lei complementar (nº 109/01);
• Autonomia da vontade (natureza contratual);
• Autonomia em relação ao regime geral de previdência;
• Autonomia em relação ao contrato de trabalho;
• Constituição de reservas em regime de capitalização;
• Limitação à contribuição de patrocinador de plano com patrocínio estatal;
• Independência patrimonial entre os planos administrados por uma mesma EFPC.

5 INDEPENDÊNCIA PATRIMONIAL DOS PLANOS DE BENEFÍCIOS DE CARÁTER PREVIDENCIÁRIO: FUNDAMENTOS E INSTRUMENTOS PARA A SUA EFICAZ CARACTERIZAÇÃO

As EFPC, num primeiro momento, operavam um único plano de benefício. Com o tempo as entidades com multiplano ocuparam espaço significativo no sistema de previdência complementar e surgiu a preocupação em regulamentá-las.

Assim, a lei complementar 109/01 prevê a possibilidade da Entidade Fechada de Previdência Complementar (EFPC) ser multiplano, quando administra plano ou conjunto de planos de benefícios para diversos grupos de participantes, e determina a independência patrimonial de cada um deles (art. 34).

A independência patrimonial entre os planos administrados por uma mesma EFPC é um dos princípios legais que rege a previdência complementar fechada.

Por este princípio, a ocorrência de fatos positivos ou negativos em um determinado plano de benefício não pode afetar os participantes de outro plano, mesmo que os dois sejam administrados pela mesma EFPC.

A resolução CGPC nº 14 de 1º de outubro de 2004 criou o Cadastro Nacional de Planos de Benefícios das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (CNPB), para identificar melhor cada plano através de um número. Nesta mesma resolução se estabeleceu também que:

Art. 3º Cada plano de benefícios possui independência patrimonial em relação aos demais planos de benefícios, bem como identidade própria quanto aos aspectos regulamentares, cadastrais, atuariais, contábeis e de investimento.

§ 1º Os recursos de um plano de benefícios não respondem por obrigações de outro plano de benefício operado pela mesma EFPC.
§ 2º Admitir-se-á solidariedade entre patrocinadores ou entre instituidores com relação aos respectivos planos de benefícios, desde que expressamente prevista no convênio de adesão.

O art. 7º, parágrafo único da lei complementar 109/01 prevê expressamente três modalidades de planos de capitalização: de benefício definido, de contribuição definida e de contribuição variável, mas não exclui a possibilidade de outras formas de planos de benefícios.

Os planos de benefício definido estabelecem previamente um valor fixo para a aposentadoria, de modo que no momento da contribuição já são fixados os valores dos futuros benefícios de aposentadoria.

São determinados os valores de contribuição de participantes e de patrocinadores, que serão capitalizados com taxas definidas, para formação de poupança capaz de atender aos compromissos de benefícios de todos os participantes.

A inconveniência do plano corre por conta do risco de déficit, em razão da inabilitação precoce de participantes, que será sustentado pelo patrocinador. Quanto aos demais déficits, serão repartidos na proporção da contribuição de participantes e patrocinadores.

O plano de contribuição definida não prevê antecipadamente o valor do benefício assegurado ao participante na época da sua aposentadoria, pois o benefício será diretamente proporcional ao que for acumulado e capitalizado.

Os planos de contribuição definida constituem-se do montante das contribuições vertidas para o seu custeio e o retorno líquido dos investimentos.

As contribuições serão definidas para atender as reservas do benefício. Estas reservas são individualizadas através de cotas. Quando o participante ou assistido se aposentar, apuram-se as cotas referentes ao benefício.

O plano de contribuição definida é a única modalidade de plano de benefício admitida para entidades fechadas constituídas por instituidores, que estão quase isentos de riscos ligados aos benefícios pré-acertados. Os riscos são suportados pelo participante, que está sujeito às temeridades do mercado. Trata-se, portanto, do plano mais oportuno para o patrocinador também.

Nota-se uma tendência em transformar os planos de benefício definido em de contribuição definida.

No entanto, observa-se nos planos de contribuição definida uma ameaça de perda do caráter previdenciário, para simples plano de renda financeira, dada a sua flexibilidade de formas.

Assim, para não desviar o propósito de proteção social próprio da previdência, necessária se faz uma legislação rigorosa que resguarde os participantes.

O plano de contribuição variável é modalidade de plano de benefício comum às entidades abertas de previdência complementar, assunto não estudado neste trabalho.

Por diversos motivos, um plano de benefício pode se extinguir, como exemplos tem-se a saída do último participante, ou assistido; a liquidação extrajudicial do plano; a incorporação por outro plano; a transferência de todos os participantes e reservas para outro plano.

6 DOS FUNDAMENTOS JURÍDICOS DA ATUAÇÃO DO ESTADO NA REGULAÇÃO, SUPERVISÃO, FISCALIZAÇÃO E FOMENTO DO REGIME PRIVADO DE PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR

A atuação do Estado na ordem econômica e social é uma forma legítima de proteger as pessoas que aderem ao plano de previdência complementar.

O Estado tem papel decisivo no fortalecimento da previdência complementar no país, através do poder de polícia e fomento, devendo evitar as alterações normativas freqüentes, tão avessas à estabilidade do sistema.

Por meio do poder de polícia, há um controle estatal nas atividades privadas, que determina limites, com o intuito de proteger o interesse público.

O controle efetua-se pela regulação, fiscalização e autorização da prática de determinados atos, garantindo a segurança e confiabilidade dos planos de benefício.

O art. 5º da lei complementar 109/01 estabelece que os órgãos regulador e fiscalizador serão responsáveis pela normatização, coordenação, supervisão, fiscalização e controle das atividades das entidades de previdência complementar.

Por exemplo, parte da função reguladora será exercida pelo Conselho Monetário Nacional, que estabelecerá as diretrizes para a aplicação dos recursos correspondentes às reservas, às provisões e aos fundos (art. 9º, §1º da lei 109/01).

No art. 25 da mesma lei complementar, contemplam-se o poder do órgão regulador e fiscalizador na autorização e na extinção de plano de benefício, ou na retirada de patrocínio.

E o art. 33, enumera os atos que dependem de autorização prévia do órgão regulador e fiscalizador:

I – a constituição e funcionamento da entidade fechada, bem como a aplicação dos respectivos estatutos, dos regulamentos dos planos de benefícios e suas alterações;
II – as operações de fusão, cisão, incorporação ou qualquer outra forma de reorganização societária, relativas às entidades fechadas;
III – as retiradas de patrocinadores;
IV – as transferências de patrocínio, de grupos de participantes, de planos e de reservas entre entidades fechadas.

Observe-se que os mecanismos de controle do Estado sobre o sistema de previdência complementar foram intensificados com a Emenda Constitucional 20/98 e mais concretamente após a lei complementar 109/01, o que é muito positivo.

Ora, os planos previdenciários não visam o enriquecimento da pessoa, e sim a manutenção do padrão de vida após a aposentadoria. Assim, é essencial que o Estado proporcione o mínimo de segurança aos participantes.

A lei complementar 109/01, neste intuito, deu ênfase a segurança jurídica e a estabilidade, no sentido de assegurar o recebimento dos benefícios pelos particulares. O art. 3º, III, abaixo transcrito, assevera como objetivo da ação do Estado:

Determinar padrões mínimos de segurança econômico-financeira e atuarial, com fins específicos de preservar a liquidez, a solvência e o equilíbrio dos planos de benefícios, isoladamente, e de cada entidade de previdência complementar, no conjunto de suas atividades.

Existe também a possibilidade de decretação de intervenção nas EFPC para resguardar os direitos dos participantes e assistidos, quando ocorrer uma das situações descritas no art. 44 da lei complementar 109/01.

A intervenção acabará somente quando for aprovado o plano de recuperação da entidade pelo órgão competente ou quando for decretada a sua liquidação extrajudicial.

Quando for inviável a recuperação da EFPC ou faltar as condições mínimas de funcionamento determinadas pelo órgão regulador e fiscalizador, será decretada a sua liquidação extrajudicial.

É vedada a solicitação de concordata pela entidade fechada de previdência complementar. Também não está sujeitas à falência (art. 47).

O interventor e liquidante terão poder de administração e representação, sem os quais, restaria infrutífera qualquer tentativa de preservação da EFPC. O liquidante conta ainda com o poder de liquidação.

Outra forma de proteção ao sistema de previdência complementar, mormente aos participantes, que se vislumbra na atual legislação, é a possibilidade da entidade fechada de previdência complementar (EFPC) assegurar seus compromissos através de fundo de solvência (art. 11).

Pecou o legislador por não exigir a obrigatoriedade do fundo de solvência, uma vez que ele garante a adimplência das obrigações e evita o desamparo dos participantes e assistidos, indispensável a qualquer EFPC.

A finalidade do fundo de solvência está intimamente ligada à idéia de segurança e proteção e, no estudo em questão, traduz-se no fortalecimento da entidade previdenciária. No entanto, o fundo de solvência depende ainda de regulamentação legal.

O Estado deve ainda fomentar a criação de planos de previdenciários, por meio de incentivos fiscais, levando sempre em conta os objetivos definidos no art. 3º da lei 109/01. O incentivo fiscal, sem dúvida, é a melhor forma de aumentar a adesão ao sistema previdenciário complementar.

Como exemplo de estímulo desta natureza, tem-se as deduções da base de cálculo do imposto de renda de todo valor aplicado na previdência complementar, desde que o total das aplicações não exceda a 12% da renda bruta tributável de participante.

A súmula 730 do STF refere-se também à imunidade tributária conferida a instituições de assistência social sem fins lucrativos pelo art. 150,VI, c, da CF, que somente alcança as entidades de previdência social privada se não houver contribuição dos beneficiários.

7 ASPECTOS JURÍDICOS DECORRENTES DO DINAMISMO DA RELAÇÃO JURÍDICA DE PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR

A lei complementar 109/01 trouxe algumas inovações para o sistema de previdência complementar, como o benefício proporcional diferido (vesting), a portabilidade, o resgate e o autopatrocínio.

O benefício proporcional diferido (vesting) é a opção ao participante, que perdeu o vínculo empregatício ou associativo com a patrocinadora ou instituidora respectivamente, antes da aquisição do direito pleno de benefício, de receber benefício quando cumpridos os requisitos de elegibilidade. Embora já existisse previsão do benefício proporcional diferido, a lei complementar 109/01 o tratou de maneira mais veemente. O vesting (art. 14, I) não pode ser confundido com o regate da totalidade das contribuições ao plano (art. 14, III), que é feito em caso de afastamento ou em virtude de extinção da entidade fechada de previdência complementar (EFPC).

A portabilidade consiste na possibilidade de transferência das reservas técnicas depositadas pelo participante de um plano de previdência para outro, que pode ser administrado tanto por EFPC como por EAPC, no caso de perda do vínculo empregatício ou associativo (art. 14, II).

Frise-se que a portabilidade será admitida somente com a ruptura do vínculo empregatício e se decorrido o período de carência estabelecido pelo órgão regulador e fiscalizador (art. 14, 1º e 2º da mesma lei).

Conforme mencionado acima, há previsão legal do resgate da totalidade das contribuições vertidas ao plano pelo participante, descontadas as parcelas do custeio administrativo, na forma regulamentada (art. 14, III).

Existe ainda o autopatrocínio que é a possibilidades de o participante manter o valor de sua contribuição e a do patrocinador, quando extinto o vínculo empregatício entre eles, para garantir a percepção dos benefícios nos níveis correspondentes àquela remuneração ou em outros definidos em normas regulamentares. Apesar de cessado o vínculo empregatício, o participante não desvincula da EFPC.

Os institutos, vesting, portabilidade, resgate e autopatrocínio, dão maior flexibilidade ao sistema. Aliás, o art. 7º, parágrafo único, aponta expressamente que esta é a intenção do atual regime de previdência complementar.

Fica, também, nítido que a legislação vigente confere maior proteção aos participantes, ao fortalecer a transparência, por meio da fiscalização pelo governo e pelo próprio participante; ao aumentar a segurança, prevendo o fundo de solvência para garantir benefícios e; finalmente, ao aumentar a flexibilidade, com maior liberdade de ingerência do participante sobre os recursos de que é titular.

Outro aspecto interessante a ser observado é o das contribuições, no caso dos planos de benefício definido.

As contribuições para constituição de reservas garantidoras de benefícios e fundos e provisões serão normais, quando custearem os benefícios previstos no respectivo plano; e extraordinária, quando custeiam déficits, serviços passados, ou atenda qualquer finalidade não incluída na contribuição normal.

O resultado deficitário nos planos ou nas EFPC serão suportados pelos patrocinadores, participantes e assistidos, na proporção de suas contribuições, estando sujeitos à ação regressiva os dirigentes ou terceiros que deram causa a dano à EFPC.

Os participantes e patrocinadores suportarão o déficit, através do aumento do valor das contribuições, instituição de contribuição adicional ou redução do valor dos benefícios a conceder, respeitadas as regras estabelecidas pelo órgão regulador e fiscalizador.

Não se aplica aos assistidos a redução dos valores dos benefícios, podendo haver a instituição de contribuição adicional para cobertura de acréscimo ocorrido em razão da revisão do plano.

Por outro lado, o resultado superavitário dos planos de benefícios das EFPC será destinado à constituição de reservas de contingência para garantia dos benefícios, até o limite de 25% do valor das reservas matemáticas, o excedente será destinado à constituição de reserva especial para revisão de plano de benefício.

Se, por três anos consecutivos, não for utilizada a reserva especial, impõe-se a revisão obrigatória do plano de benefício. Esta revisão pode implicar na redução proporcional de contribuições de participantes, assistidos e patrocinadores.

Como visto no capítulo anterior, o art. 33 prevê a possibilidade de alteração dos estatutos, regulamentos e planos de benefícios, desde que autorizada previamente pelo do órgão regulador e fiscalizador.

O legislador dispôs de maneira acertada ao prever a possibilidade de alteração dos estatutos, regulamentos e planos de benefícios, impondo, no entanto, a prévia autorização do órgão regulador e fiscalizador.

Ora, embora o sistema de previdência complementar deva transmitir estabilidade e segurança à sociedade, não é plausível que se mantenha imutável. As relações que envolvem a previdência complementar são de longo prazo, sujeitas as mudanças de situação de fato.

Evidente que, no caso de alteração, será respeitado o direito adquirido, assegurado constitucionalmente no art. 5º, XXXVI e legalmente no art. 17, parágrafo único e 68, § 1º da lei complementar 109/01.

O art. 33 dispõe ainda sobre a possibilidade das EFPC realizarem, sempre com autorização do órgão regulador e fiscalizador, operações de fusão, cisão, incorporação ou qualquer outra forma de reorganização societária; retiradas de patrocinadores; e transferências de patrocínio, de grupos de participantes, de planos e de reservas.



8 RESPONSABILIDADE CIVIL DAS PESSOAS FÍSICAS E JURÍDICAS QUE, POR AÇÃO OU OMISSÃO, CAUSAREM DANOS OU PREJUÍZOS ÀS ENTIDADES FECHADAS DE PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR E A SEUS PLANOS DE BENEFÍCIOS: ELEMENTOS PARA A SUA CARACTERIZAÇÃO E SUJEITOS AUTORIZADOS A BUSCAR A SUA REPARAÇÃO

A lei 109/01 em vários dispositivos legais trata da responsabilidade civil.

A começar pelo art. 13, §1º, que admite, quando expressamente prevista no convênio de adesão, a solidariedade entre patrocinadores ou entre instituidores, com relação aos planos de benefício a que estão vinculados.

A solidariedade, prevista na lei e no convênio de adesão, propicia um ambiente de maior proteção aos participantes e assistidos. Vem como mais um elemento de segurança, uma vez que aumenta o número de responsáveis no caso de insolvência ou má gestão, provocando, deste modo, um cuidado e empenho maior dos patrocinadores e dos instituidores.

Mais adiante, no art. 35, § 5º e 6º, o legislador impõe que seja comunicado ao órgão regulador e fiscalizador o dirigente indicado entre os membros da diretoria-executiva, que será responsável pelas aplicações dos recursos da entidade. Devendo este dirigente responder solidariamente com os demais membros da diretoria-executiva pelos danos e prejuízos causados à entidade para os quais tenha concorrido.

Como visto no capítulo anterior o resultado deficitário nos planos ou nas EFPC serão suportados pelos patrocinadores, participantes e assistidos, na proporção de suas contribuições, estando sujeitos à ação regressiva os dirigentes ou terceiros que causaram dano à EFPC.

E no §3º, do art. 21 vê-se implicitamente que a responsabilidade deverá ser apurada mediante processo judicial ou administrativo.

O parágrafo único do art. 57, da lei 109/01, responsabiliza os administradores dos patrocinadores pelos danos ou prejuízos causados às entidades de previdência complementar, especialmente pela falta de aporte das contribuições a que estavam obrigados.

No caso de liquidação extrajudicial de entidade fechada motivada pela falta de aporte de contribuições de patrocinadores ou pelo não recolhimento de contribuições de participantes, os administradores daqueles também serão responsabilizados pelos danos ou prejuízos causados (art. 58).

Até a apuração e liquidação final dos responsáveis mediante inquérito instaurado pelo órgão regulador e fiscalizador, ficarão indisponíveis os bens dos administradores, controladores e membros de conselhos estatutários das entidades de previdência complementar sob intervenção ou em liquidação extrajudicial.

A indisponibilidade dos bens consiste na impossibilidade de aliená-los ou onerá-los e decorre da decretação da intervenção ou liquidação extrajudicial e alcança todos os que tenham estado no exercício das funções supracitadas nos 12 meses anteriores.

Acrescenta ainda o art. 63, caput e parágrafo único que, por ação ou omissão, os administradores de entidades, os procuradores com poderes de gestão, os membros de conselhos estatutários, o interventor, o liquidante, os administradores dos patrocinadores ou instituidores, os atuários, os auditores independentes, os avaliadores de gestão e outros funcionários que prestem serviços técnicos à entidade responderão civilmente pelos danos ou prejuízos causados a ela (EFPC).

Importante salientar que a responsabilidade civilmente não exclui a eventual responsabilidade penal e administrativa dos agentes causadores de danos à EFPC.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho dedicou-se à análise da Previdência Complementar Fechada no Brasil, em especial ao regime jurídico adotado, sem a pretensão de esgotar o tema neste curto apanhado.

Comentou-se exaustivamente quanto ao caráter de complementaridade da Previdência Complementar Fechada ao Regime Geral de Previdência ou Regime Próprio.

A preferência, inclusive, da lei 109/01 pela expressão Previdência Complementar, ao invés, de Previdência Privada que, embora referida na Constituição Federal, não é a mais apropriada.

Com muita propriedade vários juristas defendem que a previdência complementar veio para mitigar os problemas da previdência social no país, mas não desprezam a importância da manutenção do sistema obrigatório vigente.

Do contrário, se se pregasse a simples substituição do regime de repartição simples, próprio do RGPS, pelo regime de capitalização, inerente à Previdência Complementar, a população sofreria drásticas conseqüências, pois as despesas com assistência social e saúde teriam que ser custeadas por meio da receita tributária, dividindo-se as sobras do orçamento com outras obrigações estatais.

Assim, apesar de todos os impasses enfrentados pela previdência social vigente, a garantia de sustento de milhões de brasileiros justifica a sua continuidade.

Cabe ao Estado, e é dever indelegável, garantir vida digna a todos, não podendo deixar as pessoas à mercê da própria sorte.

Assim como cabe a ele favorecer o crescimento da Previdência Complementar no país, como forma de desonerá-lo do encargo social e econômico de manter todo conjunto de aposentados do país.

Os princípios que conduzem a previdência complementar, como o da transparência e o da independência patrimonial dos planos de benefícios, bem como os institutos próprios do regime privado e a constante presença do órgão regulador e fiscalizador na EFPC traduzem a intenção do Estado em torná-la cada vez mais segura e estável.

E a EFPC deverá priorizar o profissionalismo na administração dos planos de benefícios, manter uma postura rigorosa na fiscalização e fundamentar técnica e juridicamente todos os seus atos. São os resultados de uma boa gestão que contribuirão para o aumento do grau de confiança da população e conseqüente aumento do número de participantes dos planos.

Além da seriedade e confiabilidade das EFPC, é preciso inculcar na população uma cultura previdenciária, mostrando à sociedade que todos que envelhecem, passam a ter dificuldades para trabalhar e necessitam de respaldo para continuar a ter uma boa qualidade de vida. A importância da previdência complementar ainda não está sedimentada na mentalidade brasileira.

Esta mudança de mentalidade é essencial para o crescimento da previdência complementar no Brasil, que tem meios de se expandir consideravelmente.

Com estes apontamentos se encerra o presente trabalho, que não apresenta soluções fáceis para os difíceis problemas levantados, afinal, é sempre mais simples o diagnóstico da doença do que a elaboração de um antídoto.

BIBLIOGRAFIA

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WEINTRAUB, Arthur Bragança de Vasconcelos. Previdência Privada – atual conjuntura e sua função complementar ao regime geral de previdência social. 2. ed. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2003.

Fracasso Escolar na Perspectiva do Professor

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1.INTRODUÇÃO

Entre os principais temas inerentes a educação, o fracasso escolar tem adquirido espaço relevante em debates, congresso, seminários e outros eventos destinados às realidades inerentes à instituição escolar e as prática pedagógicas.

É importante acrescentar que vários são os fatores que contribuem para construção daquilo que se entende por fracasso escolar e compreender os aspectos inerentes à essa problemática foi elemento motivador para realização de um pesquisa de campo sobre o tema.

As observações realizadas a partir das práticas pedagógicas nas escolas, durante os estágios realizados, permitiram a percepção de que muitas vezes na sala de aula existem crianças que, tendo as capacidades necessárias não conseguem atingir o rendimento que seria esperado delas, ou seja, não aprendem como as demais crianças e os métodos normalmente utilizados não funcionam com elas.

Assim, percebendo que os problemas de aprendizagem são complexos e que suas manifestações podem ser sintomas de uma infinidade de fatores e partindo de uma reflexão sobre tal problemática, questionou-se: Na visão do professor que elementos são determinantes dentro do processo de ensino-aprendizagem para o fracasso escolar por parte dos alunos?

Levando em consideração o problema apresentado, desenvolveu-se uma pesquisa de campo onde o objetivo geral foi conhecer os motivos desencadeadores de fracasso escolar na perspectiva dos professores, e como objetivos específicos, identificar a concepção acerca do fracasso escolar na visão dos professores; verificar os casos de alunos que estão em situação de fracasso escolar; identificar as causas atribuídas pelo professor como desencadeadoras de fracasso escolar desses alunos.

A construção deste texto se deu em 02(dois) momentos: no primeiro foi realizada uma pesquisa de campo, com aplicação de questionário aos sujeitos (professores de ensino fundamental do 2º ao 5º ano, da Escola Municipal Nova Brasília, turnos manhã e tarde); No segundo foram analisados os dados obtidos, a partir dos métodos da análise de conteúdo categorial.

O texto foi construído sobre a luz de. Charlot,(2000) que diz acerca do fracasso, escolar que este termo não existe, o que existe são crianças em situação de fracasso.Bossa(2002) ressalta o fracasso escolar como um sintoma,que pode ser justificado com base em varias perspectivas. Patto (1999) que ressalta”è nas tramas do fazer e do viver o pedagógico cotidianamente nas escolas, que se pode perceber as reais razoes do fracasso escolar das crianças advindas de meios socioculturais mais pobres” ..

Espera-se que este trabalho possa contribuir para desvendar de certa forma possíveis causas do fracasso escola, como também contribuir para encontrar respostas que superem esta problemática.

2. BASES TEÓRICAS SOBRE O TEMA

2.1 Fatores que interferem na aprendizagem

O aluno é um ser social com cultura, linguagem e valores específicos. Quando apresenta dificuldade de aprendizagem, deve ser levado em conta sua individualidade, particularidade, ou seja, o professor precisa trabalhar com a diferença, descobrir as potencialidades de cada aluno então partir em busca do desenvolvimento de sua aprendizagem, transformando-o em sujeitos preparados para enfrentar o mundo.

Para tanto é preciso conhecer as origens dos problemas dos alunos. Sobre isso Pain (1992 p. 29-33), caracteriza os 3(três) principais fatores: Orgânicos, Psicológicos e Ambientais. Os orgânicos, saúde física, falta de integridade neurológica, alimentação inadequada; psicológicos, inibição, fantasia, ansiedade, angústia, inadequação à realidade, sentimento de rejeição; ambientais, tipo de educação familiar o grau de estimulação que a criança recebeu desde os primeiros dias de vida, a influência dos meios de comunicação.

Os fatores orgânicos podem ter como conseqüência problemas cognitivos mais ou menos graves, mas que não configuram por si sós, um problema de aprendizagem.

É necessário saber se a criança está bem alimentada, pois este se constitui um dos problemas básicos na capacidade de aprendizagem, bem como as condições de abrigo e conforto para o sono. Diante desse aspecto, sabe-se que a criança tem na merenda escolar, muitas vezes, a única refeição do dia, por esse motivo tal programa assume uma importância vital para o desenvolvimento escolar do aluno.

É importante que o professor venha influenciar na criança o processo de construção de conhecimento nas relações com o ambiente, descartando a idéia de oferecer respostas elaboradas, prontas, mas aproveitar o nível de desenvolvimento e conhecimento abstraído das experiências.

Neste sentido Almeida (1992, p.65).defende:

A escola como um todo, currículos e métodos de ensino devem se adaptar não só às características de cada grupo social, mas a cada criança, na sua individualidade, nos seus sucessos e fracassos, numa relação dialética entre as condições.

Neste contexto considera-se o aprendizado um aspecto necessário e fundamental no processo de desenvolvimento das funções psicológicas. O desenvolvimento pleno do ser humano depende do aprendizado que se realiza num determinado grupo cultura, a partir da interação com os outros indivíduos de sua espécie, isso significa que o ambiente no qual estamos inseridos e as pessoas com quem vivemos, são aspectos imprescindíveis para o nosso processo de desenvolvimento.

Ao compreender o processo psicológico pelo qual a criança utiliza para elaborar seu conhecimento, pode-se afirmar que é relevante a valorização tanto do nível de desenvolvimento real como do potencial, já que o nível de desenvolvimento mental dos sujeitos não determinado apenas pelo que ele consegue produzir de forma independente, é necessário conhecer o que consegue realizar, muito embora ainda necessite do auxilio de outras pessoas para fazê-lo.

É preciso que o educador tenha clareza do processo que a criança percorre para chegar às respostas, a fim de intervir, provocar, estimular ou apoiar no momento em que ela demonstra dificuldade em determinado aspecto do processo de aprendizagem, tornando possível desenvolver as funções que ainda estão a todos consolidadas, que é característica típica do ser humano, que acontece através da articulação entre pensamento e linguagem.

Os problemas de aprendizagem podem ocorrer tanto no inicio quanto durante o período escolar. Surge em situações para cada aluno, o que requer uma investigação no campo em que ela se manifesta. Qualquer problema de aprendizagem implica num trabalho junto à família da criança para analisar situações e levantar características visando descobrir o que está representando dificuldade ou empecilho para que o aluno aprenda.

Sobre este aspecto é importante o professor estar atento aos seus alunos, procurando interagir com eles na intenção de saber sobre seu lado familiar, como vivem em seu cotidiano na comunidade. Adquirindo confiança do aluno o professor poderá desvendar possíveis dificuldades na sua aprendizagem.

2.2 O que é aprendizagem?

Trata-se de um processo pessoal, sendo resultado de construção de conhecimento e experiências passadas que influencia com as experiências futuras. Ao aprender o sujeito acrescenta aos conhecimentos fazendo ligações àquelas já existentes. E durante o processo educativo tem a possibilidade de adquirir uma estrutura cognitiva clara e organizada de forma adequada, podendo consolidar novos conhecimentos, complementares e relacionados de alguma forma.

Os educadores devem proporcionar situações de interação tais, que despertem no educando motivação para interação com objeto do conhecimento, com seus colegas e os próprios professores, Pois, mesmo que a aprendizagem ocorra na intimidade do sujeito, o processo de construção se da na diversidade e na qualidade das suas interações.Nesta visão, a ação educativa de uma escola deve propiciar ao aluno oportunidades para que seja induzido a um esforço intencional.

A aprendizagem é um fenômeno extremamente complexo, envolvendo aspectos cognitivos, emocionais, orgânicos, psicossocias, e culturais. É resultado do desenvolvimento de aptidões e de conhecimentos, bem como a transferência conhecimentos, bem como a transferência destes para novas situações.

De acordo com Bock (1999, p.117) o processos de organização das informações e de integração do material à estrutura cognitiva é o que diferencia a aprendizagem mecânica da aprendizagem significativa. Bock (1999, p.117) destaca que a aprendizagem mecânica refere-se à aprendizagem de novas informações com pouca ou nenhuma associação com conceitos já existentes na estrutura cognitiva.

Já a aprendizagem significativa segundo o autor, processa-se quando o novo conteúdo relaciona-se com conceitos relevantes, caro e disponíveis na estrutura cognitiva. É necessário refletir que cada indivíduo aprende a seu modo estilo e ritmo.

No nível social podemos considerar a aprendizagem como um dos pólos do par ensino-aprendizagem, cuja síntese constitui o processo educativo. Tal processo compreende todos os comportamentos dedicados à transmissão da cultura, inclusive os objetivos como instituições que, especifica (escola) ou secundariamente (família), promovem a educação. Através dela o sujeito histórico exercita, usa utensílios, fabrica e reza segundo a modalidade própria de seu grupo de pertencimento. (PAIN,1985,p.16).

Segundo Vygotsky (1993, p.44), uma vez admitindo o caráter histórico do pensamento, verbal, devemos considerá-lo sujeito a todas as premissas do materialismo histórico, na sociedade, que são válidas para qualquer fenômeno histórico na sociedade humana.

Vygotsky (1991, p.101) diz ainda que o pensamento que o pensamento propriamente dito é gerado pela motivação, isto é, por nossos desejos e necessidades, nossos interesses e emoções. Por trás de cada pensamento há uma tendência afetivo-evolutiva. Uma compreensão plena e verdadeira do pensamento de outrem só e possível quando entendemos sua base afetivo-evolutiva.

É com base neste pensamento que o educador deve trabalhar a afetividade, penetrando assim no mundo do educando, para desta forma trabalhar dinamicamente fazendo com que o aluno sinta um desejo de aprender, e adquirir certa forma as capacidades de assimilar os conhecimentos.

Segundo a concepção de Vygotsky se a aprendizagem não esta em função só a comunicação, mas também do nível do desenvolvimento alcançado, adquire então relevo especial – alem da análise de modo o sujeito constrói os conceitos, comunicados e, por tanto, a análise qualitativa das estratégias, dos erros, do processo de generalização. Trata-se de compreender como funcionam esses mecanismos mentais que permitem a construção dos conceitos e que se modificam em função do desenvolvimento. (VYGOTSKY, 1991, p.2).

Pode-se considerar que a aprendizagem acontece por um processo que advém de afetividade relação e motivação, Assim para aprender é indispensável “poder fazê-lo, o que faz referência às capacidades, aos conhecimentos, às estratégias e às destrezas necessárias, para isso é necessário “querer” faz-lo, ter a disposição, a intenção e a motivação suficientes. Para obter bons resultados acadêmicos”.

2.3 O que é fracasso escolar?

Existem varias pesquisas que visão levantar as causas do fracasso escolar nas series iniciais do ensino fundamental.Considerando-se que o fracasso escolar é quando um individuo não consegue atingir determinado objetivo escolar ,ou quando não consegue desenvolver uma habilidade colocada pelo professor em sala de aula,quando não conseguem resolver uma atividade ou não consegue alcançar os objetivos propostos dentro de uma serie.

Quando o sujeito não consegue certo conhecimento em relação ao seu objeto de estudo dizemos também que ele teve insucesso escolar ,ou quando o aluno não consegue nota aprovativa,ou se fica retido na mesma serie.Tudo isso mostra, segundo Dorneles(2000)que o fracasso escolar tem diversas formas de ser entendido.

Assim,ainda de acordo com Dorneles(2000),não podemos atribuir ao fracasso escolar um único fator,sendo este um problema que vem desde a implantação do ensino no Brasil.

A persistência de tal fenômeno vem mostrar que a causa do fracasso escolar não esta exclusivamente em um único dos fatores possíveis:nem só no professor,nem nos métodos,nem nos recursos,nem na escola nem no sistema.Está no sistema,nos métodos,nos recursos e na avaliação e… São diferentes mecanismos internos que atinge cada um desses aspectos e que se relacionam de diversas maneiras determinando o fracasso.(DORNELES,2000,p.27).

Dando ênfase ao pensamento deste autor,e correto afirmar que o fracasso tem um leque de fatores ou culpados para que ele venha a existir.

O verbo fracassar é de origem italiana (fracassare) ,foi utilizado pela primeira vez no século XVIII, com o significado de arruinar,quebrar.Surgiu em uma época em que os paradigmas estavam em crise e que muitos conceitos e experimentos para resolução de problemas fracassaram,fazendo emitir novos conceitos.

O tema fracasso escolar pode ser emitido a partir da Era das a partir da Era das Revoluções no século XIX ,passando pela reflexão dos sistemas nacionais de ensino,das Teorias Racistas e da Psicologia Diferencial.

“A Era das Revoluções tem um significado importante para a compreensão de toda a trajetória do fracasso escolar,A Revolução Francesa e a Revolução Industrial provocaram importantes transformações no campo social,político e econômico das sociedades do século XIX, a contradição básica deste século foi a ascensão da burguesia e a utopia de uma sociedade igualitária,que se refere à busca de soluções mais efetivas de educação para todos,uma vez que a especialização técnica do operário é a função básica da educação.A educação para todos é uma necessidade, uma vez que ate por volta de 1850,as escolas eram privadas e ate 1870 um grande contingente da população era analfabeta.” (PATTO,1990,p.84).

Apesar da escola ser privada e grande parte da população ser analfabeta,no final do século XIX e começo do século XX,nos paises capitalistas centrais aconteceram pressões populares para que a escola se tornasse democrática.

No final do século XIX surge a escola nova,onde representa o mais vigoroso movimento de renovação da educação depois da criação da escola burguesa .A idéia de fundamentar o ato pedagógico na ação,na atividade da criança já vinha se formando desde a “escola alegre” de Vitorino de Feltre (1378-1446),seguindo pela pedagogia romântica e naturalista de Rousseau.

Mas foi só no inicio do século XX que se concretizou e teve conseqüências importantes sobre os sistemas educacionais e a mentalidade dos professores.

Um dos pioneiros da Escola nova é certamente Adolphe Ferriére (1879-1960). Ferriére considerava que o impulso vital espiritual é a raiz da vida, fonte de toda afetividade, e que o dever da educação seria conversar e aumentar esse impulso de vida.Pra ele,o ideal da vida escola ativa é a atividade espontânea,pessoal e produtiva.

Na década de 30 do século XIX,surgem as teorias racistas,tendo como denominador comum “a herança de caracteres adquiridos”Diferentes discursos podem ser identificados,nas ultimas décadas ,tentando explicar esse fenômeno.Nas décadas de 1940 4 1950 dominava a idéia de que as pessoas eram portadoras de dons e aptidões inatas dentre as quais a inteligência,que as faziam ter maior ou menor sucesso na escola e na vida.A psicologia diferencial de grande significação na época, explicava as diferenças pela raça e pelo sexo,tendo a psicometria alcançando forte prestigio.

Ainda no século XIX,anos 50, a pobreza foi considerada como uma inferioridade inata.A essa visão de inferioridade inata, podemos perceber uma relação com um diagnostico das “aptidões escolares”,que surgem nos séculos XVIII e XIX com o desenvolvimento das Ciências Medicas e Biológicas baseadas na disposição natural, independente dos fatores ambientais como por exemplo, a natureza socioeconômica.Dessa forma, o grande desafios para os psicólogos do século XIX foi medir as aptidões naturais.

“No século XIX buscava-se a explicação para os problemas de aprendizagem nos conhecimentos advindos nas ciências biológicas e da medicina, ou seja, procurava-se em alguma anormalidade orgânica a justificativa para o fracasso das crianças com dificuldades escolares “.(PATTO.1990,.16)

Mediante a aplicação de testes de aptidões, a criança que não manifesta aptidão natural, era considerada “anormal”.Na década de 60, do século XX, entretanto,passou-se a considerar os fatores ambientas, onde já não se considerava mais a diferença individual e passou-se a considerar culturas inferiores.A criança passou a se chamada de “criança problema” em relação a sua cultura.

Embora a consideração e explicação racional para as diferenças sociais,políticas e culturais tenham aparecido nesta época, esta explicação racional para as diferenças a partir da sociedade dividida em classes.

Pode-se dizer que nas décadas de 60 e 70 na Europa, e na de 80 no Brasil, o aspecto social e sua relação com o fracasso escolar começa a ser enfatizado pelos questionadores.Alem disso,surgem os primeiros questionamentos relacionados a patologizaçao, tomadas com gênese das dificuldades escolares.O ponto central de interesse passou a ser o papel da escola, quanto ao efetivo preparo da clientela que a freqüenta.Neste sentido,as dificuldades de aprendizagem deixaram de ser pesquisadas como sendo um problema exclusivo dos alunos uma vez que os fatores infra-escolares e os de ordem social, econômico e políticos envolvidos na educação também passaram a ser investigados.

“Ainda na década de 1960, com o movimento social das minorias, o foco de explicação desloca-se para os aspectos culturais, dando surgimento às teorias da “privação” ou “carência”: carência alimentar,cultural e afetiva.Sofistica-se esta explicação com a expressão “déficit” cultural, ”déficit” de linguagem, e com o surgimento das conhecidas “dis”: a disfunção cerebral mínima, dislexia, discalculia, dislalia, disortografia”.(COLLARES e MOISES,1992)

Segundo Patto1999, em 1981, a literatura sobre o fracasso escolar continua a registrar a mesma afirmação que encontramos em meados da década de 70: o professor idealiza, mas não encontra nas salas de aula uma periferia,um aluno sadio, bem alimentado,com uma família organizada e atenta aos seus problemas pessoais e com prontidão para aprender, o que equivale a dizer que o aluno com que o professor se defronta nestas escolas é doente mal alimentado com uma família desorganizada e desatenta aos seus problemas pessoais e sem prontidão para aprender.

Neste contexto, Magalhães et all,(1998:01) afirmam que houve mudanças quanto às reformas anteriores de se conceder o fracasso escolar.O que mudou ao longo dos anos foi a forma de interpretar esta questão:desde uma visão individualista e clinica passando por uma visão do fracasso como sendo de uma classe social, ou ainda como u fracasso de um sistema sócio econômico e político.Sendo que ultimamente,o fracasso escolar tem sido entendido como o fracasso da escola:sua cultura e organização dos sistemas de ensino.

2.4 Causas do fracasso escolar

A temática ‘fracasso escolar’ é muito complexa, pois envolve determinantes ligadas às raízes econômicas, sociológicas, biológicas, pedagógicas e psicossociais do desempenho escolar.

Há algumas décadas vigora no Brasil a lei que proíbe toda e qualquer forma de discriminação racial e prevê punições aos infratores. Inúmeros estudos, contudo, têm demonstrado algumas vezes de forma explícita, mas na maioria das vezes de formas veladas, a permanência da discriminação no interior do processo educacional. Se não por tal motivo, como explicar a desigual apropriação das oportunidades educacionais de brancos e negros, produzindo efeitos cumulativos que vão se agravando ao longo da escolarização?

Na maioria das vezes os maiores índices de reprovação e exclusão escolar ocorrem na faixa os alunos de nível socioeconômicos baixo. Segundo alguns autores como Lahire (1997) e Patto (1999), o problema do fracasso escolar é mais freqüente nas camadas mais pobres, os alunos que vivem em melhores condições. Existem alunos de famílias pobres que conseguem se sobressair, assim como existem alunos das classes favorecidas que tem baixo rendimento escolar. Mas no geral é a classe menos favorecida que se destaca no fracasso escolar, porque as crianças com baixo poder aquisitivo não têm acesso aos bens culturais, valores e objetivos culturais. A sua identificação com a escola é a mínima possível, pois a sua cultura e a da escola são diferentes, seus ideais são bem distantes dos que a escola oferece.

Às vezes, o aluno se empenha em um determinado aprendizado e não consegue êxito, neste momento houve o fracasso, mas para este fracasso houve um ou vários motivos pelo qual o aluno não conseguiu aprender, e por ter varias causas, não é justo atribuirmos esta responsabilidade no aluno, rotulando-os de preguiçosos, incompetentes, pois o problema faz parte de um contexto mais amplo: existe o professor, que muitas vezes não esta usando uma didática adequada para estimular o aluno; o sistema escolar que pode não esta cumprindo seus objetivos. O problema do fracasso é muito amplo para encontra um único culpado, quando se coloca culpa no sistema, podemos englobar nele o aluno, professores, sistema escolar, família e sociedade.

Lahire(1997) em seu livro Sucesso escolar nos meios populares ,apresenta uma pesquisa realizada com estudantes da 2 serie do 1 grau do sistema educacional francês, onde analisa a situação social e escolar desses alunos,levando em consideração os níveis de formação, situação profissional e lugar onde moram os pais, o grau de conhecimento que os pais destes alunos tem do sistema escolar, o acompanhamento da escolaridade dos filhos e o numero de filhos na família,renda familiar,entre outros fatores sociais.

O sociólogo busca explicações para questões como:como é possível que as crianças que vivem na mesma situação socioeconômica e cultural, alguns consigam ter sucesso escolar e outras não?O que leva sujeitos envolvidos em um mesmo contexto educacional terem aprendizados diferentes?

Lahire(1997,p.12) abrange sua pesquisa da seguinte forma:

A questão central que moveu nossa pesquisa diz respeito à compreensão das diferenças “secundarias” entre famílias populares cujo nível de renda escolar são bastante próximos.Semelhantes por suas condições econômicas e culturais,como é possível que configurações familiares engendrem,socialmente crianças com níveis de adaptação escolar tão deferentes?

O aluno tem valores específicos , sendo um ser social.Nestes sentido,para entender o fracasso escolar deve-se considerar a individualidade do educando, sua particularidade, a realidade do aluno, conhecer seu cotidiano,a importância da escola para a família e o que esta entende do sistema escolar.Este e o marco inicial para se compreender as causas do fracasso escolar.

Segundo Lahire(1997),”a criança constitui seus esquemas comportamentais, cognitivos e de avaliação através das formas que assumem as relações de interdependência com as pessoas que a cercam com mais freqüência,que é a família”. Dando seguimento a este pensamento, e que se sente a necessidade de investigar a constituição das famílias desses alunos com o objetivo de compreender o fenômeno do fracasso escolar.

2.5 Políticas Educacionais voltadas para o fracasso

No contexto do fracasso escolar surgiram diversos programas de combate ao baixo rendimento escolar como :Projeto Se liga que começou a atender as escolas em 2001, projeto acelera Brasil e outros programas que vem sendo trabalhado desde 2006, com o intuito de zerar à questão da distorção idade – série conseqüência da reprovação e da evasão escolar, onde se concretiza o fracasso do aluno

Destacado entre vários projetos existentes no país , o se liga Brasil do instituto Ayrton Senna . Um programa destinado a alunos não alfabetizados foi implantado em 2001 e atendeu 296.721 alunos em 527 municípios, hoje e adotado como política publica em 5 estados Tem o objetivo de anular por completo o fracasso escolar,gerando 100% o aproveitamento dos alunos em seu nível, tem a duração de um ano,caso o aluno não atinja um rendimento necessário para voltar à sua serie de origem ele ira para a outra etapa do projeto, que recebe o nome de Acelera. Este e um programa direcionado à faixa etária de 2 ao 5 ano e o material didático e dividido por direcionamento de cada aula, como atividade de leitura, correção das atividades “para” casa e tarefas diversificadas.O aluno e estimulada a trabalhar com tarefas diversificadas sempre voltadas para sua realidade

Segundo ROSA(2000,p.45).

Quanto à proposta pedagógica, os professores recebem treinamento e manuais referentes aos projetos de aprendizagem. Todo o trabalho de capacitação, acompanhamento,supervisão,definição de material pedagógico e verificação periódica dos projetos, com visitas aos municípios.A fundação Carlos Chagas cuida de fazer uma avaliação anual do desempenho dos alunos e do programa apresentando questões para que o projeto seja aperfeiçoado.

Neste programa os professores recebem periodicamente orientações pedagógicas e o material para trabalhar com estes alunos,são:livro didático,uma caixa com historias infantis para estimular a leitura,e diversos materiais para o dia-a-dia em sala de aula.E feita um avaliação sempre ao final de cada aula com a observação do professor de acordo com o desempenho do aluno na realização de suas tarefas cabendo ao educador promover o aluno para sua serie de origem ou para a próxima etapa do programa o “acelera”..Há uma única avaliação no final do não letivo pelo coordenador do projeto para constatar o aprendizado do aluno.

De acordo com os dados do Instituto Ayrton Senna, alunos de todo o Brasil apresentam índice alarmante de analfabetismo.Como podemos perceber nos dados abaixo , são alunos que já estão em distorção de idade – série, que estão nas series do 2 ao 5 ano e ainda não aprenderam a ler nem escrever o próprio nome.

Entre 10% e 35% dos alunos do 2 ao 5 ano ainda não sabem ler nem escrever. O analfabetismo é o maior vilão da educação publica no Brasil.Ele pune apenas crianças com a repetência, o difícil recomeço todos os anos, a insegurança e a baixa auto estima.(Instituto Ayrton Senna).

Este projeto tem a preocupação de tirar estas crianças da condição de analfabetas e da distorção de idade – série, reduzindo assim o índice de analfabetismo. Em Teresina o projeto se liga em parceria com a Secretaria Municipal de Educação foi implantado devido a necessidade de alfabetizar em curto prazo, os alunos com defasagem para ajuda-los na correção do fluxo escolar.No período de 2001 a 2005 foram atendidos 7.980,77,2% destes alunos estão alfabetizados. Em 2006 o projeto iniciou com 56(cinqüenta e seis) turmas distribuídas em 45 escolas da zona urbana e rural atendendo a 1.145(mil cento e quarenta e cinco) alunos. Isto mostra que esta iniciativa e um ponto de partida para desenvolver a aprendizagem das nossas crianças.

Este projeto tem seu processo definido,como inicio e fim, dentro de um ano letivo,para atender o objetivo que o instituto se propõe, como professores qualificados, supervisores preparados para o acompanhamento semanal das turmas, material didático.Proporcionando a qualidade de ensino e transmitindo para o aluno segurança,trabalhando sua auto estima, para que esta possa seguir me busca do seu espaço na sociedade.

3. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS COLETADOS

A pesquisa foi realizada em 2 (duas ) escolas da rede Municipal de ensino, situadas na zona norte da cidade de Teresina que são:Escola Municipal Nova Brasília e Escola Municipal Iolanda Raulino.

Na Escola municipal Nova Brasília compreende as seguintes informações:localizada no bairro Nova Brasília, na rua:Professor Artur Furtado,numero:1182.A escola dispõe em seu quadro de funcionários de 15 professores, sendo 8 efetivos e 7 estagiários, 1 diretora,1 diretora adjunta,1 pedagoga,17 funcionários do quadro administrativo.Possui um total de 493 alunos, funciona nos turnos manha e tarde com a modalidade de ensino fundamental.

Em seu espaço físico a escola dispõe de 1 biblioteca( muitos livros e jogos educativos), 1 sala de vídeo(com 1TV, 1DVD,CDs educativos),1 diretoria,1 sala de professores,1 refeitório,um espaço adaptado para os jogos como uma espécie de quadra,um pátio para recreação.

Na unidade funciona aos fins de semana um projeto denominado escola aberta,onde a comunidade participa de cursos profissionalizantes,como manicura,cabeleireiro,mecânico,entre outros gratuitamente,bem como esportes, numa espécie de incentivo ao aluno e sua família a trabalharem junto à escola.

A Escola Municipal Iolanda Raulino esta situada no bairro Mafrense, na Alameda Domingos Afonso Mafrense ,funciona nos 3 (três) turnos, manha, tarde e noite.Escola trabalha com programas tais como:Projeto Se liga, Acelera, EJA, Pro Jovem , entre outros voltados para o combate ao fracasso escolar. Em sua estrutura física possui uma quadra de esportes, salas de vídeo, refeitório, biblioteca, laboratório de ciências, laboratório de informática, sala dos professores, diretoria, secretaria, sala de jogos .A escola também participa do programa escola aberta.

3.1 Aplicação da análise de conteúdo categorial na pesquisa

Constituídos os parâmetros que encerram o fracasso escolar, definindo conceito, causas e conseqüências, chega-se no momento onde os depoimentos obtidos dos educadores foram analisados pelas inferências pessoais e dos pensadores que fundamentam este trabalho. Esta análise conduziu o texto no caminho das respostas provocadas pela problemática da monografia. A interpretação dos questionários foi feita sob a ótica da análise de conteúdo categorial. Aprofundando o conceito do método, nas palavras de (Hercovitz, 2005, p.125):

A análise conteúdo é um método eficiente e replicável que serve para avaliar um grande volume de informação manifesta cujas palavras, frases, parágrafos, imagens ou sons podem ser reduzidos a categorias baseadas em regras explícitas com o objetivo de fazer inferências lógicas sobre mensagens.

Partindo dessa definição, o pesquisador atenta-se ao mínimo detalhe contido na mensagem observada, percebendo interesses ou influências.

Neste sentido, as categorias temáticas deste trabalho foram embasadas nos discursos ou respostas que mais se repetiram ou se aproximaram. Além disso, foram consideradas durante a análise, informações de relevante importância para a pesquisa, como respostas demasiadamente díspar e relatos que explicitam o feeling dos educadores com a temática abordada.

Cada pergunta feita torna-se uma categoria e as informações comuns do depoimento dos educadores serão essências para se chegar aos objetivos desejados. Após a interpretação destas categorias, algumas proposições foram constituídas, como forma de observar a validade da problematizarão definida. A pesquisa foi organizada em questionários, dos quais as respostas foram categoricamente preservadas e analisadas através de inferências do pesquisador, fundamentadas em livros, revistas e sítios da internet. Os métodos da pesquisa para obtenção das informações necessárias para sua construção, foram questionários mistos e pesquisas bibliográficas.

A pesquisa foi realizada com 9(nove) professores do ensino fundamental , onde os mesmos responderam a um questionário com perguntas sobre o tema, sendo 5(cinco) professores da Escola municipal Nova Brasília e 4(quatro) da Escola Municipal Iolanda Raulino.

Coletamos dados significativos para o diagnostico da pesquisa que venham a contribuir como causas do fracasso escolar, esperamos que este trabalho venha dar relevância para que os professores saibam discutir e expor suas opiniões sobre o assunto na referida escola.

Os professores questionados encontram-se em um nível de escolaridade que varia desde o pedagógico ate a especialistas.

OS PROFESSORES

Através da analise do questionário aplicado com perguntas abertas respondidas pelos professores.Foram lançadas perguntas sobre o tem dentro de uma possibilidade em que os professores pudessem expor sua opiniões .

Os educadores aos serem questionados acerca do fracasso escolar, responderam:

SUJEITO A: É o mau êxito do discente depois de todo um esforço para o desenvolvimento de habilidade para torná-lo capaz de seguir para uma próxima etapa de estudo.

SUJEITO B: É visto de várias maneiras como; abandono dos alunos da escola; reprovações; o não cumprimento de metas escolares.

SUJEITO C: Tem todo um contexto social. O sistema educacional como um todo, tem sua participação, assim como as famílias dos alunos, geralmente os menos favorecidos economicamente, que tendem a este fracasso, que na sua maioria é detectada pela evasão escolar ou falta de rendimento escolar.

SUJEITO D: Falta de auto-estima do individuo, em conseqüência da injustiça social, que ao longo da história da humanidade vive-se esse tormento que dia-a-dia sufoca a todos.

SUJEITO E: É visto de várias maneiras: o não aprendizado, a evasão escolar, distorção idade e série.

SUJEITO F: acredito que seja o insucesso do aluno no seu processo de ensino aprendizagem, disso provem fatores sócios culturais e psicológicos.

SUJEITO G: É o não cumprimento das metas para educando e educador.

SUJEITO H: É o nível do desenvolvimento dos alunos, devido a vários fatores q contribuem para essa situação.

SUJEITO I: Quando os alunos com problemas de aprendizagem não superam suas dificuldades, onde por traz desse fracasso existem vários outros fatores.

Percebe-se nos relatos que a maioria dos educadores identifica o fracasso escolar como o não cumprimento de metas, mas sentem dificuldade em especificar estas metas, se são elas instituídas pela sociedade, família ou SEMEC.

Nota-se também que alguns educadores ainda não conseguem visualizar os fatores que determinam o fracasso escolar. Outros determinam o fracasso escolar como falta de habilidade do discente, ligando a este fator a situação financeira do aluno.

Sobre este respeito Bossa(2002,p.19) ressalta:

No Brasil, a escola torna-se cada vez mais o palco de fracassos e de formação precária, impedindo os jovens de se apossarem da herança cultural, dos conhecimentos acumulados pela humanidade e, consequentemente, de compreenderem melhor o mundo que os rodeia.A escola que deveria formar jovens capazes de analisar criticamente a realidade, a fim de perceber como agir no sentido da transforma-la e,ao mesmo tempo, preservar as conquistas sociais que sempre fizeram parte da historia do povo brasileiro.É curioso observar o modo como os educadores, sentindo-se oprimidos pelo sistema, acabam por reproduzir essa opressão na relação com os alunos.

Sobre se o fracasso afetar de alguma forma o seu trabalho como educador, os profissionais pesquisados responderam:

SUJEITO A: Com certeza, pois deixa um mal estar de objetivo não alcançado, precisa-se ter muita força de vontade para não desanimar.

SUJEITO B: Sim, pois diminui o estímulo dos outros alunos.

SUJEITO C: Sim, o educador precisa de condições adequadas para fazer um bom trabalho, precisa também do apoio das famílias para o bom andamento do ensino-aprendizagem.

SUJEITO D: Sim, a violência na escola está impossibilitando o desempenho do trabalho ensino-aprendizagem, deixando os profissionais estressados.

SUJEITO E: Sim, o não acompanhamento dos pais, o não controle do professor em sala de aula.

SUJEITO F: Sim, como a sala de aula é um espaço de diversidade de alunos e nessa diversidade encontrar um aluno com dificuldade no aprendizado requer mais atenção por parte do professor exigindo esforço para atender toda a demanda da sala.

SUJEITO G: Sim, atua como referencial do rendimento do educador como facilitador do processo ensino/aprendizagem e ajuda a delimitar estratégias para otimização do trabalho.

SUJEITO H: Sim, porque dessa forma ocorre o desinteresse do aluno e consequentemente a evasão escolar do aluno.

SUJEITO I: Com certeza. O educador muitas vezes se sente culpado é preciso muito conhecimento e força de vontade para melhorar a situação.

Diante dos relatos, percebe-se que os educadores em sua maioria, sentem-se prejudicados com o fracasso escolar de seus alunos e sentem a necessidade de trabalhar junto à família para dar um suporte ao educando com base no processo ensino – aprendizagem. Também melhores condições não ficando claras que condições seriam estas. Eles também consideram que o trabalho do educador deve propiciar melhores condições, mas não especificam que condições ou que melhorias poderiam ser efetivadas para a maximização do ensino.

Apesar de todos afirmarem que são afetados pelo fracasso enquanto educador, poucos dos educadores sentem outras necessidades como, falta de estimulo de aluno e violência. Outros afirmam que se sentem afetados, mas não conseguem se expressar de que forma esta sendo ameaçado em seu desempenho enquanto educador.

Com relação à aprendizagem de outros alunos que não se encontram situação de fracasso escolar, os educadores responderam:

SUJEITO A: É sempre desconfortante se adiantar conteúdo quando se observa alguém com dificuldade, como também diminuir o ritmo quando alguns estão adiantados.

SUJEITO B: Sim, pois afeta o rendimento de todos.

SUJEITO C: O que ocorre é certa determinação dos alunos da rede pública que se estejam numa faixa etária mais avançada.

SUJEITO D: Na escola existem situações diversas, pessoas sábias que convivem com diversos problemas, mais sabem enfrentar os obstáculos em busca de seus ideais e outros se acomodam diante deles.

SUJEITO E: Sim, pois o professor terá que direcionar seu trabalho em função dos alunos que não tiveram o resultado esperado.

SUJEITO F: Para que não afete os outros alunos na sala o ideal é sempre juntar aquele aluno que tem “problema” com o aluno que precisa de “ajuda” para que na interação um possa ajudar o outro e ate melhorar o rendimento.

SUJEITO G: Eles são afetados pelas estratégias adotadas pelo professor em sala de aula como objetivo de auxiliar os alunos em situação de fracasso escolar.

SUJEITO H: Não. Porque os outros não se deixam abater com essa situação.

SUJEITO I: Alunos com desempenho bom, gostam de ensinar seus colegas, o professor pode usar isso a favor do aluno com dificuldade. Algumas vezes usamos atividades diferenciadas para melhorar seu desempenho, sem demonstrar a turma inteira, para não haver constrangimento. O professor deve saber dosar, pois não pode elevar demais o nível e os alunos não entenderem e também não podem abaixar de mais o nível, para não prejudicar os outros. É um grande jogo de cintura.

Os educadores não compreenderam claramente a intenção da pergunta, mas entendem que os efeitos do fracasso não se limitam a afetar apenas os alunos desistentes, mas toda a turma sofre as conseqüências, seja na mudança da metodologia ou do cronograma do professor.

Foi perguntado: Em sua opinião, existem alunos em sua sala de aula em situação de fracasso escolar? Os educadores responderam:

SUJEITO A: Em todas as salas tem aquele que tem dificuldade para desenvolver a aprendizagem de maneira satisfatória.

SUJEITO B: Sim

SUJEITO C: Sim, daí a grande responsabilidade do professor em dinamizar e oportunizar situações atraentes para seus alunos.

SUJEITO D: Sim, mas procuro controlar, às vezes consigo resultado satisfatório.

SUJEITO E: Sim, a falta de assiduidade, a higienização, o não acompanhamento dos pais.

SUJEITO F: Sim, alunos que já vem de series anteriores com debilitação no ensino o que acarreta no atraso de certa forma no desenvolvimento da aula.

SUJEITO G: Sim

SUJEITO H: Sim

SUJEITO I: Sim. E esses alunos equivalem a 15% da turma, um número pouco elevado.

Com as respostas dos educadores percebe-se que apesar de alguns desviarem o sentido da pergunta, todos afirmam ter em sua sala de aula situações de fracasso escolar. Segundo suas respostas , apesar de não estarem bem claras, pode se perceber que os alunos esta em situação de fracasso,são alunos repetentes,portanto encontram-se me distorção de idade – série,ou atribuem esta responsabilidade aos professores das series.

Ao serem perguntados sobre que estratégia foi utilizada para identificar essa situação, os educadores assim responderam:

SUJEITO A: Observação, monitoramento, do desenvolvimento de cada um em cada turma.

SUJEITO B: Observação, baixo rendimento nas provas.

SUJEITO C: A principal estratégia de um professor é a observação e sua prática como docente.

SUJEITO D: Muita conversa e paciência para um resultado em longo prazo.

SUJEITO E: Teste diagnóstico e observação feita com cada aluno em sala de aula.

SUJEITO F: Primeiramente uma observação no perfil dos alunos e depois um diagnostico a partir de um teste escrito.

SUJEITO G: Participação em sala de aula, relacionamento com os colegas, avaliação e demais atividades.

SUJEITO H: Foi verificado através da avaliação e assiduidade, que gerou seu baixo rendimento escolar.

SUJEITO I: Na escrita do seu próprio nome e na leitura de pequenas palavras.

De acordo com a fala dos educadores percebe-se que todos adotam a observação como método para identificar possíveis situações de fracasso ou sucesso na aprendizagem de seus alunos. A partir dessa observação o educador tem condições de desenvolver novas praticas dentro da sala de aula para tentar minimizar os efeitos da situação de fracasso, ou mesmo coibir que esta aconteça.

Todos esses processos porém, para suas reais efetivações, carecem do apoio e da capacitação dos professores, no intuito de dar-lhes elementos suficientes para lidarem de forma concisa e construtiva com as mais diversas situações e problemas recorrentes na sala de aula.

Sobre o como o educador vê a situação de fracasso, responderam:

SUJEITO A: É difícil de se ministrar, porém é importante levantar a estima desses alunos e mostrar para eles que são capazes de vencer os obstáculos que os fazem fracassar.

SUJEITO B: Muito delicado, no qual requer um grande envolvimento dos pais e da escola para a solução desse problema.

SUJEITO C: Uma responsabilidade social.

SUJEITO D: Um conflito muito difícil de ser resolvido, por que as autoridades não têm interesse na educação.

SUJEITO E: A partir de testes e acompanhamento de cada um.

SUJEITO F: Um pouco prejudicial ao trabalho do docente, porque atrasa um pouco a forma de ministrar os conteúdos.

SUJEITO G: É parte natural do processo escolar, mas que deve ser analisada e suprida.

SUJEITO H: Sentindo a necessidade de ajudar os alunos nessa situação.

SUJEITO I: Com certa tristeza e como um grande desafio.

Muitos dos educadores vêem a situação de fracasso escolar como um desafio ao seu trabalho enquanto educador. Eles percebem também que se faz necessário o envolvimento da família, sempre trabalhando numa visão construtivista escola – família. Outros dos educadores se pronunciam para citar o fracasso escolar como a falta, necessidade de se trabalhar a auto-estima dos educandos e de sua família.

Na opinião dos professores, o que pode estar provocando a situação de fracasso escolar de seus alunos. Estes responderam:

SUJEITO A: Situações sociais, desvalorização da escola e da função de professor, falta de vivência de valores essenciais como respeito, amor ao próximo, e etc.

SUJEITO B: Falta de estímulo, necessidade de trabalho.

SUJEITO C: Falta de estímulo.

SUJEITO D: Falta de justiça social e desvalorização da instituição familiar.

SUJEITO E: A falta de comportamento e interesse por parte dos alunos e a falta de acompanhamento dos pais.

SUJEITO F: Não se pode dizer que a culpa é somente dos alunos, mas todo o sistema educativo que envolve a sociedade, a escola, os órgãos governamentais competentes.

SUJEITO G: Déficit trazido de anos de anos anteriores e falta de acompanhamento por parte da família.

SUJEITO H: Podem ser gerados devido aos problemas familiares que estão ocorrendo em sua vida.

SUJEITO I: Vinda de outras escolas, falta de estímulos e a didática que muitas vezes não agrada ao aluno.

Muitos professores citam como causa do fracasso escolar a situação sócio econômica desfavorável e a falta de acompanhamento familiar ao processo educativo do aluno.

Outros associam ainda a não valorização do professor, e da escola por órgãos competentes, faltando assim um suporte adequado para que escola e o educador possam dar estímulos ao educando, e dessa forma, trabalharem cada aluno em situação de fracasso escolar. Sobre este pensamento Charlot(2000,p.28) diz:

“A maneira como eles são teorizados em termos de faltas, deficiências e origem, sem que sejam levantadas a questão do sentido da escola para as famílias populares e seus filhos né, a da pertinência das praticas da instituição escolar e dos próprios docentes ante essas crianças.O que questiono é também que certas crianças de meios populares tem sucesso, apesar de tudo, na escola.Iso deveria fragilizar a teoria as deficiência e da origem:nem todas essas crianças sofrem uma desvantagem por causa da sua origem;”

Quando foi perguntado aos professores:”Como transformar esse fracasso em sucesso?”.responderam:

SUJEITO A: Conquistando o aluno e mostrando confiança no seu sucesso. Conhecer o que interessa para eles.

SUJEITO B: Envolvendo os alunos de forma prazerosa nas atividades sugeridas pelo professor. Adequar a escola com as reais condições dos alunos.

SUJEITO C: Entendendo o que realmente ocorre e qual sua real origem.

SUJEITO D: Uma reestruturação de valores éticos.

SUJEITO E: Planejando as atividades a partir das dificuldades encontradas.

Sujeito F: Com métodos de ensino atualizados e dinâmicos para essa clientela.

Sujeito G: Quando percebemos a incapacidade de ambos em criar uma base sólida para a continuação dos estudos.

Sujeito H: Essa é a hora do professor procurar meios para ajudar os alunos nessa situação para que eles se recuperem.

Sujeito I: Propondo aos alunos desafios, onde eles possam resolver questões indagadas pelos professores, onde seus conhecimentos prévios sirvam de base, e que o aluno tenha no professor um amigo.

Na opinião dos educadores ,e de acordo com suas respostas percebe-se que para transformar esse fracasso é necessário que o educador utilize de meios bem criativos para penetrar na realidade do aluno para saber em que área atuar, sem deixar de lado a individualidade de cada um. Adequando sempre cada atividade a realidade de cada aluno.

Quando se perguntou aos educadores:”Quando podemos afirmar que houve fracasso por parte do aluno?e do professor?”,responderam:

SUJEITO A: Quando ao final do ano o aluno não desenvolve as habilidades essenciais para seguir para a próxima fase. Se o aluno fracassa é porque o professor também fracassou, haja visto que o objetivo de todo professor deve ser o aprendizado do aluno.

SUJEITO B: Na desistência nos estudos. No professor através do rendimento dos alunos.

SUJEITO C: O aluno não fracassa, ele precisa é de mais oportunidades, atenção. Enquanto o professor além de precisar de tudo isso, precisa de uma boa remuneração e uma carga horária adequada para aprimoramento.

SUJEITO D: Quando não há respeito entre educando, professor e outros.

SUJEITO E: Do aluno: quando ele não desenvolveu as habilidades necessárias. Do professor: quando ele não conseguiu se motivar e atingir seus objetivos.

SUJEITO F: Não tem como afirmar isso por que não é somente de um ou do outro mas do sistema em si.

SUJEITO G: Despreparo dos professores,Projeto Pedagógico inadequado,não cumprimento do P.P.P , etc.

SUJEITO H: Aluno:quando ele não atinge uma meta ideal.Professor:quando para de exercer sua função.

SUJEITO I: O fracasso por parte do aluno se da através do desestimulo da criança,que se reflete na escrita e na leitura que não são boas,e ate mesmo nas relações sociais dessa criança.O fracasso por parte do professor se da através da falta de uma didática atualizada que prenda atenção do aluno e a falta de estímulos e compromissos que alguns tem.

De acordo com a maioria das respostas dos educadores, podemos observar que este fracasso, não engloba apenas o mundo dos educandos, mas que os educadores também fracassam. O aluno quando não desenvolve as habilidades propostas pelo sistema escolar. Os professores fracassam quando não conseguem atingir suas metas, também propostas pelo sistema de ensino. O sujeito C afirma em sua reposta que o aluno não fracassa, Sobre isto Charlot (2000,p.16)afirma;

O fracasso escolar não é um monstro escondido no fundo das escolas e que se joga sobre as crianças mais frágeis, um monstro que a pesquisa deveria desemboscar ,domesticar,abater.O “fracasso escolar” não existe;o que existe são alunos fracassados, situações de fracasso, historias escolares que terminam mal.Esses alunos,essas situações,essas historias é que devem ser analisadas, e não algum objeto misterioso, ou algum vírus, chamado “ fracasso escolar”.

Sobre quais os fatores internos e externos na escola que contribuem para o fracasso do aluno, responderam:

SUJEITO A: Interno: faltas, desinteresse pelas atividades.

Externo: desestrutura familiar.

SUJEITO B: Interno: currículo,

Externo: fatores econômicos e sociais.

SUJEITO C: Interno: em todo o grupo escolar,

Externo: família (que precisa entender o processo de aprendizagem) e estimular seus filhos.

SUJEITO D: Falta de acompanhamento das famílias.

SUJEITO E: Falta de material adequado, pouco tempo para qualificação do professor.

Sujeito F: Fatores sociais(diferenças de classe) condiçoes de ensino.

Sujeito G: Fatores,familiares,financeiros e socias.

Sujeito H: Fatores internos:escola mal adiministradae mal estruturada.Fatores externos:evasao escolar,falta de interesse do aluno pelos estudos.

Sujeito I: Fatores internos: má gestao da escola,didatica desatualisada,falta de interesse por parte de alunos e professores,espaço fisicop desprivilegiado.Fatores externos conflitos familiares,social e cultural.

Segundo as sua respostas,os professores em sua maioria apontam como principais fatores internos a falta de organizaçao do grupo escolar, englbando problemas da esfera do gerenciamento da escola, como as praticas pedagogicas aplicadas na sala de aula. Aos externos atribuem, ao acompanhamento familiar que deixa a desejar, uma vez que a presença atuante da família maximiza de forma considerável os indicativos e possibilidades de sucesso escolar.

De maneira geral, nenhum dos fatores tem ação pontual; eles estão ligados, sendo que a superação dessa situação dar-se-á, quando os mesmo forem sistematicamente suprimidos, fato que acontecerá quando os proponentes do processo ensino-aprendizagem (escola, sociedade e entidades) analisarem a contribuição de cada um na questão do fracasso escolar e construírem coletivamente planos e metas que ajudem na diminuição e progressiva extinção nas estatísticas da situação de fracasso escolar.

4. CONCLUSÃO

A temática do fracasso escolar esta longe de se tornar uma pauta superada, uma vez que envolve diversos proponentes da educação, segmentos estes que possuem perspectivas distintas sobre o fracasso na educação. Educadores, famílias, alunos e entidades sociais discutem modelos de ações e métodos para superar este paradigma.

Diante dos resultados da pesquisa, que se fundamentou no conceito de fracasso construído na mesma e nas respostas obtidas dos educadores, constatou-se situação de fracasso escolar em alguns alunos do ensino fundamental do 2º ano 5º ano de 2 escolas da zona norte de Teresina: Escola Municipal Nova Brasília e a Escola Municipal Iolanda Raulino. Este fato se da, segundo os resultados pela falta de estrutura familiar, escolar, pedagógica e social que envolve o cotidiano do aluno. A necessidade de uma capacitação especifica para os professores, para trabalharem na linha do fracasso escolar, utilizando uma correta e eficaz para se combater esta situação.

A pesquisa investigou a opinião, perspectivas e expectativas do professor em função de um ou mais alunos em sua sala de aula ou ate mesmo no geral, que se encontra em situação de fracasso escolar.

Percebe-se que a maioria dos educadores identifica o fracasso escolar como o não cumprimento de metas, e sentem-se prejudicados com o fracasso de seus alunos, com a necessidade de trabalhar junto a família para ter esta como suporte na educação dos alunos.

O fracasso é, pois, o não acompanhamento por parte da criança das etapas de ensino, por falta do não cumprimento das etapas de ensino e aprendizagem por parte do professor onde o mais prejudicado acaba sendo o educando, por não encontrar seu espaço na sociedade, sendo rotulado, excluído ou até mesmo marginalizado.

Sucesso e fracasso andam em uma linha onde, se não houver um, o outro está por vir a substituí-lo. E percebeu-se durante a pesquisa que muitas vezes os professores não tem a devida percepção destes aspectos inerentes ao processo de ensino aprendizagem.

Espera-se com esse trabalho contribuir para o enriquecimento do debate sobre o fracasso escolar, uma vez que se entende que um dos elementos indispensáveis para as mudanças de posturas em relação às práticas pedagógicas é exatamente o debate que se faz sobre as mesmas.

REFERÊNCIAS

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CHARLOT, Bernara. Da relação com o saber:elementos para uma teoria /Bernar Charlot; trad. Bruno Magne.-Porto Alegre:Artes Medicas Sul,2000.

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Medidas e Volume

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I. Introdução

A técnica de medição do volume de uma amostra depende do estado físico da amostra e da sua forma. Os resultados obtidos podem ser expressos em unidades SI, metro cúbico (m³), ou em unidades submúltiplas deste, que é o caso mais frequente.Para medir volumes de líquidos usam-se diversos instrumentos, consoante o rigor a observar e o volume da amostra. Para medições rigorosas usam-se pipetas, buretas ou balões volumétricos. Para medições menos rigorosas utilizam-se as provetas. Qualquer um destes instrumentos tem inscritas algumas informações importantes, tais como: Volume máximo (capacidade); Graduação da sua escala, normalmente em mililitros; Tolerância (limite máximo do erro);Traço de referência, no caso de pipetas ou balões volumétricos; Temperatura de calibração (temperatura a que deve ser feita a medição e que é, normalmente, 20˚C).

II. Objetivo

A utilização desse recurso tem por objetivo ampliar os conhecimentos dos estudantes do curso de Farmácia do CEUNES, além de colocar em prática tudo o que foi assimilado na sala de aula. Também possibilita o aprendizado específico na área de medidas e volumes como, expressar corretamente as medidas de volume, utilizar algarismos significativos e definir os significado de precisão e exatidão.

III. Materiais e Reagentes

Para essa experimento foi utilizado um béquer de 50 mL, um béquer de 500 mL, uma bureta de 25 mL, um balão volumétrico de 50 mL, uma pipeta graduada de 25 mL, um pipeta volumétrica de 50 mL, uma proveta de 50 mL, um funil de 50 mL, um tubo de ensaio de 25 mL, e água destilada.

IV. Procedimento Experimental

Para a elaboração do procedimento foi solicitado que anotasse os desvios, e a capacidade de alguns aparelhos que foram citados no item III, foram eles, bureta, proveta e pipeta graduada. Após essa verificação foi realizado outro procedimento que solicitava que medisse a quantidade máxima de água de um tubo de ensaio usando a proveta e a bureta, e depois repetir esse procedimento por três vezes, posteriormente verificar se houve a coincidência da leitura dos volumes e dos resultados dos aparelhos utilizados.

Outro procedimento de baseava em adicionar a um béquer de 250 mL, os volumes de água correspondente a capacidade máxima que cada um dos seguintes aparelhos é capaz de medir: bureta, proveta, pipeta volumétrica e pipeta graduada. Após isso era necessário calcular e expressar corretamente a soma dos volumes adicionados.

V. Resultados Experimentais.

Resultados obtidos com a bureta: 9,750. 9,720. 9,800. Portanto não houve coincidência de volumes.

Resultados obtidos com a proveta: 10,1. 10,00. 10,00. Portanto nos experimentos 2 e 3 houve coincidência de resultados.

Não. Espera se coincidência, pois a mesma medida que se deu na proveta esperava-se no balão volumétrico. O volume transferido para o béquer foi de 49 mL, pois ele tem um precisão menos e um desvio maior.

Obs: para esse experimento foi utilizado uma proveta de 50 mL.

VI. Conclusão

A execução desse experimento atuou de forma surpreendente, pois tirou os estudantes do senso comum e os colocou bem informados sobre as medidas e os volumes, através deste se observou que há desvios nos recipientes e que alguns recipientes não têm uma exata precisão.

VII. Referências Bibliográficas.

http://www.notapositiva.com/trab_estudantes/trab_estudantes/fisico_quimica/fisico_quimica_trabalhos/medicaovolumes.htm. Acessado em 17/04/2010 ás 10:20

Caracterização do Perfil dos Idosos

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A velhice sempre foi vista como o começo do fim na vida de qualquer individuo. Acredita-se que até o ano 2025, a população idosa mundial será superior a 50 milhões de habitantes.

A sociedade não tem tratado seus idosos com o devido respeito, pelo contrario, uma grande maioria dos idosos é tratados com hostilidade, desprezo e preconceito. Falta afetividade, animosidade e emoção na vida dos idosos. Diante disto, pensar na qualidade de vida e bem estar do idoso, passa ser uma preocupação para toda sociedade. Partindo da premissa problema “Qual é o perfil dos idosos cadastrados no ESF Carmelo e quais as principais doenças que acometem esta população?”, buscou-se caracterizar o perfil dos idosos cadastrados na área de Abrangência do ESF Carmelo na Cidade de Montes Claros – MG; e de forma especifica (i) analisar o perfil demográfico do idoso no ESF Carmelo; (ii)descobrir as principais doenças que acometem os idosos cadastrados no ESF; (iii) descrever as características pessoais e clinicas dos idosos cadastrados no ESF.

A metodologia utilizada foi à pesquisa documental in lócus, com observação da Ficha A e como amostra foram selecionados 117 pacientes cadastrados no ESF, com faixa etária superior a 60 anos de idade. Detectou-se na pesquisa que a maioria dos idosos cadastrados no ESF são Hipertensos ou possuem Diabetes Mellitus. Nenhum tem plano de saúde, a maioria é aposentado e a maioria da população é do sexo feminino, necessitando de uma maior atenção dos profissionais de enfermagem com desenvolvimento de ações educativas e orientações para garantir a saúde e bem estar destes clientes.

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO
1.1 PROBLEMA
1.2 OBJETIVOS
1.2.1 Objetivo Geral
1.2.2 Objetivos Específicos
1.3 Justificativa
2 REVISÃO DE LITERATURA
2.1 DISCUTINDO O ENVELHECIMENTO
2.2 PROMOÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA E A CIDADANIA DO IDOSO
2.3 PRINCIPAIS PATOLOGIAS QUE ACOMETEM OS IDOSOS E OS CUIDADOS
2.4 DIABETES MELLITUS
2.5 HIPERTENSÃO ARTERIAL
3.0 METODOLOGIA
3.1 Tipo de pesquisa
3.2 Coleta de dados
3.3 Critérios de Inclusão/. Exclusão
3.4 Análise e interpretação de dados



1 INTRODUÇÃO

A velhice é encarada por todos como o começo do fim. Não se pode esquecer que só quem passa por toda uma vida, e, vê se aproximar dos 60-70 anos é que pode dizer que viveu. São os traços característicos como rugas, que podem nos dizer que a pessoa viveu uma longa vida, se bem ou mal, só ela pode saber (CARVALHO, 2001).

Desde tempos muito antigos o homem tem lutado contra a velhice e a morte. No mundo contemporâneo, essa motivação é tão forte que a atitude geral da sociedade para com os indivíduos que envelhecem chega a assumir, por vezes, aspectos de franca hospitalidade. Existem preconceitos firmemente sobre qual deva ser o comportamento socialmente aceitável das pessoas idosas. Tais idéias restringem de maneira quase total a livre manifestação de suas personalidades, impondo-lhes o modelo ideal de idoso. Conformado, inativo, sem opinião e tão afastado quanto o possível do caminho dos mais jovens.( BERQUÓ, 2001)

No sentido mais amplo do termo, a velhice e o período que se inicia na década dos 50 anos, após o individuo ter atingido e vivenciado aquele platô de realizações pessoais que chamamos de maturidade. Muitos autores aceitam como valida a idéia popular segundo a qual o envelhecimento é o retorno a infância, quando ocorre um declínio global das funções físicas, intelectuais e emocionais. Como regra geral, o homem atinge uma plenitude ate a idade de 45/50 anos. A partir daí, começa a entrar em decadência (BARROS, 2001).

O mundo, todavia, não para nunca, e a pessoa que envelhece se vê diante de diferenças cada vez mais brutais e exigências cada vez mais difíceis de atender. O idoso vê diminuída sua condição de competição. Reúne todas as energias para continuar desempenhando suas tarefas, ate que chega a ponto de não mais poder competir, sentindo o sabor amargo que lhe parece à derrota (BEAUVOIR, 1990)

Como meio de otimizar as melhorias para as condições de vida e saúde do idoso, varias foram as mudanças proposta pelo Sistema Único de Saúde – SUS, no intuito descrever o paradigma organizacional na assistência aos indivíduos, e de forma prioritária a família. Diante disto foi incorporado ao sistema de saúde os PSF para atendimento aos subsídios de atenção básica, que está interligado ao sistema de Programa de Agentes Comunitários de Saúde – PAC`s, com enfoque para atenção á saúde da família e na prevenção de doenças, reduzindo assim os gastos com saúde publica no Brasil (BRASIL, 1998).

Neste sentido, este trabalho teve por objetivo geral caracterizar o perfil dos idosos cadastrados na área de Abrangência do ESF Carmelo na Cidade de Montes Claros – MG e de forma especifica analisar o perfil demográfico do idoso no ESF Carmelo; descobrir as principais doenças que acometem os idosos cadastrados no ESF; descrever as características pessoais e clinicas dos idosos cadastrados no ESF, tudo isto através da análise documental da Ficha A do SIAB ( Sistema de Informação da Atenção Básica), através da verificação dos dados anotados na ficha e dos prontuários médicos.

Este tema é de suma importância, pois mobiliza esforços e recursos, coordenando e integrando-se no processo global da enfermagem e de forma consciente, buscou-se conhecer o perfil sócio-demográfico dos idosos cadastrados no ESF investigado, promovendo uma analise para descobrir as possíveis doenças que acometem tais indivíduos.

Este estudo encontra respaldo em vários teóricos que promovem uma análise da compreensão de que é o envelhecimento e como tratar os indivíduos de forma a garantir-lhes uma melhoria na qualidade de vida, bem estar social e autonomia nas atividades, evitando assim o desenvolvimento de doenças crônico-degenerativa.

É dever do enfermeiro, primar pela atenção da família e para isto muitos esforços deve ser reunido no escopo de otimizar recursos e estratégias para atender esta população de forma congruente, visando minimizar ou mesmo evitar os problemas de saúde tão freqüente nesta faixa etária.

Nesse sentido, fatores socioeconômicos podem estar relacionados com a qualidade de vida dos idosos, pois pode subjugar e pormenorizar o idoso, principalmente aqueles que não tem uma vivencia social adequada. O idoso que não se integraliza e socializa com os demais, são discriminados e muitas vezes abandonados não apenas pelos familiares mas também pela sociedade, passando então ser uma relevante preocupação não apenas para os gastos com saúde publica, mas também para toda a comunidade no qual está inserido.

1.1 PROBLEMA

Qual é o perfil dos idosos cadastrados no ESF Carmelo e quais as principais doenças que acometem esta população?

1.2 OBJETIVOS

1.2.1 OBJETIVO GERAL

Caracterizar o perfil dos idosos cadastrados na área de Abrangência do ESF Carmelo na Cidade de Montes Claros – MG

1.2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Analisar o perfil demográfico do idoso no ESF Carmelo

Descobrir as principais doenças que acometem os idosos cadastrados no ESF

Descrever as características pessoais e clinicas dos idosos cadastrados no ESF

1.3 JUSTIFICATIVA

Com o aumento acelerado de idosos no Brasil é necessário que os governantes requeiram ações urgentes voltadas à promoção de um envelhecimento saudável, na qual a produção de conhecimento na área vem a contribuir para subsidiar o planejamento destas ações, buscando intercalar situações em que o enfermeiro trabalhe de forma a garantir a qualidade de vida e bem estar dos indivíduos idosos cadastrados no ESF, evitando assim que os mesmos sejam acometidos por doenças, reorganizando os serviços de saúde da família de modo a buscar a equidade no setor de saúde.

Outro fator que justifica a escolha do tema centra-se na repercussões gerados pelos serviços de saúde pois, com o aumento da expectativa de vida dos indivíduos, vêm acompanhadas pelo aumento da prevalência de outras morbidades e também doenças crônico-degenerativa.

É dever do enfermeiro, primar pela atenção da família e para isto muitos esforços deve ser reunido no escopo de otimizar recursos e estratégias para atender esta população de forma congruente, visando minimizar ou mesmo evitar os problemas de saúde tão freqüente nesta faixa etária.

2 REVISÃO DE LITERATURA

2.1 DISCUTINDO O ENVELHECIMENTO

Na medida em que os anos passam, aumenta significativamente o número de idosos no mundo inteiro. Este fato está diretamente relacionado com a queda da natalidade e com o aumento da expectativa de vida.

Para Beauvoir (1990), envelhecimento pode ser considerado como uma etapa da vida claramente marcada e vivida de acordo com o seu contexto social, sendo o resultado de um processo evolutivo.

Zimerman (2000) relata que a expectativa de vida mundial, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é de 65 anos, e em 2025 será de 74 anos de idade. O crescimento populacional dos habitantes com mais de 60 anos, foi de 227%. No Brasil esta expectativa é um pouco mais baixa, 64 anos, e a previsão para 2025 será de 74 anos.

Enfatiza ainda a autora que em muitas culturas e civilizações, a velhice é vista com respeito e veneração: representa a experiência, o valioso saber acumulado ao longo dos anos, a prudência e a reflexão. A sociedade urbana moderna transformou essa condição, pois a atividade e o ritmo acelerado da vida marginalizam aqueles que não os acompanham.

A velhice é o último período da evolução natural da vida. Implica um conjunto de situações — biológicas e fisiológicas, mas também psicológicas, sociais, econômicas e políticas — que compõem o cotidiano das pessoas que vivem essa fase.

A “velhice” seria a última fase da existência humana, sendo que o “envelhecimento” está atrelado às mudanças físicas, psicológicas e sociais. Logo, “amadurecer” e “maturidade” significam a sucessão de alterações ocorridas no organismo e a obtenção de papéis sociais. (NÉRI, FREIRE 2000, p. 13).

Não há uma idade universalmente aceita como o limiar da velhice. As opiniões divergem de acordo com a classe socioeconômica e o nível cultural, e mesmo entre os estudiosos não há consenso. Para efeitos estatísticos e administrativos, a idade em que se chega à velhice costuma ser fixada em 65 anos em diversos países, após o que se encerra a fase economicamente ativa da pessoa, com a aposentadoria. Atualmente, nas nações mais desenvolvidas, esse limite não parece absolutamente adequado do ponto de vista biológico, pelo que a Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou-o para 75 anos.

O envelhecimento, na percepção de Zimmerman (2000), possui uma dimensão existencial e se modifica com a relação do homem e o tempo com o mundo e sua própria história, revestindo-se não só de características biopsíquicas como também sociais e culturais.

Terra e Dornelles (2003), relatam que em relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), o crescimento seguro significa que há uma tendência de prolongamento de vida e um declínio dos índices de natalidade/mortalidade, o que nos tornará nos próximos quarenta anos o país mais envelhecido do continente latino-americano, considerando o volume populacional de pessoas com mais de 60 anos.

Assim, em Zimerman (2000), o aumento de idosos está relacionado ao período pós-revolução industrial, com o declínio nas taxas de natalidade e mortalidade, devido ao controle de doenças infecciosas, degenerativas e crônicas, típicas de idosos.

De acordo com a autora (2000), são considerados idosos as pessoas com mais de 65 anos de idade. Estes dados só são válidos para países desenvolvidos. Já nos países em desenvolvimento, idoso é a pessoa com mais de 60 anos.

Conforme Terra e Dornelles (2003) a ONU, projeta que com o declínio da natalidade e da mortalidade nos próximos quarenta anos o Brasil se tornará o país com o maior número de idosos da América Latina.

Com esse envelhecimento mundial surgiram termos tais como: Gerontologia e geriatria. Para Ximenes (2001), geriatria significa parte da medicina que trata das doenças dos idosos e gerontologia é a ciência que estuda os problemas dos idosos tais como clínicos, psicológicos e econômicos.

Zimerman (2000), explica que envelhecer, quer dizer mudanças físicas, fisiológicas, psicológicas e sociais do indivíduo. Estas mudanças podem ser diferentes em cada idoso, dependendo da sua alimentação, prática de exercícios, controle psicológico, otimismo.

Segundo o Estatuto do Idoso é dever da sociedade delinear quem é e como é visto o idoso pela sociedade, portanto de forma genérica, buscando atender as necessidades e anseios destes, sem com isto rotula-los. Segundo Comfort (1979, p.10), “a rotulação constitui um processo tanto corriqueiro quanto maligno (…). Contudo, a função que atribuímos aos “velhos’ se distingue pela seu caráter destrutivo.”

No entanto, diz Comfort (1979, p.12) que “a verdade é clara como a água. A ‘velhice’ equivale à vivência de um determinado número de anos: isto é tudo e esta vivencia deve ser primada por qualidade e bem estar”.

A partir destas perspectivas, também pode-se observar que o fenômeno Terceira Idade vem conquistando posições, mudanças e respeito frente à sociedade, mediante a participação ativa nos programas e projetos institucionais e sociais, motivação esta que, segundo Barreto (1998, p.35), independe necessariamente do fator econômico, pois que “os espaços sócio-culturais são gratuitos, até porque, sabemos que o Estado não se responsabiliza por uma política social e universal de amparo e proteção à classe pauperizada”.

Para Faleiros (1997, pp.192-193) nos coloca que: no contexto da chamada responsabilização do indivíduo, da família, ou da comunidade, aos pobres cabe somente o engajamento na participação da gestão limitada de sua vida cotidiana ou nos projetos feitos de cima para baixo

Neste sentido, Seidl e Zannon (2004) afirmam que a maneira de pensar e agir é decisiva no processo de envelhecimento, que pode se dar ou não com alegria, tranqüilidade, amor e principalmente motivação . O ser humano se torna motivado ou estimulado por meio de necessidades internas ou externas que podem ser de caráter fisiológico como a fome, o sono, a doença, a fadiga, ou psicológico como o desejo de agradar e ser aceito pelas pessoas.

Na perspectiva dos autores, acima citados a motivação não é um produto acabado, é antes um processo que se configura a cada momento no fluxo permanente da vida. É uma força, uma energia que nos impulsiona na direção de alguma coisa. Ela nos é, absolutamente, intrínseca. As pessoas têm a capacidade de nos estimular, incentivar e provocar nossas motivações. Um dos principais teóricos do campo da motivação foi Abraham Maslow (KHALSA, 1997) que postulou sobre a idéia de um ciclo, o Ciclo Motivacional, segundo o qual as necessidades humanas estão organizadas e dispostas em cinco níveis (necessidades fisiológicas, segurança, sociais, “status” ou de estima, auto-realização), numa hierarquia de importância e de influência, através de uma pirâmide, cuja base estão às necessidades fisiológicas e no topo as necessidades de auto-realização. As necessidades dos seres humanos obedeceriam a uma escala de valores progressivos a serem transpostos. (KHALSA, 1997).

Na perspectiva de Zimmerman, 2000, p.124) tanto as motivações como as emoções constituídas ao longo da vida trazem aspectos psíquicos que influenciam parte da personalidade do ser, como os vínculos e os mecanismos de defesa. “Trata-se, portanto, de um estado mental que pode ser expresso por meio de distintos modelos e com variados vértices de abordagem”. Ainda, estes são elos intra, inter e transpessoais que sempre estão acompanhados de emoção e fantasias inconscientes.

Em relação à criação dos vínculos afetivos, o autor anteriormente citado, afirma que este deve estar sempre acompanhado de um estado emocional e de algum grau de fantasia inconsciente. Estes vínculos podem ser conceituados como: vínculo do amor, vínculo de ódio, vínculo do conhecimento, vínculo do reconhecimento, vínculo depressivo, vínculo hipocondríaco, vínculo histérico, vínculo obsessivo e o vínculo paranóico. Podem aparecer isolados ou na forma de duplo vínculo (ZIMERMAN, 2000).

Os mecanismos de defesa (deslocamento, formação reativa, idealização, masoquismo, negação, projeção, racionalização, regressão, repressão, sublimação) são distintos tipos de operações mentais que têm por finalidade a redução das tensões psíquicas internas, ou seja, as ansiedades. São geralmente inconscientes e tendem a ser rejeitados pelo ego através de múltiplas formas de negação, podendo ser encontrados em indivíduos saudáveis, porém, sua presença excessiva é, via de regra, indicação de possíveis sintomas neuróticos. São geralmente evidenciados nas compensações: esforço enorme para superar a fraqueza, compensando estas de outras maneiras (ZIMERMAN, 2000).

Ao longo do ciclo da vida, o homem vai formando vínculos usando mecanismos de defesa para superar aquilo que não lhe agrada e construindo na sociedade papéis e funções que desempenha muitas vezes sem se dar conta. Os papéis podem ser conceituados como sendo o conjunto das posições imaginárias assumidas pelo indivíduo durante sua infância, na relação com os demais, possui raiz imaginária e se concretiza na ação, na interação. Quanto mais sadio é um indivíduo, mais possibilidade terá de desempenhar diferentes papéis, terá um leque de papéis mais amplo, papéis criativos e não repetitivos. A função é efetiva, interna, é quando o individuo consegue ser ele mesmo e se arrisca.

Na sociedade o homem muitas vezes deixa de lado as emoções e funções para construir papéis, o que pode levar a conflitos internos de emoções, que também podem ter sido gerados pela matriz de identidade que é o lugar do nascimento ou placenta social, onde se estabelece a comunicação entre a criança e o sistema social da mãe, incluindo aos poucos os que dela são mais próximos. É o local onde a criança se insere desde o nascimento, relacionando-se com objetos e pessoas dentro de um determinado clima. A forma como uma criança percorre sua matriz de identidade é um parâmetro de como será sua vida adulta. Isto se refere não só à relação didática mãe-filho, mas à resultante emocional de todas as relações envolvidas nesse núcleo, ou seja, a rede de relações familiares, aos fatores biológicos, psicológicos e sócio-culturais. (BARROS, 1991).

Segundo Barros (1991), o amor, respeito e auto-estima que um indivíduo, sente por si mesmo, espelha por seu turno, como foram suas primeiras relações estruturadoras e prognostica, em última instância, como serão suas relações com o mundo. E ao longo do seu ciclo de vida as mudanças vão se expressando como crescimento, transformações, aperfeiçoamento, declínio. Os ciclos são diferentes e particulares variando de pessoa para pessoa. Cada evento de um ciclo predispõe a existência do ciclo seguinte e estes são divididos em fase que podem ser: de 0-10 anos fase do “eu obedeço”, 10-20 anos fase do “eu devo”, 20-30 anos fase “eu quero”, 30-40 anos “eu preciso”, 40-50 anos “eu escolho”, 50-60 anos “eu compreendo”, 60-70 anos “eu aceito”. Nesta última fase citada podemos inserir o conceito de idoso que se inicia com a idade de 60 anos, no entanto, é difícil caracterizar uma pessoa como idosa utilizando como único critério à idade.

Todos esses aspectos psíquicos e biológicos citados acima se bem vividos e bem estruturados proporcionarão às pessoas uma melhor qualidade de vida na velhice.

Para Berquó (1980) tratar do assunto “velhice” ou do idoso, é muito comum, a utilização na demografia, a definição de que a faixa etária inicial para o envelhecimento é centrada entre 60 e 65 anos de idade, sendo, pois definida de forma linear por toda sociedade como população idosa. Assim, a população idosa fica compreendida pela idade superior a 65 anos de idade.

É fundamental o entendimento de que a conformação da estrutura etária numa população aberta, sujeita à entrada e à saída de pessoas através de movimentos migratórios, depende fundamentalmente de como se conjugam os mecanismos determinantes do ritmo de crescimento demográfico – fecundidade, mortalidade, imigração e emigração. Em outros termos, “… a estrutura por idade e sexo de uma população em um momento dado é o resultado de um efeito conjunto dos nascimentos, das mortes e das migrações que foram ocorrendo nos cem anos anteriores” (BERQUÓ,1980, p. 21)

Desse modo, uma dada estrutura etária reflete a ação do jogo combinado dos componentes mencionados e suas tendências passadas e mais recentes, desde o momento de constituição das gerações – cujos sobreviventes foram registrados pelos levantamentos censitários dos anos de 1980, 1991 e 2000 e classificados segundo a idade que possuíam então –, até sua passagem pelos diferentes ciclos, ou estágios, da sua trajetória de vida.

O tema “envelhecimento do ser humano” ganhou papel de destaque na sociedade com o aumento da expectativa de vida. Kalache (1989), assinalou que o envelhecimento populacional, colocado como uma das conquistas do século XX, acabou se transformando num grande desafio. Assegurar um envelhecimento saudável, com garantias de atendimento às necessidades básicas do idoso e, portanto, de qualidade de vida, exige não só políticas de saúde, mas também de educação, de meio ambiente e programas sociais.

Barros (2001) afirma que o processo de envelhecer é bastante relativo, pois enquanto um individuo de 45 anos pode estar confinado no leito, um outro de 80 anos pode estar em pleno vigor tanto físico como mental. Para a autora, o processo de envelhecer pode ser considerado tão importante quanto o processo de crescimento. Traz uma serie de conseqüências tanto fisiológicas como psicológicas que tornam o individuo idoso tão frágil como um recém-nascido. A pessoa idosa não é orgânica e funcionalmente o mesmo individuo que era na mocidade ou nos primeiros tempos da vida adulta. O envelhecimento afeta estruturas e funções orgânicas, tais como a imunidade, capacidade fisiológica, poder de reparação, etc.

A terceira idade representa um grupo com potencial específico de pessoas ativas e expressivas em sua individualidade que, não raro, são vítimas da perda de autonomia proveniente das limitações físicas e mentais, da pouca ou nenhuma assistência familiar e insuficiência financeira. Assim, muitas famílias acabam por lançar mão das tradicionais instituições para idosos, popularmente conhecidas como asilos. Estas, por sua vez, devem se adaptar às novas medidas preventivas e mudanças que visam atender de forma digna a seus clientes. Considerando a extrema fragilização dessa população idosa, conclui-se que merece não apenas cuidados básicos, mas cuidados que lhe possibilitem a obtenção da qualidade de vida. (SKINNER, VAUGHAN, 1985, p. 85).

Quanto à universalização de direitos, Faleiros (1997, p.92-93) ainda nos coloca que seria uma nova condição para o sujeito inserir-se na cidadania, tornando-se menos desigual.

Quando se fala em Terceira Idade, no que tange à história, à experiência e os conhecimentos acumulados ao longo dos anos, o que se tem observado de acordo com Barreto (1998, p.37), “o vigor e a força física é que têm sido valorizados. Os valores, história, experiência e conhecimento, na verdade, denunciam uma construção histórica em relação à concepção histórica da cultura, enquanto construção histórica e valor social”. A história coletiva, que permeiam no seio social, não leva em consideração as trajetórias de vida, a história individual que as experiências do cotidiano constroem na vivencia destes idosos .

Discorre Ballone (2006), que a velhice pode ser considerado uma fase em que o individuo mais precisa de competência, tomada de decisões e afeto. Observa-se, na maioria dos casos, grande irritabilidade e retraimento social, perda de interesses pessoais e hobbies que são abandonados, podendo haver negligência com a higiene e cuidados pessoais.

Segundo Osório (1996) nem sempre é fácil envelhecer, primeiramente a aceitação do próprio “self” torna se complexa, posteriormente a ausência de familiares ou mesmo de pessoas conhecidas ocasionam sentimentos de carência que podem complementar o quadro da depressão, uma vez que a família tem entre a suas funções, segundo o autor, permitir o crescimento individual e facilitar os processos de individuação e diferenciação em seu seio, ensejando com isso a adequação de seus membros às exigências da realidade vivencial e o preenchimento das condições mínimas requeridas para um satisfatório convívio social. Portanto a ênfase na “fisiologia das motivações e emoções associada aos aspectos psicossociais” (OSORIO, 1996, p. 137).

Não há duvida de que com o avançar da idade, vão ocorrendo alterações estruturais e funcionais que embora variem de um individuo a outro, são encontradas em todos os idosos e são próprias do processo de envelhecimento normal( PAPALEO NETO, 1996, p. 8).

Afirma Beauvoir (1990), que o envelhecimento é um processo natural e inevitável, mas pode ser vivido em melhores ou piores condições. A gerontologia é capaz de prescrever procedimentos preventivos no que se refere à saúde física e mental do velho. Doenças como a arteriosclerose e a obesidade, grande número de distúrbios digestivos e vasculares, além de certas lesões urogenitais, podem ser evitadas ou muito atenuadas com dieta adequada, exercício moderado e acompanhamento médico periódico.

Skinner & Vaughan (1985), são categóricos ao afirmar que a velhice é inevitável, mas nem por isso significa estar doente. A velhice é uma etapa da vida em que se está mais propenso a algumas patologias. As pessoas adoecem mais rapidamente e acabam demorando em se recuperar. O idoso acaba tendo que viver com estas limitações, lutar contra estes problemas fazendo algo que melhore o seu bem-estar.

Além disto, o idoso ter que lidar com as doenças, ele tem que enfrentar problemas psicológicos, como paranóia, depressão, hipocondria, que são “patologias tratadas com muito mais dificuldade e demora na solução. O autor refere-se ainda que segundo dados internacionais, 15% dos idosos precisam de atendimento em saúde mental e 2% apresentam quadros de depressão, muitas vezes não são notados por seus familiares que julgam ser características da velhice” ( SKINNER & VAUGHAN, 1985, p.131)

Conforme Mcardle, Katch e Katch (2003), grande parte da deterioração fisiológica é considerada “envelhecimento normal”, como dependendo do estilo de vida e das influências ambientais sujeitas a uma modificação significativa com dieta e exercício apropriado. Para os que alcançam uma idade avançada, a função cardiovascular reduzida, a baixa força muscular e uma amplitude de movimento articular precária, assim como os distúrbios do sono, estão relacionados diretamente a limitações funcionais, independentemente do estado patológico.

Outro problema, que normalmente é enfrentado na velhice é, segundo Néri e Freire (2000) a baixa qualidade de vida dentro da instituição colabora de maneira decisiva para o agravamento das situações acima, uma vez que a manutenção da capacidade funcional do idoso deveria ser trabalhada para desenvolver um ser atuante, participante, predisposto internamente a novas atitudes, crítico e potencializado para a criação. Seria importante criar condições e espaços para que experiências sensíveis e processos criativos motivacionais fossem expressos em vivências significativas, acrescentando vida aos anos. Daí a necessidade de reflexão e planejamento de ações que propiciem mais qualidade de vida para os idosos a fim de que sejam aproveitadas as suas potencialidades, experiências e sabedoria.

Diante disso, Szymanski (2002) afirma que é obrigação das famílias, das sociedades e do poder publico, assegurar ao idoso absoluta prioridade em condições de vida, efetivando se o seu direito à saúde, alimentação, educação, cultura e esporte, não se esquecendo do direito ao lazer, ao trabalho, à cidadania e a dignidade, com respeito à convivência tanto familiar quanto comunitária, sendo que tais direitos encontram se fundamentados no estatuto do Idoso, em seu artigo 3º (BRASIL, 2003).

Na visão proposta por Beauvoir (1990) a qualidade de vida é um conceito que incorpora a saúde física, o estado psicológico, o nível de dependência, as relações sociais e crenças de uma pessoa. À medida que envelhecemos, a qualidade de vida é determinada por nossa habilidade de manter a autonomia e a independência.

Atualmente a política do idoso oferece inúmeros benefícios aos idosos, infelizmente a grande maioria destes benefícios ainda não são possíveis à grande parcela da população idosa, por inúmeros motivos, tais como: falta de informação e pouca divulgação, etc.

Depois de anos de discussão, finalmente foi aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado no dia 1º de outubro de 2003, pelo presidente da República, a Lei 10.741/03, que dispõe sobre o Estatuto do Idoso (BRASIL, 2003)

O Estatuto do idoso aprovado pela Câmara dos Deputados define medidas de proteção às pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, regulamenta esses direitos determina obrigações das entidades de atendimento a essa faixa etária e caracteriza as situações nas quais caberão penalidades.

São garantias relacionadas ao Idoso no Lei 14.741/03 (BRASIL,2003):

Desconto de pelo menos 50% nas atividades culturais, de lazer e esportivas; gratuidade nos transportes coletivos públicos para maiores de 65 anos. A legislação local poderá dispor sobre gratuidade também para pessoas de 60 a 65 anos; no caso do transporte coletivo intermunicipal e interestadual, ficam reservadas duas vagas gratuitas por veículo para idosos com renda igual ou inferior a dois salários mínimos e desconto de 50% para os idosos de mesma renda que excedam essa reserva; nas aposentadorias, o relator acatou redação de emenda do governo que determina o reajuste dos benefícios na mesma data do reajuste do salário mínimo, porém com percentual definido em regulamento.

O substitutivo aprovado na comissão especial vinculava o reajuste ao do mínimo; a idade para requerer o benefício de um salário mínimo estipulado pela Lei Orgânica da Assistência Social passa de 67 para 65 anos; prioridade na tramitação dos processos e procedimentos dos atos e diligencias judiciais nos quais as pessoas acima dos 60 anos figurem como intervenientes; os meios de comunicação deverão manter espaços ou horários especiais voltados para o público idoso, com finalidade educativa, informativa, artística e cultural sobre o processo de envelhecimento; na área da educação, os currículos mínimos dos diversos níveis de ensino formal deverão prever conteúdos voltados ao processo de envelhecimento, a fim de contribuir para eliminação do preconceito. O poder público apoiará a criação de universidade aberta para as pessoas idosas e incentivará a publicação de livros e periódicos em padrão editorial que facilite a leitura.

A aprovação do Estatuto do Idoso demonstra preocupação da sociedade brasileira com o seu novo perfil populacional. O Brasil não é mais um país de jovens, mas um país em acelerado processo de envelhecimento. Esse perfil populacional exige do Estado e da sociedade ações efetivas voltadas à garantia dos direitos fundamentais das pessoas envelhecidas.

Por outro lado, é importante que se diga que o Estatuto do Idoso não irá eliminar instantaneamente de uma vez por todas e para sempre todas as discriminações e violências praticadas contra os idosos. O Estatuto apresenta-se apenas como mais uma “ferramenta – muito importante, diga-se de passagem – de um processo voltado à construção de um espaço em que a dignidade da pessoa humana ocupe espaço de eminência” (ZIMMERMAN, 2000, p.89).

2.2 PROMOÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA E A CIDADANIA DO IDOSO

Reza o Estatuto do Idoso, através do decreto nº. 1948 de 03 de julho de 1996, que é prioridade ao idoso a garantia de freqüência em programas de incentivo à prática de atividade de reabilitação de modo a garantir a qualidade de vida e bem estar deste ( BRASIL, 2003).

Dados do IBGE (2008) relatam que a qualidade de vida durante o processo de envelhecimento é uma preocupação incipiente e atual, trazendo em voga muitas discussões, tendo em vista o aceleramento crescentes desta população.

Na visão sumária de Jacob Filho (2006) grande parte dos idosos já tem consciência da necessidade de manter hábitos saudáveis, garantindo aos idosos uma vida ativa e independente e isto tem criado no seio social, meios de garantir a esta população um atendimento diferenciado que supra as suas expectativas e seus ideais.

Salienta Bearvouir (1999) que o envelhecimento saudável é caracterizado pela não existência de doenças, comuns a este período de vida, capacitando o viver bem e sem limitações que culminam por garantir a esta população hábitos adequados e melhoria na qualidade de vida.

Desde meados de 2000, já existe uma preocupação em relação à expectativa média de vida e na atualidade, a idade media de vivencia de um individuo no Brasil está acima dos 70 anos de idade e isto se dá devido à melhora na qualidade de vida, satisfazendo de forma harmoniosa os desejos deste individuo existindo assim um equilíbrio e um bem estar entre o homem como ser humano e a sociedade (BARBOSA, 2001).

Concordam com tais assertivas, Pires et al (2000, p. 2) ao descreverem que “ uma velhice tranqüila é o somatório de tudo quanto beneficie o organismo, como por exemplo, exercícios físicos, alimentação saudável, espaço para lazer, bom relacionamento familiar, enfim é preciso investir numa melhor qualidade de vida”.

Avaliações proposta por Novais et al (2005, p. 45) em 220 pacientes idosos, detectou que “ quanto mais ativa a pessoa é, menos limitações ela tem, concluindo que a atividade física é um fator de proteção funcional não só da velhice, mas em todas as idades”.

Pinheiro et al (2004, citando Simão, 2000), afirma que a prática de atividade física promove à prevenção e a reabilitação da saúde dos idosos acrescendo melhoras a aptidão física e facilitando a manutenção dos bons níveis de independência e autonomia para as atividades comuns da vida diária.

Por fim, Márquez Filho (1993) reforça estes ensinamentos, dissertando que a prática de exercícios regulares, promove a melhoria da qualidade de vida, retardando o envelhecimento evitando a atrofia muscular, favorecendo a mobilidade articular e diminuindo a possibilidade de acometimentos de doenças causadas por fatores de risco que possam ser causados por falta de exercício físico na terceira idade.

2.3 PRINCIPAIS PATOLOGIAS QUE ACOMETEM OS IDOSOS E OS CUIDADOS

Com a velocidade enorme que o envelhecimento tem acontecido no mundo, varias são as preocupações com as mudanças e com a saúde pública e atenção básica de atendimento ao idoso, tudo com o intuito de atender as necessidades especificas desta população, promovendo um “pacote de Saúde” ofertando aos pacientes um estilo de vida condizente com a integração social do idoso na sociedade.

Para Moraes (2008) a partir da década de quarenta, as taxas de crescimento populacional no Brasil atingem valores superiores a 3,0% ao ano e tais alterações resultam na heterogeneidade do segmento idoso. Mas as mudanças nos campos tecnológicos, culminaram por reduzir a mortalidade após os 60 anos, aumentando o aumento do tempo de vida do idoso e também um alto gasto com saúde pública.

A situação de saúde é geralmente descrita em termos da mortalidade e da morbidade de uma dada população. A mortalidade da população idosa no Brasil tem sido exaustivamente descrita em outras publicações. […] os indicadores, referem-se ao estado geral da saúde e a condições especificas de saúde (doenças e condições relacionadas). Entre os indicadores gerais, destacamos a auto-avaliação da saúde e ter estado acamado em período recente, alem do numero de dias com incapacidade devido a problemas físicos e mentais.

De acordo com Beltrão et al (2004) a literatura cientifica na área de saúde determina os indicadores freqüentes de doenças que acometem idosos e diante disto são classificados a hipertensão arterial, o Diabetes Mellitos, Artrite, Artrose, doenças cardiovasculares.

Moares (2008, p. 13), afirma que Hipertensão, artrite e reumatismo são as doenças “ mais freqüentes auto-referidas, o que é também observado em outras populações idosas”, salientando ainda que, a Hipertensão e o Diabetes são muito semelhantes às observadas em outros idosos distribuídos pelo mundo.

Segundo Figueiredo e Tonini (2006), embora nem todas as doenças crônicas são mortais, elas tem forte impacto sobre a qualidade de vida dos idosos, sendo consideradas grandes ameaças de saúde e a situação financeira desta população. Elas estão classificadas entre as oito maiores causas de morbidade coletiva e individual em idosos.

Nesta mesma linha de pensamento, Papaléo Neto e Filho (2000), alertam que vários fatores influenciam no envelhecimento, classificando os em fatores intrínsecos e fatores extrínsecos. Os fatores intrínsecos são caracterizadas pelo envelhecimento genético, proliferação de radicais livres, imunidades celular e humoral, ligações cruzadas de macromoléculas, ligações de ADN-Histona e os Fatores extrínsecos, que são caracterizados como a radiação, altitude, temperatura, poluição, má alimentação, tensão emocional(stress).

Para Duarte e Diogo (2005) o envelhecimento tem inicio fisiologicamente, após o termino da fase do desenvolvimento e estabilização e perdura por um longo período que é pouco prceptivel, não causando insuficiência múltipla de órgãos ou aparelhos.

Para estes autores, as alterações cardiocirculatorias está diretamente relacionada ao debito cardíaco, devido às alterações do fluxo sanguíneo, culminando na redução dos fluxos plasmático e cerebral, pó que conduz o idoso a um reserva funcional bastante limitada quando comparada aos indivíduos em fase jovem.

Varias alterações acontecem devido ao envelhecimento, e as alterações funcionais do aparelho respiratório começam a prejudicar a vida do paciente idoso. Com a diminuição da elasticidade pulmonar, sofre um conseqüente prejuízo de funcionamento, devido ao volume residual de oxigênio, podendo gerar diversas infecções brônquicas e causando em muitos idosos as bronquites, asmas e até pneumonias. (DUARTE e DIEGO, 2005).

Assim também, Papaleo Neto e Filho (2008) descrevem que o sistema nefroexcretor começa a partir dos 50 anos, a funcionarem de forma insuficiente, normalmente não detectadas em exames clínicos e laboratoriais, reduzindo o ritmo de filtragem glomerular (RFG) de creatinina e de outras substancias, alterando no idoso o esvaziamento vesical. Isto acomete o idoso em doenças renais, pois o seu rim diminui a capacidade de concentração e diluição urinaria, de reabsorção do sódio e de excreção dos radicais ácidos. A sobrecarga funcional do rim, gera no ido um desequilíbrio homeostático, e isto poderá ser um dos fatores cruciais para o desenvolvimento de doenças como a Hipertensão Arterial, o Diabetes e ou as cardiopatias.

Duarte e Diego (2004) descrevem também a existência de doenças do sistema nervoso em idoso. Com o envelhecimento as alterações do sistema nervoso, pois, o cérebro diminui com a idade, tanto em tamanho quanto em volume, atrofiando-se com o progredir da idade, aumentando o volume dos ventrículos encefálicos. Há ainda uma perda substancial de neurônios, especialmente no córtex dos giros pré-centrais, com uma perda de 100 a 200 células por dia. Com isto, a perda de memória ou dificuldades para resolver problemas desconhecidos é notória, havendo em algumas circunstancias a necessidade de um acompanhamento medico para evitar uma doença degenerativa cerebral, como é o caso o Mal de Parkinson e a Doença de Alzheimer.

Este assunto pode ser considerado uma fonte inesgotável de busca pelo conhecimento da saúde do idoso, dada as grandes alterações fisiológicas e patológicas que acometem os idosos, tanto em órgãos quanto em tecidos. Estas são apenas algumas patologias que acometem os pacientes em fase idosa. As disfunções no funcionamento orgânico do idoso, devem ser interpretadas como fruto de excessiva demanda imposta a um sistema fisiológico que o incapacita de suprir os processos patológicos, que na maioria das vezes encontra-se camuflado nesta faixa etária, merecendo uma atenção especial dos médicos e principalmente da equipe de enfermagem, quer seja diagnostica ou terapêutica.

O papel do enfermeiro é muito importante pois este tem como função primordial aconchegar e promover a saúde do paciente idoso, dando-lhe confiança, apoio, orientações, informações e também promovendo os cuidados medicamentosos e com isto garante a qualidade de vida e bem estar destes pacientes.

2.4 DIABETES MELLITUS

O diabetes mellitus já era conhecida antes da era cristã. No papiro de Ebers descoberto no Egito, correspondente ao século XV antes de Cristo, já se descrevem sintomas que parecem corresponder à diabetes. Foi Areteu da Capadócia quem, no século II da era cristã, deu a esta afecção o nome de diabetes, que em grego significa sifão, referindo-se ao seu sintoma mais chamativo que é a eliminação exagerada de água pelo rim, expressando que a água entrava e saía do organismo do diabético sem fixar-se nele (polidipsia e poliúria, características da doença e por ele avaliadas por esta ordem (GAMA, 2002).

A busca do suposto hormônio produzido pelas ilhotas de Langerhans, células do pâncreas descritas em 1869 por Paul Langerhans, iniciou-se de imediato. Hedon, Gley, Laguessee Sabolev estiveram muito próximos do almejado triunfo, o qual foi conseguido pelos jovens canadenses Banting e Charles Best, que conseguiram, em 1921, isolar a insulina e demonstrar seu efeito hipoglicêmico. Esta descoberta significou uma das maiores conquistas médicas do século XX, porque transformou as expectativas e a vida dos diabéticos e ampliou horizontes no campo experimental e biológico para o estudo da diabetes e do metabolismo dos glicídios (GREED, 2001).

Posteriormente, segundo Greed (2001), o transplante de pâncreas passou a ser considerado uma alternativa viável à insulina para o tratamento da Diabetes mellitus do tipo 1. O primeiro transplante de pâncreas com essa finalidade foi realizado em 1966, na universidade de Manitoba.

Uma linha mais recente de pesquisa na Medicina tem buscado fazer o transplante apenas das ilhotas de Langerhans. O procedimento é simples, tem poucas complicações e exige uma hospitalização de curta duração. O grande problema é a obtenção das células, que são originárias de cadáveres. São necessários em média três doadores para se conseguir um número razoável de células (GRRED, 2001). “Aproximadamente 15% dos indivíduos com mais de 70 anos de idade apresentam o diabetes tipo II” (BERKOW et al., 2002).

De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (2000) o estudo multicentrico sobre prevalência de diabetes mellitus no Brasil, apontou um índice de 7,6% na população brasileira entre 30-69 anos, atingindo cifras próximas a 20% na população acima dos 780 anos de idade. Cerca de 50% dessas pessoas desconhecem o diagnostico, e 25% da população diabética não faz nenhum tratamento. Já Nora & Fraser (1991) a incidência no diabetes tipo I tem freqüência de 1 a 3 por 1.000 aos 17 anos de idade.

Já para Jorde et al. (2004) o diabetes tipo II responde por mais de 90% de todos os casos de diabetes e afeta 10% a 20% da população adulta de vários países desenvolvidos. A incidência do tipo II está aumentando acentuadamente entre adolescentes e adultos jovens nos países desenvolvidos e está fortemente correlacionada com a incidência elevada da obesidade.

Em contraste com a diabete tipo I, a diabete tipo II está associada a aumento da concentração de insulina. Esse aumento ocorre como resposta compensatória das células beta do pâncreas, devido à diminuição da utilização e armazenamento dos carboidratos, e a conseqüente elevação do nível de glicemia. Como conseqüência, verifica-se o desenvolvimento de hiperglicemia leve após ingestão de carboidratos nos estágios iniciais da doença. Nos estagio avançados da diabete tipo II, as células beta do pâncreas tem “exaustão”, ficando incapazes de produzir insulina em quantidade suficiente para impedir o desenvolvimento de hiperglicemia mais acentuada (GUYTON & HALL, 2002).

Pacientes com diabetes tipo II são, em sua maioria, obesos. Alguns indivíduos obesos, apesar da acentuada resistência à insulina e de aumentos do nível da glicemia maiores do que o normal após uma ingestão de uma refeição, nunca desenvolve diabetes mellitus clinicamente significativo; aparentemente, o pâncreas, esses indivíduos, produzem insulina em quantidade suficiente para impedir o aparecimento de graves anormalidades do metabolismo da glicose. Em outros, entretanto, o pâncreas torna-se gradualmente exausto em conseqüência da secreção de grande quantidade de insulina, e verifica-se o desenvolvimento de diabetes mellitus. Alguns estudos sugerem que fatores genéticos desempenham papel importante, determinado se o pâncreas do individuo é capaz de sustentar durante muitos anos o elevado debito de insulina necessário para evitar a ocorrência das graves anormalidades do metabolismo da glicose no diabetes tipo II (GUYTON & HALL, 2002).

Segundo Rubin & Farber (2002) o diabetes mellitus dependente de insulina é mais comum entre os europeus setentrionais e seus descendentes.

Para Robbins & Contran (1996) a incidência do Diabetes Mellitus tipo I, insulino-dependente, ocorre comumente na faixa etária de 0 a 15 anos, é de 7,8% da população. Surge mais freqüentemente em crianças e adultos jovens. Ocorre a destruição das células beta, geralmente ocasionando deficiência absoluta de insulina, necessitando fazer uso de insulina diariamente. Esta forma de diabetes resulta de ausência acentuada e absoluta de insulina; representa de 5 a 10% dos portadores de diabetes (pâncreas pára de produzir a insulina). Poucos casos têm relação com hereditariedade. A evolução clínica é rápida se não for tratado prontamente com insulina.

Segundo Netina (2003) no metabolismo dos carboidratos, a insulina afeta a conversão da glicose em glicogênio para armazenamento no fígado e nos músculos, e possibilita a liberação imediata e utilização da glicose pelas células. Contudo observam-se os problemas nutricionais mais comuns envolvendo carboidratos nos indivíduos com varias intolerâncias a esse polissacarídeo.

De acordo com Devlin (2000), à medida que o organismo humano constrói e renova suas estruturas, obtém armazena energia e executa suas varias funções, existem muitas circunstâncias nas quais é essencial usar moléculas ou partes de moléculas que não se associam com a água. Essa propriedade de ser não polar e hidrofóbica é característica que define as substancias classificadas como lipídeos, tendo os adipócitos como células especializadas em armazenar lipídios na forma de triacilglicerois.

A hidrólise dos triacilglicerois é catalisada pela enzima lipase sensível a hormônio cuja atividade é regulada em função de níveis de glucagon, hepinefrina e insulina, e leva a liberação de glicerol e ácidos graxos na corrente sanguínea. A forma que a taxa de captação de glicose pelos adipócitos, regulada pelos níveis de insulina e pela disponibilidade da glicose que é um fator controlador da formação e mobilização dos triacilglicerois (Da POIAN & CARVALHO ALVES, 2005).

De acordo com Griffiths et al (2006) um caráter multifatorial é definido como aquele determinado por uma combinação de fatores, genéticos e, possivelmente não genético também, exercendo cada um apenas pequenos efeitos. Os distúrbios fatoriais tendem a agrupar famílias, mas não exibem qualquer padrão genético particular em famílias individuais.

Segundo Borges-Osório & Robinson (2001, pág.156) “risco de recorrência é o risco de surgimento de um novo afetado em sua família na qual já existe um individuo afetado”.

Para Thompson & Thompsom (1993) embora os riscos de recorrência possam ser dados com fidelidade para doenças monogênicas, a situação é mais complicada para doenças multifatoriais. Isso porque o número de genes que contribuem para a doença não é em geral desconhecido, a constituição alélica exara dos genitores não é conhecida e a amplitude dos efeitos ambientais pode variar substancialmente.

Muitas doenças podem resultar de uma herança multifatorial. A diabetes mellitus, que para Griffiths et al (2006) é uma doença na qual os níveis de açúcar no sangue são anormalmente altos, seja porque o corpo não produz insulina suficiente (diabetes tipo I) ou porque as células são incapazes de responderem á insulina (diabetes tipo II) é um tipo de herança multifatorial, pois provém de fatores ambientais (dieta) e da interação de vários genes.

Segundo Rubin & Farber (2002) qualquer pessoa pode ter diabetes mellitus, sendo que algumas características, denominadas fatores de risco, aumentam a chance de ter a doença.

A obesidade é o acúmulo excessivo de gordura no corpo, de forma generalizada ou afetando partes específicas do organismo. É um fator de risco que, quando associado com colesterol alto e diabete, ganha grande importância do ponto de vista do desenvolvimento de doenças cardiovasculares e como tal deve ser levado a sério. Perder peso pode ser uma medida de muita importância para o controle da Diabetes, doença esta intimamente relacionada ao desenvolvimento e progressão de doenças cardiovasculares (RUBIN & FARBER, 2002).

Atualmente, considerado uma das principais causas de doenças cardíacas, o sedentarismo pode ser combatido através da prática regular de exercícios. As pessoas sedentárias têm maior tendência à obesidade e ao desenvolvimento de diabetes, que é fator que predispõem o aparecimento de doenças cardiovasculares (RUBIN & FARBER, 2002).

O stress, ou tensão emocional é um mal que faz muitas pessoas sofrerem. Para as pessoas que têm problemas de coração e diabetes, o stress pode agravar a doença e dificultar o tratamento. Como não podemos eliminá-lo de nossas vidas, devemos aprender a administrá-lo, procurando sempre uma qualidade de vida melhor (MONTGOMERY & CONWAY, 1994).

Cientistas acreditam que fatores ambientais, possivelmente uma infecção viral ou um fator nutricional na infância ou no inicio da vida adulta faz com que o sistema imune destrua as células betas produtoras de insulina no pâncreas. Para que isto ocorra é, provável que seja necessário alguma predisposição genética. Mais de 90% dessas células são destruídas de modo permanente (BERKOW et al., 2002).

Para Braunwald et. al. (2002) este processo resulta da destruição auto-imune das células beta, que leva a deficiência de insulina. Os indivíduos com diabetes mellitus tipo I não possuem marcadores imunológicos indicativos de um processo destrutivo auto-imune das células beta.

As complicações do diabetes abrangem episódios agudos e complicações tardias ou crônicas (FARIA, 1999).

O diagnostico é clinico e laboratorial sendo o diagnostico clinico através dos sintomas clássicos do Diabetes Mellitus que são: aumento da sede, da micção ou da fome, ou se existirem fatores de risco característico como antecedentes familiares de diabetes, obesidade, infecções freqüentes ou qualquer outra complicações associada com a diabetes, assim como fatores associadas a perda ponderal são bem mais característicos do diabetes tipo I, onde estão quase sempre presentes. A presença de obesidade não exclui, com tudo o diagnostico.

No diabetes tipo II cerca de 50% dos pacientes desconhece ter a doença por serem assintomáticos ou aligossintomaticos, apresentando mais comumente sintomas inespecificos como: tontura, dificuldade visual, astenia ou câimbras. Vulvovaginite de repetição e disfunção erétil podem ser também, os sintomas inicias. Cerca de 80% dos pacientes tem excesso de peso.

O diagnostico laboratorial, como enfatiza Netinna (2003), somente é primaz quando consistem nos teste utilizados fazer o diagnostico bem como nas medidas para monitorar a glicose com controle em curto e longo prazo.

A outro tipo de analise de sangue, chamado a prova de tolerância oral a glicose que se realiza em certos casos como quando se suspeita que uma mulher grávida tem diabetes gestacional. Nesta prova obtém-se uma amostra de sangue em jejum para medir o valor de açúcar e fornece-se ao doente uma solução especial para beber a qual contem uma quantidade normalizada de glicose. Durante duas ou três horas seguintes colhe-se varias amostras de sangue.

Dessa forma em ambos os tipo de diabetes Mellitus, ocorrem a alteração sobre o metabolismo da glicose impedindo sua capitação e utilização eficientes pela maioria das células do corpo a exceção das células do cérebro. Incidindo principalmente em pessoas idosas.

2.5 – HIPERTENSÃO ARTERIAL

Na literatura são encontradas inúmeras definições sobre conceito de hipertensão arterial. Amado e Arruda (2004) definiu a hipertensão como uma síndrome clínica multifatorial, caracterizada pela presença de níveis tensionais elevados, associados a alterações metabólicas e hormonais e à fenômenos tróficos como hipertrofias cardíacas e vasculares.

Para o Ministério da Saúde (2006), a hipertensão arterial é conceituada como o aumento da pressão arterial, com valores superiores a 140 por 90 milímetros de mercúrio (mmHg), ou também quando o indivíduo apresenta uma pressão diastólica igual/superior a 110 mmHg em qualquer medida ou 90 mmHg em duas medidas tomadas num intervalo de quatro horas, encontrando-se o paciente sentado em repouso. ( BRASIL, 2006)

Segundo dados estatísticos da Organização Mundial de Saúde (1998), definem a Hipertensão Arterial como sendo “uma doença caracterizada por uma elevação crônica da pressão arterial sistólica e/ou pressão arterial diastólica.

De acordo com Dell`Acqua (1997), um indivíduo é considerado portador de hipertensão arterial quando a pressão arterial diastólica permanece acima de 90 mm de Hg e a sistólica acima de 160 mm de Hg. Existindo alguns fatores, denominados fatores de risco, que podem influenciar no aparecimento da hipertensão arterial essencial, sendo divididos em dois grupos: a) CONGÊNITOS: hereditariedade, idade, raça e sexo e b) ADQUIRIDOS: obesidade, alimentação rica em sal e gorduras, álcool, tabaco, drogas anticoncepcionais, estresse.

A hipertensão arterial é um importante fator de risco para doenças decorrentes de aterosclerose e trombose, que se exteriorizam, predominantemente, por acometimento cardíaco, cerebral, renal e vascular periférico. É responsável por 25 e 40% da etiologia multifatorial da cardiopatia isquêmica e dos acidentes vasculares cerebrais, respectivamente. Essa multiplicidade de conseqüências coloca a hipertensão arterial na origem das doenças cardiovasculares e, portanto, caracteriza-a como uma das causas de maior redução da qualidade e expectativa de vida dos indivíduos. ( DELL`ACQUA et al, 1997).

Além dos fatores de risco, outros aspectos devem ser levados em consideração, tais como: situação sócio-econômica; grau de instrução; atividade que executa; sentimentos e conhecimento sobre a doença; crenças de saúde; estilo de vida; experiência anterior com a doença no meio em que vive; percepção (BRASIL, 2007 )

Outra definição de Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) foi descrita por Silva e Souza (2004) como hipertensão arterial uma síndrome clínica caracterizada pela elevação da pressão arterial a níveis iguais ou superiores a 140 mm Hg de pressão sistólica e/ ou 90 mm Hg de pressão diastólica — em pelo menos duas aferições subseqüentes — obtidas em dias diferentes, ou em condições de repouso e ambiente tranqüilo. Quase sempre, acompanham esses achados de forma progressiva, lesões nos vasos sanguíneos com conseqüentes alterações de órgãos alvos como cérebro, coração, rins e retina. Geralmente, é uma doença silenciosa: não dói, não provoca sintomas, entretanto, pode matar.

É considerado hipertenso, para Smeltzer e Bare (2002), o individuo que tem pressão alta acima da faixa superior aceita pela normalidade. Ou seja, é a elevação da pressão arterial para números acima dos valores tidos como normais ( 140/90 MHG).

Afirma Guyton (1997, p.1015) que a pressão arterial considerada normal esta intrinsecamente ligada ao aferimento da pressão e quando esta se encontra nos parâmetros iguais ou abaixo de 90 mHg.

Foss, Keteyan (1998, p.218) concordam com Guyton(2002), ao determinar que a hipertensão arterial, acontece quando a pressão sistólica e diastólica, apresenta elevações quando o corpo se encontra em repouso; acredita-se que nos dias atuais, cerca de 24% da população norte americana é portadora de hipertensão, sendo a doença prevalente em homens negros.

Quando a pressão arterial atinge números elevados, acima de 140/90 mHg, muitas são as lesões que podem acometer diversos órgãos do corpo humano, tais como cérebro, coração, rins e olhos, não podendo esquecer que a hipertensão secundaria é muito comum e pode ser controlada através de um tratamento médico especifico.

3.0 METODOLOGIA

3.1 TIPO DE PESQUISA

Inicialmente foi realizada, uma pesquisa bibliográfica, que na concepção de Markoni e Lakatos (2001) é o passo inicial na construção efetiva de um protocolo de investigação, quer dizer, após a escolha de determinado assunto faz se um estudo bibliográfico sobre o tema apontado. Auxiliando como um método mais apropriado, buscando o conhecimento das variáveis e comprovando a autenticidade de pesquisa.

Também foi feita uma pesquisa exploratória descritiva, com analise documental, através da obtenção dos dados relativos aos idosos cadastrados no ESF Carmelo, da Ficha A, do SIAB, onde procurou-se coletar os dados fundamentados nos objetivos e problema inicialmente propostos.

3.2 COLETA DE DADOS

A coleta de dados foi realizada no ESF CARMELO, através de uma análise documental, na Ficha A, do SIAB (anexo A), onde são descritos os dados sócio-demográficos de todos pacientes cadastrados.

Foi realizada uma análise de homogeneidade dos dados com o intuito de verificar o comportamento dos mesmo e constatou-se que os dados se ajustam a uma distribuição normal.

Foram analisadas 598 Fichas e destas foi detectados 160 Fichas, e destes 43 indivíduos foram classificados como excluídos da pesquisa e considerados inclusos apenas 117 amostras, que foram estudadas e discutidas neste trabalho, tendo por escopo a caracterização sócio demográfica dos idosos cadastrados no ESF investigado.

3.2.1 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO/EXCLUSAO

Considerou-se incluso todos os pacientes cadastrados no ESF Carmelo, com faixa etária superior a 60 anos e também que estivessem devidamente cadastrados e com a ficha A, completa.

Considerou-se excluso todos pacientes com faixa etária inferior a 60 anos e indivíduos que estivessem cadastrados porem com dados incompletos na Ficha A.

3.3 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DE DADOS

Os dados coletados foram tabulados de maneira a garantir a validade e confiança nos resultados. Este processo envolveu o estudo minucioso de todas as fichas A, no período de 01 à 40 de novembro de 2009, relativo ao cadastro de todos os indivíduos idosos.
Estes dados forma submetidos à tabulação e grafados através do software Excell, tendo por finalidade explicitar e sistematizar o conteúdo da mensagem por meio da análise confirmatória dos dados. Após será realizado uma discussão dos resultados correlacionando a luz da literatura cientifica, buscando com isto responder aos objetivos inicialmente propostos.

3.4 ASPECTOS ÉTICOS E LEGAIS

A pesquisa não necessitou de apreciação do COMITÊ de ÉTICA, por se tratar de uma análise documental, não envolvendo seres humanos e nem será necessário a autorização expressa dos sujeitos descritos nas fichas investigadas, por se tratar de uma pesquisa documental com caráter anônimo, dependendo apenas da autorização da concordância expressa da Instituição.

O Uso da Hipnose na Atualidade

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Este texto tem como finalidade apresentar as investigações sobre a hipnose, no final do século XIX e início do século XX,, bem como mostrar sua aplicação como auxiliar na terapia, no campo da psicologia, e os desdobramentos desta na atualidade. Tendo como foco a nossa época, tentamos entender a “redescoberta” da hipnose, seus usos na atualidade e diferenças.

Para esta exposição foi feito um levantamento bibliográfico sobre o assunto e também realizada uma pesquisa de campo, com entrevistas a psicólogos que utilizam a técnica como instrumento de trabalho.

Com esse trabalho foi-nos possível verificar que há sim um crescimento do uso da técnica da hipnose e este não mais se restringe às abordagens tradicionais, sendo encontrado em diferentes áreas da saúde.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
1 BREVE HISTÓRICO DA HIPNOSE
1.1PRINCIPAIS PRECURSORES DA HIPNOSE
2 A HIPNOSE
3 A HIPNOSE NA ATUALIDADE
3.1 A HIPNOSE NO BRASIL
4 ENTREVISTAS
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANEXOS
ANEXO I – CRONOLOGIA
ANEXO II –FENÔMENOS HIPNÓTICOS
ANEXO III – TÉCNICA DE AUTO-HIPNOSE
ANEXO IV- ROTEIRO DAS ENTREVISTAS



INTRODUÇÃO

A psicologia progrediu muito no Brasil nos últimos anos, tanto na produção de artigos e livro, quanto na pesquisa, nos diferentes campos de atuação como nas abordagens terapêuticas. Com relação a estas últimas temos assistido,hoje sobretudo nas técnicas aí utilizadas, a um incremento do uso da hipnose, como um instrumento auxiliar, por parte de muitos profissionais. Essa observação levou à questão norteadora dessa investigação: por que, como e para o quê os psicólogos estão utilizando o método hipnótico?

O tema é relevante na medida em que todo método terapêutico requer conhecimento e investigação, na busca do bem estar do outro, cabendo aos profissionais da saúde mental investigar a eficácia, deste ou de qualquer outro método, bem como os possíveis males proporcionados pelo mesmo, na esfera mental e física. E uma vez que a hipnose tem sido um método, uma técnica bastante difundida cabe-nos investigar os aspectos que dizem respeito ao uso desta, na atualidade. Com isso poderemos contribuir para uma maior compreensão e conhecimento acerca do tema e também para a formulação de uma crítica sobre o mesmo.

O objetivo geral é esclarecer como e por quem o método da hipnose vem sendo utilizado e qual a contribuição para a eficácia do tratamento psicológico, dando origem ao tema “O Uso da Hipnose na Atualidade”.

Não poderíamos abordar a hipnose hoje sem falarmos das investigações sobre a mesma, no final do século XIX e início do século XX, bem como mostrar sua aplicação como auxiliar na terapia, no campo da psicologia, e os desdobramentos até a atualidade.

Assim, para se realizar tal exposição foi necessário fazer uma síntese das ocorrências que contribuíram de forma relevante para a consolidação da hipnose como uma prática terapêutica; fizemos isso em ordem cronológica apresentando, no primeiro capítulo, os principais personagens que compuseram a história da hipnose, seus estudos e suas mais valiosas contribuições que fundamentaram a prática hipnótica e possibilitaram chegar ao entendimento dos seus mecanismos.

Os principais aspectos sobre a hipnose encontram-se no capítulo dois no qual é exposto o conceito, a relação com a mente consciente e o subconsciente, o papel da sugestão e da sugestionabilidade, a suscetibilidade hipnótica, a função do hipnólogo e as áreas de atuação que fazem uso da técnica.

No capítulo três veremos como a hipnose se consolidou na atualidade no campo jurídico e profissional,em específico no Brasil e, posteriormente, no capítulo quatro, chegaremos ao que pensam os profissionais entrevistados, que trabalham com hipnose, a respeito do tema e como atuam na sua área, cotejando suas opiniões e experiências com os autores pesquisados.

Para a construção deste trabalho foi realizada uma pesquisa bibliográfica e como o tema se refere à atualidade tornou-se fundamental o trabalho de campo com entrevistas semi-estruturadas com cinco psicólogos que utilizam a técnica da hipnose no consultório.

CAPÍTULO 1 – BREVE HISTÓRICO DA HIPNOSE

Nesse capítulo será apresentado um histórico da hipnose incluindo os principais personagens que figuraram na prática hipnótica ao longo da história da humanidade.

De acordo com Sofia Bauer (2002), as induções hipnóticas podem ser encontradas na história da humanidade desde seus primórdios. Indícios obtidos através de papiros encontrados no Egito informam que no século XXX a.C. sacerdotes induziam pessoas, naquela região, a certo tipo de estado hipnótico. Segundo Faria (1986) no antigo Egito eram utilizados meios de indução hipnótica não muito distintos dos habituais nos chamados “Templos dos Sonhos”, locais em que aconteciam sugestões terapêuticas, porém a prática do hipnotismo era envolta de mistérios e superstições. Já na China do século XVIII a.C.,de acordo com Bauer (2002), buscava-se a aproximação entre pacientes e seus antepassados através de um tipo de estado de transe.

Mais adiante na história:

No século X o persa, de origem árabe, Abu-Alihussain Bem Abdallah Ibn-Sina (Avicena 980 a1036), que era filósofo e médico, foi o verdadeiro precursor da reflexologia pavloviana. Ele achava que a imaginação humana tinha poderes e forças, que podiam atuar não só sobre o seu próprio corpo como também sobre o funcionamento corporal de outras pessoas.Avicena afirmava que pela palavra pela vontade e pela persuasão muitos padecimentos poderiam ser curados. (FERREIRA, 2006, p.8)

Já no século XVI, considerado pai da medicina hermética Paracelsus (Philippus Aureolus Thephrastus Bombastus von Hohenheim, 1493-1541), “acreditava na influência magnética das estrelas na cura de pessoas doentes” (BAUER, 2002, p.26). Ele ainda “admitia que a imaginação e a fé eram capazes de modificar estados de saúde atuando sobre o todo físico” (FARIA,1986, p.11).

Avicena e Paracelso foram perseguidos por suas convicções, segundo Faria (1986), embora com uma diferença de quase 500 anos entre os dois, continuaram aceitando a existência de uma “força interior” capaz de agir substancialmente em nosso próprio organismo.De acordo com esse autor alguns reis da Idade Média e imperadores romanos também realizavam supostas curas através de toques e de passes dados aos seus súditos.

Outros relatos de práticas hipnóticas puderam ser encontrados no sul da Alemanha, no século XVIII, com o padre Gassner que usava métodos hoje reconhecidos como hipnóticos em um processo de exorcismo em que realizou dezenas de curas, por isso concordamos com Weissmann (s.d) ao dizer que a hipnose nunca deixou de ser usada mesmo por métodos e com objetivos e motivos diversos.

Ainda segundo Weissmann (s.d) nesse mesmo século surge também o mesmerismo, desenvolvido intermédio do médico austríaco Franz Anton Mesmer (1734-1815), que obtinha a cura de seus pacientes através do magnetismo do imã e posteriormente pelo magnetismo do próprio corpo (magnetismo animal).

De acordo com Sofia Bauer(2002) foi feita uma comissão para verificar se os resultados obtidos eram verdadeiros e concluíram que Mesmer era um charlatão:

Ele propunha que a cura se dava por uma ab-reação da harmonia orgânica,produzida por uma concentração inadequada de um fluido magnético invisível.Pensava que a cura se dava ao fazer fluir o tal magnetismo. Foi constituindo fama com suas curas e logo chamou a atenção pelo suposto charlatanismo.Foi feita uma comissão para investigar se a cura era real ou não. (…) Consideraram então Mesmer um charlatão.O mesmerismo foi proibido (…). (BAUER, 2002,p. 26-27)

Posteriormente, o marquês Armand Marie Jacques Chastenet de Puységur (1751-1825), utiliza as técnicas de Mesmer acrescentando a estas um “estado de sono profundo que denominou de sonambulismo, termo ainda hoje usado em certas fases do aprofundamento hipnótico” (FARIA, 1986, p. 26-27); era uma forma de indução. Segundo Faria (1986), durante algumas práticas de magnetismo, Puységur observou que os pacientes atingiam um inesperado estado de relaxamento, conversavam enquanto dormiam e manifestavam hipermnésia (reprodução de memórias antes esquecidas).

Em Paris, no ano de 1815, o Padre José Custódio de Faria (1755-1819), português mais conhecido sob o nome de Abade Farias, foi o primeiro a lançar a doutrina da sugestão e a mostrar que hipnose não era sinônimo de sono. Também reconheceu o lado subjetivo do fenômeno, ou seja, que o resultado da hipnose acontecia em função do sujeito, o que contribuiu para o papel da sugestão na prática do hipnotismo, segundo Weissman (s.d.). Como se pode ver, os estudiosos deste “estado” nunca deixaram de existir e pesquisar, variando deste o nome, a técnica de investigação e a explicação. Contudo, ainda assim o nome atribuído aos fenômenos hipnóticos continuou sendo, por algum tempo chamado de magnetismo e mesmerismo.

No século XIX o magnetismo propagou-se como um modismo, uma forte tendência, ainda que de maneira não científica. O primeiro uso médico da hipnose, nos diz Weissman (s.d.) foi feito por D. John Elliotson, médico inglês, no tratamento da histeria; ele introduziu o “sono magnético” na prática hospitalar, tanto para fins cirúrgicos como para os expedientes psiquiátricos e fundou o Mesmeric Hospital em Londres. Mas na verdade,

Os adeptos da escola magnética anunciavam seus feitos terapêuticos em toda parte. Na Alemanha, na Áustria, na França e mesmo nos Estados Unidos se realizavam intervenções cirúrgicas sob ‘sono magnético’. Na América, o Dr. Albert Wheeler remove um pólipo nasal de um paciente, enquanto o ‘magnetizador’ Phineas Quimby atua como anestesista. Já em 1829 o Dr. Jules Cloquet usou o mesmo recurso anestésico numa mastectomia. Jeane Oudet comunica à Academia Francesa de Medicina seus sucessos magnéticos obtidos em extrações de dentes. (WEISSMANN, s.d., p. 24-25).

Tem-se ainda conhecimento, através de Weismann (s.d.) de um médico do século XIX e adepto da escola mesmeriana, James Esdaile, que teve grande importância no reconhecimento da hipnose como auxiliar nas intervenções cirúrgicas como efeito anestésico, sendo que. Nesta época o éter e o colofórmio não eram reconhecidos como agentes anestésicos.

A estruturação científica do hipnotismo é atribuída ao inglês James Braid (1795-1860), segundo Faria (1986), também data do século XIX. Braid conclui que não há fundamento no mecanismo mesmérico, nenhum paciente sofre influência fluídica derivada de astros, da atmosfera ou de outras pessoas. Para ele, nos diz Faria (1986), a causa do sono hipnótico está dentro de nós mesmos, tendo ele observado que a fadiga dos órgãos sensoriais através da estimulação continuada, levava ao sono hipnótico. Isso o fez pioneiro na utilização da fixação do olhar para o alcance do estado de transe hipnótico. Aquilo de que Braid se deu conta, no entender de Ferreira (2006), foi que a indução da hipnose dependia da contribuição, da concentração mental e da vontade do paciente; e que uma vez obtida a hipnose, podia-se plantar idéias e vontades no cérebro do paciente.

Considerado então o pai do hipnotismo, segundo Weissmann (s.d.) Braid acreditava que o fato derivava de um estado de sono que podia ser induzido por agente físico e nomeou o fenômeno com o vocábulo grego, hypnos , sono. No final da carreira passou a dar maior importância à sugestão verbal e descobriu que os fenômenos do hipnotismo poderiam ser produzidos sem a necessidade de a pessoa dormir, ou seja, não era mais preciso submergir o sujeito na inconsciência onírica. Braid tentou mudar o nome hipnose para monoideísmo porém o termo já havia se firmado.

A idéia da presença de um fator psicológico no estado hipnagógico foi apontada em 1820, por Alexander Bertrand que, segundo Weissmann (s.d.), é considerado pelos historiadores da psicologia médica o ponto de transição do magnetismo para o hipnotismo.

Bertrand antecipou-se ao abade Faria e a Braid. Foi o primeiro a afirmar francamente que o sonambulismo artificial podia explicar-se simplesmente à base das leis da imaginação.(…). As obras do abade Faria, do general Noizet, na França, e as de Braid, na Inglaterra,só contribuíram com a formulação mais clara destes conceitos, desenvolvendo esta interpretação psicológica em forma mais precisa. (PIERRE JANET apud WEISSMANN,sem data, p. 29-30)

Ainda no século XIX, de acordo com Weissmann (s.d.) o médico francês Liébeault, após ter entrado em contato, em 1864, com os estudos de Braid acrescentou ao método de fixação ocular deste o da sugestão verbal e ressaltava a influência do psíquico sobre o físico. Hyppolite Bernheim, um dos expoentes da medicina na França, tornou-se discípulo de Liébeault e insistiu no caráter subjetivo, ou seja, essencialmente psicológico da hipnose, e na necessidade de estudar a técnica sugestiva e as características da sugestibilidade.

Segundo Weissmann (1964, p.30-36) e Bauer (2002,p.27-28) no séc. XIX., surge a escola de Nancy (1854-1890) que foi liderada pelo médico Ambroise Auguste Liébeault (1823-1904) e pelo neurologista Hippolyte Bernheim (1840-1919), esta escola considerava que o estado de transe era um estado normal e não patológico.

Conduzindo pesquisas e estudos independentes, de acordo com Bauer (2002), havia a escola da Salpêtriére em Paris que foi fundada e chefiada por Jean Martin Charcot (1825- 1893), um neurologista de grande prestígio, que considerava o estado de transe como algo que só acontecia como estado patológico e dividiu o transe em três níveis: a catalepsia, a letargia e o sonambulismo.

Dentro do contexto da evolução da hipnose científica, surge no século XX a figura de Ivan Pavlov, “médico russo que definiu o transe como “sono incompleto” causado por sugestões hipnóticas,(…) criador da indução reflexológica” (BAUER, 2002,p.27). Pavlov conduziu estudos a respeito da existência da associação entre o corpo e a alma, da consciência, da dedução e da inteligência. Segundo Faria (1986) ele concluiu seu trabalho ressaltando os conceitos de arco reflexo simples, que são as atitudes naturais às quais não estão associados nenhum tipo de experiência anterior e arcos reflexos condicionados, que são respostas fruto de algum aprendizado ou experiências anteriores.

Também no século XX, de acordo com Bauer (2002), Pierre Janet (1849-1947), descreveu o transe como uma dissociação, e introduziu o termo subconsciente para diferenciá-lo do inconsciente.

Passada toda essa trajetória, na chegada ao século XX a hipnose se consolidou como metodologia científica e como prática promotora de repouso e bem estar. No próximo capítulo serão destacados os principais precursores da hipnose que influenciaram na teorização e na prática da mesma na contemporaneidade.

1.1 PRECURSORES DA HIPNOSE

Uma vez apresentados os acontecimentos históricos de maior relevância na formação da teoria científica da hipnose, serão apresentados dois dos grandes percussores da prática da terapia hipnótica.

FREUD E A HIPNOSE

Sigmund Freud (1856-1939) Médico neurologista e fundador da Psicanálise , interessou-se inicialmente pela histeria, tendo como método de tratamento a hipnose e posteriormente desenvolveu o método da associação livre o qual foi o primeiro passo para a formulação da Teoria Psicanalítica.

Segundo Stengers (1990), foi no asilo Salpetrière em 1893, ano da morte de Charcot, que Freud, seu aluno publicou os resultados de suas pesquisas sobre hipnose e histeria. Foi com Charcot que ele aprendeu sobre a distinção entre as paralisias orgânicas e histéricas, sendo que as segundas não poderiam ser explicadas pela primeira.

Como foi mencionado acima, ainda de acordo com Stengers (1990), Charcot utilizou a hipnose para demonstrar que a histeria não era determinada por causas orgânicas, concluindo que as paralisias histéricas que aparecem depois de traumas era produto das representações que dominavam o cérebro, a partir de alguma disposição peculiar,ou seja, sobre as paralisias traumáticas, o que estava na origem dos distúrbios era o medo e não o choque físico.

A histeria desconhece relações entre funções fisiológicas que não traduzam as representações lingüísticas habituais. As razões do sintoma, portanto, não devem ser buscadas no cérebro, mas numa experiência que implique nossas representações, que implique, não a perna ou o braço no sentido orgânico, mas a concepção que temos desses órgãos. (STENGERS. Ano, pág. 54)

Charcot, na verdade, não fez uso da hipnose com fins terapêuticos, no sentido de “desfazer” os sintomas, mesmo sabendo que através da sugestão o que “foi feito poderia ser desfeito”. Seu grande trabalho e passo foi mostrar, através da hipnose, que a histeria não era uma simulação mas sim uma doença nervosa. Isso porque Charcot não estava interessado em investigar profundamente a “psicologia das neuroses”.

“Seria um equívoco pensar que é muito fácil praticar a hipnose com fins terapêuticos.Pelo contrário, a técnica de hipnotizar é um método médico tão difícil como qualquer outro.Um médico que deseja hipnotizar deve tê-lo aprendido com um mestre nessa arte e mesmo depois disso, deverá ter tido bastante experiência própria, a fim de obter êxitos em mais do que alguns poucos casos”.(FREUD, 1886-1899,p.145)

Segundo Stengers (1990), o interesse de Freud pelo método catártico se deu através da história de Anna O e seu terapeuta Joseph Breuer. Após o falecimento de seu pai, Anna O apresentou alguns sintomas histéricos (paralisia dos membros, contraturas, distúrbios visuais e de linguagem) e dupla personalidade. O desaparecimento de seus sintomas ocorreu por meio de hipnose na qual ao falar fatos de sua vida revelou a origem de seus sintomas.

Em relação aos sintomas Freud nos diz:

Não há dúvida de que a área coberta pelo tratamento hipnótico é muito mais extensa do que a de outros métodos de tratamento de doenças nervosas.E não há nenhuma justificativa para a acusação de que a hipnose só é capaz de influenciar sintomas, e apenas por breve período de tempo. Se o tratamento hipnótico é dirigido somente contra os sintomas, e não contra os processos patológicos, está seguindo justamente o mesmo caminho que todos os demais métodos de tratamento são obrigados a trilhar.(FREUD, 1886-1899, p.153)

De acordo com Jones (1989) em dezembro de 1887, Freud volta a fazer o tratamento por sugestão hipnótica à maneira de Bernheim , após ficar um período de vinte meses sem fazer uso desta, e posteriormente pelo método catártico de Breuer. Freud foi incapaz de hipnotizar vários de seus pacientes , concluindo como inadequados para o método catártico o que o levou a buscar um outro método que não dependesse da hipnotizabilidade do paciente desenvolvendo o método da associação livre entre 1892 e 1895.

“…podemos partir da presunção de que qualquer pessoa é hipnotizável;porém, todo médico encontrará determinado número de pessoas que dentro das condições de suas experiências, não conseguirá hipnotizar e muitas vezes, será incapaz de dizer de onde se originou seu fracasso.” (FREUD, 1886-1899,p.146)

Outro motivo e o principal que contribui para Freud abandonar definitivamente a hipnose, segundo Jones (1989), foi ao constatar que a melhora terapêutica dependia do relacionamento pessoal entre paciente e o médico e o hipnotismo ocultava os fenômenos da resistência e da transferência , principais descobertas para a transição do método catártico para o psicanalítico.

A HIPNOSE ERICKSONIANA

Segundo Ferreira (2006), o psiquiatra americano Milton H. Erickson (1901-1980) foi o criador de uma abordagem inovadora que revolucionou a hipnologia no século XX. Esta abordagem, conhecida como ericksoniana, é centrada no sujeito e utilizava a indução indireta e interativa, partindo da observação de todas as reações e comportamentos dos pacientes.

Erickson expõe o objetivo da hipnoterapia da seguinte forma:

A indução e a manutenção do transe servem para promover um estado psicológico especial, no qual os pacientes podem reassociar e reconhecer suas complexidades interiores e utilizar suas próprias capacidades em manejá-las de acordo com sua experiência de vida.(ERICKSON apud BAUER, 2002, p.66)

Milton Hyland Erickson “percebeu a natureza multidimensional do transe, que se modifica experiencialmente de pessoa a pessoa” (Bauer,2002, p.29). Segundo essa autora, entre os grandes e mais conhecidos disseminadores das técnicas ericksonianas pode-se citar Jay Haley, que publicou Terapia não-convencional tendo Erickson como o criador das abordagens de terapia estratégica breve, e Jeffrey Kenneth Zeig que desenvolveu um modelo de psicoterapia baseados nos ensinamentos de Erickson.

Segundo Zeig (1995) a abordagem Ericksoniana tinha como marca a utilização de anedotas , que representavam o uso efetivo e desenvolvido da comunicação verbal, em seu método didático e como instrumento terapêutico, sendo sua comunicação precisa e focal de acordo com determinado paciente. Erickson criou várias abordagens novas e permissivas para a hipnose, como terapeuta era inflexível quanto a manter-se anti-teórico, não promovendo nenhuma teoria explícita da personalidade, acreditava que limitaria o psicoterapeuta e o tornaria mais rígido, se comprometendo então com as idéias de flexibilidade , unicidade e individualidade.

A hipnose naturalista, segundo Bauer (2002), é o método de hipnose criado por Milton H. Erickson que consiste em utilizar a linguagem do próprio cliente com sugestões indiretas , ás vezes diretas, como uma ferramenta para colocar o cliente em transe e fazê-lo experienciar e eliciar os seus recursos internos, tornando-o responsável pela sua cura. Esta forma de fazer hipnose tem como objetivo trazer à tona a natureza do sujeito , é baseada em motivar, o que é essencial no tratamento,metaforizar, uma forma de linguagem indireta e mover, consistindo em promover a mudança desejada pelo cliente.

Ferreira (2006) cita que segundo a abordagem ericksoniana pode-se induzir qualquer pessoa ao transe hipnótico e que a hipnoterapia ericksoniana “tem como característica essencial … ,um sistema interpessoal de comunicação focalizado unicamente nos indivíduos envolvidos e objetivando primeiramente descobrir capacidades inconscientes de respostas” (FERREIRA, 2006,p.34)

De acordo com Jeffrey K. Zeig (1995), Erickson é considerado uma das maiores autoridades mundiais em hipnose aplicada à psicoterapia e à medicida e o comunicador mais criativo e hábil de todos os tempos. A partir de 1956 a hipnose foi incorporada como técnica psicoterápica devido ás habilidades e práticas de Erickson.

Por fim podemos afirmar que a hipnoterapia ericksoniana é reconhecida mundialmente e tem se expandindo cada vez mais como uma forma de psicoterapia e como técnica auxiliar em algumas áreas da saúde.

No capítulo seguinte iremos abordar os conceitos que envolvem a hipnose baseado em pesquisas recentes.

CAPÍTULO 2 – A HIPNOSE

Para melhor compreensão do tema este capítulo apresentará alguns conceitos sobre a hipnose e as questões que norteiam sua aplicação. Inicialmente podemos afirmar que as manifestações da hipnose podem ocorrer na vida cotidiana das pessoas em diversas situações sem que as mesmas percebam.

Durante atividades muitas vezes cotidianas, as pessoas podem entrar em hipnose sem que nenhuma sugestão verbal seja pronunciada:simplesmente dirigindo um veículo (…); (…) assistindo a um programa na televisão.(FERREIRA, 2006, p.4)

A hipnose na vida diária ocorre mais frequentemente do que imaginamos, e contribui para a compreensão de que não é necessária a indução formal para obtermos a hipnose.No consultório do profissional médico,odontólogo ou psicólogo,faz-se a indução formal da hipnose para obtê-la no momento desejado e com finalidades específicas.(FERREIRA, 2006, p.5)

As manifestações da hipnose na vida diária, segundo Ferreira (2006), ocorrem por exemplo em uma aula, no momento em que o aluno interessa-se e focaliza a sua atenção no professor e fica limitado ao assunto e os ensinamentos ficam gravados no seu subconsciente e no consciente, também quando estamos lendo e reagimos emocionalmente ao conteúdo sem analisar a letra ou as falhas na impressão limitamos a nossa atenção visual ao conteúdo do que lemos e somos auto-hipnotizados, outro exemplo é quando uma pessoa procura os óculos e percebe que estão sobre seus olhos, até que os encontre apresenta uma ilusão negativa visual e tátil, também quando olhamos uma foto própria em uma festa e conseguimos perceber vivamente imagens da festa como se estivesse acontecendo naquele momento.

Podemos afirmar então que quando focalizamos a atenção em determinada situação ou coisa, seja de modo visual, auditivo, tátil, gustativo ou imaginativo, entre outros, fazendo com que os fenômenos que acontecem à volta, nas nossas ações ou no corpo passem despercebidas encontramo-nos, segundo este autor,hipnotizados.

Além dessas situações, consideradas “naturais”, a hipnose acontece também de forma induzida e com objetivos terapêuticos. Sabe-se hoje, através de alguns autores da área psi que, as doenças podem ter causas emocionais e acredita-se também na influência dos estados físicos nas condições emocionais.

A nossa vivência a nossa sabedoria biológica,mesmo sem se saber explicar,nos faz concordar com autores que afirmam existir alguma coisa dentro do organismo das pessoas que as faz se modificarem e se curarem, e segundo Grinder e Bandler: “Existe algum mecanismo dentro das pessoas que é capaz de fazer todas essas coisas mas elas necessitam ser convencidas precisam ser motivadas precisam entrar em comunicação e ser dotadas de um contexto dentro do qual apresentam respostas”. (FERREIRA, 2006, p.110-111)

Segundo Ferreira (2006) o essencial em um tratamento é a existência de uma mudança e, através da hipnose, pode-se modificar a interpretação de uma determinada situação, influenciando por fim as respostas fisiológicas do sujeito. Para esse autor, por meio da hipnose pode-se eliminar bloqueios, hábitos, ampliar a memória, performance, alcançar objetivos, aspirações e também entrar em contato com o seu próprio “eu”. Para se ter um bom resultado pela hipnose é necessário ser um profissional competente, ético, pois só desta forma produzirá benefícios para o paciente,já que um hipnólogo pouco treinado pode causar dificuldades para o mesmo.Ainda em Ferreira (2006) na prática os profissionais trabalham em sintonia com o paciente, dando as explicações necessárias de como é o tratamento pela hipnose contribuindo para o sucesso dos resultados e, assim, auxiliando–os a acionar as suas potencialidades para a solução de seus problemas.Um paciente mal informado pode sentir medo dificultando o processo de hipnose.

Segundo Bauer (2002), devido à complexidade na tentativa de conceituar o que é hipnose vários autores não conseguiram absorver toda a riqueza que envolve a experiência da hipnose.Uma boa definição, de acordo com Ferreira (2006), é a de Stark, para quem

(…) a hipnose é um “estado alterado” pelo menos no sentindo que prestando atenção de um modo particular ou sentindo de uma particular maneira são “estados alterados”, e a influencia hipnótica significa alterar o que nós esperamos perceber e o que nós esperamos que aconteça;e isso por sua vez, modifica como nós interpretamos a situação alterando desse modo o que nós esperamos tem o poder de alterar como nós pensamos sentimos e agimos e desse modo a influencia hipnótica está relacionada com a alteração do nosso senso de autocontrole. (FERREIRA, 2006,p.48)

Ferreira (2006), define estado alterado (alternativo ou modificado) “como uma modificação temporária no padrão total da experiência subjetiva, tal que o indivíduo acredita que o seu funcionamento mental é distintamente diferente de certas normas gerais do seu normal estado de consciência e vigília”. A consciência para Davitz e Cook, citado por Ferreira (2006), “é a conseqüência da interação entre o acontecimento em si e a forma pela qual ele é vivenciado pelo ser humano” (FERREIRA, 2006, p.55).

Cada pessoa percebe o mundo de modo diferente por isso é difícil delimitar a consciência, entretanto os processos hipnóticos são produzidos na mente e partindo da proposta do tema, falaremos sobre a consciência remetendo somente aos aspectos que envolvem a hipnose.

Ao conceituar o que é a consciência, de acordo com Myers (1999), devemos considerar duas vertentes, uma especulativa e reflexiva, mais analítica vinda da Filosofia que dá origem, por exemplo, a teoria Freudiana da estruturação psíquica, a teoria do Self, a rogeriana e a existencial-humanista, que além de estudarem sobre os estados mentais de acordando, dormindo, sonhando também investigaram as alterações da consciência por hipnose e droga. A outra vertente é a experimentalista tendo influencia Behaviorista e Cognitivista com base nas neurociências, teorias cognitivistas e na neurofisiologia.

Conceitua-se hoje a consciência para Myers (1999) como a percepção de nós mesmos e do nosso ambiente sendo ela o resultado da interação gradual de múltiplas funções cognitivas, permitindo uma representação unificada do mundo, de nossos corpos, de nosso eu, também representa a subjetividade e a individualidade. Este autor atribui à consciência as seguintes características; é unitária e isso se expressa pela fusão, durante um período variável de tempo, de todas as nossas percepções, pensamentos e emoções; não está circunscrita a uma ou outra área, se espalha difusamente pelo cérebro, é, simultaneamente uni temporal e multi-espacial; é apenas a ponta do iceberg do processamento de informação.

Diferente do processamento subconsciente de informação, o que ocorre simultaneamente em muitos canais paralelos, o processamento consciente ocorre serialmente (em seqüência) de forma lenta e limitada, visto que as tarefas que exigem atenção consciente não podem ser realizadas simultaneamente pois só há possibilidade de concentração em uma tarefa de cada vez. Myers (1999) conclui que “…a consciência é o meio da natureza de nos impedir de fazermos e pensarmos tudo ao mesmo tempo” (MYERS, 1999, p.147)

Descrever sobre consciência e subconsciente ou inconsciente é importante para entendermos o que ocorre quando uma pessoa é hipnotizada. Apresentaremos então mais definições do que é hipnose para outros autores.

Para Zeig (1995) discípulo de Milton Erickson a hipnose é “um tipo de focalização da consciência na qual o paciente entra em contato com possibilidades pessoais no nível fisiológico e psicológico”. (Entrevista, p. 4)

Sillamy (1998) define hipnose da seguinte forma:

Estado mal definido, próximo do sono parcial, em que o sujeito continua a obedecer a certas injunções do hipnotizador.Pode ser provocado artificialmente peal fixação da atenção em um objeto brilhante ou pela sugestão.

O sono hipnótico é profundamente diferente do sono normal:as percepções sensoriais não diminuem, a atenção pode concentrar-se, são possíveis diferentes ações, o registro dos ritmos elétricos do cérebro (eletroencefalograma) é comparável ao obtido durante o estado de vigília. Trata-se,pois, de uma “paralisia da vontade” (S. Freud).Sob o efeito da hipnose, podem-se observar efeitos somáticos, como analgesia (supressão da dor) ou a modificação de tecidos (formação de ampolas na pele, desaparecimento de verrugas, etc.) (SILLAMY, 1998,p.120).

As manifestações da hipnose apresentam-se, segundo Ferreira (2006), como atos do subconsciente, que para esse autor corresponde ao inconsciente,em que a soma total das funções bioquímicas e neurológicas do sujeito funcionam abaixo do nível de percepção consciente.A hipnose dá acesso ao subconsciente através de uma reprogramação mental que acontece da seguinte forma: as mensagens passam pelo senso crítico do consciente alcançam o subconsciente e por fim se amplifica.

A maneira de acessar o subconsciente pela hipnose consiste no primeiro momento limitar o foco da atenção, a qual estará relacionada com a audição, visão e sensações do paciente.Citando Hartlant, Ferreira (2006) diz que, por este autor o poder de criticismo, no estado hipnótico, é parcial ou completamente suprimido.Aceitando-se o conceito de mente inconsciente considera-se o criticismo como restrito à mente consciente, podendo esta rejeitar uma sugestão, já o subconsciente não rejeita as sugestões o que faz então com que as respostas,durante a hipnose,dependam do quanto o criticismo é diminuído.

A finalidade do subconsciente, diz Ferreira (2006), não é pensar, e sim atender às informações e comandos que lhe são fornecidas, apresentando raciocínio dedutivo e tornando generalizado essas informações como verdade. Ele tem também a função de proteger e preservar as informações e quando as sugestões podem prejudicá-lo, na medida em que são contra a tais funções o paciente rejeita as sugestões.

Segundo Bauer (2002) dentro da visão de Erickson pode definir mente inconsciente da seguinte maneira:

…é o reservatório de todas as experiências adquiridas através da vida.Experiências pessoais, aprendizados, necessidades,motivação para interagir com seu próprio mundo e as muitas funções automáticas .É uma mente sábia, não rígida, nem analítica e tampouco limitada. Ela responde a comunicações experimentais, é capaz de interpretações simbólicas e tem tendência a uma visão global. Carrega os recursos para as mudanças.(BAUER, 2002, p.41-42)

De acordo com Ferreira (2006) o subconsciente não deseja mudanças e essas só são transmitidas e sugeridas pelo profissional apenas quando o paciente demonstrou interesse.Isso é feito durante a hipnose, pois pode-se ensinar o subconsciente do paciente através da repetição constante de pensamentos ou ações, de sugestões diretas ou indiretas, de analogias e metáforas e da imaginação a buscar outros modos de funcionar e agir. Desta forma a hipnose pode ser utilizada para mudar hábitos, facilitar o uso e o desenvolvimento de habilidades já existentes, favorecer o relaxamento físico e/ou mental reduzindo a tensão, entre outros. Pode-se alcançar com o tratamento com hipnose por exemplo; emagrecer, tornar-se não fumante, permanecer afastado das bebidas alcoólicas, vencer fobias, tornar-se alegre, buscar a felicidade, vencer a dor, estancar hemorragia, relembrar acontecimentos e tornar-se tranqüilo e calmo.

Existe uma variedade de técnicas de indução, algumas padronizadas, porém não á necessidades delas para obter a hipnose. Uma indução hipnótica, segundo Ferreira (2006), tem como objetivo obter a hipnose, em comum acordo com o paciente, em um determinado momento e com uma finalidade específica apresentando sugestões para o estreitamento do campo da atenção e sua focalização.

Segundo Bauer (2002) através dos fenônemos hipnóticos , que são o rapport, catalepsia, dissociação, analgesia, amnésia, anestesia, regressão, progressão, distorção do tempo, alucinações positivas e negativas, hipermnésia, atividade ideossensória e ideomotora e sugestão pós hipnótica, capacita-se uma pessoa a utilizar da sabedoria do seu incosnciente em benefício próprio. Fazer um transe hipnótico, diz essa autora, quer dizer comunicar alguma coisa que o outro possa entender, assim utiliza-se de estratégias de comunicação. Desta maneira a sugestão faz parte do transe e para Erickson segundo Bauer :

O transe é um período no qual as limitações que uma pessoa tem, no que diz respeito à sua estrutura comum de referências e crenças, ficam temporariamente alteradas, de modo que o paciente se torna receptivo aos padrões às associações e aos moldes de funcionamento que conduzem à solução de problemas.(BAUER, 2002, p. 39)

De acordo com Bauer (2002) quando uma pessoa entra em transe a mente consciente é absorvida dando vazão à mente inconsciente aparecendo os fenômenos hipnóticos, sendo possível perceber alterações nos sinais físicos que dizem sobre um estado entre o acordado e o dormindo. Bauer (2002) considera três níveis de transe ; leve, médio e profundo , e afirma que a sugestionabilidade é maior no transe médio pois no transe leve a consciência está mais acentuada e com ela a crítica e a resistência, no transe médio a pessoa sabe que está diferente mas é participativa na hipnoterapia e ocorre amnésia parcial, já no transe profundo o qual parece com o sono, ocorre na maioria das vezes amnésia total e não se torna participativa da terapia de maneira consciente.

No entanto, esta autora nos diz que pode ocorrer vários níveis de transe e variar os fenômenos hipnóticos de um transe para o outro, e pontua que o mais importante é estabelecer um bom rapport fazendo com que o paciente tenha confiança e se sinta seguro, a motivação e a necessidade de melhora também é essencial para se ter bons resultados.

Muitos psicólogos consideram que uma pessoa em transe encontra-se com a atenção limitada e há certa repetição de pensamentos. Para O´Halon, citado por Ferreira (2006), transe hipnótico é um estado diferenciado de linguagem e diz que “ provar a existência do estado de hipnose seria o equivalente a encontrar um meio de medir o amor”(FERREIRA, 2006, p.54)

Diferente de Erickson, o qual considera haver um estado de transe, Baber por Ferreira (2006) pontua que os conceitos de transe hipnótico, estado hipnótico e de hipnose são desnecessários e enganosos para explicar o fenômeno, pois no ponto de vista cognitivo-comportamental os pacientes podem levar ao comportamento hipnótico quando possuem atitudes positivas, motivações e expectativas.

A motivação do indivíduo, de acordo com Ferreira (2006), é essencial para o sucesso do tratamento por meio da hipnose, sendo a motivação a probabilidade do paciente se envolver, continuar e aderir à mudanças necessárias, e também a expectativa positiva do paciente facilita a aceitação das sugestões.

As sugestões exercem um papel fundamental para as induções hipnótica, aconteçam elas no consultório medico, psicológico ou odontológico. Iremos então apresentar o conceito de sugestão e classificar os modos que estas podem estar sendo empregadas.

De acordo com Ferreira (2006) a sugestão é “a mensagem de alguma fonte interna ou externa, a indicar o que se deve fazer ou como as coisas devem ser feitas;o que é certo, o que é errado. É uma mensagem que nos ajuda a nos condicionarmos”. “Uma sugestão é uma comunicação indicando que um indivíduo terá a experiência de uma resposta particular”.

A sugestão deve ser também entendida pelo subconsciente que tem apenas capacidade de raciocínio dedutivo,percebendo e interpretando as sugestões de modo literal.Esse significado literal muitas vezes é aprendido durante o período da aquisição da linguagem falada….O subconsciente percebe melhor a sugestão específica do que a sugestão vaga inespecífica.”(…) A habilidade faz o especialista transmitir as sugestões privilegiando o canal de comunicação preferido pelo paciente para processar a informação.Pode ser o canal visual,utilizando frases de imagens; o auditivo utilizando fraseologia mais auditiva ou o canal cinéstésico, empregando fraseologia mais relacionada com as sensações. (FERREIRA, 2006 p.80-81)

O que determina as respostas voluntárias e as percepções das respostas involuntárias durante a hipnose do paciente, são a estrutura e a fraseologia das sugestões transmitidas pelo hipnólogo. Elas apresentam, uma variabilidade de interpretações por parte do paciente e essas interpretações são responsáveis pelas variações de respostas subjetivas e comportamentais do paciente.

Segundo Ferreira (2006) “é difícil que uma pessoa esteja sob a influência de um só tipo de sugestão”, já que nesse processo está envolvida tanto a relação especialista-meio, ambiente-paciente, quanto o conteúdo e o modo das formulações das sugestões e também o aspecto das respostas.

Para ajudar na compreensão do que discutiremos adiante julgamos necessário colocar aqui os tipos de sugestão classificada por Ferreira (2006).

• Sugestões Terapêuticas Específicas – “São sugestões de qualquer tipo,com conteúdo específico, especialmente direcionadas para o tratamento de determinada manifestação clínica do paciente.”(p.108)
• Sugestões Terapêuticas Não-inespecíficas – “Quando o conteúdo é inespecífico e deixamos o próprio paciente digerir a sugestão e criar os resultados,porque o sistema de cura está dentro dele e a sua mente converte idéias imaginações intensas e expectativas em realidades bioquímicas,os neuropeptídeos.(p.109)
• Sugestão Sensorial- “Quando agimos com qualquer dos nossos analisadores ou com qualquer substância ou vibração sobre um ou vários analisadores do paciente. A sugestão sensorial pode ser direta ou indireta e pode ser apresentada de vários modos.” (p.72)
• Sugestão Sensorial Direta- “Quando são sugestões que são diretas e objetivamente transmitidas para a obtenção de uma resposta clara e definida.” (p.73)
• Sugestão Sensorial Indireta -“São sugestões tranmitidas ao paciente de modo indireto e sutil, geralmente não relacionados com a experiência do paciente, e necessitando da interpretação dele. São sugestões que além de atingirem a mente consciente do paciente, alcançam principalmente a mente subconsciente, associando-as com a dinâmica das experiências internas do paciente” (p.75)
• Sugestão Sensorial Sonora -“Quando utilizarmos um som.Esse som sendo a voz a sugestão pode ser sugestão sonora verbal direta, verbal indireta ou extra-verbal.(p.76)
• Sugestão Sonora Extraverbal -“ É a sugestão transmitida ao paciente nas entrelinhas das frases, das palavras, dos gestos ou dos toques. A idéia contida na comunicação extraverbal é transmitida ao paciente mais do que expressada”. (p.76)
• Fonação Extraverbal -“Geralmente são sugestões produzidas pela voz do proficional como sons sem o enunciado de palavras ou frases. Esses sons transmitem emoções ao paciente.” (p.77)
• Sugestão Sensorial Sonora Não-verbal “ Quando o som não é o da voz humana e sim qualquer outro som.” (p.77)
• Sugestão Sensorial Visual -“Quando utilizamos uma imagem ou qualquer substância ou vibração influenciando o paciente através do sentido da visão.(p.77)
• Sugestão Sensorial Olfativa -“ Quando utilizamos qualquer substância que emite odores ou vibração, influenciando o paciente através do sentido do olfato.(p.77)
• Sugestão Sensorial Gustativa-“Quando utilizamos qualquer substância ou viibração influenciando o paciente através do sentido da gustação.”(p.77)
• Sugestão sensorial Tátil, Térmica, Dolorosa, Cinestésica- “Quando utilizamos qualquer substância toque ou vibração, para influenciar o paciente através do tato ou através dos analisadores das sensibilidades térmicas (calor e frio), dolorosa,noção de posição segmnetar batiestásica e palestésica.” (p.77)
• Sugestões Combinadas -“Quando há associação simultânea de mais de um tipo de sugestão.”(p.78)
• Sugestão pela Atitude- “Atitudes são sentimentos que se tornaram hábitos.” (…) A atitude adequada do especialista traduz a sua crença em poder ajudar o paciente, sendo um excelente fundo para a transmissão das sugestões que devem estar harmonizadas com a sua expressão corporal e com a sua verbalização.(p.78)
• Sugestão Psíquica -“Quando a mente pelo pensamento influencia o paciente.” (…)A sugestão psíquica não é considerada por muitos pesquisadores.”(…) Na parapsicologia considera-se que a influencia humana sobre pessoas e coisas ocorre espontaneamente e dentro de uma distância de cinqüenta metros”.(p.78)
• Sugestão Ambiental “Quando qualquer coisa do universo visível à nossa visão usual ou aos nossos analisadores influencia o paciente.” (p.78)
• Sugestões Ideomotoras – “quando as respostas estão relacionadas à motricidade” (p.79)
• Sugestões desafios- estão relacionadas com a dificuldade ou impossibilidade de realizar alguma coisa que usualmente as pessoas fazem.(p.79)
• Sugestões cognitivas -quando relacionadas com modificações da percepção e da memória.Estas sugestões podem transmitir idéias de anestesia,ilusões, distorção do tempo, relembrança, revivificação ou amnésia pós-hipnótica.(p.79)
• Sugestões Assim Chamadas Pós-Hipnóticas- “São sugestões apresentadas ao paciente durante a hipnose,associadas a um sinal condicionado,para serem realizadas depois da consulta,quando já não haja mais relacionamento direto entre o hipnólogo e o paciente.” (p.91)
• Sugestões de Imagens (Visualização)- “Visualização significa formar conceitos sentimentos com imagens na mente.(…) A visualização é poderosa porque vem de dentro da pessoa e a pessoa acredita nela.A pessoa imagina, visualiza imagens de suas próprias memórias, experiências,sentimentos e pensamentos.” (p.95)
• Sugestões de Relaxamento -“Geralmente são as sugestões iniciais que conduzem o paciente a um confortável relaxamento físico e psicológico” (p.101)

Ainda em Ferreira (2006) é necessário o máximo de informações sobre o paciente para formular e transmitir as sugestões e que quando o paciente está atento às sugestões verbais (palavras) ou não –verbais não se importa com o que está à sua volta.

Comum a todas sugestões hipnóticas são os mecanismos de atenção focalizada, resultado do funcionamento da atividade cortical frontal e alucinação obstrutiva, resultado do funcionamento dos sistemas corticais posteriores, que modulam as imagens mentais.113 (FERREIRA, 2006, p.38)

Segundo Bauer (2002), André Weitzenhoffer define sugestionabilidade como a capacidade de responder às sugestões. Para Ferreira (2006) “sugestionabilidade é o grau que um indivíduo é inclinado em direção à aceitação sem crítica de idéias e proposições” (p.67). Atualmente considera-se a sugestionabilidade como sendo respostas comportamentais aos procedimentos hipnóticos, sendo a aceitação de novas idéias e informações. Para Meares “a hipnose não é simplesmente um estado de sugestionabilidade aumentada; seria melhor considerar o aumento da sugestionabilidade um traço constante do estado hipnótico” (MEARES apud FERREIRA, 2006, p.169).

Outro conceito importante para entendermos a hipnose é o de suscetibilidade à hipnose, que de acordo Ferreira (2006), seria a avaliação da capacidade de hipnotização de um indivíduo, ou seja a habilidade de uma pessoa tornar-se hipnotizada e, para isto, o resultado do sujeito ao processo hipnótico depende de suas atitudes, crenças e expectativas, interagindo com diferenças de processamento cognitivo.

Para se formular uma teoria psicológica da hipnose é importante considerar, além desses aspectos supracitados, os substratos psicofisiológicos e neurológicos do processo.

Desde a última década do século XX, os estudiosos sobre hipnose aproximam-se com maior freqüência dos neurofisiologistas e imaginologistas para analisar o que ocorre no encéfalo durante a hipnose, usando a medição do fluxo sanguineo cerebral regional (FSCR), a PET, a RMf, o MEG, o registro eletroencefalográfico de potenciais evocados relecionados com eventos (PRE). Neste novo milênio espera-se a multiplicação dos estudos clínicos controlados e randomizados com o uso da hipnose para estabelecer normas corretas do emprego da hipnose no tratamento das diversas doenças, para ajustar-se à tendência atual da medicina baseada em evidências. (FERREIRA, 2006, p.40)

A revisão feita por Lauence, e citada por Ferreira (2006) nos diz que as diferenças individuais na velocidade do processamento cognitivo nos lobos frontais exercem um grande papel na hipnose. Ferreira (2006) afirma que os indivíduos considerados altamente suscetíveis ao processo hipnótico,de acordo com as suas respostas aos requisitos das escalas de suscetibilidade hipnótica, possuem sistemas de atenção e inibição mais efetivos e os indivíduos com baixa sucetibilidade hipnótica, de um modo geral são aqueles que têm menor vontade de experienciar a hipnose.

Abela considera a hipnose como um estado distinto apresentando características neurofisiológicas específicas e opostas de acordo com a alta ou baixa suscetibilidade das pessoas e simultaneamente com uma habilidade maior do que a normal para acessar e influenciar a experiência. (FERREIRA, 2006, p.48)

Atualmente todas as pessoas são consideradas como hipnotizáveis independente das suas idades, desde que sejam auxiliadas por um hipnólogo habilidoso e com experiência.Ferreira (2006) portanto considera por exemplo que a pessoas com demência, estágio avançado de Alzheimer, em que muitos neurônios deixam de funcionar, são impossíveis de serem hipnotizadas diretamente.

Para Theodore Barber por Ferreira (2006), as pesquisas indicam três principais tipos de pessoas altamente susceptíveis à hipnose: pessoas com propensão à fantasia, com propensão à amnésia e as pessoas positivamente estabelecidas que estão prontas para cooperar com o que é sugerido.Essa cooperação, por sua vez, implica alguns aspectos que Shames e Sterin consideram como sendo os quatro ingredientes da hipnose.

(a) motivação, (b) relaxamento (c) concentração, (d) direção. A motivação seria o mais importante. O relaxamento é um fator algumas vezes dispensável. A concentração seria limitar as coisas que está fazendo a uma só coisa. A direção seria a aplicação de uma técnica para dirigir as energias para a finalidade específica dentre essas a principal técnica é a da visualização.(FERREIRA, 2006,p.56)

Ainda em Ferreira, toda a hipnose é auto-sugestão guiada, por isso o mérito do profissional hipnólogo esta na formulação sugestiva adequada e individualizada sendo que o poder de alcançar um objetivo, uma mudança está na mente do paciente. Desta forma na hipnose ou relax-reflex o papel do hipnólogo é de guiar o paciente auxiliando-o a sintonizar-se com o relaxamento e com os objetivos do tratamento.

(…)Outros nomes para hipnose incluem relaxamento programado imaginação programada, sugestão guiada, imaginação guiada, visualização criativa, reprogramação mental, programação neurolinguistica (PNL) aplicada, técnicas de controle mente-corpo, alfagenia, introspecção, psicocibernética, hipnocibernética, letargia, sofrologia, anesis, sugestões orais, dianética, samadhi. (FERREIRA, 2006,p.146)

Durante o processo de hipnose o paciente pode ouvir e entender tudo o que o hipnólogo está falando e se comunicar com o hipnólogo verbalmente ou por gestos. Desta forma o que as pesquisas nos mostra é que “a hipnose não tem nenhuma correlação física conhecida e não pode ser definida por quaisquer critérios exteriores, mas apenas pela própria experiência subjetiva do indivíduo” (FERREIRA, 2006, p.122)

Atualmente a tendência na condução da hipnose é evitar o uso de palavras como sonolência, sono, sono profundo, dormir. Segundo Ferreira (2006) a eficácia do tratamento não depende da lembrança ou não das palavras do hipnólogo e é o próprio paciente o responsável pela mudança, uma vez que ele concordar, desejar e se permitir entrar em hipnose.

Para finalizar, vale ressaltar que, a hipnose não é uma medicina alternativa, mas sim um procedimento médico e ético, podendo ser exercido por médicos, psicólogos e odontólogos.

Agora que vimos alguns aspectos relevantes para o esclarecimento da hipnose iremos apresentar como esta prática vem sendo exercida, no próximo capítulo.



CAPÍTULO 3 – A HIPNOSE NA ATUALIDADE

De acordo com a Sociedade Brasileira de Hipnose e Hipniatria (2007), atualmente existem várias sociedades formadas por profissionais que atuam na prática da hipnose em todo o mundo, também há médicos trabalhando com hipnose em várias universidades, alguns Conselhos diplomam e titulam profissionais em hipnose e algumas instituições internacionais já se posicionaram sobre a Hipnose Médica, reconhecendo-a como auxiliar útil a Medicina.

Podemos notar que há uma aceitação e comprovação da técnica da hipnose como auxiliar nos procedimentos terapêuticos e que funciona como um instrumento promotor de saúde e bem-estar.

No campo da Psicologia esta prática não se restringe a uma abordagem independente da área de trabalho e da utilizada pelo psicólogo, na verdade a hipnose é hoje vista como uma técnica com fundamentos teóricos e resultados práticos, sendo necessária uma qualificação e estudos para a utilização no âmbito terapêutico.

No que diz respeito ás terminologias utilizadas segundo a Sociedade Brasileira de Hipnose e Hipniatria (2007) temos por Hipnologia o estudo da natureza da hipnose e investigação científica de seus fenômenos e repercussões; Hipnoterapia, terapia feita através da hipnose; Hipnoterapeuta chama-se o profissional ou terapeuta, de ordinário médico, odontólogo ou psicólogo, que exerce a hipnoterapia; Hipnotista sendo o profissional que pratica a hipnose; Hipniatria que se refere ao procedimento ou ato médico que utiliza a hipnose como parte predominante do conjunto terapêutico, Dehipnotizar; ato de retirar o paciente do transe hipnótico; Hipnodontia, hipnose usada no ato odontológico.

No site Wikipédia (2007) o termo Hipnoanálise é definido como o “método psicanalítico em que se faz uso da hipnose para com o paciente, de modo a obter informações analíticas, livre associação e reações emocionais da infância, que de outra forma, eventualmente seriam velados pela consciência ordinária”, é uma das formas de hipnoterapia.

A partir das nomenclaturas é que vamos melhor delimitando as áreas de atuação, conseqüentemente as finalidades e os objetivos com o qual a hipnose é utilizada. Assistimos hoje um forte retorno desta técnica e em conjunto uma banalização no que diz respeito a sua prática. Não é difícil encontrar nos meios de comunicação o assunto Hipnose através de curso via Internet, sites formados por profissionais da saúde e de profissionais de outras áreas. Além disso encontramos um número reduzido de artigos acadêmicos brasileiros mas um vasto número de sites relacionados ao tema.

Em bancas de Jornal o acesso a esse assunto é fácil, revistas de PNL (programação neurolingüística) divulgam sobre o tema e vendem CDs, ou melhor, programas terapêuticos em áudio conduzidos e elaborados por profissionais nos quais contém técnicas de hipnose ericksoniana com os temas : “Livre-se do Cigarro”, “Conquiste seu peso ideal”, “Seja um campeão de vendas”, “Ame e seja amado”, “Multiplique seus potenciais” e etc.

Segundo Bazzi (2007) a hipnose tem que estar associada a um procedimento, ela sozinha não resolve, é a interação que faz as coisas mudarem. Diante disso podemos afirmar que para haver um bom resultado não basta ser submetido a uma indução generalizada que propõe as programações em áudio, para haver um tratamento é importante se ter um bom diagnóstico e posteriormente implantar técnicas adequadas, dentro de um processo individualizado, para assim trazer real benefício para as pessoas.

3.1 – A Hipnose no Brasil

A questão da prática da Hipnose perpassa pelos critérios da saúde, da ética e da justiça, desta forma foi-se necessária uma regulamentação legal, firmando a utilização desta técnica apenas por profissionais médicos, dentistas e psicólogos, sendo que a utilização por pessoas leigas é configurada como Exercício ilegal da medicina, arte dentária ou farmacêutica, ou Curandeirismo, ambos atos ilícitos definidos como crime no Código Penal, nos artigo 282 e 284, respectivamente (BRASIL, 1940) .

Segundo a Sociedade Brasileira de Hipnose e Hipniatria (2007), na década de 1960, a Hipnose em espetáculos foi proibida no Brasil pelo presidente Jânio Quadros em 1961, através do Decreto Nº 51.009, que permitia a hipnose somente de caráter puramente científico executadas por médicos com curso especializado na matéria (BRASIL, 1961). No entanto essa lei foi revogada pelo presidente Fernando Collor através do Decreto nº 11 de 18/01/1991.

Em 20 de agosto de 1999, o Conselho Federal de Medicina, emitiu um parecer (nº 42/99) sobre a Hipnose Médica, recomendando que os profissionais de saúde utilizassem o termo Hipniatria para diferenciar a Hipnose Médica de outras formas de Hipnose. Além disso, esse parecer reconhece a hipnose como “uma valiosa prática médica”, que pode ser utilizada em diagnóstico e tratamento.

Para os Odontólogos a prática da Hipnose está regulamentada pelo artigo 6º, I a VI, da Lei nº 5.081 de 24/08/66.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP), por sua vez, aprovou e regulamentou o uso da Hipnose como recurso auxiliar ao trabalho do Psicólogo em 20 de dezembro de 2000, através da Resolução CFP nº 013/00. Foi considerando o valor histórico da utilização da Hipnose como técnica de recurso auxiliar no trabalho do psicólogo, as possibilidades técnicas do ponto de vista terapêutico como recurso coadjuvante, o avanço da Hipnose, a exemplo da Escola Ericksoniana no campo psicológico, de aplicação prática e de valor científico, considerando o reconhecimento na área de saúde, como um recurso técnico capaz de contribuir nas resoluções de problemas físicos e psicológicos e ser a Hipnose reconhecida pela Comunidade Internacional e Nacional como campo de formação e prática de psicólogos.

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina, em 20 de agosto de 1999, reconheceu a hipnose como uma forma de diagnose e terapia que somente deve ser executada por profissionais devidamente qualificados, médicos odontólogos e psicólogos; e foi adotado como oficial o termo hipniatria para definir o procedimento ou ato médico que utiliza a hipnose como parte predominante do conjunto terapêutico. O Conselho Federal de Psicologia em 20 de dezembro de 2000, inclui o uso da hipnose como recurso auxiliar de trabalho do psicólogo, quando se fizer necessário, dentro dos padrões éticos, garantidos a segurança e o bem-estar da pessoa atendida.(FERREIRA, 2006, p.154)

Cumpre destacar que a referida Resolução está em conformidade com o disposto no Decreto nº 53.464 de 21/01/64 que determina as atribuições dos Psicólogos:

Art. 4º São funções do psicólogo:

1) Utilizar métodos e técnicas psicológicas com o objetivo de:

a) diagnóstico psicológico;
b) orientação e seleção profissional;
c) orientação psicopedagógica;
d) solução de problemas de ajustamento.

2) Dirigir serviços de psicologia em órgãos e estabelecimentos públicos, autárquicos, paraestatais, de economia mista e particulares.

3) Ensinar as cadeiras ou disciplinas de psicologia nos vários níveis de ensino, observadas as demais exigências da legislação em vigor.

4) Supervisionar profissionais e alunos em trabalhos teóricos e práticos de psicologia.

5) Assessorar, tecnicamente, órgãos e estabelecimentos públicos, autárquicos, paraestatais, de economia mista e particulares.

6) Realizar perícias e emitir pareceres sobre a matéria de psicologia. (BRASIL, 1964)

De acordo com a Sociedade Brasileira de Hipnose e Hipniatria (2007), a hipnose abrange qualquer procedimento que venha causar, por meio de sugestões, mudanças no estado físico e mental, podendo produzir alterações na percepção, nas sensações, no comportamento, nos sentimentos, nos pensamentos e na memória.

Segundo Bauer (2002) o professor Malomar Lund Edelweiss foi um dos primeiros divulgadores das obras de Milton Erickson no Brasil. Malomar é psicólogo, professor universitário graduado em Direito e Filosofia com formação em psicanálise,fundador do Circulo Brasileiro de Psicanálise no Rio Grande do Sul, onde nasceu, e deu inicio ao Circulo Psicanalítico de Minas Gerais residindo atualmente na cidade de Belo Horizonte. Bauer (2002) considera Malomar como sendo o padrinho brasileiro de hipnoterapia, dedicou-se os últimos 15 anos à pratica da hipnoanálise e hipnoterapia.

Desde especialmente o fim da Segunda Guerra, em 1945, o estudo científico da hipnose tem crescido de modo admirável e sua aplicação clínica tomou impulso novo e intenso,em particular no campo das psicoterapias e no terreno da psicossomática. Têm voltado à circulação, em algumas pesquisas, os chamados “estados hipnóides” da mente, defendidos por Breuer e rejeitados por Freud. Ao mesmo tempo em que se redescobre e se reanima deste, a constatação de que, em meio aos piores ciclones que transtornam a vida psíquica, subsiste ilesa num recanto da mente, como observador imperturbável e inatingível, uma pessoa normal oculta. Daí parte a volta à cura.É onde pode entrar, com enorme proveito, a hipnoterapia ou a hipnoanálise, conforme o caso e tanto uma quanto a outra, com surpreendente profundidade e considerável economia de tempo. (EDELWEISS, 1994, p.104)

No Brasil, como vimos, a hipnose vem sendo praticada por profissionais qualificados em prol da saúde e do bem-estar, e para maiores informações a cerca do tema na atualidade foi realizado entrevistas semi-estruturadas com profissionais que a utiliza em seu trabalho, como veremos no capítulo seguinte.

CAPÍTULO 4 – ENTREVISTAS

Nossa pesquisa, como já dito, foi composta por um levantamento bibliográfico e um trabalho de campo no qual foram realizadas entrevistas semi-estruturadas, com psicólogos que fazem o uso da hipnose nos dias de hoje, com o objetivo de investigar como esses profissionais vêm utilizando esta técnica em seus clientes.

A escolha da amostra foi de cinco psicólogos, que atendem clinicamente na cidade de Belo Horizonte – MG e já atuam há algum tempo na clinica utilizando a hipnose como instrumento. Foram eles:

• Sandra Donato, graduada em Psicologia pela PUC.Minas com formação em Hipnoanálise;
• Cláudia Valadares Roquette Maia, Psicóloga e pós-graduada em Hipnoterapia e Hipnoanálise, especializada em Hipnose Ericksoniana, fundadora e presidente do Instituto Brasileiro de Hipnose Clínica, professora e responsável pelo curso O Uso da Hipnose Clínica;
• Mariana Diláscio, formada em Psicologia pela UFMG, com mestrado em Psicologia Social e formação em Hipnoterapia;
• Rodrigo Rezende, psicólogo com formação em hipnoterapia pelo Instituto Milton Erickson – com pouco tempo de formação e atuação.
• Ângela Cristina Cota Guimarães Mendonça, graduada em psicologia, pós- graduada em psicopedagogia, psicodiagnóstico, com formação na abordagem Ericksoniana e mestrado em psicologia Clínica Ericksoniana pelo centro Ericksonino do México.

As entrevistas foram realizadas com base em um roteiro (ver Anexo 1) e gravadas em fita cassete. Para melhor compreensão e visualização desse trabalho de campo os resultados foram divididos em categorias, por assuntos, nas quais é especificado e ilustrado o ponto de vista e a forma de trabalho dos profissionais entrevistados. Relacionaremos com o Capítulo 2 cada um dos tópicos selecionados, são eles: 1-Conceituação, 2-Objetivo, 3-Indicação, 4-Contra-Indicação, 5-Riscos, 6-Eficácia, 7-Perfil dos Clientes, 8-Aceitação social e profissional e 9-Mudanças desde o século XX.

O estabelecimento dessas categorias tomou como base a análise de conteúdo que, de acordo com Bardin (2004) tem como objetivo fornecer uma representação simplificada dos dados brutos e isso por condensação.

1 – Conceituação

Com relação ao conceito de hipnose todos os profissionais mostram consenso ao considerar a hipnose uma técnica. Conceituam a hipnose de modo diferente porém, como foi mencionado no capítulo dois, não existe um único conceito que possa abranger toda a complexidade do tema; desta forma não há certo ou errado e as respostas se completam devido a abrangência do conceito.

Sandra Donato não formulou um conceito sobre a hipnose, respondendo que a hipnose “é uma técnica complementar ao meu trabalho…é uma técnica não é uma abordagem teórica, não é um modo de entender o aparelho psíquico”.

Já os outros, ainda que de maneira diversa, tentaram definir a hipnose. Dentro da abordagem ericksoniana Rodrigo Resende nos diz: “hipnose para mim é uma forma de comunicação, na qual você como terapeuta pode lançar idéias, mensagens através de metáforas ou outras formas de indiretas que o terapeutizando irá interpretar de alguma forma que fará sentido para ele”. Uma outra definição é apresentada por Cláudia Maia, que diz ser a hipnose “um estado especial de consciência onde a mente inconsciente está mais presente”.

Mariana Diláscio tem para si que a hipnose “é uma forma diferente de o cérebro funcionar” e Ângela nos diz que:

“A hipnose é um estado alternativo de consciência onde o sujeito que está se submetendo à hipnose vai ter condição de acessar alguns recursos que podem estar destituídos, também existe a possibilidade de estar encontrando paz, calma, uma forma diferente de lidar com as coisas. Mas tudo vai estar ligado aos recursos que não estão sendo utilizados ou não estão sendo bem utilizados.O estado alternativo de consciência é o que a gente consegue a partir do momento que a gente foca a atenção do cliente em coisas diferentes, que na verdade antigamente acreditava que a hipnose era uma inconsciência era trabalhar o próprio inconsciente, hoje a gente sabe que é um estado alternativo de consciência podemos falar em estados alterados de consciência, mas alterado pode dar aquela idéia de uma coisa mais patológica.Alternativo, porque é um estado alternativo de consciência, existe uma dimensão da consciência que não está sendo acessado e a hipnose vai permitir isso.(Ângela Cristina)

Resumindo o conceito para esses profissionais podemos afirmar que a hipnose é uma técnica, uma forma de comunicação, um estado especial, alternativo e diferente do cérebro funcionar.

2 – Objetivo

Ao se investigar os objetivos com que fazem uso da hipnose, em seu trabalho, os psicólogos responderam associando a hipnose a um instrumento para facilitar, melhorar, comunicar e mudar o padrão neural no tratamento psicoterápico.

Condizente ao explicitado Sandra nos diz:

A hipnose como eu a tenho usado no meu consultório, isso é até uma definição do professor Malomar, é uma técnica, um instrumento que ajuda a permear, o trabalho na psicoterapia, ela funciona como um permeabilizante, favorecendo que o paciente possa absorver mais profundamente e mais facilmente o que está sendo elaborado, trabalhado na psicoterapia. (Sandra Donato)

Cláudia Maia, além de falar do uso em função de aspectos facilitadores, menciona também os casos para os quais a julga uma técnica adequada, utilizando-a então para isso.

A hipnose tem sido útil no tratamento de depressão, síndrome de pânico, ansiedade, bulimia, anorexia, insônia, dificuldades de concentração, fobias(elevador, altura, avião, dentista, agulha, anestesia, cirurgia) e outro,. podendo ser usada com diferentes objetivos. Na terapia, ela facilita o acesso aos conteúdos inconscientes abreviando o tempo de terapia. O paciente em estado de hipnose se torna mais susceptível a aceitar novas possibilidades e a novas aprendizagens. No tratamento de fobias de dentista, agulha ela ajuda a resolver o medo possibilitando o paciente passar pelo procedimento odontológico se sentindo seguro.Pode ser também usada como substituto anestésico nos casos de pacientes com alergia ao anestésico químico.(Cláudia Maia)

A comunicação ocorre em todo processo psicoterápico e o uso da hipnose não poderia tornar isso diferente, visto que a fala do hipnólogo desempenha um papel fundamental na formulação das fraseologias e das sugestões. Em função disto o objetivo do uso da hipnose, para um dos entrevistados, é dito da seguinte forma.

Com o objetivo de comunicar. Comunicar com o terapeutizando, geralmente em uma parte da sessão agente faz uma comunicação através de dialogo normal e em outra parte da sessão agente faz um trabalho que eu costumo chamar de exercício, que seria uma continuação do mesmo sentido daquele dialogo de comunicação..(Rodrigo Rezende)

Em uma perspectiva cognitivista Mariana diz que faz uso desta técnica “Para mudar padrão de funcionamento neural”.

Ângela Cristina tem como objetivo, “estar ajudando o cliente a eliciar recursos a acessar coisas que podem ser úteis para ele viver melhor.”

O que podemos depreender é que, para os psicólogos entrevistados, há um objetivo de facilitação do trabalho e conseqüente melhoria do problema, e isso independente da abordagem utilizada por eles; há também menção a uma necessidade apresentada pelo cliente.

3 – Indicação

Foi perguntado se existe um caso mais indicado para a aplicação da hipnose. Os psicólogos entraram em consenso ao dizerem que não existe um caso indicado para a aplicação da hipnose.

Para Sandra Donato existem momentos em que se percebe a necessidade de utilizar a técnica.

Particularmente não consigo dizer que há um caso mais indicado, mas no momento do atendimento a gente percebe que aquele paciente vai ter a necessidade de uma técnica complementar.(Sandra Donato)

A hipnose pode ser aplicada para ajudar a pessoa em qualquer situação. Não há um caso em que sua aplicação seja mais indicada, sendo muito eficaz nos casos de depressão, síndrome de pânico, quadros de ansiedade, doenças psicossomáticas como alopecia areata, vitiligo, síndrome do intestino irritável, retocolite ulcerativa, quadros dispépticos, nas fobias de dentista e fobias em geral. (Cláudia Maia)

A indicação para Rodrigo está voltada para o rapport que é estabelecido entre o terapeuta e o cliente , sendo um dos fatores importantes para a hipnose acontecer como foi dito no capítulo 2.

Para haver hipnose tem que haver um vínculo, tem que haver uma confiança, tem que haver um estado no qual a pessoa se permita concentrar em alguma coisa, dar um tempo para ela mesma.(Rodrigo Resende)

Existem várias técnicas de hipnose, cada qual para um caso específico , assim Mariana afirma que

Não tem um caso indicado. Síndrome de pânico, muitas vezes agente usa relaxamento progressivo, ai tem técnicas de hipnose mais indicadas para determinados casos ou para outro.(Mariana Diláscio)

Para Ângela a indicação está relacionada com a própria abordagem que ela utiliza e afirma o seguinte: “Dentro da minha formação quase que sempre, eu uso tanto indireta e indiretamente com praticamente todo tipo de caso que eu trabalho”.

Existem várias propostas de técnicas para cada tipo de caso, assim o que determina a indicação está mais voltado a qual das técnicas é favorável para a particularidade do problema apresentado ou do que melhor se identifica com o cliente do que propriamente com uma indicação pré-escrita por parte do psicólogo.

4 – Contra-Indicação

A contra-indicação para a aplicação da hipnose no tratamento psicoterápico está vinculada à motivação, a ética profissional e na aceitação de quem a está recebendo, neste aspecto os entrevistados concordam entre si em não haver uma contra-indicação em algum caso específico patológico ou físico.

Em concordância Sandra Donato afirma que “Não há contra-indicação, não há risco. Não há problemas, o que pode acontecer é a pessoa não querer.”

A motivação do paciente é fundamental , ele tem que concordar e se permitir entra em hipnose para que seja feito o tratamento, sem esses requisitos não é indicado. Maia cita algumas situações que são desfavoráveis .

Ausência total de interesse e/ou motivação por parte do paciente, simples remoção de sintomas, sem intenção de se chegar à causa dos mesmos e tratá-los para a cura da doença ou sem conhecimentos adequados para tanto.Como meio de satisfazer as necessidades de “poder” do profissional e em situações em que o profissional não se sinta preparado.(Cláudia Maia)

Rodrigo relaciona a pergunta ao momento em que o processo hipnótico não é consumado “O que pode acontecer é a hipnose não funcionar, a comunicação não acontecer. Mas não seria exatamente uma contra-indicação.” (Rodrigo Rezende)

O modo como se entende a hipnose hoje vai dizer também sobre como ela é utilizada , desta forma Mariana afirma que

Para erickson qualquer estado no qual a sua atenção é focado, no seu interno é um estado hipnótico, então você não precisa fazer aquela hipnose formal “vou popotizar você com um pendulizinho” nem nada. Com essa forma de entender hipnose não há contra indicação.(Mariana Diláscio)

Em respeito à ética profissional Ângela nos diz: “A contra-indicação vai ser a hipnose mais formal quando o cliente não estiver confortável, mas se algum tipo de caso trazer alguma complicação é reversível, tudo a gente pode estar trabalhando e ajudando o cliente a ficar bem.” (Ângela Cristina)

A contra-indicação, então para esses profissionais tem haver com a postura por parte do hipnólogo e a aceitação do paciente do que propriamente da hipnose em si.

5 – Riscos

Diante dos mitos relacionados com o ato de hipnotizar e ser hipnotizado foi perguntado se há riscos na utilização desta técnica. Como podemos observar não há riscos para o paciente porém as causas maléficas estão ligadas ao mau uso da técnica pelo profissional.

Não há problema nenhum. Isso é um mito de que a hipnose poderia fazer emergir um surto, ou outro estado, de jeito nenhum, a hipnose é um estado de consciência, um estado de relaxamento, e são muito bom os resultados que obtemos. .(Sandra Donato)

Como foi mencionado para se ter um bom resultado e benefícios com a hipnose o profissional tem que ser competente e ético.

“Tudo que inicialmente pode ser de grande utilidade, quando usado de forma inadequada ou indevida, pode causar prejuízos. Um bisturi que é tão útil à vida profissional do cirurgião, se usado indevidamente, pode causar danos à saúde da pessoa. A hipnose, quando usada por alguém que não tenha os conhecimentos necessários, pode acionar, desnecessariamente, processos internos que estavam bem acomodados.” (Cláudia Maia)

Não com a Hipnose Erickisoniana quando a pessoa tem uma boa formação é uma coisa muito protegida e não tem riscos para o paciente não. O risco vai depender da formação do terapeuta e da abordagem que ele vai utilizar. Com a Hipnose Ericksoniana, hoje têm muitas pesquisas e sabemos que não há riscos.(Ângela Cristina)

O subconsciente também é sábio, tendo também a função de preservar e proteger informações, assim quando uma sugestão dada é recebida como algo prejudicial ele rejeita a sugestão.

Não, o risco que pode haver, a comunicação não acontecer. E a ruptura seria uma má intenção á comunicação, o terapeutizando ele se protege, da mesma forma que quando a gente na nossa vida normal, quando agente recebe uma mensagem uma comunicação que a gente considera perigosa ou não boa, nós nos recusamos a aceitar aquela mensagem o mesmo acontece no caso da hipnose. (Rodrigo Rezende)

A hipnose ericksoniana trabalha com aquilo que o cliente traz , respeitando-o e direcionando o tratamento até onde ele suporta.

Nenhum. Justamente por causa da utilização e do cortar sobre medida, a terapia ericksoniana ela é extremamente ética ela não vai além do que o cliente dá conta. Então a gente não vai fazer nenhuma dessas coisas zem, de regressão a vidas passadas, que pode colocar o paciente em muita angústia.(Mariana Diláscio)

Todos os entrevistados concordaram em não haver risco para o cliente ao ser hipnotizado, destacando a ética profissional , a abordagem e a capacidade do subconsciente em aceitar ou não sugestões.

6 – Eficácia

Quanto á eficácia produzida no tratamento onde a hipnose é uma ferramenta que auxilia o paciente na busca do bem-estar existe limitações para um resultado prático e eficiente, visto que como muitos autores afirmam a hipnose não funciona como uma mágica.

Ao dizer sobre a eficácia Sandra, Cláudia e Ângela citam alguns casos que se obtêm bons resultados com a hipnose.

Eu utilizo em vários casos, agora eu acho especialmente é muito bom utilizar quando há um caso de angústia, de ansiedade muito explicita, muito aguda, é uma técnica que ajuda muito.(Sandra Donato)

Nas doenças do aparelho digestivo, nas doenças dermatológicas, na depressão, pânico e outros. Essas doenças apresentam uma deficiência na captação do neurotransmissor serotonina, 90% da serotonina do nosso corpo atua no aparelho digestivo. Do ponto de vista da neurofisiologia, a hipnose atua na formação reticular que é uma rede de neurônios. (Cláudia Maia)

Em praticamente em todos os casos vai ser eficaz, sabemos por exemplo que em caso de depressão, transtorno de sono, ansiedade, todos os transtornos de ansiedade desde TOC, pânico, vai ser muito interessante o uso da hipnose porque ajuda a pessoa a encontrar um controle interno.(Ângela Cristina)

A eficácia de um tratamento depende de vários fatores , Rodrigo e Mariana apontam para um processo psicoterápio onde a hipnose é uma ferramenta, porém o que irá determinar os resultados é o conjunto desta.

Muitas vezes os resultados de uma comunicação hipnótica elas acontecem ao longo do processo, ela não é uma resposta imediata. E a partir de algum momento você percebe que está tendo uma recuperação muito boa, esta muito bem você pode suspeitar que a comunicação hipnótica colaborou muito para tanto, mas como na terapia não é só a hipnose que faz o trabalho, às vezes é difícil você identificar, qual foi o papel da hipnose. (Rodrigo Resende)

O trabalho de erickson tem um princípio fundamental que é o principio da utilização e do portar sobre medida, são dois princípios, então o que a gente pensa, a gente trabalha com o que o cliente traz, a gente vai ver o que é eficiente para aquele cliente, naquele momento naquela situação de vida dele. (Mariana Diláscio)

A eficácia do tratamento por meio da hipnose tem relação com o que o cliente traz e com o processo da terapia. A hipnose como foi visto no decorrer do trabalho contribui para o tratamento e por meio dela pode modificar a interpretação de uma situação e influenciar nas respostas do sujeito.

7 – Perfis dos Clientes

Não existe um perfil específico do cliente que procura ou busca o tratamento psicoterápico como afirma uma das entrevistadas: “Não há um perfil de pessoa que procura pela hipnose. São as pessoas em geral, que buscam ajuda, que buscam tratamento para as doenças orgânicas ou emocionais”. (Cláudia Maia)

“Tem pessoas que vem procurar especialmente a hipnoterapia e eu acho que são pessoas ou curiosas, ou já cansadas de outras abordagens, em geral cansadas da psicanálise clássica do divã que querem buscar uma outra abordagem mais dinâmica, e até mesmo mais rápida, embora agente não possa garantir que seja mais rápida por estar usando a hipnose, há uma tendência mas não é garantido.” (Sandra Donato)

Há concordâncias na fala de Sandra com da psicóloga Ângela:

Normalmente são pessoas, quando procuram sabendo que o profissional trabalha com hipnose, que já passaram por vários tipos de terapia diferentes e não conseguiram encontrar uma solução para o que estavam buscando, também pessoas que estão fazendo tratamento com algum psiquiatra ou com alguma abordagem mais moderna que tem conhecimento dos benefícios da hipnose e alguma patologia mais séria eles indicam mais. Mas para qualquer pessoa serve.(Ângela Cristina)

As pessoas ao buscar pela terapia muitas vezes não sabem que abordagem ou técnicas o profissional utiliza, porém ao serem informados como é o tratamento com a hipnose, como afirma Ferreira (2006), contribui para o sucesso dos resultados.

Na minha pouca experiência, o que eu vejo é uma postura frente à hipnose, alguns ficam curiosos e querem matar uma curiosidade, enquanto que outros têm algum receio, tem algum medo que seja uma técnica manipuladora e que elas vão fazer alguma coisa que não é da intenção delas, mas quando elas percebem que não se trata disso elas se sentem a vontade e as vezes eu percebo que alguns clientes gostam, sentem um relaxamento, um prazer em fazer a hipnose.(Rodrigo Resende)

“…Trabalho muito por indicação… até hoje não teve uma pessoa que me procurasse por conta da hipnose” (Mariana Diláscio)

Podemos dizer que não existe um perfil pela variedade de pessoas que buscam terapia, encontramos nas respostas dos profissionais alguns tipos de clientes, aqueles curiosos, outros cansados de outras abordagens, pessoas buscando soluções, alguns indicados e alguns desinformados.

8 – Aceitação social e profissional

A aceitação da utilização no meio profissional e social da prática hipnótica para esses profissionais está ligada à informação sobre o assunto. Como vimos no capítulo 3 , a hipnose pode ser utilizada por médicos, psicólogos e odontólogos havendo um crescimento desta técnica na área da saúde, no entanto os entrevistados apontam para a pouca divulgação e desinformação a respeito.

Em relação aos profissionais, o que a gente nota,…que há muito desconhecimento, muitas vezes alguns profissionais são contra a técnica á priore, mesmo antes de terem informações sobre o que é a hipnose,… há um preconceito muito grande dos psicólogos e do meio psi, como se a hipnose fosse uma mágica, uma técnica alternativa, holística e não é nada disso, é ciência, ciência pesquisada no mundo inteiro. …Então é um estudo cientifico e sério….os pacientes quando vem procurar a terapia, eles vêm em busca de ajuda, eles querem, resultados, querem resolver aquela situação que estão vivendo e muitas vezes estão abertos a novas técnicas, a possibilidades novas que eles nem conhecem,acho que, por parte dos pacientes é muito boa a aceitação. (Sandra Donato)

Existe ainda pouco entendimento do que é hipnose mesmo por que existem abordagens diferentes, mas eu vejo que outros profissionais como dentistas médicos, têm utilizado da hipnose e então eu vejo mais abertura nesse sentido, mas existe pouca divulgação da hipnose cientifica como terapia. (Rodrigo Resende)

O modo que entende-se a hipnose é importante para aqueles que a busca , seja para complementar o seu trabalho, seja como forma de tratamento.

As pessoas procuram o trabalho com a hipnose muito mais confiantes do que ela possa ajudá-las, efetivamente. Já são muitos os profissionais que buscam o curso de hipnose certos de que a técnica será mais uma ferramenta de trabalho que poderá ajudá-los com os seus pacientes. (Cláudia Maia)

Há pouco conhecimento sobre hipnose no meio acadêmico para Mariana , no entanto Ângela pontua uma maior abertura e busca pelo tema. Nota-se uma mudança na postura do corpo docente e dos alunos frente a hipnose, desta forma as entrevistadas nos diz:

Na academia, na universidade eu vejo ainda muito preconceito. No semestre passado eu dei uma disciplina em Betim, que era Terapia Ericksoniana, era um tema contemporâneo, e ai que as pessoas descobriram que eu trabalhava com hipnose, porque até então eu não alardeava muito, ai os meninos falavam você trabalha com hipnose? isso funciona? Então ai a gente vê muito desconhecimento e muito preconceito. Porque ainda entende hipnose como forma de eliminar sintoma, então o que eu vejo é que precisamos divulgar essa nova forma de fazer hipnose. (Mariana Diláscio)

Está crescendo cada vez mais, desde antes da regulamentação da hipnose, depois o próprio Conselho Regional recomenda para alguns casos que buscam o conselho, o uso da hipnose, agora a gente tem recebido alunos de faculdade buscando formação, informação o que há dez anos atrás não acontecia. Estando abertos mesmos a novos conhecimentos. Atribuo esta aceitação principalmente ao crescimento da Escola Ericksoniana no Brasil porque além de ser uma hipnose mais moderna é uma abordagem mais protegida e que existe muita pesquisa, é uma coisa mais científica, é uma hipnose que não parou no tempo e que começou lá com Erickson, Escola de Nancy, na primeira metade do século passado e têm avançado cada vez mais com profissionais renomados que vem se modernizando, atualizando, temos grandes divulgadores viajando pelo mundo.(Ângela Cristina)

Contudo a aceitação da hipnose no meio profissional e social, para esses profissionais, está intimamente relacionada com o conhecimento a respeito desta técnica e distante de uma crítica negativa sobre a mesma.

9 – Mudanças desde o século XX

No sentido de averiguar quanto ás mudanças que ocorreram nas últimas décadas que prosseguiram, em relação à utilização da técnica da hipnose pelos psicólogos, encontramos uma postura diferente ao qual é explicitada pela fala dos atuais profissionais do século XXI.

Apesar de Freud ter abandonado a hipnose como foi descrito no capítulo 1 , assistimos hoje a um retorno da técnica por profissionais psicanalistas.

Mudou bastante. A utilização, o entendimento do uso da hipnose, desde a época de Charcot, a utilização nas histéricas. Naquela época supunha-se que haveria uma regressão, e que a hipnose trabalharia o estado traumático, eliminando aquele sintoma. Era necessário que utiliza-se um estado de transe hipnótico profundo e que a paciente tivesse amnésia, tinham como intenção, trabalhar o momento do trauma, e o que eles perceberam é que resultados aconteciam em alguns casos porque nem todos os pacientes entravam no estado de transe profundo, os resultados eram obtidos só nos que entravam em transe profundo, e que os sintomas voltavam depois de algum tempo,. Então hoje já se sabe de tudo, Freud a partir daí desenvolveu a técnica da associação livre por que ele percebeu o fracasso da utilização apenas da hipnose. Então hoje nós que estamos retomando a técnica consideramos tudo isso, o estado de transe que trabalhamos, é um estado de transe leve ou médio.

Na hipnoterapia a gente utiliza um estado de transe chamado médio ou estado de transe leve, não é aquele estado de transe profundo que eles utilizavam lá no século XX, e também a nossa intenção é muito diferente não é a redução de sintoma, não é sumir com os sintomas, a intenção é utilizar esta técnica como um complemento á abordagem analítica ou qualquer outra abordagem profissional venha a ter, no meu caso a Psicanálise .(Sandra Donato)

A mudança ocorreu tanto no entendimento sobre a hipnose como a maneira que se faz uso dela. O estado de transe mais indicado na hipnoterapia segundo Bauer (2002) é o médio sendo considerado um estado em que a sugestão é mais eficaz, e o transe profundo por ocorrer amnésia prejudica nos resultados.

As mudanças são inúmeras e podem ser vistas tanto na forma da hipnose ser conceituada quanto de ser aplicada. Hoje, não usamos instrumentos para levar a pessoa ao estado de hipnose, apenas a palavra. A pessoa não precisa estar num transe profundo para desenvolvermos um bom trabalho. As mudanças acontecem de dentro para fora, é a própria pessoa a responsável pelo processo da cura.(Cláudia Maia)

O papel do hipnólogo também é algo que modificou , como foi citado no capítulo dois, a mudança que ocorre está na mente do paciente sendo o mérito do profissional apenas a formulação adequada das sugestões, diferente de como era considerado em outras épocas, em que atribuía ao indutor poder sobre as mudanças que ocorriam no receptor.

“…certamente mudou mais em vários formatos, porque a hipnose é apenas uma técnica uma ferramenta não é uma abordagem psicológica, então a hipnose pode ser utilizada em diversas abordagens em formato diferente, no caso da abordagem ericksoniana, certamente é muito diferente da hipnose divulgada no inicio do século XX ou final do século IX, naquela época era uma coisa muito diretiva, em colocar uma pessoa sobre o controle de outra, no caso da hipnose ericksoniana, é mais no sentido de pessoas livremente entrar em contato com o seu universo interior e escolher e encontrar recursos que possam ajudá-la a resolver questões que ela está vivenciando naquele momento, que ela está sentindo dificuldade, o trabalho do terapeuta é apenas propiciar essa condição, melhorar as condições das pessoas buscar dentro dela mesma os recursos que ela tem ou ajudá-la a formatar esse recurso de tal forma que possa ajudá-la mais efetivamente.” (Rodrigo Resende)

As pessoas confundem e vê a hipnose só de uma maneira, temos várias escolas de hipnose. A gente percebe que tem avanços principalmente dentro da Escola Ericksoniana, quando começamos a estudar o primeiro livro do erickson que chama “Seminarios Didáticos” de Jeffry Zeig.Erickson não descreveu uma teoria, ele foi um grande prático, ele escreveu muito sobre o que ele fez, ele não decreveu uma teoria de que o homem é assim, de uma visão de homem e tal, muito menos ele foi didático para ensinar a se fazer hipnose. Muita coisa avançou, temos ampliado a possibilidade de utilização da hipnose, por exemplo temos grupo terapêutico e não de terapia, que a pessoa vem para trabalhar alguns temas que propomos, que algum tempo atrás não havia se pensado desta forma. Não é que tenha mudado mas ficou mais claro e com uma utilização mais ampla. (Ângela Crisinta)

A eficácia comprovada por meio de pesquisa científica, o próprio CFP já sancionou a hipnose por meio de portaria. Ta havendo muita pesquisa, básica mesmo, com o uso de estado alterado de consciência e a gente tem visto que realmente o cérebro muda de funcionamento. O fato de ter mudado o foco também, da hipnose como uma forma de mudar a forma de funcionar o nosso cérebro, e não de eliminar sintoma. Então a volta da hipnose está muito mais ligada a uma nova postura cientifica, que tem haver com essa pós-modernidade uma volta uma exploração de recurso pela ciência do que simplesmente pela rapidez, porque tem terapia que demora, a gente fala que a terapia com base cognitivista ela tem duração limitada isso não significa que ela seja breve. (Mariana Diláscio)

Na atualidade a hipnose possui mérito científico e também é considerada uma ferramenta quando administrada por um profissional habilidoso e ético, promotora de saúde e bem estar.Por fim os estudos e a prática desta técnica vem se desenvolvendo cada vez mais.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir do resgate histórico, nos defrontamos com a trajetória que a utilização da hipnose teve na história da humanidade para se firmar como uma ferramenta científica para a promoção da saúde e do bem estar das pessoas. Muitos pesquisadores foram perseguidos, chamados de charlatães, outros conseguiram provar e argumentar sua eficiência e seus fundamentos, alguns a utilizaram como uma ferramenta para atingir o sucesso e o reconhecimento e outros ainda com o intuito de proporcionar às pessoas um alívio de sua dor psíquica e física. Chegamos na contemporaneidade com uma melhor aceitação científica e social, do que ainda pode vir a se aperfeiçoar cada vez mais em prol da saúde.

Sem dúvida resultado do empenho desses pesquisadores, atualmente estamos vendo uma vasta aceitação no meio médico, odontológico e psicológico do uso da hipnose. O porquê disto pode ser inferido a partir dos excelentes resultados obtidos com a utilização dessa prática na terapia, como anestesia e na recuperação de enfermos. O êxito desse uso, ao concluir a partir da pesquisa feita, é que os mecanismos cerebrais em sua complexidade de funcionamento respondem indiscutivelmente ao poder da sugestão e da auto-sugestão, incluindo a sugestionabilidade e a suscetibilidade como fatores deste processo. Sendo assim, não podemos negar a eficiência da hipnose quando bem empregada pelo hipnólogo e quando aceita por quem a recebe.

Não se trata aqui de acreditar ou não no poder hipnótico e sim de reconhecer sua prática como sendo formalmente utilizada pelos profissionais da saúde e da sua real e exitosa intervenção física e psíquica. As entrevistas nos mostram uma prática ética e teoricamente fundamentada da hipnose, o que a transforma em uma ferramenta útil com valiosas contribuições no processo psicoterápico.

Contudo ainda há muito que ser estudado e aprofundado na prática do hipnotismo, para que possamos explorar cada vez mais as capacidades cerebrais.



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Portfólio

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SUMÁRIO

Introdução
Memorial Acadêmico
1 PORTFÓLIO
1.1 Relatório do texto 1
2 O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO
2.1 Relatório do texto 2
3 A IMPORTÃNCIA DA LEITURA
3.1 Relatório do texto 3
4 TÉCNICAS PARA ELABORAÇÃO DOS TRABALHOS DE GRADUAÇÃO

INTRODUÇÃO

Neste trabalho acadêmico vamos apresentar o conhecimento produzido e adquirido no decorrer das aulas ministradas pela professora Luciana de Azevedo Couto.

Através de relatórios e idéias concebidas sobre temas abordados em sala de aula, normalmente o portfólio acadêmico é feito individualmente, no entanto foi autorizado que fizéssemos em grupos, o que traz maior interação entre os alunos, e isso nos trouxe a oportunidade de sanar as dúvidas advindas da forma de elaboração do mesmo, pois é de extrema necessidade no processo de formação de um acadêmico a construção do saber, que as vezes cai no esquecimento as etapas importantes da produção de um trabalho acadêmico.

E com motivação debatemos em grupo as aulas ministradas, juntamente com pesquisas colocamos em papel, para que o trabalho se desenvolvesse com idéias claras e objetivas, o que faz com que a produção do trabalho fique mais rico, consequentemente enriquecendo também os nossos conhecimentos e desenvolvimento estudantil, para que no futuro possamos ser profissionais atualizados nas regras que nos foram impostas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), e sermos profissionais brilhantes na área e exerceremos.

MEMORIAL ACADÊMICO

Diana Almeida Prudente

Iniciei minha vida escolar no ano de 1986 aos 5 anos de idade na Escola Municipal Sérgio Cezar Machado, na cidade de Cristinópolis,que é a cidade do meu nascimento. Não tive muitas dificuldades no inicio dos estudos por isso pude deixar de fazer o pré e passei para primeira serie do ensino fundamental no Colégio Estadual José Pereira Faustino no ano de 1987 aos 6 anos de idade, estudei neste colégio até completar a 5ª serie.

No ano de 1993 já com 11 anos de idade mudei para a cidade de Goiânia, na qual moro até hoje, me matriculei no Colégio Agostiniano no setor Aeroporto e lá conclui a 6ª e 7ª e inicio da 8ª serie. Aos 13 anos, no ano de 1995 devido a dificuldades de aprendizagem meus pais resolveram me transferir de escola então conclui a 8ª serie e o ensino médio no Colégio Objetivo no setor Bueno.

Após concluir o ensino médio aos 16 anos de idade, no ano de 1999, fiz a prova de vestibular, mas não consegui a aprovação, então após 6 meses depois de concluir o ensino médio me matriculei na Universidade Salgado de Oliveira onde fiz até o 5º período do curso de Comércio Exterior, no final do ano de 2001 optei por desistir do curso, já que eu não tinha nenhuma motivação pelo mesmo.

Já no ano seguinte, 2002, com 20 anos de idade resolvi me casar, foi quando também comecei a minha vida profissional, onde comecei a trabalhar, passando por uma e outra empresa pude descobrir minha aptidão, que é a área administrativa, burocrática, contas, departamento de pessoal.

Somente aos 27 anos de idade neste ano de 2009 é que tive a oportunidade de retornar os estudos, e então com mais maturidade e objetividade me matriculei na Faculdade Padrão no curso de Graduação de Ciências Contábeis, tenho muitos objetivos e tenho certeza que com este curso poderei realizar vários deles.

Ismael da Silva Coelho

Comecei a minha vida estudantil no ano de 1997, aos oito anos de idade no Colégio Municipal Dom Pedro 1 que se localiza na zona rural do município de Fortaleza dos Nogueiras – MA. Lá estudei da 1° serie a 4° serie, ou seja, do ano de 1997 a 2000. Já no ano de 2002 passei a estudar na sede do município citada acima, no Colégio Estadual Marcelino Machado do estado do Maranhão, estudei da 5° serie a 8° serie do primeiro grau, no ano de 2002 a 2005.

E ao ser aprovado para concluir o ensino médio transferi-me para o colégio Estadual Humberto de Alencar Castelo Branco, que também que se localiza no estado do Maranhão, onde conclui o três anos do ensino médio, no período de 2005 a 2008.

Hoje moro em Goiânia-GO, onde me matriculei na Faculdade Padrão no curso de Graduação de Ciências Contábeis. E em toda a minha vida estudantil consegui méritos importantes como: sempre me destacar como uns dos melhores alunos da classe, e não ser reprovado de ano.

Esta é a minha história da qual tenho orgulho de dizer como estudante, e que terei orgulho de dizer aos meus futuros filhos.

O início da vida escolar

Sou a caçula de uma família de dois irmãos, Nasci no ano de 1991, em goiânia ( GO ).

Em 1995 quando eu tinha quatro anos de idade, ingressei a minha vida escolar no jardim da infância, na Escola Estadual Verany Machado de Oliveira onde realizei os meus estudos em nível fundamental e médio. assim, todo o processo de aprendizagem foi se desenvolvendo com muito afinco e dedicação, desde aquela época sou instigada a reflexão e repercussão de meus atos.

Desde que entrei no colegial em 1999, foram dias inesquecíveis, repleto de aventuras e bricadeiras, porém com muita respossabilidade, pois me abdique nos estudos, portanto recebi méritos como: não reprovar ao longo desta jornada e não tirar notas a baixo da média. Então somente em 2008, no terceiro ano do segundo grau tive certeza do curso que queria fazer, por gostar de calculos e trabalhar na area administrativa.

O sonhado ingresso na faculdade

Passado seis meses de concluído o ensino médio, em 2009, ingressei na Faculdade Padrão no Curso de Ciências Contábeis, em busca da excelência profissional e pessoal onde daqui quatro anos serei uma profissional no ramo de contabilidade.

Kelem do Espírito Santo

Iniciei minha vida escolar no ano de 1985 aos 5 anos de idade na escola pública Domingos Baptista de Abrel, no setor Vera Cruz 1 na cidade de Goiânia, onde eu resido até hoje. Minha mãe teve muita dificuldade quando eu comecei a estudar, pois eu era a caçula dos irmãos e não ficava sem ela, quando a mamãe me deixava na sala de aula eu começava a chorar, então ela ficava com dó e me levava de volta para casa, dificultando assim o meu aprendizado e desenvolvimento, além de tudo não tive muito apoio da professora para me incentivar a continuar os estudos.

Passados 2 anos afastada da escola minha mãe me matriculou em outra instituição publica, foi então que conheci a minha adorada e querida professora Sandra, que me ensinou os primeiros passos, me alfabetizando e me dando todo apoio necessário para minha vida estudantil. A minha querida Professora Sandra dedico todo o meu carinho e respeito como profissional e ser humano, que bom seria se todos tivessem o privilegio de tela como mestra.

Aos 16 anos de idade comecei o segundo grau que agora é o ensino médio, fui então estudar no Colégio estadual Professor Pedro Gomes no setor Campinas, Goiânia onde recebi grandes conhecimentos, me lembro do professor de educação física que todas as vezes que iria começar as aulas dele todos os alunos tinham que fazer uma oração e cantar os hinos do Brasil, e o hino da Bandeira, nos incentivando a ser bons patriarcas e ter orgulho do nosso país,. Também fiz parte da banda marcial do Colégio, viajávamos muito para nos apresentar. Este período foi muito bom, pois fiz grandes e inesquecíveis amigos, muitas vezes sinto saudades dessa época, pois fui muito feliz.

Aos 29 anos de idade no ano de 2009, após me tornar mãe voltei a estudar e engracei na universidade Padrão no curso de Graduação de Ciências Contábeis, estou gostando muito, e espero me tornar uma grande profissional no futuro.

Poliana Ferreira da Mata

O início da vida escolar

Sou a filha “do meio” de uma família de dois irmãos, nasci no ano de 1990, em Goiânia (GO).

Quando eu tinha 4 (quatro) ano de idade em 1994 ingressei a minha vida escolar no jardim da infância, na Escola Viver para Aprender, depois de concluir o jardim da infância em 1995 mudei para o Colégio Estadual Verany Machado de Oliveira onde realizei meus estudos em nível fundamental e médio com conclusão no ano de 2008. Assim, todo o processo de aprendizagem foi se desenvolvendo com muito afinco e dedicação, desde aquela época aprendi a ser um ser humano melhor e reconhecer o significado dos meus atos e palavras.

Os meus treze anos de colegial foram cheio de aventuras e aprendizado, pois foram anos de muitas emoções e companheirismo entre os colegas de classe e também repleto de muitas brincadeiras, mas claro tudo com limite. Mas apesar das brincadeiras não deixei de tirar notas acima da média e também não reprovei em nenhuma série. Decidi-me enfim em qual curso iria seguir após conclusão do ensino médio na ingressão no meu serviço na área administrativa e com poucos meses na área contábil e também por ter habilidade em cálculos.

O sonhado ingresso na faculdade

Passado 06 (seis) meses de ter concluído o ensino médio, ingressei na faculdade Padrão no curso de Ciências Contábeis, em busca da excelência profissional e pessoal onde daqui alguns anos serei uma profissional do ramo de contabilidade.

1. O PORTFÓLIO

Uma proposta de avaliação como reconstrução do processo de aprendizagem

0 Referencial Teórico:

Considerando que a formação escolar necessita ser repensada e refletida, pelo fato de os valores social e os saberes disciplinares estarem mudando, a educação atual necessita respeitar as inteligências múltiplas dos seus educandos. Assim, para ser coerente com essa visão uma modalidade de aprendizagem e avaliação, advinda do campo da arte: 0 PORTFOLIO desponta como proposta promissora.

0 seu uso em educação constitui uma estratégia que procura atender a necessidade de aprofundar о conhecimento sobre a relação ensino-aprendizagem, assegurando aos alunos e professores uma compreensão maior do que foi ensinado e, desse modo, índices mais elevados de qualidade.

Introdução

Nos últimos tempos, mais precisamente na ultima década, ocorreu uma serie de mudanças nas concepções de ensino e aprendizagem, resultando em repercussões importantes no campo das praticas das avaliações escolares.

E sabido que a concepção de saber como acumulação descontextualizada de informação, do ensino apenas como transmissão de mensagens codificadas, e de aprendizagem como repetição escrita do conteúdo transmitido pelo professor e pelo material didático não tem mais lugar em propostas de educação que levem о ensino a serio.

0 saber não pode mais ser considerado como algo estático, e muito menos ser exclusividade da escola. Ё muito grande о volume de informações que ocorrem e são difundidas com rapidez a cada momento pelos meios de comunicação.

Nesse sentido, Hernandez (2000) aborda essa questão, ressaltando que essas mudanças foram reconhecidas pela maioria das propostas curriculares realizadas desde os anos setenta. Propostas que enfatizam a forma de avaliar a aprendizagem para poder: “Levar adiante uma avaliação da aprendizagem que pudesse dar conta e estar em consonância com as finalidades educativas” (p. 163-164).

Isso significa que a proposta atual de educação e a de tornar a evolução a peca chave do ensino e da aprendizagem, permitindo que os professores tenham clareza do que seus alunos aprenderam e que os alunos tenham uma referenda do que necessitam aprender.

Hernandez (1998) define portfólio como sendo um “continente de diferentes classes de documentos (notas pessoais, experiências de aula, trabalhos pontuais, controle de)”.

(Aprendizagem, conexões com outros temas fora da escola, representações visuais, etc.) que proporciona evidências do conhecimento que foi construído, das estratégias utilizadas e da disposição de quem о elabora em continuar aprendendo” (p. 100).

Vilas Boas (2001), referindo-se ao processo de avaliação formativa, sugere о uso do portfólio ou pasta avaliativa como um instrumento eficaz para realização de tal avaliação. Visto que reúne as produções dos alunos e professores, para que, eles próprios e outras pessoas conheçam seus esforços, seus progressos e suas necessidades em uma determinada área.

Sá – Chaves (2000) referem-se ao portfólio reflexivo como sendo instrumentos de dialogo entre educador e educando, que não são produzidos so no termino do penodo para fins avaliativos.

São continuamente (re) elaborados na ação e partilhados de forma a recolherem, em tempo útil, outros modos de ver e de interpretar, que facilitem ao aluno uma ampliação e diversificação do seu olhar, levando-o a tomada de decisões, ao reconhecimento da necessidade de fazer opções, de julgar, de definir critérios, alem de permitir as duvidas e conflitos para deles poder emergir mais consciente, mais informado, mais seguro de si e mais tolerante quanto às hipóteses dos outros.

‘Nesse sentido, pode-se entender que Sa-Chaves (2000) também compreende о portfólio como ‘ sendo um instrumento de estimulação do pensamento reflexivo, facilitando oportunidades para documentar, registrar e estruturar os procedimentos e a própria aprendizagem. ” ‘

0 portfólio evidencia ao mesmo tempo, tanto para о educando quanto para о educador, processes de auto-reflexao. Com isso, ele possibilita о sucesso do estudante que, em tempo, pode transformar mudar, (re) equacionar sua aprendizagem, em vez de simplesmente saber sobre ela.

0 Portfólio permite ao professor repensar sua pratica e suas condutas pedagógicas em vez de somente fazer algum juízo, avaliar ou classificar о processo de ensino-aprendizagem do aluno.

Aprofundando um pouco mais о pensamento de Sa-Chaves (2000) pode-se observar рог meio de suas afirmações que uso do portfólio permite:

• “promover о desenvolvimento reflexivo dos participantes;
• Estimular о processo de enriquecimento conceptual;
• Estruturar a organização conceptual ao nível individual;
• Fundamentar os processos de reflexão para a ação;
• Garantir mecanismo de aprofundamento conceptual continuado;
• Estimular a originalidade e criatividade individual no que se refere aos processos de intervenção educativa;
• Contribuir para a construção personalizada do conhecimento;
• Permitir a regulação em tempo útil de conflitos, garantindo о desenvolvimento progressivo da autonomia e da identidade;
• Facilitar os processos de “auto e hetero-avaliacao” (p. 10).

0 portfólio e um elemento de auto-reflexao e avaliação segundo Gardner (1994), visto refletir a crença de que os estudantes aprendem melhor e de uma forma mais integral.

Faz com que о estudante tenha um compromisso com as atividades que acontecem durante um período de tempo significativo e que se constroem sobre conexões naturais com os conhecimentos escolares.

Segundo о editor da obra “Manual de Portfólio” de Shores e Grace (2001) todos se beneficiam ao desenvolver bons portfólios, pois esse tipo de avaliação aumenta a cooperação e о entendimento entre professores e pais.

Ao individualizar as experiências de aprendizagem permite que cada criança possa crescer no seu próprio potencial Maximo; possibilita o cada professor a determinação do seu próprio ritmo, encorajando seu desenvolvimento profissional, e acompanhar о trabalho da criança através de diferentes domínios de aprendizagens.

Nesse sentido. Shores e Grace (2001) sugerem a aplicação de técnicas de avaliação com portfólio em crianças, afirmando que essas técnicas encorajam о ensino centrado no desenvolvimento infantil.

As crianças que desenvolvem о habito de refletir sobre suas experiências aprendem a definir objetivos de aprendizagem por si mesmas.

Hernandez (2000) destaca que a proposta de avaliação portfólio fundamenta-se na intenção de levar adiante uma avaliação que esteja em consonância com a natureza evolutiva do processo de aprendizagem.

0 que pode ser referendado por De Sordi (2000), quando apresenta о portfólio como uma possibilidade interessante para avaliar a aprendizagem do estudante universitário de modo continue e processual, uma vez que reúne sistematicamente as diferentes produções dos alunos e os estimulam as mais diversas formas de expressões de suas qualidades.

Isso faz com que se rompa com о vicio de super valorizar a escrita e a comunicação em situações formais previamente estipuladas pelo professor. De acordo com as considerações trazidas, pode-se afirmar que um portfólio e muito mais que uma reunião de trabalhos ou materiais colocados numa pasta.

Alem de selecionar e ordenar evidencias de aprendizagem do aluno possibilita, também, identificar questões relacionadas ao modo como os estudantes e os educadores refletem sobre quais os reais objetivos de sua aprendizagem, quais foram cumpridos e quais não foram alcançados.

Hernandez (2000) descreve, com clareza, os componentes e todos os passes que devem ser seguidos para a realização de um portfólio, que são:

• O estabelecimento do objetivo do portfólio por parte do docente;
• O estabelecimento das finalidades de aprendizagem por parte de cada estudante;
• A integração das evidendas e experiências de aprendizagem;
• A seleção das fontes que comporão о portifólio e a reflexão do estudante acerca de seu próprio desenvolvimento.
• Ressalta-se que о estudante deve ter um propósito, ou seja, criar, recolher e organizar todo material que evidência о seu progresso, de tal forma que demonstre sua avaliação em» relação as finalidades estabelecidas.

Ha, também, que haver um lugar onde será colocado todo о material produzido para о portfólio, que e denominado continente. Esse continente pode adquirir diferentes modalidades, como caixa, cartaz, pasta, CD-ROM, etc.

Collins (1991) distingue quatro tipos de evidencias que podem fazer parte de um portfólio: os artefatos que são documentos produzidos durante о trabalho do curso e vão desde as atividades em sala de aula ate os trabalhos realizados por inidativa própria dos alunos ou por sugestão do professor.

As reproduções são documentos que incluem acontecimentos que normalmente não se recolhem em sala de aula, como gravações, impressão de pagina de internet, etc.;

Os atestados que são documentos sobre о trabalho do aluno, preparados por outras pessoas, como os comentários realizados pelo professor e as produções que são os documentos especificamente preparados para dar forma e sentido ao portfólio. Incluem três tipos de estratégias:

• EXPLICACAO DE METAS;
• AS REFLEXOES E
• AS ANOTACOES.

SINTETIZANDO:

DEFINICAO:

• Pasta que contem amostras dos trabalhos setedonados, que reflitam о seu pensar, sentir, agir e a sua capacidade de realização;
• Ё um espaço para armazenar todos os passos percorridos pelo estudante ao longo da sua particular trajetória de aprendizagem;
• Permite ao aluno situar-se e construir о seu processo de aprendizagem.

Características:

• Possuir propostas abertas, ricas e variadas;
• Ter propostas ligadas as situais do mundo real;
• Ter tarefas de aplicação de conhecimentos para resolver problemas ou responder perguntas de relevância;
• Demonstrar о desempenho de uma aprendizagem significativa;
• Demonstrar a capacidade do aluno na produção de um trabalho que seja produto da sua historia;
• Promover о desempenho do aluno. FUNCOES:
• Visualizar о desenvolvimento global do aluno;
• Demonstrar a aprendizagem do aluno nas diferentes disciplinas;
• Relevar о sentir, о pensar e о agir do aluno. OBJETIVO GERAL
• Oferecer aos alunos e professores uma oportunidade de refletir sobre о progresso dos estudantes, ao mesmo tempo em que possibilita a introdução de mudanças durante о desenvolvimento do programa;

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

• Permitir aos professores aproximar-se do trabalho dos alunos, não de uma maneira pontual e isolada, como acontece com as provas e exames, mas, sim, no contexto do ensino, baseado em momentos de aprendizagens;
• Permitir aos alunos sentiram a aprendizagem institucional como algo próprio (coerência entre as atividades de ensino com as finalidades de aprendizagens);
• Possibilitar a identificação de questões relacionadas com о modo como os estudantes e os educadores refletem sobre quais são os objetivos de sua aprendizagem;
• Oportunizar aos professores e aos alunos a refletirem sobre о desenvolvimento dos estudantes e suas mudanças ao longo do curso e permitir aos professores acompanhar о trabalho dos estudantes num contexto em que a atividade de ensinar e considerada complexa com elementos inter-relacionados.

CRITERIOS DE AVALIACAO DE UM PORTFOLIO

• Verificar a organização das idéias do aluno e a forma como as mesmas foram transportadas para о Portfólio;
• Avaliar a capacidade do aluno de construir conexões com exposto e о captado;

ASSIM…

Portanto, о uso do portfólio em educação constitui uma estratégia que procura atender a necessidade de aprofundar о conhecimento sobre a relação ensino e aprendizagem, assegurando aos alunos e professores uma compreensão maior do que foi ensinado e, desse modo, índices mais elevados de qualidade.

E, no momento em que se procuram encontrar soluções para que a educação acompanhe as rápidas mudanças que ocorrem no mundo atual, parece razoável que a aprendizagem e a avaliação escolar realizada por meio de portfólio.

Prof8. Ms. Ivoni Fernandes

PARA REFLETIR…

“Quem sabe о que busca na vida, e onde quer chegar, encontra о caminho certo, E o jeito de caminhar.”

Thiago de Mello

REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO

DE SORDI, M. R. L. (2000). AvaHafao da aprendizagem universitária em tempos de madonnas: a inovação ao alcance do educador comprometido. Em I. P. A. Veiga & M. E. L. M. Castanho (orgs) Pedagogia Universitária: a aula em foco. Campinas: Papirus.

GARDNER, H. (1994). Educadon Artística у Desarrolo Humano. Barcelona: Paidos.

HERNANDEZ, F. (1998). Transgress So e mudança na ec/ucocoo: Os projetos de trabalho. Porto Alegre: Artmed.

HERNANDEZ, F. (2000). Culture visual. Mudança educativa e projeto de trabalho. Porto Alegre:

Artmed.

SA-CHAVES, I. (2000). Portfólios Reflexivos: estratégia de /ormocoo e de supervisão. Aveiro:

Universidade.

SELDIN, P., & COLS. (1998). 0 Portfólio de ensino. Em E. С. В Souza Avaliação de Docentes e de Ensino. Leituras complementares. V. 5. Brasília: UnB.

SHORES, E., & GRACE, C. (2001). Manual de Portfólio: Um guia passo a passo para о professor. Porto Alegre: Artmed.

VILAS BOAS, B. M. F. (1998). 0 projeto Político-Pedagogico e a Avaliação. Em 1. Veiga &, L. Resende (orgs.). Escola: Espaço do Projeto Politico-Pedagogico. Campinas SP: Papirus.

1.1 RELATÓRIO DO TEXTO 1

No dia 3 de agosto, a professora Luciana de Azevêdo Couto iniciou as aulas de metodologia do trabalho científico com a turma B1CN3, falando sobre o uso do portfólio. Portfólio acadêmico é um “documento formal que apresenta as experiências de aprendizagem, sendo utilizado para solicitar reconhecimento acadêmico de aprendizagem experimental”. O portfólio apresentado pela professora nos traz a possibilidade de refletir e reconstruir o que foi ensinado em sala de aula, usando como referencial o material didático e as citações da professora, cooperando para uma aprendizagem mais profunda e elaborada sobre o que é proposto, aumentando o grau compreensão do aluno.

Em contrapartida proporciona ao educando conhecer o nível de aprendizagem ou dificuldade dos alunos, uma vez que o portfólio, em seu conteúdo, revela o que é compreendido por eles. O trabalho é proposto também como forma de referencial para o calouro, com o intuito de agregar conhecimentos e experiências sobre qual e a melhor forma de elaboração de um portfólio, já que o uso mesmo acontecerá ao longo da vida acadêmica de todos.

A elaboração de um portfólio proposto pela professora tem como objetivos: levar o aluno a entender mais profundamente o que foi ensinado ao longo do período semestral, usar o método de elaboração do portfólio como referencial para os próximos períodos acadêmicos, fazer uma avaliação mais consistente da relação ensino-aprendizagem. Propondo, entretanto a finalidade de se atingir níveis mais elevados de qualidade no ensino superior.

2. O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO

Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

Aquele que lê aprende mais, sai da escuridão do não saber e descobre que não há limite para a aprendizagem.

Acordo Ortográfico

O objetivo deste material é expor ao leitor, de maneira objetiva, as alterações introduzidas na ortografia da língua portuguesa pelo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em Lisboa, em 16 de dezembro de 1990, por Portugal, Brasil, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e, posteriormente, por Timor Leste. No Brasil, o Acordo foi aprovado pelo Decreto Legislativo, de 18 de abril de 1995. Esse Acordo é meramente ortográfico ; portanto, restringe-se à língua escrita, não afetando nenhum aspecto da língua falada.

Como o documento oficial do Acordo não é claro em vários aspectos, elaboramos um roteiro com o que foi possível estabelecer objetivamente sobre as novas regras. Esperamos que este material sirva de orientação básica para aqueles que desejam resolver rapidamente suas dúvidas sobre as mudanças introduzidas na ortografia brasileira.

Mudanças no alfabeto

O alfabeto passa a ter 26 letras. Foram introduzidas as letras k, w e y.

O alfabeto completo passa a ser:

A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z

As letras k, w e y, que na verdade não tinham desaparecido da maioria dos dicionários da nossa língua,

são usadas em várias situações. Por exemplo:

a) na escrita de símbolos de unidades de medida: km (quilômetro), kg (quilograma), W (watt);

b) na escrita de palavras e nomes estrangeiros (e seus derivados): show, playboy, playground, yang, William, kaiser.

Trema

Não se usa mais o trema (¨), sinal colocado sobre a letra u para indicar que ela deve ser pronunciada nos grupos gue, gui, que, qui.

Mudanças nas regras de acentuação

1. Não se usa mais o acento dos ditongos abertos éi e ói das palavras paroxítonas (palavras que têm acento tônico na penúltima sílaba).

Atenção: essa regra é válida somente para palavras paroxítonas. Assim, continuam a ser acentuadas as palavras oxítonas terminadas em éis, éu, éus, ói, óis. Exemplos: papéis, herói, heróis, troféu, troféus.

2. Nas palavras paroxítonas, não se usa mais o acento no i e no u tônicos quando vierem depois de um ditongo.

Atenção: se a palavra for oxítona e o i ou o u estiverem em posição final (ou seguidos de s), o acento permanece. Exemplos: tuiuiú, tuiuiús, Piauí.

3. Não se usa mais o acento das palavras terminadas em êem e ôo(s).

4. Não se usa mais o acento que diferenciava os pares pára/para, pêlo(s)/ pelo(s) .

Atenção:

• Permanece o acento diferencial em pôde/pode. Pôde é a forma do passado do verbo poder (pretérito perfeito do a indicativo), na 3 pessoa do singular. Pode é a forma do presente do indicativo, na 3 pessoa do singular.

Exemplo: Ontem, ele não pôde sair mais cedo, mas hoje ele pode.

• Permanece o acento diferencial em pôr/por. Pôr é verbo. Por é preposição.

Exemplo: Vou pôr o livro na estante que foi feita por mim.

• Permanecem os acentos que diferenciam o singular do plural dos verbos ter e vir, assim como de seus derivados (manter, deter, reter, conter, convir, intervir, advir etc.). Exemplos:

Ele tem dois carros. / Eles têm dois carros.
Ele vem de Sorocaba. / Eles vêm de Sorocaba.
Ele mantém a palavra. / Eles mantêm a palavra.
Ele convém aos estudantes. / Eles convêm aos estudantes.
Ele detém o poder. / Eles detêm o poder.
Ele intervém em todas as aulas. / Eles intervêm em todas as aulas.

• É facultativo o uso do acento circunflexo para diferenciar as palavras forma/fôrma. Em alguns casos, o uso do acento deixa a frase mais clara. Veja este exemplo: Qual é a forma da fôrma do bolo?

Uso do hífen

Algumas regras do uso do hífen foram alteradas pelo novo Acordo. Mas, como se trata ainda de matéria controvertida em muitos aspectos, para facilitar a compreensão dos leitores, apresentamos um resumo das regras que orientam o uso do hífen com os prefixos mais comuns, assim como as novas orientações estabelecidas pelo Acordo.

As observações a seguir referem-se ao uso do hífen em palavras formadas por prefixos ou por elementos que podem funcionar como prefixos, como: aero, agro, além, ante, anti, aquém, arqui, auto, circum, co, contra, eletro, entre, ex, extra, geo, hidro, hiper, infra, inter, intra, macro, micro, mini, multi, neo, pan, pluri, proto, pós, pré, pró, pseudo, retro, semi, sobre, sub, super, supra, tele, ultra, vice etc.

1. Com prefixos, usa-se sempre o hífen diante de palavra iniciada por h.

Exemplos:

anti-higiênico
anti-histórico
co-herdeiro
macro-história
mini-hotel
proto-história
sobre-humano
super-homem
ultra-humano

Exceção: subumano (nesse caso, a palavra humano perde o h).

2. Não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal diferente da vogal com que se inicia o segundo elemento. Exemplos:

aeroespacial
agroindustrial
anteontem
antiaéreo
antieducativo
autoaprendizagem
autoescola
autoestrada
autoinstrução
coautor
coedição
extraescolar
infraestrutura
plurianual
semiaberto
semianalfabeto
semiesférico
Semiopaco

Exceção: o prefixo co aglutina-se em geral com o segundo elemento, mesmo quando este se inicia por o: coobrigar, coobrigação, coordenar, cooperar, cooperação, cooptar, coocupante etc.

3. Não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por consoante diferente de r ou s.

Exemplos:

anteprojeto
Antipedagógico
autopeça
autoproteção
coprodução
geopolítica
microcomputador
pseudoprofessor
semicírculo
semideus
seminovo
ultramoderno

Atenção: com o prefixo vice, usa-se sempre o hífen. Exemplos: vice-rei, vice-almirante etc.

4. Não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s. Nesse caso, duplicam-se essas letras.

Exemplos:

antirrábico
antirracismo
antirreligioso
antirrugas
antissocial
biorritmo
contrarregra
contrassenso
cosseno
infrassom
microssistema
minissaia
multissecular
neorrealismo
neossimbolista
semirreta
ultrarresistente.
ultrassom

5. Quando o prefixo termina por vogal, usa-se o hífen se o segundo elemento começar pela mesma vogal.

Exemplos:

anti-imperialista
anti-inflacionário
anti-inflamatório
auto-observação
contra-almirante
contra-atacar
contra-ataque
micro-ondas
micro-ônibus
semi-internato
semi-interno

6. Quando o prefixo termina por consoante, usa-se o hífen se o segundo elemento começar pela mesma consoante.

Exemplos:

hiper-requintado
inter-racial
inter-regional
sub-bibliotecário
super-racista
super-resistente
super-romântico


Atenção:

• Nos demais casos não se usa o hífen. Exemplos: hipermercado, intermunicipal, superinteressante, superproteção.
• Com o prefixo sub, usa-se o hífen também diante de palavra iniciada por r: sub-região, sub-raça etc.
• Com os prefixos circum e pan, usa-se o hífen diante de palavra iniciada por m, n e vogal: circum-navegação, pan-americano etc.

7. Quando o prefixo termina por consoante, não se usa o hífen se o segundo elemento começar por vogal.

Exemplos:

hiperacidez
hiperativo
interescolar
Interestadual
interestudantil
superamigo
superaquecimento
supereconômico
superexigente
superinteressante
superotimismo

8. Com os prefixos ex, sem, além, aquém, recém, pós, pré, pró, usa-se sempre o hífen.

Exemplos:

além-mar
além-túmulo
aquém-mar
ex-aluno
ex-diretor
ex-hospedeiro
ex-prefeito
ex-presidente
pós-graduação
pré-história
pré-vestibular
pró-europeu
recém-casado
recém-nascido
sem-terra

9. Deve-se usar o hífen com os sufixos de origem tupi-guarani: açu, guaçu e mirim.

Exemplos: amoré-guaçu, anajá-mirim, capim-açu.

10. Para clareza gráfica, se no final da linha a partição de uma palavra ou combinação de palavras coincidir com o hífen, ele deve ser repetido na linha seguinte.

Exemplos:

Na cidade, conta-se que ele foi viajar.

O diretor recebeu os ex-alunos.

Resumo

Emprego do hífen com prefixos

Regra básica

Sempre se usa o hífen diante de h: anti-higiênico, super-homem.

Outros casos

1. Prefixo terminado em vogal:

• Sem hífen diante de vogal diferente: autoescola, antiaéreo.
• Sem hífen diante de consoante diferente de r e s: anteprojeto, semicírculo.
• Sem hífen diante de r e s. Dobram-se essas letras: antirracismo, antissocial, ultrassom.
• Com hífen diante de mesma vogal: contra-ataque, micro-ondas.

2. Prefixo terminado em consoante:

• Com hífen diante de mesma consoante: inter-regional, sub-bibliotecário.
• Sem hífen diante de consoante diferente: intermunicipal, supersônico.
• Sem hífen diante de vogal: interestadual, superinteressante.

Observações

1. Com o prefixo sub, usa-se o hífen também diante de palavra iniciada por r sub-região, sub-raça etc. Palavras iniciadas por h perdem essa letra e juntam-se sem hífen: subumano, subumanidade.

2. Com os prefixos circum e pan, usa-se o hífen diante de palavra iniciada por m, n e vogal: circum-navegação, pan-americano etc.

3. O prefixo co aglutina-se em geral com o segundo elemento, mesmo quando este se inicia por o: coobrigação, coordenar, cooperar, cooperação, cooptar, coocupante etc.

4. Com o prefixo vice, usa-se sempre o hífen: vice-rei, vice-almirante etc.

5. Com os prefixos ex, sem, além, aquém, recém, pós, pré, pró, usa-se sempre o hífen: ex-aluno, sem-terra, além-mar, aquém-mar, recém-casado, pós-graduação, pré-vestibular, pró-europeu.

A implantação das regras desse Acordo, acontece no Brasil no decorrer do mês de janeiro de 2009, é um passo importante em direção à criação de uma ortografia unificada para o português, a ser usada por todos os países que tenham o português como língua oficial: Portugal, Brasil, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor Leste.

2.1 RELATÓRIO DO TEXTO 2

No dia 21 de Agosto de 2009 assistimos por recomendação do coordenador do curso, profº Mauricio Paes Lemes, uma palestra do novo acordo ortográfico, que tinha como objetivo que os alunos se atualizarem sobre o novo acordo ortográfico dos Países que tem a língua portuguesa como língua oficial como: Portugal, Brasil, Angola, São Tome, Guené – Bessau e Moçambique.

A palestra foi aplicada pelo instituto SM cujo palestrante era a profº Creude Bessa. As alterações da ortografia da língua portuguesa foram assinadas em Portugal em 1990 e no Brasil após cinco foi aprovado pelo decreto legislativo. Portanto demorou 19 anos para que a acordo se tornasse lei. O acordo demorou muito para se tornar lei porque ficaria muito caro para o governo trocar todos os livros didáticos das instituições públicas.

Com as mudanças, nosso alfabeto passou de 23 letras para 26, acrescentando as letras k, y w, que antes eram estrangeiras, quanto ao trema foi enterrado, deixando de existir com exceção nos nomes próprios, na acentuação e no uso do hífem também houve varias mudanças.

Com a palestra adquirimos conhecimentos importantes sobre nossa língua e mudanças que acorreram para igualar na ortografia todos os países que a tem como língua oficial, mas será cobrado a partir de 2012 o uso oficial da escrita, pois a mudança restringe somente a língua escrita não afetando a língua falada.

3. A IMPORTÂNCIA DA LEITURA

Apesar de todo avanço tecnológico observado na área de comunicações, principalmente audiovisuais, nos últimos tempos, ainda é, fundamentalmente, através da leitura que se realiza o processo de transmissão/aquisição da cultura.

Entre os professores universitários é generalizada a queixa: os alunos não sabem ler! O que pode aparecer um exagero tem sua explicação. Os alunos, confundem leitura com a simples decodificação de sinais gráficos, isto é não estão habituados a encaram a leitura como processo mais abrangente, que envolve o leitor com o autor, não se empenham em prestar atenção, entender e analisar o que lêem. Tal afirmativa comprova-se com um exemplo simples: é comum, em provas e avaliações, os alunos responderem uma questão, com acerto, mas sem correspondência com o que foi solicitado. Pergunta-se, por exemplo, – quais as influências observadas… – esperando-se, obviamente, a enumeração das influencias; a resposta, muitas vezes, aponta a que se referem essas influências e não – quais são – Ora, por mais correta que seja a resposta, não responde ao que foi solicitado.

Aprender a ler não é uma tarefa tão simples, pois exige uma postura crítica, sistemática, uma disciplina intelectual por parte do leitor, e esses requisitos básicos só podem ser adquiridos com a prática.

Os livros, de modo geral, expressam a forma pela qual seus autores vêem o mundo; para entende-los é indispensável não é só penetrar no seu conteúdo básico, mas também ter sensibilidade, espírito de busca, para identificar, em cada texto lido, vários níveis de significação, varias interpretações das idéias expostas pelos seus autores.

Já se tornou antológica e obrigatória, quando se trata de leitura, a citação de Paulo freire, para quem “a leitura do mundo precede a leitura da palavra…”; contudo, torna-se necessário ir mais além:

Refiro-me a que a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele.

De alguma maneira, porém, podemos ir mais longe e dizer que a leitura da palavra não é apenas precedida da leitura do mundo, mas por uma certa forma de ‘escrevê-lo’ ou e ‘reescrevê-lo’,quer dizer, de transformá-lo através de nossa pratica consciente (FREIRE, 1984, p.22).

O processo de ler implica vencer as etapas da decodificação, da intelecção para se chegar à interpretação e, posteriormente, à aplicação. A decodificação é uma necessidade óbvia, tarefa que qualquer pessoa alfabetizada pode empreender, pois consiste apenas na “tradução” dos sinais gráficos em palavras. A intelecção remete à percepção do assunto que foi lido. A interpretação baseia-se na continuidade da “leitura do mundo”, isto é, na apreensão e interpretação das idéias, nas relações entre texto e contexto. Vencidas as etapas anteriores, pode o leitor passar à aplicação do conteúdo da leitura, de acordo com os objetivos que se propôs.

Para penetrar no conteúdo, apreender as idéias expostas e a intencionalidade subjacente ao texto, é fundamental que o leitor estabeleça um “dialogo” com o autor, que se transforme, de certa forma, em co-autor, a fim de reelaborar o texto, ou seja, “reescrever o mundo”, como sugere Paulo Freire.

A leitura do texto, quando o leitor se transforma em sujeito ativo, é um manancial de significações e implicações que vão sendo descobertas a cada releitura.

A esse respeito diz KOCH (1993, p. 162):

Importante é o aprendiz notar que cada nova leitura de um texto lhe permitirá desvelar novas significações, não detectadas nas leituras anteriores. (…)

Há, porém, que se considerar os tipos, as modalidades e finalidades da leitura.

1.Tipos de leitura

Quanto aos tipos ou natureza de leitura, vale lembrar aqui que existem, além da leitura verbal, outros tipos de leitura que são utilizados habitualmente, em diversas situações.

Quando pára num sinal de trânsito, por exemplo, está executando uma ordem recebida através da leitura de um símbolo, que pode indicar tanto a necessidade de para, como a mão de direção, a proibição de estacionar etc. Esta leitura, através de imagens ou símbolos, recebe o nome de icônica, palavra derivada de ícone- que vem do grego, com significado de “imagem”. Mas nem só os sinais de trânsito são passíveis de uma “leitura iônica”. Hoje, as imagens que constituem uma linguagem universal, são referencias obrigatórias nos aeroportos, grandes restaurantes, shopping centers e áreas de turismo e lazer.

Outro tipo de linguagem universal é a gestual, ou seja, através de gestos, codificados ou não. São exemplos de linguagem gestual codificada a linguagem dos surdos-mudos, a linguagem dos jogadores de vôlei e outras.

Pode-se também estabelecer um tipo de comunicação sonora, utilizando-se os sons de apitos, assobios, buzinas etc. No trânsito, há um tipo de sinalização através de apitos; motoristas de caminhão também costumam usar o som da buzina como um código de comunicação nas estradas.

Todos esses códigos de comunicação, apesar de sua universalidade, são circunscritos a situações especificas; já o código verbal, que abrange um número muito maior de situações, é o mais utilizado no processo ensino/aprendizagem.

2.Finalidades da leitura

As finalidades da leitura mantêm estreita correlação com as suas diversas modalidades. Nem sempre se utiliza a leitura com o objetivo especifico de adquirir conhecimentos. Neste particular, deve-se observar que a leitura pode ser casual, espontânea, quase um reflexo, como no caso de anúncios, cartazes, outdoors. Pode-se buscar simplesmente o lazer ou o entretenimento, através da leitura de livros e revistas. Geralmente, observa-se certa diferença entre a maneira de se ler jornais, revistas e livros. Enquanto a leitura de jornais e revistas tende a ser mais rápida e superficial, quando se trata de um livro, mesmo que se busque apenas o lazer, a leitura, em geral, é mais atenta.

A leitura pode ter como finalidade a informação, sobre fatos ou noticias, com ou sem o objetivo da aquisição de conhecimentos. Faz-se, neste caso, a distinção entre a leitura informativa, mais ligada à cultura geral e a formativa, relacionada com a aquisição ou ampliação de conhecimentos. Outra finalidade, não menos importante, é a distração, o entretenimento.

3. Modalidades de leitura

A leitura pode ser oral ou silenciosa; técnica e de informação; de estudo; de higiene mental e prazer (SALOMON, 1977, p.59).

Nos antigos cursos primários, que correspondem à primeira etapa do primeiro grau atualmente, a leitura oral era sempre precedida da leitura silenciosa. Levando-se em conta que esta última é a modalidade mais utilizada no mundo moderno, justifica-se que deva ser treinada, desde os primeiros anos escolares. Contudo, não de pode relegar a leitura oral, que além de útil, é uma habilidade que, como tal, não dispensa o exercício, a prática. Tanto quanto é aborrecida uma leitura oral malfeita, é agradável a leitura feita com arte.

A leitura técnica, de relatórios ou obras de cunho cientifico, implica, muitas vezes, a habilidade de ler e interpretar tabelas e gráficos; a de informação, como já foi referido, acha-se ligada às finalidades de cultura geral. A leitura de higiene mental ou prazer tem por objetivo o lazer. A de estudo, que interessa mais de perto aos objetivos deste livro, visa à aquisição e ampliação de conhecimentos.

Não se pode empregar a mesma técnica e a mesma velocidade para todas as modalidades de leitura. Não de lê um romance como um livro cientifico, um livro de álgebra como um manual de literatura.

Quanto à velocidade da leitura, convém notar que este é um fator relativo, que depende não só da modalidade ou finalidade, mas também do treinamento e até do temperamento do leitor.

As técnicas da chamada leitura dinâmica, que estiveram tão em moda há algum tempo, não se prestam para leitura com finalidade de estudo. Podem, contudo, ser aplicadas na leitura de contato ou leitura prévia.

4.Fases da leitura informativa

A leitura de estudo é classificada por alguns autores, entre os quais CERVO; BERVIAN (1983, p. 85), como leitura informativa, cuja finalidade é a coleta de dados ou informações que serão utilizados na elaboração de um trabalho científico ou para responder a questões especificas. Segundo os autores citados, a leitura pode ter a finalidade formativa, ligada à cultura geral, às notícias e informações genéricas; de distração ou lazer e informativa, sendo esta última a modalidade que prioriza a aquisição e ampliação de conhecimentos.

Observa-se, portanto uma discrepância entre os termos aqui adotados, segundo os quais a leitura informativa tem por objetivo a informação, em sentido genérico, e a leitura de estudo ou formativa, visa, especificamente, à formação de uma bagagem cultural, através da aquisição e ampliação de conhecimentos.

Segundo CERVO; BERVIAN (1983, p. 85-9), as fases da leitura informativa ou de estudo são as seguintes:

a) Leitura de reconhecimento ou pré-leitura – a finalidade desta leitura é dar uma visão global do assunto, ao mesmo tempo que permite ao leitor verificar a existência ou não de informações úteis para seu objetivo específico.

Note-se que outros autores classificam essa fase como leitura prévia ou leitura de contato, visto que corresponde a uma leitura “por alto”, apenas para tomar contato com o texto.

b) Leitura seletiva – seu objetivo é a seleção das informações que interessam à elaboração do trabalho em perspectiva.

c) Leitura critica ou reflexiva – exige estudo, compreensão dos significados. A reflexão realiza-se através da análise, comparação, diferenciação e julgamento das idéias contidas no texto.

d) Leitura interpretativa – mais complexa, compreende três etapas:

1. Procura-se saber o que realmente o autor afirma, quais os dados e informações que oferece;
2. Correlacionam-se as afirmações da autor com os problemas para os quais se está procurando uma solução;
3. Julga-se o material coletado, em função do critério de verdade.

Feita a análise e o julgamento, procede-se à síntese, isto é, a integração racional dos dados coletados.

5.Tipos de análise de textos

Não se pretende aprofundar no assunto, mas apenas indicar os diferentes enfoques aplicáveis à análise de textos.

Deixando-se de lado as diferentes definições de análise e ou sua conceituação, adotando-se um ponto de vista mais prático, podem-se apontar três tipos principais de análise:

a) Análise textual – leitura que tem por objetivo uma visão global, assinalando: estilo, vocabulário, fatos, doutrinas, época, autor, ou seja, um levantamento dos elementos importantes do texto.
b) Análise temática – apreensão do conteúdo ou tema, isto é, identificação da idéia central e das secundárias, processos de raciocínio, tipos de argumentação, problemas, enfim, um esquema do pensamento do autor.
c) Análise interpretativa – demonstração dos dois tipos de relações entre as idéias do autor em razão do contexto científico e filosófico de diferentes épocas; análise crítica ou avaliação; discussão e julgamento do conteúdo do texto (Gagliano, apud LAKATOS, 1992, p.28)

3.1 RELATÓRIO DO TEXTO 3

No dia 20 de agosto a professora enfatizou em sala que para a elaboração de todo e qualquer trabalho o reconhecimento ou pré-leitura é fundamental para desenvolver com mais clareza e facilidade o processo de produção. É de estrema importância fazer a leitura seletiva, ou seja, selecionar todo conteúdo e o tema abordado, a leitura critica ou reflexiva tende a prender nossa atenção ao ponto de reflexão e a um ponto instigante da noticia, o leitor cria vínculos com o autor interpretando o que está pressuposto na informação através do conhecimento da trajetória de vida do autor.

Portanto a leitura é de estrema importância para a vida de um acadêmico, pois ela é embasada no crescimento intelectual do aluno calouro, a leitura aumenta a vocabulário, traz informações e avanço na comunicação, também realiza o processo de transmissão da cultura. Apesar da importância da leitura muitos alunos não sabem interpretar o que leem, apenas decodificam sinais gráficos deixando de se preocuparem em ler as entrelinhas da leitura. “ A leitura do mundo precede da leitura da palavra” , pois para entender o mundo é preciso antes entender a correlação das palavras num todo para saber ir alem da escrita e ter percepção do assunto, então entende-se que fazemos uma leitura do mundo.

Quando falamos de leitura encontramos algumas modalidades que facilitam a comunicação, como a leitura verbal é aquela que usamos no nosso dia a dia, a imagem que representada através de desenhos, leitura de sinais que são os sinais de transito, libras, símbolos e etc. A leitura tem como finalidade a informação, a ampliação de conhecimentos e o entretenimento.

4.TÉCNICAS PARA ELABORAÇÃO DOS TRABALHOS DE GRADUAÇÃO

1. Técnica de Sublinhar para Esquematizar e Resumir

Sublinhar é a técnica indispensável não só para elaborar esquemas e resumos, mas também para ressaltar as idéias importantes de um texto, com as finalidades de estudo, revisão ou memorização do assunto ou mesmo para utilizar em citações.

O requisito fundamental para aplicar a técnica de sublinhar é a compreensão do assunto, pois este é o único processo que possibilita a identificação das idéias principais e secundárias, permitindo fazer a seleção do que é indispensável e do que pode ser omitido, sem prejuízo do entendimento global do texto.

Há, porém, certas normas que devem ser obedecidas, para que a técnica de sublinhar produza resultados eficazes.

Não se deve sublinhar parágrafos ou frase inteira, mas apenas palavras-chave, palavras nocionais ou, quando muito, grupos de palavras. Isto porque, ao sublinhar uma frase inteira, além de sobrecarregar a memória e o aspecto visual, corre-s o risco de, ao resumir, reproduzirem-se as frases do autor, sem evidenciar as idéias principais, visto que o resumo deve ser uma condensação de idéias, não de frases ou palavras.

Deduz-se daí que a preocupação de usar o vocabulário próprio ou o vocabulário do autor é improcedente, pois não importam apenas as palavras, não se resumem apenas as palavras, mas as idéias contidas no texto.

A técnica de sublinhar pode ser desenvolvida a partir dos seguintes procedimentos:

a) leitura integral do texto, para tomada de contato;
b) esclarecimento de dúvidas de vocabulário, termos técnicos e outras;
c) releitura do texto, para identificar as idéias principais;
d) ler e sublinhar, em cada parágrafo, as palavras que contêm a idéia-núcleo e os detalhes mais importantes;
e) assinalar com uma linha vertical, à margem do texto, os tópicos mais importantes;
f) assinalar, à margem do texto, com um ponto de interrogação, os casos de discordâncias, as passagens obscuras, os argumentos discutíveis;
g) ler o que foi sublinhado, para verificar se há sentido;
h) reconstruir o texto, em forma de esquema ou de resumo, tomando as palavras sublinhadas como base.

Para se obter maior funcionalidade das anotações, são oferecidas as sugestões a seguir, que podem, evidentemente, sofrer variações e adaptações pessoais:

• Sublinhar com lápis preto macio, para não danificar o texto;
• Sublinhar com dois traços as idéias principais e com um traço as secundárias;
• Dependendo do gosto pessoal, usa-se caneta hidrocor, em várias cores, podendo-se estabelecer um código particular:

– vermelho (ou verde) = idéias principais;
– azul (ou amarelo) = detalhes mais importantes;

• As anotações à margem do texto podem ser feitas com um traço vertical para trechos importantes e dois traços verticais para os importantíssimos.

O indispensável é sublinhar apenas o estritamente necessário, evitando-se o acúmulo de anotações que, além de causar mau aspecto, em vez de facilitar o trabalho do leitor, dificulta e gera confusão.

É muito útil, no final do trabalho, fazer uma leitura comparando-se o texto original como que foi sublinhado (ANDRADE; HENRIQUE, 1992, p. 50-1).

2. Elaboração de Esquemas

O esquema corresponde, grosso modo, a uma radiografia do texto, pois nele aparece apenas o “esqueleto”, ou seja, as palavras-chave, sem necessidade de se apresentar frases redigidas.

Utiliza-se o esquema como trabalho preparatório do resumo, para explicar, mais concretamente, determinadas idéias ou para memorizar mais facilmente o conteúdo integral de um texto.

Para elaborar o esquema usam-se setas, linhas retas ou curvas, círculos, colchetes, chaves, símbolos diversos, prevalecendo o gosto pessoal do autor.

Um esquema pode ser montado em linha vertical ou horizontal, pois o importante é que nele apareçam as palavras que contêm as idéias principais, de forma clara, compreensível. As setas, por exemplo, são usadas quando há relação entre a palavra (idéia) do ponto de partida e as palavras (idéias) que são apontadas. Chaves são usadas para ordenar diversos itens etc.

Segundo SALOMON (1977, p. 85):

“Um esquema, para que seja realmente útil, deve ter as seguintes características”:

1. Fidelidade ao texto original: deve conter as idéias do autor, sem alteração, mesmo quando se usarem as próprias palavras para reproduzir as do autor. Por isso, em alguns momentos, é preciso transcrever e citar a página.
2. Estrutura lógica do assunto: de posse da idéia principal, dos detalhes importantes, é possível elaborar uma organização dessas idéias a partir das mais importantes para as conseqüentes. No esquema, haverá lugar para os devidos destaques.
3. Adequação ao assunto estudado e funcionalidade: o esquema útil é flexível. Adapta-se ao tipo de matéria que se estuda. Assunto mais profundo, mais rico de informações e detalhes importantes possibilitará uma forma de esquema com maiores indicações. Assunto menos profundo, mais simples, terá no esquema apenas indicações-chave. É diferente um esquema em função de revisão para exame e outro em função de uma aula a ser dada!
4. Utilidade de seu emprego: conseqüência da característica anterior: o esquema deve ajudar e não atrapalhar. Tratando-se de esquema em função do estudo, deve ser feito de tal modo que facilite a revisão. É instrumento de trabalho. Deve facilitar a consulta no texto, quando necessário. Daí explicitar páginas, relacionamento de partes do texto etc.
5. Cunho pessoal: cada um faz o esquema de acordo com suas tendências, hábitos, recursos e experiências pessoais. Por isso é que um esquema de uma pessoal raramente é útil para outra. Uns preferem o esquema rigidamente lógico, outros o cronológico, ou o psicológico, na disposição das idéias. “Alguns usam recursos gráficos, de visualização da imagem mental (tinta de cor, desenhos, símbolos etc); já outros preferem empregar só palavras.”

A título de exemplificação, o autor citado apresenta o esquema do trecho acima:

“ESQUEMA”.

CARACTERÍSTICAS DE UM ESQUEMA ÚTIL.

1. Flexibilidade: o esquema é que deve adaptar-se à realidade e não esta ao esquema.
2. Fidelidade ao original: esquematizar não é deturpar, mas sintetizar.
3. Estrutura lógica do assunto: organiza-se pelo esquema a relação da idéia importante e seu desenvolvimento.
4. Adequação ao assunto estudado: mesmo que funcionalidade.
5. Utilidade de emprego: o esquema tem por objetivo auxiliar a capação do conjunto e servir para comunicar algo.
6. “Cunho pessoal: o esquema traduz atitudes e modo de agir de cada um – varia de pessoa para pessoa” (SALOMON, 1977, p. 88).

“São quatro as atividades principais dos especialistas em comunicação: detecção prévia do meio ambiente, correlação das partes da sociedade na reação a esse meio, transmissão da herança social de uma geração para a seguinte e entretenimento. A detecção prévia consiste na coleta e distribuição de informações sobre os acontecimentos do meio ambiente, tanto fora como dentro de qualquer sociedade particular. Até certo ponto, isso corresponde ao que é conhecido como manipulação de notícias. Os atos de correlação, aqui, incluem a interpretação das informações sobre o meio ambiente e a orientação da conduta em reação a esses acontecimentos. Em geral, essa atividade é popularmente classificada como editorial, ou propaganda. A transmissão de cultura se faz através da comunicação das informações, dos valores e normas sociais de uma geração a outra ou de membros de um grupo a outros recém-chegados. Comumente, é identificada como atividade educacional.

Por fim, o entretenimento compreende os atos comunicativos com intenção de distração, sem qualquer preocupação com os efeitos instrumentais que eles possam ter” (Wrigh, apud SOARES; CAMPOS, 1978, p. 120).

Uma das maneiras possíveis de esquematizar o parágrafo anterior é a seguinte:

Tomando-se por base as palavras sublinhadas que compõem o esquema, elabora-se um resumo do texto. A redação do resumo consiste em organizar frases com as palavras do esquema:

São atividades dos especialistas em comunicação: detecção prévia do meio ambiente, que consiste na coleta e distribuição das informações, ou manipulação de notícias. Correlação das partes da sociedade na reação ao meio, que inclui a interpretação das informações, pelo editorial e propaganda. A transmissão da cultura, que se faz através da comunicação das informações, identificada como atividade educacional. O entretenimento, que se realiza pelos atos comunicativos, e que procura apenas a distração.

Há várias maneiras de elaborar o resumo de um texto, com maior ou menor número de informações acerca de seu conteúdo.

Um texto de duzentas ou trezentas páginas pode ser resumido em cinco, dez, quinze ou trinta linhas; em três ou dez páginas, dependendo da finalidade ou dos objetivos do resumo.

3. Tipos de Resumo

Há vários tipos de resumo e cada um apresenta características específicas, de acordo com suas finalidades:

a) Resumo descritivo ou indicativo: nesse tipo de resumo descrevem-se os principais tópicos do texto original, e indicam-se sucintamente seus conteúdos. Portanto, não dispensa a leitura do texto original para a compreensão do assunto.

Quanto à extensão, não deve ultrapassar quinze ou vinte linhas; utilizam-se frases curtas que, geralmente, correspondem a cada elemento fundamental do texto; porém, o resumo descritivo não deve limitar-se à enumeração pura e simples das partes do trabalho.

b) Resumo informativo ou analítico: é o tipo de resumo que reduz o texto a 1/3 ou 1/4 do original, abolindo-se gráficos, citações, exemplificações abundantes, mantendo-se, porém, as idéias principais. Não são permitidas as opiniões pessoais do autor do resumo. O resumo informativo, que é o mais solicitado nos cursos de graduação, deve dispensar a leitura do texto original para o conhecimento do assunto.
c) Resumo crítico: consiste na condensação do texto original a 1/3 ou 1/4 de sua extensão, mantendo as idéias fundamentais, mas permite opiniões e comentários do autor do resumo. Tal como o resumo informativo, dispensa a leitura do original para a compreensão do assunto.
d) Resenha: é um tipo de resumo crítico; contudo, mais abrangente. Além de reduzir o texto, permitir opiniões e comentários inclui julgamentos de valor, tais como comparações com outras obras da mesma área do conhecimento, a relevância da obra em relação às outras do mesmo gênero etc.
e) Sinopse (em inglês, synopsis ou summary; em francês, résumé d´auteur): neste tipo de resumo indicam-se o tema ou assunto da obra e suas partes principais. Trata-se de um resumo bem curto, elaborado apenas pelo autor da obra ou por seus editores.

SALOMON (1977, p. 176-7) indica a maneira certa e a errada de elaborar uma sinopse:

“Ensaios de acumuladores elétricos do tipo ácido-chumbo”. João William MERECE

Errado:

Como introdução ao seu trabalho o autor dá definição dos termos usados de acordo com as especificações brasileiras recomendadas pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), enumera os aparelhos a serem usados e explica o tratamento prévio necessário ao êxito nos ensaios.

Explica, com pormenores, as fases dos ensaios parciais e apresenta vários gráficos e tabelas dos resultados obtidos. Expõe também a diferença entre os métodos S.A.E. (Society of Automotive Engineers) e os da ABNT, usados nos ensaios.

Certo:

Definição dos termos usados, de acordo comas especificações da ABNT. Aparelhos usados e tratamento prévio necessário ao êxito dos ensaios. Fases dos ensaios parciais: determinação da tensão final de carga, da f. e m., da capacidade em A-h e W-h, dos rendimentos. Gráficos e tabelas dos resultados obtidos. “Diferença entre os métodos da S.A.E. e da ABNT.”

Observe-se a linguagem objetiva, concisa, as frases curtas do exemplo certo. Com menos palavras, o modelo certo oferece muito mais informações.

4. Redação de Resumos: Parágrafos e Capítulos

A técnica de resumir difere, no modo de redigir, quando se trata de um texto curto ou de uma obra inteira. Por texto curto compreende-se o que consta de um parágrafo a um capítulo, embora esta não seja uma classificação rígida.

Parágrafos e capítulos podem ser resumidos aplicando-se a técnica de sublinhar e redigindo-se o resumo pela organização de frases, baseadas nas palavras sublinhadas. Este sistema não constitui regra absoluta, mas tem a vantagem de manter a ordem das idéias e fatos e propiciar a indispensável fidelidade ao texto.

Usar vocabulário próprio ou do autor não é questão relevante, desde que o resumo apresente as principais idéias do texto, de forma condensada.

Um texto mais complexo resume-se com mais facilidade se preliminarmente for elaborado um esquema com as palavras sublinhadas.

Não se admitem acréscimos ou comentários ao texto, mas as opiniões e pontos de vista do autor (do original) devem ser respeitados.

Nos textos bem estruturados, cada parágrafo corresponde a uma só idéia principal. Todavia, alguns autores são repetitivos e usam palavras diferentes, que contêm as mesmas idéias, em mais de um parágrafo, por questões didáticas ou de estilo. Neste caso, os parágrafos reiterativos devem ser reduzidos a um apenas.

Exemplos de resumo:

a) Resumo que não se prende fielmente às palavras sublinhadas:

“Na psicanálise freudiana muita comportamento criador, especialmente nas artes, é substituto e continuação do folguedo da infância. Como a criança se exprime em jogos e fantasias, o adulto criativo o faz escrevendo ou, conforme o caso, pintando. Além disso, muito do material de que ele se vale para resolver seu conflito inconsciente, material que se torna substância de sua produção criadora, tende a ser obtido das experiências da infância. Assim, um evento comum pode impressioná-lo de tal modo que desperte a lembrança de alguma experiência anterior. Essa lembrança por sua vez promove um desejo, que se realiza no escrever ou no pintar. A relação da criatividade com o folguedo infantil atinge máxima clareza, talvez, no prazer que a pessoa criativa manifesta em jogar com idéias, livremente, em seu hábito de explorar idéias e situações pela simples alegria de ver aonde elas podem levar” (KNELLER, 1976, p. 42-3).

RESUMO:

Na concepção freudiana, a criatividade dos artistas é substitutiva das brincadeiras infantis. A criança se expressa através de jogos e da fantasia, o adulto o faz através da literatura ou da pintura, inspirando-se em suas experiências da infância. Essa relação é confirmada pelo prazer que a pessoa criativa sente em explorar idéias e situações apenas pela alegria de ver aonde elas podem chegar.

b) Resumo baseado nas palavras sublinhadas:

“Vivemos num ambiente formado e, em grande proporção, criado por influências semânticas sem paralelo no passado: circulação em massa, de jornais e revistas que só fazem refletir, num espantoso número de casos, os preconceitos e as obsessões de seus redatores e proprietários; programas de rádio, tanto locais como em cadeia, quase inteiramente dominados por motivos comerciais; conselheiros de relações públicas, que não são mais que artífices, regiamente pagos, para manipular e remodelar o nosso ambiente semântico de um modo favorável a seu cliente. É um ambiente excitante, mas cheio de perigos, sendo apenas um pequeno exagero dizer que foi pelo rádio de Hitler conquistou a Áustria. Os cidadãos de uma sociedade moderna precisam, em conseqüência, de algo mais do que simples senso comum, recentemente definido por Stuart Chase como aquilo que nos diz que o mundo é plano.

Precisam esses cidadãos, de ficar cientificamente conscientes do poder e das limitações dos símbolos, especialmente das palavras, se é que desejam evitar ser levados à mais completa confusão, mediante a complexidade do seu ambiente semântico. Assim, pois, o primeiro dos princípios que governam os símbolos é este: o símbolo não é a coisa simbolizada; a palavra não é a coisa; o mapa não é o território que ele representa” (HAYAKAWA, 1972, p. 20-1).

Resumo:

Vivemos num ambiente formado por influências semânticas: circulação em massa de jornais e revistas que refletem os preconceitos e obsessões de seus redatores e proprietários; o rádio, dominado por motivos comerciais; as relações públicas, pagos para manipular o ambiente a favor de seus clientes. É um ambiente excitante, mas cheio de perigos. Os cidadãos de uma sociedade moderna precisam ficar conscientes do poder e das limitações dos símbolos, a fim de evitar confusão ante a complexidade de seu ambiente semântico. O primeiro princípio que governa os símbolos é este: o símbolo não é a coisa simbolizada; a palavra não é a coisa; o mapa não é o território que representa.

É muito importante que o aluno de graduação exercite bastante a técnica de resumir parágrafos, pois quem sabe resumir um parágrafo, saberá resumir um capítulo. Quem resume capítulos, com um pouco mais de prática das técnicas adequadas, saberá resumir uma obra inteira.

Os parágrafos para resumir podem abordar assuntos variados, procurando-se, sempre que possível, levar em consideração os conteúdos programáticos específicos de cada curso.

Exemplos de parágrafos para resumir:

1. “Naturalmente, a educação tem de ser tanto informativa quanto diretiva. Não podemos simplesmente ministrar informação sem ao mesmo tempo transmitir aos estudantes algumas aspirações, ideais e objetivos, a fim de que eles saibam o que fazer com a informação que receberem. Lembremo-nos, porém, que é também muito importante apresentar-lhes não apenas ideais destituídos de alguma informação real sobre a qual agir; à falta dessa informação, não lhes será nem ao menos possível usufruir desses ideais. A informação sem as diretivas, sem a informação, gravadas na memória mercê de freqüentes repetições, só produzem orientações intencionais que os incapacitam para as realidades da vida, deixando-os indefesos contra o choque e o cinismo dos anos subseqüentes” (HAYAKAWA, 1972, p. 210).
2. “Marx retoma de Hegel a concepção dialética da realidade, ou seja, afirmação de que a realidade vai se produzindo permanentemente mediante um processo de mudança determinado pela luta dos contrários, por força da contradição que trabalha o real, no seu próprio interior. Era a recuperação da temporalidade real, da historicidade, dimensão perdida desde o predomínio da filosofia grega sobre a visão judaica. Assim, a filosofia marxista, em continuidade com a filosofia hegeliana, concebe a realidade como se constituindo num processo histórico que, ao se efetivar, vai efetivando o próprio tempo, num processo criador. E este processo criador que ocorre por força da luta provocada pelas contradições que trabalham internamente a realidade é um processo dialético, de posição, negação e superação, de acordo coma tríade hegeliana da tese-antítese-síntese” (SEVERINO, 1986, p. 5).
3. “Como se sabe cada texto abre a perspectiva de uma multiplicidade de interpretações ou leituras: se, conforme se disse, as intenções do emissor podem ser as mais variadas não teria sentido a pretensão de se lhe atribuir apenas uma interpretação, única e verdadeira. A intelecção de um texto consiste na apreensão de suas significações possíveis, as quais se representam nele, em grande parte, por meio de marcas lingüísticas. Tais marcas funcionam como pistas dadas ao leitor para permitir-lhe uma decodificação adequada: a estrutura da significação, em língua natural, pode ser definida como o conjunto de relações que se instituem na atividade da linguagem entre os indivíduos que a utilizam, atividade esta que se inscreve sistematicamente no interior da própria língua” (KOCH, 1993, p. 161).
4. “É certo que a teoria analítica da linguagem não tem o rigor exemplar próprio das teorias formalizações ou matemáticas que coroam a lingüística moderna. É certo também que os lingüistas se interessam pouco pelo que a psicanálise descobre no funcionamento lingüístico, e, aliás, não vemos bem como é que pode ser possível conciliar as formalizações do estruturalismo americano e da gramática generativa, por exemplo, com as leis do funcionamento lingüístico tais como a psicanálise moderna as fórmulas depois de Freud. É evidente que são duas tendências contraditórias ou pelo menos divergentes na concepção da linguagem. Freud não é lingüista e o objeto da linguagem que ele estuda não coincide com o sistema formal que a lingüística aborda e de que conseguimos destacar a abstração lenta e laboriosa através da história. Mas a diferença entre a abordagem psicanalítica da linguagem e a lingüística moderna é mais profunda do que uma mudança do volume do objeto.

É a concepção geral da linguagem que difere radicalmente na psicanálise e na lingüística” (KRISTEVA, 1980, p. 315).

5. “Quando um bebê nasce à primeira coisa que todo mundo quer saber é o sexo. Nos primeiros dias de vida a diferença parece mais anatômica, mas à medida que vai crescendo, o bebê começa a se comportar como menino ou menina. Um problema controvertido é saber até que ponto esse comportamento tem base biológica ou é uma questão de aprendizado. Algumas feministas insistem em dizer que todas as diferenças comportamentais são ensinadas e que, deixando-se de lado as discrepâncias biológicas evidentes, a mulher é igual ao homem. Outros dizem que homem é homem que mulher é mulher e é por razões biológicas que os dois sexos se parecem se comportam e até mesmo se movimentam de modo diferente. Os entendidos em cinética têm levantado certo número de provas que reforçam os argumentos das feministas” (DAVIS, 979, p. 23).
6. “Os idiomas, em certo sentido, fazem pensar na formação de nebulosas. Um núcleo central mais definido e em torno dele uma imensa massa luminosa, reforma irregular. Uma nebulosa em que o próprio núcleo central não dispusesse de muita consistência, nem de fixidez demorada, mas que ainda assim se apresentasse mais densa que os bordos caprichosos e esgarçados. Este núcleo central é a estrutura do idioma, as palavras baluartes, os números, os determinativos, os pronomes, as preposições e conjunções – morfemas e palavras gramaticais. Em torno desse núcleo, o vocabulário supérfluo, de adorno ou estilístico, as expressões profissionais e especiais. Mais longe, nos bordos da figura da nebulosa, os provincianismos, os modismos, a colaboração de cada pessoa para a vida e a evolução do idioma” (LIMA SOBRINHO, 1977, p. 69).
7. “Houve tempo em que se poderia defender a idéia de que uma pesquisa científica era coisa de gênio, portanto algo excepcional e fora de qualquer restrição de planejamento. Hoje não é mais possível defender essa idéia, nem para a pesquisa científica, e, muito menos, para a tecnológica. Sabe-se que, na história da Técnica, intervêm comumente as ´invenções´ empreendidas por leigos e curiosos. Depois do estabelecimento da Tecnologia, essas ´invenções´ tornam-se cada vez mais raras, dando lugar às ´descobertas´, feitas por meio de pesquisas organizadas. Assim, tornou-se indispensável um plano de pesquisa que se constitua como programação dos trabalhos a serem realizados durante a pesquisa. Agora o trabalho não é mais simplesmente mental, como na fase anterior da escolha, compreensão e conhecimento. É necessário, agora, escrever um ´Plano de Pesquisa´ para fixa-lo e torna-lo independente da memória” (VARGAS, 1985, P. 2002).
8. “Nesse livro [A origem das espécies] o método de pesquisa utilizado por Darwin esclarece-se. Ele parte da observação da variação das espécies de animais domesticados e das plantas cultivadas cuja variabilidade é muito maior do que a que se observa no estado selvagem. Isto porque a seleção feita pelo homem é muito controlada e eficiente e de efeitos acumulados. Pode-se, assim, observar nitidamente que, numa espécie dada as crias não são jamais nem idênticas entre si nem aos seus pais. Há sempre uma diferença entre os indivíduos. Isto é um fato que pode dever à indução de uma lei geral: a lei da variabilidade. Entretanto, é, também, um fato notável que as singularidades inatas dos indivíduos são transmitidas por hereditariedade aos seus descendentes. Assim um criador pode preservar ou acentuar tais singularidades por acasalamentos efetuados artificialmente. Também desse fato se pode induzir uma lei da hereditariedade.

Há, portanto, uma evolução nas raças dos animais domésticos e plantas cultivadas baseada numa relação artificialmente dirigida pelo homem” (VARGAS, 1985, p. 63-4).

9. “Ninguém desconhece o sacrifício da quase totalidade de nossos acadêmicos, que vão para suas escolas após uma jornada de oito horas ou mais de trabalho profissional. Se isso é sumamente louvável, não o exime, por outro lado, do compromisso de estudar e, portanto, de descobrir tempo para estudar. É preciso descobrir tempo. Tempo para freqüentar as aulas dos diversos cursos, e tempo para estudos particulares. Se procurarmos, o tempo aparecerá. E lembremo-nos de que meia hora por dia representa três horas e meia por semana, quinze horas por mês e cento e oitenta horas por ano. E quem não conseguiria descobrir um ou mais espaços de meia hora em sua jornada? Ou quem não conseguiria fazer aparecerem esses espaços, se o quisesse realmente? Ou será que esses espaços não aparecem porque nós não os procuramos, por medo de encontrá-los? Quem quer descobre tempo, cria tempo, especialmente nós, brasileiros, que somos, por assim dizer, capaz do impossível” (RUIZ, 1991, p. 22).
10. “De fato, as descobertas da Física do século XX têm surpreendido a todos, revelando as limitações da linguagem científica e levando a uma profunda reflexão e revisão da concepção humana acerca do universo. A teoria quântica e a relatividade geral conduzem a uma visão do mundo bastante próxima às visões dos místicos orientais. O caráter essencialmente empírico do conhecimento místico parece ser o elemento fundamental para estabelecer-se o paralelo com o conhecimento científico. As soluções, em termos de linguagem, encontradas pelos místicos podem fornecer uma moldura filosófica consistente para as modernas teorias científicas, que expressas numa rígida e sofisticada linguagem matemática, parecem ter perdido toda relação com as nossas experiências sensoriais. No misticismo oriental sempre fica clara a limitação da linguagem e da lógica. As interpretações verbais da realidade são imprecisas e contraditórias.

A teoria quântica e a relatividade apontam nas mesmas direções: a realidade transcende a lógica clássica” (SZPIGEL, 1990, p. 2).

5. Redação de Resumos de Livros

O resumo de textos mais longos ou de livros inteiros, evidentemente, não poderá ser feito parágrafo por parágrafo, ou mesmo capítulo por capítulo, a partir do que foi sublinhado. Neste caso, o aluno deve adotar os seguintes procedimentos:

a) leitura integral do texto, para conhecimento do assunto;
b) aplicar a técnica de sublinhar, para ressaltar as idéias importantes e os detalhes relevantes, em cada capítulo;
c) reestruturar o plano de redação do autor valendo-se, para isto, do índice ou sumário, isto é, identificar, pelo sumário, as principais PARTES do livro; em cada parte, os CAPÍTULOS, os títulos e subtítulos. De posse desses elementos, elaborar um plano ou esquema de redação do resumo;
d) tomar por base o esquema ou plano de redação, para fazer um rascunho, resumindo por capítulos ou por partes;
e) concluído o rascunho, fazer uma leitura, para verificar se há possibilidade de resumir mais, ou se não houve omissão de algum elemento importante. Refazer a redação, com as alterações necessárias, e transcrever em fichas, segundo as normas de fichamentos.

Nesse tipo de resumo, a técnica de sublinhar é útil para ressaltar as idéias principais do texto, mas, como a redação não pode ser feita a partir do que foi sublinhado, é preciso sintetizar, procurar no sublinhado apenas o indispensável à compreensão global do assunto.

Nem sempre há necessidade de manter todos os títulos e subtítulos; a natureza da obra, do processo de raciocínio do autor e de sua forma de argumentação é que apontarão a necessidade de se conservar ou não a divisão do livro em partes e capítulos.

É indispensável considerar o resumo como uma recriação do texto, uma nova elaboração, isto é, uma nova forma de redação que utiliza as idéias do original.

Segundo Andrade (1992, p. 53), o resumo bem elaborado deve obedecer aos seguintes itens:

1. apresentar, de maneira sucinta, o assunto da obra;
2. não apresentar juízos críticos ou comentários pessoais;
3. respeitar a ordem das idéias e fatos apresentados;
4. empregar linguagem clara e objetiva;
5. evitar a transcrição de frases do original;
6. apontar as conclusões do autor;
7. dispensar a consulta ao original para a compreensão do assunto.

Regularização Fundiária das Terras Públicas Urbanas

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Este trabalho versa sobre a regularização fundiária das terras públicas urbanas, tem como objetivo solucionar os problemas habitacionais enfrentados pela população de baixa renda, proporcionando segurança da posse para aqueles que não tem acesso à moradia, através de um conjunto de medidas jurídicas, urbanísticas e sociais. Trata-se com relevo sobre as formas irregulares de ocupação, as condições precárias quase desumanas dessas habitações, que crescem junto com as cidades, bem como, as irregularidades que devem ser sanadas para viabilizar a urbanização, ou seja, a regularização em todos os âmbitos, quais sejam, jurídico, urbanístico ou como forma de urbanização dos assentamentos. Para tanto, faz necessário à utilização pelo Poder Público de instrumentos que propiciam a legalização e regularização urbanística, assim como, aplicação da legislação atinente.

Ressalta-se que, nos últimos anos, muitas foram as inovações que agilizaram o processo e trouxeram um grande avanço, porém muitos ainda são os obstáculos a serem superados. Portanto essa é a proposta do trabalho expor maneiras, para que ocorra a regularização das áreas públicas urbanas dando seus conceitos e formas de aplicação.


LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

BNH: Banco Nacional da Habitação
CC: Código Civil
CDRU: Concessão de Direito Real de Uso
ConCidades: Conselho Nacional das Cidades
CRI: Cartório de Registros Imobiliários
CUEM: Concessão de Uso Especial para Fins de Moradia
DI: Desenvolvimento Institucional
FNHIS: Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social
GRPU: Gerência Regional do Patrimônio da União
LMEO: Linha Média de Enchentes Ordinárias
LPM: Linha do Preamar Médio
PlanHab: Plano Nacional de Habitação
PLHIS: Plano Habitacional de Interesse Social
PNDU: Política Nacional de Desenvolvimento Urbano
PNH: Política Nacional de Habitação
RIP: Registro imobiliário de Patrimônio
SFH: Sistema Financeiro de Habitação
SNHIS: Sistema de Habitação de Interesse Social
SPU: Secretaria do Patrimônio da União
ZEIS: Zona de Especial Interesse Social

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO
1.1. Contextualização do Tema:
1.2. Delimitação do Tema
1.3. Descrição da Situação Problemática
1.4. Justificativa
1.5. Objetivo Geral
1.6. Objetivos Específicos
1.7. Síntese da Metodologia
1.8. Estrutura do Trabalho
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1. Da Posse e da Propriedade
2.1.1. Posse
2.1.1.1. Evolução Histórica e Conceito da Posse
2.1.1.2. Objeto e Natureza Jurídica da Posse
2.1.1.3. Tipos de Posse
2.1.1.4. Efeitos da Posse
2.1.2. Propriedade
2.1.2.1. Evolução Histórica e Conceito da Propriedade
2.1.2.2. Objeto e Natureza Jurídica da Propriedade
2.1.2.3. Formas de Aquisição da Propriedade
2.1.2.4. Formas de Perda da Propriedade
2.2. Bens Públicos
2.2.1. Conceito e Classificação dos Bens Públicos
2.2.2. Afetação e Desafetação dos Bens Públicos
2.2.3. Disponibilidade dos Bens Públicos
2.2.4. Utilização de Bens Públicos por Particulares
2.2.5. Função Social da Propriedade Pública
2.3. O Problema da Falta de Moradia
2.4. Regularização Fundiária das Terras Públicas Urbanas
2.4.1. Conceito de Regularização Fundiária das Terras Públicas Urbanas
2.4.2. Lei nº. 11.977/2009 – Lei Nacional de Regularização Fundiária
2.4.2.1. Espécies de Ocupações Públicas Urbanas Irregulares
2.4.2.1.1. Conjuntos Habitacionais Públicos
2.4.2.1.2. Ocupações e Favelas
2.4.2.2. Características da Regularização Fundiária Urbana
2.4.2.3. Espécies de Regularização Fundiária Urbana
2.4.2.4. Procedimento da Regularização Fundiária das Terras Públicas Urbanas
2.4.3. Estatuto da Cidade
2.4.4. Instrumentos de Regularização das Terras Públicas Urbanas
2.4.4.1. Concessão de Uso Especial para Fins de Moradia (CUEM)
2.4.4.1.1. Conceito e Aspectos Jurídicos da CUEM
2.4.4.1.2. Requisitos da CUEM
2.4.4.1.3. Competência da CUEM
2.4.4.1.4. Procedimento da CUEM
2.4.4.1.5. Extinção da CUEM
2.4.4.2. Concessão de Direito Real de Uso (CDRU)
2.4.4.2.1. Conceito e Aspectos Jurídicos da CDRU
2.4.4.2.2. Direitos e Deveres do Usuário da CDRU
2.4.4.2.3. Características da CDRU
2.4.4.2.4. Procedimento da CDRU
2.4.4.2.5. Extinção da CDRU
2.4.4.3. Zonas de Especial Interesse Social
2.4.4.4. Parcelamento
2.4.4.4.1. Lei 6.766/79 – Lei do Parcelamento
2.4.4.4.2. Projeto de Lei 3.057/2000
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
4. REFERÊNCIAS
5. ANEXOS
5.1. Medida Provisória nº. 2.220/2001
5.2 Modelo de Auto de Demarcação
5.3 Modelo de Averbação do Auto de Demarcação Urbanística
5.4 Modelo de Registro de Parcelamento
5.5 Modelo de Título de Legitimação de Posse
5.6 Modelo de Registro de Legitimação de Posse

1. INTRODUÇÃO

1.1. Contextualização do Tema:

O agravamento dos problemas urbanos das cidades brasileiras e o contraste entre as diferentes camadas da sociedade esta cada vez mais visível pela falta de infra-estrutura, de circulação interna, e de espaços públicos, além da insegurança daqueles que vivem em espaços ocupados de maneira irregular.

A regularização fundiária das terras públicas urbanas tem como objetivo dar uma solução para estes problemas que vem sendo vividos pela população de baixa renda, procurando dar segurança da posse para aqueles que vivem em condições precárias quase desumanas, em barracos e morros, de maneira totalmente inadequada, melhorando e ordenando as condições do espaço urbano.

São muitos os modos de ocupações no país, que trazem como conseqüência pobreza e violência, os assentamentos em áreas públicas ocorrem através dos conjuntos habitacionais, ocupações e favelas, cada qual com seu problema urbanístico ou jurídico para ser solucionado através dos instrumentos de regularização.

É bastante significativa às áreas ocupadas de maneira irregular nas terras públicas, a maior parte dessas terras não respeita o princípio constitucional da função social da propriedade, estão abandonadas pelo Estado, não sendo utilizadas para nenhuma função pública, portanto passíveis de serem transferidas para o particular através da regularização fundiária.

São muitos os desafios enfrentados para que ocorra na prática a regularização desses espaços públicos, um grande desafio foi superado que era a falta de uma lei federal que pudesse colocar em prática a regularização dessas terras, lei essa que só foi colocada em vigor em 2001 que é a Lei nº. 10.257 o chamado Estatuto da Cidade e mais recentemente foi criada também a Lei nº. 11.977 a Lei Nacional de Regularização Fundiária essa de 2009, além de outras que tratam dos instrumentos de regularização como a Lei nº. 11.481 de 2007, criada a partir da Medida Provisória 2.220 de 2001, a lei do parcelamento Lei Federal nº. 6.766 essa mais antiga editada em 1979, porém há um projeto de lei para alterá-la o Projeto de Lei nº. 3.057 de 2000, que ainda está em processo de aprovação pelo legislativo.

Edésio Fernandes (2006, p. 16) em seu livro Direito Urbanístico, propõe que se o conceito de regularização for entendido como um processo multidimensional que haja a dimensão jurídica de legalização das áreas e titulação dos lotes com uma dimensão urbanística, ambiental e social, é importante, que medidas sejam tomadas nesse sentido por meio de programas e políticas de regularização. Essa é a proposta do trabalho expor maneiras, instrumentos para a regularização dessas áreas dando seus conceitos e formas de aplicação.

1.2. Delimitação do Tema

No Brasil, o processo de urbanização ocorreu de maneira muito rápida, ocasionando um distanciamento do individuo do direito humano da terra urbanizada, e da moradia digna. Atualmente a maioria das habitações que surgem nas cidades é constituída de maneira irregular, causando exclusão social, degradação ambiental e violência urbana, sendo um dos principais objetivos da Administração Pública solucionar estes problemas.

Portanto, o presente trabalho versa sobre o conceito e as espécies de regularização, os instrumentos e as diferentes formas de ocupações em áreas públicas urbanas, caracterizando os problemas e dando uma solução para o tema, por ser um tema pouco discutido será apresentado os desafios e formas para se conseguir a regularização.

1.3. Descrição da Situação Problemática

Dado a amplitude do problema da falta de moradia para as famílias de baixa renda no país, há uma preocupação em promover a cidadania à população mais carente. As habitações clandestinas ou irregulares estão aumentando vertiginosamente pela facilidade que se tem em adquiri-las, por terem um custo muito menor que as moradias regulares.

Neste âmbito os instrumentos de regularização buscam solucionar esta situação, mas com isso surge outro problema que é a falsa ilusão que pode causar as pessoas de baixa renda que se ocuparem uma área de maneira irregular, esta será regulada posteriormente pelo Estado, consequentemente fazendo com que aumente cada vez mais esse tipo de moradia. Assim também é necessário criar políticas públicas que evitem esse tipo de loteamento, pois somente os instrumentos de regularização não serão capazes de banir com esse problema no Brasil.

A principal preocupação dos programas de regularização fundiária urbana é acabar com as moradias irregulares, utilizando os instrumentos adequados para isso, juntamente com o Estado, mais com as moradias irregulares surgem outros problemas que também geram muita preocupação como a falta de infra-estrutura para a população. Na maioria das áreas ocupadas irregularmente não há rede de esgoto, rede elétrica, ou outro serviço público básico, como escolas ou transporte público, aumentando a exclusão social nessas áreas.

Ressalta-se ainda que a maior parte desses loteamentos foram construídos de maneira desordenada sem respeitar um planejamento urbano, tornando a regularização dessas áreas ainda mais difícil.

Diante disto, propõe-se a seguinte questão de pesquisa:

Quais os desafios devem ser enfrentados para que ocorra à regularização das áreas urbanas ocupadas de maneira irregular nas terras públicas, e os instrumentos adequados para sua efetivação, como forma de diminuição das desigualdades sociais?

1.4. Justificativa

A Regularização Fundiária das Terras Públicas Urbanas tem como objetivo solucionar ou ao menos amenizar os problemas causados pelas ocupações irregulares nos imóveis da União. Betânia Alfonsin (1999, p. 13) definiu a Regularização Fundiária como um processo em que o poder público intervém nos aspectos jurídicos, físicos e sociais, com o objetivo de legalizar as áreas ocupadas irregularmente pela população com o fim de moradia, melhorando o ambiente urbano, resgatando a cidadania e a qualidade de vida dos beneficiários da regularização.

Por isso é importante ser discutido e estudado os instrumentos para a materialização da regularização fundiária das terras da União nas cidades brasileiras, hoje os problemas ocasionados pela falta de legalização das moradias irregulares ou clandestinas preocupa a todos, não apenas aos moradores das regiões irregulares como também aqueles que mesmo não morando nesses locais convivem com os problemas ocasionados por eles, já que ninguém está imune às conseqüências do alastramento dessas ocupações irregulares.

Ainda não há um esforço conjunto entre o poder público e a sociedade para solucionar os problemas habitacionais, proporcionado qualidade de vida para as pessoas que ocupam as áreas irregulares, dando segurança a essas pessoas com a posse de suas moradias. O direito a moradia e a dignidade da pessoa humana são dois princípios constitucionais que estão sendo desrespeitados quando o Estado não busca uma solução para as moradias irregulares.

Essa situação vem sendo mudada aos poucos nas ocupações em terrenos públicos, por meio de convênios, as prefeituras das cidades e os governos estaduais estão recebendo da União o domínio das terras públicas ocupadas irregularmente para que sejam regularizadas.

1.5. Objetivo Geral

Descrever os conceitos, instrumentos e desafios para a Regularização Fundiária das Terras Públicas Urbanas, sua importância para o direito à moradia, atendendo a função social da propriedade pública e a dignidade da pessoa humana.

1.6. Objetivos Específicos

• Descrever o conceito de Regularização Fundiária das Terras Públicas Urbanas, como instrumento de legalização de áreas ocupadas de maneira ilegal;
• Identificar a contribuição desse instituto para a redução da pobreza e das desigualdades;
• Descrever os instrumentos de regularização utilizados para promover a segurança jurídica da posse e a inclusão sócio-territorial.

1.7. Síntese da Metodologia

O método de raciocínio a ser empregado será o indutivo, utilizando dados particulares para se chegar se a uma conclusão geral sobre o tema. A forma de abordagem será a jurídico-dogmática, onde serão tratados os conceitos de cada instituto, seus aspectos doutrinários, ideológicos, e seu relacionando com o direito. A pesquisa a ser realizada será a pesquisa exploratória, na qual será aplicada a técnica de pesquisa bibliográfica utilizando doutrinas de Direito Civil, Direito Administrativo, especificas sobre o tema, legislação e pesquisas na Internet.

1.8. Estrutura do Trabalho

O presente trabalho versa sobre o tema Regularização Fundiária das Terras Públicas Urbanas, e foi estruturado em quatro partes, na primeira parte foram estudados a posse e a propriedade,

Para acompreensão do tema, é importante dispor desses institutos, sobre a posse analisa-se a sua evolução histórica, o conceito, os objetos que podem serem exercidos a posse, a sua natureza juridica, as classificações possíveis e seus efeitos; na análise sobre a propriedade também foi destacado a evolução historica, o conceito, o objeto e natureza jurídica, além de formas de aquisição e perda da propriedade.

A segunda parte do trabalho cuidou de explorar a classificação e o conceito dos bens públicos, por ser o objeto a ser reclamado nos instrumentos de regularização, além da afetação, desafetação e disponibilidade dos mesmo, sua utilização por particulares, e a função social da propriedade pública.

Na terceira parte do trabalho foi discutido o problema da falta de moradia, a violação do principio basico da constituição que é o direito a moradia digna, pessuposto indispensavél para a discussão do tema principal.

Na última parte do trabalho foi explorado a Regularização Fundiária das Terras Públicas Urbanas, dando seu conceito, classificações, procedimento e as legislações referentes ao tema por fim foram apresentados os instrumentos para a aplicação da regularização nas áreas públicas urbanas irregulares.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1. Da Posse e da Propriedade

2.1.1. Posse

2.1.1.1. Evolução Histórica e Conceito da Posse

Segundo Venosa (2005, p. 48) a posse é um dos institutos do direito mais polêmico, o que consequentemente acarreta muitas divergências entre os doutrinadores. Os romanos são considerados um dos responsáveis por esta divergência doutrinária, na medida em que seus textos eram muito contraditórios, não seguiam uma regra, sendo o conceito de posse alterado por diversas vezes. Da mesma forma, o ordenamento jurídico brasileiro trata a posse atribuindo-lhe vários enfoques diferentes fazendo com que nunca se chegue a um conceito unânime pelos doutrinadores.

A palavra posse deriva do latim possessio que provém de potis, radical de potestas, poder; e sessio, da mesma origem de sedere, significa estar firme assentado, que indica, portanto, um poder que se prende a uma coisa. (VENOSA, 2005, p.48)

Outrossim, não existe entendimento unânime quanto a origem da posse no direito, várias são as teorias sobre a matéria, as mais conhecidas são de Savigny e Ihering. Savigny em 1803 aos 24 anos, elaborou uma monografia como o nome de Tratado da Posse onde denominava a posse como sendo “o poder que a pessoa tem em dispor materialmente de uma coisa com intenção de tê-la para si e defendê-la contra a intervenção de outrem” (FARIAS; ROSENVALD, 2006, p. 29 e 30).

Para Savigny a posse é composta por dois elementos, pelo corpus que é o controle material da pessoa sobre a coisa, e o animus que é o exercício do direito de proprietário, atuando como se proprietário fosse da coisa mesmo não sendo, para ele esses dois elementos juntos seria a fórmula da posse. Essa teoria é conhecida como subjetiva, por ser o animus a vontade interior, a intenção de proprietário a característica principal para se ter a posse da coisa, na teoria de Savigny é o animus que distingui o possuidor de um simples detentor (FARIAS; ROSENVALD, 2006, p. 31 e 32).

Em contrapartida Ihering entende que a posse é o mero exercício da propriedade, ou seja, na posse exerce o poder de fato sobre a coisa, e enquanto na propriedade o poder de direito, a posse era o caminho para se chegar à propriedade (FARIAS; ROSENVALD, 2006, p. 31 e 32).

Para o nobre doutrinador a tutela da posse não tem o objetivo necessariamente de evitar a violência, mas de defender a propriedade, assim os interditos possessórios, apesar do nome, nascem em razão da propriedade e não da posse em si, pois buscam a proteção da propriedade mesmo que reivindiquem a posse (FARIAS; ROSENVALD, 2006, p. 31 e 32).

A teoria de Ihering é considerada teoria objetiva da posse, por isso não aceita que o conceito de posse seja baseado somente no elemento subjetivo, pois não depende da vontade do individuo para que haja a posse, a vontade tem de estar ligada à consciência, a posse deve ser reconhecida externamente, não sendo um elemento psicológico que a revelaria, mas sim a maneira como o indivíduo se comporta em relação à coisa como se proprietário fosse (FARIAS; ROSENVALD, 2006, p. 31 e 32).

Assim a posse pode ser conceituada na teoria objetiva como:

O exercício de um poder sobre uma coisa correspondente ao direito de propriedade ou de outro direito real. Ao dispensar-se o elemento psicológico do “animus”, estende-se a condição de possuidores àqueles que seriam considerados meros detentores pela teoria clássica (v.g. locatários, arrendatários). Outrossim, por dispensar o aspecto subjetivo da intenção do dono, a doutrina objetiva consagra a admissibilidade da coexistência das posses diretas e indiretas (FARIAS; ROSENVALD, 2006, p. 32 e 33).

O Código Civil de 2002 assim como o Código Civil de 1916 adotou a teoria objetiva de Ihering, mas utiliza da teoria subjetiva de Savigny no que se refere à usucapião, utilizando o animus domini para se obter a propriedade. Porém, ao conceituar a posse o Código Civil adota a teoria de Ihering, de acordo com o artigo 1.196: “considera-se possuidor todo aquele que tem de fato o exercício, pleno ou não, de algum dos poderes inerentes à propriedade” (FARIAS; ROSENVALD, 2006, p. 33 e 34).

De acordo com Venosa (2005, p. 55) para se obter um conceito de posse deve-se sempre ter dois elementos que a integram que são o corpus e o animus. O corpus como já dito antes é a relação material do homem com a coisa, e o animus é a intenção de permanecer na coisa, na definição desses dois elementos devem se levar em consideração às duas teorias clássicas de Savigny e Ihering.

2.1.1.2. Objeto e Natureza Jurídica da Posse

O objeto da posse ainda é uma questão que gera polêmica no mundo jurídico, alguns doutrinadores classificam como objeto da posse as coisas corpóreas, que podem ser objeto de propriedade, salvo as que estão fora do comércio ou incorpóreas, com exceção da propriedade literária artística e científica, isto é, só poderia ser objeto da posse os direitos reais. No entanto, para outros doutrinadores abrangem tanto os direitos reais como os pessoais, conforme estabelece os artigos 1.196 e1547 do Código Civil (DINIZ, 2008, p. 44 a 46):

Art. 1.196. Considera-se possuidor todo aquele que tem de fato o exercício, pleno ou não, de algum dos poderes inerentes à propriedade.

Art. 1.547. Na dúvida entre as provas favoráveis e contrárias, julgar-se-á pelo casamento, se os cônjuges, cujo casamento se impugna viverem ou tiverem vivido na posse do estado de casados.

Como leciona Diniz (2008, p. 44 a 46) no artigo 1.196 do Código Civil há referência ao exercício pleno ou não de alguns poderes inerentes ao domínio ou a propriedade, incluído então os direitos pessoais, como também refere o artigo 1.547 à posse de direitos pessoais com relação ao estado de casados. Contudo a maioria dos doutrinadores de Direito Civil, como Clóvis Beviláqua, Serpa Lopes, Carvalho Santos entre outros, são contrários que o objeto da posse seja também os direitos pessoais.

Assim Maria Helena Diniz (2008, p. 49) considera como objeto da posse:

a) coisas corpóreas, salvo as que tiverem fora do comercio, ainda que gravadas com cláusula de inalienabilidade; b) coisas acessórias se puderem ser destacadas da principal sem alteração da sua substância; c) coisas coletivas; d) direitos reais de fruição: uso, usufruto, habitação e servidão (há dúvidas quanto à enfiteuse); e) direitos reais de garantia: penhor, anticrese, excluída a hipoteca; f) direitos pessoais patrimoniais ou de crédito.

Da mesma maneira que o conceito e o objeto da posse a natureza jurídica também é controversa, a doutrina se divide em três posições: a primeira que a posse consiste em um fato, sendo seguida por Windscheid, Trabucchi, Pacificci-Mazzoni, Dernburg, Bonfante, Van Wetter, Voet, De Filipis, Donellus, Cujacius; a segunda diz que a posse é um fato e um direito, sendo um fato a sua essência e um direito os efeitos por ela produzidos, essa posição é adotada por Savigny, Merlin, Lafayette, Wodon, Namur, Domat, Ribas, Laurent, Pothier; a terceira entende que a posse é um direito ou como Ihering conceitua é o interesse juridicamente protegido, uma vez que é condição a utilização econômica da propriedade essa posição é aderida pela maioria dos civilistas, além de Ihering, Teixeira de Freitas, Cogliolo, Demolombe, Molitor, Stahl, Ortolan e Puchta (DINIZ, 2008, p. 50 e 51).

Porém há uma divergência entre a natureza da posse ser real ou pessoal, nesta existe uma faculdade do homem sobre outra pessoa, exigindo-lhe o comprimento uma obrigação. Maria Helena Diniz (2008, p. 52) considera que a posse é um direito real, entende que a posse é um desmembramento da propriedade e por ser a propriedade classificada como direito real a posse deve seguir a mesma, sendo que sem a posse não há propriedade e por isso, protegendo uma se protege indiretamente a outra, além do mais a posse encontra todas as características de direito real por ser de exercício direto, ter oponibilidade erga omnes, e sua incidência será em objeto obrigatoriamente determinado.

2.1.1.3. Tipos de Posse

A posse possui várias características, formas e efeitos, de acordo com cada espécie. Pode ser classificada em: direta e indireta, justa e injusta, de boa-fé e má-fé, composse pro diviso e composse pro indiviso, posse nova e posse velha, posse ad interdicta e posse ad usucapionem.

A posse direta e indireta tem como objetivo determinar em relação às pessoas, a garantia de sua posse e as conseqüências jurídicas. A posse direta é temporária e derivada, nela há uma relação transitória de direito, e precede sempre de alguém, como no caso do locatário, a posse existe enquanto durar a locação. Por outro lado, a posse indireta é aquela em que o possuidor cede a posse a um terceiro temporariamente, podendo ser exemplificado como o locador de um imóvel (DINIZ, 2008, p. 54 e 55).

A posse justa é definida pelo artigo 1200 do Código Civil. “É justa a posse que não for violenta, clandestina ou precária”, já a posse injusta, segundo Diniz (2008, p. 59) é aquela que não se enquadra em um desses preceitos do art. 1200 do Código Civil. Já o artigo 1.201 e parágrafo único do Código Civil definem a posse de boa-fé: “É de boa-fé a posse, se o possuidor ignora o vício, ou o obstáculo que impede a aquisição da coisa. O possuidor com justo título tem por si a presunção de boa-fé, salvo prova em contrário, ou quando a lei expressamente não admite esta presunção”, enquanto a posse de má fé é aquela em que o possuidor tem conhecimento da ilegitimidade, ou seja, não ignora que possui indevidamente o imóvel. Ainda ressalta-se que a boa-fé e má fé não são condições essenciais para defender a posse (DINIZ, 2008, p. 60 e 61).

A composse é quando duas ou mais pessoas exercem a posse simultaneamente como dispõe o artigo 1199 do Código Civil: “Se duas ou mais pessoas possuírem coisa indivisa, poderá cada uma exercer sobre ela atos possessórios, contanto que não excluam os dos outros compossuidores”. A composse subdivide-se em: pro indiviso e pro diviso, aquela ocorre quando as pessoas que possuem o imóvel em conjunto têm apenas uma parte ideal, não há uma divisão do bem, isto é possuem uma parte que não foi definida, já a posse pro diviso é quando não há uma divisão de direito do bem, porém existe uma divisão de fato, onde cada possuidor exerce a posse sobre uma parte certa e determinada do bem. (DINIZ, 2008, p. 57 e 58)

Posse nova é quando a posse tem menos de um ano e um dia e a posse velha, é aquela que possui mais de um ano e dia. Naquela cabe liminar para a proteção da posse, enquanto, nesta o possuidor será protegido pelo interdito possessório (DINIZ, 2008, p. 62).

E, por último a posse ad interdicta e a posse ad usucapionem, nos dizeres de Diniz (2008, p. 62) a posse ad interdicta é aquela que pode ser defendida pelas ações ou interditos possessórios, ao passo que na posse ad usucapionem adquire-se a propriedade pelo decurso do tempo, ocasionando a usucapião do imóvel, desde que obedecidos os requisitos legais.

2.1.1.4. Efeitos da Posse

Os efeitos da posse consistem nas conseqüências jurídicas produzidas pela aquisição, manutenção ou perda da posse. De acordo com Clóvis Beviláquia (apud VENOSA, 2005, p. 115 e 116) são sete os efeitos da posse: direito ao uso de interditos; percepção dos frutos; direito de retenção das benfeitorias; responsabilidade do possuidor por deteriorações; usucapião; inversão do ônus da prova para quem contesta a posse; o possuidor goza de posição mais favorável em atenção à propriedade, cuja defesa se completa pela posse.

Os interditos ou ações possessórias são utilizados para efetivar a defesa da posse quando o possuidor for ameaçado, molestado ou esbulhado, para tanto é necessário utilizar esses procedimentos possessórios (VENOSA, 2005, p. 117).

Na percepção dos frutos, se o possuidor for um possuidor de boa fé terá direito aos frutos percebidos enquanto a boa fé durar. Em regra geral, os frutos são acessórios, ou seja, pertencem ao titular da coisa principal, por isso quando se reivindica a coisa que o outro usufrui, deverá este restituir os frutos percebidos. No entanto, há exceção em favor do possuidor de boa fé, no momento em que cessar a boa fé deve ser restituído os frutos pendentes ao titular da coisa, deduzindo as despesas da produção e custeio e, se forem colhidos frutos antecipadamente devem também ser restituídos (VENOSA, 2005, p. 118 a 122).

No entendimento de Venosa (2005, p. 122 a 128) o direito de retenção das benfeitorias trata-se de mais uma situação para se impedir o enriquecimento injusto, o possuidor de boa fé tem direito de receber as benfeitorias necessárias e úteis, podendo reter a coisa enquanto as benfeitorias não forem pagas. No caso das benfeitorias voluptuárias, se o proprietário não quiser pagar a benfeitoria o possuidor poderá levantá-la, desde que não deteriore a coisa.

Na responsabilidade do possuidor por deteriorações, o possuidor poderá pagar uma indenização ao esbulhado pelo prejuízo causado pelo prazo que deixou de dispor do bem, contudo, quando comprovado o esbulho terá o esbulhado que provar o prejuízo causado (VENOSA, 2005, p. 128 e 129).

A usucapião é um dos principais efeitos da posse, que é a aquisição da propriedade pela posse continua durante certo lapso de tempo (VENOSA, 2005, p. 131).

Quanto à inversão do ônus da prova para quem contesta Diniz (2008, p. 100) leciona que, compete ao adversário do possuidor comprovar o seu direito, se não for provado pelo autor a posse devera ser mantida pelo réu.

E, por fim, o possuidor goza de posição processual mais favorável em atenção à propriedade, cuja defesa se completa pela posse, abrangendo também a posse dos móveis e dos objetos que estiverem no imóvel, devendo ser mantido no imóvel até que se prove o contrário, passando o possuidor a assumir a posição de depositário do bem (DINIZ, 2008, p. 100).

2.1.2. Propriedade

2.1.2.1. Evolução Histórica e Conceito da Propriedade

A propriedade, de acordo com alguns doutrinadores tem origem no direito romano, não há uma data precisa do seu surgimento, já para outros a noção de propriedade imobiliária individual, surgiu na Lei das XII Tábuas. Neste período, o indivíduo recebia uma porção de terras para cultivar, mais quando a colheita terminava as terras voltavam a ser coletiva, sendo que era costume conceder sempre às mesmas terras as mesmas pessoas todos os anos, assim nessas terras o indivíduo instalava-se construído sua moradia com sua família e escravos, criando então a propriedade individual e perpétua (VENOSA, 2005, p. 174 e 175).

Porém, nos primeiros séculos da história romana a propriedade só poderia ser adquirida sob formas determinadas, somente admitia o dominium ex jure quiritium (propriedade quiritária), não sendo possível adquiri-la fora dessas formas, somente na época clássica o Direito Romano admitiu a existência do uso abusivo do direito de propriedade e sua reprimenda, à concepção romana de propriedade foi transmitida para a cultura jurídica da Europa continental (VENOSA, 2005, p. 174 e 175).

Para Venosa (2005, p. 174 e 175) a propriedade perdeu se caráter unitário e exclusivo na idade média, passando o território a ser sinônimo de poder, de soberania nacional, no Direito Canônico havia a idéia que o homem era legitimado para adquirir bens devendo fazer justo uso deles. Já a partir do século XVIII, a escola de direito natural passou a exigir leis que definissem a propriedade, na Revolução Francesa foi aceita a idéia romana de propriedade, com o Código de Napoleão, que definiu a propriedade no artigo 544, de maneira extremamente individualista a considerando um fato econômico em que havia a utilização exclusiva da coisa.

No século XIX, busca-se um sentido social para a propriedade influenciado pela revolução e o desenvolvimento industrial e, por meio de doutrinas socializantes. Atualmente, a propriedade e definida através da organização política do país, considerando a propriedade individual (VENOSA, 2005, p. 175).

O termo propriedade é considerado por muitos de origem latina da palavra proprietas derivada de proprius, que é definida como aquilo que pertence a uma pessoa, já para outros a procedência da palavra propriedade advém da palavra domare, que significa sujeitar ou dominar, dando a idéia de domus que é a casa em que o senhor da casa se denomina dominus. Apesar da diferença etimológica, utiliza-se tanto propriedade quanto domínio para definir a mesma coisa, uma vez que entre eles não há diferença de conteúdo (DINIZ, 2008, p. 112 e 113).

O Código Civil utiliza os elementos essenciais da propriedade para prescrevê-la em ser artigo 1228: “O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha”. De acordo com Maria Helena Diniz (2008, p. 113 e 114) essa seria a forma mais certa de se definir o termo, “como sendo o direito que a pessoa física ou jurídica tem, dentro dos limites normativos, de usar, gozar e dispor de um bem, corpóreo ou incorpóreo, bem como de reivindicá-lo de quem injustamente o detenha”.

2.1.2.2. Objeto e Natureza Jurídica da Propriedade

Pode ser considerado objeto da propriedade tudo que dela não for excluído por lei, podendo exercer o domínio sobre os bens corpóreos imóveis ou móveis como já citado, a terminologia atual aceita domínio e propriedade como sinônimos. Discussão importante se estabelece sobre a extensão do domínio da propriedade imóvel, sendo delimitada horizontalmente e verticalmente. Tratando-se da delimitação vertical não há um consenso sobre os limites da propriedade aérea e do subsolo por sua importância, (DINIZ, 2008, p. 117 e 118).

O Código Civil dispôs sobre essa questão:

Art. 1229 – A propriedade do solo abrange a do espaço aéreo e subsolo correspondentes, em altura e profundidade úteis ao seu exercício, não podendo o proprietário opor-se a atividades que sejam realizadas, por terceiros, a uma altura ou profundidade tais, que não tenha ele interesse legítimo em impedi-las.

Para se definir o objeto da propriedade sobre bens corpóreos de acordo com Maria Helena Diniz (2008, p. 119) devem ser observados três princípios: o da corporeidade, da individualização e da acessoriedade, isto é, o objeto possuir valor econômico materializado, ser individualmente determinado, juntamente com seus acessórios.

Alguns autores admitem que seja objeto da propriedade os bens incorpóreos, por serem estes regulados a partir de uma relação de domínio como os bens corpóreos. Esse entendimento tinha respaldo no Código Civil de 1916 no que se tratava do assunto em seu texto. No entanto o novo Código suprimiu esta parte, sendo considerados os bens incorpóreos como um ramo autônomo (DINIZ, 2008, p. 119 e 120).

Para a mesma autora a Constituição Federal considera os bens incorpóreos passíveis de obter a propriedade quando os iguala aos bens corpóreos no artigo 5°, incisos XXVII e XXIX, in verbis:

Art. 5º – XXVII – aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar;

Art. 5º – XXIX – a lei assegurará aos autores de inventos industriais privilégio temporário para sua utilização, bem como proteção às criações industriais, à propriedade das marcas, aos nomes de empresas e a outros signos distintivos, tendo em vista o interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômico do País;

No entendimento de Venosa (2005, p. 183 e 184) a natureza jurídica da propriedade torna-se secundária pelo seu aspecto predominantemente social. Esse aspecto modifica-se a cada período da história em função da própria natureza humana e da utilização social da propriedade contemplada na Constituição Federal de 1988. Mesmo sendo um aspecto secundário, a propriedade é considerada um direito real, portanto deve ser classificada com natureza de direito real.

2.1.2.3. Formas de Aquisição da Propriedade

O Código Civil de 1916, no artigo 530, enumerou a formas de aquisição da propriedade: a) pela transmissão do título de transferência no registro de imóveis; b) pela acessão; c) pela usucapião; d) e, por fim, pelo direito hereditário. Diversamente, o Código de 2002, não elenca as modalidades de aquisição, apenas traz as modalidades em seus artigos, o que para alguns autores foi uma decisão bastante acertada, à medida que não se trata mais de um rol taxativo. Mais a doutrina considerada como as principais formas de aquisição da propriedade as mesmas elencadas no Código Civil de 1916 (VENOSA, 2005, p. 193).

São elas: o registro do título de transferência no CRI, pois para adquirir um bem não é suficiente o negócio jurídico, além do acordo de vontades é necessário o registro do título translativo na circunscrição imobiliária competente; a acessão, que é considerada o modo pelo qual o proprietário passa a ter o domínio de tudo que se une ou incorpora ao seu bem, podendo ser natural ou artificial, natural quando a coisa acessória incorpora a principal por meio de ações da natureza, como a formação de ilhas, o aluvião, a avulsão e o abandono de álveo, por outro lado, a acessão artificial surge da intervenção humana, como as plantações e construções de obras; a usucapião é a aquisição da propriedade pela posse prolongada da coisa respeitando alguns requisitos legais (DINIZ, 2008, p. 128 a 174).

E por último a aquisição por direito hereditário, que depende da morte do titular do bem, fazendo com que a herança transmita aos herdeiros legítimos e testamentários (VENOSA, 2005, p. 239 e 240).

Venosa (2005, 198) classifica a aquisição da propriedade em originaria e derivada: a primeira ocorre quando não há vinculo por qualquer relação com o titular anterior, como a usucapião; e a segunda quando há uma relação jurídica entre as partes havendo a transmissão da propriedade de um sujeito a outro. Outra classificação diz respeito à forma de transmissão que pode ser por titulo singular ou universal, aquele ocorre quando o novo titular assume a condição do anterior mais sem obter todos os seus direitos por ter como objeto bens certos e individualizados, enquanto neste na aquisição ocorre à sucessão de todos os direitos e obrigações transfere-se à universalidade, como por exemplo, na transmissão hereditária.

2.1.2.4. Formas de Perda da Propriedade

O Código Civil atual enumera as formas de perda da propriedade no artigo 1275, que são: alienação, renúncia, abandono, perecimento da coisa e pela desapropriação. Ressalta-se que esse rol é apenas elucidativo, pois pode ocorrer a perda da propriedade no caso da usucapião, acessão ou dissolução do casamento. A alienação a renuncia e o abandono são atos voluntários que causam a perda da propriedade, já o perecimento da coisa e a desapropriação são involuntários (VENOSA, 2005, p. 271 e 272).

Na alienação o proprietário transfere o domínio da coisa ou direito para outrem por vontade própria, como na compra e venda e a doação. A renúncia é o ato jurídico em que alguém abre mão de um direito sem transferi-lo a outrem, se caracteriza por ser unilateral, irrevogável, expresso e independe de aceitação da outra parte. No abandono o proprietário do bem o desfaz sem a manifestação expressa de sua vontade, devendo ser avaliado pelo comportamento do titular do bem e se o fez voluntariamente, no entanto, se houver dúvidas sobre o abandono ele não pode ser presumido. No perecimento da coisa extingue-se o direito, pois sem objeto não há direito, um exemplo é a área de um terreno que seja tomado por águas, se o terreno desaparece, ele também desaparece como propriedade, inexistindo, portanto um titular do bem.

A desapropriação é a ultima modalidade de perda da propriedade elencada pelo Código Civil, ocorre quando o Estado intervém na propriedade particular, na maioria das vezes para a utilização social, contudo o Estado deve indenizar o desapropriado (VENOSA, 2005, p. 273 a 277).

2.2. Bens Públicos

2.2.1. Conceito e Classificação dos Bens Públicos

Os bens são classificados em particulares e públicos estes pertencem ao domínio nacional, ou seja, são de propriedade das pessoas jurídicas de direito público interno também integram esse rol os bens concernentes às autarquias e fundações públicas, já os bens particulares são todos os outros (MEIRELLES, 2008, p. 526).

Hely Lopes Meirelles (2008, p. 526) conceitua bens públicos como:

Bens públicos, em sentido amplo, são todas as coisas, corpóreas ou incorpóreas, imóveis, móveis e semoventes, créditos, direitos e ações, que pertençam, a qualquer título, às entidades estatais, autárquicas, fundacionais, e empresas governamentais.

Os bens públicos podem classificados quanto à entidade pública que pertençam ou o serviço autárquico, fundacional ou parestatal que se vincule em federais, estaduais e municipais, mas nos dizeres de Meirelles (2008, p. 527) são bens nacionais, por fazerem parte do patrimônio da União.

Outra importante categoria advém do art. 99 do CC, que classifica bens públicos em bens de uso comum do povo, de uso especial e dominical. Os bens de uso comum do povo ou de domínio público são todos os locais abertos que possam ser utilizados pela população como mares, praias, estradas, ruas e etc. Já os bens de uso especial ou do patrimônio administrativo são os bens que se destinam a execução de serviços públicos, ou seja, local onde se realiza as atividades públicas como os edifícios das repartições públicas. Ressalta-se ainda que por estes bens terem finalidade pública são também chamados de bens patrimoniais indisponíveis (MEIRELLES, 2008, p. 527 e 529).

Por fim os bens dominicais ou do patrimônio disponível que podem ser utilizados para qualquer fim, podendo até serem alienados se Administração desejar. Sobre estes bens a administração atua como proprietária, sendo parte integrante do patrimônio do Estado (MEIRELLES, 2008, p. 527 e 529).

2.2.2. Afetação e Desafetação dos Bens Públicos

Segundo Carvalho Filho (2004, p. 915): “afetação e desafetação diz respeito aos fins para os quais está sendo utilizado o bem público”. Sendo assim se aproveitado para fim público é um bem afetado. Ao contrário, será desafetado na medida em que não está sendo utilizado para qualquer fim público.

A afetação para uso comum ocorre de duas maneiras: natural, como os mares e ruas ou por lei ou ato administrativo que da utilização pública a um bem dominical ou de uso especial, já à desafetação do bem de uso comum e de uso especial surgem por meio de lei ou ato do Executivo em consonância legal, como a transferência de um serviço público que era prestado em um determinado prédio passando para outro. Neste caso o primeiro prédio é desafetado (MELLO, 2008, p. 899).

2.2.3. Disponibilidade dos Bens Públicos

Os artigos 100 e 101 do Código Civil dispõem sobre a disponibilidade dos bens da União:

Art. 100. Os bens públicos de uso comum do povo e os de uso especial são inalienáveis, enquanto conservarem a sua qualificação, na forma que a lei determinar.

Art. 101. Os bens públicos dominicais podem ser alienados, observadas as exigências da lei.

Sendo assim, os bens citados no artigo 100 do Código Civil são considerados inalienáveis por estarem ligados a alguma função pública, não podem ser comprados, vendidos, permutados, hipotecados, locados ou ser objeto de comodato. Porém essa inalienabilidade não é absoluta, já que os bens de uso comum e de uso especial podem ser alienados desde que sejam desafetados, isto é, tornem-se bens dominicais, perdendo a sua destinação pública (DI PIETRO, 2008, p. 645).

Di Pietro (2008, p. 646) ainda ressalta que os bens de uso comum e de uso especial estão fora do comércio jurídico, ou seja, não são comerciáveis no âmbito do direito privado, pois não podem ser objeto nem de contrato, mas podem ser alienados sem que haja a necessidade de desafetação quando for transferido de uma entidade pública para outra, essa transferência se da normalmente por lei.

Diferentemente os bens dominicais por não terem finalidade pública, podem ser alienados por institutos de direito privado ou de direito público. Os bens públicos devem respeitar alguns requisitos para serem alienados, quais sejam demonstrar interesse público, ter prévia avaliação e passar pelo processo de licitação, e por fim tratando-se de bem imóvel autorização legislativa do Presidente da República, conforme artigo 23 da Lei nº. 9.636/98, sob pena de invalidação (DI PIETRO, 2008, p. 646).

Do mesmo modo outras imposições são estabelecidas para alienar bens dominicais, como licitação na forma de concorrência quando se tratar de bens imóveis nos termos do art. 17 da Lei nº. 8.666/93, in verbis (DI PIETRO, 2008, p. 646):

Art. 17. A alienação de bens da Administração Pública, subordinada à existência de interesse público devidamente justificado, será precedida de avaliação e obedecerá às seguintes normas:

I – quando imóveis, dependerá de autorização legislativa para órgãos da administração direta e entidades autárquicas e fundacionais, e, para todos, inclusive as entidades paraestatais, dependerá de avaliação prévia e de licitação na modalidade de concorrência, dispensada esta nos seguintes casos:

a) dação em pagamento;
b) doação, permitida exclusivamente para outro órgão ou entidade da administração pública, de qualquer esfera de governo, ressalvado o disposto nas alíneas f, h e i;
c) permuta, por outro imóvel que atenda aos requisitos constantes do inciso X do art. 24 desta Lei;
d) investidura;
e) venda a outro órgão ou entidade da administração pública, de qualquer esfera de governo;
f) alienação gratuita ou onerosa, aforamento, concessão de direito real de uso, locação ou permissão de uso de bens imóveis residenciais construídos, destinados ou efetivamente utilizados no âmbito de programas habitacionais ou de regularização fundiária de interesse social desenvolvidos por órgãos ou entidades da administração pública;
g) procedimentos de legitimação de posse de que trata o art. 29 da Lei no 6.383, de 7 de dezembro de 1976, mediante iniciativa e deliberação dos órgãos da Administração Pública em cuja competência legal inclua-se tal atribuição; e social desenvolvidos por órgãos ou entidades da administração pública;
h) alienação gratuita ou onerosa, aforamento, concessão de direito real de uso, locação ou permissão de uso de bens imóveis de uso comercial de âmbito local com área de até 250 m² (duzentos e cinqüenta metros quadrados) e inseridos no âmbito de programas de regularização fundiária de interesse social desenvolvidos por órgãos ou entidades da administração pública;
i) alienação e concessão de direito real de uso, gratuita ou onerosa, de terras públicas rurais da União na Amazônia Legal onde incidam ocupações até o limite de 15 (quinze) módulos fiscais ou 1.500ha (mil e quinhentos hectares), para fins de regularização fundiária, atendidos os requisitos legais.

Em contrapartida nos casos de bens móveis a modalidade de licitação é o leilão, que também observa as normas do artigo supracitado, isto é, comprovação do interesse público e avaliação. Por fim insta salientar, que na alienação de bens dominicais no âmbito do direito público, assim como no âmbito privado não é necessário à alienação, uma vez que não há concorrência, são as hipóteses de investidura, retrocessão e legitimação da posse (DI PIETRO, 2008, p. 647).

A investidura que é a venda de bem público a outro órgão ou entidade da Administração Pública, a retrocessão que é o ato pelo qual a administração reincorpora o bem expropriado ao patrimônio da união em razão de não ter sido utilizado na finalidade prevista, sendo restituído ao proprietário o valor recebido a título de indenização, na legitimação da posse trata-se de uma forma de aquisição de domínio, a qual será possível desde que cumpridos alguns requisitos. (DI PIETRO, 2008, p. 647).

2.2.4. Utilização de Bens Públicos por Particulares

Di Pietro (2008, p. 649 e 650) ensina que os bens públicos podem ser usados pela União e particulares de diferentes formas. Os bens públicos utilizados pelos particulares a depender da forma dessa utilização classificam-se em: normal e anormal, quando em conformidade ou não com a função destinada e uso comum ou privativo, no primeiro o bem não é utilizado com exclusividade pelo particular ao passo que no segundo é.

Sendo assim o uso normal do bem público pelo particular ocorre quando o bem é utilizado de acordo com sua destinação principal, um exemplo é a circulação de particulares pelas ruas, o bem está sendo usado pelo particular mais não está exercendo uma destinação diferente da normal. Nesta hipótese, configura-se a concessão de uso pelo particular outorgada pela Administração Pública, nos dizeres da Di Pietro (2008, p. 650) a forma mais adequada para a concessão.

Já o bem de uso anormal é aquele que é utilizado pelo particular de maneira diversa, acessória ou até mesmo contraria a finalidade do bem estabelecida pela Administração, um exemplo seria o uso de uma via pública para algum evento particular durante um período. Todavia os bens públicos usados pelo particular não podem ser incompatíveis com sua utilização principal, ou seja, não deve a utilização do bem pelo particular prejudicar o seu uso normal (DI PIETRO, 2008, p. 650).

Os bens utilizados por todos são classificados como bens de uso comum, não sendo necessário o consentimento expresso a cada indivíduo pela Administração para que sejam aproveitados, em regra, devem ser usados gratuitamente mais pode excepcionalmente ser remunerados. Evidencia-se que o Estado pode exercer seu poder de polícia sobre esses bens, regulamentando seu uso, fiscalizando e aplicando medidas coercitivas. Há duas modalidades de uso comum: ordinário e o extraordinário, o segundo ocorre quando um bem é utilizado sem exclusividade, porém está sujeito à remuneração ou a consentimento da Administração, ao passo que o primeiro deve ser utilizado sem distinção por todos, sem restrições e gratuitamente (DI PIETRO, 2008, p. 652 e 653).

Ao contrário dos bens de uso comum, nos bens de uso privativo, o bem público é utilizado exclusivamente pelo particular, podendo ser uma pessoa ou grupo, pessoa física ou jurídica. Para que seja caracterizado o bem público como de uso privado, além de ser utilizado de maneira exclusiva pelo particular, deve existir um titulo jurídico individual, em que a Administração outorga o uso do bem público e estabelece as condições para exercê-lo (DI PIETRO, 2008, p. 653).

Esses títulos jurídicos individuais podem ser públicos ou privados, os públicos são obrigatórios para o uso de bens especiais e de uso comum, pois não podem ser colocados no comércio jurídico de direito privado e são regidos pelo direito público, são a autorização, ato administrativo unilateral e discricionário, pelo qual a Administração consente ao particular o uso de bem público com exclusividade, a permissão ato pelo qual a administração faculta a utilização privativa de bem da União, para fins de interesse público, e a concessão de uso onde o Poder Público confere a pessoa determinada o uso privativo de bem público, independentemente do interesse da pessoa concedente (DI PIETRO, 2008, p. 653).

Já os privados só são permitidos em hipóteses previstas em lei e somente para bens dominicais, como na locação em que os bens públicos que não estiverem sendo utilizados em serviço público, podem ser locados se for conveniente torná-los produtivos, no arrendamento onde os bens públicos visam à exploração de frutos ou a prestação de serviços. No comodato, sendo um empréstimo gratuito das coisas não fungíveis da União ao particular. Na enfiteuse, onde a União disponibiliza ao particular o uso completo do imóvel, inclusive transmissão à terceiro, recebendo, em troca, uma quantia anual, certa e invariável. Por fim na concessão de direito real de uso que é um contrato administrativo pelo qual o Poder Público confere ao particular o direito uso de terreno público, para os fins que, prévia e determinadamente, o justificaram. (DI PIETRO, 2008, p. 653).

2.2.5. Função Social da Propriedade Pública

A função social da propriedade pública é uma questão que gera muitas controvérsias, pois a finalidade do Estado é garantir que os bens públicos atinjam seu objetivo, ou seja, atender o interesse público, com isso passa a impressão que seria impossível aplicar o princípio da função social da propriedade para bens públicos, por ser está a sua função principal, os bens públicos por si só exercem o interesse público, não sendo necessário aplicar a função social a esses bens. (DI PIETRO, 2006, p. 01).

Apesar de o Estado ter o dever de cumprir a finalidade pública de seus bens, garantindo o bem estar dos habitantes das cidades, pode ocorrer algumas situações em que o Estado não leva em conta a função social da propriedade, não empregando de forma correta o solo, e deixando de proteger o patrimônio público (DI PIETRO, 2006, p. 01).

A propriedade pública sempre esteve ligada a fins sociais por ser exercido sobre ela o domínio público, ao contrario da propriedade privada, que era vista como um direito individual e não como uma função essencial para o bem comum. A função social da propriedade pública não está inserida expressamente na Constituição ela aparece de maneira implícita quando menciona que o poder público deve desenvolver as funções sociais da cidade e garantir o bem estar da população no artigo 182 da Constituição Federal (DI PIETRO, 2006, p. 02 e 03).

A função social da propriedade pública atinge de maneiras diferentes cada espécie de bens públicos, como já dito anteriormente, os bens públicos se classificam em bens de uso comum do povo, de uso especial e dominical, os bens de uso comum e de uso especial, devem atender a um interesse público, pela sua própria natureza ou pela destinação legal, apesar de serem espécies de bens públicos afetados, ou seja, que atendam a um fim público, nada impede que exerça sua função social (DI PIETRO, 2006, p. 05 e 06).

A palavra função remete a um dever, portanto mesmo que os bens de uso comum e de uso especial sejam afetados por sua natureza ou destinação, o Estado deve disciplinar o seu uso, podendo restringir ou ampliá-lo, quando a administração amplia o uso dos bens públicos ela está exercendo a função social da propriedade pública (DI PIETRO, 2006, p. 07).

De acordo com Di Pietro (2006, p. 09) “o principio da função social da propriedade pública, autoriza ou exige (quando se considera que função é dever) que a administração amplie as possibilidades de uso de bem público”.

Os bem dominicais são considerados bens disponíveis por não serem afetados, ou seja, não se vincularem a nenhuma finalidade pública, por isso sua função principal é considerada por muitos como sendo patrimonial ou financeira, no entanto eles podem e devem exercer uma finalidade pública, efetivando a função social da propriedade pública (DI PIETRO, 2006, p. 10 e 11).

Salienta-se que a função social da propriedade pública é muito importante para a regularização fundiária, pois a regularização fundiária urbana atinge áreas públicas que devem atender ao interesse da sociedade. Portanto se um bem público ocupado irregularmente não está sendo utilizado para alguma função pública deve ser ele convertido ao particular pela regularização, assim atendera ao principio da função social da propriedade, que também e um dever do Estado.

2.3. O Problema da Falta de Moradia

O indivíduo tem a necessidade de se fixar em um lugar determinado no qual criará vínculos, sendo essencial para o exercício de seus direitos. A moradia é um bem irrenunciável, indissociável em relação a sua vontade e indisponível, permitindo a fixação em um determinado lugar, em que serão exercidos os seus interesses naturais, podendo até ser exercida em qualquer pouso ou local, desde que seja um objeto juridicamente protegido. A habitação é o exercício efetivo da moradia sobre um bem imóvel. Portanto a moradia é a situação de direito reconhecida como inerente a todo o ser humano, em face de sua natureza de direito essencial referente à personalidade humana (SOUZA, 2008, p. 44).

O direito à moradia foi incluído como um Direito Constitucional, a partir da emenda constitucional nº. 26 e 14 de fevereiro de 2000, passando a dispor o capítulo II, em Direitos Sociais, artigo 6º, in verbis (SOUZA, 2008, p. 112):

Art. 6o São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 26, de 2000).

Portanto, o Estado tem obrigação de proteger e facilitar o direito à moradia, não somente por estar disposto na Constituição Federal, mas também em razão das normas internacionais de direito humanos que propõe a defesa do direito à moradia. Assim, o Estado deve de criar legislações que beneficie e coloque em prática este direito (SOUZA, 2008, p. 241).

O problema da falta de moradia sempre esteve presente na sociedade brasileira, embora tenha havido muitos esforços para amenizá-lo ainda persiste e aumenta cada dia mais, em razão da crescente precariedade e deterioração das condições das moradias da classe baixa e até média do Brasil. Como medida para atenuar a situação foi criado o Banco Nacional da Habitação (BNH), que instituiu o Sistema Financeiro da Habitação (SFH), disponibilizando um grande número de recursos no mercado imobiliário, tornando possível garantir o empréstimo antes que o morador tivesse a propriedade imobiliária, eliminando a responsabilidade hipotecária. (SOUZA, 2008, p. 55 a 57)

Contudo, é salutar dispor que não tivemos uma política habitacional de fato no país até o advento do Estatuto da Cidade e do Ministério das Cidades, essa é uma das razões do BNH ter tido pouco êxito na solução do problema. O Estatuto da Cidade foi aprovado em 2001, dando um grande passo neste sentido, atuando no processo de planejamento e gestão urbana, com instrumentos capazes de disponibilizar a terra urbana, porém ainda estão sendo aprimorados os instrumentos urbanos (PINHERO et al., 2008, p. 133 e 134).

Ressalta-se que deve haver uma relação estreita entre a política urbana e política habitacional, com o objetivo de colocar no mercado a terra urbana, a preços compatíveis com a população habitacional de menor renda. É importante dispor que a Política Nacional de Habitação compreende a integração da política de habitação à política de desenvolvimento urbano, porém não pode haver um crescimento urbano que produza a expansão de áreas não urbanizadas e ambientalmente protegidas, se ainda há grandes extensões de terreno no interior das cidades, com total infra-estrutura, e que se mantém fora do mercado, isto é, não exercendo a função social da propriedade pública (PINHERO et al., 2008, p. 134).

No Brasil, o número de família de baixa renda que não tem uma habitação decente é de nove entre dez, que ganham de zero a três salários mínimos por mês, sendo que há 6 milhões de unidades habitacionais vazias em todo Brasil (PINHERO et al., 2008, p. 135).

O plano diretor é o instrumento básico de política de desenvolvimento e expansão urbana, define estratégias e critérios em que o município cumprirá a função social da cidade e da propriedade. Dessa feita, o plano diretor ocupa o centro do sistema de planejamento, através da fixação de objetivos para política urbana local e as diretrizes e instrumentos para concretizá-las, conferindo a todos o direito a terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infra-estrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras gerações de acordo com o art. 2º, inciso I do Estatuto da Cidade (PINHERO et al., 2008, p. 135 e 136).

Portanto no plano diretor deve constar às diretrizes da política habitacional, que serão objetivo posterior do plano municipal de habitação, determinando os instrumentos de acesso à terra urbana tantos para os que ocupam como para habitações novas, instrumentos estes que serão falados mais adiante (PINHERO et al., 2008, p. 137).

Com a criação do Ministério das Cidades iniciou-se a construção da Política Nacional de Desenvolvimento Urbano (PNDU), congregando entes federativos os poderes do Estado e a sociedade civil organizada. Na 1ª Conferência Nacional das Cidades, foram traçadas as linhas e diretrizes gerais da Política Nacional de Desenvolvimento Urbano e se estabeleceu a criação do Conselho Nacional das Cidades (ConCidades), como fórum de participação e controle social da política urbana. A Política Nacional de Habitação (PNH) teve como referência o Projeto Moradia, elaborado no ano de 2000 pelo Instituto Cidadania, no qual dispôs sobre a construção do Ministério das Cidades e a elaboração de uma política urbana que disciplina-se propostas setoriais de saneamento, transporte e planejamento territorial, além da habitação.

A PNH é regida pelos princípios do direito à moradia, de acordo com a Constituição Federal de 1988; devendo esta ser digna como vetor de inclusão social, através de um padrão mínimo de habitabilidade (PINHERO et al., 2008, p. 138).

Desde a extinção do BNH, em 1986, houve uma paralisação dos programas de acesso à moradia, da década de 80 até os primeiro anos do novo milênio, houve um grande crescimento das favelas, enquanto os recursos federais eram destinados às famílias de classe alta que representava 10% das habitações na época. A partir de 2004, o Governo Federal tomou medidas que fizeram crescer o volume dos financiamentos e o desempenho do mercado imobiliário, buscando fomentar o setor habitacional (PINHERO et al., 2008, p. 139 e 140).

Para atender às necessidades de construção e aquisição de habitação de acordo com Pinhero et al. (2008, p. 144) há vários programas:

Carta de Crédito Individual e Carta de Crédito Associativo, ambos contando com recursos do FGTS dirigidos a pessoas físicas cuja renda situa-se entre três e cinco salários mínimos (esses dois programas servem também para fazer frente às demais necessidades habitacionais, além da construção da unidade de moradia);

Pró-Moradia, na modalidade produção de conjuntos habitacionais, que se destina à população em situação de vulnerabilidade social, tendo o poder público como proponente e o FGTS como fonte de recursos;

Programa de Subsídio à Habitação de Interesse Social (PSH), criado em 2004 para oferecer subsídio destinado diretamente à complementação do preço de compra/venda ou construção de unidades residenciais, que é operado com recursos do OGU e com contrapartida do poder publico municipal, estadual ou do Distrito Federal; e, ainda,

Programa de Arrendamento Residencial (PAR), criado em 2001 e reformulado em 2004 e 2007, que financia empresas do ramo da construção civil com recursos do Fundo de Arrendamento Residencial. Destina-se às capitais dos estados, aos municípios das regiões metropolitanas e aos municípios com população urbana superior a cem mil habitantes [grifo do autor].

Recentemente houve a aprovação da Ação de Apoio à Produção Social da Moradia, no âmbito do Programa de Habitação de Interesse Social, que permite o repasse de recursos às associações comunitárias, cooperativas e entidades sem fins lucrativos (PINHERO et al., 2008, p. 144).

Segundo Pinhero et al. (2008, p. 144) três instrumentos estruturam a PNH: o Sistema Nacional de Habitação, o Plano Nacional de Habitação e o Desenvolvimento Institucional.

O Sistema Nacional de Habitação estrutura-se em dois subsistemas: o Subsistema de Habitação de Interesse Social, para o atendimento da população de baixa renda e o Subsistema de Habitação de Mercado, em que reorganização o mercado privado de habitação para a população de renda média baixa (PINHERO et al., 2008, p.145).

O Sistema de Habitação de Interesse Social (SNHIS) criou o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS) e instituiu o Conselho Gestor do FNHIS, o SNHIS deve centralizar todos os programas e projetos destinados à habitação de interesse social, portanto, é um instrumento para viabilizar uma política habitacional capaz de equacionar o enfrentamento do problema da moradia (PINHERO et al., 2008, p. 146). 147

A Lei 11.124/2005 criou um instrumento chamado Termo de Adesão, onde as prefeituras e governos estaduais assumem o compromisso de elaborar seus planos de habitação de interesse social e constituírem o fundo de habitação de interesse social além do seu conselho gestor. A autora supracitada (2008, p. 147), dispõe que a lei deve estabelecer que os recursos. O FNHIS será aplicado por intermédio dos Estados, Distrito Federal e Municípios e que para receberem os repasses, deve ser observado as seguintes condições:

• constituir Fundo com dotação orçamentária própria, destinado a implementar Política de Habitação de Interesse Social, e receber os recursos do FNHIS;
• constituir Conselho que contemple a participação de entidades públicas e privadas, bem como de segmentos da sociedade ligados à área de habitação;
• apresentar Plano Habitacional de Interesse Social (PLHIS), considerando as especificidades do local e da demanda;
• firmar termo de adesão ao SNHIS;
• elaborar relatórios de gestão;
• observar os parâmetros e diretrizes para concessão de subsídios no âmbito do SNHIS.

A Secretaria Nacional de Habitação do Ministério das Cidades através da lei nº. 11.977/09 implantou o Plano Nacional de Habitação (PlanHab), implantando uma nova Política Nacional de Habitação. A lei supracitada será discutida em um item especifico a diante. O PlanHab pretende criar estratégias para equacionar as necessidades habitacionais do país até 2023 (PINHERO et al., 2008, p. 148).

Já o Desenvolvimento Institucional (DI) auxilia a nova política de habitação, consiste em um conjunto de ações que visam (PINHERO et al., 2008, p. 150):

• a integração e a cooperação entre os três níveis de governo;
• a articulação entre os agentes públicos, privados e os atores sociais;
• a capacitação dos agentes públicos e sociais para exercerem com autonomia e capacidade técnica a implementação da nova política, através de diferentes recursos metodológicos, valorizando as formas interativas, como este curso, por exemplo;
• a modernização organizacional e técnica dos organismos estaduais, municipais e metropolitanos, o que implica apoio aos organismos específicos de formulação, coordenação e implementação das políticas de habitação nessas três esferas, bem como no incentivo à formação de agentes promotores de natureza social (cooperativas, associações de moradores);
• a atualização do quadro legal e normativo no âmbito federal e nos demais níveis de governo, inclusive na instância metropolitana, através do estímulo e apoio à consolidação das políticas urbanas e habitacionais em instrumentos discutidos e legitimados pela sociedade [grifo do autor].

O município tem papel altamente relevante, já que é de sua competência o ordenamento territorial através dos planos diretores. Tal como o Sistema Nacional de Habitação e os sistemas estaduais, o Sistema Municipal de habitação deve ter um órgão central responsável pela formulação, coordenação e execução da política municipal de habitação, papel que pode ser desempenhado por uma secretaria municipal ou por outro órgão específico responsável pelo tema (PINHERO et al., 2008, p. 152).

O Plano Habitacional de Interesse Social (PLHIS) é um instrumento de articulação da política municipal de habitação à política urbana, ao plano diretor além da política estadual e nacional para o setor. Também articula os vários componentes da política de habitação local, devendo servir, ainda, como instrumento de controle, monitoramento e avaliação de seus próprios resultados. O PLHIS será composto de um diagnóstico do setor habitacional e um plano de ação, este deverá reunir informações que permitam esclarecer as raízes e a evolução do problema habitacional, registrar e avaliar as soluções encontradas pela municipalidade, enquanto aquele consiste na especificação das estratégias que farão frente aos principais problemas, especialmente no que se refere à habitação de interesse social (PINHERO et al., 2008, p. 154).

Por fim, o plano de ação segundo Pinhero et al. (2008, p.155) deve constar:

• as diretrizes e objetivos da política local de habitação;
• as linhas programáticas e as ações;
• as metas a alcançar e uma estimativa dos recursos necessários para atingi-las, por programas ou ação, identificando as fontes existentes;
• e os indicadores que permitam medir a eficácia do planejamento;

2.4. Regularização Fundiária das Terras Públicas Urbanas

2.4.1. Conceito de Regularização Fundiária das Terras Públicas Urbanas

Atualmente um dos grandes desafios enfrentados pelo governo é a regularização das terras públicas urbanas. Nesse passo, a aprovação de leis regulamentando a matéria representa um avanço para solucionar o problema da moradia.

A existência de um grande número de famílias de baixa renda que vive em favelas ou em outras formas de assentamentos informais, são exemplos típicos das dificuldades enfrentadas pela população para ter acesso à moradia (FROTA, s.d., p. 02).

Segundo o mesmo autor (s.d., p. 02), a acessibilidade à moradia tem como alternativa para sua efetivação a regularização fundiária, à medida que possibilita a permanência das famílias de baixa renda nesses terrenos de acordo com a lei.

Este problema da desigualdade com relação à moradia no espaço urbano tem seu maior obstáculo no direito de propriedade, propiciando a população acesso à moradia apenas pela posse. Assim, moradia regular nas cidades torna-se cada vez mais restrita e elitizada, isto é, direito de poucos (FROTA, s.d., p. 02).

A Lei 11.977 de julho de 2009 conceitua a regularização fundiária:

Art. 46. A regularização fundiária consiste no conjunto de medidas jurídicas, urbanísticas, ambientais e sociais que visam à regularização de assentamentos irregulares e à titulação de seus ocupantes, de modo a garantir o direito social à moradia, o pleno desenvolvimento das funções sociais da propriedade urbana e o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.

Betânia de Morais Alfonsin (apud ROLNIK et al., 2006, p. 60) também estabelece o conceito de regularização fundiária:

Regularização fundiária é um processo conduzido em parceria pelo Poder público e população beneficiária, envolvendo as dimensões jurídica, urbanística e social de uma intervenção que prioritariamente objetiva legalizar a permanência de moradores de áreas urbanas ocupadas irregularmente para fins de moradia e acessoriamente promove melhorias no ambiente urbano e na qualidade de vida do assentamento, bem como incentiva o pleno exercício da cidadania pela comunidade sujeito do projeto.

A mesma autora (1999, p. 14) divide o conceito de regularização fundiária em três formas de abrangência: regularização jurídica, regularização como forma de urbanização dos assentamentos, e a regularização urbanística.

A regularização fundiária como regularização jurídica tem como objetivo garantir juridicamente o direito de moradia à população, busca-se transformar a posse em propriedade ou em direito de uso através dos instrumentos de regularização, tanto em relação a bens públicos quanto aos particulares (ALFONSIN, 1999, p. 14).

A intervenção jurídica nas áreas ocupadas ilegalmente, é muito importante por melhorar o ambiente urbano, pois através da regularização dessas áreas os moradores se sentem seguros de investirem em suas moradias. No entanto, garantir apenas a segurança jurídica dos lotes não é a maneira mais correta para o Poder Público resolver o problema dos assentamentos informais, na maioria das vezes as ocupações tem uma série de irregularidades, que deveriam ser sanadas antes de ser regulada a posse desses assentamentos (ALFONSIN, 1999, p. 14).

Já na regularização como forma de urbanização dos assentamentos, trata da parte física dos assentamentos irregulares, melhorando e ordenando as condições do espaço urbano, para que isso ocorra é feito um Estudo de Viabilidade Urbanística que de acordo com Betânia Alfonsin (1999, p. 15) deve seguir alguns critério e diretrizes que são:

• O redesenho do sistema de circulação interna do assentamento, com alargamento de becos e abertura de novas vias de acesso.
• Criação de espaços públicos internos, que posam ser utilizados para fins de lazer às comunidades.
• O redesenho de lotes de tamanho muito superior à média dos lotes, aproveitando-se o terreno excedente para fins públicos.
• A relocalização de algumas casas locadas em espaços estratégicos para o projeto de urbanização.
• A reconstrução de algumas casas, justamente aquelas que estiverem mais deterioradas.
• A preservação de alguns equipamentos urbanos como creches existentes.
• A definição de espaços em que veículos como Caminhão de bombeiros e ambulâncias possam penetrar no sistema espacial do assentamento.

Havendo a regularização na urbanização dos assentamentos deve-se garantir o título dos lotes aos moradores, pois sem a segurança da posse dos assentamentos pode ocorrer desperdício do dinheiro público, no caso de os lotes ocupados serem de um particular, pode ocorrer despejos em conseqüência de sua valorização. Por outro lado, se os lotes forem públicos também há a necessidade que sejam legalizados o mais rápido possível, para evitar que ocorra problemas futuros, na hipótese de uma sucessão eleitoral os moradores ficaram subordinados a vontade política dos governantes (ALFONSIN, 1999, p. 15).

Por fim, na regularização urbanística as áreas ocupadas que estão em desconformidade com a legislação urbana devem ser novamente aceitas pela legislação. Por exemplo, as ocupações irregulares como favelas, não atendem as exigências legais previstas para que efetive a regularização, segundo Alfonsin (1999, p. 15) a legislação deve ser mais flexível para que possa abranger essas áreas irregulares.

A irregularidade física dos assentamentos é um dos maiores entraves para que haja a regularização das ocupações informais. A utilização de instrumentos de regularização como as Áreas Especiais de Interesse Social (AEIS ou ZEIS) são fundamentais para que a legislação urbanística possa se adequar à condição dos assentamentos informais (ALFONSIN, 1999, p. 15).

2.4.2. Lei nº. 11.977/2009 – Lei Nacional de Regularização Fundiária

A lei nº. 11.977/2009 institui a regularização fundiária de assentamentos localizados em áreas urbanas e o programa Minha Casa, Minha Vida do Governo Federal, através da medida provisória 459/2009; possibilitando que a população de baixa renda consiga o título de propriedade de suas moradias.

Além de destinar recursos financeiros à construção de habitações nos terrenos regularizados, diminuindo ocupações irregulares vez que um dos grandes causadores do crescimento dessas ocupações é o alto custo da terra urbana.

A nova lei representa um grande passo para a agilidade dos processos e procedimentos de regularização dos espaços urbanos ocupados ilegalmente. Mais adiante veremos os principais aspectos da Lei nº. 11.977/2009, contudo antes faz-se necessário analisar as espécies de ocupações irregulares.

2.4.2.1. Espécies de Ocupações Públicas Urbanas Irregulares

2.4.2.1.1. Conjuntos Habitacionais Públicos

Os conjuntos habitacionais públicos são áreas onde se encontram prédios ou casas instaladas em propriedade pública, que na sua maioria foram construídos pelo Sistema Financeiro de Habitação (SFH). A irregularidade urbanística destas áreas ocorre nas seguintes situações, a saber: a) quando o projeto de construção não é aprovado pelo município; b) no caso da infra-estrutura do conjunto habitacional não ter sido instalada, c) falta de registros imobiliários das habitações, d) quando o conjunto está em desacordo com o padrão de uso e ocupação do solo. Em contrapartida, as irregularidades jurídicas surgem quando o Estado ou Município não transfere as habitações de cada morador através do titulo habitacional nos subseqüentes casos (ALFONSIN et al., 2002, p. 51):

• O Estado ou o Município não tem o direito de posse ou não concluiu os processos judiciais de desapropriação;
• A ocupação de prédios e casas vazias ou inacabadas ocorreu sem a autorização do poder público — normalmente no caso de obras paralisadas;
• Os moradores mudaram-se para as unidades mediante “contratos de gaveta”;
• Houve inadimplência na quitação dos financiamentos;
• Houve ocupação das áreas verdes e institucionais do conjunto.

Para regularizar a titulação das áreas dos conjuntos habitacionais em área pública, podem ser utilizadas as seguintes leis (ALFONSIN et al., 2002, 52):

• Lei no 6.015/73, art. 167, §36, alterado pela lei nº 9.785/99, que permite o registro provisório de posse concedido à União, estados, Distrito Federal, municípios ou suas entidades quando o propósito for a execução de parcelamento popular com finalidade urbana;
• Lei no 6.766/79, art. 18, §4, inserido pela lei nº 9.785/99, que dispensa a apresentação de título de propriedade de imóvel quando o poder público submeter o registro do projeto de loteamento onde está o conjunto habitacional. Isso é possível desde que haja processo de desapropriação judicial em curso e declaração provisória de posse. O que significa que o poder público não precisa aguardar o término do processo judicial de desapropriação para iniciar o processo de regularização na condição de proprietário da área.

Se o conjunto habitacional tiver sido realizado pelo Estado dependerá dos Municípios para ser regularizado, por meio vários procedimentos. Portanto deve haver uma parceria entre esses entes federativos. Para tanto Betânia Alfonsin et al. (2002, p. 53) dispõe que devem ser observadas a s seguintes etapas:

• Realizar levantamento topográfico-cadastral da área para o registro do parcelamento do solo;
• Elaborar um projeto urbanístico baseado nesse levantamento, redefinindo os usos e padrões de ocupação de solo e adequando-os à realidade atual. As áreas verdes e institucionais ocupadas deverão constar no novo projeto como áreas habitacionais.
• Para adequar os projetos à realidade da ocupação pode ser necessária a instituição de uma ZEIS;
• Se for preciso alterar o uso do solo rural para fins urbanos, deverá haver modificação da lei municipal de uso do solo ou do Plano Diretor, mediante audiência do INCRA;
• Se for constatada a ocupação irregular de áreas condominiais dos prédios por outros usos (garagens, comércio, pequenas habitações), é necessário um amplo debate e uma negociação com os moradores para definir critérios de regularização;
• Com o projeto urbanístico discutido e aprovado pelo município e pela comunidade, é necessário elaborar os memoriais descritivos das quadras, lotes e áreas verdes ou institucionais para fazer o registro;
• O poder público deverá implantar infra-estrutura básica nos conjuntos habitacionais e nas áreas verdes ou institucionais ocupadas, promovendo as obras aprovadas de urbanização;
• A regularização do parcelamento do solo poderá ser efetivada no registro de imóveis, ou judicialmente, mediante ação de retificação ou regularização de parcelamento;
• A regularização exige extensa documentação. Em muitos estados a respectiva Corregedoria do Tribunal de Justiça pode expedir provimentos simplificando a documentação e o procedimento judicial.

Portanto para ocorrer à regularização dos conjuntos habitacionais públicos deverá ser realizado um memorial descritivo individualizado os apartamentos; nos casos em que os estados não possuam provimentos para que torne a regularização mais simples, o poder judiciário deve ser procurado para que solucione a situação; após serem regulados os conjuntos habitacionais devem ser individualizados em nome do poder público, exceto as já quitadas; no caso de ônus hipotecário, o imóvel deve ser transferido para as matriculas individualizadas; nas habitações sem contrato de unidade habitacional, o poder público buscará autorização através da lei para se fazer um contrato futuro, nesses casos também poderá ser feito a regularização pela concessão de uso especial para fins de moradia ou concessão de direito real de uso; e por fim para se reduzir o custo do registro das ocupações, sugere-se que haja uma parceria entre os Colégios Registrais dos Estados, o Colégio Notarial do Brasil e os municípios para a diminuição dos custos, e do Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ALFONSIN et al., 2002, p. 54 e 55).

2.4.2.1.2. Ocupações e Favelas

De acordo com Betânia Alfonsin et al. (2002, p. 70) as ocupações e favelas são definidas como:

Áreas ocupadas espontaneamente ou de forma organizada por pessoas de baixa renda, nas quais — diferentemente dos loteamentos e dos conjuntos habitacionais — não se estabelece nenhuma relação jurídica formal entre os ocupantes e os proprietários das áreas privadas ou públicas.

Uma das principais características destas ocupações é a insegurança jurídica dos moradores dessas áreas, podendo ser expulsos a qualquer momento, além da ocupação o uso e o parcelamento destas áreas são informais não se enquadrando em nenhuma legislação que dispõe sobre a regularização, algumas também contrariam as normas ambientais (ALFONSIN et al., 2002, p. 70).

Ademais, faz-se necessário para a regularização destas áreas realização de estudos e avaliações, um parecer social e urbanístico atestando a possibilidade de urbanização, além de informações sobre a situação jurídico-fundiária (ALFONSIN et al., 2002, p. 70).

Outrossim, deve ser feita uma pesquisa nas Prefeituras e nos Cartórios de Registro de Imóveis sobre a situação fundiária dos terrenos ocupados, identificando se a área é pública ou particular, um levantamento planialtimétrico que é um documento que descreve o terreno com exatidão anotando as medidas planas, ângulos e diferenças de nível, juntamente com os dados das empresas de água, esgoto e energia se há interferência com outras redes, após deve se fazer o cadastramento junto a essas empresas. Também deve incluir o levantamento das ruas e edificações da favela, sendo assim os projetos para regularização devem ser analisados caso a caso (ALFONSIN et al., 2002, p. 70 e 71).

Quanto ao plano de urbanização, este será constituído por normas especiais de uso e ocupação do solo, além de critérios para a regularização, que deverão definir a aplicação dos instrumentos de regularização nas áreas públicas, sendo imprescindível à existência de um projeto de urbanização, que definirá as obras que serão executadas, o sistema viário, se há necessidade de ampliação ou alargamento dos mesmos, diferenciando o acesso a veículos ao de pedestres, estabelecendo as ligações de água esgoto e energia, a forma de acesso para a coleta de lixo, as normas edilícias e os espaços públicos (ALFONSIN et al., 2002, p. 71 e 72).

Quando tamanho do lote for inferior, a 40m², as casas devem ser desfeitas e construídas sobrepostas ou em pequenos edifícios, devendo observar, um recuo frontal de 50 cm para as fundações e ligações em rede fora da área pública, por ser o objetivo da regularização a busca por uma moradia digna. No caso de demolição geral ou parcial será descontado o valor da casa no valor do financiamento, por isso é importante o projeto de urbanização (ALFONSIN et al., 2002, p. 75 e 76).

A definição da forma em que serão realizadas as obras deverá ser estabelecida antes da conclusão do projeto urbanístico, podendo ser pela administração pública, onde a prefeitura ou uma empresa privada executa as obras ou pelos moradores das ocupações em forma de mutirão, também podem ser usadas às duas formas em conjunto, por exemplo, a Prefeitura executa as obras de infra-estrutura básica e as unidades habitacionais são construídas pelos moradores (ALFONSIN et al., 2002, p. 75 e 76).

Segundo Alfonsin et al. (2002, p. 76 e 77), no projeto de urbanização estabelece-se ainda à forma de fiscalização e controle da área regularizada, será depois de pronto entregue aos setores competentes para que seja considerado parte da cidade e possa usufruir dos serviços públicos e de manutenção.

O principal instrumento de regularização fundiária no âmbito de áreas privadas e públicas são as ZEIS, que será vista mais adiante em um item especifico, já nas áreas publicas podem ser utilizadas a CDRU, a CUEM, a Cessão e Promessa de Cessão de Posse e Compromissos de Compra e Venda e a Doação, para se definir o instrumento adequado o poder público segundo a autora supracitada deve considerar os seguintes elementos (2002, p. 79):

• Origem da área pública

No caso de área pública desapropriada, cuja titularidade ainda não é do Poder Púbico, o instrumento mais adequado é o da cessão ou da promessa de cessão de posse. Para as áreas públicas originadas de doação, os instrumentos mais adequados são a CDRU ou a Concessão Especial de Uso para fins de Moradia.

• Origem da ocupação ou favela

A população pode ter ocupado espontaneamente a área, ou ter sido removida pelo Poder Público por estar situada em área de risco, para ser atendida por projetos habitacionais de interesse social.

• Tempo de duração da ocupação

Se a ocupação tiver mais de cinco anos, for anterior a 31 de julho de 2001, e não tiver sofrido ação judicial por parte do Poder Público, o instrumento mais adequado é o da Concessão Especial de Uso para fins de Moradia.

• Grau de urbanização

Se as casas e lotes existentes forem decorrentes de um plano de urbanização feito pelo Poder Público, poderá ser utilizada a CDRU coletiva.

• Recursos destinados para a urbanização e regularização

Se existir a necessidade de financiamentos habitacionais para os moradores, poderá ser aplicada a CDRU onerosa, ou a cessão ou promessa de posse onerosa, que pode ser convertida para compromisso de compra e venda [grifo do autor].

2.4.2.2. Características da Regularização Fundiária Urbana

De acordo com Lei nº. 11.977/09 a regularização fundiária se aplica aos assentamentos irregulares, como ocupações informais ou irregulares em áreas públicas, utilizadas exclusivamente para fins de moradia (PAIVA, s.d., p. 02).

Além da política urbana estabelecida pelo Estatuto da Cidade o artigo 48 da mesma lei estabelece os princípios que devem ser observado para a aplicação da regularização nas áreas irregulares:

Art. 48. Respeitadas as diretrizes gerais da política urbana estabelecidas na Lei no 10.257, de 10 de julho de 2001, a regularização fundiária observará os seguintes princípios:

I – ampliação do acesso à terra urbanizada pela população de baixa renda, com prioridade para sua permanência na área ocupada, assegurados o nível adequado de habitabilidade e a melhoria das condições de sustentabilidade urbanística, social e ambiental;
II – articulação com as políticas setoriais de habitação, de meio ambiente, de saneamento básico e de mobilidade urbana, nos diferentes níveis de governo e com as iniciativas públicas e privadas, voltadas à integração social e à geração de emprego e renda;
III – participação dos interessados em todas as etapas do processo de regularização;
IV – estímulo à resolução extrajudicial de conflitos; e
V – concessão do título preferencialmente para a mulher.

No entendimento de Paiva (s.d., p. 02) à regularização poderá ser promovida pela União, os Estados, o Distrito Federal, os Municípios, sendo seus beneficiários, individual ou coletivamente, as cooperativas habitacionais, as associações de moradores, as fundações, as organizações sociais, as organizações da sociedade civil de interesse público, e outras associações civis que tenham por finalidade atividades nas áreas de desenvolvimento urbano ou regularização fundiária.

2.4.2.3. Espécies de Regularização Fundiária Urbana

A regularização fundiária Urbana é classificada como de interesse social e de interesse específico. A regularização de interesse social em imóveis públicos é aquela destinada à população de menor renda, isto é com rendimentos mensais de até cinco salários mínimos de acordo com a Lei nº. 11.481, de 2007. a área deve atender a um dos requisitos da lei 11.977/09 elencadas no artigo 47, VII (PAIVA, s.d., 02):

Art. 47. Para efeitos da regularização fundiária de assentamentos urbanos, consideram-se:

[…] VII – regularização fundiária de interesse social: regularização fundiária de assentamentos irregulares ocupados, predominantemente, por população de baixa renda, nos casos:

a) em que tenham sido preenchidos os requisitos para usucapião ou concessão de uso especial para fins de moradia;
b) de imóveis situados em ZEIS; ou
c) de áreas da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios declaradas de interesse para implantação de projetos de regularização fundiária de interesse social; […]

Por outro lado a regularização de interesse específico é aquela na qual não há o interesse social descrito no artigo 47, inciso VII da lei 11.977/09, porém deve prestigiar a população de baixa renda ou em situações que seja necessária à regularização da área urbana. (PAIVA, s.d., p. 02).

2.4.2.4. Procedimento da Regularização Fundiária das Terras Públicas Urbanas

A regularização fundiária das terras públicas urbanas ou a regularização de interesse social, para ser efetiva tem que respeitar cinco etapas neste processo quais sejam: os aspectos administrativos, cadastrais, urbanístico-ambiental, jurídico-cartoriais e de gestão democrática das áreas a ser regularizada. No final dessas cinco etapas o ocupante da área pública irregular deve ter a garantia plena do direito de moradia digna (RESCHKE et al., 2008, p. 03).

O processo de regularização fundiária começa pela iniciativa da própria União, que identifica prioridades, pode também ocorrer com um pedido formulado por Município, Estados ou Distrito Federal ou, ainda, por pedido formulado dos moradores da área, organizados em associações ou cooperativas. Portanto, qualquer interessado em que a área de ocupação pública seja regularizada pode pleitear o pedido perante a Secretaria do Patrimônio da União (SPU), se o imóvel realmente pertencer a União, o pleito originará um processo administrativo perante a SPU, devendo ser protocolizada na sede da Gerência Regional do Patrimônio da União localizada em cada capital do país e no Distrito Federal (RESCHKE et al., 2008, p. 03).

O imóvel ocupado deve ser analisado, para a aplicação correta do instrumento de regularização cabível naquela área informal, todas essas informações devem conter na instrução processual, para a facilitação do tramite administrativo (RESCHKE et al., 2008, p. 03).

Segundo Reschke et al. (2008, p. 03 e 04) os interessados, e especialmente a prefeitura do município em que está localizado o imóvel a ser regularizado, podem contribuir para que os dados levantados em um primeiro momento sejam completos para a facilitação do processo de regularização, dados sobre a situação física e cadastral, dominial e cartorial e urbanístico-ambiental do imóvel:

(i) Situação Física: levantamento de base cartográfica da área objeto de regularização de interesse social para identificação do assentamento em planta, de preferência sobre levantamento planialtimétrico cadastral.

(ii) Situação cadastral: situação do imóvel nos sistemas de informações da SPU, o que significa verificar:

a. a existência de cadastro (Registro Imobiliário de Patrimônio – RIP) que corresponda, abranja ou esteja contido na área ocupada pelo assentamento informal de baixa renda;
b. a existência de direitos sobre o imóvel já concedidos a terceiros, que constem como responsáveis pelo imóvel nos sistemas da SPU;
c. a existência de débitos em aberto associados ao RIP.

Esse levantamento deve ser realizado pela Gerência Regional do Patrimônio da União (GRPU) do Estado em que se localiza o imóvel (ou o assentamento) a ser regularizado.

(iii) Situação dominial e cartorial: verificar a comprovação da propriedade da União e a situação do imóvel perante o Cartório de Registro de Imóveis:

d. verificar se não há questionamento judicial que possa comprometer o domínio da União;
e. verificar se todos os procedimentos para a incorporação ao patrimônio e comprovação do domínio da União foram cumpridos: demarcação e homologação da Linha do Preamar Médio (LPM), se forem terrenos de marinha ou acrescidos; demarcação e homologação da Linha Média de Enchentes Ordinárias (LMEO), se forem terrenos marginais e praias fluviais; demarcação e discriminação administrativa ou judicial, se forem terras devolutas e na faixa de fronteira; entre outros;
f. verificar se há registro em nome da União junto ao Cartório de registro de Imóveis.

(iv) Situação urbanístico-cadastral: levantamento da legislação urbanística e ambiental incidente sobre a área, apontando incompatibilidade que precisarão ser consideras, assim como da situação da ocupação junto aos órgãos responsáveis pos esses aspectos: urbanísticos – Prefeitura; ambientais – órgão ambiental municipal, estadual ou federal.

Através de uma portaria publicada pela SPU declarando o imóvel como de interesse do serviço público, ocorre à publicidade do processo de regularização, passando o imóvel a ser gravado como de interesse para fins de Regularização Fundiária. A portaria será publicada no Diário Oficial da União e nas prefeituras e cartórios envolvidos, o uso do imóvel não será afetado pela portaria, já que é papel do Município ou Distrito federal, através de lei de uso e ocupação do solo. Assim, a portaria apenas vincula a destinação que a SPU dará ao imóvel gravado, de acordo com suas atribuições, assim deve a portaria conter a matrícula do imóvel ou memorial descritivo da parte ocupada, os fins que justificam o interesse público e relacionar os Registros Imobiliários do Patrimônio que correspondam ou esteja inserido, mesmo que parcialmente na área do assentamento (RESCHKE et al., 2008, p. 04 e 05).

É realizado um cadastramento das famílias em áreas irregulares para se saber quem tem direito a regularização, coleta-se os dados da população interessada visando fazer um retrato da realidade da comunidade, que também permite controlar a demanda através do “congelamento” da área a ser regularizada, evitando um aumento da ocupação após o inicio do processo de regularização, este cadastramento poderá ser feito em campo, ou seja, na própria área ocupada ou em um local determinado (RESCHKE et al., 2008, p. 05).

Os documentos necessários para o cadastramento são (RESCHKE et al., 2008, p. 05):

• Identificação pessoal (registro de identidade e CPF/CNPJ);
• Certidão de casamento (se aplicável; nesse caso trazer também o documento do cônjuge);
• Comprovante de residência (quando o cadastramento acontecer em local diferente da residência – “chamamento”);
• Declaração de renda (nos casos de baixa renda, declaração de isento da Receita Federal, obtida em qualquer lotérica).

Os imóveis que são cadastrados pelo SPU possuem um número que os identificam este número corresponde ao seu Registro Imobiliário de Patrimônio (RIP), se o assentamento estiver na área da União e ainda não estiver cadastrado e não possui o RIP, deve se cadastrar caso seja assentamento de baixa renda. Por outro lado, se estiver localizado na área da União e já estiver cadastrado, o imóvel deve ter uma destinação, nas hipóteses que ainda não tenha após o contrato a utilização do imóvel será inserida no sistema (RESCHKE et al., 2008, p. 06).

Se a área ocupada já for cadastrada e estiver em nome de outra pessoa, por ter o primeiro não dado o destino correto ao imóvel da União, sendo ocupado de maneira informal, o primeiro cadastramento deve ser cancelado. A regularização cadastral tem como objetivo corrigir os erros entre a realidade da ocupação e os sistemas de informações do Patrimônio da União implica em (RESCHKE et al., 2008, p. 06):

(i) Cancelar os cadastros em nome de terceiros quando houver;
(ii) Solucionar eventuais débitos;
(iii) Cadastrar o assentamento informal, enquanto não for possível individualizar as posses;
(iv) Cadastrar os beneficiários finais da regularização.

A regularização jurídico-cartorial é a transferência de direitos dos imóveis da União feitas no âmbito administrativo e o registro no Cartório de Registro de Imóveis (RESCHKE et al., 2008, p. 07):

(i) Abertura de matrícula da área do assentamento em nome da União, se não houver;

Para a abertura de matricula em nome da União é necessária a comprovação administrativa ou judicial de que o imóvel pertence a União. Quando comprovada a propriedade da união, a inscrição da área do assentamento no CRI poderá ser feita por meio de auto de demarcação administrativa, avanço da alteração do Decreto-Lei n° 9.760/1946 trazida pela Lei nº. 11.481/2007.

(ii) Registro do contrato de transferência da área para o Município, Estado, Distrito Federal ou para entidades associativas, conforme previsão legal, quando for o caso;
(iii) Registro do projeto de parcelamento do solo, aprovado junto à prefeitura municipal, e ao órgão estadual, se for o caso;
(iv) Registro dos contratos individuais ou do contrato coletivo de transferência de direitos sobre os lotes aos beneficiários da regularização fundiária.

Os diagnósticos dos imóveis ocupados através das informações coletadas possibilitada a escolha para aplicação de um dos instrumentos de regularização, a autorização para a transferência de direitos dos imóveis para órgão públicos e entidades promotoras da regularização ou aos beneficiários finais de forma individual ou coletiva. O acesso às terras públicas ocorre por diversos instrumentos diferentes que serão falados mais adiante (RESCHKE et al., 2008, p. 08).

A nova legislação trouxe a garantia da gratuidade do 1º registro de direito real e averbação de construção residencial de até 70m² em áreas objeto de regularização fundiária para famílias com renda mensal de até 5 salários mínimos (RESCHKE et al., 2008, p. 08).

A regularização jurídico-ambiental ocorre pela aprovação do parcelamento do assentamento informal nos órgãos municipais competentes e com os órgãos ambientais, tanto a regularização urbanística como a ambiental não são de competência direta da SPU, no entanto devem ser acompanhadas pela GRPU, para a observação das diretrizes em relação à destinação das terras da União (RESCHKE et al., 2008, p. 08 e 09).

De acordo com Reschke et al. (2008, p. 09) para a finalização da regularização fundiária, com o registro dos nomes das famílias beneficiadas, bem como para a individualização dos RIPs de acordo com os responsáveis e endereços de correspondência nos sistemas da SPU, é necessário a regularização urbanística e ambiental da ocupação, por isso a necessidade da SPU atuar em todas as fases do processo de regularização fundiária das terras urbanas da União.

2.4.3. Estatuto da Cidade

No dia 10 de julho de 2001, foi aprovada a Lei Federal n. 10.257, chamada Estatuto da Cidade, regulamentando a política urbana. A nova lei normatiza à ação dos governos municipais empenhados no enfrentamento das graves questões urbanas, sociais e ambientais que têm diretamente afetado a vida de todos os que habitam as cidades, reconhecendo o papel dos municípios nas diretrizes do planejamento urbano e na gestão das cidades (ROLNIK et al., 2006, p. 24 a 26).

Assevera que, havia muitos obstáculos a serem enfrentados para implementação das políticas e programas de regularização das habitações brasileiras, com o intuito de propiciar reconhecimento constitucional do direito à moradia como direito social previsto no artigo 6º da Constituição Federal. A aprovação do Estatuto da Cidade foi o grande divisor de águas, já que a questão dos assentamentos informais avançou muito (ROLNIK et al., 2006, p. 24 a 26).

De acordo com Rolnik et al. (2006, p. 24 e 26) a nova lei tem quatro dimensões, quais sejam:

Consolida a noção da função social e ambiental da propriedade e da cidade como o marco conceitual jurídico-político para o Direito Urbanístico; regulamenta e cria novos instrumentos urbanísticos para a construção de uma ordem urbana socialmente justa e includente pelos municípios; aponta processos político-jurídicos para a gestão democrática das cidades; e, de forma a materializar o direito social de moradia, propõe diversos instrumentos jurídicos – notadamente à usucapião especial urbana, a concessão de direito real de uso e a concessão de uso especial para fins de moradia –, para a regularização fundiária dos assentamentos informais em áreas urbanas municipais.

A aprovação do Estatuto da Cidade, trouxe uma nova ordem constitucional, em relação ao processo de desenvolvimento urbano, no seu artigo 2º dispõe sobre a regularização fundiária (ROLNIK et al., 2006, p. 24 a 26):

Art. 2o A política urbana tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana, mediante as seguintes diretrizes gerais:

[…] XIV – regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas por população de baixa renda mediante o estabelecimento de normas especiais de urbanização, uso e ocupação do solo e edificação, consideradas a situação socioeconômica da população e as normas ambientais;

A utilização de novos instrumentos jurídico-urbanísticos propiciou novas possibilidades de ações dos municípios, inclusive com a finalidade de promover a regularização fundiária. E o artigo 4º prevê uma série de instrumentos de regularização urbana, entre eles os tratados neste trabalho, vejamos (ROLNIK et al., 2006, p. 24 a 26):

Art. 4o Para os fins desta Lei, serão utilizados, entre outros instrumentos:

I – planos nacionais, regionais e estaduais de ordenação do território e de desenvolvimento econômico e social;

II – planejamento das regiões metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões;

III – planejamento municipal, em especial:

a) plano diretor;
b) disciplina do parcelamento, do uso e da ocupação do solo;
c) zoneamento ambiental;
d) plano plurianual;
e) diretrizes orçamentárias e orçamento anual;
f) gestão orçamentária participativa;
g) planos, programas e projetos setoriais;
h) planos de desenvolvimento econômico e social;

IV – institutos tributários e financeiros:

a) imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana – IPTU;
b) contribuição de melhoria;
c) incentivos e benefícios fiscais e financeiros;

V – institutos jurídicos e políticos:

a) desapropriação;
b) servidão administrativa;
c) limitações administrativas;
d) tombamento de imóveis ou de mobiliário urbano;
e) instituição de unidades de conservação;
f) instituição de zonas especiais de interesse social;
g) concessão de direito real de uso;
h) concessão de uso especial para fins de moradia;
i) parcelamento, edificação ou utilização compulsórios;
j) usucapião especial de imóvel urbano;
l) direito de superfície;
m) direito de preempção;
n) outorga onerosa do direito de construir e de alteração de uso;
o) transferência do direito de construir;
p) operações urbanas consorciadas;
q) regularização fundiária;
r) assistência técnica e jurídica gratuita para as comunidades e grupos sociais menos favorecidos;
s) referendo popular e plebiscito;
t) demarcação urbanística para fins de regularização fundiária; (Incluído pela Lei nº 11.977, de 2009)
u) legitimação de posse. (Incluído pela Lei nº 11.977, de 2009)

VI – estudo prévio de impacto ambiental (EIA) e estudo prévio de impacto de vizinhança (EIV).

Nesse passo percebe-se que é de crucial importância o Estatuto da Cidade já que regula matéria relacionada ao direito urbanístico, contudo é preciso que os municípios promovam uma reforma na gestão político-institucional, político-social e político-administrativa, para que haja a efetivação e ampliação das possibilidades de regularização fundiária urbana prescrita em lei, juntamente com o planejamento, legislação e gestão urbana, legitimando uma nova ordem jurídica urbanística da natureza social (ROLNIK et al., 2006, p. 24 a 26).

2.4.4. Instrumentos de Regularização das Terras Públicas Urbanas

São muitos os instrumentos utilizados para a Regularização Fundiária de Terras Públicas Urbanas, como a concessão de direito real de uso, a concessão de uso especial para fins de moradia, que serão vistos mais detalhadamente no decorrer deste trabalho, além do aforamento, do direito de superfície, a doação, a alienação de bens públicos, e a cessão da posse.

O aforamento de acordo com o artigo 64, § 2º do Decreto-Lei 9.760/1946 e artigo 49 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias é umas das formas de utilização dos bens públicos, aplica-se aos terrenos da marinha, ilhas costeiras e oceânicas, quando houver o interesse do indivíduo em permanecer definitivamente no imóvel, juntamente com o interesse da União em manter o vínculo da propriedade. Ressalta-se que a Medida Provisória 296/06 modificou a alínea “f” do artigo 17, da Lei 8.666/1993, que dispensa a exigência de licitação na modalidade concorrência nos casos de aforamento de bens imóveis públicos destinados ou efetivamente utilizados em programas habitacionais ou de regularização fundiária de interesse social, por órgãos ou entidades da administração pública (SAULE, s.d., 04 e 05).

O direito de superfície permite ao morador de uma área pública irregular usufrui do solo sem que seja transferida a propriedade, permanecendo a área no domínio do poder público. Esta transferência também pode ser coletiva como em uma favela em que será transferido o direito de superfície a associação de moradores. Aquilo que for construído pelo superficiário torna-se sua propriedade, o direito de superfície pode ter prazo determinado ou indeterminado, depende do acordo feito pelo poder publico e o superficiário, recomenda-se que seja válido enquanto o imóvel for usado como moradia, o título que concede a direito de superfície deve ser registrado no Cartório de Imóveis (ALFONSIN, et al., 2002, p. 120 e 121).

Na doação, ocorre a transferência da titularidade do bem público para o beneficiário por meio de contrato de doação. Muitos municípios não adotam este instrumento, por entender que a CDRU permite manter um controle maior sobre as possíveis transferências das áreas de regularização fundiária entre particulares. Nesta modalidade de regularização é necessário a aprovação de uma lei (ALFONSIN et al., 2002, p. 80 e 119).

A alienação de bens públicos será feita pelo título de compra e venda em que será transferida a propriedade do bem público para o ocupante de forma individual ou coletiva, criando-se a obrigação de pagar determinada quantia pela área adquirida. No entanto é necessário atender a alguns requisitos legais que são (ALFONSIN et al., 2002, p. 112 a 114):

[…] destinar a área para o uso de moradia de interesse social, caso ela tenha outro uso, desafetando-a do uso atual; pedir autorização ao Poder Legislativo local para transferir a propriedade da área; declarar dispensada de licitação a venda da área, explicitando que isso está sendo feito para atender à demanda de habitação de interesse social.

Evidencia Alfonsin et al. (2002, p. 114) somente após o registro do título de compra e venda no cartório de registro de Imóveis será transferido o domínio do bem público ao particular.

Por último, a cessão da posse é utilizada quando o município promove uma ação judicial de desapropriação em terrenos destinados a loteamentos de áreas irregulares, que não são públicas, mais que já tenha sido imitido provisoriamente a posse ao município por decisão judicial. A cessão de posse também deve ser registrada no cartório de registro de imóveis. Quando o Poder Público tiver a propriedade definitiva, a cessão da posse passará a ser compromisso de compra e venda ou de venda e compra, estando às obrigações cumpridas ou não. (ALFONSIN et al., 2002, p. 122)

A partir desta análise, vamos abordar os principais instrumentos utilizados para a regularização em áreas públicas urbanas.

2.4.4.1. Concessão de Uso Especial para Fins de Moradia (CUEM)

2.4.4.1.1. Conceito e Aspectos Jurídicos da CUEM

A concessão é uma modalidade de contrato administrativo, seu conceito ainda não está bem definido pelos doutrinadores. Segundo Maria Silvia Zanella di Pietro (2008, p. 271 e 272), a definição deste instituto pode ser dividido em três grupos.

O primeiro segue a doutrina italiana e atribui uma definição ampla ao instituto, abrangendo qualquer tipo de ato, unilateral ou bilateral, onde a administração concede direitos e poderes ao particular, porém esta definição não é muito aceita pelo direito brasileiro em matéria de contrato (DI PIETRO, 2008, p. 271 e 272).

A segunda definição é menos abrangente, nela se distingui a concessão em translativa e constitutiva, naquela o Estado transfere para o concessionário os poderes e deveres exercidos por ele, atuando como se fosse o Estado, enquanto nesta o Estado transfere para o concessionário o direito de explorar ou utilizar um bem público, admitem-se três tipos de concessão: de serviço público, de obra pública e a de uso de bem público que é o objeto deste trabalho (DI PIETRO, 2008, p. 271 e 272).

Já a terceira diferente das demais, é bastante restrita, pois contempla apenas a delegação de poderes para serviços públicos, ou seja, somente a concessão de serviços públicos (DI PIETRO, 2008, p. 271 e 272).

É importante destacar que, de acordo com a autora retromencionada, a corrente majoritária difundida é a segunda corrente tendo como seus defensores José Cretella Júnior e Hely Lopes Meirelles.

A concessão de uso especial para fins de moradia é um instituto do Direito Civil que está previsto no arts. 1.225, XI, e 1.473, VIII do Código Civil de 2002, Lei 9.636/98 arts. 6º, § 1º, 7º, § 7º e 22-A, acrescidos pela Lei 11.481/2007 que trouxe algumas modificações muito importantes para este instituto de direito real e na Medida Provisória nº. 2.220/01 (DINIZ, 2008, p. 449).

Trata-se de um instrumento de política urbana que busca garantir o direito de moradia, segundo Diniz (2008, p. 449):

É direito daqueles que possuem como seu, por cinco anos, ininterruptos e sem oposição, até 250m² de imóvel público, inclusive em terreno de marinha e acrescidos, exceto se for funcional, situado, em área urbana, utilizando-o para a sua moradia ou de sua família, desde que não seja proprietário ou concessionário, a qualquer titulo, de outro imóvel urbano ou rural.

De acordo com a Medida Provisória 2.220/01 a concessão de uso especial para fins de moradia é gratuita personalíssima e não renovável, podem ser sujeitos desta concessão o ocupante de imóvel urbano público de até 250 metros quadrados, que esteja regularmente inscrito, e o possua por cinco anos ininterruptamente, sendo este pessoa física, o seu herdeiro legitimo, e a entidade familiar criada em torno da pessoa física possuidora ou do ocupante.

Vale lembrar que, na concessão de uso especial para fins de moradia o bem público não é transferido, a posse continua pertencendo à Administração, pois inexiste transferência do domínio, porque nesse caso seria considerada usucapião de bem público o que não é permitido de acordo com a Constituição Federal de 1988 (SOUZA, 2008, p. 319).

A concessão de uso especial para fins de moradia pode ser de forma individual, concedendo o direito à moradia a cada possuidor da área pública ou de forma coletiva, quando não há a possibilidade de identificar a área ocupada por cada possuidor, neste caso determina a lei que caberá a cada igual fração ideal do terreno independente da área ocupada, salvo se houver acordo por escrito estabelecendo frações diferentes para cada possuidor, porém essa área não deve ultrapassar os 250m², estabelecidos em lei para cada (DINIZ, 2008, p. 449).

Por último para Di Pietro (2008, p. 658), a CUEM possui natureza jurídica de contrato de direito público sinalagmático, gratuito, comutativo e realizado intuitu personae. Esta classificação se dá porque se leva em consideração os atributos pessoais do concessionário que propõe a executar a concessão por delegação do poder concedente, no contrato bilateral, as partes assumem obrigações recíprocas, no comutativo, cada uma das partes, além de receber da outra prestação equivalente à sua, pode apreciar imediatamente essa equivalência, os contratos comutativos apresentam grandes semelhanças com os contratos bilaterais, e por último o contrato intuitu personae, nele leva-se em consideração o contratante, por isso não pode ser cedido.

2.4.4.1.2. Requisitos da CUEM

São requisitos para a concessão de uso especial para fins de moradia: a) imóvel público, isto é, a área a ser ocupada pelo possuidor deve ser obrigatoriamente pública; b) área ocupada possuir no máximo 250m², no caso de concessão individual, já na hipótese de concessão coletiva, é a fração ideal atribuída a cada possuidor que não pode ultrapassar o limite de 250m²; c) ocupação da área pública por pelo menos cinco anos ininterruptos e sem oposição, até 30 de junho de 2001; d) o morador não deve ser proprietário ou concessionário de outro imóvel urbano ou rural; e) o imóvel deve ser localizado em área urbana e sua utilização deverá ser para moradia. Adverte-se que a não observância dos requisitos gera o não aperfeiçoamento da CUEM (MORETTI, s.d., p.04).

Quanto ao tempo de posse tratando-se da concessão coletiva dispensa-se à comprovação da posse individual, sendo necessário apenas à comprovação do assentamento em área pública, pó outro lado, na individual cada ocupante deve provar o seu tempo de posse. A oposição só se configura com o trânsito em julgado da ação de reintegração de posse a simples propositura da ação não caracteriza a oposição como já é pacificado pelos tribunais do Brasil (MORETTI, s.d., p. 04).

A concessão de uso especial para fins de moradia, como supracitado, é gratuita e pode ser concedida a homem ou mulher, ou a ambos, independentemente de estado civil, porém só poderá ser concedida uma vez. O possuidor que deseja a concessão de forma individual pode somar a sua posse a de seu antecessor para atingir o tempo necessário de cinco anos para que seja concedida a concessão (DANELUZZI; MATHIAS, 2007, p. 03).

2.4.4.1.3. Competência da CUEM

A competência para obter a concessão segundo o artigo 6º da Medida Provisória nº. 2.220/01, será da Administração Pública da cidade em que estiver situado o imóvel objeto da concessão, que terá o prazo de 12 meses para analisar o pedido. Transcorrido o prazo sem resposta, a competência para a concessão será transmitida para o poder judiciário que deverá ser devidamente acionado, tendo legitimidade ativa para tanto os moradores, em seu nome ou por uma associação que os represente. O poder público através da administração poderá conceder a concessão antes mesmo que a população postule o pedido (DANELUZZI; MATHIAS, 2007, p. 04).

2.4.4.1.4. Procedimento da CUEM

A concessão de uso especial para fins de moradia será obtida através da Administração Pública, perante o órgão competente como dispõe o artigo 6º da Medida Provisória nº. 2.220/01 mediante contrato firmado entre o possuidor e a administração, ou via judiciária como tratado no tópico anterior. Assim, após a apreciação pela Administração Pública ou pelo judiciário o título devera ser registrado no Cartório de Registro de Imóveis, para que tenha publicidade e eficácia erga omnes, isto é, os direitos podem ser oponíveis contra terceiros (DANELUZZI; MATHIAS, 2007, p. 04).

Se o bem objeto da concessão for um bem imóvel da União ou dos Estados, o interessado de acordo com o artigo 6º, § 2º da Medida Provisória nº. 2.220/01 deverá instruir o requerimento de concessão com certidão expedida pelo Poder Público municipal, que ateste a localização do imóvel em área urbana e a sua destinação para moradia do ocupante ou de sua família (MELO JR., 2002, p. 02).

Em regra a concessão deve ser estabelecida no local onde permaneceu o possuidor até a data do pedido, apenas na hipótese de risco a vida ou a saúde dos moradores haverá a remoção obrigatória, assegurando o direito à moradia em outro local (MORETTI, s.d., p. 04).

Outrossim, o artigo 5º da Medida Provisória nº. 2.220/01 dispõe as situações em que poderá a administração negociar a concessão em local distinto do ocupado pelos possuidores, que são nos casos de locais de uso comum do povo; destinado a projeto de urbanização; de interesse da defesa nacional, da preservação ambiental e da proteção dos ecossistemas naturais; reservado à construção de represas e obras congêneres; ou situado em via de comunicação. Porém, nessas hipóteses não há impedimento da concessão no local ocupado pelos possuidores, existe apenas sugestões com soluções técnicas que devem ser apresentadas e negociadas com os possuidores (MORETTI, s.d., p. 04).

Nesta feita Moretti (s.d., p. 04) menciona que preenchidos os requisitos necessários para a concessão, o poder público deverá concedê-la, não se tratando de ato discricionário da administração.

A concessão de uso especial para fins de moradia pode ser transferida por ato inter vivos ou causa mortis, conforme o artigo 7º da Medida Provisória nº. 2.220/01, podendo então o titular do bem alienar o seu direito gratuita ou onerosamente em vida, ou por sua morte transmitindo o direito de uso especial aos seus herdeiros, porém só é permitida a sucessão universal na posse, se o herdeiro já residir no imóvel por ocasião da abertura da sucessão, podendo então continuar na posse do seu antecessor residindo no imóvel. Mais uma vez salienta-se que na concessão não há a transferência da propriedade ao particular o bem continua sendo público sendo transmitido somente à posse sobre o imóvel, o particular terá um direito real sobre a coisa alheia, como o nome do instituto assim dispõe (DANELUZZI; MATHIAS, 2007, p. 04).

2.4.4.1.5. Extinção da CUEM

De acordo com o artigo 8º da Medida Provisória 2.220/01, o direito a posse do imóvel pode ser extinto se o concessionário der um destino diverso ao imóvel que não seja para sua moradia e de sua família ou se o concessionário adquirir a propriedade ou obtiver a concessão de uso de outro imóvel urbano ou rural, devendo a extinção ser averbada no cartório de registro de imóveis, por meio de declaração do Poder Público concedente (DANELUZZI; MATHIAS, 2007, p. 04).

2.4.4.2. Concessão de Direito Real de Uso (CDRU)

2.4.4.2.1. Conceito e Aspectos Jurídicos da CDRU

A concessão de direito real de uso é um instituto criado pelo Decreto-lei nº. 271, de 28 de fevereiro de 1967, mais precisamente no seu artigo 7°. A Lei nº. 11.481/07 veio ampliar o conceito dado pelo Decreto-lei nº. 271, que é regulado também pelo Código Civil em seus artigos 1.225, XII e 1473, IX e § 2º (DINIZ, 2008, p. 451).

Este instituto é utilizado para a transmissão da posse direta de bens públicos ou privados, de forma gratuita ou remunerados, por tempo certo ou indeterminado, podendo ser resolúvel, visando à função social da propriedade onde se localiza o bem a ser concedido. Antes se utilizava a denominação concessão de uso, porém por suas características dispostas nas legislações os doutrinadores passaram a chamar este instituto de concessão de direito real de uso, por ser um contrato de direito real, transmitido por inter vivos ou causa mortis (LIMA; SILVA, 2002, p.02).

Hely Lopes Meirelles (2008, p. 505) conceitua este instituto da seguinte maneira:

Concessão de direito real de uso é ao contrato pelo qual a Administração transfere o uso remunerado ou gratuito de terreno público ou particular, como direito real resolúvel, para que dele se utilize em fins específicos de urbanização, industrialização, edificação, cultivo ou qualquer outra exploração de interesse social.

Celso Antônio Bandeira de Mello (MELLO apud LIMA; SILVA, 2002, p. 02) também conceitua a concessão de direito real de uso:

Contrato pelo qual a Administração transfere, como direito real resolúvel, o uso remunerado ou gratuito de terreno publico ou do espaço aéreo que o recobre, para que seja utilizado como fins específicos por tempo certo ou por prazo indeterminado.

Já Carvalho Filho (CARVALHO apud LIMA; SILVA, 2002, p. 02) aponta as vantagens para a Administração Pública da utilização do instituto da concessão de direito real de uso:

A concessão de direito real de uso salvaguarda o patrimônio da administração e evita a alienação de bens públicos, autorizada às vezes sem qualquer vantagem para ela. Além do mais, o concessionário não fica livre para dar ao uso a destinação que lhe convier, mas, ao contrário, será obrigado a destiná-lo ao fim estabelecido em lei, o que mantém resguardado o interesse público que originou a concessão real de uso.

2.4.4.2.2. Direitos e Deveres do Usuário da CDRU

De acordo com Maria Helena Diniz (2008, p. 451 e 452) o usuário do bem deverá atender a determinados direitos e deveres. São direitos do usuário: a) usufruir da utilidade da coisa, extraindo do bem todos os frutos para atender ás suas próprias necessidades e às de sua família; b) exercer os atos necessários para a satisfação de suas necessidades e de sua família, sem, no entanto, comprometer a composição e a destinação do objeto, isto é, melhorar o bem, realizando benfeitorias que o torne mais cômodo e agradável a aqueles que o utiliza; c) e, por fim, administrar a coisa.

Por outro lado, o usuário terá os seguintes deveres: a) conservar a coisa como se fosse sua, sendo zeloso e diligente, para que quando for restituir a coisa possa restituí-la como recebeu; b) não deve retirar rendimentos ou utilizar maneira que exceda a necessidade prevista em lei; c) proteger o bem utilizando de seu direito possessório, não só contra terceiros, mas também contra o constituinte se não respeitar seus direitos; d) não deve dificultar ou impedir o exercício dos direitos do proprietário; e) e, por último, deve restituir a coisa no prazo definido, por ser seu uso temporário, a devolvendo na época e nas condições estabelecidas, sob pena de responder por perdas e danos, sobre a mora (DINIZ, 2008, p. 451 e 452).

2.4.4.2.3. Características da CDRU

A concessão de direito real de uso possui algumas características, como utilização tanto de terrenos públicos como particulares, podendo ser gratuita ou onerosa, com estipulação do tempo de uso do imóvel pelo concessionário, ou seja, é um direito real resolúvel, ainda, admite-se a transmissão por ato inter vivos ou causa mortis, é outorgada por termo administrativo ou escritura e requer registro no Cartório de Registros de Imóveis (DANELUZZI; MATHIAS, 2007, p. 04).

É importante ressaltar que seu objetivo é a regularização fundiária de interesse social como urbanização, industrialização, edificação, cultivo da terra, aproveitamento sustentável das várzeas, preservação das comunidades tradicionais e seus meios de subsistência ou outras modalidades de interesse social (DANELUZZI; MATHIAS, 2007, p. 04).

2.4.4.2.4. Procedimento da CDRU

O uso não é concedido por lei e sim por contrato ou por sucessão legitima ou testamentária, a titulo gratuito ou oneroso. Contudo, o imóvel reverterá à Administração se os concessionários ou seus sucessores não atenderem a finalidade da concessão. Para a efetivação do contrato de concessão de direito real de uso entre o Poder Público e o particular depende de autorização legal, devendo ser precedido por uma licitação que deve ser feita pela modalidade concorrência, onde deverá ser escolhida a melhor oferta proposta.

É admitida a dispensa da licitação em duas hipóteses, primeira quando a concessão de direito real de uso se destina a outro órgão ou entidade da Administração e, segunda nas situações, de utilização de imóveis construídos e destinados a programa habitacionais de interesse social, podendo a administração regularizar os assentamentos habitacionais de baixa renda, haja visto ser impossível os moradores de um conjunto habitacional de baixa renda concorrer em uma licitação com um grupo imobiliário (MEIRELLES, 2008, p. 506).

Sundfeld e Câmara (SUNDFELD e CÂMARA apud LIMA, 2002, p. 05) afirmam que:

A lei deve delinear os principais aspectos do contrato de concessão a ser firmado, prescrevendo sua forma, o processo de outorga, suas cláusulas essenciais, o prazo de duração, a extinção, bem como as responsabilidades do poder concedente e do concessionário em relação ao bem.

2.4.4.2.5. Extinção da CDRU

A concessão de direito real de uso se extingue pelas mesmas causas do usufruto de acordo com o Código Civil nos artigos 1.413 e 1.410:

Art. 1.413. São aplicáveis ao uso, no que não for contrário à sua natureza, as disposições relativas ao usufruto.

Art. 1.410. O usufruto extingue-se, cancelando-se o registro no Cartório de Registro de Imóveis:

I – pela renúncia ou morte do usufrutuário;
II – pelo termo de sua duração;
III – pela extinção da pessoa jurídica, em favor de quem o usufruto foi constituído, ou, se ela perdurar, pelo decurso de trinta anos da data em que se começou a exercer;
IV – pela cessação do motivo de que se origina;
V – pela destruição da coisa, guardadas as disposições dos arts. 1.407, 1.408, 2ª parte, e 1.409;
VI – pela consolidação;
VII – por culpa do usufrutuário, quando aliena, deteriora, ou deixa arruinar os bens, não lhes acudindo com os reparos de conservação, ou quando, no usufruto de títulos de crédito, não dá às importâncias recebidas a aplicação prevista no parágrafo único do art. 1.395;
VIII – Pelo não uso, ou não fruição, da coisa em que o usufruto recai (arts. 1.390 e 1.399).

Em todos os casos previstos para a extinção, o concessionário será penalizado com a perda das benfeitorias que houver realizado no imóvel concedido sem direito à indenização (DINIZ, 2008, p. 452).

2.4.4.3. Zonas de Especial Interesse Social

As Zonas de Especial Interesse Social (ZEIS) são zonas urbanas especificas pública ou particular, onde há ocupações irregulares pela população de baixa renda. Estas áreas são de interesse público, para promoção da urbanização e regularização jurídica da posse, garantindo a população direito à moradia (ALFONSIN et al., 2002, p. 92 a 96).

A lei 11.977/09 em seu artigo 47, inciso V, traz a definição da ZEIS:

Art. 47. Para efeitos da regularização fundiária de assentamentos urbanos, consideram-se:

[…] V – Zona Especial de Interesse Social – ZEIS: parcela de área urbana instituída pelo Plano Diretor ou definida por outra lei municipal, destinada predominantemente à moradia de população de baixa renda e sujeita a regras específicas de parcelamento, uso e ocupação do solo;

Portanto a finalidade deste instituto é a produção e manutenção de habitações de interesse social, promovendo a regularização jurídicas dessas áreas, com a implantação de infra-estrutura urbana e equipamentos em favor da comunidade que promova programas habitacionais, tornando as áreas informais em áreas legais. Ressalta-se ainda que, dependendo do caso pode a áreas da ZEIS ser isenta do pagamento do IPTU (ALFONSIN et al., 2002, p. 92 a 96).

As ZEIS são instituídas por lei municipal, em virtude de lei especifica ou no Plano Diretor, aprovado pela Câmara de Vereadores. Essa previsão legal altera o zoneamento da cidade e estabelece padrões específicos de uso e ocupação do solo, estabelecendo os perímetros das áreas em que serão implantadas a ZEIS, os requisitos utilizados para a escolha desta área, as normas especiais de uso e ocupação do solo e, por último, os instrumentos que poderão ser utilizados na regularização e urbanização (ALFONSIN et al., 2002, p. 92 a 96).

A autora Betânia Alfonsin et al. (2002, p. 92 a 96) enumera os tipos de áreas que podem ser caracterizadas como ZEIS:

• Áreas de favelas onde haja interesse público de promover a urbanização e a regularização fundiária. Através desse instrumento, podem ser delimitadas as áreas particulares cujo direito à propriedade pelo Usucapião Urbano, através da posse para fins de moradia, foi adquirido pela comunidade de baixa renda, bem como as áreas públicas onde a população tem direito à outorga da Concessão Especial de Uso para fins de Moradia;
• Áreas com loteamentos irregulares em que o Poder Público necessite promover a regularização jurídica do parcelamento, a complementação da infra-estrutura urbana ou dos equipamentos comunitários, bem como a recuperação ambiental. Nesses casos, quando o loteador não for responsabilizado, a Prefeitura municipal poderá promover a regularização de loteamento, para evitar lesão aos seus padrões de desenvolvimento urbano e para defender os direitos dos adquirentes de lotes;
• Áreas de grande incidência de cortiços, onde o poder público pretende conduzir um programa de renovação de edifícios e de regularização da condição dos moradores. Esse tipo de ZEIS pode ser utilizado para revitalizar a região e permitir o uso intensificado da área para projetos habitacionais de interesse social para a população moradora de cortiço;
• Áreas com concentração de terrenos não edificados, não utilizados ou subutilizados onde o poder público vise a implementação de programas habitacionais. Este tipo de ZEIS pode delimitar áreas com concentração de terrenos urbanos que estão sem uma destinação social, para implantação de programas habitacionais de interesse social. Por este mecanismo se atinge diretamente os vazios urbanos e as áreas subutilizadas do município. Apesar de esse tipo de instrumento não servir diretamente para a regularização, pode ser utilizado em conjunto com outros instrumentos, de maneira que os moradores removidos de outros terrenos, que não podem ser ocupados ou devem ser desadensados, tenham para onde ir.

Do exposto percebe-se que sua principal função é a de regularizar as ocupações pelo ponto de vista urbanístico, reconhecendo que essas áreas fazem parte das cidades, no entanto somente a ZEIS não resolve o problema da irregularidade, para que sejam reguladas juridicamente é necessário a aplicação de um processo de urbanização da área juntamente com a aplicação dos instrumentos de regularização jurídica (ALFONSIN et al., 2002, p. 92 a 96).

Para as ocupações ou favelas serem consideradas como áreas de interesse social, deve atender a alguns requisitos como: a) ser consolidada e predominantemente residencial; b) a renda dos moradores ser baixa para os padrões locais; c) áreas passíveis de urbanização, não estando em área de risco, sob pontes, viadutos, torres de alta tensão ou em áreas que não se pode construir (ALFONSIN et al., 2002, p. 92 a 96).

Tem legitimidade para solicitar que uma área ocupada seja declara área de ZEIS, os moradores da área ou a associação que representa a comunidade, junto ao Departamento ou Secretaria de Habitação, podendo também os próprios órgãos iniciar o processo de declaração de ofício sem a necessidade de serem acionados, a Câmara Municipal também tem legitimidade através da solicitação dos vereadores, do Ministério Público ou da Defensoria Pública (ALFONSIN et al., 2002, p. 92 a 96).

Segunda autora supracitada et al. (2002, p. 92 a 96), o Plano Urbanístico é um importante instrumento para a aplicação da ZEIS, por orientar as intervenções nas áreas de interesse social. Quando instituindo e executado pelo Poder Público ele defini as formas de gestão, implementação e manutenção das ZEIS, com a participação da população, da iniciativa privada, dos promotores imobiliários, das associações e das cooperativas de moradores. Além de definir os padrões de parcelamento, edificação, uso e ocupação do solo, fixando os preços e as formas de financiamento, transferência ou aquisição das habitações a serem construídas, pode definir também os critérios em que o município promovera a transferência do direito de construir ou a concessão gratuita deste direito nas ZEIS, viabilizando, portanto as habitações de Interesse Social.

Portanto a criação das ZEIS, procura exercer a função social da propriedade com a função social da cidade, melhorando a qualidade de vida dos moradores das áreas em que é implementada, realizando então o objetivo do Zoneamento (ALFONSIN, 1999, p. 20).

2.4.4.4. Parcelamento

2.4.4.4.1. Lei 6.766/79 – Lei do Parcelamento

A Lei Federal nº. 6.766/79, a Lei de Parcelamento do Solo Urbano foi criada visando reverter à deterioração urbana, normatizando as modalidade de parcelamento loteamento, desmembramento. (SAULE JR. et al., 2008, p. 07)

Nelson Saule Jr. et al. (2008, p. 08 e 09) dispõe que Lei do Parcelamento do Solo Urbano disciplina as seguintes matérias:

a) Modalidades de parcelamento| A lei define loteamento como a subdivisão de gleba em lotes destinados a edificação, com abertura de novas vias de circulação e logradouros públicos, ou ainda prolongamento, modificação ou ampliação das vias existentes. A lei define como desmembramento a subdivisão de gleba em lotes destinados a edificação, com aproveitamento do sistema viário existente, desde que não implique a abertura de novas vias e logradouros públicos, nem no prolongamento, modificação ou ampliação das já existentes. A lei define parcelamentos de interesse público como aqueles vinculados a planos ou programas habitacionais de iniciativa das Prefeituras, ou entidades públicas, bem como os destinados à regularização de parcelamento de assentamentos.
b) Requisitos urbanísticos para loteamento| A lei define como lote o terreno servido de infra-estrutura básica, cujas dimensões atendam aos índices urbanísticos definidos pelo Plano Diretor ou lei municipal para a zona em que se situa. A infra-estrutura básica dos parcelamentos é constituída dos equipamentos urbanos de escoamento das águas pluviais, iluminação pública, esgotamento sanitário, abastecimento de água potável, energia elétrica pública e domiciliar e vias de circulação. Nos parcelamentos situados nas zonas habitacionais declaradas por lei de interesse social a iluminação pública, a energia elétrica pública e a pavimentação deixam de ser parte da infra-estrutura básica.
c) Responsabilidades do loteador e do Poder Público;
d) Elementos do projeto de loteamento e desmembramento;
e) Aprovação e registro do Parcelamento do Solo;
f) Define as competências do Município e do Estado para o parcelamento do solo urbano| Cabe ao Estado disciplinar por decreto a aprovação, pelos Municípios, de loteamentos e desmembramentos localizados em áreas de proteção especial, como as de mananciais, patrimônio cultural ou histórico, em mais de um Município, e em regiões metropolitanas, quando abranger área superior a 1 milhão de m2.
g) Relações contratuais: loteador e adquirentes de lotes| A lei disciplina as relações contratuais entre loteadores e compradores de lotes urbanos definindo quais são os componentes dos compromissos de compra e venda, cessões e promessas de cessão que valem como título para o registro da propriedade do lote adquirido. A lei admite nos parcelamentos populares a cessão de posse em que estiverem provisoriamente imitidas a União, os Estados e os Municípios, que tem caráter de escritura pública. A lei estabelece também medidas de proteção ao adquirente de lote urbano. No caso de loteamento que não foi registrado ou regularmente executado de acordo com o projeto aprovado na Prefeitura, o adquirente do lote pode suspender o pagamento das prestações restantes e notificar o loteador a cumprir com as suas obrigações.
h) O papel do Poder Público na Regularização de Parcelamento Irregular;
i) Critérios específicos para a regularização de parcelamentos de interesse social promovidos pelo Poder Público| A lei estabelece a competência para a Prefeitura Municipal regularizar loteamento ou desmembramento implantado de forma irregular pelo loteador.
j) Infrações e crimes de Parcelamento do Solo| A lei tipifica os crimes contra a Administração Pública referentes ao parcelamento do solo urbano: é crime dar início ou efetuar loteamento sem a autorização da Prefeitura, ou sem cumprir com as exigências do Poder Público determinadas na licença que aprovou a implantação do loteamento.
k) Requisitos para a modificação de área rural para área urbana para fins de implantação de parcelamento urbano| Esta alteração depende de prévia anuência do INCRA, se houver, do órgão metropolitano onde se localiza o Município, e da aprovação da Prefeitura Municipal.

Evidencia-se que a aplicação da lei a área deve atender a alguns requisitos urbanísticos, quais sejam: para existência de áreas para a destinação do sistema de circulação, a instalação de equipamento urbano e comunitário, espaços para o uso público da população como praças. Os lotes devem ser compostos de uma área mínima de 125 m² e frente mínima de cinco metros. Nos casos de loteamentos em áreas específicas ou para construção de conjuntos habitacionais de interesse social o lote poderá ser menor, em consonância com legislação estadual ou municipal (SAULE JR. et al., 2008, p. 08).

A lei de parcelamento fixa também os índices urbanísticos em que serão aprovados os parcelamentos urbanos no território brasileiro, tendo o parcelador submeter ao consentimento da prefeitura a planta de parcelamento antes de registrá-lo, o depósito do contrato no CRI é obrigatório, sendo proibida a venda dos lotes parcelados não registrados, vez que se trata de crime. O grande benefício da lei 6.766/79, foi reconhecer a competência municipal para regularizar as áreas de parcelamento ilegais dentro do território dos municípios, trouxe ainda, a possibilidade de parcelamento especial para a população de baixa renda, possibilitando regularização de casas populares edificadas em parcelamentos informais (SAULE JR. et al., 2008, p. 10).

Conforme Saule et al. (2008, p. 10 e 11) os loteamentos podem ser considerados irregulares, devido situações físicas ou urbanísticas da área em relação à infra-estrutura falta de áreas públicas e também irregularidades jurídicas, referentes às dificuldades para o registro do loteamento, principalmente, pela incorreção do título de propriedade da área. Vale lembrar que, apesar dos parcelamentos de solo urbano ter aprovação do Poder Público municipal alguns são considerados loteamentos irregulares por não terem sido executados os atos administrativos necessários para aprovação, já os loteamentos clandestinos são aqueles que não obtiveram nenhuma aprovação por parte do Poder Público municipal e surgem diante da inércia da Administração Pública em fiscalizá-los.

Como já mencionado, é de competência do município o estabelecimento de normas e procedimentos para o parcelamento do solo urbano, nos termos da Constituição Federal artigo 30, incisos I e VIII:

Art. 30. Compete aos Municípios:

I – legislar sobre assuntos de interesse local;

[…] VIII – promover, no que couber, adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle do uso, do parcelamento e da ocupação do solo urbano; […]

Sendo assim, a política de regularização de loteamentos irregulares, estabelecida pelo município segundo Nelson Saule Jr. et al. (2008, p. 11) pode incluir as seguintes medidas:

• Delimitação das áreas com grande concentração de loteamentos irregulares, ou de loteamento irregular com elevada densidade populacional, como as Zonas Especiais de Interesse Social – ZEIS.
• Exigir do Poder Público, para os loteamentos irregulares delimitados como Zonas Especiais de Interesse Social – ZEIS, um plano de urbanização contendo normas especiais de parcelamento, uso e ocupação do solo e edificações compatíveis com a realidade da ocupação existente, como principal instrumento de regularização do loteamento irregular.

A Lei n° 9.785, de 29 de janeiro de 1999 trouxe alterações á Lei n° 6.766/79 à medida que atende ao objetivo de constituir instrumentos voltados à proteção do direito à moradia, com a proteção da segurança da posse da população moradora de assentamentos urbanos informais.

Cacilda Lopes apud Nelson Saule Jr. et al. (2008, p. 12 e 13), em sua dissertação sobre as legislações de parcelamento do solo urbano, tem o seguinte entendimento sobre as modificações feitas na Lei nº. 6.766/1979 pela Lei nº. 9.785/99:

[…] Constatamos que as alterações introduzidas pela Lei no 9.785/99 na Lei no 6.766/79, no tocante à flexibilização das normas quando o Estado promover empreendimentos imobiliários, tiveram como intuito minimizar a ausência, por longos anos, de investimentos em programas habitacionais. Isso em um quadro de profundas mudanças econômicas, que ocasiona o aumento de pessoas que não conseguem obter, mesmo com o trabalho, a garantia de habitação digna.

O Estado, ao perceber que o modelo de acesso à terra no Brasil privilegia apenas determinadas classes sociais, o que não conseguiu atender a uma classe numerosa de miseráveis, promove alterações na legislação, instituindo um modelo dual de acesso a lotes: um para os pobres e outro para a classe média, já reproduzido em outros momentos da História. Uma legislação de parcelamento do solo que exclui determinadas classes sociais do acesso legal à terra causa grande impacto na produção dos espaços urbanos. A parcela da sociedade que não consegue obter habitação pelo modo tradicional de aquisição de lotes fica sujeita a outras formas de apropriação do espaço urbano. Dessa forma, são criados os espaços das favelas, dos cortiços, dos loteamentos clandestinos e irregulares e espaços mais privilegiados, como os loteamentos regulares, sem falar daqueles que não têm acesso a nenhuma dessas formas de moradia, vivendo em ruas, praças, marquises e viadutos.

2.4.4.4.2. Projeto de Lei 3.057/2000

O Projeto de Lei nº. 3.057/00, que altera a Lei de Parcelamento do Solo Urbano, foi aprovado na Comissão Especial da Câmara dos Deputados, no ano de 2007, agora necessita ser aprovado no plenário da Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal.

Esse Projeto tem o objetivo de estabelecer normas que disciplinem o parcelamento do solo urbano e de regularização fundiária sustentável de áreas urbanas, tendo como denominação lei de responsabilidade territorial.

O doutrinador Nelson Saule Jr. et al. (2008, p. 17 e 18) cita as definições jurídicas que o Projeto de Lei n° 3.057/00 propõe e os requisitos urbanísticos e ambientais do parcelamento do solo urbano, a saber:

• área urbana e área urbana consolidada;
• das modalidades de parcelamento do solo urbano: loteamento, desmembramento, condomínio urbanístico;
• infra-estrutura básica e complementar;
• licença urbanística e ambiental integrada;
• gestão plena do Município em parcelamento do solo;
• zonas especiais de interesse social e assentamentos informais;
• empreendedor de parcelamento do solo urbano;
• regularização fundiária sustentável em área urbana;
• regularização fundiária de interesse social;
• regularização fundiária de interesse específico;
• demarcação urbanística e legitimação de posse.
• as responsabilidades do empreendedor e do Poder Público na implantação e manutenção do parcelamento do solo;
• os requisitos e critérios sobre o conteúdo e para fins de aprovação do projeto do parcelamento do solo;
• as competências do Município e do Estado sobre licenciamento para parcelamento do solo, as exigências para a adoção da licença urbanística e ambiental integrada, bem como para a entrega das obras e da licença final integrada;
• critérios para o registro do parcelamentos do solo;
• regras para os contratos, relações de consumo e direito do consumidor em parcelamento do solo;
• regularização fundiária sustentável em área urbana, regularização fundiária de interesse social e de interesse específico, demarcação urbanística e legitimação de posse, registro da regularização fundiária de interesse social;
• infrações penais, administrativas e civis sobre parcelamento do solo;
• requisitos e critérios para implantação e regularização do loteamento com controle de acesso;
• critérios sobre o custo do registro dos títulos inerentes ao parcelamento e regularização fundiária de interesse social.

O doutrinador dispõe ainda que a lei de parcelamento deve prever as situações nas quais o Poder Público tem a obrigação de iniciar e promover a regularização fundiária de assentamentos urbanos de interesse social, em relação aos planos ou programas habitacionais dos órgãos da Administração Direta ou Indireta vinculados aos Municípios, Estados, Distrito Federal e União, que se caracterizem como irregulares, tais como conjuntos habitacionais e loteamentos populares, sendo que os assentamento de interesse social localizados em áreas públicas de domínio da União, Estados, Municípios e Distrito Federal, devem estar estáveis, ou seja, que tenham direitos reais constituídos, para ocorrer o parcelamento, como na concessão de uso especial para fins de moradia, Zonas Especiais de Interesse Social (SAULE JR. et al., 2008, p. 24 e 25).

Atualmente, existe um elevado número de conjuntos habitacionais e loteamentos irregulares, por terem sido implantados sem observar a Lei de Parcelamento do Solo Urbano, que foram promovidos por órgãos, instituições e empresas habitacionais vinculados a Municípios, Estados e União. A Lei do Parcelamento do Solo considerando esta realidade, em seu artigo 53-A alterado pela Lei 9.785/99, prevê um tratamento especial para viabilizar o registro do assentamento objeto da regularização além de lhe declarar interesse público, a saber (SAULE JR. et al., 2008, p. 24 e 25):

Art. 53-A. São considerados de interesse público os parcelamentos vinculados a programas ou a planos habitacionais de iniciativa das prefeituras Municipais e do Distrito Federal, ou entidades autorizadas por lei, em especial as regularizações de parcelamentos e de assentamentos.

Parágrafo único. Às ações e intervenções de que trata este artigo não será exigível documentação que não seja a mínima necessária e indispensável aos registros no cartório competente, inclusive sob a forma de certidões, vedadas às exigências e as sanções pertinentes aos particulares, especialmente aquelas que visem garantir a realização das obras e serviços, ou que visem prevenir questões de domínio de glebas, que se presumirão asseguradas pelo Poder público respectivo.

Nesse contexto, a lei de parcelamento do solo deve propiciar a regularização fundiária dos inúmeros conjuntos habitacionais de interesse social promovidos pelo Poder Público de forma irregular. Sendo estendida à regularização também para as áreas públicas ocupadas pela população de baixa renda ou tradicionais, que tenham constituído direitos reais de posse ou moradia por previsão constitucional ou legal, como o direito à concessão de uso especial para fins de moradia, por ser medida necessária para assegurar o cumprimento da função social da propriedade urbana pública, do Direito à Moradia, estabelecido na Constituição Federal, bem como do Direito à Cidade previsto no Estatuto da Cidade (SAULE JR. et al., 2008, p. 24 e 25).

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O problema da falta de moradia, bem como a vulnerabilidade da segurança da posse, que afeta grande parte dos brasileiros que vivem em assentamentos informais, vem sendo enfrentado pelas políticas urbanas cuja implantação ocorre aos poucos no país.

Devido à reforma da ordem jurídico-urbanística o instituto da Regularização Fundiária Urbana tanto sobre bens públicos quanto particulares, surgiu como alternativa para que a política pública regularize os assentamentos informais, garantido a segurança da posse aos moradores, promovendo a melhoria do ambiente urbano dos assentamentos, resgatando a cidadania e a qualidade de vida desses habitantes.

Sua concepção versa sobre vários pontos, a saber; social, jurídico e urbanístico sendo capaz de solucionar diversos problemas da informalidade nos assentamentos irregulares.

Porém, os desafios a serem superados para que ocorra à regularização das áreas urbanas ocupadas de maneira irregular nas terras públicas são muitos, sendo a falta de uma estrutura urbanística um dos principais entraves da regularização dessas áreas. Assim como, a falta de uma infra-estrutura adequada com espaços para a implantação de áreas públicas como praças e parques, rede esgoto, água e energia elétrica, além de estrutura física para a criação de acessos adequados ao assentamento com ruas que possibilite a passagem de carros de utilidade pública como ambulâncias ou bombeiros, e também ocupações que são construídas em áreas de risco ou protegidas ambientalmente são exemplos de alguns dos desafios a serem enfrentados para a aplicação das leis de regularização.

O crescimento desordenado das cidades intensificou a falta de acesso à moradia digna, o diferencial dos preços das habitações regulares e irregulares, causou o aumento da segregação social. O direito à moradia é fundamental para a concretização de outros direitos essenciais à vida humana como o direito à igualdade e da dignidade da pessoa humana. A segurança da posse é essencial, com ela o morador da área irregular pode melhorar a sua qualidade de vida através de benfeitorias em sua moradia sem a insegurança de ser despejado.

São vários os instrumentos utilizados para a regularização fundiária de terras públicas urbanas, porém os mais adequados, são aqueles que não há transferência da propriedade ao beneficiário, pois o impede de vender a propriedade e voltar à mesma situação de antes os instrumentos de concessão, tanto de uso como o de moradia exerce esse papel, à medida que o beneficiário tem apenas a posse da propriedade, o domínio sobre ela continua sendo da União, o concessionário fará uso do bem público, porém esta concessão não é vitalícia ela pode ser extinta se não cumprido seus requisitos.

A implementação dos instrumentos de regularização contribuem, porém não são suficientes, nem tão pouco perfeitos, a gestão municipal tem uma grande importância nesta questão, talvez sua relevância seja maior até que as legislações pertinentes sobre o tema, por depender de sua iniciativa e vontade para plena implementação da regularização das áreas.

É importante também a contenção do crescimento deste problema, não se pode pensar apenas em regularizar as áreas ocupadas e não pensar em uma forma de evitar que ocorra novamente em outras áreas, por isso além de programas de regularização deve haver programas que facilitem o acesso a terras legalmente a população de baixa renda, como esta sendo feito com a implantação das ZEIS (Zonas Especiais de Interesse Social), que além de regularizar as áreas já ocupadas, também possibilitam acessibilidade à população de baixa renda em áreas públicas ainda não ocupadas.

Com isso o instituto da Regularização Fundiária das Terras Públicas Urbanas procura diminuir das desigualdades sociais dando acesso à moradia digna a população de baixa renda, passando as áreas públicas desafetas, a cumprir a sua função social, e garantir assim o direito a uma terra urbanizada aos moradores das áreas informais, além da segurança jurídica da posse.

4. REFERÊNCIAS

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ALFONSIN, Betânia de Moraes et al. Regularização da Terra e da Moradia o que é e como Implementar. Disponível em: <http://www.polis.org.br/publicacoes_interno.asp?codigo=186> Acesso em: 17 out. 2009.

ALFONSIN, Betânia, FERNANDES, Edésio (Org.). Direito à moradia e segurança da posse no estatuto da cidade: diretrizes, instrumentos e processos de gestão. 2ª tiragem. Belo Horizonte: Fórum, 2006.

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____. Lei nº. 11.977 de 07 de julho de 2009. Dispõe sobre o Programa Minha Casa, Minha Vida – PMCMV e a regularização fundiária de assentamentos localizados em áreas urbanas; altera o Decreto-Lei no 3.365, de 21 de junho de 1941, as Leis nos 4.380, de 21 de agosto de 1964, 6.015, de 31 de dezembro de 1973, 8.036, de 11 de maio de 1990, e 10.257, de 10 de julho de 2001, e a Medida Provisória no 2.197-43, de 24 de agosto de 2001; e dá outras providências. Planalto. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l11977.htm> Acesso em: 15 out. 2009.

____. Medida Provisória nº. 459 de 25 de março de 2009. Dispõe sobre o Programa Minha Casa, Minha Vida – PMCMV, a regularização fundiária de assentamentos localizados em áreas urbanas, e dá outras providências. Câmara dos Deputados. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/sileg/MontarIntegra.asp?CodTeor=642962> Acesso em: 10 de nov. 2009

____. Medida Provisória nº. 2.220 de 04 de setembro de 2001. Dispõe sobre a concessão de uso especial de que trata o § 1o do art. 183 da Constituição, cria o Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano – CNDU e dá outras providências. Planalto. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/MPV/2220.htm> Acesso em: 15 out. 2009.

____. Projeto de Lei nº. 3.057 de 2000. Inclui § 2º no art. 41, da Lei nº. 6.766, de 19 de dezembro de 1979, numerando-se como parágrafo 1º o atual parágrafo único. Câmara dos Deputados. Disponível em: <www.camara.gov.br/sileg/integras/516752.pdf> Acesso em: 15 out. 2009.

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VENOSA, Silvio de Salvo. Direito Civil: direitos reais. 5ª ed. São Paulo: Atlas, 2005

5. ANEXOS

5.1. Medida Provisória nº. 2.220/2001

MEDIDA PROVISÓRIA nº. 2.220, DE 4 DE SETEMBRO DE 2001.

Dispõe sobre a concessão de uso especial de que trata o § 1º do art. 183 da Constituição, cria o Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano – CNDU e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 62 da Constituição, adota a seguinte Medida Provisória, com força de lei:

CAPÍTULO I: DA CONCESSÃO DE USO ESPECIAL

Art. 1º Aquele que, até 30 de junho de 2001, possuiu como seu, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, até duzentos e cinqüenta metros quadrados de imóvel público situado em área urbana, utilizando-o para sua moradia ou de sua família, tem o direito à concessão de uso especial para fins de moradia em relação ao bem objeto da posse, desde que não seja proprietário ou concessionário, a qualquer título, de outro imóvel urbano ou rural.

§ 1º A concessão de uso especial para fins de moradia será conferida de forma gratuita ao homem ou à mulher, ou a ambos, independentemente do estado civil.
§ 2º O direito de que trata este artigo não será reconhecido ao mesmo concessionário mais de uma vez.
§ 3º Para os efeitos deste artigo, o herdeiro legítimo continua, de pleno direito, na posse de seu antecessor, desde que já resida no imóvel por ocasião da abertura da sucessão.

Art. 2º Nos imóveis de que trata o art. 1º, com mais de duzentos e cinqüenta metros quadrados, que, até 30 de junho de 2001, estavam ocupados por população de baixa renda para sua moradia, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, onde não for possível identificar os terrenos ocupados por possuidor, à concessão de uso especial para fins de moradia será conferida de forma coletiva, desde que os possuidores não sejam proprietários ou concessionários, a qualquer título, de outro imóvel urbano ou rural.

§ 1º O possuidor pode, para o fim de contar o prazo exigido por este artigo, acrescentar sua posse à de seu antecessor, contanto que ambas sejam contínuas.
§ 2º Na concessão de uso especial de que trata este artigo, será atribuída igual fração ideal de terreno a cada possuidor, independentemente da dimensão do terreno que cada um ocupe, salvo hipótese de acordo escrito entre os ocupantes, estabelecendo frações ideais diferenciadas.
§ 3º A fração ideal atribuída a cada possuidor não poderá ser superior a duzentos e cinqüenta metros quadrados.

Art. 3º Será garantida a opção de exercer os direitos de que tratam os arts. 1º e 2º também aos ocupantes, regularmente inscritos, de imóveis públicos, com até duzentos e cinqüenta metros quadrados, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, que estejam situados em área urbana, na forma do regulamento.

Art. 4º No caso de a ocupação acarretar risco à vida ou à saúde dos ocupantes, o Poder Público garantirá ao possuidor o exercício do direito de que tratam os arts. 1º e 2º em outro local.

Art. 5º É facultado ao Poder Público assegurar o exercício do direito de que tratam os arts. 1º e 2º em outro local na hipótese de ocupação de imóvel:

I – de uso comum do povo;
II – destinado a projeto de urbanização;
III – de interesse da defesa nacional, da preservação ambiental e da proteção dos ecossistemas naturais;
IV – reservado à construção de represas e obras congêneres; ou
V – situado em via de comunicação.

Art. 6º O título de concessão de uso especial para fins de moradia será obtido pela via administrativa perante o órgão competente da Administração Pública ou, em caso de recusa ou omissão deste, pela via judicial.

§ 1º A Administração Pública terá o prazo máximo de doze meses para decidir o pedido, contado da data de seu protocolo.
§ 2º Na hipótese de bem imóvel da União ou dos Estados, o interessado deverá instruir o requerimento de concessão de uso especial para fins de moradia com certidão expedida pelo Poder Público municipal, que ateste a localização do imóvel em área urbana e a sua destinação para moradia do ocupante ou de sua família.
§ 3º Em caso de ação judicial, a concessão de uso especial para fins de moradia será declarada pelo juiz, mediante sentença.
§ 4º O título conferido por via administrativa ou por sentença judicial servirá para efeito de registro no cartório de registro de imóveis.

Art. 7º O direito de concessão de uso especial para fins de moradia é transferível por ato inter vivos ou causa mortis.

Art. 8º O direito à concessão de uso especial para fins de moradia extingue-se no caso de:

I – o concessionário dar ao imóvel destinação diversa da moradia para si ou para sua família; ou
II – o concessionário adquirir a propriedade ou a concessão de uso de outro imóvel urbano ou rural.

Parágrafo único. A extinção de que trata este artigo será averbada no cartório de registro de imóveis, por meio de declaração do Poder Público concedente.

Art. 9º É facultado ao Poder Público competente dar autorização de uso àquele que, até 30 de junho de 2001, possuiu como seu, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, até duzentos e cinqüenta metros quadrados de imóvel público situado em área urbana, utilizando-o para fins comerciais.

§ 1º A autorização de uso de que trata este artigo será conferida de forma gratuita.
§ 2º O possuidor pode, para o fim de contar o prazo exigido por este artigo, acrescentar sua posse à de seu antecessor, contanto que ambas sejam contínuas.
§ 3º Aplica-se à autorização de uso prevista no caput deste artigo, no que couber, o disposto nos arts. 4o e 5o desta Medida Provisória.

CAPÍTULO II: DO CONSELHO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO URBANO

Art. 10. Fica criado o Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano – CNDU, órgão deliberativo e consultivo, integrante da estrutura da Presidência da República, com as seguintes competências:

I – propor diretrizes, instrumentos, normas e prioridades da política nacional de desenvolvimento urbano;
II – acompanhar e avaliar a implementação da política nacional de desenvolvimento urbano, em especial as políticas de habitação, de saneamento básico e de transportes urbanos, e recomendar as providências necessárias ao cumprimento de seus objetivos;
III – propor a edição de normas gerais de direito urbanístico e manifestar-se sobre propostas de alteração da legislação pertinente ao desenvolvimento urbano;
IV – emitir orientações e recomendações sobre a aplicação da Lei no 10.257, de 10 de julho de 2001, e dos demais atos normativos relacionados ao desenvolvimento urbano;
V – promover a cooperação entre os governos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e a sociedade civil na formulação e execução da política nacional de desenvolvimento urbano; e
VI – elaborar o regimento interno.

Art. 11. O CNDU é composto por seu Presidente, pelo Plenário e por uma Secretaria-Executiva, cujas atribuições serão definidas em decreto.

Parágrafo único. O CNDU poderá instituir comitês técnicos de assessoramento, na forma do regimento interno.

Art. 12. O Presidente da República disporá sobre a estrutura do CNDU, a composição do seu Plenário e a designação dos membros e suplentes do Conselho e dos seus comitês técnicos.

Art. 13. A participação no CNDU e nos comitês técnicos não será remunerada.

Art. 14. As funções de membro do CNDU e dos comitês técnicos serão consideradas prestação de relevante interesse público e a ausência ao trabalho delas decorrente será abonada e computada como jornada efetiva de trabalho, para todos os efeitos legais.

CAPÍTULO III: DAS DISPOSIÇÕES FINAIS

Art. 15. O inciso I do art. 167 da Lei no 6.015, de 31 de dezembro de 1973, passa a vigorar com as seguintes alterações:

“I -……………………………………………………………………………………………………….

28) das sentenças declaratórias de usucapião;

37) dos termos administrativos ou das sentenças declaratórias da concessão de uso especial para fins de moradia;

40) do contrato de concessão de direito real de uso de imóvel público.” (NR)

Art. 16. Esta Medida Provisória entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 4 de setembro de 2001; 180o da Independência e 113o da República.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Pedro Parente

5.2 Modelo de Auto de Demarcação

AUTO DE DEMARCAÇÃO URBANÍSTICA

PARA REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA DE ASSENTAMENTOS URBANOS

(Art. 56, Lei nº. 11.977/07)

O PREFEITO MUNICIPAL DE ………………………………….. no uso das atribuições que lhe confere a Lei n°. ………. de ………… de ….. (Lei Orgânica do Município) e considerando o que consta do expediente administrativo n°. ……………., da Secretaria Municipal de ………………………….., FAZ SABER que o terreno urbano localizado no bairro………………….. (ou distrito ou denominação tradicional do lugar), neste Município, com área total de ……………. m2 com as seguintes características, dimensões e confrontações………… (coordenadas georreferenciadas dos vértices, se for o caso) registrada no Registro de Imóveis do Município de ……………… sob a matrícula número …………. (ou transcrição), em nome de ………………………………………. (referir os nomes das pessoas que constam no registro (se houver registro), FOI DEMARCADO pela equipe técnica da Secretaria de ………………………….. deste Município, conforme planta, memorial descritivo, planta de sobreposição e certidão(ões) do Registro Imobiliário, que seguem anexos e integram o presente Auto de Demarcação para fins de REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA, nos termos da Lei Federal n°. 11.977, de 07 de julho de 2009, da Lei Federal n°. 10.257, de 10 de julho de 2001, da Lei Municipal n°. ……….. de …. de ……………. de ……. e do Decreto n°. …………………., de …… de ………………… de ……….. (referir, se existente, toda a legislação municipal que regulamentou o procedimento de regularização fundiária no Município). Prefeitura Municipal de ………………… em ….de…….de 200…..

PREFEITO MUNICIPAL

REGISTRE-SE E PUBLIQUE-SE, etc.

Modelo de Auto de Demarcação

(Parágrafo adicional no caso de área pública)

(artigo 56,§2)

Considerando que a referida DEMARCAÇÃO URBANÍSTICA abrange (ou confronta com) ÁREA PÚBLICA pertencente ………………………(à União, ao Estado de …………….., ao Distrito Federal ou ao Município de ……………………), foi realizada a NOTIFICAÇÃO do(a) ……………………. (referir a respectiva Procuradoria-Geral ou Órgão de Administração Patrimonial do ente federado envolvido), conforme documento de fl. …., para que manifestasse, no prazo de 30 (trinta) dias, se era titular do domínio sobre a referida área, não tendo havido manifestação no referido prazo.

Prefeitura Municipal de ………………… em ….de…….de 200…..

PREFEITO MUNICIPAL

REGISTRE-SE E PUBLIQUE-SE, etc.

5.3 Modelo de Averbação do Auto de Demarcação Urbanística

AV-…./…….., em …/…/……

TÍTULO – AUTO DE DEMARCAÇÃO URBANÍSTICA.

Nos termos do AUTO DE DEMARCAÇÃO URBANÍSTICA de que trata o expediente administrativo n° ….., lavrado pelo Município de ……, em …/…/…… e assinado pelo Exmo. Senhor Prefeito Municipal ……… , instruído com os documentos previstos no parágrafo 1º, incisos I, II e III do art. 56 da Lei n° 11.977/2009, fica constando que o imóvel objeto desta matrícula foi demarcado pelo Poder Público Municipal, para fins de regularização fundiária de interesse social, nos termos da referida Lei.

PROTOCOLO – Título apontado sob n°……., em 8/9/2009. Sapucaia do Sul, 8 de setembro de 2009.

5.4 Modelo de Registro de Parcelamento

R…/………, em …./…./……

TÍTULO – REGISTRO DE PARCELAMENTO DE SOLO. – Nos termos do que consta do expediente administrativo n° ……. e do requerimento firmado pelo Município de …………., em …/…/……., através de seu Prefeito Municipal ……………… , instruído com a documentação prevista no art. 51 da Lei n° 11.977/2009, fica constando que o imóvel objeto desta matrícula foi regularizado/loteado pelo Poder Público Municipal, nos termos do art. 58 da referida Lei, por se tratar de área de interesse social, da seguinte forma: 20.000,00m2 destinado aos lotes; 15.000,00m2 destinado ao sistema viário e 4.000,00m2 destinado às áreas públicas. As demais condições constam do respectivo processo.

PROTOCOLO – Título apontado sob n° ………, em …./…./…… Sapucaia do Sul, …. de ……….. de …….

5.5 Modelo de Título de Legitimação de Posse

O PREFEITO MUNICIPAL DE……………., tendo em vista o procedimento de Regularização Fundiária de Interesse Social de que trata o expediente administrativo n°……, da Secretaria Municipal de………………, CONCEDE o presente TÍTULO DE LEGITIMAÇÃO DE POSSE do imóvel situado neste Município na Rua………….. (descrever e caracterizar o imóvel), conforme matrícula n°………… do Registro de Imóveis desta Comarca a FULANA(O) DE TAL (qualificar a(s) pessoa(s) titulada(s), na condição de detentor(a) da posse direta, o DIREITO DE MORADIA sobre o referido imóvel, nos termos do art. 59 da Lei n° 11.977/2009.

Data e ASSINATURA DO PREFEITO MUNICIPAL.

(Publicado no Diário Oficial de……………..)

5.6 Modelo de Registro de Legitimação de Posse

(Art. 59)

R…./…….., em …/…/…….

TÍTULO – LEGITIMAÇÃO DE POSSE.

Nos termos do instrumento administrativo de legitimação de posse do que trata o expediente administrativo n° …….., firmado em ………, pelo Município de ………., através de seu Prefeito Municipal ………………., fica constando que, nos termos do art. 59 da Lei n° 11.977/2009, foram legitimados na posse do imóvel objeto desta matrícula FULANA DE TAL, do lar, com RG n° …………. E seu esposo BELTRANO DE TAL, pedreiro, com RG …………, conferindo-lhes o DIREITO DE MORADIA.

PROTOLOCO – Título apontado sob n° ……… em …/…./……. . Sapucaia do Sul, em…/…/…….

Realidade Virtual

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Este projeto de pesquisa justifica-se pela necessidade de mostrar que a realidade virtual é uma forma de podermos visualizar, manipular e interagir com o computador, e como ela vem evoluindo ao longo do tempo nas mais diversas áreas do conhecimento. Uma vantagem é a transferência do nosso mundo real para a manipulação do mundo virtual. Vários são os benefícios que ela nos trás, como por exemplo, as implementeções em medicina e educação facilitando diagnósticos, cirúrgias e o aprendizado.

Objetivos:

Analisar e mostrar essa forma de interação, que a medida com que avançamos no tempo ganha uma significante importância não só na área da computação.

– fazer uma pesquisa sobre a definição da realidade virtual;
– Verificar em que áreas e quais as implementações que são realizadas em realidade virtual;
– Conhecer como funciona a realidade virtual e sua história;
– Verificar as implementações que estão sendo elaboradas.

Referencial Teórico

Definição da realidade virtual?

Com a expansão das comunicações em realidade uma nova sociedade está surgindo ao lado da sociedade real. Trata-se da sociedade virtual. Seu território é o ciberespaço e o seu tempo é o virtual. Também é chamada de RV, a realidade virtual envolve um usuário em um ambiente criado por computador, a fim de que ele interaja com esse ambiente. Pode ser também definida como a forma mais avançada de interface do usuário de computador até agora disponível. Com aplicação na maioria das áreas do conhecimento e com um grande investimento das indústrias na produção de hardware e software a realidade virtual vem experimentando um grande desenvolvimento e indicando perspectivas promissoras. É a forma das pessoas visualizarem, manipularem e interagirem com computadores e dados extremamente complexos.

A história da realidade virtual

A introdução do cinerama e cinemascope, em meádos da década de 50 é considerada uma das primeiras experiências em obtenção de realismo artificial. Em 1956, Morton Heiling (um cineasta) desenvolveu um simulador baseado em vídeo denominado sensorama, que permitia ao usuário expôr-se a uma combinação de visão tridimensional, som estéreo, vibrações, sensação de vento e de aroma em um passeio simulado de motocicleta por Nova Yok. Embora o invento não tinha sido sucesso comercial ele foi o precursor da imersão de usuário em um ambiente sintético. Em 1961, Comeau e Bryan descreveram o primeiro sistema de circuíto fechado de televisão com o visor montado num capacete, produzido pela philco. O sistema tinha um rastreador de posições no capacete e permitia ao usuário controlar remotamente uma câmera de televisão a partir dos seus movimentos da cabeça.

Em 1968 Ivan Sutherland construiu, na universidade de Harvard, o primeiro capacete de visualização com imagens geradas por computador, incorporando um sitema de rastreamento da posição da cabeça. Esse trabalho é considerado por muitos como o marco inicial da imersão em ambiente virtual e início da realidade virtual. Em 1977 e 1982 apareceram as primeiras luvas desenvolvidas respectivamente pelo grupo levado por Dan Sandin Richard Soyre e Thomas Zimmerman para serem acoplados a computadores, e, em 1987, a empresa VPL Research Inc, da qual Zimmerman foi um dos fundadores colocou pela primeira vez produtos de realidade virtual no mercado com a comercialização da luva Data Glove. Em seguida, a empresa também passou a vender um capacete de visualização chamado Eye Phones. A partir daí o avanço nas pesquisas vêm provocando um crescimento em realidade virtual e uma redução nos preços.

Funcionamento da realidade virtual

A interface envolve um controle tridimensional altamente interativo de processos computacionais. O usuário entra no espaço virtual das aplicações e visualiza, manipula e explora os dados das aplicações em tempo real, usando seus sentidos, particularmente os movimentos do corpo. Apresenta imagens que respondem de imediato aos movimentos da pessoa. A parte visual é feita usando computadores e equipamentos ópticos que transmitem aos olhos do usuário uma cena tridimensional em cores vívidas. A fonte da cena é um banco de dados usado por um computador potente para exibir imagens gráficas. O sistema de realidade virtual pode sentir os movimentos da cabeça e do corpo do usuário por meio de cabos ligados ao capacete e a luva utilizados pelo usuário, ou seja, sensores no corpo do usuário enviam sinais ao computador, o qual ajusta a cena visualizada pelo usuário. Um sistema de realidade virtual permite que um ou mais usuários se movam e reajam em um ambiente simulado por computador.

Simulações em realidade virtual exigem dispositivos especiais que transmitem imagens, sons e sensações do mundo simulado para o usuário. Esses dispositivos podem também gravar e enviar a fala e os movimentos dos participantes para o programa de simulação, permitindo aos usuários perceberem e manipularem objetos virtuais da mesma maneira como objetos reais. Esse estilo natural de interação dá aos participantes a sensação de estarem imersos no mundo simulado.

Para ver um mundo virtual, o usuário usará um visor (HMD-Head-Mounted Display) com teclas direcionadas para o olho, contém um analisador de posições para monitorar a posição a cabeça do usuário e a direção para onde ele está olhando, um computador gera imagens do mundo virtual e apresenta essas imagens no HMD. As cenas de mundo virtual, devem ser simples para que o computador possa atualizar as imagens rapidamente. Os usuários ouvem sons no mundo virtual por fones de ouvidos. As informações registradas também são usadas para atualizar os sinais de áudio. A interface háptica, que proporciona a sensação do toque e outras sensações físicas, é a menos desenvolvida e a mais difícil de criar. Com uma luva e um monitor de posições, o computador localiza a mão do usuário e mede os movimentos dos dedos. O usuário pode manipular objetos, entretanto, é difícil gerar as sensações, por exemplo, de quando uma pessoa bate em uma superfície dura.

Um sistema de realidade virtual envolve estudos e recursos ligados com percepção, hardware, software, interface do usuário, fatores humanos e aplicações. Para elaboração de sistemas de realidade virtual é necessário ter algum domínio sobre: dispositivos não convencionais de entrada e saída, computadores de alto desempenho a boa capacidade gráfica, sistemas paralelos e distribuídos, modelagem geométrica tridimensional, simulações em tempo real, navegação, detecção de colisões, impacto social, projeto de interfaces e aplicações simples e distribuídas em diversas áreas.

A realidade virtual pode ser considerada como a junção de três idéias: imersão está ligada com o sentimento de estar dentro do ambiente), interação( está ligada com a capacidade do computador de detectar as entradas do usuário e modificar instântaneamente o mundo virtual e as ações sobre ele) e desenvolvimento( está ligada com o grau de motivação para o engajamento de uma pessoa com determinada atividade, pode ser passivo ou ativo). A principal característica de um sistema de realidade virtual é o envolvimento humano através da imersão sensorial.

As formas de realidade virtual são a imersiva baseada no uso de capacetes ou salas de projeções nas paredes, e a não imersiva baseada no uso de monitores utilizando todas as vantagens da evolução da indústria de computadores, evita as limitações e problemas do uso de capacetes, fácil de usar.

Os tipos de sistemas de realidade virtual não convencionais são a telepresença ( situação onde uma pessoa está em um ambiente real que está separado fisicamente da pessoa no espaço, consiste de um usuário uma intarface homem-máquina, um telerobô e um ambiente remoto), sistemas de realidade virtual ( consiste de um usuário, uma interface homem-máquina e um computador, o usuário participa do mundo virtual, usando dispositivos de percepção e controle), sistemas de realidade aumentada ( combinação do ambiente real com o virtual, é obtido mesclando-se sistemas de telepresença e realidade virtual, utiliza-se de óculos ou capacete com visor semitransparente), e sistema de realidade melhorada ( é uma variação do sistema de realidade aumentada, onde um sistema de processamento de imagens gera informações adicionais para serem sobrepostas á imagem real.

Os modelos de interação associados a ambientes virtuais podem ser de um único usuário que pode ser de quatro maneiras, como espectador, com participação real, com participação simulada e sem participação ou de vários usuários que pode ocorrer de três maneiras, comunicação entre usuários, compartilhar o ambiente virtual e realizar trabalho cooperativo no mundo real através do ambiente virtual compartilhado. A modelagem dos mundos virtuais define as características dos objetos, a modelagem geométrica abrange a descrição das formas dos objetos virtuais, a cinemática é usada junto com a geométrica para conseguir animação e a física é usada para obtenção de realismo nos mundos virtuais. Também é possível modelar o comportamento dos objetos independentes do usuário, como relógio, calendário, termômetro e outros agentes inteligentes independentes, acessando quando necessário alguns sensores externos.

Um sistema de realidade virtual de grande porte é caro e complexo, em função de todos os recursos envolvidos. A interface deve gerar imagens animadas suaves para capacetes de visualização, visando manter a característica de imersão e deve reagir rapidamente as ações do usuário, deve fornacer suporte para distribuir uma aplicação em diversos processadores, é necessário um mecanismo eficiente de comunicação de dados e é necessário algum mecanismo de avaliação de desempenho de realidade virtual. Em Engenharia de Software as aplicações deverão ter facilidades para execução em diversas instalações, deverá ter capacidade de acomodar novos dispositivos, o sistema deverá ajustar-se a diferentes configurações de localização física do usuário e de seus dispositivos e permitir a utilização de ambientes de desenvolvimento diferente.

Para a definição de um sistema de realidade virtual precisa-se uma definição das aplicações, caracterização da imersão, avaliação dos dispositivos de visualização, avaliação de outros dispositivos, estabelecimento das capacidades de rastreamento, avaliação do conjunto de recursos e capacidades, seleção do sistema de realidade virtual e seleção do hardware.

A adaptação de dispositivos e o desenvolvimento de software adequado as limitações dos microcomputadores propiciaram o surgimento de aplicações para plataformas baseadas em microcomputadores, e as plataformas para estações de trabalho são voltadas para as mais variadas aplicações, devem ser compostas com interfaces e dispositivos adequados. Alguns softwares podem ser obtidos pela internet como: REND 386, VR 386 e AVRIL, para microcomputadores e MRTOOLKIT para estações de trabalho. Algumas linguagens de programação para elaboração de realidade virtual são:

OPEN GL, JAVA 3D, X3D, VRML( Virtual Reality Modeling Language ou Linguagem para Modelagem em Relidade Virtual- é uma linguagem independente da plataforma que permite a criação de cenários 3D, por onde se pode passear, visualizar objetos por ângulos diferentes e interagir com eles. A última versão é a moving worls VRML 2.0 tem como objetivo dar suporte necessário para o desenvolvimento de mundos virtuais tridimensionais multiusuários na internet, sem precisar de redes de alta velocidade).

Exemplos de programas de realidade virtual são Sketchup, Ton Studio, ICIDO, Vis Concept, Subd.

Em que áreas a realidade virtual é aplicada?

A realidade virtual pode ser aplicada nas mais diversas áreas do conhecimento, a visualização científica ( de superfícies, túnel de vento virtual, síntese molecular, etc), médica e em saúde ( simulação cirúrgica, saúde virtual, ensino de anatomia, etc), arquitetura e projeto ( CAD, decoração, projeto de artefatos, etc), educação ( laboratórios virtuais, educação a distância, etc), entretenimento ( tênis virtual, jogos, etc), treinamento ( simuladores de vôo, planejamento de operações militares, etc), artes ( pintura, música, etc), contorle da informação ( visualização financeira, informação visual, etc), telepresença e telerobótica ( contole de sistemas remotos, teleconferência, professor virtual, etc).

Um exemplo de aplicação de realidade virtual em medicina é o de cirurgiões na França que efetuaram a primeira operação coronária a peito fechado. Em vez de abrir o peito do paciente e quebrar suas costelas, os cirurgiões usuram um sitema de realidade virtual que lhes permitiu operar por três buracos de meia polegada entre as costelas do paciente. Eles inseriram tubos finos até a área da operação para proteger os outros tecidos corpóreos. Três braços foram então inseridos pelos tubos. Um para uma câmera tridimensional, os outros dois para duas mãos mecânicas com diversas ferramentas cirúrgicas. O sistema de realidade virtual imitava os mivimentos dos ombros, cotovelos e pulsos dos cirurgiões. Os cirurgiões se colocavam em uma estação de trabalho distante da mesa de operação e moviam instrumentos que controlavam as ferramentas cirúrgicas dentro do paciente.

Os instrumentos dentro do paciente imitavam os movimentos das mãos dos cirurgiões com tanta percisão que era possível cortar uma artéria coronariana fina como um fio de cabelo. Os cirurgiões observaram seu progresso em uma tela que ampliava a artéria em uma imagem tridimensional do tamanho de uma mangueira de jardim. Um outro exemplo de realidade virtual aplicada na medicina é a de um simulador de coleta de medula óssea para transplante utilizando recursos de realidade virtual como sistemas de reação tátil e sistemas acoplados de projeção de imagens estereoscópicas. O simulador apresenta três módulos principais: visualização, palpação e coleta. O sistema foi desenvolvido tendo como plataforma um computador pessoal e o sistema operacional Windows. Toda a programação foi feita utilizando as linguagens C++, Open GL e a API Ghost (específica para o dispositivo háptico).

O simulador consiste em um ambiente contendo um modelo virtual da região pélvica onde é possível tocar e sentir o modelo durante a manipulação de uma agulha virtual, representada pelo dispositivo háptico, sentindo as características dos tecidos (dureza, elasticidade, rugosidade e densidade). O sistema final pretende substituir os atuais procedimentos de treinamento, sendo que deve ainda incorporar recursos de avaliação de desempenho e destreza do usuário perante a realização do respectivo procedimento.

Na educação a realidade virtual é usada para apresentar novos e exitantes recursos para a sala de aula. Na Universidade da Carolina do Norte, EUA, cientistas da computação desenvolveram um programa que o usuário percorrer uma galeria de arte.

O usuário coloca um monitor adaptado a cabeça que focaliza o olhar em uma tela e se fecha do resto do mundo. Se o usuário inclinar a cabeça para a direita, as imagens na parede direita entrarão em seu campo de visão, e assim, o usuário pode visualizar qualquer parte da galeria apenas fazendo movimentos de cabeça. Outro exemplo na educação é o de um professor virtual é um sistema que permite ao professor ser transportado para uma sala de aula remota e receber as informações da classe, podendo interagir com os alunos como se estivesse presente. Para isso serão utilizadas técnicas de realidade virtual, e em especial a telepresença. Além disso, o sistema oferecerá ferramentas adicionais que aumentarão as possibilidades de interação como por exemplo, a identificação dos alunos (crachá virtual), prontuários e experimentos virtuais (laboratórios virtuais). O projeto Professor Virtual possui dois modelos de implementação.

Enquanto no primeiro a sala de aula é real, no segundo além do professor a sala de aula também é virtual onde cada aluno poderá conectar-se ao sistema remotamente.

Em turismo e marketing a realidade virtual oferece exatamente exposições para propriedades e atrai clientes potenciais. Os clientes podem fazer um passeio virtual por propriedades, e os passeios podem ser enviados por correio ou pela internet.

Em entretenimento diversos filmes usam essa tecnologia para fazer realismo. Ryan Patterson, um estudante de 17 anos em Colorado, EUA, desenvolveu uma luva de realidade virtual para traduzir linguagens de sinais em texto em uma tela fina de computador pessoal.

Alguns incovenientes nas aplicações de realidade virtual.

Existe também algumas aplicações ainda em desenvolvimento como, consumidores podendo pesquisar produtos em uma vitrine virtual, apenas usando uma adaptação a cabeça, um guarda de segurança pode patrulhar corredores e escritórios em localizações remotas entre outras.

Alguns usuários enfrentam o mal do simulador, apesar de saberem que a experiência não é real. Os desenvolvedores de realidade virtual se defrontam com custos desanimadores esses entre outros são alguns incovenientes nas aplicações de realidade virtual.

Alguns exemplos de aparelhos usados na ralidade virtual são:

– Capacete- VFX1- é um exemplo de capacete cuja sua principal característica é que podem ser estereoscópicos ou monoscópicos: 1 ou 2 cenas. Binoculares ou monoculares:

1 o 2 olhos estimulados. Opacos ou translúcidos: substituem ou complementam a realidade objetiva.

Dano Moral Bancário

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Analisam-se as questões quanto ao dano moral resultantes da atividade bancária. Iniciando por um histórico com surgimento do entendimento do dano moral no ordenamento jurídico geral e brasileiro. Em seguida, trata o conceito fixado do dano moral, explicando a partir de sua nomenclatura, aos requisitos essenciais à caracterização da lesão imaterial. Posteriormente aborda-se a controvérsia doutrinária e o atual entendimento quanto à aceitação da pessoa jurídica sofrer dano a sua personalidade. Tratando no capitulo seguinte, da aplicação do Código de Defesa do Consumidor aos casos bancários, em que se observa a discussão até o entendimento pacificado atual dos clientes efetivamente tratados como consumidores e as instituições financeiras como fornecedoras de produtos e serviços bancários.

Além, de expor o tema propriamente dito, demonstrando a incidência do dano moral nas relações bancárias, e estudando separadamente os casos mais comuns com exemplos de julgados recentes, em sua maioria, sentenciados pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro e pelo Superior Tribunal de Justiça. E finalizando o estudo com a cautelosa tarefa de aferir o quantum indenizatório para a devida compensação ao dano moral. Concluindo assim a monografia acerca do tema proposto.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
1. HISTÓRICO DO DANO MORAL
2. DANO MORAL
2.1 A culpa
2.2 A prova do dano moral
2.3 O Nexo de Causalidade
2.4 A legitimidade para pleitear o dano moral
3. O DANO MORAL DA PESSOA JURÍDICA
4. O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E AS INSTITUIÇÕES BANCÁRIAS
5. DANO MORAL NO ÂMBITO BANCÁRIO
5.1 Inscrição indevida nos cadastros de inadimplentes
5.2 Manutenção no cadastro de inadimplentes após quitação do débito
5.3 Da espera nas filas de atendimento bancário
5.4 Do constrangimento por detector de metais em porta giratória bancária
5.5 Dano moral decorrente de roubo em função da atividade bancária
5.6 Débito em conta sem expressa autorização do titular
5.7 Abertura de conta com documentos fraudulentos
5.8 Erro na compensação de cheques: motivação para dano moral
5.8.1 Cheque devolvido indevidamente
5.8.2 Cheque falsificado ou alterado pago indevidamente
5.9 Protestos indevidos
6. O QUANTUM INDENIZATÓRIO ARBITRADO AO DANO MORAL
7. CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS

INTRODUÇÃO

Atualmente, é cada vez mais freqüente a utilização dos Bancos e seus produtos e serviços, devido o desenvolvimento da sociedade e suas facilidades nas transações comerciais, que atendem a maior parte da população, ganhando novos usuários a cada novo ano.

E com o aumento de usuários de produtos e serviços bancários, há também como conseqüência, um aumento nos questionamentos a respeito desta relação contratual, com a existência de relevantes defeitos no negócio jurídico, que normalmente são levados ao judiciário para a resolução de diversas causas envolvendo as instituições bancárias, como se pode observar pelo número de acórdãos e processos sentenciados e publicados diariamente pelos tribunais.

Diante de tantos casos que geram ações contra as instituições bancárias, observam-se inúmeras são as que envolvem o dano moral. Fato este que cria grande expectativa para entender o funcionamento desde a identificação do dano moral até a valoração a que se atribui, até mesmo porque, estamos passíveis de termos nossos direitos transgredidos pelos bancos dos quais somos correntistas ou usuários. Sendo, por tanto, uma pesquisa interessante e bastante útil.

E isto poderá ser apreciado com a leitura deste trabalho, que ressaltará os casos mais comuns de ações que tratam do dano moral no âmbito bancário.

O objetivo das pesquisas realizadas e aqui unificadas é expor o instituto do dano moral de sua evolução aos dias atuais, com sua aplicabilidade pela jurisprudência e embasamento doutrinário, com foco nas relações bancárias.

Visa também demonstrar se é possível a utilização do Código de Defesa do Consumidor para assegurar a hipossuficiência e ou vulnerabilidade do cliente bancário que se submete ao poder dos imponentes conglomerados financeiros.

Discorrendo também sobre a teoria do risco, incorporada pelo Código Civil de 2002, e que ampara grande parte das ações por danos morais contra as instituições financeiras.

Além de demonstrar ao final do estudo como deve proceder a averiguação do valor referente à indenização quanto a estes direitos lesados, que não são mensuráveis e que precisam do correto arbítrio do juízo, vendo também os critérios por utilizados para tal decisão.

1. HISTÓRICO DO DANO MORAL

Já nos primórdios das civilizações caracteriza-se a existência do senso de responsabilizar aquele que comete ato divergente do esperado como conduta correta, lícita, o que hoje entendemos por responsabilidade civil. Mesmo antes da civilização mediterrânea, há indícios verificados em antigos monumentos legislativos foram cogitados.

Como o Código de Hamurabi e o ordenamento da Mesopotâmia antiga, carregavam estímulos quanto à idéia de punição a quem pratica o dano, com um sofrimento na mesma proporção que ocasionou a outrem anteriormente.

Ao Direito Romano, inicialmente entendia-se que a responsabilidade civil possuía como ponto inicial a vingança privada, natural, selvagem e intrínseca em razão ao ofensor como revide a lesão sofrida. Em que não importava a culpa do agente, o que prevalecia era o dano e sua devida reparação. Unificando assim o dano e a própria penal, misturando a responsabilidade civil e penal, sem evidenciar de modo concreto duas diferenças.

O Estado Romano só interviu anos mais tarde, regulando a chamada vingança privada, permitindo-a ou não a sua pratica de modo a fazê-la de acordo com a justificativa apresentada para ensejar o ato vingativo

Surgindo então a pena de Talião, que entendia que o mal deveria ser revidado com o próprio mal, e que ficou conhecida com a celebre frase “olho por olho, dente por dente”, que determina exatamente o que foi explicado, que a lesão ocasionada será reparada. Inserindo o conceito de uma possibilidade de composição entre as partes, em que o dano sofrido deva ser reparado, cuja penalidade possa ser calculada em pecúnia ou em objetos a serem entregues.

Com o advento da promulgação da Lei das XII Tábuas aproximadamente no ano de 449 a.C., uma evolução deu-se no direito, visto que tal código já trazia exposto em seu ordenamento, entre outras situações: a indenização em caso de furto, do depositário de má-fé; da pessoa que provoca fratura em outrem; do dano causado pelo animal, em propriedade alheia, ou posto a pastar em terreno alheio. Conceitos bem elaborados até mesmo para a fixação da pena, que para cada caso concreto uma determinada quantia deveria ser paga pelo delituoso, trazendo como obrigatoriedade a prestação pecuniária, e não mais voluntaria. Eliminando assim, o entendimento a cerca da punição para a inserção da responsabilidade atingida pela reparação da lesão.

E, com a queda do Império Romano, grande quantidade de povos dominados necessitavam de legislação a discipliná-los bem como os conquistadores, sendo utilizado de forma mais conveniente a época os princípios atinentes ao Direito Romano.

A culpa tem sua solidez marcada pela promulgação da Lex Aquília e se prolongou por toda a Idade Média. E com o passar do tempo, passou a compor o conceito da responsabilidade civil.

Na Idade Contemporânea, com o advento da Revolução Francesa (1789) e com a promulgação do Código Civil francês (1804), o chamado Código de Napoleão caracteriza-se um marco, de grande importância para a história do Direito, no que tange a responsabilidade civil. Em que a doutrina francesa insere definitivamente no contexto da época a doutrina subjetiva, que fundamenta-se na culpa. E que a partir daí, passo a constar na legislação de todo o mundo.

A legislação também precisou acompanhar o desenvolvimento da sociedade, inserindo também no conceito de responsabilidade objetiva. Em que não bastaria a teoria da culpa, em que a vitima era obrigada a provar a culpa do causador do dano. Visto que, em muitos casos, a impunidade poderia prevalecer caso este entendimento não fosse aperfeiçoado, como é o caso do funcionário que se fere em maquinário da empresa.

E, na busca de saciar a necessidade de indenizar o lesionado, surgiram novas teorias, resultando, contudo, na teoria do risco. Em que assume-se o risco de dano e sua obrigação de repará-lo, o que dele resulte a atividade em questão.

Logo, o caso citado do funcionário que se fere em máquina em seu estabelecimento profissional, deverá ser indenizado pela empresa da qual compõe o quadro funcional, mesmo que não tenha havido dolo por parte do empregador, mas, o risco da atividade é dele, e tais danos deverão ser reparados pelo mesmo.

A reparação do dano moral já foi bastante controvérsia, inclusive sua cumulação com o dano material, porém hoje, encontramos na doutrina e jurisprudências que o tema está pacificado.

Num primeiro momento, a indenização por dano moral era questionada e negada sob os fundamentos de que era impossível calcular o valor de um dano que não fosse material, por não haver uma forma de valorar sentimentos como a dor, o sofrimento, entre outros, chegando até ser considerada imoral tal avaliação. O que aos poucos foi sendo evidenciado que não se tratava de quantificar o pretium doloris e sim de compensar, mesmo que de forma simples e pequena face a tristeza e sofrimentos que atingem a pessoa a ser ressarcida pelo dano moral em questão.

Realmente, o dano moral não tem como objetivo uma indenização que o restitua de forma integral a lesão sofrida, tendo como função básica a satisfação de que se recompense de alguma forma, o sofrimento ou a humilhação que aflige à vitima. Além disso, há de ser penalizado o causador do dano, para punir quanto ao fato praticado e causador de dor, sofrimento, angústia da pessoa lesada e também desestimular novas práticas agressivas.

Mesmo neste período chamado por Sergio Cavalieri Filho (2009, p. 81) de “Fase da irreparabilidade”, já havia amparo legal ao dano moral no que refere-se ao Código Civil de 1916, em seu art. 159, que mencionava “violar direito ou causar prejuízo”, sem fazer qualquer distinção entre os tipos de dano, entendendo-se com isso, os direitos violados quanto a bens da personalidade, logo direito moral quanto à imagem, a honra, ao bom nome e entre outros. Bem como cita Cavalieri a previsão do dano moral no mesmo Código Civil (Lei nº 3.071, de 1º de janeiro de 1916) em seus art.s 76, 1547 e 1548, que no primeiro bastava o interesse moral para propor ou contestar ação, no segundo há a previsão de indenização por calúnia ou injúria, e no terceiro, a mulher agravada em sua honra todos tutelados citados são bens da personalidade, reforçando que já havia entendimento quanto à indenização do dano moral, porém não o seu devido reconhecimento.

Posteriormente, o ressarcimento ao dano moral passou a ser reconhecido desde que não cumulado com o dano material, somente de forma autônoma, sob a justificativa de que o dano material absorve o dano moral, afastando sua reparação para não ocorrer duas indenizações sobre o mesmo fato. O que foi rebatido visto que o dano material refere-se aos bens patrimoniais e o dano moral refere-se aos bens da personalidade, podendo, contudo, haver ofensa ao individuo no que tange a sua personalidade bem como também haver agressão aos bens patrimoniais do mesmo. Sendo assim, duas coisas distintas, que devem ser reparadas separadamente.

Inclusive, algumas legislações também já previam a possibilidade de indenização por dano moral quando da ocorrência de lesão pessoal como é o caso da lei n° 4.117/62 que possui o artigo a seguir citado, mas que atualmente encontra-se já revogado pelo revogado pelo Decreto-lei nº 236, de 28.02.1967.

Art. 81. Independentemente da ação penal, o ofendido pela calúnia, difamação ou injúria cometida por meio de radiodifusão, poderá demandar, no Juízo Cível, a reparação do dano moral, respondendo por êste solidáriamente, o ofensor, a concessionária ou permissionária, quando culpada por ação ou omissão, e quem quer que, favorecido pelo crime, haja de qualquer modo contribuído para êle.

Assim como a Lei de Imprensa (Lei 5.250) que vigora desde 1967, possui a redação de seu art. 49, inciso I da seguinte forma:

Art. 49. Aquêle que no exercício da liberdade de manifestação de pensamento e de informação, com dolo ou culpa, viola direito, ou causa prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar:

I – os danos morais e materiais, nos casos previstos no art. 16, números II e IV, no art. 18 e de calúnia, difamação ou injúrias;

Atualmente, não há que se questionar a possibilidade da reparação do dano moral, mesmo que seja cumulado com o a reparação do dano material. Além de estar pacificado na doutrina e jurisprudência, e há o embasamento na Constituição de 1988, que expressa em seu art. 5º incisos V e X:

V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;
X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;

Como também há previsão legal no Código de Proteção e Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990) , que dispõe no art. 6º incisos VI e VII, como sendo direito básico do consumidor:

VI – a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos;

VII – o acesso aos órgãos judiciários e administrativos com vistas à prevenção ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou difusos, assegurada a proteção Jurídica, administrativa e técnica aos necessitados;

E ainda também, é questão sumulada pelo Superior Tribunal de Justiça com o reconhecimento em Súmula 37 que diz “São cumuláveis as indenizações por dano material e dano moral oriundos do mesmo fato”

Com tantos posicionamentos a favor, e a própria Carta Magna legislando ao que se confirma da existência e necessidade de aplicar a reparação ao dano moral independente de haver ou não cumulação com dano material, o Novo Código Civil (Lei nº 10.406 de 10 de Janeiro de 2002) , em seu art. 186 deixa expresso o dano ainda que exclusivamente moral para caracterizar ato ilícito a ser explorado mais a frente como objeto de indenização e reparação do dano causado, conforme expõe o art.927 e seu parágrafo único desta mesma legislação supracitada.

2. DANO MORAL

A expressão dano advém do latim damnus que corresponde ao mal pessoal ou ofensa a direito, e como conseqüência causa prejuízo alheio de forma material e ou moral cuja reparabilidade é alcançada através do ressarcimento compensatório da lesão sofrida.

A moral é matéria muito discutida em diversas áreas de estudo, em especial para a filosofia, porém ateremos-nos ao significado para o Direito, que se orienta de forma ampla mas que pode ser resumida como a valoração pessoal, em que o indivíduo tece intrinsecamente conceitos e critérios próprios que excedem os limites da razão humana, que criam a partir daí princípios de direitos como à liberdade, à honra, à intimidade, ao nome, à privacidade, à imagem, à vida entre outros, que estão classificados como direito da personalidade.

Com esta junção de dano e moral, obtém-se uma classe de direitos fundamentais, também conceituada como bem jurídico extrapatrimonial, e em sua quase totalidade, indisponíveis, o que impede de qualquer tipo de negociação quanto a eles. Vislumbraremos adiante, que como todo bom direito, há exceções a respeito desta regra, no que tange ao direito de imagem, por exemplo. Mas, que de qualquer forma, tem seu entendimento geral pacificado a partir da Carta Maior.

A existência do dano moral antes da Constituição Federal de 1988, já era relevante e bastante discutida, porém obteve força no ordenamento jurídico ao inserir no texto constitucional normas que tutelam os valores humanos, demonstrando a partir daí a aplicação direta do direito a reparação de danos morais sofridos, em virtude de tal legislação ser a balizadora de todas as demais, e de sorte não ser possível a aplicabilidade de nenhuma outra em desconformidade com aquela.

E mesmo que até então, grande parte dos doutrinadores entendesse que não há como mensurar a dor e ter de aplicar um preço a ela, e também a existência de apenas algumas normas que legitimavam o assunto aleatoriamente, a Constituição de 1988 desmitificou qualquer tipo de conflito nesse sentido ao deixar expresso pelo legislador através do art.5º, X de que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”, ou seja, a Carta trata diretamente da inviolabilidade de direitos personalíssimos sob pena de indenização inclusive moral, reconhecendo legitimamente o dano moral que possa existir nos mais diversos tipos de relações.

Como também, o dano moral se reafirma com o dever de indenizar as lesões sofridas juntamente com o Novo Código Civil, que em 2002 publica em seu texto o art.186 que versa “Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”. E ressalta no art. 927, que determina “aquele que, por ato ilícito, causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo. Bem como o seu parágrafo único, que reforça a o dever quanto a reparação de dano independente de culpa quando legitimados por lei ou se a atividade exercida pelo causador da lesão, envolver risco para os demais devido a natureza da mesma.

E, mesmo não existindo uma maneira de quantificar os sentimentos e a dor que sofre o individuo lesado, posto que trata-se de algo subjetivo, que varia intimamente a cada um, é mais justo valorar em pecúnia algo que por vezes e motivos podem ser irreparáveis no que efetivamente o atinge psicologicamente, do que deixar o réu impune quanto ao ato e com possibilidades de novas infrações. Tal reparação traduz-se de forma simples como a compensação da dor em razão do dano sofrido.

Milton Oliveira traduz simples e esclarecedoramente em sua obra Dano Moral que “o dinheiro não paga a dor experimentada pela vítima, temos por princípio que a subjetividade varia de pessoa para pessoa, mesmo assim não deixa de ser aguda a dor do desgosto. Entretanto, como não há outra forma para reparar essa dor profunda, que é capaz de causar modificação no estado anímico do ofendido, resta ao arbítrio do julgador deferir quantia monetária como compensação da dor ou do padecimento psíquico e, igualmente, com o fito de inibir que o réu volte a praticar o ato odioso.”

E, nesta mesma linha de pensamento, Yussef Said Cahali assinala com bastante propriedade, sabedoria e reconhecimento pelas doutrinas mais recentes que “tudo aquilo que molesta gravemente a alma humana, ferindo-lhe gravemente os valores fundamentais inerentes à sua personalidade ou reconhecidos pela sociedade em que está integrado, qualifica-se, em linha de princípio, como dano moral; não há como enumerá-los exaustivamente, evidenciando-se na dor, na angústia, no sofrimento, na tristeza pela ausência de um ente querido falecido; no desprestígio, na desconsideração social, no descrédito à reputação, na humilhação pública, no devassamento da privacidade; no desequilíbrio da normalidade psíquica, nos traumatismos emocionais, na depressão ou no desgaste psicológico, nas situações de constrangimento moral.”

Como dito anteriormente, o dano de maneira geral, classifica-se de duas formas: a primeira, como dano material, aquele que atinge os bens patrimoniais do indivíduo, e a segunda, como dano moral, extrapatrimonial, cujas lesões atingem os bens da personalidade.

Maria Helena Diniz esclarece quanto ao dano moral direto e indireto de forma brilhante, e bastante citada por outros autores. Como dano moral direto ela diz que “consiste na lesão a um interesse que visa à satisfação ou gozo de um bem jurídico extrapatrimonial contido nos direitos da personalidade (como a vida, a integridade corporal, a liberdade, a honra, o decoro, a intimidade, os sentimentos afetivos, a própria imagem) ou nos atributos da pessoa (como o nome, a capacidade, o estado de família)”.

E quanto ao dano moral indireto, ela caracteriza como consistindo “na lesão a um interesse tendente à satisfação ou gozo de bens jurídicos patrimoniais, que produz um menoscabo a um bem extrapatrimonial, ou melhor, é aquele que provoca prejuízo a qualquer interesse não patrimonial, devido a uma lesão a um bem patrimonial da vítima. Deriva, portanto, do fato lesivo a um interesse patrimonial.”

São duas categorias de direitos autônomas, totalmente independentes, visto que pode ocorrer o dano material sem que este abale moralmente o individuo lesado em seu patrimônio, como também pode haver lesão a personalidade sem que tenha havido alguma agressão aos bens patrimoniais.

Em se tratando de bens não materiais, o dano moral ocorre em situações cuja característica evidencia-se pela não ocorrência de prejuízo econômico, permitindo com isso, a concomitância quanto a sua reparação juntamente ao dano material, que possui característica de reparação econômica em razão da agressão ao patrimônio do lesado. Regra aplicada pela Súmula 37, STJ “são cumuláveis as indenizações por dano material e dano moral oriundos do mesmo fato”

Há também uma divisão no estudo do dano moral que consiste em separá-lo como dano moral direto e dano moral indireto. De forma que, classificado como dano moral direto estejam resguardados os direitos extrapatrimoniais, ou seja, os direitos inerentes à personalidade, como a vida, a liberdade, o decoro, intimidade, sentimentos, ou ao que se refere aos atributos da pessoa, como é o caso do nome, da capacidade, o estado de família. Enquanto que o dano moral indireto é conceituado como a lesão ao interesse que tende à satisfação ou gozo de bens jurídicos patrimoniais, que produz efeito a um direito extrapatrimonial .

Ao dano moral também recai o instituto da responsabilidade contratual e a extracontratual, de forma que, vale tecer um breve comentário acerca do assunto.

Entende-se por responsabilização contratual a que deriva de relação de obrigação baseada num contrato, que ao causar prejuízo a outrem por descumprir cláusula do mesmo, ou ele por inteiro deverá repará-lo. Tornando inadimplente aquele que não segue o que fora anteriormente avençado. Isto está genericamente exposto no Código Civil nos arts 389 e ss. e 395 e ss.

Esta modalidade também abrange o inadimplemento ou mora derivados de qualquer tipo de obrigação, mesmo que provenientes de negócios unilaterais como é o caso de procuração ou promessa de recompensa, ou ainda por força de lei, como a obrigação de alimentos.

Quanto à responsabilidade extracontratual, ela deriva de ilicitude, não dependente de previsões contratuais, também conhecida doutrinária e jurisprudencialmente como responsabilidade aquiliana. Nela, o ofensor infringe um dever legal, sendo que a vítima e o causador do dano não possuem vínculo jurídico.

Quanto ao dano moral, vale ser ressaltado que tanto a pessoa física como a pessoa jurídica pode ser vitimada por tal prejuízo moral, posto que a pessoa jurídica pode ter sua imagem e reputação abaladas injustamente quando a ela for associada conduta ou situação diversa do esperado ou praticado legalmente, ou ainda baseado nos costumes da sociedade.

Tal situação também foi alvo de controvérsias entre doutrinadores, que posicionados em correntes contrária a legitimidade da pessoa jurídica em sofrer lesão moral, justificando a impossibilidade, no fundamento de a mesma não ter como possuir direitos personalíssimos, posto que estes são exclusivos e próprios do ser humano, não sofrer detrimento anímico e não ter espírito. Já os que entendem pela possibilidade do prejuízo moral por parte das pessoas jurídicas, fundamentam-se no fato de realmente a pessoa jurídica não possuir a honra subjetiva, aquela que está implícita no indivíduo como a dignidade, o decoro, a auto-estima. Porém, ela é detentora de honra objetiva, o que garante a reparação por danos morais quando apresenta vinculação ao seu nome, reputação ou imagem a ato ilícito.

De acordo com o direito moral, também está o Código de Defesa e Proteção ao Consumidor, que vem atuando de forma incisiva contra abusos no que tange aos direitos pessoais, pelo caráter de hipossuficiência do consumidor.

E quanto ao assunto dano moral realmente são incontestáveis os avanços da jurisprudência atual, que tem proferido sentenças altamente elaboradas quanto à matéria cujos acórdãos ou decisões monocráticas são verdadeiras aulas, como se pode observar na publicação recente do Des. Nascimento Povoas Vaz:

Indenização por dano moral. Divulgação de imagem do autor, à época menor de idade, em programa de televisão Record RJ No Ar. Filmagem da prisão de supostos envolvidos no tráfico de drogas ilícitas da comunidade onde residia o autor. Alegação deste de violação do direito ao respeito à imagem da criança/adolescente. Ofensa ao eca. Necessidade de comprovação do dano, da culpa e do nexo de causalidade entre a conduta da demandada e o dano experimentado pelo autor. Responsabilidade extracontratual subjetiva. Falta de provas produzidas pelo autor. Inocorrência de humilhação, vexame, vergonha ou de lesão a direitos da personalidade do autor impostos por conduta do réu, que se limitou a documentar diligência policial. Confirmação do julgado.

O que nos leva a ver de forma mais límpida pelo contexto citado é que o dano moral se tornou obrigatório quanto a sua indenização, porém tal reparação necessita que seus pressupostos sejam identificados e comprovados para que a haja o efetivo direito quanto à compensação moral argüida, e a devida punição ao ofensor como forma de evitar novas agressões.

Com isso, percebe-se a natureza jurídica do dano moral caracterizada por duas vertentes necessárias, a compensação e a prevenção. No que se refere à primeira, é a possibilidade que a reparação do dano moral tem, através do arbítrio em pecúnia, de proporcionar ao lesado extrapatrimonial uma condição similar a que possuía anterior a conduta ilícita que o atinge, Enquanto que a segunda, trata da punição ao agressor, com a também finalidade de evitar novos desajustes de conduta.

Vejamos que estes pressupostos que configuram o dano moral e sua devida responsabilização para a reparação ao individuo lesado através da compensação dos danos sofridos devam ser identificados.

Em relação à fixação de critérios e mecanismos para identificar de forma objetiva a ocorrência e dimensão do dano sofrido, também apresentam grande discussão doutrinária. Enquanto alguns doutrinadores entendem pela fixação como forma de evitar as inúmeras arbitragens efetivadas nos diversos julgamentos em que analisa-se o tema, outros são mais incisivos ao contrapor a esta corrente com a alegação de que o dano moral, por atingir ao bem não patrimonial, não havia como definir de antemão uma valoração, visto que há implícito neste tipo de dano a conjuntura da lesão interna do indivíduo, o que entende-se por não haver um padrão, variando em seu grau, de pessoa para pessoa conforme a ofensa e dor que as atinge.

2.1 A culpa

Ao que tange o assunto, há diversas entendimentos entre os doutrinadores, que pode ser caracterizada como toda violação de um dever jurídico de um ato imputável. Percebe-se que a aplicação no caso concreto ocorre com ou sem a presença de culpa em seu sentido amplo, ou seja, quando há ou não a incidência de dolo (intenção) ou culpa em sentido estrito (negligência, imprudência e imperícia). Forma em que o traduz o Código Civil, ao abrigo do art. 186, na ação ou omissão voluntária, em que o autor age com negligência ou imperícia, provocando a violação de direito e conseqüentemente ocasionando prejuízo a outrem, devendo, portanto, reparar o mesmo. Ressaltando nestas palavras a teoria subjetivista desde o Código Civil de 1916, em que esta leitura se faz no art. 159.

A doutrina explora entre estes, muitos aspectos quanto ao tema culpa. Em relação a sua gravidade, por exemplo, mas, este estudo se fixará a observância de alguns aspectos aplicáveis ao âmbito bancário, devido à profundidade do tema.

Resumidamente, recorda-se que a culpa pode se manifestar de diversas formas :

a) in eligendo – culpa pela escolha de seus prepostos. Advém da má escolha daquele em quem se confia à prática de um ato ou o adimplemento da obrigação, art. 932, inc. III do CC e na Súmula 341 do STF;
b) in vigilando – culpa em vigiar a execução de quem ficou encarregado, é aquela que decorre da falta de atenção com o procedimento de outrem, art. 932, incs. I e II do CC;
c) in comittendo – culpa por imprudência;
d) in omittendo – culpa decorrente de omissão que gerou o dano;
e) in custodiendo ou in faciendo – culpa na forma de prestar a obrigação. É aquela que advém da falta de cautela ou atenção em relação a uma pessoa, animal ou objeto, sob os cuidados do agente. Consoante os art. 932, 936 e 937 do CC.

Entretanto, a culpa ainda é elemento necessário, em muitos casos, à caracterização do ato ilícito. Todavia, a dificuldade de sua aferição combinada com atividades que geram situações que por si só apresentam risco a outrem, levaram a criação da teoria do risco, que para seu efeito, compete à vítima provar apenas a relação de causalidade entre o dano e a conduta do ofensor.

2.2 A prova do dano moral

Esta é mais uma questão que enseja polêmica e discussão doutrinária quanto à comprovação do dano moral. Que inicialmente, entende-se que, em regra, o dano não pode ser presumido, o que acarreta decisões que deixam de apreciar o dano moral por insuficiência de provas.

Porém, é improvável, e em muitos casos até impossível, mensurar sentimentos por não haver quantitativo que signifique dor, angústia, sofrimento, ou sentimentos no geral. O dano moral retrata algo imaterial, imensurável, tanto é que a sua reparação tem função compensatória, haja vista a não possibilidade de pagar aquilo que não se pode valorar.

Portanto, seria injustificável utilizar dos mesmos meios de provas utilizadas para reparação de dano material, aquele que é valorado, que sua característica já possibilita identificar o quantum representa por si só. Seria então, uma hipocrisia ilógica exigir que o indivíduo lesado em sua moral comprovasse sua dor, ou humilhação, através, por exemplo, de documentos, depoimentos, ou perícia, os quais não possibilita ao lesado demonstrar o descrédito, o repúdio, ou o desprestigio que o atinge. Logo, a lesão não seria reparada e o agressor estaria impune, permitindo que novos atos lesivos fossem praticados.

Entretanto, o que identificamos na doutrina como o posicionamento sensato e utilizado atualmente é de que a moral, por ser interna ao indivíduo, está totalmente interligada ao dano que a corrompe, o que caracteriza que o dano moral está ínsito na própria ofensa que decorre de acordo com o ato ilícito do contexto de cada caso. Como completa Cavalieri Filho “Se a ofensa é grave e de repercussão, por si só justifica a concessão de uma satisfação de ordem pecuniária ao lesado. Em outras palavras, o dano moral existe in re ipsa; deriva inexoravelmente do próprio fato ofensivo, de tal modo que, provada a ofensa, presunção hominis ou facti, que decorre das regras de experiência comum. Assim, por exemplo, provada a perda de um filho, do cônjuge ou de outro ente querido, não há que se exigir prova do sofrimento, porque isso decorre do próprio fato de acordo com as regras de experiência comum; provado que a vítima teve o seu nome aviltado, ou a sua imagem vilipendiada, nada mais ser-lhe-á exigido provar, por isso o dan
o moral está in re ipsa; decorre inexoravelmente da gravidade do próprio fato ofensivo, de sorte que, provado o fato, provado está o dano moral”.

Diferente conduto, do dano material no que, para que haja a efetiva reparação, necessita que seja comprovado pelo autor da demando, o nexo causal entre o dano ocasionado e a conduta do agente que o antecede. Trata-se de onus probandi, cabe a quem alega.

2.3 O Nexo de Causalidade

A partir da necessidade de reparação do dano, existe outra necessidade a ser apurada: a responsabilidade civil quanto à relação entre a conduta do agente e o dano ocasionado. Fazendo jus a este posicionamento, Maria Helena Diniz reforça que “a responsabilidade civil não pode existir sem a relação de causalidade entre o dano e a ação que o provocou”.

A nomenclatura empregada ao vínculo existente entre a ação e o prejuízo resultante daquela ação é o nexo causal, cuja característica é que a resultado lesivo seja proveniente da conduta do agente, seja de forma direta ou com sua possível previsão. Ou seja, que exista relação entre a lesão e ação.

Assim nos ensina Maria Helena Diniz:

“O vinculo entre o prejuízo e a ação designa-se ”nexo causal”, de modo que o fato lesivo deverá ser oriundo da ação, diretamente ou como sua conseqüência previsível. Tal nexo representa, portanto, uma relação necessária entre o evento danoso e a ação que o produziu, de tal sorte que esta é considerada como sua causa. Todavia, não será necessário que o dano resulte apenas imediatamente do fato que o produziu. Bastará que se verifique que o dano não ocorreria se o fato não tivesse acontecido. Este poderá não ser a causa imediata, mas, se for condição para a produção do dano, o agente responderá pela conseqüência.”

Como reconhece a doutrina de um modo geral, o nexo de causalidade é o liame que une a conduta e o dano, sendo elemento necessário e indispensável à reparabilidade do dano. Mesmo quando o caso é de responsabilidade objetiva, em que dispensa a culpa, não haverá a dispensa de provar o nexo causal a fim de que haja a devida compensação do dano moral.

Poderá o nexo de causalidade ser desconsiderado quando da ocorrência de determinadas situações, como por exemplo, as que apresentarem culpa exclusiva da vítima (não há que se falar em reparação por outrem), a culpa concorrente da vitima e do causador do dano (há, em regra, uma compensação da reparação), a culpa de terceiro (este será o responsável por toda a reparação do prejuízo), e caso fortuito ou de força maior (casos em que não há nexo causal por fatores inerentes à natureza e a causa desconhecida e ou imprevista, excluem o nexo causal por serem inevitáveis).

Tal assunto apresenta diversas teorias, em que as duas principais verificadas na doutrina são:

a) Teoria da causalidade adequada : resumidamente, esta teoria considera como condição causadora do dano a que por exclusividade fora capaz de produzir tal resultado. Se ocasionada for força de uma circunstancial acidental, a mesma era desconsiderada, tida como não adequada.

b) Teoria da equivalência das condições : de forma sintetizada, esta teoria indica que toda e qualquer circunstância que tenha concorrido para a produção do dano seja considerada uma causa. E que o dano não seria verificado caso uma delas fosse suprimida, daí resulta a equivalência. Todos os atos do autor do dano constituem condição sine qua non para que o resultado lesivo fosse alcançado.

2.4 A legitimidade para pleitear o dano moral

Indiscutivelmente tem legitimidade para propor ação indenizatória por danos morais toda e qualquer pessoa que tenha sofrido um dano. Mas, a questão que ainda não se encontra pacificada nem na lei, nem na jurisprudência ou na doutrina, é quanto ao limite para reparação do dano moral, cuja extensão a um familiar, parente ou amigo da pessoa atingida, poderá pleitear direito quanto ao sofrimento desta outra pessoa a qual está ligada sentimentalmente?

Porém, nada dispõe o Código Civil a respeito desta questão. O que se pode aproveitar como base por analogia, é o art. 948, II que é aplicável ao dano material quanto a sua limitação a indenização do dano moral àqueles que estavam em estreita relação com o lesado, como o cônjuge, companheira, filhos, pais e irmãos menores que viviam sob o mesmo teto. E somente a partir daí, o dano moral poderá ser requerido por outrem na falta daqueles familiares, mas que dependerá de prova cabal de convivência próxima e consoante.

Também é entendido pela doutrina que o grande norteador do caso concreto envolvendo a reparação do dano moral para a legitimidade ativa é o Principio da Razoabilidade, que tem por finalidade a resolução de conflitos inerentes a uma determinada situação, dentro de um contexto social, político, econômico e cultural sem abster a legalidade. Permitindo assim, a interpretação das circunstancias específicas do caso concreto como um balizador dos fatos envolvidos, sopesando o magistrado o dano sofrido, assim com as condições econômicas da vítima e do ofensor.

Contudo, conclui-se que há o dano moral direto, o sofrido pela vítima em sua honra objetiva ou subjetiva, e o dano moral indireto, também conhecido como “dano em ricochete”, que é argüido por alguém cuja ação do agente atingiu de forma reflexa, indiretamente, como acontece em casos envolvendo a morte de um familiar.

Assim diz Cavalieri:

Os efeitos do ato ilícito podem repercutir não apenas diretamente sobre a vítima mas também sobre pessoa intercalar, titular de relação jurídica que é afetada pelo dano não na sua substância, mas na sua consistência prática. (…) É o que a doutrina se convencionou chamar de dano reflexo, dano em ricochete ou, ainda, como querem outros, dano indireto. (…) O ofensor deve reparar todo o dano que causou, segundo a relação de causalidade. (…) Sendo assim, somente o dano reflexo certo e que tenha sido conseqüência direta e imediata da conduta ilícita pode ser objeto de reparação, ficando afastado aquele que se coloca como conseqüência remota, como mera perda de uma chance.

E como também podemos observar no caso concreto abaixo, cuja apelação com revisão fora provida parcialmente pelo Relator Leme de Campos:

RESPONSABILIDADE CIVIL – Indenização por danos morais e materiais – Vítima assassinada por seu ex-namorado – Demonstrada omissão do Poder Público no atendimento do caso – Polícia Militar que, embora acionada em razão das agressões a ameaças sofridas pela vítima, deixou de comparecer ao local – Caracterizada a responsabilidade do Estado pelo evento danoso, diante de sua inércia em atender à chamada da vítima – Configurado o dano moral passível de ressarcimento – cabível, outrossim, a pensão mensal aos autores, fixada em 2/3 do salário-mínimo, devida desde o evento até a data em que a vítima completaria 25 anos de idade – Precedentes – Ação julgada improcedente na I a Instância – Reconhecida a legitimidade ativa do autor Antônio – Sentença reformada – Recurso dos autores parcialmente provido.

Com efeito, da análise dos autos, percebe-se que a vítima convivia com sua mãe e padrasto há muitos anos, tendo todas as testemunhas reconhecido que a de cujos era “filha dos autores”. Sendo assim, resta inegável que, a princípio, o requerente possuía legitimidade ativa para pleitear eventual prejuízo decorrente da morte de sua enteada, considerando-se a relação de afetividade que presumidamente existia entre os dois.

Assim como, podemos ver nas seguintes jurisprudências:

APELAÇÃO CÍVEL. INDENIZATÓRIA. ACIDENTE COM VÍTIMA FATAL EM SERVIÇO. SENTENÇA PENAL CONDENATÓRIA. EQUIPAMENTO DE SEGURANÇA. DISPONIBILIZAÇÃO. FISCALIZAÇÃO DANOS CONFIGURADOS. DENUNCIAÇÃO DA LIDE. Os pais da vitima, a qual mantinha relação de convivência e tinha filho, fazem jus à indenização por danos morais, tidos como ricochete. Verba arbitrada com modicidade. Recurso parcialmente provido.

RESPONSABILIDADE CIVIL. DANOS MORAIS POR DIREITO PRÓPRIO E REFLEXO. IRMÃO DA VÍTIMA. Não há dúvidas de que em decorrência de acidente sofrem todos os familiares e todos aqueles que mantinham laço com a vítima. Sem embargo de posições contrárias, entendo que não se pode obrigar o responsável pelo dano, se comprovado, a indenizar diversos parentes, in casu, irmão, notadamente, quando o lesado requereu reparação por danos morais, por direito próprio. Afasta-se a pretensão do irmão por direito reflexo, indireto ou ricochete. DESPROVIMENTO DO RECURSO.

3. O DANO MORAL DA PESSOA JURÍDICA

Conforme já foi mencionado, a pessoa jurídica pode ser vítima de lesão moral. Desde o advento do Novo Código Civil, este posicionamento foi pacificado, o que até então trazia diversas controvérsias doutrinárias quando a esta possibilidade.

A corrente que discordava deste direito fundamentava-se na impossibilidade da pessoa jurídica ter direito à personalidade, face sua existência estar baseada numa ficção jurídica, não possuindo de fato existência natural. Resumindo, a pessoa jurídica devido a sua natureza não estaria suscetível a sentimentos como dor, angústia, aflição, sentimentos estes que possuem natureza psíquica, logo, pertinentes aos seres humanos. Entendia-se que a pessoa jurídica era detentora apenas de direitos materiais.

Porém, a corrente majoritária entende a necessita e argumenta a observação de que os bens tutelados como direito de personalidade incluem a honra, que pode ser dividida em dois aspectos: a honra subjetiva, que trata do interior da pessoa, caracterizada pela dignidade, integridade física, decoro e auto-estima, sendo exclusivos dos indivíduos de existência natural, os seres humanos. Enquanto que a honra objetiva, que trata da exteriorização, de como se é visto, reflete valores quanto à reputação, imagem, bom nome perante a sociedade a qual pertence, sendo comum à pessoa física, como a pessoa jurídica.

Outra corrente também defende a reparação do dano causado à pessoa jurídica no que tange ao prejuízo causado com a lesão a sua imagem, mas sem falar em dano moral, mas sim, como sendo dano material decorrente de violação a imagem, por exemplo. Uma vez que a imagem da empresa se traduz como elemento determinante para a continuidade e progresso de suas atividades econômicas.

Outra questão relevante neste caso é a das pessoas jurídicas sem fins lucrativos, visto que o embasamento de que este sujeito suscetível ao dano teria finalidades econômicas, excluiria tais empresas, que mesmo atingidas por violações de natureza moral ficariam sem as devidas compensações. Porém, o direito em sua magnitude, não especifica a finalidade da pessoa jurídica quanto à possibilidade de reparação permitindo que empresas que não visem lucros sejam compensadas quando houver dano, pois o mesmo pode abalar suas atividades bem como ocorre com as empresas que objetivam lucros.

Portanto, não há como discordar da necessidade de tal proteção a pessoa jurídica, visto que a mesma representa grande participação em nosso cotidiano, e sendo responsável por diversos tipos de relações contratuais e extracontratuais, o que necessita resguardar direitos pertinentes à sua imagem para a manutenção de seus negócios e clientes. Em que a violação a este direito, poderá ocasionar prejuízos incalculáveis, com o afastamento dos consumidores/clientes e até mesmo com o encerramento de suas atividades .

O Código Civil determinou, a partir de sua publicação em 2002, a pessoa jurídica como detentora de direitos da personalidade, em que transcreve seu artigo 52: “Aplica-se às pessoas jurídicas, no que couber, a proteção dos direitos da personalidade”. Logo, passível de recompensa quando da ocorrência de lesão aos bens tutelados neste capítulo quando couber.

Reforçando que o legislador, ao utilizar a expressão “no que couber”, refere-se à impossibilidade da pessoa jurídica possuir a honra subjetiva, por se tratar exclusivamente de sentimento interior à pessoa. Cabendo-lhe reparação quando o dano atingir a honra objetiva.

Mas mesmo antes do Código Cível, o tema já vislumbrava decisões reconhecendo a possibilidade do dano moral, sendo também sumulado em 1999 pelo Superior Tribunal de Justiça, pela súmula 227 que diz “A pessoa jurídica pode sofrer dano moral”.

E com estes entendimentos a jurisprudência reafirma tal direito ao caso concreto, abaixo demonstram-se dois casos em que tal direito fora aplicado:

APELAÇÃO CÍVEL. VIVO. COBRANÇA INDEVIDA DE CONTAS TELEFÔNICAS APÓS O PEDIDO DE CANCELAMENTO DO PLANO DE TELEFONIA. PROVA DA EFETIVA INSCRIÇÃO DA AUTORA, PESSOA JURÍDICA, NOS CADASTROS RESTRITIVOS DE CRÉDITO POR CERCA DE TRÊS MESES. DOUTRINA E JURISPRUDÊNCIA JÁ SE CONSOLIDARAM NO SENTIDO DE QUE A INCLUSÃO INDEVIDA DO NOME DO CONSUMIDOR EM ÓRGÃOS RESTRITIVOS DE CRÉDITO, POR SI SÓ, JÁ ENSEJA O CHAMADO DANO MORAL IN RE IPSA, OU SEJA, AQUELE QUE INDEPENDE DE PROVA, BASTANDO, APENAS, QUE SE COMPROVE O FATO. TAMBÉM JÁ SE CONSOLIDOU O ENTENDIMENTO DE QUE A PESSOA JURÍDICA PODE SUPORTAR DANO MORAL, ESTE QUE, VIA DE REGRA, EM HIPÓTESES SIMILARES, DECORRE DAS CONSEQÜÊNCIAS NEGATIVAS ADVINDAS DE OBSTÁCULO AO ACESSO AO CRÉDITO E À AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS, BEM COMO PELO CONSTRANGIMENTO PERANTE SEUS CLIENTES. SÚMULA 227, DO STJ. LEVANDO-SE EM CONTA QUE O NOME DA AUTORA PERMANECEU NEGATIVADO POR CERCA DE 3 (TRÊS) MESES, ABALANDO SUA REPUTAÇÃO PERANTE A SUA CLIENTELA E O MERCADO, DÁ-SE PROVIMENTO AO RECURSO, NA FORMA DO ART. 557, 1º-A, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL, PARA CONDENAR A RÉ A PAGAR A AUTORA O VALOR DE R$ 5.000,00 (CINCO MIL REA A TÍTULO DE DANOS MORAIS).

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. VENDA DE PORTA FLEXÍVEL EM INOX E PVC. INSATISFAÇÃO COM O PRODUTO. LANÇAMENTO DOS DADOS DE PESSOA JURÍDICA EM CADASTRO DE ÓRGÃO DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO COM BASE EM NOTA FISCAL DE DEVOLUÇÃO DE MERCADORIA. DESCABIMENTO. DANO MORAL. PESSOA JURÍDICA. SÚMULA 277, STJ. Mesmo não estando satisfeita com o produto encomendado e restando comprovado o impasse na solução da questão, não poderia a apelante lançar em cadastro de proteção ao crédito nota fiscal de devolução de mercadoria. Deveria procurar o Poder Judiciário para solucionar a questão com respaldo legal. A inclusão indevida do nome da autora nos cadastros restritivos de crédito ofende a honra objetiva da pessoa jurídica. Cabimento da condenação em danos morais, conforme o verbete nº. 277 da Súmula do STJ. Dano moral ínsito na própria ofensa, in re ipsa. Sentença mantida. Recurso improvido.

4. O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E AS INSTITUIÇÕES BANCÁRIAS

O Código de Defesa do Consumidor expressa em seu § 2° do art. 3° cuja lei nº 8.078 , de 11 de setembro de 1990, que serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista. (grifo do autor). Não restando dúvidas quanto à aplicabilidade desta norma aos casos de relações bancárias, que até então, tais questões quanto à responsabilidade das instituições financeiras, seja contratual ou aquiliana , não eram reguladas expressamente por sua legislação específica, tendo como mediador os entendimentos suscitados pela doutrina e jurisprudência.

Porém, o tema já fora exaustivamente discutido pela doutrina e jurisprudência, até chegar ao consenso de que cliente bancário é considerado consumidor, ou seja, receptor final dos produtos e serviços prestados pelos bancos.

Tal discussão apresenta importância elevada porquanto, o Código de Defesa do Consumidor ter consagrado a teoria da responsabilidade objetiva, sendo o amparo a ser utilizado para as análises no que tange a responsabilidade das instituições bancárias face aos prejuízos causados aos clientes/consumidores por falhas nos produtos fornecidos ou serviços prestados.

O próprio entendimento do Superior Tribunal de Justiça concedia reincidentemente decisões cuja aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor aos clientes bancários era acertada, que editou a Súmula n°. 297 , dispondo: “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras.”

Assim como também entende a doutrina atual que reforça a clareza do código mencionado ao expor os serviços de natureza bancária, financeira e de crédito, conclui Maria Flávia Albergaria Costa:

Nesse sentido, a instituição financeira é considerada “fornecedora”, enquanto os clientes bancários são considerados “consumidores”, eis que destinatário finais dos bens ou serviços, restando claro que a responsabilidade contratual do banco é objetiva, nos termos do art. 14 do Código de Defesa do Consumidor, ou seja, a instituição financeira responde, independente de culpa, pela reparação dos danos causados a seus clientes por defeitos decorrentes dos serviços que presta. 

Este posicionamento está intimamente ligado aos conceitos que foram extraídos do Código de Defesa do Consumidor:

Art. 3° Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços.

§ 1° Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.

§ 2° Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista.

Importante mencionar que ainda existe a corrente minoritária que defende a aplicação do CDC deva incidir apenas nas relações bancárias em que o cliente realmente for consumidor, logo, quando este for o destinatário final dos produtos e serviços fornecidos pelo Banco. A defesa desta corrente se baseia em que dinheiro e crédito não possam ser considerados como produtos pela legislação consumerista visto que não são bens finais, mas sim meros instrumentos utilizados para aquisição de outros bens.

Assim como entende a maioria da doutrina, a jurisprudência também se posiciona a favor da aplicação do CDC no que se refere a produtos e serviços bancários. Conforme julgado recente em que extrai o trecho “os bancos, como prestadores de serviços especialmente contemplados no artigo 3., parágrafo segundo, estão submetidos as disposições do Código de Defesa do Consumidor. A circunstancia de o usuário dispor do bem recebido através da operação bancaria, transferindo-o a terceiros, em pagamento de outros bens ou serviços, não o descaracteriza como consumidor final dos serviços prestados pelo banco”

Discordando do entendimento da doutrina e jurisprudência em que caracteriza a relação do Banco e correntistas como relação de consumo amparada pelo Código de Defesa do Consumidor, as instituições financeiras propuseram por intermédio da Confederação Nacional do Sistema Financeiro (CONSIF) uma Ação Direta de Inconstitucionalidade n.°2591/2001 ao Supremo Tribunal Federal, na qual se alega a inconstitucionalidade do §2° do artigo 3° do supracitado código, em que afirmam que a legislação consumerista não pode regular as atividades de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária.

A alegação do CONSIF trazia, em síntese, como argumentação o texto constitucional elencado no artigo 192 caput e incisos II e IV , cuja determinação era de que as matérias relacionadas ao Sistema Financeiro Nacional sejam reguladas por leis complementares, e não por leis ordinárias, como é o caso do Código de Defesa do Consumidor.

O Sistema Financeiro Nacional rege-se pela lei específica nº 4.595, de 31 de dezembro de 1964, que é composto pelo Conselho Monetário Nacional, órgão ao qual estão subordinados o Banco Central do Brasil (BACEN) e as demais instituições financeiras, desde as instituições privadas como o Banco do Brasil e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Contudo, a regulamentação das instituições financeiras é feita pelo Conselho Monetário Nacional cujas deliberações ao Banco Central do Brasil são redigidas sob forma de resoluções, que, para os bancos e demais instituições financeiras possuem força de lei. Estando de acordo com a previsão constitucional sobre a legislação específica regulamentar a atividade financeira no Brasil, tendo a legislação caráter complementar.

Sendo tais dados utilizados para a defesa da inconstitucionalidade na aplicação do Código de Defesa do Consumidor aos casos envolvendo os clientes bancários.

A petição inicial da Ação Direta de Inconstitucionalidade assim afirma quanto à impugnação da expressão natureza bancária, financeira, de crédito e securitária contida no § 2°do art. 3°, CDC:

A Lei nº 8.078/90 é inconstitucional ao criar novos e maiores encargos e obrigações financeiras, sendo lei ordinária, quando a Constituição Federal exige, textualmente, lei complementar.

A expressão impugnada viola o princípio da razoabilidade, sede material do devido processo legal (art. 5º, LIV, da Constituição Federal), já que se manifesta como meio legislativo inadequado para regular tal matéria por não observar as peculiaridades das atividades desenvolvidas pelas instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional a justificar a impossibilidade de se equipará-las às atividades de consumo. 

Esta Ação Direta de Inconstitucionalidade trouxe pedido de liminar, que assim como o próprio julgado sentencial, fora improcedente. Aquela, em razão de todos os Tribunais já entenderem como legitimado cada vez mais o cliente bancário, visto como consumidor das instituições financeiras seja de produtos ou serviços. E esta, teve sua improcedência adquirida com nove votos contra dois de procedência parcial, que entendia a exclusão da regulamentação do Código de Defesa do Consumidor ao que se refere à incidência de juros.

A decisão do Supremo Tribunal Federal fundamentou seu não provimento na denegação ao que refere o Código de Defesa do Consumidor incidir apenas na regulação das relações entre bancos e clientes, e não na organização do Sistema Financeiro Nacional, de forma a não violar o disposto na constituição, e ao que rege a lei específica nº 4.595, de 31 de dezembro de 1964 que trata do supramencionado Sistema Financeiro bem como sobre a Política e as Instituições Monetárias, Bancárias e Creditícias, e outras providências.

Fora interposto contra a mencionada decisão do STF, embargos para esclarecimento de obscuridade que havia em relação à possibilidade de juros bancários serem decididos pelos juízes. E sensatamente fora reafirmado que o Código de Defesa do Consumidor se aplica a todos os produtos e serviços, todas as operações bancárias, inclusive às taxas de juros, cessando assim a mencionada obscuridade.

Outro relevante ponto sobre a incidência do Código de Defesa do Consumidor às instituições bancárias trata de que mesmo os Bancos responsáveis objetivamente pelos prejuízos causados ao consumidor em razão de defeito na prestação de serviços, esta responsabilidade objetiva não é absoluta. Visto que o CDC, art. 14 § 3°, prevê excludentes de responsabilidade quando provar que a prestação do serviço realizado inexiste o defeito, ou quando provar a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

E que mesmo não expressos na legislação referida, o caso fortuito e força maior também constituem causas de excludentes de responsabilidade.

Além disso, o Código de Defesa do Consumidor veda a inclusão de cláusula contratual “exoneradora” , conhecida como cláusula abusiva de não indenizar nos termos do art.51, I do CDC, que classifica como abusiva as cláusulas que impossibilite, exonere ou atenue a responsabilidade civil do fornecedor em virtude de vícios de qualquer natureza. Sendo ela, nula de pleno direito.

Outro dado importante a ser reforçado, é a respeito da prova do dano e do nexo causal entre a lesão e o produto ou o serviço, que deve ser feita pelo consumidor prejudicado, porém, conforme disposição do CDC em seu artigo 6°, VIII, o juiz poderá inverter o ônus da prova caso identifique a presença da verossimilhança ou da hipossuficiência do consumidor.

Em alguns casos doutrinários, vislumbra-se a imagem dos bancos assemelhadas as características de serviço público, devido às instituições financeiras pertencerem ao Sistema Financeiro Nacional, trazem consigo a tipicidade de concessionárias de serviços públicos , assumindo a responsabilidade objetiva, assim como a responsabilidade do Estado. E mesmo neste caso, a previsão consumerista incide sobre este entendimento. Posto que o art. 22 do CDC determina “os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias, permissionárias ou sob qualquer outra forma de empreendimento, são obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes, seguros e, quanto aos essenciais, contínuos”.

5. DANO MORAL NO ÂMBITO BANCÁRIO

Diversas são as ações que atualmente se encontram em andamento em todos os tribunais e juizados especiais. Bem como existem inúmeras já transitadas em julgado ao que se refere às instituições bancárias no que tange a incidência do dano moral. Em que se pode atribuir grande parcela dessas ações aos moldes de trabalho agressivos impostos pelos bancos em busca de vantagens financeiras e lucros excessivos, permitindo que o atendimento a clientes e usuários dos produtos e serviços não seja satisfatório, atingindo conseqüências judiciais face a não resolução dos prejuízos dentro dos bancos ou a solução não compensatória como deveria de ser.

Reforça-se que a pessoa jurídica bem com a pessoa física pode sofrer danos morais causados pela instituição bancária, visto que os bancos participam ativamente de suas negociações e do cotidiano das mesmas.

Tanto é que os bancos assumiram papel importante na sociedade atual, assim como em países desenvolvidos, deixando para trás a imagem de mero mediador financeiro, que utiliza os investimentos realizados pelos poupadores pagando-lhes baixos rendimentos, para emprestar aos tomadores, com juros elevados . Não que isto não ocorra, esta pode ser classificada como sua função primordial, por se tratar de empresas com fins lucrativos, visando lucros elevados e terem a autorização do Banco Central do Brasil para esta atividade realizar, mas assumiram grandes responsabilidades juntamente com a modernidade global.

Assim como expõe Cavalieri:

Os bancos, em nosso País, tal como ocorre na generalidade dos países desenvolvidos, exercem relevante função na mobilização do crédito em benefício do desenvolvimento econômico. Modernamente, não mais se limitam a receber, em depósito, capitais de terceiros e conceder empréstimos. Com o objetivo de atrair clientela, prestam relevantes serviços à coletividade em áreas que transbordam da atividade bancária específica, fazendo o pagamento de salários a milhares de servidores públicos, empregados e aposentados; recebimento de impostos, contas de luz, gás, telefone e outros serviços públicos, sem se falar no incentivo e apoio que representam para a indústria, o comercio, a agricultura e a pecuária.

Contudo, por existirem diversas atividades no âmbito bancário e por mais informatizado e organizado que seja a instituição, dentre as operações e serviços realizados é possível que haja falhas e acarretem prejuízos aos clientes e usuários, sendo responsabilizado por danos materiais e morais, gerando então as inúmeras ações mencionadas ao início deste capítulo.

Neste pensamento, se verifica a natureza jurídica das instituições financeiras, que fundamenta tanto a responsabilidade subjetiva como objetiva. No caso da responsabilidade subjetiva, está baseada na culpa, e quanto à responsabilidade objetiva está com base no risco da atividade.

Em regra, a responsabilidade civil é baseada na culpa, ou seja, necessita que haja culpa por parte do agente da ação ou omissão para o resultado lesão. Tal culpa das instituições financeiras que deverá ser comprovada. Indifere se o lesionado é cliente ou não do banco, este deverá indenizar aquele no que couber por sua responsabilidade subjetiva. Como Maria Helena Diniz resume que “ter-se-á responsabilidade subjetiva nas relações em que o dever de ressarcimento do evento danoso atinge o diretor ou administrador do banco” . Porém, entende-se que os funcionários de modo geral podem ser responsáveis subjetivamente ao banco quando estiverem prestando serviços bancários.

Portanto, é relevante observar a súmula 341 do STF que determina “é presumida a culpa do patrão ou comitente pelo ato culposo do empregado ou preposto” e o art. 932, inc. III do Código Civil de 2002, que reforça a responsabilidade do banco pelos atos praticados por seus funcionários através da culpa in eligendo , logo sendo também responsáveis pela reparação do dano quando resultantes de condutas deles. De forma taxativa apresenta o mencionado artigo quanto a esta responsabilização:

Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil:

III – o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele;

O próprio Banco Central do Brasil determina através da Resolução n°2878/2001, em seu inciso V do artigo 1°, a reparação dos danos morais causados a clientes e usuários dos serviços bancários.

Nos casos em que houver a inversão do ônus da prova, há a presunção da culpa, cabendo à instituição bancária provar a inexistência de sua responsabilidade no dano ocasionado.

Entretanto, o banco responderá objetivamente, independente de análise de culpa, mesmo que não estejam presentes elementos como imprudência, negligencia ou imperícia do agente. Isto ocorre quando comprovado o resultado danoso ter sido derivado de atividade que, por sua própria natureza, expõe a outrem a risco desse dano.

A doutrina assim entende e defende a teoria do risco, como reforça o posicionamento de Rodrigo Bernardes Braga:

Assim, é justo que aquele que realiza uma atividade que acarreta risco para terceiros e ao mesmo tempo para ele próprio, suporte as conseqüências reparando os danos ocasionados por sua ação, mesmo que esta ação não seja reprovável.

O que gerou uma preocupação demasiada na doutrina e jurisprudência, é que, com a responsabilização independente de culpa, o que deveria ser exceção, transforme-se em regra, desqualificando o instituto. Porém, atualmente, tanto a jurisprudência como a doutrina estão desmistificando isso ao demonstrarem que visando à aplicação da responsabilidade objetiva como subjetiva, baseadas no princípio da razoabilidade e nas circunstâncias que envolvem o caso concreto, se pode aplicar corretamente ao instituto da teoria do risco , bem como não violar o princípio do devido processo legal, ao qual estão subordinadas.

O que ainda não tem sido de fácil apreciação é o quantum indenizatório, que cabe ao arbítrio do juiz a estipular o ressarcimento a lesão sofrida. Mas, que a jurisprudência e a doutrina estão conseguindo fixar de maneira a também impedir a temida banalização das indenizações por danos morais com também a industrialização do dano moral.

Tal industrialização do dano moral ocorreria pelo excesso de ações envolvendo o tema, em que se julga que muitos dos atos injustos mesmo de pequeno efeito e que podem ocorrer no dia a dia com várias pessoas, justificariam indenização, quando em grande parte, a lesão não passa de um mero aborrecimento, sem ultrapassar a linha do suportável. O que impossibilita a indenização requerida.

E no que tange a esfera bancária, pode se observar muitos casos negados por não haver sido comprovada a extrapolação das indisposições normais de todos os dias, em que se pode citar as muitas ação quanto ao tempo de espera nas filas das agências bancárias, que será mais detalhado a seguir.

E como resposta a esta suposição de industrialização do dano moral, encontra um posicionamento bastante interessante na doutrina que diz que se há indústria é porque existe matéria-prima.

Importante ressaltar que baseado na presença de culpa e na teoria do risco, a doutrina entende que, para os clientes a responsabilidade dos bancos é contratual, enquanto em relação a terceiros, a responsabilidade é extracontratual, ou seja, não há vínculo jurídico que reja esta relação. Mas independente de responsabilidade bancária ser contratual ou extracontratual, o lesionado deverá ter sua devida compensação.

Certo de que os produtos e serviços bancários angariam mais adeptos a cada dia e que os mesmos são indiscutivelmente necessários a modernidade, praticidade e utilidade que exige a sociedade atual. E tais quais, suas inúmeras transações realizadas diariamente podem resultar diversas situações em que ocorre o dano extrapatrimonial em razão das atividades das instituições financeiras. Que algumas destas, por ter inúmeras ações ajuizadas, devam ser exploradas mais a fundo.

5.1 Inscrição indevida nos cadastros de inadimplentes

Os bancos de dados dos órgãos chamados de serviço de proteção ao crédito, como o SERASA e o SPC, possuem inscritos milhares de consumidores inadimplentes, sendo uma realidade cotidiana a inclusão e exclusão de inscrições nestes órgãos por parte das instituições financeiras.

E talvez este tema seja o mais abordado nas ações de reparação de danos morais visto que, devido aos inúmeros casos diários, as instituições bancárias acabam por deixar passar inscrições indevidas ocasionadas pela inobservância do real inadimplemento da obrigação ou por erro material nas operações.

O dano moral é consubstanciado no fato de que tais órgãos de proteção de crédito são acessados pelo comércio de modo geral e por outras instituições financeiras, que ao observar a inscrição nos bancos de dados mencionados denegam qualquer tipo de operação a crédito para se resguardar dos prejuízos de uma obrigação não realizada por parte do consumidor inscrito.

Nestes moldes, Rodrigo Bernardes Braga conclui que “a negativação equivocada ou a exposição indevida do nome do consumidor no rol de inadimplentes acarreta-lhe sérios prejuízos, eis que ele fica impedido de abrir contas-correntes em bancos, estabelecer contratos, negociar a crédito, ou seja, é excluído da vida comercial”.

A responsabilização bancária, para a doutrina e jurisprudência, nestes casos, é objetivada, pois a natureza da atividade possibilita o risco das inscrições indevidas, devendo ensejar a devida compensação.

Como verifica-se nos termos da decisão monocrática a seguir:

APELAÇÃO CÍVEL. PROCEDIMENTO ORDINÁRIO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. NEGATIVAÇÃO INDEVIDA. COMPROVAÇÃO DE QUE O AUTOR APELANTE ENCERROU DEVIDAMENTE A CONTA-CORRENTE QUE MANTEVE COM O BANCO APELADO O QUE GEROU A INCLUSÃO INDEVIDA DE SEU NOME NOS CADASTROS RESTRITIVOS DE CRÉDITO. DANO MORAL CARACTERIZADO QUE MERECE SER MAJORADO PARA ALCANÇAR OS PATAMARES DA RAZOABILIDADE, PROPORCIONALIDADE E VEDAÇÃO AO ENRIQUECIMENTO ILÍCITO. REFORMA PARCIAL DA SENTENÇA TÃO SOMENTE PARA MAJORAR A CONDENÇÃO POR DANOS MORAIS. DECISÃO MONOCRÁTICA DANDO PARCIAL PROVIMENTO AO RECURSO NOS TERMOS DO ESTABELECIDO NO § 1º-A DO ART. 557, DO CPC.

5.2 Manutenção no cadastro de inadimplentes após quitação do débito

Na mesma linha de raciocínio do item anterior, os bancos como demais empresas envolvidas diretamente no comércio, inscrevem os clientes inadimplentes nos cadastros de empresas de proteção de crédito (SERASA, SPC), para a identificação dos “maus pagadores” aos demais estabelecimentos, que ao analisarem o histórico de atraso normalmente decidem por não fornecer negócios a crédito. Contudo, se o débito for quitado, a instituição bancária efetua a baixa na inscrição destes órgãos, permitindo com isso que o consumidor retorne a posição de cliente adimplente.

Porém, o que acontece com certa freqüência, é o cliente ficar inadimplente devido ao atraso no pagamento e ter sua inscrição efetivada nos órgãos mencionados. O mesmo efetua o pagamento, estando novamente em dia com suas obrigações, mas a instituição financeira não comunica aos órgãos restritivos de crédito, mantendo o cliente já adimplente no cadastro dos devedores. Prejudicando o consumidor, que já regularizou a situação, perante as demais instituições as quais ele possa vir a recorrer por qualquer motivo de sua necessidade, causando, portanto, dano moral, independente do dano material que tal situação também possa provocar.

Conforme o entendimento do legislador, expressamente relatados no CDC art.73, sob pena de um a seis meses de detenção e multa, que incorre em infrações penais, quem deixar de corrigir imediatamente informação sobre consumidor constante de cadastro, banco de dados, fichas ou registros que sabe ou deveria saber ser inexata .

Desta mesma forma também entende a jurisprudência:

Apelação cível. Dano moral. Cartão de crédito. Negativação indevida. Usuária que fez acordo para quitação do débito, encontrando-se adimplente perante suas obrigações. Responsabilidade objetiva, aplicando-se o CDC. Dano moral evidenciado pela injusta permanência da anotação como devedor. Dano que resta evidente, uma vez que o homem médio e pontual, ao ser apontado como devedor, sem dúvida, sofre abalo em sua honra e imagem, o que vai bem além dos meros aborrecimentos quotidianos. Valor arbitrado em R$ 8.300,00 que deve ser mantido, atendendo aos princípios da razoabilidade, da proporcionalidade, da eqüidade e da vedação do enriquecimento sem causa. Recurso a que se nega seguimento, na forma do caput do art. 557 do CPC.

5.3 Da espera nas filas de atendimento bancário

Em virtude dos diversos serviços prestados pelas instituições bancárias e da necessidade da população em manter conta, bem como da incredulidade de muitos em utilizar os meios eletrônicos para a realização de operações financeiras, é crescente o número de pessoas que utiliza diariamente as agências bancárias, e como conseqüência este efeito reluz na espera demasiada em filas para o atendimento. Visto que a quantidade de funcionário não aumenta a proporção em que cresce o número de clientes.

Muitas leis municipais foram criadas para compelir as instituições financeiras a tomarem medidas a evitarem o descaso quanto à espera do cliente bancário. Como é o caso do município do Rio de Janeiro, que, por exemplo, a lei municipal nº 4223, de 24 de novembro de 2003, estipulou o tempo máximo de 20 minutos em dias normais, e 30 minutos nos dias de véspera e posteriores a feriados. Enquanto que, para o município de São Paulo, a Lei Municipal 13.948, de 20 de janeiro de 2005 estabelece tempo de espera em dias normais de 15 minutos, dia seguinte e véspera de feriados o tempo de espera não pode superar 25 minutos, e em dias de pagamento a servidores municipais, estaduais e federais, este tempo chega a 30 minutos.

Até porque, como ressalta Rodrigo Bernardes Braga, que “a dinâmica vida em sociedade e a concorrência cada vez mais acirrada têm exigido do homem moderno dedicação integral a sua atividade mercantil (…). Hodiernamente, não pode ele se dar o capricho de enfrentar filas de banco, horas a fio (…)”.

Contudo, o usuário dos serviços bancários que se entenda lesado pela esperar acima do entendido como de normalidade, pode procurar as vias judiciais para propor a reparação da lesão em face do desprazer da espera demasiada, que em alguns casos, perdura horas até o atendimento. No entanto, não significa que tal pretensão será acolhida, pois o entendimento jurisprudencial tem amparado suas decisões no que tange ao assunto como mero aborrecimento o que não caracteriza dano moral, muito menos necessite da compensação pecuniária em torno deste.

Como se pode observar na recente decisão:

Apelação Cível. Responsabilidade Civil. Tempo de espera na fila de banco. Dano moral. Inocorrência. Mero aborrecimento que não justifica a condenação da parte ré em indenização por danos morais. Recurso que se nega seguimento, nos termos do art. 557, do C.P.C.

5.4 Do constrangimento por detector de metais em porta giratória bancária

Visando a segurança dos funcionários, cliente e usuários dos estabelecimentos bancários, fora inserida como forma de coibir o acesso de armas nas instituições, a porta giratória com detectores de metais. Estas que a algum tempo são utilizada pelos bancos como meio de filtrar os indivíduos que possam carregar consigo subterfúgios para o cometimento de crime ao adentrarem a agência.

Tal situação é comumente vislumbrada como fonte de constrangimento, visto que, basta certa quantidade de metal para o acionamento da porta giratória e para qualquer individuo ser orientado a retirar os excessos, expondo seus pertences, como é o caso das chaves, moedas, cinto, celulares, guarda-chuvas entre outros, no compartimento próprio, e apartado da porta giratória, quando não, revistados pelos agentes responsáveis pela segurança do local, e solicitado de nova tentativa a ser realizada a adentrar ao recinto sob a apreciação da mencionada porta com detector de metais.

Porém, em alguns casos, não há como separar os metais do indivíduo, como reflete as próteses utilizadas por portadores de necessidades especiais de locomoção, por exemplo. Circunstancias que certamente causam constrangimento, quando os indivíduos são forçados a mostrar a próteses ou se justificar mediante fila de desconhecidos aos prepostos da instituição.

Como Rodrigo Bernardes Braga ressalta que “o controle realizado pelos agentes incumbidos da segurança bancária não pode ser fonte de constrangimento e humilhações pessoais. Nisto repousa a diferença entre o atuar preventivo e o atuar antijurídico, com exposição da vítima, que vê reduzida, em certos casos, a sua capacidade de resistência.”

Explicitamente é verificada pela jurisprudência a seguir citada:

Consumidor. Banco. Porta giratória de segurança. Travamento. Prevenção contra roubos. Imposição legal não se presta a excessos. Prova da conduta abusada dos prepostos do banco. Dano moral configurado. Indenização arbitrada em três mil reais. Honorários mantidos no mínimo legal. Pequena complexidade da causa. Decisão do relator mantida. Agravo desprovido.

5.5 Dano moral decorrente de roubo em função da atividade bancária

É límpida a responsabilidade objetiva das instituições financeiras quando o assunto é segurança bancária. Pela natureza de suas atividades, é inegável o dever de proporcionar segurança aos funcionários, cliente e usuários, bem como as próprias operações realizadas nestes tipos de estabelecimento. Sua responsabilidade está fundada na teoria do risco.

A lei nº 7.102 , de 20 de junho de 1983 impõe aos bancos oficiais e privados, bem como outros estabelecimentos financeiros, a obrigatoriedade em manter sistema de segurança elaborado pelo Ministério da Justiça , que inclui a contratação de empresas especializadas em serviços de vigilância, com profissionais qualificados, equipamentos elétricos, eletrônicos e de filmagens que possibilitem a identificação dos assaltantes, artefatos que retardem a ação dos criminosos, cabina blindada com permanência ininterrupta de vigilante durante o expediente para o público, entre outras exigências.

Contudo, o banco responde objetivamente no caso de dano a integridade da pessoa, seja material ou extrapatrimonial, na ocorrência de assaltos ou qualquer tipo de ameaça que venha a ser exposto o cliente ou usuário bancário.

E observando as diversas jurisprudências que discorrem o assunto, se verifica três tipos de situações em que as instituições financeiras vêm sendo responsabilizadas quando há lesão moral e apresenta o nexo de causalidade de sua ação ou omissão.

a) Quando a lesão ocorre no interior da agência bancária

ASSALTO A BANCO. MORTE DO CLIENTE. FATO PREVISIVEL. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. DANO MORAL. REDUCAO DO VALOR.’ Banco. Roubo armado no interior de agência. Morte de consumidora causada pela troca de tiros entre delinqüentes e guardas de segurança. Nexo causal que se mantém, mesmo diante de fato de terceiro. Previsibilidade. Precedentes do STJ. Responsabilidade objetiva do fornecedor. Danos morais causados aos filhos. Arbitramento que considera a situação sócio-econômica das partes. Verba reduzida de cem para 30 mil reais para cada um dos autores. Apelação provida em parte.

b) Quando a lesão ocorre no hall dos caixas eletrônicos da agência bancária

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. CAIXA ELETRÔNICO. ASSALTO COM MORTE. FALHA NO SERVIÇO. DANO MORAL CARACTERIZADO. MAJORAÇÃO DA VERBA INDENIZATÓRIA COMINADA NA SENTENÇA.Ação indenizatória ajuizada, em função da morte do pai do autor em assalto ocorrido no hall dos caixas eletrônicos do banco/réu. Sentença que julga procedente o pedido inicial, condenando o réu a pagar a quantia de R$ 40.000,00, a título de danos morais. Apelo do autor requerendo, apenas, a majoração do valor dos danos morais. Apelo do réu reiterando seus argumentos defensivos ilegitimidade passiva, fato exclusivo de terceiro e redução do valor dos danos morais. Banco/réu responsável pelo serviço de segurança. Falha na prestação do serviço caracterizada. Manifesta configuração de dano moral, diante da perturbação a que o autor foi submetido, em virtude do falecimento de ente querido, pai, ultrapassando os limites do suportável, não se traduzindo num mero dissabor cotidiano.

Valor indenizatório que não se mostra satisfatório, pelo que majoro para R$ 80.000,00. Observância dos princípios da razoabilidade e proporcionalidade. Reforma parcial da sentença. PROVIMENTO PARCIAL DE PLANO AO 1º APELO (AUTOR), NOS TERMOS DO ART. 557, §1°-A DO CPC E NEGATIVA DE SEGUIMENTO AO 2º APELO (RÉU), NOS TERMOS DO ART. 557, CAPUT, DO CPC.

c) Quando a lesão ocorre em face da saída da agência bancária

INDENIZATÓRIA – ASSALTO A CLIENTE NA SAÍDA DE AGÊNCIA BANCÁRIA APÓS SAQUE DE QUANTIA – RELAÇÃO DE CONSUMO – RESPONSABILIADE OBJETIVA – DEFEITO NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO – DEVER DE SEGURANÇA – DANO MATERIAL E MORAL – CABIMENTO.

I- Responsabilidade civil de instituição financeira por roubo cometido a cliente na saída de estabelecimento bancário, logo após saque de quantia, popularmente chamado “saidinha de banco”. 
II- Relação de consumo (Consumidor por equiparação – art. 17, do C.D.C.), que enseja a aplicação da responsabilidade objetiva da instituição financeira apelante, porquanto fornecedora de serviços. 
III – Dever da instituição bancária de garantir a segurança dos usuários de seus serviços, em especial no que concerne à retirada de quantias elevadas, adotando procedimentos preventivos para conter a prática de crimes como tais. 
IV – Cabimento da restituição do valor sacado. 
V- Dano moral caracterizado e fixado em obediência ao critério do lógico-razoável. 
VI Sentença que se confirma. 
VII- Recursos conhecidos e desprovidos.

5.6 Débito em conta sem expressa autorização do titular

Todos os débitos realizados em conta bancária, independente da finalidade desta ser corrente, investimento ou salário, devem ter expressa autorização do titular da mesma. Trata-se de um contrato de deposito realizado entre a instituição financeira e o cliente. Portanto, caso ocorra o débito sem prévia autorização do titular, poderá ele ingressar ação de ressarcimento em razão dos valores retirados da conta.

Contudo, se o débito for realizado sem autorização e por este motivo, for devolvido cheque por insuficiência de fundos (sem saldo), ou não realizado débito automático de conta autorizada pelo titular, ou qualquer outro prejuízo que derive lesão extrapatrimonial, estará caracterizado o dano moral, independente do dano material.

E de acordo com a jurisprudência, este entendimento é claro. Como se pode observar pela decisão do ilustríssimo Des. Alexandre Câmara:

Direito do Consumidor. Demanda reparatória cumulada com condenatória de obrigação de fazer. Descontos efetuados em conta salário. Necessidade de observância do limite de 30% dos vencimentos da autora. Enunciado nº 15 do aviso 69/09. Proteção do mínimo existencial. Ocorrência de devolução de cheques e não pagamentos das faturas colocadas em débito automático. Falha na prestação do serviço. Dano moral configurado. Compensação proporcional e razoável à circunstância do caso concreto. Recurso desprovido liminarmente.

Em que se aproveita o ensejo para relatar o conteúdo do e Enunciado nº 15, no Aviso nº 69/2009 do TJRJ, publicado em 11 de novembro de 2009, cujo texto esclarece que “a retenção dos valores em conta-corrente oriunda de empréstimo bancário ou de utilização de cartão de crédito não pode ultrapassar o percentual de 30% do salário do correntista”. Sendo mais uma fonte de argumento de dano imaterial em prol da defesa nos excessos das instituições financeiras quanto aos débitos realizados na conta salário de seus clientes.

5.7 Abertura de conta com documentos fraudulentos

Com o desenvolvimento da informática e das tecnologias no geral, que ajudam a sociedade moderna a minimizar riscos, também se desenvolvem elaboradas técnicas de fraude, inclusive com o cunho de frustrar a segurança bancária, através de emissão de documentos quase idênticos aos originais, que vistos por indivíduos não peritos passam despercebidos no meio de tantos outros documentos verdadeiros.

Tanto é que, atualmente, com grande freqüência, são presas dezenas de pessoas pertencentes a quadrilhas especializadas em lesar bancos, por meio de utilização de documentos fraudulentos cuja intenção principal é adquirir empréstimos em nome de outrem.

Nestes casos, a instituição bancária responderá pelos danos morais causados às pessoas que tiveram seus documentos utilizados por meio de fraude para abertura de conta, bem como para contratação de qualquer produto ou serviço, inclusive empréstimos. Responsabilidade objetiva da instituição bancária independe de culpa do banco, pois assume os riscos decorrentes da própria atividade, bastando ao autor da ação demonstrar o dano e nexo causal.

Deste mesmo entendimento segue a jurisprudência:

CONTRATO FRAUDULENTO DE CONTA CORRENTE NEGATIVAÇÃO INDEVIDA NOS CADASTROS RESTRITIVOS DE CRÉDITO – RESPONSABILIDADE DA FORNECEDORA DO SERVIÇO – DANOS MORAIS IN RE IPSA – FIXAÇÃO PRINCÍPIO DO PROPORCIONAL/RAZOÁVEL E SÚMULA 89 DO TJ-RJ. A contratação fraudulenta de conta corrente com utilização de documentos falsos não constitui fato de terceiro e a empresa responde pelos danos morais causados à pessoa em nome de quem se praticou a fraude. A indevida negativação do nome gera dano moral in re ipsa, cujo valor deve ser fixado de conformidade com o critério do proporcional/razoável, seguindo-se o parâmetro estabelecido pela Súmula nº 89 desta Corte. Improvimento do recurso.

5.8 Erro na compensação de cheques: motivação para dano moral

Quando o assunto dano moral referente a cheque há diversas possibilidades de figurar claramente a lesão extrapatrimonial, pois seja na devolução indevida de um cheque, ou no pagamento de cheque falsificado, trata-se de responsabilidade civil objetiva, assumidas com o risco do negócio. Vejamos então estas possibilidades mais detalhadas.



5.8.1 Cheque devolvido indevidamente

Ao que versa sobre compensação de cheques, é importante ressaltar, que o Banco Central do Brasil criou indicações através de uma tabela codificada aos motivos a serem utilizados para cada tipo de devolução dos cheques, reflexo do impedimento a realização de seu pagamento, conforme se verifica na tabela abaixo, que está agrupada conforme a natureza dos motivos de devolução:

Cheque sem fundos:

• motivo 11 – cheque sem fundos na primeira apresentação; 
• motivo 12 – cheque sem fundos na segunda apresentação; 
• motivo 13 – conta encerrada; 
• motivo 14 – prática espúria.

Impedimento ao pagamento:

• motivo 20 – folha de cheque cancelada por solicitação do correntista; 
• motivo 21 – contra-ordem (ou revogação) ou oposição (ou sustação) ao pagamento solicitada pelo emitente ou pelo beneficiário; 
• motivo 22 – divergência ou insuficiência de assinatura; 
• motivo 23 – cheques emitidos por entidades e órgãos da administração pública federal direta e indireta, em desacordo com os requisitos constantes do artigo 74, § 2º, do Decreto-lei 200, de 1967; 
• motivo 24 – bloqueio judicial ou determinação do Banco Central; 
• motivo 25 – cancelamento de talonário pelo banco sacado; 
• motivo 26 – inoperância temporária de transporte; 
• motivo 27 – feriado municipal não previsto; 
• motivo 28 – contra-ordem (ou revogação) ou oposição (ou sustação), motivada por furto ou roubo, com apresentação do registro da ocorrência policial; 
• motivo 29 – cheque bloqueado por falta de confirmação do recebimento do talão de cheques pelo correntista; 
• motivo 30 – furto ou roubo de malotes.

Cheque com irregularidade:

• motivo 31 – erro formal (sem data de emissão, mês grafado numericamente, sem assinatura, sem valor por extenso); 
• motivo 32 – ausência ou irregularidade na aplicação do carimbo de compensação; 
• motivo 33 – divergência de endosso; 
• motivo 34 – cheque apresentado por estabelecimento bancário que não o indicado no cruzamento em preto, sem o endosso-mandato; 
• motivo 35 – cheque falsificado, emitido sem controle ou responsabilidade do banco, ou ainda com adulteração da praça sacada; 
• motivo 36 – cheque emitido com mais de um endosso; 
• motivo 37 – registro inconsistente – compensação eletrônica.

Apresentação indevida:

• motivo 40 – moeda inválida; 
• motivo 41 – cheque apresentado a banco que não o sacado; 
• motivo 42 – cheque não compensável na sessão ou sistema de compensação em que apresentado; 
• motivo 43 – cheque devolvido anteriormente pelos motivos 21, 22, 23, 24, 31 e 34, não passível de reapresentação em virtude de persistir o motivo da devolução; 
• motivo 44 – cheque prescrito (fora do prazo); 
• motivo 45 – cheque emitido por entidade obrigada a realizar movimentação e utilização de recursos financeiros do tesouro nacional mediante ordem bancária; 
• motivo 46 – CR – Comunicação de Remessa, quando o cheque correspondente não for entregue ao banco sacado nos prazos estabelecidos; 
• motivo 47 – CR – Comunicação de Remessa com ausência ou inconsistência de dados obrigatórios referentes ao cheque correspondente; 
• motivo 48 – cheque de valor superior a R$ 100,00 (cem reais), emitido sem a identificação do beneficiário, acaso encaminhado ao SCCOP, devendo ser devolvido a qualquer tempo; 
• motivo 49 – remessa nula, caracterizada pela reapresentação de cheque devolvido pelos motivos 12, 13, 14, 20, 25, 28, 30, 35, 43, 44 e 45, podendo a sua devolução ocorrer a qualquer tempo.

Cooperativas de crédito:

• motivo 71 – inadimplemento contratual da cooperativa de crédito no acordo de compensação. 
• motivo 72 – contrato de compensação encerrado.

Vale reforçar, que esta codificação fora regulamentada pelo Conselho Monetário Nacional, e publicada pelo Banco Central do Brasil, no art.6° da Resolução n° 1.682 de 31 de janeiro de 1990, para que tal medida seja utilizada por todas as instituições bancárias com a maior cautela, face à grande quantidade de cheques encaminhados diariamente as centrais de compensação.

Importante também esclarecer que os cheques devolvidos pelos motivos 11 a 14 são suscetíveis a inclusão do emitente no Cadastro de Emitentes de Cheque sem Fundo (CCF), e conseqüentemente repassados aos órgãos de proteção ao crédito, de forma a coibir estas práticas em outro estabelecimento bancário ou comercial, restringindo o crédito do emitente.

Diante de todos estes dados, fica fácil perceber que a instituição que indevidamente devolver cheque de cliente ocasionando restrição junto aos órgãos de “maus pagadores” ou qualquer outro tipo de conduta ofensiva aos direitos da personalidade, terá de arcar com ações de reparação de danos morais.

Assim entende a jurisprudência:

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL CUMULADA COM DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITO. CONTA ENCERRADA. NEGATIVAÇÃO INDEVIDA. DANO MORAL. Inegável que a relação jurídica entabulada se afigura de consumo, de modo a ensejar a aplicação das regras consumeiristas. Todo aquele que disponha a exercer qualquer atividade no mercado de consumo deverá suportar os ônus decorrentes dos vícios e defeitos do produto ou do serviço oferecido, prescinde-se da análise da culpa. Teoria do risco do empreendimento. Cheque devolvido indevidamente. Conta-corrente encerrada há mais de ano. Em razão da devolução dos títulos, a autora teve indevidamente seu nome incluso nos cadastros restritivos de crédito. Caracterizado o ato ilícito perpetrado pelo Banco réu. Considerando a falha na prestação do serviço, o tempo em que o nome da parte autora permaneceu no cadastro restritivo ao crédito, bem como o retardo injustificado do banco-réu em solucionar de forma adequada o problema, revela-se adequado o valor arbitrado pelo Juízo a quo. Nega-se provimento.

5.8.2 Cheque falsificado ou alterado pago indevidamente

Outra situação envolvendo cheques que gera bastantes causas de reparação aos danos imateriais é o pagamento de cheques falsificados, alterados, ou com a assinatura diferente da registrada na instituição bancária pelo correntista.

Isto ocorre em função dos inúmeros cheques que são compensados diariamente, e mesmo com toda a tecnologia e informatização que compõe o sistema de segurança bancária, não é possível impedir todas as ações de malfeitores, pois toda a verificação é feita manualmente e totalmente dependente do ser humano, que está passível ao erro. Até porque, muitas das falsificações são grosseiras enquanto outras não são perceptíveis ao individuo comum, sendo inteligível aos peritos tamanha habilidade dos falsários.

Contudo, é de praxe e devida à verificação, antes do pagamento, da existência de fundos na conta, da autenticidade do titulo e a identificação do beneficiário. Visto que as instituições financeiras, responderão civilmente pelo pagamento do cheque indevidamente quando na relação constarem como o banco sacado da operação.

As causas mais comuns para este tipo de situação lesar a moral do correntista se refere à adulteração de valores constantes no título e assinatura incompatível com a do cliente . E mesmo que a instituição bancária não tenha concorrido para a falsificação ou alteração, responderá objetivamente baseado no risco do empreendimento.

Desta mesma forma a jurisprudência sentencia:

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. PAGAMENTO DE CHEQUES ADULTERADOS. PROVA PERICIAL QUE ATESTA A FALHA DO SERVIÇO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. APLICABILIDADE DO ARTIGO 14, DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. NEXO DE CAUSALIDADE COMPROVADO, ANTE A INOBSERVÂNCIA DO DEVER DE CUIDADO E DA BOA-FÉ OBJETIVA. LOGO, SUBSISTE O DEVER DE INDENIZAR PELO DANO MATERIAL PERPETRADO, BEM COMO EM VIRTUDE DE AFRONTA A DIREITO DA PERSONALIDADE DA APELADA. VERBA FIXADA COM MODERAÇÃO. DESPROVIMENTO DO RECURSO.

5.9 Protestos indevidos

Resumidamente, o protesto consiste em ser um mecanismo utilizado para atestar a impontualidade do devedor, bastante utilizado pelo comércio e instituições bancárias, que, no entanto, costumam atuar nestas circunstâncias, quando antecipam recursos provenientes de venda mercantil representada por títulos de crédito costumeiramente duplicatas, em que se tornam credores nesta relação cambiária. O banco se torna endossatário assumindo todos os direitos que competiam ao antigo credor das duplicatas.

Com isso, caso o pagamento dos títulos não seja realizado na data de vencimento, os bancos encaminham a protesto objetivando conservar os direitos contra os endossantes.

Contudo, em muitas ocasiões, o banco endossatário desconhece o motivo pelo qual o devedor não realizara o pagamento, assumindo, portanto, os riscos de um protesto indevido.

Sendo os casos mais comuns dos protestos indevidos, o devedor da duplicata não efetuar o pagamento pela não entrega da mercadoria a que o título se referia, como também por desconhecera o motivo da emissão deste, em que para esta ultima situação a lei considera crime a emissão de duplicata simulada , caracterizada pela emissão de título que não corresponda a uma efetiva venda de mercadoria.

Ressaltando que o protesto registra nos órgãos de proteção ao crédito o cliente/sacado como inadimplente, reproduzindo os efeitos do descrédito, e abalo na honra, entre outras situações injustas. Conduzindo a necessidade de reparação de dano imaterial objetivamente por parte da instituição bancária, especialmente se comprovada que o cliente comunicou ao banco do não recebimento das mercadorias ou desconhecendo o motivo do protesto.

Da mesma forma que conclui a jurisprudência:

AGRAVO INOMINADO. PROTESTO DE TÍTULO. APONTE INDEVIDO NOS ÓRGÃOS DE RESTRIÇÃO AO CRÉDITO. DUPLICATA SIMULADA. CONTRATO DE DESCONTO BANCÁRIO. ENDOSSO MANDATO. DANOS MORAIS. CABIMENTO. SÚMULA 227/STJ. A boa-fé da instituição financeira não afasta a sua responsabilidade, porque ao levar o título a protesto sem as devidas cautelas, assume o risco sobre eventual prejuízo acarretado a terceiros, alheios à relação entre endossante e endossatário. DESPROVIMENTO DOS AGRAVOS.

6. O QUANTUM INDENIZATÓRIO ARBITRADO AO DANO MORAL

A atribuição de valor ao dano moral indenizável é sempre envolvida de grandes discussões, visto que não existe previsão legal de nenhum tipo de critério preestabelecido efetivamente para ser utilizado como parâmetro nas decisões, tendo assim ensejo para haver a polêmica existente a respeito das sentenças proferidas, que têm atribuídas sua valoração baseados no arbítrio do juízo competente à causa.

A forma como a doutrina tenta minimizar a dificuldade no que tange a aplicação do valor ao dano moral, é a utilização de princípios, fonte de direito, e que nesta questão, apresentam-se como fundamentais e norteadores para, na tentativa de maior aproximação a reparação do dano, também evitar enriquecimento ilícito ou também chamado de enriquecimento sem causa.

Os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade são os principais utilizados pela jurisprudência na aplicação das decisões. Em que o primeiro, visa a identificar e adequar à solução mais razoável e adequada para o caso concreto, dentro das circunstâncias sociais, culturais, econômicas, e políticas que envolvem a questão, sem se afastar dos parâmetros legais, porém permitindo a interpretação dos casos individualmente, não necessitando para isso seguir exatamente o conteúdo do texto legal. Enquanto que o princípio da porporcionalidade deriva da conotação de proporção, adequação, medida justa, prudente e apropriada à necessidade de cada caso em que vislumbra-se sentenças adequadas à realidade dos fatos. Baseando-se nestes princípios, as sentenças arbitradas por lesão moral devem, por excelência, buscar a compensação da lesão ou ofensa, como também servir de punição ao praticante do ato que resultou a lesão de forma razoável e proporcional.

A indenização busca restabelecer, para a vítima, as condições existentes anteriores ao ato lesivo. Quando a lesão é material esta estrutura ressarcitória é nítida, visto que o patrimônio é quantificado e possui valor específico. Porém, quando a lesão fere os direitos de personalidade, que não possuem materialidade e, portanto, não tem valor de mercado, não são quantificados, afinal, são sentimentos e sensações que se correlacionam ao íntimo da cada pessoa. Logo, a aplicabilidade de uma sentença em pecúnia se transforma numa tarefa ainda mais cautelosa.

Isto porque, assim como as pessoas não são iguais, a dor, a angustia, o sofrimento advindos de uma lesão, atingem de forma diferente cada individuo. Desta forma, o arbitrador deverá observar as condições econômicas e sociais de ambas às partes, ou seja, tanto do ofendido como do agente causador do dano, se há reincidência no ato delituoso, a culpabilidade e se a própria atividade do agente envolve risco de lesão.

Não sendo a compensação por dano mora arbitrada com o intuito de equivalência, pois é impossível mensurar corretamente a violação extrapatrimonial por ser subjetiva, variando de pessoa para pessoa. Sendo tal aferição de valor, em pecúnia, não uma forma de contrabalancear a relação entre a lesão e a respectiva indenização, mas sim, como forma que diminuir as angústias contraídas pelo resultado da lesão e igualmente punir a prática delitiva.

Assim como a doutrina entende e Milton Oliveira reforça que “no dano moral o montante indenizatório serve como compensação ou lenitivo pelo prejuízo suportado injustamente, já que a dor e a vida não podem ser pagas; dinheiro algum quita o desgosto da dor sentida ou da amargura e tristeza de uma vida desperdiçada”.

Ressaltando o que fora dito anteriormente, a reparação do dano moral tem fundamento essencial na compensação do dano imaterial, como tentativa de amenizar o sofrimento existente, e como meio de punição ao ilícito cometido, reprimindo tal conduta como também evitando novas práticas lesivas.

Quanto aos critérios utilizados para a fixação justa do quantum indenizatório, o juiz deverá observar, indispensavelmente, a verificação das circunstancias que ocorrera o delito, as condições econômicas e sociais do ofensor e do ofendido tendo em vista um cidadão comum; a culpabilidade do agente, de terceiro, se há caso fortuito ou de força maior, se a vítima concorreu para a lesão ou se ela tem exclusiva culpa no resultado danoso, ou se ainda, a atividade exercida pelo agente incorre no risco de lesão pela própria característica do empreendimento; a intensidade do dano, se há configuração de lesão a direito ou se não trata-se de mero aborrecimento; a atribuição de valor coíbe novas práticas e se está compensando o dano sofrido, e não está havendo enriquecimento do ofendido; a existência de reincidência no delito. Com base nesses dados retirados dos casos concretos, o arbitramento tente a ter uma fixação indenizatória justa e satisfatória aos olhares da doutrina e dos tribunais.

Porém, como existe uma preocupação excessiva de evitar a banalização do dano moral por parte da doutrina e jurisprudência a fim de não permitir a ocorrência de enriquecimento sem causa por parte do ofendido, o que conseqüentemente faz com que nem sempre as indenizações sejam suficientemente coercivas a ponto de evitar novas práticas lesivas.

Tal afirmação reflete muito bem a situação em que se enquadram os bancos, que não costumam ter penalidades impactantes ao ponto de impedir atitudes idênticas o que os tornam reincidentes inúmeras vezes.

Isto também tem relação direta a necessidade de vetar o enriquecimento ilícito da vítima, que em função a sua condição social e econômica difere-se muito das condições em que se enquadram as instituições financeiras.

O que possibilitar concluir que uma das condições terá de ser subordinada a outra, ao que se refere às causas bancárias, tratando do enriquecimento sem causa do individuo lesado e da punição coerciva do agente. Visto que, para punir efetivamente a instituição bancária, a vítima teria indenização desproporcionalizada. Enquanto que, tendo uma indenização plausível aos bancos não é aparente a percepção de penalidade, visto que os atos ilícitos sempre são repetidos.

E em observância aos julgados, é verificada uma maior preocupação em não proporcionar o enriquecimento da vítima e, contudo, as sentenças acabam por privilegiar aos bancos com as indenizações que não proporcionam nenhum tipo de abalo ao capital das instituições, o que de certo modo, promove um incentivo a novas práticas, pois, apesar de inúmeras ações requerendo reparação dos danos morais, outras inúmeras pessoas são lesadas, mas não investem na justiça seja por falta de informação de que tiveram a incidência de dano em seu direito, seja por passividade, entre outros motivos.

Devendo, portanto, ter o arbitramento da sentença tentar ao máximo propor a condenação justa quanto à compensação devida pela lesão sofrida como também punir as práticas, coibindo a reincidência. Como completa com Milton Oliveira que “ao se arbitrar um certo valor, há que de se ter em mente que não será razoável uma indenização irrisória, que pouco significasse ao ofendido, nem uma indenização excessiva, com a qual o agressor não pudesse arcar sem ter de suportar enorme prejuízo, também socialmente indesejável.

Desta forma, é essencial que o juízo arbitre o valor conforme tudo aqui exposto, para que evite a modificação da indenização sentenciada por parte do Superior Tribunal de Justiça, a quem compete analisar os recursos especiais que visam a majoração ou minoração do quantum indenizatório, cuja decisão monocrática fora irrisória ou demasiadamente excessiva.

Como se observa na jurisprudência do tribunal citado:

CIVIL E PROCESSUAL. INSCRIÇÃO EM CADASTRO NEGATIVO. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ACÓRDÃO ESTADUAL. NULIDADE INEXISTENTE. AUSÊNCIA DE COMUNICAÇÃO PRÉVIA. INDENIZAÇÃO A TÍTULO DE DANOS MORAIS. ALTERAÇÃO DO VALOR. MAJORAÇÃO. CORREÇÃO MONETÁRIA. JUROS MORATÓRIOS. TERMO INICIAL.

I. Não é nulo acórdão que se acha suficientemente claro e fundamentado, apenas contendo conclusão desfavorável à parte ré.
II. A negativação do nome do inscrito deve ser-lhe comunicada com antecedência, ao teor do art. 43, § 3º, do CPC, gerando lesão moral se a tanto não procede a entidade responsável pela administração do banco de dados.
III. Valor da indenização majorado a parâmetro razoável, compatível com a lesão sofrida.
IV. Na indenização por dano moral, o termo inicial da correção monetária é a data em que o valor foi fixado, portanto, no caso, a data do julgamento procedido pelo STJ.
V. Os juros de mora têm início a partir do evento danoso, nas indenizações por ato ilícito, ao teor da Súmula n. 54 do STJ.
IV. Recurso especial conhecido em parte e parcialmente provido.

RESPONSABILIDADE CIVIL. INCLUSÃO INDEVIDA DO NOME DA CLIENTE NOS ÓRGÃOS DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO. DANO MORAL PRESUMIDO. VALOR DA REPARAÇÃO. CRITÉRIOS PARA FIXAÇÃO. CONTROLE PELO STJ. POSSIBILIDADE.REDUÇÃO DO QUANTUM.

I – O dano moral decorrente da inscrição indevida em cadastro de inadimplente é considerado in re ipsa, isto é, não se faz necessária a prova do prejuízo, que é presumido e decorre do próprio fato.

III – Inexistindo critérios determinados e fixos para a quantificação do dano moral, recomendável que o arbitramento seja feito com moderação, atendendo às peculiaridades do caso concreto, o que, na espécie, não ocorreu, distanciando-se o quantum arbitrado da razoabilidade. Recurso Especial provido.

7. CONCLUSÃO

Concluído a pesquisa, verifica-se que o dano moral está presente no ordenamento jurídico de várias sociedades, inclusive tendo vestígios de seu posicionamento estar presente nos primórdios da civilização. No entanto, o entendimento não é aceito por todos os doutrinadores e juristas brasileiros que apresentam argumentos que não sobrevivem à maioria. Que entendem, percebem e defendem a aplicação dos direitos imateriais, inclusive os da pessoa jurídica.

No que envolve as relações com as instituições financeiras, é nítido que o número de ações requerendo a reparação por danos morais é crescente. Tanto pela expansão do setor bancário no Brasil, do número de clientes a quantidade de operações realizadas, como também pela falta de cuidado que os bancos possuem para com seus clientes.

E por este mesmo motivo, a doutrina e a jurisprudência têm encontrado formas de aplicar as devidas indenizações com o cunho compensatório pela lesão sofrida, como também punitivo penalizando a prática realizada e coibindo novos atos lesivos.

Tanto é que o legislador concedeu maior força a este entendimento que acolheu os clientes bancários através do Código de Defesa do Consumidor. E mesmo com a interposição da Ação Direta de Inconstitucionalidade n°2.591, impetrada pelo órgão sindical das instituições financeiras, que requeria o impedimento desta proteção aos consumidores bancários, o Supremo Tribunal Federal não cedeu às pressões do setor bancário, visto que a argumentação não sustentava o pedido, uma vez que, o CDC visa regular a relação de consumo entre banco e clientes ou usuários, não interferindo no Sistema Financeiro Nacional, como fora alegado.

E, ao observar os julgados recentes, percebe-se que as sentenças quanto ao pedido de dano moral na relação com os delitos bancários, estão cada vez mais prudentes justificando a decisão na responsabilidade objetiva das instituições, em especial, pelo risco da atividade desenvolvida, que por ela mesma gera a possibilidade dos danos existentes, através de fatos concretos do caso, garantido a aplicação do direito e resguardando a sociedade.

Outro ponto de interesse e bastante relevante analisado com este estudo, é a aplicação da indenização, o quantum arbitrado pelo juiz, que busca recompensar a ofensa sofrida e também punir o ofensor desestimulando as práticas e tentando previr novas violações, sendo este o entendimento da corrente majoritária tanto doutrinária quanto jurisprudencial.

REFERÊNCIAS

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BRASIL. Lei de imprensa. Lei 5.250 de 09 de fevereiro de 1967. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L5250.htm >, acesso em 10/11/2009.

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COSTA, Maria Flávia Albergaria. Responsabilidade civil das instituições financeiras. Belo Horizonte: Del Rey, 2009.

DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro – responsabilidade civil. São Paulo: Saraiva, v. 7, 2003.

FIGUEIREDO, Fábio Vieira; GIANCOLI, Brunno Pandori. Coleção OAB nacional – Primeira fase: Direito Civil. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 142-151.

FILHO, Sergio Cavalieri. Programa de responsabilidade civil. 8. d. São Paulo: Ed. Atlas S.A., 2009.

OLIVEIRA, Milton. Dano moral. São Paulo: LTr, 2006.

SOUZA, Marcus Valério Saavedra Guimarães de. Modalidades da culpa. Disponível em <http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/13569> acesso em 16/11/2009

Evasão e Repetência na Escola Municipal

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INTRODUÇÃO

A educação escolar é fundamental na complementação do desenvolvimento pessoal e social da criança e do adolescente, pois, a escola é também um centro social onde são reafirmadas as relações de companheirismo e amizade adquiridas no convívio familiar, desta forma tem a importante “missão” de formar cidadãos, visando uma sociedade justa, livre e solidária.

O estudo da realidade da educação brasileira tem sido foco estudo de vários pesquisadores e teóricos que se preocupam com o ensino de qualidade, que priorizam a teoria e prática voltada para solução de problemas existentes no âmbito escolar.

Percebe-se hoje que o principal desafio da educação brasileira é a qualidade do ensino, mas tem-se observado, através das avaliações educacionais, que as taxas de evasão e repetência em séries iniciais (1ª a 4ª) continuam altas, apesar dos avanços que aconteceram no campo educacional nos últimos anos.

Uma educação de qualidade deve propiciar um fluxo escolar regular dos estudantes, e com isso um efetivo desenvolvimento de habilidades e competências em todos os componentes curriculares.

O nosso interesse em pesquisar o fracasso escolar, despertou pela inquietação de que apesar das reformas educacionais ocorridas nos últimos anos, as escolas públicas continuam convivendo com elevados índices de evasão e repetência, fato que é mais evidenciado nas escolas que atendem crianças oriundas das camadas populares.

A pesquisa foi realizada na Escola Municipal de Ensino Fundamental Filomeno de Souza Reis, localizada na avenida Pará s/n, Bairro São José, no município de São Félix do Xingu/PA, visto que a mesma atende crianças das camadas populares, e que segundo dados estatísticos da Secretaria Municipal de Educação apresentou um alto índice de evasão e repetência nos últimos anos.

Considerando que os condicionantes do fracasso escolar são diversos, o nosso objetivo neste trabalho de pesquisa foi alcançado de modo satisfatório, pois identificamos as possíveis causas que contribuem para a produção do fracasso escolar (evasão e repetência) e as suas conseqüências, considerando os aspectos intra (relação professor aluno e a estrutura organizacional da escola) e extra escolares (origem social e relação familiar e suas implicações no desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem).

Nos capítulos que integram este trabalho discutimos que as causas do fracasso escolar (evasão e repetência), da escola pesquisada, não estão exclusivamente em um único dos fatores possíveis, nem só na relação professor-aluno, nos métodos, nos recursos didáticos, na estrutura organizacional da escola, na família, ou na criança, sendo então um fenômeno multifacetado constituído por vários fatores que o influenciam e o determinam.

No primeiro capítulo apresentamos a trajetória da Escola pública no Brasil desde o período imperial e fazemos uma incursão sobre o fracasso escolar no Brasil.

No segundo capítulo abordamos o tema sob a luz das concepções de alguns teóricos que discutem sobre as causas do fracasso escolar, enfatizando possíveis fontes geradoras – a escola, relação professor-aluno, origem social e relação familiar – que podem influenciar direta ou indiretamente na produção desse fenômeno.

No terceiro capítulo apresentamos e analisamos os dados coletados durante a investigação no campo de pesquisa, fazendo uma relação entre o contexto teórico e o contexto prático.

Com a finalidade de alcançarmos o objetivo deste trabalho, realizamos um estudo de natureza quanti-qualitativa, mediante o contato direto com a realidade onde está inserido o fenômeno pesquisado.

Com objetivo de captarmos o maior número possível de informações, realizamos uma pesquisa de caráter etnográfico que nos possibilitou encontrarmos os princípios subjacentes ao fenômeno estudado e conhecermos as estruturas de significados dos participantes nas diversas formas que foram expressos.

Utilizamos como procedimentos metodológicos de levantamento de dados, a observação participante com os sujeitos pesquisados (corpo técnico e administrativo, professores, pais e alunos) e registramos a mesma por meio de relatórios de atividade diárias, fotografias dos sujeitos e dos locais observados. Utilizamos também entrevistas formais, questionários abertos e fechados. Verificamos ainda o Projeto Político Pedagógico, Regimento escolar, censo escolar (números de evasão e repetência do município e da Escola) e o livro de advertências.

Para o desenvolvimento desse trabalho buscamos fundamentações teóricas – José Carlos Libâneo, Maria Helena Patto, Paulo Freire, Suzana Sten, Maria Lúcia Aranha entre outras – que nos auxiliaram no conhecimento dessa realidade para melhor compreensão do fenômeno estudado.

Uma parcela do sucesso dessa pesquisa se deve ao acolhimento e a colaboração dos informantes, e também às bases teóricas que discutem sobre esse fenômeno. No entanto, em virtude da amplitude e complexidade do tema abordado, sentimos algumas dificuldades no momento da análise em que nos propusemos identificar as conseqüências da evasão e da repetência, pois nesse determinado momento houve uma dificuldade para distinguirmos o que se caracterizava como causa e o que se caracterizava como conseqüência. Sendo que, foi superada após uma análise minuciosa, onde conseguimos compreender quando se apresentavam como causa e quando se apresentavam como conseqüência.

A principal contribuição dessa pesquisa é o fato de ter sido realizada em um contexto específico, possibilitando aos envolvidos no processo educacional da E.M.E.F. Filomeno de Souza Reis reconhecerem as causas e conseqüências do fracasso escolar para assim terem condições necessárias para explicá-lo e buscarem soluções a fim de superá-lo.

1. TRAJETÓRIA DA ESCOLA PÚBLICA NO BRASIL

Este capítulo intenciona analisar a escola pública brasileira desde a sua origem e seu desenvolvimento na sociedade. Para tanto buscamos fundamentação teórica –Maria Lúcia Aranha – que orienta nossa análise no sentido de refletir/repensar sobre todo o processo que determina a situação atual da escola pública sob a perspectiva do fracasso escolar.

Partindo-se de dois enfoques – inicialmente abordando os aspectos históricos sociais do ensino público brasileiro, no segundo fazendo uma incursão sobre a evasão e repetência no Brasil – será possível uma melhor compreensão da realidade da escola pública brasileira.

1.1 TRAJETÓRIA DA ESCOLA PÚBLICA NO BRASIL

As classes populares têm em sua história uma luta incansável por uma educação de qualidade.

Antes do surgimento do capitalismo a educação era privilégio de quem tinha uma boa condição social, enquanto o restante da população ficava ignorante sem qualquer tipo de instrução, a não ser para trabalhos manuais.

No Brasil durante o período Imperial a educação popular se faz desnecessária, devido à economia ser exclusivamente agrária, sendo assim, não exigia mão-de-obra qualificada. O sistema educacional constituía como agente específico da formação das camadas superiores, consolidando um padrão de ensino elitista, pois o pensamento político brasileiro existente no Império, deixava de lado o compromisso das autoridades governamentais em promover o ensino público de qualidade a população.

No início do século XX, o índice de analfabetismo era altíssimo em uma população predominantemente agrária, revelando assim, o descaso com a educação elementar. Nessa ocasião, educadores da Escola Nova introduzem o pensamento liberal democrático, defendendo uma escola para todos, com o objetivo de alcançar uma sociedade igualitária e sem privilégios de classe.

Segundo ARANHA, as reformas educacionais planejadas na década de 20 – a de Sampaio Dória em São Paulo (1920), a de Lourenço Filho no Ceará (1923), a de Anísio Teixeira na Bahia (1925), a de Mário Casassanta em Minas Gerias (1927) e a de Fernando de Azevedo no Distrito Federal (1928) – basearam-se todas nos princípios do movimento da escola nova.

Apesar das várias reformas educacionais ocorridas no país nas quatro primeiras décadas da primeira República, as oportunidades de educação escolar das classes populares continuavam pequenas.

Na década de 30, com a crise do modelo agroexportador e o início do modelo baseado na industrialização é exigida melhor escolarização de uma maior quantidade de pessoas, sobretudo aquelas pertencentes às camadas populares. A partir dessa década, a educação passa a despertar maior atenção, quer pelo movimento dos educadores, quer pelas iniciativas governamentais. Como por exemplo, O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova em 1932, que defendia uma educação de qualidade com oportunidade de ensino a todos na sociedade brasileira; e as reformas dos Ministros da Educação, Francisco Campos (1931), cria o Conselho Nacional de Educação e ao mesmo tempo em que reforma o ensino secundário cria o ensino comercial e estabelece o Estatuto das Universidades Brasileiras; Gustavo Capanema (1942) denominada Leis Orgânicas de Ensino.

O ensino primário recebe atenção do Governo Federal, o ensino secundário é reestruturado, as Escolas Normais para a formação de professores são ampliadas e o ensino profissionalizante recebe atenção especial, com a criação do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial em 1942 (SENAI) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC) em 1946.

Esses cursos de aprendizagem, aperfeiçoamento e especialização tinham o objetivo de atender as necessidades de mão-de-obra que o capitalismo exigia para o desenvolvimento do processo produtivo brasileiro. Além do mais, a população de baixa renda, desejosa de se profissionalizar, encontra nesses cursos boas condições de estudo, mesmo porque os benefícios resultantes eram imediatos.

No entanto, o modelo de ensino profissionalizante adotado provocou uma discriminação mais acentuada no sistema educacional, conforme é descrito por ARANHA (1996):

“A legislação acabou criando condições para que a demanda social da educação se diversificasse apenas em dois tipos de componentes: Os componentes dos estratos médios e altos, continuaram a fazer opção pelas escolas que classificam socialmente, e os componentes dos estratos populares, passaram a fazer opção pelas escolas que preparavam mais rapidamente para o trabalho. Isso transformava o sistema educacional, de modo geral, em um sistema de discriminação social”. (p:200).

Observa-se que o ensino profissionalizante no Brasil, ao estruturar-se nessas condições, atendia diretamente às classes populares, visto que oferecia a oportunidade de sobreviverem através do desenvolvimento de habilidades que eram necessárias à execução de algumas atividades, no entanto reforçava a dicotomia do ensino.

Com a constituição de 1946 surge a necessidade de elaborar novas leis e diretrizes para o ensino. Em 1948, o Ministro Clemente Mariani apresenta um projeto de lei propondo a extensão da rede escolar gratuita até o secundário, mas esse projeto foi engavetado. Em 1957, outro projeto apresentado pelo Deputado Carlos Lacerda propunha a privatização do ensino. A educação portanto, seria financiada pelo Estado, porém, este não poderia fiscalizá-la. Em reação a esse projeto os “pioneiros da educação nova”, apoiados por intelectuais, estudantes e líderes sindicais, iniciaram uma campanha de defesa à escola pública com movimento do Manifesto dos Educadores em 1959.

Quando a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) 4.024/61 foi aprovada, seu texto já se encontrava ultrapassado, pois apesar das pressões, a lei promulgada atendia os interesses da iniciativa privada, ou seja, a escola continuava sendo um privilégio de classe.

Nos primeiros anos da década de 60, surgem na sociedade civil inúmeros movimentos em defesa da educação popular, evidenciando o aspecto social da educação e proclamando o Estado como mantenedor do sistema escolar. Dentre eles, destaca-se o Movimento de Cultura Popular (MCP) do Recife, liderado por Paulo Freire.

Nos 20 anos da Ditadura Militar os brasileiros perderam seu poder de participação e crítica. A repressão do Governo silenciou os intelectuais e artistas e intimidou professores e alunos, fracassando assim, as tentativas de expansão da educação popular. Durante esse período a educação segue uma linha tecnicista de influência Norte-americana. Os acordos realizados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) com a Agência Internacional de Desenvolvimento dos Estados Unidos (USAID) possibilitaram ao Brasil uma assistência técnica e cooperação financeira para implantação das reformas.

Nos primeiros anos após o Golpe Militar, as organizações consideradas subversivas, como a União Nacional dos Estudantes (UNE), foram paralisadas, no entanto, continuavam agir clandestinamente. Na tentativa de controlar atividades subversivas nas universidades o Decreto-lei nº 477, proibiu a ação de professores, alunos e funcionários de qualquer manifestação de caráter político. Isto sem sombra de dúvida prejudicou e muito a vida cultural e o ensino no Brasil.

Para diminuir os índices alarmantes do analfabetismo de jovens e adultos, o governo cria em 1967 organismos como Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), programa que utilizava o método de Paulo Freire sem o conteúdo ideológico que era considerado subversivo; e o Projeto Minerva, que através da televisão e do rádio e com ajuda de monitores ofereciam curso supletivo de 1º Grau.

A lei 5.540/68 faz modificações na LDB de 1961. A reforma criou o vestibular classificatório e reuniu as faculdades em universidades para melhor concentração de recursos materiais e humanos, desenvolveu ainda um programa de pós-graduação.

A reforma do ensino fundamental e médio se realizou durante o governo Médici. A lei 5.692/71 ampliou a obrigatoriedade escolar de quatro para oito anos aglutinando o primário com ginásio; criou a escola única profissionalizante e desativou a antiga Escola Normal destinada à formação de professores de ensino fundamental, instituindo assim a habilitação Magistério. O currículo estava voltado para uma educação geral e para formação especial da habilitação profissional contextualizada com a região. Além disso, disciplinas como Educação Física, Educação Artística e Educação Moral e Cívica foram incluídas como obrigatórias; extinguindo a disciplina de Filosofia e diminuindo a carga horária de História e Geografia. Sendo assim, nas propostas curriculares, o governo deixou claro seu caráter ideológico e manipulador.

Mesmo após a essas reformas ainda continuava o ensino dual, visto que a escola da elite preparava seus alunos para ingressarem nas melhores universidades, e os alunos mais pobres, porque estavam mal preparados para a disputar as vagas, não tinham acesso às melhores faculdades, que geralmente eram as públicas, ou seja, de forma mais acentuada continuava existindo a questão da seletividade.

Na década de 80 o regime militar dava sinais de enfraquecimento. A sociedade civil, a classe política, e os movimentos estudantis se apresentavam de forma intensa a fim de recuperar seus espaços perdidos. Mas, só em 1985 que passamos para o primeiro governo civil após a ditadura. A educação necessitava de uma reestruturação, pois a escola pública se encontrava degradada e empobrecida, com altos índices de evasão, repetência e analfabetismo nesses anos todos.

Após a Nova Constituição de 1988 a luta pelo ensino público gratuito ganhou forças. Durante a década de 90 o Ministério da Educação encontra-se empenhado em rever o projeto educacional do país, concentrando-se na qualidade do ensino e da aprendizagem. A nova LDB foi exaustivamente debatida pela sociedade e trouxe a modernização e a democratização para o sistema educacional brasileiro. Em 20 de dezembro de 1996 a lei nº 9.394, estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, é nela que estão inscritas e garantidas as diferentes formas de organização do ensino que ampliam as possibilidades de avanço e respeito à aprendizagem dos alunos.

Sendo assim, o contexto descrito historicamente pela escola pública brasileira, desde o período de sua formação no Império, refletiu o desinteresse e a falta de compromisso do Estado, com a educação de qualidade para as camadas menos favorecidas, e retrata, de certa forma, a escola como aparelho ideológico manipulador do Estado e sociedade capitalista. Além disso, a educação pública no Brasil, sempre recebeu menos investimentos por parte do poder público do que deveria, pois os mesmos não são repassados de forma equinâme. Isso se evidencia na infra-estrutura da maioria das escolas, na carência de materiais didáticos e na desvalorização dos profissionais da educação.

1.2 UMA INCURSÃO SOBRE EVASÃO E REPETÊNCIA NO BRASIL

O Brasil enfrenta há alguns anos o grave problema do fracasso escolar, representado pelos altos índices de reprovação e evasão, que afeta principalmente as crianças oriundas dos meios populares.

Exemplos de baixa eficiência do sistema educacional brasileiro são as taxas de rendimento – aprovação, reprovação e abandono – as quais mostram o que aconteceu com o estudante ao final do ano letivo. Segundo o Instituto Nacional de Estudo e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) as menores taxas de abandono, todas abaixo de 6%, ocorrem na 2ª e 3ª séries do ensino fundamental. O agravante é que a maior taxa de abandono encontra-se na 1ª série do ensino fundamental.

Os condicionantes do fracasso escolar são diversos, distribuindo-se entre fatores ligados diretamente aos alunos e as escolas. Os fatores ligados aos alunos referem-se ao universo familiar do qual a criança se origina: a escolaridade dos pais, a participação efetiva dos pais na vida escolar e o nível sócio-econômico. Quanto aos originados no ambiente escolar, referem-se a falta de compatibilidade da escola com a vida dos alunos oriundos dos segmentos populares, salas de aula com elevado número de alunos, qualificação dos professores e etc. Os dois conjuntos de fatores podem ser considerados na explicação das altas taxas de evasão e repetências nas séries inicias. O elevado número de crianças fora do sistema de ensino, acrescido pelo processo de retardamento da escolaridade provocado pelos altos índices de evasão e repetência acabam por provocar também altíssimas taxas de defasagem na idade/série.

Os prejuízos decorrentes do atraso escolar são enormes, afetando as crianças e jovens que não conseguem concluir o ensino fundamental ou concluem após sucessivas repetências. Para o estudante em situação de atraso escolar, os prejuízos são duplos: sua auto-imagem é depreciada e seu desempenho escolar e abaixo da média.

Na década de quarenta, de acordo com um estudo realizado pelo INEP, do total de crianças que se matricularam pela primeira vez no primeiro ano em 1945, apenas 4% concluíram o primário em 1948 sem reprovações, dos 96% restantes metade não concluíram sequer o primeiro ano.

Segundo as estatísticas do INEP, entre 1954 a 1961 de cada 1000 crianças que ingressaram no primeiro ano da escola 395 passaram para a segunda sem reprovações e apenas 53 atingiram os oito anos de escolarização. De 1971 a 1978 de cada mil crianças que se matricularam na primeira série 526 matricularam-se na segunda série no ano seguinte e 180 conseguiram terminar a oitava série em 1978.

Em fins dos anos 80 e no início dos anos 90, estudos nacionais mostraram que o grande problema do sistema educacional brasileiro era a repetência e não a evasão. Segundo o modelo “Profluxo”, um modelo matemático do fluxo dos alunos no ensino fundamental que não depende de declarações sobre o passado escolar das pessoas, mas tão-somente da situação escolar no momento de coleta de dados, cerca de 50% dos alunos matriculados no sistema regular de ensino repetiam a primeira série a cada ano, enquanto somente 2% se evadiam (dados de 1982). Considerando-se as oito séries do ensino fundamental, 33% dos alunos repetiam uma série a cada ano. Neste nível de ensino, os alunos ficavam em média nove anos e os que concluíam o faziam em média de 11 anos. A grande maioria dos alunos tinha pelo menos uma repetência no ensino fundamental, mas insistiam em ficar na escola, só saindo após vários anos por não conseguirem progredir.

No início dos anos 90, um estudo realizado no Brasil, pelo Fundo das nações Unidas para Infância (UNICEF), revelou que 12,2 milhões de crianças entre 5 a 17 anos abandonaram os estudos ou nunca freqüentaram uma escola. Dos 29,4 milhões que freqüentava 57% ou seja 16,8 milhões estavam em séries atrasadas.

A taxa de promoção, que já vinha aumentando nos anos anteriores, evoluiu entre 1995 e 1997 de 65,5% para 74,5%, enquanto no mesmo período as taxas de repetência e evasão diminuíram de 26,7% para 18,7% e de 8,3% para 6,8%, respectivamente. Por outro lado, a distorção idade/série nas séries iniciais que era de 64% em 1991, caiu para 46,6% em 1998.

O quadro educacional brasileiro, no início do século XXI, apresentou avanços diante das décadas passadas. Pelos dados do Censo demográfico de 2000, existia no Brasil quase um milhão e meio de crianças de 7 a 14 anos sem matrícula ou evadidas das escolas. Essa legião de crianças fora das salas de aula representava 5,5% dos brasileiros nessa faixa etária. Neste mesmo ano, de acordo como o INEP, as taxas de evasão e repetência foram de 12% e 10,7%, respectivamente. Em 2001, a taxa de evasão foi de 9,6% e repetência 11,02%. Em 2002, as taxas de repetência e evasão foram de 11,7% e 8,7%.

Ao longo de 2003, não ocorreram mudanças nas políticas educacionais que resultassem em alterações no sistema formal de ensino ou que tivessem impactado as estatísticas dessa área.

Em geral, as taxas de rendimento mais recentes do sistema educacional no Brasil confirmam as conclusões de estudos de fluxo educacional no ensino fundamental feitos nos anos 80 e início da década de 90. Ainda assim, o abandono em 2004 continuou sendo um problema muito grave afetando 9,1% dos alunos contra 15,1% de reprovados.

Apesar dos dados evidenciarem avanços nas últimas décadas, no que se refere à universalização do acesso ao ensino, o sistema educacional brasileiro ainda convive com grandes desigualdades regionais. Segundo o INEP, as taxas de reprovação e abandono são mais elevada nas Regiões Norte e Nordeste, enquanto nas regiões Sul e Sudeste o índice de abandono e repetência são bem menores. Em 2002, enquanto, no Nordeste a defasagem idade-série chegava a 53,6% no Sudeste ela era de 21% e no Sul atingiu 19%. Quanto ao ensino fundamental, a região Norte apresenta a maior taxa de alunos reprovados (15,5%), seguida pela região Nordeste (15%), Centro-Oeste (12%), Sul (11,5%) e Sudeste (7,5%). Em relação à taxa de abandono escolar a região Nordeste apresentou a maior com 13,9%, seguida pelas regiões Norte e Centro-Oeste com 11,6%. Quanto às regiões Sul e Sudeste, menos de 5% das crianças abandonaram a escola no ensino fundamental regular.

As desigualdades de acesso demonstradas pelos índices de evasão e repetência explicam a gravidade dos problemas de fluxo educacional. Para se ter uma idéia de como o fluxo e o rendimento do sistema escolar precisam de atenção, basta verificar que a distorção série-idade no ensino fundamental afeta, hoje a metade dos estudantes matriculados.

Contudo, o perfil da educação brasileira apresentou significativas mudanças nas duas últimas décadas. Houve uma pequena queda das taxas de analfabetismo, aumento expressivo do número de matrículas em todos os níveis de ensino e crescimento das taxas de escolaridade média da população. Não obstante, o quadro educacional do país é ainda bastante insatisfatório tanto do ponto de vista qualitativo quanto em relação a alguns indicadores quantitativos.

Em suma, os dados apresentados acerca do fluxo e do rendimento educacional do ensino fundamental no Brasil, demonstram que ainda há muito a se fazer para que o sistema educacional atinja um padrão de eficiência, qualidade e eqüidade.

1.3 FATORES QUE INTERFEREM NA APREDINZAGEM DOS ALUNOS

Este capítulo intenciona apresentar e analisar os fatores que interferem na aprendizagem dos alunos. Para tanto, buscamos fundamentação teórica – José Carlos Libâneo, Maria Helena Patto, Paulo Freire, Suzana Sten entre outras – que orienta nossa análise no sentido de refletir/repensar sobre o problema do fracasso escolar, numa visão menos excludente em que o “diferente” seja considerado para que os índices do fracasso escolar não sejam agravados.

O fracasso escolar, é sem dúvida, um dos mais graves problemas com o qual a realidade educacional brasileira vem convivendo há muitos anos. Sabe-se que tal ocorrência evidencia-se praticamente em todos os níveis de ensino do país. Todavia, incidem com maior freqüência nos primeiros anos da escolarização.

Dentre inúmeros fatores correlacionados com fracasso escolar, aparecem tanto os extra-escolares como os intra-escolares. (PATTO:1999)

1.3.1 ORIGEM SOCIAL, FAMÍLIA E AS CONTRADIÇÕES DO SISTEMA ESCOLAR

A escola pública apesar de abrigar no seu contexto as camadas populares desenvolve um padrão de ensino alheio às necessidades do público atendido. Apresenta um caráter elitista que a impede de desempenhar seu papel social em conformidade com as necessidades e interesses dos alunos, e conseqüentemente minimiza as possibilidades da participação desses indivíduos de forma igualitária na sociedade.

A escola apesar do seu discurso democrático, igualitário e transformador é uma instituição reprodutora da ideologia da classe dominante. Nesse sentido está a serviço das relações de exploração das sociedades capitalistas que controlam e a adaptam as suas exigências. A Lei de Diretrizes e Bases – LDB 9394/96 estabelece:

Art.3º – I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

Art. 4º – I – ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria;

VIII – atendimento ao educando, no ensino fundamental público, por meio de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde;

Percebe-se que nem todos têm acesso a instituições de ensino, pois sempre existem problemas que contribuem para reprovação e o abandono, como falta de vagas, localização da escola, condições econômicas da família, que na maioria das vezes obriga as crianças a saírem da escola para ingressarem no mercado de trabalho informal para ajudarem no sustento da família.

O perfil da educação pública brasileira apresentou algumas mudanças nas últimas décadas, porém a realidade atual remete-nos a considerar a necessidade de políticas públicas voltadas para uma melhor formação dos professores e para utilização do currículo oculto em detrimento do currículo formal, pois são requisitos fundamentais para a melhoria dos índices de evasão e repetência escolar.

A atual realidade escolar nos evidencia uma forte associação entre origem social e rendimento escolar, mas destaca-se também a existência de fatores intra-escolares que influenciam ou determinam o fracasso ou sucesso escolar nas séries iniciais de crianças das camadas populares.

“(…) a influência do meio, especialmente do ensino, pode facilitar ou dificultar o desenvolvimento da inteligência. Se o meio social que vive a criança não pode prover boas condições para o desenvolvimento intelectual, o ensino pode proporcionar um ambiente necessário de estimulação e é para isso que o professor se prepara profissionalmente. (…)” (LIBÂNEO, 1994: 41).

As expectativas da escola sobre o desempenho dos alunos podem funcionar como uma suposição de como será o desenvolvimento desse aluno. Isto é, o aluno oriundo das classes populares de quem a escola espera menos é o que realiza menos, ao passo que aqueles advindos das classes média e alta de quem se esperam um bom desempenho acaba, na realidade, por apresentá-lo. Por fazerem parte de famílias desprovidas de recursos e de uma sociedade que predomina a cultura da classe dominante, que a escola onde essas crianças estão inseridas reproduz, e não tendo acesso ao mínimo dessas informações culturais, chegam a escola em situação de desigualdade em relação aos estudantes das classes mais altas.

“(…) sendo obrigatórios e sistemáticos os currículos e programas escolares; sendo uniforme os critérios de avaliação e as expectativas, as crianças das camadas populares são prejudicadas, porque lhes és imposto um sistema cujo código provem de situações e normas da” classe burguesa “, situando-se a criança proletária em desvantagem diante de tal código, (…)” (STEN, 1987:38)

Os alunos pobres não se sentem à vontade na escola, porque ela pouco se identifica com sua vida diária, visto que as aulas, os modos de ensinar e os valores sociais soam estranhos ao mundo social e cultural das crianças, por não estarem vinculados as suas percepções, motivações, práticas de vida e linguagem. Sua maneira de falar é corrigida o tempo todo. O conflito entre a linguagem de uma escola fundamentalmente a serviço das classes privilegiadas, cujos padrões lingüísticos devem obrigatoriamente ser usados, e a linguagem das camadas populares, que essa escola despreza, é uma das causas do fracasso dos alunos pertencentes a essa classe, na aquisição do saber escolar. (LIBANEO, 1994)

Os regulamentos e exigências escolares também são vistos como causas dos problemas que a educação enfrenta. Logo de início há uma extrema falta de vagas, e a escola tem uma localização que dificulta o trajeto de ida e volta dos alunos. Depois temos os horários e os calendários estabelecidos, os quais são criticados por não atenderem a realidade da população.

Outro fator que dificulta a permanência e o bom desempenho dos alunos na escola é a despesa com materiais exigidos pela escola como: uniforme, livros, taxas, etc…, isso porque na maioria dos casos, os pais não podem comprar o que a escola exige. Segundo XAVIER (1994), “essa trágica constatação alerta-nos para a realidade de que uma população submetida a tal estado de pobreza necessita de boas escolas. Mas, antes disso ou concomitante a isso, necessita de emprego, salário, comida, vestimenta, etc”.

Geralmente, o rendimento escolar é considerado como se não existissem diferenças materiais e humanas em várias escolas, como se uma escola de periferia fosse exatamente igual a uma escola mais central ou até mesmo uma particular. Dessa forma, a complexidade do rendimento escolar é emitida como se o sucesso dependesse apenas do potencial da criança.

Diante disso, as taxas de evasão e repetência evidenciam a baixa qualidade do ensino e a insuficiência do sistema educacional de garantir a permanência do aluno, penalizando as crianças advindas das camadas populares

Não há como negar, que as condições materiais concretas de vida da maioria das crianças que freqüentam escolas públicas, são de fato extremamente precárias, condicionando, freqüentemente um quadro de alimentação deficiente, falta de atenção e de estimulação da família e de informações, ou seja, não contam com auxílio e até mesmo espaço apropriado para estudarem, enfim, convivem com todo um conjunto de privações que é comum às classes sociais menos privilegiadas. A situação sócio-econômica e cultural de origem da criança interatuando com suas condições internas iniciais (desenvolvimento intelectual), determina a existência de uma população diferenciada no que se refere às possibilidades de superar ou não as primeiras etapas da escolarização

Vale ressaltar, que a participação da família na educação dos filhos também pode ser determinante no sucesso ou fracasso escolar. Porém, a participação ativa dos pais durante o percurso escolar dos filhos remete para um modelo de família que não corresponde às condições necessárias de vida da maioria das crianças pobres, pois são famílias que geralmente a mãe ou pai tem pouco tempo livre e pouco ou nenhum conhecimento e disposição para fazer esse acompanhamento. Sendo assim, alunos oriundos dessas famílias raramente são motivados pelos pais a prosseguirem os seus estudos.

A escola tem além da função de ensinar, uma função social que garante o processo de cidadania ao homem. Imagina-se, portanto, a dimensão da função social da família por gerar o ser humano e dar-lhe sua cultura fazendo-o pertencer àquele determinado contexto. Os pais têm condições de educar os filhos com as qualidades fundamentais da vida – diálogo, respeito, responsabilidade, etc – ou negar-lhes essa qualidades. De uma forma ou de outra a escola deveria apenas influenciar no que já deveria está alicerçado.

Porém, o atual contexto é outro, pois a família atribui as mais variadas funções a escola, exceto a de contribuir na educação escolar dos filhos. Para muitos o papel da escola é o de sanar os problemas que a família já não consegue resolver com os filhos. Desta forma, a família transfere para escola obrigações que não são suas, pois é no ambiente familiar que acontece o primeiro espaço de educação, ou seja, é quando a criança adquire valores e limites indispensáveis ao convívio social. (CASASSUS, 2002)

A realidade educacional vem mudando consideravelmente com passar dos anos, de modo especial nos compromissos e responsabilidades do educando com suas atividades escolares e a participação dos pais nesse compromisso fica cada vez mais difícil. Com os novos modelos de estruturas familiares – pais divorciados, pais e mães estressados, mães chefe-de-família, pais solteiros – os filhos ficam sem o acompanhamento escolar, o que pode afetar a qualidade da educação escolar, pois o grau de participação dos pais é significativo para eficácia da educação escolar dos filhos.

“(…) a ausência dos pais nas reuniões convocadas pela escola, desinteresse dos pais frente às tarefas escolares dos seus filhos, autoritarismo dos pais nas práticas de criação infantil, pouca intervenção verbal e ausência de hábitos de leitura no lar são considerados variáveis independentes que poderiam responder por um baixo rendimento escolar. (PATTO: 1999;144)”

É relevante destacar a participação da família para o sucesso na vida escolar do aluno, porque é no lar que a criança permanece a maior parte de sua vida, junto com os pais interiorizam as primeiras formas de educação e relações sociais, as quais serão fundamentais para aquisição da educação formal. Então, se existe uma cumplicidade entre escola e família o processo educacional torna-se mais significativo, considerando que a vida na escola não pode está desvinculada da formação recebida pela família.

Contudo, levar em consideração a origem social do educando e ter participação da família na escola é de grande valia, pois do contrário será mais difícil chegar a um desenvolvimento integral na educação da criança. Sobre essa educação se faz necessária à participação ativa dos pais na vida escolar dos filhos e a contextualização do ensino, para que o processo educacional seja de maior qualidade e as duas partes envolvidas não percam nenhuma oportunidade de estarem presentes no desenvolvimento da criança.

1.3.2 RELAÇÃO PROFESSOR – ALUNO

O professor é peça fundamental no processo educacional, pelo papel que ele representa diante do aluno como educador e mediador de conhecimentos. Porém, ele é desvalorizado pelo sistema que não lhe dá condições necessárias para desempenhar satisfatoriamente esse papel e ainda é acusado pelo fracasso do ensino.

A realidade da sala de aula exige que o profissional da educação desenvolva habilidades que possibilitem uma melhor adaptação as novas culturas e aos novos padrões de conduta social, considerando que o educador ao longo de sua carreira de magistério se depara com realidades educacionais distintas. Não obstante, cada educador deve ter claramente definido sua postura nos diferentes contextos sociais em que se encontrar, pois a relação professor-aluno, na maioria das vezes, influencia ou determina o sucesso e a permanência do aluno na escola.

Existe uma dificuldade peculiar dos professores que lecionam para crianças carentes. O professor durante sua formação idealiza o tipo de aluno que irá encontrar na sua sala de aula – um aluno comportado, pronto para ouvir, com facilidade para aprender, etc – porém, ao chegar em uma sala de aula de áreas periféricas encontra uma realidade com a qual não se preparou para lidar – alunos sujos, aparentemente desinteressados, desorganizados, desconcentrados, mal alimentados, etc – e tem que reaprender a ensinar.

“Os professores estabelecem padrões, níveis de desenvolvimento escolar, tendo como referência o aluno considerado ‘normal’, estudante com melhores condições socioeconômicas e intelectuais visto como modelos de aluno estudioso. Crianças que não se enquadram nesse modelo são consideradas carentes, atrasadas, preguiçosos candidatando-se a lista que o professor faz dos prováveis reprovados” (LIBÂNEO, 1994: 41).

Em geral, a idéia que se tem, é que para ser professor no sistema de ensino público basta tomar um certo conteúdo, preparar-se para apresentá-lo; ir para sala de aula tomar conta de uma turma de alunos e efetivar o ritual da docência: apresentação dos conteúdos, controle dos alunos, avaliação da aprendizagem, disciplinamento, etc. No entanto, a realidade da sala de aula exige uma adaptação de sua prática educativa, pois o professor se defronta com crianças que possuem muitas experiências e conhecimentos que devem ser aproveitados durante o processo de ensino aprendizagem. Sendo assim, é de suma importância uma constante adequação das propostas curriculares, para que atendam as necessidades e as características de sua clientela.

“Pensar que é possível a realização de tal trabalho em que o contexto teórico se separa de tal modo da experiência dos educandos, do seu contexto concreto, só é concebível a quem julga que o ensino dos conteúdos se faz indiferentemente e independentemente do que os educandos já sabem a partir de suas experiências anteriores a escola.” (FREIRE, 2003:98)

Uma boa relação professor-aluno é importante para criar climas de atenção e concentração sem que se perca a alegria. As aulas tanto podem inibir o aluno quanto fazer que atue de maneira indisciplinada.

A relação professor-aluno poderá ser positiva de apoio ao aluno quando o relacionamento é afetuoso e cordial. Neste caso, o aluno sente segurança, não teme a postura do professor, seu nível de ansiedade mantém-se baixo e ele pode trabalhar descontraído, criar e render mais intelectualmente. Porém, se o aluno teme constantemente a postura do professor, o relacionamento entre eles é permeado de hostilidade e contraste, então o desempenho em sala de aula poderá ser negativo, pois neste caso, há o aumento da ansiedade do aluno diminuindo sua capacidade de percepção, raciocínio e criatividade.

A relação professor-aluno que acontece em contextos distantes, no que se refere a realidade da prática docente e a realidade do educando, se resume em duas fases distintas que podemos chamar de seleção e exposição. Na primeira etapa o professor seleciona o conteúdo, organiza e sistematiza didaticamente para facilitar o aprendizado dos alunos. Depois disso, faz a exposição, isto é, a demonstração dos seus conteúdos. E o que irá ocorrer daí para frente com o aluno não é problema dele, o aluno que deverá se encarregar de memorizar as informações por ele transmitida.

“O professor passa a matéria, o aluno recebe e reproduz mecanicamente o que absorveu. O elemento ativo é o professor que fala e interpreta o conteúdo. Os alunos ainda que respondam o interrogatório do professor e faça exercícios pedidos, têm uma atividade muito limitada e um mínimo de participação na elaboração dos conhecimentos” (LIBANEO:1994,78)

Geralmente, alguns professores optam por assumir uma postura autoritária, acreditando que deixando claro esta hierarquia seus alunos irão respeitá-lo incondicionalmente. Esse profissional se impõe por seu recurso de poder, intimida seus alunos para assim garantir a atenção e ministra suas aulas sem se importar que haja educandos que não estão acompanhando. E se na avaliação esses alunos não obtiverem resultados satisfatórios, ou seja, não se enquadrarem nos seus critérios de avaliação, o professor se exime de toda responsabilidade culpando os alunos pelo fracasso no processo de ensino-aprendizagem.

O professor que concebe o ensino como uma simples transmissão de conteúdo, distancia seus alunos da aquisição do conhecimento, privando-os de desenvolver suas potencialidades e habilidades. Uma vez que, o professor desconsidera alguns aspectos inerentes do aluno – valores, cultura, expectativas, objetivos, medos, etc – os mesmos terão uma percepção negativa sobre a aquisição do saber.

Os métodos de ensino, também podem prejudicar a aprendizagem. Se o professor for autoritário, não permitirá que os alunos se manifestem, participem e aprendam por si mesmos, permitirá apenas que recebam somente o que o professor lhes dá para desenvolverem mecanicamente nas provas. Essa situação pode ser prejudicial à aprendizagem, pois contribui para passividade e dependência não permitindo que os alunos se desenvolvam de forma independente e criativa, que aprendam a decidir por sua conta própria, reconhecendo os problemas e contribuindo espontaneamente para a sua solução.

“O professor não apenas transmite uma informação ou faz pergunta, mas também ouve os alunos. Deve dar-lhe atenção e cuidar para que aprendam a expressar-se, a expor opiniões e dar respostas. O trabalho docente nunca é unidirecional. As respostas e as opiniões dos alunos mostram como eles estão reagindo à atuação do professor, às dificuldades que encontram na assimilação dos conhecimentos, servem, também, para diagnosticar as causas que dão origem a essas dificuldades” (LIBANÊO: 1994;250)

È de suma importância que o professor tenha consciência de que ele e seus alunos estão em ângulos opostos. Por outro lado, por maior que seja sua capacidade, seu conhecimento e sua informação, ele não deve se vangloriar desta hierarquia.

A relação entre professor-aluno deve acontecer em um clima que favoreça situações em classe nas quais o aluno se sinta à vontade para aprender e também expressar seus sentimentos, já que, o professor de uma criança tem grande importância na atitude futura desse educando, não só no desempenho durante a aprendizagem, mas tanto nas suas relações com sucessivos professores e até mesmo nas relações sociais.

“O professor autoritário, o professor licencioso, o professor competente, sério, o professor incompetente, irresponsável, o professor amoroso da vida e das gentes, o professor mal-amado, sempre com raiva do mundo e das pessoas, frio burocrático, racionalista, nenhum deles passa pelos alunos sem deixar sua marca.” (FREIRE:1996; 66)

O professor precisa ter sempre em mente que o aluno é um ser humano comum, com altos e baixos, com medos, problemas, aspirações e desejos a realizar. Nem todos os dias o aluno está disposto a ouvir em silêncio, a acompanhar as atividades prescritas pelo professor. O aluno é imperfeito como todas as pessoas, erra como todos, mas, como todos também têm grandes potencialidades a desenvolver. Para isso, precisam de apreço, aceitação e confiança por parte do professor. O aluno que se sente aceito e merecedor da confiança do professor manifesta entusiasmo e interesse na realização das atividades escolares, tendo então uma maior possibilidade de aprovação e permanência na escola.

Na relação professor-aluno é fundamental que os professores sejam comprometidos com sua profissão, preocupados com a produção do conhecimento em sala de aula e que desenvolvam com seus alunos um respeito mútuo pelo saber. É também imprescindível que os educadores respeitem o conhecimento que o aluno adquiriu através de suas experiências de vida, e se importe em contextualizar os conteúdos a serem transmitidos, pois é importante que a realidade escolar não esteja desvinculada da realidade de mundo vivenciada pelos discentes.

“(…) é preciso adaptar a atividade educativa as necessidade e possibilidades do aprendiz. (…) Somente um ensino de qualidade – no qual um professor interessado e bem formado maneje o conteúdo do ensino levando em conta as especificidades ao alunado, tanto no se refere às características de sua faixa etária quanto às experiências culturais – pode garantir a eficiência da escola” (PATTO: 1999;118)

Os métodos didáticos devem possibilitar, a livre participação do aluno, a compreensão e assimilação dos conteúdos, vínculos entre os conteúdos práticos e as experiências da vida prática, a independência de pensamento e a criatividade, contribuindo assim, para aprendizagem e permanência do educando na escola. Antes de ser um grande conhecedor de métodos o professor deve ser um intelectual comprometido com o aspecto político da educação, mas acima de tudo um intelectual que tenha consciência da especificidade do seu trabalho, ou seja ensinar. Para saber ensinar é preciso ter domínio do conhecimento básico, e assim, poderá contribuir para o sucesso escolar dos seus alunos.

Geralmente, quando se fala sobre uma boa relação entre professor e aluno, é comum referir-se aos aspectos emocionais, isto é, valorizar os vínculos afetivos existentes entre ambos. Porém, essa afetividade não pode ser confundida com amor entre pais e filhos, visto que pode existir uma identificação maior por um ou outro aluno, além da possibilidade de interferir de forma negativa no processo de ensino-aprendizagem.

“(…) A afetividade não se acha excluída da cognoscibilidade. O que não posso obviamente permitir é que minha afetividade interfira no cumprimento ético do meu dever de professor no exercício de minha autoridade. Não posso condicionar a avaliação do trabalho escolar de um aluno ao maior ou menor querer bem que tenha por ele.” (FREIRE: 1996; 141)

No cotidiano escolar existem vários fatores que influenciam no sucesso ou fracasso escolar dos alunos. Entre esses fatores é relevante destacar essa relação entre professor e aluno, por isso, é preciso que haja uma igualdade básica,em que o professor possa também aprender com o aluno, cada um diferenciando-se em seu conhecimento e dispondo de novas descobertas para a produção da aprendizagem. Nessa relação é importante que o professor busque um aperfeiçoamento constante, tenha um carinho especial pela profissão que abraçou e saiba utilizar sua autoridade e afetividade com moderação e imparcialidade.

2. UMA REFLEXÃO SOBRE O FRACASSO ESCOLAR NA E.M.E.F. FILOMENO DE SOUZA REIS

O objetivo deste capítulo é apresentar através de uma reflexão descritiva as causas e efeitos do fracasso escolar (evasão e repetência) na Escola Municipal de Ensino Fundamental “Filomemo de Souza Reis”, a partir dos dados coletados através da pesquisa realizada na referida escola.

2.1 GÊNESE DA PESQUISA

A fim de atender o objetivo dessa investigação que se propõe elucidar as possíveis causas e efeitos do fracasso escolar (evasão e repetência) na Escola Municipal de Ensino Fundamental Filomemo de Souza Reis, consideramos necessário, além de coleta de dados através de técnicas como observações e entrevistas, realizarmos uma pesquisa de caráter etnográfico para nos inserirmos na realidade pesquisada (observador-participante) com a finalidade de obtermos informações implícitas e significativas para o resultado dessa pesquisa.

Em nossa pesquisa consideramos importante observar e ouvir técnicos, professores, alunos e pais, relatando suas experiências no dia-a-dia da escola, destacando seus problemas, expectativas e a condução desse cotidiano. Através de conversas formais e informais foi possível confrontarmos com diferentes concepções e situações que foram relevantes para alcançarmos o objetivo de nossa investigação.

A E.M.E.F Filomemo de Souza Reis foi escolhida como campo de pesquisa, porque após dados que coletamos na Secretaria Municipal de Educação, constatamos um elevado índice de alunos evadidos e repetentes nesta escola entre os anos de 2000 a 2005, ressaltamos que os dados de 2006 não foram coletados porque os relatórios do referido ano não haviam sido concluídos, na ocasião da pesquisa.

Um dos fatores que possibilitaram a concretização da nossa pesquisa foi a aceitação e a colaboração dos informantes, pois todos, dentro de suas possibilidades, se dispuseram de forma espontânea e demonstraram compromisso desde o primeiro contato e permaneceram contribuindo até o final da investigação.

É relevante ressaltar, que apesar de existir a possibilidade de durante a pesquisa ou na análise dos dados coletados trazermos à tona características de um trabalho ineficiente da escola e dos professores diante da problemática estudada, em nenhum momento houve resistências por parte dos informantes, pelo contrário, se disponibilizaram totalmente acreditando que este trabalho os ajudaria a conhecer e compreender melhor o interior da realidade estudada, e assim buscar meios que possibilitem a redução dos índices de evasão e repetência na escola.

A amostra foi definida na segunda semana de pesquisa, início do mês de março/2007. Nas duas primeiras semanas de visitas tivemos contato com o ambiente, corpo técnico e administrativo, professores e alunos. Fizemos algumas observações em sala, e nos propusemos a compreender como a escola está organizada, perceber qual a clientela atendida pela escola e em que contexto sócio-histórico esta clientela está inserida.

O primeiro critério que utilizamos para definir a amostra, foi verificarmos junto a secretaria da escola a relação de alunos matriculados que em anos anteriores haviam evadido ou repetido, o que resultou em uma lista de 68 alunos, sendo que conseguimos conhecer e entrevistar apenas 58 alunos durante o período que permanecemos na escola, em virtude de alguns terem evadido, alguns foram transferidos e outros não tiveram disponibilidade de tempo para participarem das entrevistas.

Outro critério utilizado foi selecionar os professores que nas suas classes tivessem alunos que evadiram ou repetiram em anos anteriores. Em um primeiro momento utilizaríamos como critério, selecionar os professores que lecionavam há bastante tempo na E.M.E.F. Filomeno de Souza Reis, pressupondo que teríamos informações mais concretas a cerca do fenômeno estudado.

O último critério utilizado, foi escolher os pais que tivessem filhos com histórico de evasão ou repetência. Para isso contamos com a colaboração da direção da escola, que por meio de uma circular convocou os pais, que se enquadravam nesse critério, para uma reunião da qual somente 15 compareceram. Este quantitativo é justificado pela realidade enfrentada pela maioria dos pais das crianças da E.M.E.F Filomemo de Souza Reis, considerando que boa parte trabalham durante o dia, ficando assim impossibilitados de participarem da maioria das reuniões que são convocados.

Além das entrevistas dirigidas utilizamos conversas informais para obtermos informações pela diretora, secretário geral, auxiliar de secretaria, coordenadora pedagógica professores, alunos e pais, as quais foram registradas nos relatórios de atividades diárias

2.2 CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO DA E.M.E.F. FILOMENO DE SOUZA REIS

A Escola Municipal de Ensino Fundamental Filomeno de Souza Reis, localizada na avenida Pará, no Bairro São José, é uma das 8 escolas de ensino fundamental (1ª a 4ª série), da zona urbana, que em 2007 integram a rede municipal de ensino em São Félix do Xingu/PA.

Em busca de possíveis respostas sobre as causas do fracasso escolar (evasão/repetência) na E.M.E.F Filomeno de Souza Reis, considerando a dinâmica das inter-relações e a importância de um contexto peculiar que pode ser observado numa escola de um bairro periférico, fomos ao encontro de um bairro, das pessoas que o integram e de uma escola. Começamos pelo bairro.

Segundo informações fornecidas por pessoas que moram aproximadamente há 20 anos nesse bairro, o surgimento do bairro São José se deu por volta de 1985, com a ocupação de espaços cada vez mais distantes da cidade. Esta ocupação foi inicialmente feita mediante “grilagem” (sistema utilizado para apossar-se de terras alheias.

Quanto ao do nome do bairro, os informantes declararam desconhecer a sua origem, e em pesquisas realizadas nos arquivos da Prefeitura Municipal não encontramos informações detalhadas a respeito da origem do bairro (ano, nome, primeiro morador, etc.).

Atualmente, a maioria das pessoas que moram no bairro São José são de origem pobre, carente e trabalhadora, sendo geralmente pessoas vindas da zona rural. As famílias são numerosas, sendo que a maior parte é constituída de 5 a 8 membros e o número médio de filhos por família fica em torno de três (03). A maioria dos pais de família são trabalhadores rurais e pescadores, fato que aumenta a necessidade de diversos pais se deslocarem constantemente do bairro, principalmente no período da entressafra, enquanto a maioria das mães permanecem em casa cuidando dos afazeres domésticos e dos filhos. Porém, em alguns casos, a necessidade de arcar ou complementar no orçamento da casa faz com que algumas mães trabalhem fora como empregadas domésticas, diaristas, serventes e lavadeiras, em bairros afastados da região. São poucas as famílias que contam com ajuda de alguns de seus membros no orçamento doméstico, além do pai e da mãe, quando ocorre essa colaboração, geralmente, são dos filhos mais velhos.

Apesar da precariedade ocupacional e salarial, boa parte das famílias residem em habitações próprias, porém muitas são pequenas, sem conforto, inacabadas, de madeira, de tijolos, de barro com madeira e de lonas e palhas.

A estrutura urbana oferece luz elétrica . O bairro não conta com um posto de saúde e o atendimento médico, havendo um posto de saúde no centro, e essa distância dificulta o acesso para a população do bairro São José.

Não é comum no bairro a existência de empresas, sendo assim a população, que não trabalha na zona rural, procura emprego nos bairros mais centrais da cidade. O bairro não possui área de recreação e lazer para as crianças e jovens, o que contribui para um estado de instabilidade social. Na falta de praças, as ruas e terrenos baldios tornam-se a principal área de lazer para as crianças.

Nos dados coletados na secretaria da E.M.E.F Filomeno de Souza Reis e na Secretaria Municipal de Educação não constam datas precisas sobre o ano de fundação. Conforme informações obtidas na secretaria da E.M.E.F Filomeno de Souza Reis sobre seu histórico de fundação, a mesma foi fundada por iniciativa da Prefeitura Municipal.

A E.M.E.F Filomeno de Souza Reis é a única existente no Setor São José. A escola contrasta com as pequenas casas e barracos que a circundam. De estilo simples e padronizado o prédio da escola é constituído por 09 salas de aula, 01 sala de leitura, a secretaria, 01 sala de informática (com 20 computadores), a secretaria e a direção dividem o mesmo espaço, 01 cozinha, 01 almoxarifado, 03 banheiros e pátio.

Com relação aos recursos técnicos e pedagógicos a escola atualmente dispõe de poucos equipamentos para dar suporte às suas atividades educacionais. Conta com uma televisão, um aparelho de DVD, um computador, uma impressora (utilizados somente pela administração) aparelho de som com acessórios e caixas acústicas e um mimeógrafos. A parte da administração está bem instalada para atender as suas necessidades básicas e a cozinha conta com os equipamentos necessários para a execução de suas atividades.

A escola funciona com aproximadamente 820 alunos, com uma média de 34 alunos por sala, divididos em 24 turmas nos turnos matutino e vespertino e noturno, com faixa etária entre 7 e 60 anos, oferecendo também Educação de Jovens e Adultos (EJA) 1ª, 2ª, 3ª e 4ª etapa no período noturno. A mesma dispõe de 25 professores, sendo que 08 possuem nível superior (História e Pedagogia) e uma coordenadora pedagógica. A administração é composta pela diretora, 01 secretário, 04 auxiliares de secretaria e 08 serventes.

A clientela da escola Filomeno de Souza Reis não difere das demais que são atendidas pelas outras escolas públicas situadas nas áreas periféricas do município de São Félix do Xingu, pois, a maioria das crianças atendidas pela escola são de origem humilde com baixo poder econômico, e uma parcela vêm de lares com novos modelos de estrutura familiar (pais divorciados, pais e mães estressados, mães chefe-de-família, pais solteiros e etc).

Diante do que encontramos nessa comunidade, estudar para uns, torna-se a melhor forma de estarem em um ambiente onde encontram um apoio para os auxiliarem na formação de seu caráter.

A escola mantém um bom relacionamento com a comunidade, onde os pais são participativos, na medida do possível, nas questões das necessidades da escola, comparecendo as reuniões quando são solicitados.

2.3 ANALISANDO A REALIDADE EDUCACIONAL DA E.M.E.F FILOMENO DE SOUZA REIS SOB O CONTEXTO DA EVASÃO E REPETÊNCIA 

No intuito de fazermos uma análise mais consistente sobre as causas e conseqüências do fracasso escolar, evidenciado pelos altos índices de evasão e repetência na E.M.E.F Filomeno de Souza Reis, acreditamos ser necessário apresentarmos o mapa estatístico referentes aos anos de 2000 a 2005, que permitem perceber que essa escola sempre apresentou um número expressivo de alunos evadidos e repetentes, sendo importante esclarecer que esse fenômeno é um problema enfrentado principalmente pelas escolas que atendem crianças oriundas das camadas populares.

Baseado nas informações demonstradas pelo gráfico abaixo, podemos constatar que os percentuais de alunos evadidos e repetentes oscilam constantemente, portanto, pode-se observar que o quantitativo de alunos evadidos são consideravelmente superiores aos dos alunos repetentes, exceto no ano de 2001.

A partir dos dados coletados no mapa estatísticos dos anos 2000 a 2005, foi possível obtermos outra informação que consideramos importante para a análise que faremos sobre evasão e repetência, as maiores taxas de evasão e repetência concentram-se na primeira série, com exceção da taxa de evasão do ano de 2001

Os dados quantitativos apresentados, apesar de serem indispensáveis a nossa pesquisa, pois através deles temos uma base concreta e geral sobre o rendimento dos alunos, não são suficientes para elucidarem as possíveis causas e os efeitos da evasão e repetência, sendo imprescindível uma análise qualitativa dos fatores pertinentes ao fenômeno estudado.

Consideramos importante perceber nas observações e nos relatos dos professores as experiências e conhecer as suas concepções enquanto docentes, sobre as possíveis causas que contribuem para a produção do fracasso escolar.

Quando solicitados a informar como trabalham as diversidades de níveis de aprendizagem nas suas aulas os professores disseram que:

Trabalho conforme a necessidade de cada um, na maioria das vezes eu trabalho com atividades diferentes até todos se encontrarem em um mesmo nível. Aqueles que se desenvolvem mais rápido eu aplico tarefas mais difíceis e o que tem mais dificuldades eu aplico até tarefas de coordenação motora. (Professor 1).

Quando eu vejo que as crianças não conseguem acompanhar o conteúdo programático eu passo a atividade programada para as crianças que já estão conseguindo executá-la, e para as crianças que não estão eu aplico um trabalho de acordo com a dificuldade. Porém e muito difícil fazer esse trabalho diversificado, principalmente pelo pouco tempo disponível e pelo número de alunos. (Professor 2).

Não é muito fácil. Na minha turma de 30 alunos tenho aproximadamente dez alunos que não estão no nível da série, mas eu não posso falar para os colegas e muito menos para eles. Então eu trabalho pedindo aos alunos que estão mais adiantados, devido às sucessivas repetências ou desistências, para auxiliarem os outros que tem mais dificuldade. (Professor 3).

Tento trabalhar de forma diferenciada com a criança, porém, não se pode deixar os outros de lado. Eu passo a mesma tarefa para todos e depois vou as carteiras dos que tem mais dificuldade e começo a trabalhar individualmente. (Professor 4).

Eu procuro estar trabalhando essas diversidades através de tarefas individuais, de reforço ou com o apoio da coordenação pedagógica. Com esse tipo de trabalho é possível perceber os avanços de alguns alunos no decorrer do ano, mas outros infelizmente não têm o desenvolvimento esperado. No entanto, quando eu leciono para uma turma superlotada fica inviável trabalhar essas diversidades. (Professor 5).

Todos os professores entrevistados afirmam que trabalham considerando as diversidades de níveis de aprendizagem dos seus alunos. Os professores (1) (2) e (5) procuram trabalhar com atividades diferenciadas que atendam as dificuldades de cada criança, apesar desse trabalho exigir mais dedicação e envolvimento do professor.

Considerando a informação acima, é importante ressaltar que o ato de ensinar vai além da mera obrigação burocrática de repassar conteúdos programáticos e cumprir exigências pré-estabelecidas, educar exige primeiramente o compromisso com o educando.

O professor precisa ter a sensibilidade para reconhecer seus alunos como seres singulares, dessa forma saberá identificar os problemas individuais que dificultam o desenvolvimento dos alunos e poderá desenvolver um trabalho que contribua para o sucesso escolar dos mesmos.

Quando solicitados a informar quais os casos mais freqüentes de problemas relacionados ao comportamento na sala de aula, os professores responderam que:

A agressividades dos alunos. Eles se batem e brigam, chegando até a se machucarem na sala de aula. Acredito que eles aprendem essas atitudes na rua e na televisão, e em alguns casos os meninos recebem a orientação dos pais para agirem com a força física se alguém os provocarem. Eu fico em uma situação delicada, tento contornar conversando, mas às vezes não funciona. (Professor 1).

A falta de atenção e de interesse dos alunos. Acredito que esse comportamento pode ser atribuído as condições precárias de onde essas crianças vêm, principalmente por causa da falta de alimentação, porque eles ficam ansiosos para chegar a hora do lanche e não conseguem direcionar a atenção para as aulas. (Professor 2).

Falta de concentração na aula e o comportamento agressivo de alguns alunos. Eles se agridem verbalmente e fisicamente. (Professor 3).

O comportamento de alguns alunos que querem chamar atenção, e esta atitude não é comum só nos alunos que tem problemas como, dificuldades de aprendizagem ou a falta de acompanhamento dos pais, existem alunos bem desenvolvidos que têm esse problema. (Professor 4).

Indisciplina e preguiça de fazer as tarefas, são os problemas mais freqüentes, e quando isso se agrava eu chamo o pai ou mãe para tentarmos resolver. (Professor 5).

Segundo as falas dos professores os problemas mais freqüentes com relação ao comportamento dos alunos em sala de aula são a falta de atenção, desinteresse e o comportamento agressivo.

Os professores (1), (2), (3) e (4), mesmo com respostas diferentes, atribuem, de alguma forma o ambiente familiar como fonte desses problemas. O professor (5) apesar de não expor claramente na sua fala o ambiente familiar como origem dos problemas de comportamento, delega a família uma parcela da responsabilidade para solucioná-los.

No convívio escolar o professor tem a oportunidade de conhecer as famílias que fazem parte da escola através dos seus membros que ali a representam. Pelas crianças se conhecem um pouco de como acontece a relação entre pais e filhos, pois os alunos tendem a repetir com o educador e com os colegas situações vividas com seus pais ou responsáveis, agindo e reagindo de acordo com o exemplo dos pais, e no caso de pais ausentes podem agir conforme o exemplo mais próximo, seja o da rua ou o da mídia.

É relevante ressaltar a observação feita pela professora (2) a respeito das condições sócio-econômica de origem da criança, visto que confirma que alguns destes comportamentos, considerados como um problema, são apenas reflexo da vida cotidiana da criança, uma vez que privadas das condições básica para o seu desenvolvimento físico, psíquico e motor – alimentação, saúde, lazer, etc – certamente terá a sua aprendizagem comprometida.

Quando solicitados a informar sobre em quais situações à família é chamada à escola, os professores nos informaram que:

Na maioria das vezes, é por causa do comportamento das crianças e quando as atividades que eu passo para serem resolvidas em casa não estão sendo feitas, então eu mando um bilhetinho convocando o pai ou mãe do aluno para saber o que está acontecendo. (Professor 1)

Quando eu vejo que os alunos estão muito desinteressados, com muito desvio de atenção, quando voltam com as tarefas de casa sem fazer, quando não participam das aulas, quando estão faltando muito e quando o aluno falta o respeito com os colegas, diante dessas circunstâncias eu chamo os pais para conversar e pedir ajuda para tentar contornar a situação. (Professor 2).

Os pais dos meus alunos dificilmente vêm à escola, a não ser quando convocados pela diretoria da escola para participarem de reuniões. Eu gosto de fazer duas reuniões por semestre, a primeira quando inicia as aulas e a outra antes do período de avaliações. Não gosto de chamar os pais todos os dias para resolver problemas de alunos, eu gosto de resolver da melhor maneira possível dentro da sala de aula , até mesmo para garantir a confiança dos alunos. Motivo para chamar os pais e para levar aluno para secretaria, tem de sobra todo hora e todo dia, mas isso é estressante para mim e para meus alunos. (Professor 3).

Nas reuniões para receberem provas, nas datas comemorativas, para os pais verem as apresentações dos filhos, e quando o aluno está com muita dificuldade e eu não encontro uma solução chamo os pais para ouvir o que eles falam para me auxiliar. (Professor 4).

Nas datas comemorativas, nas reuniões pedagógicas, onde acontece a entrega de notas, nas palestras de educação e saúde. Quando o aluno está muito indisciplinado e relapso com as tarefas da escola, encaminho um documento convocando os pais. (Professor 5).

De acordo com as falas dos professores percebemos que além dos pais serem convocados para reuniões rotineiras de datas comemorativas e entrega de resultados, observa-se que a prática mais comum registrada nas entrevistas dos professores é que as chamadas feitas às famílias caracterizam-se como atendimento para resolver problemas de comportamento e baixo rendimento do filho.

Vale ressaltar que as falas dos professores evidenciam a credibilidade dada aos pais no que se refere a encontrar soluções para os problemas existentes no cotidiano escolar. No entanto, é importante que se faça desse momento à oportunidade de aumentar os vínculos com a família para uma melhor comunicação, a fim de prevenir possíveis situações desfavoráveis à aprendizagem e para encontrar soluções de problemas futuros, visto que a vida da escola é totalmente dinâmica e os problemas nem sempre esperam o momento oportuno para acontecerem. Diante disso, reafirma-se que o ideal seria primeiro conhecer a família, porém a maioria das realidades escolares quebram esta ordem.

Quando solicitados a informar se a falta de acompanhamento da família pode interferir no desenvolvimento afetivo e cognitivo do aluno, os professores nos responderam que:

Em primeiro lugar a maioria dessas crianças se desenvolvem lentamente, porque para crianças tudo que ela faz na escola é para mostrar para os pais, e se chegam em casa e os pais não se interessam pelo trabalho da crianças ela fica desmotivada, e por mais que eu incentive ela não se sentirá motivada para realizar as tarefas e não terá um bom relacionamento com os colegas. (Professor 1).

Quando o pai ou a mãe faz o acompanhamento da vida escolar do aluno, o processo de ensino aprendizagem é bem mais produtivo, porque o aluno se sente motivado e importante quando é elogiado pelos pais. O trabalho em conjunto com os pais tem resultados significativos. Os alunos que têm o constante acompanhamento dos pais são os melhores alunos dentro da sala de aula. Uma característica de muitas crianças que não tem essa atenção especial dos pais, é de estar o tempo todo tentando chamar a atenção da professora e dos colegas (Professor 2).

O acompanhamento do pai ou da mãe é fundamental para desenvolvimento dos alunos, porque as crianças sentem-se mais motivada, e a falta desse acompanhamento poderá resultar em seqüelas que dificultarão a sua formação plena, porque as crianças precisam de um alicerce familiar para amar e ter segurança . (Professor 3).

A falta de acompanhamento dos pais compromete o desenvolvimento afetivo e cognitivo da criança. A maioria dos pais dos meus alunos trabalham fora, e quando chegam a noite em casa os filhos já estão dormindo, as crianças não tem ninguém que os ensinem as tarefas de casa, porque ficam sozinha o dia todo e esta falta de dialogo prejudica o desenvolvimento afetivo, já que o acompanhamento familiar favorece a expansão do círculo de amizade e o melhor relacionamento com os colegas. (Professor 4).

Além da escola os pais também têm o compromisso de educar, e é nessa relação que a criança busca segurança, apoio e carinho. E através do relacionamento familiar que ela desenvolve a sua afetividade. Se a criança não se sente importante nessa família, é lógico que isso vem interferir em todo os aspectos do seu desenvolvimento, por isso o acompanhamento dos pais está diretamente ligado ao sucesso escolar dos filhos. (Professor 5).

Segundo as respostas dadas pelos professores, a vida escolar e afetiva da criança é completamente afetada, na maioria dos casos, pela falta de acompanhamento dos pais. Nas respostas dadas pelos professores, todos concordaram sobre o prejuízo que os filhos têm por não poderem contar com a atenção dos pais.

Desse modo, a falta de diálogo, de segurança e de motivação dentre outros fatores, prejudicam consideravelmente o desenvolvimento cognitivo da criança. Estes fatores caracterizam-se pelo medo de expor suas idéias em sala de aula, por outro lado, podem estar refletidos pela auto afirmação, percebida facilmente pelos professores quando os alunos insistem em chamar atenção a todo momento, como afirma a professora (2).

A criança necessita crescer cercada de referenciais que lhes passem carinho, atenção e reconhecimento pelas suas atitudes. Isso, lhe traz a certeza de que é importante para os seus pais e demais pessoas a sua volta.

Assim, a criança precisa saber que pode contar com a família para o acompanhar, participando de sua vida educacional, pois a escola lhe proporcionará conhecimento e o despertará para comportamentos sociáveis e afetuosos, porém só a família o poderá torná-lo seguro e maduro para fazer os discernimentos necessários para a sua vida.

Quando solicitados a informar como os professores devem agir quando a família fica alheia a vida escolar dos filhos, os professores nos informaram que:

Tem que ser feito um trabalho mais específico, e que envolva todas às pessoas da escola, diretora, coordenadora e professores, em um trabalho de conscientização dos pais para a importância da educação dos filhos. (Professor 1).

Quando eu percebo que o pai ou a mãe não se interessa pela educação do filho, procuro compensar essa carência, sempre motivando-os, elogiando-os e dando carinho, tento mostrar a eles que são importantes para mim e para aos colegas. (Professor 2).

Aconselho os pais a conversarem mais com os filhos, pois acredito que o diálogo entre pais e filhos é capaz de resolver qualquer problema. (Professor 3).

Deve insistir constantemente nessa vinda dos pais ou responsáveis até à escola. (Professor 4).

A escola deverá buscar estratégias para envolver a família. Como exemplo cito a promoção de eventos que contribuam com a participação efetiva da família. (Professor 5).

Apenas o professor (2) respondeu que tenta compensar a ausência da família na vida escolar dos alunos motivando-os, elogiando-os e dando carinho, tentando mostrar que são importantes para ela e para os colegas. Na opinião dos outros professores observa-se que consideram necessária a participação efetiva dos pais na vida escolar dos filhos.

Apesar da atitude do professor (2) ser importante para proporcionar um clima favorável para uma boa relação entre professor e aluno e possivelmente um melhor desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem, não será suficiente para resolver totalmente os problemas que têm origem no ambiente familiar, e que interferem de forma negativa na vida escolar dos alunos.

Por outro lado, diante dessa falta da participação dos pais é importante que se insista nessa aproximação família-escola. Porém quando não é possível, cabe ao professor assumir algumas atribuições que antes cabiam a família, com o objetivo de amenizar os problemas provenientes do ambiente familiar que acabam por refletir negativamente no ambiente escolar, sendo evidenciados nas relações interpessoais comprometidas e nas dificuldades de aprendizagem. Entretanto, nessa afirmação não implica dizer que o professor deverá assumir o papel do pai ou da mãe do seu aluno, tentando suprir uma carência afetiva cuja origem determina que será suprida necessariamente pelos pais, sendo assim cabe ao professor por meio do apreço e da aceitação conquistar a confiança dos seus alunos, mantendo sua postura de educador.

Quando solicitados a informar se já atenderam pais que demonstraram não saber o que fazer em relação ao filho e que atitude tomou frente a esse fato, nos disseram que:

Na minha sala tem um caso assim, o pai diz que já não sabe o que fazer, que bate e bate e não adianta, então eu sempre aconselho que bater não é a melhor forma de resolver o problema, pois acredito que o diálogo é a melhor maneira de lidar com as crianças. (Professor 1).

É o que mais presenciamos. O pai chega e fala que não sabe mais o que fazer com o filho e me pede que eu dê um jeito e se for preciso que eu o castigue. Nessas situações eu converso com os pais e esclareço que o papel do professor não e agredir ou castigar as crianças, explico a eles que a função do professor é transmitir o conhecimento para o aluno e cabe aos pais passar os valores básicos e essenciais para a criança. (Professor 2).

Eu falei mãe, a senhora colocou seu filho no mundo para educar, para amar, para ajudar, e não é porque você trabalha o dia inteiro que você vai abandoná-los, converse com eles, reconquiste a confiança e o respeito. (Professor 3).

Eu costumo conversar com os pais tentando mostrar que ele deve ter mais autoridade com o filho. Eu sempre converso muito com os pais sobre suas responsabilidades, mas eles não querem tomá-las para si. (Professor 4).

Procuro conversar com os pais, com o aluno e com a coordenação pedagógica para encontrarmos a melhor forma de resolver o problema. (Professor 5).

Pelas respostas dos professores, os pais que passam por dificuldades com os filhos sejam de ordem disciplinar ou não, correm o risco de recuar ao invés de enfrentar os problemas, vendo-se de repente, sem saber o que fazer. Todos os professores entrevistados já atenderam pais nessas condições e as suas orientações às famílias foram semelhantes.

Todos os professores chamaram a atenção para diálogo constante entre pais e filhos, demonstraram-se conscientes de que não podem assumir esse papel, acreditando que a família é a fonte mais provável para a solução dos problemas.

A ausência dos pais pode acarretar na redução da autoridade que os pais devem ter sobre os filhos, e conseqüentemente corre-se o risco da criança não reconhecer qualquer outra forma de autoridade, ficando indiferente às regras existentes em qualquer ambiente de convívio social. A criança não colocando em prática os valores indispensáveis ao convívio social poderá dificultar o trabalho do professor e prejudicar a sua aprendizagem, pois não terão noções de respeito e responsabilidade. Daí a importância dos pais terem naturalmente autoridade sobre os filhos, e se em alguns casos esta já não existir, os valores que estão adormecidos poderão ser resgatados através do diálogo, da aproximação e com bons exemplos.

Quando solicitados a informar como o professor deve agir e desenvolver seu trabalho quando tem freqüentemente alunos que não realizam tarefas de casa, que esquecem os livros e que não tem a família trabalhando junto à escola, nos responderam que:

Em primeiro lugar ter calma e paciência para contornar as situações adversas do cotidiano da sala de aula. Procuro trazer metodologias diferentes como não passar tarefa para casa. (Professor 1).

Por mais que o aluno esqueça o livro ou não faça a tarefa de casa eu sempre procuro incentivá-los a fazer aqui mesmo em sala, seja em grupo ou individualmente. (Professor 2).

É necessário, neste caso que o professor estimule ainda mais esta criança, assim como procurar saber o motivo pelo qual o aluno não está tendo a devida atenção e auxílio dos pais. (Professor 3)

O professor deve desenvolver um trabalho para conscientizar os alunos que a responsabilidade das tarefas de casa é dele, mas quando esses alunos não trazem as tarefas prontas o professor deve ensiná-las durante a aula. (Professor 4).

Nesses casos o professor deve fazer um trabalho que contemple as necessidades desses alunos, como passar menos tarefas para casa, e quando passar respondê-las no quadro no dia seguinte, e no caso do esquecimento dos livros os alunos podem estudar em grupo. (Professor 5).

Diante das respostas dadas pelos professores entrevistados observa-se que a maioria consideram que a melhor forma de lidar com essas situações é utilizando metodologias adequadas a realidade dos alunos.

O professor (3) enfatiza a importância de incentivar os alunos e a necessidade de conhecer os motivos que interferem no bom andamento do processo de ensino-aprendizagem. Enquanto o professor (4) valoriza um trabalho de conscientização para os alunos sobre responsabilidades que lhes cabe enquanto estudantes. Teoricamente é no convívio familiar que as crianças internalizam esse valor, no entanto quando a participação da família não é suficiente para as crianças aprenderem a serem responsáveis é fundamental que o professor os direcione.

Consideramos fundamental verificarmos também nesta pesquisa a existência de fatores externos (o universo familiar do qual a criança se origina, a escolaridade dos pais, a participação efetiva dos pais na vida escolar e o nível sócio-econômico) que podem influenciar na produção do fracasso escolar, a partir da observação da realidade da comunidade, das entrevistas e diálogos informais com os pais e com os alunos.

O grau de escolaridade dos pais pode ser apontado como um dos fatores externos que podem contribuir para a produção do fracasso escolar, conforme afirma FERREIRO (2000) “o analfabetismo dos pais está relacionado com fracasso escolar dos filhos”.

Dos pais entrevistados na E.M.E.F. Filomeno de Souza Reis apenas 6% das mães e 20% dos pais declararam-se analfabetos, no entanto, a maioria tem baixo nível de escolaridade, sendo que 46% dos pais e 80% das mães não concluíram o ensino fundamental, tendo cursado no máximo a 4.ª série. Na opinião desses pais esse fator interfere de forma negativa no bom desempenho escolar dos filhos, como relata a Sra. A “eu fico triste quando meu filho não consegue fazer a tarefa, mas eu não posso ajudá-lo”. Neste relato fica evidente o sentimento de impotência da mãe diante da impossibilidade de ajudar o filho diretamente, ensinando-o a fazer a tarefa. Nesses casos os pais considerando-se desprovidos de conhecimento mais amplo deixam de acompanhar e em algumas vezes não conseguem demonstrar interesse pela atividade escolar do filho, deixando a total responsabilidade para escola na execução de qualquer atividade escolar dos filhos.

Como confirma a fala do Sr. B “quando a tarefa de casa é muito difícil e minha filha não consegue responder, falo para ela levar para escola que a professora ensina”.

Nas falas dos pais entrevistados observamos que a concepção que têm sobre o acompanhamento da vida escolar dos filhos se resume em dois tipos de participação. A primeira é de estar ajudando diretamente na execução das tarefas escolares e a outra é estar presente nas reuniões rotineiras que a escola os convocam.

Geralmente, quando os pais não possuem um grau de escolaridade que viabilize a efetivação da primeira participação, na maioria dos casos, a atitude mais comum é distanciar-se da oportunidade de participar ativamente da vida escolar dos filhos, por não reconhecerem que existem outras maneiras de estarem presentes na vida escolar dos seus filhos, como o incentivo e a demonstração de interesse pelo seu desenvolvimento escolar, como fica evidente na fala da professora (1):

“O pai e a mãe podem ser analfabetos, mas se tirarem um pouco do seu tempo para sentar-se ao lado do seu filho para vê-lo fazer a tarefa de casa ou para perguntar como foi a aula, com certeza esta criança se sentirá mais motivada e isso fará uma grande diferença no seu desenvolvimento escolar”.

Percebe-se o outro modo de participação que completa a concepção que os pais têm sobre o acompanhamento da vida escolar dos filhos quando 60% dos pais entrevistados afirmam que fazem esse acompanhamento freqüentemente, ressaltando que participam de todas as reuniões que são convocados, datas comemorativas, entrega de resultados e para tratar de assuntos referentes ao comportamento dos filhos. Como afirma a sra. C “faço sempre esse acompanhamento, nunca deixo de vir à escola quando meu filho leva um bilhete para casa”.

Desse modo a relação família-escola perde uma característica essencial, a continuidade, que se refere à parceria recíproca e voluntária entre pais e a escola, objetivando o sucesso escolar das crianças. Se não existir essa co-participação à relação família-escola acontecerá de forma fragmentada, permanecendo a vida escolar e a vida familiar em âmbitos totalmente distintos, e essa relação será formalmente consolidada mediante as convocações que a escola emite para os pais.

O ideal seria que a parceria entre a escola e a família não existisse somente nos momentos difíceis vividos pelos alunos, mas sim em todas as situações, pois é importante que percebam o quanto podem encontrar apoio seja no convívio familiar ou escolar.

Outro fator externo que pode influenciar nos elevados índices de evasão e repetência na E.M.E.F. Filomeno de Souza Reis, percebidos em nossas observações da realidade da comunidade e nas entrevistas e conversas informais com os pais, são as condições socioeconômicas evidenciadas pelas condições materiais e pelas atividades profissionais da maioria dos pais entrevistados.

As precárias condições socioeconômicas presentes na maioria das famílias das camadas populares determinam as suas prioridades, sendo geralmente aquelas que têm necessidade de serem obtidas a curto prazo, como a alimentação e a saúde. Nessa realidade a educação se torna inviável como prioridade, visto que é um investimento que exige tempo e o retorno é a longo prazo, e mesmo que essas famílias a considere fundamental não podem priorizá-la em detrimento de suas necessidades imediatas.

Em busca de oferecer a família uma vida sem muitas privações e diante da falta de escolaridade, que se torna um empecilho para encontrarem atividades profissionais na zona urbana, 60% dos pais entrevistados trabalham em atividades rurais.

Em virtude dessa realidade, muitas famílias deslocam-se constantemente para diferentes locais da zona rural a procura de emprego, e como conseqüência os filhos abandonam os estudos – principalmente a partir do segundo semestre – no restante do ano letivo e retornam no ano seguinte, e em alguns casos interrompem apenas no período da entressafra, retornando em seguida para prosseguirem os estudos, o que ocasiona, na maioria dos casos, a repetência, pois alguns alunos não conseguem acompanhar o nível de aprendizagem do determinado período do ano letivo.

Nessas condições a educação formal dos filhos termina ficando em segundo plano, tendo em vista a necessidade de levarem os filhos para o campo, por não terem onde e com quem deixa-los na cidade, principalmente quando os filhos são muito pequenos e também porque precisam da mão de obra dos filhos na lavoura. Como afirma a sra. D.

“Preciso tirar meu filho da escola para levar para a roça para ele me ajudar. Bem que eu não queria tirar ele da escola, mas quando chega o tempo de cortar, bater e secar o arroz todo mundo lá de casa tem que ajudar meu marido”.

Apesar da necessidade dos pais tirarem seus filhos da escola durante o ano letivo, 73% dos pais entrevistados consideram muito importante a educação formal para o futuro dos filhos. Nas entrevistas e nas conversas informais com os pais a concepção de educação ficou evidente como forma de ascensão social, uma vez que o desejo dos pais é que os filhos não passem pelas mesmas dificuldades e privações que passaram por não terem um grau de instrução que os permitissem ter acesso a outras oportunidades profissionais que lhes garantissem melhores condições de vida, como expressa a sra. E :

“Eu acho a escola muito importante, porque eu não quero que meus filhos passem o que eu e meu marido passamos, mas a nossa condição não nos possibilita deixar os meninos todo tempo na escola. Quando meu marido arruma um emprego temos que levar eles porque não tenho com que deixar, então todo mundo tem que ir para a fazenda para trabalhar. Isso acaba prejudicando, pois dos tempos que meu filho mais velho estuda já era para ele está na 7ª série, e ele está na 3ª correndo o risco de não passar de ano, por que o pai dela arrumou um serviço em uma fazenda longe daqui, e está doido para nós mudarmos de novo”.

Nas entrevistas solicitamos aos pais, cujos filhos tem um histórico de várias repetências, a informarem se conheciam os motivos das sucessivas reprovações e 60% dos pais atribuíram como causa a falta de interesse do filho, enquanto 40% atribuíram a outros motivos, como conflitos familiares (separação dos pais, atritos com padrastos ou madrastas, discussões pela guarda da criança entre mãe e avó e etc), evasão na época da entressafra, grau de escolaridade dos pais, relação professor-aluno (metodologia) e falta de acompanhamento da mãe (26% das mães entrevistadas não têm companheiros e por esse motivo trabalham em atividades domésticas o dia todo para arcar com o orçamento doméstico).

Os dados acima apresentados demonstram que a maioria dos pais não reconhecem que podem existir outros fatores que contribuem para o insucesso escolar dos filhos e que a falta de interesse dos filhos pode ser uma conseqüência das precárias condições socioeconômicas e das relações interpessoais comprometidas.

Observamos que os 60% dos pais que atribuíram como única causa da repetência a falta de interesse dos filhos todos possuem um baixo grau de escolaridade, tendo cursado no máximo a 2ª série do ensino fundamental. Esse motivo pode influenciar na construção da concepção sobre esse fato, pois poderá ser formada a partir do que para eles está evidente, o filho que tem preguiça, desatento, que não gosta de ir para a escola e nem responder as tarefas.

A partir dessa concepção é importante destacar que a educação informal – adquirida no cotidiano – é fundamental para a aquisição de experiências e valores culturais, cuja construção do conhecimento será determinada pelo meio onde são adquiridas. No entanto, a educação formal – adquirida na escola – proporciona ao indivíduo um conhecimento mais elaborado, que possibilita ampliar as concepções sobre os mais diversos assuntos de forma sistematizada.

Nas entrevistas e nos diálogos informais com os alunos, foi possível uma maior aproximação para uma melhor compreensão da realidade estudada, pois a partir da visão dos alunos percebemos como algumas conseqüências do fracasso escolar pode comprometer, em alguns casos, o desenvolvimento do processo de ensino aprendizagem.

Dos alunos entrevistados, 33% já tiveram que abandonar os estudos por algum motivo, desses, 20% também repetiram em anos anteriores, enquanto 67% possuem apenas histórico de repetência, sendo que 80% dessas repetências ocorreram na primeira e/ou segunda série.

Dos alunos com histórico de evasão, 90% informaram que o motivo que os levaram a interromper os estudos em um determinado período foi à necessidade de deslocarem-se para zona rural para ajudarem os pais no período da entressafra. Essa informação reafirma as causas da evasão apresentadas anteriormente pelos pais e pelos professores.

Outro fator que pode contribuir para o aumento das taxas de evasão desses alunos, são os desníveis das idades, variando de 07 a 16 anos na mesma sala. Em alguns casos, os alunos maiores não se identificam com o ambiente e com as metodologias, sendo comum ficarem isolados.

Como observamos as maiores taxas de repetência concentram-se na primeira e na segunda série. As crianças quando vão para escola ainda pequenas, necessitam de maior atenção e cuidados, dependendo dos pais a todo momento, inclusive na organização do material escolar, para arrumá-las e para levá-las à escola. Podemos observar essa dependência na fala do aluno A “eu repeti a 1.ª série duas vezes porque eu não conseguia vir para a escola sozinho, e as vezes minha mãe não tinha tempo de me trazer porque ela trabalha”.

Sendo assim, se os pais são ausentes, não podendo por algum motivo dar essa atenção especial aos filhos, esses alunos poderão não alcançar o rendimento esperado, pois ficarão sem incentivo e não terão meios que os permitam compreender o quanto é importante ter responsabilidade com sua vida escolar.

Apesar de todos os alunos terem atribuído a si mesmo a culpa do seu insucesso escolar, em virtude da falta de interesse, da falta de atenção e do seu comportamento em sala de aula, foi possível percebermos outro fator que influencia de forma negativa no desempenho escolar, implícitos na fala desses alunos, a falta de acompanhamento da família. Como podemos observar na fala do aluno B “eu já aprendi fazer minhas tarefas de casa sozinho, só quando é difícil que eu trago para escola para a professora me ajudar”

Quando solicitados a informar sobre quem os ajudam nas tarefas escolares, 60% dos alunos responderam que fazem sozinhos, seguidos de 18% com ajuda dos irmãos, 12% realizam com o auxílio da mãe e 10% com ajuda de outras pessoas da família ou vizinhos.

Algumas crianças nunca tiveram seus pais presentes na sua vida escolar, esse motivo as impossibilitam de reconhecerem que a família deve fazer parte do seu cotidiano escolar, visto que, não podem sentir falta de algo que nunca tiveram. Diante dessa situação, a visão que as crianças têm é que a educação formal é de responsabilidade sua e da professora, e como, para eles, a professora sempre cumpre efetivamente o seu papel, o que resta e culpar-se por seu insucesso.

Em alguns casos, as crianças atribuem a si mesmo a culpa de suas reprovações por ouvirem constantemente dos familiares que são incapazes de aprender ou que são desinteressados. A criança que não tem o acompanhamento e a criança que freqüentemente é rotulada pela família ou pelas pessoas próximas, poderá ter sua auto-estima afetada, e conseqüentemente o seu desenvolvimento cognitivo comprometido, pois, ficarão desmotivadas e se sentirão inseguras.

O aluno deve ser sempre o centro do processo de ensino aprendizagem, se ele não consegue avançar com sucesso rumo a uma aprendizagem significativa, é importante que todos os envolvidos neste processo (família e escola) percebam onde está a origem do problema, e a partir daí trabalhar em parceria para assim ajudar na superação do problema.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A educação escolar (educação formal) como processo complexo que acompanha o indivíduo ao longo de sua vida é permeada de múltiplas experiências e várias fontes de aprendizagem, considerando que o ser humano está inserido em um contexto sócio-histórico-cultural, onde a vida torna-se essencialmente educativa.

Tratando-se de escolas públicas, que atendem crianças de área periférica, é importante reconhecer características peculiares presente nessa realidade, como o fator social. Dessa forma, os problemas enfrentados pela educação escolar devem ser estudados levando em consideração a dinâmica da realidade na qual está inserida, para assim buscar as possíveis fontes geradoras dos problemas do cotidiano escolar.

Partindo desse princípio, identificamos através desta pesquisa as possíveis causas e conseqüências do fracasso escolar na E.M.E.F. Filomeno de Souza Reis, evidenciado pelos altos índices de evasão e repetência, considerando necessário verificarmos como esse fenômeno é produzido a partir da estrutura organizacional da escola, da relação professor-aluno, da origem social e da relação familiar e suas implicações no processo de ensino-aprendizagem.

A estrutura organizacional da E.M.E.F. Filomeno de Souza Reis segue as normas pré-estabelecidas (matriz curricular, processo avaliativo, projeto político pedagógico e etc) pela Secretaria Municipal de Educação, destinadas a todas as escolas públicas municipais. Essa forma de organização padronizada, sem contextualização, geralmente, se torna insuficiente para contemplar as características singulares de cada realidade escolar. No entanto, é importante ressaltar que a contextualização não deve estar presente apenas no conteúdo e no discurso da escola, é necessário tornar-se ação desde a construção do planejamento escolar.

Os dados apresentados no capítulo anterior, constataram que essa escola desde o ano de 2000 sempre apresentou elevados índices de evasão e repetência. No entanto, segundo informações do corpo administrativo, durante esse período não houve nenhuma ação ou proposta de intervenção por parte da escola, voltada para superação total ou parcial desse problema.

Na escola pesquisada, a evasão ocorre com maior incidência a partir do segundo semestre do ano letivo, em virtude do período da entressafra. Essa situação não pode continuar sendo considerada como parte imutável desse contexto escolar, pois a partir do momento que os profissionais da educação reconhecem que as condições socioeconômicas dos pais não os permitem a sua permanecia na zona urbana, para que os filhos possam prosseguir os estudos, é necessário que haja uma inquietação de todos os envolvidos no processo educativo a fim de encontrar soluções viáveis que contribuam para a permanência dos alunos na escola.

Uma solução que pode ser encontrada na estrutura organizacional é mudança do calendário escolar, adequando-o a essa realidade. Outra solução viável, é a elaboração de um projeto que viabilize cursos profissionalizantes para os pais, visto que se torna uma oportunidade para encontrarem empregos na cidade e ainda uma possibilidade, se desejarem, de garantirem um maior grau de escolaridade.

Ao se considerar a prática educacional na escola, deve-se evitar a aceitação, voluntária ou imposta, de fórmulas genéricas e pré-estabelecidas de organização e de intervenção, pois, assim como não há escolas com realidades idênticas não se pode projetar ação educativa a partir de um modelo inflexível e descontextualizado.

A pesquisa realizada nos permitiu conhecer a realidade da relação professor-aluno diante do contexto sócio-econômico-cultural e das diversidades dos níveis de aprendizagem dos alunos da escola estudada.

O professor no exercício de sua prática docente deve ter a consciência de que cada sala de aula é um “mundo” distinto que terá que compreendê-lo minuciosamente para conduzir o processo de ensino-aprendizagem objetivando o sucesso escolar dos seus alunos. Sendo assim, se os métodos de ensino, os recursos didáticos e as técnicas de comunicação, forem inadequadas as características da turma ou de cada aluno a relação professor-aluno poderá fazer parte de um vasto leque de fatores que podem influenciar negativamente na aprendizagem dos alunos.

O professor deve estar constantemente avaliando sua prática, para assim identificar seus erros, para corrigi-los, e acertos, para mantê-lo e aperfeiçoá-los, garantindo assim um melhor rendimento dos alunos.

Os professores entrevistados atribuíram a responsabilidade do insucesso dos alunos à situação econômica, a família e de alguma forma a própria criança. É relevante destacar, a capacidade que os professores tiveram em reconhecer outros fatores que podem influenciar na produção do fracasso escolar, além dos que foram identificados pela maioria dos pais e pelos alunos entrevistados, entretanto, observamos que em nenhum momento durante as entrevistas, os professores deixaram transparecer, de forma implícita ou explícita, que acreditam ter uma parcela de culpa no insucesso escolar dos seus alunos, pelo contrário, afirmaram que trabalham de acordo com as individualidades de cada aluno.

Apesar dos professores terem afirmado que trabalham de acordo com as singularidades dos alunos, tanto no que se refere às diversidades dos níveis de aprendizagem quanto nas diversidades sócio-econômica-cultural, os mesmos encontram dificuldades com as situações adversas do cotidiano escolar, deparando-se com vários obstáculos que os impedem de realizar uma autêntica atenção às particularidades, como a falta de recursos didáticos e o stress ocasionado, principalmente, pela falta de tempo, pois com a desvalorização do trabalho do profissional da educação, a maioria dos professores, têm a necessidade de trabalharem no mínimo dois turnos, para garantirem o sustento da família.

Para que haja uma redução nos índices de evasão e repetência, proporcionada pela relação professor-aluno, faz-se necessário que os professores avancem do discurso descritivo sobre as causas que já identificaram para uma auto-avaliação sobre a sua prática docente, para que verifiquem o que eles enquanto educadores têm feito de insuficiente para que essa situação continue.

Mesmo que a aprendizagem da maioria dos alunos não esteja equivalente ao nível da série, pois existem dificuldades de leitura, de interpretação de textos e de mundo entre outras, na maioria das salas percebemos um clima harmonioso, onde prevalece o respeito, a aceitação e a valorização do outro, proporcionado pela afetividade que existe entre professor e aluno.

A afetividade na relação professor-aluno é importante para um melhor desenvolvimento da aprendizagem, pois está diretamente ligada a motivação, que é necessária para um melhor rendimento dos alunos. Todavia, se esta afetividade está desvinculada de uma prática docente voltada para atender de forma suficiente as necessidades dos educandos o professor não efetivará de forma eficaz o seu papel de condutor do processo de ensino aprendizagem.

Considerando que os elevados índices de evasão e repetência na E.M.E.F. Filomeno de Souza Reis é uma realidade enfrentada, em maior ou menor proporção, por todas as séries, é necessário que os professores façam um trabalho em parceria, com a finalidade de superar esses problemas não apenas no contexto de sua sala de aula, mas que se preocupem com todas as situações que ocorrem no contexto escolar, pois futuramente o professor poderá ter em sua sala de aula um aluno que enfrenta algum tipo de dificuldade que antes pertencia à outra turma, e assim terá mais facilidade em fazer um trabalho direcionado por já conhecer a sua realidade.

A origem social tem sido uma das causas mais apontadas para justificar os resultados negativos no desempenho escolar dos alunos, sobretudo quando são obtidos por alunos oriundos de famílias de baixos recursos econômicos.

Na E.M.E.F. Filomeno de Souza Reis percebemos que este fator interfere de forma negativa no rendimento desses alunos. Algumas crianças convivem com uma realidade de extrema pobreza, passando por várias privações como um quadro de alimentação deficiente, falta de materiais escolares e etc. O aluno que passa por esses tipos de privações, principalmente, a falta de alimentação, geralmente não consegue concentrar-se nas aulas, o que ocasiona um déficit na sua capacidade de apreensão, visto que em alguns casos desenvolvem dois tipos de comportamento, ficando dispersos ou inquietos, e um dos motivos é expectativa da hora da merenda.

A origem social das famílias pesquisadas pode determinar, na maioria das vezes, até mesmos como serão constituídas as relações familiares, bem como influenciar diretamente para a evasão de alguns alunos.

Nessa realidade, muitos pais têm a necessidade de procurarem empregos que garantam melhores condições de vida para sua família. Diante de isso, a ausência dos mesmos torna-se inevitável, pois em alguns casos, a falta de escolaridade dos pais dificulta o acesso a melhores oportunidades de emprego na cidade, sendo necessário procurarem trabalho em atividades rurais, e a mãe por sua vez toma para si a maior parcela de responsabilidade na educação e na saúde dos filhos e toda a responsabilidade do cuidado com a casa no que se refere à administração do orçamento doméstico, e algumas ainda trabalham fora como empregadas domésticas para complementar esse orçamento. Nessas condições a mãe fica sobrecarregada, e em algumas, apresentam um elevado grau de stress que dificulta o bom relacionamento com os filhos, e conseqüentemente, não tem condições e disponibilidade de tempo para acompanhar a vida escolar dos filhos.

Outra situação que acontece em virtude dessa realidade são os pais que levam toda a família para a zona rural, para o ajudarem no trabalho da lavoura ou simplesmente para evitarem que a família passe por privações, principalmente, a falta de alimentação, e nessas condições a educação escolar dos filhos é deixada para segundo plano.

Em algumas famílias pesquisadas, a mãe, por não ter companheiro, arca com toda a responsabilidade do cuidado com os filhos e de providenciar o orçamento doméstico, não dispondo de muito tempo essas mães deixam de participarem ativamente da vida escolar dos filhos.

Os conflitos familiares – separação dos pais, atritos com padrastos ou madrastas, discussões pela guarda da criança entre mãe e avó e etc – ,bem como a ausência dos pais, tanto no que se refere a ausência física quanto a falta de diálogo e de integração familiar, reflete na sala de aula de forma negativa, no comportamento e no desenvolvimento cognitivo e afetivo dos filhos. Nesse sentido, a ausência dos pais se torna um entrave para o desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem, visto que a participação dos pais na vida dos filhos através do acompanhamento de suas atividades e da apreciação de suas etapas é determinante para que os filhos se sintam responsáveis, compreendidos, seguros, capazes e amados.

Diante dos dados coletados e da análise realizada pudemos identificar, além das possíveis causas ora apresentadas, algumas conseqüências produzidas pela evasão e pela repetência na E.M.E.F. Filomeno de Souza Reis.

As conseqüências da evasão e da repetência, que constatamos nesta investigação, são as mesmas, a distorção idade/série, desmotivação, evasão e a repetência. No entanto, durante a análise dos dados verificamos que na medida que esses fatores se apresentavam como conseqüências pudemos também identificá-los como causas, e em alguns momentos assumiam as duas características.

A distorção idade/série é conseqüência da evasão e da repetência, porque o aluno que evade ou repete terá um atraso na sua vida escolar, retardando a conclusão dos seus estudos. Essa conseqüência foi identificada principalmente pelos desníveis de idades facilmente percebidos nas salas de aula. Esse fator é identificado como causa do fracasso escolar (evasão/repetência) a partir do momento que o aluno evade por se sentir constrangido por estar entre crianças menores, ou repetem por estarem em uma fase que as metodologias dos professores não estão direcionadas.

A desmotivação é uma característica comum nos alunos com histórico de evasão e repetência. Os alunos evadidos quando retornam a escola não se sentem à vontade, não se reconhecem como parte do ambiente escolar, não tendo tanto apreço e responsabilidade pelos estudos. Para os alunos repetentes as aulas se tornam monótonas e pouco atrativas, por terem estudado o mesmo conteúdo e convivido, provavelmente, com as mesmas metodologias no ano anterior. Os comportamentos identificados nos alunos desmotivados são o isolamento ou a dispersão, sendo também considerados por alguns professores, pelos pais e por eles mesmos como desinteressados. Diante dessa situação o aluno poderá repetir ou evadir devido a desmotivação.

Como apresentamos nos parágrafos anteriores a evasão e a repetência podem ser conseqüências da distorção idade/série e da desmotivação, mas podem também ser identificadas como conseqüências de históricos de evasão e repetência, uma vez que a distorção idade/serie e a desmotivação são ocasionadas, em alguns casos, pelo fracasso escolar (evasão e repetência) dos alunos.

Diante dessas constatações, a escola pesquisada, representada pelos profissionais da educação que a integram, deve atentar-se para as novas responsabilidades que lhes são atribuídas, sendo importante que todos percebam a necessidade de repensar a condução do processo educativo nessa realidade, para que o problema da evasão e repetência não seja solucionado com a desistência definitiva do aluno da vida escolar.

Nesse sentido, e em face da abrangência, natureza e complexidade das metas educativas a educação escolar não pode ser mais concebida como mera sucessão de ensinamentos pré-determinados. Seja no plano teórico, seja na dimensão prática a educação do presente e do futuro clama pela aproximação, e pelo rompimento dos muros que separam a escola do mundo.

Considerando a amplitude do tema pesquisado, mesmo que esta investigação tenha sido realizada em um contexto específico, nada impede que futuros trabalhos de pesquisas identifiquem outras causas e conseqüências da evasão e repetência na E.M.E.F. Filomeno de Souza Reis, ou até mesmo confirme ou refutem as identificadas nesta pesquisa, tendo em vista a constante dinâmica das relações sociais.

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